Pediatria › Emergências Pediátricas
A criança não para do coração
Parada cardiorrespiratória na criança e obstrução de via aérea por corpo estranho (OVACE)
Reconhecer quem vai parar, reanimar com as relações e a ampola que existem, e desengasgar sem produzir o dano
Sociedade Brasileira de Pediatria. Obstrução de vias aéreas por corpo estranho e engasgo por líquidos: o que fazer? Guia Prático de Atualização nº 222, 01 de agosto de 2025. Curso de Suporte Básico de Vida (gestão 2022-2024). 7 páginas.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Básico de Vida. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 482 páginas. Protocolos BPed 1 a 40 (Emergências Pediátricas).
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 638 páginas. Protocolos APed 8, 9, 10, 11, 12 e 25.
Sociedade Brasileira de Cardiologia. Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência da Sociedade Brasileira de Cardiologia — 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;113(3):449-663. Capítulos 11 (Suporte Básico de Vida em Pediatria) e 12 (Suporte Avançado de Vida em Pediatria).
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
American Heart Association. Part 6: Pediatric Basic Life Support. Guidelines 2025. https://cpr.heart.org/en/resuscitation-science/cpr-and-ecc-guidelines/pediatric-basic-life-support
AHA/AAP. Pediatric Cardiac Arrest Algorithm, 2025.
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Criança de 8 quilos em parada, com ritmo não chocável. Na sala há apenas ampolas de epinefrina 1 mg/mL. Qual é a preparação e o volume corretos para a primeira dose intravenosa?
O paciente que você vai ver
Domingo, sete e dez da noite, numa unidade de pronto atendimento que atende três bairros. A escala da noite tem você como interno. A médica plantonista está na sala de medicação há vinte minutos com uma senhora em crise hipertensiva, e a técnica de enfermagem, Remígia Sertório, é quem circula entre a recepção e a sala de emergência. Há dezenove fichas na fila. Duas crianças estão nessa sala de espera, e cada uma vai lhe ensinar uma coisa diferente sobre a mesma hora.
A primeira está no colo da mãe, na terceira cadeira da fileira do meio. Ravy tem 8 meses e pesa 8 quilos. A triagem escreveu na ficha 'resfriado há 3 dias' e o classificou como verde. Ele está com coriza desde quinta-feira, teve febre baixa na sexta, e a mãe, Cassemira Evangelista, conta que hoje ele mamou pouco de manhã e quase nada à tarde. Ela repete duas vezes a mesma frase, e a frase é o achado: 'ele está quietinho hoje'. Ravy não chora quando a técnica encosta o oxímetro no pé dele. Respira depressa, com a barriga, e a cada duas ou três respirações faz um ruído curto na expiração que ninguém na sala chamou de nada ainda.
A segunda está do outro lado da sala, de pé entre as pernas do avô, comendo alguma coisa que veio num saquinho. Muriel tem 2 anos. Daqui a quatro minutos ela vai levar as duas mãos ao pescoço e não vai sair som nenhum, e todo mundo naquela sala — inclusive você — vai ter aprendido em algum lugar um gesto para fazer nessa hora. A questão é se o gesto que você aprendeu é o certo para o tamanho dela, e se a criança à sua frente é mesmo daquelas em que ele se faz.
Este é um capítulo com dois relógios. O de Ravy corre há três dias e ainda está correndo: ninguém disse a palavra parada, e ninguém vai precisar dizer se alguém disser as outras palavras a tempo. O de Muriel vai correr em segundos, e nele a conduta certa e a conduta errada são gestos parecidos, feitos com as mesmas mãos, no mesmo lugar do corpo. Os dois relógios se encontram num ponto só, que é a razão de os dois assuntos estarem no mesmo capítulo: quando a criança para, a origem quase nunca é o coração. É o fim de uma insuficiência respiratória ou de um choque — e o corpo estranho é a insuficiência respiratória mais rápida que existe.
Antes de começar, a divisão de trabalho com os capítulos vizinhos, porque ela muda o que você vai encontrar aqui. Este capítulo é do socorro, não da prevenção e não da doença de base. A reanimação do recém-nascido na sala de parto é do capítulo de reanimação neonatal em sala de parto, na apostila de Neonatologia, e a diferença não é de escala: lá a relação é de três compressões para uma ventilação e o pulmão nunca respirou. A parada do adulto é do capítulo de parada cardiorrespiratória na enfermaria, na apostila de Síndromes do Paciente Internado, e a da gestante é do capítulo de embolia de líquido amniótico e parada cardiorrespiratória na gestante, na apostila de Parto e assistência ao nascimento.
Do lado respiratório, crupe, epiglotite e estridor são do capítulo sobre laringotraqueíte aguda e epiglotite, na apostila de Pneumologia Pediátrica; bronquiolite, crise asmática e pneumonia são dos outros três capítulos daquela mesma apostila. Aqui não se discute qual doença Ravy tem — discute-se como reconhecer que ele vai parar, seja qual for. Sepse e choque séptico da criança são de Choque na criança: hipovolêmico, séptico e distributivo, nesta apostila: deste capítulo fica o reconhecimento do choque na criança e a expansão volêmica que antecede a parada, e o pacote completo vai para lá. Desidratação e os planos A, B e C são do capítulo de diarreia aguda e desidratação, na apostila de Gastroenterologia Pediátrica; anafilaxia e adrenalina intramuscular são do capítulo de anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro, na apostila de Medicina de Emergência; intoxicação exógena é do capítulo de Toxicologia sobre antídotos.
Do lado da via aérea, a fronteira mais importante é com o capítulo de epistaxe, corpo estranho em nariz e ouvido e trauma nasal, na apostila de Otorrinolaringologia. O corte foi declarado lá e é declarado aqui nos dois sentidos, com as mesmas palavras: o que não desce é dele, o que desce é daqui. Objeto parado numa cavidade que tolera espera — narina, conduto auditivo — é dele. Objeto que passou da glote, ou criança que tossiu, engasgou, ficou rouca ou começou a chiar depois de o objeto sumir do nariz, é daqui. A técnica de intubação e a sequência rápida são do capítulo de manejo de via aérea no trauma, na apostila de Trauma: deste capítulo fica o quando, e o como vai para lá. Afogamento e hipotermia no adulto são do capítulo de emergências ambientais no adulto, que cedeu explicitamente a versão pediátrica dos dois — recolhida aqui, e declarada adiante. Trauma como causa de parada e história incompatível com a lesão fazem bifurcação com o capítulo de violência e maus-tratos infantis, na posição 1 desta mesma apostila, e com o de febre sem sinais localizatórios no lactente, na posição 2, quando a criança que se deteriora é a criança febril.
Quem adoece disso
O número que organiza este capítulo inteiro está numa frase de abertura da diretriz brasileira de cardiologia: a parada primária de causa cardíaca, o equivalente do que acontece com o adulto, responde por 5 a 15% das paradas pediátricas fora do hospital. Os outros 85 a 95% são o desfecho de uma deterioração respiratória ou de um choque que vinham acontecendo, com hipoxemia e acidose progressivas, até que o coração deixou de bater por falta de oxigênio e não por doença sua. A diretriz chama isso de parada secundária, e é essa a palavra que muda a sua conduta: se a maioria das paradas é secundária, a maior parte do trabalho útil acontece antes de existir uma parada para reanimar.
A mesma diretriz traz o outro número, o do resultado. Depois de uma parada, sobrevivem à alta hospitalar cerca de 17% dos adultos e 27% das crianças. É comum ler esse par ao contrário — a criança sobreviveria mais porque é mais resistente. A leitura que sustenta a prática é outra: a criança sobreviveria mais porque a causa da parada dela é, com mais frequência, uma coisa que ainda se pode desfazer, e porque um coração jovem e sem doença estrutural aceita voltar quando a causa sai do caminho. O corolário é desconfortável e é o que faz o capítulo: quase três em cada quatro dessas crianças ainda morrem, e o ponto em que o desfecho se decidiu costuma ser anterior ao primeiro ciclo de compressão.
Do lado do engasgo, os números disponíveis são quase todos importados, e vale dizer de onde vêm antes de usá-los. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria de agosto de 2025 registra que 90% dos casos de obstrução de via aérea por corpo estranho ocorrem em menores de cinco anos, que os eventos fatais parecem ser subnotificados e que, no Brasil, pequenos objetos plásticos e de metal são causa mais frequente do que em outros continentes — essa última é a única afirmação especificamente brasileira da série. Os balões merecem destaque próprio no documento: lideram como causa letal de engasgo em menores de seis anos. E o perfil de risco do objeto é descrito por forma, não por nome: cilíndricos, ovais, compressíveis e de tamanho parecido com o da via aérea, porque são esses os que ocluem por completo em vez de deixar passar ar pela borda.
Duas séries estrangeiras do mesmo guia dão o contorno do problema e merecem ser lidas com atenção ao que elas de fato mediram. Uma série italiana de 18 meses identificou 64 óbitos por obstrução de via aérea entre adultos e crianças, 31% deles em crianças; entre os casos fatais em pré-escolares, 67% morreram depois de já estarem no hospital, e metade de todos os casos morreu antes de receber qualquer manobra, o que o próprio documento lê como treinamento escasso da população. A outra é um estudo pré-hospitalar de 110.367 chamadas de ambulância em um ano, do qual sai a estatística que este capítulo teve de recalcular e que está discutida com a conta explícita na conferência de critérios, adiante.
Há um lugar da epidemiologia deste tema em que o Brasil simplesmente não tem denominador, e é honesto dizer em vez de preencher. Não foram encontradas, nas fontes lidas, incidência nacional de parada cardiorrespiratória pediátrica extra-hospitalar, taxa nacional de sobrevida por faixa etária, série nacional de óbitos por engasgo em menores de cinco anos, nem registro nacional de qual objeto mata a criança brasileira — o que existe é a observação, sem número associado, de que aqui o plástico e o metal pequenos pesam mais do que em outros continentes. O capítulo trabalha com isso à vista: as ordens de grandeza vêm de fora e são declaradas como tal, e a régua de conduta, essa sim, é brasileira e está nomeada no bloco de critérios.
Falta a epidemiologia do serviço — a que decide o que existe na sala quando a criança chega. Nas duas séries de protocolos nacionais do SAMU 192, a parada pediátrica e o engasgo têm protocolo próprio, escrito, publicado e disponível — BPed 4, BPed 5, BPed 7 e BPed 9 no volume de Suporte Básico; APed 8, APed 9 e APed 10 no volume de Suporte Avançado. Mas duas folhas pediátricas anunciadas no sumário não têm corpo no documento: BPed 16, hipotermia pediátrica, e BPed 26, especificidades da criança vítima de trauma. As duas aparecem no sumário seguidas da observação 'Em finalização', e a sequência das folhas publicadas pula do 15 para o 17 e do 25 para o 27. A apresentação da série, assinada em 2014, anunciava o segundo grupo de protocolos para o início de 2015. Dez anos depois, a criança com hipotermia continua sem protocolo pré-hospitalar nacional próprio, e quem a atende tem de usar o protocolo do adulto.
Por que acontece o que acontece
Comece pelo consumo. Um lactente consome oxigênio a uma taxa por quilo cerca de duas vezes maior que a de um adulto, e guarda menos: a capacidade residual funcional por quilo é menor, o volume de ar que fica no pulmão no fim de uma expiração tranquila é pequeno, e a caixa torácica que deveria segurar esse volume é cartilaginosa e se deforma para dentro a cada esforço em vez de resistir. A conta de sobrevivência é simples e cruel — a reserva de oxigênio dele dura poucos segundos de apneia, contra minutos no adulto. É por isso que a criança dessatura enquanto você ainda está montando o laringoscópio, e é por isso que a ventilação, neste capítulo, não é um item da lista: é o item.
Some a isso a geometria da via aérea. O fluxo de ar por um tubo depende do raio elevado à quarta potência, o que significa que um milímetro de edema circunferencial não custa a mesma coisa em corpos diferentes. Num traqueia adulta de oito milímetros de diâmetro, um milímetro de edema de cada lado reduz a área a pouco mais da metade; numa traqueia de lactente de quatro milímetros, o mesmo milímetro de cada lado deixa passar uma fração pequena do fluxo original. O corpo estranho faz de uma vez, e por obstrução mecânica, o que a inflamação faz devagar. E o mesmo cálculo explica por que a criança pequena tolera tão mal secreção, sangue e leite na via aérea alta: a margem geométrica não existe.
O terceiro pilar é o débito cardíaco. No lactente, o volume sistólico é relativamente fixo — o ventrículo tem menos massa contrátil e menos complacência para trabalhar na parte útil da curva —, de modo que o débito depende quase inteiramente da frequência. Daí decorre o fato clínico que organiza todo o reconhecimento pediátrico: a bradicardia na criança hipoxêmica não é um ritmo, é um débito caindo. Quando a hipóxia e a acidose deprimem o nó sinusal, a frequência cai, o débito cai junto e a perfusão coronariana cai atrás; o coração então recebe menos oxigênio justamente quando mais precisa, e a curva vira para baixo sozinha. A parada não acontece num instante: ela é o fim de uma rampa que estava descendo havia horas.
Isso explica o ritmo que você vai encontrar. Como a parada é o desfecho de hipóxia progressiva e não de uma arritmia primária, o coração pediátrico chega à parada já sem substrato para fibrilar: o ritmo típico é assistolia ou atividade elétrica sem pulso, e não fibrilação ventricular. A consequência prática é que o desfibrilador, que no adulto é o tratamento, na criança é sobretudo um instrumento de exclusão — ele responde a uma pergunta cuja resposta na maioria das vezes é não. Não deixa de ser necessário; deixa de ser o centro. O centro é oxigênio chegando ao alvéolo e sangue circulando, e por isso a diretriz brasileira insiste que a reanimação pediátrica intercala ventilação e compressão, e não se resume a comprimir.
O quarto pilar é o que precede tudo isso: a via da insuficiência respiratória e a via do choque, que são as duas estradas para a mesma parada. Na via respiratória, o esforço aumenta primeiro — taquipneia, retrações, batimento de asa de nariz — e mantém a troca gasosa por um tempo às custas de um trabalho que a criança não consegue sustentar indefinidamente. Quando o músculo cansa, o esforço diminui, e é aí que mora a armadilha de leitura mais perigosa deste capítulo: a frequência respiratória cai, as retrações somem, a criança fica quieta. À beira do leito isso se parece com melhora. É exaustão, e faltam minutos.
Na via do choque, o mecanismo compensatório é a vasoconstrição e a taquicardia, e a criança compensa espantosamente bem — mantém a pressão arterial normal enquanto vai fechando a periferia. Enchimento capilar lento, extremidades frias com tronco quente, pulso periférico fino com pulso central presente e taquicardia sustentada são os sinais dessa fase, e todos aparecem com a pressão ainda normal. A hipotensão na criança não é o sinal de choque: é o sinal de que a compensação acabou. Quem espera a pressão cair para agir está esperando o penúltimo evento antes da parada.
Volte agora ao engasgo, porque a fisiologia dele tem uma distinção que decide a conduta. A via aérea da criança é defendida por reflexos, entre eles o reflexo quimiorreceptor laríngeo, que produz apneia e constrição da laringe quando um líquido toca a região. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria descreve esses reflexos como mais intensos no recém-nascido e em maturação ao longo dos primeiros meses, e é dessa maturação que sai a frase mais útil do documento: o bebê que tosse ao ingerir líquido está, na maioria das vezes, exibindo um reflexo de proteção que funcionou, e não uma via aérea obstruída. O engasgo por líquido e a obstrução por sólido têm nomes parecidos e mecanismos diferentes — o líquido impacta a passagem de ar transitoriamente e, em grande quantidade, desce para o pulmão e produz pneumonia aspirativa; o sólido fica.
O sólido fica, e onde ele fica muda o problema. A maioria dos corpos estranhos aspirados em crianças se aloja em brônquio, sendo 52% no brônquio principal direito e 18% no esquerdo — e essa criança respira, mesmo que mal, porque um pulmão continua ventilando. A obstrução laríngea ou traqueal é menos comum, mas é a que mata em minutos: é o alojamento dos objetos grandes, volumosos, ou de bordas irregulares, e é o que produz o quadro de sufocação súbita com incapacidade de falar. Clinicamente é difícil saber o nível da impactação, e o guia é explícito quanto a isso; a pergunta que se responde à beira do leito não é onde está, e sim se a obstrução é completa. É essa pergunta que autoriza ou proíbe as mãos.
Como se apresenta de verdade
As seis apresentações abaixo não são seis doenças: são seis fotografias de um mesmo processo em pontos diferentes, mais a fotografia do engasgo, que corre em outra escala de tempo. Ler qual delas está à sua frente é o trabalho intelectual deste capítulo — o trabalho manual vem depois e é comparativamente simples.
Uma advertência de leitura vale para as três primeiras. Nenhuma delas é um diagnóstico: são estados. Você não escreve 'insuficiência respiratória iminente' no prontuário e para por aí; você escreve o que viu, chama alguém e muda de lugar. O valor de nomear o estado é que ele autoriza a mudar o ritmo do atendimento antes de haver diagnóstico, e é exatamente essa autorização que costuma faltar ao interno de plantão.
A escada respiratória, e o degrau em que ela engana
A criança em dificuldade respiratória sobe uma escada previsível, e o primeiro degrau é o esforço. Taquipneia para a idade, batimento de asa de nariz, tiragem — subcostal, intercostal, de fúrcula —, uso da musculatura acessória, e no lactente o balanço da cabeça a cada inspiração, que é o mesmo fenômeno num pescoço que ainda não sustenta o crânio. Nesse degrau a troca gasosa ainda acontece: a saturação pode estar normal, e é normal porque a criança está pagando por ela com trabalho muscular.
O segundo degrau é a queda da eficácia. A saturação começa a cair apesar do esforço mantido, aparece gemido expiratório — que é a criança fechando parcialmente a glote para manter pressão no fim da expiração, um esforço de recrutamento involuntário —, e a ausculta pode ficar mais pobre em vez de mais rica, porque menos ar está entrando. Tórax silencioso em criança que estava chiando não é resolução do broncoespasmo: é ar que parou de passar.
O terceiro degrau é o que engana, e é o motivo de esta seção existir. O esforço diminui. A frequência respiratória cai, as retrações somem, a criança para de se debater e fica quieta. É a exaustão da musculatura respiratória, e ela se parece com melhora para quem olha por dez segundos e para quem quer que a criança tenha melhorado. Os sinais que a denunciam são de nível de consciência e de esforço, não de ausculta: criança que estava irritada e ficou apática, que não reage à punção, que não procura a mãe com os olhos, que respira devagar demais para a idade — e, no lactente, apneias curtas entre respirações. A frase da mãe de Ravy, 'ele está quietinho hoje', é esse degrau descrito em português comum.
Como os degraus são de estados e não de números, vale um critério de ação em vez de um valor de corte. Peça ajuda e mude a criança de lugar quando qualquer uma das três coisas acontecer: o esforço aumentar a ponto de você achar que ela não sustenta mais uma hora daquilo; a saturação exigir oxigênio para se manter; ou a criança ficar mais quieta do que estava. A terceira é a que menos gera pedido de ajuda e é a que menos tempo dá.
A fronteira aqui é firme e vale repetir. Qual doença está produzindo a escada — bronquiolite, crise asmática, pneumonia, laringotraqueíte, epiglotite — é assunto dos quatro capítulos da apostila de Pneumologia Pediátrica, e é lá que estão os critérios de gravidade e o tratamento de cada uma. Deste capítulo é a escada em si, que é a mesma nas quatro, e a decisão de que a criança que subiu até o terceiro degrau não fica na fila de espera de nenhuma delas.
O choque na criança acontece com a pressão arterial normal
A segunda estrada para a parada é o choque, e ela tem um sinal de trânsito que quase todo mundo lê ao contrário. A criança compensa a queda do débito fechando a periferia e acelerando o coração, e faz isso com eficiência: mantém a pressão arterial dentro da faixa normal durante boa parte do processo. Quem usa a pressão como sensor de choque na criança está usando um sensor que só dispara no fim.
Os sinais que disparam antes são todos periféricos e todos gratuitos. Taquicardia sustentada, sem febre que a explique e sem melhora com o colo. Enchimento capilar lento — comprima o esterno ou a polpa digital por cinco segundos e conte quanto tempo a cor leva para voltar. Extremidades frias com tronco quente, e a linha entre as duas subindo pelo membro ao longo das horas. Pulso periférico fino ou ausente com pulso central presente, que é a diferença mais informativa que se colhe com dois dedos. Pele marmórea. E, atravessando tudo, o nível de consciência: a criança que estava interativa e ficou sonolenta ou irritadiça sem consolo perdeu perfusão cerebral, não paciência.
Diurese conta, e é o parâmetro que ninguém pergunta na porta. Quantas fraldas molhadas hoje, e quando foi a última — é uma pergunta de trinta segundos que estima horas de perfusão renal. Lactente que não molha fralda há oito horas está informando alguma coisa sobre o volume circulante, e a informação não depende de nenhum exame.
O que este capítulo faz com o choque reconhecido é o começo: acesso — venoso, e intraósseo se o venoso não sair rápido —, expansão volêmica com cristaloide e reavaliação a cada alíquota, oxigênio, glicemia capilar e monitorização. O pacote completo — a definição, a estratificação, os antimicrobianos, os vasoativos, o feixe de medidas com prazo — é de Choque na criança: hipovolêmico, séptico e distributivo, nesta apostila, e é lá que a criança com choque séptico deve ser estudada. Aqui interessa a única coisa que este capítulo não pode ceder: choque tratado é uma parada que não aconteceu.
Duas causas de choque na criança merecem menção porque desviam a conduta e têm dono em outro lugar. A desidratação por diarreia é a mais comum no Brasil e tem plano próprio, com os planos A, B e C, no capítulo de diarreia aguda e desidratação da apostila de Gastroenterologia Pediátrica. A anafilaxia é a que reverte com uma injeção intramuscular feita na hora certa, e está no capítulo de anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro, na apostila de Medicina de Emergência — vale saber que ela existe nessa lista porque é a única em que a droga certa, dada precocemente, desfaz o quadro.
A bradicardia que já é uma parada
Existe um estado, entre a criança grave e a criança em parada, que tem nome, tem número e tem conduta própria, e que é a coisa mais específica da pediatria neste capítulo inteiro. É a bradicardia com sinais de má perfusão.
O protocolo do SAMU 192 e a diretriz brasileira de cardiologia dizem a mesma coisa, com as mesmas palavras: se a criança está irresponsiva, com respiração ausente ou agônica, e tem pulso central palpável mas com frequência inferior a 60 batimentos por minuto, com sinais de perfusão insuficiente, apesar de oxigenação e ventilação adequadas, então se iniciam as compressões torácicas. Não se espera o pulso sumir. A criança tem pulso, e mesmo assim se comprime.
A razão é a fisiologia do terceiro parágrafo do bloco anterior. Se o débito no lactente depende da frequência, uma frequência de 40 com volume sistólico fixo entrega um débito que não perfunde ninguém — é uma parada com atividade elétrica e mecânica residual. Tratar essa bradicardia como um ritmo a ser observado é observar uma parada em câmera lenta. As três condições da frase importam todas: irresponsiva, perfusão ruim, e — a que mais se esquece — apesar de oxigenação e ventilação adequadas. Bradicardia em criança hipoxêmica que ainda não foi ventilada se trata primeiro ventilando; foi a hipóxia que a produziu, e ela costuma responder ao oxigênio antes de qualquer outra coisa.
Essa é também a razão de a checagem de pulso na criança ser um ato de curta duração e de resultado binário. As duas fontes brasileiras limitam a checagem a no máximo dez segundos — a diretriz pede um mínimo de cinco e um máximo de dez —, e o lugar muda com a idade: pulso braquial no lactente, carotídeo ou femoral na criança. Dúvida sobre a presença do pulso depois de dez segundos se resolve como ausência: comprima.
A criança engasgada: tosse eficaz e tosse ineficaz
O engasgo por sólido tem uma única pergunta na porta de entrada, e ela não é sobre o objeto. É sobre o ar: está passando alguma coisa, ou não está passando nada? Tudo o que se faz depois decorre dessa resposta, e fazer o gesto certo na resposta errada é o que produz o dano deste capítulo.
Na obstrução leve, a tosse é eficaz, há ventilação e a criança consegue falar ou chorar. Incentive a tosse e observe continuamente. O termo parcial não é suficiente para decidir: uma passagem residual de ar também pode ocorrer em obstrução grave. Descreva a eficácia da tosse e a condição da criança, não apenas se ela faz barulho.
Suspeite de obstrução grave quando a tosse se torna fraca ou ineficaz, há incapacidade de falar/chorar, esforço sem ventilação suficiente, cianose ou queda da responsividade. Pode haver ruído residual; silêncio completo não é condição obrigatória para intervir. Reconhecida a gravidade, acione ajuda e inicie as manobras da faixa etária.
No lactente com menos de 1 ano, alterne 5 golpes dorsais e 5 impulsos torácicos com a base de uma mão, sem compressões abdominais. Na criança a partir de 1 ano com obstrução grave e responsiva, alterne 5 golpes dorsais e 5 compressões abdominais, repetindo até expulsão do objeto ou perda de responsividade. Este capítulo adota a atualização AHA 2025 para a sequência. Os impulsos de desobstrução no bebê responsivo têm finalidade diferente das compressões de RCP após perda da responsividade.

Apoie o lactente de bruços no antebraço sobre a coxa, sustentando a mandíbula sem comprimir o pescoço, com cabeça abaixo do tronco. Aplique cinco golpes entre as escápulas com a base da mão. Vire-o com apoio contínuo da cabeça e aplique cinco impulsos na metade inferior do esterno com a base de uma mão, evitando o xifoide. Repita enquanto responsivo e com obstrução grave. Ao ficar irresponsivo, coloque em superfície firme e inicie RCP; não continue alternando posições de desengasgo.

O engasgo por líquido, que não é obstrução
Esta seção existe por causa de um documento brasileiro de 2025 cujo objetivo declarado é corrigir uma prática difundida, inclusive entre profissionais. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria observa que circula, na mídia e nas redes sociais, grande quantidade de orientação recomendando as manobras de desobstrução para o engasgo por líquidos, e afirma que isso está em desacordo com o conhecimento científico e a experiência clínica — e que aplicar as manobras nessa situação pode produzir desfechos indesejáveis.
O argumento é fisiológico e está no bloco de mecanismo: o bebê que tosse ao ingerir leite materno, fórmula, suco, saliva ou o próprio vômito está, na maioria das vezes, exibindo um reflexo de proteção que funcionou. O reflexo de engasgo existe desde o nascimento, vai se deslocando para trás na boca com a idade, e por volta dos nove meses fica em torno do terço posterior da língua; a fase em que a criança começa a receber alimentos novos, sem controle motor oral completo, é uma fase em que engasgar faz parte do desenvolvimento normal da alimentação. Reconhecer isso é a diferença entre tranquilizar uma família e machucar um bebê.
A conduta que o documento estabelece tem quatro passos e nenhuma manobra. Primeiro, posicionar a criança sentada ou semissentada. Segundo, retirar o excesso de líquido da boca com um lenço ou algo semelhante. Terceiro, observar a resposta. E é no terceiro que estão as quatro saídas: se ela tosse ou vomita e logo volta a respirar normalmente, ajude e observe; se permanece sintomática depois do episódio, com dispneia, desconforto, choro ou chiado, por provável aspiração de líquido, leve a um serviço de emergência; se ela para de respirar, estimule delicadamente as costas, esfregando — e a maioria das crianças se recupera e volta a respirar; e se não voltar a respirar e perder a consciência, chame ajuda e inicie as manobras de reanimação cardiopulmonar.
Repare no que o quarto passo faz e no que ele não faz. Ele manda para a reanimação, não para a desobstrução. A distinção parece formal e não é: entre uma criança inconsciente que não respira, quem pensa em desobstrução fica procurando objeto, e quem pensa em reanimação começa a comprimir e a ventilar, que é o que aquela criança precisa. Vale notar também que o terceiro passo — esfregar as costas de um bebê apneico — não é uma pancada e não é uma manobra de desobstrução; é estimulação tátil, o mesmo gesto que abre a reanimação do recém-nascido, e a diferença entre esfregar e bater está justamente no dano que este capítulo procura evitar.
Fica aqui uma distinção que o próprio guia levanta e não fecha: em grande quantidade, o líquido chega aos pulmões e pode causar pneumonia aspirativa, o que faz do engasgo por líquido um evento benigno na via aérea alta e potencialmente não benigno mais abaixo. Por isso a saída 'permanece sintomática' manda para o serviço de emergência em vez de mandar para casa — o problema, quando existe, não é obstrutivo e não aparece nos primeiros segundos.
Quando a causa da parada é trauma — e quando a história não fecha
A parada pediátrica por trauma tem particularidades de conduta que este capítulo assume porque elas mudam a reanimação, e não porque o trauma seja daqui. A primeira é a via aérea: a abertura por inclinação da cabeça e elevação do mento é a manobra padrão, mas na suspeita de lesão de coluna cervical ela cede lugar à elevação do ângulo da mandíbula, e a estabilização manual do pescoço passa a ser tarefa de alguém. A segunda é a hipovolemia: na criança traumatizada em atividade elétrica sem pulso, a causa reversível mais provável é sangramento, e ela se trata com volume e com controle da hemorragia, não com mais uma dose de droga.
A técnica de via aérea avançada e a sequência rápida de intubação são do capítulo de manejo de via aérea no trauma, na apostila de Trauma. Deste capítulo é o quando — o momento em que se decide que ventilação com bolsa-válvula-máscara não está sustentando a criança e que é preciso chamar quem intuba. O como vai para lá inteiro, inclusive as drogas.
Há um segundo caminho pelo qual o trauma entra neste capítulo, e ele exige que você levante os olhos do tórax que está comprimindo. Criança pequena que chega em parada, ou em deterioração grave, com uma história que não explica a lesão — a queda de uma altura pequena demais para o dano encontrado, a versão que muda entre os dois acompanhantes, o intervalo grande entre o evento narrado e a procura por ajuda, lesões em estágios diferentes de evolução, ou a lesão em local que a criança daquela idade não alcança sozinha — é uma bifurcação, e a bifurcação leva ao capítulo de violência e maus-tratos infantis, na posição 1 desta apostila, onde estão os sinais, o dever de notificação compulsória e o que fazer com a família.
A remissão não é uma delicadeza editorial. O reconhecimento da história incompatível acontece justamente na hora em que ninguém tem atenção sobrando — durante ou logo depois de uma reanimação —, e é por isso que ele precisa estar escrito num capítulo de parada e não só num capítulo de violência. O que se pede aqui é modesto: registrar textualmente o que os acompanhantes disseram, com as palavras deles, antes que a versão se consolide, e continuar a reanimação. O resto é do outro capítulo.
Duas causas ambientais de parada pediátrica fecham a lista, recolhidas de uma cessão explícita. O capítulo de emergências ambientais no adulto declara-se do adulto e cede afogamento e hipotermia na criança para a pediatria; este capítulo os assume, e assume também que não há protocolo nacional de hipotermia pediátrica — o BPed 16 consta do sumário do SAMU seguido de 'Em finalização' e não tem corpo, de modo que a régua disponível é o protocolo do adulto. O afogamento pediátrico, esse sim, tem folha própria, o BPed 27, e dela saem duas regras que valem a pena decorar: todo paciente pediátrico vítima de submersão, mesmo assintomático, deve ser transportado para o hospital, pela possibilidade de aparecimento tardio de sintomas respiratórios; e o paciente em parada deve ser transportado porque receberá esforços de ressuscitação por período mais prolongado.
Como fechar o diagnóstico
Investigar, aqui, quase nunca é pedir exame. Numa parada pediátrica os exames úteis cabem em três: os dez segundos de mãos, a glicemia capilar e o ritmo na tela. Tudo o mais ou vem depois do retorno da circulação, ou pertence à doença de base e ao capítulo dela.
Vale abrir com o exame que não se faz e que decide todos os outros: o peso. Cada dose e cada carga de choque deste capítulo é por quilo, e a criança que chega em parada não sobe na balança. O protocolo BPed 1 do SAMU dá duas fórmulas de estimativa rápida, e elas estão discutidas na seção própria adiante, incluindo o buraco que têm.
Os dez segundos que valem por um exame
A checagem inicial da criança irresponsiva é um exame com tempo cronometrado e resultado binário, e as duas fontes brasileiras concordam nos limites. Checa-se respiração e pulso central, e as duas coisas podem ser checadas ao mesmo tempo. O teto é dez segundos; a diretriz brasileira acrescenta um piso de cinco, para que a pressa não produza um falso negativo. Passados dez segundos sem certeza, a dúvida se resolve como ausência de pulso.
O lugar do pulso muda com a idade e vale decorar, porque procurar carótida em pescoço de lactente consome os dez segundos sem produzir informação. No lactente, pulso braquial, na face interna do braço, entre o ombro e o cotovelo. Na criança maior, carotídeo ou femoral. A diretriz brasileira de cardiologia usa braquial no lactente e carotídeo na criança; o protocolo do SAMU acrescenta o femoral como alternativa na criança, o que é útil quando o pescoço está imobilizado.
A checagem de responsividade também tem forma pediátrica. No lactente, estímulo plantar — bater na região plantar de um dos pés, três vezes, diz a diretriz. Na criança, tocar os ombros e chamar em voz alta, três vezes. O ponto de sacudir uma criança pelos ombros com força não existe em nenhum dos dois documentos, e há boas razões anatômicas para que não exista.
Um lembrete de leitura que vale por um exame: respiração agônica, o gasping, conta como ausência de respiração. É um reflexo de tronco cerebral, não é ventilação, e é justamente o padrão que faz leigos e profissionais adiarem o início das compressões porque 'ainda está respirando'. A pergunta útil não é se há movimento, é se há ventilação — e o gasping não move ar de forma útil.
A glicemia capilar, que é o exame do bolso
A hipoglicemia é uma das causas reversíveis de parada listadas nos protocolos brasileiros, e é a única de toda a lista que se mede com um aparelho que já está no bolso do jaleco, custa segundos e não interrompe compressão nenhuma. É também a mais provável de todas na criança pequena, pela razão de sempre: reservas hepáticas de glicogênio pequenas, consumo alto e um jejum de poucas horas produzido pela própria doença que a trouxe. Ravy não mama desde a manhã.
É por isso que a hipoglicemia entra na lista das seis letras H dos protocolos pediátricos do SAMU e não entra na lista adulta correspondente. Essa é uma adaptação pediátrica de verdade, feita de propósito, e vale reconhecê-la — nem tudo na lista sofreu o mesmo cuidado, como a seção sobre causas reversíveis mostra adiante.
A correção usa glicose, que consta da Rename 2024 nas apresentações de 5%, 10% e 50%, todas no Componente Básico. O protocolo avançado do SAMU dá, para o lactente e a criança, uma alternativa prática para obter concentração aproximada de 10% a partir do que existe na sala: diluir 10 mL de glicose 50% em 100 mL de soro glicosado 5%. Essa conta foi refeita e está registrada na conferência de critérios, junto com o motivo de o resultado não ser exatamente 10% e de o documento estar certo ao chamá-lo de aproximado.
A glicemia entra no capítulo com um segundo papel, e ele é de reavaliação: depois do retorno da circulação, a criança que recebeu epinefrina e passou por um período de baixo fluxo tende a hiperglicemia e a novas quedas, e o protocolo de cuidados pós-ressuscitação pede controle rigoroso da glicemia com remissão explícita ao protocolo de hipoglicemia se ela cair. Medir uma vez, na parada, e nunca mais é meio exame.
O que o desfibrilador responde, e o que ele não responde
O desfibrilador externo automático é, na criança, sobretudo um exame diagnóstico: ele responde se o ritmo é chocável. Como a parada pediátrica é secundária a hipóxia na esmagadora maioria dos casos, a resposta esperada é que não seja — assistolia e atividade elétrica sem pulso são os ritmos típicos, e fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular sem pulso são a minoria. Isso não torna o aparelho dispensável: torna previsível o que ele vai dizer, e evita que a equipe fique esperando dele uma solução que ele não tem.
A pergunta prática é de material, e é aqui que os dois documentos brasileiros conversam. A diretriz de cardiologia de 2019 prefere o desfibrilador com atenuador de carga em menores de 8 anos, incluindo lactentes, ou com menos de 25 quilos, e diz que na ausência de pás pediátricas se pode usar o aparelho sem atenuador — classe IIb, nível de evidência C. Diz também, com classe I, que o aparelho pode ser usado em menor de 1 ano na ausência de desfibrilador manual. O protocolo do SAMU de 2016 escreve a mesma decisão em outra ordem: use o sistema de eletrodos e cabos pediátricos, que atenuam a carga, no bebê e na criança de 1 a 8 anos ou com menos de 25 quilos, e adulto acima disso.
A frase do SAMU que resolve a sala de verdade é a nota que vem depois: caso não se disponha de sistema pediátrico, podem ser utilizadas pás de adulto em qualquer idade pediátrica, assegurando-se de que não se toquem nem se superponham no tórax; se necessário, uma pá vai na parede anterior do tórax e a outra no dorso, na região interescapular. Essa é a instrução que salva o plantão de uma unidade que só tem pás de adulto, que é a situação da maioria das unidades. Falta de pá pediátrica não impede desfibrilar.
Duas cautelas de execução que os protocolos repetem e que se perdem no susto. Antes de cada choque, alguém verifica em voz alta que ninguém está em contato com o paciente e que não há alto fluxo de oxigênio direcionado para o tórax. E o tórax precisa estar desnudo e seco — o que numa criança que acabou de sair de uma banheira ou de uma piscina é uma etapa real, não uma formalidade.
As causas reversíveis, com peso pediátrico
Os protocolos avançados pediátricos do SAMU mandam procurar e tratar as causas reversíveis identificadas, e listam seis letras H e cinco letras T. Os seis H: hipovolemia, hidrogênio (acidose), hipóxia, hipo ou hipercalemia, hipotermia e hipoglicemia. Os cinco T: tensão no tórax por pneumotórax, toxinas, trombose pulmonar, tamponamento cardíaco e trombose coronariana, glosada no próprio documento como infarto agudo do miocárdio.
A lista é útil e tem um problema de peso que vale nomear, porque muda o que você procura primeiro. Com exceção da hipoglicemia, que foi acrescentada para a criança, a lista é a do adulto transportada inteira — e nela a trombose coronariana ocupa uma das onze casas, ao lado de hipóxia e hipovolemia, que respondem por quase toda a epidemiologia pediátrica. Numa lista em que todas as entradas têm o mesmo peso visual, o item que praticamente não acontece na criança concorre em atenção com os dois que quase sempre acontecem.
A leitura pediátrica da mesma lista, feita a partir do bloco de mecanismo, tem uma ordem própria: hipóxia primeiro, sempre, porque é a via de 85 a 95% das paradas; hipovolemia em segundo, porque é a outra estrada, e na criança ela vem de diarreia, de sangramento por trauma e de sepse; e então acidose e distúrbio de potássio, que são consequência de tempo de parada e de doença renal. Hipotermia e hipoglicemia sobem de posição em contextos específicos — a submersão, a exposição, o lactente que não mama há horas. Tensão no tórax por pneumotórax sobe muito no trauma e na criança ventilada com bolsa por vários minutos. Toxinas sobem quando a história tem um frasco, e aí o capítulo é o de intoxicação exógena, na apostila de Toxicologia.
Registre-se, para não ficar em pé por omissão, que essa reordenação é leitura deste capítulo a partir dos números da própria diretriz brasileira, e não uma priorização escrita em nenhum dos dois documentos. Os protocolos apresentam as onze causas sem hierarquia declarada.
A radiografia depois do engasgo, e o que ela não exclui
Após desobstrução, a criança deve ter avaliação clínica para verificar recuperação, trauma e suspeita de corpo estranho residual. Imagem é indicada pela história e pelos achados, especialmente quando persistem sintomas ou suspeita de aspiração; não constitui requisito universal após qualquer tosse transitória.
O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria especifica a técnica e a finalidade: radiografia simples de tórax, idealmente inspiratória e expiratória, para identificar possível localização e material constituinte do corpo estranho. A incidência em expiração existe porque a maioria dos corpos estranhos é radiotransparente — plástico, alimento — e não aparece como sombra; o que aparece é o efeito dele, o aprisionamento de ar do lado obstruído, que só se declara quando o pulmão sadio esvazia e o obstruído não.
Radiografia normal não exclui corpo estranho aspirado. Persistência de suspeita exige avaliação especializada, que definirá broncoscopia e eventual exame adicional. Não imponha tomografia como etapa obrigatória que adie a retirada quando a indicação já é clara.
A remoção endoscópica depende da localização, do objeto, da estabilidade e da equipe disponível. Broncoscopia rígida ou flexível exige planejamento de via aérea, anestesia/sedação e possibilidade de resgate; não ensine que a modalidade flexível dispensa automaticamente anestesia geral em crianças. O interno reconhece a suspeita e organiza o encaminhamento, sem tentativas cegas de retirada.
Uma nota de fronteira fecha a seção. Objeto que ficou na narina ou no conduto auditivo não é caso de radiografia de tórax e é do capítulo de epistaxe, corpo estranho em nariz e ouvido e trauma nasal, na apostila de Otorrinolaringologia — onde, aliás, está a discussão de quando a imagem tem lugar naquele contexto. A imagem entra aqui exatamente quando a suspeita é a de que o objeto desceu, e aí ela é de tórax.
O peso que ninguém mediu, e as duas fórmulas que o SAMU dá
Toda a farmacologia e toda a eletricidade deste capítulo são por quilo, e a criança que chega em parada não é pesada. Perguntar o peso à mãe é o primeiro recurso e costuma funcionar em lactente acompanhado em puericultura, porque a caderneta é recente e o número está na cabeça dela. Quando não há informação, o protocolo BPed 1 do SAMU 192 oferece duas fórmulas para cálculo rápido e aproximado.
As fórmulas são estas: dos 3 aos 12 meses, peso igual a meia unidade vezes a idade em meses, mais quatro e meio; dos 2 aos 8 anos, peso igual a duas unidades vezes a idade em anos, mais oito. Para Ravy, de 8 meses, a primeira estima 8,5 quilos, e a mãe disse 8. Para Muriel, de 2 anos, a segunda estima 12.
A conferência dessas fórmulas contra as outras regras da mesma página está no bloco de critérios, com a conta; adianta-se aqui o que ela achou de mais prático: entre os 12 meses e os 2 anos não há fórmula nenhuma. A primeira termina aos 12 meses, a segunda começa aos 2 anos, e a criança de 15 ou de 18 meses — que é exatamente a faixa em que o engasgo por sólido é mais frequente, porque ela já anda e leva tudo à boca — cai no vão entre as duas.
Na prática, o vão se atravessa por continuidade: a primeira fórmula devolve 10,5 quilos aos 12 meses e a segunda devolve 12 aos 24, de modo que interpolar entre esses dois números é a saída razoável e é o que se faz. Registre-se que a interpolação é leitura deste capítulo e não está escrita no protocolo. E registre-se o que resolve melhor do que qualquer fórmula: uma fita de reanimação pediátrica, que estima peso pelo comprimento e traz as doses já calculadas, custa pouco e resolve o problema na origem — se a sua unidade tiver uma, a hora de descobrir onde ela fica não é durante a parada.
Qual régua o Brasil usa, o que dela não é cumprível na sua unidade, e o que não fechou na conferência
As decisões centrais deste capítulo têm régua brasileira, e ela tem nome e data. Para o suporte básico e avançado pré-hospitalar, os Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, do Ministério da Saúde, edição de 2016, com as folhas pediátricas elaboradas em janeiro e abril daquele ano. Para os números da reanimação, a Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar da Sociedade Brasileira de Cardiologia, de 2019, que declara seguir o consenso internacional de 2015. Para o engasgo, o Guia Prático de Atualização nº 222 da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 1º de agosto de 2025, o mais recente de todos e o único publicado depois de 2019. Para o que existe na farmácia, a Rename 2024. Abaixo estão os números dessas réguas, a tabela de conversão refeita em Python contra a ampola real, e as conferências — as que falharam e as que deram certo.
- 1Criança que piora: reconheça o estado antes do diagnóstico. Esforço aumentando, saturação que só se mantém com oxigênio, ou criança mais quieta do que estava — qualquer um dos três muda a criança de lugar e chama ajuda.
- 2Choque: taquicardia sustentada, enchimento capilar lento, extremidades frias, pulso periférico fino com central presente, consciência alterada, diurese ausente. A pressão arterial normal não exclui nada.
- 3Bradicardia abaixo de 60 por minuto, com má perfusão, apesar de oxigenação e ventilação adequadas, em criança irresponsiva: comece as compressões, mesmo com pulso presente.
- 4Irresponsiva, sem respirar ou em gasping: checar respiração e pulso ao mesmo tempo, entre 5 e 10 segundos. Braquial no lactente, carotídeo ou femoral na criança. Dúvida ao fim dos 10 segundos vale como ausência.
- 5Sem pulso: superfície rígida, comece pelas compressões. 30 para 2 sozinho, 15 para 2 em dupla, 100 a 120 por minuto, 4 cm no lactente e 5 cm na criança, com retorno completo do tórax.
- 6Desfibrilador assim que chegar, sem interromper os ciclos. Com atenuador se houver; sem ele, pás de adulto que não se toquem, uma à frente e outra no dorso se necessário.
- 7Ritmo não chocável: epinefrina IV/IO 0,01 mg/kg, máximo de 1 mg por dose, que é 0,1 mL/kg da solução 1:10.000 que você acabou de diluir, a cada 3 a 5 minutos, sem interromper as compressões.
- 8Ritmo chocável: primeiro choque 2 J/kg, segundo 4 J/kg, seguintes ≥4 J/kg, sem exceder 10 J/kg ou o máximo do adulto. Na FV/TV sem pulso refratária, amiodarona IV/IO 5 mg/kg: máximo 300 mg inicialmente e 150 mg nas doses seguintes, até três doses no total.
- 9Percorra as causas reversíveis com peso pediátrico: hipóxia primeiro, hipovolemia em segundo, glicemia capilar sempre, e as demais conforme a história.
- 10ENGASGO. Tosse forte e eficaz, com ventilação preservada, permite incentivar a tosse e observar de perto, sem manobras. Tosse fraca ou ineficaz, dificuldade importante para respirar, incapacidade de falar/chorar ou cianose indicam gravidade, mesmo que ainda exista algum ruído. Na criança a partir de 1 ano com obstrução grave e responsiva, alterne 5 golpes dorsais e 5 compressões abdominais, repetindo até expulsão do objeto ou perda de responsividade. No lactente com menos de 1 ano, alterne 5 golpes dorsais e 5 impulsos torácicos com a base de uma mão, sem compressões abdominais. Se ficar irresponsivo, iniciar RCP por compressões sem perder tempo checando pulso; remover apenas objeto visível ao abrir a via aérea.
- 11TOSSE AO INGERIR LÍQUIDO. Se respiração e cor normalizam rapidamente, interromper a oferta e observar; sintomas persistentes exigem avaliação. Apneia ou ventilação inadequada exigem suporte imediato, e inconsciência com respiração anormal exige RCP. Não aguardar passivamente a perda de consciência.
- 12Retorno da circulação: oxigenação e ventilação, glicemia, temperatura, e transporte com quem sabe manter tudo isso. Toda vítima pediátrica de submersão, mesmo assintomática, vai para o hospital.
Quando parar: a decisão que nenhum documento brasileiro deste capítulo escreve
Nenhuma das quatro fontes normativas deste capítulo fixa critério para interromper a reanimação de uma criança. Os protocolos do SAMU encerram cada folha de parada pediátrica mandando contatar a Regulação Médica e aguardar orientação para procedimento ou transporte — isto é, transferem a decisão para o médico regulador, sem lhe dar critério. A diretriz de cardiologia de 2019 discute prognóstico nos capítulos pediátricos, mas não fixa duração, número de ciclos nem condição de término. O que os documentos dizem, e que aponta na direção contrária de parar cedo, são três coisas: os esforços devem ser mais prolongados em hipotermia, intoxicação e afogamento; o paciente pediátrico em parada por submersão deve ser transportado justamente porque receberá esforços mais prolongados; e a lista de causas reversíveis deve ser percorrida antes de qualquer conclusão. Na prática, a decisão de encerrar é do médico responsável, tomada com a Regulação quando é pré-hospitalar, e o que este capítulo pede do interno é o oposto de decidir: é não deixar a reanimação parar por cansaço, por desânimo da equipe ou por ausência de quem assuma a decisão. Rodízio de quem comprime a cada dois minutos existe para isso. A discussão de limitação terapêutica e ordem de não reanimar tem capítulo próprio, na apostila de Comunicação, ética e segurança na prática, e é lá que ela deve ser estudada.
Os números do suporte básico pediátrico, e onde cada um está escrito
| Parâmetro | Lactente (menor de 1 ano) | Criança (1 ano até a puberdade) | Documento |
|---|---|---|---|
| Checagem de responsividade | Estímulo plantar, três vezes | Tocar os ombros e chamar em voz alta, três vezes | SBC 2019, cap. 11 |
| Checagem de pulso central | Braquial; no mínimo 5 e no máximo 10 segundos | Carotídeo ou femoral; até 10 segundos | SBC 2019 e SAMU BPed 7 |
| Limiar que já manda comprimir | Pulso presente, frequência igual ou menor que 60 por minuto, com má perfusão, apesar de ventilação e oxigenação adequadas | Mesmo critério | SAMU BPed 7 e SBC 2019 |
| Local da compressão | Para RCP do lactente, use a base de uma mão ou os dois polegares com as mãos envolvendo o tórax, na metade inferior do esterno, evitando o xifoide. A técnica de dois dedos foi retirada da recomendação AHA 2025 por dificuldade de obter profundidade adequada. | Uma ou duas mãos no metade inferior do esterno, evitando o apêndice xifoide | SBC 2019, cap. 11 |
| Profundidade | No mínimo um terço do diâmetro anteroposterior, ou cerca de 4 cm | No mínimo um terço do diâmetro anteroposterior, ou cerca de 5 cm; teto de 6 cm no adolescente | SBC 2019 e SAMU BPed 7 |
| Frequência das compressões | 100 a 120 por minuto | 100 a 120 por minuto | SBC 2019 e SAMU BPed 7 |
| Relação compressão-ventilação | 30 para 2 com um socorrista; 15 para 2 com dois | 30 para 2 com um socorrista; 15 para 2 com dois | SAMU BPed 7 e SBC 2019 |
| Leigo, em qualquer idade | RCP após OVACE com perda de responsividade: iniciar por compressões, sem checar pulso; 30:2 com um socorrista ou 15:2 com dois profissionais. No lactente, base de uma mão ou dois polegares envolvendo o tórax. | 30 para 2, sem checagem de pulso | SBC 2019, seção 11.9 |
| Parada respiratória: pulso presente e maior que 60 | 1 insuflação a cada 3 a 5 segundos (12 a 20 por minuto), checando pulso a cada 2 minutos | Mesmo parâmetro | SAMU BPed 6 e BPed 7 |
| Com via aérea avançada instalada | Compressões contínuas e 1 insuflação a cada 6 segundos (10 por minuto), não sincronizadas | Mesmo parâmetro | SAMU APed 10 e SBC 2019 |
| Sequência | Compressão, via aérea, ventilação, reafirmada para a pediatria | Mesma sequência | SBC 2019, seção 11.4 |
| Desfibrilador com atenuador | Preferível; na falta, aparelho sem atenuador ou pás de adulto, sem que se toquem | Preferível até 8 anos ou 25 kg; acima disso, adulto | SBC 2019 e SAMU BPed 7 |
De miligrama a mililitro a ampola, nos dois pesos deste capítulo, refeito contra a apresentação real
| Item | Dose ou carga declarada | Ravy, 8 kg | Muriel, 12 kg | Onde o erro acontece |
|---|---|---|---|---|
| Epinefrina na parada, intravenosa ou intraóssea | 0,01 mg/kg, isto é, 0,1 mL/kg da solução 1:10.000; máximo de 1 mg por dose; repetir a cada 3 a 5 minutos | 0,08 mg = 0,8 mL da diluída | 0,12 mg = 1,2 mL da diluída | A diluição: a Rename 2024 só tem epinefrina 1 mg/mL, que é 1:1.000. A solução 1:10.000 não existe pronta e é feita na hora |
| A diluição, escrita no próprio protocolo | 1 ampola de 1 mL de epinefrina 1:1.000 mais 9 mL de solução salina 0,9%, resultando 10 mL a 0,1 mg/mL | Uma ampola diluída rende 12,5 doses deste peso | Uma ampola diluída rende 8,3 doses deste peso | Aspirar 0,1 mL/kg da ampola pura entrega dez vezes a dose |
| O teto de 1 mg, testado contra o erro de dez vezes | 1 mg por dose | O erro daria 0,8 mg: o teto não pega | O erro daria 1,2 mg: o teto pega | Abaixo de 10 kg o teto de 1 mg não flagra o erro de diluição |
| Epinefrina por via traqueal, se for a única obtida | 0,1 mg/kg, isto é, 0,1 mL/kg da solução 1:1.000 | 0,8 mg = 0,8 mL da ampola pura | 1,2 mg = 1,2 mL da ampola pura | O volume por quilo é o mesmo das duas vias; só muda a ampola de onde se aspira |
| Amiodarona na fibrilação ou taquicardia ventricular sem pulso | 5 mg/kg IV/IO; primeira dose: máximo 300 mg; doses seguintes: máximo 150 mg cada; até três doses no total | 40 mg = 0,8 mL da ampola de 50 mg/mL | 60 mg = 1,2 mL da ampola de 50 mg/mL | O volume por quilo coincide com o da epinefrina diluída: 0,1 mL/kg nas duas |
| Desfibrilação, primeiro choque | 2 J/kg | 16 J | 24 J | É uma conta, não um preajuste do aparelho |
| Desfibrilação, segundo choque | 4 J/kg | 32 J | 48 J | Mesma conta |
| Desfibrilação, choques seguintes | Acima de 4 J/kg, teto de 10 J/kg ou a carga de adulto | Até 80 J | Até 120 J | O teto é por quilo e não por idade |
| Estimativa de peso quando não se sabe | Dos 3 aos 12 meses, meia unidade vezes a idade em meses mais 4,5; dos 2 aos 8 anos, duas unidades vezes a idade em anos mais 8 | Aos 8 meses a fórmula devolve 8,5 kg | Aos 2 anos a fórmula devolve 12 kg | Entre 12 e 24 meses não há fórmula no protocolo |
Engasgo: o que a situação autoriza, o que ela proíbe, e quem diz
| Situação | O que se faz | O que não se faz | Documento |
|---|---|---|---|
| Engasgo com líquido, criança tosse ou vomita e volta a respirar bem | Sentar ou semissentar, retirar o excesso da boca com um lenço, ajudar e observar | Não se aplicam manobras de desobstrução | SBP 2025 |
| Engasgo com líquido, criança segue sintomática (dispneia, desconforto, choro, chiado) | Levar a serviço de emergência, por provável aspiração de líquido | Não se aplicam manobras | SBP 2025 |
| Engasgo com líquido, criança entra em apneia | Estimular delicadamente as costas, esfregando; a maioria retoma a respiração | Não são pancadas e não é manobra de desobstrução | SBP 2025 |
| Engasgo com líquido, não volta a respirar e perde a consciência | Chamar ajuda e iniciar reanimação cardiopulmonar | Não se procura corpo estranho | SBP 2025 |
| Sólido, obstrução leve: tosse, fala, emite sons, respira | Acalmar, incentivar a tosse vigorosa, observar de forma atenta e constante | Não realizar manobras de desobstrução; não fazer varredura às cegas da boca e da orofaringe | SAMU BPed 4 e BPed 5 |
| Sólido, obstrução grave em lactente responsivo | No lactente com menos de 1 ano, alterne 5 golpes dorsais e 5 impulsos torácicos com a base de uma mão, sem compressões abdominais. | Nenhuma compressão abdominal abaixo de 1 ano | SAMU BPed 5 e SBP 2025 |
| Sólido, obstrução grave em criança maior de 1 ano responsiva | Alternar cinco golpes dorsais entre as escápulas com cinco compressões abdominais, entre o umbigo e o xifoide, para dentro e para cima. Repetir enquanto houver obstrução grave e responsividade; se perder a responsividade, iniciar RCP. | Não se aplica a manobra em quem ainda consegue tossir e falar | SAMU BPed 4 e SBC 2019 |
| Criança obesa em que não se consegue abraçar o abdome | Braços por baixo das axilas e compressões torácicas com as mãos na metade inferior do esterno | Não insistir na compressão abdominal sem alcance | SBC 2019, seção 11.10 |
| Obstrução grave, vítima ficou irresponsiva | Deitar em superfície rígida, iniciar reanimação começando por 30 compressões, inspecionar a boca antes de cada ventilação e retirar o objeto só se visível e alcançável | Não checar pulso antes de comprimir; não fazer varredura digital às cegas | SAMU BPed 4 e BPed 5, SBC 2019 |
| Depois de qualquer manobra, e mesmo com o objeto expelido | Encaminhar para avaliação médica e de imagem; radiografia de tórax inspiratória e expiratória na suspeita de aspiração | Não dar alta pela ausência de sintoma: estudo radiográfico normal não exclui corpo estranho aspirado | SBP 2025 |
Treino observado de resposta à deterioração
| Situação simulada | Ação demonstrada | Verificação do preceptor |
|---|---|---|
| Tosse ainda eficaz | Reconhecer ventilação e observar junto da criança | Não intervir precipitadamente; dizer qual mudança exige ação. |
| Tosse que perde eficácia | Reconhecer gravidade mesmo com ruído residual | Acionar ajuda e selecionar a sequência pela idade. |
| Lactente responsivo obstruído | Cinco golpes dorsais e cinco impulsos torácicos | Apoio contínuo e base da mão no esterno, sem abdome. |
| Criança ≥1 ano responsiva obstruída | Cinco golpes dorsais e cinco compressões abdominais | Posição e força proporcionais; reavaliar após cada ciclo. |
| Perda de responsividade após OVACE | RCP iniciada por compressões | Sem checar pulso; visualizar boca antes de ventilar, sem varredura cega. |
| Bradicardia hipóxica | Ventilação eficaz, compressões quando <60/min com má perfusão apesar do suporte | Reavaliar pulso/perfusão no algoritmo; não inferir ritmo pelo aviso do DEA. |
| Retorno da circulação | Manter suporte, monitorizar e passar o caso | Relatar tempos, doses, resposta e próximos riscos. |
Conferência que falhou, e é a mais grave do capítulo: o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2025 se contradiz dentro do mesmo parágrafo sobre a obstrução parcial. Ele escreve, primeiro, que nas obstruções parciais — definidas ali como as crianças que conseguem falar ou tossir — as manobras de desobstrução não estão indicadas, pelo risco de deslocar o corpo estranho e causar obstrução completa, e que pela mesma razão a varredura às cegas deve ser desestimulada. Duas frases depois, no mesmo parágrafo, escreve que nas crianças com obstrução incompleta ou parcial se deve estimular a tosse e, caso a tosse se torne inefetiva, pancadas leves no dorso estão indicadas antes de iniciar as manobras de desobstrução. As duas frases usam o mesmo rótulo de categoria e citam a mesma referência. Há três problemas empilhados: a definição de obstrução parcial dada na primeira frase (criança que consegue tossir) já engloba a tosse inefetiva, de modo que a condição da segunda frase não distingue nada; a pancada no dorso é, na própria seção seguinte do documento, uma das manobras de desobstrução, e não pode ao mesmo tempo estar excluída e ser o que vem antes delas; e o adjetivo muda — as pancadas do algoritmo de obstrução completa são cinco, firmes, com o calcanhar da mão, enquanto as da obstrução parcial são 'leves'. Este capítulo não escolhe lado: expõe a contradição na tabela de engasgo e no bloco de divergências, e fica com o critério que os dois documentos brasileiros compartilham sem ambiguidade — passa ar, não se põe a mão; não passa ar, entram as manobras da faixa etária.
Conferência que falhou, sobre a procedência da figura: o mesmo guia da Sociedade Brasileira de Pediatria ilustra as manobras com uma imagem cuja fonte declarada é um endereço encurtado de busca de imagens do Google, e não uma obra identificada. Isso significa que a única figura de um documento de sociedade médica sobre a manobra que se faz com as mãos não tem autoria, edição nem data verificáveis. A legenda dessa figura agrava o problema: ela se chama 'Manobra de Heimlich em lactente e criança maior', quando o texto do próprio documento, quinze linhas acima, estabelece que em menores de um ano se fazem pancadas no dorso e compressões torácicas, e que a manobra de Heimlich é para maiores de um ano. Chamar de Heimlich o que se faz no lactente é exatamente o erro de nomenclatura que produz compressão abdominal em bebê.
Conferência refeita com a conta explícita, sobre a epidemiologia do mesmo guia. Ele relata um estudo pré-hospitalar assim: de 110.367 chamadas de ambulância em um ano, 4.894 (4,4%) foram para menores de 5 anos; destes, 182 crianças (3,7%) tinham queixa de obstrução de via aérea, sendo 99 delas menores de 1 ano (55%); a obstrução por líquidos foi mais comum nas crianças menores de um ano, totalizando 23% das ocorrências do grupo; 59% das obstruções se resolveram antes da chegada da ambulância e, destas, 69% ocorreram por líquidos. As duas primeiras frações batem: 4.894 dividido por 110.367 dá 4,43%, e 182 dividido por 4.894 dá 3,72%. A terceira não: 99 dividido por 182 dá 54,4%, que arredonda para 54% e não para 55%. E a quarta não é decidível: 59% de 182 são 107 casos resolvidos antes da ambulância, dos quais 69% por líquido dá um piso de 74 casos de líquido. Se os '23% das ocorrências do grupo' forem 23% dos 99 lactentes, são 23 casos, e sobram ao menos 51 líquidos entre as 83 crianças maiores, isto é, 62% do grupo maior contra 23% do grupo menor — o oposto exato da frase que essas mesmas linhas sustentam. Se forem 23% do total de 182, são 42 casos entre lactentes (42% daquele grupo) contra ao menos 32 entre os maiores (39%), e aí a frase se sustenta por pouco. O documento não permite saber qual é o antecedente de 'do grupo', e as duas leituras dão conclusões opostas sobre a própria afirmação que ilustram.
Divergência entre dois documentos brasileiros em vigor, e é o achado que mais muda a conduta. A diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2019 abre a seção de obstrução de via aérea pediátrica dizendo que ela ocorre predominantemente em menores de 5 anos, sendo 65% abaixo de 1 ano, e que os líquidos são responsáveis pela obstrução na maioria dos casos. O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2025 existe para dizer o contrário: que o engasgo por líquido, na maioria das vezes, não é obstrução de via aérea e sim um reflexo de proteção, e que tratá-lo como obstrução é o erro que o documento veio corrigir. Repare no que acontece com o número quando as duas afirmações são postas lado a lado: o mesmo 65% em menores de um ano aparece nos dois documentos, e no de 2019 ele vem acompanhado da explicação que o produz — se os líquidos são a maioria dos casos e o engasgo por líquido é um evento de lactente, a fração de lactentes tinha de ser alta. Ao repudiar a premissa e conservar a estatística, o guia de 2025 fica com um número cujo denominador ele próprio recusa. Não se resolve isso aqui: as duas afirmações estão em vigor, foram publicadas por duas sociedades nacionais, e a que muda a sua mão é a de 2025.
Conferência que deu certo, e vale mais do que parece: as duas apresentações de epinefrina dos protocolos batem, e é justamente por baterem que enganam. A dose intravenosa é 0,01 mg/kg, declarada também como 0,1 mL/kg da solução 1:10.000 — e confere, porque 1:10.000 é 0,1 mg/mL, e 0,01 dividido por 0,1 dá 0,1 mL por quilo. A dose traqueal é dez vezes maior, 0,1 mg/kg, declarada também como 0,1 mL/kg da solução 1:1.000 — e também confere, porque 1:1.000 é 1 mg/mL, e 0,1 dividido por 1 dá os mesmos 0,1 mL por quilo. As duas vias têm o mesmo volume por quilo e doses que diferem por um fator de dez; o que separa uma da outra é unicamente de qual frasco se aspira. Como a Rename 2024 só tem epinefrina 1 mg/mL, isto é, 1:1.000, a solução 1:10.000 nunca chega pronta e é feita por quem vai injetar: uma ampola de 1 mL em 9 mL de salina, conforme o próprio protocolo avançado do SAMU escreve. Quem esquece a diluição e aspira 0,1 mL/kg da ampola pura administra dez vezes a dose, com a agravante conferida a seguir.
Conferência que falhou por omissão, e é uma trava que não trava: o teto de 1 mg por dose de epinefrina, herdado da dose máxima do adulto, só flagra o erro de diluição de dez vezes acima de 10 quilos. A conta é direta: o erro entrega 0,1 mg/kg, que ultrapassa 1 mg somente a partir de 10 kg. Para Ravy, de 8 kg, o erro entregaria 0,8 mg — abaixo do teto, portanto sem nenhum aviso. Para Muriel, de 12 kg, entregaria 1,2 mg, e aí o teto pegaria, se alguém o conferisse. Isto é: a única barreira numérica embutida na prescrição deixa de funcionar exatamente na faixa de peso em que a parada pediátrica é mais frequente e em que a diluição é feita com mais pressa. A barreira que funciona não é o teto, é o gesto: diluir antes, dizer em voz alta o que se diluiu, e conferir o rótulo da ampola com outra pessoa.
Conferências que deram certo, agrupadas. A amiodarona: 5 mg/kg contra a ampola de 50 mg/mL, que é a apresentação injetável da Rename 2024, dá exatamente 0,1 mL/kg, e três doses de 5 mg/kg somam no máximo 15 mg/kg, mas os tetos absolutos da AHA 2025 também limitam cada administração: 300 mg inicialmente e 150 mg nas seguintes. Note-se, de passagem, que amiodarona e epinefrina diluída têm o mesmo volume por quilo — 0,1 mL/kg as duas —, o que é uma coincidência aritmética entre concentrações diferentes e um bom motivo para nomear a droga em voz alta ao entregar a seringa. A glicose caseira a 10% do protocolo avançado: diluir 10 mL de glicose 50% em 100 mL de soro glicosado 5% resulta em 10 g de glicose em 110 mL, ou 9,09%; se a leitura for 10 mL em volume final de 100 mL, resulta 9,5%. Nenhuma das duas leituras dá 10 exatos, e o documento acerta ao escrever 'concentração aproximada'. Ainda no mesmo protocolo, 8 mg/kg/min em glicose a 10% correspondem a 4,8 mL/kg/hora, e o texto arredonda para 5 — um arredondamento de 4%, declarado aqui por transparência e sem consequência clínica.
Conferência de coerência interna que deu certo, com um buraco. Na mesma página do protocolo BPed 1 convivem duas regras de peso: a regra de crescimento (o peso de nascimento dobra no 4º mês, triplica com 1 ano e quadruplica com 2 anos) e as duas fórmulas de estimativa rápida. Testadas uma contra a outra a partir de um peso de nascimento de 3,3 kg, elas concordam: aos 4 meses a regra prevê 6,6 kg e a fórmula devolve 6,5; com 1 ano a regra prevê 9,9 e a fórmula devolve 10,5; aos 2 anos a regra prevê 13,2 e a fórmula devolve 12 — todas dentro do que se pode chamar de aproximado. O buraco está nas faixas declaradas: a primeira fórmula vale dos 3 aos 12 meses, a segunda dos 2 aos 8 anos, e entre os 12 e os 24 meses o protocolo não oferece fórmula nenhuma. É a faixa em que a criança já anda, já leva objeto à boca e concentra boa parte dos engasgos.
Achado de datação, e ele qualifica tudo o que se leu acima. Cada folha dos protocolos pediátricos do SAMU 192 traz impressa a declaração de que foi 'pautada nas mais recentes evidências científicas disponíveis', com elaboração em janeiro ou abril de 2016. As fontes que essas mesmas folhas creditam para as figuras e para os números são um manual da American Heart Association para profissionais de saúde de 2006, um manual de suporte avançado pediátrico de 2003 e um manual municipal de prevenção de acidentes e primeiros socorros nas escolas de 2007. A mais nova é nove anos anterior ao protocolo. Não se conclui daí que os números estejam errados — vários deles, como a frequência de 100 a 120 por minuto e as profundidades de 4 e 5 cm, são posteriores a 2006 e coincidem com o que a diretriz brasileira de 2019 viria a publicar. Conclui-se que a folha credita a manuais antigos números que não estão neles, e que a declaração de atualidade impressa no rodapé não é sustentada pelas referências da própria página.
Achados de completude e de revisão na mesma série do SAMU. Primeiro: dois protocolos pediátricos listados no sumário não têm corpo no documento — o BPed 16, de hipotermia, e o BPed 26, de especificidades da criança vítima de trauma, ambos seguidos no sumário da observação 'Em finalização'. A sequência dos protocolos publicados pula do 15 para o 17 e do 25 para o 27, o que confirma a ausência. A apresentação da série, assinada em 2014, anunciava o segundo grupo de protocolos para o início de 2015; a hipotermia pediátrica segue sem folha própria, e quem atende a criança hipotérmica usa o protocolo do adulto, o BC17. Segundo: o cabeçalho da primeira página do protocolo de anafilaxia pediátrica traz o título de outro protocolo — lê-se 'BPed19 – Epistaxe' na mesma página em que se lê 'BPed19 – Anafilaxia', sendo que a epistaxe é o BPed 22. É erro de diagramação e não de conteúdo, mas num documento que se consulta pelo número do protocolo, no meio de uma emergência, o cabeçalho é o que a mão procura.
Achado de elenco, com consequência de conduta. A diretriz brasileira de cardiologia de 2019, ao tratar do cálcio na reanimação pediátrica, diz que, havendo indicação — hipocalcemia, intoxicação por bloqueador de canal de cálcio, hipermagnesemia ou hipercalemia —, podem ser usados gluconato ou cloreto de cálcio. Na Rename 2024, conferida por busca exata sobre o texto normalizado, gluconato de cálcio não consta do elenco, e cloreto de cálcio aparece apenas como um dos componentes da solução de Ringer com lactato, na concentração de 0,2 mg/mL, e não como injetável isolado. Ou seja: das duas alternativas que a diretriz oferece para uma indicação real, nenhuma é fornecida pelo Componente Básico. Isso não muda a indicação, que continua restrita e excepcional, mas muda a expectativa de quem procura a ampola no carrinho.
Achado de silêncio, sobre a família na sala. A diretriz brasileira de cardiologia de 2019 não traz recomendação alguma sobre a presença de familiares durante a reanimação: os capítulos pediátricos não mencionam a palavra família nenhuma vez, e o documento inteiro, de 215 páginas, a usa onze vezes, nenhuma delas a respeito disso. A única frase brasileira encontrada sobre o assunto está nas observações dos protocolos de parada pediátrica do SAMU, básico e avançado, e diz: atentar para o direito da criança de ter um acompanhante, responsável legal ou outro. É uma frase de direito da criança, não uma recomendação de conduta de equipe, e o protocolo não nomeia a norma em que ela se apoia. Este capítulo assume o assunto por não haver dono, trata-o no bloco de conduta como decisão de equipe, e declara que o faz sobre uma base normativa de uma linha.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo tem dois relógios que se cruzam. Os três primeiros marcos correm em segundos e acontecem na sala de espera, com Muriel; os cinco últimos correm em minutos e horas e acontecem com Ravy, na sala de emergência. Os dois se juntam no marco 5, que é o único ponto do capítulo em que a conduta é a mesma para os dois: criança irresponsiva que não respira se reanima, tenha engasgado ou tenha adoecido.
Uma nota sobre a forma da lista. As linhas marcadas como prescrição são doses e cargas por quilo, e nenhuma delas se calcula na hora: elas se calculam quando você descobre o peso, que é a primeira coisa a perguntar e a última em que se pensa. Todo o resto se faz com o que já está na sala.
Segundo zero — avaliar eficácia da tosse e gravidade
Muriel leva as mãos ao pescoço. Avalie se a tosse é eficaz e se ela ventila, sem usar a presença de qualquer som como garantia. Tosse forte e eficaz, com ventilação preservada, permite incentivar a tosse e observar de perto, sem manobras. Tosse fraca ou ineficaz, dificuldade importante para respirar, incapacidade de falar/chorar ou cianose indicam gravidade, mesmo que ainda exista algum ruído. Peça ajuda ao reconhecer gravidade e mude a conduta imediatamente se houver deterioração. Não faça varredura digital às cegas. Observar exige alguém acompanhando continuamente a criança, capaz de reconhecer perda de eficácia; não significa devolvê-la à fila.
Obstrução grave — agir quando a tosse/ventilação são ineficazes
A tosse de Muriel fica ineficaz e o esforço respiratório é intenso; não é necessário esperar silêncio completo. Acione ajuda e serviço de emergência. Na criança a partir de 1 ano com obstrução grave e responsiva, alterne 5 golpes dorsais e 5 compressões abdominais, repetindo até expulsão do objeto ou perda de responsividade. Para os golpes, incline-a para a frente e golpeie entre as escápulas com a base da mão; para as compressões abdominais, posicione-se atrás, com punho entre umbigo e xifoide, comprimindo para dentro e para cima com força adequada ao tamanho. No lactente com menos de 1 ano, alterne 5 golpes dorsais e 5 impulsos torácicos com a base de uma mão, sem compressões abdominais. Apoie cabeça e tronco, mantendo a cabeça mais baixa e sem comprimir partes moles do pescoço. Se não for possível envolver o abdome da criança, a equipe aplica a adaptação torácica prevista no protocolo. Perda de responsividade muda a sequência para RCP.
Prescrição- No lactente com menos de 1 ano, alterne 5 golpes dorsais e 5 impulsos torácicos com a base de uma mão, sem compressões abdominais.
- Na criança a partir de 1 ano com obstrução grave e responsiva, alterne 5 golpes dorsais e 5 compressões abdominais, repetindo até expulsão do objeto ou perda de responsividade.
- Criança obesa sem alcance abdominal: braços por baixo das axilas, compressões torácicas na metade inferior do esterno
- Em nenhuma idade: varredura digital às cegas da boca ou da orofaringe
O mesmo minuto, se o que engasgou foi líquido
Se o lactente tosse ao mamar e recupera prontamente respiração e cor, interrompa a oferta, mantenha-o apoiado em posição confortável, limpe apenas líquido visível e observe. Esse reflexo isolado não indica compressões para expulsar um sólido. Persistência de desconforto exige avaliação. Apneia ou respiração inadequada exigem ajuda e suporte ventilatório prontamente; não fique esfregando as costas enquanto espera perda da consciência. Se irresponsivo e sem respiração normal, inicie a sequência de reanimação adequada. A decisão se baseia no estado atual e na possibilidade real de obstrução, não apenas no alimento relatado.
O outro relógio, que já corre há três dias — o minuto em que o desfecho se decide
Volte para Ravy, que ainda está na cadeira do meio. O que se faz por ele agora vale mais do que tudo o que se faria por ele depois de parado, e o que se faz é modesto: tirá-lo da fila. Ponha o oxímetro, conte a frequência respiratória em um minuto inteiro com o relógio, olhe o tórax despido para ver retração, encoste a mão no pé e no joelho para comparar temperatura, comprima o esterno cinco segundos e conte o enchimento capilar, e pergunte à mãe quantas fraldas ele molhou hoje e a que horas foi a última. Nenhum desses gestos exige autorização, material ou diagnóstico. Se qualquer um deles vier alterado, ou se a resposta para 'ele está mais quieto do que estava?' for sim, a conduta é chamar a plantonista, levar a criança para a sala de emergência e monitorizar. A frase que se diz em voz alta não é um diagnóstico, é um estado: 'esta criança está em insuficiência respiratória e eu não acho que ela sustenta isso'.
Prescrição- Oxigênio suplementar se a saturação estiver abaixo do alvo, com o dispositivo que a criança aceitar sem se debater
- Monitorização contínua, acesso venoso e glicemia capilar
- Se houver sinais de choque: expansão volêmica com cristaloide e reavaliação a cada alíquota (pacote completo em Choque na criança: hipovolêmico, séptico e distributivo, nesta apostila)
- Peso: pergunte à mãe; na falta, estime pela fórmula do BPed 1 e diga o número em voz alta para a equipe
Se parar — os dez segundos, e a bradicardia que já conta como parada
Ravy fica irresponsivo. Checar responsividade no lactente é estímulo plantar, três vezes. Sem resposta, um profissional chama ajuda, aciona o suporte avançado e vai buscar o desfibrilador e o material de emergência; outro fica com a criança e checa respiração e pulso ao mesmo tempo, entre cinco e dez segundos, pulso braquial porque ele é lactente. Deite-o em decúbito dorsal, numa superfície plana, rígida e seca. Agora as três saídas. Sem pulso: comece as compressões. Com pulso maior que 60 e sem respirar: é parada respiratória, e a conduta é ventilar, uma insuflação efetiva a cada 3 a 5 segundos, com bolsa-válvula-máscara e oxigênio, checando pulso a cada 2 minutos. Com pulso presente mas abaixo de 60, com sinais de perfusão ruim, apesar de ventilação e oxigenação adequadas: comece as compressões mesmo assim. Essa terceira saída é a mais pediátrica de todas e a que mais se hesita em executar, porque ela pede que se comprima o tórax de uma criança que tem pulso. Tem pulso e não tem débito. E respiração agônica, o gasping, conta como ausência de respiração — não adie por causa dele.
Do primeiro ciclo em diante — as relações, a profundidade e a diferença que dois socorristas fazem
A sequência pediátrica brasileira é a mesma do adulto: compressão primeiro, depois via aérea, depois ventilação. Para RCP do lactente, use a base de uma mão ou os dois polegares com as mãos envolvendo o tórax, na metade inferior do esterno, evitando o xifoide. A técnica de dois dedos foi retirada da recomendação AHA 2025 por dificuldade de obter profundidade adequada. Cem a cento e vinte por minuto, permitindo o retorno completo do tórax entre uma compressão e outra, com interrupções sempre abaixo de dez segundos. E aqui está a diferença que muda a conta: sozinho é 30 para 2; em dupla, 15 para 2, o que quase dobra o número de ventilações por minuto. Não é detalhe de prova: numa parada cuja causa é hipóxia, a segunda pessoa que entra na sala vale sobretudo por isso. A técnica das mãos também muda com o segundo socorrista no lactente — em dupla, envolva o tórax com as duas mãos, sustente as costas com os dedos e comprima com os dois polegares lado a lado no metade inferior do esterno, podendo sobrepô-los num bebê muito pequeno. E a ventilação não é opcional: a diretriz brasileira recomenda expressamente ventilação intercalada com compressão na criança, e reserva a compressão isolada para quem não consegue ventilar.
Prescrição- Um socorrista: 30 compressões para 2 ventilações. Dois socorristas: 15 para 2
- Frequência 100 a 120 por minuto, em qualquer idade pediátrica
- Profundidade: cerca de 4 cm no lactente, cerca de 5 cm na criança, no mínimo um terço do diâmetro anteroposterior
- Para RCP do lactente, use a base de uma mão ou os dois polegares com as mãos envolvendo o tórax, na metade inferior do esterno, evitando o xifoide. A técnica de dois dedos foi retirada da recomendação AHA 2025 por dificuldade de obter profundidade adequada.
- Rodízio de quem comprime a cada 2 minutos, aproveitando a checagem de ritmo
Assim que o desfibrilador chegar, e assim que houver acesso
Posicione os eletrodos no tórax desnudo e seco sem interromper os ciclos. Se houver sistema pediátrico com atenuador de carga, use-o: ele é o preferível abaixo de 8 anos ou 25 quilos. Se não houver, use as pás de adulto em qualquer idade pediátrica, garantindo que não se toquem nem se superponham — e, se necessário, ponha uma na parede anterior do tórax e a outra no dorso, entre as escápulas. Interrompa as compressões só para a análise do ritmo, siga a orientação do aparelho, e recomece pelas compressões imediatamente após o choque ou imediatamente após um 'choque não indicado'. Quanto à droga, aqui está o ponto material do capítulo. O que a Rename 2024 fornece é epinefrina 1 mg/mL — que é 1:1.000 — e nada mais; 'adrenalina' não devolve nada no elenco porque a denominação comum brasileira é epinefrina. A dose de parada é 0,01 mg/kg, escrita nos protocolos como 0,1 mL/kg da solução 1:10.000, que não existe pronta: você a faz diluindo uma ampola de 1 mL em 9 mL de salina, exatamente como o protocolo avançado do SAMU descreve. Dilua antes de precisar, diga em voz alta o que diluiu, e confira o rótulo com outra pessoa — porque abaixo de 10 quilos o teto de 1 mg por dose não flagra o erro de dez vezes.
Prescrição- Diluição, feita antes: 1 ampola de 1 mL de epinefrina 1 mg/mL + 9 mL de cloreto de sódio 0,9% = 10 mL a 0,1 mg/mL
- Epinefrina: 0,01 mg/kg = 0,1 mL/kg da solução diluída, a cada 3 a 5 minutos, sem interromper as compressões
- Choques: 2 J/kg no primeiro, 4 J/kg no segundo, acima de 4 J/kg nos seguintes, até 10 J/kg ou a carga de adulto
- Na FV/TV sem pulso refratária: amiodarona IV/IO 5 mg/kg; máximo de 300 mg na primeira dose e 150 mg nas seguintes, até três doses no total. Conferir apresentação e preparo no protocolo de reanimação.
- Antes de cada choque: ninguém em contato com o paciente e nenhum fluxo alto de oxigênio sobre o tórax
Enquanto os ciclos correm, e até a entrega — as causas, a família e o transporte
Enquanto alguém comprime, outra pessoa percorre as causas reversíveis com peso pediátrico: hipóxia primeiro e sempre, hipovolemia em segundo, glicemia capilar medida e corrigida, temperatura aferida, e as demais conforme a história — pneumotórax hipertensivo no trauma e na criança muito ventilada, toxinas quando há frasco na história, distúrbio de potássio na doença renal. Sobre a família: os protocolos do SAMU trazem, nas observações da parada pediátrica, a única frase brasileira encontrada sobre o assunto — atentar para o direito da criança de ter um acompanhante, responsável legal ou outro. Como não há recomendação nacional de conduta de equipe sobre isso, este capítulo assume a decisão e a descreve como ela funciona quando funciona: ofereça, não imponha; designe uma pessoa da equipe para ficar ao lado da mãe explicando o que está sendo feito, sem outra função; ponha-a onde ela veja o rosto do filho e não atrapalhe as mãos; e diga em voz alta, com nome, cada coisa que a equipe faz. Se a mãe não quiser entrar, isso não é abandono nem falta de amor. Se ela quiser, quem sai não é ela — é quem não tiver função na sala. Na entrega, ao transporte ou à equipe do hospital, passe o que decide a próxima hora: peso usado nos cálculos, horário do início das manobras, número de doses de epinefrina e horário da última, ritmos vistos, choques dados, glicemia, temperatura, causa suspeitada e o que já foi tratado.
Prescrição- Percorrer as causas reversíveis em ordem pediátrica: hipóxia, hipovolemia, glicemia, temperatura, e as demais conforme a história
- Uma pessoa designada só para a família, sem outra tarefa na sala
- Retorno da circulação: manter oxigenação e ventilação, controlar glicemia e temperatura, e reavaliar pulso e ritmo
- Vítima de submersão, mesmo assintomática, vai para o hospital; em parada, transporte com manobras mantidas
- Registrar textualmente o que os acompanhantes disseram sobre o evento, com as palavras deles
Como saber se está funcionando
Reavaliar, numa parada pediátrica, tem um relógio próprio: dois minutos. É o intervalo em que se checa ritmo e pulso, em que se troca quem comprime, e em que a equipe recupera a noção de tempo que se perde por completo dentro de uma reanimação. Sem alguém dizendo os dois minutos em voz alta, uma reanimação de doze minutos é lembrada como três.
Esperado: Pulso palpável com frequência acima de 60 e sinais de circulação — respiração espontânea, tosse ou movimento — encerram as compressões e abrem os cuidados pós-ressuscitação
Se não melhora: Sem pulso, ou com pulso abaixo de 60 e má perfusão, reinicie imediatamente pelas compressões. Dúvida sobre a presença do pulso depois de dez segundos vale como ausência: comprima. Esta é a checagem que mais se prolonga indevidamente, e cada segundo a mais é um segundo sem fluxo coronariano
Esperado: Cerca de 4 cm no lactente e 5 cm na criança, 100 a 120 por minuto, retorno completo do tórax entre as compressões, interrupções abaixo de dez segundos
Se não melhora: Profundidade que cai e frequência que acelera são os dois sinais de fadiga, e aparecem antes de quem comprime perceber. Troque a cada dois minutos, aproveitando a checagem de ritmo, mesmo que a pessoa diga que está bem. Apoio mole embaixo da criança — colchão, colo, maca sem prancha — rouba profundidade sem que ninguém veja
Esperado: Elevação visível do tórax com cada insuflação, sem distensão gástrica progressiva
Se não melhora: Reposicione a cabeça e reveja o selo da máscara antes de aumentar a força. Se o tórax não expande depois de reposicionar, pense em obstrução — e é aqui que a história do engasgo, se houver, volta ao centro: inspecione a boca antes da próxima ventilação e retire o objeto apenas se visível e alcançável, sem varredura às cegas
Esperado: Valor conhecido e corrigido se baixo
Se não melhora: Hipoglicemia é a única causa reversível que se mede em segundos com o aparelho do bolso, e é a mais provável no lactente que não se alimenta há horas. Depois do retorno, o protocolo de cuidados pós-ressuscitação pede controle rigoroso da glicemia e nova correção se ela voltar a cair
Esperado: Normotermia mantida ativamente
Se não melhora: A criança perde calor por área de superfície muito mais rápido que o adulto, e uma reanimação com o tórax despido numa sala com ar condicionado esfria de verdade. Hipotermia é causa reversível de parada e, ao mesmo tempo, é motivo para prolongar os esforços — o que muda o critério de encerramento, não a técnica
Esperado: Objeto exteriorizado, respiração normalizada, choro ou tosse eficaz de volta, coloração recuperada
Se não melhora: Objeto que saiu e criança que ficou bem não encerram o caso: toda criança submetida às manobras vai para avaliação médica e de imagem, pelas lesões que as próprias manobras produzem. E vigie o que não estava lá antes — dor abdominal, vômito, dor torácica, tosse persistente, chiado unilateral —, porque radiografia normal não exclui corpo estranho aspirado
Esperado: Esforço respiratório diminuindo com o tratamento, saturação subindo, enchimento capilar encurtando, criança voltando a interagir e a aceitar mama ou líquido
Se não melhora: A piora aqui tem duas caras opostas e as duas contam: mais esforço, ou menos esforço com menos reatividade. A segunda é a que engana. Registre o horário de cada reavaliação com os números, para que a linha fique visível a quem assumir o plantão — a deterioração de Ravy é legível numa sequência de três medidas e invisível em qualquer uma delas isolada. E dê ouvidos à mãe: 'ele está diferente' é uma medida seriada feita por quem conhece a linha de base
Onde o erro machuca
O dano: Manobras em quem tosse eficazmente podem piorar uma obstrução. O erro oposto também é grave: uma tosse fraca pode coexistir com passagem mínima de ar, e esperar silêncio total atrasa a intervenção. A avaliação precisa reconhecer eficácia da tosse, ventilação, cor e responsividade.
Como pegar a tempo: Tosse forte e eficaz, com ventilação preservada, permite incentivar a tosse e observar de perto, sem manobras. Tosse fraca ou ineficaz, dificuldade importante para respirar, incapacidade de falar/chorar ou cianose indicam gravidade, mesmo que ainda exista algum ruído. Identifique em voz alta o estado observado e o que faria mudar o plano. Demonstre os dois cenários em simulação.
O dano: O guia da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2025 existe justamente para corrigir isto, e diz que a prática está em desacordo com o conhecimento científico e a experiência clínica. O bebê que tosse ao mamar está, na maioria das vezes, exibindo o reflexo que protege a via aérea dele, e não obstruindo-a. Pancadas no dorso e compressões torácicas em lactente não são gestos inócuos: o próprio documento lista danos descritos em fígado, coração, baço, pulmões e parede torácica. Some-se o dano de expectativa — a família aprende que engasgo de leite é emergência de manobra, e vai repetir o gesto em casa, sozinha, nas próximas vezes.
Como pegar a tempo: Diferencie tosse transitória com recuperação de respiração inadequada ou obstrução grave. Apoie e observe quem recuperou; encaminhe sintomas persistentes; diante de apneia, acione ajuda e ofereça suporte ventilatório sem esperar perda de consciência. Ensine esses sinais à família junto da prevenção e do treinamento prático.
O dano: Abaixo de um ano não existe manobra de Heimlich, e a razão é anatômica: o fígado do lactente é proporcionalmente maior, sobe acima da borda costal e fica sem a proteção da grade, de modo que um punho comprimindo o abdome para dentro e para cima o alcança direto. O erro é convidado pela própria nomenclatura difundida, inclusive pela legenda de figura do documento nacional mais recente, que chama de 'manobra de Heimlich em lactente e criança maior' uma imagem que o texto do mesmo documento descreve como sendo pancadas no dorso e compressões torácicas no bebê.
Como pegar a tempo: No lactente com menos de 1 ano, alterne 5 golpes dorsais e 5 impulsos torácicos com a base de uma mão, sem compressões abdominais. Na criança a partir de 1 ano com obstrução grave e responsiva, alterne 5 golpes dorsais e 5 compressões abdominais, repetindo até expulsão do objeto ou perda de responsividade. Confirme a faixa etária sempre que possível e treine as posições em manequins apropriados.
O dano: A criança compensa o choque fechando a periferia e acelerando o coração, e mantém a pressão normal até muito tarde. Quem usa a pressão como sensor está usando um alarme que só toca depois do incêndio: a hipotensão na criança marca o fim da compensação, e a parada costuma vir logo atrás. O dano é de tempo perdido — as horas em que a expansão volêmica ainda funcionaria passam com a criança classificada como estável porque o número da pressão estava dentro da faixa.
Como pegar a tempo: Use os sensores que disparam antes e que são todos gratuitos: taquicardia sustentada sem febre que a explique, enchimento capilar lento, extremidades frias com tronco quente, pulso periférico fino com central presente, pele marmórea, consciência alterada e diurese ausente. Documente-os com horário, para que a linha apareça a quem assumir.
O dano: É o erro que mata Ravy. A criança em insuficiência respiratória sobe uma escada de esforço, e o último degrau antes da parada é a queda do esforço por exaustão muscular: a frequência respiratória cai, as retrações somem, ela para de se debater e adormece. À beira do leito, isso se parece com resposta ao tratamento — e é a hora de menor reserva de toda a doença. O erro é agravado por quem passa o plantão com a frase 'melhorou, está dormindo'.
Como pegar a tempo: Trate diminuição do esforço com queda do nível de consciência como piora, sempre, até prova em contrário. Os dois sinais que separam melhora de exaustão são reatividade e saturação: a criança que melhorou volta a interagir, procura a mãe com os olhos e aceita mamar; a exausta não. E leve a sério a frase da mãe — 'ele está quietinho hoje' é a descrição leiga desse degrau.
O dano: A dose de parada é 0,01 mg/kg, escrita nos protocolos como 0,1 mL/kg da solução 1:10.000 — mas a Rename 2024 só fornece epinefrina 1 mg/mL, isto é, 1:1.000, e a solução 1:10.000 não chega pronta. Quem memoriza o volume sem memorizar de qual frasco ele sai administra dez vezes a dose. E a única trava numérica embutida na prescrição não pega: o teto de 1 mg por dose só é ultrapassado pelo erro acima de 10 quilos, de modo que num lactente de 8 quilos o erro entrega 0,8 mg e não dispara aviso nenhum, justamente na faixa de peso em que a parada é mais frequente.
Como pegar a tempo: Dilua antes de precisar: uma ampola de 1 mL em 9 mL de salina dá 10 mL a 0,1 mg/mL, e o protocolo avançado do SAMU escreve isso com essas palavras. Rotule a seringa, diga em voz alta o que diluiu e confira o rótulo da ampola com outra pessoa antes de injetar. Vale a mesma cautela para a amiodarona, cujo volume por quilo é o mesmo — 0,1 mL/kg —, o que faz das duas seringas gêmeas visuais numa bandeja.
O que dizer ao paciente e à família
As falas deste capítulo acontecem em duas temperaturas. Umas são ditas com as mãos ocupadas, para a equipe e para a mãe, no meio da reanimação; outras são ditas depois, sentado, quando o pior já passou ou quando não passou. As duas precisam ser ensaiadas, porque nenhuma sai bem improvisada.
Uma regra atravessa todas: diga o nome da criança. Numa sala em que todo mundo está olhando para um tórax, o nome é o que mantém a família dentro da cena e a equipe dentro da medida.
Pedindo ajuda antes de haver parada, com Ravy ainda na cadeira da sala de espera
“"Doutora, preciso que a senhora veja o Ravy agora. Ele tem 8 meses, está com quadro respiratório há três dias e piorou hoje: frequência respiratória de 68, tiragem subcostal, saturação de 88% em ar ambiente, e a mãe diz que ele está mais quietinho do que o normal. Eu não sei ainda o que ele tem. O que eu sei é que ele está gastando mais do que consegue sustentar, e eu não queria que ele ficasse na fila. Já estou levando para a sala de emergência."”
Não diga: Evite pedir ajuda por diagnóstico ('acho que é bronquiolite') e evite pedir por adjetivo ('ele está ruinzinho'). Pedir por estado, com três números e uma observação da mãe, é o que faz alguém largar o que está fazendo. E não peça permissão para mudar a criança de lugar: informe que está mudando.
Falando com o avô de Muriel, na sala de espera, enquanto ela ainda tosse
““Ela está tossindo com força e conseguindo respirar. Vamos deixá-la tossir e ficar junto observando. Se a tosse ficar fraca, ela não conseguir falar ou respirar bem, precisamos agir imediatamente, mesmo que ainda faça algum barulho.””
Não diga: Evite a frase 'não é nada' e evite dar as costas. A instrução de não fazer nada só é aceita por quem entende que 'nada' aqui é uma decisão ativa e vigiada, e ela desmonta no instante em que a família percebe que o profissional se afastou.
Ensinando a família, depois de o episódio resolver, o que fazer e o que não fazer em casa
““Se tossir durante a mamada e recuperar logo a respiração, pare a oferta e observe. Se não respirar direito, ficar arroxeada ou perder a resposta, chame ajuda imediatamente. Para alimento sólido preso, o que decide é a eficácia da tosse e da respiração; as manobras mudam antes e depois de um ano e precisam de treino prático.””
Não diga: Não ensinar “enquanto faz barulho está seguro”. Ensinar tosse eficaz versus ineficaz, reconhecimento de gravidade, chamada de ajuda e manobras por idade com demonstração supervisionada.
Dirigindo a equipe no início das compressões, com a mãe entrando na sala
“"Ravy, 8 meses, 8 quilos. Sem pulso. Eu comprimo, Remígia ventila, quinze para dois. Alguém pega o desfibrilador e alguém dilui a epinefrina: uma ampola em nove de soro, e me avisa quando estiver pronta. A dose dele é 0,8 mL da diluída. Dona Cassemira, a senhora pode ficar aqui deste lado, onde ele vê a senhora — eu vou dizendo tudo o que a gente está fazendo."”
Não diga: Evite pedir coisas ao ar ('alguém pega o desfibrilador' funciona pior do que um nome). Evite também dizer a dose só em miligramas quando a seringa vai em mililitros: quem aspira precisa ouvir o volume e o frasco. E não mande a mãe sair por reflexo — decida com ela, não por ela.
Falando com a mãe ao lado da maca, entre um ciclo e outro
“"Dona Cassemira, o coração do Ravy parou de bater sozinho e a gente está batendo por ele com as mãos, para levar oxigênio até o cérebro. Isso que a senhora está vendo é o tratamento, não é o desespero. A cada dois minutos a gente para dois segundos para ver se o coração dele voltou; quando isso acontecer, eu falo alto. A senhora pode falar com ele. Se em algum momento a senhora quiser sair, é só dizer, e alguém sai com a senhora — não é obrigação ficar nem obrigação sair."”
Não diga: Evite silêncio prolongado, que a família lê como notícia ruim, e evite prometer desfecho. Evite também deixá-la sozinha em pé no fundo da sala: presença sem alguém do lado explicando não é acolhimento, é exposição. Se ninguém da equipe puder ser designado só para isso, é melhor conduzi-la para fora com companhia do que mantê-la lá sozinha.
Quando a circulação retorna e o transporte está chegando
“"O coração dele voltou a bater sozinho, e isso é uma boa notícia de verdade. Agora começa outra parte, que é sustentar isso: ele vai para a unidade de terapia intensiva porque precisa de suporte para respirar e de monitorização que aqui não tem. A senhora vai junto na ambulância. Eu não sei ainda o quanto ele vai se recuperar — isso a gente vai saber nas próximas horas e dias, e ninguém pode dizer agora. O que eu sei é o que aconteceu e o que a gente fez, e vou contar tudo para a equipe que vai receber ele, na frente da senhora."”
Não diga: Evite transformar retorno da circulação em alta de prognóstico: 'ele está bem agora' é ouvido como 'ele vai ficar bem'. Evite também prognosticar sequela neurológica na porta da ambulância — é cedo, e a frase gruda. Passar o caso na frente da mãe custa dois minutos e evita que ela reconstrua a história depois com o que imaginou.
Depois, com a família, quando a criança não voltou
“"Dona Cassemira, eu preciso dizer uma coisa difícil, e vou dizer com as palavras certas: o Ravy morreu. A gente fez reanimação por trinta e cinco minutos, tentou tudo o que existe para tentar, e o coração dele não voltou. A senhora fez o que tinha de fazer, que foi perceber que ele estava diferente e trazer ele. Eu vou ficar aqui com a senhora, e quando a senhora quiser, e só quando quiser, a gente entra para a senhora ficar um tempo com ele."”
Não diga: Evite eufemismo — 'ele nos deixou', 'não resistiu' — porque a família precisa da palavra para começar a entender. Evite explicações fisiopatológicas nesse minuto; elas cabem depois, se ela pedir. E evite qualquer frase que implique atraso da família em procurar ajuda, mesmo que tenha havido: a culpa dita nesse momento fica para o resto da vida e não muda nada.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Abre a seção de obstrução de via aérea superior por corpo estranho em pediatria dizendo que ela ocorre predominantemente em menores de 5 anos, sendo 65% abaixo de 1 ano, e que os líquidos são responsáveis pela obstrução na maioria dos casos, citando em seguida os objetos sólidos como causas adicionais. No parágrafo de conduta, restringe as manobras de desobstrução ao corpo estranho sólido.
Sociedade Brasileira de Cardiologia, Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar — 2019, seção 11.10
Publicado com o objetivo declarado de esclarecer a diferente natureza da obstrução por sólidos e semissólidos daquela provocada por líquidos. Sustenta que o bebê que tosse ao ingerir líquido apresenta, provavelmente, sinais de um reflexo de proteção, e não necessariamente uma obstrução de via aérea; que recomendar manobras de desobstrução no engasgo por líquidos está em desacordo com o conhecimento científico e a experiência clínica; e que as manobras de alívio devem ser usadas somente diante de obstrução total por sólidos e semissólidos.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Atualização nº 222, 1º de agosto de 2025
As duas posições estão em vigor, foram publicadas por sociedades nacionais e convivem no mesmo país. Para a criança à sua frente, o desacordo pesa menos do que aparenta, porque as duas posições convergem na conduta manual: nenhuma das duas manda aplicar manobra de desobstrução por líquido. A diretriz de 2019 restringe expressamente as manobras ao corpo estranho sólido, e o guia de 2025 diz o mesmo com mais palavras. Onde elas de fato divergem é na epidemiologia e, por consequência, na conversa com a família: se você acredita que o líquido é a maioria dos casos de obstrução, vai tratar cada engasgo de mamada como um quase-acidente e ensinar a manobra em casa; se você acredita que o líquido é reflexo de proteção, vai ensinar a família a sentar, limpar a boca e observar — e vai evitar o gesto que machuca. Decida pelo documento mais novo e mais específico: o de 2025 é posterior, é da sociedade da especialidade, e trata do assunto como tema único e não como parágrafo dentro de um capítulo. Registre também, ao usar a estatística de 65% em menores de um ano, que ela vem de séries em que os eventos por líquido estão dentro do denominador que o documento de 2025 recusa.
Nas obstruções parciais, definidas ali como as das crianças que conseguem falar ou tossir, as manobras de desobstrução não estão indicadas, pelo risco de deslocarem o corpo estranho e causarem a obstrução completa; pelo mesmo motivo, a varredura às cegas da boca e da orofaringe deve ser desestimulada.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia nº 222 de 2025, primeira metade do parágrafo sobre obstrução parcial
Nas crianças com obstrução incompleta ou parcial deve-se estimular a tosse e, caso a tosse se torne inefetiva, pancadas leves no dorso da vítima estão indicadas antes de iniciar as manobras de desobstrução.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia nº 222 de 2025, segunda metade do mesmo parágrafo
Na obstrução leve em paciente responsivo, não realizar manobras de desobstrução, acalmar, incentivar a tosse vigorosa e observar de forma atenta e constante; mudar de conduta apenas se evoluir para obstrução grave. Não há, nas duas folhas, categoria intermediária de tosse que se torna ineficaz.
Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, BPed 4 e BPed 5, 2016
A decisão clínica deve distinguir tosse eficaz de tosse ineficaz, e não usar qualquer som como sinal de segurança. Para a técnica, esta revisão adota AHA 2025: obstrução grave no bebê responsivo recebe cinco golpes dorsais alternados com cinco impulsos torácicos pela base da mão; na criança ≥1 ano, cinco golpes dorsais alternados com cinco compressões abdominais. Perda de responsividade leva a RCP imediata. Os textos nacionais citados permanecem identificados como origem histórica, sem substituir esta sequência atualizada.
Cada folha de parada pediátrica encerra com a observação de atentar para o direito da criança de ter um acompanhante, responsável legal ou outro. É uma afirmação de direito da criança, repetida em todas as folhas de parada, e o protocolo não nomeia a norma em que ela se apoia nem descreve como operacionalizá-la durante as manobras.
Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, observações de BPed 7, APed 8, APed 9 e APed 10, 2016
Os dois capítulos pediátricos, que descrevem passo a passo o suporte básico e o avançado na criança, não contêm recomendação sobre presença de familiares durante a reanimação — a palavra família não aparece neles. O silêncio não é uma posição contrária declarada; é ausência de recomendação num documento que detalha todo o resto do procedimento.
Sociedade Brasileira de Cardiologia, Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar — 2019, capítulos 11 e 12
Não há régua brasileira de conduta de equipe sobre isto, e é preciso decidir mesmo assim, porque a mãe está do lado de fora agora. Decida por três perguntas concretas, e não por princípio. Primeira: existe alguém na equipe que possa ficar exclusivamente com ela, sem outra função, explicando o que está sendo feito? Se não existe, presença vira exposição, e é melhor conduzi-la para fora acompanhada do que mantê-la sozinha num canto. Segunda: a permanência dela atrapalha as mãos ou o acesso à criança? Se atrapalha, o problema é de posição e se resolve mudando-a de lugar, não expulsando-a. Terceira, e a que decide: ela quer? Ofereça, com as duas saídas ditas em voz alta — pode ficar, pode sair, pode mudar de ideia a qualquer momento —, e respeite a resposta sem interpretá-la. Registre no prontuário quem estava presente e quem da equipe estava com a família, porque isso é parte do cuidado e não uma cortesia. E note que a única frase nacional existente enquadra o assunto como direito da criança, e não como preferência do serviço, o que desloca o ônus: quem quiser negar a permanência é que precisa justificar.
O raciocínio, em voz alta
Domingo, 19h40, unidade de pronto atendimento de bairro. Ravy, 8 meses, chega no colo da mãe com coriza há três dias, febre baixa na sexta-feira e recusa alimentar desde a manhã. A triagem anotou 'resfriado' e o classificou como verde. Ele está no colo, respirando 68 vezes por minuto, com tiragem subcostal e gemido expiratório intermitente, saturação de 88% em ar ambiente, frequência cardíaca 178, extremidades frias até o joelho, enchimento capilar de quatro segundos, temperatura axilar 37,4 °C. Não chora à manipulação. A mãe, Cassemira Evangelista, diz que ele molhou uma fralda desde a manhã e repete que 'ele está quietinho hoje'. Ela sabe o peso da última consulta: 8 quilos. Na unidade há oxigênio, oxímetro, glicosímetro, bolsa-válvula-máscara de tamanho pediátrico, desfibrilador externo automático com pás de adulto apenas, e uma médica plantonista ocupada na sala ao lado.
o que eu faço antes de pensar num diagnóstico
Tiro ele da fila. Não porque eu saiba o que ele tem — não sei —, mas porque três coisas separadas já disseram a mesma frase: ele está trabalhando muito para respirar, está mal perfundido e está menos reativo do que uma criança de 8 meses deveria estar. Levo para a sala de emergência, ponho oxigênio, monitorizo, e chamo a plantonista dizendo o estado e não o palpite. Digo o peso em voz alta, 8 quilos, e peço que alguém escreva num papel colado na parede, porque toda dose e toda carga desta noite vai sair dele.
por que a saturação de 88% não é o pior número desta ficha
A saturação é corrigível com oxigênio e responde em segundos; ela mede o que está faltando agora. O que me assusta mais é a combinação de enchimento capilar de quatro segundos com extremidades frias até o joelho, taquicardia de 178 e uma fralda em doze horas — isso é choque compensado, e a pressão dele provavelmente está normal, porque na criança ela é o último parâmetro a ceder. E o número que não está na ficha é o pior de todos: ele não chora à manipulação. Um lactente de 8 meses que não protesta quando alguém encosta nele perdeu reserva.
o que eu faço nos primeiros dez minutos
Oxigênio no dispositivo que ele aceite sem se debater, porque agitação consome o que ele não tem. Acesso venoso e, se não sair em duas tentativas rápidas, penso em intraósseo em vez de insistir. Glicemia capilar imediatamente — é o exame de segundos, e um lactente que não mama desde a manhã tem reserva hepática pequena. Expansão volêmica com cristaloide pelos sinais de má perfusão, reavaliando a cada alíquota. Não peço radiografia, não peço hemograma, não decido etiologia. O que este capítulo pede aqui é que a criança pare de piorar; qual doença está por trás é assunto do capítulo daquela doença.
o que eu vejo acontecer aos vinte minutos, e por que não é melhora
Ravy fica mais calmo. A frequência respiratória cai de 68 para 44, as retrações diminuem, ele para de gemer. Se eu olhar só para esses três números, escrevo 'melhorou com oxigênio'. Mas a saturação não subiu proporcionalmente, ele não abriu os olhos para procurar a mãe e não aceitou nada por via oral. Isto não é a doença cedendo: é a musculatura respiratória cansando. É o degrau que antecede a parada, e ele se parece com resposta ao tratamento — motivo pelo qual eu falo em voz alta o que estou vendo, para que a interpretação não fique só na minha cabeça.
ele para: os dez segundos e as três saídas
Ravy fica irresponsivo. Estímulo plantar três vezes, sem resposta. Peço que Remígia acione o suporte avançado e traga o desfibrilador; fico com ele e checo respiração e pulso ao mesmo tempo, pulso braquial porque ele é lactente, contando até dez. Ele tem respiração agônica — que conta como ausência de respiração — e pulso braquial presente, com frequência que conto em torno de 40, com a perfusão que já estava ruim. Essa é a terceira saída e é a mais pediátrica: pulso presente, frequência abaixo de 60, má perfusão, apesar de oxigenação e ventilação. Começo as compressões numa criança que tem pulso, porque ela tem pulso e não tem débito.
as relações que eu uso, e o que muda quando chega a segunda pessoa
Para RCP do lactente, use a base de uma mão ou os dois polegares com as mãos envolvendo o tórax, na metade inferior do esterno, evitando o xifoide. A técnica de dois dedos foi retirada da recomendação AHA 2025 por dificuldade de obter profundidade adequada. Comprima cerca de um terço do diâmetro anteroposterior, aproximadamente 4 cm, a 100–120/min, permitindo retorno completo. Use 30:2 sozinho e 15:2 quando o segundo profissional assume ventilação. Evite interrupções, observe elevação torácica nas ventilações e faça rodízio de quem comprime quando possível.
o desfibrilador que só tem pá de adulto
Na falta de eletrodos pediátricos, use os de adulto sem recortar, evitando contato entre eles e escolhendo posição anteroposterior se necessário. “Choque não indicado” significa que o DEA não identificou ritmo chocável; não diagnostica sozinho assistolia ou atividade elétrica sem pulso. Como o caso começou com bradicardia e pulso, reavalie conforme o algoritmo, com monitorização quando disponível, mantendo compressões se persistirem critérios e corrigindo ventilação e perfusão.
a dose, e o frasco de onde ela sai
Ritmo não chocável significa epinefrina a cada 3 a 5 minutos, 0,01 mg/kg — para 8 quilos, 0,08 mg. Só que a ampola que existe na sala é epinefrina 1 mg/mL, que é 1:1.000, porque é a única do elenco; a solução 1:10.000 que os protocolos citam não vem pronta. Então digo em voz alta: 'diluir uma ampola de 1 mL em 9 mL de soro fisiológico, dá 10 mL, e a dose dele é 0,8 mL dessa'. Confiro o rótulo com Remígia antes de injetar. Se eu aspirasse 0,8 mL da ampola pura, daria 0,8 mg — dez vezes a dose —, e o teto de 1 mg por dose não me avisaria de nada, porque 0,8 é menor que 1. Nesta faixa de peso, a única barreira é o gesto de conferir.
as causas reversíveis, na ordem que vale para uma criança
Enquanto os ciclos correm, Remígia comprime e eu percorro a lista em ordem pediátrica, não na ordem em que ela está escrita. Hipóxia primeiro: a ventilação está expandindo o tórax? Reposiciono a cabeça e reviso o selo da máscara antes de qualquer outra coisa. Hipovolemia em segundo: ele já vinha com má perfusão e uma fralda em doze horas, e mantenho a expansão. Glicemia: medida, e corrigida se baixa. Temperatura: cubro o que não estou usando, porque um tórax de 8 quilos despido numa sala com ar condicionado esfria depressa. Trombose coronariana está na lista dos protocolos, herdada do adulto, e nesta criança eu não gasto um segundo com ela.
a mãe, e o que eu entrego a quem vier buscar
Chamo Dona Cassemira e ofereço, com as duas saídas ditas: pode ficar deste lado, onde ele a vê, e pode sair quando quiser. Ela fica. Não tenho equipe sobrando, então quem fala com ela sou eu mesmo, entre um ciclo e outro, dizendo o que estamos fazendo e por quê. Quando o suporte avançado chega, entrego o que decide a próxima hora, não a história clínica inteira: peso usado nos cálculos, horário do início das manobras, número de doses de epinefrina e horário da última, ritmos vistos, choque não indicado nas análises, glicemia, temperatura, expansões feitas e a causa suspeitada. E digo isso na frente dela.
Faça você
Muriel, 2 anos, come amendoim na sala de espera. Tosse forte, chora entre as tossidas e ainda ventila. O avô levanta a mão para bater nas costas. Enquanto você acompanha, a tosse fica fraca, ela já não consegue falar e o esforço aumenta, embora ainda haja algum ruído. O que muda na sua avaliação e na conduta?
o que eu faço nos primeiros vinte segundos, enquanto ela ainda tosse
Na fase inicial, avalio a tosse forte e a ventilação preservada, explico ao avô que ela deve continuar tossindo e mantenho observação próxima. Não uso “qualquer som” como regra: procuro mudança de eficácia da tosse, cor e responsividade. A piora descrita na sequência exige agir, sem esperar silêncio total.
o que muda quando a tosse perde a eficácia
Tosse fraca, incapacidade de falar e esforço crescente indicam obstrução grave mesmo com ruído residual. Peço ajuda e acionamento do serviço de emergência. Muriel tem 2 anos: inicio cinco golpes dorsais e alterno com cinco compressões abdominais, conforme AHA 2025.
como eu faço, e o que eu não faço por causa da idade dela
Na criança a partir de 1 ano com obstrução grave e responsiva, alterne 5 golpes dorsais e 5 compressões abdominais, repetindo até expulsão do objeto ou perda de responsividade. Inclino-a para a frente para os golpes entre as escápulas. Depois fico atrás, à altura adequada, e posiciono o punho acima do umbigo e abaixo do xifoide para compressões para dentro e para cima. Mantenho a sequência enquanto responsiva e com obstrução. Se fosse lactente, usaria cinco golpes dorsais e cinco impulsos torácicos com a base da mão, sem compressão abdominal.
o que eu faço se ela ficar irresponsiva no meio das manobras
Paro as compressões abdominais imediatamente e mudo de algoritmo. Deito Muriel em decúbito dorsal sobre superfície rígida, e começo reanimação — sem checar pulso antes, porque nesta situação a diretriz brasileira manda iniciar pelas compressões diretamente. Começo por trinta compressões torácicas, com o objetivo adicional de expelir o corpo estranho. Ao abrir a via aérea, antes de cada ventilação, inspeciono a cavidade oral e retiro o objeto apenas se ele estiver visível e facilmente alcançável, com os dedos ou com uma pinça; se não estiver, não vasculho. Ventilo; se o tórax não expandir, reposiciono a cabeça e ventilo de novo; se ainda não expandir, volto às compressões. Sozinho, trinta para dois; com a plantonista na sala, quinze para dois.
Ver como fecharíamos
Se o objeto for expelido, reavalie respiração, cor, consciência e possíveis lesões das manobras. Muriel precisa de avaliação clínica após o episódio; sintomas persistentes, assimetria de ausculta ou suspeita de material retido exigem encaminhamento apropriado. Radiografia normal não exclui aspiração, e a equipe especializada decide broncoscopia e eventual imagem complementar; tomografia não deve ser uma etapa obrigatória antes de toda remoção. Se ficar irresponsiva, coloque-a em superfície firme, acione ajuda e inicie RCP por compressões, sem checar pulso; ao abrir a via aérea para ventilar, retire apenas objeto visível e acessível. À família, ensine a diferença entre tosse eficaz e ineficaz, as manobras por idade em treinamento prático e a prevenção com alimentos e objetos adequados ao desenvolvimento. A regra de qualquer barulho como segurança foi abandonada porque pode atrasar intervenção.
A dose de epinefrina na parada pediátrica é de 0,01 mg por quilo, escrita nos protocolos como 0,1 mL por quilo da solução 1:10.000 — que corresponde a 0,1 mg/mL. Numa criança de 8 quilos, isso são 0,08 mg, ou 0,8 mL dessa diluição. Acontece que a Rename 2024 fornece apenas epinefrina 1 mg/mL, que é a solução 1:1.000, e a apresentação 1:10.000 não existe pronta: ela é preparada diluindo uma ampola de 1 mL em 9 mL de solução salina, resultando em 10 mL a 0,1 mg/mL, conforme o próprio protocolo avançado do SAMU descreve. Aspirar o mesmo volume da ampola pura entregaria dez vezes a dose, e nessa faixa de peso a dose máxima de 1 mg por dose não flagraria o erro, porque 0,8 mg é menor que 1 mg. Administrar 8 mL da solução diluída seria dez vezes a dose por excesso de volume, e 0,08 mL da ampola pura seria a dose certa em miligramas num volume impraticável de aspirar com precisão.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Em manequim, demonstre obstrução leve, obstrução grave responsiva nas duas faixas etárias e perda de responsividade. O observador deve verificar a transição pela eficácia da tosse, a sequência de cinco golpes e cinco impulsos/compressões apropriados, ausência de varredura cega e início imediato de RCP quando indicado. Na RCP do lactente, demonstre profundidade com base de uma mão ou dois polegares.
Em 30 dias
Simule uma deterioração respiratória com bradicardia, chamada de ajuda, ventilação e compressões conforme critérios. Confira uma dose de epinefrina do peso à concentração de 0,1 mg/mL e ao volume, com dupla checagem. Use o desfibrilador disponível sem atrasar RCP e explique o limite de “choque não indicado”. Termine com passagem do caso, resposta ao suporte e plano após retorno da circulação.
Agora atenda
Domingo, 19h40, unidade de pronto atendimento de bairro, sem pediatra de plantão e com uma médica ocupada na sala ao lado. Lactente de 8 meses e 8 quilos chega no colo da mãe, classificado como verde com a anotação 'resfriado há 3 dias', em recusa alimentar desde a manhã. Está taquipneico com tiragem subcostal e gemido expiratório, saturação de 88% em ar ambiente, taquicárdico, com extremidades frias e enchimento capilar de quatro segundos, e não chora à manipulação; a mãe repete que ele está mais quieto do que o normal e conta uma única fralda molhada em doze horas. A unidade tem oxigênio, oxímetro, glicosímetro, bolsa-válvula-máscara pediátrica, epinefrina em ampola de 1 mg/mL e um desfibrilador externo automático que só dispõe de pás de adulto. Conduza o atendimento desde o reconhecimento do estado na sala de espera até a entrega ao transporte, decidindo o que fazer se a criança evoluir para bradicardia com má perfusão e depois para parada, e explicando à mãe o que está sendo feito.
