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AIDPI: a consulta que classifica a criança inteira
Estratégia AIDPI: avaliação e classificação de risco da criança de 2 meses a 5 anos
Os sinais de perigo antes da queixa, a cor mais grave decidindo o destino, os tratamentos prévios na ordem certa e a mãe que sai sabendo quando voltar
Brasil. Ministério da Saúde; Organização Pan-Americana da Saúde; Fundo das Nações Unidas para a Infância. Manual de quadros de procedimentos: Aidpi Criança: 2 meses a 5 anos. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. 74 p. ISBN 978-85-334-2502-6.
Brasil. Ministério da Saúde; Organização Pan-Americana da Saúde. Manual Aidpi Criança: 2 meses a 5 anos. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 256 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 7ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2024 (versão eletrônica).
Brasil. Ministério da Saúde. Caderno dos programas nacionais de suplementação de micronutrientes. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. 52 p. ISBN 978-65-5993-779-0.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança: orientações para implementação. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. 180 p. ISBN 978-85-334-2596-5.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 6ª ed. rev. Volume 1. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Surviving Sepsis Campaign. Diretriz pediátrica, 2026.
Responda antes de ler
Criança de 14 kg com choque e indicação de expansão após avaliação clínica, sem sinais de sobrecarga, cardiopatia ou desnutrição grave, é atendida em serviço com capacidade de suporte intensivo. A equipe utiliza, para este exercício, uma alíquota de 20 mL/kg de cristaloide isotônico. Qual volume corresponde a essa alíquota e qual cuidado acompanha a administração?
O paciente que você vai ver
Dez e meia de uma terça-feira, na unidade de saúde da família de um município do interior, fora de área de risco de malária, a 40 quilômetros do hospital de referência. A agenda programada terminou, e a técnica de enfermagem Carmelita Souto abre a porta do consultório com a ficha de demanda espontânea na mão e uma linha escrita a lápis: “criança com tosse”. Atrás dela entra Hortência, 22 anos, com Teodora Neves no colo. Teodora tem 1 ano e 2 meses. Carmelita já fez o que a sala de acolhimento faz: 8,6 kg na balança, temperatura axilar de 38,6 °C, e a caderneta da criança aberta em cima da maca.
Hortência fala depressa, como quem ensaiou no ônibus. A tosse começou há três dias; a febre, ontem à tarde; o cocô mole, anteontem, “umas cinco vezes por dia, sem sangue”. Hoje de manhã a menina largou o prato e só quer o peito. A vizinha, que criou quatro filhos, olhou e disse que era pneumonia, e ela veio porque a vizinha costuma acertar. Enquanto conta, Teodora tosse, chora, e volta a procurar o peito no meio da frase.
Você conhece esse roteiro, e ele puxa sozinho: estetoscópio no tórax, crepitação em base direita, receita de amoxicilina, um antitérmico, retorno se piorar. É o raciocínio que dois anos de enfermaria treinaram — encontrar a doença que explica a queixa e tratá-la. A médica de família que preceptora o seu estágio encosta na porta e faz quatro perguntas antes de você tirar o estetoscópio do pescoço: ela consegue beber ou mamar? Vomita tudo o que come? Teve convulsão? Está letárgica? Você não perguntou nenhuma das quatro, e a mãe não falou de nenhuma, porque a mãe fala do que a assusta, não do que mata.
Você recomeça, agora na ordem de um quadro que a unidade tem pregado na parede. Teodora mama quando Hortência oferece o peito, não vomitou, não teve convulsão, chora forte e acompanha a mãe com os olhos — não está letárgica. O enchimento capilar, apertando a ponta do dedo, volta em 2 segundos. Não há batimento de asa do nariz nem gemido. Nenhum sinal geral de perigo. Com ela quieta no colo e o tórax despido, você conta 56 respirações num minuto inteiro e vê, a cada inspiração, a parte de baixo das costelas afundar: tiragem subcostal.
A diarreia tem dois dias e nenhum sangue. Os olhos estão fundos — Hortência confirma que não eram assim —, Teodora está irritada, e quando Carmelita oferece soro de reidratação no copo ela bebe com avidez, puxando o copo com as duas mãos. A prega da pele do abdome volta devagar, em pouco mais de um segundo. A febre não vem com rigidez de nuca nem com manchas na pele. Os ouvidos e a garganta não têm nada a dizer. As palmas das mãos, lado a lado com as da mãe, são visivelmente mais pálidas, sem chegar ao branco. O ponto do peso de hoje cai dentro da faixa adequada da curva da caderneta. E a página de vacinas mostra as doses dos 12 meses em branco.
Faça a conta do que está na maca. Uma tosse com tiragem, uma diarreia que já desidratou, uma febre, uma palidez e uma vacina atrasada — cinco problemas numa criança de 8,6 kg, numa unidade sem leito, com uma ambulância que, pelo telefone da regulação, leva uns 50 minutos para chegar. Cada problema desses tem um capítulo neste nível, com a sua régua. Nenhum desses capítulos diz o que fazer quando os cinco chegam juntos: qual deles decide para onde Teodora vai, o que se faz antes de ela sair e o que não se faz, o que vai escrito, o que Hortência leva de instrução para o caminho — e o que acontece, depois, com a anemia e com as vacinas que ficaram para trás.
É disso que este capítulo é dono: da Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na Infância (AIDPI) como método — a ordem da consulta, a criança com várias classificações ao mesmo tempo, os tratamentos prévios à referência e a ordem entre eles, o aconselhamento da mãe e o retorno por classificação. A régua de cada módulo fica com o seu dono, e o texto remete: tosse e pneumonia ao capítulo de pneumonia adquirida na comunidade na criança (Pneumologia Pediátrica); sibilância aos de asma e de bronquiolite; estridor ao de crupe; diarreia e os planos A, B e C ao de diarreia aguda e desidratação (Gastroenterologia Pediátrica); febre ao de febre sem sinais localizatórios no lactente, nesta apostila; convulsão ao de crise febril (Neurologia Pediátrica); meningite ao de meningites (Infectologia Pediátrica); garganta e ouvido aos de faringoamigdalites e de otites (Otorrinolaringologia); desnutrição grave, ferro e vitamina A aos de desnutrição e de micronutrientes (Nutrologia Pediátrica); anemia ao de anemia ferropriva (Hematologia Pediátrica); vacinas ao de calendário nacional (Infectologia Pediátrica); desenvolvimento e crescimento aos de marcos e de curvas (Puericultura e Desenvolvimento); maus-tratos ao de violência, nesta apostila; e o lactente com menos de 2 meses aos de febre no lactente e de sepse neonatal.
Quem adoece disso
A AIDPI chegou ao Brasil na segunda metade dos anos 1990, trazida pela Organização Pan-Americana da Saúde e pelo Unicef, com um alvo declarado: a morte de criança por desnutrição, diarreia, pneumonia, malária e sarampo. Foi implantada primeiro nos municípios de mortalidade infantil alta que já tinham agentes comunitários e equipes de saúde da família, e é por isso que o quadro fala a língua da unidade básica — balança, relógio, copo, colher — e não a do hospital. As orientações federais para a política nacional de saúde da criança, de 2018, ainda a listam entre as ações estratégicas da política.
O cenário em que a estratégia nasceu mudou muito. Pela série do mesmo documento federal, a mortalidade infantil caiu de 47,1 por mil nascidos vivos em 1990 para 14,6 em 2012, e a mortalidade na infância, dos menores de 5 anos, de 53,7 para 16,9 — o país alcançou a meta do milênio para a infância três anos antes do prazo. A consequência para você é paradoxal: a criança que morre de pneumonia ou de diarreia ficou rara na unidade básica de uma cidade média, e é justamente a raridade que faz o sinal de perigo passar. Para cada lactente com tiragem, o interno vê centenas de tosses que não precisam de nada. O método existe para separar os poucos dos muitos sem depender da memória de quem atende.
A queda não foi igual em todo lugar, e a desigualdade decide quanto vale cada minuto antes da referência. O Nordeste saiu de 75,8 óbitos infantis por mil nascidos vivos em 1990 para 17,1 em 2012, enquanto o Norte fechou a série em 19,5. Na população indígena aldeada, a taxa era de cerca de 42 por mil em 2011, 2,5 vezes a nacional, com distritos sanitários — o Yanomami e o do Vale do Javari — acima de 100. Nesses territórios, referir urgentemente significa horas de barco, de estrada de terra ou de espera por avião. A primeira dose do antibiótico, a glicose e o soro oral para o caminho deixam de ser formalidade: são o tratamento que a criança vai ter até chegar. Não por acaso, o quadro de 2017 traz uma nota específica para a família indígena que resiste à referência: buscar apoio das lideranças da comunidade para negociar o tratamento.
Onde a morte da criança pequena se concentra hoje também explica um limite do quadro. Pelas mesmas orientações de 2018, cerca de 70% das mortes infantis acontecem nos primeiros 28 dias de vida — e foi por isso que o Ministério da Saúde incorporou, depois de 2000, uma AIDPI Neonatal, para a criança de zero a 2 meses. O quadro deste capítulo começa aos 2 meses. O lactente mais novo não é uma versão menor da criança que ele descreve: tem outros sinais de perigo, outra febre, outra urgência. A Caderneta da Criança, na página que entrega à família, separa as duas listas, e a do menor de 2 meses inclui temperatura igual ou abaixo de 35,5 °C e febre a partir de 37,5 °C.
Entre as doenças que o quadro cobre, as respiratórias são, pelas orientações federais, o primeiro motivo de consulta em ambulatório e em pronto-atendimento, e a pneumonia segue como causa importante de morte evitável antes dos 5 anos. É no módulo de tosse que o método mais vezes decide entre antibiótico e nenhum antibiótico, e o manual do curso é explícito sobre a proporção: a maior parte das crianças com tosse tem uma infecção viral e não está seriamente doente. O trabalho é achar, com dois sinais — a respiração rápida contada num minuto e a tiragem subcostal —, as poucas que precisam de antibiótico ou de hospital.
O número que falta nas fontes nacionais é o que mais importa para este capítulo: quantas crianças chegam com mais de um problema ao mesmo tempo. O manual do curso responde pela clínica, não pela estatística. Diarreia de repetição produz ou agrava desnutrição; a desnutrição grave pode precipitar xeroftalmia; a criança desnutrida com pneumonia morre mais do que a bem nutrida com a mesma pneumonia. A capacitação por doença — um curso de infecção respiratória, outro de diarreia — ensina a tratar cada uma e não ensina a organizar a consulta quando elas chegam juntas, com tempo curto e recurso pouco. É essa lacuna que a atenção integrada foi desenhada para fechar.
Leia esses números como ordem de grandeza e como mapa de risco, não como taxa do ano corrente: a série federal que os traz termina em 2012. O que eles ensinam não envelheceu — a criança que mais morre é a mais nova, a mais pobre, a mais longe do hospital e a que tem mais de um problema — e é exatamente o perfil em que um erro de ordem na consulta custa mais caro.
Por que acontece o que acontece
O primeiro mecanismo do método é uma renúncia: classificação não é diagnóstico. O manual do curso dá o exemplo que resume a ideia — a criança classificada como doença febril muito grave pode ter meningite, malária grave ou septicemia, e o quadro não pede que você descubra qual. Os tratamentos daquela linha foram escolhidos para cobrir as doenças importantes que cabem sob o rótulo, qualquer que seja a verdadeira. Numa unidade sem laboratório e sem radiografia, a decisão que muda o desfecho não é o nome da doença: é onde a criança vai ser tratada e com o quê. A classificação é construída com sinais que um profissional treinado vê sem exame e que separam bem o grave do não grave — e é por isso que ela pode ser feita em minutos, na sala de uma unidade básica, por quem nunca vai ver a radiografia.
O segundo é a razão de os sinais gerais de perigo virem antes da queixa. Cada um deles é a via final comum de várias doenças graves diferentes, e nenhum aponta para uma doença só. A criança que não consegue beber nem mamar está, nas palavras do manual, demasiadamente debilitada — por esforço respiratório que não deixa sugar, por consciência rebaixada, por infecção que a consome. A que vomita tudo perdeu a via oral para água, glicose e remédio. A convulsão pode ser febre, infecção do sistema nervoso ou glicose baixa. A letargia é o cérebro recebendo menos oxigênio ou menos glicose do que precisa. O enchimento capilar acima de 2 segundos é a vasoconstrição periférica que o organismo usa para manter o sangue no centro — um choque que ainda compensa, com a pressão arterial normal. O gemido expiratório é a criança fechando parcialmente a glote no fim da expiração para não deixar os alvéolos colaborarem: ela está produzindo a própria pressão positiva, e isso não dura. Um sinal de perigo não diz qual doença a criança tem. Diz que ela já está gastando a reserva.
Por isso um único sinal de perigo muda várias classificações de uma vez. No quadro brasileiro, qualquer sinal geral de perigo é critério da linha vermelha dos módulos de tosse, de sibilância, de febre e de garganta. A criança letárgica que tosse é classificada como pneumonia grave ou doença muito grave mesmo sem tiragem; se tem febre, é também doença febril muito grave. Não é redundância: o sinal pode vir de qualquer um desses problemas, e o tratamento prévio precisa cobrir todos — o antibiótico que sai antes da transferência é escolhido para servir à pneumonia, à meningite e à septicemia ao mesmo tempo.
A cor mais grave decide o destino por uma razão física: a criança não pode estar em casa e no hospital ao mesmo tempo. As classificações amarelas e verdes se tratam na unidade e em casa, ao longo de dias, com a mãe dando o remédio; a vermelha exige o que a unidade básica não tem — oxigênio contínuo, antibiótico venoso, monitorização, reidratação venosa vigiada, leito. Mas as outras classificações não somem quando a vermelha aparece. Elas mudam o que se faz antes e durante o transporte e mudam o que o hospital precisa saber. A desidratação de Teodora não decide para onde ela vai; decide que ela vai tomando soro oral no caminho. A anemia dela não decide nada nesta manhã; decide o que fica escrito para o retorno.
O tratamento prévio à referência existe porque o transporte é tempo de doença. Entre a decisão de referir e a chegada ao hospital passam minutos numa capital e horas no interior, e nesse intervalo a infecção bacteriana progride, a glicose cai e a diarreia continua. O manual do curso dá a regra que separa o que se faz do que se adia: não dar tratamento que atrase desnecessariamente a referência. Entra o que perde valor se esperar e custa pouco tempo — a injeção intramuscular do antibiótico, uma mamada ou 50 mL de água açucarada, as gotas do antitérmico, o frasco de soro oral para a viagem, o oxigênio se houver. Fica para depois o que leva horas, como as quatro horas do plano B dentro da unidade, e o que não muda as próximas horas, como ferro, vermífugo e vacina.
A glicose merece um parágrafo próprio porque a hipoglicemia da criança doente é silenciosa e parece com a doença. A criança pequena tem pouco glicogênio guardado e consome muita glicose por quilo, sobretudo no cérebro. Doença grave aumenta o consumo; febre, vômito e recusa alimentar cortam a entrada. A glicemia cai, e a criança fica mais sonolenta, mais irritada ou convulsiona — sinais que você atribuiria à infecção. O manual do curso manda medir a glicemia capilar antes da referência quando possível, considera hipoglicemia abaixo de 60 mg/dL e manda tratar para evitá-la mesmo sem medir na malária grave, na doença febril muito grave e na desnutrição grave. No desnutrido grave soma-se a hipotermia: pouca gordura e metabolismo reduzido fazem a temperatura cair em horas, e por isso o quadro manda agasalhar a criança antes da viagem.
A diarreia desidratante numa criança que também tem uma classificação grave ilustra a ordem entre tratamentos. A desidratação piora durante o transporte, mas o plano B pede quatro horas de soro oral observado — tempo que a pneumonia grave não concede. A saída do quadro é uma soma de mecanismos: refere-se já, e o soro oral vai em goles frequentes no colo da mãe, com a amamentação mantida, repondo o que a diarreia continua levando. A exceção vai no sentido oposto e também tem mecanismo. Quando o sinal de perigo é consequência da própria desidratação — a letargia da hipovolemia, a criança que não bebe porque está seca — e não há outra classificação grave, a reidratação venosa do plano C, feita onde há acesso venoso, pode desfazer o sinal, e a criança deixa de precisar de hospital.
O último mecanismo é o menos médico e o que mais falha: o tratamento de quem vai para casa acontece sem você. O antibiótico de sete dias depende de uma mãe que meça o volume certo três vezes por dia; o soro oral depende de ela saber preparar o pacote; o retorno depende de ela entender por que voltar em dois dias se a criança melhorar. O manual do curso transforma isso em técnica — informar, mostrar, deixar a mãe praticar e fazer perguntas de verificação, que não se respondem com sim ou não. E a consulta de retorno é a rede de segurança do método: a classificação é uma aposta sobre as próximas 48 horas, e o retorno marcado por classificação é o momento de conferir se a aposta estava certa.
Como se apresenta de verdade
A criança não chega classificada. Chega com uma queixa na boca da mãe, e o trabalho da consulta é transformar essa queixa numa lista de classificações com cor. Esta seção mostra as formas em que ela chega ao método — a queixa que esconde o perigo, os sinais que você procura antes de ouvir o resto, a criança com uma cor, a criança com várias, a que volta e a que não cabe no quadro.
1. A queixa da mãe e o que ela não diz
O quadro começa com três gestos que parecem cortesia e são método: receber bem a mãe e pedir que se sente, dizer seu nome e sua função e perguntar o nome dela e o da criança; perguntar qual é o problema; e determinar se é primeira consulta ou retorno para aquele problema. A terceira pergunta muda a consulta inteira. Na primeira consulta você avalia e classifica tudo; no retorno, o propósito é outro — saber se o tratamento prescrito dias antes ajudou.
A queixa espontânea da mãe quase nunca é o sinal de perigo. Hortência falou de tosse, de febre e de cocô mole; não falou se Teodora mamava, porque Teodora mamava. Uma mãe cuja filha não mama há seis horas pode chegar dizendo que ela está com febre. Por isso os sinais de perigo são procurados em toda criança doente, sem esperar que a mãe fale deles: as perguntas feitas com as palavras que ela usa e com tempo para responder, e as observações feitas por você, com a criança na sua frente.
O manual do curso dá o cuidado com cada pergunta. Quando a mãe diz que a criança não consegue beber, peça que descreva o que acontece quando ela oferece o líquido, e se ainda houver dúvida peça que ofereça um gole ali, na sua frente. Quando diz que vomita tudo, pergunte com que frequência e se vomita a cada vez que toma algo — a criança que vomita várias vezes mas retém parte do que bebe não tem o sinal. Quando pergunta sobre convulsão, use as palavras da casa, como ataque ou espasmo, e confirme que foi nesta doença, nas últimas 72 horas.
2. Os seis sinais gerais de perigo, um a um
O quadro brasileiro de 2017 tem seis sinais gerais de perigo: três se perguntam e três se observam. Perguntam-se: não consegue beber nem mamar no peito; vomita tudo o que ingere; teve convulsão ou movimentos anormais há menos de 72 horas. Observam-se: letárgica ou inconsciente; batimento de asa do nariz ou gemido; enchimento capilar acima de 2 segundos. Qualquer um deles, sozinho, põe a criança na trilha da urgência: completar a avaliação imediatamente, dar os tratamentos prévios e referir.

Letargia não é sono. A criança letárgica está prostrada, não se interessa pelo que acontece em volta, frequentemente não olha para a mãe nem acompanha a conversa, pode ter o olhar fixo. Criança doente dorme muito; a pergunta é se ela acorda quando a mãe fala, quando é sacudida com cuidado ou quando você bate palmas, e se, acordada, se interessa. Teodora chorava forte e seguia Hortência com os olhos: irritada, não letárgica. A irritação é sinal do módulo de diarreia; a letargia é sinal de perigo.
O enchimento capilar tem técnica, e sem ela o sinal mente. Aqueça antes a extremidade, pressione por cinco segundos o leito da unha ou a eminência hipotenar e conte em quanto tempo a cor volta; se não conseguir aquecer, use uma área central. Acima de 2 segundos é enchimento prolongado — evidência precoce de choque, que costuma vir com taquicardia, pulso periférico fino e extremidades frias. Uma sala de ar-condicionado e um pé descoberto produzem enchimento lento em criança bem perfundida; uma extremidade quente não esconde o choque de verdade.
O batimento de asa do nariz é a abertura e o fechamento das narinas a cada respiração, sinal de dificuldade respiratória grave. O gemido é um som grosso na expiração; ouve-se com a criança calma, sem choro, aproximando o ouvido do nariz e da boca, e pode ser difícil de ouvir. O manual ensina a diferença pelo ouvido: som áspero na inspiração é estridor, som suave e agudo na expiração é sibilância, som grosso na expiração é gemido. Para essa criança, o quadro de tratamentos prévios manda, além do antibiótico intramuscular, manter a via aérea pérvia e dar oxigênio se houver — e oxigênio contínuo é tratamento de hospital.
3. A criança com uma cor só
A maior parte das crianças atendidas tem uma ou duas classificações, e a cor diz o que fazer. Vermelho é referir urgentemente ao hospital, depois dos tratamentos prévios que aquela linha manda. Amarelo é tratar na unidade e em casa — antibiótico, soro oral, antitérmico —, com a mãe ensinada e a data do retorno marcada. Verde é cuidado em casa, sem remédio específico, com a mãe sabendo quando voltar imediatamente.
A criança de 3 anos com tosse há quatro dias, 32 respirações por minuto, sem tiragem, sem sinal de perigo, classifica-se como não é pneumonia, verde: medidas caseiras para aliviar a tosse, orientação de quando voltar, seguimento em cinco dias se não melhorar, e investigação se a tosse passar de 14 dias. A de 9 meses com 54 respirações por minuto, sem tiragem, é pneumonia, amarela: antibiótico por sete dias e retorno em dois. Você não precisa auscultar para classificar nenhuma das duas; precisa de um relógio e da criança quieta. A régua de cada módulo — os cortes de frequência, a escolha e a dose do antibiótico, a duração — é do capítulo dono daquele problema.
A cor verde tem uma armadilha: ela não significa nenhum retorno. A criança verde volta imediatamente se piorar, se deixar de beber ou mamar ou se aparecer ou piorar a febre, e a mãe precisa sair da sala sabendo disso. O verde é o nível em que o método mais depende da conversa, porque é o nível em que a mãe mais tende a achar que não foi nada.
4. A criança com várias cores
É aqui que o quadro isolado de cada módulo deixa de bastar. Quatro formas se repetem e cada uma tem uma regra diferente. A primeira é a de Teodora: uma classificação vermelha e várias amarelas. A vermelha decide o destino, e as amarelas mudam o que acontece antes e durante a viagem — a desidratação manda soro oral em goles no caminho, a febre manda antitérmico antes de sair —, ou ficam registradas para depois, como a anemia e a vacina.
A segunda é a criança só com amarelas e verdes, que vai para casa com vários tratamentos ao mesmo tempo. O manual do curso dá duas regras para o antibiótico. Sempre que possível, um antibiótico trata as duas classificações: pneumonia e infecção aguda do ouvido saem com um só, sem duplicar a dose e sem prolongar o tratamento. Às vezes são dois: o antibiótico da pneumonia não trata a disenteria, e a criança com as duas precisa de dois. Na mesma consulta, a mãe pode receber antibiótico, soro oral, zinco, ferro e antitérmico — e o risco passa a ser a confusão, não a doença.
A terceira é a criança com sinal de perigo sem nenhuma classificação vermelha. O manual diz que é possível, embora improvável, e manda referir do mesmo jeito: o sinal de perigo é motivo suficiente. A quarta é a criança com desidratação grave e nenhuma outra classificação grave, que é a exceção do quadro: onde há acesso venoso, o plano C começa na própria unidade, e a reidratação pode desfazer os sinais de perigo e dispensar a referência. Se houver outra classificação grave junto, a exceção cai e a criança sai com soro oral em goles.
Há ainda uma regra de ordem entre módulos que muda classificação. Se a criança tem sibilância, classifica-se e trata-se a sibilância antes, e só depois se volta para classificar a tosse — porque a criança com broncoespasmo respira rápido e retrai pela obstrução, e contar a frequência antes do broncodilatador transforma crise de sibilância em pneumonia. Na sibilância grave e na doença muito grave não se espera nenhuma reclassificação: a criança é tratada e referida. O manejo da crise é do capítulo de asma.
5. A criança que volta
A consulta de retorno não é uma consulta nova que por acaso tem data marcada. Ela começa pelo mesmo gesto — sinais gerais de perigo — e depois reavalia só o problema que motivou o retorno, com as perguntas que o quadro de retorno daquela classificação traz. Na pneumonia, depois de dois dias: está respirando mais devagar? A febre baixou? Está comendo? Se apareceu tiragem, estridor em repouso ou sinal de perigo, a criança piorou e sai referida depois de nova dose de antibiótico; se a frequência continua igual, sem febre e comendo, mantém-se ou troca-se o antibiótico com novo retorno em dois dias; se a respiração diminuiu, completam-se os sete dias.
Antes de trocar um antibiótico que não funcionou, o manual manda perguntar se a criança tomou. Muitas vezes a falha é da dose — volume errado, intervalo esquecido, frasco que acabou — e não da droga; nesse caso a criança recebe uma dose na unidade, a mãe é ensinada de novo e o mesmo antibiótico continua. E se, no retorno, a criança tem um problema novo — voltou pela pneumonia e agora tem diarreia —, o manual pede reavaliação completa: sinais de perigo, sintomas principais e estado nutricional; o problema novo se classifica e trata como numa primeira consulta, e o antigo segue o quadro de retorno.
A criança que volta repetidamente à unidade pelo mesmo problema, ou que não responde ao tratamento padronizado, sai do alcance do quadro. O manual do curso é direto: nesses casos, e também quando há desnutrição grave, a criança precisa ser referida a um serviço de maior complexidade.
6. Quem não cabe no quadro
O quadro vale de 2 meses a menos de 5 anos. O lactente com menos de 2 meses tem sinais de perigo próprios, que a Caderneta da Criança separa para a família — temperatura igual ou abaixo de 35,5 °C, febre a partir de 37,5 °C, criança molinha, pele pouco elástica, pus no ouvido, urina escura, sangue nas fezes —, e tem um quadro próprio, a AIDPI Neonatal. Reconheça e remeta: a abordagem do lactente febril é do capítulo de febre sem sinais localizatórios no lactente, e a infecção grave do recém-nascido, do capítulo de sepse neonatal.
O manual do curso exclui também o trauma e as emergências graves por acidente ou ferimento, as doenças crônicas e as doenças menos comuns — elas precisam de atenção especializada, e o quadro não foi desenhado para classificá-las. A criança com doença falciforme e febre tem regra própria dentro do próprio quadro: é referida ao hospital o mais breve possível, qualquer que seja a classificação da febre.
Em área com risco de malária, o módulo de febre muda — a gota espessa ou o teste rápido entram na classificação, e há malária grave e malária entre as cores. O tratamento antimalárico segue o guia de tratamento de malária do Ministério da Saúde, que o próprio quadro indica e que este capítulo não reproduz. Se a criança viajou no último mês para região com malária, o manual manda usar a tabela de área com risco.
Como fechar o diagnóstico
No método, fechar o diagnóstico é fechar a classificação — e ela se fecha com instrumentos de sala de acolhimento, na ordem do quadro, sem exame que atrase a decisão. As seções abaixo dizem o que se mede, em que ordem, o que se verifica além dos sintomas principais, o que não se pede e o que fica escrito.
1. O que se mede, e com o quê
Balança, termômetro e relógio fazem quase toda a classificação. O peso de hoje entra na curva da caderneta e em toda dose do capítulo; a febre, no quadro, é a referida pela mãe, a percebida ao toque ou a temperatura axilar a partir de 37,5 °C, e o antitérmico entra a partir de 38,0 °C. A frequência respiratória se conta num minuto inteiro, com a criança tranquila e o tórax descoberto, e se lê contra o corte da idade: a partir de 50 por minuto entre os 2 e os 11 meses, e a partir de 40 do primeiro aniversário até antes dos 5 anos. Contada com a criança chorando, ela classifica o choro.
O oxímetro de pulso, quando existe, entra no módulo de sibilância — a saturação separa grave, moderada e leve — e ajuda a decidir oxigênio antes da transferência. O glicosímetro entra antes da referência da criança com classificação grave, se a unidade tiver: o manual do curso trata como hipoglicemia a glicemia capilar abaixo de 60 mg/dL. A hemoglobina, se houver aparelho ou exame recente, entra no módulo de palidez: abaixo de 5 g/dL é anemia grave, de 5 a 10,9 g/dL é anemia. Nenhum desses instrumentos é pré-requisito: o quadro foi desenhado para classificar sem eles.
A tiragem subcostal merece o mesmo cuidado da frequência. Ela é a retração da parte inferior da parede torácica na inspiração, claramente visível e presente o tempo todo, com a criança calma: se só aparece quando ela chora ou mama, não conta, e a retração só dos espaços entre as costelas — a intercostal — não é tiragem subcostal. O exame fino da tiragem e o que ela significa na pneumonia são do capítulo de pneumonia na criança; aqui importa que ela, sozinha, põe a criança na linha vermelha do módulo de tosse.
2. A ordem dos módulos
Depois dos sinais gerais de perigo, o quadro pergunta pelos sintomas principais numa ordem fixa: tosse ou dificuldade para respirar, diarreia, febre, problema de ouvido, dor de garganta. Em seguida, sem perguntar à mãe, verifica desnutrição, anemia e outros problemas de crescimento. Cada módulo começa com uma pergunta de sim ou não — a criança está com tosse? está com diarreia? — e só se abre se a resposta for sim. A ordem não é hierarquia de gravidade; é garantia de que nenhum módulo fica sem ser perguntado porque a queixa principal era outra.
Dentro do módulo respiratório há uma inversão que muda classificação. Se a criança tem sibilância, classifica-se e trata-se a sibilância antes, e só depois se volta à tosse; se a frequência respiratória seguir elevada depois do tratamento da crise, ela ganha também a classificação de pneumonia, e o antibiótico se soma ao broncodilatador e ao corticoide. Na sibilância grave e na doença muito grave, trata-se e refere-se sem reclassificar.
No módulo de diarreia, três perguntas geram três classificações independentes: o estado de hidratação, a duração (14 dias ou mais é diarreia persistente) e o sangue nas fezes (disenteria). Uma criança pode sair desse módulo com desidratação e disenteria ao mesmo tempo. O mesmo acontece entre módulos: a criança sai da consulta com uma classificação por módulo aberto, e é essa lista completa que decide destino e tratamento.
3. Crescimento, emagrecimento e palidez: o que se verifica sem perguntar
O módulo nutricional não depende de queixa. Em toda criança se observa o emagrecimento acentuado visível e o edema nos dois pés — qualquer um dos dois é desnutrição grave, vermelha —, se compara a palma da mão com a da mãe à procura de palidez leve ou grave, e se marca o peso na curva de peso para a idade da caderneta. Abaixo de −3 escores z é peso muito baixo; de −3 a −2, e também a curva que ficou plana ou desceu, classifica peso baixo ou ganho insuficiente; acima de +2 é peso elevado; entre −2 e +2 é peso adequado.
A tendência vale tanto quanto o ponto. Uma criança com peso na faixa adequada cuja linha ficou horizontal nos últimos três meses é ganho de peso insuficiente, com retorno em 14 dias e avaliação da alimentação — o ponto isolado não mostraria nada. Por isso o manual manda pesar a criança em toda visita e registrar na caderneta. A leitura das curvas e das escalas é do capítulo de acompanhamento do crescimento; a desnutrição grave e seu manejo, do capítulo de desnutrição energético-proteica; a investigação e o tratamento da anemia, do capítulo de anemia ferropriva.
4. Os outros problemas da mesma consulta
A consulta integrada não termina nos sintomas. Na mesma visita o quadro manda conferir a situação vacinal na caderneta, avaliar a alimentação, avaliar o desenvolvimento, avaliar a possibilidade de violência e perguntar por qualquer outro problema — uma infecção de pele, uma dor ao urinar — que se trata pelo critério clínico ou se refere se a unidade não puder tratar. O formulário de registro reserva, ainda, uma linha para as doenças de notificação compulsória.
A caderneta diz quais doses faltam, mas o formulário de registro do quadro traz impressa a lista de vacinas do calendário de 2017, e o calendário mudou desde então: a vacina a dar se confere no calendário vigente, pelo capítulo de calendário nacional de vacinação, e não na lista do formulário. A alimentação se avalia em toda criança menor de 2 anos e nas classificadas como anemia, peso muito baixo, peso baixo ou ganho insuficiente, peso elevado ou diarreia persistente. O manual permite adiar essa avaliação para o retorno quando a mãe já recebeu instruções demais — exceto no menor de 6 meses com problema de amamentação, no peso muito baixo e na diarreia persistente, em que ela não se adia.
O desenvolvimento se avalia pelos marcos da caderneta para a faixa etária e para a anterior, com o perímetro cefálico e os fatores de risco, e sai em provável atraso (referir para avaliação), alerta para o desenvolvimento ou desenvolvimento normal com fatores de risco (orientar e retornar em 30 dias) e desenvolvimento normal; a régua dos marcos é do capítulo de marcos do desenvolvimento. A violência tem módulo próprio no quadro, com quatro classificações — compatível com violência, suspeita de violência, situação de risco e não há violência —, e as duas primeiras levam à notificação e à comunicação ao Conselho Tutelar; o que se faz com cada uma é do capítulo de violência e maus-tratos, nesta apostila.
Um detalhe do módulo de violência importa para a criança com várias classificações. Criança mal cuidada em sua saúde — consulta tardia, vacinação incompleta, desnutrição, atraso de desenvolvimento — é um único item da lista de sinais, e a suspeita de violência pede dois ou mais itens diferentes. Vacina atrasada e peso baixo na mesma criança, sem mais nada, somam um item: situação de risco, não suspeita. Esta é uma leitura desta apostila sobre a estrutura do quadro, e ela não autoriza deixar de olhar: lesão, discrepância entre lesão e história ou relato espontâneo de agressão mudam a classificação na hora.
5. O que não se pede antes de referir
A classificação vermelha já é a indicação de hospital; ela não precisa de confirmação laboratorial para existir. Pedir radiografia de tórax, hemograma ou exame de urina na unidade básica antes de transferir uma criança com pneumonia grave ou doença febril muito grave troca a hora do transporte pela hora da fila do exame, e o exame que decide a internação quem pede é o hospital que vai internar. O manual do curso resume a regra: nenhum tratamento, e por extensão nenhum exame, que atrase desnecessariamente a referência.
Duas medidas à beira do leito são exceção porque mudam o que se faz nos próximos minutos e custam segundos: a glicemia capilar, que decide entre amamentação, água açucarada, sonda e glicose venosa; e a saturação de pulso, que decide oxigênio. Se a unidade não tem nenhuma das duas, a conduta não para: trata-se para evitar hipoglicemia de qualquer forma e oferece-se oxigênio se houver.
A vigilância do que não se pede vale também para a criança que vai para casa. A pneumonia amarela, a diarreia sem desidratação e a febre verde se tratam sem exame; o exame entra quando a régua do módulo manda — febre todos os dias por mais de cinco dias, tosse por mais de 14 dias, diarreia persistente — e cada uma dessas investigações é do capítulo dono.
6. O registro: formulário, prontuário e nota de referência
O formulário de registro do quadro reproduz, na primeira parte, a coluna de avaliar e classificar: você marca o que perguntou, o que observou e a classificação de cada módulo, e na segunda parte o tratamento, as recomendações e a data do retorno. O quadro lembra que todo atendimento precisa estar também no prontuário. O formulário não é burocracia: é a forma de não esquecer um módulo quando a criança chora e a mãe está com pressa.
Quando a criança é referida, o papel que vai com ela é parte do tratamento. O hospital precisa receber as classificações e os sinais que as justificaram, o peso, a hora e a dose de cada tratamento prévio, o que ficou pendente e por quê. Um antibiótico intramuscular sem hora anotada vira dose repetida ou dose esquecida; uma megadose de vitamina A não registrada vira megadose dobrada. Quando a criança vai para casa, a mãe leva escrito o que dar, quanto, quantas vezes, por quantos dias, e a data do retorno — e é esse papel que o manual pede para ver quando ela volta.
O método em fluxo, as cores que mandam e as contas das doses
O fluxo abaixo é a consulta inteira na ordem do quadro de 2017. As tabelas foram montadas com eixos próprios para a decisão que este capítulo ensina: o que cada sinal de perigo já muda antes da referência, o tratamento prévio de cada classificação vermelha, o retorno de cada classificação e a conversão das doses para as três crianças do capítulo, contra as apresentações da Rename 2024. As notas registram os erros das fontes oficiais que mudariam o que você faz, com a conta.
- 1Receber a mãe, perguntar qual é o problema e se é primeira consulta ou retorno.
- 2Procurar os seis sinais gerais de perigo em toda criança doente, antes de qualquer queixa.
- 3Havendo sinal de perigo: iniciar medidas urgentes e acionar referência/transporte. Completar rapidamente os dados que mudam o tratamento enquanto a equipe age; não esperar terminar todos os módulos ou preencher o formulário para estabilizar e encaminhar.
- 4Perguntar pelos sintomas principais na ordem: tosse ou dificuldade para respirar (sibilância primeiro), diarreia, febre, ouvido, garganta.
- 5Verificar sem perguntar: emagrecimento acentuado, edema nos dois pés, palidez palmar e peso na curva da caderneta.
- 6Conferir vacinas, alimentação, desenvolvimento, possibilidade de violência e outros problemas.
- 7Listar todas as classificações, cada uma com a sua cor.
- 8Alguma classificação vermelha: referência urgente com suporte e tratamentos prévios indicados, sem atrasar a saída por medidas que possam ser continuadas no destino. Priorize via aérea, respiração, circulação e glicemia conforme a situação, com tarefas em paralelo.
- 9Nenhuma vermelha: tratar na unidade o que é da unidade, ensinar a mãe a dar cada remédio em casa e usar um antibiótico para duas classificações quando possível.
- 10Aconselhar: alimentação e líquidos durante a doença, sinais para voltar imediatamente e a data do retorno mais próximo.
- 11Registrar no formulário e no prontuário, e entregar por escrito o que a mãe leva.
- 12No retorno: sinais de perigo primeiro, depois o quadro de retorno da classificação; problema novo se avalia como primeira consulta.
Os seis sinais gerais de perigo: como confirmar e o que cada um já muda
| Sinal | Como se confirma | O que ele muda antes de a criança sair |
|---|---|---|
| Não consegue beber nem mamar no peito | A mãe descreve o que acontece ao oferecer; na dúvida, ela oferece o peito ou um gole na sua frente; nariz entupido se limpa antes de concluir | Glicose e remédio por boca ficam incertos: antibiótico intramuscular; se não engole, leite ou água açucarada por sonda, ou glicose venosa |
| Vomita tudo o que ingere | Quantas vezes e se vomita tudo o que toma; ofereça um gole e observe; quem retém parte do líquido não tem o sinal | Nada por boca é garantido: antibiótico intramuscular; glicose por sonda ou veia; não conte com remédio oral |
| Convulsão ou movimentos anormais há menos de 72 horas | Nesta doença, com as palavras da casa, como ataque ou espasmo; inclui piscar, mastigar ou mexer as mãos de forma repetitiva | Se convulsiona agora: benzodiazepínico conforme prescrição médica, com teto de 10 mg de diazepam; glicemia capilar se houver aparelho |
| Letárgica ou inconsciente | Não acorda com a voz da mãe, com sacudida leve ou com palmas; acordada, não se interessa e não olha para a mãe | Tratar para evitar hipoglicemia, medindo se possível; primeira dose do antibiótico |
| Enchimento capilar acima de 2 segundos | Extremidade aquecida e cinco segundos de pressão no leito ungueal ou na região hipotenar; sem aquecer, área central | Reavaliar perfusão, pulsos, consciência, pressão e sinais de congestão. Se houver choque e indicação de volume, iniciar cristaloide conforme o contexto e reavaliar cada alíquota; acionar referência urgente. Enchimento capilar isolado não determina bolus. |
| Batimento de asa do nariz ou gemido | Narinas que abrem e fecham a cada respiração; som grosso na expiração, ouvido junto à boca com a criança calma | Antibiótico intramuscular, via aérea pérvia e oxigênio se houver |
Classificações vermelhas: o tratamento prévio de cada uma e quem é dono da régua
| Classificação vermelha | Tratamento prévio que o quadro manda | Capítulo dono da régua |
|---|---|---|
| Pneumonia grave ou doença muito grave | Primeira dose do antibiótico; tratar para evitar hipoglicemia; oxigênio se disponível; referir urgentemente | Pneumonia adquirida na comunidade na criança (Pneumologia Pediátrica) |
| Sibilância grave ou doença muito grave | Oxigênio se disponível; beta-2 agonista inalatório; primeira dose do corticoide; primeira dose do antibiótico; referir urgentemente | Asma na infância (Pneumologia Pediátrica) |
| Desidratação grave | Sem outra classificação grave: plano C na unidade, se houver acesso venoso. Com outra classificação grave: referir urgentemente com soro oral em goles no caminho e peito mantido | Diarreia aguda e desidratação (Gastroenterologia Pediátrica) |
| Diarreia persistente grave | Tratar a desidratação antes de referir, salvo se houver outra classificação grave; referir urgentemente | Diarreia aguda e desidratação (Gastroenterologia Pediátrica) |
| Doença febril muito grave (e malária grave, em área de risco) | Primeira dose do antibiótico; tratar para evitar hipoglicemia; antitérmico se 38,0 °C ou mais; em área de risco com gota espessa positiva, primeira dose do antimalárico; referir urgentemente | Febre sem sinais localizatórios no lactente (esta apostila) e meningites na infância (Infectologia Pediátrica) |
| Mastoidite | Primeira dose do antibiótico; analgésico; referir urgentemente | Otites e rinossinusite (Otorrinolaringologia) |
| Infecção grave de garganta | Primeira dose do antibiótico; referir urgentemente | Faringoamigdalites (Otorrinolaringologia) |
| Desnutrição grave | Prevenir, controlar e, se preciso, tratar a hipoglicemia; agasalhar contra hipotermia; megadose de vitamina A se não recebeu nos últimos 30 dias; referir urgentemente | Desnutrição energético-proteica (Nutrologia Pediátrica) |
| Anemia grave | Referir urgentemente | Anemia ferropriva na infância (Hematologia Pediátrica) |
| Compatível com violência | Acolher e escutar; tratar lesões e dor; referir com urgência; notificar; comunicar ao Conselho Tutelar | Violência e maus-tratos infantis (esta apostila) |
| Provável atraso no desenvolvimento | Referir para avaliação neuropsicomotora — vermelho que não pede ambulância | Marcos do desenvolvimento (Puericultura e Desenvolvimento) |
Retorno por classificação: o prazo e o que se decide no dia
| Classificação | Retorno | O que se decide no retorno |
|---|---|---|
| Pneumonia | 2 dias | Respiração mais lenta, sem febre e comendo: completar 7 dias. Igual: manter ou trocar o antibiótico e voltar em 2 dias. Tiragem ou sinal de perigo: dose de antibiótico e referir |
| Sibilância moderada | 2 dias | Melhorou: completar 5 dias de beta-2 e o corticoide. Igual: referir para investigar. Crise grave ou sinal de perigo: tratar e referir |
| Sibilância leve | 2 dias, se não melhorar ou se estiver com corticoide | Mesma leitura da moderada |
| Disenteria | 2 dias | Evacuações, sangue, febre e alimentação; desidratação que apareceu se trata |
| Doença febril | 2 dias, se a febre persistir | Reclassificar; febre todos os dias por mais de 5 dias pede investigação. Lactente sem foco segue o retorno de 24 horas do capítulo de febre |
| Possível infecção aguda do ouvido | 2 dias | Dor que persiste sem otoscopia possível: encaminhar para otoscopia |
| Infecção aguda do ouvido | 2 dias | Sinal de perigo, tumefação atrás da orelha ou febre de 38,5 °C ou mais: piorou, referir |
| Infecção moderada de garganta | 2 dias | Dor que desapareceu: completar 10 dias se estiver com amoxicilina. Gânglios iguais: trocar o antibiótico ou referir |
| Malária | 3 dias | Pelo guia de tratamento de malária do Ministério da Saúde |
| Infecção crônica do ouvido | 5 dias | Secreção que persiste com a mãe secando corretamente: referir para avaliação especializada. Sinal de perigo, tumefação atrás da orelha ou febre de 38,5 °C ou mais: piorou, referir urgentemente |
| Diarreia persistente | 5 dias | Três ou mais evacuações amolecidas por dia: nova avaliação completa; perdeu peso, referir; não perdeu, novo retorno em 5 dias. Melhorou: alimentação habitual para a idade e zinco até completar 10 dias |
| Peso muito baixo; problema de alimentação | 5 dias | Peso, adesão às orientações de alimentação; perdendo peso apesar delas: referir |
| Não é pneumonia; desidratação e sem desidratação; qualquer outra doença | 5 dias, se não melhorar | Reavaliar como a classificação original manda; tosse além de 14 dias pede investigação |
| Suspeita de violência | 7 dias | Reavaliação da criança e da família, com a rede de proteção já acionada |
| Anemia | 14 dias | Está tomando o ferro? Mais ferro por dois meses, com revisão mensal, até completar 3 a 4 meses |
| Peso baixo ou ganho insuficiente; peso elevado | 14 dias | Pesar e rever a alimentação; mantendo o peso, reforçar e voltar em 14 dias |
| Alerta para o desenvolvimento ou normal com fatores de risco; situação de risco para violência | 30 dias | Reavaliar marcos ou a situação da família; sinais de alerta antes disso trazem a criança antes |
Conversão das doses do capítulo contra a Rename 2024 (Teodora 8,6 kg; Clarice 8,9 kg; Arlindo 14 kg)
| Tratamento e apresentação | Dose por quilo e teto | Teodora, 8,6 kg | Clarice, 8,9 kg | Arlindo, 14 kg |
|---|---|---|---|---|
| Benzilpenicilina procaína + potássica 300.000 + 100.000 UI, pó para suspensão injetável (intramuscular) | 50.000 UI/kg por dose; teto de 400.000 UI | 430.000 UI calculadas: 400.000 UI, o frasco inteiro | Não se aplica (vai para casa) | 700.000 UI calculadas: 400.000 UI, o frasco inteiro |
| Ceftriaxona pó 250 mg, 500 mg ou 1 g (intramuscular, antes da referência) | 100 mg/kg em dose única; teto de 2 g; volume pelo diluente da bula | 860 mg: frasco de 1 g, desprezando 140 mg | Não se aplica | 1.400 mg: frascos de 1 g e de 500 mg, desprezando 100 mg |
| Amoxicilina 50 mg/mL (250 mg/5 mL), suspensão oral | 50 mg/kg/dia de 8 em 8 horas, pela régua do capítulo de pneumonia | 143 mg = 2,9 mL de 8 em 8 horas, se a via oral for a escolhida | 148 mg = 3,0 mL de 8 em 8 horas; 7 dias = 63 mL | 233 mg = 4,7 mL de 8 em 8 horas |
| Paracetamol 200 mg/mL, solução oral em gotas | 1 gota/kg (10 mg/kg) se 38,0 °C ou mais, de 6 em 6 horas; no máximo 4 doses em 24 horas | 9 gotas = 90 mg | 9 gotas = 90 mg | 14 gotas = 140 mg |
| Dipirona 500 mg/mL, solução oral em gotas | 1 gota a cada 2 kg (12,5 mg/kg), de 6 em 6 horas; no máximo 4 doses em 24 horas; não usar abaixo de 3 meses ou de 5 kg (bula) | 4 gotas = 100 mg | 4 gotas = 100 mg | 7 gotas = 175 mg |
| Sais para reidratação oral, pó para solução oral | Plano B: cerca de 75 mL/kg em 4 horas. Plano A: 100 a 200 mL depois de cada evacuação aquosa a partir de 1 ano | 645 mL em 4 horas, perto de 160 mL por hora, em goles no caminho | 100 a 200 mL depois de cada evacuação aquosa | Não se aplica |
| Sulfato de zinco 4 mg/mL, xarope, ou 10 mg, comprimido mastigável | Até 6 meses, 10 mg/dia; acima de 6 meses, 20 mg/dia; 10 dias | 20 mg = 5 mL uma vez ao dia, a partir de quando o hospital ou o retorno iniciar | 20 mg = 5 mL ou 2 comprimidos uma vez ao dia; 10 dias = 50 mL | Não se aplica |
| Sulfato ferroso 25 mg/mL de ferro elementar, solução oral (20 gotas = 1 mL) | Anemia: 3 mg/kg/dia de ferro elementar por 14 dias até o retorno | 20 gotas = 25 mg por dia, depois da alta | 20 gotas = 25 mg por dia | Não se aplica |
| Albendazol 40 mg/mL, suspensão oral, ou 400 mg, comprimido mastigável | Anemia, a partir de 1 ano e sem dose nos últimos 6 meses: 1 a 2 anos, 200 mg; acima de 2 anos, 400 mg; repetir em 15 dias | 5 mL = 200 mg, depois da alta | 10 mL = 400 mg | Não se aplica |
| Água com açúcar a 10% (20 g de açúcar em 200 mL de água potável) | Criança alerta, com deglutição segura: oferecer leite ou aporte enteral conforme o protocolo. Incapacidade de deglutir ou proteger a via aérea: corrigir hipoglicemia por via IV/IO; não administrar líquido oral ou por sonda sem avaliar a segurança. | Não se aplica: mama no peito | Não se aplica | 30 a 50 mL antes de sair, se não aceitar leite |
| Glicose 10%, solução injetável | Se houver veia: 5 a 10 mL/kg, depois manutenção com soro glicosado a 10% | 43 a 86 mL | Não se aplica | 70 a 140 mL |
| Soro fisiológico 0,9% ou Ringer lactato | Choque com indicação de expansão: cristaloide em alíquotas individualizadas, com reavaliação; considerar cardiopatia, congestão e desnutrição grave. Não usar enchimento capilar isoladamente para indicar 20 mL/kg. | 172 mL | Não se aplica | 280 mL |
| Diazepam 5 mg/mL, solução injetável | Convulsão: 0,3 a 0,5 mg/kg venoso ou retal, conforme prescrição médica; teto de 10 mg | 2,6 a 4,3 mg = 0,5 a 0,9 mL | 2,7 a 4,5 mg = 0,5 a 0,9 mL | 4,2 a 7 mg = 0,8 a 1,4 mL |
| Palmitato de retinol, cápsula de 100.000 UI ou de 200.000 UI | Desnutrição grave antes da referência: 6 a 11 meses, 100.000 UI; 12 a 59 meses, 200.000 UI | Não se aplica (sem desnutrição grave) | Não se aplica | Não se aplica |
Registro demonstrado — Arlindo, 3 anos, 14 kg
| Campo | Registro preenchido | Consequência |
|---|---|---|
| Sinais gerais de perigo | Letárgico: abre os olhos apenas ao estímulo; febre e tosse | Atendimento urgente e referência; não esperar a febre baixar. |
| Respiração | FR 36/min; sem tiragem descrita | Sinal geral de perigo mantém classificação grave apesar da FR. |
| Ouvido | Secreção purulenta há menos de 14 dias | Registrar infecção aguda do ouvido junto das classificações graves. |
| Avaliação integrada | Peso descrito como adequado; completar dados de alimentação, desenvolvimento e vacinas conforme possível | Não inventar achados ausentes; pendências seguem no relatório. |
| Tratamento antes da saída | Suporte conforme exame; antibiótico indicado conferido por peso; glicemia e via segura | Letargia exige avaliar proteção da via aérea antes de qualquer líquido oral. |
| Destino e reavaliação | Transporte acionado; estado clínico revisto na espera | Registrar horários, doses, resposta e contato da equipe receptora. |
| Depois da alta | Consulta para rever recuperação, alimentação, crescimento e pendências | A consulta de retorno completa o cuidado longitudinal. |
Megadose de vitamina A antes da referência (quadro de 2017, p. 24). A tabela imprime 6 a 11 meses, 100.000 UI, e 1 a 59 meses, 200.000 UI — conferido na página impressa. Conta: a criança de 8 meses cabe nas duas linhas e pode sair com 200.000 UI, o dobro da dose da idade; a de 4 meses, que o quadro atende desde os 2 meses, cai na linha de 200.000 UI, numa idade em que o programa nacional não usa cápsula nenhuma. O Caderno dos programas nacionais de suplementação de micronutrientes, 2ª edição (2025, Quadro 6), fixa 100.000 UI dos 6 aos 11 meses e 200.000 UI dos 12 aos 59 meses. Leia a segunda linha como 12 a 59 meses; abaixo de 6 meses, a dose do lactente desnutrido é decisão do hospital, pela régua do capítulo de desnutrição.
Tabela de retorno do quadro de 2017 (p. 33). A infecção aguda do ouvido aparece duas vezes, na linha de 2 dias e na de 5 dias, e a infecção crônica do ouvido não aparece — conferido na página impressa. O próprio quadro, na classificação (p. 15) e no retorno (p. 46), manda 2 dias para a aguda e 5 dias para a crônica. Conta do dano: quem marca pela tabela a otite aguda em uso de antibiótico para o quinto dia perde o retorno do segundo dia, em que se decide manter, trocar ou referir; e a otite crônica fica sem data. A tabela deste capítulo segue a classificação e o retorno: aguda em 2 dias, crônica em 5.
Saturação de 95% no módulo de sibilância (quadro de 2017, p. 9). A sibilância moderada traz saturação de 91 a 95% e a leve, 95% ou mais — conferido na página impressa. Conta: a criança com 95% em ar ambiente e sem outro sinal pertence às duas linhas. Pela moderada, recebe beta-2 inalatório até três vezes na unidade, corticoide oral e retorno em 2 dias; pela leve, vai para casa com beta-2 e só recebe corticoide se já usava broncodilatador havia 24 horas. O capítulo de asma na infância escreve acima de 95% para a leve. Esta apostila lê 95% como moderada, coerente com ele e com o lado que mantém a criança em observação na unidade.
Profilaxia de ferro na nota do quadro de 2017 (p. 23). A nota atribui ao Programa Nacional de Suplementação de Ferro a dose de 1 a 2 mg/kg/dia, todos os dias, dos 6 aos 24 meses. O Caderno dos programas nacionais de suplementação de micronutrientes, 2ª edição (2025, Quadro 2), fixa para as crianças de 6 a 23 meses 10,0 a 12,5 mg de ferro elementar por dia, em dois ciclos de três meses de uso com três de pausa. Conta, criança de 10 kg, em seis meses de calendário: pela nota, 10 a 20 mg todos os dias, até 3.600 mg; pelo programa vigente, 900 a 1.125 mg nos 90 dias de uso. A nota ficou superada pela norma mais nova; o esquema vigente é o do capítulo de micronutrientes. A tabela de 3 mg/kg/dia do mesmo quadro é tratamento de anemia, não profilaxia.
Zinco na diarreia (quadro de 2017, p. 24). O quadro manda manipular sulfato ou acetato de zinco em farmácia, na diluição de 1%, em que 1 mL tem 10 mg. A Rename 2024 traz sulfato de zinco 4 mg/mL em xarope e 10 mg em comprimido mastigável, os dois no Componente Básico. Conta, 20 mg/dia acima de 6 meses: 2 mL do manipulado, mas 5 mL do xarope da Rename. Quem copia o volume do quadro para o xarope entrega 8 mg, dois quintos da dose; para os 10 mg/dia de até 6 meses, são 2,5 mL do xarope. Prescreva a apresentação da rede, em miligramas, e converta pelo frasco que a mãe vai receber.
Dipirona no quadro de analgésico e antitérmico (quadro de 2017, p. 22). A coluna da dipirona já abre na primeira linha de peso, que vai de 4 a 7 kg e dá de 2 a 4 gotas, e o manual atende desde os 2 meses. A bula das gotas de 500 mg/mL, conferida pelo capítulo de rinofaringite aguda na infância, proíbe o fármaco antes dos 3 meses de vida e em quem pesa menos de 5 kg. Conta: um lactente de 2 meses com 4,5 kg cai na primeira linha e receberia 2 gotas, 50 mg, cerca de 11 mg/kg — dose que parece correta e está fora do que a bula permite pelos dois critérios. Toda a faixa de 4 a 5 kg e toda criança de 2 meses ficam de fora. Neste capítulo, a dipirona só entra a partir de 3 meses e 5 kg; abaixo disso, o antitérmico é o paracetamol da mesma tabela.
Diluente da penicilina G procaína (quadro de 2017, p. 25; manual do curso, p. 104). O quadro manda acrescentar 3 mL de água destilada ao frasco de 400.000 UI; o manual do curso, 2 mL. Conta, criança de 5 kg (250.000 UI): pela diluição de 3 mL, cerca de 133.000 UI/mL e 1,9 mL; pela de 2 mL, 200.000 UI/mL e 1,25 mL. Quem calcula por uma e reconstitui pela outra injeta 167.000 ou 375.000 UI — dois terços ou uma vez e meia a dose. A partir de 8 kg o frasco inteiro é a dose e a diferença some; abaixo disso, calcule pela concentração final declarada na bula do frasco que está na sua mão.
Volume de amoxicilina no quadro de 2017 (p. 21). O cabeçalho diz 50 mg/kg/dia de 8 em 8 horas para a suspensão de 250 mg/5 mL, mas a coluna de volumes — 2,0 a 3,5 mL para 4 a 7 kg — corresponde a 25 mg/kg por tomada, que é a dose de duas tomadas diárias. Dado três vezes ao dia, o volume da tabela entrega 75 mg/kg/dia. O achado já está registrado no capítulo de pneumonia na criança e volta aqui porque é nessa tabela que se escolhe o antibiótico que cobre duas classificações. A conversão deste capítulo parte da dose diária em miligramas e só depois vai para mililitros.
Diazepam antes da referência (quadro de 2017, p. 26; manual do curso, p. 106). A linha manda 0,3 a 0,5 mg/kg por via venosa ou retal, conforme prescrição médica, sem dose máxima. Conta: a criança de 4 anos com 24 kg, dentro da faixa do quadro, recebe até 12 mg pela linha impressa, acima do teto de 10 mg por dose adotado pelo capítulo de crise febril. Todo cálculo de benzodiazepínico deste capítulo leva o teto de 10 mg; o manejo da crise é daquele capítulo.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo acompanha Teodora da porta do consultório à ambulância e, depois da alta, de volta à unidade. Ela é a criança com uma classificação vermelha e várias amarelas — a forma em que o método mais erra. A outra forma, a criança com várias classificações que vai para casa, está no raciocínio em voz alta, com Clarice; a criança em que um único sinal de perigo muda três módulos está no caso para completar.
Uma nota sobre as prescrições. Toda dose sai do peso de hoje, 8,6 kg, em miligramas ou unidades por dia, e só depois vira gota, mililitro ou frasco pela apresentação da Rename 2024, e todas essas contas foram reunidas na tabela de conversão do bloco de fluxos e tabelas. Onde o quadro de 2017 tem erro que mudaria a dose, a linha segue a correção registrada nas notas.
Minuto 0 — receber, perguntar, pesar
Teodora entra já pesada e com a temperatura medida, e a tentação é pular direto para o tórax. Os três primeiros gestos do quadro custam trinta segundos e organizam o resto: quem é a mãe, qual é o problema e se é a primeira vez que a criança vem por ele. Hortência conta a história em ordem de susto — tosse, febre, cocô mole —, e você a escreve em ordem de módulo no formulário. É primeira consulta: tudo vai ser avaliado e classificado.
Prescrição- Receber Hortência, dizer o próprio nome e a função, perguntar o nome dela e o da criança
- Perguntar qual é o problema e se é primeira consulta ou retorno para ele: primeira consulta
- Registrar no formulário e na caderneta o peso de 8,6 kg e a temperatura axilar de 38,6 °C
Minuto 2 — os seis sinais gerais de perigo, antes do estetoscópio
Três perguntas e três olhares, nessa ordem, em toda criança doente. Teodora mama quando a mãe oferece o peito, não vomita tudo, não teve ataque nem espasmo; chora forte e segue a mãe com os olhos; o enchimento capilar, com o dedo aquecido na sua mão e cinco segundos de pressão, volta em 2 segundos; não há batimento de asa do nariz nem gemido. Nenhum sinal geral de perigo. Se houvesse um, a consulta mudaria de ritmo agora: suporte e acionamento da referência agora, com avaliação rápida das demais informações que mudam o cuidado. A conclusão de todos os módulos não é condição para iniciar medidas urgentes ou transferir.
Prescrição- Pedir que Hortência ofereça o peito na sua frente: Teodora mama — sem o sinal
- Perguntar se vomita tudo o que toma e se teve ataque ou espasmo nesta doença: não
- Observar consciência, enchimento capilar com a extremidade aquecida, narinas e gemido: sem sinal
- Anotar no formulário: sem sinal geral de perigo
Minuto 5 — os sintomas principais, módulo a módulo
Com a criança quieta no colo e o tórax descoberto, a contagem de um minuto dá 56 respirações; com 1 ano e 2 meses, o corte é 40, e ela passa dele com folga. A tiragem subcostal é visível e está presente em todas as inspirações, não só no choro. Não há sibilância nem estridor. A tosse abre a primeira classificação vermelha. A diarreia tem dois dias e nenhum sangue, e dois sinais amarelos se somam — irritada, olhos fundos, bebe com avidez, prega que volta lentamente. A febre não tem rigidez de nuca, petéquias nem abaulamento de fontanela, numa área sem risco de malária. Ouvido e garganta não têm queixa, e os módulos não se abrem. Sem emagrecimento acentuado e sem edema nos pés, a palma pálida sem chegar ao branco classifica anemia, e o ponto do peso dentro da faixa adequada completa a lista.
Prescrição- Tosse: 56 respirações por minuto e tiragem subcostal — pneumonia grave ou doença muito grave (vermelha)
- Diarreia há 2 dias, sem sangue: irritada, olhos fundos, bebe avidamente, prega lenta — desidratação (amarela); não é persistente nem disenteria
- Febre de 38,6 °C sem rigidez de nuca, petéquias ou abaulamento de fontanela, área sem risco de malária — doença febril (verde)
- Palidez palmar leve — anemia (amarela); peso para a idade entre −2 e +2 escores z — peso adequado (verde)
Minuto 10 — os outros problemas, depressa, e a lista na mesa
A página de vacinas tem as doses dos 12 meses em branco. Hortência explica que Teodora estava gripada, sem febre, no mês do aniversário, e a sala de vacina pediu que voltasse depois — doença aguda benigna sem febre, que o capítulo de calendário nacional de vacinação lista entre as falsas contraindicações —, e ela não voltou. No módulo de violência, vacinação incompleta é exemplo do item criança mal cuidada em sua saúde, mas o item pede julgamento, e aqui não há descuido: há uma dose adiada pelo serviço. Sem lesão, sem discrepância, sem relato. Hoje a vacina não se dá — não é tratamento prévio e não pode atrasar a saída —, e fica escrita como pendência. A avaliação da alimentação e do desenvolvimento também vai para o retorno, e fica escrita. A lista está na mesa, e ela tem uma cor que manda.
Prescrição- Vacinas dos 12 meses: registrar como pendência no formulário e na nota de referência; não vacinar antes de sair
- Violência: nenhum item — sem lesão, sem discrepância entre lesão e história, sem relato; dose adiada pelo serviço, não por descuido
- Alimentação e desenvolvimento: adiados para o retorno e anotados como pendentes
- Lista final: pneumonia grave ou doença muito grave (vermelha); desidratação (amarela); anemia (amarela); doença febril (verde); peso adequado (verde); vacinas atrasadas
Minuto 12 — a decisão: a vermelha manda, e o telefone vem antes da injeção
Teodora vai para o hospital, e cada classificação restante muda o que acontece até lá. A desidratação, que numa criança sem outra classificação grave ficaria quatro horas no plano B dentro da unidade, com outra classificação grave vira soro oral em goles durante a espera e o trajeto. A doença febril pede antitérmico agora. A anemia e a vacina não pedem nada nesta manhã além de ficar escritas. Chame o transporte assim que a cor vermelha aparece: os tratamentos prévios acontecem enquanto a ambulância vem, e nenhum deles atrasa a saída. Esta ordem — telefone primeiro — é a leitura desta apostila da regra do manual do curso de não dar tratamento que retarde a referência. O que não se faz é tão parte da conduta quanto o que se faz.
Prescrição- Acionar o transporte pela central de regulação do município assim que a classificação vermelha aparecer
- Não iniciar as 4 horas do plano B na unidade; o soro oral vai em goles até a ambulância chegar e durante a viagem
- Não pedir radiografia nem hemograma; não prescrever xarope para tosse; não dar ferro, vermífugo, zinco ou vacina antes de sair
- Não esperar a confirmação da vaga para dar a primeira dose do antibiótico
Minuto 15 — os tratamentos prévios, na ordem
As classificações indicam tratamentos prévios, mas a prioridade clínica organiza a execução. Se há hipoxemia, choque ou alteração de consciência, suporte respiratório, circulatório e avaliação da glicemia não aguardam a injeção de antibiótico. Na Teodora, confira a dose e a apresentação do esquema pré-referência enquanto mantém suporte e transporte acionado. Ofereça peito ou solução oral somente se consciente, com deglutição segura e sem contraindicação respiratória. Antitérmico trata desconforto e não deve atrasar a saída. A equipe registra o que foi administrado e a resposta.
Prescrição- Benzilpenicilina procaína + potássica 400.000 UI (50.000 UI/kg = 430.000 UI calculadas; teto de 400.000 UI): o frasco inteiro, reconstituído pela bula, por via intramuscular profunda no vasto lateral da coxa — anotar a hora
- Alternativa da mesma tabela: ceftriaxona 100 mg/kg = 860 mg por via intramuscular (frasco de 1 g), teto de 2 g
- Prevenir hipoglicemia: Hortência amamenta Teodora antes de sair e sempre que ela quiser na espera e no trajeto
- Paracetamol 200 mg/mL: 9 gotas (90 mg, cerca de 10 mg/kg) por via oral agora, por temperatura de 38,6 °C; nova dose só depois de 6 horas, no máximo 4 doses em 24 horas
- Soro de reidratação oral em goles frequentes, de copo ou colher, desde já; se vomitar, esperar 10 minutos e recomeçar mais devagar; peito mantido
- Oxigênio, se a unidade tiver, até a ambulância chegar — a meta de saturação é a do capítulo de pneumonia na criança
Minuto 30 — a nota de referência e a saída
O papel que vai com Teodora é continuação do tratamento. O hospital que a recebe não viu os sinais que você viu, não sabe a hora da penicilina e não sabe que existe uma anemia esperando. Escreva as classificações com os sinais que as justificaram, o peso, a hora e a dose de cada tratamento, quanto soro oral ela aceitou e o que ficou pendente. E ensine Hortência a ser a enfermeira do trajeto: goles de soro oral, peito à vontade, e três mudanças que ela deve contar à equipe da ambulância na hora em que acontecerem — parou de mamar, ficou mais sonolenta, começou a gemer. A meta do plano B para 8,6 kg seria cerca de 650 mL em quatro horas, perto de 160 mL por hora; no trajeto não se persegue o número, oferece-se sem parar e anota-se o que entrou.
Prescrição- Nota de referência: classificações e sinais (56 respirações por minuto, tiragem subcostal, olhos fundos, prega lenta, palidez leve, 38,6 °C), peso de 8,6 kg, hora e dose da penicilina procaína e do paracetamol, volume de soro oral aceito
- Pendências na nota: anemia sem ferro iniciado; doses de vacina dos 12 meses; alimentação e desenvolvimento não avaliados
- Telefone da unidade na nota, pedindo a contrarreferência na alta
- Hortência leva a caderneta e o soro oral preparado, e sabe o que avisar à equipe se Teodora parar de mamar, ficar mais sonolenta ou começar a gemer
Dia 6 — o retorno depois da alta: a consulta que fecha o que ficou aberto
Teodora ficou três dias internada e voltou para casa com antibiótico oral para completar o tratamento e a contrarreferência do hospital. Na unidade, a consulta recomeça pelos sinais gerais de perigo — nenhum — e segue o plano da alta para a pneumonia. Ela respira mais devagar, está sem febre e comendo, e a diarreia parou. Agora é a vez do que a manhã da referência deixou escrito. A palidez leve continua: anemia, com ferro por 14 dias e o vermífugo, porque ela tem mais de 1 ano e não recebeu dose nos últimos seis meses. A alimentação se avalia e se aconselha para a idade, o desenvolvimento se confere pelos marcos da caderneta, e as vacinas atrasadas se põem em dia pela régua do capítulo de calendário. O retorno seguinte é o da classificação de prazo mais longo que ficou aberta.
Prescrição- Sinais gerais de perigo: nenhum; pneumonia reavaliada pelo plano da alta, conferindo quanto antibiótico resta no frasco e se a dose está sendo dada
- Sulfato ferroso 25 mg/mL de ferro elementar: 20 gotas (25 mg, cerca de 2,9 mg/kg) por via oral uma vez ao dia, no intervalo das refeições, por 14 dias até o retorno; avisar que as fezes escurecem e escovar os dentes depois
- Albendazol 40 mg/mL: 5 mL (200 mg) por via oral em dose única na unidade, com a segunda dose marcada para daqui a 15 dias
- Avaliar a alimentação e aconselhar para a idade; conferir os marcos do desenvolvimento na caderneta
- Vacinas dos 12 meses: atualizar pelo calendário vigente, na régua do capítulo de calendário nacional de vacinação
- Retorno em 14 dias pela anemia; se estiver tomando o ferro, mais ferro por dois meses, com revisão mensal, até completar 3 a 4 meses
Como saber se está funcionando
No método, reavaliar tem dois tempos. O primeiro é curto e acontece dentro da unidade, com a criança vermelha esperando a ambulância: a classificação de agora pode mudar antes de ela sair, e a mudança muda o tratamento prévio. O segundo é o retorno marcado da criança que foi para casa, que é onde o quadro confere se a aposta das classificações amarelas estava certa. Os parâmetros abaixo cobrem os dois.
Esperado: Nenhum aparece: a criança mama, chora, acompanha a mãe, o enchimento capilar fica em até 2 segundos e não há gemido nem batimento de asa do nariz
Se não melhora: Sinal novo exige reavaliação imediata e comunicação à regulação. Enchimento capilar prolongado pede avaliação conjunta da perfusão e de congestão, sem expansão automática. Rigidez de nuca, petéquias ou fontanela abaulada ampliam a suspeita de doença grave; gemido exige avaliação respiratória e suporte indicado. Registre evolução, tratamento e horário.
Esperado: Mama pelo menos uma vez antes de sair; glicemia capilar igual ou acima de 60 mg/dL, pela régua do manual do curso
Se não melhora: Se deixou de mamar, reavalie imediatamente consciência, respiração e glicemia. Com deglutição segura, pode receber aporte enteral conforme o protocolo. Sem proteção da via aérea, suspenda oferta oral e não use sonda como solução automática: corrija hipoglicemia por via IV/IO, com dose e concentração conferidas, monitorização e transporte assistido.
Esperado: Goles aceitos sem vômito e volume anotado; a referência do plano B, cerca de 75 mL/kg em 4 horas (perto de 160 mL por hora para 8,6 kg), orienta sem virar meta no trajeto
Se não melhora: Vomitou: esperar 10 minutos e recomeçar mais devagar. Deixou de beber, ficou letárgica ou o enchimento capilar passou de 2 segundos: a desidratação virou grave numa criança que já tem outra classificação grave — acesso venoso e expansão enquanto a ambulância vem, e aviso à regulação.
Esperado: Temperatura em queda e criança mais confortável, mamando e interagindo
Se não melhora: Febre que não cede não autoriza nova dose antes de 6 horas. O que pesa é o comportamento: criança que continua prostrada com a temperatura já mais baixa está mostrando gravidade, e a pergunta a refazer é a da letargia — que, presente, é sinal geral de perigo.
Esperado: Frequência e tiragem sem piora; saturação na meta do capítulo de pneumonia na criança, com oxigênio se a unidade tiver
Se não melhora: Batimento de asa do nariz ou gemido que aparecem são sinais gerais de perigo: via aérea pérvia, oxigênio e aviso à regulação de que a criança piorou.
Esperado: Respiração mais lenta, sem febre e comendo: completar os 7 dias de antibiótico
Se não melhora: Frequência igual, sem febre e comendo: perguntar se tomou, quanto e como; se a falha foi de dose, dar uma dose na unidade, reensinar e manter o mesmo antibiótico; se tomou certo, trocar pelo antibiótico de segunda linha e voltar em 2 dias. Tiragem, estridor em repouso ou sinal geral de perigo: dose do antibiótico e referência urgente.
Esperado: Está tomando todos os dias, com as fezes escurecidas; recebe mais ferro e segue por mais dois meses, com revisão mensal, até completar 3 a 4 meses
Se não melhora: Não está tomando: descobrir por quê — gosto, dente escuro, fezes, frasco que acabou —, reensinar e recomeçar. Palidez que chega ao grave, ou anemia que não responde ao tratamento completo: a investigação é do capítulo de anemia ferropriva na infância.
Onde o erro machuca
O dano: A mãe fala de febre e não fala que a criança parou de mamar há seis horas. Quem começa pelo termômetro e pelo estetoscópio prescreve antitérmico e manda para casa a criança cujo único aviso de meningite, de septicemia ou de hipoglicemia era justamente o sinal que ninguém procurou. O sinal de perigo não aparece na queixa porque a mãe não sabe que ele é perigo.
Como pegar a tempo: Faça as três perguntas e os três olhares em toda criança doente antes de encostar o estetoscópio, e escreva no formulário também quando estiverem ausentes. O registro do negativo é o que prova que você procurou.
O dano: A criança sai referida por pneumonia grave sem soro oral para a viagem, porque ninguém classificou a desidratação; o desnutrido grave viaja sem agasalho e sem glicose porque a pressa parou no módulo de tosse; o hospital recebe uma nota com uma classificação e descobre as outras horas depois. O vermelho decide o destino, mas as outras cores decidem o que acontece até lá.
Como pegar a tempo: Havendo sinal de perigo ou classificação vermelha, a avaliação continua — só que em minutos. Todos os módulos, depressa, porque cada classificação pode acrescentar um tratamento prévio.
O dano: Quatro horas de plano B antes de chamar a ambulância, uma radiografia pedida para confirmar a pneumonia, a primeira dose do antibiótico guardada até a vaga ser confirmada. Cada uma dessas decisões parece cuidado e todas trocam tempo de hospital por tempo de espera, com a infecção progredindo e a glicose caindo.
Como pegar a tempo: Chame o transporte assim que a cor vermelha aparece e dê só os tratamentos prévios — os que perdem valor se esperarem e custam minutos. Plano B de quatro horas, exame, ferro, vermífugo e vacina não entram antes da saída.
O dano: A criança com pneumonia e infecção aguda do ouvido sai com duas receitas de amoxicilina, uma de cada módulo, e toma o dobro da dose; a criança com pneumonia e disenteria sai só com amoxicilina, que não trata a disenteria, e a diarreia com sangue segue sem antibiótico eficaz. Nos dois casos cada módulo foi seguido à risca, e a criança foi mal tratada.
Como pegar a tempo: Liste todas as classificações que pedem antibiótico antes de escrever a receita. Se um fármaco cobre todas, é um só, sem somar dose nem prolongar o tratamento; se não cobre, são dois. A dose e a duração de cada um vêm do capítulo dono.
O dano: Os quadros oficiais têm armadilhas de volume que a pressa não vê: a coluna de amoxicilina que, dada de 8 em 8 horas, entrega 75 mg/kg/dia; os 2 mL de zinco manipulado copiados para o xarope da Rename, que viram 8 mg em vez de 20; a megadose de 200.000 UI de vitamina A numa criança de 8 meses; a dipirona num lactente de 4,5 kg que a bula não permite.
Como pegar a tempo: Calcule sempre a dose diária em miligramas ou unidades pelo peso de hoje, confira faixa de idade e teto, e só então converta pela concentração do frasco que a família vai receber. As contas deste capítulo estão na tabela de conversão.
O dano: A mãe mede o antibiótico na colher de sopa, prepara o soro oral com metade da água, não sabe que a respiração rápida é motivo para voltar na mesma noite, e o retorno de dois dias vira volta quando piorar. A pneumonia que o quadro classificou certo evolui em casa porque o tratamento que existia no papel não chegou à criança.
Como pegar a tempo: Informe, mostre e deixe a mãe praticar. Faça perguntas de verificação — em que horário vai dar, até que dia, me mostre na seringa —, entregue por escrito a data do retorno mais próximo e os sinais para voltar imediatamente.
O que dizer ao paciente e à família
Aconselhar a mãe é a terceira coluna do quadro e é o tratamento de quem vai para casa. O manual do curso dá a técnica em três passos — informar, mostrar um exemplo, deixar a mãe praticar — e acrescenta a peça que mais falta nas consultas reais: a pergunta de verificação, que não se responde com sim ou não. Entendeu? produz sim de quem entendeu e de quem ficou com vergonha de dizer que não. Em que horário a senhora vai dar? produz a resposta que mostra o que ela sabe.
Quando a lista de instruções fica longa, a técnica pede prioridade. O manual permite deixar para o retorno a avaliação da alimentação e o aconselhamento sobre ela se a mãe já recebeu instruções demais — exceto no menor de 6 meses com problema de amamentação, no peso muito baixo e na diarreia persistente. O que não se adia é o que mantém a criança viva até o retorno: o remédio que trata a classificação amarela, o soro oral de quem tem diarreia, os sinais para voltar imediatamente e a data do retorno.
Duas listas de sinais chegam à família, e elas não brigam. A do quadro diz quando voltar imediatamente à unidade: não consegue beber nem mamar, piorou, a febre apareceu ou aumentou; respiração rápida ou difícil em quem tem tosse; sangue nas fezes ou dificuldade para beber em quem tem diarreia. A da Caderneta da Criança diz o que é perigo e orienta ligar para o 192 se houver dificuldade de chegar ao serviço. Uma serve para a próxima hora, a outra para a noite em que a unidade está fechada — mostre as duas, e aponte a página da caderneta.
Explicar por que Teodora vai para o hospital, a uma mãe que chegou achando que era só uma pneumonia
“Hortência, a senhora fez muito bem em trazer a Teodora hoje. Ela está com uma pneumonia que está fazendo ela trabalhar demais para respirar — está vendo essa parte da barriga afundando embaixo das costelas cada vez que ela puxa o ar? Esse sinal me diz que ela precisa de um cuidado que só o hospital tem. Eu já chamei a ambulância. Enquanto ela não chega, nós vamos começar o tratamento aqui mesmo, e a senhora vai me ajudar.”
Não diga: “Ela está muito grave, aqui não dá para fazer nada” — assusta, tira da mãe o papel que ela vai ter no caminho e é falso: há tratamento que começa na unidade.
A mãe pergunta se não dá para tomar a injeção e ir para casa
“Eu entendo a senhora querer ir para casa, com os outros filhos esperando. A injeção de agora é a primeira dose do remédio, e ela é importante, mas não é tudo o que a Teodora precisa hoje: ela precisa de alguém olhando a respiração dela de hora em hora, de oxigênio se piorar, e de soro na veia se parar de beber. Isso eu não tenho aqui. Quem vai com a senhora na ambulância? Enquanto ela vem, a gente resolve quem busca as crianças.”
Não diga: “Se a senhora não levar, a responsabilidade é sua” — transforma a decisão em disputa; quando a resistência é de logística, a pergunta sobre quem cuida dos outros filhos resolve mais do que a ameaça.
Ensinar o soro oral para a espera e para o caminho
“Esse copo é para a viagem inteira. É de pouquinho em pouquinho: uma colher ou um gole de cada vez, sem parar, mesmo que ela reclame. Se ela vomitar, a senhora espera dez minutos e recomeça mais devagar. E o peito continua, sempre que ela quiser — o peito também é remédio hoje. Me mostra agora como a senhora vai dar o primeiro gole?”
Não diga: “Dá bastante soro para ela” — a mãe entende volume grande de uma vez, a criança vomita, e a mãe conclui que o soro faz mal.
Verificar se a avó de Clarice sabe dar o antibiótico em casa
“Dona Hipólita, pega a seringa e me mostra até onde a senhora vai puxar o remédio. Isso, até o três. Agora me conta: em que horários a senhora vai dar? E até que dia? E se ela cuspir metade, o que a senhora faz?”
Não diga: “A senhora entendeu? Alguma dúvida?” — a resposta vai ser sim e não, e você não vai saber se ela sabe.
Dizer quando voltar imediatamente e marcar o retorno
“Tem umas coisas que fazem a senhora voltar na hora, de dia ou de noite, sem esperar a data: se ela não conseguir mamar ou beber, se ela piorar, se a febre voltar ou ficar mais forte, se a respiração ficar mais rápida ou mais difícil, ou se aparecer sangue no cocô. Se a unidade estiver fechada e a senhora não conseguir chegar ao pronto-socorro, liga 192. E mesmo melhorando, a senhora volta aqui na quinta-feira de manhã: eu escrevi a data neste papel e nesta página da caderneta.”
Não diga: “Se piorar, volta” — piorar é uma palavra que cada família mede de um jeito, e a data do retorno some quando a criança parece bem.
Orientar a alimentação e os líquidos durante a doença
“Enquanto ela estiver doente, ofereça o peito mais vezes, de dia e de noite, e deixe ela mamar mais tempo. Se o nariz estiver entupido atrapalhando, limpe antes de dar de comer. Faça a comida de que ela mais gosta, em porções pequenas e mais vezes no dia, e acrescente pelo menos uma refeição até ela sarar. Água limpa, fervida ou filtrada, sempre que ela aceitar. Refrigerante, não.”
Não diga: “Deixa ela sem comer até melhorar” ou “ela não quer comer, então não força” — a criança doente que come menos entra na doença seguinte mais magra, e é assim que a diarreia de repetição vira desnutrição.
A avó está confusa com cinco remédios e pede para escrever tudo
“A senhora tem razão, é muita coisa, e eu vou escrever uma linha para cada remédio, com o horário do lado. Mas hoje eu quero que a senhora saia daqui sabendo muito bem dois: este xarope branco é o do pulmão, três vezes por dia, até acabar os sete dias; e este soro é o da diarreia, depois de cada cocô mole. O do ferro começa hoje também e é uma vez por dia — está escrito aqui. A conversa sobre a comida a gente faz com calma na quinta-feira, quando a senhora voltar.”
Não diga: Recitar os cinco tratamentos, as doses e a orientação alimentar numa só fala e perguntar no fim se ficou claro — a avó sai com a última frase na cabeça e o antibiótico esquecido.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Quadro de procedimentos, 2017
A criança com enchimento capilar maior que dois segundos recebe acesso venoso e expansão de 20 mL/kg de soro fisiológico a 0,9% ou Ringer lactato enquanto é referida à unidade hospitalar.
Brasil. Ministério da Saúde; OPAS; Unicef. Manual de quadros de procedimentos: Aidpi Criança — 2 meses a 5 anos, 2017, p. 26 (outros tratamentos urgentes prévios à referência)
Manual do curso, 2016
Na mesma situação e com a mesma redação, a expansão é de 30 mL/kg de soro fisiológico a 0,9% ou Ringer lactato enquanto a criança é referida.
Brasil. Ministério da Saúde; OPAS. Manual Aidpi Criança: 2 meses a 5 anos, 2016, seção 2.3.3, p. 106
Os dois documentos têm o mesmo escopo — a criança com sinal de choque numa unidade básica, antes da transferência — e a mesma natureza, e o desempate é pela data: esta apostila adota os 20 mL/kg do quadro de 2017, o mais novo, que é também o que fica pregado na parede da unidade. O manual do curso segue registrado porque ainda circula nas capacitações, e quem aprendeu por ele vai dizer 30. Diante da criança, a alíquota de 20 mL/kg — 172 mL para 8,6 kg, 280 mL para 14 kg — é o começo e não o fim: ao terminar, refaça enchimento capilar, frequência cardíaca, respiração e nível de consciência, anote na nota de referência e avise a regulação se a má perfusão continuar; o reconhecimento do choque na criança e a expansão que antecede a parada são do capítulo de parada cardiorrespiratória na criança, nesta apostila. A criança com desidratação grave e nenhuma outra classificação grave não entra nesta divergência: o volume dela é o do plano C, do capítulo de diarreia aguda e desidratação.
Quadro de procedimentos, 2017
Na desnutrição grave e no peso muito baixo, dar a megadose de vitamina A se a criança não tiver recebido nos últimos 30 dias.
Brasil. Ministério da Saúde; OPAS; Unicef. Manual de quadros de procedimentos: Aidpi Criança — 2 meses a 5 anos, 2017, p. 19 (estado nutricional) e p. 24 (dose)
Programa nacional de suplementação, 2025
Megadoses oferecidas de seis em seis meses dentro da faixa etária, com intervalo seguro mínimo de quatro meses entre uma administração e outra.
Brasil. Ministério da Saúde. Caderno dos programas nacionais de suplementação de micronutrientes, 2ª ed., 2025, Quadro 6 e pontos importantes sobre a administração
A régua decide pelo escopo, e não pela data. O Caderno de 2025 é escrito para a suplementação de rotina das crianças de 6 a 59 meses e não trata da criança doente nem da desnutrida grave; o quadro de 2017 é escrito exatamente para a criança com desnutrição grave que está na sua frente. Esta apostila adota os 30 dias do quadro para essa criança, com a faixa de idade corrigida — 100.000 UI dos 6 aos 11 meses, 200.000 UI dos 12 aos 59 —, e o intervalo de 4 meses para a rotina do programa. Diante da criança, confira na caderneta a data da última cápsula: dentro de 30 dias, não dê; depois disso, dê pela régua do quadro e escreva as datas das duas doses na nota de referência, para o hospital não repetir no primeiro dia de internação. A megadose nunca atrasa a saída: agasalho e prevenção de hipoglicemia vêm antes, e se a cápsula não estiver à mão ela fica para o hospital. Com sinal ocular de deficiência de vitamina A, a conduta é outra e é do capítulo de desnutrição energético-proteica.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira da semana seguinte, oito e quarenta da manhã, mesma unidade. Dona Hipólita Aranha, 58 anos, traz a neta, Clarice Massaranduba, 2 anos e 1 mês, com um bilhete da mãe, que entra no trabalho às sete: “tosse faz 4 dias, cocô mole faz 3, febre de noite”. Na sala de acolhimento, Carmelita anotou 8,9 kg e temperatura axilar de 38,2 °C. Clarice choraminga no colo, mas brinca com o chaveiro da avó. É a primeira consulta por esse problema. Esta apostila fica a quinze minutos a pé, a avó cuida dela durante o dia, e a caderneta veio na bolsa.
o que eu faço antes de ler o bilhete inteiro
Procuro os sinais gerais de perigo, porque o bilhete fala de tosse, diarreia e febre e não fala de nenhum deles. Peço que a avó ofereça água: Clarice bebe, sem avidez. Não vomitou tudo, não teve ataque nem espasmo. Brinca com o chaveiro e olha para a avó quando ela fala — não está letárgica. Aqueço a mão dela na minha, aperto a ponta do dedo por cinco segundos, e a cor volta em menos de 2 segundos. Sem batimento de asa do nariz, sem gemido. Nenhum sinal de perigo, e a consulta segue no ritmo normal.
tosse: eu conto antes de auscultar
Espero Clarice sossegar no colo, levanto a blusa e conto um minuto inteiro no relógio: 46 respirações. Com 2 anos, o corte é 40, e ela respira rápido. Olho a parte de baixo do tórax em várias inspirações seguidas: não afunda. Não ouço estridor em repouso nem sibilância. Pneumonia, amarela. Não precisei do estetoscópio para classificar, e se tivesse ouvido crepitação ela continuaria sendo pneumonia amarela — o que muda a cor é tiragem, estridor ou sinal de perigo.
diarreia: três perguntas, três classificações possíveis
Três dias: não é persistente. Sem sangue, pelo bilhete e pela fralda que a avó mostra: não é disenteria. Resta o estado de hidratação, e aqui eu preciso de dois sinais para classificar desidratação: Clarice não está irritada além do choro de quem está doente, os olhos estão como a avó sempre viu, ela bebe normalmente e a prega do abdome volta na hora. Sem desidratação, verde: plano A e zinco.
febre: a classificação existe mesmo quando a pneumonia a explica
Temperatura de 38,2 °C, área sem risco de malária, e a avó confirma que ninguém viajou. Procuro rigidez de nuca e manchas na pele: nada. Doença febril, verde. É tentador pular o módulo porque a febre obviamente vem da pneumonia, mas ele não custa um minuto e é o único que procura a rigidez de nuca e as petéquias. Como passou de 38,0 °C, ela recebe antitérmico.
ouvido e garganta: módulos que não se abrem
Pergunto à avó se Clarice se queixou do ouvido ou se saiu alguma secreção, e se ela reclamou da garganta. Não. Os dois módulos começam com uma pergunta de sim ou não, e com não eles se fecham sem classificação.
o que eu vejo sem perguntar
Sem emagrecimento acentuado, sem edema nos pés. Ponho a palma de Clarice ao lado da da avó: mais pálida, sem chegar ao branco — anemia, amarela. Marco 8,9 kg na curva da caderneta: o ponto cai entre as linhas de −2 e −3 escores z, e os três pesos anteriores desenham uma linha horizontal há quatro meses — peso baixo ou ganho insuficiente, amarela. A avó conta que Clarice nunca tomou remédio de verme.
os outros problemas
Vacinas em dia na caderneta. Os marcos da faixa estão todos marcados. No módulo de violência, a criança mal cuidada em sua saúde é um item que pede julgamento sobre cuidado, e não sobre peso: Clarice chega limpa, com a caderneta atualizada e uma avó que sabe a história de cor. O peso baixo mora no módulo nutricional. Nenhum item. Não há outro problema que a avó queira mostrar.
a lista, a cor e o destino
Pneumonia, anemia e peso baixo, amarelas; sem desidratação e doença febril, verdes. Nenhuma vermelha: Clarice vai para casa. Só uma classificação pede antibiótico, então a pergunta sobre um antibiótico para duas não se coloca hoje — se ela tivesse também infecção aguda do ouvido, seria o mesmo frasco, sem dobrar a dose; se tivesse disenteria, seriam dois. O risco desta criança não está na doença: está em cinco tratamentos chegando a uma avó numa manhã só.
o que acontece na unidade, na frente da avó
Calculo pelo peso de hoje e peço que dona Hipólita dê cada primeira dose com as próprias mãos. Amoxicilina: 50 mg/kg/dia são 445 mg por dia, 150 mg por tomada, 3,0 mL da suspensão de 50 mg/mL a cada 8 horas. Paracetamol: 9 gotas, pelos 38,2 °C. Albendazol: 10 mL, 400 mg, em dose única, porque tem mais de 2 anos, está com anemia e não recebeu vermífugo nos últimos seis meses; a segunda dose fica marcada para daqui a 15 dias. Sulfato ferroso: 20 gotas, 25 mg, a primeira ali mesmo, para ela ver o conta-gotas.
o que vai para casa, na ordem de importância
Primeiro o antibiótico, 3 mL de 8 em 8 horas por 7 dias — o frasco precisa ter pelo menos 63 mL. Depois o plano A: líquidos a mais, 100 a 200 mL de soro oral depois de cada evacuação aquosa, e a comida mantida; e o zinco em xarope da Rename, 5 mL uma vez ao dia por 10 dias. Depois o ferro, 20 gotas por dia no intervalo das refeições, por 14 dias. O paracetamol só se a temperatura chegar a 38 °C, com 6 horas entre as doses e no máximo 4 no dia; para a tosse, mel, que a partir de 1 ano pode, e nenhum xarope. A conversa longa sobre a alimentação da criança com peso baixo eu adio para o retorno, como o manual permite quando a família já recebeu instruções demais — hoje ficam só as regras da comida durante a doença.
como eu sei que ela sabe
Escrevo uma linha por remédio, com horário e dia de terminar. Depois pergunto do jeito que não admite sim ou não: dona Hipólita, me mostra na seringa até onde vai o remédio do pulmão; em que horários a senhora vai dar; até que dia; o que a senhora faz se ela vomitar o soro. E pergunto, por último, quando ela volta correndo: se não conseguir beber, se piorar, se a febre voltar ou aumentar, se a respiração ficar mais rápida ou difícil, se aparecer sangue no cocô.
os retornos, em cadeia
O prazo mais curto vai na frente e os outros se encaixam nele. Quinta-feira, em 2 dias, pela pneumonia — e, se a febre persistir, pela doença febril no mesmo dia. Se ela respirar mais devagar, sem febre e comendo, completa os 7 dias, e a diarreia, que sem desidratação só pede retorno se não melhorar em 5 dias, é conferida junto. Nesse retorno entra a conversa sobre alimentação que ficou adiada. Em 14 dias, pela anemia e pelo peso baixo: pesar, conferir se o ferro está sendo dado, reforçar a alimentação — e a segunda dose do albendazol, no dia seguinte, já escrita na receita.
Faça você
Sexta-feira, 16h50, dez minutos antes de a unidade fechar. Arlindo Formiga, 3 anos, 14 kg, chega no colo do pai, que conta febre há dois dias e tosse. Na maca, Arlindo está de olhos semiabertos, não se interessa pelo chaveiro que você balança e não olha para o pai quando ele fala; quando você bate palmas, abre os olhos e volta a fechá-los. Desperto de vez, engole o gole de água que o pai oferece e não vomita. Temperatura axilar de 39,0 °C. A cor volta à ponta do dedo apertado em 2 segundos; as narinas não batem e não há gemido. Frequência respiratória de 36 por minuto com ele quieto, sem tiragem, sem estridor, sem sibilância. Sem rigidez de nuca, sem petéquias. Há secreção purulenta saindo do ouvido direito há três dias. Sem palidez palmar, peso adequado, vacinas em dia, área sem risco de malária. A regulação informa que a ambulância leva 40 minutos.
Passo 1
Liste as classificações de Arlindo com a cor de cada uma. Qual sinal põe dois módulos no vermelho, mesmo sem tiragem e sem rigidez de nuca?
Passo 2
Monte os tratamentos prévios na ordem, com as doses para 14 kg. Qual antibiótico, por qual via, e quantas classificações ele cobre de uma vez?
Passo 3
O que não se faz antes de ele sair, e o que precisa estar escrito na nota de referência?
Passo 4
O pai pergunta se não é melhor esperar a febre baixar para ver se Arlindo fica mais esperto antes de ir. O que você responde, e por quê?
Ver como fecharíamos
Arlindo está letárgico — não se interessa, não olha para o pai, só abre os olhos com palmas — e letargia é sinal geral de perigo. Esse sinal é critério da linha vermelha do módulo de tosse e do de febre: ele é pneumonia grave ou doença muito grave, apesar de 36 respirações por minuto e nenhuma tiragem, e é doença febril muito grave, apesar de não ter rigidez de nuca nem petéquias. A secreção purulenta há menos de 14 dias é infecção aguda do ouvido, amarela; o peso é adequado, verde. O destino é o hospital, e o transporte é chamado agora. Os tratamentos prévios: a primeira dose do antibiótico por via intramuscular — com doença febril muito grave na lista, esta apostila usa ceftriaxona, 100 mg/kg, 1.400 mg (frascos de 1 g e de 500 mg, desprezando 100 mg; teto de 2 g) —, e essa única dose cobre a pneumonia grave, a doença febril muito grave e o ouvido: não se acrescenta amoxicilina oral para a otite. Avalie glicemia e proteção da via aérea em paralelo. Arlindo está letárgico: não presuma deglutição segura nem ofereça líquido oral apenas porque engole. Corrija ou previna hipoglicemia pela via segura definida pela equipe. A febre não justifica oferecer gotas ou outro líquido por boca à criança letárgica. Priorizar estabilização; antitérmico por via segura, se indicado, é decisão da equipe e não atrasa a referência. Reavalie a cada 15 minutos até a saída: enchimento capilar prolongado exigiria avaliação conjunta de perfusão e contexto; expansão só se indicada, com volume individualizado e reavaliação conforme o capítulo de choque; convulsão pediria diazepam de 4,2 a 7 mg, com teto de 10 mg, conforme prescrição médica. Não se faz: amoxicilina oral para o ouvido, secagem com mecha, radiografia, hemograma, espera pela queda da febre. A nota leva as classificações e os sinais que as justificaram — a letargia descrita como você a viu —, o peso, a hora e a dose da ceftriaxona e do paracetamol, o volume de leite ou água com açúcar e a glicemia, se medida. Ao pai: o quadro não prevê reclassificar depois do antitérmico, e esperar a febre baixar para decidir é exatamente o tratamento que atrasa a referência. Se Arlindo ficar mais esperto com a temperatura menor, isso é bom e vai na nota; se continuar prostrado sem febre, é mais grave ainda. Nos dois casos, ele vai.
O cálculo é 14 kg × 20 mL/kg = 280 mL. A pergunta pressupõe indicação clínica e contexto de suporte; enchimento capilar isolado não basta para prescrever um bolus. Reavalie perfusão, respiração e sinais de congestão durante a administração e antes de repetir. Cardiopatia, desnutrição grave e limitação de recursos exigem outro julgamento, detalhado no capítulo de choque.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Conduza uma consulta AIDPI supervisionada e preencha sinais gerais de perigo, sintomas, achados nutricionais, alimentação, desenvolvimento e vacinas. Apresente todas as classificações e a mais grave, demonstre uma orientação de medicamento e peça ao cuidador que repita o plano de retorno. Se houver perigo, mostre quais tarefas começam em paralelo e por que o formulário não atrasa o cuidado.
Em 30 dias
Reveja uma criança após alta ou tratamento na unidade. Compare estado clínico, crescimento e alimentação com a consulta inicial; confira medicamentos, vacinas e pendências do desenvolvimento. Ajuste o plano com a família e registre o retorno mais próximo. Consulte a tabela quando necessário e confira peso, faixa etária, concentração e teto antes de transformar a dose em volume.
Agora atenda
Quarta-feira, 15h10, unidade básica a uma hora de estrada do hospital de referência. Lactente de 10 meses, 7,8 kg, trazida pela mãe por diarreia há três dias e tosse desde ontem; hoje, segundo ela, “largou o peito”. Temperatura axilar de 38,4 °C. Você tem o quadro na parede, uma sala de reidratação oral, penicilina procaína e ceftriaxona na farmácia, glicosímetro e nenhum oxímetro. Avalie na ordem, classifique cada módulo, e decida o que ela recebe na unidade — e, se for referida, o que recebe antes de sair e o que vai escrito com ela.
