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A bisnaga acaba, a doença não
Psoríase e dermatite atópica: doença crônica, corticoide tópico e tratamento de manutenção
Reconhecer psoríase e dermatite atópica à beira do leito, prescrever corticoide tópico por potência, região, quantidade e prazo — e dizer na primeira consulta, com todas as letras, que o tratamento é de manutenção e não de episódio.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Psoríase. Aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS n.º 18, de 14 de outubro de 2021. Brasília: Ministério da Saúde, 2021 (anexo com alterações posteriores). Sem cláusula de licença visível no documento.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dermatite Atópica. Aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SECTICS/MS n.º 28, de 27 de novembro de 2025. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. Sem cláusula de licença visível no documento.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Licença Creative Commons Atribuição – Não Comercial – Compartilhamento pela mesma licença 4.0 Internacional.
TelessaúdeRS-UFRGS. Protocolos de Regulação Ambulatorial: Dermatologia. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2023. Versão digital, 51 páginas. Documento da Estratégia RegulaSUS. Sem cláusula de licença visível.
Ordem dos Farmacêuticos (Portugal). Centro de Informação do Medicamento. Corticosteróides tópicos: considerações sobre a sua aplicação. Autoras: Sofia Leal e Aurora Simón. Publicação de 30 de junho de 2015. Sem cláusula de licença visível.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Psoriásica. Aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS n.º 37, de 21 de janeiro de 2026. Brasília: Ministério da Saúde, 2026.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dermatologia na Atenção Básica de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2002 (Série Cadernos de Atenção Básica, n. 9).
American Academy of Dermatology — diretrizes de dermatite atópica
NICE — eczema herpético: antiviral e referência no mesmo dia
NICE — tratamento tópico da psoríase
Prefeitura de São Paulo — elenco local, emergência e dispensação
Ministério da Saúde — Rename 2024, financiamento, p. 17 (cópia oficial municipal)
Solé D, Kuschnir FC, Pastorino AC, Constantino CF et al. V Consenso Brasileiro sobre Rinites – 2024. Documento conjunto da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) e da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Versão de revista: Braz J Otorhinolaryngol. 2025;91(1):101500. doi:10.1016/j.bjorl.2024.101500
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Paciente tem pouca área de psoríase, mas lesões genitais dolorosas e grande prejuízo social. Como avaliar gravidade?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, nove e vinte, unidade básica de um bairro industrial. Na agenda da manhã há catorze nomes, e o quinto deles é Isaltino Ventura, 41 anos, soldador numa oficina de reboque. Na ficha, a recepção escreveu a queixa em duas palavras: renovar receita. Ele entra de camisa de manga comprida abotoada no punho, num dia de trinta e três graus, senta na ponta da cadeira e diz que só quer o papel do creme, que acabou faz um mês e que sem ele coça.
Você pergunta que creme e ele tira do bolso da calça uma bisnaga amassada de vinte gramas, sem tampa, com o rótulo gasto até restar o nome do corticoide. Diz que é o quarto tubo em dois anos. Diz que passa quando piora e para quando melhora, porque a bisnaga é pequena e ele guarda para a próxima. Pergunta se pode passar duas vezes por dia em vez de uma, para acabar logo. No prontuário há três atendimentos anteriores, e nos três está escrito a mesma coisa, com a mesma letra apressada: dermatite. Prescrito creme. Retorno se necessário. Nenhum deles registra onde eram as lesões, quantas eram, quanto tempo duravam nem o que acontecia depois que o tubo acabava.
Você pede para ele levantar a manga. Na face de extensão do antebraço direito há três placas de contorno nítido, uma delas do tamanho de uma tampa de garrafa, a pele por cima esbranquiçada e áspera como cal seca, e a pele em volta absolutamente normal — não há transição, há uma borda. No cotovelo, uma placa maior, do tamanho da palma dele. Ele levanta a camisa e a região sacra tem outra, simétrica em relação à prega glútea. O couro cabeludo tem escamas que ele varre com a unha para dentro do colarinho enquanto conversa, num gesto tão automático que ele nem percebe que fez. Nas unhas das mãos, pequenas depressões puntiformes, como se alguém tivesse encostado a ponta de uma agulha várias vezes na lâmina.
Você pergunta há quanto tempo. Ele pensa e diz nove anos. Pergunta se alguém na família tem. Ele diz que o pai tinha, que chamavam de pele de cobra e que ninguém nunca levou a um médico. Pergunta o que mudou para ele vir hoje, já que a doença tem nove anos e a queixa é de sempre. Ele fica quieto por um tempo e diz que o encarregado novo perguntou, na frente da equipe, se aquilo pega, e que desde então ele almoça sozinho no carro. Diz que parou de ir à piscina do clube da empresa. Diz que dorme mal porque coça de madrugada. E então diz a frase que organiza esta consulta inteira: que ninguém nunca explicou a ele o que é isso, só passaram o creme.
A partir daqui, o capítulo não é sobre acertar o nome da doença — o nome já está escrito na borda das placas, na sacral, no couro cabeludo e nas unhas dele. É sobre o que a quarta bisnaga de vinte gramas em dois anos diz sobre o tratamento que ele recebeu, e sobre o que precisa sair desta consulta escrito para que a quinta não seja igual.
Quem adoece disso
As duas doenças deste capítulo são comuns o bastante para que você as veja toda semana no internato, e crônicas o bastante para que quase nunca as veja começar. O que você vê é o meio: um paciente que já passou por vários atendimentos, cada um deles tratado como um episódio isolado, e cuja história de fato só aparece se alguém somar os episódios.
Para a dermatite atópica, os números brasileiros que o protocolo nacional reúne são, eles próprios, uma lição sobre como um número muda com a definição usada. O estudo internacional que padronizou a pergunta encontrou, em 2013, prevalência global de 7,9% em crianças de 6 e 7 anos e 7,3% em adolescentes de 13 e 14 anos. Na população brasileira, em 2006, 12,1% das crianças de 6 e 7 anos e 10,2% dos adolescentes de 13 e 14 anos já tinham recebido diagnóstico médico de eczema. Mas o próprio protocolo registra que estudos brasileiros chegaram a 20,1% em pessoas de 6 meses a 17 anos e a 5,4% em crianças menores de 12 anos — quatro vezes de diferença entre dois estudos do mesmo país. Não é ruído de amostra: é o efeito de escolher critérios diagnósticos diferentes e faixas etárias diferentes. Quando alguém lhe der um número de prevalência de dermatite atópica, a primeira pergunta útil é qual critério ele usou.
Dois recortes desses números mudam a consulta. O primeiro: adultos são cerca de um terço de todos os casos novos, e a prevalência em adultos fica em torno de 1% a 3% na maioria dos países. Dermatite atópica não é doença que se resolve na adolescência por definição, e o adulto que chega com eczema flexural recidivante não está com outra coisa só por ser adulto. O segundo: a forma grave é minoria. Pela escala respondida pelo próprio paciente ou cuidador, a estimativa brasileira de doença grave foi de 6,1% entre 6 meses e menos de 6 anos, 7,4% entre 6 e menos de 12 anos e 8,2% entre 12 e 18 anos. Ou seja, em torno de nove entre dez crianças com dermatite atópica têm doença leve ou moderada — que é exatamente a doença que se resolve com hidratação, corticoide tópico bem prescrito e uma conversa, e não com encaminhamento.
Para a psoríase, o dado que muda a sua prática não é a prevalência, é a distribuição da extensão. A maioria dos pacientes tem doença limitada, com menos de 5% da superfície corporal acometida, e o protocolo nacional diz isso explicitamente antes de descrever qualquer tratamento. A leitura correta dessa frase é a que quase nunca se faz: a psoríase é, na maior parte das vezes, uma doença de atenção primária. O dermatologista é necessário para a minoria — a doença extensa, a refratária, as formas graves —, e o encaminhamento indiscriminado de placa em cotovelo transforma uma fila que deveria absorver a minoria numa fila que absorve todo mundo, e faz o paciente grave esperar atrás do paciente leve.
Há ainda um dado de processo que este capítulo trata como epidemiológico porque é ele que produz o dano. O corticoide tópico é a prescrição dermatológica mais frequente do internato, e a bisnaga comercial mais comum tem entre dez e trinta gramas. O protocolo nacional da psoríase fixa que a dose de corticoide tópico não deve passar de 50 g por semana. Nenhum dos três documentos brasileiros abertos para escrever este capítulo — os dois protocolos federais e o protocolo de regulação — diz ao prescritor quanto creme é uma aplicação. A conta é sua e ninguém a ensina: é isso que faz com que o mesmo paciente saia com a mesma bisnaga de vinte gramas quatro vezes em dois anos, sem que ninguém, nem ele nem você, perceba que a quantidade prescrita nunca deu para tratar o que estava escrito na receita. O limite citado deve ser conferido para a molécula e apresentação: não é teto universal de todo corticoide tópico. Individualizar por idade, sítio e duração e reavaliar indicação sistêmica quando a carga de tratamento for inadequada.
Por fim, a carga que não aparece em nenhuma tabela de prevalência. A psoríase é doença inflamatória sistêmica, e o protocolo nacional a define assim na primeira linha da introdução: sistêmica, inflamatória, crônica, com manifestação predominantemente cutânea. Uma doença de pele visível cobra fora da pele — no sono, no trabalho, no que a pessoa deixa de vestir, no lugar onde ela almoça. O índice de qualidade de vida em dermatologia existe justamente para medir isso, e no Brasil ele não é acessório: é um dos critérios que decidem quem passa da faixa leve para a faixa que autoriza tratamento sistêmico. Um paciente com placas em 4% da superfície corporal, todas em áreas cobertas, e um paciente com 4% todo em mãos e genitália não têm a mesma doença — e o sistema brasileiro reconhece essa diferença por escrito.
Por que acontece o que acontece
As duas doenças deste capítulo são inflamações crônicas da pele com mecanismos diferentes, e a diferença explica por que o tratamento de uma é um freio e o de outra é um remendo de parede. Na psoríase, o problema começa dentro: um eixo inflamatório que mantém o queratinócito em proliferação acelerada e a placa em produção contínua. Na dermatite atópica, o problema começa na barreira: a camada córnea perde a proporção certa entre colesterol, ácidos graxos essenciais e ceramidas, a água escapa por evaporação, a superfície racha, e a inflamação entra pela fissura que a secura abriu. É por isso que na psoríase o hidratante é adjuvante e o anti-inflamatório é o eixo, e na dermatite atópica o hidratante é o eixo e o anti-inflamatório entra nos surtos.
Essa diferença de mecanismo aparece no exame. A placa psoriásica é a expressão física de uma epiderme que se renova rápido demais: a camada córnea se acumula antes de amadurecer, e o resultado é uma escama grossa, aderente, prateada, sobre uma base infiltrada — dá para sentir o relevo com o dorso do dedo. A borda é abrupta porque a área de proliferação acelerada tem limite. O eczema atópico não tem borda: tem transição. A pele em volta também está seca, também está alterada, e o que muda é a intensidade, não o território. Quando um aluno descreve uma lesão como tendo limite preciso, ele já disse metade do diagnóstico sem saber.
O prurido tem origens diferentes nas duas doenças, e isso tem consequência prática. Na dermatite atópica o prurido é o motor: coçar rompe a barreira, a ruptura aumenta a perda de água e a entrada de irritantes, a inflamação piora e o prurido aumenta. É um ciclo que se alimenta de si mesmo, e por isso interrompê-lo — hidratação, unhas curtas, controle do surto, sono — é tratamento e não conforto. O protocolo brasileiro chega a preconizar terapia de reversão de hábito, uma técnica comportamental de cinco componentes para reduzir o ato de coçar, ao mesmo tempo em que registra que ela não está amplamente disponível nos serviços. Na psoríase, o equivalente do ciclo é o fenômeno de Koebner: a lesão aparece onde a pele foi traumatizada. Isso explica placas em cotovelo, joelho e região sacra, e explica por que coçar, esfregar ou raspar a placa não é neutro — a agressão alimenta a doença no lugar exato onde ela já está.
A pele da dermatite atópica também tem o pH mais alto que o normal, e o protocolo nacional usa esse fato duas vezes. Primeiro, para explicar a colonização microbiana: pH elevado favorece a permanência de proteases microbianas no leito da lesão e facilita a ruptura da barreira, o que faz do paciente atópico alguém especialmente sujeito a foliculite, abscesso e ao eczema herpético. Segundo, para orientar o banho, recomendando sabonete de pH fisiológico, levemente ácido. É raro que uma orientação de higiene tenha um mecanismo declarado atrás dela; esta tem, e vale repeti-la ao paciente com o mecanismo junto, porque orientação com motivo adere mais que orientação sem.
O corticoide tópico entra nesse quadro como um freio potente e de mão curta. Ele suprime a inflamação local, e faz isso independentemente da causa dela — o que é sua virtude e sua armadilha. A virtude é que resolve o surto de eczema e achata a placa. A armadilha é que ele suprime igualmente a inflamação que estava defendendo a pele de um fungo ou de uma bactéria, e por isso o mesmo tubo que salva um eczema arruína um diagnóstico de micose. A borda ativa da dermatofitose apagada pelo corticoide é o assunto de outro capítulo desta apostila, e é lá que ele está desenvolvido; aqui interessa a outra ponta da mesma verdade: se você prescreve corticoide sem ter certeza do que está tratando, você não errou só o tratamento, você apagou o exame de quem vier depois.
Os efeitos indesejados do corticoide tópico não são acidentes, são a mesma farmacologia levada adiante no tempo. A atrofia cutânea, as telangiectasias e as estrias vêm da redução de síntese de colágeno e do afinamento da epiderme, e por isso aparecem primeiro onde a pele já é fina de origem: face, pescoço, axila, virilha, região inframamária, fossa cubital e poplítea. A perda progressiva de efeito com o uso contínuo — a taquifilaxia — é o motivo pelo qual o mesmo tubo que funcionava deixa de funcionar sem que a doença tenha piorado. E o rebote na retirada, a piora que vem quando o corticoide é interrompido de uma vez depois de uso prolongado, é o mecanismo que produz o paciente que jura que só melhora com o creme e que piora sempre que tenta parar. Os três — atrofia, taquifilaxia e rebote — estão nomeados um a um no protocolo nacional da psoríase como os riscos conhecidos que justificam o uso por períodos restritos.
É aqui que o capítulo tem que dizer a coisa desagradável. Um paciente que passa corticoide potente quando a doença piora e para quando melhora está fazendo exatamente aquilo que a farmacologia transforma em ciclo: expõe a pele à supressão, tira o freio de uma vez, colhe o rebote, conclui que a doença voltou e recomeça. Ele não está sendo desobediente — ele está seguindo à risca a instrução que recebeu, que foi passar quando piorar. O ciclo não é falha de adesão do paciente; é falha da prescrição, que descreveu um episódio quando a doença é contínua.
A alternativa que resolve isso tem mecanismo próprio e nome banal: manutenção. Depois de controlado o surto com aplicação diária por um período definido, o corticoide passa a ser aplicado duas vezes por semana, nas mesmas áreas que costumam adoecer, mesmo com a pele aparentemente limpa. A ideia é manter a inflamação subclínica abaixo do limiar em que ela produz placa, com exposição total muito menor do que a do ciclo de surtos repetidos. O protocolo brasileiro da psoríase escreve isso em uma linha — duas vezes por semana na fase de manutenção — e o protocolo da dermatite atópica descreve o mesmo desenho para o inibidor de calcineurina tópico, com o detalhe de que a indicação é justamente o paciente com quatro ou mais exacerbações por ano. Em ambas as doenças, portanto, o país já tem por escrito o tratamento contínuo. O que falta é o médico dizer isso ao paciente na primeira consulta, e não na quinta.
Como se apresenta de verdade
Objetivos práticos no internato. Avaliar extensão e impacto, escolher potência e quantidade por região, programar manutenção e reconhecer urgência infecciosa ou inflamatória. O interno colhe e apresenta os dados, propõe o plano e executa atividades sob supervisão; prescrições, procedimentos e documentos são validados pelo profissional responsável. Estude o caso acompanhando o que cada achado muda na decisão, não apenas decorando critérios.
As duas doenças se reconhecem à beira do leito, sem exame nenhum, e o que separa quem reconhece de quem não reconhece não é acuidade visual: é ter uma lista curta de lugares para olhar e uma ordem para descrever o que se vê. Descrever mal é o que produz o prontuário que diz apenas dermatite — e um prontuário que diz dermatite não permite que o próximo médico some os episódios, que é a única maneira de enxergar uma doença crônica na atenção primária.
A ordem que este capítulo propõe tem quatro perguntas, nesta sequência: a lesão tem borda ou tem transição; onde ela está; o que acontece se eu raspar a escama; e o que estava acontecendo na pele antes de o paciente passar qualquer coisa. As quatro respostas cabem em duas linhas de prontuário e valem mais que qualquer exame que você possa pedir hoje.
A placa que tem borda: psoríase vulgar em placas
A forma mais comum se apresenta como placa eritematosa de contorno nítido, coberta por escama espessa, seca, branco-prateada e aderente, sobre base infiltrada. Três adjetivos fazem o diagnóstico: nítida, espessa, aderente. O contorno nítido separa a psoríase do eczema, que faz transição. A escama espessa e prateada separa da dermatite seborreica, cuja escama é fina, amarelada e gordurosa. A base infiltrada — o relevo que o dorso do dedo sente ao passar — separa de quase tudo que é plano.
A distribuição é tão característica quanto a lesão: superfícies de extensão. Cotovelos, joelhos, região sacra e couro cabeludo formam o quarteto clássico, e a simetria é regra. Isso é o inverso da dermatite atópica do adulto e da criança maior, que ocupa as flexuras. Quando alguém lhe descrever uma dermatose sem dizer se é de extensão ou de flexão, peça esse dado antes de qualquer outra coisa: ele sozinho parte o diferencial em dois.
Duas manobras de beira de leito ajudam, e ambas têm o mesmo princípio: raspar delicadamente a escama. A raspagem metódica destaca primeiro escamas finas e esbranquiçadas — o sinal da vela, porque lembra a raspagem de uma vela de parafina — e, se continuada até a base, produz um orvalho de pontos hemorrágicos puntiformes, o sinal de Auspitz, que corresponde ao topo das papilas dérmicas desnudadas. Nenhuma das duas é obrigatória e nenhuma das duas é inócua: raspar a placa é trauma, e trauma na pele psoriásica alimenta a doença pelo fenômeno de Koebner. Faça se a dúvida for real; não faça por demonstração.
A mesma lógica de Koebner explica achados que parecem coincidência. Placas na linha do cinto, na alça do relógio, sobre uma cicatriz cirúrgica, na região sacra de quem passa o dia sentado num banco duro. Quando o paciente diz que a doença sempre aparece no mesmo lugar, muitas vezes a resposta não está na pele, está no que encosta nela.
Os quatro lugares que a consulta apressada não olha
O couro cabeludo é o primeiro. As escamas psoriásicas ali são aderentes e frequentemente ultrapassam a linha de implantação dos cabelos, invadindo a testa e a região retroauricular — detalhe que ajuda a separar da dermatite seborreica, que costuma respeitar a linha. Muitos pacientes não relatam o couro cabeludo espontaneamente porque aprenderam a chamar aquilo de caspa. Pergunte com essas palavras: o senhor tem caspa que não sai com xampu?
As unhas são o segundo. Depressões puntiformes na lâmina, como marcas de agulha, e onicólise, o descolamento distal com a linha amarelada que separa a unha aderida da unha solta, são os dois achados mais úteis. O dado tem peso administrativo além do clínico: o protocolo brasileiro inclui como critério de doença moderada a grave o acometimento ungueal extenso, definido como onicólise ou onicodistrofia em ao menos duas unhas. Duas unhas — é um limiar contável, e ele muda a via de tratamento a que o paciente tem direito. Uma unha alterada também é o ponto onde este capítulo cede: unha distrófica isolada, sem placa em lugar nenhum, é diagnóstico diferencial de onicomicose e o lugar dele é o capítulo de micoses superficiais desta apostila.
As dobras são o terceiro, e são a bifurcação mais importante deste capítulo. A psoríase invertida ocupa axila, virilha, sulco interglúteo, região inframamária e umbigo, e ali não tem escama: o atrito e a umidade a removem. O que resta é uma placa vermelho-viva, lisa, brilhante, de contorno nítido, muitas vezes com uma fissura no fundo da prega. É a apresentação que passa anos sendo tratada como micose de dobra, e o motivo é honesto — as duas são vermelhas, as duas ficam em dobra, as duas coçam. Dois achados separam: a psoríase invertida tem borda abrupta e não tem lesões-satélite; a candidíase de dobra tem pápulas e pústulas destacadas da lesão principal, na periferia. E há um terceiro dado, que não está na dobra: procure cotovelo, joelho, sacro, couro cabeludo e unha. Se houver qualquer placa clássica em outro lugar, a dobra provavelmente é da mesma doença. O tratamento antifúngico da dobra pertence ao capítulo de micoses superficiais; o que este capítulo assume é a decisão de parar de tratar como fungo o que tem borda e não responde.
O quarto lugar é a genitália. Placa em glande, vulva ou região perianal é frequente, quase nunca perguntada e muito raramente examinada, e tem consequência prática dupla: pesa desproporcionalmente no impacto sobre a vida — o questionário brasileiro de qualidade de vida em dermatologia tem um item específico sobre vida sexual — e entra nominalmente na lista de áreas especiais do protocolo nacional, cuja resistência ao tratamento tópico e à fototerapia por três meses contínuos qualifica o paciente para tratamento sistêmico mesmo com pouca área acometida.
As formas que mudam a conduta: gutata, palmo-plantar, pustulosa e eritrodérmica
A forma gutata se apresenta como erupção súbita de pápulas e pequenas placas eritemato-escamosas, de poucos milímetros a um centímetro, disseminadas por tronco e raiz dos membros, tipicamente em criança, adolescente ou adulto jovem, e classicamente uma a três semanas depois de uma faringoamigdalite. É a forma que mais parece outra coisa — pitiríase rósea, sífilis secundária, farmacodermia — e é a que mais frequentemente remite sozinha. Vale sempre a pergunta sobre dor de garganta recente e vale examinar a orofaringe.
A forma palmo-plantar concentra pouca área e muito prejuízo. Placas espessas, fissuradas e dolorosas em palmas e plantas incapacitam para trabalho manual e para caminhar, e mesmo assim contam pouco em qualquer índice baseado em superfície corporal. O sistema brasileiro reconhece isso por escrito: psoríase palmo-plantar resistente a tratamento tópico padrão por três meses contínuos entra na faixa moderada a grave independentemente da área. Se você atende alguém que não consegue mais fechar a mão para segurar uma ferramenta, o número de por cento não é o argumento — o critério de área especial é.
A forma pustulosa generalizada é a que tira o paciente da fila. Pústulas estéreis sobre base eritematosa, disseminadas, tipicamente com febre e comprometimento do estado geral. O protocolo de regulação brasileiro a coloca entre as condições que indicam encaminhamento para urgência ou emergência, e não para ambulatório. O mesmo vale para a psoríase eritrodérmica — eritema e descamação acometendo praticamente toda a superfície corporal — quando houver instabilidade hemodinâmica ou sinais de infecção sistêmica. Fora dessas duas situações, psoríase não é urgência.
Há uma armadilha de conduta escondida na eritrodermia que vale registrar aqui, porque ela nasce dentro deste capítulo: a retirada abrupta de corticoide sistêmico é um gatilho conhecido de piora e de conversão para formas graves em quem tem psoríase. Isso importa porque o paciente com placas pode acabar recebendo corticoide oral por outro motivo qualquer — uma lombalgia, uma crise alérgica — e a interrupção súbita depois de dias de uso não é neutra na pele dele.
Dermatite atópica: a mesma doença em três endereços
A dermatite atópica muda de lugar conforme a idade, e saber o endereço esperado por faixa etária evita metade dos erros. No lactente, a doença é de face — bochechas, testa, poupando classicamente o maciço centrofacial — e de superfícies de extensão, com lesões agudas: manchas eritematosas com ou sem exsudação, vesículas e crostas. Na criança maior e no adolescente, muda para as flexuras: fossa cubital, fossa poplítea, punhos, tornozelos, pescoço. No adulto, além das flexuras, é comum o acometimento de mãos, pálpebras e pescoço, e a lesão predominante já não é a aguda, é a crônica: descamação, fissura e liquenificação, o espessamento com acentuação dos sulcos da pele que vem de anos de atrito.
Em pessoas de pele mais escura, o protocolo nacional registra que o acometimento folicular proeminente é comum — pápulas centradas em folículos, que podem confundir com foliculite ou com queratose pilar. Registra também que, em alguns pacientes, o eczema se torna generalizado. Duas informações que valem porque a descrição clássica de eczema flexural com eritema vivo foi escrita para pele clara e falha exatamente onde a população brasileira mais concentra.
O diagnóstico não se faz por uma lesão, faz-se por um conjunto. O prurido é obrigatório em todos os sistemas de critérios usados no Brasil. A morfologia e a distribuição típicas por idade entram como critério maior. A cronicidade ou recidiva também. E a história pessoal ou familiar de atopia — asma, rinite alérgica, dermatite atópica — fecha o quarto critério maior. A pergunta sobre asma e rinite não é curiosidade: é critério diagnóstico, e é a pergunta que este capítulo pede que você faça sempre. O manejo da asma desse mesmo paciente pertence aos capítulos de Pneumologia e de Pneumologia Pediátrica desta coleção, e o da rinite, no adulto e no adolescente, a Rinite alérgica e asma alérgica, na apostila de Imunologia — a rinite da criança não tem capítulo no nível; o que se assume aqui é perguntar e registrar.
A mesma pergunta tem um segundo sentido na criança pequena. O V Consenso Brasileiro sobre Rinites, de 2024, descreve a marcha atópica: a sequência em que as doenças alérgicas costumam aparecer ao longo da infância — a dermatite atópica e a alergia alimentar nos primeiros meses de vida, a asma e a rinite alérgica depois, com a rinite predominando a partir da adolescência. O mesmo documento avisa que a ordem nem sempre é essa: há crianças que começam por outra doença, e doenças que se resolvem ou ficam pouco sintomáticas no caminho. A dermatite atópica de início precoce e grave pode persistir até a vida adulta e se associa com frequência a alergia alimentar, asma e rinite, e a soma de dermatite com alergia alimentar é a que parece mais ligada à progressão para as vias respiratórias. O que isso muda para o interno é a consulta, e não a prescrição: no lactente com eczema, perguntar por chiado e por sintomas nasais a cada retorno e explicar à família que a pele pode ser o primeiro endereço de uma doença que muda de órgão — sem prometer que vai mudar. E o consenso registra que excluir leite de vaca, ovo, amendoim ou peixe da dieta da gestante, da nutriz ou da criança de risco não mostrou benefício para prevenir alergia.
Os sinais menores são muitos e nenhum deles isolado decide, mas alguns são gratuitos de procurar e ajudam quando a dúvida é real: xerose difusa, hiperlinearidade palmar, queratose pilar, pitiríase alba, queilite, dupla prega infraorbitária — a prega de Dennie-Morgan —, escurecimento periorbitário, prurido ao suar, intolerância à lã. Nenhum é obrigatório. Todos, somados, mudam a impressão.
Quando o eczema deixa de ser só eczema
A pele atópica é uma pele com barreira rompida e imunidade local prejudicada, e por isso infecta. A infecção bacteriana secundária, quase sempre por Staphylococcus aureus, se anuncia por crostas cor de mel, exsudação, pústulas, dor onde antes havia coceira e piora rápida de um quadro que estava estável. O manejo do impetigo e das piodermites é do capítulo de escabiose e infecções bacterianas cutâneas desta apostila, e é para lá que este capítulo manda. O que fica aqui é o reconhecimento: eczema que muda de caráter — que passa a doer, a exsudar e a piorar depressa — está infectado até prova em contrário, e a decisão sobre antibiótico se toma antes de intensificar o corticoide.
O eczema herpético é o que não pode ser perdido. Erupção monomórfica de vesículas e depois erosões arredondadas, umbilicadas, de tamanho parecido entre si, sobrepostas às áreas de eczema, tipicamente com febre e prostração, disseminando-se rapidamente. É a infecção pelo vírus do herpes simples sobre pele atópica, e o protocolo de regulação brasileiro a coloca entre as condições de encaminhamento para urgência ou emergência quando grave. Duas armadilhas: a monomorfia das lesões é o que o separa do impetigo, cujas lesões são heterogêneas; e a piora sob corticoide tópico, que foi intensificado por parecer eczema em surto, é história frequente. Diante de erosões arredondadas e iguais entre si sobre eczema, pare o corticoide e trate como herpético.
Há uma terceira sobreposição menos dramática e muito mais comum: o eczema que não melhora porque virou dermatite de contato ao próprio tratamento. Perfume em hidratante, conservante em creme, e ocasionalmente o próprio corticoide. Suspeite quando a piora acompanha exatamente o território onde o produto é passado e respeita o que não foi passado.
O que a pele visível cobra fora da pele
Uma parte do que estas duas doenças fazem não está na pele e não aparece em nenhuma medida de área. O protocolo brasileiro da dermatite atópica lista, em texto, o que se espera encontrar quando se pergunta: insônia, ausência ao trabalho e à escola, isolamento social, depressão e ideação suicida. Não é rodapé humanista — está no corpo do documento que orienta o tratamento, e a recomendação que o segue é de aconselhamento, psicoterapia, terapia comportamental e técnicas de relaxamento durante o tratamento. Perguntar sobre sono, sobre faltas e sobre humor é parte do exame, não gentileza.
Na psoríase, o peso tem uma dimensão a mais, que é a suposição alheia de contágio. A doença não se transmite, e no entanto o paciente convive com a pergunta — no vestiário, no ônibus, na oficina. A consequência mais frequente é o encobrimento: manga comprida no calor, recusa de piscina, de praia, de academia, de qualquer situação em que a pele apareça. O custo disso é físico e não apenas social, porque o encobrimento reduz exatamente a exposição solar que muitos pacientes relatam melhorar suas lesões, e porque a recusa de atividade física conflita com uma orientação que o próprio protocolo registra: intervenções não cirúrgicas de perda de peso reduzem a gravidade da psoríase em quem tem sobrepeso ou obesidade.
Isso obriga a uma conduta explícita na consulta. Diga ao paciente, sem que ele precise perguntar, que a doença não é contagiosa e que ninguém pega dele. Ofereça essa frase por escrito se ele quiser mostrar a alguém no trabalho. E pergunte o que ele deixou de fazer por causa das lesões, porque é isso que o índice de qualidade de vida mede e é isso que, no Brasil, pode mudar a faixa de gravidade em que ele se enquadra. Um paciente que parou de sair de casa tem uma doença mais grave que outro com a mesma área acometida que não parou — e essa não é uma frase de empatia, é como o sistema brasileiro está escrito.
Uma advertência sobre o vocabulário da consulta, porque ela custa pouco e resolve muito. Termos como pele suja, feia ou pele de cobra circulam na fala popular e às vezes na fala médica, e o paciente frequentemente já os usa sobre si mesmo — o pai de Isaltino tinha pele de cobra e nunca foi levado a um médico. Nomear a doença corretamente, em voz alta, na frente dele, é intervenção: transforma uma característica pessoal vergonhosa em uma doença com nome, mecanismo e tratamento. É a diferença entre alguém que esconde e alguém que trata.
Como fechar o diagnóstico
O diagnóstico das duas doenças é clínico. Isso não significa que não haja nada a fazer além de olhar — significa que o trabalho de investigação muda de natureza: em vez de pedir exames para descobrir o que é, você mede o que já reconheceu, para decidir o que o paciente tem direito a receber e para ter um número que permita saber, daqui a três meses, se melhorou.
Essa distinção é a diferença entre um internato que aprende medicina e um que decora conduta. Medir área, medir impacto e registrar o que se mediu é o que transforma quatro consultas isoladas numa doença acompanhada. Nas duas doenças, o que decide o próximo degrau de tratamento no Brasil é um número — e é você quem o produz.
O que registrar, e por que o prontuário é o exame mais importante aqui
Numa doença crônica que se apresenta em surtos, o prontuário é o único instrumento capaz de mostrar o padrão. O que ele precisa conter, em cada atendimento, é curto: onde estão as lesões, quanto tempo dura o surto, o que foi prescrito com quantidade e duração, e o que aconteceu quando o tratamento terminou. Sem a última informação — o que acontece depois que acaba — nenhum médico posterior consegue distinguir doença controlada de doença que sempre volta.
O protocolo brasileiro de regulação em dermatologia deixa isso explícito ao definir o conteúdo mínimo de um encaminhamento: descrição das lesões e localização, tempo de evolução, estimativa da superfície corporal acometida, sinais e sintomas associados, fotografias de todas as áreas, presença de prejuízo funcional com o índice de qualidade de vida, e todos os tratamentos já feitos com posologia e tempo de uso. Repare no último item. Um encaminhamento que diz apenas passou creme sem melhora não permite ao especialista distinguir falha do tratamento de tratamento que nunca foi feito direito — e a segunda hipótese é, na prática, a mais comum.
Fotografar é parte do exame nestas duas doenças e é gratuito. Fotografia datada resolve a discussão que nenhuma memória resolve: se está melhor ou pior que há três meses. Peça autorização, fotografe com a mesma iluminação e a mesma distância, e anexe.
Um dado que quase ninguém registra e que muda o rumo: a doença tem quantos anos. Isaltino tem placas há nove anos e quatro tubos em dois anos. Escrever nove anos no prontuário faz com que a próxima consulta comece de onde esta parou, em vez de recomeçar do zero pela quinta vez.
Medir a área: a palma, o BSA e o PASI
A régua de bolso é a palma. O protocolo brasileiro de regulação em dermatologia define que a palma da mão do paciente, com os dedos unidos, corresponde a cerca de 1% da superfície corporal total. É do paciente, não sua — a mão de uma criança de três anos e a de um soldador de 41 medem superfícies diferentes. Com essa régua, estimar o acometimento é contar palmas: seis placas do tamanho de uma palma somam cerca de 6%.
O corte que importa é 10%. Acometimento acima de 10% da superfície corporal coloca a psoríase na faixa moderada a grave nos critérios do protocolo nacional, e é também um dos critérios de encaminhamento à dermatologia no protocolo de regulação. Dez palmas, portanto, é um limiar que você consegue estimar em vinte segundos, sem instrumento nenhum.
O índice usado em pesquisa e citado pelo protocolo nacional é o PASI. Ele divide o corpo em quatro regiões — cabeça, tronco, membros superiores e membros inferiores —, avalia em cada uma a extensão numa escala de 0 a 6 e a soma de eritema, infiltração e descamação numa escala de 0 a 12, multiplica os dois e depois pelo peso da região; a soma das quatro regiões vai de 0 a 72. O corte é PASI maior que 10 para doença moderada a grave. O próprio protocolo registra as limitações: é estimativa subjetiva do avaliador, é pouco sensível abaixo de 10% de superfície acometida e é subutilizado na prática por sua complexidade. Ou seja: o PASI é o desfecho dos estudos e o critério do protocolo, mas não é a ferramenta de rotina do internato — a palma é.
Uma advertência que não é acessória, e que este capítulo detalha com a conta feita em outro bloco: o quadro de cálculo do PASI publicado no protocolo brasileiro traz os pesos de tronco e de membros superiores trocados em relação à definição original do índice. Quem calcular o PASI copiando aquele quadro obtém um número diferente do que obteria com a fórmula que os estudos usam, e a diferença cai justamente sobre pacientes com doença predominante no tronco. Enquanto isso não for corrigido, use os pesos canônicos — cabeça 0,1, membros superiores 0,2, tronco 0,3 e membros inferiores 0,4 — e registre no prontuário qual fórmula usou.
Medir o impacto: o índice de qualidade de vida e as escalas de eczema
O índice de qualidade de vida em dermatologia é um questionário de dez itens, cada um pontuado de 0 a 3, com escore total de 0 a 30 — quanto menor, melhor a qualidade de vida. É validado para uso no Brasil e está reproduzido como apêndice dentro dos dois protocolos federais deste capítulo. Uma redução de cinco pontos no escore total é o que se aceita como significância clínica de uma intervenção.
O corte que decide é acima de 10, tanto no protocolo nacional da psoríase quanto no protocolo de regulação, que usa o mesmo número como critério de encaminhamento por prejuízo funcional grave. Dez pontos em trinta possíveis é um terço do escore máximo, e é um patamar que um paciente alcança sem ter muita área acometida — basta que a doença o atinja em sono, trabalho, roupa, relações e vida sexual, que são justamente os domínios do questionário. Para crianças e adolescentes existe versão própria, aplicável entre 5 e 16 anos.
Na dermatite atópica, o protocolo de 2025 lista sete escalas e não elege uma. Duas medem sinais e área e são aplicadas pelo profissional; duas são respondidas pelo paciente ou cuidador; duas são avaliações globais do examinador; e uma é apenas a intensidade do prurido numa escala numérica. O documento diz, em vez de escolher, que cabe ao médico avaliar vantagens e desvantagens de cada uma para a rotina. Para o internato, o que é operacional é a escala respondida pelo paciente ou cuidador: são poucas perguntas sobre os últimos sete dias, dá para aplicar na consulta e permite comparar consultas.
Um detalhe de leitura que economiza confusão. As escalas de gravidade da dermatite atópica servem, no Brasil, para duas coisas diferentes: enquadrar o paciente na faixa que autoriza cada medicamento e medir a resposta ao tratamento ao longo do tempo. Para a segunda função, o protocolo adota metas explícitas do consenso da sociedade brasileira de dermatologia — em três meses, redução de metade do escore de área e gravidade e reduções de pelo menos três pontos no pico de prurido e de quatro pontos nos escores de qualidade de vida e de eczema; em seis meses, redução de três quartos do escore de área e gravidade ou escore absoluto baixo. Ter meta escrita é o que permite dizer que um tratamento falhou sem que isso seja opinião.
Os critérios diagnósticos da dermatite atópica que o Brasil adotou
O protocolo nacional adotou dois sistemas, e usar qualquer um deles basta. O primeiro, e mais antigo, exige três ou mais critérios maiores e três ou mais critérios menores. Os maiores são quatro: prurido; morfologia e distribuição típicas — liquenificação ou linearidade em superfícies flexoras no adulto, envolvimento de face ou de superfícies extensoras no bebê e na criança; dermatite crônica ou cronicamente recidivante; e história pessoal ou familiar de atopia. Os menores são vinte e três, e incluem os sinais gratuitos já listados na apresentação.
O segundo sistema é a versão condensada e é o que serve à consulta: prurido nos últimos doze meses associado a três ou mais dos seguintes — início dos sintomas antes dos dois anos em paciente com mais de quatro anos; história de envolvimento flexural; história de pele geralmente seca; história de outra doença atópica no paciente ou em parente de primeiro grau; e dermatite flexural visível. Cinco itens, três dos quais são história e podem ser colhidos sem tocar no paciente.
Vale saber que essa lista foi publicada com um defeito de numeração no protocolo brasileiro de 2025 — dois itens aparecem com o mesmo número e o número três não existe —, o que não muda o conteúdo mas confunde quem tenta contar critérios lendo o documento. São cinco itens; o texto os enumera como 1, 2, 2, 4 e 5.
O que esses critérios deixam claro, e que muda a conduta, é que o diagnóstico se apoia em história tanto quanto em lesão. Uma criança de seis anos com pele seca, história de eczema desde o primeiro ano, mãe com rinite e prurido no último ano tem dermatite atópica mesmo que, no dia da consulta, a pele esteja quase limpa — e é justamente essa criança que precisa da conversa sobre manutenção, porque é ela que vai voltar.
Quando o exame ajuda e quando ele atrapalha
Na dermatite atópica, o protocolo nacional é explícito: biópsia de pele e exames laboratoriais, incluindo dosagem de imunoglobulina E, não são usados rotineiramente na avaliação. Podem ser úteis para descartar outra condição em pacientes selecionados, e é só isso. Pedir IgE total para confirmar dermatite atópica é gasto sem consequência: o valor não confirma nem exclui, e um resultado alto num paciente sem critérios não faz diagnóstico. Testes alérgicos indiscriminados produzem o mesmo problema numa escala pior, porque geram listas de sensibilizações sem relevância clínica que terminam em dietas de exclusão desnecessárias — o assunto da alergia alimentar e da introdução alimentar tem capítulo próprio na Nutrologia Pediátrica desta coleção, e é para lá que a investigação vai quando a suspeita for real.
A situação em que a suspeita é real está escrita no protocolo de regulação: eczema extenso e de difícil controle, refratário ao tratamento otimizado, com ou sem sintomas sistêmicos como vômitos, diarreia e atraso do crescimento; ou exacerbações que ocorrem de minutos a poucas horas depois do consumo de determinado alimento. Fora dessas duas situações, investigar alimento na dermatite atópica costuma custar mais do que rende.
Na psoríase, a biópsia é útil quando o quadro é atípico ou quando o diferencial inclui algo que muda tudo. Ela não é necessária para a placa clássica de cotovelo com escama prateada e unha em dedal. Dois exames de rotina merecem menção pelo que não fazem: cultura de pele em eczema sem sinais de infecção não decide nada, porque o Staphylococcus aureus coloniza a pele atópica sem estar causando doença; e o exame micológico só entra quando a hipótese de fungo é ativa, o que é frequente na dobra e raro no cotovelo.
Há um exame que este capítulo pede que você faça e ninguém pede: o exame do resto da pele. Um paciente com dobra vermelha exige que você olhe cotovelo, joelho, sacro, couro cabeludo e unha antes de decidir; um paciente com eczema de mão exige que você olhe fossa cubital e poplítea. Nenhum dos dois toma mais de dois minutos, e os dois mudam o diagnóstico com mais frequência que qualquer sorologia.
O que rastrear antes de imunossuprimir — e por que isso é obrigação de quem encaminha
Se o seu paciente vai subir para tratamento sistêmico, alguém tem de rastrear tuberculose antes. O protocolo nacional da psoríase determina, antes do início de biológico, pesquisa de tuberculose ativa e de infecção latente por tuberculose: exame clínico, radiografia simples de tórax para excluir doença ativa, e prova tuberculínica ou teste de liberação de interferon-gama para a infecção latente, este último reservado a quem preencher critérios específicos de indicação.
O limiar é numérico e vale a pena memorizar: trata-se a infecção latente quando a prova tuberculínica for igual ou maior que 5 mm ou o teste de interferon-gama for reagente, uma vez excluída a doença ativa. E há duas situações em que se trata a latente sem precisar de nenhum dos dois exames: alteração radiográfica compatível com tuberculose prévia não tratada, e contato próximo com caso de tuberculose pulmonar nos últimos dois anos. O biológico começa quatro semanas depois de iniciado o tratamento da infecção latente. No caso de tuberculose ativa, o protocolo admite, a critério da equipe assistente, início concomitante ou após quatro semanas de tratamento da tuberculose.
O seguimento também tem regras, e elas evitam repetição inútil: não se repete a prova tuberculínica nem o interferon-gama em quem já teve resultado positivo, em quem já tratou infecção latente em qualquer momento da vida sem nova exposição, e em quem já completou tratamento de tuberculose. Quem fez prova tuberculínica antes do biológico mantém o seguimento com prova tuberculínica; quem fez interferon-gama mantém com interferon-gama — porque o próprio biológico interfere no resultado. E o protocolo determina algo que muda a vida do paciente na farmácia: a dispensação do medicamento da doença de base não deve ser condicionada à apresentação desses exames de acompanhamento.
Este capítulo assume a obrigação de rastrear e cede o esquema. O tratamento da infecção latente e o da tuberculose ativa estão no capítulo de Tuberculose da apostila de Infectologia desta coleção. A triagem de hepatite B antes de imunossupressão, e o que fazer com cada padrão sorológico, está no capítulo de Hepatite B da apostila de Gastroenterologia. O que não se cede é a responsabilidade de pedir: quem encaminha um paciente para tratamento sistêmico sem ter pedido radiografia de tórax e prova tuberculínica devolveu ao especialista uma consulta que vai virar duas, e atrasou em meses o tratamento de alguém que já esperou.
As réguas brasileiras: potência, quantidade, prazo e o degrau que o elenco não tem
Este bloco reúne o que o Brasil tem escrito para decidir corticoide tópico e tratamento sistêmico nestas duas doenças, e confere as contas dos documentos oficiais uma a uma. A régua da potência e do que o SUS entrega vem da Rename 2024 e da tabela de potência do protocolo de regulação de 2023. A régua da gravidade e do acesso vem dos dois protocolos federais — o da psoríase, aprovado em 2021 com o anexo reeditado em 2025, e o da dermatite atópica, aprovado em novembro de 2025. A régua da quantidade não vem de documento brasileiro nenhum: nenhum dos três menciona a unidade de ponta de dedo, e é por isso que ela entra aqui declarada como convenção estrangeira, com a fonte nomeada. As notas ao final trazem as conferências, as que falharam e as que fecharam, com a conta explícita.
- 11. Descreva a lesão antes de nomear a doença: tem borda ou tem transição, é de extensão ou de flexão, a escama é espessa e prateada ou fina e gordurosa, a base é infiltrada ou plana.
- 22. Olhe os cinco lugares que a consulta apressada não olha: couro cabeludo, unhas, região sacra, dobras (axila, virilha, sulco interglúteo, inframamária, umbigo) e genitália.
- 33. Se houver dobra vermelha e brilhante sem escama, decida entre psoríase invertida e micose de dobra pela borda e pelas lesões-satélite — e procure placa clássica em outro lugar do corpo antes de decidir.
- 44. Na suspeita de dermatite atópica, aplique os critérios condensados: prurido nos últimos doze meses mais três dos cinco itens. Pergunte sobre asma e rinite no paciente e em parente de primeiro grau — é critério, não curiosidade.
- 55. Meça a área em palmas do paciente. Cada palma com os dedos unidos vale cerca de 1% da superfície corporal. Anote o número.
- 66. Meça o impacto. Aplique o índice de qualidade de vida em dermatologia. Anote o número. Acima de 10 muda a faixa de gravidade e muda o direito a tratamento.
- 77. Some as duas medidas com o que o protocolo chama de áreas especiais: face, couro cabeludo, dobras, genitália, palmas e plantas, e unhas. Doença pequena em área especial não é doença leve.
- 88. Escolha potência e veículo por diagnóstico, idade, região, espessura e extensão. Em face, dobras e genitália, preferir baixa potência por período curto ou poupador apropriado. Placas espessas de psoríase em áreas selecionadas podem exigir potência maior; muito potentes não são escolha automática para o corpo e não devem ser usados em crianças sem indicação especializada. No couro cabeludo, escolher veículo que alcance a pele entre os fios.
- 99. Escolha a quantidade pela área. Converta palmas em unidades de ponta de dedo (metade do número de palmas), unidades em gramas (meio grama cada) e gramas em bisnagas. Escreva a quantidade na receita.
- 1010. Escreva local, quantidade, frequência, prazo e retorno. Em pele fina, usar cursos curtos, usualmente até uma a duas semanas quando corticoide for indicado. Em placas corporais, duração depende de potência, formulação, idade e resposta, respeitando a bula. Após controle, manter emoliente e definir redução, suspensão ou manutenção intermitente com o anti-inflamatório apropriado; não prolongar automaticamente a mesma potência.
- 1111. Prescreva o hidratante junto, sempre, nas duas doenças — e diga a quantidade semanal em gramas, porque é a quantidade, e não a lembrança, que determina se ele será usado.
- 1212. Diga em voz alta que a doença é crônica, que o objetivo é controle e não cura, e que a manutenção continua depois que as lesões sumirem. Registre no prontuário que você disse.
- 1313. Marque o retorno com data. Sem data, o próximo atendimento vira o quinto episódio isolado em vez do segundo passo de um tratamento.
- 1414. Encaminhe apenas quem preenche critério: doença extensa acima de 10% da superfície, prejuízo funcional grave com índice acima de 10, refratariedade ao tratamento tópico bem feito por três meses na psoríase ou por um mês na dermatite atópica, recidiva frequente apesar do tratamento otimizado, ou forma grave. E envie o encaminhamento com fotografias, área estimada, índice de qualidade de vida e todos os tratamentos com posologia e tempo de uso.
- 1515. Antes de qualquer sistêmico, rastreie tuberculose ativa e latente e hepatite B, e escreva no encaminhamento que rastreou.
Potência, regiões de uso e elenco consultado: confirmar acesso local
| Classe de potência | Fármaco e apresentação | Consta na Rename 2024? | Onde usar, e onde não usar |
|---|---|---|---|
| Muito alta | Propionato de clobetasol 0,05% — creme e solução capilar | Sim, componente especializado (as duas apresentações). A pomada e o xampu de clobetasol não constam. | Lesões corporais e couro cabeludo. Não usar em face, dobras, genitália e região perianal, nem em criança com menos de um ano. Contraindicado sobre infecção cutânea não tratada, rosácea, acne e prurido sem inflamação. |
| Alta | Dipropionato de betametasona 0,05% pomada; desoximetasona 0,25% pomada | Nenhum dos dois consta. | Seriam a escolha de corpo em muitos algoritmos internacionais; no SUS não existem, e a receita que os nomeia não é aviável na farmácia básica. |
| Média | Dipropionato de betametasona creme e loção; valerato de betametasona 0,1%; furoato de mometasona 0,1% creme e pomada; aceponato de metilprednisolona; propionato de fluticasona; fludroxicortida; triancinolona acetonida | Nenhum consta na Rename 2024. O furoato de mometasona passou a ser preconizado pelo protocolo da dermatite atópica de novembro de 2025, posterior a essa edição da Rename. | É a faixa que falta. Entre o corticoide de baixa potência do componente básico e o de muito alta potência do componente especializado não há degrau intermediário disponível no elenco. |
| Baixa | Acetato de hidrocortisona 1% creme; dexametasona 0,1% creme | Sim, os dois, componente básico — são os únicos corticoides tópicos que a farmácia da unidade básica tem. | Face, pescoço, axila, virilha, região inframamária, fossa cubital e poplítea, genitália. No lactente e na criança abaixo de quatro anos, a hidrocortisona não deve passar de três semanas, sobretudo na área da fralda. |
| Baixa | Desonida 0,05% pomada, creme, loção e gel | Não consta. | Alternativa clássica de face e de criança em outros países; no SUS, não disponível. |
| Sem classe de corticoide | Tacrolimo pomada 0,3 mg/g e 1 mg/g (inibidor de calcineurina) | Não consta na Rename 2024 em apresentação tópica — a Rename traz apenas tacrolimo em cápsula, de uso sistêmico. Passou a ser preconizado pelo protocolo da dermatite atópica de novembro de 2025. | Áreas sensíveis — face, pescoço, dobras e genitália — em maiores de dois anos, e manutenção duas vezes por semana em quem tem quatro ou mais surtos por ano. Não causa atrofia, que é a razão de existir nessa posição. |
| Adjuvantes tópicos | Calcipotriol 0,005% pomada (análogo de vitamina D); ácido salicílico 5% pomada; alcatrão mineral 1% pomada; pasta de óxido de zinco 25%; permanganato de potássio | Calcipotriol: sim, componente especializado. Ácido salicílico, alcatrão mineral, pasta de óxido de zinco e permanganato: sim, componente básico. | Calcipotriol duas vezes ao dia no início e uma na manutenção, evitando a face; teto de 100 g por semana. Ácido salicílico nas lesões hiperceratóticas e no couro cabeludo. Alcatrão mineral diariamente nas placas. |
| Hidratante e emoliente | Cremes e pomadas com ureia 5% a 20%, lactato de amônio 10%, vaselina, petrolato, parafina | Nenhum consta. O único produto de uso tópico com essa finalidade na Rename 2024 é babosa (Aloe vera) 10-70% gel fresco, em gel e em creme — e é o próprio protocolo da dermatite atópica que registra isso. | Emoliente é essencial na dermatite atópica e adjuvante na psoríase. Conferir fornecimento ou manipulação municipal antes de presumir compra particular; discutir opção sem fragrância e custo compatível. O protocolo de regulação cita óleo de semente de girassol 10% com glicerina 2% em creme, 250 g. |
Quantidade: da palma do paciente à bisnaga da receita
| Área a tratar, contada em palmas do paciente | Superfície corporal aproximada | Unidades de ponta de dedo por aplicação | Gramas por aplicação | Gramas por semana, a duas aplicações por dia | Bisnagas de 30 g por semana |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 palma | 1% | 0,5 | 0,25 g | 3,5 g | 0,1 |
| 2 palmas | 2% | 1 | 0,5 g | 7 g | 0,2 |
| 4 palmas | 4% | 2 | 1 g | 14 g | 0,5 |
| 6 palmas | 6% | 3 | 1,5 g | 21 g | 0,7 |
| 10 palmas — limiar de doença moderada a grave | 10% | 5 | 2,5 g | 35 g | 1,2 |
| 14 palmas — cerca de 49 g/semana no exemplo de duas aplicações diárias; conferir limite do produto | 14% | 7 | 3,5 g | 49 g | 1,6 |
| 20 palmas | 20% | 10 | 5 g | 70 g — 40% acima do teto declarado | 2,3 |
| Corpo inteiro (hidratante na dermatite atópica) | 100% | 50 | 25 g | 350 g | 11,7 |
Conversão: mg, gramas de creme, bisnagas, comprimidos e mililitros num adulto de 70 kg
| Fármaco e apresentação | Concentração ou dose de referência | A conta | Como isso vira receita |
|---|---|---|---|
| Propionato de clobetasol creme 0,05% | 0,5 mg de clobetasol por grama de creme | 1 unidade de ponta de dedo (0,5 g) entrega 0,25 mg. Uma bisnaga de 30 g contém 15 mg. O teto de 50 g por semana equivale a 25 mg de clobetasol por semana. O limite citado deve ser conferido para a molécula e apresentação: não é teto universal de todo corticoide tópico. Individualizar por idade, sítio e duração e reavaliar indicação sistêmica quando a carga de tratamento for inadequada. | Para placas somando 6 palmas, duas vezes ao dia: 21 g por semana, ou uma bisnaga de 30 g para dez dias. Escrever a quantidade na receita evita a bisnaga de 20 g que dura dois meses. |
| Propionato de clobetasol solução capilar 0,05% | 0,5 mg por grama de solução | Um frasco de 50 g a 0,05% contém 25 mg de clobetasol. Essa conta não autoriza usar o frasco inteiro por semana: conferir o limite e a duração específicos da solução capilar, idade e área tratada. | Couro cabeludo, uma a duas vezes ao dia por duas a quatro semanas, depois duas vezes por semana. Um frasco não deve durar menos de uma semana. |
| Dexametasona creme 0,1% | 1 mg de dexametasona por grama de creme | 1 unidade de ponta de dedo entrega 0,5 mg. Uma bisnaga de 10 g contém 10 mg; uma de 30 g, 30 mg. | Face, dobras e genitália: uma a duas vezes ao dia por duas a quatro semanas. Uma face inteira é cerca de meia palma; uma bisnaga de 10 g dá para semanas. |
| Acetato de hidrocortisona creme 1% | 10 mg de hidrocortisona por grama de creme | 1 unidade de ponta de dedo entrega 5 mg. Uma bisnaga de 30 g contém 300 mg. | Duas a três vezes ao dia até melhorar, depois uma vez ao dia. Em menores de quatro anos, não passar de três semanas, especialmente na área da fralda. |
| Furoato de mometasona creme ou pomada 0,1% | 1 mg por grama | 1 unidade de ponta de dedo entrega 0,5 mg. Uma bisnaga de 20 g contém 20 mg. | Uma vez ao dia, sem curativo oclusivo salvo indicação. Maiores de dois anos. Não consta da Rename 2024, embora o protocolo de 2025 o preconize. |
| Calcipotriol pomada 0,005% | 0,05 mg (50 mcg) por grama | 1 unidade de ponta de dedo entrega 0,025 mg. Uma bisnaga de 30 g contém 1,5 mg. O teto de 100 g por semana equivale a 5 mg por semana, ou 3,3 bisnagas de 30 g. | Duas vezes ao dia no início, uma na manutenção, evitando a face. Irritação local é efeito adverso frequente e é a principal causa de abandono. |
| Tacrolimo pomada 0,3 mg/g e 1 mg/g | 0,3 mg/g (0,03%) e 1 mg/g (0,1%) | 1 unidade de ponta de dedo entrega 0,15 mg da pomada de 0,3 mg/g e 0,5 mg da de 1 mg/g. Uma bisnaga de 30 g contém 9 mg e 30 mg, respectivamente. | Dos 2 aos 15 anos, a de 0,3 mg/g duas vezes ao dia por até três semanas, depois uma vez ao dia. Dos 16 anos em diante, a de 1 mg/g duas vezes ao dia. Manutenção: uma vez ao dia, dois dias por semana, com 2 a 3 dias sem aplicação entre eles. |
| Ácido salicílico pomada 5% e alcatrão mineral pomada 1% | 50 mg/g e 10 mg/g | 1 unidade de ponta de dedo entrega 25 mg de ácido salicílico ou 5 mg de alcatrão. Uma bisnaga de 30 g contém 1,5 g de ácido salicílico ou 300 mg de alcatrão. | Ácido salicílico uma vez ao dia nas lesões hiperceratóticas, ou no couro cabeludo duas horas antes do banho. Alcatrão mineral diariamente nas placas. Os dois estão no componente básico. |
| Metotrexato comprimido 2,5 mg e solução injetável 25 mg/mL | 15 a 25 mg por semana no adulto | 15 mg são 6 comprimidos de 2,5 mg ou 0,6 mL da solução; 25 mg são 10 comprimidos ou 1,0 mL. | Tudo num único dia da semana, nunca dividido pelos dias — é o erro de administração que mata nesta droga. Ácido fólico em outro dia. Contraindicado na gestação e na lactação, para homens e para mulheres. |
| Ácido fólico comprimido 5 mg e solução oral 0,2 mg/mL | 5 mg por semana ou 5 mg por dia exceto no dia do metotrexato, no adulto; 400 mcg por semana na criança | 5 mg por dia em seis dias somam 30 mg por semana — seis vezes a alternativa de 5 mg por semana oferecida na mesma frase. Os 400 mcg semanais da criança equivalem a 2 mL da solução oral. | Escolha um dos dois esquemas do adulto e escreva qual escolheu. A diferença de seis vezes entre eles não está resolvida no documento brasileiro. |
| Ciclosporina cápsulas de 10, 25, 50 e 100 mg e solução oral 100 mg/mL | 3 a 5 mg/kg/dia no ataque; 2,5 a 3 mg/kg/dia na manutenção após seis semanas | Num adulto de 70 kg: 210 a 350 mg por dia, divididos em duas tomadas, ou seja 105 a 175 mg de 12 em 12 horas — de 1,05 a 1,75 mL da solução por tomada. Manutenção: 175 a 210 mg por dia. | Uso preferencialmente restrito a 8 a 12 meses e não recomendado além de dois anos contínuos. Não associar a fototerapia. Na dermatite atópica é a primeira linha sistêmica em qualquer idade. |
| Acitretina cápsulas de 10 e 25 mg | Início 25 mg/dia, máximo declarado 75 mg/dia, faixa declarada 0,5 a 1 mg/kg/dia | 75 mg são 3 cápsulas de 25 mg. Num adulto de 70 kg, 1 mg/kg são 70 mg — o teto de 75 mg já ultrapassa a faixa por peso, e ultrapassa mais quanto menor o paciente. | Ajuste pela tolerância clínica, não pela eficácia — é o único sistêmico da psoríase assim. Contraindicada na gestação, na lactação e na concepção, e em etilismo. |
| Upadacitinibe comprimido de liberação prolongada 15 mg e dupilumabe solução injetável 200 e 300 mg | Upadacitinibe 15 mg/dia; dupilumabe conforme peso e idade | Upadacitinibe: 1 comprimido por dia, só entre 12 e menos de 18 anos e com pelo menos 40 kg. Dupilumabe entre 6 e menos de 12 anos: 30 a menos de 60 kg recebem 200 mg a cada duas semanas, ou 400 mg por mês; 60 kg ou mais recebem 300 mg a cada duas semanas, ou 600 mg por mês. | Nenhum dos dois está incorporado ao SUS para adultos ou idosos com dermatite atópica. Nenhum dos dois consta da Rename 2024. |
O que o SUS oferece, por doença, gravidade e idade — e onde a escada termina
| Situação | O que o protocolo brasileiro preconiza | O degrau seguinte, se este falhar |
|---|---|---|
| Psoríase leve (PASI até 10, ou até 10% da superfície, ou índice de qualidade de vida até 10) | Hidratante diário mais tópicos: clobetasol creme ou solução capilar, dexametasona creme nas áreas de pele fina, calcipotriol pomada, ácido salicílico 5% e alcatrão mineral 1%. | Reavaliar em 4 a 12 semanas. Se não houver resposta ao tópico bem feito por três meses, o paciente passa a preencher critério de moderada a grave por área especial ou por refratariedade. |
| Psoríase moderada a grave (PASI acima de 10, ou mais de 10% da superfície, ou índice acima de 10, ou unha em duas ou mais, ou palmo-plantar refratária, ou área especial refratária) | Tópicos mantidos mais sistêmico: fototerapia com ultravioleta B de faixa estreita ou PUVA, metotrexato, acitretina ou ciclosporina. | Biológicos: adalimumabe, etanercepte, ustequinumabe, secuquinumabe e risanquizumabe, com rastreio prévio obrigatório de tuberculose ativa e latente. |
| Psoríase na gestação | A fototerapia com ultravioleta B é o tratamento sistêmico de primeira linha e não demonstrou efeito teratogênico. Entre os sistêmicos não biológicos, a ciclosporina é apontada como a melhor opção, com uso restrito a benefício superior ao risco. | Metotrexato e acitretina são contraindicados; a acitretina exige contracepção prolongada. Biológicos exigem gravidez descartada e contracepção eficaz mantida por meses após a suspensão. |
| Artrite psoriásica | Fora deste protocolo por critério de exclusão expresso: quem tem diagnóstico de artrite psoriásica sai do protocolo da psoríase e entra no protocolo próprio da doença, aprovado em janeiro de 2026. | Encaminhamento à reumatologia. Este capítulo faz o reconhecimento e o encaminhamento; o manejo articular pertence a Espondiloartrites e artrite psoriásica, na apostila de Reumatologia. |
| Dermatite atópica leve, qualquer idade | Emolientes pelo menos duas vezes ao dia em todo o corpo, banho curto e morno com sabonete de pH fisiológico, e corticoide tópico nos surtos: dexametasona ou acetato de hidrocortisona em qualquer idade, furoato de mometasona ou tacrolimo acima de 2 anos. | Reavaliar em um mês. Refratariedade ao tratamento otimizado contínuo por um mês, ou três ou mais recidivas em seis meses, são critérios de encaminhamento. |
| Dermatite atópica moderada a grave, qualquer idade | Tudo o que existe na leve, mais ciclosporina ou metotrexato por via sistêmica — sem restrição de idade. | Depende da idade, e é aqui que a escada se parte. |
| Dermatite atópica grave com falha, intolerância ou contraindicação a ciclosporina e metotrexato — criança de 6 meses a menos de 12 anos | Dupilumabe, conforme peso, além de todo o arsenal tópico. | É o degrau final previsto para essa faixa. |
| Dermatite atópica grave com falha, intolerância ou contraindicação a ciclosporina e metotrexato — adolescente de 12 a menos de 18 anos e pelo menos 40 kg | Upadacitinibe 15 mg por dia, além de todo o arsenal tópico. | É o degrau final previsto para essa faixa. |
| Dermatite atópica grave com falha, intolerância ou contraindicação a ciclosporina e metotrexato — adulto e idoso | Nada além do que já está na linha da doença moderada a grave: tópicos, ciclosporina e metotrexato. | Não há. O protocolo registra que a Conitec não incorporou dupilumabe nem upadacitinibe para adultos e idosos, e que, no caso do upadacitinibe, a recomendação de não incorporação foi por alto impacto orçamentário, embora o uso em adultos seja indicado em bula. |
PASI, o achado mais grave deste capítulo, com a conta. O quadro de cálculo do PASI publicado no protocolo brasileiro da psoríase atribui peso 0,2 ao tronco e 0,3 aos membros superiores. O índice original, e a própria fonte que o quadro declara ter adaptado, atribuem 0,2 aos membros superiores e 0,3 ao tronco — os dois pesos estão trocados. O erro é invisível a uma conferência superficial porque é uma permutação: a soma dos pesos continua sendo 1,0 e o máximo continua sendo 6 × 12 × 1,0 = 72, exatamente como o documento declara. A conta que revela: um paciente com doença só no tronco, extensão 5 (70% a 90% da região) e índice de gravidade 9 (eritema 3, infiltração 3, descamação 3) tem PASI 0,3 × 5 × 9 = 13,5 pela fórmula canônica e 0,2 × 5 × 9 = 9,0 pelo quadro brasileiro. O corte que separa psoríase leve de moderada a grave, no mesmo documento, é 10. Ou seja: o mesmo paciente é moderado a grave pela fórmula que os estudos usam e leve pelo quadro do protocolo — e a diferença decide se ele tem acesso a tratamento sistêmico. O erro subestima em um terço quem tem doença de tronco e superestima em metade quem tem doença de membros superiores. Enquanto não houver correção, calcule com os pesos canônicos e registre no prontuário qual fórmula usou.
As duas faixas de gravidade da psoríase se sobrepõem, e não por descuido de redação. O protocolo define a psoríase leve por 'um dos seguintes critérios' — PASI até 10, ou até 10% da superfície, ou índice de qualidade de vida até 10 — e define a moderada a grave também por 'um dos seguintes critérios', entre os quais índice acima de 10. Basta ler as duas listas juntas para ver que um paciente com PASI 4 e índice de qualidade de vida 14 satisfaz simultaneamente a definição de leve (pelo PASI) e a de moderada a grave (pelo índice). Não é caso raro: é exatamente o perfil da psoríase de mãos, de genitália e de couro cabeludo, que ocupa pouca área e incapacita. A leitura que faz sentido clínico é a de que basta um critério de moderada a grave para o paciente estar nessa faixa, e é assim que este capítulo lê. Mas o texto, como está, comporta as duas leituras, e a diferença entre elas é o acesso ao tratamento sistêmico.
O mesmo protocolo dá dois prazos diferentes para o mesmo remédio. No texto corrido sobre corticoides tópicos, o protocolo da psoríase preconiza uso 'por períodos restritos (de 15-60 dias dependendo do tipo de pele)'. Onze parágrafos adiante, na seção de esquemas de administração, o mesmo documento escreve que clobetasol e dexametasona 'podem ser utilizados 1-3 vezes/dia por períodos inferiores a 30 dias'. Sessenta dias e menos de trinta dias não são a mesma coisa: a diferença é de mais do dobro, e recai sobre a droga cujo risco declarado no próprio parágrafo é atrofia, taquifilaxia e rebote. Este capítulo adota o prazo menor — duas a quatro semanas no corpo, duas semanas na face — porque é o mais conservador dos dois e porque coincide com o que o protocolo de regulação brasileiro escreve.
Três documentos brasileiros, duas classificações incompatíveis para o mesmo corticoide, e a consequência é um degrau que não existe. O protocolo da psoríase (2021) afirma que a dexametasona 'tem potência média' e usa exatamente essa afirmação para justificar a não inclusão do furoato de mometasona: 'a mometasona não foi incluída neste Protocolo porque tem média potência e já há disponível um corticosteroide tópico com o mesmo perfil, a dexametasona'. O protocolo de regulação em dermatologia (2023) classifica dexametasona 0,1% creme como baixa potência e mometasona 0,1% como média. E o protocolo da dermatite atópica (2025) escreve, com todas as letras, que 'a dexametasona e o acetato de hidrocortisona são corticoides de baixa potência, enquanto o furoato de mometasona é classificado como de média potência quando em creme e alta potência quando em pomada'. Ou seja: o próprio Ministério da Saúde, quatro anos depois, contradisse a premissa que sustentou a exclusão de 2021. O efeito prático é somável ao elenco: como o único corticoide de potência média que o país passou a preconizar não consta da Rename 2024, e como nenhum outro da faixa média ou alta consta, essa edição do elenco não descreve todas as alternativas e vias de acesso vigentes em cada serviço. Conferir incorporações posteriores, listas locais e dispensação real; uma lacuna na lista não autoriza usar clobetasol em face nem concluir que não exista alternativa de potência intermediária na rede.
Faixas de extensão do PASI com valores que pertencem a duas classes. O quadro do índice de gravidade define a extensão como 1 (abaixo de 10%), 2 (10%-30%), 3 (30%-50%), 4 (50%-70%), 5 (70%-90%) e 6 (acima de 90%). Os intervalos são fechados nos dois extremos e encostam uns nos outros, de modo que 30%, 50% e 70% exatos pertencem, cada um, a duas classes ao mesmo tempo. O impacto é pequeno em magnitude — um ponto de extensão — mas ele multiplica o índice de gravidade e o peso da região, e num paciente com índice 12 num membro inferior um ponto de extensão vale 0,4 × 1 × 12 = 4,8 pontos de PASI, quase metade do corte que decide a faixa de gravidade.
A conta da quantidade ajuda a reconhecer quando um esquema não cabe nos limites da apresentação escolhida. Exemplo didático em adulto: usando a estimativa de 0,5 g por unidade de ponta de dedo para cerca de duas palmas, 20 palmas tratadas duas vezes ao dia consomem aproximadamente 70 g por semana. Isso ultrapassa o limite de 50 g/semana de algumas apresentações de clobetasol e exige rever o plano, não dispensar automaticamente 70 g. O limite não se aplica indistintamente a todos os corticoides. A indicação de fototerapia ou tratamento sistêmico considera diagnóstico, extensão, áreas especiais, impacto e resposta.
A quantidade semanal de emoliente do adulto não cobre a frequência que o mesmo documento prescreve — e a das crianças cobre. O protocolo da dermatite atópica manda aplicar emoliente 'pelo menos duas vezes ao dia e imediatamente após o banho', 'em toda a extensão corporal', e depois traz um quadro de quantidade média por semana: 100 g para recém-nascidos e bebês, 150 a 200 g para crianças e 250 g para adultos. A conta: o corpo inteiro de um adulto são 100% da superfície, isto é 50 unidades de ponta de dedo, ou 25 g por aplicação; duas aplicações diárias são 50 g por dia, 350 g por semana. Os 250 g do quadro dão para 1,43 aplicações de corpo inteiro por dia, ou seja 71% do que o texto manda fazer — faltam 100 g por semana. As contas pediátricas, pelo contrário, fecham: uma criança de cerca de 6 anos tem em torno de 46% da superfície de um adulto, o que dá 162 g por semana, dentro da faixa de 150 a 200 g declarada; um bebê de cerca de um ano tem em torno de 27%, o que dá 95 g, e o quadro diz 100 g. É a mesma tabela acertando duas linhas e errando a terceira, o que sugere arredondamento para baixo no adulto e não erro de método.
Metotrexato: a idade de 16 anos pertence às duas regras, e as duas dão doses diferentes. O protocolo da dermatite atópica escreve 'Pacientes de 2 a 16 anos: 0,4 mg a 0,6 mg/kg/semana (ou 10 a 15 mg/m²/semana)' e, na linha seguinte, 'Pacientes a partir dos 16 anos: 15 mg a 25 mg/semana'. Um adolescente de exatamente 16 anos está nas duas faixas. Se pesar 50 kg, a regra pediátrica manda 20 a 30 mg por semana e a adulta manda 15 a 25 — o topo da pediátrica ultrapassa o teto adulto em 5 mg. Se pesar 60 kg, a pediátrica manda 24 a 36 mg e o excesso sobre o teto adulto sobe para 11 mg. A 70 kg, 28 a 42 mg, com 17 mg de excesso. Falta na regra pediátrica a cláusula que costuma acompanhar dose por peso — não exceder a dose do adulto —, e a ausência dela não é acadêmica: obesidade na adolescência é comum, e um paciente de 70 kg aos 15 anos receberia, pela letra do protocolo, até 42 mg de metotrexato por semana.
Metotrexato: as duas fórmulas oferecidas na mesma linha divergem em até 41%. A regra pediátrica dá duas alternativas apresentadas como equivalentes, 0,4 a 0,6 mg/kg/semana ou 10 a 15 mg/m²/semana. Num adolescente de 60 kg e cerca de 1,7 m² de superfície corporal, a primeira permite até 36 mg por semana e a segunda até 25,5 mg — 41% de diferença entre dois cálculos que a mesma frase trata como intercambiáveis. Em crianças pequenas as duas convergem: a 30 kg e cerca de 1,0 m², 12 a 18 mg contra 10 a 15 mg. A divergência aparece justamente onde a criança se aproxima do tamanho adulto, que é onde o erro custa mais.
Ácido fólico: três doses na mesma frase, com razão de até 75 vezes entre elas. O protocolo da dermatite atópica escreve que uma revisão sistemática identificou recomendações de 5 mg por semana no dia seguinte ao metotrexato ou 5 mg por dia exceto no dia do metotrexato, para adultos, e de 400 microgramas por semana para crianças. Cinco miligramas por dia em seis dias somam 30 mg por semana: seis vezes a outra alternativa 'equivalente' oferecida na mesma linha. E os 400 microgramas semanais da criança são 0,4 mg — 12,5 vezes menos que o piso adulto de 5 mg e 75 vezes menos que o teto de 30 mg —, num paciente cuja dose de metotrexato por quilo é frequentemente maior que a do adulto. Na Rename, 400 microgramas correspondem a 2 mL da solução oral de 0,2 mg/mL. O próprio documento reconhece o problema ao registrar que 'a maior parte das diretrizes não recomendem uma dose para suplementação'. Escolha um esquema, escreva qual escolheu e não misture os dois.
Acitretina: o teto em miligramas e a faixa por peso não fecham abaixo de 75 kg. O protocolo da psoríase preconiza dose inicial de 25 mg por dia com aumento gradual até o máximo de 75 mg por dia, e declara entre parênteses a faixa de 0,5 a 1 mg/kg/dia. As duas coisas só são compatíveis num paciente de 75 kg ou mais. Num adulto de 60 kg, 1 mg/kg são 60 mg e o teto declarado de 75 mg já está 25% acima da faixa por peso; num de 50 kg, 50% acima. Como o próprio documento diz que a acitretina é o único sistêmico da psoríase cujo ajuste se faz pela tolerância clínica e não pela eficácia, o efeito prático é subir a dose até o paciente reclamar, sem que a faixa por peso funcione como freio.
Duas conferências pequenas que falharam, e que valem por serem verificáveis em segundos. A primeira: no quadro de escalas de gravidade da dermatite atópica, a escala numérica de prurido é descrita como 'Escala de 1-10' e, na mesma célula, ancorada em '0 = sem prurido' e classificada em leve (0-3), moderada (4-6) e grave (7-10) — a mesma linha declara que a escala começa em 1 e depois a usa começando em 0. A segunda: no quadro dos critérios condensados de diagnóstico, a lista de cinco itens está numerada 1, 2, 2, 4, 5 — há dois itens com o número 2 e não há item 3, num quadro cujo uso consiste precisamente em contar quantos critérios o paciente preenche.
Conferências que fecharam, e é importante que fechem. A soma dos pesos regionais do PASI é 1,0 e o máximo declarado de 72 confere exatamente com 6 × 12 × 1,0, o que confirma que o problema do quadro é permutação de pesos e não erro de escala. O máximo do índice de área e gravidade do eczema também é 72, e as faixas publicadas (0; 0,1 a 1,0; 1,1 a 7; 7,1 a 21; 21,1 a 50; 50,1 a 72) são contíguas a uma casa decimal, sem valor pertencendo a duas classes e sem lacuna. O escore de eczema respondido pelo paciente tem 7 itens de 0 a 4, máximo 28, e as faixas publicadas (0-2, 3-7, 8-16, 17-24, 25-28) cobrem exatamente esse intervalo em números inteiros. As faixas do índice que soma extensão, gravidade e sintomas subjetivos (0 a 9,9; 10 a 28,9; 29 a 48,9; 49 a 103) também são contíguas a uma casa decimal. E as doses mensais de dupilumabe crescem monotonicamente com o peso na faixa de 6 a menos de 12 anos: 300 mg por mês entre 15 e menos de 30 kg, 400 mg por mês entre 30 e menos de 60 kg, 600 mg por mês acima de 60 kg.
O adulto grave com dermatite atópica não tem próximo degrau, e o motivo declarado não é clínico. Os quadros 8 e 9 do protocolo de 2025 listam, para adultos, apenas dexametasona, hidrocortisona, furoato de mometasona, tacrolimo, ciclosporina e metotrexato — inclusive na linha de doença moderada a grave. Não existe linha de 'adulto grave com falha a ciclosporina e metotrexato', porque não há o que colocar nela. O texto do documento explica: 'Após avaliação da Conitec, os medicamentos dupilumabe e upadacitinibe não foram incorporados ao SUS para tratamento de adultos ou idosos com DA (Portaria SECTICS/MS nº 53/2025)', e, sobre o upadacitinibe, 'Embora seu uso também seja indicado para adultos, a Conitec recomendou sua não incorporação ao SUS para esta população devido ao alto impacto orçamentário'. Um adulto de 30 anos com dermatite atópica grave refratária a ciclosporina e metotrexato, portanto, chegou ao fim do que o SUS lhe oferece — enquanto o mesmo paciente aos 17 anos e 40 kg teria upadacitinibe. Este capítulo não julga a decisão orçamentária; registra que ela existe, está escrita, e que o interno precisa saber disso antes de prometer ao paciente um degrau que não virá.
O protocolo já prescreve uma apresentação que a Rename ainda não lista. O anexo reeditado em 2025 do protocolo da psoríase relaciona 'Risanquizumabe: solução injetável de 75 mg/0,83 mL e de 150 mg/mL', e o próprio texto explica que a inclusão do risanquizumabe 150 mg/mL na Rename foi deliberada pela subcomissão técnica e informada à 139.ª Reunião Ordinária da Conitec em abril de 2025. A Rename 2024, que é a edição vigente, traz apenas a apresentação de 75 mg/0,83 mL. Não há contradição de mérito — há defasagem de calendário entre dois documentos do mesmo Ministério, e é o tipo de defasagem que produz glosa de dispensação. Vale a mesma observação para o furoato de mometasona e o tacrolimo tópico, preconizados pelo protocolo da dermatite atópica de novembro de 2025 e ausentes da Rename 2024.
Uma advertência de datação que muda como se cita este capítulo. O protocolo da psoríase continua sendo aprovado pela Portaria Conjunta n.º 18, de 14 de outubro de 2021, e nenhuma portaria nova foi publicada. Mas o anexo foi reeditado duas vezes em 2025 — para incluir a apresentação nova de risanquizumabe e para trocar todo o item de rastreio de tuberculose, harmonizando-o com os demais protocolos de imunobiológicos — e a página oficial carimba o anexo como alterado em 18 de junho de 2025. Quem cita o protocolo pela data da portaria está datando um texto de 2025 como se fosse de 2021, e quem guardou um PDF baixado em 2023 está lendo, hoje, uma versão superada sem nenhum aviso no próprio arquivo. Baixe de novo antes de usar as regras de rastreio.
A conduta, hora a hora
A conduta destas duas doenças cabe numa receita e numa conversa, e é a conversa que decide se a receita funciona. O que segue está organizado como uma trajetória — da consulta em que a doença é reconhecida até o ponto em que o paciente sai do seu alcance — porque é assim que a doença crônica se manifesta na atenção primária: não como um episódio, mas como uma sequência de consultas que alguém precisa costurar.
Duas decisões atravessam todos os marcos. A primeira é que a potência do corticoide se escolhe pela região do corpo, nunca pela intensidade da queixa; a segunda é que a quantidade se escreve na receita, em gramas ou em bisnagas, porque o paciente não tem como adivinhar e porque a quantidade errada produz exatamente o padrão de quatro tubos em dois anos.
As prescrições abaixo usam apresentações que constam da Rename 2024 sempre que existem. Quando o item preconizado pelo protocolo não está no elenco — e isso acontece com o hidratante, com o furoato de mometasona e com o tacrolimo tópico —, a linha diz isso, porque uma receita que o paciente não consegue aviar é um tratamento que não aconteceu.
Eczema herpético muda a urgência. Erosões monomórficas dolorosas, vesículas e febre sobre eczema exigem avaliação no mesmo dia e antiviral sistêmico precoce pela equipe, com via conforme gravidade. Não esperar PCR para tratar um quadro fortemente suspeito. Investigar olhos e acionar oftalmologia se houver envolvimento periocular ou ocular. Apenas suspender o creme e encaminhar sem cuidado inicial é insuficiente. Não intensificar imunossupressão por conta própria; anti-inflamatório tópico será revisto com a equipe junto do tratamento antiviral. Psoríase com eritrodermia, pústulas disseminadas ou repercussão sistêmica também exige avaliação urgente.
Na consulta em que a doença é reconhecida — antes de escrever qualquer coisa
Nomeie a doença em voz alta e diga três frases. Primeira: o nome — psoríase, dermatite atópica. Segunda: que não pega, que ninguém se contamina, e que o senhor pode dizer isso a quem perguntar. Terceira, e é a que muda o resto: que é uma doença crônica, que não tem cura definitiva e que o objetivo do tratamento é manter controlada, o que significa que o tratamento continua depois que as lesões sumirem. Registre no prontuário que você disse essas três coisas, com a data. O paciente que recebe essa informação na primeira consulta é um paciente diferente do que recebe na quinta — e o motivo pelo qual tanta gente recebe na quinta é que cada médico presume que outro já disse. Nesta mesma consulta, meça e anote: número de palmas acometidas, índice de qualidade de vida, há quantos anos a doença existe, e o que o paciente deixou de fazer por causa dela.
Prescrição- Registrar no prontuário: doença, tempo de evolução em anos, áreas acometidas nominalmente, área estimada em palmas e em percentual, índice de qualidade de vida, tratamentos anteriores com dose e duração, e o que aconteceu quando cada um terminou.
- Fotografar as áreas acometidas, com autorização, na mesma iluminação e distância, e anexar ao prontuário com data.
Psoríase — prescrição tópica do corpo, do couro cabeludo e das áreas de pele fina
Na psoríase, selecione potência, veículo e duração por espessura da placa, região, extensão e idade. Corticoide muito potente pode ser útil em placas espessas de áreas selecionadas; não é escolha automática para todo o corpo. Evite clobetasol em face, dobras e genitália. Prefira menor potência por período curto nessas áreas, ou alternativa poupadora conforme avaliação. Calcipotriol pode compor o plano em áreas apropriadas. Escreva quantidade, local, duração inicial e retorno, respeitando a bula específica e limites por produto.
Prescrição- Clobetasol 0,05% apenas em placas e áreas selecionadas, pelo menor período eficaz e dentro da bula do produto; reavaliar em aproximadamente duas semanas antes de prolongar uso contínuo.
- Para couro cabeludo, escolher veículo apropriado e período curto; não prolongar corticoide muito potente automaticamente por quatro semanas.
- Dexametasona 0,1% creme — aplicar fina camada na face, nas dobras e na região genital, 1 a 2 vezes ao dia, por até 2 semanas.
- Calcipotriol 0,005% pomada — aplicar nas placas do corpo, 2 vezes ao dia; evitar a face. Não ultrapassar 100 g por semana.
- Ácido salicílico 5% pomada — aplicar 1 vez ao dia nas placas hiperceratóticas; no couro cabeludo, 2 horas antes do banho.
- Creme hidratante nas placas, 1 vez ao dia, todos os dias, inclusive nos dias sem corticoide.
Dermatite atópica — a hidratação é o tratamento, o corticoide é o socorro
Inverta a ordem com que a maioria das receitas é escrita. O emoliente vem primeiro, é contínuo, é para o corpo todo — inclusive onde não há lesão — e é o que muda a história da doença; o corticoide entra nos surtos e sai. Aplique o emoliente pelo menos duas vezes ao dia e imediatamente depois do banho, sobre a pele ainda úmida, espalhando e não esfregando. O banho é curto, de cinco a dez minutos, com água morna entre 27 e 30 graus, sabonete de pH levemente ácido, em pouca quantidade, sem esponja e sem sabonete antisséptico. Nos surtos, corticoide tópico na área de eczema, escolhido pela região: baixa potência na face, no pescoço, nas dobras e na criança pequena. E oriente o corte das unhas e a proteção do sono, porque coçar de madrugada é o que mantém o ciclo funcionando.
Prescrição- Emoliente sem fragrância — aplicar em todo o corpo, no mínimo 2 vezes ao dia e sempre logo após o banho, com a pele ainda úmida. Adulto: prever cerca de 250 g por semana (o protocolo brasileiro) a 350 g (o que a frequência prescrita de fato exige). Criança: 150 a 200 g por semana. Lactente: 100 g por semana.
- Alternativa manipulável, registrada no protocolo de regulação: óleo de semente de girassol 10% + glicerina 2% em creme sem fragrância, 250 g.
- Hidrocortisona 1% pode ser opção de baixa potência para eczema em áreas selecionadas, com frequência usual de uma a duas vezes ao dia por período curto; idade, local e gravidade definem o esquema e o retorno. Área de fralda aumenta oclusão e requer cuidado especial.
- Não substituir corticoides apenas por estarem na mesma classe: conferir molécula, potência, veículo, sítio e faixa etária. Evitar curso prolongado sem reavaliação.
- Banho: 5 a 10 minutos, água morna, sabonete de pH fisiológico, pouca quantidade, sem esponja e sem sabonete antisséptico. Emoliente imediatamente após secar.
- Anti-histamínico sedativo para o prurido noturno, quando o sono estiver comprometido: maleato de dexclorfeniramina 2 mg à noite, no adulto (consta da Rename, componente básico).
Ao escrever a receita — a quantidade é parte da dose
Faça a conta antes de assinar. Conte as palmas do paciente que a doença ocupa; divida por dois e você tem o número de unidades de ponta de dedo por aplicação; multiplique por meio grama e você tem os gramas por aplicação; multiplique pela frequência e por sete e você tem os gramas por semana. Divida pelo tamanho da bisnaga e escreva quantas bisnagas prescrever. Um paciente com seis palmas de placas, duas vezes ao dia, consome 21 g por semana — uma bisnaga de 30 g dura dez dias, não dois meses. Se a receita não trouxer quantidade, o paciente vai comprar a menor bisnaga da prateleira e vai racioná-la, e aí você vai concluir, erradamente, que o corticoide falhou. Conferir limites específicos: algumas apresentações de clobetasol admitem até 50 g por semana no adulto, e calcipotriol tem limites próprios; isso não cria um teto comum a todos os corticoides ou faixas etárias. Se a quantidade necessária exceder o limite da apresentação escolhida, rever potência, áreas tratadas, frequência e estratégia. Extensão, gravidade, impacto funcional, adesão e carga de tratamento orientam a discussão de fototerapia ou terapia sistêmica; 50 g por semana não é um limiar universal.
Prescrição- Escrever na receita, sempre: fármaco, concentração, forma, região do corpo, frequência, duração em semanas, quantidade em gramas ou em número de bisnagas, e o que fazer quando o período terminar.
- Limites de quantidade são específicos de produto, idade e região. O teto de 50 g/semana de algumas apresentações de clobetasol não é regra universal para todo corticoide tópico.
- Se a quantidade calculada exceder o limite específico do produto, rever o plano com a equipe antes de aumentar a prescrição. Avaliar tratamento sistêmico ou fototerapia pela gravidade, extensão, impacto e resposta, não por um teto universal de 50 g.
Ao fim do período de ataque — o marco que este capítulo existe para ensinar
Após controlar a crise, programar manutenção conforme doença, região e frequência de recidiva. Em dermatite atópica recorrente, terapia anti-inflamatória intermitente nas áreas habituais pode prevenir recaídas, junto de emoliente contínuo. Isso não significa manter automaticamente o mesmo corticoide muito potente ou o mesmo calendário em qualquer região. Considerar poupadores, tolerabilidade, idade e revisão periódica. Na psoríase, o plano pode usar tratamento intermitente ou combinação apropriada, com metas clínicas e limites explícitos.
Prescrição- Após controle, individualizar manutenção intermitente nas áreas de recidiva, com emoliente e anti-inflamatório adequado à região e à idade; considerar opção poupadora. Não perpetuar automaticamente o mesmo corticoide muito potente nem usar o calendário como substituto da reavaliação.
- Hidratante ou emoliente mantido todos os dias, sem interrupção, inclusive na manutenção — é ele que reduz recidiva e xerose depois do curso de corticoide.
- Instrução escrita ao paciente: se a lesão voltar, retomar a aplicação diária por 7 dias e depois voltar às duas vezes por semana; procurar atendimento se não melhorar em 7 dias ou se aparecerem pus, dor ou febre.
No surto — e antes de aumentar a potência, pergunte se é surto mesmo
Nem toda piora é a doença piorando. Antes de subir a potência do corticoide, descarte três coisas. Infecção bacteriana secundária: crostas cor de mel, exsudação, pústulas, dor onde havia coceira, piora rápida — isso pede antibiótico, e o manejo está no capítulo de impetigo e erisipela desta apostila. Eczema herpético: erosões arredondadas, monomórficas, todas do mesmo tamanho, sobre as áreas de eczema, com febre e prostração — isso pede suspensão do corticoide e conduta de urgência. E dermatite de contato ao próprio tratamento: piora que respeita exatamente o território onde o produto foi passado. Só depois de excluir as três é que faz sentido intensificar. Quando o surto é genuíno, o ajuste é de frequência e de duração, não de potência: volte à aplicação diária por uma a duas semanas e retome a manutenção. E confira sempre a adesão antes de declarar falha terapêutica — o protocolo de regulação brasileiro coloca isso como item explícito de conduta, e é o item mais frequentemente pulado.
Prescrição- Antes de intensificar: examinar procurando crosta melicérica, pústula, exsudação, erosões monomórficas e febre. Perguntar quais produtos foram aplicados na área.
- Piora com pus, dor e crostas — tratar como infecção bacteriana secundária e rever o corticoide.
- Erosões monomórficas dolorosas com febre: suspeitar de eczema herpético, acionar avaliação urgente e antiviral sistêmico com a equipe, verificando envolvimento ocular. Não se limitar a suspender o corticoide.
- Surto genuíno — retomar aplicação diária do mesmo corticoide por 1 a 2 semanas e depois voltar à manutenção. Não subir a potência na face, nas dobras nem na genitália.
Quando o tópico não basta — critério para subir, e o que fazer antes de encaminhar
Encaminhe quando gravidade, área especial, impacto funcional, suspeita de artrite ou resposta inadequada indicarem escalonamento. Confirme diagnóstico, execução e acesso antes de declarar refratariedade. Informe tratamentos com dose, quantidade e tempo. Investigação pré-sistêmico depende da terapia cogitada e do risco individual: não exigir painel idêntico nem atrasar referência para obter todos os exames. Rastreio e tratamento de tuberculose latente seguem indicação específica e exclusão de doença ativa, com avaliação da equipe.
Prescrição- Documentar extensão, impacto na vida, áreas especiais, unhas e sintomas articulares.
- Definir com a referência exames prévios à terapia sistêmica escolhida, incluindo infecções e função orgânica conforme o fármaco.
- Não iniciar tratamento de tuberculose latente com um ponto de corte isolado aplicado a todos; considerar risco, imunossupressor planejado e exclusão de doença ativa.
- Encaminhar com tratamentos já tentados e barreiras de execução, sem atrasar por exames que podem ser pactuados depois.
Quando o que o protocolo manda usar não está na farmácia — a conversa que ninguém tem
Esta é a parte da conduta que os documentos não escrevem e o paciente vive. O emoliente, que é o eixo do tratamento da dermatite atópica, não está na Rename — o único produto tópico dessa finalidade no elenco é o gel e o creme de babosa, e é o próprio protocolo da dermatite atópica que registra isso. O furoato de mometasona e o tacrolimo tópico, incorporados pelo protocolo de novembro de 2025, não constam da Rename 2024. E o clobetasol, embora conste, está no componente especializado, o que exige conferir o fluxo do protocolo e os documentos necessários; o ponto de entrega depende da organização local. Diga isso ao paciente na consulta, com números. Um adulto precisa de cerca de 250 g de hidratante por semana, o que é um pote grande por semana, e essa é uma despesa mensal que ele precisa poder planejar. Se ele não puder, ofereça o que é possível: a fórmula manipulada de 250 g registrada no protocolo de regulação costuma custar uma fração do produto de prateleira, e vale perguntar à farmácia municipal se há manipulação pactuada. E verifique, na sua região, por qual porta o clobetasol e o calcipotriol saem — porque saber isso é a diferença entre uma receita e um tratamento.
Prescrição- Dizer ao paciente, com números, o que ele vai precisar comprar e quanto por mês, e perguntar se é viável — antes de assinar a receita.
- Oferecer alternativa manipulada de emoliente quando o custo for barreira, e conferir se a farmácia municipal manipula.
- Verificar o fluxo local do componente especializado para clobetasol e calcipotriol e informar o paciente sobre a documentação necessária.
- Registrar no prontuário se o tratamento foi ajustado por indisponibilidade — é essa a informação que faltará ao próximo médico se ele concluir que houve falha terapêutica.
Como saber se está funcionando
Reavaliar doença crônica é comparar números, não impressões. Se na primeira consulta você anotou palmas, índice de qualidade de vida e a data, a segunda consulta responde sozinha. Se não anotou, a segunda consulta vira a primeira de novo — e é assim que quatro atendimentos viram quatro episódios em vez de um tratamento.
Os prazos abaixo saem dos documentos brasileiros quando eles os fixam, e estão marcados como convenção deste capítulo quando não fixam. A diferença importa: os prazos de refratariedade do protocolo de regulação são os que definem, na prática, quem entra na fila do especialista.
Esperado: Redução progressiva. Após 2 a 4 semanas de corticoide diário bem prescrito e em quantidade suficiente, espera-se achatamento das placas e redução clara da área na psoríase, e resolução do surto na dermatite atópica.
Se não melhora: Antes de trocar o fármaco, confira as três coisas que falham mais: a quantidade prescrita dava para a área? o paciente usou pelo tempo prescrito ou parou quando melhorou? a potência estava certa para aquela região? Só depois disso é razoável considerar refratariedade. Se a área nunca cai abaixo de 10%, o caminho não é subir a potência tópica — é avaliar tratamento sistêmico.
Esperado: Queda de pelo menos 5 pontos no escore total, que é o que se aceita como significância clínica de uma intervenção. Escore final igual ou menor que 5 é a meta que o protocolo da psoríase usa como remissão parcial junto com a resposta cutânea.
Se não melhora: Escore que permanece acima de 10 é, por si só, critério de doença moderada a grave na psoríase e critério de encaminhamento nas duas doenças, mesmo que a área tenha melhorado. Não trate a discordância entre pele boa e índice ruim como erro do paciente: normalmente ela aponta lesão em área especial — mãos, face, genitália — ou prurido e insônia não controlados.
Esperado: Redução do prurido e noites inteiras sem despertar. Nas escalas de dermatite atópica adotadas pelo Brasil, a meta em 3 meses é queda de pelo menos 3 pontos no pico de prurido medido de 0 a 10.
Se não melhora: Prurido noturno persistente mantém o ciclo de coçar e romper a barreira funcionando, e por isso é alvo e não sintoma. Reveja a quantidade de emoliente, corte as unhas, considere anti-histamínico sedativo à noite e procure infecção secundária. Insônia mantida em doença de pele é também critério para perguntar sobre humor: o protocolo brasileiro lista depressão e ideação suicida entre as consequências esperadas.
Esperado: Consumo compatível com a área e a frequência prescritas. Seis palmas, duas vezes ao dia, consomem cerca de 21 g por semana; um adulto usando emoliente no corpo todo consome entre 250 e 350 g por semana.
Se não melhora: Bisnaga que dura muito mais que o previsto significa subtratamento, e é a causa mais comum de falha aparente. Bisnaga que acaba muito mais rápido significa área maior que a estimada, uso fora das áreas prescritas, ou uso por outra pessoa da casa. As duas informações mudam a conduta e nenhuma delas aparece se você não pedir a embalagem.
Esperado: Ausência de atrofia, de telangiectasias e de estrias. Pele tratada com a potência certa para a região não afina.
Se não melhora: Pele fina, brilhante, com vasos visíveis ou estrias na face, no pescoço, nas axilas, nas virilhas ou nas fossas cubital e poplítea significa potência excessiva para aquela região ou uso prolongado. Reduza a potência, reduza a frequência e considere o inibidor de calcineurina tópico se disponível, que não causa atrofia e é justamente por isso a opção de área sensível. Perda de efeito de um corticoide que antes funcionava, sem piora da doença, sugere taquifilaxia, e a resposta correta é intervalar o uso, não escalar a potência.
Esperado: Redução da frequência de surtos com o tratamento de manutenção instalado.
Se não melhora: Três ou mais recidivas em seis meses apesar de tratamento otimizado é critério explícito de encaminhamento na dermatite atópica no protocolo brasileiro de regulação. Quatro ou mais exacerbações por ano é o número que o protocolo federal usa para indicar manutenção com inibidor de calcineurina tópico duas vezes por semana. Contar recidivas exige que elas estejam anotadas — é a razão prática pela qual o registro é conduta e não burocracia.
Esperado: Na psoríase, o protocolo trata os sistêmicos e a fototerapia como mantidos até melhora completa ou parcial, definindo parcial como redução de 75% a 90% do escore de área e gravidade ou índice de qualidade de vida igual ou menor que 5. Na dermatite atópica, as metas adotadas são redução de metade do escore de área e gravidade em 3 meses e de três quartos em 6 meses.
Se não melhora: Meta não atingida no prazo é falha documentada, e é o que autoriza a troca. Ao trocar de sistêmico, o protocolo da dermatite atópica recomenda manter o tópico até o novo fármaco fazer efeito e prevê um a dois meses de sobreposição, com redução do antigo enquanto o novo sobe. Registre a meta no prontuário no dia em que iniciar o tratamento: sem meta escrita, falha vira opinião.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que produz o paciente da cena de abertura: quatro bisnagas de vinte gramas em dois anos para uma doença que, na área dele, consome vinte e um gramas por semana. Sem quantidade escrita, o paciente compra a menor embalagem, raciona, aplica menos do que precisa e por menos tempo do que foi prescrito. O tratamento então falha por subdose, e a conclusão que se tira — erradamente — é que o corticoide não funciona para ele, o que leva à escalada de potência ou ao encaminhamento de um paciente que nunca foi tratado. O dano é duplo: o paciente não melhora e ocupa uma vaga de especialista que pertencia a outro.
Como pegar a tempo: Faça a conta antes de assinar e escreva o resultado. Conte as palmas do paciente; metade desse número são as unidades de ponta de dedo por aplicação; cada unidade é meio grama; multiplique pela frequência e por sete para achar os gramas semanais; divida pelo tamanho da bisnaga. Escreva na receita a quantidade em gramas e o número de bisnagas para o período. Se a conta ultrapassar cinquenta gramas por semana de corticoide, não aumente a receita — isso é sinal de que a doença é extensa demais para tratamento exclusivamente tópico.
O dano: É a lógica intuitiva e é errada nos dois sentidos. Num sentido, produz clobetasol na face, na virilha e na genitália de quem coçava muito — e ali a pele é fina de origem, de modo que atrofia, telangiectasias e estrias aparecem em semanas e podem não regredir. No outro sentido, produz hidrocortisona em placa espessa de cotovelo, que não responde, o que faz o paciente concluir que nada funciona e abandonar o tratamento. O protocolo da psoríase nomeia as áreas a poupar uma a uma: face e superfícies flexoras, incluindo pescoço, região inguinal, axilas, região inframamária, fossa cubital e fossa poplítea.
Como pegar a tempo: Defina primeiro diagnóstico, idade, sítio e extensão. Em pele fina, use baixa potência por tempo curto ou alternativa poupadora apropriada. No corpo, a potência depende da espessura da placa e da doença; clobetasol não é padrão para toda área corporal nem para crianças. Escolha veículo adequado ao local, explique quantidade e prazo e reavalie resposta e efeitos adversos antes de intensificar.
O dano: É a instrução que transforma a farmacologia do corticoide num ciclo. O paciente aplica no surto, interrompe de uma vez quando a pele fica lisa, colhe o rebote da retirada, conclui que a doença voltou e recomeça — e cada volta o convence mais de que só melhora com o creme e piora sempre que tenta parar. A exposição total ao corticoide, somada ao longo do ano, acaba sendo maior que a de um esquema de manutenção bem feito, com mais efeito adverso e menos controle. E a doença nunca é tratada como o que é, porque cada surto é tratado como um evento novo.
Como pegar a tempo: Após controle, individualizar manutenção intermitente nas áreas de recidiva, com emoliente e anti-inflamatório adequado à região e à idade; considerar opção poupadora. Não perpetuar automaticamente o mesmo corticoide muito potente nem usar o calendário como substituto da reavaliação.
O dano: A psoríase invertida não tem escama, porque o atrito e a umidade a removem, e por isso ela se parece com micose de dobra. Meses de antifúngico sem resposta produzem três danos em sequência: a doença segue sem tratamento, o paciente conclui que ninguém sabe o que ele tem, e quase sempre alguém acaba acrescentando um corticoide de potência alta à combinação — o que melhora rápido, apaga qualquer sinal residual e cria uma confusão diagnóstica que dura anos. A recíproca também acontece e é pior: dermatofitose tratada como psoríase invertida com clobetasol perde a borda ativa, atrofia e se espalha.
Como pegar a tempo: Use os três discriminadores. Borda: a psoríase invertida tem contorno abrupto; a candidíase de dobra tem pápulas e pústulas satélites destacadas da lesão principal. Resto da pele: procure cotovelo, joelho, região sacra, couro cabeludo e unhas antes de decidir, porque uma placa clássica em qualquer outro lugar resolve a dúvida. Resposta: dobra que não responde a antifúngico em quatro semanas exige revisão do diagnóstico, não troca de antifúngico. Se a hipótese de fungo permanecer viva, o manejo está no capítulo de micoses superficiais desta apostila.
O dano: A pele atópica infecta com facilidade, e a piora infecciosa se parece com surto para quem não procura os sinais. Intensificar o corticoide numa impetiginização retarda o antibiótico e piora o quadro. Num eczema herpético, o dano é maior: a erupção de erosões monomórficas sobre eczema, com febre e prostração, é a condição que o protocolo brasileiro de regulação manda encaminhar como urgência, e ela dissemina rápido. Há ainda a versão mais silenciosa do mesmo erro: aumentar corticoide sobre uma dermatofitose não reconhecida, que responde em três dias no prurido e piora em quatro semanas na extensão.
Como pegar a tempo: Antes de subir qualquer coisa, procure quatro achados: crosta cor de mel, exsudação e pústula (bacteriana); erosões arredondadas, todas do mesmo tamanho, com febre (herpético); borda ativa com centro claro (fungo); e piora que respeita exatamente o território onde um produto novo foi aplicado (contato). Cada um deles muda a conduta e nenhum deles exige exame. Se houver dúvida entre surto e infecção, trate a infecção primeiro e reavalie o eczema depois.
O dano: São os dois lados do mesmo erro de regulação, e os dois custam ao mesmo paciente. Encaminhar placa de cotovelo em doença leve, sem tratamento tópico bem feito, enche uma fila que deveria absorver a minoria grave; o protocolo nacional diz que a maioria dos pacientes com psoríase tem menos de 5% da superfície acometida, o que faz da doença, na maior parte das vezes, uma condição de atenção primária. Do outro lado, não encaminhar quem tem doença extensa, prejuízo funcional grave, unha em duas ou mais, ou doença palmo-plantar incapacitante é negar tratamento que existe e a que o paciente tem direito por critério escrito. E encaminhar sem informação faz o especialista repetir do zero o que já foi feito.
Como pegar a tempo: Use os critérios como lista de verificação: área acima de 10%, índice de qualidade de vida acima de 10, duas ou mais unhas comprometidas, área especial ou palmo-plantar refratária a três meses de tópico, formas pustulosa generalizada e eritrodérmica, e — na dermatite atópica — refratariedade a um mês de tratamento otimizado ou três ou mais recidivas em seis meses. E monte o encaminhamento com o conteúdo mínimo que o protocolo de regulação exige: lesões e localização, tempo de evolução, área estimada, índice de qualidade de vida, fotografias de todas as áreas e todos os tratamentos com posologia e tempo de uso. Acrescente radiografia de tórax e prova tuberculínica se o próximo passo for sistêmico.
O que dizer ao paciente e à família
As falas abaixo resolvem os sete momentos em que esta consulta descarrila, e todas partem do mesmo lugar: o paciente que passa creme quando piora e para quando melhora está cumprindo à risca a instrução que recebeu. A conversa que muda o tratamento não é a que corrige o comportamento dele — é a que corrige a instrução.

Três dessas falas cabem na primeira consulta e não podem esperar pela segunda: o nome da doença, a frase de que ela não é contagiosa e o aviso de que o tratamento continua depois que a pele ficar boa. As outras quatro aparecem quando aparecerem, mas as três primeiras têm hora marcada, porque cada médico que adia presume que outro já disse.
Nomear a doença e dizer que ela é crônica — na primeira consulta, não na quinta
“"O que o senhor tem tem nome: chama psoríase. É uma doença da pele, é comum, e é para a vida toda — ela vai e volta. O tratamento não serve para acabar com ela, serve para deixar ela quieta. Isso quer dizer uma coisa importante: o creme continua depois que a pele ficar boa. Se parar quando melhorar, ela volta, e não é porque o senhor fez algo errado."”
Não diga: Escrever 'dermatite' no prontuário e passar o creme. O rótulo genérico é o que faz o médico seguinte recomeçar do zero, e é o que autoriza o próprio paciente a tratar cada surto como um evento novo — que foi como quatro atendimentos viraram quatro episódios em vez de um tratamento.
Responder à pergunta que ele não fez em voz alta — se pega
“"Isso não pega. Ninguém se contamina encostando no senhor, dividindo copo, apertando a mão, entrando na mesma piscina. Não tem micróbio nenhum aí: é o jeito como a sua pele se renova, que está acelerado. Se ajudar, eu escrevo isso num papel com o meu carimbo, para o senhor mostrar no trabalho."”
Não diga: Esperar que ele pergunte. Quem já ouviu a pergunta de um colega no vestiário não a repete ao médico — supõe que a resposta seja sim e passa a se vestir de manga comprida no calor. Ofereça a frase antes de ela ser pedida, e ofereça também por escrito.
Explicar por que se passa remédio numa pele que está boa
“"Quando a pele ficar lisa, a inflamação continua embaixo, sem aparecer. Por isso o creme não para de uma vez. Depois dessas quatro semanas todo dia, ele passa a ser só no sábado e no domingo, nos mesmos lugares de sempre, mesmo com a pele boa. São dois dias por semana que seguram a doença abaixo do nível em que ela faz placa."”
Não diga: Dizer 'passe quando piorar'. Essa frase transforma a farmacologia do corticoide num ciclo: aplicar no surto, interromper de uma vez, colher o rebote da retirada e concluir que a doença voltou. No fim do ano a exposição total ao corticoide é maior do que a de um esquema de manutenção bem feito, com mais efeito adverso e menos controle.
Dizer quanto creme é uma aplicação — e por que a receita traz gramas
“"A medida é essa aqui: o tanto de creme que sai do tubo e cobre a última parte do dedo indicador, da ponta até a primeira dobra. Cada uma dessas medidas dá para duas mãos abertas de pele. Pelo tamanho das suas placas, o senhor vai gastar um tubo de trinta gramas a cada dez dias. Se o tubo estiver durando dois meses, não é o remédio que falhou — é que não está sendo passado o suficiente."”
Não diga: Escrever 'aplicar fina camada' e parar aí. Fina camada não é medida: é o que produz a bisnaga de vinte gramas racionada por dois meses, o tratamento que nunca aconteceu e o diagnóstico errado de falha terapêutica.
Quando o paciente pede o creme forte para a área que mais incomoda
“"O creme forte é para o corpo, e ele é forte demais para a pele da cara e da virilha, que é bem mais fina. Ali ele afina a pele de vez, deixa vasinho e estria, e isso pode não voltar atrás. Nessas partes vai o creme mais fraco, mas do jeito certo e pelo tempo certo. O que resolve não é a força do creme, é a quantidade certa até o fim do prazo."”
Não diga: Ceder porque é mais rápido, ou negar sem oferecer a troca. Quem ouve só 'não pode' aplica em casa, na face, o tubo que foi prescrito para o corpo — porque a queixa que motivou o pedido continua de pé e ninguém a resolveu.
Combinar o hidratante antes de assinar a receita, porque ele sai do bolso
“"O hidratante aqui não é um extra, é o tratamento principal. E ele não sai na farmácia da unidade: a senhora vai precisar comprar. Para o corpo todo dela são cerca de duzentos gramas por semana, um pote grande por mês e meio. Antes de eu escrever, me diga quanto dá para gastar por mês — tem fórmula manipulada que custa uma fração do produto de prateleira e faz o mesmo serviço."”
Não diga: Prescrever sem perguntar o preço. Receita que a família não consegue comprar volta como falta de adesão no prontuário, e o médico seguinte sobe o tratamento de alguém que nunca fez o primeiro degrau.
Dizer a verdade a quem chegou ao fim do que o sistema oferece
“"Vou ser direto com a senhora. Existem remédios novos para o eczema grave e eles funcionam. No SUS, hoje, eles estão liberados para criança e para adolescente, e não para adulto — não é a senhora que não tem indicação, é que a compra para adultos não foi aprovada. O que temos ainda é bastante e vamos usar tudo. E eu vou deixar escrito, com data, que a senhora usou os dois remédios de comprimido e que nenhum funcionou, porque é esse registro que vale se a regra mudar ou se a senhora buscar outro caminho."”
Não diga: Prometer o degrau que não existe, ou omitir que ele existe para outra faixa de idade. As duas coisas custam a confiança do paciente na consulta seguinte, que é justamente quando ele descobre sozinho.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Fazer a manutenção proativa com o que a farmácia da unidade tem
O desenho proativo está escrito no país duas vezes. O protocolo federal da psoríase, cuja portaria é de outubro de 2021 e cujo anexo foi reeditado em 2025, prescreve o corticoide tópico duas vezes por semana na fase de manutenção. O protocolo federal da dermatite atópica, de novembro de 2025, descreve o mesmo desenho para o inibidor de calcineurina tópico e nomeia o candidato com um número: quatro ou mais exacerbações por ano. Como o tacrolimo tópico não consta da Rename 2024, o único fármaco com que esse desenho pode ser executado na atenção básica é o corticoide de baixa potência do componente básico. E a aritmética da exposição favorece a manutenção: duas aplicações semanais somam, no ano, menos corticoide do que quatro surtos tratados com duas a quatro semanas de aplicação diária cada.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Psoríase (Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS n.º 18/2021, anexo reeditado em 2025), esquemas de administração dos corticoides tópicos; Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dermatite Atópica (Portaria Conjunta SAES/SECTICS/MS n.º 28, de 27 de novembro de 2025), esquema do inibidor de calcineurina tópico; Rename 2024, componente básico.
Reservar o corticoide ao surto e apertar o emoliente entre eles
O protocolo de 2025 escreve a manutenção proativa para o inibidor de calcineurina, e a razão declarada de o fármaco ocupar essa posição é justamente não causar atrofia. Transferir o desenho para um corticoide troca o fármaco sem trazer junto a propriedade que sustentava a indicação — e a dermatite atópica do lactente e da criança maior se instala exatamente onde a pele é fina: face, pescoço, fossa cubital e fossa poplítea. O eixo do tratamento, no texto do mesmo documento, é o emoliente aplicado ao menos duas vezes ao dia em toda a extensão corporal, com quantidade semanal declarada em quadro próprio. A maior parte do que se chama de recidiva sob tratamento é, na conta dos gramas, emoliente aplicado em quantidade insuficiente — e nesse cenário acrescentar corticoide às sextas e aos sábados trata a consequência.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dermatite Atópica (Portaria Conjunta SAES/SECTICS/MS n.º 28/2025), seção de tratamento tópico, quadro de quantidade semanal de emoliente e efeitos adversos do corticoide tópico; TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Regulação Ambulatorial: Dermatologia, 2023, quadro 11.
Decida pela espessura da pele que adoece e pela conta do ano, nessa ordem. Se as áreas que recidivam são de pele fina e o paciente é criança pequena, a manutenção com corticoide compra pouco e cobra caro: aperte primeiro o emoliente, medido em gramas por semana e conferido pela embalagem no retorno, e só chame de falha o que falhou com a quantidade comprovadamente certa. Se as áreas são de pele espessa — mãos, pés, superfícies de extensão, tronco — e houve quatro ou mais surtos no ano, cada um tratado com semanas de aplicação diária, some a exposição dos dois desenhos antes de escolher: a manutenção costuma somar menos. Em qualquer dos dois, escreva no prontuário qual desenho escolheu e conte as recidivas em janela de seis meses, porque é o número contado que autoriza mudar de ideia sem recomeçar.
Começar com o que a unidade entrega hoje
O próprio protocolo federal da psoríase sustentou, em 2021, que a dexametasona tópica tem potência média, e usou essa premissa para justificar por escrito a não inclusão do furoato de mometasona no documento. Lida ao pé da letra, a premissa põe a dexametasona creme do componente básico um degrau acima do que a maioria das tabelas lhe atribui e a torna defensável para placa de tronco e de membros enquanto o processo do especializado corre. Soma-se que o componente básico entrega, sem processo e no mesmo dia, dois adjuvantes cujo efeito não depende de potência de corticoide: o ácido salicílico 5% em pomada, que remove a hiperceratose, e o alcatrão mineral 1%. Entre um esquema fraco e nenhum esquema, só o segundo tem eficácia garantidamente nula.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Psoríase (Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS n.º 18/2021), justificativa de não inclusão do furoato de mometasona; Rename 2024, componente básico (dexametasona 1 mg/g creme, acetato de hidrocortisona 10 mg/g creme, ácido salicílico, alcatrão mineral).
Não gastar o relógio da refratariedade com potência insuficiente
Dois documentos brasileiros posteriores contradizem a premissa de 2021 e classificam a dexametasona como de baixa potência: o protocolo de regulação em dermatologia de 2023 e o próprio protocolo federal da dermatite atópica de novembro de 2025, que escreve com todas as letras que dexametasona e acetato de hidrocortisona são corticoides de baixa potência. A placa psoriásica de tronco e de superfície de extensão é infiltrada e hiperceratótica, e semanas sob o degrau mais baixo produzem exatamente o desfecho que este capítulo combate: o paciente conclui que nada funciona e abandona. Há ainda um custo administrativo específico — o prazo de três meses de tratamento tópico bem feito que qualifica a refratariedade começa a correr, e um trimestre gasto assim adia o degrau seguinte de quem já tinha critério para ele.
TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Regulação Ambulatorial: Dermatologia, 2023, quadro de potência dos corticoides tópicos; Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dermatite Atópica (Portaria Conjunta SAES/SECTICS/MS n.º 28/2025), classificação de potência dos corticoides tópicos; Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Psoríase, critérios de doença moderada a grave por refratariedade.
Descubra primeiro, em dias, o que separa a receita da entrega do clobetasol na sua região — é uma ligação para a farmácia, e é a informação que decide. Se forem dias ou duas semanas, use o intervalo para o que não depende de potência: ácido salicílico sobre a escama, hidratante diário, a conversa da manutenção e as fotografias — e não conte esse tempo como tratamento tópico para efeito de refratariedade. Se forem meses, ou se o fluxo não existir onde você atende, tratar com baixa potência é melhor do que não tratar, desde que a data em que a potência insuficiente começou fique escrita, para que o relógio dos três meses não corra a favor de um esquema que ninguém defende. O que não se faz, em nenhum dos dois caminhos, é chamar de refratária a doença que nunca recebeu a potência prevista no protocolo.
Encaminhar, com a falha dos dois sistêmicos documentada
O protocolo de regulação em dermatologia fixa os critérios de encaminhamento pela gravidade e pela refratariedade ao tratamento otimizado, e não pela existência de um medicamento na ponta — doença grave que falhou a dois sistêmicos preenche o critério por definição. E o encaminhamento cumpre três funções que independem de fármaco novo: a confirmação diagnóstica por quem vê a doença todo dia, o acesso a recursos que não passam pelo elenco de medicamentos, como fototerapia e manejo de comorbidade, e o registro formal, em serviço de referência, de que dois sistêmicos falharam — o documento que existirá se a regra mudar. Há ainda o efeito de contagem: paciente que não entra na fila não aparece em nenhuma medida da demanda que a decisão de não incorporar deixou descoberta.
TelessaúdeRS-UFRGS, Protocolos de Regulação Ambulatorial: Dermatologia, 2023, critérios de encaminhamento e conteúdo descritivo mínimo; Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dermatite Atópica (Portaria Conjunta SAES/SECTICS/MS n.º 28/2025), quadros de tratamento por faixa etária.
Manter na primária e não ocupar a vaga de quem o especialista muda
O protocolo de novembro de 2025 registra, no corpo do texto, que dupilumabe e upadacitinibe não foram incorporados ao SUS para adultos e idosos com dermatite atópica, nomeando a Portaria SECTICS/MS n.º 53/2025, e acrescenta que, no caso do upadacitinibe, a recomendação de não incorporação se deveu a alto impacto orçamentário embora o uso em adultos seja indicado em bula. O que o especialista pode prescrever a esse paciente é, portanto, exatamente o que já está na mão de quem o atende na unidade: emoliente, corticoide tópico, ciclosporina e metotrexato. Uma vaga ocupada por quem já esgotou o arsenal é uma vaga que não recebe o paciente cujo desfecho a consulta especializada muda, numa fila medida em meses. E o que de fato muda o desfecho desse adulto fica na primária: gramas de emoliente conferidos, prurido noturno controlado, busca ativa de infecção secundária e cuidado do sofrimento mental que o próprio protocolo lista.
Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dermatite Atópica (Portaria Conjunta SAES/SECTICS/MS n.º 28/2025), texto sobre a não incorporação de dupilumabe e upadacitinibe e Portaria SECTICS/MS n.º 53/2025; e, no mesmo protocolo, a seção de impacto psicossocial com a recomendação de aconselhamento e psicoterapia.
Pergunte o que a consulta do especialista pode mudar para este paciente, e não o que ela deveria poder. Se resta dúvida diagnóstica, se há comorbidade dermatológica associada, se a sua rede tem fototerapia, ou se o serviço de referência dispõe de via para acesso ampliado, o encaminhamento muda alguma coisa e deve ser feito — com fotografias, escore de gravidade, índice de qualidade de vida e os dois sistêmicos com dose e duração. Se o diagnóstico é seguro, a fototerapia não existe onde você atende e o serviço só dispõe do mesmo arsenal, diga isso ao paciente com todas as letras, mantenha o cuidado na unidade e deixe escrito, com data, que os dois sistêmicos falharam. Nesse caso, encaminhe pelo que existe: o sofrimento mental, para quem cuida dele. A decisão de comprar ou não o fármaco não é sua e não se resolve nesta consulta; a que é sua é não deixar o paciente esperando por um degrau que não está previsto.
O raciocínio, em voz alta
Miguelina Capistrano tem 5 anos, e a mãe, dona Alcina, a leva à unidade básica numa terça de manhã com a queixa de que "a alergia voltou". É a quinta consulta em quatorze meses pelo mesmo motivo, e as quatro anteriores estão registradas com a mesma frase de três palavras: alergia de pele. Ao exame, as duas fossas cubitais e as duas poplíteas têm placas eritematosas de limites imprecisos, com descamação e escoriações lineares; o pescoço tem a pele espessada, com os sulcos acentuados; a pele do tronco e das pernas está seca e áspera em toda a extensão, com pápulas ásperas centradas em folículos nos braços. Não há crosta cor de mel, pústula nem erosão. A mãe tem rinite alérgica; a criança teve as primeiras lesões antes de completar um ano e nunca ficou seis meses sem surto. Dorme mal e acorda coçando quase toda noite; dona Alcina dorme com ela e faltou ao trabalho duas vezes no último mês. Na bolsa há um tubo de 15 g de acetato de hidrocortisona creme comprado há cinco semanas, ainda pela metade. Hidratante, nenhum — "passei um tempo, mas é caro e não vi diferença".
o que o quadro já respondeu antes de eu perguntar qualquer coisa
Pelos critérios condensados que o protocolo nacional adotou, o diagnóstico está fechado à porta. Há prurido nos últimos doze meses, que é obrigatório, e há os cinco itens de apoio, quando bastariam três: início dos sintomas antes dos dois anos numa criança com mais de quatro, história de envolvimento flexural, história de pele geralmente seca, doença atópica em parente de primeiro grau e dermatite flexural visível. Nenhum exame acrescenta nada a isso. E a frase da mãe — a alergia voltou — já disse o problema desta consulta: em quatorze meses, a doença foi tratada cinco vezes como evento e nenhuma vez como o que é.
o que pergunto, e por quê
Quantos surtos houve nos últimos doze meses, contados um a um com a mãe, porque quatro ou mais por ano é o número que o protocolo usa para indicar manutenção e não tratamento de episódio. O que aconteceu depois que cada tubo acabou — é a informação que nenhum dos quatro registros anteriores tem e sem a qual não se distingue doença controlada de doença que sempre volta. Quanto hidratante se usa, com que frequência e quanto custa. Quantas noites por semana a criança acorda coçando, e quem perde sono junto. Como é o banho: duração, temperatura, sabonete, esponja. Se há chiado no peito ou espirros e coriza persistentes — não por curiosidade, porque asma e rinite são parte do critério — o manejo da asma da criança tem capítulo próprio na Pneumologia Pediátrica desta coleção, e a rinite da criança não tem capítulo no nível. E se algum produto novo foi passado na pele.
o que examino além das dobras
A pele inteira, com a criança despida: couro cabeludo, atrás das orelhas, mãos, pés e a região das nádegas. Procuro os quatro achados que mudam a conduta antes de qualquer intensificação — crosta cor de mel, exsudação e pústula, que são infecção bacteriana; erosões arredondadas e todas do mesmo tamanho sobre o eczema, com febre, que são eczema herpético; borda ativa com centro claro, que é fungo; e piora que respeita exatamente o território de um produto novo, que é contato. Examino também as áreas já tratadas, procurando pele fina, brilhante, com vasos visíveis ou estrias, porque foi ali que o corticoide foi aplicado sem prazo escrito. Meço a área em palmas da criança e aplico a versão do índice de qualidade de vida em dermatologia para crianças, que existe entre 5 e 16 anos. Anoto os dois números.
o exame que eu não peço, e a exceção que o protocolo escreve
Nada de dosagem de imunoglobulina E, de painel de testes alérgicos ou de biópsia: o protocolo nacional é explícito ao dizer que exames laboratoriais e biópsia não entram na avaliação de rotina e servem apenas para descartar outra condição em pacientes selecionados. Um valor alto num paciente com critérios não acrescenta, e um painel de sensibilizações sem relevância clínica termina em dieta de exclusão desnecessária numa criança que já dorme mal. A exceção está escrita e é estreita: eczema extenso e de difícil controle, refratário ao tratamento otimizado, com ou sem vômitos, diarreia e atraso de crescimento; ou exacerbação que aparece de minutos a poucas horas depois de um alimento determinado. Miguelina não é nenhum dos dois casos — ela nunca teve tratamento otimizado.
por que o tratamento falhou até aqui, com a conta na mão
As quatro flexuras mais o pescoço somam cerca de 3 palmas de Miguelina, ou seja, uns 3% da superfície dela. Para a dose, o que conta é a mão de quem aplica: encostando a palma de dona Alcina sobre as áreas, elas cobrem cerca de uma palma e meia de adulto, e cada unidade de ponta de dedo — o creme que vai da ponta do indicador dela até a primeira dobra, cerca de meio grama — cobre duas palmas de adulto. São, portanto, cerca de 0,75 unidade por aplicação, uns 0,4 g; a duas aplicações por dia, 5,3 g por semana. O tubo de 15 g comprado há cinco semanas está pela metade: foram cerca de 7,5 g em 35 dias, isto é 1,5 g por semana, menos de um terço do que a área pedia. E o emoliente, que é o eixo do tratamento, foi zero, contra os 150 a 200 g semanais que o quadro do protocolo prevê para criança. Nada disso é falta de adesão: é uma receita sem quantidade, cumprida à risca. Registre-se que a conversão da mão da criança para a mão de quem aplica é leitura deste capítulo — os documentos brasileiros fixam a palma do paciente como 1% da superfície, e a unidade de ponta de dedo vem de fonte estrangeira.
o que prescrevo, com quantidade e prazo escritos na receita
Emoliente sem fragrância em todo o corpo, duas vezes ao dia e sempre logo depois do banho, com a pele ainda úmida, espalhando e não esfregando — 150 a 200 g por semana, escritos na receita. Banho de 5 a 10 minutos, água morna, sabonete de pH levemente ácido em pouca quantidade, sem esponja e sem sabonete antisséptico. Acetato de hidrocortisona 1% creme nas flexuras e no pescoço, duas vezes ao dia, por duas semanas: cerca de 11 g no curso inteiro, de modo que uma bisnaga de 30 g sobra e uma de 15 g não deveria ter sido a embalagem de um mês. Nada de clobetasol nessas áreas, em nenhuma hipótese. Unhas curtas e lixadas. E o sono: quem trata o prurido noturno é o controle do eczema mais a hidratação; se ele persistir com o eczema já controlado, cabe um anti-histamínico sedativo à noite pelo tempo do surto, com a dose pediátrica conferida na bula da apresentação que a unidade dispensa.
o que combino sobre manutenção e sobre custo, hoje e não no retorno
Se a contagem dos surtos chegar a quatro no ano, o desenho deixa de ser tratar episódio e passa a ser manutenção. O protocolo escreve a manutenção proativa para o inibidor de calcineurina tópico, que não está no elenco, de modo que a escolha entre manter só o emoliente entre surtos e fazer duas aplicações semanais do corticoide de baixa potência é uma decisão a tomar com a mãe, e a tomar por escrito — as duas leituras têm documento atrás. Sobre o custo, a pergunta vem antes da assinatura: quanto dá para gastar por mês. Se o produto de prateleira não couber, o protocolo de regulação registra uma fórmula manipulável — óleo de semente de girassol 10% com glicerina 2% em creme sem fragrância, 250 g — e vale perguntar se a farmácia municipal manipula. O único produto tópico dessa finalidade no elenco nacional é o gel e o creme de babosa.
o que fica escrito, e quando ela volta
No prontuário: dermatite atópica com cinco anos de evolução, critérios preenchidos e quais; áreas acometidas nominalmente; área em palmas e em percentual; índice de qualidade de vida com o número; noites por semana com despertar; o que foi prescrito com quantidade, frequência e duração; e a frase de que foi dito à mãe, nesta data, que a doença é crônica, que o objetivo é controle e não cura, e que o tratamento continua depois que a pele ficar boa. Retorno em quatro semanas, com data marcada, e o pedido explícito de que ela traga a bisnaga e o pote de hidratante — o consumo é que responde se o tratamento aconteceu. As metas ficam anotadas hoje: em três meses, queda de pelo menos três pontos no pico de prurido e de quatro pontos nos escores de qualidade de vida e de eczema. Meta escrita no dia em que se começa é o que permite chamar de falha o que falhou, sem que isso seja opinião.
Faça você
Palmira Castelo tem 47 anos, é auxiliar de lavanderia de um hospital e chega ao ambulatório da unidade básica numa quinta à tarde com o que quatro atendimentos anteriores chamaram de micose de dobra. São dois anos de história. Ela usou três cremes antifúngicos diferentes e, no último ano, um creme combinado de antifúngico com corticoide, que melhora em poucos dias e volta sempre. Ao exame: sob as duas mamas e nas duas virilhas, placas vermelho-vivas, lisas, brilhantes, sem escama, de contorno abrupto, com uma fissura linear no fundo da prega inframamária direita; não há pápulas nem pústulas destacadas na periferia. O sulco interglúteo tem a mesma coisa. Nos cotovelos, duas placas de contorno nítido cobertas por escama espessa e prateada, que ela chama de ressecado e nunca mencionou em consulta. O couro cabeludo tem escamas aderentes que ultrapassam a linha de implantação dos cabelos e continuam atrás das orelhas. Três unhas das mãos têm onicólise distal e depressões puntiformes na lâmina. Ela conta que parou de ir à igreja, que não usa mais vestido, que evita o vestiário do trabalho e que dorme mal. Perguntada, diz que as mãos amanhecem duras e levam cerca de uma hora para soltar, e que o terceiro dedo da mão direita está inchado inteiro há três meses. Nenhuma das quatro consultas anteriores registrou onde estavam as lesões nem perguntou qualquer uma dessas coisas. Na bolsa, três receitas antigas e o tubo do creme combinado.
1. Nomeie o que está na dobra e diga o achado que decide contra micose
Descreva cor, brilho, escama, contorno e periferia. Qual é o achado ausente que pesa contra candidíase de dobra, e qual é o dado que não está na dobra e resolve a dúvida sozinho? Diga também o que dois anos de antifúngico sem resposta obrigam a fazer.
2. Meça o que decide, e diga qual medida a tira da faixa leve
Estime a área em palmas e converta em percentual. Aplique o índice de qualidade de vida. Depois responda: qual é, nesta paciente, o achado contável que muda a faixa de gravidade mesmo com a área abaixo do corte de área — e por que as dobras e o couro cabeludo agravam a leitura.
3. Diga a pergunta que tira esta paciente deste protocolo, e para onde ela vai
Há na vinheta dois achados que não são de pele. Nomeie-os, diga que hipótese eles levantam, e diga o que o protocolo brasileiro da psoríase determina para quem tem essa hipótese confirmada. Continue tratando a pele enquanto isso? Justifique.
4. Escreva a prescrição tópica por região, com gramas e prazo
Divida por região: dobras e sulco, cotovelos, couro cabeludo. Para cada uma, fármaco do elenco brasileiro, frequência, duração, e a quantidade calculada em gramas e em bisnagas. Confira o total contra o teto semanal de corticoide tópico. Diga que destino dar ao tubo que está na bolsa dela, e o que examinar antes de retirá-lo. Escreva a fase de manutenção junto, na mesma receita.
5. Diga o que precisa estar pronto antes de qualquer sistêmico, e o que vai no encaminhamento
Liste os exames de rastreio e o limiar numérico que decide tratar infecção latente. Monte o conteúdo do encaminhamento segundo o protocolo de regulação, e diga qual item dessa lista, nesta paciente, impede o especialista de chegar à conclusão errada.
6. Escreva as linhas do prontuário e a frase que ela precisa ouvir hoje
O que tem de estar registrado para que a sexta consulta seja seguimento e não recomeço — inclusive uma data que só existe se você a escrever hoje. E que três frases ela ouve antes de sair da sala.
Ver como fecharíamos
1. É psoríase invertida — psoríase de dobras. A placa é vermelho-viva, lisa e brilhante, sem escama, porque o atrito e a umidade da prega a removem, e o contorno é abrupto. O achado que decide contra candidíase de dobra é o que não está lá: não há lesões-satélite, isto é, pápulas e pústulas destacadas do contorno principal, na periferia. E há o dado que não está na dobra e resolve sozinho: as duas placas de contorno nítido com escama espessa e prateada nos cotovelos, a escama aderente do couro cabeludo que ultrapassa a linha de implantação, e as depressões puntiformes nas unhas. Uma placa clássica em qualquer outro lugar do corpo converte a dobra duvidosa em dobra da mesma doença. Dois anos de antifúngico sem resposta obrigam a reabrir o diagnóstico, e não a trocar de antifúngico — dobra que não responde em quatro semanas é revisão de hipótese. Se a hipótese de fungo permanecesse viva, o manejo antifúngico pertence ao capítulo de micoses superficiais desta apostila, "A borda que a pomada apagou". 2. Contando em palmas dela: as regiões inframamárias somam cerca de 2, as virilhas cerca de 1,5, o sulco interglúteo cerca de 0,5 e os cotovelos cerca de 1,5 — cerca de 5,5 palmas, ou 5,5% da superfície corporal, portanto abaixo do corte de 10%. O índice de qualidade de vida, num questionário cujos domínios são justamente roupa, vida social, sono, trabalho e vida sexual, sai alto: quem parou de ir à igreja, deixou de usar vestido e evita o vestiário está bem acima de 10, que é o corte. Mas o achado contável que muda a faixa sozinho é outro, e é o que quatro consultas não olharam: o protocolo brasileiro inclui entre os critérios de doença moderada a grave o acometimento ungueal extenso, definido como onicólise ou onicodistrofia em ao menos duas unhas. Ela tem três. Some-se que dobras, genitália e couro cabeludo são áreas especiais, cuja resistência ao tratamento tópico por três meses contínuos qualifica o paciente independentemente da área. Ou seja: doença moderada a grave por dois critérios independentes, com 5,5% de superfície acometida. 3. Os dois achados que não são de pele são a rigidez matinal das mãos de cerca de uma hora e o edema do terceiro dedo da mão direita por três meses — dactilite, o dedo inchado inteiro e não só a articulação. Juntos, em quem tem psoríase cutânea e acometimento ungueal, levantam a hipótese de artrite psoriásica. O protocolo brasileiro da psoríase resolve isso por critério de exclusão expresso: quem tem diagnóstico de artrite psoriásica sai deste protocolo e entra no protocolo próprio da doença, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS n.º 37, de 21 de janeiro de 2026. O manejo articular pertence à Reumatologia, e este capítulo o cede inteiro: o que se faz aqui é reconhecer, perguntar e encaminhar. E sim, a pele continua sendo tratada enquanto a via articular corre — a suspeita articular não suspende a prescrição tópica, e deixar a pele parada à espera de uma consulta que pode demorar meses custa à paciente sem benefício nenhum. 4. Por região, com a conta feita antes de assinar. Dobras e sulco interglúteo, que somam cerca de 4 palmas de pele fina: dexametasona 0,1% creme, uma a duas vezes ao dia, por até duas semanas. Quatro palmas são 2 unidades de ponta de dedo por aplicação, ou 1 g; a duas aplicações por dia, 14 g por semana; em duas semanas, 28 g — uma bisnaga de 30 g cobre o curso. Cotovelos, cerca de 1,5 palma de pele espessa: propionato de clobetasol 0,05% creme, duas vezes ao dia, por duas a quatro semanas; 0,75 unidade por aplicação, cerca de 0,4 g, ou 5,3 g por semana, uns 21 g em quatro semanas — outra bisnaga de 30 g. Calcipotriol 0,005% pomada duas vezes ao dia como poupador de corticoide, evitando a face, com teto de 100 g por semana. Couro cabeludo: clobetasol 0,05% solução capilar, uma a duas vezes ao dia, por duas a quatro semanas, e ácido salicílico 5% pomada duas horas antes do banho para soltar a escama aderente. Somando as quantidades estimadas das regiões descritas, são cerca de 19 g por semana; conferir separadamente a dose, a duração e o limite de cada produto. A soma não cria um teto comum entre moléculas. Hidratante diário nas placas, inclusive nos dias sem corticoide. E a fase de manutenção escrita na mesma receita: anti-inflamatório apropriado à região e ao paciente em regime intermitente, com duração e revisão definidas pela equipe. O tubo combinado sai de uso hoje — ele nunca tratou a doença que ela tem —, mas antes de retirá-lo examine as dobras procurando atrofia, telangiectasia e estria, porque foram doze meses de corticoide sem prazo em pele fina, e registre o que encontrar. Clobetasol e calcipotriol são do componente especializado: verifique o fluxo local e informe a ela a documentação necessária, porque receita que não sai da farmácia é tratamento que não acontece. 5. Antes de qualquer imunossupressor sistêmico: exame clínico, radiografia simples de tórax para excluir tuberculose ativa, e prova tuberculínica ou teste de liberação de interferon-gama para a infecção latente. O limiar é numérico — trata-se a latente quando a prova tuberculínica for igual ou maior que 5 mm ou o teste de interferon-gama for reagente, excluída a doença ativa —, e trata-se também, sem precisar de nenhum dos dois exames, quem tem alteração radiográfica de tuberculose prévia não tratada ou contato próximo com caso de tuberculose pulmonar nos últimos dois anos; o biológico começa quatro semanas depois de iniciado o tratamento da latente. Somam-se as sorologias de hepatite B. Os esquemas estão nos capítulos de Tuberculose, na apostila de Infectologia, e de Hepatite B, na de Gastroenterologia — o que não se cede é a obrigação de pedir. O encaminhamento leva o conteúdo mínimo que o protocolo de regulação exige: descrição e localização das lesões, tempo de evolução, área estimada em percentual, sinais e sintomas associados, fotografias de todas as áreas, índice de qualidade de vida e todos os tratamentos já feitos com posologia e tempo de uso. O item que, nesta paciente, impede a conclusão errada é o último: sem os doze meses de creme combinado escritos com nome e duração, o especialista lê dois anos de tratamento sem resposta e conclui doença refratária, quando o que houve foi tratamento de outra doença. Vai também um encaminhamento separado à reumatologia, pela suspeita articular. 6. No prontuário: psoríase em placas com acometimento invertido, ungueal e de couro cabeludo, com dois anos de evolução; as lesões nominalmente e onde estão; área em palmas e em percentual; o índice de qualidade de vida com o número; as três unhas com onicólise; a suspeita de artrite psoriásica com a data e o encaminhamento feito; que o creme combinado foi suspenso hoje, e por quê; e a data em que o tratamento tópico correto começou — essa data só existe se você a escrever, e é dela que corre o prazo de três meses de tratamento tópico bem feito que qualifica a refratariedade. Sem ela, os dois anos de antifúngico serão contados como se fossem tratamento. As três frases que ela ouve antes de sair: o nome da doença; que ela não pega e ninguém se contamina; e que o tratamento continua depois que a pele ficar boa, porque a doença é crônica e o objetivo é controle. Vale acrescentar uma quarta, que é justa e é verdadeira: os dois anos anteriores não foram falha dela. O limite citado deve ser conferido para a molécula e apresentação: não é teto universal de todo corticoide tópico. Individualizar por idade, sítio e duração e reavaliar indicação sistêmica quando a carga de tratamento for inadequada.
Índices ajudam, mas não substituem avaliação clínica. Áreas especiais e impacto funcional podem justificar escalonamento mesmo com baixa superfície acometida.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o texto, apresente o caso principal em um minuto. Explique: Avaliar extensão e impacto, escolher potência e quantidade por região, programar manutenção e reconhecer urgência infecciosa ou inflamatória. Justifique a primeira conduta e indique um achado que mudaria o destino do paciente.
Em 30 dias
Resolva novamente o caso para completar. Compare hipótese, diferenciais, gravidade, plano e seguimento com o gabarito. Acrescente uma mudança de contexto — comorbidade, piora, gestação, barreira de acesso ou baixa adesão — e explique como adaptaria a decisão com o supervisor.
Agora atenda
Você atende como interno numa unidade básica, com a preceptora na sala ao lado. Entra uma mãe com a filha de 6 anos pedindo "um creme mais forte", porque o que usam "não segura mais". A criança coça as dobras dos braços e dos joelhos, dorme mal e faltou à escola três vezes no mês. A mãe traz na bolsa um tubo pequeno de corticoide, ainda com metade, comprado há mais de um mês, e nenhum hidratante — diz que usou por um tempo, achou caro e não viu diferença. Conduza a consulta: confirme o diagnóstico pelos critérios, meça a área e o impacto, decida a potência pela região, faça a conta da quantidade em gramas antes de escrever, combine o custo do hidratante com a mãe e explique por que o creme vai continuar depois que a pele ficar boa — sem transformar a conversa em cobrança de adesão.
