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Outras EspecialidadesDermatologia

As duas lesões que passam pela sala sem serem vistas

Carcinoma basocelular e espinocelular

Quem se olha de propósito, o que separa os dois carcinomas à inspeção e por que a diferença muda a pressa; as lesões precursoras e o que se faz com elas; a lesão que se acompanha, a que se biopsia e a que se encaminha hoje; como se faz e como se descreve uma biópsia de pele — e o que dizer a quem acabou de ouvir a palavra câncer.

Fontes deste capítulo

Instituto Nacional de Câncer (Brasil). Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026. 168 p. ISBN 978-65-88517-52-9 (versão eletrônica). Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilha Igual 4.0 Internacional.

Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Detecção precoce do câncer. Rio de Janeiro: INCA, 2021. 72 p. ISBN 978-65-88517-22-2 (versão eletrônica). Capítulo 2.3, Câncer de Pele. Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilha Igual 4.0 Internacional.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3. Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional.

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Procedimento: terapia fotodinâmica para tratamento de carcinoma basocelular superficial e nodular. Relatório de recomendação nº 835. Brasília, junho de 2023. Decisão publicada pela Portaria SECTICS/MS nº 46, de 5 de setembro de 2023.

TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de Regulação Ambulatorial – Dermatologia Adulto: versão digital 2023. Porto Alegre, 4 jan. 2018 [atual. 5 mai. 2023]. Protocolo 2 (Câncer de Pele Melanoma) e Protocolo 3 (Câncer de Pele Não Melanoma, Ceratoses Actínicas e Lesões Benignas).

01

Responda antes de ler

Mulher de 71 anos apresenta, na face anterior da perna direita, placa eritematosa de 2,5 cm, bem delimitada, com escama aderente, que não coça e persiste há dois anos, sem resposta a três meses de corticoide tópico e a dois meses de antifúngico tópico. Qual é a hipótese que deve governar a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Sete e cinquenta de uma terça-feira, na unidade básica de um distrito rural. A cidade tem vinte e dois mil habitantes, o hospital de referência fica a setenta quilômetros e a agenda da manhã tem dezesseis nomes mais as vagas de demanda espontânea, que a recepção já preencheu antes de você chegar. Você é o interno da unidade e a médica da equipe está na sala ao lado.

O terceiro nome é Ariovaldo Facchini, 63 anos, trabalhador rural. Entra com o boné na mão, senta e já anuncia o motivo antes que você pergunte: quer o pedido de exame de sangue que a enfermeira falou, e aproveita para pedir alguma coisa para a dor no ombro direito, que vem de uns meses e piora quando chove. É uma consulta de doze minutos, das que se resolvem com uma requisição e uma orientação.

Ele fala do ombro. Enquanto fala, vira o rosto para a janela — a sala tem uma janela grande virada para o leste e, às oito da manhã, a luz entra rasante. E a luz mostra uma coisa que a luz do teto não mostrava: na borda da orelha esquerda, na parte de cima, há uma crosta. Não é grande. Tem talvez oito milímetros. A crosta é meio amarelada e em volta dela a pele está mais rosada do que o resto da orelha, com um relevo que a luz de lado desenha e a luz de cima apaga.

Você pergunta desde quando. Ele leva a mão à orelha antes de responder, o que já é uma resposta: ele conhece aquilo, sabe exatamente onde está, mexe ali com frequência. Diz que faz tempo. Insistindo, chega a um número: mais de um ano. Diz que já fechou umas três ou quatro vezes e voltou a abrir. Diz que sangra quando ele esbarra com a toalha depois do banho. E diz a frase que este capítulo existe para desmontar: doutor, isso aí é do sol, todo mundo que trabalha na roça tem.

Você abre o prontuário. No último ano e meio há quatro atendimentos: um por lombalgia, dois por renovação de receita de losartana, um por um quadro de virose. Nos quatro há pressão arterial anotada, peso anotado, medicação anotada. Em nenhum dos quatro há uma palavra sobre a orelha.

Não é que os quatro médicos que o atenderam fossem descuidados. É que a orelha nunca foi a queixa. Ariovaldo veio quatro vezes por outra coisa e, nas quatro, respondeu sobre a outra coisa. A lesão esteve na sala em todas elas, a menos de um metro de distância, do lado esquerdo de quem senta na cadeira do paciente — e do lado direito de quem senta na cadeira do médico, que é o lado para onde o médico olha quando está escrevendo. Ela não estava escondida. Estava apenas fora da pergunta.

É isso que faz do câncer de pele um assunto do interno e não do especialista. Praticamente todo outro câncer exige um exame que alguém precisa pedir, agendar, executar e laudar: uma colonoscopia, uma mamografia, uma citologia, uma endoscopia. O câncer de pele exige uma coisa que não tem fila, não tem agendamento e não tem custo — exige que alguém olhe. E quem tem a chance de olhar é quem está com o paciente na sala, que na maior parte das vezes é você, e quase nunca é o dermatologista, porque a fila do dermatologista é longa e o motivo de encaminhamento é outro.

A economia disso é brutal. Uma lesão de oito milímetros na hélice da orelha, hoje, é um procedimento ambulatorial que cabe numa sala de curativo, sai com margem, cicatriza em duas semanas e devolve o paciente à lavoura. A mesma lesão daqui a três anos pode ser uma ressecção parcial do pavilhão auricular, com reconstrução, num centro que fica a setenta quilômetros. A doença é a mesma. O que mudou foi quantas manhãs de terça-feira ela passou dentro de uma sala sem que ninguém escrevesse uma linha sobre ela.

Este capítulo é sobre olhar de propósito. Não sobre fazer campanha, não sobre montar mutirão, não sobre virar dermatologista: sobre incluir no exame de rotina, na consulta que é sobre outra coisa, os quatro ou cinco segundos que separam ver de enxergar. E sobre o que fazer depois — porque olhar sem saber o que fazer com o que se vê produz encaminhamento em massa, fila maior e nenhum diagnóstico a mais.

Ao longo do capítulo, três decisões vão se repetir, e elas são as únicas três que existem: esta lesão eu acompanho, esta lesão eu biopsio, esta lesão eu encaminho hoje. Saber qual das três é a pergunta inteira. E, para chegar nela, é preciso primeiro saber quem se olha com atenção redobrada, o que separa os dois carcinomas mais comuns quando eles estão na sua frente, e por que essa diferença muda a pressa.

03

Quem adoece disso

O câncer de pele não melanoma é o câncer mais comum do Brasil, e a distância para o segundo não é pequena. A Estimativa 2026 do INCA, que vale para cada ano do triênio de 2026 a 2028, projeta 263.280 casos novos por ano, com risco de 122,90 por 100 mil habitantes: 136.180 em homens (130,42 por 100 mil) e 127.100 em mulheres (115,75 por 100 mil). É o tipo mais incidente em todas as regiões e nos dois sexos, com uma única exceção — na região Norte ele fica em segundo lugar.

Vale a pena olhar esse número ao lado do total. O mesmo documento estima cerca de 781 mil casos novos de câncer por ano no país, e cerca de 518 mil depois de tirar da conta os tumores de pele não melanoma. A diferença é justamente a pele: um em cada três diagnósticos de câncer no Brasil é um carcinoma cutâneo. É por isso que ele é divulgado em separado — não por ser menor, mas por ser tão grande que distorceria todas as proporções das outras listas.

O melanoma, que é o diferencial obrigatório deste capítulo e tem capítulo próprio nesta apostila, está estimado em 9.360 casos novos por ano, risco de 4,36 por 100 mil. São 28 casos de carcinoma para cada melanoma. Essa razão é a primeira coisa a carregar para a sala: quando você encontra uma lesão suspeita na pele exposta de um trabalhador de 63 anos, a aposta estatística inicial é carcinoma, e por larga margem. O que não autoriza parar de pensar em melanoma — autoriza saber que ele é o raro, e que o raro é o que mata.

O número absoluto de óbitos e o número estimado de casos respondem a perguntas diferentes. Não se deve dividir óbitos de 2023 por incidência projetada para 2026–2028 e interpretar o resultado como risco individual de morrer ou letalidade. Prognóstico depende de tipo, estágio, sítio, imunossupressão e tratamento. CBC costuma crescer localmente; CEC pode metastatizar, sobretudo nos casos de alto risco, e melanoma requer avaliação própria.

A distribuição geográfica desenha o fator de risco melhor do que qualquer lista. Entre homens, o risco estimado por 100 mil vai de 173,52 no Sudeste e 167,59 no Sul a 78,12 no Nordeste e 24,60 no Norte. Entre mulheres, de 192,98 no Sul a 27,14 no Norte. É uma diferença de sete vezes entre a ponta e a base do país, e ela não acompanha a radiação solar recebida — o Norte recebe mais sol que o Sul. Acompanha a cor da pele da população, que é o que decide quanto daquela radiação chega ao núcleo da célula.

O agente é a radiação ultravioleta, e o INCA classifica os carcinógenos do câncer de pele por grau de evidência. Com evidência suficiente para o não melanoma, além da radiação solar: arsênio e compostos inorgânicos, azatioprina, ciclosporina, destilação de alcatrão de carvão, fuligem, óleo de xisto, óleos minerais não tratados ou ligeiramente tratados, piche de alcatrão de carvão, radiação X e gama. Com evidência limitada: câmara de bronzeamento artificial, creosotos, gás mostarda, hidroclorotiazida, HIV tipo 1, metoxsaleno com ultravioleta A, HPV tipos 5 e 8 em portadores de epidermodisplasia verruciforme, poliomavírus de células de Merkel e refino de petróleo.

Leia essa lista de novo pensando em quem senta na sua cadeira. Azatioprina e ciclosporina são imunossupressores de transplantado. Hidroclorotiazida é a segunda linha mais banal da receita de hipertensão do país. Arsênio aparece na conservação de madeira e em formulações agrícolas. Piche e óleo mineral aparecem em oficina e em pavimentação. Não é uma lista de exposições exóticas: é a anamnese ocupacional de uma unidade básica de município do interior, e ela cabe em duas perguntas — o senhor trabalha ao ar livre, e o senhor usa alguma medicação contínua.

Trabalhador ao ar livre é a categoria de maior rendimento. Construção civil, agricultura, pesca, agentes de trânsito, salva-vidas, atletas e agentes comunitários de saúde recebem doses de ultravioleta de seis a oito vezes maiores que as de quem trabalha em ambiente fechado, segundo o INCA. Seis a oito vezes, todos os dias úteis, durante quarenta anos de vida laboral: é essa integral que produz o carcinoma espinocelular, e é por isso que ele aparece exatamente onde a roupa não cobre e o boné não alcança — testa, nariz, hélice da orelha, lábio inferior, dorso das mãos, antebraços.

Falta o número mais desconfortável, e ele vem do próprio INCA. O boletim de 2016 dedicado ao controle do câncer de pele levantou a produção do SUS em 2015 e encontrou 6.264 biópsias ambulatoriais registradas com código de câncer de pele em todo o país, e 31.089 cirurgias ambulatoriais e hospitalares para câncer de pele não melanoma. As estimativas do mesmo instituto para o ano seguinte projetavam 175.760 casos novos de não melanoma. Mesmo aceitando toda a subestimação que o próprio boletim declara — o registro do código não é obrigatório na biópsia, e há registros com código de pele sem relação com a doença —, a distância entre o que se estima e o que aparece no sistema é da ordem de uma grandeza.

Não é que os outros casos não existam. É que uma parte deles é tratada fora do SUS, uma parte é tratada e registrada sem código, e uma parte — a que interessa a este capítulo — está sentada numa cadeira de unidade básica com uma crosta na orelha, esperando alguém olhar. O boletim também mostra quem faz as biópsias que aparecem: o dermatologista responde por cerca de metade delas, e a maioria acontece em unidade especializada ou ambulatório de hospital. Quase nada acontece onde o paciente está.

04

Por que acontece o que acontece

A radiação ultravioleta B é absorvida diretamente pelo DNA e produz uma lesão química específica: duas bases pirimídicas vizinhas se ligam covalentemente entre si, formando um dímero que distorce a dupla-hélice. A célula tem maquinaria para cortar e refazer esse trecho, e na imensa maioria das vezes ela consegue. Quando não consegue, a polimerase atravessa o dímero adivinhando e deixa para trás uma troca de base característica, tão típica da luz solar que é chamada de assinatura ultravioleta. Cada exposição deixa algumas. Quarenta anos de lavoura deixam muitas.

É por isso que a dose importa mais do que o episódio. Não existe uma queimadura que cause carcinoma: existe uma superfície de pele que acumulou dano suficiente para que, em algum ponto dela, um clone de células tenha juntado as mutações certas. Essa é a ideia de campo de cancerização — a área exposta inteira está alterada, e não apenas a lesão que se vê. Ela explica por que quem teve um carcinoma tem risco alto de ter outro, por que o tratamento de uma lesão não protege a pele em volta, e por que a conduta de longo prazo é sobre o campo, não sobre o ponto.

Os dois carcinomas nascem da mesma epiderme, mas de linhagens e por caminhos diferentes, e é essa diferença que governa o comportamento clínico. O carcinoma basocelular parte de células com características das camadas basais e da unidade folicular, e o evento central é a desregulação da via Hedgehog, tipicamente pela perda do gene supressor que a mantém desligada. A via ligada de forma permanente produz proliferação local contínua — e produz um tumor que é extremamente dependente do estroma que o cerca. Um tumor que não sobrevive longe do seu tecido de origem é um tumor que quase não metastatiza: menos de um em mil.

O carcinoma espinocelular vem dos queratinócitos das camadas suprabasais e o evento precoce mais frequente é a perda de função do supressor tumoral que fiscaliza o dano de DNA. Perdido esse controle, a célula com dímero passa a se dividir em vez de parar ou morrer. O resultado é uma progressão que se pode ver em etapas na própria pele: a ceratose actínica é o clone alterado ainda confinado às camadas mais baixas; a doença de Bowen é o mesmo clone ocupando toda a espessura da epiderme sem atravessá-la; o carcinoma invasivo é o clone que rompeu a membrana basal. Quando rompe, ele tem acesso a linfáticos — e passa a poder metastatizar.

A diferença de padrão de exposição também é real e vale para a anamnese. O INCA registra que a exposição solar crônica se associa principalmente ao espinocelular, enquanto as exposições da infância, com história de uma ou mais queimaduras solares com bolha, se associam aos basocelulares e aos melanomas. Traduzindo para a sala: o trabalhador rural de 63 anos com dano actínico difuso no rosto tende ao espinocelular; o bancário de 45 anos, pele clara, que passou os verões da infância na praia e nunca trabalhou ao sol, tende ao basocelular no nariz. Os dois padrões coexistem em muita gente, e nenhum dos dois é regra fechada.

A imunidade celular é o terceiro eixo, e ele é o que transforma o transplantado num paciente diferente. O reconhecimento e a eliminação de queratinócitos com dano de DNA dependem de linfócitos T. Suprimir essa vigilância por anos não muda o dano acumulado — muda quantos clones alterados escapam. Azatioprina e ciclosporina não são apenas imunossupressores: são carcinógenos de pele com evidência suficiente na classificação que o próprio INCA reproduz, o que significa que uma parte do efeito é direta sobre a célula, e não apenas indireta pela imunossupressão. Em populações imunossuprimidas a razão entre os dois carcinomas se inverte, com predomínio do espinocelular, e as lesões tendem a ser múltiplas e a se comportar de forma mais agressiva.

A melanina fecha o mecanismo. Ela absorve e dispersa ultravioleta antes que ele chegue ao núcleo dos queratinócitos basais, e a proteção que oferece é grande — daí o gradiente de sete vezes entre Sul e Norte do país. Mas proteção grande não é proteção total, e a leitura preguiçosa desse fato produz um erro clínico específico: o de não examinar a pele de quem tem fototipo alto. Em pele escura os carcinomas são mais raros, aparecem com mais frequência em sítios não fotoexpostos, associam-se com mais peso a cicatrizes crônicas e a processos inflamatórios de longa duração, e chegam mais tarde ao diagnóstico justamente porque ninguém os procurou.

Por fim, o que separa este capítulo do de melanoma não é o grau de gravidade: é a célula. Melanoma nasce do melanócito, uma célula de origem embriológica distinta, com biologia de migração própria — ela já migrou uma vez, na vida embrionária, da crista neural até a epiderme. Um tumor derivado de uma célula que sabe migrar tem outra relação com a metástase, e por isso o melanoma exige medir a espessura da lesão e estadiar, enquanto o carcinoma exige, na esmagadora maioria dos casos, apenas retirar com margem. Estadiamento, índice de Breslow e conduta do melanoma são do capítulo de melanoma desta apostila; aqui, o melanoma entra só como o diferencial que você é obrigado a excluir antes de tratar qualquer lesão como carcinoma.

05

Como se apresenta de verdade

Objetivos práticos no internato. Reconhecer lesões suspeitas, selecionar biópsia adequada, interpretar risco e margens e garantir que o resultado produza uma conduta. O interno colhe e apresenta os dados, propõe o plano e executa atividades sob supervisão; prescrições, procedimentos e documentos são validados pelo profissional responsável. Estude o caso acompanhando o que cada achado muda na decisão, não apenas decorando critérios.

Não existe rastreamento populacional de câncer de pele no Brasil, e o capítulo volta a isso adiante. O que existe é diagnóstico precoce: alguém precisa reconhecer uma lesão suspeita numa pessoa que veio por outro motivo. Isso transfere o peso todo para a inspeção, e uma inspeção que decide precisa ser dirigida — você não olha a pele inteira de todo mundo, você olha com atenção redobrada quem tem risco, nos lugares onde a doença aparece.

As seis seções abaixo são, nessa ordem: quem se olha, o que o basocelular parece, o que o espinocelular parece, o que vem antes dos dois, o que precisa ser excluído, e o paciente que muda todas as regras.

1. Quem você olha de propósito

O risco de carcinoma cutâneo se monta com poucos itens, e todos eles estão à mão numa consulta de rotina. O primeiro é a exposição ocupacional cumulativa: trabalho ao ar livre, com as seis a oito vezes mais ultravioleta que o INCA documenta. O segundo é o fototipo: quanto mais clara a pele, menos melanina protegendo, e a pergunta que resolve não é sobre a cor e sim sobre o comportamento — o senhor queima ou bronzeia quando pega sol forte no começo do verão? Quem responde que queima e não bronzeia está nos fototipos mais baixos.

O terceiro é a idade, que é o proxy do tempo de acúmulo: a curva sobe depois dos 50 e continua subindo. O quarto é a história pessoal — quem já teve um carcinoma tem risco alto de ter outro, e essa é a informação mais preditiva da lista inteira, porque significa que o campo já demonstrou capacidade de produzir tumor. O quinto é a história familiar, que o INCA registra tanto para melanoma quanto para não melanoma. O sexto é a imunossupressão, por doença ou por medicamento.

Há ainda o grupo das exposições químicas e físicas, que ninguém pergunta e que às vezes explica um caso fora do padrão: arsênio, alcatrão, piche, óleos minerais e de xisto, fuligem, radiação ionizante. E há a hidroclorotiazida, que aparece na lista de evidência limitada do INCA e está em milhares de receitas de hipertensão — não é motivo para suspender nada por conta própria, mas é motivo para olhar a pele de quem a usa há anos e para conversar sobre fotoproteção.

Na prática de uma consulta de doze minutos, isso vira um gesto e uma frase. O gesto: enquanto o paciente fala, você olha o rosto inteiro, as duas orelhas, o couro cabeludo de quem é calvo, o lábio inferior, o pescoço em V e o dorso das duas mãos. São áreas que já estão descobertas — não é preciso pedir para tirar a roupa. A frase, no fim: o senhor tem alguma ferida ou mancha que não sara, em qualquer lugar do corpo?

Guarde a assimetria dessa pergunta. Ela pega a lesão que o paciente conhece e não trouxe porque não achou que fosse assunto de médico — que é exatamente o caso do Ariovaldo. Grande parte dos carcinomas é conhecida do paciente muito antes de ser conhecida do serviço de saúde. Ele não escondeu: ninguém perguntou.

2. O carcinoma basocelular: a pápula que brilha e a ferida que volta

O basocelular clássico é uma pápula ou um nódulo de superfície lisa e brilhante, cor da pele ou levemente rosada, com aspecto que a tradição chama de perolado — uma translucidez que faz a lesão parecer conter luz em vez de refleti-la. Sobre essa superfície, quase sempre, correm vasos finos e ramificados, as telangiectasias, que são o achado mais útil da inspeção porque não pertencem a nenhum diferencial benigno comum. Com o crescimento, o centro deprime e ulcera, e a lesão passa a ter uma borda elevada e translúcida em volta de uma cratera com crosta.

É essa fase que gera a história típica. A crosta cai, o fundo sangra um pouco, forma-se outra crosta, e o paciente conta que a ferida fecha e abre, fecha e abre. Nenhuma ferida traumática se comporta assim por meses: ferida traumática fecha uma vez. Ferida que cicatriza e reabre no mesmo lugar é tumor até prova em contrário, e é a frase que mais rende nesta consulta.

Há variantes que não se parecem com o clássico e que respondem por boa parte dos diagnósticos perdidos. O basocelular superficial aparece como uma placa eritematosa, discretamente descamativa, de limites bem definidos, mais comum no tronco — e é confundido com eczema ou com micose durante meses de creme. O sinal que o denuncia é a borda: em vez do limite difuso do eczema, ele tem um contorno fino e levemente elevado, às vezes só perceptível esticando a pele. E não coça como eczema, nem responde a corticoide tópico.

O basocelular pigmentado tem os mesmos elementos do nodular com melanina dentro, e por isso é castanho ou quase preto. Ele é o principal motivo pelo qual uma lesão pigmentada não pode ser tratada como carcinoma sem antes ser considerada melanoma: os dois podem ser escuros, e a inspeção sozinha não resolve. O esclerodermiforme, ou morfeiforme, é o mais traiçoeiro de todos — parece uma cicatriz esbranquiçada, endurecida, com limites que se perdem na pele normal, e cresce em profundidade e em extensão muito além do que a superfície sugere. Uma cicatriz que ninguém sabe explicar, num rosto fotoexposto, merece a mesma suspeita que uma úlcera.

O comportamento do basocelular é o que define a pressa: crescimento lento, medido em meses a anos, e metástase praticamente inexistente. Isso não o torna inofensivo. Ele destrói localmente o que estiver no caminho, e o caminho no rosto inclui cartilagem, pálpebra, asa nasal e osso. O dano do basocelular não é o óbito: é a mutilação, e ela é integralmente evitável pelo tempo.

3. O carcinoma espinocelular: a lesão dura que cresce em semanas

O espinocelular tem outra textura. É uma lesão elevada, firme, muitas vezes com superfície ceratósica — áspera, escamosa, às vezes com um corno de queratina saindo dela —, e o que o distingue à palpação é a base infiltrada: você pinça a lesão entre os dedos e sente que ela tem raiz, que não desliza sobre o subcutâneo como uma crosta desliza. Costuma doer ou incomodar ao toque, o que o basocelular quase nunca faz.

O tempo é diferente e essa é a informação que mais muda conduta. O paciente do basocelular conta anos; o do espinocelular conta semanas a meses. Uma lesão dura que apareceu há dois meses e dobrou de tamanho é espinocelular até prova em contrário, e é a lesão deste capítulo que não espera fila comum.

Os sítios são os do sol cumulativo: dorso das mãos, antebraços, testa, calvície, nariz, hélice da orelha e lábio inferior. Dois deles merecem atenção separada. A orelha, porque a pele ali é fina, a cartilagem está logo abaixo e a drenagem linfática é rica — é sítio de maior risco. E o lábio inferior, porque o espinocelular do lábio nasce da queilite actínica e tem comportamento pior que o da pele: Jovino Pitanga, pescador de 66 anos que aparece na sua agenda com o lábio inferior esbranquiçado, com o limite entre o vermelhão e a pele apagado e uma área endurecida, não tem um lábio ressecado — tem um lábio que precisa de biópsia.

A capacidade de metastatizar é a diferença que governa a pressa. O espinocelular cutâneo metastatiza numa fração pequena dos casos, mas não desprezível, e a rota é linfática, para a cadeia de drenagem regional. O risco sobe com o tamanho, com a espessura, com a invasão perineural, com a localização em orelha e lábio, com a recidiva e com a imunossupressão. Isso obriga a um gesto que o basocelular não obriga: palpar as cadeias linfáticas de drenagem da região onde está a lesão. Orelha e couro cabeludo drenam para pré-auriculares, retroauriculares e cervicais; lábio e face drenam para submandibulares e submentonianos; mão e antebraço drenam para epitrocleares e axilares.

Existe uma lesão que se comporta como caricatura do espinocelular e que confunde muita gente: um nódulo em forma de cratera com rolha central de queratina, que cresce muito rápido, em semanas, e que às vezes involui sozinho. Historicamente chamada de ceratoacantoma, hoje é largamente tratada como uma variante do espinocelular, e essa é a conduta segura: não se aposta em involução espontânea, biopsia-se.

O resumo operacional das duas seções cabe numa frase. O basocelular é a lesão que brilha, tem vasinhos, cresce devagar e não vai embora sozinha; o espinocelular é a lesão que áspera, tem base dura, cresce depressa e pode viajar. Os dois são retirados. A diferença está em quanto tempo você tem para organizar isso.

4. Antes dos dois: ceratose actínica, queilite actínica e doença de Bowen

A ceratose actínica é a lesão precursora do espinocelular, e o INCA a nomeia assim. Ela é uma mácula ou pápula eritematosa coberta por escama áspera e aderente, geralmente de poucos milímetros, quase sempre múltipla, sempre em área fotoexposta. O detalhe que muda o exame é sensorial: a ceratose actínica se sente antes de se ver. Passando a polpa do dedo pela testa ou pelo dorso da mão de um trabalhador rural, você encontra a aspereza de lesões que a inspeção não separou do resto da pele. Peça licença e passe a mão.

Nem toda ceratose actínica vira carcinoma, e a maioria não vira; algumas involuem. Mas elas são o marcador visível do campo de cancerização, e por isso quem tem muitas tem risco maior — não daquela lesão específica, mas daquela área. É por isso que a conduta correta é sobre o campo: fotoproteção real, tratamento das lesões e retorno programado, e não a remoção heroica de uma lesão isolada num paciente que tem quarenta.

A queilite actínica é a mesma coisa no lábio inferior: ressecamento persistente, descamação, perda do contorno nítido entre o vermelhão e a pele, áreas esbranquiçadas e, às vezes, fissuras que não fecham. Ela merece nome próprio porque o espinocelular que dela deriva é mais agressivo do que o da pele, e porque é sistematicamente atribuída a lábio rachado por anos.

A doença de Bowen recebe outro nome pelo mesmo achado: espinocelular ainda in situ, com o clone maligno ocupando toda a espessura da epiderme sem ter atravessado a membrana basal. Clinicamente é uma placa eritematosa, bem delimitada, com escama ou crosta, de crescimento muito lento, mais comum em pernas de mulheres idosas — e é confundida com psoríase, eczema numular e micose com uma frequência desanimadora. A regra prática que resolve: placa única, que não coça, que não responde a corticoide tópico e que não muda em três meses de tratamento não é dermatose inflamatória. É biópsia.

Vale registrar o que o protocolo de regulação do TelessaúdeRS faz com essas lesões, porque ele é operacional. Ceratose actínica é condição de encaminhamento à dermatologia em três situações: quando é refratária ao tratamento clínico otimizado, quando ocorre em paciente imunossuprimido, e quando as lesões são tão hiperceratóticas que inviabilizam o tratamento tópico. Fora dessas três, é conduta da própria unidade.

5. O diferencial obrigatório: melanoma

Antes de tratar qualquer lesão como carcinoma, você tem de excluir melanoma. Não porque ele seja provável — são 28 carcinomas para cada melanoma —, mas porque ele é o único dos três em que a conduta errada nos primeiros dias custa a vida do paciente, e porque a técnica de biópsia adequada a um é destrutiva para o outro.

O que separa, à inspeção, é a origem melanocítica. O melanoma tende a ser uma lesão pigmentada, plana ou pouco elevada, com variação de cor dentro da própria lesão — castanho, preto, às vezes áreas avermelhadas, azuladas ou brancas de regressão. O protocolo do TelessaúdeRS define suspeita clínica de melanoma como lesão melanocítica com o sinal do patinho feio (uma lesão pigmentada com padrão diferente das outras daquele paciente) ou com um ou mais critérios da regra do ABCDE: assimetria, bordas irregulares, cores variadas com pelo menos duas cores diferentes na lesão, diâmetro maior que 6 mm e evolução, isto é, alteração recente de tamanho, forma, cor ou aparência.

O INCA reproduz a mesma regra e acrescenta uma ressalva que vale carregar: a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer apontou as limitações do ABCDE em lesões pequenas, porque melanomas pequenos podem não exibir características claras, e nevos benignos podem ter características atípicas. Ou seja, a regra tem sensibilidade limitada embaixo e especificidade limitada em cima — e nenhum dos dois documentos brasileiros publica um número para isso.

Três diferenças práticas separam a conduta. Primeira: o melanoma tem pressa clínica de outra ordem, e o protocolo estadual manda avaliar suspeita de melanoma em serviço de referência com brevidade, encaminhando para oncologia cirurgia pele. Segunda: em lesão pigmentada suspeita não se faz biópsia por raspagem, porque a espessura da lesão é a informação que decide todo o resto, e a raspagem a destrói. Terceira: o basocelular pigmentado existe e é comum, o que significa que a lesão escura no rosto do idoso pode ser qualquer um dos dois — e a resposta é o exame anatomopatológico, nunca a impressão.

O que este capítulo não faz: estadiamento, índice de Breslow, indicação de linfonodo sentinela, ampliação de margens e tratamento sistêmico do melanoma. Tudo isso é do capítulo de melanoma desta mesma apostila. Aqui você precisa de uma coisa só — reconhecer que a lesão pode ser melanoma e mudar de trilho antes de encostar o bisturi nela.

6. O transplantado e o imunossuprimido: por que ele é outro paciente

Abelardo Gasparini tem 58 anos, é transplantado renal há onze e usa tacrolimo, micofenolato e prednisona. Trabalhou com máquina agrícola até o transplante. Ele não é um paciente com risco aumentado de câncer de pele: é um paciente com outra doença de pele, que se parece com esta e se comporta de outro jeito.

Três coisas mudam. A razão entre os dois carcinomas se inverte, com predomínio do espinocelular — o oposto do que se vê na população geral. As lesões tendem a ser múltiplas e a aparecer em ondas, de modo que a consulta não é sobre uma lesão e sim sobre um inventário. E o comportamento é mais agressivo, com maior propensão a recidiva local e a metástase, o que muda o limiar para chamar o especialista.

O motivo tem duas camadas, e as duas estão na classificação de carcinógenos do INCA. A primeira é a supressão da vigilância imunológica que elimina queratinócitos com dano de DNA. A segunda é que azatioprina e ciclosporina figuram entre os agentes com evidência suficiente para câncer de pele não melanoma — não são apenas facilitadores, são carcinógenos. O HIV tipo 1 aparece na coluna de evidência limitada, e HPV tipos 5 e 8 aparecem em portadores de epidermodisplasia verruciforme.

A consequência operacional é a única do capítulo em que a palavra vigilância se aplica. Para a população geral, o Brasil não recomenda rastreamento. Para o transplantado, o próprio protocolo de regulação do TelessaúdeRS abre uma porta explícita: ceratose actínica em paciente imunossuprimido — por medicamentos, HIV, transplante ou imunodeficiência primária — é, por si só, condição de encaminhamento à dermatologia, sem precisar ser refratária a nada. É a diferença entre olhar quando aparece e olhar de tempos em tempos porque vai aparecer.

A fatia dermatológica desse paciente — inventário de lesões, limiar de encaminhamento e seguimento na unidade — fica aqui, e o texto declara isso porque nenhum capítulo do Internato cobre imunossupressão no transplantado como tema próprio. O ajuste do esquema imunossupressor, a decisão de trocar um inibidor de calcineurina e o manejo da função do enxerto não são deste capítulo nem de nenhum outro deste nível: são do nefrologista que acompanha o transplante, e é para ele que a informação sobre um espinocelular novo precisa voltar.

06

Como fechar o diagnóstico

O diagnóstico de carcinoma cutâneo é histopatológico, e não existe exame de sangue, marcador tumoral ou imagem que substitua o fragmento de tecido. Toda a investigação, portanto, é sobre duas decisões: o que o exame clínico consegue separar, e como se obtém o fragmento sem destruir a informação que ele carrega.

As seis seções seguintes vão do olhar dirigido à leitura do laudo que volta.

Avaliar uma ferida persistente ou lesão suspeita é investigação diagnóstica. A discussão sobre rastreamento populacional de assintomáticos não deve impedir exame indicado por queixa, achado incidental ou risco individual. Fotografias precisam de consentimento e destino institucional seguro; a fotografia complementa descrição, palpação e acompanhamento, sem substituí-los.

1. O exame que decide, e o que a régua brasileira diz sobre ele

A régua nacional para essa decisão é a Detecção precoce do câncer, do INCA, de 2021, e o que ela diz precisa ser dito com as palavras dela. Para câncer de pele, não há consenso quanto ao rastreamento populacional, porque as evidências são insuficientes para recomendá-lo. A estratégia adotada é o diagnóstico precoce: população e profissionais de saúde alertas para lesões com características anormais, e confirmação diagnóstica garantida. É por isso que este capítulo é sobre olhar na consulta, e não sobre convocar gente saudável.

Duas coisas sobre essa régua merecem ser ditas em voz alta. A primeira é que a base de evidência que o documento brasileiro invoca é estrangeira: a revisão sistemática da força-tarefa norte-americana de 2016, que não encontrou benefício no rastreamento da população geral, e a força-tarefa canadense de 2008, que endossou o estudo australiano e não recomendou rastreamento de melanoma por ausência de evidência sólida de redução de mortalidade. Não há estudo brasileiro sustentando a recomendação brasileira; há um documento brasileiro que adota a conclusão de fora, desde 2021.

A segunda é que o capítulo de pele desse documento não publica um único valor de sensibilidade ou de especificidade — nem para o exame clínico, nem para o autoexame, nem para a regra do ABCDE que ele mesmo reproduz. A palavra dermatoscopia não aparece nenhuma vez nas 72 páginas. O documento define sensibilidade e especificidade no capítulo introdutório, aplica números a próstata, mama e colo do útero, e chega à pele sem nenhum. Isso não invalida a recomendação — invalida a ideia de que existe um limiar numérico oficial para decidir. O limiar é clínico, e o capítulo o descreve abaixo.

O exame propriamente dito tem cinco elementos e leva menos de um minuto. Luz de lado, não de cima: a luz rasante desenha relevo, borda e translucidez que a luz do teto apaga — é a razão pela qual a lesão do Ariovaldo apareceu quando ele virou o rosto para a janela. Toque: passar a polpa do dedo revela aspereza de ceratose actínica e a base infiltrada do espinocelular, que a vista não pega. Medida em centímetros, anotada — porque o limiar de encaminhamento do protocolo de regulação é em centímetros. Registro fotográfico, quando houver como. E varredura das outras áreas fotoexpostas, porque quem tem uma lesão costuma ter campo.

Um sinal de alerta prático, que o próprio INCA lista para o não melanoma: manchas ou nódulos de cor branca, avermelhada ou castanha que coçam, ardem, descamam ou sangram, e feridas que não cicatrizam em quatro semanas. Quatro semanas é um prazo utilizável na porta da unidade e vale a pena memorizar — não porque a lesão vire câncer no dia 29, mas porque é o corte que transforma uma queixa vaga em uma decisão.

2. A que se acompanha, a que se biopsia, a que se encaminha hoje

As três vias são exclusivas e a escolha entre elas é a decisão central deste capítulo. Acompanhar é para lesão com aparência benigna reconhecível e história compatível, com retorno marcado e critério explícito de mudança. Biopsiar é para lesão suspeita em que a obtenção do fragmento cabe na sua unidade. Encaminhar hoje é para o que não cabe.

O protocolo de regulação ambulatorial do TelessaúdeRS, revisado pelo serviço de dermatologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, é o documento brasileiro que operacionaliza isso com números, e vale conhecer o desenho, mesmo que a oferta da sua região seja outra. Ele separa a lesão pelo tamanho e pelo sítio: lesões suspeitas ou malignas pequenas, até 2 cm em tronco e membros ou até 1 cm em face e pescoço, vão para a dermatologia; acima disso, ou em áreas difíceis e especiais — face, orelhas, articulações —, vão para a oncologia cirurgia pele. Os dois critérios caem juntos sobre a lesão suspeita pequena em face, orelha ou articulação, e o protocolo não diz qual prevalece. Esta apostila adota a topografia como desempate — essa lesão vai para a oncologia cirurgia pele qualquer que seja o tamanho —, e a escolha é desta apostila, não do documento: o critério de área difícil só tem razão de existir se valer justamente para a lesão pequena que o corte de tamanho deixaria passar.

O mesmo protocolo destaca, além do tamanho: lesões que precisam de biópsia incisional diagnóstica antes da definição terapêutica, tumores de unha, metástase cutânea, suspeita de tumores agressivos como dermatofibrossarcoma protuberans e carcinoma de Merkel, e tumores irressecáveis com indicação de cirurgia higiênica por infecção recorrente com odor, sangramento, dor ou necrose extensa. Para lesões complexas, extensas ou profundas com alta probabilidade de exigir retalho ou enxerto, a rota é cirurgia plástica quando não houver agenda de oncologia cirurgia pele que as aborde — a ressalva é do próprio protocolo, e é a régua que esta apostila adota; a versão anterior dessa regra, sem ressalva, e o desempate entre as duas estão no capítulo de retalhos e enxertos de pele, na apostila de Cirurgia Plástica.

Duas rotas específicas escapam do fluxo geral e é fácil errá-las. Lesão de lábio ou de cavidade bucal com suspeita de malignidade vai para oncologia cirurgia cabeça e pescoço, não para dermatologia — e o lábio inferior é sítio de espinocelular, o que torna esse desvio frequente. Lesão palpebral vai para oftalmologia quando não há agenda de oncologia cirurgia pele, e, se a suspeita for de melanoma, vai direto para a referência regional de oncologia cirurgia pele.

Margem histologicamente livre não equivale a risco zero e não decide sozinha o seguimento. Integrar subtipo, sítio, tamanho, recidiva, imunossupressão e invasão perineural. CBC de baixo risco completamente tratado pode seguir no fluxo local; CBC de alto risco com margem próxima exige discussão especializada. CEC invasivo e margens comprometidas precisam de avaliação especializada. A equipe deve garantir leitura do laudo, comunicação ao paciente e plano documentado, inclusive quando a amostra é insuficiente.

Sobre o que acontece depois da porta do especialista, este capítulo cede, e cede para quem é dono. Fronteira entre os dois capítulos, escrita com as mesmas palavras nos dois: a margem cirúrgica do carcinoma basocelular e do espinocelular — o que ela é e por que decide o tamanho do defeito —, a cirurgia micrográfica de Mohs, o retalho e o enxerto pertencem ao capítulo de retalhos e enxertos de pele, na apostila de Cirurgia Plástica; a leitura do estado das margens no laudo, e o encaminhamento que essa leitura decide, pertencem ao capítulo de carcinoma basocelular e espinocelular, na apostila de Dermatologia. Aqui ficam o critério de encaminhamento — quem vai, para onde e com que urgência —, a biópsia que cabe na unidade e a leitura do laudo que volta, e o capítulo declara que assume só isso.

3. Como se faz uma biópsia de pele

Há quatro técnicas e cada uma responde a uma pergunta diferente. A raspagem tangencial, ou shave, retira uma lâmina superficial paralela à superfície: serve para lesão claramente epidérmica e exofítica, quando a profundidade não é a informação procurada. O punch retira um cilindro de pele de espessura total, com um instrumento circular de 3, 4, 5 ou 6 mm: é a técnica de uso geral, porque traz epiderme, derme e um pouco de subcutâneo. A biópsia incisional retira uma cunha fusiforme de parte da lesão, e serve quando a lesão é grande demais para sair inteira. A excisional retira a lesão inteira com uma margem estreita, e é ao mesmo tempo diagnóstico e, muitas vezes, tratamento.

Corte vertical da pele em três faixas sobrepostas. Um tumor em forma de cúpula sai da faixa superior e afunda na faixa média com uma borda profunda irregular. Acima da pele, separada por um espaço, flutua uma lâmina fina de tecido que corresponde só ao topo da cúpula; a borda profunda continua dentro da pele.
A raspagem tangencial leva o topo e deixa a borda profunda onde estava. Para uma lesão pigmentada, é essa borda que carrega a espessura — a informação que decide o resto — e ela não vai junto no frasco. É por isso que a escolha da técnica não é preferência: é o que define se o laudo vai poder responder à pergunta que o motivou.

A escolha entre elas segue três perguntas. A lesão é pigmentada ou pode ser melanoma? Então não se faz raspagem, e a preferência é pela excisional. A lesão cabe inteira, com folga, dentro do que a sua unidade consegue fechar? Então excisional. A lesão é grande, está em face, orelha, pálpebra ou lábio, ou vai precisar de reconstrução? Então não se retira parcialmente: encaminha-se, com ou sem biópsia incisional prévia, conforme a rota da sua região.

O procedimento em si, num punch de 4 mm, tem sete passos. Consentimento explicado em palavras do paciente e registrado. Antissepsia com clorexidina ou povidona, respeitando o tempo de secagem. Anestesia local com lidocaína, botão intradérmico primeiro — a agulha entra quase paralela à pele, o volume inicial levanta uma pápula esbranquiçada — e depois infiltração da derme em volta, sempre a partir da área já anestesiada. Espera: com vasoconstritor, o efeito hemostático leva de sete a dez minutos, e é a espera que a maioria não faz. Rotação do punch com pressão constante até vencer a derme, sentindo a queda de resistência. Retirada do cilindro pela base, com pinça delicada segurando a derme e não a epiderme — pinçar a superfície esmaga o que o patologista precisa ler. Hemostasia e fechamento: um ou dois pontos simples, ou cicatrização por segunda intenção em punch pequeno de tronco.

A lidocaína merece contas, e elas estão na tabela de conversão deste capítulo. A apresentação de rede é a de 20 mg/mL, com ou sem epinefrina. Num adulto de 70 kg, o teto da bula com vasoconstritor é 7 mg/kg, o que dá 490 mg, dentro do limite absoluto de 500 mg que a mesma bula declara — em volume, 24,5 mL da solução a 2%. Um punch de 4 mm consome cerca de 0,7 mL, ou 14 mg: menos de 3% do teto. O teto só passa a importar quando se infiltra uma excisão grande ou várias lesões na mesma sessão, que é justamente o cenário do paciente transplantado.

Sobre a epinefrina em extremidades: a proibição clássica de usar vasoconstritor em dedo, nariz e orelha é hoje contestada pela literatura cirúrgica, mas não há documento brasileiro em vigor que a revogue formalmente. O capítulo não decide isso. Registra que a lidocaína com epinefrina 1:200.000 e 1:80.000 consta da Rename 2024 no componente básico, sem restrição de sítio declarada na lista, e que a decisão sobre extremidade em uma unidade sem retaguarda cirúrgica é conservadora por natureza.

O material que precisa estar na bandeja antes de começar, e cuja falta é o motivo mais comum de biópsia adiada: punch descartável do calibre escolhido, seringa de 3 mL com agulha fina para o botão e agulha maior para a infiltração, lidocaína, antisséptico, campo fenestrado, pinça dente de rato delicada, tesoura, porta-agulha, fio monofilamentar 4-0 ou 5-0, gaze e o frasco com formalina tamponada a 10% já rotulado. Rotular o frasco antes é regra, não zelo: frasco sem nome é fragmento perdido, e não há segunda coleta sem segundo procedimento.

4. Por que a técnica errada destrói a informação

Um fragmento de pele carrega três informações independentes: o que a célula é, até onde ela chegou, e se as bordas do que saiu estão limpas. A técnica errada apaga uma ou mais delas, e nenhuma volta com um segundo olhar na lâmina.

A raspagem numa lesão pigmentada é o exemplo mais grave. A lâmina tangencial leva o topo do tumor e deixa a porção profunda no paciente. Se a lesão for melanoma, a espessura — que é a informação que decide todo o resto da conduta — não está no frasco, e o laudo virá com a base comprometida e sem medida confiável. A segunda excisão remove tecido já cicatrizado e não recupera o dado. É o erro que transforma um diagnóstico precoce numa incerteza permanente, e a única profilaxia é o hábito: lesão pigmentada não se raspa.

Biopsiar o centro é o segundo erro clássico. O centro de um carcinoma ulcerado é crosta, fibrina e necrose — tecido morto não tem arquitetura para o patologista ler. O laudo volta como material insuficiente ou inflamação inespecífica, o paciente é tranquilizado por um resultado que não disse nada, e o tumor continua crescendo com um laudo negativo protegendo-o. Biopsie a borda elevada, incluindo a transição para a pele normal, e não o fundo da cratera.

O fragmento pequeno demais é o terceiro. Um punch de 2 mm numa lesão infiltrativa pode conter apenas o componente superficial, e o patologista não consegue afirmar o subtipo nem avaliar a profundidade da invasão. Em carcinoma basocelular a distinção entre padrão superficial ou nodular e padrão infiltrativo ou esclerodermiforme muda o comportamento esperado e a extensão da retirada, e ela se lê na arquitetura profunda. Punch de 4 mm é o piso razoável na maioria das situações.

Depois vêm os erros de manuseio, que são triviais e frequentes. Fragmento esmagado por pinça grosseira aplicada sobre a epiderme perde a arquitetura celular. Volume insuficiente de formalina — a regra prática é dez vezes o volume da peça — deixa o centro do fragmento sem fixar, e o centro é a parte que interessa. Fragmento seco no frasco antes de chegar ao laboratório é fragmento perdido. E peça sem orientação, numa excisão em que a margem importa, impede o patologista de dizer qual borda está comprometida: numa excisão fusiforme, um ponto de reparo num dos polos, descrito no pedido, resolve isso com um nó.

Por fim, o erro que não é de técnica e sim de escrita: o pedido sem informação clínica. O patologista lê a lâmina, não o paciente. Um pedido que diz apenas lesão de pele obriga a um laudo genérico. Um pedido que diz nódulo perolado com telangiectasias e ulceração central, 8 mm, hélice da orelha esquerda, evolução de 18 meses, trabalhador rural, produz um laudo que responde à sua pergunta. A informação clínica não contamina o exame — ela o dirige.

5. Como se descreve: o pedido, o laudo e o encaminhamento

A descrição de uma lesão de pele tem seis campos e é a mesma tanto para o pedido de anatomopatológico quanto para o encaminhamento. Localização anatômica precisa, com lado. Tamanho em centímetros, nos dois maiores eixos. Tipo elementar: mácula, pápula, nódulo, placa, úlcera. Cor, e se há mais de uma dentro da lesão. Presença de ulceração, de crosta e de sangramento. Tempo de evolução e como ela mudou nesse tempo. A eles se somam, quando existirem: fotografia anexada, laudo anatomopatológico anterior por extenso, e a informação sobre imunossupressão.

Essa não é uma lista de estilo. É literalmente o conteúdo descritivo mínimo que o protocolo do TelessaúdeRS exige do encaminhamento — localização, tamanho em centímetros, cores, presença de ulceração, tempo de evolução, fotografia anexada, laudo anatomopatológico preferencialmente anexado ou descrito na íntegra com data, tratamentos realizados no caso de ceratose actínica, e presença de imunossupressão. Encaminhamento sem esses campos é encaminhamento que volta ou que fica na fila indiferenciada.

Do laudo, você espera cinco respostas, e precisa saber quais são para reconhecer quando faltam. Primeira: o tipo histológico — basocelular, espinocelular, ou outra coisa. Segunda: o subtipo, no basocelular, porque padrão infiltrativo ou esclerodermiforme se comporta diferente de nodular ou superficial. Terceira: no espinocelular, o grau de diferenciação e a profundidade de invasão. Quarta: a presença de invasão perineural ou linfovascular, que é o achado que mais muda a conduta subsequente. Quinta: o estado das margens, e, quando comprometidas, qual delas — lateral ou profunda.

Margem histologicamente livre não equivale a risco zero e não decide sozinha o seguimento. Integrar subtipo, sítio, tamanho, recidiva, imunossupressão e invasão perineural. CBC de baixo risco completamente tratado pode seguir no fluxo local; CBC de alto risco com margem próxima exige discussão especializada. CEC invasivo e margens comprometidas precisam de avaliação especializada. A equipe deve garantir leitura do laudo, comunicação ao paciente e plano documentado, inclusive quando a amostra é insuficiente.

Sobre exames de imagem: eles não fazem parte da investigação de rotina. Não se pede tomografia nem ultrassonografia para diagnosticar carcinoma cutâneo. Imagem entra quando há suspeita clínica de invasão profunda — lesão fixa a plano profundo, comprometimento ósseo ou de cartilagem — ou de disseminação linfonodal, e nesses casos a indicação vem junto com o encaminhamento ao serviço especializado, não antes dele.

6. O que não é câncer, e a armadilha do já olhei

A maior parte do que aparece nessas áreas é benigna, e reconhecer o benigno com segurança é o que impede o encaminhamento em massa. A ceratose seborreica é a campeã de confusão: placa castanha a preta, de superfície gordurosa e verrucosa, com aspecto de estar colada sobre a pele em vez de fazer parte dela, frequentemente múltipla, em tronco e face de idosos. O nevo melanocítico comum é simétrico, de cor uniforme, estável há anos. O dermatofibroma é um nódulo firme, castanho, geralmente em membro inferior, que afunda quando se comprime lateralmente. O granuloma piogênico é um nódulo vermelho, friável, que sangra muito e cresceu em dias — mas essa história rápida também serve ao espinocelular, e por isso ele merece exame anatomopatológico após a retirada.

Há um grupo que confunde por outro caminho: a úlcera crônica de perna. Úlcera venosa, arterial, neuropática e de outras causas não são tema deste capítulo nem de nenhum outro do nível Internato, e o texto não vai inventar a régua delas. A fatia de diferencial que pertence a este capítulo, e que ele declara tomar para si, é uma só: úlcera crônica que muda de comportamento — borda que se eleva, fundo que vegeta, dor nova, crescimento depois de meses estável — precisa de biópsia da borda, porque o espinocelular pode surgir sobre cicatriz e sobre inflamação crônica de longa duração. A úlcera que não sara há anos e de repente começa a crescer é a que se biopsia.

Também vale separar o que pertence ao capítulo de hanseníase desta apostila — Hanseníase: a mancha que não sente. Mancha hipocrômica ou eritematosa com alteração de sensibilidade é hanseníase até prova em contrário, e o teste é térmico, doloroso e tátil — não é uma lesão deste capítulo. Carcinoma cutâneo não altera sensibilidade em fase inicial e não engrossa nervo periférico. Quando a dúvida existir, o teste de sensibilidade leva um minuto e resolve antes de qualquer biópsia.

Sobra a armadilha final, e ela é comportamental. Quando uma lesão já foi olhada por outro médico e considerada benigna, existe uma tendência forte a não reexaminá-la — a anotação anterior funciona como um laudo. Não é. Carcinomas mudam, e a lesão de hoje não é a de dezoito meses atrás. Se a lesão está lá, você olha; se ela mudou desde a última descrição, a descrição anterior perdeu validade. O único registro que encerra a questão é o exame anatomopatológico.

07

Da cadeira ao laudo: o fluxo, as duas lesões lado a lado, a lidocaína e o que o SUS fornece

O fluxo abaixo é o roteiro da consulta, do primeiro olhar à decisão de três vias. As quatro tabelas são as réguas de execução: o que separa os dois carcinomas na cadeira, quanto de lidocaína cabe num adulto de 70 kg, o que a Rename 2024 fornece e não fornece, e para onde vai cada lesão. As notas ao final registram as contas dos documentos oficiais que foram refeitas — as que fecharam e as que não fecharam.

  1. 1Enquanto o paciente conta a queixa dele, olhe: rosto inteiro, duas orelhas, couro cabeludo se calvo, lábio inferior, pescoço em V, dorso das duas mãos. Luz de lado, não de cima.
  2. 2No fim da consulta, pergunte: o senhor tem alguma ferida ou mancha que não sara, em qualquer lugar do corpo?
  3. 3Se não há lesão suspeita e o paciente é de alto risco (trabalho ao ar livre, fototipo baixo, história pessoal de câncer de pele, imunossupressão), oriente fotoproteção e programe retorno com exame de pele.
  4. 4Se há lesão: peça licença e toque. Aspereza sugere ceratose actínica; base infiltrada sugere espinocelular; superfície lisa e brilhante com vasinhos sugere basocelular.
  5. 5Meça em centímetros, anote os dois maiores eixos, registre lado e sítio, fotografe se houver como.
  6. 6Pergunte-se primeiro: pode ser melanoma? Lesão pigmentada com patinho feio ou com critério do ABCDE muda de trilho aqui — não se raspa, e a avaliação é com brevidade em serviço de referência.
  7. 7Palpe as cadeias de drenagem da região se a suspeita for de espinocelular: pré-auriculares e cervicais para orelha e couro cabeludo, submandibulares para face e lábio, epitrocleares e axilares para mão e antebraço.
  8. 8Decida entre as três vias. Acompanhar: aparência benigna reconhecível, com retorno e critério de mudança escrito no prontuário. Biopsiar: lesão suspeita que cabe na sua unidade. Encaminhar hoje: o que não cabe.
  9. 9Cabe na unidade quando: até 2 cm em tronco e membros ou até 1 cm em face e pescoço, fora de área difícil, sem suspeita de melanoma, com material e retaguarda de anatomia patológica funcionando.
  10. 10Se biopsiar: escolha a técnica pela pergunta (punch de 4 mm como padrão; excisional para lesão pequena e para pigmentada; incisional na borda para lesão grande). Nunca raspagem em lesão pigmentada. Nunca o centro ulcerado.
  11. 11Anestesie com botão intradérmico, infiltre a partir da área já anestesiada e espere de sete a dez minutos se usou vasoconstritor.
  12. 12Rotule o frasco antes de coletar. Formalina tamponada a 10%, dez vezes o volume da peça. Ponto de reparo se a orientação da margem importa.
  13. 13Escreva o pedido com a descrição inteira: sítio com lado, tamanho em centímetros, tipo elementar, cor, ulceração, tempo de evolução, ocupação e imunossupressão.
  14. 14Marque o retorno para retirada de pontos em 7 a 14 dias e anote no prontuário a data prevista do laudo. O laudo que ninguém busca é o diagnóstico que não aconteceu.
  15. 15Margem histologicamente livre não equivale a risco zero e não decide sozinha o seguimento. Integrar subtipo, sítio, tamanho, recidiva, imunossupressão e invasão perineural. CBC de baixo risco completamente tratado pode seguir no fluxo local; CBC de alto risco com margem próxima exige discussão especializada. CEC invasivo e margens comprometidas precisam de avaliação especializada. A equipe deve garantir leitura do laudo, comunicação ao paciente e plano documentado, inclusive quando a amostra é insuficiente.
  16. 16Em qualquer desfecho, trate o campo: fotoproteção orientada de verdade, revisão das ceratoses actínicas e retorno programado — quem teve um tem risco alto de ter outro.

Os dois carcinomas na cadeira: o que separa e o que a diferença muda

O que você observaCarcinoma basocelularCarcinoma espinocelular
SuperfícieLisa, brilhante, translúcida (perolada)Áspera, ceratósica, às vezes com corno de queratina
Vasos visíveisTelangiectasias finas e ramificadas sobre a lesãoHabitualmente ausentes; o que se vê é escama e crosta
À palpaçãoConsistência amolecida a firme, sem raiz evidenteBase infiltrada: a lesão tem raiz e não desliza
SintomaCostuma ser indolor; sangra ao trauma mínimoCostuma doer ou incomodar ao toque
Tempo que o paciente contaAnos; ferida que fecha e reabre várias vezesSemanas a meses; crescimento que ele percebe
Sítios mais frequentesFace central, nariz, pálpebra; tronco na forma superficialDorso das mãos, antebraço, testa, calvície, hélice da orelha, lábio inferior
Lesão que vem antesNão tem precursora reconhecidaCeratose actínica, queilite actínica, doença de Bowen
MetástasePraticamente inexistente (abaixo de 1 em mil)Possível, por via linfática; risco sobe em orelha, lábio e imunossuprimido
O dano que causa se demoraDestruição local: cartilagem, pálpebra, asa nasal, ossoDestruição local mais doença regional e, raramente, a distância
O que a diferença mudaTempo para organizar: fila comum com dataPrioridade: lesão dura de crescimento rápido não espera fila comum
Palpar linfonodo de drenagemNão é rotinaRotina, sempre, na cadeia correspondente ao sítio

Lidocaína para a biópsia: mg, mL e frasco num adulto de 70 kg (contas refeitas contra a bula)

Apresentação (Rename 2024)Lidocaína por mLTeto no adulto de 70 kgVolume que atinge o tetoQuanto disso um punch de 4 mm usa
Cloridrato de lidocaína 10 mg/mL (1%), sem vasoconstritor10 mg300 mg (a bula diz 4,5 mg/kg, o que daria 315 mg; o teto absoluto de 300 mg da mesma frase é menor e prevalece)30 mL, ou 1 frasco-ampola de 20 mL mais meiocerca de 1,4 mL, isto é, 14 mg — menos de 5% do teto
Cloridrato de lidocaína 20 mg/mL (2%), sem vasoconstritor20 mg300 mg (mesmo cruzamento: 4,5 mg/kg daria 315 mg)15 mL, ou 3 ampolas de 5 mLcerca de 0,7 mL, isto é, 14 mg — 4,7% do teto
Lidocaína 2% + epinefrina 1:200.00020 mg de lidocaína e 5 microgramas de epinefrina490 mg (7 mg/kg, ainda abaixo do teto absoluto de 500 mg)24,5 mL, ou 1 frasco-ampola de 20 mL mais um quarto; carrega 122 microgramas de epinefrinacerca de 0,7 mL, isto é, 14 mg — 2,9% do teto
Lidocaína 1% + epinefrina 1:200.00010 mg de lidocaína e 5 microgramas de epinefrina490 mg (7 mg/kg)49 mL, quase 2,5 frascos-ampola de 20 mL; carrega 245 microgramas de epinefrinacerca de 1,4 mL, isto é, 14 mg — 2,9% do teto
Lidocaína 2% + epinefrina 1:80.00020 mg de lidocaína e 12,5 microgramas de epinefrina490 mg (7 mg/kg)24,5 mL; carrega 306 microgramas de epinefrina, dois vezes e meia a do 1:200.000cerca de 0,7 mL, isto é, 14 mg — 2,9% do teto
Onde o teto passa a importar de verdadeCom vasoconstritor, 490 mg num adulto de 70 kg24,5 mL da solução a 2%cabem cerca de 35 punches de 4 mm ou 8 excisões fusiformes de 1 cm na mesma sessão

Elenco nacional consultado e vias de acesso a confirmar

ItemConsta na Rename 2024?Componente e códigoO que isso muda na sua unidade
Cloridrato de lidocaína 10 mg/mL e 20 mg/mL, solução injetávelSimBásico; ATC C01BB01 e N01BB02O anestésico da biópsia está no elenco: a biópsia não depende de compra local
Lidocaína + epinefrina 2% 1:200.000, 2% 1:80.000 e 1% 1:200.000SimBásico; ATC N01BB52Hemostasia e duração maior disponíveis; a lista não declara restrição de sítio
Cloridrato de lidocaína 20 mg/g (2%) gelSimBásico; ATC D04AB01Anestesia de superfície para curativo e para o botão inicial em criança
Imiquimode 50 mg/g (5%) cremeSimBásico; ATC D06BB10Está no elenco como fármaco; a lista não vincula indicação, e o acesso para lesão de pele depende de protocolo local
Fluorouracila 5% creme (tratamento tópico de ceratose actínica)NãoO tratamento de campo mais usado no mundo não é fornecido pelo elenco nacional; a aquisição depende de pactuação estadual ou municipal
Diclofenaco, em qualquer formaNãoNem o gel tópico, nem o oral; o anti-inflamatório do elenco é o ibuprofeno
Ácido salicílico 5% pomadaSimBásico; ATC D02AFCeratolítico útil na lesão hiperceratótica antes de outro tratamento
Dipirona 500 mg e paracetamol 500 mgSimBásico; ATC N02BB02 e N02BE01Analgesia do pós-procedimento resolvida no elenco básico
Terapia fotodinâmica com metilaminolevulinatoNão é medicamento da Rename; é procedimentoIncorporada pela Portaria SECTICS/MS nº 46, de 5/9/2023Existe no SUS como procedimento para basocelular superficial e nodular quando a cirurgia não é recomendada

Para onde vai cada lesão, e com que pressa

Situação na sua frenteDestinoPressaO que tem de ir junto
Lesão pigmentada com patinho feio ou critério do ABCDEReferência de oncologia cirurgia peleCom brevidade; não raspar, não excisar parcialmenteDescrição completa, foto, e a informação de que não foi manipulada
Lesão suspeita até 2 cm em tronco ou membro, até 1 cm em face ou pescoço, fora de área difícilBiópsia ou excisão na própria unidade, ou dermatologiaSemanasPedido de anatomopatológico com descrição clínica inteira
Lesão suspeita maior que esses limites, ou em face, orelha ou articulaçãoOncologia cirurgia peleSemanas, com prioridade se crescimento rápidoDescrição, medida em centímetros, foto e laudo prévio se houver
Lesão dura de crescimento em semanas, com base infiltradaOncologia cirurgia pele, sinalizando o tempo de evoluçãoPrioritário; não entra em fila indiferenciadaTempo de evolução explícito e resultado do exame das cadeias de drenagem
Lesão de lábio ou de cavidade bucal com suspeita de malignidadeOncologia cirurgia cabeça e pescoçoSemanas, com prioridadeDescrição do vermelhão e do limite com a pele, foto
Lesão palpebral suspeitaOftalmologia, ou oncologia cirurgia pele se houver agenda; se suspeita de melanoma, referência regionalSemanasDescrição, foto e se há comprometimento de margem palpebral
Ceratose actínica refratária ao tratamento otimizado, em imunossuprimido, ou hiperceratótica demais para tratamento tópicoDermatologiaMesesQuais tratamentos já foram feitos e por quanto tempo; estado imunológico
Margem livre próxima: interpretar junto do risco; alto risco exige discussão especializada.Fica na atenção primáriaAcompanhamento programadoNada a encaminhar; anotar no prontuário a data e a régua do seguimento
Tumor irressecável com infecção recorrente, odor, sangramento ou dorOncologia cirurgia pele, para cirurgia higiênicaPrioritárioDescrição do sangramento, do odor e da limitação funcional

Conferência que fechou. Na Estimativa 2026 do INCA, os 263.280 casos novos anuais de câncer de pele não melanoma se decompõem em 136.180 homens e 127.100 mulheres, e a soma dá exatamente 263.280. O melanoma, 4.930 mais 4.430, dá exatamente 9.360. Os óbitos de 2023 fecham nos dois: 1.176 mais 871 dão 2.047 no melanoma, e 2.023 mais 1.518 dão 3.541 no não melanoma. As taxas também são coerentes: 263.280 sobre 122,90 por 100 mil implicam uma população de 214,2 milhões, e as decomposições por sexo devolvem 104,4 milhões de homens e 109,8 milhões de mulheres, cuja soma é a mesma 214,2. E o resíduo entre os 781 mil casos totais e os 518 mil sem pele não melanoma é 263 mil, compatível com os 263.280 do capítulo de pele.

Erro de unidade por fator 4 na Rename 2024. A lista traz cloridrato de lidocaína com hemitartarato de epinefrina em três apresentações. Para 2% com 1:80.000 ela imprime 12,5 microgramas por mL, que é o valor correto: 1 grama em 80.000 mL equivale a 1.000.000 de microgramas em 80.000 mL, ou 12,5 por mL. Para 1:200.000, nas duas linhas em que aparece (2% e 1%), ela imprime 20 microgramas por mL. A conta correta é 1.000.000 dividido por 200.000, isto é, 5 microgramas por mL. As duas linhas da mesma tabela são incompatíveis entre si: se 1:80.000 vale 12,5, então 1:200.000 tem de valer 12,5 vezes 80.000 sobre 200.000, ou seja, 5. Os 20 microgramas por mL impressos corresponderiam a uma diluição de 1:50.000. O erro aparece duas vezes no documento, no anexo do componente básico e na lista resumida, e foi verificado em três cópias do arquivo servidas por servidores diferentes, idênticas no trecho. Na prática, quem calcular a epinefrina pelo número impresso superestima a dose em quatro vezes.

Percentuais que somam mais de 100% na régua de detecção precoce. O Quadro 7 da publicação Detecção precoce do câncer, do INCA, de 2021, descreve o carcinoma basocelular como cerca de 80% dos cânceres de pele, o espinocelular como cerca de 20% dos cânceres de pele, e o melanoma como cerca de 1%; e acrescenta que os demais tipos, juntos, não chegam a 1%. A soma passa de 100% antes mesmo de contar os demais. A leitura que fecha é que 80 e 20 são frações do câncer de pele não melanoma, e não do câncer de pele: com os números da Estimativa 2026 do mesmo instituto, 80% de 263.280 dão 210.624 basocelulares e 20% dão 52.656 espinocelulares, que sobre o total de 272.640 cânceres de pele representam 77,3% e 19,3%, deixando 3,4% para o melanoma — e aí a soma fecha em 100%. O denominador impresso é o do câncer de pele; o denominador correto é o do não melanoma.

O melanoma no mesmo quadro. Ainda no Quadro 7 de 2021, o melanoma é descrito como cerca de 1% dos cânceres de pele. Pelos números do próprio INCA na Estimativa 2026, ele é 9.360 sobre 272.640, ou 3,4% — mais de três vezes o valor impresso. A diferença não é trivial para quem usa o quadro para calibrar suspeita, e ela vem do mesmo problema de denominador do item anterior.

Descrição histológica que não se sustenta. O mesmo Quadro 7 define o carcinoma espinocelular como originado nas células da camada mais superficial da pele. A camada mais superficial da epiderme é o estrato córneo, formado por corneócitos anucleados, isto é, células mortas e sem núcleo — delas não pode nascer neoplasia. O espinocelular deriva dos queratinócitos das camadas suprabasais, e o nome vem justamente do estrato espinhoso. É leitura deste capítulo, feita sobre a definição impressa e sobre a histologia da epiderme, e não citação de uma correção publicada.

Denominador trocado no boletim de 2016. O Informativo de Detecção Precoce nº 3 de 2016, do INCA, afirma no texto corrido que nas regiões Sul e Sudeste foram excluídos 750 procedimentos, ou 11%, por inconsistência de informação; e a nota da mesma figura detalha 538 excluídos no Sul, correspondendo a 31%, e 212 no Sudeste, correspondendo a 5%. As parcelas somam exatamente 750. Os percentuais, não: se 538 são 31% do Sul, a base do Sul é 1.735; se 212 são 5% do Sudeste, a base do Sudeste é 4.240; somadas, 5.975, e 750 sobre 5.975 dão 12,6%, não 11%. Os 11% só aparecem se o denominador for nacional: 6.264 biópsias mais os 750 excluídos dão 7.014, e 750 sobre 7.014 dão 10,7%. A frase nomeia duas regiões e usa o denominador do país inteiro.

Comparação que inverte o sinal, no mesmo boletim. Ele registra, para 2014, 916 óbitos por melanoma em homens e 693 em mulheres, e 1.050 óbitos por não melanoma em homens e 774 em mulheres; e conclui que a alta incidência do não melanoma pode explicar uma ocorrência de óbitos quase equivalente à do melanoma. Somando: 1.609 óbitos por melanoma e 1.824 por não melanoma. Não é quase equivalente — o não melanoma matou 13,4% mais. A mesma inversão persiste nos dados de 2023 da Estimativa 2026, com 3.541 contra 2.047. Já as três linhas da tabela de cirurgias de 2015 do boletim fecham: melanoma 3.176, não melanoma 31.089 e comportamento incerto 5.940 batem exatamente com a soma das cinco regiões.

Custo incremental que não é a diferença dos custos, no relatório da Conitec. A Tabela 6 do Relatório de Recomendação nº 835, de junho de 2023, imprime custo de R$ 702,26 para a cirurgia e R$ 1.982,98 para a terapia fotodinâmica, e custo incremental de R$ 1.343,88 nas três linhas. A diferença dos dois valores impressos é R$ 1.280,72 — R$ 63,16 a menos, ou 4,93%. A razão de custo-efetividade publicada, R$ 6.456,20, é internamente coerente com o incremental de R$ 1.343,88 (que implica um ganho de efetividade de 0,2082, arredondado para 0,21 na tabela), mas recalculada com a diferença dos custos impressos ela cairia para R$ 6.152,77. O incremental fecha com a razão publicada e não fecha com as duas parcelas que estão na mesma linha.

Um fator do caso base que veio da linha errada, no mesmo relatório. No cenário 2 da análise de impacto orçamentário, o texto parte de 24.254 procedimentos anuais associados ao capítulo C44 da CID-10, estima 16.978 relacionados ao carcinoma basocelular e 14.261 nos subtipos nodular e superficial. O primeiro passo confere: 24.254 vezes 0,70, que é o caso base da proporção de basocelular na Tabela 12, dão 16.977,8. O segundo, não: o caso base da proporção de nodular e superficial na mesma Tabela 12 é 0,90, e 16.978 vezes 0,90 dão 15.280. Os 14.261 impressos correspondem a 16.978 vezes 0,84 — e 0,84 é o valor máximo da linha anterior, a da proporção de basocelular, não pertencendo sequer à faixa declarada desta linha, que vai de 0,88 a 0,91. A diferença é de 1.019 procedimentos por ano, ou 6,7% a menos.

Teto por peso que colide com o teto absoluto, nas duas bulas de lidocaína. A bula sem vasoconstritor diz que a dose máxima individual não deve exceder 4,5 mg/kg e que em geral se recomenda não exceder 300 mg; as duas regras se cruzam em 66,7 kg, e acima disso a segunda anula a primeira. A bula com vasoconstritor diz 7 mg/kg e teto de 500 mg; cruzam-se em 71,4 kg. Não é erro de conta, é conflito interno da mesma frase, e ele importa: num adulto de 90 kg, a regra por peso autorizaria 405 mg sem vaso e 630 mg com vaso, enquanto os tetos absolutos param em 300 e 500. Vale sempre o menor dos dois. As mesmas bulas repetem, para criança, 3,0 a 4,0 mg/kg — que fecham com o exemplo impresso de 75 a 100 mg em 25 kg —, sem explicar por que o teto pediátrico é idêntico nas duas apresentações enquanto o adulto difere em 55,6%, nem onde fica a fronteira entre criança e adulto.

Duas bulas de 2%, dois sais diferentes. A bula do produto com vasoconstritor declara 20 mg por mL equivalentes a 16,23 mg de lidocaína base — o que só fecha se os 20 mg forem do cloridrato monoidratado, já que 20 vezes 234,34 sobre 288,81 dão 16,23. A bula sem vasoconstritor do mesmo fabricante, e a de outro fabricante, declaram 20 mg por mL equivalentes a 21,33 mg de cloridrato monoidratado — o que só fecha se os 20 mg forem do cloridrato anidro, já que 20 vezes 288,81 sobre 270,80 dão 21,33; e nesse caso a base é 17,31 mg por mL. Duas soluções rotuladas 2% entregam 16,23 e 17,31 mg de lidocaína base por mL, uma diferença de 6,7%. Em 24,5 mL, o teto de um adulto de 70 kg com vasoconstritor, são 26 mg de base de diferença. Nenhuma das duas está aritmeticamente errada; elas declaram sais diferentes sob o mesmo rótulo.

Uma razão que não fecha em nenhuma leitura. A bula com vasoconstritor afirma, na seção de gravidez, que não houve teratogenicidade em ratos que receberam até 60 mg/kg, e chama isso de 1.200 vezes a administração dérmica única de 0,5 mg de lidocaína em uma pessoa de 60 kg. Uma dose de 0,5 mg em 60 kg é 0,00833 mg/kg, e 60 dividido por 0,00833 dá 7.200 vezes, não 1.200. Se a dose humana fosse 0,5 mg por kg, a razão seria 120. Para que a razão fosse 1.200, a dose humana teria de ser 0,05 mg/kg, ou 3 mg numa pessoa de 60 kg. Nenhuma das três leituras reproduz o número impresso.

A régua da conduta é estrangeira, e nenhum documento brasileiro em vigor a adota. A recomendação brasileira sobre não rastrear câncer de pele está no INCA de 2021 e se apoia em revisões norte-americana de 2016 e canadense de 2008 — o Brasil adota a conclusão de fora e diz de onde ela vem. Já para margem cirúrgica de carcinoma basocelular e espinocelular não foi localizado nenhum documento federal brasileiro que fixe valores: nem protocolo clínico e diretrizes terapêuticas, nem diretriz diagnóstica e terapêutica, nem portaria. A literatura brasileira publicada sobre o assunto avalia margens contra diretrizes norte-americanas. Este capítulo, portanto, não publica número de margem: publica critério de encaminhamento, que é o que existe em documento brasileiro.

Dois documentos federais em vigor discordam sobre o que o SUS oferece. O Relatório da Conitec nº 835, de junho de 2023, afirma que nenhuma das alternativas terapêuticas ao tratamento cirúrgico do basocelular — entre elas o tratamento tópico com fluorouracila e com imiquimode — está disponível no SUS. A Rename 2024 lista imiquimode 50 mg por grama em creme no componente básico, código ATC D06BB10. Fluorouracila, em qualquer grafia, não aparece na Rename, e o protocolo de regulação do TelessaúdeRS confirma isso em nota de rodapé ao recomendá-la para ceratose actínica. A conciliação possível é que a Rename lista o fármaco e não a indicação, e que o imiquimode entra no elenco por outra indicação; mas, como escrita, a frase do relatório federal é mais ampla do que o elenco federal permite.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a do Ariovaldo, mas serve a qualquer lesão suspeita encontrada numa consulta que era sobre outra coisa. O relógio começa no meio da consulta e vai até o ano seguinte, porque a conduta do carcinoma cutâneo tem duas metades: a da lesão, que termina em semanas, e a do campo, que não termina.

As doses de lidocaína abaixo são as de um adulto de 70 kg e conferem com a tabela de conversão deste capítulo.

Margem histologicamente livre não equivale a risco zero e não decide sozinha o seguimento. Integrar subtipo, sítio, tamanho, recidiva, imunossupressão e invasão perineural. CBC de baixo risco completamente tratado pode seguir no fluxo local; CBC de alto risco com margem próxima exige discussão especializada. CEC invasivo e margens comprometidas precisam de avaliação especializada. A equipe deve garantir leitura do laudo, comunicação ao paciente e plano documentado, inclusive quando a amostra é insuficiente.

  1. Minuto 6 — a lesão aparece no meio de outra consulta

    Você viu a crosta na orelha enquanto ele falava do ombro. A tentação é terminar o assunto do ombro e deixar a orelha para o retorno — e o retorno vai ser sobre outra coisa também. Interrompa uma vez, com uma frase curta que pede licença sem assustar, e olhe. Não é preciso resolver a orelha nesta consulta; é preciso que ela deixe de ser invisível. O que não pode acontecer é a consulta terminar sem uma linha escrita sobre ela, porque essa linha é o que faz a próxima consulta começar de outro lugar.

    Prescrição
    • Registrar no prontuário, ainda que sem conduta definida: lesão em hélice da orelha esquerda, crostosa, cerca de 0,8 cm, evolução referida de 18 meses, com ciclos de cicatrização e reabertura.
    • Não prescrever pomada, antibiótico tópico nem curativo oclusivo às cegas — tratamento empírico atrasa o diagnóstico e não muda a lesão.
  2. Minuto 8 — o exame dirigido

    Leve o paciente para a maca ou peça que se vire para a janela e use a luz de lado. Olhe as duas orelhas, o rosto inteiro, o couro cabeludo, o lábio inferior, o pescoço e o dorso das mãos. Toque: a aspereza das ceratoses actínicas e a base infiltrada do espinocelular só existem para o dedo. Meça em centímetros. Palpe as cadeias de drenagem daquela região. E pergunte por outras feridas que não saram em qualquer lugar do corpo, porque a lesão que o paciente conhece é a que ele não trouxe.

    Prescrição
    • Descrever no prontuário: sítio com lado, dois maiores eixos em centímetros, tipo elementar, cor, presença de ulceração, tempo de evolução.
    • Registrar o exame das cadeias de drenagem correspondentes ao sítio, com o resultado, mesmo quando normal.
    • Fotografar a lesão com régua ou moeda ao lado, se o serviço tiver como armazenar a imagem.
  3. Minuto 12 — a decisão de três vias

    A técnica de biópsia depende da hipótese, tamanho, sítio, risco e experiência do profissional. Em suspeita de melanoma, preferir remoção completa com margem diagnóstica estreita e profundidade suficiente para evitar transecção; biópsia parcial pode ser necessária em lesões grandes ou áreas complexas, idealmente planejada pela referência. Não destruir lesão suspeita com cauterização ou raspagem superficial. Suspeita de CBC ou CEC requer amostra representativa que permita avaliar invasão. O interno participa sob supervisão e com retaguarda para hemostasia, anatomopatológico e seguimento.

    Prescrição
    • Escrever a decisão no prontuário com a justificativa em uma linha: acompanhar, biopsiar aqui ou encaminhar, e por quê.
    • Se acompanhar: marcar retorno com data e escrever o critério de mudança que obriga o paciente a voltar antes.
  4. Mesmo dia — a biópsia, quando ela é sua

    Quando a lesão cabe, o procedimento é curto e a maior parte dos erros acontece antes de encostar no paciente: material incompleto e frasco sem rótulo. Monte a bandeja, rotule o frasco, explique o que vai fazer, anestesie com botão intradérmico e espere. A espera de sete a dez minutos com vasoconstritor é o que faz a diferença entre um campo limpo e uma coleta borrada de sangue. Biopsie a borda elevada com a transição para a pele normal, nunca o centro ulcerado, e segure a peça pela derme.

    Prescrição
    • Lidocaína 2% com epinefrina 1:200.000, 0,7 a 1,5 mL infiltrados na derme; teto do adulto de 70 kg é 24,5 mL, muito acima do necessário.
    • Punch de 4 mm como padrão; excisão fusiforme com margem estreita quando a lesão é pequena e cabe; nunca raspagem em lesão pigmentada.
    • Frasco com formalina tamponada a 10%, em volume dez vezes maior que a peça, rotulado com nome completo, sítio e lado ANTES da coleta.
    • Fio monofilamentar 5-0 em face e 4-0 em tronco e membros; um ou dois pontos simples.
    • Dipirona 500 mg ou paracetamol 500 mg por via oral, se dor, até de 6 em 6 horas nas primeiras 48 horas.
  5. Mesmo dia — o pedido e o encaminhamento

    O pedido de anatomopatológico e o encaminhamento carregam a mesma descrição, e é ela que decide a qualidade do que volta. Escreva a hipótese, não só a coleta. E, no encaminhamento, preencha os campos que o protocolo de regulação exige, porque encaminhamento incompleto volta ou fica na fila indiferenciada — que, para o paciente, é a mesma coisa que não ter sido encaminhado.

    Prescrição
    • Pedido de exame anatomopatológico com: sítio e lado, medida em centímetros, tipo elementar, cor, ulceração, tempo de evolução, ocupação, hipótese diagnóstica e técnica de coleta utilizada.
    • Encaminhamento com: localização, tamanho em centímetros, cores, presença de ulceração, tempo de evolução, fotografia anexada, laudo anatomopatológico anexo ou transcrito com data, e presença de imunossupressão.
    • Anotar no prontuário a data prevista de retorno do laudo e quem vai buscá-lo.
  6. Dia 7 a 14 — a retirada dos pontos e a segunda olhada

    O retorno de retirada de pontos é a segunda oportunidade de exame, e ela é gratuita: o paciente já está ali, a lesão já foi descrita, e agora há tempo. Aproveite para examinar a pele que ficou de fora na primeira consulta — tronco, pernas, plantas — e para conferir se a lesão sangrante cicatrizou como esperado. É também quando se ensina fotoproteção pela primeira vez com o paciente disposto a ouvir, porque ele acabou de passar por um procedimento.

    Prescrição
    • Retirar pontos em 7 dias na face e 10 a 14 dias em tronco e membros.
    • Examinar as áreas não examinadas na primeira consulta, incluindo dorso e membros inferiores.
    • Orientar fotoproteção: chapéu de aba larga, camisa de manga longa, evitar sol entre 10 e 16 horas, e protetor solar com fator 30 ou maior reaplicado a cada 2 horas na exposição direta.
  7. Dia 15 a 30 — o laudo volta

    O laudo é o momento em que a consulta se torna diagnóstico, e é o ponto do processo com mais perda. Laudo que chega e não é buscado, laudo que é arquivado sem leitura, laudo lido pela primeira palavra e não pela última: os três acontecem. Leia inteiro, procurando o tipo, o subtipo, invasão perineural e o estado das margens. E devolva o resultado ao paciente numa consulta, não por telefone e não por recado.

    Prescrição
    • Margem histologicamente livre não equivale a risco zero e não decide sozinha o seguimento. Integrar subtipo, sítio, tamanho, recidiva, imunossupressão e invasão perineural. CBC de baixo risco completamente tratado pode seguir no fluxo local; CBC de alto risco com margem próxima exige discussão especializada. CEC invasivo e margens comprometidas precisam de avaliação especializada. A equipe deve garantir leitura do laudo, comunicação ao paciente e plano documentado, inclusive quando a amostra é insuficiente.
    • Se margem comprometida, invasão perineural, espinocelular invasivo, recidiva ou paciente imunossuprimido: encaminhar ao serviço especializado com o laudo transcrito por extenso.
    • Se material insuficiente ou inflamação inespecífica numa lesão que continua suspeita: repetir a biópsia na borda, não tranquilizar o paciente com o laudo.
  8. Do terceiro mês ao ano seguinte — o campo, que é o que sobra

    Tratada a lesão, sobra a pele que a produziu. Quem teve um carcinoma tem risco alto de ter outro, e o intervalo entre eles é curto. Essa é a parte da conduta que pertence inteiramente à unidade básica, porque não depende de fila, de agenda de especialista nem de tecnologia: depende de o paciente ter uma data marcada para voltar e de alguém olhar de novo. Programe. E trate as ceratoses actínicas do campo, encaminhando ao dermatologista as três situações que o protocolo de regulação nomeia — refratária ao tratamento otimizado, em imunossuprimido, ou hiperceratótica demais para tratamento tópico.

    Prescrição
    • Retorno programado com exame de pele em 6 meses no primeiro ano e depois anual, com data marcada na saída, não por demanda espontânea.
    • Reforçar fotoproteção em toda consulta, incluindo o chapéu como equipamento de trabalho e não como acessório.
    • Registrar em prontuário a lista de lesões do campo, para que o próximo profissional compare em vez de recomeçar.
    • Comunicar o resultado ao serviço que acompanha comorbidades relevantes: no transplantado, ao serviço de transplante.
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar carcinoma cutâneo é diferente de reavaliar uma doença aguda: quase nada acontece em horas e quase tudo acontece em meses. Por isso os parâmetros abaixo misturam dois tipos — os do paciente e os do processo. Os do processo são os que mais falham, e são os únicos que a unidade controla inteiramente.

Cicatrização do sítio da biópsiaRetorno de 7 a 14 dias

Esperado: Borda coaptada, sem secreção, sem eritema perilesional expansivo. Punch pequeno deixado por segunda intenção deve estar granulando e reduzido.

Se não melhora: Deiscência ou secreção purulenta: limpeza, cultura se disponível e antibiótico sistêmico dirigido a pele. Se a ferida não fecha e a borda se eleva, considere que o tumor está no leito e não é infecção — e reavalie o laudo.

O laudo chegou e foi lidoNa data anotada no prontuário, entre 15 e 30 dias

Esperado: Laudo em mãos, lido inteiro, com decisão registrada e paciente convocado para receber o resultado presencialmente.

Se não melhora: Se o laudo não chegou na data, alguém liga para o laboratório no mesmo dia. Este é o ponto do processo em que o diagnóstico mais se perde, e não existe substituto para a busca ativa. Se o paciente não comparece, aciona-se a agente comunitária de saúde da microárea.

Estado das margens no laudoNa leitura do laudo

Esperado: Margem histologicamente livre não equivale a risco zero e não decide sozinha o seguimento. Integrar subtipo, sítio, tamanho, recidiva, imunossupressão e invasão perineural. CBC de baixo risco completamente tratado pode seguir no fluxo local; CBC de alto risco com margem próxima exige discussão especializada. CEC invasivo e margens comprometidas precisam de avaliação especializada. A equipe deve garantir leitura do laudo, comunicação ao paciente e plano documentado, inclusive quando a amostra é insuficiente.

Se não melhora: Margem comprometida significa tumor ainda no paciente: encaminhar ao serviço que vai reoperar, com o laudo transcrito. Laudo que não descreve margem numa peça excisional é laudo incompleto — peça complementação ao patologista antes de arquivar.

Recidiva na cicatriz6 e 12 meses após o tratamento, e depois anualmente

Esperado: Cicatriz plana, sem nódulo, sem elevação de borda, sem telangiectasia nova sobre ela.

Se não melhora: Nódulo, endurecimento ou reabertura sobre a cicatriz é recidiva até prova em contrário, e recidiva é critério de risco aumentado: encaminhe, não observe. A cicatriz que muda é o achado mais fácil de justificar como prioridade na regulação.

Lesão nova no mesmo campoA cada 6 meses no primeiro ano, depois anual

Esperado: Nenhuma lesão nova suspeita; ceratoses actínicas estáveis ou em redução se o campo foi tratado.

Se não melhora: Lesão nova em quem já teve carcinoma não é coincidência, é o campo funcionando. Reavalie fotoproteção de verdade — se o chapéu está sendo usado no trabalho, e não só guardado — e trate o campo, encaminhando ao dermatologista as ceratoses refratárias, as do imunossuprimido e as hiperceratóticas.

Cadeias linfáticas de drenagem, no espinocelularEm toda consulta de seguimento, no primeiro e no segundo ano

Esperado: Ausência de linfonodo palpável na cadeia correspondente ao sítio da lesão.

Se não melhora: Linfonodo novo, endurecido ou fixo na cadeia de drenagem de um espinocelular tratado é doença regional até prova em contrário: encaminhamento prioritário ao serviço especializado, com a descrição do linfonodo e a data em que apareceu. Não puncione nem trate como adenite antes disso.

Fotoproteção que de fato aconteceEm toda consulta

Esperado: Chapéu de aba larga usado no trabalho, camisa de manga, ajuste de horário quando possível, protetor solar reaplicado.

Se não melhora: Se a orientação não pegou, mude o alvo: negocie o que é possível na jornada real dele — o chapéu costuma ser mais viável que o horário, e a camisa mais viável que o protetor, que exige reaplicação e custa. Fotoproteção prescrita e não executada não é adesão ruim do paciente: é orientação que não coube na vida dele.

10

Onde o erro machuca

Não olhar, porque a lesão não era a queixa

O dano: É com ele que este capítulo começa, e é dele que vem a distância entre o que o INCA estima e o que aparece nos sistemas do SUS. A lesão do Ariovaldo passou por quatro consultas registradas em dezoito meses, com pressão aferida nas quatro e nenhuma palavra sobre a orelha. O dano não é o diagnóstico perdido em si: é que cada mês adicional aproxima uma exérese ambulatorial de uma ressecção com reconstrução, num serviço a setenta quilômetros de casa.

Como pegar a tempo: Transforme em automatismo, não em decisão. Enquanto o paciente fala, seu olhar percorre rosto, orelhas, couro cabeludo, lábio inferior e dorso das mãos — áreas que já estão descobertas. E toda consulta termina com uma pergunta de sete palavras: alguma ferida ou mancha que não sara?

Cauterizar, congelar ou eletrocoagular uma lesão sem diagnóstico

O dano: Destruir a lesão sem tecido para o patologista é o único erro deste capítulo que é irreversível no mesmo dia. Some a lesão e some a informação: não há tipo histológico, não há subtipo, não há profundidade, não há margem. Se era carcinoma, o paciente sai achando que tratou; a recidiva aparece meses depois, maior, em tecido cicatricial e com limites mais difíceis. Se era melanoma, a espessura foi apagada para sempre.

Como pegar a tempo: Regra simples e sem exceção na atenção primária: nada que se pareça com tumor é destruído sem exame anatomopatológico. Se a lesão precisa sair, ela sai inteira e vai para o frasco. Se não cabe sair na sua unidade, ela é encaminhada intacta.

Fazer raspagem tangencial numa lesão pigmentada

O dano: A raspagem leva o topo e deixa a porção profunda. Se a lesão for melanoma, a espessura — que é a variável que governa toda a conduta subsequente — fica no paciente e não no frasco, e o laudo volta com base comprometida e sem medida confiável. A reexcisão remove tecido já alterado pela cicatrização e não recupera o dado. E lembre-se de que o basocelular pigmentado é comum: a lesão escura no rosto do idoso pode ser qualquer um dos dois.

Como pegar a tempo: Antes de escolher a técnica, faça uma pergunta só: esta lesão é pigmentada? Se for, a raspagem está fora, e a preferência é excisional com margem estreita — ou encaminhamento, se o sítio não permitir. A técnica se escolhe pela pergunta que o laudo precisa responder.

Biopsiar o centro ulcerado, ou mandar fragmento pequeno demais

O dano: O centro de um carcinoma ulcerado é crosta, fibrina e necrose, e tecido morto não tem arquitetura para ser lida. O laudo volta como material insuficiente ou inflamação inespecífica, o paciente é tranquilizado por um resultado que não disse nada, e o tumor continua crescendo protegido por um laudo negativo. O mesmo vale para o fragmento de 2 mm numa lesão infiltrativa, que pode conter só o componente superficial e não permitir afirmar subtipo nem profundidade.

Como pegar a tempo: Biopsie a borda elevada, incluindo a transição para a pele normal, e use punch de 4 mm como piso. E leia o laudo com a pergunta na mão: se ele não respondeu ao que você perguntou numa lesão que continua suspeita, a conduta é repetir a biópsia, não arquivar.

Tratar por meses uma ferida que não sara como se fosse infecção ou dermatite

O dano: É a história mais frequente do carcinoma diagnosticado tarde. A lesão superficial recebe corticoide tópico por suspeita de eczema; a ulcerada recebe antibiótico tópico e curativo; a placa da perna recebe antifúngico por suspeita de micose. Cada ciclo consome de quatro a oito semanas, e o paciente volta com uma lesão maior e a impressão de que já foi cuidado daquilo. Quatro ciclos somam quase um ano.

Como pegar a tempo: Use o prazo que o próprio INCA publica como sinal de alerta: ferida que não cicatriza em quatro semanas. Um tratamento empírico é aceitável; dois, com hipóteses diferentes, já são um desvio. Placa única que não coça, não responde a corticoide e não muda em três meses não é dermatose inflamatória.

Dizer câncer de pele e parar a frase ali

O dano: O paciente ouve câncer de pele e monta a imagem que a campanha de rua construiu, que é a do melanoma: metástase, quimioterapia, morte. A reação previsível é medo desproporcional, e o medo desproporcional produz dois desfechos opostos e igualmente ruins — o paciente que abandona o seguimento porque não quer confirmar, e o que passa a exigir urgência para tudo. Com 28 carcinomas para cada melanoma, a maioria absoluta das pessoas a quem você diz essa frase tem a doença de melhor prognóstico do grupo.

Como pegar a tempo: Nunca diga o nome sem a segunda metade da frase, na mesma respiração: existem tipos diferentes, e o mais comum é o que fica no lugar e se resolve tirando. Depois explique que a confirmação vem do exame do fragmento, e que o plano já existe. Nome sem prognóstico é uma frase pela metade.

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O que dizer ao paciente e à família

As falas abaixo são para a consulta que não estava marcada para isso. O protocolo geral de comunicação de más notícias é do capítulo de comunicação de más notícias desta apostila; aqui estão só as frases específicas de uma lesão de pele — pedir para olhar, nomear sem assustar, e explicar a diferença que a maioria das pessoas não sabe que existe.

Pedir licença para olhar, sem transformar a consulta em outra coisa

"Antes do senhor ir, posso dar uma olhada nessa casquinha da orelha? É rapidinho, só quero ver de perto com a luz da janela. Pode virar um pouco o rosto para lá?"

Não diga: Perguntar com cara de preocupação e sem explicar por quê. A frase curta e cotidiana mantém o paciente colaborativo; o silêncio pesado começa a consulta pelo susto.

Quando ele diz que é só do sol e que todo mundo tem

"O senhor tem razão que é do sol. É por isso mesmo que eu quero olhar: o sol de quarenta anos de roça é justamente o que faz aparecer esse tipo de lesão. Só que algumas delas somem sozinhas e outras não somem — e a diferença entre as duas não dá para ver só olhando."

Não diga: Contradizer o paciente. Ele está certo sobre a causa, e concordar com ele é o que abre espaço para discordar sobre a conduta.

Nomear a suspeita sem entregar um diagnóstico que você não tem

"Essa lesão tem cara de ser um tumor de pele. Eu ainda não posso afirmar, porque isso só se confirma examinando um pedacinho dela no microscópio. Mas ela tem características que eu não posso deixar passar, e por isso eu vou encaminhar o senhor hoje."

Não diga: Dizer que é provavelmente nada e pedir o exame do mesmo jeito. O paciente que ouve 'provavelmente nada' não comparece à consulta do especialista.

Dizer câncer de pele — e separar do melanoma na mesma frase

"É um câncer de pele. E aqui eu preciso explicar uma coisa, porque essa palavra assusta: câncer de pele não é uma doença só. O tipo mais comum, que é o que eu acho que o senhor tem, fica no lugar onde nasceu, não se espalha para o resto do corpo, e se resolve tirando. O tipo que se espalha e que o senhor já viu falar na televisão é outro, e é bem mais raro. São vinte e oito casos do primeiro para cada um do segundo."

Não diga: Dizer 'é câncer, mas é do bom'. Não existe câncer do bom, e a frase soa a consolo vazio. O que tranquiliza é o mecanismo: fica no lugar, sai tirando.

Explicar a biópsia para quem nunca fez procedimento

"Eu vou anestesiar essa área com uma picadinha, que arde uns cinco segundos e depois adormece. Aí eu tiro um pedacinho do tamanho de um grão de arroz e mando para o laboratório, que vai olhar no microscópio e dizer exatamente o que é. Fica um ponto, que a gente tira em uma semana. O senhor volta a trabalhar amanhã."

Não diga: Chamar de cirurgia, ou dizer que não dói. Nomeie a picada da anestesia — quando o paciente é avisado do que vai doer, ele tolera; quando é surpreendido, ele se mexe.

Quando ele pergunta quanto tempo vai demorar até ser tratado

"A consulta com o especialista tem fila, e eu não vou prometer uma data que não depende de mim. O que eu posso fazer é escrever o encaminhamento do jeito certo, com a medida, a foto e o tempo que a lesão tem, porque isso muda a prioridade dela na fila. E o senhor tem retorno marcado comigo daqui a um mês, com ou sem notícia, para a gente não perder o fio."

Não diga: Prometer prazo, e também encolher os ombros. As duas fazem o paciente sumir. O retorno marcado com você é a única data que está no seu controle.

Com o transplantado, explicar por que ele volta todo ano

"Os remédios que protegem o seu rim fazem uma coisa a mais: eles deixam a defesa da pele mais fraca contra o sol. Isso significa que essas lesões vão aparecer de novo, e mais de uma por vez. Não é que o tratamento falhou — é assim que funciona. Por isso o senhor tem consulta de pele marcada todo ano, mesmo quando estiver tudo bem, e por isso o chapéu para o senhor não é conselho, é parte do tratamento."

Não diga: Falar em risco aumentado sem dizer que as lesões vão voltar. O paciente que não foi avisado interpreta a segunda lesão como fracasso e abandona o seguimento.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Examinar a pele de quem tem alto risco é rastreamento — que o Brasil não recomenda — ou é diagnóstico precoce, que ele recomenda?

É rastreamento, e por isso não se faz

A publicação nacional de detecção precoce afirma que não há consenso quanto ao rastreamento populacional de câncer de pele, porque as evidências são insuficientes para recomendá-lo, e adota como estratégia o diagnóstico precoce: população e profissionais alertas para lesões anormais, com confirmação diagnóstica garantida. Aplicar exame de pele a pessoa assintomática, ainda que de risco elevado, é aplicar exame a quem não tem sinal nem sintoma, que é a definição de rastreamento que o próprio documento usa.

INCA, Detecção precoce do câncer, 2021, capítulo 2.3 — definição de rastreamento e recomendação sobre câncer de pele.

É seguimento de grupo de risco, e a régua brasileira já o prevê

O mesmo documento de 2021, duas páginas adiante, registra que diretrizes internacionais recomendam o seguimento periódico de pessoas de alto risco para melanoma e o exame com maior frequência de quem já teve câncer de pele não melanoma. E o protocolo de regulação ambulatorial brasileiro operacionaliza isso: paciente de alto risco para melanoma e portador de ceratose actínica imunossuprimido são condições de encaminhamento à dermatologia, sem exigir lesão suspeita ativa.

INCA, Detecção precoce do câncer, 2021, seção sobre seguimento de alto risco; e TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Regulação Ambulatorial — Dermatologia Adulto, 2023, Protocolos 2 e 3 e quadro 4.

Como decidir

Para o paciente à sua frente, a pergunta operacional não é qual rótulo se aplica, e sim quantos fatores de risco ele tem. Um trabalhador rural de fototipo baixo, com dano actínico difuso e história pessoal de carcinoma, não é assintomático: ele tem campo alterado visível, e examiná-lo é exame de quem tem sinal. Já o adulto jovem de fototipo alto, sem exposição ocupacional e sem lesão, não ganha nada com exame de pele agendado — e ganha o risco de achado incidental que gera biópsia. O corte prático que o capítulo sugere é o do próprio protocolo: história pessoal de câncer de pele, imunossupressão e os critérios de alto risco para melanoma justificam data marcada; o resto é olhar de propósito na consulta que já existe.

Terapia fotodinâmica para basocelular superficial e nodular: o desfecho que decide é a cosmese ou a recidiva?

A cosmese decide, e a tecnologia foi incorporada por unanimidade

O comitê deliberou por unanimidade recomendar a incorporação, considerando as contribuições da consulta pública, a explicação da médica especialista do INCA sobre o benefício clínico e o lugar da tecnologia na terapia do basocelular, a capacidade instalada nos serviços e a expectativa de difusão. Na avaliação econômica, a terapia fotodinâmica teve desfecho cosmético bom ou excelente superior à cirurgia na avaliação do observador, com risco relativo de 1,87 e intervalo de confiança de 95% entre 1,54 e 2,26, e razão de custo-efetividade incremental de R$ 6.456,20 por resolução adicional com bom desfecho cosmético.

Conitec, Relatório de Recomendação nº 835, junho de 2023 — recomendação final e Tabela 6; decisão publicada pela Portaria SECTICS/MS nº 46, de 5 de setembro de 2023.

A recidiva decide, e o mesmo relatório mostra a tecnologia dominada

O próprio relatório registra inferioridade da terapia fotodinâmica na resolução da lesão, com risco relativo de 0,93 e intervalo de 0,89 a 0,97, e maior risco de recidiva em um ano, com risco relativo de 12,89 e intervalo de 2,44 a 68,02, com zero recidiva nos braços cirúrgicos dos três ensaios. No cenário em que o desfecho é resolução da lesão sem recidiva, a efetividade cai de 0,95 na cirurgia para 0,64 na terapia fotodinâmica e a tecnologia é declarada dominada — pior e mais cara. Três anos antes, com evidência semelhante, o relatório técnico anterior sobre a mesma tecnologia registrava recidiva mais de doze vezes maior.

Conitec, Relatório de Recomendação nº 835, junho de 2023 — meta-análise de recidiva em um ano e cenário alternativo 1 da Tabela 6; e Relatório Técnico nº 507, fevereiro de 2020.

Como decidir

Esta decisão não é do interno na unidade básica, e o capítulo não a toma. O que muda para você é o que dizer ao paciente quando ele voltar do serviço especializado com essa proposta. Os dois lados do relatório são verdadeiros ao mesmo tempo: a terapia fotodinâmica deixa cicatriz melhor e recidiva mais. Isso faz dela uma opção razoável quando a cirurgia não é recomendada — idade avançada, número de lesões, sítio em que a cirurgia comprometeria função ou estética —, que é exatamente a indicação da portaria, e uma escolha difícil de justificar quando a excisão simples é possível e o paciente tem décadas de seguimento pela frente. A pergunta a fazer com o paciente é qual dos dois desfechos ele prefere carregar, e por quanto tempo ele vai poder voltar para conferir.

Biopsiar na unidade antes de encaminhar, ou encaminhar a lesão intacta para o especialista biopsiar?

Biopsiar antes: o laudo muda a porta e a fila

O protocolo de regulação ambulatorial separa explicitamente lesões com suspeita de malignidade sem anatomopatológico de lesões malignas com anatomopatológico, e as encaminha por rotas distintas; e exige, no conteúdo descritivo mínimo do encaminhamento, o laudo anexado preferencialmente, ou descrito na íntegra, com data. Ter o laudo em mãos deixa de ser detalhe: ele determina para qual especialidade o paciente vai e com que prioridade, e ainda devolve à atenção primária o caso já resolvido com margem livre.

TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Regulação Ambulatorial — Dermatologia Adulto, 2023, Protocolo 3, quadro 7 e conteúdo descritivo mínimo.

Encaminhar intacta: a biópsia é do serviço especializado

A régua federal de detecção precoce coloca a biópsia depois do encaminhamento: o diagnóstico precoce passa pela identificação de lesões suspeitas por profissionais de saúde e pelo pronto encaminhamento para avaliação no serviço especializado, onde será realizada a biópsia, se necessário. O boletim do mesmo instituto reforça a leitura ao medir onde as biópsias de fato acontecem no SUS — maioria em unidade especializada e em ambulatório de hospital, metade delas feita por dermatologista — e ao pedir que a atenção primária conheça o fluxo de encaminhamento, não que execute o procedimento.

INCA, Detecção precoce do câncer, 2021; e INCA, Informativo Detecção Precoce ano 7 nº 3, 2016, seção de diagnóstico e tratamento.

Como decidir

A decisão é por lesão e por unidade, não por doutrina. Biopsie quando as quatro condições se somam: a lesão cabe no que sua unidade consegue retirar ou amostrar sem comprometer reconstrução futura; não é pigmentada nem levanta suspeita de melanoma; existe material completo e frasco com formalina disponível; e, principalmente, existe laboratório de anatomia patológica que recebe e devolve o material — o próprio boletim de 2016 aponta falhas de registro e de fluxo que fazem material coletado se perder. Encaminhe intacta quando a lesão está em face, orelha, pálpebra ou lábio, quando é grande, quando a suspeita é de melanoma, ou quando qualquer elo da cadeia acima não existe. E note o ponto que costuma passar despercebido: uma biópsia mal feita não é neutra, ela subtrai informação. Diante da dúvida sobre a própria capacidade de executar, encaminhar é a escolha conservadora.

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O raciocínio, em voz alta

Abelardo Gasparini tem 58 anos, é transplantado renal há onze e mora num distrito rural a quarenta minutos da sede do município. Trabalhou com máquina agrícola dos 19 aos 47 anos, quando entrou em diálise. Usa tacrolimo, micofenolato e prednisona, e a última creatinina, de três meses atrás, era 1,3 mg/dL. Veio à unidade renovar a receita da medicação de uso contínuo e trouxe a caderneta do transplante. É a quinta consulta da manhã. Enquanto você confere as doses, ele coça o dorso da mão esquerda com o polegar da direita, do jeito de quem faz isso o dia inteiro. No dorso da mão há uma área avermelhada, áspera, de cerca de 1,5 cm. No antebraço direito há uma placa eritematosa descamativa de 2 cm, de limites nítidos, que ele diz tratar com pomada de farmácia há uns oito meses. E na hélice da orelha direita há um nódulo firme, de 1,2 cm, com crosta central, que ele afirma ter aparecido depois do Natal — cerca de dois meses.

  1. o que penso antes de perguntar qualquer coisa

    Este não é um paciente com uma lesão: é um paciente com um campo, e o campo está sob imunossupressão há onze anos. A pergunta deixa de ser qual é esta lesão e passa a ser quantas lesões existem e qual delas decide a agenda de hoje. Em imunossuprimidos a razão entre os carcinomas se inverte, com predomínio do espinocelular, as lesões aparecem em ondas e o comportamento é mais agressivo. Além disso, dois dos imunossupressores clássicos do transplante — azatioprina e ciclosporina — figuram entre os carcinógenos de pele com evidência suficiente na classificação que o INCA reproduz, e ele tem trinta anos de exposição ocupacional ao sol somados a onze anos de supressão da vigilância imunológica.

  2. o que eu examino, e em que ordem

    Primeiro o inventário completo, não a lesão que ele mostrou: rosto, orelhas, couro cabeludo, lábio inferior, pescoço, os dois antebraços e os dois dorsos das mãos, com luz de lado e com o dedo passando pela pele. Depois, para cada lesão encontrada: sítio com lado, dois maiores eixos em centímetros, tipo elementar, cor, ulceração e tempo de evolução. Por fim, e obrigatoriamente, as cadeias de drenagem: pré-auriculares, retroauriculares e cervicais para a orelha; epitrocleares e axilares para mão e antebraço.

  3. o que cada uma das três lesões provavelmente é

    A área áspera e avermelhada do dorso da mão tem a semiologia da ceratose actínica: a aspereza se sente antes de se ver, é múltipla e está no sítio de sol cumulativo. A placa do antebraço, eritematosa e descamativa, de limites nítidos, que não respondeu a oito meses de pomada, tem a semiologia da doença de Bowen — carcinoma espinocelular in situ — e é justamente a lesão que se confunde com eczema e micose por meses. O nódulo firme da hélice da orelha, com crosta central e dois meses de evolução, tem a semiologia do espinocelular invasivo: base infiltrada, crescimento rápido, sítio de alto risco.

  4. qual delas manda no dia de hoje

    A da orelha, e por três motivos independentes que se somam. O tempo: dois meses de crescimento é a cronologia do espinocelular, não a do basocelular. O sítio: hélice da orelha é área difícil pelo protocolo de regulação, e é sítio de maior risco de doença regional pela drenagem linfática rica e pela cartilagem logo abaixo. E o hospedeiro: imunossupressão de onze anos aumenta a agressividade esperada. Uma lesão de 1,2 cm em face ou pescoço já ultrapassa o corte de 1 cm do protocolo, o que a coloca em oncologia cirurgia pele independentemente do resto.

  5. por que eu não biopsio a orelha aqui

    Não porque o procedimento seja difícil, mas porque uma amostragem parcial numa lesão de 1,2 cm sobre cartilagem, num sítio que vai exigir planejamento de retirada e possivelmente de reconstrução, subtrai tecido do plano cirúrgico sem trazer benefício. O protocolo manda a lesão suspeita maior que 1 cm em face e pescoço, e a lesão em área difícil de qualquer tamanho, para oncologia cirurgia pele. O que eu faço aqui é a descrição, a foto e o encaminhamento com o tempo de evolução em destaque — porque é o tempo de evolução que tira essa lesão da fila indiferenciada.

  6. o que eu faço com as outras duas

    A placa do antebraço é a que cabe. Tem 2 cm, está em membro, fora de área difícil, não é pigmentada, e a suspeita de doença de Bowen exige confirmação histológica. Punch de 4 mm na borda mais elevada, com transição para a pele normal, sob lidocaína 2% com epinefrina, cerca de 0,7 mL. A ceratose actínica do dorso da mão não é biópsia: é lesão de campo — e, por ser em paciente imunossuprimido, é, por si só, condição de encaminhamento à dermatologia pelo protocolo de regulação, sem precisar ser refratária a nada.

  7. o que eu escrevo, e para quem

    Três documentos com a mesma descrição. O pedido de anatomopatológico da placa do antebraço, com hipótese explícita de doença de Bowen e a informação de imunossupressão. O encaminhamento à oncologia cirurgia pele para a lesão da orelha, com localização, 1,2 cm, cor, crosta central, dois meses de evolução, foto anexada, resultado do exame das cadeias de drenagem e o esquema imunossupressor por extenso. E o encaminhamento à dermatologia para o campo, dizendo que é paciente transplantado com ceratoses actínicas múltiplas. Somo um quarto: uma comunicação ao serviço de transplante que o acompanha, porque um espinocelular novo é informação que o nefrologista precisa ter — e o ajuste do esquema imunossupressor é decisão dele, não minha.

  8. o que eu digo a ele, e o que marco antes de ele sair

    Digo que os remédios que protegem o rim deixam a defesa da pele mais fraca contra o sol, que essas lesões vão voltar e que isso não é falha do tratamento. Digo que a da orelha é a que tem pressa, que a do braço vai ser examinada por dentro, e que a da mão é do mesmo grupo, mais superficial. Marco na saída, com data no papel: retirada de pontos em dez dias, retorno em trinta dias com o laudo, e consulta anual de pele mesmo quando estiver tudo bem. E anoto no prontuário a lista das três lesões com medidas, para que quem o atender daqui a seis meses compare em vez de recomeçar.

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Faça você

Trinta e dois dias depois da consulta que abre este capítulo, o laudo do Ariovaldo chega à unidade. Ele foi biopsiado no serviço de referência, para onde você o encaminhou, e o texto diz: carcinoma espinocelular invasivo, moderadamente diferenciado, com invasão perineural, espessura de 6,2 mm; margem lateral livre a 0,8 mm; margem profunda comprometida. Ariovaldo está na sua frente, com o papel na mão e a orelha ainda com o ponto. Ele diz que na consulta do especialista falaram que tinham tirado tudo, e pergunta se agora acabou. Você tem doze minutos e é o único médico na unidade hoje, porque a médica da equipe está de férias. Responda cada passo antes de ler o seguinte.

  1. 1. Leia o laudo inteiro e diga, em uma frase, se a lesão foi tratada

    Quais palavras do laudo respondem a essa pergunta, e o que exatamente significa margem profunda comprometida para o corpo do paciente neste momento? Compare com o que significaria margem livre, mesmo exígua, como a lateral de 0,8 mm.

  2. 2. Identifique os três achados que elevam o risco desta lesão

    O laudo traz três descritores que, cada um por si, colocam este espinocelular num patamar de risco acima do trivial, e há um quarto que vem do sítio e não do laudo. Nomeie os quatro e diga, para cada um, o que ele implica de conduta ou de seguimento.

  3. 3. Decida o destino, hoje, e escreva a linha do encaminhamento

    Este paciente permanece na atenção primária ou volta ao serviço especializado? Qual é a regra do protocolo de regulação que decide isso, e qual seria a regra se as duas margens estivessem livres? Escreva a frase de prioridade que faz esse encaminhamento sair da fila indiferenciada.

  4. 4. Diga o que você examina antes de ele sair da sala

    Há um exame físico obrigatório neste paciente hoje, que não é a orelha. Qual é, quais cadeias você palpa dado o sítio da lesão, e o que você faz se encontrar um linfonodo endurecido de 1,5 cm?

  5. 5. Responda a pergunta dele — agora acabou? — em voz alta

    Escreva a frase que você diria. Ela precisa fazer três coisas ao mesmo tempo: corrigir a informação de que tiraram tudo, sem desautorizar o colega que o operou; não transformar isso na conversa do melanoma; e deixar claro o que acontece a seguir e quando.

  6. 6. Programe o que fica com você

    Independentemente do que o serviço especializado fizer, três coisas ficam sob responsabilidade da sua unidade pelos próximos anos. Nomeie as três, com a periodicidade de cada uma, e diga qual delas você marca no papel antes de ele atravessar a porta.

Ver como fecharíamos

Margem histologicamente livre não equivale a risco zero e não decide sozinha o seguimento. Integrar subtipo, sítio, tamanho, recidiva, imunossupressão e invasão perineural. CBC de baixo risco completamente tratado pode seguir no fluxo local; CBC de alto risco com margem próxima exige discussão especializada. CEC invasivo e margens comprometidas precisam de avaliação especializada. A equipe deve garantir leitura do laudo, comunicação ao paciente e plano documentado, inclusive quando a amostra é insuficiente.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Placa eritematodescamativa persistente e isolada em mulher idosa, sem resposta aos tratamentos realizados, exige considerar doença de Bowen e confirmar por biópsia. A aparência pode se sobrepor a eczema, psoríase e micose; ausência de prurido e falha terapêutica não excluem dermatoses inflamatórias de forma absoluta. Não existe regra universal de que exatamente dois tratamentos empíricos determinem o diagnóstico. Neste caso, duração, aspecto e evolução justificam interromper sucessivas tentativas e obter avaliação histológica.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sem consultar o texto, apresente o caso principal em um minuto. Explique: Reconhecer lesões suspeitas, selecionar biópsia adequada, interpretar risco e margens e garantir que o resultado produza uma conduta. Justifique a primeira conduta e indique um achado que mudaria o destino do paciente.

Em 30 dias

Resolva novamente o caso para completar. Compare hipótese, diferenciais, gravidade, plano e seguimento com o gabarito. Acrescente uma mudança de contexto — comorbidade, piora, gestação, barreira de acesso ou baixa adesão — e explique como adaptaria a decisão com o supervisor.

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Agora atenda

Você é o interno de uma unidade básica de saúde de distrito rural, sem preceptor na sala. Entra um trabalhador rural de 63 anos que veio buscar um pedido de exame de sangue e reclamar de dor no ombro. Ele tem uma crosta na borda da orelha esquerda que ele mesmo chama de coisa do sol, e o prontuário mostra quatro atendimentos no último ano e meio sem uma linha sobre ela. Conduza a consulta: descubra há quanto tempo, examine de propósito o que precisa ser examinado, decida entre acompanhar, biopsiar e encaminhar hoje, e diga a ele o que está acontecendo sem transformar a palavra câncer de pele na conversa do melanoma.

Carcinoma basocelular e espinocelular – As duas lesões que passam pela sala sem serem vistas — Internato | OsceLabs