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Hanseníase: a mancha que não sente

Como testar sensibilidade térmica, dolorosa e tátil em um minuto, onde palpar os troncos nervosos, por que a classificação operacional decide o esquema, quantas cápsulas e comprimidos por faixa de peso e idade na PQT-U, por que a reação hansênica é urgência mesmo depois da alta — e por que examinar os contatos é ato de quem diagnosticou.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 152 p. ISBN 978-65-5993-397-6.

Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Portaria SCTIE/MS nº 67, de 7 de julho de 2022 — torna pública a decisão de aprovar, no âmbito do Sistema Único de Saúde, o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase.

Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Boletim Epidemiológico de Hanseníase — Número Especial. Brasília: Ministério da Saúde, 28 de janeiro de 2026. ISSN 2358-9450.

Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Coordenação-Geral de Vigilância da Hanseníase e Doenças em Eliminação. Nota Técnica nº 28/2024-CGHDE/DEDT/SVSA/MS: orientações para a assistência referentes à implementação do teste de detecção molecular qualitativa do Mycobacterium leprae por qPCR para investigação de contatos de casos de hanseníase na Atenção Especializada à Saúde.

Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, Conitec. Exclusão da rifampicina para quimioprofilaxia de contatos de pacientes com hanseníase. Relatório de recomendação nº 525. Brasília: Ministério da Saúde, junho de 2020.

01

Responda antes de ler

Costureira de 38 anos, natural do Mato Grosso e moradora de São Paulo há 14 anos, chega à unidade básica com uma mancha clara no antebraço direito há três anos, já tratada duas vezes como micose. Há um ano e meio tem formigamento nas mãos, rotulado como lesão por esforço repetitivo; há oito meses queimou o antebraço na alça de uma frigideira e só percebeu pelo cheiro; há três meses vem derrubando objetos com a mão direita, e uma ressonância de coluna mostrou abaulamento discal em C5-C6. Hoje apareceu uma segunda mancha no dorso do pé esquerdo. Você é o interno que a recebe. Qual é a conduta na consulta de hoje?

02

O paciente que você vai ver

A mancha no antebraço direito de Elizete tem três anos e quatro diagnósticos. O primeiro foi dela mesma: pano branco, dessas coisas de pele que aparecem e somem. O segundo veio da farmácia, um creme de cetoconazol que ela passou por dois meses. O terceiro foi de um médico que a viu por seis minutos numa unidade lotada, olhou o braço à distância de um metro e escreveu micose; receitou fluconazol. O quarto foi a explicação que ela passou a dar em casa quando alguém reparava: é alergia do tecido, coisa da costura.

Elizete tem 38 anos, é costureira, trabalha em casa com uma máquina reta e uma overloque. Nasceu e foi criada em Rondonópolis; veio para a periferia de São Paulo aos 24, com o marido. Mora com ele, dois filhos de 12 e 7 anos e a mãe, de 66. Ninguém, em três anos, perguntou de onde ela veio.

Há um ano e meio a mancha ganhou companhia. Elizete começou a sentir formigamento nas mãos, principalmente à noite, principalmente no dedo mínimo e no anelar. Achou que era da máquina. Procurou o serviço, foi encaminhada ao ortopedista, e o ortopedista fez exatamente o que a história sugeria: costureira, movimento repetitivo, dor e formigamento nas mãos. Lesão por esforço repetitivo. Anti-inflamatório, órtese noturna, fisioterapia, afastamento de quinze dias. Ela melhorou um pouco, ou achou que melhorou.

Há oito meses queimou o antebraço direito na alça da frigideira. Percebeu pelo cheiro. A bolha se formou depois, no lugar exato da mancha, e ela contou isso ao posto como se fosse desatenção — estava distraída, estava com pressa. Ninguém perguntou por que ela não tinha sentido.

Há três meses a mão direita começou a deixar cair as coisas. A tesoura, o carretel, a xícara. Voltou ao ortopedista, que pediu ressonância de coluna cervical e encontrou o que se encontra em qualquer pessoa de 38 anos que trabalha curvada: abaulamento discal em C5-C6. Diagnóstico número cinco: problema de coluna. Encaminhamento para neurologia, fila de sete meses.

Hoje ela está na sua frente porque a mancha aumentou e apareceu outra, no dorso do pé esquerdo, e porque a mãe insistiu. Você é o interno da unidade básica. A queixa registrada na triagem é "mancha na pele".

O que os cinco atendimentos anteriores têm em comum não é ignorância sobre hanseníase. É que ninguém encostou nela. Ninguém pediu para tirar a blusa e olhar as costas. Ninguém passou um chumaço de algodão na mancha e na pele ao lado para comparar. Ninguém tocou com um tubo de água morna e um de água fria. Ninguém correu o dedo pelo cotovelo dela procurando um nervo espessado. Tudo isso é de graça, não precisa de pedido, não precisa de fila, e leva um minuto.

Você faz. Pede que ela tire a blusa e olhe para a pele inteira sob a luz da janela, e não só onde ela apontou: são quatro manchas, não duas — há uma no dorso e uma na coxa que ela nunca viu. Fecha os olhos dela e passa o algodão: no braço são de mim, aqui não senti; na pele vizinha, senti. Água morna e água fria: na mancha, não distingue. Ponta romba: não sente. Palpa o cotovelo direito e encontra um cordão grosso e sensível no sulco atrás do epicôndilo medial, e ela retira o braço. Pede que ela abra os dedos contra a sua resistência e a mão direita cede.

Em um minuto e meio, sem exame nenhum, o diagnóstico está fechado — porque ele é clínico, e porque dois dos três sinais que o definem acabaram de ser encontrados com a mão. O que não se fecha em um minuto é o tempo perdido: três anos de mancha, um ano e meio de nervo doente, uma queimadura que não doeu e uma mão que já perde força. Essa mão vai melhorar em parte, e a parte que não voltar é o preço do atraso.

Este capítulo acompanha Elizete da mancha até a alta por cura, atravessa a reação hansênica que vai aparecer no terceiro mês de tratamento e quase custar o nervo, e acompanha junto a mãe dela, de 66 anos, que é contato domiciliar, que vai ser examinada por você na mesma semana e que tem, no ombro, uma mancha que ainda não fez nada — e que é, provavelmente, o único caso deste capítulo que sairá sem sequela nenhuma.

03

Quem adoece disso

Em 2024 o Brasil registrou 22.129 casos novos de hanseníase, com taxa de detecção de 10,41 por 100 mil habitantes — parâmetro classificado como alto pelo próprio Ministério da Saúde. São cerca de sessenta diagnósticos novos por dia. O país é o segundo do mundo em número de casos e o único das Américas com carga relevante. A consequência prática é a que abre o capítulo: numa unidade básica brasileira, hanseníase não é doença de livro nem de prova. É diagnóstico que passa pela sua porta, e passa mais de uma vez por ano.

A série da última década tem um degrau que precisa ser lido com cuidado. A detecção caiu de 13,23 por 100 mil em 2019 para 8,49 em 2020, e subiu de novo até 10,41 em 2024. Essa queda não foi redução de doença: foi redução de diagnóstico durante a pandemia, e o país nunca voltou ao patamar anterior. Quem adoeceu e não foi diagnosticado naqueles anos continua transmitindo em casa e chegando agora, mais tarde e com mais sequela — o que aparece nos números seguintes.

O indicador que mais importa para o interno não é quantos casos existem, e sim em que estado eles chegam. Em 2024, 36,5% dos casos novos já tinham grau 1 de incapacidade física no momento do diagnóstico e 11,5% já tinham grau 2 — deformidade visível ou cegueira. Comparado a 2015, os diagnósticos sem incapacidade nenhuma caíram 23,1%, enquanto o grau 1 subiu 46,6% e o grau 2 subiu 53,3%. Metade dos brasileiros diagnosticados com hanseníase hoje já perdeu função nervosa antes de alguém olhar. Grau 2 no diagnóstico é, por definição do próprio sistema de indicadores, medida de detecção tardia: quando ele sobe, não é a doença que piorou, é o serviço que demorou.

A classificação dos casos conta a mesma história por outro caminho. A proporção de casos novos multibacilares subiu 19,3% em dez anos, de 68,9% em 2015 para 82,2% em 2024, chegando a 97,5% no Mato Grosso. A forma dimorfa, que é a mais instável e a mais incapacitante, cresceu 25,8% no período e responde por 54,1% dos casos novos, enquanto a forma tuberculoide caiu 41,9% e a indeterminada caiu 26,0%. Um país que diagnostica cedo encontra mancha única e forma indeterminada; um país que diagnostica tarde encontra doença disseminada. O Brasil está encontrando doença disseminada.

A distribuição geográfica muda a probabilidade pré-teste de quem está à sua frente, e muda muito. Centro-Oeste e Norte lideram a série inteira. Em 2024, o Mato Grosso registrou 121,83 casos por 100 mil habitantes e o Tocantins, 57,76 — contra 10,41 da média nacional. Mas a leitura que interessa ao interno de uma unidade em São Paulo ou em Porto Alegre é outra: a hanseníase tem período de incubação longo, de anos, e o paciente que se infectou em Rondonópolis pode adoecer em Guarulhos duas décadas depois. Por isso a anamnese tem uma pergunta que quase ninguém faz e que custa cinco segundos: onde o senhor nasceu, onde morou, com quem conviveu.

O perfil de quem adoece mudou de forma que importa clinicamente. Em 2024, 53,8% dos casos novos foram em homens, 53,8% na faixa de 30 a 59 anos — e 29,7% em pessoas com 60 anos ou mais, faixa que cresceu 29,7% em relação a 2015. Ao mesmo tempo, os casos em menores de 15 anos caíram 56,4% em dez anos, de 2.113 para 921. A leitura é dupla: a transmissão recente está caindo, o que é bom, mas o diagnóstico está migrando para o idoso, em quem a mancha é atribuída à idade, o formigamento à circulação e a fraqueza da mão à artrose. Idoso com mancha hipocrômica que não coça merece o mesmo teste de sensibilidade que qualquer outro paciente.

A hanseníase é doença socialmente determinada, e os números brasileiros não deixam dúvida: 71,8% dos casos novos de 2024 ocorreram em pessoas autodeclaradas pretas ou pardas, e a proporção de pessoas analfabetas entre os casos, embora tenha caído 31,6% desde 2015, continua muito acima da população geral. Isso tem consequência de conduta, não só de política pública: o paciente que chega tem, em média, menos escolaridade, menos tempo de consulta acumulado ao longo da vida e mais experiência de ser mal atendido. A explicação sobre seis ou doze meses de tratamento precisa ser dada nesse contexto, e não no registro do folheto.

O calcanhar operacional do país é o desfecho. A cura entre os casos novos das coortes caiu de 83,5% em 2015 para 78,0% em 2024, e o abandono subiu de 4,6% para 7,3% no mesmo período — em Santa Catarina, Amazonas, Mato Grosso e Pernambuco passou de 10%. A proporção de recidivas subiu de 4,6% para 5,6%, a maior da década. Um em cada quatro brasileiros que começa o tratamento não chega ao fim registrado como curado, e um tratamento interrompido é um paciente que volta com mais nervo perdido — e, em alguma fração dos casos, com bacilo resistente.

E o indicador que é diretamente ato do interno: a proporção de contatos examinados. Ela ficou em 80,0% em 2024, parâmetro regular, com o Nordeste em 79,1% e o Sul em 87,4%. Quer dizer que um em cada cinco contatos domiciliares de um caso confirmado de hanseníase no Brasil nunca é olhado por ninguém. Do outro lado da mesma conta está a melhor notícia do boletim: 13,3% dos casos novos de 2024 foram detectados justamente por exame de contatos, o maior percentual da década, contra 7,3% em 2015. Quase três mil pessoas foram diagnosticadas em 2024 porque alguém examinou a família de outro paciente. Nenhuma delas teria chegado por demanda espontânea, porque mancha que não dói e não coça não faz ninguém procurar médico.

04

Por que acontece o que acontece

Quase tudo o que o interno faz na hanseníase — onde procura mancha, qual sensibilidade testa primeiro, onde põe o dedo para palpar nervo, por que trata seis ou doze meses, por que a reação recebe corticoide e não antibiótico, e por que o paciente que já teve alta volta com urgência — sai de meia dúzia de fatos sobre um bacilo que gosta de frio, mora dentro da célula de Schwann e continua irritando o sistema imune depois de morto.

O Mycobacterium leprae é um bacilo álcool-ácido resistente, de multiplicação lenta e que não cresce em meio de cultura — não existe cultura de M. leprae, e essa ausência não é falha do laboratório brasileiro, é biologia. Daí decorre a primeira consequência prática do capítulo: não há exame que confirme por crescimento, não há antibiograma de rotina, e o diagnóstico é clínico por necessidade, não por economia. A segunda decorre da lentidão: o tempo entre a infecção e a doença se conta em anos, com estimativas que vão de dois a sete e casos que aparecem décadas depois. É por isso que a definição de contato do protocolo brasileiro olha cinco anos para trás, e por isso a pergunta sobre onde a pessoa morou vale tanto quanto a pergunta sobre com quem ela mora.

O bacilo prefere temperaturas abaixo da temperatura central do corpo, e isso, que parece curiosidade, é o mapa de onde procurar. Ele se instala na pele das áreas mais frias e nos trechos de nervo que correm superficiais e perto de osso — o ulnar no sulco atrás do epicôndilo medial, o fibular comum contornando o colo da fíbula, o tibial posterior atrás do maléolo medial, o radial cutâneo no punho, o auricular magno no pescoço. Poupa relativamente as áreas quentes: axila, região inguinal, períneo, couro cabeludo e a linha média do dorso. Duas condutas nascem disso. A primeira: examine a pele inteira, com o paciente despido e sob boa luz, e não apenas a mancha que ele apontou — porque as lesões que ele não vê ficam justamente nas costas e nas nádegas. A segunda: os pontos de palpação de nervo não são aleatórios nem exaustivos; são cinco trajetos que cabem em um minuto porque é ali que o bacilo está.

O alvo é a célula de Schwann. O bacilo chega ao nervo pelos vasos do epineuro, liga-se à célula de Schwann e se multiplica dentro dela, onde encontra abrigo do sistema imune. Isso torna o nervo periférico o órgão-alvo da doença, e explica a ordem em que as funções se perdem. As fibras finas, amielínicas e pouco mielinizadas, que conduzem temperatura e dor, são atingidas antes das fibras grossas, que conduzem tato e propriocepção. Por isso a sensibilidade térmica é a primeira a sumir, a dolorosa vem depois e a tátil é a última — e por isso o teste térmico é o mais sensível dos três e o que se faz primeiro. Uma mancha que ainda sente o algodão pode já não distinguir quente de frio, e quem testa só o toque perde o diagnóstico precoce.

A mesma lesão nervosa alcança as fibras autonômicas, e é isso que dá à mancha da hanseníase três características que se veem sem tocar: ela não sua, tem menos pelo e às vezes fica seca e áspera no centro. Anidrose e rarefação de pelos em uma mancha hipocrômica são achados de valor, e são gratuitos. Do outro lado, no polo de alta carga bacilar, a disfunção autonômica difusa aparece como mãos e pés frios, cianóticos e ressecados, com sudorese compensatória em áreas poupadas.

A doença que o paciente terá não é decidida pelo bacilo, e sim pela resposta imune celular dele — e o espectro que sai daí organiza tudo o que vem depois. Quem monta uma resposta celular forte contém a multiplicação: poucas lesões, bem delimitadas, baciloscopia negativa, e uma inflamação granulomatosa tão intensa dentro dos filetes nervosos da lesão que a anestesia é acentuada e fácil de demonstrar — é o polo tuberculoide. Quem não monta essa resposta deixa o bacilo se multiplicar livremente: infiltração difusa da pele e dos nervos, baciloscopia francamente positiva, nervos espessados de forma simétrica — é o polo virchowiano. E aqui está a armadilha que mais atrasa diagnóstico depois da micose: no polo virchowiano as lesões de pele podem ter sensibilidade normal, porque a destruição dos filetes nervosos cutâneos depende da inflamação, e a inflamação é justamente o que falta. Testar sensibilidade e achar normal não afasta hanseníase; afasta apenas o primeiro dos três sinais cardinais.

Entre os dois polos fica a forma dimorfa, que é a mais comum no Brasil de hoje e a mais perigosa. Ela é instável por definição: a resposta imune oscila, e cada oscilação é um episódio inflamatório agudo dentro de nervos já habitados por bacilos. É por isso que a forma dimorfa concentra as reações, as neurites e as incapacidades, e é por isso que o crescimento de 25,8% da forma dimorfa nos casos novos brasileiros é uma má notícia clínica, e não apenas estatística.

O mecanismo do dano agudo é mecânico antes de ser imunológico, e vale entender porque decide urgência. O nervo periférico corre dentro do perineuro, que é uma bainha inextensível, e atravessa túneis anatômicos estreitos — o sulco do ulnar no cotovelo, o colo da fíbula, o túnel do tarso. Quando a inflamação instala edema dentro dessa bainha, a pressão sobe num compartimento que não se expande, a perfusão do funículo cai e o axônio isquemia. Não é uma metáfora de síndrome compartimental: é uma síndrome compartimental. Daí a consequência que o capítulo inteiro persegue: na reação, a função neural pode ser perdida em dias, a perda começa reversível e termina definitiva, e o que decide de que lado ela para é a rapidez com que o anti-inflamatório entra. Corticoide na reação hansênica tem a mesma lógica temporal que a reperfusão no infarto.

As reações são fenômenos imunológicos dirigidos a antígenos do bacilo — e o ponto que muda a conversa com o paciente é que esses antígenos permanecem no organismo por muito tempo depois que o bacilo morreu. A reação tipo 1, ou reversa, é hipersensibilidade celular: as lesões antigas ficam vermelhas, edemaciadas e dolorosas, aparecem lesões onde a infecção era invisível, e os nervos inflamam. A reação tipo 2, ou eritema nodoso hansênico, é doença de imunocomplexos e acontece só em multibacilares: nódulos subcutâneos dolorosos em qualquer lugar da pele, sem relação com as lesões prévias, e um quadro sistêmico com febre, artralgia, mialgia, dor óssea, e inflamação de olho, testículo e rim. Como o gatilho é antígeno e não bacilo vivo, as duas podem ocorrer antes do tratamento, durante o tratamento e depois da alta por cura — e nenhuma delas significa que o tratamento falhou, que a doença voltou ou que é preciso reiniciar a poliquimioterapia.

Por que três antibióticos, e por que não se muda a duração à vontade. A história da dapsona isolada, usada por décadas como monoterapia, é a história do aparecimento da resistência: numa população bacilar grande, mutantes resistentes a um fármaco surgem espontaneamente, e tratar com um remédio só é selecioná-los. A associação de rifampicina, dapsona e clofazimina torna essa seleção improvável e cura em até 98% dos casos, com recidiva em torno de 1% em cinco a dez anos. A rifampicina é a única bactericida potente do esquema, e é ela que interrompe a transmissão depressa: quatro dias depois de uma única dose de 600 mg, os bacilos de um paciente multibacilar não tratado se tornam inviáveis. É esse fato, e não o calendário, que sustenta a frase que se diz ao paciente na primeira consulta — depois das primeiras doses ele não transmite mais. A diferença entre seis e doze doses não é diferença de droga: é diferença de carga bacilar a eliminar, e é por isso que a classificação operacional, que parece burocrática, é o que define o esquema.

Por fim, o mecanismo da sequela, que é o que transforma uma doença curável em deficiência permanente. A perda de sensibilidade protetora não dói — e é exatamente por não doer que ela destrói. O pé anestesiado pisa a mesma pedra todos os dias sem avisar, e a úlcera plantar aparece sem trauma que o paciente saiba nomear; a mão anestesiada segura a panela quente, como aconteceu com Elizete. A perda motora fecha a mão em garra, derruba o pé e, quando atinge o ramo zigomático do facial, impede o fechamento da pálpebra; somada à anestesia de córnea pelo ramo oftálmico do trigêmeo, produz úlcera de córnea numa pessoa que não sente a úlcera. Nenhuma dessas coisas é causada pelo bacilo diretamente: todas são causadas por nervo perdido. E nervo perdido é função de tempo — tempo até o diagnóstico e tempo até o corticoide na reação.

Faixa horizontal em gradiente com cinco silhuetas humanas acima, mostrando número crescente de manchas na pele da esquerda para a direita, e cinco círculos abaixo com quantidade crescente de bacilos. Duas curvas finas atravessam a faixa em sentidos opostos e se cruzam no meio.
O espectro da hanseníase é uma escala contínua governada pela imunidade celular do paciente, não pelo bacilo. À esquerda, resposta celular forte: poucas lesões, baciloscopia negativa, inflamação intensa dentro dos filetes nervosos e anestesia acentuada e fácil de demonstrar na mancha. À direita, resposta celular ausente: lesões numerosas, carga bacilar alta, dano nervoso difuso e silencioso — e lesões de pele que podem ter sensibilidade normal. As duas curvas que se cruzam são a imunidade celular, que cai da esquerda para a direita, e a carga bacilar, que sobe. O meio instável do espectro é a forma dimorfa, onde moram as reações e as incapacidades.
05

Como se apresenta de verdade

Objetivos práticos no internato. Demonstrar alteração de sensibilidade, examinar nervos, classificar operacionalmente e tratar infecção e reação como problemas relacionados, mas distintos. O interno colhe e apresenta os dados, propõe o plano e executa atividades sob supervisão; prescrições, procedimentos e documentos são validados pelo profissional responsável. Estude o caso acompanhando o que cada achado muda na decisão, não apenas decorando critérios.

A hanseníase quase nunca chega com o nome na testa. Ela chega como mancha que não coça, como formigamento nas mãos de quem trabalha com as mãos, como queimadura que não doeu, como dor no cotovelo, como fraqueza que o paciente chama de canseira, como nódulo no braço, como ferida no pé que não fecha, como olho seco. Nenhuma dessas queixas leva ninguém a pensar em hanseníase — e é exatamente por isso que o diagnóstico depende de uma rotina de exame, e não de um lampejo de suspeita.

A suspeição, segundo a régua nacional, se abre diante de qualquer um destes achados: mancha hipocrômica ou avermelhada na pele, perda ou diminuição de sensibilidade em mancha da pele, dormência ou formigamento de mãos e pés, dor ou hipersensibilidade em nervos, edema ou nódulos na face ou nos lóbulos das orelhas, e ferimentos ou queimaduras indolores nas mãos ou nos pés. Reparem no que essa lista tem de estranho: metade dela é neurológica. Quem só pensa em hanseníase diante de mancha vai perder metade dos pacientes.

1. Os três sinais cardinais, que são a definição de caso

O Ministério da Saúde define caso de hanseníase pela presença de pelo menos um dos três sinais cardinais. Primeiro: lesão ou área da pele com alteração de sensibilidade térmica e/ou dolorosa e/ou tátil. Segundo: espessamento de nervo periférico associado a alterações sensitivas e/ou motoras e/ou autonômicas. Terceiro: presença do bacilo confirmada na baciloscopia de esfregaço intradérmico ou na biópsia de pele.

Três coisas se seguem disso, e todas mudam conduta. A primeira: um sinal basta. Não é preciso somar mancha com nervo, nem esperar exame. A segunda: os dois primeiros sinais são achados de exame físico feitos com as mãos e com material que cabe no bolso. O terceiro é o único que depende de laboratório, e é o menos sensível dos três. A terceira, que é a mais desconfortável: se você não testa sensibilidade e não palpa nervo, você não tem como fechar o diagnóstico — porque os dois sinais que fecham a maioria dos casos só existem se alguém os procurar.

Vale dizer com todas as letras o que o segundo sinal exige. Nervo espessado sozinho não fecha caso: é preciso espessamento associado a alteração sensitiva, motora ou autonômica no território daquele nervo. Um cordão palpável sem déficit é achado que pede investigação, não diagnóstico pronto.

2. Testar sensibilidade: o exame que leva um minuto e ninguém faz

O teste de sensibilidade se faz na lesão e, no mesmo movimento, na pele sadia vizinha — porque o achado não é "não sente", é "sente menos aqui do que ali". O paciente fica de olhos fechados, e a comparação é sempre par a par. A ordem é térmica, dolorosa, tátil, porque é essa a ordem em que as fibras se perdem: começar pelo tato é começar pelo teste menos sensível.

A sensibilidade térmica se testa com dois tubos de ensaio, um com água morna, em torno de 45 graus, e outro com água fria, tocados alternadamente e sem sequência previsível; alternativamente, com um chumaço de algodão embebido em éter, cuja evaporação produz frio. A sensibilidade dolorosa se testa com a ponta e o cabo de uma agulha descartável ou com um palito de ponta romba, alternando ponta e lado rombo e perguntando qual é qual — não é para machucar, é para discriminar. A sensibilidade tátil se testa com um fiapo de algodão puxado do chumaço, tocado de leve, sem arrastar. Onde houver estesiômetro, o conjunto de monofilamentos padroniza e registra a medida, e é ele que permite comparar duas avaliações no tempo — mas a ausência do estesiômetro não é desculpa: algodão, agulha e dois tubos de água existem em qualquer sala.

Duas armadilhas de execução derrubam o teste. A primeira é o paciente que responde ao som e ao movimento em vez de responder ao estímulo; por isso os olhos fechados e por isso a alternância imprevisível. A segunda é testar apenas o centro da mancha: em muitas lesões a alteração é mais evidente na área central, mas em lesões foveolares da forma dimorfa o centro parece poupado e a borda é onde está a doença — teste os dois.

E o achado que se vê sem tocar, mas que só aparece quando se olha de perto e com luz: a mancha da hanseníase costuma ser seca porque não sua, e ter menos pelo que a pele vizinha. Passar o dorso da mão sobre a lesão e sentir que ali a pele é mais áspera e mais seca é um dado autonômico, e vale como parte do exame.

Três linhas com instrumentos térmicos, ponta e extremidade romba para estímulo doloroso, e algodão; em cada linha as setas comparam uma mancha clara à pele sadia adjacente. Símbolo de olhos fechados.
O teste é sempre comparativo e sempre de olhos fechados: cada estímulo toca a lesão e a pele sadia vizinha, em ordem imprevisível. A sequência é térmica, dolorosa e tátil, nessa ordem, porque é essa a ordem em que as fibras se perdem — a mancha que ainda sente o algodão já pode não distinguir o tubo morno do frio. Material: dois tubos com água morna e fria, uma agulha descartável usada pela ponta e pelo cabo, e um fiapo de algodão.

3. Palpar os troncos nervosos: cinco trajetos, um minuto

A palpação de nervos procura três coisas ao mesmo tempo: espessamento, dor à palpação e assimetria em relação ao lado oposto. Palpa-se sempre comparando direito e esquerdo, com a polpa dos dedos indicador e médio, deslizando transversalmente ao trajeto do nervo, sem comprimir com força. O reflexo de retirada do membro quando você toca o nervo é achado clínico, não falta de colaboração — é sinal de neurite.

Os nervos da avaliação padronizada são cinco. O ulnar, no sulco atrás do epicôndilo medial do cotovelo, com o cotovelo semifletido — é o mais frequentemente acometido, e é o que Elizete tinha. O mediano, na face anterior do punho, entre os tendões. O radial, na face lateral do braço e o seu ramo cutâneo no dorso do punho. O fibular comum, contornando o colo da fíbula, logo abaixo e atrás da cabeça da fíbula, com o joelho fletido. O tibial posterior, atrás e abaixo do maléolo medial. A esses somam-se dois de rendimento alto e custo zero, que se palpam de passagem: o auricular magno, que cruza obliquamente o esternocleidomastóideo quando o paciente vira a cabeça para o lado oposto, e os filetes cutâneos espessados na pele adjacente às placas.

A palpação vem acompanhada de duas provas motoras rápidas, porque força é o que o paciente perde por último e o que ele mais sente falta. Nas mãos: abduzir os dedos contra resistência e segurar uma folha de papel entre o polegar e o indicador enquanto você puxa, que testa o território ulnar; opor o polegar ao mínimo contra resistência, que testa o mediano; estender o punho contra resistência, que testa o radial. Nos pés: dorsiflexão do pé e do hálux contra resistência, que testa o fibular. Nos olhos: pedir que feche os olhos com força e tentar abrir a pálpebra — o fechamento incompleto é lagoftalmo, e é urgência oftalmológica funcional, porque a córnea anestesiada exposta ulcera.

Esse conjunto — anamnese dirigida às queixas de nariz, olhos, mãos e pés, inspeção, palpação dos cinco nervos, testes de sensibilidade e de força e acuidade visual — tem nome e é obrigatório: Avaliação Neurológica Simplificada. Ela é feita no momento do diagnóstico, a cada três meses durante o tratamento, na última dose supervisionada, e sempre que o paciente trouxer queixa nova, durante ou depois do tratamento. Não é exame de especialista: é exame de quem atende.

4. As formas clínicas, e por que o Brasil usa Madri

A forma indeterminada é o início. Manchas hipocrômicas em pequeno número, sem alteração de relevo nem de textura, com comprometimento sensitivo discreto — em geral só a térmica, mais raramente a dolorosa, com o tato preservado. Pode haver hipoidrose e rarefação de pelos. Não há comprometimento de tronco nervoso e, portanto, não há repercussão em mãos, pés e olhos; a baciloscopia é negativa. É a forma que o exame de contatos encontra e a que quase nunca chega por demanda espontânea, porque não incomoda. É também a única em que ainda existe possibilidade de cura sem sequela nenhuma.

A forma tuberculoide ocorre em quem tem resposta celular forte. Placas com bordas nítidas e elevadas, eritematosas, em geral únicas ou em pequeno número, com centro por vezes hipocrômico e atrófico, e com anestesia acentuada e fácil de demonstrar. Há hipo ou anidrose e rarefação de pelos na lesão, e pode haver espessamento dos filetes nervosos da pele adjacente à placa, o que se chama sinal da raquete. Os troncos nervosos são poupados ou acometidos de forma localizada e assimétrica — mas quando são, o déficit no território daquele nervo pode ser intenso.

A forma virchowiana é o polo oposto e é a que mais transmite. A infiltração é difusa e progressiva: acentuação dos sulcos da face, perda dos pelos dos cílios e supercílios, congestão nasal, aumento dos pavilhões auriculares, dedos com aspecto salsichoide, e, na doença não tratada, pápulas e nódulos firmes e assintomáticos, os hansenomas. Os nervos ficam espessados difusa e simetricamente, com hipoestesia ou anestesia de mãos e pés e disfunção autonômica. E aqui está a armadilha: as lesões de pele podem ter sensibilidade normal. O diagnóstico se faz pelo segundo sinal cardinal, pelo quadro cutâneo exuberante e pela baciloscopia, que costuma vir francamente positiva.

A forma dimorfa fica no meio e é hoje a mais comum entre os casos novos brasileiros, com 54,1% em 2024. Lesões em número variável, com grande variabilidade clínica, predomínio do aspecto infiltrativo, e as lesões foveolares típicas — bordos internos bem definidos delimitando um centro aparentemente poupado, com bordos externos espraiados e imprecisos. O comprometimento nervoso é múltiplo e assimétrico, com espessamento, dor e choque à palpação, perda de força e hipoestesia no território correspondente. É a forma clínica mais incapacitante da hanseníase, e é nela que as reações se concentram.

Existe ainda a forma neural pura, sem lesão cutânea nenhuma e com baciloscopia negativa, estimada em cerca de 10% dos casos e provavelmente subestimada. O diagnóstico depende do segundo sinal cardinal e, portanto, de alguém que saiba palpar nervo. É a forma que chega ao ortopedista, ao reumatologista e ao neurologista, e a que passa anos rotulada como compressão, neuropatia ou lesão por esforço.

Uma nota sobre nomenclatura, porque ela confunde na enfermaria. O Brasil adota oficialmente a Classificação de Madri, que descreve indeterminada, tuberculoide, dimorfa e virchowiana. A classificação internacional de Ridley e Jopling, que aparece nos textos estrangeiros e nos laudos de patologia, subdivide a forma dimorfa em três subtipos conforme a proximidade de cada polo — borderline tuberculoide, borderline-borderline e borderline lepromatosa, traduzidos no país como dimorfa-tuberculoide, dimorfa-dimorfa e dimorfa-virchowiana — e se apoia sobretudo na histopatologia. As duas convivem e não são contraditórias; para o interno, a que governa o registro e a conversa clínica no Brasil é Madri, e a de Ridley-Jopling aparece principalmente no laudo do patologista.

5. Quando a mancha engana: o diferencial que atrasa o diagnóstico

O diferencial que mais custa tempo na hanseníase é a micose superficial, e a régua que separa os dois é curta e cabe na consulta. A pitiríase versicolor e a dermatofitose dão manchas hipocrômicas ou descamativas que preservam integralmente a sensibilidade; a lesão da hanseníase perde sensibilidade, começando pela térmica. A micose costuma coçar; a mancha da hanseníase não coça. A micose descama com raspagem e tem borda ativa descamativa; a lesão hansênica é seca por anidrose, não por descamação, e a borda, quando elevada, é infiltrada, não descamativa. E a micose responde ao antifúngico em semanas — mancha que recebeu antifúngico correto e continua ali é motivo para testar sensibilidade, não para trocar o antifúngico. O quadro completo das micoses superficiais, com os diagnósticos micológicos e os esquemas, é assunto do capítulo próprio desta apostila.

Os outros diferenciais dermatológicos se afastam pelo mesmo teste. Pitiríase alba, vitiligo, hipocromia residual pós-inflamatória, nevo acrômico e eczemátide mantêm a sensibilidade preservada. Lesões elevadas e infiltradas pedem outra régua: placa infiltrada única, de crescimento lento, em área fotoexposta, com brilho perláceo ou ulceração central, exige pensar em tumor de pele — e lesão pigmentada assimétrica com borda irregular e cor heterogênea exige pensar em melanoma. O carcinoma basocelular, o espinocelular e o melanoma têm capítulos próprios nesta apostila, e é para lá que vai a lesão que não perde sensibilidade e não segue trajeto de nervo.

O engano na direção oposta também existe, e é mais grave do que parece. A hanseníase com reação tipo 2 pode simular artrite reumatoide, lúpus, espondiloartropatia, uveíte, nefrite, hepatite e vasculite — e há casos descritos de pessoas que receberam imunobiológico anti-TNF alfa para uma artrite que era hanseníase. Em país endêmico, manter suspeição de hanseníase em ambulatório de reumatologia não é excesso de zelo: é o que evita imunossuprimir um paciente com doença granulomatosa ativa.

6. Quando não há mancha: o paciente que chega pelo nervo

Elizete passou um ano e meio como lesão por esforço repetitivo e três meses como problema de coluna, e nenhum dos dois diagnósticos era absurdo diante dos dados que estavam na mesa. O que faltou foi um passo: diante de qualquer neuropatia periférica, perguntar se ela é assimétrica e se há espessamento de nervo — e olhar a pele.

Três características empurram uma neuropatia para a hipótese de hanseníase. Ela é assimétrica e por território de nervo, e não em bota e luva. Ela vem com nervo palpavelmente espessado e frequentemente doloroso. E ela perde sensibilidade térmica e dolorosa antes de perder tato e propriocepção, ao contrário do que acontece nas neuropatias de fibra grossa. Some-se procedência de área endêmica ou convívio pregresso com caso de hanseníase, e a probabilidade sobe o suficiente para justificar exame de pele inteira e teste de sensibilidade em qualquer área que o paciente refira alterada, ainda que não haja lesão visível.

O diferencial com as demais neuropatias periféricas — diabética, alcoólica, nutricional, autoimune, paraneoplásica, e as polirradiculoneuropatias agudas — é assunto do capítulo de neuropatias e síndrome de Guillain-Barré desta coleção, e é para lá que vai o paciente cuja neuropatia é simétrica, ascendente, de instalação rápida e sem nervo espessado. O que fica aqui é a régua de entrada: neuropatia assimétrica com nervo espessado, em brasileiro, é hanseníase até prova em contrário, e a prova em contrário exige que alguém tenha olhado a pele inteira.

7. A reação hansênica como forma de apresentação

As reações não são complicações tardias apenas: elas podem estar presentes já no momento do diagnóstico, e em parte dos casos são o motivo pelo qual o paciente finalmente procurou o serviço. Atingem um percentual elevado de pacientes, chegando a metade em alguns estudos.

A reação tipo 1 se apresenta como piora abrupta de lesões antigas, que ficam eritemato-vinhosas, edemaciadas e às vezes dolorosas, e como aparecimento de lesões novas em áreas onde a infecção era imperceptível. Junto vem a queixa neural: dor no cotovelo ou na perna, aumento da dormência, e a frase que o interno precisa aprender a ouvir como bandeira vermelha — "estou deixando cair as coisas". Pode acometer paciente paucibacilar ou multibacilar, e é a reação típica da forma dimorfa.

A reação tipo 2, o eritema nodoso hansênico, ocorre exclusivamente em multibacilares e se apresenta como nódulos subcutâneos dolorosos, múltiplos, em qualquer região da pele e sem relação com as lesões prévias, acompanhados de febre, artralgia, mialgia, dor óssea, edema e linfadenomegalia. Pode haver irite, episclerite, orquite e nefrite. Nos casos graves os nódulos necrosam e ulceram. Laboratorialmente há leucocitose com neutrofilia, às vezes desvio à esquerda, plaquetose, elevação de velocidade de hemossedimentação e de proteína C reativa, e pode haver proteinúria e hematúria. Um paciente com febre, nódulos dolorosos e artralgia tem, nesse contexto, um diagnóstico diferencial inteiro de doença sistêmica — e a resposta está na pele que ninguém examinou.

8. Onde a apresentação muda: idoso, gestante, imunossuprimido, criança

No idoso, a hanseníase perde os contornos e ganha peso epidemiológico: 29,7% dos casos novos brasileiros de 2024 ocorreram em pessoas com 60 anos ou mais, e essa proporção cresceu quase 30% em dez anos, provavelmente pela imunossenescência. O problema é que cada achado tem um culpado mais provável naquela idade: a mancha vira mancha senil, o formigamento vira circulação, a fraqueza da mão vira artrose, a queda do pé vira sequela de coluna. Em idoso com mancha hipocrômica, com neuropatia assimétrica ou com ferida que não cicatriza em pé insensível, o teste de sensibilidade e a palpação de nervos entram na primeira consulta.

Na gestante e na puérpera, o que muda não é o diagnóstico, é o risco reacional. As reações tipo 1 aumentam de frequência principalmente nos primeiros meses após o parto, e o eritema nodoso é mais frequente no primeiro e no terceiro trimestres e no puerpério, com maior risco de comprometimento da função neural. Isso significa vigilância neural mais próxima nessa janela, e não adiamento do tratamento — a poliquimioterapia é mantida na gestação.

No imunossuprimido, a hanseníase entra por duas portas. Uma é a doença em si, que deve ser buscada antes de iniciar imunobiológico anti-TNF alfa em área endêmica. A outra é a reação: a retirada do imunossupressor pode desencadear ou piorar o quadro reacional, do mesmo modo que a reconstituição imune. O tratamento da infecção em imunocomprometidos, inclusive por HIV ou transplante, não difere do convencional.

Na criança e no adolescente, a hanseníase tem significado epidemiológico próprio: caso em menor de 15 anos indica transmissão recente e obriga a procurar o caso-fonte entre os contatos. O diagnóstico prefere a avaliação clínica minuciosa e a investigação do vínculo epidemiológico a exames potencialmente traumáticos, como baciloscopia e biópsia, que ficam reservados à dificuldade diagnóstica — e a Avaliação Neurológica Simplificada é igualmente obrigatória. Sempre que possível, o caso pediátrico é examinado por profissional experiente, sem que isso atrase o início do tratamento nos casos típicos.

Por fim, uma apresentação que não é clínica e decide o resto: o paciente que esconde. Elizete cobriu a mancha por três anos com manga comprida e explicou como alergia de tecido. Pacientes deixam de mostrar lesões em áreas que exigem despir-se, deixam de contar que um parente teve a doença, e minimizam a dormência porque dormência não é motivo de consulta. Nada disso se resolve com pergunta melhor: resolve-se com o paciente despido, sob boa luz, e com um profissional que examina a pele inteira sem esperar que ela seja apontada.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da hanseníase tem uma peculiaridade que a separa de quase tudo o que o interno faz: o exame que fecha o diagnóstico é o exame físico, e não existe exame de laboratório que o substitua. Não há cultura do bacilo. A baciloscopia é pouco sensível e vem negativa em toda a metade paucibacilar do espectro. A sorologia não diagnostica. O teste molecular tem uso restrito e não é de primeira linha. O que confirma um caso é o que se acha com as mãos.

Por isso a ordem deste bloco é invertida em relação a qualquer outra doença: começa no exame físico, passa pela decisão que define o esquema, e só então chega aos exames — cada um com uma pergunta específica a responder e um lugar específico no fluxo. E termina no que o interno é obrigado a fazer no mesmo dia: classificar, graduar a incapacidade, notificar e listar os contatos.

1. O primeiro exame é o exame físico — e ele tem roteiro

A avaliação dermatológica tem duas partes obrigatórias, e a primeira é a que mais se pula: inspeção da pele em toda a superfície corporal, com o paciente despido e sob boa iluminação. Não é olhar a mancha que o paciente mostrou. É olhar o dorso, as nádegas, as coxas, a face posterior dos braços, a face e os pavilhões auriculares — as áreas que o paciente não enxerga e as áreas que o bacilo prefere. A segunda parte é o teste de sensibilidade térmica, dolorosa e tátil nas lesões e em qualquer área que o paciente refira como dormente, mesmo sem lesão visível.

A avaliação neurológica tem três partes: palpação dos troncos nervosos, sempre comparando os dois lados e procurando espessamento, dor e assimetria; avaliação da sensibilidade e da força nas mãos, nos pés e nos olhos; e aferição da acuidade visual. Os pontos de palpação estão na figura abaixo.

Esse conjunto é a Avaliação Neurológica Simplificada, e ela é obrigatória. É realizada no diagnóstico, a cada três meses durante a poliquimioterapia, na última dose supervisionada, sempre que o paciente traz queixa nova — durante ou depois do tratamento — e antes e depois de cirurgia de descompressão ou reabilitação. Ela é executada nos três níveis de atenção do SUS por profissional capacitado, e o resultado é registrado em formulário padronizado que vai ao prontuário e alimenta a notificação, além da caderneta de saúde da pessoa acometida.

Um alerta que muda conduta durante o tratamento: o corticoide tem efeito analgésico e pode tirar a dor do nervo sem impedir o dano. Paciente em corticoterapia que parou de doer não é paciente melhorado — é paciente que perdeu o sintoma que servia de alarme. Por isso a Avaliação Neurológica Simplificada tem de ser repetida com mais frequência justamente em quem está usando corticoide sistêmico.

Seis detalhes anatômicos de palpação: ulnar no cotovelo, mediano no punho, radial no braço, fibular comum junto ao colo da fíbula, tibial posterior atrás e abaixo do maléolo medial e auricular magno sobre o esternocleidomastóideo.
Prancha esquemática, da esquerda para a direita e de cima para baixo: ulnar, mediano, radial, fibular comum, tibial posterior e auricular magno. Os pontos de palpação da Avaliação Neurológica Simplificada, sempre comparando os dois lados. Ulnar: sulco atrás do epicôndilo medial, com o cotovelo semifletido — o mais frequentemente acometido. Mediano: face anterior do punho, entre os tendões. Radial: face lateral do braço e ramo cutâneo no dorso do punho. Fibular comum: contornando o colo da fíbula, abaixo e atrás da cabeça, com o joelho fletido. Tibial posterior: atrás e abaixo do maléolo medial. Auricular magno: cruzando o esternocleidomastóideo com a cabeça virada para o lado oposto. Procura-se espessamento, dor à palpação e assimetria; a retirada do membro ao toque é sinal de neurite, não falta de colaboração.

2. A classificação operacional: a decisão que define o esquema

Fechado o caso, a primeira decisão do interno não é qual antibiótico — é paucibacilar ou multibacilar, porque é isso, e só isso, que define seis ou doze doses. A classificação é operacional: existe para escolher tratamento, não para descrever a doença.

É paucibacilar o caso com até cinco lesões cutâneas e baciloscopia obrigatoriamente negativa. É multibacilar o caso com mais de cinco lesões e/ou baciloscopia positiva. Os fluxogramas nacionais acrescentam ao critério multibacilar o comprometimento de dois ou mais nervos periféricos. Sobre o nervo único há uma ressalva explícita: a Organização Mundial da Saúde recomenda classificar como multibacilar, mas a literatura brasileira reconhece classicamente o acometimento isolado de um nervo na forma tuberculoide como paucibacilar — e o protocolo aceita tratar como paucibacilar desde que a avaliação tenha sido feita em serviço com profissional experiente em hanseníase.

E existe uma regra de desempate que resolve toda a angústia do interno diante de um caso limítrofe: todo caso que suscite dúvida sobre a classificação operacional deve ser tratado como multibacilar. Ou seja, a dúvida empurra para doze doses, nunca para seis. Isso é decisão de segurança — tratar a menos um multibacilar deixa doença ativa e alimenta resistência, e tratar a mais um paucibacilar acrescenta seis meses de um esquema cuja toxicidade é baixa.

Elizete tinha quatro manchas quando entrou e a quinta apareceu no exame, mais o ulnar direito e o fibular esquerdo alterados. Dois nervos comprometidos: multibacilar, doze doses, sem discussão — e a contagem de lesões, que parecia empatar em cinco, deixou de ser o dado decisivo.

Contar lesões parece trivial e não é. Conta-se lesão, não área anatômica: uma placa grande é uma lesão; três máculas próximas são três. Lesões que só aparecem quando o paciente é examinado inteiro entram na conta — e é por isso que a inspeção completa não é preciosismo, é o que muda seis meses em doze.

3. A baciloscopia: o que ela responde e o que ela não responde

A baciloscopia direta de esfregaço de raspado intradérmico é exame complementar, não exame de rastreio. Está indicada em quatro situações: dúvida no diagnóstico, diagnóstico diferencial com outras doenças dermatológicas ou neurológicas, dúvida na classificação operacional que defina o esquema, e suspeita de recidiva.

O material é obtido por pequena incisão na pele, coletado em lesões cutâneas e em sítios padronizados — lóbulos auriculares e cotovelos —, corado por Ziehl-Neelsen a frio, e o número de bacilos por esfregaço é expresso pela escala logarítmica de Ridley, com índice baciloscópico de 0 a 6 cruzes; a média dos índices de cada sítio estima a carga bacilar do paciente.

A leitura clínica é assimétrica, e essa assimetria é a regra mais importante do exame. Baciloscopia positiva faz duas coisas de uma vez: confirma o diagnóstico e classifica o paciente como multibacilar. Baciloscopia negativa não faz nada — não exclui hanseníase de forma alguma, porque ela é sistematicamente negativa em todos os casos paucibacilares. Interpretar baciloscopia negativa como ausência de doença é o erro laboratorial mais caro do capítulo, e é ele que devolve para casa o paciente cuja mancha não sente.

Duas ressalvas de execução. A primeira: o exame depende da habilidade de quem coleta e de quem lê — profundidade da incisão, quantidade de tecido, espessura do esfregaço e técnica de coloração mudam o resultado, e falso-negativo em multibacilar acontece. A segunda: bacilos encontrados em biópsia não classificam do mesmo modo, porque bacilos podem aparecer dentro de macrófagos, em pequena quantidade, mesmo em casos paucibacilares e inclusive na forma indeterminada — quem classifica é a baciloscopia do raspado intradérmico, não o achado histopatológico.

Um dado do país completa o quadro. Em 2024 foram realizadas 11.544 baciloscopias, 30,4% menos que em 2015, com 45,5% de positividade. O aumento da positividade não é melhora técnica: é o reflexo de uma rede que faz menos exames e os faz em pacientes com carga bacilar maior — isto é, mais tarde.

4. Os outros exames, e a pergunta que cada um responde

A histopatologia entra quando o diagnóstico permanece indefinido depois da avaliação clínica e baciloscópica, no diagnóstico diferencial com outras dermatoses e no acometimento neural sem lesão cutânea. A biópsia de pele colhe preferencialmente a borda das lesões mais ativas e recentes, incluindo toda a espessura da derme e ao menos parte da hipoderme; cora-se por hematoxilina-eosina para o infiltrado e por Fite-Faraco ou Wade para os bacilos. É bom saber o limite antes de pedir: a especificidade fica entre 70% e 72%, mas a sensibilidade varia de 49% a 70% conforme a forma clínica, e em séries brasileiras uma fração relevante dos laudos retorna apenas como compatível com hanseníase. Histopatologia inconclusiva é resultado comum, não falha do patologista, e não deve travar o tratamento de um caso clinicamente definido.

A ultrassonografia de nervos periféricos mostra espessamento focal, edema intraneural, microabscessos e perda da arquitetura fascicular, permite comparar com o lado contralateral e alcança nervos de palpação difícil. É mais sensível que o exame clínico para detectar espessamento e, por isso, aumenta a chance de encontrar o segundo sinal cardinal. O eletroneuromiograma detecta dano precoce que escapa até ao monofilamento, distingue padrão axonal de desmielinizante e ajuda no diferencial e no prognóstico — mas seus achados são inespecíficos para hanseníase. Nenhum dos dois é exame de rotina: entram na Atenção Especializada, no caso duvidoso.

O teste rápido imunocromatográfico detecta anticorpos IgM contra o antígeno PGL-1 do M. leprae, é de execução simples e não precisa de equipamento. E tem uso aprovado no SUS exclusivamente na investigação de contatos de casos confirmados. A razão está na própria biologia do teste: pessoas saudáveis em área endêmica podem ser soropositivas, e casos confirmados — sobretudo paucibacilares — podem ser soronegativos. Ele não é teste diagnóstico; é ferramenta para decidir qual contato merece vigilância mais próxima e qual precisa ir à Atenção Especializada.

O teste molecular qPCR detecta material genético do bacilo em biópsia de pele ou de nervo. Foi incorporado ao SUS pela Portaria SCTIE/MS nº 78, de 31 de dezembro de 2021, e também tem uso aprovado exclusivamente na investigação de contatos, no nível da Atenção Especializada, depois que a avaliação clínica e a baciloscopia ficaram inconclusivas. A amostra é biópsia com punch de 2 a 6 mm, conservada em álcool 70% — e nunca em formol, que destrói o DNA e inutiliza o exame. O resultado sai em até sete dias pelo Laboratório Central de Saúde Pública, com três respostas possíveis: detectado, zona equivocal e não detectado.

5. O que não pedir, e o custo de pedir

Não peça exame para começar o tratamento de um caso clinicamente definido. Caso fechado por sinal cardinal se classifica, se notifica e recebe a primeira dose no mesmo dia. Esperar baciloscopia, biópsia ou parecer de especialista para iniciar a poliquimioterapia é a forma mais comum de transformar um diagnóstico feito em um diagnóstico perdido: o paciente que sai sem remédio pode não voltar, e cada semana de espera é semana de transmissão em casa e de nervo sob risco.

Não use sorologia nem teste rápido para diagnosticar. Fora da investigação de contatos, o resultado não muda conduta e cria dois danos: o positivo em pessoa sadia de área endêmica gera tratamento indevido e rótulo de doença estigmatizante, e o negativo em paciente com mancha anestésica gera falsa segurança e alta.

Não peça qPCR fora da investigação de contatos na Atenção Especializada — é exame de indicação restrita, exige biópsia e não substitui o exame clínico. E não mande a amostra molecular em formol: o exame é perdido e o paciente será biopsiado de novo.

Não peça prova tuberculínica nem reação de Mitsuda esperando diagnóstico. A reação de Mitsuda mede resposta imune celular ao bacilo e ajuda a caracterizar o polo do espectro em contexto de pesquisa e de classificação; ela não diz se a pessoa tem ou não hanseníase.

Não peça ressonância de coluna como primeiro passo diante de formigamento assimétrico de mãos em quem tem mancha. Foi o que aconteceu com Elizete: o exame achou o que qualquer exame acha em uma pessoa de 38 anos com trabalho curvado, e o achado incidental fechou a investigação por três meses. Achado degenerativo compatível com a idade não explica déficit em território de um nervo periférico específico com nervo espessado à palpação.

E não peça hemograma, transaminases e glicose-6-fosfato desidrogenase como pré-requisito para iniciar. A dosagem rotineira da enzima antes da poliquimioterapia não é necessária. Monitoramento hematológico nos primeiros meses é recomendado sempre que possível — o que significa acompanhar, não represar o início do tratamento.

6. Graduar a incapacidade: o número que permite comparar você com você mesmo

Junto com a classificação operacional, o interno registra o grau de incapacidade física, que sai da própria Avaliação Neurológica Simplificada. Grau zero: nenhum problema causado pela hanseníase em mãos, pés ou olhos. Grau 1: não há incapacidade visível nem alteração de acuidade visual, mas há diminuição da sensibilidade protetora ou redução de força em mãos, pés ou olhos. Grau 2: deformidade visível ou cegueira decorrente da neuropatia hansênica.

Existe ainda o escore Olhos, Mãos e Pés, que é a soma do grau verificado em cada um dos seis segmentos — dois olhos, duas mãos, dois pés. Um paciente com grau zero nas duas mãos, grau 1 no pé direito, grau 2 no pé esquerdo, grau zero no olho direito e grau 2 no olho esquerdo tem escore 5. O escore serve para o que o grau isolado não faz: mostrar progressão ou recuperação ao longo do tratamento, segmento por segmento.

Registrar isso não é burocracia. É o único jeito de saber, três meses depois, se a mão do paciente piorou — e é a piora comparada com a avaliação anterior, e não a presença de dor, que indica corticoide. Elizete entrou com grau 1: hipoestesia palmar e perda de força na mão direita, sem deformidade visível. Grau 1 é a fronteira em que ainda há o que salvar.

7. O que existe no SUS, e o que fazer quando falta

O diagnóstico da hanseníase é o mais barato da medicina brasileira: dois tubos com água, um chumaço de algodão, uma agulha descartável, luz e as suas mãos. Nada disso falta em unidade nenhuma, e nada disso depende de autorização, de fila ou de cota.

A baciloscopia direta deve estar disponível na Atenção Primária e, alternativamente, nos demais níveis, conforme a organização da rede local. O teste rápido está incorporado ao SUS — o Brasil foi o primeiro país do mundo a incorporá-lo — e o qPCR também, pela Portaria SCTIE/MS nº 78/2021, ambos restritos à investigação de contatos. Histopatologia, ultrassonografia de nervos e eletroneuromiografia existem na Atenção Especializada, com filas variáveis.

A regra prática quando falta alguma coisa é a mesma em qualquer serviço: nada do que falta impede o diagnóstico e o tratamento. Sem baciloscopia disponível, o caso duvidoso é classificado como multibacilar e tratado; sem biópsia, o caso clinicamente definido é tratado; sem especialista, o caso típico começa na Atenção Primária e o caso atípico é encaminhado com o tratamento já iniciado, se o diagnóstico estiver definido. O que nunca é aceitável é o paciente voltar para casa sem tratamento porque o exame não saiu.

8. Notificar, e o que a notificação exige que você já tenha feito

A hanseníase é doença de notificação compulsória, notificada no Sistema de Informação de Agravos de Notificação. A ficha não é um formulário depois da consulta: ela pede exatamente os dados que a consulta tem de ter produzido — classificação operacional, forma clínica, número de lesões, nervos acometidos, grau de incapacidade física no diagnóstico, modo de detecção e número de contatos registrados.

É por isso que a notificação, feita direito, funciona como lista de verificação do atendimento. Se você não consegue preencher o grau de incapacidade, é porque não fez a Avaliação Neurológica Simplificada. Se não consegue preencher o número de contatos, é porque não perguntou com quem o paciente mora. E o campo de contatos registrados é o denominador do indicador nacional de contatos examinados — aquele que ficou em 80,0% em 2024 e que, do lado de dentro do serviço, é uma lista de nomes que alguém precisa convocar.

Os aspectos gerais da notificação compulsória, do fluxo entre unidade, município e estado, e do funcionamento da Atenção Primária como porta de entrada são assunto do capítulo de Princípios e diretrizes do SUS desta coleção. O que é específico da hanseníase e não sai remetido é isto: a notificação da hanseníase carrega dados clínicos que só existem se alguém tiver examinado a pele inteira e palpado os nervos.

07

Da mancha à alta: o fluxo, as cartelas por faixa de peso e as tabelas de consulta

As tabelas abaixo são a régua de execução do capítulo: o esquema de poliquimioterapia única por faixa etária e peso, a régua que decide seis ou doze doses, as duas reações lado a lado, a escada completa de retirada do corticoide com o número de comprimidos, o que fazer diante de cada evento adverso e o que se faz com cada contato. Os cartões mostram o grau de incapacidade física, que é a única escala ordinal do capítulo — e é ela que se compara consigo mesma a cada três meses para decidir se o nervo está piorando.

  1. 1Diante de mancha, dormência, formigamento, dor em nervo, nódulo na face ou orelha, queimadura indolor ou fraqueza de mão ou pé: peça que o paciente se dispa e inspecione a pele inteira sob boa luz, inclusive dorso, nádegas e face posterior dos membros.
  2. 2Teste sensibilidade em cada lesão e na pele sadia vizinha, de olhos fechados e em ordem imprevisível: térmica com tubos morno e frio, dolorosa com ponta e cabo de agulha, tátil com fiapo de algodão — nessa ordem.
  3. 3Palpe ulnar, mediano, radial, fibular comum e tibial posterior dos dois lados, e o auricular magno. Teste força de mãos, pés e fechamento das pálpebras. Afira acuidade visual. Isso é a Avaliação Neurológica Simplificada.
  4. 4Achou um dos três sinais cardinais — lesão com alteração de sensibilidade, ou nervo espessado com déficit no seu território, ou baciloscopia positiva? O caso está fechado. Não espere exame.
  5. 5Classifique: até cinco lesões e baciloscopia negativa é paucibacilar; mais de cinco lesões, ou dois ou mais nervos comprometidos, ou baciloscopia positiva é multibacilar. Na dúvida, multibacilar.
  6. 6Pese o paciente: é o peso, e não a idade, que escolhe a cartela. Acima de 50 kg, PQT-U adulto; de 30 a 50 kg, PQT-U infantil; abaixo de 30 kg, esquema calculado por quilo.
  7. 7Registre o grau de incapacidade física e o escore Olhos, Mãos e Pés, segmento por segmento — é com esse número que você vai comparar daqui a três meses.
  8. 8Dê a primeira dose supervisionada hoje, na sua frente, e entregue a cartela do mês. Avise sobre a urina e o suor avermelhados e sobre o escurecimento da pele antes que apareçam.
  9. 9Notifique no Sinan e liste os contatos domiciliares dos últimos cinco anos, com nome, idade, tipo de convívio e como localizar cada um.
  10. 10Marque a data em que cada contato virá ser examinado. Contato examinado é ato do serviço que diagnosticou, não tarefa da vigilância.
  11. 11Retorno mensal para a dose supervisionada, com avaliação clínica em toda consulta e Avaliação Neurológica Simplificada a cada três meses e sempre que houver queixa nova.
  12. 12Queixa de dor em nervo, aumento de dormência, perda de força, olho que não fecha ou lesões que ficaram vermelhas e inchadas: reação hansênica. Reavalie a função neural hoje e inicie prednisona 1 mg/kg/dia hoje, mantendo a poliquimioterapia.
  13. 13Alta por cura: seis doses supervisionadas em até nove meses no paucibacilar, doze doses em até dezoito meses no multibacilar, com avaliação clínica e Avaliação Neurológica Simplificada na última dose.
  14. 14Na alta, explique que reação e neurite ainda podem aparecer por anos e que o retorno é imediato e sem agendamento — e registre isso na caderneta.

Grau 0 de incapacidade física

Nenhum problema em mãos, pés ou olhos causado pela hanseníase: sensibilidade protetora preservada, força normal e acuidade visual normal. É o grau que o diagnóstico precoce produz e o desfecho que o exame de contatos entrega. Em 2024, apenas 52,0% dos casos novos brasileiros foram diagnosticados assim.

Grau 1 de incapacidade física

Não há deformidade visível nem alteração da acuidade visual, mas há diminuição da sensibilidade protetora ou redução de força em mãos, pés ou olhos. É o grau em que ainda existe função a salvar e em que o corticoide da reação muda o desfecho. Em 2024, 36,5% dos casos novos já chegaram assim — proporção 46,6% maior que em 2015. Foi o grau de Elizete.

Grau 2 de incapacidade física

Deformidade visível ou cegueira decorrente da neuropatia — garra, reabsorção, úlcera plantar, pé caído, lagoftalmo, opacidade de córnea. Por definição do sistema nacional de indicadores, grau 2 no diagnóstico mede detecção tardia: quando ele sobe, foi o serviço que demorou. Em 2024, 11,5% dos casos novos brasileiros já chegaram assim — 53,3% mais que em 2015.

Faixa de peso — é o peso que escolhe a cartela, não a idadeDose mensal supervisionada, tomada na unidade na sua frenteDose diária autoadministrada, em casaDuração: paucibacilar / multibacilarDose de rifampicina resultante nas bordas da faixa
Acima de 50 kg — cartela PQT-U adultoRifampicina 600 mg + clofazimina 300 mg + dapsona 100 mgClofazimina 50 mg todos os dias + dapsona 100 mg todos os dias6 doses mensais em até 9 meses / 12 doses mensais em até 18 meses600 mg fixos — 11,8 mg/kg a 51 kg, 8,6 mg/kg a 70 kg e 6,0 mg/kg a 100 kg
De 30 a 50 kg, criança ou adulto — cartela PQT-U infantilRifampicina 450 mg + clofazimina 150 mg + dapsona 50 mgClofazimina 50 mg em dias alternados + dapsona 50 mg todos os dias6 doses mensais em até 9 meses / 12 doses mensais em até 18 meses450 mg fixos — 15,0 mg/kg a 30 kg, 11,3 mg/kg a 40 kg e 9,0 mg/kg a 50 kg
Abaixo de 30 kg — dose calculada por quiloRifampicina 10 mg/kg + clofazimina 6 mg/kg + dapsona 2 mg/kgClofazimina 1 mg/kg/dia + dapsona 2 mg/kg/dia6 doses mensais em até 9 meses / 12 doses mensais em até 18 meses10 mg/kg em toda a faixa — 100 mg a 10 kg, 200 mg a 20 kg e 290 mg a 29 kg

Classificação operacional: o que decide seis ou doze doses

CritérioPaucibacilarMultibacilar
Número de lesões cutâneasAté 5 lesõesMais de 5 lesões
Baciloscopia de raspado intradérmicoObrigatoriamente negativaPositiva — e, quando positiva, classifica sozinha
Nervos periféricos comprometidosNenhum, ou um único nervo em serviço com profissional experienteDois ou mais nervos com perda documentada de sensibilidade no território
Duração da poliquimioterapia única6 doses mensais supervisionadas, em intervalo de até 9 meses12 doses mensais supervisionadas, em intervalo de até 18 meses
Caso duvidosoTodo caso que suscite dúvida sobre a classificação é tratado como multibacilar

As duas reações hansênicas lado a lado — e o que cada uma exige hoje

Reação tipo 1 (reversa)Reação tipo 2 (eritema nodoso hansênico)
MecanismoHipersensibilidade celular (tipos III e IV de Gell e Coombs) contra antígenos do bacilo, vivos ou mortosDoença por imunocomplexos, com ativação da resposta humoral
Quem temSobretudo formas dimorfas — pode ocorrer em paucibacilar e em multibacilarExclusivamente multibacilares, sobretudo virchowianos e dimorfos com carga alta
Na peleLesões antigas ficam eritemato-vinhosas, edemaciadas e às vezes dolorosas; surgem lesões onde a infecção era imperceptível; nos casos intensos, ulceraçãoNódulos subcutâneos dolorosos, múltiplos, em qualquer área e sem relação com as lesões prévias; nos casos graves, necrose e ulceração
Fora da peleNeurite: dor espontânea ou à palpação, com perda sensitiva, motora e/ou autonômica; pode haver abscesso de nervoFebre, artralgia, mialgia, dor óssea, edema, linfadenomegalia, irite, episclerite, orquite, nefrite
LaboratórioNão há exame que faça o diagnóstico — ele é clínico e neurológicoLeucocitose com neutrofilia, plaquetose, velocidade de hemossedimentação e proteína C reativa elevadas, proteinúria e hematúria
Tratamento de primeira escolhaPrednisona 1 mg/kg/dia por via oral, imediatamenteTalidomida 100 a 400 mg/dia conforme a intensidade
Quando o corticoide entra na reação tipo 2Sempre que houver neurite aguda, orquite ou episclerite: prednisona nas mesmas doses da reação tipo 1
O que não fazerSuspender a poliquimioterapia, que deve ser mantida se as doses não terminaramPrescrever talidomida a menor de 18 anos ou a gestante — no Brasil é vedada abaixo de 18 anos por registro em bula, e é teratogênica

Prednisona na reação hansênica: a escada completa de retirada, com o número de comprimidos (exemplo de paciente com 60 kg)

EtapaDose diáriaComprimidos (5 mg e 20 mg)Por quanto tempoO que se verifica antes de descer um degrau
Início60 mg/dia (1 mg/kg/dia)3 comprimidos de 20 mg15 diasIniciar profilaxia de estrongiloidíase no mesmo dia; medir pressão e glicemia; manter a poliquimioterapia
Descida de 10 mg a cada 15 dias50 mg/dia2 de 20 mg + 2 de 5 mg15 diasForça e sensibilidade estáveis ou melhores que na avaliação anterior
Descida de 10 mg a cada 15 dias40 mg/dia2 comprimidos de 20 mg15 diasIdem — piora da função neural manda voltar ao degrau anterior, não seguir descendo
Descida de 10 mg a cada 15 dias30 mg/dia1 de 20 mg + 2 de 5 mg15 diasIdem
Chegou a 20 mg: a partir daqui a descida passa a ser de 5 mg20 mg/dia1 comprimido de 20 mg15 diasReavaliar função neural; a analgesia do corticoide mascara dor sem impedir dano
Descida de 5 mg a cada 15 dias15 mg/dia3 comprimidos de 5 mg15 diasIdem
Descida de 5 mg a cada 15 dias10 mg/dia2 comprimidos de 5 mg15 diasIdem
Descida de 5 mg a cada 15 dias5 mg/dia1 comprimido de 5 mg15 diasIdem
Manutenção antes de sair5 mg/dia1 comprimido de 5 mgmais 15 dias seguidosAvaliar recuperação alcançada e registrar o escore Olhos, Mãos e Pés
Última etapa5 mg em dias alternados1 comprimido de 5 mg em dias alternados15 dias, e então suspenderOrientar sobre risco de insuficiência adrenal se houver interrupção abrupta ou automedicação

Eventos adversos da poliquimioterapia: o que é esperado, o que se explica antes e o que muda conduta

FármacoO que apareceO que fazer
RifampicinaColoração alaranjada de urina, suor e lágrima nos dias seguintes à dose mensal. Elevação transitória e leve de transaminases é rara nas doses e intervalos da hanseníase.Avisar antes de a urina mudar de cor — é o efeito que mais assusta e o mais inofensivo. Não é indicação de interromper o tratamento.
DapsonaHemólise, em geral leve, e mais raramente anemia significativa. Casos raros de hepatopatia, nefropatia, agranulocitose e psicose.Não é necessário dosar glicose-6-fosfato desidrogenase de rotina antes de iniciar. Monitorar hemograma nos primeiros meses sempre que possível. Anemia significativa, icterícia, febre com queda de leucócitos ou quadro psicótico exigem avaliação e troca do fármaco pelo esquema de segunda linha correspondente.
ClofaziminaEscurecimento da pele, de avermelhado a castanho-escuro, mais intenso nas lesões ativas; coloração rosada de urina, expectoração e suor após a dose mensal; ictiose em pernas e antebraços; cólica, diarreia e perda de peso por depósito de cristais na parede do intestino delgado.A pigmentação regride em seis a doze meses após o fim do tratamento, com traços que podem durar até quatro anos. Ela não é critério de suspensão — exceto quando a insatisfação do paciente é extrema e há risco real de abandono, e aí a conversa é sobre o esquema, não sobre aguentar. Ressecamento pede hidratante; sintomas intestinais pedem tomar com alimento.
Prednisona (nas reações)Ganho de peso, retenção de líquido, hipertensão, hiperglicemia e descompensação de diabetes, osteoporose, úlcera péptica, catarata, glaucoma, alterações de humor, insônia, psicose, insuficiência adrenal secundária.Medir pressão e glicemia em cada retorno. Fazer profilaxia de estrongiloidíase ao iniciar. Reduzir a dose em vez de interromper, sempre que possível. Alertar o paciente e a família de que interromper de repente é perigoso e que automedicar-se com o corticoide que sobrou é o erro mais comum depois da alta.
Talidomida (na reação tipo 2)Teratogenicidade, neuropatia periférica que pode ser irreversível e piora de neuropatia já instalada, sonolência, neutropenia.Não prescrever a menor de 18 anos nem a gestante. Em mulher com potencial reprodutivo, exige exclusão de gravidez por exame sensível e comprovação de dois métodos contraceptivos, sendo ao menos um de alta eficácia. Exame neurológico antes de iniciar e monitorização durante. Não iniciar com neutrófilos abaixo de 750 por mm³.
Talidomida associada a corticoideRisco tromboembólico somado.Prescrever ácido acetilsalicílico 100 mg/dia como profilaxia, e avaliar individualmente quem tem outros fatores de risco.

Investigação de contatos: quem entra, o que se faz e o que se oferece

EtapaO que éConduta
Quem é contatoToda e qualquer pessoa que resida ou tenha residido, conviva ou tenha convivido com a pessoa doente, no âmbito domiciliar, nos últimos cinco anos anteriores ao diagnóstico — familiar ou não.Listar todos, com nome, idade e forma de localização, na mesma consulta em que o caso é notificado.
O exame do contatoAvaliação dermatológica com inspeção da pele em toda a superfície corporal e teste de sensibilidade, mais avaliação neurológica com palpação dos nervos e testes de sensibilidade e força em mãos, pés e olhos.É o mesmo exame do caso, feito na Atenção Primária. Não é triagem por questionário.
Contato que é casoAchado de sinal cardinal.Classificar, notificar como caso novo e iniciar a poliquimioterapia única — não se trata contato como contato quando ele já é doente.
Contato sem sinal cardinalExame normal ou achados inconclusivos.Realizar o teste rápido para anticorpos anti-M. leprae, que no SUS é aprovado exclusivamente para esta finalidade.
Teste rápido reagente, sem critério diagnósticoMarcador de exposição e de risco aumentado, não de doença.Não iniciar poliquimioterapia. Vigilância ativa, com avaliação anual na Atenção Primária por cinco anos.
Teste rápido não reagenteNão afasta infecção, sobretudo se o contato viesse a desenvolver forma paucibacilar.Vigilância passiva por autoexame, com orientação de retornar diante de qualquer sinal.
Achado suspeito inconclusivoTeste de sensibilidade duvidoso com avaliação neurológica normal ou inconclusiva, ou comprometimento neural comprovado sem lesão cutânea.Referenciar à Atenção Especializada, onde entram biópsia e qPCR — este último com uso aprovado no SUS exclusivamente na investigação de contatos.
ImunoprofilaxiaVacina BCG para contatos com mais de um ano de idade, não vacinados ou com apenas uma dose, comprovado por cartão ou cicatriz vacinal.Oferecer a todos os contatos elegíveis, sejam eles reagentes ou não ao teste rápido. Contraindicada em imunodeficiência primária ou adquirida, neoplasia maligna, gestação e uso de corticoide em dose elevada por mais de duas semanas — equivalente a prednisona 2 mg/kg/dia em criança de até 10 kg, ou 20 mg/dia ou mais acima de 10 kg.
Educação em saúdeSinais e sintomas, importância do diagnóstico precoce e autoexame.Fazer com todos, inclusive com quem já foi examinado e está normal — o contato de hoje pode adoecer daqui a cinco anos.

Seguimento da poliquimioterapia, consulta a consulta

ProcedimentoQuandoPara quê
Dose mensal supervisionadaTodo mês, na unidade, ingerida na frente do profissionalÉ a única confirmação objetiva de adesão e a oportunidade mensal de perguntar sobre reação, efeito adverso e função neural
Avaliação clínicaToda consulta mensalEvolução das lesões, peso — porque mudança de faixa muda a cartela —, eventos adversos e sinais de reação
Avaliação Neurológica SimplificadaNo diagnóstico, a cada três meses, na última dose supervisionada, e sempre que houver queixa nova, durante ou após o tratamentoDetectar neurite silenciosa, que instala perda sem dor e é o principal gerador de sequela; e comparar com a avaliação anterior, que é o que decide corticoide
Grau de incapacidade física e escore Olhos, Mãos e PésNo diagnóstico e na alta, e sempre que a Avaliação Neurológica Simplificada for repetidaMedir progressão ou recuperação segmento por segmento
Baciloscopia de controleNão é exame de rotina de seguimentoNo pós-alta com dúvida sobre resposta, pode ser repetida com intervalo não inferior a um ano e nos mesmos sítios de coleta
Critério de alta por curaAo completar 6 doses supervisionadas (paucibacilar) ou 12 doses (multibacilar)Confirmação de todas as doses supervisionadas, mais avaliação clínica e Avaliação Neurológica Simplificada — a alta é administrativa e clínica, e não depende de exame laboratorial
Orientação de altaNa última doseReações e neurite ainda podem surgir por anos após a cura; o retorno diante delas é imediato e não significa recidiva

Sobre a coluna de dose resultante na tabela principal: os valores em miligramas por quilo foram calculados a partir das doses fixas de cada faixa e mostram por que pesar importa mais do que parece. Nas bordas inferiores das faixas a dose relativa é alta e nas superiores é baixa — a rifampicina vai de 15,0 mg/kg em quem pesa 30 kg a 6,0 mg/kg em quem pesa 100 kg, uma variação de duas vezes e meia dentro do mesmo esquema padronizado. A consequência prática não é ajustar dose por conta própria, que o protocolo não autoriza: é pesar o paciente em toda consulta, porque quem ganha peso durante o tratamento pode cruzar uma faixa, e quem perde também.

Sobre o degrau entre 29 e 30 quilos: um quilo de diferença muda a cartela, e as três drogas não se movem na mesma direção. A rifampicina mensal salta de 290 mg para 450 mg, um aumento de 55%; a clofazimina mensal cai de 174 mg para 150 mg, a dapsona mensal e a diária caem de 58 mg para 50 mg, e a clofazimina diária cai de 29 mg para 25 mg em média — quedas de 13,8% em cada uma. Isto é, a criança que engorda um quilo passa a receber mais rifampicina e menos das outras três. A descontinuidade é do próprio desenho de faixas fixas e não é erro de prescrição; o que ela exige do interno é conferir a cartela sempre que o peso cruza 30 ou 50 quilos, e não presumir que a cartela do mês passado continua certa.

Sobre a clofazimina abaixo de 30 quilos: a administração diária é difícil porque o fármaco existe apenas em cápsulas de 50 mg e de 100 mg, que não se partem. A saída padronizada é calcular a dose semanal e dividi-la em duas ou três tomadas — uma criança de 15 kg precisa de 105 mg por semana (1 mg/kg × 15 kg × 7 dias), o que se resolve com uma cápsula de 50 mg duas vezes por semana. Rifampicina também existe em suspensão oral de 20 mg/mL para essa faixa.

Sobre a escada de retirada do corticoide: seguida ao pé da letra, ela termina antes dos seis meses que o próprio protocolo define como duração mínima média, e termina mais cedo quanto mais leve for o paciente. Um paciente de 50 kg começa com 50 mg e percorre nove degraus de quinze dias, o que dá 135 dias — quatro meses e meio. Um de 60 kg chega a 150 dias, e um de 70 kg a 165. Só a partir de 71 kg a escada literal alcança os 180 dias. A leitura adotada aqui é que a escada é o ritmo máximo de descida, e não um calendário fechado: quem chega ao fim dela antes de completar seis meses permanece nas doses baixas, com reavaliação neural a cada quinze dias, até completar o tempo — e quem piora a função neural em qualquer degrau volta ao degrau anterior em vez de continuar descendo. O parâmetro que governa a descida é a função do nervo medida na Avaliação Neurológica Simplificada, não a data.

Sobre a profilaxia ao iniciar corticoide: albendazol 400 mg por via oral, em dose única diária, por três dias consecutivos — três comprimidos ao todo —, ou ivermectina 200 microgramas por quilo em dose única, o que dá 10 mg para 50 kg, 14 mg para 70 kg e 18 mg para 90 kg. É para evitar estrongiloidíase disseminada, que é complicação com letalidade alta e inteiramente evitável.

Sobre a criança com eritema nodoso hansênico: a clofazimina é prescrita a 1,5 a 2 mg/kg três vezes ao dia no primeiro mês, duas vezes ao dia no segundo e uma vez ao dia no terceiro, sem ultrapassar 300 mg por dia. O teto importa cedo — em um adolescente de 50 kg o cálculo do primeiro mês já chega a 300 mg no limite superior, e acima disso a fórmula ultrapassa o teto, que prevalece. A dose diária total é fracionada e tomada com alimento.

Sobre o esquema alternativo com rifampicina, ofloxacino e minociclina, reservado a quem tem dificuldade extrema de adesão ao esquema de primeira linha: a tabela oficial que o descreve apresenta o mesmo esquema com durações diferentes para o caso paucibacilar — vinte e quatro meses em uma linha e seis meses em outra —, e escreve, numa das linhas, rifampicina mais ofloxacino ou minociclina, o que contraria o próprio nome do esquema e as demais linhas, em que os três fármacos são associados. O que se adota aqui é a leitura que o texto do protocolo sustenta e que a evidência citada apoia: dose mensal supervisionada da associação dos três fármacos — rifampicina 600 mg, ofloxacino 400 mg e minociclina 100 mg —, por seis meses no paucibacilar e por vinte e quatro meses no multibacilar. Esse esquema é decisão de serviço com experiência em hanseníase, não escolha de conveniência do interno.

08

A conduta, hora a hora

O relógio da hanseníase não é de horas, é de meses — com uma exceção que é de dias e que é onde o interno ganha ou perde a mão do paciente. O que segue é a linha do tempo do tratamento de Elizete, da consulta em que o diagnóstico foi fechado até cinco anos depois da alta, com a prescrição escrita por extenso.

Toda a poliquimioterapia da hanseníase é padronizada, gratuita e distribuída exclusivamente pelo SUS, em cartelas mensais que já vêm montadas por faixa de peso. O interno não formula o esquema: ele escolhe a cartela certa, entrega a primeira dose na própria consulta e garante que as onze ou cinco seguintes aconteçam.

Dia 0 — a consulta em que tudo acontece

Fechar o diagnóstico, classificar, pesar, notificar, listar contatos e dar a primeira dose são atos de uma consulta só. A hanseníase não tem etapa de confirmação laboratorial obrigatória antes do tratamento, e é por isso que o mesmo atendimento que descobre a doença já a trata. Cada retorno agendado para depois é uma chance real de o paciente não voltar.

A sequência dentro da consulta é: pele inteira, sensibilidade nas lesões, palpação dos cinco nervos, força de mãos, pés e pálpebras, acuidade visual, contagem de lesões, classificação operacional, grau de incapacidade física e escore Olhos, Mãos e Pés, peso na balança. Só então a prescrição.

Elizete: 38 anos, 62 quilos, cinco lesões cutâneas contadas com ela despida, ulnar direito e fibular esquerdo espessados e dolorosos com déficit nos territórios correspondentes, hipoestesia palmar direita, força de abdução dos dedos reduzida à direita, pálpebras fechando normalmente, acuidade visual preservada. Dois nervos comprometidos: hanseníase multibacilar. Grau de incapacidade física 1. Escore Olhos, Mãos e Pés igual a 2, com grau 1 na mão direita e grau 1 no pé esquerdo. Doze doses.

A classificação operacional é a decisão terapêutica do dia. Se ela for paucibacilar, são seis doses; se multibacilar, doze. Na dúvida, multibacilar. E o peso é a segunda decisão: acima de 50 quilos, cartela adulto; entre 30 e 50, cartela infantil; abaixo de 30, esquema calculado por quilo.

Dia 0 — a prescrição, por extenso

Para Elizete, com 62 quilos e classificação multibacilar, a prescrição é a cartela PQT-U adulto por doze meses, assim: dose mensal supervisionada, tomada na unidade e na frente do profissional, de rifampicina 600 mg, clofazimina 300 mg e dapsona 100 mg, por via oral, em tomada única; e dose diária autoadministrada, em casa, de clofazimina 50 mg e dapsona 100 mg, por via oral, uma vez ao dia, todos os dias. Doze doses supervisionadas, uma por mês, a serem completadas em um intervalo de até dezoito meses.

Se ela fosse paucibacilar, a cartela seria a mesma e a principal diferença do esquema seria o número de doses: seis doses supervisionadas, a completar em até nove meses. O esquema único é justamente isto — as mesmas três drogas para as duas classificações, mudando apenas a duração. Até 2021 o paucibacilar recebia só rifampicina e dapsona, e o paciente com classificação errada acabava tratado a menos; a poliquimioterapia única uniformizou os fármacos, mas não eliminou a importância da classificação, porque a duração continua diferente.

Para um paciente entre 30 e 50 quilos, criança ou adulto, a cartela é a PQT-U infantil: dose mensal supervisionada de rifampicina 450 mg, clofazimina 150 mg e dapsona 50 mg; dose diária autoadministrada de clofazimina 50 mg em dias alternados e dapsona 50 mg todos os dias. Duração igual: seis ou doze doses conforme a classificação.

Abaixo de 30 quilos, a dose é calculada por quilo: dose mensal supervisionada de rifampicina 10 mg/kg, clofazimina 6 mg/kg e dapsona 2 mg/kg; dose diária autoadministrada de clofazimina 1 mg/kg/dia e dapsona 2 mg/kg/dia. Como a clofazimina só existe em cápsulas de 50 mg e de 100 mg, que não se partem, a dose diária é convertida em dose semanal e fracionada: uma criança de 15 kg precisa de 105 mg por semana, o que se resolve com uma cápsula de 50 mg duas vezes por semana. A rifampicina, nessa faixa, também existe em suspensão oral de 20 mg/mL.

Duas observações de execução que mudam eficácia. A rifampicina tem a absorção reduzida em cerca de 30% quando tomada com alimento, e por isso a dose supervisionada é tomada de estômago vazio, uma hora antes ou duas horas depois de comer. A clofazimina, ao contrário, é mais bem tolerada com alimento, porque os sintomas gastrointestinais vêm do depósito de cristais na parede intestinal.

Uma trava que vale a pena saber antes de ser tentado a esticar: o protocolo não autoriza estender a poliquimioterapia além de doze meses. Lesão que ainda não sumiu no fim do tratamento não é motivo para prolongar — a regressão das lesões é lenta e pode levar meses ou anos, sobretudo em multibacilares com hansenomas e índice baciloscópico alto. Se houver dúvida real sobre persistência de infecção ativa, o caminho é investigar resistência, não repetir remédio.

Dia 0 — o que se diz antes de acontecer

Três avisos precisam ser dados na primeira consulta, porque cada um deles, quando pega o paciente de surpresa, custa adesão.

A rifampicina deixa a urina, o suor e a lágrima alaranjados nos dias seguintes à dose mensal. É inofensivo. Quem não é avisado acha que está urinando sangue e para o remédio.

A clofazimina escurece a pele, de avermelhado a castanho-escuro, mais nas lesões, e produz ressecamento com aspecto de ictiose nas pernas e antebraços. A cor regride em seis a doze meses depois do fim do tratamento, com traços que podem persistir até quatro anos. Esse é o efeito adverso que mais abandona tratamento no Brasil, e ele não abandona por toxicidade — abandona porque marca visivelmente uma pessoa que já carrega o estigma da doença. Dizer isso na primeira consulta, com a data em que a cor começa a voltar, é intervenção de adesão.

E o tempo: seis ou doze meses, com a informação que costuma faltar — depois das primeiras doses o paciente já não transmite. Quatro dias após uma única dose de 600 mg de rifampicina, os bacilos de um paciente multibacilar não tratado se tornam inviáveis. Essa frase encerra o isolamento doméstico informal que as famílias inventam sozinhas, e ela precisa ser dita na frente de quem mora com o paciente.

Junto com os avisos vai o autocuidado, que começa no dia do diagnóstico e não depois da sequela: proteção dos olhos, do nariz, das mãos e dos pés; inspeção diária dos pés e das mãos anestesiados procurando ferida que não doeu; hidratação da pele; cuidado com calor, com objetos cortantes e com calçado apertado; exercícios de fortalecimento e de amplitude prescritos pela equipe. Elizete, que se queimou sem sentir e trabalha com tesoura, precisa dessa conversa antes de sair da sala.

Dia 0 — notificar e listar os contatos

A notificação no Sinan é feita no atendimento, com a ficha preenchida a partir do que a consulta produziu: classificação operacional, forma clínica, número de lesões, nervos acometidos, grau de incapacidade física, modo de detecção e número de contatos registrados.

A lista de contatos é o produto mais duradouro dessa consulta. Contato é toda e qualquer pessoa que resida ou tenha residido, conviva ou tenha convivido com a pessoa doente, no âmbito domiciliar, nos últimos cinco anos anteriores ao diagnóstico — familiar ou não. Cinco anos, e não apenas quem mora lá hoje: isso inclui o filho que se mudou, o irmão que ficou um ano em casa, a empregada que dormia no serviço.

Elizete listou cinco: o marido, os filhos de 12 e 7 anos, a mãe de 66, e uma cunhada que morou com eles por oito meses em 2022. Todos os cinco foram agendados para exame na semana seguinte, com dia e hora marcados na mesma consulta — porque contato que sai com a orientação de "procurar a unidade" não procura.

Semana 1 a 4 — os contatos são examinados por você

O exame de contato é o mesmo exame do caso: pele inteira sob boa luz, teste de sensibilidade nas lesões e nas áreas referidas como dormentes, palpação dos cinco nervos, força e sensibilidade de mãos, pés e olhos, acuidade visual. Não é conversa, não é questionário, não é encaminhamento à vigilância.

Quem tiver sinal cardinal é caso: classifica-se, notifica-se como caso novo e inicia-se a poliquimioterapia. Quem não tiver realiza o teste rápido para anticorpos anti-M. leprae, que no SUS existe exclusivamente para isso. Reagente sem critério diagnóstico não recebe poliquimioterapia: entra em vigilância ativa com avaliação anual na Atenção Primária por cinco anos. Não reagente entra em vigilância passiva por autoexame, com orientação de voltar diante de qualquer sinal.

Todos os contatos elegíveis recebem a vacina BCG — indicada a partir de um ano de idade para quem não foi vacinado ou recebeu apenas uma dose, comprovado por cartão ou por cicatriz vacinal. É a imunoprofilaxia disponível no país, e ela é oferecida independentemente do resultado do teste rápido. É contraindicada em imunodeficiência primária ou adquirida, neoplasia maligna, gestação e uso de corticoide em dose elevada por mais de duas semanas.

E todos recebem educação em saúde sobre sinais e sintomas e sobre autoexame, inclusive os que estão normais hoje — porque a incubação é longa e o contato de hoje pode adoecer daqui a anos.

Na casa de Elizete, o exame dos contatos encontrou o segundo caso do capítulo. A mãe, de 66 anos, tinha uma mancha hipocrômica no ombro esquerdo que ela nunca havia mostrado a ninguém porque não doía, não coçava e ela achava que era da idade. A mancha não distinguia o tubo morno do frio, mantinha o tato preservado, era seca e tinha menos pelo. Nervos normais à palpação, sem déficit motor, sem alteração em mãos, pés ou olhos. Uma lesão só, sem comprometimento neural: hanseníase paucibacilar, forma indeterminada, grau de incapacidade física zero. Seis doses da cartela adulto, iniciadas no mesmo dia. Ela é o único paciente deste capítulo que sairá sem sequela nenhuma, e chegou até aqui porque alguém examinou a família de outra pessoa.

Mês 1, 2 e 3 — a dose supervisionada e a avaliação que compara

Todo mês o paciente volta para tomar a dose supervisionada na unidade, na frente do profissional, e retirar a cartela do mês seguinte. A dose supervisionada não é ritual: é a única confirmação objetiva de adesão que existe no tratamento da hanseníase, e é a oportunidade mensal de perguntar sobre reação, sobre efeito adverso e sobre função das mãos e dos pés.

Em cada consulta mensal, avaliação clínica: evolução das lesões, peso — porque cruzar 30 ou 50 quilos muda a cartela —, tolerância aos fármacos e busca ativa de sinais de reação. A cada três meses, e sempre que houver queixa nova, repete-se a Avaliação Neurológica Simplificada, e o resultado é comparado com o anterior. O que importa não é o valor isolado: é a diferença entre esta avaliação e a última.

No primeiro trimestre concentram-se as reações adversas à dapsona, sobretudo hematológicas, e elas são mais frequentes em mulheres e em idosos. Monitorar hemograma nesses primeiros meses, sempre que possível, é recomendação — e queixa de cansaço, palidez ou dispneia aos esforços em paciente em uso de dapsona merece hemograma no mesmo dia.

Elizete voltou nos meses 1 e 2 sem intercorrências, ganhando peso e com a mão estável. No mês 3, chegou fora do dia marcado.

O dia da reação — reconhecer neurite e outras urgências

Elizete chegou dizendo que as manchas tinham ficado vermelhas e inchadas de uma semana para a outra, que apareceram duas novas no antebraço esquerdo, que o cotovelo direito doía a ponto de ela não conseguir estender o braço, e que estava deixando cair a tesoura de novo, agora com mais frequência. Ao exame, o ulnar direito estava mais espesso e doloroso, com retirada do braço ao toque, e a força de abdução dos dedos, que estava reduzida, agora estava muito reduzida em relação à avaliação do mês anterior.

Isso é reação hansênica tipo 1 com neurite aguda, e é urgência. O nervo está inflamado dentro de uma bainha que não se expande; a perda de função começa reversível e se torna definitiva em dias. O tratamento entra hoje, não na semana que vem, e não depende de exame nenhum — não existe exame que faça o diagnóstico de reação.

Prescrição no dia da reação, para os 62 quilos de Elizete: prednisona 60 mg por via oral, uma vez ao dia, pela manhã — três comprimidos de 20 mg —, correspondendo a 1 mg/kg/dia. Junto, no mesmo dia, a profilaxia da estrongiloidíase disseminada: albendazol 400 mg por via oral, dose única diária, por três dias consecutivos; alternativamente, ivermectina 200 microgramas por quilo em dose única, o que para ela seriam 12,4 mg. E imobilização do membro afetado, com repouso relativo do cotovelo, enquanto durar a fase aguda.

A poliquimioterapia é mantida. Reação não é falha do tratamento, não é recidiva e não é motivo para suspender ou reiniciar as cartelas. Como o gatilho da reação são antígenos do bacilo, vivos ou mortos, ela pode ocorrer antes, durante ou depois do tratamento; sua presença não demonstra, por si, eficácia ou falha da poliquimioterapia. Se a reação ocorrer depois de concluída a poliquimioterapia, esta não é reintroduzida — exceto nos casos que preencham critério de recidiva.

A retirada do corticoide é uma escada de quinze em quinze dias, e ela está escrita degrau a degrau na tabela do bloco anterior: de 60 mg desce para 50, 40, 30 e 20 mg em reduções de 10 mg; ao chegar a 20 mg, as reduções passam a ser de 5 mg — 15, 10 e 5 mg; ao chegar a 5 mg, mantém-se essa dose por mais quinze dias e depois 5 mg em dias alternados por mais quinze, até suspender. A corticoterapia é mantida, em média, por um mínimo de seis meses, com monitoramento periódico da função neural e dos efeitos colaterais.

Duas regras governam a descida, e as duas valem mais que o calendário. A primeira: só se desce um degrau se a função neural estiver estável ou melhor que na avaliação anterior; se piorou, volta-se ao degrau anterior. A segunda: o corticoide reduz a inflamação neural e ajuda a prevenir dano, mas alívio da dor não comprova recuperação de função — o paciente que parou de doer pode estar perdendo função em silêncio, e por isso a Avaliação Neurológica Simplificada é repetida ao longo de toda a corticoterapia, e não apenas a cada três meses.

Em cada retorno da corticoterapia medem-se pressão arterial e glicemia, pergunta-se sobre epigastralgia, insônia e alteração de humor, e reforça-se com o paciente e a família que interromper de repente é perigoso e que sobrar comprimido em casa para automedicar-se numa próxima crise é o erro mais comum e mais grave do pós-alta.

Se a reação for tipo 2 — eritema nodoso hansênico, exclusivo de multibacilares —, o tratamento de escolha é talidomida por via oral, 100 a 400 mg por dia conforme a intensidade do quadro, com redução gradual conforme a resposta. Mas o corticoide entra no lugar da talidomida, nas mesmas doses da reação tipo 1, sempre que houver neurite aguda, orquite ou episclerite. Quando talidomida e corticoide são associados, prescreve-se ácido acetilsalicílico 100 mg por dia como profilaxia de tromboembolismo. A talidomida é vedada a menores de 18 anos no Brasil, por registro em bula, e nunca é prescrita a gestante; em mulher com potencial reprodutivo exige exclusão de gravidez por exame sensível e comprovação de dois métodos contraceptivos, sendo ao menos um de alta eficácia. A pentoxifilina 400 mg é alternativa quando a talidomida é contraindicada e não há indicação de corticoide — por exemplo, em mulher com potencial reprodutivo e sem neurite —, com redução gradual após a regressão dos sintomas e ajuste de dose na insuficiência renal.

No eritema nodoso hansênico da criança, o tratamento é feito com clofazimina: 1,5 a 2 mg/kg três vezes ao dia no primeiro mês, duas vezes ao dia no segundo e uma vez ao dia no terceiro, sem ultrapassar 300 mg por dia, com a dose diária fracionada e tomada com alimento, e suspensa por alguns dias em caso de gastroenterite aguda. Corticoide em criança segue o regime do adulto adaptado ao peso, com orientação pediátrica se forem necessários mais de três meses de tratamento ou doses acima de 1 mg/kg.

Quando o corticoide não resolve, existe cirurgia. O encaminhamento para avaliação cirúrgica é considerado diante de contraindicação formal ao corticoide, abscesso de nervo, neurite que não responde ao tratamento clínico em quatro semanas, reações recorrentes ou subentrantes, subluxação do nervo ulnar, e neuropatia crônica com déficit tardio e dor. O objetivo é descomprimir o nervo, reduzir a necessidade de doses altas de corticoide e recuperar função.

Quando o problema é o remédio: os esquemas de segunda linha

Reação adversa relevante e considerada irreversível caracteriza falha terapêutica e autoriza substituir o fármaco implicado. O protocolo é explícito quanto ao cuidado: a substituição precisa ser criteriosa, porque trocar indevidamente o esquema de primeira linha favorece resistência. E toda reação adversa a medicamento é notificada para farmacovigilância.

Intolerância à dapsona, que é a mais frequente: dose mensal supervisionada de rifampicina 600 mg, clofazimina 300 mg e ofloxacino 400 mg (ou minociclina 100 mg), com dose diária autoadministrada de clofazimina 50 mg e ofloxacino 400 mg (ou minociclina 100 mg), por seis meses no paucibacilar e doze meses no multibacilar.

Intolerância à clofazimina: dose mensal supervisionada de rifampicina 600 mg, dapsona 100 mg e ofloxacino 400 mg (ou minociclina 100 mg), com dose diária autoadministrada de dapsona 100 mg e ofloxacino 400 mg (ou minociclina 100 mg), por seis meses no paucibacilar e doze no multibacilar.

Intolerância à rifampicina, que é a mais séria porque retira o único bactericida potente do esquema: dose mensal supervisionada de clofazimina 300 mg, ofloxacino 400 mg e minociclina 100 mg, com dose diária de clofazimina 50 mg, ofloxacino 400 mg e minociclina 100 mg, nos primeiros seis meses; e, no multibacilar, mais 18 meses subsequentes com clofazimina 300 mg mensal e ofloxacino 400 mg (ou minociclina 100 mg), com as doses diárias correspondentes. Os critérios de monitoramento e alta permanecem os mesmos — exceto para o multibacilar com intolerância à rifampicina, em que o número de doses supervisionadas passa a ser 24.

Essas três tabelas são as do protocolo de 2022 e continuam valendo — mas deixaram de ser a lista inteira. A Portaria SCTIE/MS nº 47, de 20 de julho de 2026, publicada no Diário Oficial da União do dia seguinte, incorporou ao SUS a claritromicina granulado para suspensão oral e ampliou o uso da claritromicina comprimido como esquema de segunda linha para o tratamento da hanseníase em adultos e crianças com reação adversa ao tratamento de primeira linha. Ela entra em vigor na data da publicação e não revoga o protocolo: os esquemas com ofloxacino e minociclina que você acabou de ler seguem escritos como estão, e a claritromicina se soma a eles como opção autorizada para o mesmo problema — o paciente que não pode continuar com um dos três fármacos da poliquimioterapia. A apresentação pediátrica é a parte que mais muda a rotina do serviço: a análise de impacto orçamentário do próprio processo registra que, na população infantil, não havia comparador em segunda linha para os casos de intolerância.

Vale saber por que a claritromicina entrou como alternativa, e não como promoção. O relatório de recomendação da Conitec que fundamentou a decisão — o nº 1.122, de junho de 2026 — não encontrou superioridade: nos dois ensaios clínicos identificados, os esquemas com claritromicina tiveram eficácia inferior à dos que associavam rifampicina e quinolona, a certeza da evidência foi baixa e o tamanho das amostras não permitiu avaliar segurança. Também não se achou recomendação de nenhuma agência internacional de avaliação de tecnologias para claritromicina na hanseníase. A recomendação foi favorável mesmo assim, e o motivo está escrito no relatório: necessidade não atendida de quem não pode usar a poliquimioterapia e contingência para rupturas de abastecimento. É medicamento de saída, para o doente que ficaria sem esquema — não um substituto da poliquimioterapia única, que segue sendo o tratamento de todo mundo.

E aqui vem a distinção que decide o que você promete ao paciente: incorporado não é o mesmo que disponível na farmácia. O artigo 2º da portaria dá às áreas técnicas o prazo máximo de cento e oitenta dias para efetivar a oferta no SUS, contados da publicação — prazo que termina em 17 de janeiro de 2027. Nesse intervalo a decisão já está em vigor e a oferta pode ainda não estar montada na sua unidade. A Rename não desempata a dúvida: a claritromicina já figura na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024, no Componente Básico, em comprimido de 250 e de 500 mg, cápsula de 500 mg e granulado de 50 mg/mL para suspensão oral, e, como comprimido de 500 mg, também no anexo do Componente Estratégico — só que a Rename lista o medicamento, não a indicação, e a edição de 2024 fechou antes da decisão de 2026. Estar na Rename nunca significou que o fármaco estivesse liberado para a segunda linha por reação adversa, e o rótulo novo não aparecer lá também não significa que a incorporação não valha. Antes de prometer o granulado à mãe da criança que reagiu à dapsona, a pergunta é se ele já chegou ao seu serviço; enquanto não chegou, quem manda na prescrição é a tabela do protocolo.

Para o paciente com dificuldade extrema de adesão ao esquema de primeira linha — transtorno mental grave, dependência química avançada, doente terminal em uso de múltiplos medicamentos, intolerância grave a vários fármacos da poliquimioterapia —, existe o esquema alternativo em dose mensal supervisionada única, com rifampicina 600 mg, ofloxacino 400 mg e minociclina 100 mg, por seis meses no paucibacilar e vinte e quatro meses no multibacilar. É decisão de serviço com experiência em hanseníase, e não atalho de conveniência: a vantagem é dispensar a tomada diária, e o preço é um tratamento muito mais longo no multibacilar.

E se a suspeita for de resistência do próprio bacilo, e não de intolerância ao remédio? Todo caso novo multibacilar com índice baciloscópico igual ou maior que 2,0 é encaminhado à Atenção Especializada para investigação de resistência primária, por biópsia colhida preferencialmente em hansenoma ou lesão infiltrada e enviada ao Laboratório Central de Saúde Pública — sem que isso interrompa a poliquimioterapia, que continua enquanto o resultado não chega. Depois do tratamento, a investigação de resistência secundária é indicada em cinco situações: lesões infiltradas ou hansenomas inalterados ao fim da poliquimioterapia; índice baciloscópico inalterado ou maior que o do exame anterior, respeitando os mesmos sítios e um intervalo mínimo de um ano; reações reentrantes por mais de três anos após a alta, não responsivas a corticoide ou talidomida; abandono por mais de seis meses em multibacilar; e recidiva comprovada por reaparecimento de lesões após cinco anos do tratamento prévio. Só quem tem resistência comprovada faz novo ciclo com esquema de segunda linha específico para a mutação detectada.

Um cuidado de leitura, porque as duas portas se parecem e não são a mesma. A claritromicina já estava no protocolo de 2022, mas pela porta da resistência do bacilo, não pela da intolerância ao remédio. Na resistência à rifampicina, o protocolo oferece duas opções, e uma delas é ofloxacino 400 mg, claritromicina 500 mg e clofazimina 50 mg diários nos primeiros seis meses, seguidos de ofloxacino 400 mg e clofazimina 50 mg por mais dezoito. Quando a resistência é à rifampicina e ao ofloxacino, o único esquema previsto é claritromicina 500 mg, minociclina 100 mg e clofazimina 50 mg diários por seis meses, e depois clofazimina 50 mg com claritromicina 500 mg (ou minociclina 100 mg) por mais dezoito, no máximo vinte e quatro meses. Essa autorização veio da Portaria SCTIE/MS nº 65, de 28 de dezembro de 2020, condicionada à apresentação de dados de vida real em três anos. O que a portaria de 2026 acrescenta é indicação diferente — reação adversa, não resistência —, e é por isso que as duas convivem sem se contradizer: chega-se ao mesmo fármaco por motivos distintos, e só a segunda porta depende de exame molecular.

Situações que mudam a conduta: gestante, criança, imunossuprimido, comorbidades

Na gestante, a poliquimioterapia é mantida. A contracepção deve ser abordada de rotina em mulher com potencial reprodutivo, embora o efeito da rifampicina sobre o anticoncepcional seja pouco provável no esquema da hanseníase, em que ela é administrada uma vez por mês. O uso de rifampicina nas últimas semanas de gestação pode causar hemorragia pós-natal na mãe e no recém-nascido, e nesses casos recomenda-se vitamina K. Corticoide para reação e neurite é geralmente seguro na gravidez, com monitoramento mais cuidadoso de glicemia e pressão. Talidomida nunca. E a vigilância neural aumenta no primeiro e no terceiro trimestres e, sobretudo, no pós-parto, quando as reações são mais frequentes.

A amamentação não se suspende. Não há evidência de que o bacilo ingerido por via oral cause doença, e o risco de transmissão pelas vias aéreas da mãe é desprezível se ela estiver em uso da poliquimioterapia ou já a tiver concluído. Os fármacos passam para o leite, mas especialistas consideram a amamentação segura, e a orientação explícita é não suspendê-la nem por medo de prejudicar a criança nem por medo de transmitir. Quem usa prednisona pode adiar a mamada em até quatro horas após a tomada para reduzir a exposição do bebê ao pico do medicamento.

Na criança e no adolescente, o esquema segue a mesma lógica de peso, com as cartelas descritas acima. O que muda é o cuidado diagnóstico: prefere-se a avaliação clínica minuciosa e a investigação do vínculo epidemiológico a exames potencialmente traumáticos como baciloscopia e biópsia, que ficam reservados à dificuldade diagnóstica. Caso em menor de 15 anos indica transmissão recente e obriga a procurar o caso-fonte entre os contatos daquela criança.

No imunossuprimido — por HIV, transplante, quimioterapia ou imunobiológico —, o tratamento da infecção não difere do convencional, e o tratamento das reações também usa prednisona. O que muda é a vigilância para infecções oportunistas, porque as reações são tratadas com imunossupressores e as coinfecções pioram o quadro.

Todo paciente diagnosticado com hanseníase deve ser avaliado também para tuberculose, hepatites B e C, HIV, HTLV-1, parasitas intestinais incluindo estrongiloides, diabetes, leishmaniose e doença de Chagas em áreas endêmicas, tabagismo, etilismo e uso de outros medicamentos que interfiram na farmacoterapia. A associação com tuberculose merece destaque próprio, porque os dois esquemas usam rifampicina e precisam ser ajustados entre si — o manejo da tuberculose é assunto do capítulo próprio desta coleção. E recomenda-se avaliação odontológica, porque saúde oral comprometida está associada a maior risco de reações.

Mês 6 ou mês 12 — a alta por cura

A alta por cura do paciente paucibacilar acontece após seis doses mensais supervisionadas administradas em um intervalo de até nove meses. A do multibacilar, após doze doses mensais supervisionadas em um intervalo de até dezoito meses. O critério é a confirmação de todas as doses supervisionadas, mais avaliação clínica e Avaliação Neurológica Simplificada — não há exame laboratorial de cura.

A janela de nove e de dezoito meses é o que permite ao paciente perder um mês sem recomeçar o tratamento. Ela existe porque a vida acontece: mudança de cidade, internação, desemprego, falta na farmácia. Perder uma dose atrasa a alta, não anula o tratamento — e explicar isso ao paciente é melhor do que descobrir que ele parou por vergonha de ter faltado.

Elizete completou as doze doses em treze meses. Na última dose, a Avaliação Neurológica Simplificada mostrou recuperação parcial: sensibilidade palmar melhorada em relação à avaliação da reação, força de abdução dos dedos recuperada em parte, mas ainda reduzida em comparação ao lado esquerdo. Grau de incapacidade física 1 na alta, com escore Olhos, Mãos e Pés igual a 1. Ela saiu curada da infecção, com um nervo que não voltou inteiro.

As lesões dela ainda estavam visíveis na alta, mais claras do que no diagnóstico, mas presentes. Isso é esperado e não adia a alta: a regressão das lesões pode levar meses ou anos, especialmente em multibacilares. Lesão que persiste com aspecto clínico inteiramente inalterado em relação ao diagnóstico é outra coisa e pede investigação de resistência — mas lesão que está clareando devagar é a evolução normal.

Depois da alta — os cinco anos que ninguém avisa

A conversa mais importante do tratamento é a da alta, e é a que menos se faz. No momento da alta por cura, o paciente precisa ser informado de que o risco de reação e de neurite permanece, por período variável conforme a forma clínica e o índice baciloscópico inicial, estimado em até cinco anos após o fim da poliquimioterapia. Ele precisa saber, com essas palavras, que se aparecer dor em nervo, aumento de dormência, perda de força, mancha que ficou vermelha e inchada, nódulo doloroso ou olho que não fecha, ele volta ao serviço imediatamente e sem agendamento — e que isso não significa que a doença voltou nem que o tratamento falhou.

Quem recebe alta durante um episódio reacional continua sendo agendado regularmente na unidade básica, medicado e monitorado pela Avaliação Neurológica Simplificada enquanto durarem as reações, o que pode levar anos. Sair do registro ativo não é sair do acompanhamento.

Se depois da poliquimioterapia houver persistência de lesões que gerem dúvida real sobre a resposta terapêutica, investiga-se resistência. Enquanto isso, o paciente pode ser acompanhado clinicamente em intervalos regulares, por exemplo trimestrais, fora do registro ativo e sem antibiótico. A baciloscopia de seguimento, quando indicada, é repetida com intervalo não inferior a um ano e sempre nos mesmos sítios de coleta.

E permanece o autocuidado, que é o que impede a sequela de virar amputação: inspeção diária de mãos e pés insensíveis, hidratação, proteção contra calor e objetos cortantes, calçado adequado com palmilha quando indicado, curativo da úlcera plantar, exercícios, e acesso a órteses e reabilitação pela Rede de Cuidados à Saúde da Pessoa com Deficiência. A caderneta de saúde da pessoa acometida pela hanseníase é o instrumento que carrega tudo isso entre serviços — e ela fica com o paciente.

Elizete saiu com a mão direita mais fraca do que a esquerda para sempre, e com a orientação de nunca segurar panela quente com essa mão. A mãe dela saiu com grau zero, seis doses, mancha em regressão e nenhum nervo comprometido. A diferença entre as duas não foi tratamento, foi tempo — três anos de um lado, três semanas do outro.

Função neural é o desfecho. Neurite com perda funcional recente precisa de tratamento rápido e avaliação seriada, incluindo formas pouco dolorosas. Corticoterapia requer vigilância de infecção, glicemia, pressão e efeitos adversos; dose e redução são ajustadas à resposta e ao protocolo. Reações oculares, toxicidade grave da dapsona e outras complicações sistêmicas também podem ser urgências. Na reação tipo 2 com órgão acometido, a escolha entre corticoide, talidomida ou associação depende do quadro e das contraindicações; talidomida exige controles reprodutivos e regulatórios rigorosos, e profilaxia antitrombótica deve considerar risco e contraindicações individualmente.

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Como saber se está funcionando

A hanseníase tem um problema de acompanhamento que quase nenhuma outra doença tem: o parâmetro que o paciente enxerga não é o parâmetro que importa. Ele olha a mancha, que demora meses ou anos para sumir, e conclui que o remédio não está funcionando. Você precisa olhar o nervo, que muda em semanas e decide se ele vai ter mão daqui a um ano. Reavaliar hanseníase é, antes de tudo, escolher o parâmetro certo.

1. O parâmetro é a função neural comparada consigo mesma

A Avaliação Neurológica Simplificada não vale como fotografia isolada: vale como série. O que decide conduta é a diferença entre a avaliação de hoje e a anterior, segmento por segmento — sensibilidade em cada mão, em cada pé e em cada olho, força de cada grupo muscular testado, escore Olhos, Mãos e Pés somado. É por isso que o registro em formulário padronizado, que parece burocracia, é o que permite dizer se piorou.

Prazo de referência: a cada três meses durante toda a poliquimioterapia, mais a avaliação inicial e a da última dose. Fora desse calendário, ela é repetida sempre que o paciente traz queixa nova — durante o tratamento ou anos depois dele. E, no paciente em corticoterapia, com muito mais frequência: quinzenal, junto com cada degrau de redução da dose.

O que significa melhora: sensibilidade que sobe de degrau no monofilamento, área anestésica que diminui, força que recupera graus, escore Olhos, Mãos e Pés que cai. O que significa piora: qualquer perda em relação à avaliação anterior, mesmo sem dor e mesmo com o paciente se dizendo bem. Piora de função neural, isolada e sem sinal inflamatório na pele, já é indicação de corticoterapia — a neurite silenciosa não avisa.

E o alerta que se repete de propósito porque é o que mais engana: o corticoide trata a inflamação e pode preservar função neural, embora a dor isolada seja um indicador insuficiente de resposta. Paciente em prednisona que parou de doer não teve alta funcional. A ausência de dor, nesse contexto, é o achado menos confiável do exame.

2. O que esperar em cada prazo — e o que não esperar

Em quatro dias após a primeira dose supervisionada, os bacilos de um paciente multibacilar não tratado tornam-se inviáveis pela ação da rifampicina. É o desfecho mais rápido do tratamento e o que sustenta a frase da alta social: depois das primeiras doses, ele não transmite mais. Nada mais acontece tão rápido.

Em semanas a poucos meses, o paciente costuma referir melhora do que incomoda: menos infiltração, menos congestão nasal no virchowiano, lesões menos elevadas. É melhora subjetiva e é bem-vinda, mas não é parâmetro de eficácia.

Em meses a anos, as lesões cutâneas regridem. Essa é a informação que precisa ser dada antes, porque a expectativa errada é o que gera abandono: a regressão é bastante variável e pode levar meses ou anos, e é ainda mais lenta em multibacilares com hansenomas, lesões infiltradas e índice baciloscópico elevado. Mancha ainda visível na última dose é evolução normal, não falha.

A função neural é a mais imprevisível das três. O que se ganhou de volta durante a corticoterapia costuma se consolidar em semanas a poucos meses; o que não voltou depois de meses de tratamento adequado da neurite tende a não voltar. Por isso a única variável que o interno realmente controla é o tempo entre o início da perda e o início do corticoide.

Um ponto que se perde na prática: o peso é parâmetro de reavaliação. Pesar em toda consulta não é ritual — quem cruza 30 ou 50 quilos, para cima ou para baixo, muda de cartela, e continuar entregando a cartela antiga é subtratar ou sobretratar por descuido.

3. Quando não melhora: a árvore de decisão

A primeira pergunta diante de qualquer piora é sempre a mesma, e a resposta certa muda tudo: isto é reação hansênica? Lesões antigas que ficaram vermelhas, edemaciadas e dolorosas, lesões novas, dor em nervo, perda de força nova, nódulos subcutâneos dolorosos com febre e artralgia — isso é reação, e reação se trata com corticoide ou talidomida no mesmo dia, mantendo a poliquimioterapia. Reação é, de longe, a causa mais comum de "piora" durante o tratamento, e tratá-la como falha do antibiótico é o erro que custa o nervo.

A segunda pergunta é sobre adesão real, e não sobre presença nas doses supervisionadas. As doses mensais estão registradas, mas a clofazimina e a dapsona diárias são autoadministradas em casa e não são conferidas por ninguém. Pergunte quantos dias ele deixou de tomar no último mês, sem tom de cobrança, e pergunte se a pele escurecendo o fez parar — porque essa é a razão mais comum de abandono silencioso.

A terceira é se o esquema está certo para o peso e para a classificação. Paciente reclassificado, paciente que ganhou ou perdeu peso, paciente que recebeu cartela infantil pesando 55 quilos: confira a cartela contra a balança.

A quarta é se o diagnóstico está certo. Lesão que não muda em nada e que nunca teve alteração de sensibilidade documentada pode não ser hanseníase — e nesse ponto valem os diferenciais dermatológicos, com a régua de que lesão infiltrada persistente em área fotoexposta pede pensar em tumor de pele, assunto dos capítulos próprios desta apostila.

Só depois de esgotadas essas quatro é que se investiga resistência. E os critérios são objetivos: no caso novo multibacilar, índice baciloscópico igual ou maior que 2,0 já indica encaminhar para investigação de resistência primária, mantendo a poliquimioterapia enquanto o resultado não vem. Depois do tratamento, investiga-se resistência secundária quando as lesões infiltradas ou os hansenomas permanecem com aspecto clínico inalterado em relação ao diagnóstico, quando o índice baciloscópico não caiu ou subiu em relação a um exame feito há pelo menos um ano nos mesmos sítios, quando há reações reentrantes por mais de três anos após a alta sem resposta a corticoide ou talidomida, quando houve abandono por mais de seis meses em multibacilar, e quando há recidiva comprovada após cinco anos do tratamento prévio.

Uma trava a memorizar: não se estende a poliquimioterapia além de doze meses e não se repete o esquema por conta de lesão que não sumiu. Novo ciclo só em duas hipóteses — resistência comprovada, com esquema de segunda linha específico para a mutação; ou recidiva e abandono prolongado, que reiniciam o esquema padrão com notificação como recidiva ou como outros reingressos, conforme o caso.

4. O que não serve como parâmetro

Baciloscopia de controle mensal não existe na hanseníase. Ao contrário da tuberculose, aqui não há exame de escarro que se acompanhe mês a mês: o índice baciloscópico cai lentamente, continua caindo depois da suspensão dos antibióticos, e repetições em intervalo curto não informam nada. Quando indicada no pós-alta, ela é repetida com intervalo não inferior a um ano e sempre nos mesmos sítios de coleta.

Sorologia anti-PGL-1 e teste rápido não servem para acompanhar tratamento na rotina do SUS: o uso aprovado é exclusivamente a investigação de contatos. O mesmo vale para o qPCR.

O aspecto da mancha não serve como parâmetro de eficácia, pelas razões já ditas, e a ausência de dor não serve como parâmetro de função neural. E a impressão do paciente de que está bem é dado clínico valioso para adesão e enganoso para nervo: a neuropatia que produz sequela é justamente a que não dói.

Finalmente, um parâmetro que não é do paciente e sim do serviço, mas que o interno deveria olhar: quantos dos contatos que ele listou foram efetivamente examinados. É o indicador que ficou em 80,0% no Brasil em 2024, e é o único parâmetro deste capítulo cuja melhora reduz o número de casos do ano que vem.

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Onde o erro machuca

Olhar a mancha sem testar a sensibilidade

O dano: É o erro que abre este capítulo e o que sustenta os números do país. Sem o teste, uma lesão hansênica é indistinguível de uma micose a olho nu, e o paciente sai com antifúngico. Cada ciclo desses custa dois a três meses; três ciclos custam três anos, que é o tempo que Elizete levou. Nesse intervalo o nervo é colonizado em silêncio, e a proporção de brasileiros que chega ao diagnóstico já com grau 1 ou 2 de incapacidade — quase metade em 2024 — é feita exatamente desse atraso.

Como pegar a tempo: Transforme em rotina, não em raciocínio: toda mancha hipocrômica ou eritematosa que chega à sua frente é testada, sempre, sem exceção e sem hipótese prévia. Dois tubos com água morna e fria, uma agulha usada pela ponta e pelo cabo, um fiapo de algodão. Olhos fechados, ordem imprevisível, sempre comparando a lesão com a pele sadia ao lado.

Testar só o tato, ou testar só o centro da lesão

O dano: As fibras finas, que conduzem temperatura e dor, são atingidas antes das grossas, que conduzem tato. Testar apenas o algodão é usar o mais tardio dos três testes: a lesão inicial, que já perdeu a térmica, responde ao toque e é dada como normal. E testar só o centro perde as lesões foveolares da forma dimorfa, em que o centro parece poupado e a doença está na borda infiltrada.

Como pegar a tempo: Sempre na ordem térmica, dolorosa, tátil — a térmica primeiro porque é a mais sensível. E teste centro e borda de cada lesão. Se o resultado for duvidoso, o caso não está descartado: ele é encaminhado para a Atenção Especializada, não devolvido para casa.

Examinar só a parte do corpo que o paciente apontou

O dano: O bacilo prefere as áreas mais frias, e elas incluem justamente as que o paciente não enxerga: dorso, nádegas, face posterior dos braços e das coxas. Lesões nessas áreas mudam a contagem, e a contagem muda a classificação operacional — que é o que decide seis ou doze doses. Um paciente examinado pela metade pode ser tratado pela metade.

Como pegar a tempo: Pele inteira, paciente despido, luz boa, e a face e os pavilhões auriculares no mesmo movimento. Se o serviço não tem sala com privacidade e luz, isso é problema a resolver, não motivo para examinar por cima.

Ler baciloscopia negativa como exclusão de hanseníase

O dano: A baciloscopia é obrigatoriamente negativa em todos os casos paucibacilares — que são a metade do espectro e, sobretudo, a metade que ainda dá para curar sem sequela. Um resultado negativo devolvido como "descartado" fecha a investigação exatamente no paciente que mais se beneficiaria dela, e ainda dá ao próximo médico a falsa segurança de um exame já feito.

Como pegar a tempo: Memorize a assimetria: positiva confirma e classifica como multibacilar; negativa não faz nada. E lembre que a baciloscopia não é exame de rastreio — ela só entra na dúvida diagnóstica, no diferencial, na dúvida de classificação e na suspeita de recidiva.

Esperar exame, parecer ou vaga com especialista para começar o tratamento

O dano: O caso fechado por sinal cardinal está fechado. Cada semana de espera é semana de transmissão dentro de casa e de nervo sob risco — e é semana em que o paciente pode simplesmente não voltar. A hanseníase tem um dos maiores índices de perda de seguimento entre o diagnóstico e a primeira dose justamente porque o tratamento é frequentemente adiado por um exame que não muda conduta.

Como pegar a tempo: Primeira dose supervisionada na consulta em que o diagnóstico foi fechado, entregue na sua frente. Caso atípico ou duvidoso é encaminhado — mas, se o diagnóstico está definido, ele é encaminhado já tratando.

Usar teste rápido ou sorologia anti-PGL-1 para diagnosticar

O dano: Duplo. O positivo em pessoa sadia de área endêmica — situação comum, porque a soropositividade acompanha a endemicidade — gera tratamento indevido de seis a doze meses e rótulo de uma doença com estigma pesado. O negativo em paciente com mancha anestésica gera alta com falsa segurança, e o paciente paucibacilar é justamente o que costuma ser soronegativo.

Como pegar a tempo: No SUS, o teste rápido tem uso aprovado exclusivamente na investigação de contatos de casos confirmados, e o qPCR também. Fora disso, não peça. O diagnóstico é clínico.

Atribuir neuropatia assimétrica a esforço repetitivo, coluna ou idade sem palpar nervo e sem olhar a pele

O dano: É a segunda porta pela qual a hanseníase entra sem ser reconhecida, e é o caminho que a forma neural pura percorre inteiro. A ressonância de coluna sempre encontra alguma coisa em quem trabalha curvado, e o achado degenerativo compatível com a idade fecha a investigação por meses. Enquanto isso o nervo continua sendo destruído, e a fase reversível passa.

Como pegar a tempo: Três perguntas em qualquer neuropatia periférica: é assimétrica e em território de nervo? Há nervo palpavelmente espessado ou doloroso? Perdeu térmica e dolorosa antes de tato e propriocepção? Sim para qualquer uma, examine a pele inteira. E achado degenerativo de imagem não explica déficit em território de um nervo periférico específico com nervo espessado à palpação.

Tratar a reação hansênica como falha do tratamento e suspender a poliquimioterapia

O dano: Suspender a poliquimioterapia apenas por reação pode interromper o tratamento da infecção sem tratar adequadamente a inflamação. A reação pode ocorrer antes, durante ou após a PQT e não demonstra sozinha eficácia ou falha. Diferenciar reação de evento adverso ao medicamento, que pode exigir suspensão específica.

Como pegar a tempo: Reação não interrompe a poliquimioterapia: mantém-se o esquema e acrescenta-se o anti-inflamatório. E se a reação surgir depois de completadas as doses, a poliquimioterapia não é reintroduzida — exceto se o caso preencher critério de recidiva.

Adiar o corticoide na neurite aguda para "ver como evolui" ou para conseguir uma vaga com especialista

O dano: O nervo inflamado está dentro de uma bainha inextensível, num túnel anatômico estreito. A pressão sobe, a perfusão cai e o axônio isquemia. A perda de função começa reversível e se torna definitiva em dias. Não existe recuperação tardia do que se perdeu por atraso: a mão que se perde nessa janela é a mão que o paciente vai ter pelo resto da vida.

Como pegar a tempo: Trate a neurite hansênica com a mesma urgência temporal de uma reperfusão. Diagnóstico é clínico — dor em nervo, perda de força ou de sensibilidade nova em relação à avaliação anterior. Prednisona 1 mg/kg/dia por via oral no mesmo dia, mais imobilização do membro, mais profilaxia de estrongiloidíase, sem esperar exame e sem esperar vaga.

Reduzir o corticoide pelo calendário, ignorando a avaliação neural

O dano: A escada de retirada foi feita para descer quando o nervo permite. Descer com o paciente piorando devolve a inflamação a um nervo já lesado e transforma dano parcial em dano permanente. No sentido oposto, manter dose alta por tempo indeterminado acumula hipertensão, hiperglicemia, osteoporose, catarata, úlcera péptica e supressão adrenal em quem já tem risco.

Como pegar a tempo: Antes de cada degrau, repita a Avaliação Neurológica Simplificada e compare com a anterior. Estável ou melhor: desce. Pior: volta ao degrau anterior. E se a escada literal terminar antes dos seis meses mínimos, permaneça nas doses baixas até completar o tempo — o parâmetro é o nervo, não a data.

Interpretar "não dói mais" como melhora da função neural

O dano: O corticoide reduz a inflamação neural e ajuda a prevenir dano, mas alívio da dor não comprova recuperação de função. Pior: existe a neurite silenciosa, em que a inflamação é insidiosa e a perda de sensibilidade e de força se instala sem dor nenhuma e sem que o paciente perceba. É justamente ela que gera sequela, porque ninguém intervém.

Como pegar a tempo: Nunca use dor como parâmetro de função. Use a série de avaliações neurológicas: sensibilidade por monofilamento ou por comparação, força por grupo muscular, escore Olhos, Mãos e Pés. E aumente a frequência das avaliações justamente em quem está usando corticoide sistêmico.

Não avisar sobre a urina alaranjada e sobre o escurecimento da pele

O dano: A urina alaranjada faz o paciente achar que está sangrando e parar o remédio. O escurecimento da pele pela clofazimina é pior, porque é visível para os outros: marca socialmente uma pessoa que já esconde a doença, e é uma das razões mais frequentes de abandono silencioso num país onde o abandono subiu de 4,6% para 7,3% em dez anos.

Como pegar a tempo: Avise antes de acontecer, na primeira consulta, com prazo: a urina fica laranja nos dias seguintes a cada dose mensal; a pele escurece ao longo do tratamento e clareia em seis a doze meses depois do fim, com traços que podem durar até quatro anos. E pergunte ativamente em cada retorno se a cor está incomodando — a pigmentação não é critério de suspensão, mas insatisfação extrema com risco real de abandono é conversa sobre o esquema, não sobre aguentar calado.

Delegar o exame dos contatos à vigilância, ou orientar o contato a "procurar a unidade"

O dano: Um em cada cinco contatos domiciliares de casos brasileiros nunca é examinado. Cada contato não examinado é um caso que só vai aparecer anos depois, com mais nervo perdido — e, do outro lado da conta, 13,3% de todos os casos novos de 2024 foram achados justamente examinando contatos. Ninguém com mancha que não dói e não coça procura serviço de saúde por conta própria.

Como pegar a tempo: Liste os contatos dos últimos cinco anos com nome, idade e forma de localização na mesma consulta do diagnóstico, e agende cada um com dia e hora. O exame do contato é o mesmo exame do caso e é feito por você, na Atenção Primária. Ofereça BCG a quem é elegível e teste rápido a quem não tem sinal cardinal.

Iniciar corticoterapia prolongada sem profilaxia de estrongiloidíase

O dano: Estrongiloidíase disseminada, com hiperinfecção, sepse por gram-negativos e letalidade alta — em um paciente que estava recebendo o tratamento certo para a coisa certa. É complicação inteiramente evitável, e a hanseníase concentra os dois fatores: alta prevalência de helmintíase intestinal nas mesmas populações e uso de corticoide em dose alta por seis meses ou mais.

Como pegar a tempo: No mesmo dia em que se prescreve a prednisona: albendazol 400 mg por via oral, dose única diária, por três dias consecutivos — ou ivermectina 200 microgramas por quilo em dose única.

Mandar a amostra de biópsia para pesquisa molecular em formol

O dano: O formol destrói o DNA e inutiliza o exame. O paciente precisa ser biopsiado de novo, o que significa novo procedimento, nova fila e semanas ou meses de atraso numa investigação que já estava em segunda linha.

Como pegar a tempo: Biópsia com punch de 2 a 6 mm, conservada em álcool 70%, em tubo com boa vedação, totalmente imersa, sem espaço vazio e com etiqueta resistente ao álcool. O formol é para a histopatologia; a amostra molecular vai em álcool.

Dar alta por cura sem explicar que reação e neurite ainda podem aparecer por anos

O dano: O paciente que tem uma reação seis meses depois da alta e não foi avisado interpreta como recaída, procura outro serviço, recebe o rótulo de "voltou a doença", às vezes recebe poliquimioterapia indevida — e, na melhor das hipóteses, demora a chegar ao corticoide, que é o que salva o nervo. Na pior, não chega.

Como pegar a tempo: Na última dose, diga com essas palavras: se aparecer dor em nervo, dormência nova, perda de força, mancha vermelha e inchada, nódulo doloroso ou olho que não fecha, volte imediatamente e sem agendamento; isso pode acontecer por até cinco anos e não significa que a doença voltou. Registre na caderneta de saúde da pessoa acometida e entregue-a ao paciente.

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O que dizer ao paciente e à família

Na hanseníase, a conversa não é a parte macia do atendimento — é parte do tratamento, e é mensurável. O abandono brasileiro subiu de 4,6% para 7,3% em dez anos, e as duas razões que mais aparecem não são toxicidade: são a pele escurecendo e a vergonha. O estigma da hanseníase é o mais antigo da medicina, tem palavra própria e sobrevive na linguagem cotidiana. O paciente chega esperando ser tratado como perigoso, e a primeira consulta confirma ou desmente essa expectativa. O impacto psicológico do diagnóstico pode ser grave e chega a incluir depressão e ideação suicida — quando isso aparece, a abordagem é a dos capítulos próprios desta coleção sobre risco de suicídio e sobre sofrimento e violência, e não uma frase de conforto.

Dar o diagnóstico

"O exame que eu fiz agora, com o algodão e com os tubos, mostrou que essa mancha perdeu a sensibilidade. Isso tem um nome: hanseníase. Vou começar pelo que mais importa: tem cura, o remédio é de graça, é aqui mesmo, e a senhora começa hoje. Depois das primeiras doses a senhora não transmite mais para ninguém de casa. Posso explicar como vai funcionar?"

Não diga: Dar o nome e fazer silêncio esperando a reação. Ou começar pela pergunta de onde ela pegou — que soa como cobrança e é a primeira coisa que faz o paciente fechar. A origem se investiga depois, e se investiga como lista de contatos, não como culpa.

O paciente pergunta se é lepra

"É a mesma doença que antigamente se chamava assim, sim. O nome mudou por lei no Brasil, e mudou por um motivo: o que as pessoas imaginam quando ouvem aquela palavra não tem quase nada a ver com o que a senhora tem. Não existe mais nada daquilo — nem isolamento, nem separação de ninguém. A senhora vai tomar remédio, continuar em casa, continuar trabalhando, e daqui a doze meses estar curada."

Não diga: Fingir que não é a mesma doença, ou desconversar. O paciente vai descobrir sozinho na internet, e aí perde a confiança em tudo o que você disse antes. Também evite usar você a palavra antiga — quem pode usá-la é o paciente.

A família na sala, e a pergunta sobre contágio

"Vou responder na frente de todo mundo, porque isso é importante. Não precisa separar prato, copo, talher, toalha, nem banheiro. Não pega por abraço, por beijo, por sentar junto, por dividir a cama. A transmissão é pelo ar, e só de quem está doente e ainda não começou o tratamento, convivendo dentro de casa por muito tempo. Ela começou hoje. Em poucos dias já não transmite mais."

Não diga: Responder isso apenas ao paciente, no consultório, sem a família presente. Quem decide se o prato vai ser separado é quem está em casa — e a decisão vai ser tomada com ou sem a sua informação.

Convocar os contatos sem transformar a consulta em culpa

"Preciso que todo mundo que mora ou morou com a senhora nos últimos cinco anos venha aqui para eu examinar. Não é porque alguém fez alguma coisa errada — é porque essa doença demora anos para dar sinal, e a mancha dela não dói nem coça, então ninguém vem por conta própria. É o exame que eu acabei de fazer na senhora, leva dez minutos. Vamos marcar aqui, com nome e horário, um por um."

Não diga: Dizer "a senhora precisa avisar sua família para procurar a unidade". Contato que sai com essa frase não vem — e um em cada cinco contatos brasileiros nunca é examinado exatamente assim.

Avisar sobre a cor da urina, antes que aconteça

"Nos dias depois de cada dose que a senhora toma aqui comigo, a urina vai ficar alaranjada, o suor também, e às vezes a lágrima. Não é sangue e não faz mal nenhum. Estou avisando agora para a senhora não se assustar e não parar o remédio quando acontecer."

Não diga: Deixar para explicar depois, ou não explicar. É o efeito mais inofensivo e o que mais interrompe tratamento por conta própria.

Avisar sobre o escurecimento da pele — a conversa que decide a adesão

"Tem um dos remédios que vai escurecer a sua pele. Vai ficar mais avermelhada e depois mais escura, principalmente nas manchas, e a pele das pernas e dos braços vai ressecar. Isso volta ao normal, mas devagar: começa a clarear uns seis meses depois que a senhora terminar o tratamento, e pode levar até um ano para sair de vez. Estou dizendo agora porque eu sei que isso incomoda, e porque, se incomodar demais em algum momento, eu quero que a senhora me diga — a gente conversa sobre o que dá para fazer. O que eu não quero é que a senhora pare sozinha."

Não diga: Minimizar ("é só uma corzinha") ou tratar como preço a pagar em silêncio. A pigmentação não é critério para suspender, mas insatisfação extrema com risco real de abandono é motivo legítimo para rediscutir o esquema — e o paciente só vai contar se você abriu a porta.

Explicar por que a mancha ainda vai estar lá

"A senhora vai terminar o tratamento com a mancha ainda aparecendo, mais clarinha do que hoje, mas ainda ali. Isso é o normal, não é o remédio falhando. A mancha é a marca que ficou; a doença acaba antes dela. Pode levar meses, às vezes mais de um ano, para sumir."

Não diga: Prometer que a mancha vai sumir com o tratamento. É a promessa mais comum e a que gera mais desconfiança lá na frente — inclusive a desconfiança de que o tratamento não serviu.

Preparar o paciente para a reação, antes de ela acontecer

"Tem uma coisa que pode acontecer no meio do tratamento, ou até depois de a senhora estar curada, e eu preciso que a senhora saiba reconhecer. As manchas podem ficar vermelhas e inchadas de repente, podem aparecer manchas novas, o cotovelo ou a perna podem doer, e a senhora pode começar a deixar cair coisas da mão. Se isso acontecer, venha no mesmo dia, sem marcar. Não é a doença voltando, não é o remédio falhando — é uma inflamação no nervo, e ela tem tratamento. Mas é dos poucos casos em que um dia faz diferença."

Não diga: Explicar reação só quando ela acontece. O paciente que não foi preparado espera a próxima consulta agendada, e nessa espera o nervo se perde.

No dia da reação, quando o paciente pergunta se voltou tudo

"Não voltou. A infecção continua sendo tratada e o remédio não vai parar. O que está acontecendo é uma inflamação: o seu corpo está reagindo aos restos do micróbio, inclusive aos que já morreram. É por isso que isso acontece justamente em quem está tratando. Vou acrescentar um comprimido para desinflamar, começando hoje, e a senhora vai voltar aqui daqui a quinze dias para eu medir de novo a força da sua mão."

Não diga: "Piorou" ou "não está respondendo". Além de errado, entrega ao paciente a conclusão de que o tratamento não serve — e é isso que faz alguém parar de tomar.

Falar sobre o que não vai voltar

"Eu preciso ser honesto sobre uma parte. A infecção vai ser curada, isso é certo. Mas o nervo da sua mão direita já estava machucado quando a senhora chegou aqui, e parte dessa força não volta. A gente vai trabalhar para recuperar o que dá, e vai proteger o que restou — e é por isso que eu insisto tanto em olhar a mão todos os dias e em não pegar coisa quente com essa mão. O que a senhora tem hoje, a gente segura."

Não diga: Prometer recuperação total, e também apresentar a sequela como culpa do paciente por ter demorado. Ele procurou o serviço cinco vezes em três anos. A demora não foi dele.

O paciente diz que não vai contar no trabalho nem para os vizinhos

"A senhora não é obrigada a contar para ninguém, e essa decisão é sua. O que eu preciso é de duas coisas: que a senhora venha aqui todo mês para a dose, e que as pessoas que moram com a senhora venham ser examinadas. Se ficar difícil vir no horário do trabalho, a gente resolve o horário. Se precisar de atestado sem o nome da doença, eu faço."

Não diga: Insistir para que ele conte, ou tratar o sigilo como negação da doença. Respeitar a decisão é o que mantém o paciente vindo — e quem some do serviço não trata.

A conversa da alta

"Hoje a senhora está curada da infecção, e isso está escrito na sua caderneta. Duas coisas ficam. A primeira: aquela inflamação do nervo ainda pode aparecer, por até uns cinco anos, e se aparecer a senhora volta no mesmo dia, sem marcar — mesmo com alta, mesmo curada. A segunda: a mão. Olhar todo dia, hidratar, cuidar com faca e com o quente. Não é para o resto do tratamento, é para o resto da vida — e é o que impede uma ferida que a senhora não sente de virar um problema grande."

Não diga: Dar a alta e encerrar o vínculo. Alta por cura significa sair do registro ativo, não sair do acompanhamento — sobretudo em quem tem incapacidade instalada ou reação em curso.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Profilaxia pós-exposição dos contatos com rifampicina em dose única: o Brasil deveria oferecer?

Há evidência de proteção, e ela é custo-efetiva

A síntese de evidências internacional mostra efeito protetor da rifampicina em dose única para contatos, concentrado nos primeiros dois anos, sem efeito adicional detectável aos quatro e aos seis anos — mas com impacto que permaneceu estatisticamente significativo aos seis anos. A análise baseada no estudo COLEP encontrou custo-efetividade de cerca de 158 dólares por caso de hanseníase evitado, e um subestudo do mesmo ensaio sugeriu que a vacina BCG ao nascer potencializa o efeito protetor da dose única, elevando-o de 57% para 80%. Reunião de especialistas concluiu ainda que a dose única não aumenta o risco de tuberculose resistente à rifampicina, com a ressalva de excluir tuberculose antes de administrá-la. Na consulta pública brasileira sobre o tema, 16% das 121 contribuições técnico-científicas discordaram da exclusão.

Conitec, Relatório de recomendação nº 525, junho de 2020 — seção de evidências sobre rifampicina em dose única, com os dados do estudo COLEP e da síntese da Organização Mundial da Saúde, e a análise das contribuições da Consulta Pública nº 07/2020.

A intervenção foi excluída do SUS depois de testada no país

O Brasil incorporou a rifampicina em dose única para quimioprofilaxia de contatos por meio da Portaria SCTIE/MS nº 32, de 30 de junho de 2015, especificamente para conduzir o projeto PEP-Hans Brasil, realizado entre 2016 e 2018 em municípios do Mato Grosso, de Pernambuco e do Tocantins — áreas de alta endemicidade —, com a dose administrada no segundo mês de tratamento do caso-índice. Concluído o estudo, o plenário da Conitec deliberou por unanimidade, na 87ª reunião ordinária de 3 de junho de 2020, recomendar a exclusão; 83% das contribuições técnico-científicas da consulta pública concordaram. A decisão foi publicada na Portaria nº 18, de 15 de junho de 2020. A conclusão registrada no relatório é que são necessários mais estudos sobre a eficácia da dose única repetida em desfechos de longo prazo.

Conitec, Relatório de recomendação nº 525, junho de 2020 — descrição do projeto PEP-Hans Brasil, recomendação final da 87ª reunião ordinária e decisão publicada na Portaria nº 18, Diário Oficial da União nº 112, seção 1, página 143, de 15 de junho de 2020.

Como decidir

Para o paciente à sua frente, a decisão está tomada por norma e por disponibilidade: a rifampicina em dose única não está disponível no SUS para profilaxia de contato, e prescrevê-la fora de protocolo significaria expor uma pessoa saudável a um antimicrobiano sem cobertura de política pública e sem monitoramento. O que existe e é seu dever oferecer é a combinação que o país adotou — exame clínico completo de todos os contatos dos últimos cinco anos, teste rápido para quem não tem sinal cardinal, vigilância ativa anual por cinco anos nos reagentes, vigilância passiva por autoexame nos não reagentes, e vacina BCG para os elegíveis. Vale reter o número da evidência ao decidir onde colocar sua energia: o exame de contatos achou 13,3% dos casos novos brasileiros de 2024, e ele depende inteiramente de alguém convocar e examinar. A discussão sobre profilaxia medicamentosa é de política nacional; a de examinar contato é sua, hoje.

Multibacilar: doze doses ou seis, com esquema uniformizado?

Doze doses, e a redução foi rejeitada explicitamente

A eficácia da poliquimioterapia com doze doses fixas está sustentada por coortes longas: 1,7% de recidiva em 730 pacientes multibacilares acompanhados por até dez anos, e, no Brasil, taxa de 1,16 recidiva por 1.000 pessoas-ano em 713 casos multibacilares seguidos por cerca de doze anos após a cura. Quando o grupo elaborador do protocolo brasileiro submeteu a proposta de reduzir o tratamento do multibacilar para seis meses a um painel formal com metodologia GRADE, reunindo gestores, especialistas e pacientes, o painel recomendou fortemente contra a redução, ponderando efeitos desejáveis e indesejáveis, certeza da evidência, valores e preferências, recursos, equidade, aceitabilidade e viabilidade.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase, Ministério da Saúde, 2022 — item 10.1.1 e Apêndice B, painel GRADE de 4 de outubro de 2021 sobre a redução do tempo de tratamento dos casos multibacilares.

A pergunta é legítima e foi testada num ensaio brasileiro

A ideia de uniformizar não é arbitrária: a duração do tratamento do multibacilar foi progressivamente reduzida ao longo das décadas — de no mínimo dois anos para 24 meses fixos e depois para doze doses fixas, sempre sem perda de eficácia demonstrada — e a própria classificação operacional foi ficando mais grosseira, empurrando cada vez mais pacientes paucibacilares para o esquema de multibacilar. O ensaio brasileiro Uniform multidrug therapy for leprosy patients in Brazil, aberto, randomizado e controlado em pacientes multibacilares, foi conduzido justamente para testar se o encurtamento se sustentaria, e é a evidência que o painel avaliou. Encurtar teria efeito direto sobre a adesão num país cujo abandono subiu de 4,6% para 7,3% em dez anos.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase, Ministério da Saúde, 2022 — item 10.1.1, histórico das reduções de duração e dos critérios de classificação, e Apêndice B, evidência analisada pelo painel; Boletim Epidemiológico de Hanseníase, Número Especial, janeiro de 2026, para a série de abandono.

Como decidir

Aqui não há escolha a fazer à beira do leito: o multibacilar recebe doze doses, e o protocolo é explícito ao não autorizar nem a extensão além de doze meses nem a redução. O que a divergência ensina é onde investir a sua energia clínica. Se o argumento a favor de encurtar é a adesão, e a adesão é de fato o calcanhar do país, então o ganho que está ao seu alcance não é mudar a duração — é reduzir o abandono dentro dos doze meses. Isso se faz com o que este capítulo descreve: avisar sobre a cor da urina e da pele antes que apareçam, explicar que a mancha vai demorar a sumir, preparar o paciente para a reação, resolver o horário da dose supervisionada, e usar a janela de dezoito meses para que uma falta não vire recomeço.

Um único nervo comprometido: paucibacilar ou multibacilar?

Multibacilar, pela régua internacional

A Organização Mundial da Saúde recomenda classificar como multibacilar o caso com comprometimento de um único nervo periférico. A lógica é de segurança operacional: a classificação existe para escolher tratamento em serviços de qualquer complexidade, e o erro de tratar a menos deixa doença ativa e favorece resistência, enquanto o erro de tratar a mais acrescenta seis meses de um esquema de baixa toxicidade. Há consenso, aliás, de que dois ou mais nervos comprometidos com perda documentada de sensibilidade nos respectivos territórios classificam o caso como multibacilar.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase, Ministério da Saúde, 2022 — item 6.3.2, ao registrar a recomendação da Organização Mundial da Saúde.

Paucibacilar, pela tradição clínica brasileira, sob condição

Na literatura brasileira é clássica a descrição do comprometimento isolado de um nervo periférico na forma tuberculoide, consensualmente reconhecida como paucibacilar. O protocolo nacional aceita essa leitura, mas condiciona: é aceitável classificar e tratar como paucibacilar o caso com um único nervo acometido desde que a avaliação tenha sido feita em unidade que conte com profissionais experientes no cuidado em hanseníase, que frequentemente embasam a decisão em avaliação clínica especializada e em exames complementares como baciloscopia e biópsia cutânea.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase, Ministério da Saúde, 2022 — item 6.3.2, ao registrar a posição da literatura brasileira e a condição para adotá-la.

Como decidir

A régua de decisão é a experiência do serviço em que você está, e ela não é meritocracia: é reconhecimento de que classificar um nervo isolado exige um exame que precisa ser confiável. Se você é o interno da unidade básica, sem retaguarda de alguém com experiência em hanseníase e sem baciloscopia disponível, a decisão correta é multibacilar — porque o próprio protocolo determina que todo caso que suscite dúvida sobre a classificação seja tratado como multibacilar, e porque a assimetria de dano é clara: seis meses a mais de um esquema bem tolerado contra doença ativa não tratada em quem tem nervo comprometido. Se há retaguarda especializada e o caso é uma placa tuberculoide típica com um único nervo e baciloscopia negativa, a leitura brasileira é legítima. O que não se faz é decidir por seis doses porque doze parecem muito tempo.

Corticoide na reação: dose inicial e por quanto tempo?

Um miligrama por quilo por dia, com no mínimo seis meses

A recomendação brasileira é prednisona por via oral na dose inicial de 1 mg/kg/dia, com redução gradual em torno de 10 mg a cada quinze dias até 20 mg/dia, depois 5 mg a cada quinze dias, mantendo 5 mg/dia por quinze dias e 5 mg em dias alternados por mais quinze — com a corticoterapia mantida, em média, por um mínimo de seis meses e monitoramento periódico da função neural e dos efeitos colaterais. O que sustenta a duração longa é um ensaio duplo-cego e randomizado com 334 pacientes em reação reversa, no qual a corticoterapia por cinco meses produziu melhores resultados que a de três meses quanto à necessidade de um segundo curso de corticoide.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase, Ministério da Saúde, 2022 — item 10.1.2.1, recomendação nacional e ensaio de 334 pacientes com reação reversa.

As doses altas e os cursos mais longos não se mostraram superiores

Os mesmos ensaios citados pelo protocolo mostram que, no mesmo estudo de 334 pacientes, não houve diferença significativa entre iniciar com 60 mg/dia e iniciar com 30 mg/dia. Um ensaio triplo-cego e randomizado com 868 pacientes com neurite de menos de seis meses de evolução comparou prednisolona por 20 semanas e por 32 semanas e não encontrou diferença na proporção de melhora ou recuperação da função neural — 78% contra 77,5%. E um ensaio brasileiro com 21 casos de neurite ulnar mostrou que, em pacientes tratados precocemente, com menos de três meses de neurite, não houve diferença na recuperação entre a dose inicial de 1 mg/kg/dia e a de 2 mg/kg/dia. O texto do protocolo reconhece explicitamente que não há consenso na literatura sobre as doses ideais nem sobre o tempo de administração.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase, Ministério da Saúde, 2022 — item 10.1.2.1, ensaios de 334 e de 868 pacientes e o ensaio brasileiro de 21 casos de neurite ulnar.

Como decidir

O que os três ensaios têm em comum é mais útil que o que os separa: nenhum deles achou vantagem em subir a dose, e o ensaio brasileiro mostra que o que determinou a recuperação foi tratar cedo — antes de três meses de neurite. Ou seja, a variável que você controla é o tempo até a primeira dose, não a altura dela. Adote 1 mg/kg/dia, que é a recomendação nacional, e coloque o seu esforço em não atrasar. Na descida, deixe que o nervo mande: desce quando a avaliação neural está estável ou melhor, volta um degrau quando piora, e prolonga as doses baixas quando a escada terminar antes dos seis meses. E pese o risco do outro lado em quem já tem diabetes, hipertensão, osteoporose ou úlcera péptica — nesses pacientes, a evidência de que doses menores não são inferiores é um argumento legítimo para não subir a dose e para encurtar o tempo em dose alta, sempre com avaliação neural quinzenal para saber se a aposta está dando certo.

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O raciocínio, em voz alta

Neuza, 57 anos, diarista, nasceu no interior do Maranhão e mora em Belo Horizonte há vinte anos. Chega ao pronto-atendimento pela terceira vez em dois meses com febre de 38,2 °C, dores nas juntas de mãos, punhos e joelhos, dor nas canelas e caroços doloridos nos braços e nas coxas que aparecem e somem. Já recebeu diagnóstico de virose, depois de artrite reumatoide, e está usando prednisona 20 mg/dia prescrita há três semanas, com melhora enquanto toma e piora quando tenta parar. Conta, se perguntada, que o nariz vive entupido e sangra às vezes, e que "engrossou o rosto" no último ano. Refere formigamento nas mãos e nos pés há mais de um ano, que atribui ao trabalho. Hemograma: leucócitos 16.200 com neutrofilia, plaquetas 520.000, hemoglobina 10,8. Proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação elevadas.

  1. o que penso agora

    Uma síndrome febril com poliartralgia, nódulos subcutâneos dolorosos, leucocitose com neutrofilia e provas inflamatórias altas abre um leque grande — e é justamente por ser grande que ele costuma ser fechado com o rótulo mais familiar, que foi o que aconteceu aqui. Mas três dados desalinham o rótulo de artrite reumatoide. Primeiro, os nódulos: nódulo reumatoide não é doloroso, não some e não vai e volta; nódulo que dói, aparece em surto e regride é paniculite. Segundo, a queixa de nariz entupido com sangramento e o relato de espessamento da face, que não pertencem a nenhuma artropatia comum. Terceiro, a dormência de mãos e pés há mais de um ano, que ninguém somou. E há um dado epidemiológico que quase ninguém colhe: ela nasceu e viveu no Maranhão, e a incubação da hanseníase se conta em anos. O quadro que junta paniculite dolorosa em surtos, febre, artralgia, infiltração da face e neuropatia é reação hansênica tipo 2 em uma paciente com hanseníase virchowiana ainda não diagnosticada — e a corticoterapia que ela já vem tomando é exatamente o que vem mascarando o quadro e o que faz tudo piorar quando ela tenta parar.

  2. o que eu faço antes de pedir qualquer exame

    Peço que ela se dispa e olho a pele inteira sob boa luz. Encontro o que a roupa escondia: infiltração difusa da face com acentuação dos sulcos, madarose da porção lateral dos supercílios, pavilhões auriculares aumentados e infiltrados, e dezenas de pápulas e nódulos firmes e acastanhados no tronco e nos membros, além dos nódulos dolorosos e eritematosos do quadro atual. Testo a sensibilidade nas lesões — e aqui vem o achado que engana: as lesões infiltradas têm sensibilidade praticamente normal. Isso não afasta nada. Ao contrário: é o esperado no polo virchowiano, em que a destruição dos filetes nervosos cutâneos depende de uma inflamação que justamente falta. Palpo os nervos: ulnares, medianos, fibulares comuns e tibiais posteriores espessados, de forma difusa e simétrica, sem dor importante à palpação. Testo força e sensibilidade de mãos e pés: hipoestesia em bota e em luva, força globalmente reduzida mas simétrica. Peço que feche os olhos com força — fecham. Acuidade visual preservada. Conto: mais de cinco lesões, muito mais. Sensibilidade normal nas lesões e nervos espessados com déficit: o segundo sinal cardinal está presente, e o caso está fechado.

  3. o que peço, e por quê

    Baciloscopia de raspado intradérmico, colhida em lóbulos auriculares, cotovelos e em lesão. Não porque eu precise dela para diagnosticar — o diagnóstico já está feito pelo sinal cardinal —, mas por três motivos objetivos: ela confirma bacteriologicamente, ela é uma das indicações formais do exame (dúvida na classificação e no diferencial), e o índice baciloscópico vai me dizer se essa paciente precisa ser investigada para resistência primária. Peso a paciente na balança, porque é o peso que escolhe a cartela. E, como todo paciente com hanseníase, solicito avaliação para tuberculose, hepatites B e C, HIV, HTLV-1, parasitas intestinais incluindo estrongiloides, e glicemia — a lista de comorbidades a rastrear é do próprio protocolo, e aqui ela tem peso extra porque essa mulher vai receber corticoide por meses. Não peço fator reumatoide nem anticorpos antinucleares para "afastar" reumatológica: a hipótese reumatológica caiu quando a pele foi examinada.

  4. o que os resultados devolvem

    Baciloscopia com índice baciloscópico médio de 4,5, francamente positiva. Peso 58 quilos. Sorologias negativas, parasitológico com ovos de ancilostomídeo, glicemia de jejum 118 mg/dL. Índice baciloscópico igual ou maior que 2,0 em caso novo multibacilar tem consequência específica: essa paciente é encaminhada à Atenção Especializada para investigação de resistência primária, com biópsia colhida preferencialmente em hansenoma ou lesão infiltrada e enviada ao Laboratório Central — e isso acontece sem interromper nem adiar a poliquimioterapia, que começa hoje.

  5. como a resposta muda o que eu penso

    A baciloscopia fortemente positiva confirma classificação multibacilar e explica a reação tipo 2, que ocorre exclusivamente em multibacilares com carga bacilar alta. Também explica a glicemia limítrofe e a anemia, que se somam ao corticoide que ela já vem tomando às cegas há três semanas. E muda o meu problema: eu tenho agora duas coisas para tratar ao mesmo tempo — a infecção, com poliquimioterapia, e a reação, com anti-inflamatório —, e elas são independentes. Uma não substitui a outra, e o fim de uma não encerra a outra.

  6. o que eu prescrevo hoje, por extenso

    Poliquimioterapia única, cartela adulto, porque ela pesa 58 quilos: dose mensal supervisionada de rifampicina 600 mg, clofazimina 300 mg e dapsona 100 mg, tomada agora, na minha frente e de estômago vazio; dose diária autoadministrada de clofazimina 50 mg e dapsona 100 mg. Doze doses mensais, a completar em até dezoito meses. Para a reação tipo 2, a primeira escolha seria talidomida 100 a 400 mg por dia — mas antes de decidir eu preciso responder a uma pergunta: há neurite aguda, orquite ou episclerite? Ela tem nervos espessados com déficit, mas simétrico, crônico, sem dor à palpação e sem piora documentada em relação a nenhuma avaliação anterior, porque não há avaliação anterior. Não é neurite aguda. Não há episclerite ao exame. Ela é mulher de 57 anos, e a talidomida exige exclusão de gravidez e dois métodos contraceptivos em mulher com potencial reprodutivo — o que aqui precisa ser verificado e documentado, e não presumido pela idade. Prescrevo talidomida 200 mg por dia, com o registro e o controle exigidos pela legislação de dispensação, e faço a retirada do corticoide que ela já vem usando de forma escalonada, e não abrupta, porque três semanas de prednisona 20 mg/dia já bastam para suprimir o eixo. Como haverá associação de talidomida e corticoide durante a retirada, acrescento ácido acetilsalicílico 100 mg por dia como profilaxia de tromboembolismo. E, como ela vem usando e ainda vai usar corticoide, prescrevo albendazol 400 mg por via oral, uma vez ao dia, por três dias — que aqui trata o parasita encontrado e previne a estrongiloidíase disseminada.

  7. o que eu faço antes de ela sair da sala

    Registro grau de incapacidade física e escore Olhos, Mãos e Pés — ela tem grau 1 nas duas mãos e nos dois pés, sem deformidade visível, e grau zero nos olhos: escore 4. Notifico no Sinan. Aviso sobre a urina alaranjada e sobre o escurecimento da pele, com prazo. Explico que em poucos dias ela deixa de transmitir. Explico que os nódulos podem voltar em surtos por meses e que isso não é falha do tratamento. Oriento autocuidado com mãos e pés insensíveis, inspeção diária, hidratação e proteção contra calor. E listo os contatos domiciliares dos últimos cinco anos: marido, dois filhos adultos que moram na mesma casa, uma neta de 9 anos, e uma irmã que morou com eles em 2021 — cinco pessoas, todas agendadas com dia e hora para exame na semana seguinte, com teste rápido para quem não tiver sinal cardinal e BCG para os elegíveis.

  8. o que eu vou vigiar, e com que prazo

    Corticoterapia trata a inflamação da reação e pode ajudar a preservar função neural. A resposta precisa ser acompanhada por sensibilidade e força comparadas ao basal: dor pode melhorar enquanto persiste déficit ou ocorre neurite silenciosa.

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Faça você

Oito meses depois da alta por cura. Elizete voltou à unidade sem agendamento, como você tinha pedido que ela fizesse. Diz que há cinco dias as manchas do braço ficaram vermelhas e inchadas de novo, apareceram duas manchas novas na perna direita, o cotovelo esquerdo — que nunca tinha doído — começou a doer forte, e ontem ela derrubou uma panela com a mão esquerda, que sempre foi a boa. Está com 64 quilos. Ao exame: lesões antigas eritemato-vinhosas e edemaciadas, duas lesões novas, ulnar esquerdo espessado e doloroso com retirada do braço à palpação, e força de abdução dos dedos da mão esquerda reduzida — a Avaliação Neurológica Simplificada da alta, que está no prontuário, registrava força normal à esquerda. A mão direita está como estava na alta. Ela chega assustada, dizendo que a doença voltou e perguntando se vai ter que fazer tudo de novo.

  1. o que este retorno significa antes de qualquer pergunta

    Este é o cenário que o capítulo inteiro tentou antecipar, e ele chegou do jeito mais comum: depois da alta, com o paciente convencido de que fracassou. Há um dado objetivo que decide a conduta e que não depende de nenhum exame — existe uma Avaliação Neurológica Simplificada anterior, feita na alta, e a força da mão esquerda mudou em relação a ela. Não é impressão, é comparação documentada. E há uma janela: perda de função por inflamação de nervo começa reversível e se torna definitiva em dias.

  2. o que precisa ser verificado antes de decidir

    Se ela completou de fato as doze doses e em que data foi a alta — está no prontuário e na caderneta. Se as lesões atuais são as antigas inflamadas mais lesões novas, ou se há nódulos subcutâneos dolorosos, que apontariam para outro tipo de reação. Se há febre, artralgia, dor óssea, dor ocular ou alteração visual. Como está o fechamento das pálpebras e a acuidade visual. Se há sinal em outros nervos além do ulnar esquerdo. Se há gestação em curso ou possibilidade dela. Se ela tem diabetes, hipertensão, úlcera péptica ou osteoporose, porque isso muda o cuidado com o corticoide. E se ela guardou em casa algum comprimido de prednisona da reação anterior e vem se automedicando — que é o que muita gente faz e ninguém pergunta.

  3. o que se encontra

    Doze doses confirmadas, alta há oito meses. Lesões antigas inflamadas mais duas novas, sem nódulos subcutâneos. Sem febre, sem artralgia, sem queixa ocular. Pálpebras fechando normalmente, acuidade visual preservada. Apenas o ulnar esquerdo alterado; o direito está como na alta. Não está grávida, usa contraceptivo. Sem diabetes, sem hipertensão, sem úlcera. E, perguntada diretamente, ela conta que tomou dois comprimidos de 20 mg que sobraram da caixa da reação anterior, um ontem e um hoje de manhã, porque lembrou que aquilo tinha ajudado.

  4. a pergunta que fica

    Escreva a conduta de hoje, com todas as letras, antes de conferir. Qual é o diagnóstico deste episódio e por que ele não é recidiva. O que se prescreve hoje — fármaco, dose calculada para 64 quilos, via, frequência —, o que se prescreve junto por causa desse fármaco, e o que se faz com o membro afetado. Se a poliquimioterapia é ou não reintroduzida, e por quê. Qual é a escada de retirada completa, degrau a degrau, com o número de comprimidos de cada dose, e o que governa a passagem de um degrau para o outro. Em quanto tempo ela volta para a próxima avaliação. E o que se diz sobre os comprimidos que sobraram em casa. As respostas estão nos blocos da conduta, da reavaliação e nas tabelas do bloco de fluxos.

Ver como fecharíamos

Elizete tem quadro sugestivo de reação tipo 1 com neurite ulnar esquerda e perda motora recente documentada. Oito meses após alta, inflamação de lesões antigas e novas não comprova recidiva. Avaliar no mesmo dia com o supervisor, repetir avaliação neurológica simplificada e investigar olhos e outros nervos. Confirmadas as doses prévias, não reiniciar PQT apenas por esse episódio. Iniciar corticoterapia para neurite conforme peso, gravidade e PCDT, com prevenção de estrongiloidíase e monitorização pertinente; proteger o membro e acompanhar função de perto. Explicar que a reação inflamatória pode ocorrer após cura e que tratar cedo ajuda a preservar o nervo. Redução da dor não permite encerrar seguimento nem reduzir corticoide sem verificar função. Investigar recidiva ou resistência se a evolução e os critérios específicos levantarem essa hipótese.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O diagnóstico de hanseníase é clínico e se fecha com um dos três sinais cardinais: lesão de pele com alteração de sensibilidade térmica, dolorosa ou tátil; espessamento de nervo periférico com alteração sensitiva, motora ou autonômica no seu território; ou baciloscopia positiva. Um sinal basta, e os dois primeiros se acham com as mãos, de graça, em um minuto. Nenhum exame é pré-requisito para iniciar o tratamento, e esperar por baciloscopia, biópsia ou parecer especializado é a forma mais comum de perder o paciente entre o diagnóstico e a primeira dose. Baciloscopia é obrigatoriamente negativa em todo caso paucibacilar, de modo que aguardar por ela pode devolver para casa exatamente quem ainda daria para curar sem sequela. A história reúne os dois caminhos clássicos de atraso — a mancha tratada como micose e a neuropatia assimétrica atribuída a esforço ou a coluna —, e o achado degenerativo compatível com a idade não explica déficit em território de um nervo periférico específico.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o texto, apresente o caso principal em um minuto. Explique: Demonstrar alteração de sensibilidade, examinar nervos, classificar operacionalmente e tratar infecção e reação como problemas relacionados, mas distintos. Justifique a primeira conduta e indique um achado que mudaria o destino do paciente.

Em 30 dias

Resolva novamente o caso para completar. Compare hipótese, diferenciais, gravidade, plano e seguimento com o gabarito. Acrescente uma mudança de contexto — comorbidade, piora, gestação, barreira de acesso ou baixa adesão — e explique como adaptaria a decisão com o supervisor.

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Agora atenda

Você é o interno da unidade básica, sem preceptor na sala. Entra uma costureira de 38 anos com uma queixa anotada na triagem como "mancha na pele" — mancha que já foi tratada duas vezes como micose, que veio acompanhada de formigamento nas mãos rotulado como lesão por esforço, e de uma ressonância de coluna com achado degenerativo que fechou a investigação. Peça que ela se dispa, olhe a pele inteira sob boa luz, teste térmica, dolorosa e tátil em cada lesão e na pele sadia ao lado, palpe os cinco troncos nervosos dos dois lados, teste força de mãos, pés e pálpebras. Conte as lesões, classifique, pese a paciente, registre o grau de incapacidade física, escreva a prescrição com o nome da cartela e a dose de cada fármaco, dê a primeira dose ali mesmo, notifique — e saia da consulta com a lista dos contatos dos últimos cinco anos, cada um com dia e hora marcados.

Hanseníase: a mancha que não sente — Internato | OsceLabs