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O dia em que ainda dá para parar
Farmacodermias graves: Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica e DRESS
Qual exantema vai para casa com anti-histamínico e qual não sai daqui hoje; como se monta a linha do tempo de tudo que o paciente tomou nas últimas oito semanas e por que a resposta quase nunca está no remédio de ontem; SSJ e NET como um espectro só, e o que a superfície descolada decide; por que o DRESS engana por semanas; e a anotação de alergia que impede a próxima exposição.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Licença Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional.
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British Association of Dermatologists — SSJ/NET, recomendações de tratamento
Anvisa — notificação de eventos adversos no VigiMed
Diretriz britânica de SSJ/NET — Creamer et al., 2016
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Paciente com exantema extenso, febre, edema facial, eosinofilia e hepatite após medicamento novo tem suspeita de DRESS. Como fundamentar a decisão?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, quinze e dez, pronto atendimento de um hospital geral que atende a microrregião. Nesta tarde a sala de observação é sua e a fila da acolhimento traz, nesta tarde, duas pessoas com a mesma frase escrita pela recepção: manchas vermelhas pelo corpo. As duas fichas saíram da mesma impressora, com dez minutos de diferença, e a triagem classificou as duas como verde.
A primeira é Celina Gonzaga, 28 anos, professora de educação infantil. Ela levanta a manga e mostra o antebraço: máculas e pápulas rosadas, algumas confluindo em placas, simétricas, do tronco para os membros. Coçam. Começaram anteontem. Ela terminou ontem um curso de amoxicilina que o dentista prescreveu para um abscesso, oito dias no total. Não teve febre, não tem mal-estar, comeu normalmente. A boca está úmida e limpa, os olhos estão brancos, a pele dói se você aperta forte, como qualquer pele apertada com força. Na avaliação delicada pela equipe, não há descolamento epidérmico.
A segunda é Franklin Rios, 41 anos, motorista de caminhão-tanque. Ele também tem manchas vermelhas, e à primeira vista o exantema não é muito diferente do da Celina: máculas confluindo no tronco, algumas com centro mais escuro. Ele está sentado com o tronco inclinado para a frente e fala pouco. Quando você pede para ele abrir a boca, ele hesita antes de abrir, e o que aparece dentro são erosões na mucosa jugal e nos lábios, com crosta hemorrágica na borda. A temperatura axilar é 38,9. A face está inchada, sobretudo as pálpebras, o que a esposa dele nota antes de você: ontem à noite ele já estava assim. E há uma frase que ele repete duas vezes, e que é a frase mais importante da tarde: a pele arde, dói de encostar a camisa.
As duas fichas dizem a mesma coisa. As duas pessoas têm manchas vermelhas. Uma vai para casa hoje e a outra não sai daqui — e a diferença entre as duas não está em nenhum exame que você tenha pedido, porque você ainda não pediu nenhum. Está no que você olhou e no que você perguntou.
O que você perguntou ainda não foi tudo. A pergunta que falta não é o que o Franklin tomou hoje, nem ontem. É o que ele começou a tomar nas últimas oito semanas. Ele responde que não toma nada, o que quase todo mundo responde, e então a esposa abre a bolsa e tira uma caixa: carbamazepina 200 miligramas, receita do ambulatório de neurologia, primeira crise convulsiva há pouco mais de um mês, começou o comprimido no dia 12 do mês passado. Faz vinte e quatro dias.
Vinte e quatro dias é a resposta. Não porque vinte e quatro seja um número mágico, mas porque é exatamente o intervalo em que as reações graves a fármaco acontecem: semanas depois do começo, não horas. Se você procurar a causa entre as coisas que o paciente tomou hoje, você vai encontrar a dipirona que ele tomou pela febre da própria reação — e vai suspender a dipirona, e vai deixar a carbamazepina.
É esse o nervo deste capítulo. Farmacodermia grave não se anuncia grave. Ela começa parecendo a farmacodermia banal que você vê toda semana, aquela que sai do pronto-socorro com um anti-histamínico e um retorno em quarenta e oito horas se piorar. A síndrome de Stevens-Johnson e a necrólise epidérmica tóxica não começam com pele descolando: começam com febre, mal-estar e um exantema. O DRESS começa igual, e o resto dele — o fígado, os eosinófilos, a face inchada — leva mais tempo ainda para aparecer. Existe um dia, e às vezes mais de um, em que ainda dá para parar. Depois desse dia, o que se faz é tratar as consequências.
E existe uma coisa que só você pode fazer nesse dia, que é suspender o fármaco culpado. Não é o dermatologista, que vai ver esse paciente amanhã ou depois; não é o intensivista, que vai recebê-lo já descolando. É o interno de plantão, de posse de uma caixa que a esposa tirou da bolsa, decidindo hoje que aquele comprimido não é mais tomado.
A lista de suspeitos é curta e desconfortável, porque é a lista do que você prescreve. Anticonvulsivante aromático — carbamazepina, fenitoína, fenobarbital, lamotrigina. Alopurinol. Sulfa, incluindo o sulfametoxazol com trimetoprima. Antibióticos betalactâmicos. Anti-inflamatórios. Nenhum deles é exótico. Todos eles saem da sua caneta numa semana comum de enfermaria, e todos eles constam da Rename, quer dizer, chegam à mão do paciente pela farmácia básica sem nenhum atrito.
Antes de continuar, vale dizer onde este capítulo para. A hanseníase e a reação hansênica, que também produzem lesão de pele com febre, são do capítulo A mancha que não sente. Escabiose, impetigo e erisipela ficam em Quem mais dorme nessa cama. Psoríase e dermatite atópica são de A bisnaga acaba, a doença não — e a forma pustulosa generalizada da psoríase, que é diferencial de descolamento agudo com febre, é bifurcação nossa, com remissão explícita àquele capítulo para tudo que seja o manejo da psoríase em si. A reação imediata, aquela que acontece em minutos e responde a adrenalina intramuscular, é de Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro: a distinção entre a reação imediata e a reação tardia é nossa e é o eixo de todo o reconhecimento que vem a seguir, mas o manejo do choque é de lá.
O que fica aqui é o dia. O exantema que preocupa e o que não preocupa, a linha do tempo do fármaco, o espectro que vai de Stevens-Johnson a necrólise epidérmica tóxica, o DRESS e por que ele engana, a suspensão e o que não se faz depois dela, para onde vai esse paciente, e a anotação que impede que tudo isso aconteça de novo daqui a três anos, num outro pronto-socorro, com outro médico que não sabia.
Quem adoece disso
A primeira coisa a dizer sobre a epidemiologia das farmacodermias graves no Brasil é que ela não existe como número nacional. Não há registro, não há notificação compulsória, não há um denominador. O que circula nos textos brasileiros são incidências europeias e norte-americanas repetidas de citação em citação: algo entre 1,2 e 6 casos por milhão de habitantes por ano para a síndrome de Stevens-Johnson, e entre 0,4 e 1,2 por milhão por ano para a necrólise epidérmica tóxica. Essas faixas aparecem em revisões brasileiras redigidas como se fossem dados daqui; não são. A revisão de 2006 da Revista Brasileira de Terapia Intensiva diz, com todas as letras, que dados brasileiros de prevalência são escassos, e o artigo de 2017 dos Anais Brasileiros de Dermatologia termina pedindo, como conclusão, maior produção e melhor divulgação de informação sobre incidência de reação adversa a medicamento. Nove anos depois, continua valendo.
O maior levantamento brasileiro que localizamos é justamente esse artigo de 2017: um estudo retrospectivo do Distrito Federal que reuniu, em dezesseis anos — de 1999 a 2014 —, oitenta e seis internações com diagnóstico de SSJ ou NET em toda a rede pública do DF. Oitenta e seis casos em dezesseis anos, numa unidade federativa de três milhões de habitantes. Isso dá cerca de cinco internações por ano. É pouco em números absolutos e é muito quando você é a pessoa de plantão: significa que a maioria dos médicos brasileiros vai atender um punhado desses casos na carreira inteira, cada um deles como se fosse o primeiro.
Duas coisas nesse levantamento merecem ser ditas antes de qualquer outra. A primeira é a distribuição etária: a faixa de zero a dez anos concentrou trinta e oito dos oitenta e seis casos, quase metade. A idade média foi de vinte e três anos e o caso mais novo tinha quarenta e sete dias de vida. Farmacodermia grave não é doença de idoso polimedicado; é doença de quem tomou o remédio errado, e criança toma remédio. A segunda é o desfecho por idade: entre os idosos internados no hospital de referência, os óbitos superaram as altas — dois dos três morreram. O número absoluto é minúsculo e não sustenta estatística nenhuma, mas a direção é a mesma de toda a literatura, e a idade acima de quarenta anos é uma das sete variáveis do escore de gravidade que se usa nessas reações.
Onde essas pessoas são tratadas no Brasil é um dado por si só. No levantamento do Distrito Federal, o hospital que mais recebeu esses pacientes foi o hospital de referência em queimados. Não é acaso e não é improviso: um paciente com necrólise epidérmica tóxica perde barreira cutânea em extensão comparável à de um grande queimado, e a estrutura que existe no país para cuidar de pele desnuda em grande superfície é a unidade de queimados. Isso significa que, na prática, decidir para onde vai o seu paciente é decidir se o seu serviço tem centro de tratamento de queimados ou se a transferência precisa ser acionada hoje. O cálculo de superfície corporal em si — a regra dos nove, as adaptações pediátricas, os erros de medida — é do capítulo Cálculo de superfície corporal queimada; a régua é a mesma e a remissão é explícita.
Quem são os culpados, na série brasileira, praticamente responde a pergunta de conduta. Entre os pacientes do hospital de referência com fármaco suspeito registrado, os anticonvulsivantes lideraram, com treze citações; fenobarbital sozinho apareceu seis vezes, carbamazepina quatro, fenitoína duas, lamotrigina uma. Os antibióticos vieram em seguida, com onze citações, espalhadas por amoxicilina, amoxicilina com clavulanato, azitromicina, eritromicina, levofloxacino, penicilina benzatina, sulfadiazina e sulfametoxazol com trimetoprima. Os analgésicos apareceram cinco vezes, todas de dipirona. É uma lista de farmácia básica.
Vale a pena olhar essa lista com os olhos de quem prescreve. Fenobarbital, carbamazepina e fenitoína são o núcleo do tratamento da epilepsia no SUS: a Rename 2024 traz carbamazepina em comprimido de 200 e de 400 miligramas e em suspensão oral de 20 miligramas por mililitro, e fenitoína em comprimido de 100 miligramas, suspensão oral de 20 miligramas por mililitro e solução injetável de 50 miligramas por mililitro, todas no componente básico. Sulfametoxazol com trimetoprima está lá, nas três apresentações. Alopurinol está lá, em comprimido de 100 e de 300 miligramas. Nenhum desses medicamentos é de acesso difícil, o que é uma boa notícia para a epilepsia e para a gota e é exatamente por isso que o problema é seu.
Sobre a mortalidade, a régua que se repete há décadas é grosseira e útil: em torno de 5% na síndrome de Stevens-Johnson e em torno de 30% na necrólise epidérmica tóxica. Para o DRESS, a cifra que circula na literatura é de aproximadamente 10% na população geral e algo em torno de 5% em crianças. Nenhum desses números veio de coorte brasileira, e é honesto dizer isso ao paciente e à família em vez de repassar percentual com falsa precisão.
Há um dado do levantamento brasileiro que não é sobre a doença, é sobre nós. Entre os pacientes do hospital de referência, a suspensão do medicamento suspeito estava registrada em cinco prontuários; a troca do anticonvulsivante, em quatro. Curativo estava registrado em vinte e um. Antibiótico sistêmico, em dezesseis. Quer dizer: a intervenção que muda o desfecho — parar o fármaco — é a que menos aparece escrita. Pode ser que tenha sido feita e não anotada, e os próprios autores registram a fragilidade do prontuário como limitação do estudo. Mas essa é justamente a defesa que não se pode oferecer: numa reação adversa grave, o que não está escrito não aconteceu, e é do prontuário que sai a informação que vai proteger esse paciente daqui a três anos.
O escore de gravidade que existe para essas reações, o SCORTEN, também não estava registrado em prontuário nenhum da série. Um escore de sete variáveis, todas elas disponíveis num hemograma, numa bioquímica, numa gasometria e na beira do leito, e nenhuma anotação dele em dezesseis anos de casos. Isso diz menos sobre o escore do que sobre o quanto essas reações passam pelo sistema sem serem tratadas como a emergência que são.
Uma última observação epidemiológica que vira conduta: a maioria das séries mostra que uma parcela relevante dos casos não tem fármaco identificado. A revisão brasileira de 2006 chega a dizer que em metade dos casos nenhuma etiologia é encontrada e, algumas linhas adiante, que a síndrome é considerada idiopática em 25% a 50% dos casos. Duas coisas seguem daí. A primeira é que a ausência de um culpado óbvio não afasta o diagnóstico. A segunda é que infecção também desencadeia o quadro — micoplasma é o exemplo clássico, sobretudo em criança e adolescente com pneumonia e mucosite exuberante. Quando o gatilho é o micoplasma, o tratamento da infecção é assunto do capítulo de pneumonia atípica e não deste; o que fica aqui é a obrigação de procurá-lo antes de concluir que não há causa.
Por que acontece o que acontece
Toda a diferença entre a reação que mata em minutos e a reação que mata em semanas está no braço do sistema imune que foi acionado. A anafilaxia é mediada por IgE já formada em exposição anterior: o antígeno chega, cruza IgE ligada a mastócitos, e a degranulação é imediata — minutos. É reação de hipersensibilidade imediata, e o manejo dela é de Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro. A síndrome de Stevens-Johnson, a necrólise epidérmica tóxica e o DRESS não são isso. São reações tardias, mediadas por linfócitos T, e o tempo que elas levam é o tempo de expandir um clone de linfócitos específico para aquele fármaco. Esse tempo é de semanas.
É por isso, e não por outra razão, que a pergunta clínica muda de forma. Na reação imediata, o culpado é o que entrou agora. Na reação tardia, o culpado é o que começou a entrar semanas atrás e continua entrando todo dia. Um paciente que toma carbamazepina há dois anos e faz exantema hoje quase certamente não está reagindo à carbamazepina; um paciente que a começou há vinte e quatro dias, sim. A janela de latência não é um detalhe de prova: é o filtro que separa cinco suspeitos de um.
O mecanismo celular tem uma consequência prática que costuma passar batida. O linfócito T que reconhece o fármaco é específico e tem memória. Numa reexposição, não é preciso reconstruir o clone — ele já existe. A reação volta mais rápido e costuma voltar pior. É essa a base biológica da regra que atravessa este capítulo inteiro: em quem teve reação grave, não se reintroduz o fármaco para testar. Não existe teste de provocação seguro nesse cenário, e a própria bula do alopurinol, que é o fármaco mais estudado nesse grupo, escreve que a reexposição não deve ser feita em paciente que teve síndrome de hipersensibilidade ou SSJ/NET, e que o medicamento deve ser retirado permanentemente.
A suscetibilidade a essa reação não é distribuída ao acaso. Certos alelos de HLA predispõem à reação a certos fármacos, com especificidade notável de par: o alelo HLA-B*58:01 está associado à reação grave ao alopurinol, e a própria bula brasileira do alopurinol registra essa associação. Outros pares bem descritos ligam o HLA-B*15:02 à carbamazepina em populações do sudeste asiático. Isso explica por que a mesma dose do mesmo remédio é inócua em milhões de pessoas e catastrófica em algumas — e explica por que a reação não é dose-dependente. A bula do alopurinol diz isso de forma direta, ao comentar que o medicamento vinha sendo usado em subdoses por medo de reação grave, e que essas reações, além de infrequentes, não dependem da dose. Genotipar antes de prescrever não é conduta de rotina no Brasil, e não há norma brasileira que a exija; o que a genética explica, para o interno, é por que não adianta reduzir a dose de um fármaco que causou reação grave.
O que acontece na pele, uma vez disparada a reação, é morte de queratinócito em massa. Linfócitos T citotóxicos e células natural killer atacam o queratinócito por vias que culminam em apoptose, com granulisina como mediador central. O infiltrado inflamatório na derme é escasso — e essa escassez, aparentemente um detalhe de patologista, é o que explica a clínica: não há edema inflamatório suficiente para produzir um quadro urticariforme e barulhento. O que há é uma epiderme que morre inteira e se solta da derme, silenciosamente, por baixo.
Daí vem a semiologia. Como a morte celular é da epiderme inteira e o plano de clivagem é a junção dermoepidérmica, o que descola é a espessura completa da epiderme, como uma folha. É isso que o sinal de Nikolsky detecta: pressão lateral delicada pode deslocar a epiderme já fragilizada junto à lesão; sua pesquisa é seletiva e não deve produzir trauma extenso. E é isso que explica a dor, que é o sintoma mais subestimado desse quadro: a epiderme morrendo expõe terminações e a pele passa a doer sem que ninguém a toque. Dor cutânea desproporcional ao que se vê é sinal de alarme antes de qualquer bolha.
Esse plano de clivagem é também o que separa a necrólise epidérmica tóxica da síndrome da pele escaldada estafilocócica, que é o principal impostor à beira do leito. Na doença estafilocócica, uma toxina esfoliativa cliva a desmogleína 1 e a separação acontece alto dentro da epiderme, no estrato granuloso: o que descola é um véu fino, as mucosas são poupadas e a criança, embora com aspecto dramático, tem uma doença de prognóstico completamente diferente. Na NET, o descolamento é de espessura total e as mucosas estão sempre envolvidas. A biópsia responde essa pergunta em horas, e é para isso que ela serve — não para provar qual fármaco foi.
O DRESS compartilha o braço tardio, mas segue outro roteiro. Além da resposta T ao fármaco, entra em cena a reativação de herpesvírus latentes, sobretudo o herpes-vírus humano 6, tipicamente detectável entre duas e quatro semanas depois do início dos sintomas. Isso reorganiza o quadro inteiro: explica a latência mais longa, de duas a oito semanas até a doença aparecer; explica por que o quadro pode piorar mesmo depois de o fármaco ter sido suspenso, o que não faz sentido nenhum numa reação puramente farmacológica; e explica as recidivas semanas adiante, no meio do desmame do corticoide, com o fármaco já fora do corpo há muito tempo. Quando o paciente com DRESS piora no quinto dia sem o remédio, isso não significa que você errou o culpado.
Como se apresenta de verdade
Objetivos práticos no internato. Reconhecer reação medicamentosa grave, reconstruir a exposição, suspender suspeitos com a equipe e monitorar pele, mucosas e órgãos. O interno colhe e apresenta os dados, propõe o plano e executa atividades sob supervisão; prescrições, procedimentos e documentos são validados pelo profissional responsável. Estude o caso acompanhando o que cada achado muda na decisão, não apenas decorando critérios.
A apresentação inicial das farmacodermias graves é banal. Isso não é uma ressalva: é o dado central. Um exantema maculopapular no tronco, simétrico, que coça, com febre baixa, é o começo de uma reação que vai passar sozinha e é também o começo de uma reação que vai levar o paciente a uma unidade de queimados. Nos primeiros dois ou três dias, as duas coisas se parecem.
O que separa uma da outra não é a extensão do exantema e não é o quanto ele é vermelho. É um conjunto pequeno de achados que você procura ativamente, um a um, e uma pergunta sobre tempo. As seções abaixo destrincham esses achados, o espectro em que as duas doenças clássicas moram, o DRESS, que engana por um caminho diferente, e os impostores que você precisa ter na cabeça antes de anunciar o diagnóstico a uma família.
Uma advertência de forma antes de começar: nada aqui é para ser memorizado como uma lista de prova. É para ser feito com o paciente na frente, na ordem em que está escrito, porque a ordem também importa. Olhar mucosa antes de decidir alta é diferente de olhar mucosa depois.
O exantema que não preocupa
A farmacodermia mais comum é o exantema maculopapular, ou morbiliforme. Ele aparece tipicamente entre quatro e catorze dias depois do início do medicamento, começa no tronco e se espalha de forma simétrica e centrífuga para os membros, poupa palmas e plantas com frequência, coça, e o paciente está clinicamente bem: come, anda, conversa, não tem febre ou tem febre baixa. As lesões são máculas e pápulas que podem confluir em placas, mas o centro delas não é escuro nem purpúrico e não há vesícula.
Nesse quadro, a pele não dói. Coça, que é coisa diferente, e a distinção não é sutil quando você pergunta na palavra certa: pergunte se dói de encostar a camisa, se dói ao passar a mão. Prurido é a regra na farmacodermia benigna. Dor cutânea espontânea não é.
As mucosas estão limpas. Boca sem erosão, lábio sem crosta, conjuntiva branca, sem ardor ao urinar e sem lesão genital. Você tem que olhar, não perguntar: pedir ao paciente que abra a boca e usar uma lanterna leva quinze segundos e é o passo do exame físico que mais frequentemente falta na ficha de quem depois voltou pior.
No exantema morbiliforme sem complicações, não se espera descolamento epidérmico. Registrar bolhas e descolamento espontâneo. Se clinicamente necessário, pesquisar Nikolsky com pressão lateral delicada por profissional habilitado, evitando trauma adicional e atraso do cuidado. Registrar positivo, negativo ou não pesquisado, conforme o ocorrido; resultado negativo não exclui farmacodermia grave. O resultado integra o conjunto clínico; não funciona como autorização isolada de alta.
Esse paciente vai para casa. Suspende-se o fármaco suspeito quando ele é dispensável, prescreve-se anti-histamínico para o prurido, explica-se o que observar e marca-se retorno. E a orientação de retorno é o que sustenta a alta: ele volta hoje mesmo se aparecer febre alta, dor na pele, bolha, ferida na boca, olho vermelho ou inchaço no rosto. Sem essa frase dita e escrita, a alta é uma aposta.
Uma ressalva honesta sobre o que este capítulo não consegue prometer: uma parcela das reações que começam assim vai progredir, e nenhum achado do primeiro dia separa com certeza quem vai progredir de quem não vai. É por isso que a orientação de retorno não é formalidade. É a rede.
Os cinco sinais que mudam a conduta hoje
Há cinco achados que, presentes, tiram o paciente da categoria de exantema banal. Nenhum deles depende de exame complementar e todos podem ser obtidos em menos de cinco minutos na beira do leito.
O primeiro é acometimento de mucosa. Erosão em mucosa oral, crosta hemorrágica em lábio, conjuntivite com secreção, dor ao urinar, lesão genital ou anal. Duas ou mais mucosas envolvidas é praticamente a assinatura da síndrome de Stevens-Johnson. Uma só já basta para mudar a conduta. A mucosa oral costuma ser a primeira e pode preceder a lesão cutânea em um ou dois dias, o que significa que existe um paciente que chega ao pronto-socorro com dor de garganta, febre e boca ferida, sem exantema nenhum, e que já está no caminho.
O segundo é dor cutânea. Pele que arde, que dói de encostar, dor desproporcional ao que se vê. É o sinal mais precoce do que está acontecendo por baixo e o mais fácil de ignorar, porque o paciente o descreve com palavras vagas e ninguém o registra.
O terceiro é o sinal de Nikolsky positivo, ou a presença de vesícula, bolha flácida, área de descolamento, ou lesão em alvo atípico com centro escuro, purpúrico ou necrótico. Alvo típico, com três anéis concêntricos bem definidos e predomínio acral, aponta para eritema multiforme, que é outra doença e que tem herpes simples como gatilho mais comum; alvo atípico plano, com dois anéis e centro escuro, distribuído no tronco, aponta para este espectro.
O quarto é febre alta com prostração. Febre acima de 38,5 graus com mal-estar importante, em alguém que estava bem, não combina com exantema por medicamento benigno.
O quinto é edema de face, especialmente periorbitário. É achado clássico do DRESS e desconcerta porque parece alergia — e é exatamente o oposto do que a palavra alergia sugere na cabeça de quem atende: não vai responder a anti-histamínico e não vai passar sozinho.
Presente qualquer um desses cinco, três coisas acontecem no mesmo minuto: o paciente não recebe alta, a lista de tudo que ele tomou nas últimas oito semanas é levantada, e o fármaco suspeito é suspenso. A investigação vem depois, e a suspensão não espera por ela.
SSJ e NET: um espectro, e o que a superfície decide
Síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica não são duas doenças. São a mesma doença em duas extensões, e o que as separa é a porcentagem de superfície corporal com epiderme descolada ou descolável. Abaixo de 10%, chama-se síndrome de Stevens-Johnson. Entre 10% e 30%, é a zona de sobreposição. Acima de 30%, é necrólise epidérmica tóxica, também chamada de síndrome de Lyell.
Essa é uma classificação de gravidade e de prognóstico, não de tratamento: o tratamento é o mesmo em toda a faixa, e a diferença é o quanto de suporte o paciente vai precisar. Também é uma classificação de um momento — a extensão de hoje não é a de depois de amanhã, e a doença tipicamente progride por três a cinco dias antes de estabilizar. Classificar como SSJ na admissão não autoriza tratar como doença leve.
Como se mede a superfície descolada é uma pergunta prática e mal resolvida. Conta-se a área com epiderme já destacada mais a área com Nikolsky positivo, isto é, a pele que vai descolar. A régua é a mesma da queimadura: regra dos nove no adulto, com as adaptações pediátricas, e a palma da mão do próprio paciente com os dedos juntos valendo aproximadamente 1% para áreas irregulares. A construção e as armadilhas dessa medida são do capítulo Cálculo de superfície corporal queimada, e a remissão aqui é explícita porque o erro de medida é o mesmo nos dois lugares e já é conhecido lá.
Duas advertências de medida que valem especificamente aqui. A primeira: eritema sem descolamento e sem Nikolsky não conta. É o erro mais comum, e ele infla a superfície, superestima a gravidade e joga o paciente numa classe que ele não ocupa. A segunda: quem mede tende a superestimar de qualquer modo, e a medida deve ser refeita e registrada em cada avaliação, porque o número que decide o encaminhamento é o de hoje, não o da admissão.
O envolvimento de mucosa é a regra e não a exceção, e ele não entra na conta da superfície. Boca, orofaringe, conjuntiva, uretra, vagina, ânus e, em casos graves, o epitélio traqueobrônquico e o digestivo. É o acometimento ocular que produz as sequelas que ficam — simbléfaro, triquíase, opacidade corneana, olho seco crônico, até cegueira — e é por isso que a avaliação oftalmológica não é interconsulta de conveniência: é para hoje, no dia do diagnóstico, e diária enquanto durar a fase aguda.
A doença não termina com a alta. Sequelas cutâneas de pigmentação, distrofia ungueal, sinéquias em mucosas genitais, estenose vaginal, estenose esofágica e bronquiolite obliterante são descritas, e o seguimento pós-alta é parte do tratamento. No levantamento brasileiro do Distrito Federal, não havia registro de acompanhamento ambulatorial de nenhum dos pacientes que receberam alta — a doença acabava na porta do hospital, no papel.
DRESS: a farmacodermia que engana por outro caminho
O DRESS engana por três motivos diferentes, e é útil separá-los, porque cada um produz um erro distinto.
O primeiro é a latência. Enquanto o exantema banal aparece em uma a duas semanas e o SSJ/NET em uma a quatro, o DRESS clássico aparece entre duas e oito semanas depois do início do fármaco. Oito semanas é quase dois meses. Uma anamnese que só volta trinta dias no calendário passa por baixo desse intervalo inteiro e não encontra nada. É por isso que a linha do tempo deste capítulo é de oito semanas e não de trinta dias.
O segundo é que o DRESS não é uma doença de pele. É uma doença sistêmica com manifestação cutânea. O que faz o paciente morrer é o fígado, e a hepatite do DRESS pode ser grave e prolongada. Rim, pulmão, coração, tireoide e pâncreas também entram. Numa série pediátrica reunida na revisão que consultamos, o acometimento hepático apareceu em algo entre metade e mais de quatro quintos dos casos, o renal entre um décimo e mais da metade, e o pulmonar em poucos por cento. Se você diagnosticar DRESS e não pedir transaminases, você diagnosticou metade da doença.
O terceiro é o hemograma. Eosinofilia é o achado que dá nome à síndrome — a sigla é reação a fármaco com eosinofilia e sintomas sistêmicos — e ela é fácil de ver e fácil de não olhar, porque quase ninguém lê a contagem diferencial de um hemograma de rotina. Linfócitos atípicos também entram, e a combinação de exantema extenso, febre, edema de face, linfonodomegalia em mais de um sítio e eosinofilia é o quadro completo.
Some-se a isso o comportamento temporal, que é o que mais confunde à beira do leito. O DRESS costuma levar mais de quinze dias para resolver, pode piorar depois da suspensão do fármaco, e recidiva com frequência durante o desmame do corticoide, semanas depois, com o medicamento já fora do corpo. Essa evolução, que num raciocínio farmacológico simples seria prova de que o culpado era outro, é típica da doença, e a explicação está na reativação viral descrita no bloco de mecanismo.
Os culpados do DRESS são um subconjunto reconhecível: anticonvulsivantes aromáticos em primeiro lugar — carbamazepina, fenitoína, fenobarbital, lamotrigina —, alopurinol, sulfassalazina, sulfametoxazol com trimetoprima, vancomicina, minociclina, dapsona e antirretrovirais. Na série pediátrica revisada, os anticonvulsivantes aromáticos responderam por cerca de metade dos casos e os antibióticos por até um terço. A sobreposição com a lista do SSJ/NET é grande e não é coincidência: são os mesmos fármacos, com braços imunes vizinhos.
Os impostores, e o que cada um exige que você faça
Antes de anunciar farmacodermia grave a uma família, quatro diagnósticos precisam ter passado pela sua cabeça, porque cada um deles muda a conduta de hoje.
Síndrome da pele escaldada estafilocócica. Criança pequena, febre, eritema difuso doloroso que descola em véu fino, sobretudo em áreas de flexura e ao redor da boca, com fissuras periorificiais — e mucosas poupadas. Esse é o ponto de virada: mucosa livre em criança com pele descolando fala a favor da doença estafilocócica, que precisa de antibiótico antiestafilocócico e não de suspensão de fármaco. A biópsia separa as duas em horas, porque o plano de clivagem é diferente. A infecção estafilocócica de pele em si é assunto de Quem mais dorme nessa cama; o que fica aqui é o diferencial no dia da bolha.
Pustulose exantemática generalizada aguda. Aparece rápido, em um a quatro dias após o fármaco — latência curta, ao contrário das demais —, com febre alta, leucocitose com neutrofilia e dezenas ou centenas de pústulas pequenas, não foliculares, sobre base eritematosa, começando em áreas de flexura. É farmacodermia grave também, o fármaco também tem que sair, mas o prognóstico é melhor e a evolução costuma ser de resolução em uma a duas semanas com descamação.
Psoríase pustulosa generalizada. Este é o diferencial que mais engana da pustulose por fármaco e do descolamento agudo febril, e a chave está na história: paciente com psoríase conhecida, muitas vezes após suspensão abrupta de corticoide sistêmico. O manejo da psoríase, incluindo a forma pustulosa, é do capítulo A bisnaga acaba, a doença não, e a remissão é explícita. O que este capítulo assume é a bifurcação do dia: diante de pele descolando com febre, perguntar por psoríase prévia e por corticoide sistêmico recentemente interrompido antes de concluir farmacodermia.
Exantema viral e doença de Kawasaki, sobretudo em criança. Muitas crianças com exantema viral estão tomando antibiótico prescrito pelo próprio quadro viral, e a armadilha é bidirecional: rotular de alergia à amoxicilina o que era vírus condena a criança a uma vida sem betalactâmico, e rotular de vírus o que era o começo de um SSJ manda para casa quem não podia ir. Não há atalho aqui. O que resolve é o conjunto — mucosa, dor, Nikolsky, febre alta, edema de face — e o retorno marcado.
Duas coisas ficam de fora, e ficam nomeadas. A reação transfusional, que também produz febre e exantema em paciente internado, é do capítulo Reação transfusional, e a pergunta de triagem é simples: houve hemocomponente nas últimas horas? A sepse e o choque séptico, que competem com a fase avançada da NET em paciente com pele desnuda e hipotensão, são de Sepse e choque séptico — e vale notar que a infecção secundária é a complicação mais frequente da própria NET, de modo que os dois quadros não competem, se somam.
O que muda quando o paciente é criança, gestante ou imunossuprimido
Em criança, três coisas mudam. A primeira é que a proporção de casos desencadeados por infecção, e não por fármaco, é maior: metade das crianças com SSJ tem infecção de via aérea superior recente, e o micoplasma é o agente clássico. A segunda é que a criança quase sempre está tomando alguma coisa, prescrita para a infecção que talvez seja a própria causa, o que torna a imputação mais difícil e a decisão de suspender mais delicada. A terceira é o peso relativo do levantamento brasileiro: quase metade dos casos do Distrito Federal em dezesseis anos tinha até dez anos de idade.
Em gestante, a decisão de suspender esbarra na necessidade do fármaco. O caso mais frequente é o da gestante epiléptica em uso de anticonvulsivante aromático. A suspensão não é negociável quando a reação é grave, mas a substituição precisa acontecer na mesma conversa, com a neurologia, e não como um problema para amanhã. Isso é decisão compartilhada e não improviso do plantão.
Em pessoa vivendo com HIV, o risco de SSJ/NET é reconhecidamente maior, e os fármacos implicados incluem os que ela usa com mais frequência: sulfametoxazol com trimetoprima na profilaxia, e antirretrovirais, com a nevirapina como exemplo histórico. Isso não é motivo para não prescrever profilaxia; é motivo para orientar sobre exantema e para olhar a boca em toda consulta nas primeiras semanas.
Em quem já usa corticoide ou imunossupressor por outra doença, o quadro pode se apresentar atenuado e mais tarde, e essa é uma das situações em que o exantema chega ao pronto-socorro já com descolamento, sem que ninguém tenha visto a fase inicial. A pergunta sobre imunossupressão faz parte da anamnese de qualquer exantema febril.
Como fechar o diagnóstico
A investigação das farmacodermias graves tem uma característica que a torna incomum entre os capítulos deste nível: o exame mais importante não é laboratorial nem de imagem. É uma lista escrita de medicamentos com datas. Nenhum exame de sangue vai dizer qual fármaco causou a reação, e essa frase precisa ser dita antes de qualquer pedido, porque a expectativa de que um exame vá resolver a imputação é o que faz o interno adiar a decisão de suspender.
O que os exames fazem é outra coisa, e é importante: dizem quão grave o paciente está, quais órgãos foram atingidos, e afastam os impostores. Nessa ordem.
A linha do tempo do fármaco: oito semanas, por escrito
Esta é a peça central da investigação e a que mais frequentemente é feita mal. O que se monta não é uma pergunta — é uma tabela, escrita no prontuário, com uma linha por medicamento e três colunas: nome, data de início, data da última dose.
A janela é de oito semanas. Não é de trinta dias, não é do último mês, não é do que ele está tomando hoje. Oito semanas, porque a latência do DRESS clássico chega até lá, e porque o paciente que começou fenitoína há sete semanas vai responder que não tomou nada de novo recentemente — para ele, sete semanas não é recente.
A pergunta que funciona não é o senhor toma algum remédio. Quase todo mundo responde que não, ou lista só o que toma há anos. As perguntas que funcionam são outras quatro, e vale fazê-las nesta ordem. O que o senhor começou a tomar depois do Natal, ou depois do carnaval, ou depois daquela consulta — sempre ancorando numa data que a pessoa reconheça. O senhor foi a algum médico ou dentista nos últimos dois meses, e o que ele receitou. O senhor tomou alguma coisa por conta própria, comprada na farmácia, para dor, febre ou gripe. E alguém trouxe as caixas.
A quarta é a mais produtiva de todas. Peça que a família vá em casa e traga tudo: caixas, cartelas, receitas, sacola da farmácia. Foi assim que a carbamazepina do Franklin apareceu, e é assim que ela aparece na maioria das vezes. Um paciente com dor de garganta, febre e boca ferida não se lembra do comprimido que começou há três semanas; a caixa na gaveta se lembra.
Com a lista pronta, a triagem é quase mecânica. Elimine tudo que o paciente toma há mais de três meses sem mudança de dose — reação tardia a fármaco usado há anos é rara o suficiente para não guiar a primeira decisão. Marque tudo que começou entre quatro dias e oito semanas antes do exantema. Dentro desse subconjunto, dê prioridade aos fármacos de alto risco conhecido: anticonvulsivante aromático, alopurinol, sulfa, betalactâmico, anti-inflamatório não esteroide, nevirapina, dapsona, sulfassalazina, vancomicina.
Se sobrar mais de um suspeito, e sobra com frequência, não escolha. Suspenda todos os que são dispensáveis, mantenha só o que é indispensável e o que não tem alternativa, e registre o raciocínio. Existe um algoritmo formal de imputabilidade para SSJ/NET, o ALDEN, que pesa latência, permanência do fármaco no corpo, exposição prévia, notoriedade do fármaco na literatura e a presença de causas alternativas; não o abrimos no original e por isso não reproduzimos aqui sua pontuação nem suas faixas. Para o plantão, a versão útil é a que está escrita neste parágrafo, e ela cabe numa evolução.
Medir a superfície descolada, e refazer a medida
A segunda peça é um número, e é o número que decide o destino do paciente: a porcentagem de superfície corporal com epiderme descolada ou descolável.
O que entra na conta: área já erodida, com a epiderme fora; área com bolha flácida; e área de pele eritematosa com sinal de Nikolsky positivo, que é epiderme que ainda está no lugar mas já se separou. O que não entra: eritema sem descolamento e sem Nikolsky. Esse é o erro de medida mais frequente, e ele infla o número e a gravidade.
A régua é a mesma do queimado — regra dos nove, com as adaptações da criança, e a palma da mão do paciente com os dedos juntos valendo aproximadamente um por cento para as áreas irregulares. A construção da régua, as adaptações e as armadilhas de medida estão em Cálculo de superfície corporal queimada, e a remissão é explícita porque a régua é literalmente a mesma e não faz sentido reconstruí-la aqui.
Duas exigências operacionais. A primeira: a medida é registrada com data e hora, e refeita a cada avaliação, porque a doença progride por três a cinco dias. O paciente que entrou com 8% e amanhã tem 22% mudou de classe e provavelmente de hospital. A segunda: quem mede escreve como mediu. Uma superfície de 30% anotada sem dizer se incluiu eritema é um número que ninguém consegue reproduzir amanhã.
Vale dizer o que essa medida decide, para que ela não vire formalidade. Ela nomeia o quadro — SSJ, sobreposição ou NET. Ela entra no escore de gravidade. E ela é o argumento que você usa ao telefone para conseguir vaga em centro de tratamento de queimados, que é onde esses pacientes são tratados no Brasil.
Os exames que mudam a conduta, e os que não mudam
O conjunto inicial é curto e todo ele tem consequência.
Hemograma completo com contagem diferencial. Não é o leucograma que interessa: é a contagem absoluta de eosinófilos, que faz o diagnóstico de DRESS, e a presença de linfócitos atípicos, que também pontua. Pedir hemograma e não ler a diferencial é o erro silencioso mais comum neste capítulo. Vale a pena escrever a contagem absoluta de eosinófilos na evolução, e não só olhar o percentual.
Transaminases, bilirrubinas, fosfatase alcalina e gama-GT. O órgão que mata no DRESS é o fígado, e a hepatite pode ser assintomática quando você a encontra. Em quem tem exantema com febre e eosinofilia, hepatograma não é exame de rotina: é o exame que define a doença.
Ureia e creatinina. Servem para dois fins ao mesmo tempo: detectar o acometimento renal do DRESS, e alimentar o escore de gravidade do SSJ/NET — com uma armadilha de unidade que está detalhada nas notas de auditoria do bloco de critério e que vale conferir antes de pontuar qualquer paciente.
Glicemia, eletrólitos e gasometria venosa com bicarbonato. Glicemia e bicarbonato são variáveis do escore. Eletrólitos e função renal orientam a reposição, que num paciente com pele desnuda em grande superfície tem a lógica da queimadura: perda por evaporação e por exsudação, em volume que surpreende quem nunca viu.
Culturas de sangue e da própria lesão diante de sinais de infecção. A infecção secundária foi a complicação mais frequente na série brasileira, e sepse com foco cutâneo é a principal causa de morte na NET. O que não se faz, e é ponto de consenso, é antibiótico profilático de rotina: ele não previne a sepse, seleciona flora e acrescenta mais um fármaco à lista de um paciente que está justamente reagindo a fármaco.
O que não se pede na fase aguda: teste de provocação oral, sob nenhuma circunstância; teste cutâneo de leitura imediata, que investiga o braço IgE e não este; e dosagem de IgE específica, pelo mesmo motivo. Testes epicutâneos de leitura tardia existem, têm papel na investigação ambulatorial meses depois do episódio, e são conduzidos por serviço de alergia — não fazem parte do que se decide hoje.
A biópsia: o que ela responde e o que ela nunca vai responder
A biópsia de pele é o exame complementar definitivo do diagnóstico, e ela responde uma pergunta bem delimitada: onde está o plano de separação e qual é o padrão de morte celular. Necrose de queratinócitos com descolamento na junção dermoepidérmica e infiltrado inflamatório dérmico escasso é o achado do espectro SSJ/NET.
É essa mesma informação que separa a necrólise da síndrome da pele escaldada estafilocócica, cujo plano de clivagem é alto dentro da epiderme. À distância, as duas produzem uma criança febril com pele descolando; ao microscópio, são doenças diferentes, com tratamentos opostos.

O que a biópsia não responde, e é importante ser categórico: qual fármaco causou. Não existe teste de laboratório que estabeleça o agente. A imputação é clínica, feita pela linha do tempo, e vai continuar sendo.
Duas notas práticas. A primeira: a biópsia não atrasa a suspensão do fármaco. Se você está esperando o laudo para suspender, você inverteu a ordem — o fármaco sai hoje e o patologista responde depois. A segunda: colher em pele com lesão recente e representativa, e não em área já totalmente erodida, onde não sobra epiderme para o patologista ler.
Em serviço sem patologista disponível, a decisão de transferir não espera pela biópsia. O conjunto clínico — latência compatível, mucosa envolvida, dor cutânea, Nikolsky positivo — sustenta a conduta inteira, e a confirmação histológica é confirmação, não permissão.
SCORTEN: o escore, e a conferência que ele exige
O SCORTEN é o escore de gravidade do espectro SSJ/NET. São sete variáveis, cada uma valendo um ponto quando presente, e ele deve ser calculado nas primeiras 24 a 48 horas do quadro.
As sete variáveis: idade acima de quarenta anos; presença de neoplasia; frequência cardíaca acima de cento e vinte batimentos por minuto; descolamento de epiderme acima de dez por cento; ureia sérica elevada acima do corte; glicemia sérica acima de duzentos e cinquenta e dois miligramas por decilitro; e bicarbonato sérico abaixo de vinte milimoles por litro.
A mortalidade prevista por faixa é a razão de o escore existir: zero a um ponto, cerca de 3%; dois pontos, cerca de 12%; três pontos, cerca de 35%; quatro pontos, cerca de 58%; cinco ou mais pontos, cerca de 90%. Três pontos ou mais é o corte habitualmente usado para indicar cuidado intensivo.
Duas das sete variáveis exigem conferência antes de você pontuar qualquer paciente, e elas estão desenvolvidas com a conta explícita nas notas do bloco de critério. Em resumo: o corte de ureia da fonte original está em milimoles por litro e a conversão para a unidade dos laboratórios brasileiros não é a que a revisão brasileira mais citada publicou — usar o número impresso lá pontua o paciente com aproximadamente metade da ureia que o escore pede. E o corte de bicarbonato aparece nessa mesma tabela em miligramas por decilitro, unidade em que não se mede bicarbonato; o valor correto é em milimoles por litro. Um escore inteiro pode se deslocar por causa disso.
Uma limitação honesta do escore: ele foi construído para prever mortalidade em coorte, não para decidir tratamento em indivíduo, e sua principal utilidade prática no plantão é objetivar a conversa de transferência e de vaga em terapia intensiva. Não abrimos a publicação original — é paga — e por isso não afirmamos nada sobre a derivação nem sobre a calibração dele; o que dizemos aqui é o que as duas fontes brasileiras abertas publicam, mais a aritmética das conversões, que é nossa.
E uma observação que diz mais sobre o sistema que sobre o escore: nos dezesseis anos de casos do levantamento do Distrito Federal, o SCORTEN não estava calculado em nenhum prontuário. Sete variáveis que já estavam todas colhidas, e nenhuma linha somando.
RegiSCAR: como se diz que aquilo é DRESS
Para o DRESS existe um instrumento de classificação diagnóstica desenvolvido pelo registro europeu de reações cutâneas graves, o RegiSCAR. Ele não é um escore de gravidade — é um escore de quanto o caso preenche o quadro.
Os itens que ele considera são estes: febre acima de trinta e oito e meio; linfonodos aumentados em pelo menos dois sítios; eosinofilia, com uma faixa intermediária e outra mais alta que pesa mais; presença de linfócitos atípicos; exantema acometendo mais de metade da superfície corporal; exantema com morfologia sugestiva de DRESS; biópsia compatível; envolvimento de órgão, com um órgão pesando menos e dois ou mais pesando mais; resolução em quinze dias ou mais; e a realização de pelo menos três investigações que afastem causa alternativa, com resultado negativo.
A leitura final se dá em quatro faixas: caso afastado, possível, provável e definitivo, do menor para o maior somatório. Registramos uma ressalva de método: a reprodução aberta que consultamos devolveu, em duas extrações independentes, a tabela com as colunas desalinhadas, de modo que não conferimos a pontuação item a item contra o layout original. Por isso este capítulo lista os itens e as faixas, que vieram estáveis, e não reproduz o valor de cada item. Quem for pontuar um paciente deve conferir a tabela no original.
O que importa na prática é o que os itens ensinam a procurar. Dois deles são o motivo pelo qual o DRESS passa: linfonodo em mais de um sítio, que ninguém palpa em exantema, e contagem absoluta de eosinófilos, que ninguém lê. Um terceiro item, a resolução em quinze dias ou mais, só pode ser preenchido depois — o que quer dizer que o escore completo é retrospectivo, e a decisão de suspender o fármaco não pode esperar por ele.
Uma nota sobre o que não se pede: sorologia ou PCR para herpes-vírus humano 6 não faz parte do que decide a conduta no plantão. A reativação viral explica o comportamento da doença e é objeto de investigação; não é critério de entrada no diagnóstico nem gatilho de tratamento.
Como se decide, no dia, se aquele exantema sai daqui ou não — e o que a conferência das fontes obriga a corrigir antes de usar os cortes
Este bloco reúne três coisas: a sequência de decisão do plantão, as réguas que nomeiam e graduam o quadro, e a conta que fizemos em cima de cada régua antes de publicá-la. A terceira parte não é ornamento. Duas das sete variáveis do escore de gravidade mais citado no Brasil estão publicadas em unidade errada na revisão brasileira que os intensivistas mais leem, e a bula do fármaco mais estudado do grupo contradiz a si mesma sobre uso em criança. Um capítulo que reproduzisse esses números sem conferir estaria ensinando a pontuar errado.
- 1Paciente com exantema. Antes de qualquer outra coisa: ele está estável? Hipotensão, dispneia, estridor ou angioedema com início em minutos após o fármaco é reação imediata — vá para o capítulo de anafilaxia e trate lá.
- 2Estável. Olhe a boca com lanterna, olhe a conjuntiva, pergunte por ardor ao urinar e por lesão genital. Mucosa acometida em qualquer sítio muda tudo o que vem a seguir.
- 3Pergunte se a pele dói, e pergunte com as palavras do paciente: dói de encostar a camisa, dói de passar a mão. Prurido não é dor.
- 4Registrar bolhas e descolamento espontâneo. Se clinicamente necessário, pesquisar Nikolsky com pressão lateral delicada por profissional habilitado, evitando trauma adicional e atraso do cuidado. Registrar positivo, negativo ou não pesquisado, conforme o ocorrido; resultado negativo não exclui farmacodermia grave.
- 5Meça a temperatura e olhe o rosto: febre acima de 38,5 com prostração, ou edema periorbitário, contam como sinal de alarme.
- 6Nenhum dos cinco presente, paciente bem, mucosas limpas: é exantema por fármaco de curso benigno. Suspenda o suspeito se ele for dispensável, prescreva anti-histamínico, e escreva a orientação de retorno com os cinco gatilhos nomeados. Alta.
- 7Qualquer um dos cinco presente: o paciente não recebe alta e a linha do tempo do fármaco começa agora.
- 8Monte a lista de oito semanas, por escrito, com nome, data de início e data da última dose. Peça que a família traga as caixas de casa. Ancore as perguntas em datas que a pessoa reconheça.
- 9Da lista, marque tudo que começou entre quatro dias e oito semanas antes. Dentro desse recorte, priorize anticonvulsivante aromático, alopurinol, sulfa, betalactâmico, anti-inflamatório, nevirapina, dapsona, sulfassalazina e vancomicina.
- 10Suspenda hoje todos os suspeitos dispensáveis. Se o fármaco é indispensável e não tem substituto imediato, isso vira decisão compartilhada com quem o prescreveu, hoje, não amanhã — e fica escrito no prontuário com o motivo.
- 11Colha hemograma com diferencial, transaminases, bilirrubinas, ureia, creatinina, glicemia, eletrólitos e gasometria com bicarbonato. Leia a contagem absoluta de eosinófilos.
- 12Meça a superfície com epiderme descolada ou descolável — o que já saiu, o que está em bolha e o que tem Nikolsky positivo. Eritema sem descolamento não entra. Registre o número com data e hora.
- 13Nomeie o quadro pela superfície: abaixo de 10%, síndrome de Stevens-Johnson; entre 10% e 30%, sobreposição; acima de 30%, necrólise epidérmica tóxica.
- 14Se há eosinofilia, hepatite e edema de face com latência longa e a superfície descolada é mínima ou nula, o quadro é DRESS e a lógica de investigação passa a ser de órgão, não de pele.
- 15Calcule o SCORTEN com os cortes conferidos da tabela abaixo, não com os que estão publicados na revisão brasileira mais citada. Três pontos ou mais indica cuidado intensivo.
- 16Acione a oftalmologia hoje, no dia do diagnóstico, se há qualquer acometimento ocular — e olho vermelho já é acometimento ocular.
- 17Decida o destino: enfermaria com curativo e suporte para SSJ pequena e estável; unidade de queimados ou terapia intensiva para superfície maior, SCORTEN alto ou instabilidade. Se o seu serviço não tem centro de queimados, a transferência é acionada hoje, com a superfície medida no telefone.
- 18Antes de encerrar o turno: escreva a alergia no prontuário, na receita e no relatório de alta, com o nome do princípio ativo e a reação. Eventos adversos relacionados a medicamentos devem ser notificados no VigiMed por profissionais e serviços, mesmo como suspeita. Queixas técnicas e outros incidentes seguem os sistemas e fluxos próprios. O Núcleo de Segurança do Paciente deve orientar obrigações institucionais adicionais; não aplicar automaticamente o prazo do detentor do registro ao profissional nem deixar farmacovigilância para uma notificação mensal genérica.
Os cinco sinais de alarme: o que procurar, como procurar, e o que cada um obriga a fazer hoje
| Sinal | Como se procura | Por que ele existe | O que obriga a fazer |
|---|---|---|---|
| Acometimento de mucosa | Lanterna na boca; olhar conjuntiva; perguntar por ardor ao urinar e lesão genital ou anal | A mucosa sofre o mesmo processo da pele e frequentemente sofre primeiro | Retira o paciente da categoria de alta; duas ou mais mucosas é praticamente assinatura de SSJ |
| Dor cutânea espontânea | Perguntar se dói de encostar a camisa, se dói ao passar a mão; não aceitar a palavra coceira como resposta | A epiderme em necrose expõe terminações antes de qualquer bolha aparecer | É o achado mais precoce; sozinho já justifica observar e medir superfície |
| Sinal de Nikolsky positivo | Quando necessário, pressão lateral delicada junto à lesão, por profissional habilitado; observar deslocamento epidérmico sem provocar descolamento extenso. | O plano de clivagem está na junção com a derme e a epiderme já se soltou | Define área descolável, que entra na conta da superfície; indica biópsia e internação |
| Febre alta com prostração | Temperatura axilar e a impressão global: essa pessoa está doente? | Reação sistêmica, não cutânea isolada | Afasta a hipótese de farmacodermia banal e obriga a colher exames |
| Edema de face, sobretudo periorbitário | Olhar o rosto e perguntar à família se mudou nos últimos dias | Achado clássico do DRESS, que é doença sistêmica com pele envolvida | Obriga hemograma com diferencial e hepatograma no mesmo dia |
| Lesão em alvo atípico, bolha ou vesícula | Inspeção com boa luz; procurar centro escuro, purpúrico ou necrótico no tronco | Necrose epidérmica focal antes da confluência | Coloca o caso no espectro SSJ/NET até prova em contrário |
Quatro farmacodermias que começam parecidas: o que as separa à beira do leito
| Quadro | Latência típica | Pele | Mucosa | Sistêmico | O que decide |
|---|---|---|---|---|---|
| Exantema maculopapular benigno | 4 a 14 dias | Máculas e pápulas simétricas, prurido, sem bolha, Nikolsky negativo | Limpa | Ausente ou febre baixa | Ausência dos cinco sinais; alta com retorno orientado |
| Síndrome de Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica | 4 dias a 4 semanas | Alvo atípico, bolha flácida, descolamento; Nikolsky positivo; dor cutânea | Sempre envolvida, em geral duas ou mais | Febre alta, prostração; sepse por foco cutâneo é a principal causa de morte | Porcentagem de superfície descolada; abaixo de 10%, 10 a 30%, acima de 30% |
| DRESS | 2 a 8 semanas | Exantema extenso, muitas vezes sem descolamento; edema de face | Pode ou não estar envolvida | Eosinofilia, hepatite, nefrite; linfonodomegalia em dois ou mais sítios | Hemograma com diferencial e hepatograma; a pele sozinha não fecha nem afasta |
| Pustulose exantemática generalizada aguda | 1 a 4 dias | Dezenas a centenas de pústulas pequenas não foliculares sobre eritema, começando em flexuras | Em geral poupada ou pouco envolvida | Febre alta, leucocitose com neutrofilia | Morfologia pustulosa com latência curta; melhor prognóstico, mas o fármaco sai igual |
SCORTEN: as sete variáveis, o que a fonte brasileira publica e o corte conferido para laboratório brasileiro
| Variável | Como aparece na revisão brasileira de 2006 | Corte conferido | A conta |
|---|---|---|---|
| Idade | Acima de 40 anos | Acima de 40 anos | Sem conversão; confere |
| Neoplasia | Presente | Presente | Sem conversão; confere |
| Frequência cardíaca | Acima de 120 bpm | Acima de 120 bpm | Sem conversão; confere |
| Descolamento de epiderme | Acima de 10% da superfície | Acima de 10% da superfície | Sem conversão; confere |
| Ureia sérica | Acima de 28 mg/dL | Acima de aproximadamente 60 mg/dL de ureia | O corte original é 10 mmol/L. Ureia tem massa molar de 60,06 g/mol, logo 10 mmol/L x 60,06 mg/mmol = 600,6 mg/L = 60,06 mg/dL de ureia. Os 28 mg/dL correspondem ao nitrogênio ureico, que é ureia dividida por 2,14; laboratório brasileiro reporta ureia, não nitrogênio ureico |
| Glicemia sérica | Acima de 252 mg/dL | Acima de 252 mg/dL | 14 mmol/L x 18,016 mg/mmol = 252,2 mg/dL. Confere |
| Bicarbonato sérico | Abaixo de 20 mg/dL | Abaixo de 20 mmol/L, equivalente a mEq/L | Bicarbonato não se mede em mg/dL. 20 mmol/L x 61,016 mg/mmol = 1220 mg/L = 122 mg/dL; o número impresso está 6,1 vezes menor que o valor correspondente. Um bicarbonato de 20 mg/dL seria 3,28 mmol/L, incompatível com a vida |
Conversão mg / mL / comprimido / frasco para um adulto de 70 kg, conferida contra a apresentação de bula e o elenco da Rename 2024
| Fármaco e papel no capítulo | Apresentação real | Dose de referência | Conta em 70 kg | O que sai da farmácia |
|---|---|---|---|---|
| Alopurinol — culpado, não tratamento | Comprimido de 100 mg (com vinco) e de 300 mg; caixa de 30 comprimidos. Rename 2024: componente Básico | 300 mg/dia na manutenção; reintrodução após reação branda, 50 mg/dia | 300 mg/dia = 1 comprimido de 300 mg ou 3 de 100 mg; a caixa de 30 dura 30 dias. 50 mg/dia = meio comprimido de 100 mg, e o vinco existe | Farmácia básica. Reintrodução só se a reação foi branda; após SSJ, NET ou DRESS, retirada permanente |
| Prednisona — corticoide oral do DRESS | Comprimido de 5 mg e de 20 mg. Rename 2024: componentes Básico e Estratégico | 1 mg/kg/dia como piso na forma moderada a grave | 70 mg/dia. Com o comprimido de 20 mg dá 3,5 comprimidos, que exige partir; 3 de 20 mg mais 2 de 5 mg fecham 70 mg exatos | Farmácia básica. A combinação das duas dosagens é o que permite acertar a dose por peso sem partir comprimido |
| Succinato de hidrocortisona — corticoide parenteral disponível | Pó para solução injetável de 100 mg e de 500 mg. Rename 2024: componente Básico | Alternativa parenteral quando a via oral está inviável pela mucosite | Um frasco de 500 mg equivale a cinco frascos de 100 mg | Farmácia básica; é o corticoide injetável de acesso mais amplo no SUS |
| Ciclosporina — poupadora de descolamento na NET, sem porta normativa | Cápsula de 10, 25, 50 e 100 mg e solução oral de 100 mg/mL. Rename 2024: componente Especializado | 3 a 5 mg/kg/dia divididos em duas tomadas — faixa que a literatura internacional emprega e que NÃO confirmamos em fonte aberta consultada no original; a aritmética abaixo é nossa, a faixa não | 3 mg/kg = 210 mg/dia, ou 105 mg por tomada — que as cápsulas não fecham; a solução oral resolve, com 1,05 mL a cada 12 h. 5 mg/kg = 350 mg/dia, ou 175 mg por tomada, que fecham com 100 mais 50 mais 25 mg | Componente Especializado, e nenhum dos documentos norteadores listados na Rename é SSJ, NET ou DRESS — não há porta normativa para esta indicação |
| Imunoglobulina humana — segunda linha discutida | Frascos de 0,5 g, 1 g, 2,5 g e 5 g. Rename 2024: componente Especializado | 1 g/kg/dia por 2 a 3 dias nas séries que a usaram | 70 g/dia. Com frasco de 5 g são 14 frascos por dia e 42 em três dias; com frasco de 2,5 g são 28 por dia e 84 em três dias | Componente Especializado, e nenhum dos oito documentos norteadores listados é SSJ, NET ou DRESS. A logística de 42 a 84 frascos é parte da decisão, não detalhe |
Conferência que NÃO fecha, e é a mais grave deste capítulo. A revisão da Revista Brasileira de Terapia Intensiva de 2006, que é a referência brasileira mais citada sobre SSJ/NET em terapia intensiva, publica a tabela do SCORTEN com a variável escrita como uréia acima de 28 mg/dL. O corte da fonte original está em 10 mmol/L. A conta: ureia tem massa molar de 60,06 g/mol, então 10 mmol/L equivalem a 600,6 mg/L, isto é, 60,06 mg/dL de ureia. Os 28 mg/dL correspondem ao nitrogênio ureico do sangue, que se obtém dividindo a ureia por 2,14 — 60,06 dividido por 2,14 dá 28,1. É a sigla glosada: o valor em nitrogênio ureico foi rotulado como ureia. Como laboratório brasileiro reporta ureia, e não nitrogênio ureico, quem usa o número impresso pontua o paciente com aproximadamente metade da ureia que o escore pede, superestimando a gravidade de todo mundo com ureia entre 28 e 60 mg/dL.
Conferência que NÃO fecha, na mesma tabela e no mesmo artigo: bicarbonato menor que 20 mg/dL. Bicarbonato não se mede em miligramas por decilitro em lugar nenhum; a unidade é milimol por litro, numericamente igual a miliequivalente por litro. A conta: com massa molar de 61,016 g/mol, 20 mmol/L de bicarbonato equivalem a 1220 mg/L, ou 122 mg/dL — o rótulo impresso está 6,1 vezes abaixo do valor que corresponderia ao corte. Na direção inversa, um bicarbonato de 20 mg/dL seria 3,28 mmol/L, incompatível com a vida. O erro é de unidade e não desloca a decisão na prática, porque ninguém tem um resultado em mg/dL para comparar — mas contamina a tabela e a torna impossível de aplicar sem ir buscar o valor em outro lugar.
Conferência que FECHA, no mesmo escore: o corte de glicemia. 14 mmol/L multiplicados por 18,016 mg/mmol dão 252,2 mg/dL, e o artigo publica 252 mg/dL. As demais quatro variáveis — idade acima de 40 anos, neoplasia, frequência cardíaca acima de 120 e descolamento acima de 10% — não envolvem conversão e conferem. As faixas de mortalidade publicadas, de cerca de 3% para zero a um ponto até cerca de 90% para cinco ou mais, também são as que a literatura reproduz. Dizemos isso porque cinco de sete conferirem é a razão de as duas que falham serem tão perigosas: a tabela parece confiável.
Não abrimos a publicação original do SCORTEN, que é paga. Portanto: não afirmamos nada sobre a coorte de derivação, sobre a calibração ou sobre a validação do escore, e as sete variáveis e as faixas aqui reproduzidas são as que as fontes brasileiras abertas publicam. Os dois erros apontados acima foram detectados por aritmética interna — a conversão de unidade não fecha com o rótulo impresso —, não por comparação com o original.
Conferência que NÃO fecha, no levantamento brasileiro de 2017 dos Anais Brasileiros de Dermatologia. O texto afirma que os idosos representaram 6,98% dos 86 casos. A conta: 6,98% de 86 dá 6,003 pacientes, ou seja, seis. Mas a tabela de distribuição etária traz quatro casos na faixa de 60 a 70 anos, um na faixa de 70 a 80 e nenhum acima de 80 — cinco idosos, que dariam 5,81%. Um paciente de diferença entre o texto e a tabela do mesmo artigo. Vale notar que as faixas etárias da tabela são escritas com extremos compartilhados — 00 a 10, 10 a 20, 20 a 30 e assim por diante —, de modo que um paciente de exatamente 10, 20 ou 60 anos pertence a duas classes ao mesmo tempo, e é possível que a divergência nasça daí. Não dá para resolver a partir do publicado.
Conferência que NÃO fecha, no mesmo artigo, e esta não tem explicação benigna. O texto afirma que os pacientes idosos corresponderam a 29,29% do total observado no hospital de referência. O hospital de referência tem 21 casos, e a tabela correspondente traz três idosos — dois na faixa de 60 a 70 anos e um na de 70 a 80. A conta: 3 dividido por 21 dá 14,29%. Testamos todas as contagens inteiras possíveis: 5/21 dá 23,81%, 6/21 dá 28,57%, 7/21 dá 33,33%. Nenhuma contagem inteira em 21 produz 29,29%. O número publicado não corresponde a caso nenhum, e a leitura mais provável, que registramos como leitura nossa, é uma troca de dígitos a partir de 14,29%. O próprio artigo confirma indiretamente o denominador ao dizer que 66,67% dos idosos morreram, o que é exatamente dois de três.
Conferência que NÃO fecha, ainda no mesmo artigo, e é a que mais atrapalha quem for reusar os dados. As tabelas de faixa etária, de superfície corporal e de fármacos suspeitos do hospital de referência trabalham com 21 pacientes: os percentuais da tabela de fármacos só fecham com esse denominador — 5 dividido por 21 dá 23,81%, e o artigo publica 23,8%; 6 dividido por 21 dá 28,57%, e o artigo publica 28,57%. Já a tabela de tratamento trabalha com 23: 21 dividido por 23 dá 91,30%, e o artigo publica 91,3%; 16 dividido por 23 dá 69,57%, publicado como 69,6%; 5 dividido por 23 dá 21,74%, publicado como 21,7%. Duas populações diferentes para o mesmo hospital, no mesmo artigo, sem que a diferença de dois pacientes seja explicada.
Conferência que NÃO fecha entre o texto corrido e a tabela do mesmo artigo. O texto afirma que os anticonvulsivantes responderam pela maioria das ocorrências, seguidos dos analgésicos e dos antibióticos. Somando a tabela: anticonvulsivantes 13 citações — fenobarbital 6, carbamazepina 4, fenitoína 2, lamotrigina 1; antibióticos 11 citações somando os oito antimicrobianos listados; analgésicos 5 citações, todas de dipirona, ou 6 se incluirmos o item classificado como analgésico e antipirético. A ordem correta é anticonvulsivantes, antibióticos, analgésicos. O texto inverte as duas últimas posições. Isso importa porque a frase do texto é o que se cita, e a lista de suspeitos que ela sugere ao leitor está trocada.
Conferências que FECHAM no mesmo artigo, e que registramos porque dizem tanto quanto as que falham. A tabela de incidência por ano soma 86 tanto pelo total anual quanto pela quebra por sexo — 47 mulheres e 39 homens — quanto pelas faixas etárias. A tabela por hospital soma 86 pelos catorze hospitais e 86 pelas faixas de tempo de internação, e cada linha anual dela bate com o total de casos daquele ano na primeira tabela, ano a ano, nos dezesseis anos. A tabela do hospital de referência soma 21, exatamente o número de casos que a tabela por hospital atribui àquele hospital. A soma de citações de fármaco dá 40 em 21 pacientes, ou 190,5%, o que à primeira vista parece percentual somando acima de 100 — mas o próprio artigo declara que um mesmo paciente pode ter mais de um medicamento citado, e portanto isso não é erro.
Divergência de fonte dentro do mesmo artigo de 2017: o texto corrido atribui a classificação de gravidade por superfície corporal a uma referência, e o rodapé da própria tabela credita a fonte a outra referência, de autores diferentes. Não muda o conteúdo da classificação, que é a mesma de sempre, mas quem for citar a tabela vai citar a referência errada.
Anotação de classificação, ainda na tabela de fármacos suspeitos de 2017, que declara agrupar por código ATC da Organização Mundial da Saúde. A talidomida aparece com o código L04AX02, que é de imunossupressor, sob um cabeçalho de grupo que diz M01, anti-inflamatório. O enalapril aparece com o código C09AA02 sob um cabeçalho que diz C02, anti-hipertensivo — C09 e C02 são grupos distintos. E um dos itens é registrado por nome comercial, e não pela denominação genérica, numa tabela que se declara organizada por princípio ativo. Nada disso muda o achado epidemiológico, e tudo isso atrapalha quem for reagrupar os dados.
Conferência que NÃO fecha na revisão brasileira de 2006, e é conceitual, não aritmética. A seção de patogênese afirma que a base é uma reação de hipersensibilidade tardia a fármacos, mediada por linfócitos T CD8 que reconhecem complexo maior de histocompatibilidade de classe I. Duas seções adiante, a seção de etiologia abre afirmando que a doença é causada por hipersensibilidade a imunocomplexos. São dois mecanismos distintos e mutuamente excludentes, no mesmo artigo, com poucos parágrafos de distância. A consequência não é acadêmica: quem lê o segundo enunciado espera latência e comportamento de doença por imunocomplexo, e vai procurar o fármaco no lugar errado da linha do tempo.
Conferência que NÃO fecha, também na revisão de 2006, entre um agregado e suas partes. O artigo afirma que SSJ e NET ocorrem em aproximadamente duas a três pessoas por milhão por ano, e no parágrafo seguinte dá as duas faixas separadas: de 1,2 a 6 por milhão por ano para a SSJ e de 0,4 a 1,2 por milhão por ano para a NET. A conta: somando as faixas, o intervalo do conjunto seria de 1,6 a 7,2 por milhão por ano. O limite superior do agregado, 3, é menos da metade do limite superior da soma das parcelas. Os dois enunciados vêm de referências diferentes e nenhum dos dois é brasileiro, o que reforça o ponto do bloco de epidemiologia: não existe incidência brasileira medida.
Lacuna, mais do que erro, na mesma revisão de 2006, e ela deixa o leitor sem conseguir usar o artigo para a decisão que mais importa. O texto define a necrólise epidérmica tóxica como perda de epiderme acima de 30% da superfície corpórea, e nunca enuncia o corte de 10% da síndrome de Stevens-Johnson nem a zona de sobreposição entre 10% e 30%. Um leitor com um paciente de 15% de descolamento não consegue classificá-lo pelo artigo. Os cortes deste capítulo vêm do levantamento brasileiro de 2017, que os enuncia por completo.
Contradição interna na bula profissional do alopurinol, versão da bula padrão aprovada pela Anvisa em 23 de dezembro de 2025. A seção de contraindicações afirma que o medicamento é contraindicado para menores de 10 anos, e a capa da bula diz uso adulto e pediátrico acima de 10 anos. A seção de posologia, quatro páginas adiante, traz uma subseção intitulada crianças menores de 10 anos, com dose de 10 a 20 mg/kg por dia até o máximo de 400 mg diários, e observa que o uso em crianças é raramente indicado exceto em condições malignas e em certas disfunções enzimáticas, como a síndrome de Lesch-Nyhan — que se manifesta no primeiro ano de vida. O mesmo documento contraindica e posologia a mesma faixa etária.
Duas contas de dose que não fecham na mesma bula. Primeira: para adultos e crianças acima de 10 anos, a bula oferece um esquema por peso de 2 a 10 mg/kg por dia e, na linha imediatamente acima, um teto de 700 a 900 mg diários para condições graves. A conta: a 10 mg/kg, um adulto de 90 kg chega a 900 mg e fica no limite; um adulto de 100 kg chega a 1000 mg e ultrapassa o teto declarado na mesma seção. Segunda: para crianças abaixo de 10 anos, a faixa é de 10 a 20 mg/kg por dia com teto de 400 mg diários. A conta: a 20 mg/kg o teto já corta a faixa a partir de 20 kg; e a partir de 40 kg o teto de 400 mg cai abaixo do piso de 10 mg/kg da própria faixa, de modo que as duas regras se tornam incompatíveis para uma criança pesada.
Conferência que FECHA na mesma bula, e uma tensão interna que não é erro. Fecha: a bula fixa o alvo de oxipurinol plasmático abaixo de 100 micromoles por litro e escreve o equivalente como 15,2 mg/L; a conta, com massa molar de 152,11 g/mol, dá 15,21 mg/L. A tensão: a mesma bula informa que pacientes com clearance de creatinina entre 10 e 20 mL/min tratados com 300 mg de alopurinol por dia atingem oxipurinol de cerca de 30 mg/L. Convertendo, 30 mg/L dividido por 152,11 g/mol dá 197,2 micromoles por litro, quase o dobro do alvo que a própria bula estabelece. Não é contradição aritmética: é a bula descrevendo, com números próprios, por que a dose padrão em quem tem função renal ruim é um problema. É também a explicação farmacológica de por que doença renal crônica é fator de risco reconhecido para reação grave ao alopurinol.
Achado de elenco na Rename 2024, e ele muda conduta. Ciclosporina consta, no componente Especializado, com dezesseis protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas listados como documentos norteadores — anemia hemolítica autoimune, artrites, dermatite atópica, dermatomiosite, transplantes, lúpus, miastenia, psoríase, retocolite, síndrome de falência medular, síndromes nefróticas e uveítes. Imunoglobulina humana consta, também no Especializado, com oito protocolos norteadores. Nenhum dos vinte e quatro é síndrome de Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica ou DRESS. Quer dizer: os dois fármacos que a literatura internacional discute como modificadores de curso na NET existem no SUS e não têm porta normativa para esta indicação. Isso não impede a prescrição hospitalar, mas explica por que ela depende de decisão local e não de protocolo, e é informação que o interno precisa ter antes de prometer o tratamento a uma família.
Achado de método, sobre a mesma Rename. O índice mecânico que usamos devolveu prednisona como ausente do elenco, com o aviso de conferir à mão. Conferimos no texto normalizado, sem hífen e sem espaço: prednisona consta, em comprimido de 5 mg e de 20 mg, nos componentes Básico e Estratégico, com código ATC H02AB07. A ausência era artefato de quebra de linha da extração da tabela. Registramos porque a conclusão oposta — afirmar que o SUS não fornece prednisona — teria sido um erro grave num capítulo em que o corticoide oral é a principal decisão terapêutica do DRESS.
Inconsistência menor dentro da própria Rename 2024, entre duas tabelas do mesmo documento: a tabela de elenco do componente Especializado grafa a ciclosporina como cápsula, nas concentrações de 10, 25, 50 e 100 mg, enquanto a tabela que lista os relatórios de recomendação da Conitec grafa o mesmo produto como cápsula mole, e nela a apresentação de 10 mg não aparece. A forma farmacêutica do mesmo item está escrita de dois jeitos, e o elenco tem uma apresentação a mais do que a lista de incorporação. Não afeta a dispensação; afeta quem tentar cruzar as duas tabelas.
Conferência de norma, com sujeitos diferentes para obrigações que costumam ser confundidas — e é a razão de este capítulo assumir farmacovigilância. A RDC Anvisa 406, de 22 de julho de 2020, dispõe sobre boas práticas de farmacovigilância para detentores de registro de medicamento, e o prazo de 15 dias corridos para notificação de evento adverso grave é obrigação da empresa, não do médico. Ela foi alterada pela RDC 967, de 18 de março de 2025, que muda dois artigos e entra em vigor 365 dias após a publicação; a RDC 406 não foi revogada. Quem obriga o serviço de saúde é outra norma: a RDC Anvisa 36, de 25 de julho de 2013, que institui o Núcleo de Segurança do Paciente e fixa notificação mensal dos eventos adversos, no limite do décimo quinto dia útil do mês seguinte, e prazo de 72 horas para os que evoluíram para óbito. Citar a RDC 406 como fundamento do dever do médico é atribuir a obrigação ao sujeito errado. O que o profissional de saúde faz, e pode fazer sozinho, é notificar pelo VigiMed, que é aberto a profissional, a empresa e ao próprio paciente ou cuidador — e essa notificação é voluntária.
Ressalva de método sobre o escore RegiSCAR para DRESS. A reprodução em acesso aberto que consultamos devolveu, em duas extrações automáticas independentes, a tabela do escore com as colunas desalinhadas, e nas duas o limite superior da faixa mais baixa de eosinófilos apareceu como 1.490 por microlitro, enquanto o valor canônico do registro europeu é 1.499 — o que, se o impresso for mesmo 1.490, deixaria as contagens entre 1.491 e 1.499 sem classe nenhuma. Não conseguimos confirmar contra o layout original e por isso não afirmamos que o erro existe: registramos a dúvida, usamos no capítulo apenas os itens e as faixas de interpretação, que vieram estáveis nas duas extrações, e recomendamos conferir a tabela no original antes de pontuar um paciente.
A conduta, hora a hora
A conduta deste capítulo tem uma assimetria que vale nomear antes de começar: a intervenção que mais muda o desfecho é a mais barata, a mais rápida e a que menos aparece escrita nos prontuários brasileiros. Suspender o fármaco custa uma linha de evolução e não depende de vaga, de laudo nem de parecer.
Tudo o mais — volume, curativo, analgesia, oftalmologia, transferência — é tratamento de suporte de um paciente que já perdeu barreira. É trabalho pesado, é o que ocupa a equipe por semanas, e é o que se faz porque a coisa que decidia já foi decidida, num sentido ou noutro, num consultório qualquer.
Os marcos abaixo estão em ordem de relógio, e o relógio começa no minuto em que alguém olhou a boca do paciente.
Suporte individualizado. SSJ/NET não é queimadura térmica: não aplicar automaticamente fórmula de reposição de queimados nem pressupor a mesma necessidade de volume. Guiar fluidos por perfusão, diurese, função renal e perdas, evitando sobrecarga. Exame de mucosas deve respeitar consentimento, privacidade e conforto. SCORTEN ajuda a estimar risco, mas não substitui julgamento nem é requisito para transferência. Anti-histamínico pode aliviar prurido em casos selecionados; não trata a reação sistêmica nem muda a prioridade.
Minuto 0 — o paciente não recebe alta
Exantema com sinal de alarme exige suspender a alta, avaliar gravidade e acionar a equipe responsável antes de concluir que se trata de reação benigna. Descreva distribuição, tipo de lesão, mucosas, dor, bolhas e descolamento. Registrar bolhas e descolamento espontâneo. Se clinicamente necessário, pesquisar Nikolsky com pressão lateral delicada por profissional habilitado, evitando trauma adicional e atraso do cuidado. Registrar positivo, negativo ou não pesquisado, conforme o ocorrido; resultado negativo não exclui farmacodermia grave.
Prescrição- Registrar no prontuário: distribuição do exantema, tipo de lesão elementar, presença ou ausência de alvo atípico, bolha, vesícula e área de descolamento.
- Registrar bolhas e descolamento espontâneo; se o sinal de Nikolsky for clinicamente necessário, pesquisar delicadamente por profissional habilitado, sem traumatizar extensamente a pele nem atrasar cuidado. Resultado negativo não afasta farmacodermia grave.
- Registrar o exame das quatro mucosas — oral, ocular, genital e anal — com o achado de cada uma, inclusive quando normal.
- Registrar se há dor cutânea espontânea, com a palavra que o paciente usou.
- Não prescrever corticoide nem anti-histamínico antes de decidir o quadro: nenhum dos dois muda o descolamento, e o corticoide dado às cegas atrasa o reconhecimento e entra na lista de fármacos do paciente.
Minuto 10 a 40 — a linha do tempo, e a suspensão
Esta é a conduta do capítulo. Monta-se a lista escrita de oito semanas, com nome, data de início e última dose de cada medicamento, e pede-se que a família traga as caixas de casa. Com a lista pronta, suspende-se hoje todo suspeito dispensável dentro da janela de quatro dias a oito semanas, com prioridade para anticonvulsivante aromático, alopurinol, sulfa, betalactâmico, anti-inflamatório, nevirapina, dapsona, sulfassalazina e vancomicina. Quando sobram vários suspeitos, não se escolhe um: suspendem-se todos os que dá para suspender. E quando o fármaco é indispensável — o anticonvulsivante de quem convulsiona, o antirretroviral de quem precisa dele —, a substituição é conversa de hoje com quem prescreveu, e não pendência para a visita de amanhã. O que não se faz, em circunstância nenhuma, é reduzir a dose para ver se melhora: a reação não é dose-dependente, e a bula do alopurinol registra isso em termos explícitos.
Prescrição- Suspender hoje: nomear cada fármaco suspenso, com o motivo em uma linha, no prontuário e na prescrição.
- Alopurinol: retirada imediata diante de sinais ou sintomas de SSJ, NET ou síndrome de hipersensibilidade, e retirada permanente — a bula profissional determina que não haja reexposição nesses casos (bula profissional do alopurinol, Novartis, bula padrão aprovada em 23/12/2025).
- Anticonvulsivante aromático: a suspensão exige substituto no mesmo dia em quem tem epilepsia. Acionar a neurologia hoje; a troca de classe evita a reatividade cruzada entre carbamazepina, fenitoína, fenobarbital e lamotrigina.
- Não reduzir a dose do suspeito como alternativa à suspensão. A reação não depende da dose.
- Não reintroduzir o fármaco para testar a hipótese. Não existe teste de provocação seguro depois de reação grave.
Primeira hora — exames, superfície e o telefonema que decide o destino
Com o fármaco fora, colhe-se o que gradua e o que afasta impostores: hemograma com diferencial lido, transaminases, bilirrubinas, ureia, creatinina, glicemia, eletrólitos e gasometria com bicarbonato. Mede-se a superfície descolada ou descolável e registra-se o número com data e hora. Calcula-se o SCORTEN com os cortes conferidos — ureia acima de aproximadamente 60 mg/dL, e não 28, e bicarbonato abaixo de 20 mmol/L, e não mg/dL. E aciona-se a oftalmologia, hoje, se há olho vermelho, ardor ou secreção. Com esses números na mão, o telefonema para a referência deixa de ser um pedido e passa a ser um caso: idade, superfície descolada, mucosas envolvidas, SCORTEN, e o fármaco já suspenso.
Prescrição- Hemograma com contagem diferencial; anotar a contagem absoluta de eosinófilos na evolução, e não só o percentual.
- Transaminases, bilirrubinas, fosfatase alcalina e gama-GT; ureia, creatinina, sódio, potássio, glicemia e gasometria venosa com bicarbonato.
- Culturas de sangue e da lesão apenas diante de sinais de infecção; não colher por rotina.
- Biópsia de pele em lesão recente e representativa, evitando área totalmente erodida — sem que ela atrase a suspensão do fármaco.
- Na suspeita de SSJ/NET, solicitar avaliação oftalmológica precoce, idealmente nas primeiras 24 horas, mesmo que a queixa inicial seja discreta; sintomas oculares exigem atenção imediata e seguimento especializado.
- Não prescrever antibiótico sistêmico profilático: não previne sepse, seleciona flora e acrescenta um fármaco à lista de quem está reagindo a fármaco.
Primeiras 6 horas — para onde vai esse paciente
A decisão de destino no Brasil é concreta e depende de o serviço ter ou não centro de tratamento de queimados. Descolamento pequeno, paciente estável, SCORTEN baixo, mucosas pouco acometidas: enfermaria com curativo e suporte, no próprio serviço. Descolamento maior, SCORTEN de três ou mais, instabilidade hemodinâmica, mucosa respiratória ou digestiva envolvida: terapia intensiva, e preferencialmente unidade de queimados, que é a estrutura que o país tem para pele desnuda em grande superfície. No levantamento do Distrito Federal, o hospital que mais recebeu esses pacientes foi justamente o de referência em queimados. Se o seu serviço não tem, a transferência é acionada hoje — e o argumento é a superfície medida, que é a linguagem que a regulação entende.
Prescrição- Definir e escrever o destino: enfermaria, terapia intensiva ou unidade de queimados, com o critério que sustentou a decisão.
- Acionar a regulação com os números na mão: idade, superfície descolada em porcentagem, mucosas envolvidas, SCORTEN e fármaco já suspenso.
- Enquanto a vaga não sai, iniciar o suporte no local: o paciente não fica esperando transferência sem volume, sem analgesia e sem curativo.
- Registrar o horário do acionamento da regulação e o nome de quem atendeu.
Primeiras 24 horas — o suporte, que é a maior parte do trabalho
Daqui em diante, o tratamento exige suporte para perda de barreira, sem transpor automaticamente fórmulas de queimadura térmica. Reposição volêmica guiada por diurese e perfusão, porque a perda por evaporação e exsudação em pele desnuda é grande e costuma ser subestimada. Controle da temperatura ambiente, porque o paciente sem epiderme perde calor e a hipotermia é real. Manipulação asséptica e criação de campo estéril. Acesso venoso periférico posicionado longe das áreas acometidas, evitando acesso central quando possível, pelo risco de infecção. Nutrição precoce, por sonda quando a mucosa oral inviabiliza a alimentação. Analgesia efetiva, porque essa é uma das dores mais intensas da medicina. Profilaxia de tromboembolismo e de úlcera de estresse. E curativo não aderente, com manipulação mínima, sem debridamento agressivo da epiderme destacada, que funciona como cobertura biológica. A revisão brasileira de terapia intensiva é explícita sobre a preferência pelo acesso periférico e sobre a nutrição precoce.
Prescrição- Reposição volêmica guiada por diurese, perfusão e função renal, com a lógica de perda por superfície desnuda.
- Controle de temperatura ambiente e medidas contra hipotermia; manipulação asséptica e campo estéril.
- Acesso venoso periférico distante das áreas acometidas; evitar acesso central quando houver alternativa (Rev Bras Ter Intensiva, 2006).
- Nutrição precoce, por sonda enteral quando a mucosite inviabilizar a via oral.
- Analgesia efetiva e reavaliada; anestésico tópico para as lesões orais.
- Profilaxia de tromboembolismo venoso e de úlcera de estresse.
- Curativo não aderente, troca com manipulação mínima; não debridar a epiderme destacada por rotina.
Primeiras 24 horas — mucosas, e o olho que decide o resto da vida
O que produz a sequela permanente nesse quadro não é a pele: é o olho. Simbléfaro, triquíase, opacidade corneana, olho seco crônico e perda visual são desfechos descritos, e eles se decidem na primeira semana. Por isso a oftalmologia entra no dia do diagnóstico e reavalia diariamente. As demais mucosas exigem cuidado próprio: higiene oral delicada com solução fisiológica e anestésico tópico, atenção a sinéquias genitais em mulheres, que produzem estenose vaginal se não forem prevenidas, e vigilância para envolvimento respiratório e digestivo, que muda a gravidade do quadro inteiro. No levantamento brasileiro, lesão ocular grave figurou entre as complicações mais frequentes, e acompanhamento oftalmológico estava registrado em um único prontuário.
Prescrição- Oftalmologia no dia do diagnóstico e reavaliação diária na fase aguda; lavagem com solução fisiológica e colírios conforme a prescrição do oftalmologista.
- Higiene oral com solução fisiológica; anestésico tópico para permitir alimentação e higiene.
- Exame genital e anal na admissão e durante a internação, com medidas de prevenção de sinéquias em mulheres.
- Atenção a disfagia, dispneia e sangramento digestivo, que sinalizam envolvimento de mucosa respiratória ou digestiva.
Nas primeiras 48 horas — o que se acrescenta além do suporte, e o que o Brasil oferece
DRESS é uma hipótese sindrômica que integra latência, exantema, febre, alterações hematológicas e acometimento de órgãos, com avaliação de diferenciais e critérios como RegiSCAR. Nem todos os achados aparecem no início. Suspender prontamente fármacos suspeitos com o médico responsável, revisar necessidade dos demais e monitorar órgãos. Consenso internacional de 2024 estratifica tratamento pela gravidade: casos leves podem receber cuidado tópico e vigilância; corticoide sistêmico é indicado sobretudo em doença grave e considerado conforme órgão e evolução nas formas intermediárias. Dose e redução são individualizadas, frequentemente com retirada prolongada. Não transformar uma dose única em regra para todo exantema. No SSJ/NET, retirada do agente, suporte e cuidado multidisciplinar são centrais. Imunomoduladores têm evidência e protocolos variáveis; discutir escolha precoce com o serviço experiente e documentar risco, indicação e resposta. A presença na RENAME não estabelece indicação para essa síndrome.
Prescrição- DRESS: graduar acometimento orgânico e definir com a equipe necessidade, dose e retirada de corticoide sistêmico; evitar início ou desmame automático sem plano de acompanhamento.
- DRESS: monitorar hepatograma, função renal e função tireoidiana no seguimento; a recidiva no desmame é regra, não exceção.
- SSJ/NET: corticoide sistêmico de rotina não é consenso — a revisão brasileira de terapia intensiva registra que a maioria dos autores não o recomenda (Rev Bras Ter Intensiva, 2006). Ver o bloco de divergências.
- Imunoglobulina humana e ciclosporina: constam da Rename 2024 no componente Especializado, e nenhum dos documentos norteadores listados contempla SSJ, NET ou DRESS. Decisão de serviço, documentada.
- Não prometer à família tratamento cuja disponibilidade não foi confirmada com a farmácia hospitalar.
Antes da alta — a anotação que impede a próxima exposição
O capítulo termina onde ele deveria ter começado três anos atrás. A informação que impede a reexposição é uma frase escrita em quatro lugares: no prontuário, no relatório de alta, em toda receita futura e num cartão que fique com o paciente. A frase precisa ter o nome do princípio ativo — não a marca —, a reação que ocorreu com o nome dela, e a data. Alergia a antibiótico não serve. Alergia a remédio não serve. Serve carbamazepina, necrólise epidérmica tóxica, e o mês e o ano. Junto vai a lista de fármacos com reatividade cruzada esperada, que no caso dos anticonvulsivantes aromáticos inclui todos os da família. Eventos adversos relacionados a medicamentos devem ser notificados no VigiMed por profissionais e serviços, mesmo como suspeita. Queixas técnicas e outros incidentes seguem os sistemas e fluxos próprios. O Núcleo de Segurança do Paciente deve orientar obrigações institucionais adicionais; não aplicar automaticamente o prazo do detentor do registro ao profissional nem deixar farmacovigilância para uma notificação mensal genérica. O erro de prescrição e o evento adverso evitável, quando for esse o caso, são assunto do capítulo de erro médico, e a comunicação ao paciente segue o que está escrito lá.
Prescrição- Escrever a alergia em quatro lugares: prontuário, relatório de alta, toda receita futura e cartão para o paciente.
- Formato da frase: princípio ativo, reação com o nome dela, mês e ano. Exemplo: carbamazepina — necrólise epidérmica tóxica — setembro de 2026.
- Listar a família com reatividade cruzada esperada, quando houver: anticonvulsivantes aromáticos entre si, sulfas entre si.
- Eventos adversos relacionados a medicamentos devem ser notificados no VigiMed por profissionais e serviços, mesmo como suspeita. Queixas técnicas e outros incidentes seguem os sistemas e fluxos próprios. O Núcleo de Segurança do Paciente deve orientar obrigações institucionais adicionais; não aplicar automaticamente o prazo do detentor do registro ao profissional nem deixar farmacovigilância para uma notificação mensal genérica.
- Notificar também pelo VigiMed, que é aberto ao profissional de saúde, ao paciente e ao cuidador; essa notificação é voluntária.
- Agendar o seguimento: oftalmologia, dermatologia e, no DRESS, hepatograma e função tireoidiana — a doença não termina na porta do hospital.
Como saber se está funcionando
A reavaliação nesta doença tem uma peculiaridade: ela é diária e ela é aritmética. A superfície descolada muda, o escore muda com ela, e o destino do paciente muda com o escore. Nada disso funciona se o número de hoje não estiver escrito ao lado do número de ontem.
Os parâmetros abaixo valem para a fase aguda, que dura enquanto a doença progride — tipicamente três a cinco dias no SSJ/NET, e semanas no DRESS.
Na alta, explicar sinais de retorno e manter vigilância de órgãos conforme o quadro. DRESS pode persistir ou recidivar após retirada do fármaco; piora exige reavaliar progressão, infecção, novos medicamentos e redução do tratamento, sem atribuir tudo automaticamente a reativação viral. Documente agente suspeito, síndrome, data e grau de certeza. Avaliação de reatividade cruzada é específica: não estender a todos os medicamentos uma proibição por semelhança de nome. Notifique suspeita de reação adversa pelo VigiMed e siga o fluxo institucional pertinente, sem esperar certeza de causalidade.
Esperado: Estabilização em 3 a 5 dias, seguida de reepitelização progressiva a partir das bordas
Se não melhora: Progressão além de cinco dias, ou salto de classe — de menos de 10% para mais de 30% —, obriga a reavaliar se algum fármaco suspeito continua sendo administrado, inclusive os que entraram depois da admissão. Reveja a prescrição inteira, item por item, e não só a lista da anamnese.
Esperado: Controle com o esquema prescrito; redução progressiva conforme a reepitelização avança
Se não melhora: Dor que aumenta em área já reepitelizando sugere infecção secundária. Examine a área, colha cultura dirigida e não acrescente antibiótico às cegas.
Esperado: Febre que cede com a suspensão do fármaco e o suporte; estabilidade hemodinâmica
Se não melhora: Febre persistente com taquicardia, queda de perfusão e leucocitose em paciente com pele desnuda é sepse com foco cutâneo até prova em contrário — a principal causa de morte na necrólise. O manejo do choque é do capítulo Sepse e choque séptico; o que se faz aqui é reconhecer cedo e colher culturas antes do antibiótico.
Esperado: Diurese adequada com a reposição ajustada; função renal estável
Se não melhora: Oligúria com elevação de escórias pode ser hipovolemia por perda cutânea subestimada, nefrite do DRESS ou necrose tubular. Reveja o balanço antes de assumir doença renal, e lembre que ureia é uma das variáveis do escore de gravidade.
Esperado: Queda progressiva após a suspensão do fármaco e o início do corticoide, ao longo de semanas
Se não melhora: Piora hepática depois da suspensão não significa que o culpado era outro: é comportamento típico do DRESS, ligado à reativação viral. O que ela obriga é a rever a lista de fármacos em uso, incluindo os prescritos na internação, e a discutir a intensidade do corticoide.
Esperado: Ausência de progressão de lesão corneana e de formação de sinéquias
Se não melhora: Piora ocular é a sequela que fica para o resto da vida e não dá sinal ao clínico até ser tarde. Se não há oftalmologista no serviço, isso entra no argumento de transferência, e não numa espera.
Esperado: Nenhum suspeito ativo; substitutos definidos e prescritos
Se não melhora: É frequente que o fármaco culpado tenha sido suspenso na admissão e reintroduzido dias depois por outra equipe que não sabia — a prescrição eletrônica repete o que estava lá. Relea a prescrição inteira todo dia, e mantenha a alergia visível no cabeçalho, e não só na evolução do primeiro dia.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que define o capítulo. Como a reação é tardia, o fármaco que a causou entrou semanas atrás e continua entrando todo dia; o que o paciente tomou hoje é, quase sempre, a dipirona ou o paracetamol que ele usou pela febre da própria reação. Quem procura o culpado no dia de hoje suspende o analgésico, fica com a sensação de ter agido, e deixa o anticonvulsivante na prescrição. O Franklin da cena teria saído do pronto-socorro com a dipirona suspensa e a carbamazepina intacta, e teria voltado dois dias depois descolando.
Como pegar a tempo: A janela é de oito semanas e a lista é escrita, não perguntada de memória. Peça as caixas. Ancore as perguntas em datas que a pessoa reconheça — depois do carnaval, depois daquela consulta — porque ninguém responde bem a quantos dias faz. E triagem: elimine o que ele toma há mais de três meses sem mudança, marque o que começou entre quatro dias e oito semanas.
O dano: O acometimento de mucosa é o achado que mais frequentemente separa o exantema que vai para casa do que não pode ir, e é o que mais frequentemente falta na ficha. Pior: a mucosa oral pode preceder a lesão de pele em um a dois dias, de modo que existe um paciente que chega com dor de garganta, febre e boca ferida, sem nenhum exantema, e que já está a caminho da necrólise. Sem lanterna na boca, esse paciente sai com diagnóstico de faringite.
Como pegar a tempo: Lanterna na boca em todo exantema febril e em toda dor de garganta com febre alta e prostração desproporcional. Olhar conjuntiva. Perguntar por ardor ao urinar e por lesão genital. São quinze segundos, e é o passo que sustenta a alta do ponto de vista clínico e do ponto de vista do prontuário.
O dano: Prurido e dor são sintomas diferentes e apontam para doenças diferentes, e o paciente costuma usar palavras vagas para os dois. Quem registra coceira onde havia dor perde o achado mais precoce da necrose epidérmica — o que dói está morrendo, e a bolha ainda vai levar um dia para aparecer. O anti-histamínico prescrito nesse cenário não faz nada, e o alívio que ele não traz é interpretado como quadro refratário em vez de diagnóstico errado.
Como pegar a tempo: Pergunte com as palavras certas e escreva a resposta do paciente: dói de encostar a camisa? Dói de passar a mão? Ou é coceira? Dor cutânea espontânea em exantema é sinal de alarme e vale por si só.
O dano: Inverte a ordem inteira. A biópsia responde onde está o plano de clivagem — informação valiosa, que separa a necrólise da doença estafilocócica — e não responde qual medicamento causou a reação, porque nenhum exame responde isso. Enquanto o material vai e volta do patologista, o paciente continua tomando o fármaco que o está descolando, e a superfície de amanhã será maior que a de hoje por uma razão evitável.
Como pegar a tempo: A suspensão é clínica e é hoje. A biópsia é confirmação, não permissão, e a decisão de transferir também não a espera. Se você está com um laudo pendente e um comprimido prescrito, corrija a prescrição primeiro.
O dano: A reação é mediada por linfócitos T de memória: na reexposição, o clone já existe, a reação volta mais rápido e costuma voltar pior. Não existe teste de provocação seguro depois de SSJ, NET ou DRESS. Reduzir a dose é a versão silenciosa do mesmo erro, e ela nasce de uma intuição farmacológica que aqui não vale: a reação não é dose-dependente, e a bula do alopurinol registra isso explicitamente, ao lado da instrução de retirada permanente.
Como pegar a tempo: Suspenda, não reduza. Não reexponha. Se depois do episódio houver dúvida sobre qual dos fármacos foi o culpado, a investigação é ambulatorial, meses depois, por serviço de alergia, com testes de leitura tardia — e não com provocação.
O dano: A anotação genérica não protege ninguém e prejudica duas vezes. Não protege porque o próximo médico não sabe qual molécula evitar e vai prescrever outro betalactâmico, ou o mesmo com outro nome comercial. E prejudica porque um rótulo largo de alergia a antibiótico condena o paciente a antimicrobianos de segunda linha por décadas, com pior espectro e mais efeito adverso, por uma reação que talvez nem tenha sido dele. É o mesmo erro nas duas direções: falta de precisão.
Como pegar a tempo: Escreva princípio ativo, nome da reação e data, nos quatro lugares — prontuário, relatório de alta, receitas futuras e cartão com o paciente. Liste a família com reatividade cruzada esperada. Eventos adversos relacionados a medicamentos devem ser notificados no VigiMed por profissionais e serviços, mesmo como suspeita. Queixas técnicas e outros incidentes seguem os sistemas e fluxos próprios. O Núcleo de Segurança do Paciente deve orientar obrigações institucionais adicionais; não aplicar automaticamente o prazo do detentor do registro ao profissional nem deixar farmacovigilância para uma notificação mensal genérica.
O que dizer ao paciente e à família
As conversas deste capítulo são difíceis por um motivo específico: o dano foi causado por um remédio que alguém prescreveu, muitas vezes com indicação correta, e o paciente e a família sabem disso antes de você abrir a boca. A tentação é escorregar para um dos dois extremos — minimizar, dizendo que é uma reação rara e ninguém tem culpa; ou entregar culpa, dizendo que o remédio foi mal indicado sem saber se foi.
O que funciona é dizer o que aconteceu, o que já se sabe, o que ainda não se sabe e o que se vai fazer para que não aconteça de novo. As falas abaixo são pontos de partida, não roteiro.
Explicar ao paciente por que ele não vai para casa, quando ele acha que é só uma alergia
“Essas manchas podem ser de duas coisas muito diferentes, e do lado de fora elas se parecem. Uma passa sozinha em alguns dias. A outra pode fazer a pele descolar, e o senhor já tem dois sinais dela: a boca ferida e a dor na pele. Enquanto isso não estiver claro, o senhor fica aqui, porque se for a segunda, os próximos dois dias são os que decidem.”
Não diga: Não diga que é uma alergia forte. A palavra alergia faz o paciente pensar em algo que passa com injeção e alta, e é exatamente a expectativa que você vai ter de desmontar depois.
Explicar que o medicamento vai ser suspenso, quando ele é necessário
“A carbamazepina está fazendo mal ao senhor de um jeito que pode ficar grave, e por isso ela para hoje. Ela não vai voltar nunca — nem em dose menor, porque isso não depende da dose. Mas o senhor tem epilepsia e não pode ficar sem remédio nenhum, então eu vou falar com a neurologia hoje, ainda no meu plantão, para trocar por outro de família diferente antes de o senhor sair daqui.”
Não diga: Não diga vamos ver depois, nem deixe a substituição para a visita de amanhã. A frase que o paciente leva para casa não pode ser suspendi o seu remédio de convulsão e não coloquei nada no lugar.
Responder à pergunta da família sobre se alguém errou
“A indicação do remédio estava certa, pelo que eu vejo aqui. O que aconteceu é uma reação rara e que não dá para prever com exame nenhum antes de acontecer — algumas pessoas têm uma predisposição genética que nós não testamos de rotina no Brasil. O que dá para fazer, e é o que estou fazendo, é parar hoje e garantir que ele nunca mais receba esse remédio nem os da mesma família.”
Não diga: Não afirme que ninguém errou antes de ter olhado a prescrição e a indicação. E não improvise culpa: quando houver de fato erro de prescrição ou evento evitável, a conversa é outra, e o que se faz está no capítulo de erro médico.
Dizer o prognóstico sem entregar um número que você não tem
“Essa doença é grave, e a gravidade depende de quanta pele vai descolar, o que a gente só vai saber nos próximos dois a três dias. Existem escores que estimam risco, e eu vou calcular o dele. O que eu não vou fazer é dar uma porcentagem agora, porque ela mudaria amanhã e não ajudaria a senhora hoje.”
Não diga: Não repasse os 30% de mortalidade da necrólise como se fosse o risco daquele paciente. É um número de literatura estrangeira, é para a forma mais extensa, e não é a régua individual dele.
Explicar ao paciente com DRESS por que ele piorou depois de parar o remédio
“O senhor parou o remédio há cinco dias e o exame do fígado piorou, e eu sei que isso parece que a gente errou o culpado. Não é o que está acontecendo. Nessa reação específica, o corpo continua reagindo por semanas depois que o remédio sai, e é comum piorar antes de melhorar. Por isso o tratamento é longo e a retirada do corticoide vai ser lenta.”
Não diga: Não recomece o fármaco por causa da piora, e não sugira ao paciente que talvez o problema fosse outro remédio sem ter revisto a lista inteira, incluindo o que foi prescrito aqui dentro.
Entregar a informação que protege o paciente daqui a três anos
“Esse cartão fica com o senhor, na carteira, junto com o documento. Está escrito o nome do remédio, o nome do que aconteceu com o senhor e a data. Sempre que algum médico for receitar qualquer coisa, o senhor mostra o cartão antes. E vai estar escrito também nos remédios parecidos, que são da mesma família e também não podem.”
Não diga: Não escreva alergia a remédio nem alergia a antibiótico. Nome do princípio ativo, nome da reação, data — e a família com reatividade cruzada, quando houver.
Falar com o oftalmologista de plantão, que pergunta se não pode ser amanhã
“Não pode ser amanhã. É uma necrólise epidérmica tóxica com conjuntivite e a mucosa está descolando junto com a pele. A sequela ocular dessa doença se decide nesta semana e não dá sinal para mim até estar formada. Eu preciso do teu olhar hoje e diário enquanto ele estiver na fase aguda.”
Não diga: Não aceite a interconsulta para a semana que vem, e não a peça por escrito sem falar com alguém. Se o serviço não tem oftalmologista, isso vira argumento de transferência, não uma espera.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Decisão especializada com suporte imediato
A escolha de tratamento imunomodulador depende de evolução, contraindicações e protocolo do centro; a evidência não transforma um esquema em rotina universal. Retirada do agente, suporte, pele e mucosas são cuidados imediatos.
https://cdn.bad.org.uk/uploads/2021/12/29200149/SJS-TEN-summary-of-treatment-2-pages.pdf
Acionar equipe experiente precocemente; documentar indicação e monitorização. Não escolher com base em opinião não consultada ou apenas em presença no elenco.
Reconstrução ampla
Reconstituir ao menos oito semanas, incluindo uso intermitente, medicamentos habituais, automedicação e exposições anteriores. Latência varia por fármaco e síndrome e pode encurtar na reexposição.
https://jamanetwork.com/journals/jamadermatology/fullarticle/2812063
Priorizar plausibilidade do conjunto, sem manter um suspeito forte apenas porque começou há mais de quatro semanas. Datas ajudam a ordenar hipóteses, não são um filtro absoluto.
Retirada urgente com plano de substituição
Uma reação cutânea grave exige retirada imediata do provável agente e tratamento da doença de base com alternativa segura, definidos pela equipe responsável.
https://cdn.bad.org.uk/uploads/2021/12/29200149/SJS-TEN-summary-of-treatment-2-pages.pdf
O interno aciona o responsável imediatamente e ajuda a impedir nova exposição. Organizar substituição e monitorização em paralelo, sem deixar o provável culpado por dias enquanto aguarda consulta. Risco de convulsão requer cobertura apropriada e acompanhamento, não manutenção automática do agente.
O raciocínio, em voz alta
Florinda Marra tem 67 anos, é aposentada da limpeza de uma escola municipal e chega ao pronto-socorro numa segunda-feira, às onze da manhã, trazida pela filha. Faz três dias que tem manchas vermelhas, que começaram no tronco e agora estão nas coxas e nos braços. Ontem apareceram bolhas nas costas, e hoje de manhã a filha viu que a pele de um ponto do ombro tinha saído no lençol. Ela tem febre desde sexta-feira, não consegue comer porque a boca está ferida, e diz uma frase que a filha repete duas vezes na triagem: a pele arde. Antecedentes de hipertensão, diabetes tipo 2, doença renal crônica em acompanhamento ambulatorial e gota, com duas crises no último ano. A triagem classificou como amarelo e a ficha diz alergia medicamentosa a investigar. À sua frente, no leito 6, ela está prostrada, com temperatura axilar de 38,7, frequência cardíaca de 124 e pressão de 104 por 62. O exantema é confluente no tronco, com áreas acinzentadas e bolhas flácidas, e há erosão em mucosa oral com crosta hemorrágica nos lábios. As conjuntivas estão hiperemiadas e há secreção. Quando você pergunta o que ela toma, ela lista losartana, metformina e sinvastatina. Só.
Passo 1 — Antes de qualquer exame, os cinco sinais
Você pesquisa e registra: mucosa oral com erosão e crosta hemorrágica, conjuntivas hiperemiadas com secreção — duas mucosas. Dor cutânea espontânea, relatada com a palavra dela. Bolhas flácidas e área já erodida no ombro. Febre de 38,7 com prostração. O exame delicado, realizado pelo profissional habilitado no flanco junto à placa, mostra deslocamento epidérmico: Nikolsky positivo, com local registrado. Não se amplia a área examinada para demonstrar novamente o sinal. Quatro dos cinco sinais. Esta paciente não vai para casa, e isso está decidido antes de o primeiro tubo de sangue ser colhido.
Passo 2 — A pergunta que ela já respondeu errado uma vez
Ela disse que toma losartana, metformina e sinvastatina. É verdade e é insuficiente, porque a pergunta que ela ouviu foi o que a senhora toma, e ela respondeu com o que toma há anos. Você refaz: o que a senhora começou a tomar depois da última crise de dor no dedão? A filha responde antes: foi na consulta do posto, faz uns quarenta dias. Você pede que ela vá em casa e traga as caixas. Uma hora depois, a caixa está na sua mão: alopurinol 300 mg, um comprimido por dia, prescrição do dia 30 do mês passado. Trinta e seis dias. A janela fecha em cima do alopurinol.
Passo 3 — Por que o alopurinol nesta paciente, e não em outra
Duas coisas neste caso somam. A primeira é a associação conhecida entre alopurinol e reação cutânea grave, registrada na própria bula profissional, inclusive com a menção ao alelo HLA-B*58:01. A segunda é a doença renal crônica. A bula informa que pacientes com clearance de creatinina entre 10 e 20 mL/min tratados com 300 mg por dia atingem oxipurinol plasmático de cerca de 30 mg/L; convertendo pela massa molar de 152,11 g/mol, isso dá 197 micromoles por litro, quase o dobro do alvo abaixo de 100 que a mesma bula estabelece. Ela recebeu a dose padrão com um rim que não a elimina. Isso não é o que faz o diagnóstico — o diagnóstico é clínico —, mas é o que responde à pergunta da filha sobre por que aconteceu com a mãe dela.
Passo 4 — A suspensão, e o que mais sai junto
O alopurinol é suspenso agora, de forma permanente, e isso vai escrito com essas palavras. Você relê a prescrição inteira procurando outros suspeitos dentro da janela: losartana, metformina e sinvastatina estão há anos, sem mudança de dose, e ficam. Não há analgésico novo. Fica um único suspeito, o que é a situação confortável e não a mais comum. Você registra o raciocínio em duas linhas na evolução, nomeando o que suspendeu e o que manteve, e por quê. E não reduz a dose do alopurinol como meio-termo: a reação não é dose-dependente.
Passo 5 — Medir, e medir de novo
Você conta a superfície com epiderme descolada ou descolável: a área erodida do ombro, as bolhas do dorso e as áreas com Nikolsky positivo no tronco e nos flancos. Usando a regra dos nove e a palma da mão da paciente para as áreas irregulares, você chega a aproximadamente 14%. Eritema sem descolamento e sem Nikolsky não entra na conta, e essa é a parte da medida que mais infla o número quando é feita com pressa. Catorze por cento coloca o quadro na zona de sobreposição entre SSJ e NET. Você escreve o número, a hora e como mediu, porque amanhã alguém vai precisar comparar.
Passo 6 — O escore, com os cortes conferidos
Os exames voltam: ureia 78 mg/dL, creatinina 2,1, glicemia 268 mg/dL, bicarbonato 18 mmol/L, hemograma sem eosinofilia relevante, transaminases normais. Você calcula o SCORTEN. Idade acima de 40: ponto. Neoplasia: não. Frequência cardíaca acima de 120: 124, ponto. Descolamento acima de 10%: 14%, ponto. Ureia: aqui é onde a conferência importa — o corte é de aproximadamente 60 mg/dL de ureia, e não os 28 mg/dL impressos na revisão brasileira mais citada, que são nitrogênio ureico; com 78 mg/dL ela pontua de qualquer maneira, ponto. Glicemia acima de 252: 268, ponto. Bicarbonato abaixo de 20 mmol/L: 18, ponto. Seis pontos. Faixa de cinco ou mais, que a literatura associa a mortalidade em torno de 90%. Este é o número que você leva ao telefone.
Passo 7 — O destino, e o telefonema
Com seis pontos, superfície de 14% em progressão, duas mucosas envolvidas e instabilidade limítrofe, esta paciente precisa de terapia intensiva e, de preferência, de unidade de queimados. O seu serviço não tem. A regulação é acionada às treze e vinte, e o caso é apresentado com os números: 67 anos, 14% de superfície descolada e progredindo, mucosa oral e ocular acometidas, SCORTEN seis, alopurinol já suspenso. Enquanto a vaga não sai, o suporte começa aqui: reposição volêmica guiada por diurese, controle de temperatura ambiente, analgesia, acesso periférico longe das áreas acometidas, curativo não aderente sem debridar a epiderme destacada, e nada de antibiótico profilático. Você registra o horário e o nome de quem atendeu na regulação.
Passo 8 — O olho, hoje
Conjuntiva hiperemiada com secreção já é acometimento ocular, e a sequela que fica desta doença é a ocular. Você aciona o oftalmologista de plantão pessoalmente. Ele pergunta se não pode ser amanhã. Você diz que não: é uma necrólise em zona de sobreposição com mucosa descolando, e a sequela se decide nesta semana sem dar sinal ao clínico. Ele avalia às quinze horas e prescreve lavagem e colírio, com reavaliação diária. Isso entra na evolução com a hora.
Passo 9 — Antes de passar o plantão
Registrar princípio ativo, reação, data, retirada e alternativas discutidas no prontuário, relatório e cartão do paciente. Eventos adversos relacionados a medicamentos devem ser notificados no VigiMed por profissionais e serviços, mesmo como suspeita. Queixas técnicas e outros incidentes seguem os sistemas e fluxos próprios. O Núcleo de Segurança do Paciente deve orientar obrigações institucionais adicionais; não aplicar automaticamente o prazo do detentor do registro ao profissional nem deixar farmacovigilância para uma notificação mensal genérica.
Faça você
Alcebiades Frisso tem 52 anos, é vigilante noturno, e está internado há dois dias na enfermaria de clínica médica com febre e exantema. Você é o interno que assume a enfermaria hoje. No prontuário: há seis semanas ele sofreu queda da própria altura com traumatismo cranioencefálico leve, ficou em observação por 24 horas num hospital de outra cidade e recebeu alta com fenitoína, que continua tomando. Há duas semanas começou com mal-estar e febre baixa; há uma semana apareceu um exantema no tronco, que hoje cobre quase todo o corpo. A esposa diz que o rosto dele mudou — está inchado, principalmente em volta dos olhos. Ao exame: temperatura 38,8, exantema maculopapular confluente em mais de metade da superfície corporal, sem bolha, sem descolamento e com sinal de Nikolsky negativo. Mucosa oral íntegra. Linfonodos cervicais e axilares palpáveis bilateralmente, alguns maiores que um centímetro. Fígado palpável a dois centímetros do rebordo. O plantão anterior prescreveu dexametasona, anti-histamínico e amoxicilina com clavulanato, esta última na suspeita de infecção de pele. Os exames colhidos ontem estão no sistema e ninguém os abriu: leucócitos 14.200 com 2.400 eosinófilos por microlitro, linfócitos atípicos presentes, ALT 412, AST 355, bilirrubina total 1,8, creatinina 1,6, ureia 62.
Passo 1 — Nomeie o quadro, e diga em que ele difere do da Florinda
Ele tem exantema extenso e febre, como a Florinda tinha. O que ele NÃO tem é o que muda a categoria inteira. Liste o que está ausente e o que está presente, e diga qual das duas doenças deste capítulo é a dele.
Passo 2 — Refaça a linha do tempo com a janela certa
Uma janela de quatro semanas não encontra nada neste paciente. Diga por quê, e diga qual é o fármaco suspeito e há quantos dias ele começou.
Passo 3 — Leia os exames que ninguém abriu
Quatro achados laboratoriais deste paciente pertencem ao quadro e mudam a conduta. Aponte cada um e diga o que ele significa aqui.
Passo 4 — Revise a prescrição do plantão anterior
Há três medicamentos prescritos ontem. Diga o que fazer com cada um, com o motivo em uma linha, e identifique qual deles é o erro mais perigoso da prescrição atual.
Passo 5 — Decida a conduta de hoje
Escreva as ações prioritárias de hoje e explique como acionar imediatamente o médico responsável para evitar nova exposição, avaliar gravidade e organizar substituição segura do tratamento necessário.
Passo 6 — Antecipe o que vai acontecer daqui a cinco dias
A esposa vai perguntar por que ele piorou depois de você ter tirado o remédio. Escreva a resposta que você vai dar, e diga o que essa piora NÃO significa.
Passo 7 — A anotação e a notificação
Escreva a frase exata que vai para o cabeçalho do prontuário, para o relatório de alta e para o cartão do paciente. E diga quem notifica o quê, por qual sistema e em que prazo.
Ver como fecharíamos
Passo 1. O que está ausente é decisivo: não há bolha, não há descolamento, o sinal de Nikolsky é negativo e a mucosa oral está íntegra. Não é síndrome de Stevens-Johnson nem necrólise epidérmica tóxica. O que está presente monta outro quadro: exantema em mais de metade da superfície corporal, febre acima de 38,5, edema de face periorbitário, linfonodomegalia em dois sítios com linfonodos maiores que um centímetro, hepatomegalia, e — nos exames — eosinofilia de 2.400 por microlitro, linfócitos atípicos e hepatite. Isso é DRESS. A diferença central para o caso da Florinda é que ali a doença estava na pele e aqui a pele é a manifestação de uma doença de órgão. Passo 2. A latência clássica do DRESS vai de duas a oito semanas, e a fenitoína foi iniciada há seis semanas — quarenta e dois dias. Uma janela de quatro semanas não a alcança, e este paciente responderia, com sinceridade, que não começou nada de novo recentemente, porque seis semanas atrás não é recente para ninguém. É exatamente por isso que a janela deste capítulo é de oito semanas. O suspeito é a fenitoína, anticonvulsivante aromático, a classe que responde por cerca de metade dos casos de DRESS nas séries. Passo 3. Quatro achados. Eosinofilia absoluta de 2.400 por microlitro: acima de 1.500, é o item de maior peso do escore diagnóstico e é o que dá nome à síndrome. Linfócitos atípicos: também pontuam. ALT 412 e AST 355 com bilirrubina de 1,8: hepatite, o acometimento de órgão mais frequente e o que responde pela mortalidade do DRESS — a série pediátrica revisada descreve envolvimento hepático em algo entre metade e mais de quatro quintos dos casos. Creatinina 1,6 com ureia 62: possível nefrite, o segundo órgão mais atingido. Nenhum desses quatro estava lido, e o hemograma tinha sido colhido ontem — o erro não foi de coleta, foi de leitura da contagem diferencial. Passo 4. A amoxicilina com clavulanato é o erro mais perigoso: é um betalactâmico, classe implicada em farmacodermia grave, acrescentado a um paciente que está reagindo a fármaco, sem foco infeccioso demonstrado — o eritema difuso do DRESS foi confundido com infecção de pele. Suspender. O anti-histamínico não trata a reação sistêmica, embora possa aliviar prurido em alguns pacientes, e mantê-lo alimenta a expectativa errada de família e equipe; pode sair. A dexametasona é a única com lógica, já que corticoide sistêmico é o tratamento do DRESS moderado a grave — mas ela foi prescrita às cegas, sem diagnóstico e sem plano de desmame, o que num quadro que recidiva justamente no desmame é um problema. O que se faz é converter para um esquema definido e documentado: prednisona a partir de 1 mg/kg/dia com redução lenta. E a fenitoína, que ninguém suspendeu em dois dias de internação, sai hoje. Passo 5. Quatro ações. Primeira, e é a que exige acionar imediatamente o médico responsável para evitar nova administração: suspender a fenitoína, agora, e escrever por quê. Segunda: suspender a amoxicilina com clavulanato e o anti-histamínico. Terceira: definir o corticoide com dose por peso e plano de desmame lento, e discutir com o staff — mas a suspensão do fármaco não fica esperando essa discussão. Quarta: acionar hoje a neurologia para decidir o que fazer com a profilaxia de crise, se ela ainda tiver indicação seis semanas após um traumatismo leve, e para escolher, se for o caso, um anticonvulsivante de outra família — porque carbamazepina, fenobarbital e lamotrigina compartilham reatividade cruzada com a fenitoína e não servem de substituto. Passo 6. A resposta é que a piora depois da suspensão é comportamento típico do DRESS, e não sinal de que o culpado era outro. A reação continua por semanas depois de o fármaco sair, e a reativação de herpesvírus latentes, sobretudo o herpes-vírus humano 6, é a explicação descrita para isso. O que essa piora NÃO significa: não significa que a fenitoína deva voltar, não significa que se deva procurar outro culpado sem antes reler a prescrição inteira feita aqui dentro, e não comprova, por si só, erro de diagnóstico; reavaliar diferenciais e complicações. O que ela obriga é a revisar todos os fármacos em uso e a rediscutir a intensidade do corticoide. Passo 7. A frase: fenitoína — DRESS, reação a fármaco com eosinofilia e sintomas sistêmicos, com hepatite — setembro de 2026. Retirada permanente, sem reexposição. Reatividade cruzada esperada com carbamazepina, fenobarbital, oxcarbazepina e lamotrigina, todos contraindicados. Isso vai em quatro lugares: cabeçalho do prontuário, relatório de alta, toda receita futura e um cartão que fique com o paciente. Eventos adversos relacionados a medicamentos devem ser notificados no VigiMed por profissionais e serviços, mesmo como suspeita. Queixas técnicas e outros incidentes seguem os sistemas e fluxos próprios. O Núcleo de Segurança do Paciente deve orientar obrigações institucionais adicionais; não aplicar automaticamente o prazo do detentor do registro ao profissional nem deixar farmacovigilância para uma notificação mensal genérica. E o seguimento fica marcado — hepatograma, função renal e função tireoidiana, porque a tireoidite tardia do DRESS aparece meses depois, quando ninguém está mais olhando.
DRESS é uma hipótese sindrômica que integra latência, exantema, febre, alterações hematológicas e acometimento de órgãos, com avaliação de diferenciais e critérios como RegiSCAR. Nem todos os achados aparecem no início. Suspender prontamente fármacos suspeitos com o médico responsável, revisar necessidade dos demais e monitorar órgãos. Consenso internacional de 2024 estratifica tratamento pela gravidade: casos leves podem receber cuidado tópico e vigilância; corticoide sistêmico é indicado sobretudo em doença grave e considerado conforme órgão e evolução nas formas intermediárias. Dose e redução são individualizadas, frequentemente com retirada prolongada. Não transformar uma dose única em regra para todo exantema.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o texto, apresente o caso principal em um minuto. Explique: Reconhecer reação medicamentosa grave, reconstruir a exposição, suspender suspeitos com a equipe e monitorar pele, mucosas e órgãos. Justifique a primeira conduta e indique um achado que mudaria o destino do paciente.
Em 30 dias
Resolva novamente o caso para completar. Compare hipótese, diferenciais, gravidade, plano e seguimento com o gabarito. Acrescente uma mudança de contexto — comorbidade, piora, gestação, barreira de acesso ou baixa adesão — e explique como adaptaria a decisão com o supervisor.
Agora atenda
O treino natural deste capítulo é o exantema que chega ao pronto-socorro parecendo banal. O que se pratica ali não é diagnóstico raro: é a sequência de olhar a boca antes de decidir a alta, perguntar pela dor com as palavras certas, reconhecer bolhas e descolamento e decidir se há necessidade de pesquisa delicada de Nikolsky, e refazer a pergunta sobre medicamentos com uma janela de oito semanas e um pedido para a família ir buscar as caixas. É um atendimento em que a decisão certa custa quatro minutos e a errada só aparece dois dias depois. Se você fizer a estação, faça-a prestando atenção em quanto do resultado se decide antes de qualquer exame ter voltado.
