PediatriaEmergências Pediátricas

Antes de a pressão cair

Choque na criança: hipovolêmico, séptico e distributivo

Reconhecer o choque que ainda compensa, dar o volume que a criança tolera e parar na hora certa, tratar a sepse na primeira hora e estabilizar para transferir

Fontes deste capítulo

Weiss SL, Peters MJ, Oczkowski SJW, et al. Surviving Sepsis Campaign International Guidelines for the Management of Sepsis and Septic Shock in Children 2026. Intensive Care Med. 2026;52:937-983. doi:10.1007/s00134-026-08360-2. Publicação simultânea em Pediatr Crit Care Med. 2026;27(4):379-434.

Instituto Latino Americano de Sepse. Campanha de Sobrevivência à Sepse — Protocolo clínico pediátrico: atendimento ao paciente pediátrico com sepse, sepse grave e choque séptico. Versão 3, revisão de fevereiro de 2019. São Paulo: ILAS, 2019.

Instituto Latino Americano de Sepse. Fluxograma de tratamento do choque séptico em crianças. São Paulo: ILAS, edição posterior a janeiro de 2024.

Instituto Latino Americano de Sepse. Nota técnica referente às novas definições de sepse e choque séptico em pediatria — critérios de sepse de Phoenix. São Paulo: ILAS, 9 de maio de 2024.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Protocolos APed 1, 17, 25, 31 e 46.

01

Responda antes de ler

Menino de 6 anos, 20 kg, em choque séptico, recebe epinefrina por veia periférica na concentração de 4 mcg/mL, a 0,3 mcg/kg/min, enquanto aguarda a UTI. A manutenção hídrica pela regra de Holliday-Segar é de 1.500 mL/dia. Qual é a vazão da epinefrina e o que ela implica?

02

O paciente que você vai ver

Sexta-feira, 21h40, pronto-socorro de um hospital municipal que não tem UTI pediátrica — a mais próxima fica a 38 quilômetros, e a vaga passa pela central de regulação. Eugênia Machadinho entra com a filha no colo, Otávia Serpa, 3 anos e 2 meses, e fala antes de sentar: três dias de febre e tosse, e hoje a menina não quis nem o suco, só quer ficar deitada e está gemendo. Fez xixi uma vez, na hora do almoço. A triagem mede temperatura axilar de 38,9 °C, frequência cardíaca de 168, frequência respiratória de 52, saturação de 90% em ar ambiente e pressão de 94 por 58, e manda a criança para a sala de emergência por causa da saturação.

O interno encontra Otávia deitada de lado, de olhos abertos e sem interesse pelo que acontece em volta; ela vira o rosto para a voz da mãe e responde com um gemido. Há tiragem subcostal e estertores finos na base direita. As mãos e os pés estão frios, e o frio sobe até o meio da perna. Com a ponta do dedo aquecida na mão dele e cinco segundos de pressão, o branco demora 4 segundos para voltar à cor. O pulso radial é fino; o femoral, cheio. O fígado está a 2 centímetros do rebordo costal, e ele marca a borda com caneta. A glicemia capilar é de 68 mg/dL. Na balança, 14 kg.

A tentação daquele minuto tem nome: pressão normal. Noventa e quatro de sistólica numa criança de 3 anos parece tranquilizador, e a febre explicaria a taquicardia. O preceptor pergunta o que mais ele mediu além da pressão, e a resposta está na própria folha: enchimento capilar lento, extremidade fria, pulso periférico fraco, consciência alterada e urina pouca — cinco sinais de hipoperfusão com a pressão acima do mínimo da idade, que aos 3 anos é de 76 mmHg. Isso é choque compensado, e a pressão está normal porque a vasoconstrição ainda está pagando a conta.

O que se decide nos primeiros quinze minutos já é tratamento: oxigênio por máscara com reservatório, monitor, glicemia e peso anotados, acesso vascular — e, se duas tentativas de veia falharem em 90 segundos, agulha intraóssea na tíbia —, lactato e hemocultura sem que nada disso atrase o antibiótico, que precisa correr dentro da primeira hora. O volume vem em alíquotas de cristaloide, com o fígado marcado e o pulmão escutado depois de cada uma, porque esta criança tem pneumonia e o mesmo soro que devolve perfusão pode encharcar o pulmão. E a central de regulação é chamada no primeiro bolus, não quando a vaga já virou desespero.

O difícil aqui não é a técnica. É que nenhum número da triagem, sozinho, está fora do lugar: a frequência cardíaca de uma criança febril sobe, a respiração de quem tem pneumonia acelera, e a pressão, que todo mundo aprendeu a respeitar, está boa. O choque da criança se esconde na soma de sinais pequenos e se revela tarde, quando a pressão finalmente cai — e aí a distância até a parada se conta em minutos. Por isso este capítulo começa antes da pressão.

Este capítulo é dono do choque na criança antes da parada: reconhecer o choque que ainda compensa, dar o primeiro volume e saber quando parar, tratar a sepse e o choque séptico da criança nos pacotes iniciais, reconhecer a criança que piora com volume e estabilizar para transferir. A estrada que termina na parada, e o que se faz quando ela chega, é de Parada cardiorrespiratória na criança e obstrução de via aérea por corpo estranho (OVACE), nesta apostila. O mapa completo do que este capítulo assume e do que cede, com o nome de cada capítulo vizinho, abre a apresentação.

03

Quem adoece disso

Sepse é a principal causa de morte e de internação em terapia intensiva pediátrica no mundo, e nos dados que construíram os critérios de Phoenix a mortalidade foi três vezes maior nos países de renda baixa e média do que nos de renda alta — é o que resume uma carta de 2026 à revista da Associação de Medicina Intensiva Brasileira. No Brasil, o estudo SPREAD PED, conduzido pelo Instituto Latino-Americano de Sepse (ILAS) como uma fotografia de um dia nas UTIs pediátricas, estimou mais de 40 mil casos de sepse pediátrica e 8.300 óbitos por ano, e vacinação incompleta e infecção adquirida no hospital estiveram associadas a maior mortalidade.

Esses números saem da UTI, e por isso contam só uma parte da história. O protocolo pediátrico do ILAS lembra que muitas crianças com sepse morrem antes de chegar à terapia intensiva, que metade das que morrem o faz na primeira semana, de choque refratário, e que a maioria não tinha doença prévia e se infectou na comunidade. O retrato que sai daí é o de Otávia: uma criança saudável, com uma infecção comum, que entra pela porta de um pronto-socorro sem UTI. A janela que decide o desfecho está nas primeiras horas, e passa pelas mãos de quem atende na porta.

O mesmo protocolo cita a relação que dá urgência a cada decisão deste capítulo: cada hora de atraso para restaurar a perfusão tecidual — e a pressão normal para a idade, quando havia hipotensão — está associada a risco de morte duas vezes maior. Não é um relógio exato, é um dado observacional. Mas explica por que o antibiótico tem prazo, por que o volume não espera resultado de exame e por que a regulação se chama cedo.

Há também uma epidemiologia do processo. As diretrizes pediátricas da Surviving Sepsis Campaign de 2026 (SSC 2026) reuniram estudos observacionais em que hospitais com programa estruturado de melhoria — protocolo escrito, treinamento, auditoria — tiveram mortalidade menor, com risco relativo de 0,51, e transformaram isso em recomendação forte. No sentido contrário, o único ensaio randomizado de triagem eletrônica de sepse em crianças não mostrou diferença de mortalidade, e o painel passou a considerar insuficiente a evidência para recomendar triagem sistemática além dos protocolos clínicos já estabelecidos. O que salva a criança é o hospital que sabe o que fazer depois de reconhecê-la, não a planilha que a encontra.

Quando o painel da SSC 2026 descreveu a própria prática, apareceu uma inversão que este capítulo quer corrigir. Para guiar a ressuscitação, 93% dos especialistas usam a pressão arterial e 87% a frequência cardíaca; o enchimento capilar aparece com 77%, a consciência com 71% e a diurese com 69%; a qualidade do pulso, só com 48%, e a temperatura das extremidades, com 41%. Os dois sinais menos usados estão entre os que mudam primeiro no choque compensado, e o mais usado é o que muda por último.

Duas outras medidas do painel orientam decisões que vêm adiante. Numa metanálise de seis estudos observacionais com 709 crianças, iniciar a droga vasoativa por veia periférica, em vez de esperar o cateter central, esteve associado a menor risco de morte (risco relativo de 0,45), com extravasamento em 2,5% dos casos, mais frequente quando a veia era distal, sobretudo na mão. E, em cinco ensaios que compararam cristaloide balanceado com soro fisiológico, a mortalidade não mudou; no maior deles, feito em quatro UTIs pediátricas da Índia, lesão renal aguda nova ou progressiva ocorreu em 21% das crianças que receberam solução balanceada e em 33% das que receberam soro fisiológico.

O choque que não é séptico tem epidemiologia própria, contada nos capítulos donos de cada causa: a desidratação da diarreia, o sangramento do trauma, a anafilaxia, a queimadura extensa, a cetoacidose. O que eles têm em comum com a sepse é o ponto de chegada. A parada da criança raramente começa no coração e quase sempre encerra uma insuficiência respiratória ou um choque que já estava em curso — e é por isso que o trabalho que decide está antes dela, como mostra o capítulo de parada desta apostila.

04

Por que acontece o que acontece

Choque é oferta de oxigênio menor do que a demanda dos tecidos. Não é pressão baixa. A oferta depende de quanto sangue o coração bombeia por minuto e de quanto oxigênio esse sangue carrega; o débito, por sua vez, é a frequência cardíaca multiplicada pelo volume ejetado em cada batimento. Quando falta volume, quando o vaso se abre demais, quando a bomba falha ou quando algo impede o coração de encher, o débito cai — e o organismo da criança responde antes de a pressão mostrar qualquer coisa.

A resposta é simpática e rápida. O coração acelera, e na criança pequena essa é a principal alavanca, porque o volume ejetado tem pouca reserva para crescer. Ao mesmo tempo, as arteríolas da pele, do músculo, do território esplâncnico e do rim se contraem e desviam o sangue para o cérebro e o coração. A pressão arterial é o produto do débito pela resistência vascular: com o débito caindo e a resistência subindo, o produto se mantém. É por isso que a criança de 3 anos da cena tinha 94 de sistólica com as pernas frias até o meio.

Cada sinal do choque compensado é um pedaço visível dessa vasoconstrição. A pele fica fria, pálida ou rendilhada; o enchimento capilar demora mais de 2 segundos; o pulso periférico enfraquece enquanto o central continua cheio; a pressão diastólica aumenta e a distância entre ela e a sistólica encurta; a urina diminui porque o rim é um dos territórios sacrificados. O cérebro é poupado por mais tempo, e sua queixa começa discreta — irritabilidade, choro que não se consola, pouca interação com a mãe — antes de virar sonolência.

A pressão cai quando a compensação se esgota: a vasoconstrição chegou ao limite, o volume perdido passou do que ela consegue esconder, ou o coração, batendo rápido demais, deixou de encher. Hipotensão na criança é, portanto, sinal de choque descompensado, e o limiar que o protocolo pediátrico do SAMU 192 define para cada idade marca a fronteira da descompensação, não a do choque. Entre o primeiro sinal de má perfusão e a queda da pressão existe uma janela que pode durar horas; entre a queda da pressão e a parada, a janela costuma ser curta.

No choque hipovolêmico, o problema é a pré-carga: diarreia, sangramento, perda para o terceiro espaço na queimadura, diurese osmótica na cetoacidose, sangue sequestrado no baço da criança com doença falciforme. O coração é normal e responde ao que recebe, e o volume corrige a causa. A regra é simples e a armadilha é a quantidade: repor o que saiu na velocidade em que o déficit ameaça, lembrando que o sangue perdido só se repõe de verdade com sangue.

O choque séptico mistura três mecanismos. Mediadores inflamatórios dilatam o vaso e abrem o capilar, e o líquido escapa do intravascular; a resistência vascular pode cair ou, na criança, subir muito como compensação; e o miocárdio se deprime. Por isso a criança séptica pode chegar quente, com pulso amplo e extremidade morna, ou fria, com pulso fino e enchimento lento — e pode passar de um perfil ao outro no meio da ressuscitação. O perfil orienta a escolha da droga no protocolo do ILAS, mas o painel da SSC já advertiu, em 2020, contra classificar o choque só por sinais de beira de leito: lactato, ultrassom e a resposta ao volume completam a leitura.

Os outros choques distributivos abrem o vaso por outros caminhos. Na anafilaxia, a liberação de mediadores dilata o vaso e vaza o capilar em minutos, e a epinefrina intramuscular desfaz o mecanismo na origem — por isso vem antes de qualquer soro. No choque neurogênico, a lesão medular corta o tônus simpático: a pressão cai sem a taquicardia e sem a vasoconstrição que se esperariam, e a pele fica quente. O cardiogênico é o avesso do hipovolêmico: a bomba falha — miocardite, cardiomiopatia, arritmia, cardiopatia congênita descompensada, intoxicação por betabloqueador ou por bloqueador de canal de cálcio —, a pressão de enchimento sobe, o fígado cresce, o pulmão congestiona, e cada bolus piora o que deveria melhorar.

No choque obstrutivo, o coração é normal e o sangue não chega a ele ou não consegue sair: o pneumotórax hipertensivo comprime o retorno venoso, o tamponamento impede o enchimento e, no recém-nascido com lesão dependente do canal arterial, o fechamento do canal corta a circulação sistêmica nos primeiros dias de vida. O volume compra minutos, mas o tratamento é mecânico ou específico. A consequência prática dos quatro mecanismos é uma só: antes do segundo bolus, a pergunta não é quanto soro ainda cabe, e sim que tipo de choque é este.

Modelo de treinamento de perna e pé, com rendilhado arroxeado discreto e articulação artificial visível, enquanto uma mão enluvada sustenta e toca a polpa do hálux.
O modelo ajuda a localizar a avaliação de perfusão periférica e o ponto de pressão no hálux. A imagem estática não mede tempo de enchimento capilar, temperatura ou pulso. Na criança, combine esses achados com consciência, diurese, respiração e pressão arterial; pressão preservada não exclui choque.
05

Como se apresenta de verdade

Este capítulo assume, com estas palavras, o reconhecimento e os pacotes iniciais da sepse e do choque séptico na criança. Até aqui o nível mandava a criança séptica para Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências — capítulo do adulto, que não tem uma frase sobre criança —, e a cessão era circular. Assume também a parte que decide na urgência do choque hemorrágico da criança, porque Choque hemorrágico no trauma e reposição volêmica / transfusão maciça, da apostila de Trauma, trata o adulto e não fala de criança, e o choque cardiogênico da criança antes da terapia intensiva, que nenhum capítulo do nível conduz. A régua de volume, de antibiótico na primeira hora e de droga vasoativa vale do recém-nascido a termo ao adolescente, como o escopo da SSC 2026; o prematuro não tem régua neste capítulo.

Do que é igual no adulto — o débito, a resistência, a lógica dos quatro tipos —, o capítulo usa e remete a Diferenciar os tipos de choque e conduzir cada um, da apostila de Pré e Pós-operatório. E cede, mandando o leitor para lá: a parada e o que vem depois dela a Parada cardiorrespiratória na criança e obstrução de via aérea por corpo estranho (OVACE); a desidratação e os planos A, B e C a Diarreia aguda e desidratação: planos A, B e C de terapia de reidratação (AIDPI); o antibiótico e a dose do recém-nascido a Sepse neonatal precoce e tardia: fatores de risco e manejo; a régua do lactente febril sem foco a Febre sem sinais localizatórios no lactente e abordagem da criança febril; o antibiótico da meningite e da doença meningocócica, a quimioprofilaxia e a notificação a Meningites bacterianas e virais na infância; a adrenalina intramuscular e o manejo da anafilaxia a Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro (adrenalina IM, manejo); a enterocolite induzida por proteína a Alergia à proteína do leite de vaca; a dengue a Dengue, Zika e Chikungunya: manejo e sinais de alarme; o grande queimado a Reposição volêmica no grande queimado (fórmula de Parkland); a cetoacidose a Diabetes mellitus tipo 1 e cetoacidose diabética na criança; a insuficiência cardíaca que se trata em casa a Cardiopatias congênitas acianóticas (comunicação interventricular, interatrial e persistência do canal arterial) e insuficiência cardíaca na criança; a descompressão do tórax e o tamponamento a Trauma torácico com risco iminente de morte (pneumotórax hipertensivo, tamponamento, tórax instável); a dose da crise adrenal a Insuficiência adrenal e crise addisoniana; as crises da doença falciforme a Anemia falciforme e traço falciforme: crises e manejo; e a criança agredida a Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória (ECA).

Choque compensado: os sinais que mudam antes da pressão

A SSC 2026 transformou em declaração de boa prática o que deve guiar a ressuscitação: frequência cardíaca, pressão arterial, enchimento capilar, temperatura das extremidades, qualidade do pulso, nível de consciência e diurese. O protocolo pediátrico do SAMU 192 diz o mesmo pelo outro lado — suspeitar de choque em toda criança com má perfusão evidente, mesmo com a pressão normal. Nenhum desses sinais fecha o diagnóstico sozinho; o choque compensado é a combinação deles numa criança que tem motivo para estar em choque.

A taquicardia é o sinal mais precoce e o menos específico: sobe com febre, dor, choro e medo. O que a torna suspeita é a desproporção — frequência que não cede quando a criança se acalma no colo, ou que continua subindo depois que a febre baixa — e a companhia de outros sinais. Bradicardia numa criança que estava taquicárdica não é melhora: é a compensação que acabou, e pede avaliação imediata da via aérea e da respiração, pelo capítulo de parada.

O enchimento capilar se mede com a extremidade aquecida — o frio do ambiente alonga o tempo por conta própria —, pressionando a polpa do dedo por cerca de cinco segundos e contando quanto a cor leva para voltar; acima de 2 segundos é lento. A temperatura da pele se examina subindo o dorso da mão pela perna até onde ela esquenta, e a linha em que o frio acaba é um parâmetro que se repete na reavaliação. O pulso se compara: radial fino com femoral cheio é vasoconstrição periférica; pulso central fraco é choque avançado.

A consciência da criança pequena não se mede com perguntas. Irritabilidade que não passa no colo, choro que não se consola, pouca interação com a família e sonolência entre os choros estão entre os sinais de gravidade que o protocolo do ILAS lista. A diurese se conta pela história e pela fralda: quantas vezes urinou desde a manhã, quando foi a última fralda molhada. Uma criança que urinou uma vez em nove horas, como Otávia, já contou parte da história.

A pressão que cai tarde: o mínimo de cada idade

O protocolo pediátrico do SAMU 192 define hipotensão pela sistólica: menos de 60 mmHg no recém-nascido até 28 dias, menos de 70 do primeiro mês ao fim do primeiro ano, menos de 70 mais duas vezes a idade em anos entre 1 e 10 anos, e menos de 90 depois dos 10 anos. A conta cabe de cabeça: 3 anos, 76; 7 anos, 84; 10 anos, 90.

Esse número marca a descompensação. Uma criança de 3 anos com 80 de sistólica não está bem por estar acima de 76; ela pode estar em choque compensado grave, e a pressão pode despencar no minuto seguinte. A leitura certa é a inversa: pressão acima do mínimo não afasta choque, e pressão abaixo dele confirma que a criança já gastou a reserva — tudo passa a acontecer ao mesmo tempo, com ajuda chamada e regulação acionada.

A medida precisa ser confiável. Manguito estreito demais superestima a pressão, e o aparelho automático no braço frio de uma criança que chora dá leituras erráticas; o protocolo do ILAS pede medida não invasiva a cada 15 minutos na primeira hora. A pressão arterial média entra na confirmação: os critérios de Phoenix, de 2024, dão ponto cardiovascular por faixas de pressão média para cada idade, junto com o lactato e a droga vasoativa. Mas a SSC 2026 não conseguiu recomendar se o alvo de pressão média deve ser o percentil 5 ou o percentil 50 da idade — o alvo da ressuscitação continua sendo a perfusão.

A pressão de pulso conta o que a sistólica esconde. No choque hipovolêmico e no cardiogênico, a diastólica sobe com a vasoconstrição e a diferença se estreita; no choque distributivo quente, a diastólica cai e o pulso fica amplo. Uma criança febril com pressão de 96 por 38, pulso cheio e extremidade quente não está bem só porque a sistólica está normal: pode estar num choque séptico de resistência baixa.

A criança séptica: sepse provável e choque séptico suspeito

A SSC 2026 escolheu palavras que servem à porta do pronto-socorro. Sepse provável é o quadro compatível com sepse antes de a infecção estar confirmada; choque séptico suspeito é o choque de causa ainda não confirmada, mas provavelmente infecciosa; choque séptico com hipoperfusão persistente é o que continua depois do tratamento inicial. As diretrizes não exigem definição formal para começar — nem os critérios de 2005, baseados na resposta inflamatória sistêmica, nem os de Phoenix, de 2024.

A criança séptica costuma se anunciar pela mudança de comportamento antes da mudança dos números: a febre que deixou de ser só febre, o lactente que não mama, o pré-escolar que não brinca nem quando a temperatura baixa, a respiração gemente, a pele de cor estranha. Otávia tinha foco pulmonar. Os outros focos aparecem no exame de quem os procura: a urina, a pele — celulite, lesão de varicela infectada, uma ferida —, o abdome, as articulações, as meninges.

Algumas crianças precisam de menos para entrar no protocolo, e o ILAS lista as condições de risco elevado: lactentes jovens e recém-nascidos, câncer, asplenia, transplante de medula óssea ou de órgão sólido, cateter venoso central e imunodeficiência ou imunossupressão. A criança com doença falciforme e febre tem régua própria em Anemia falciforme e traço falciforme: crises e manejo, e a criança com câncer e febre começa pelo fluxo de neutropenia febril de Síndrome da veia cava superior e neutropenia febril, na apostila de Oncologia; o choque de qualquer uma delas é conduzido por este capítulo.

Púrpura numa criança febril e prostrada é doença meningocócica até prova em contrário. Meningites bacterianas e virais na infância lembra que 15% a 20% dos casos evoluem como septicemia fulminante, sem meningite, com choque e coagulação intravascular disseminada, e que dor nas pernas de uma criança febril que está mal é sinal de choque, não queixa ortopédica. O antibiótico, a quimioprofilaxia dos contatos e a notificação são daquele capítulo; o reconhecimento do choque, o volume, a droga vasoativa e a hidrocortisona, deste.

Os critérios de Phoenix chegam depois. Definem sepse como disfunção orgânica com risco de vida na criança com infecção suspeita ou confirmada, com pelo menos 2 pontos no escore, e choque séptico como sepse com pelo menos 1 ponto cardiovascular — hipotensão grave para a idade, lactato de 5 mmol/L (45 mg/dL) ou mais, ou necessidade de droga vasoativa. A nota técnica do ILAS de maio de 2024 e a SSC 2026 dizem o mesmo sobre eles: foram feitos para confirmar e classificar a criança de alto risco de morte, não para a triagem. Otávia não tinha ponto cardiovascular às 21h40 e estava em choque; o ponto só apareceria quando a epinefrina começasse.

Hipovolêmico: a diarreia, o sangramento e o volume que some por dentro

A criança desidratada em choque segue o plano C, e o volume, a velocidade e a reavaliação em duas horas pelo fluxograma nacional estão em Diarreia aguda e desidratação: planos A, B e C de terapia de reidratação (AIDPI). Deste capítulo é o que acontece quando o plano C não funciona: aquele capítulo escreve que, se a criança não sai do choque, o diagnóstico de choque só hipovolêmico precisa ser posto em dúvida, com sepse, cardiopatia e choque distributivo como hipóteses. É a criança que volta à sala de emergência com o raciocínio deste capítulo.

Nenhum capítulo do nível conduz o choque hemorrágico da criança, e a parte que decide na urgência fica com este. O protocolo pediátrico do SAMU 192 manda controlar o sangramento externo, infundir bolus de 20 mL/kg de cristaloide, repetir conforme a resposta, providenciar concentrado de hemácias o mais rápido possível e não perder tempo na cena. A diretriz de ressuscitação da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2019 dá o mesmo bolus mesmo com pressão normal e mais 20 mL/kg se a perfusão não melhorar. O cristaloide é ponte; o que trata é sangue e hemostasia — e a transfusão maciça da criança não tem régua neste nível.

O volume também some para dentro. Na queimadura extensa, o líquido vaza para o tecido lesado e a reposição segue fórmula própria, em Reposição volêmica no grande queimado (fórmula de Parkland). Na cetoacidose, a diurese osmótica desidrata, e a expansão rápida demais soma risco de edema cerebral — o protocolo do SAMU manda 20 mL/kg em 60 minutos, e o manejo inteiro está em Diabetes mellitus tipo 1 e cetoacidose diabética na criança. No sequestro esplênico da doença falciforme, o sangue fica preso no baço, e a criança pálida, com baço que cresce rápido, chega ao choque hipovolêmico sem ter perdido uma gota para fora.

Dois lugares escondem o sangramento na criança pequena: o abdome, depois de um trauma que ninguém viu, e a cabeça do lactente, em que a fontanela aberta deixa perder volume dentro do crânio. E um contexto esconde a história: trauma sem mecanismo compatível, demora em procurar atendimento ou relato que muda a cada pergunta pedem que se pense em violência, e a notificação e a proteção seguem Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória (ECA), nesta apostila.

Cardiogênico: a criança que piora com o volume

Antes de expandir volume, procure hipovolemia e sinais de congestão ou disfunção cardíaca. Nem toda criança em choque precisa de um bolus: na suspeita cardiogênica com congestão, priorize suporte e avaliação especializada, sem impor um volume prévio. Quando a expansão estiver indicada, reavalie cada alíquota e interrompa se surgirem hepatomegalia, crepitações, piora respiratória ou queda da saturação.

Algumas crianças já chegam com a pista. O lactente que cansa e sua para mamar, que respira rápido sem febre, com fígado grande e ritmo em galope, pode ter uma cardiopatia congênita descompensando — e o erro de expandir volume nesse lactente como se estivesse desidratado está descrito em Cardiopatias congênitas acianóticas (comunicação interventricular, interatrial e persistência do canal arterial) e insuficiência cardíaca na criança. A criança com pródromo viral, taquicardia desproporcional à febre, vômitos e cansaço pode ter miocardite; a que chega com frequência cardíaca fixa e muito alta pode ter uma taquiarritmia, que tem algoritmo próprio nos protocolos do SAMU 192.

Quando o choque é cardiogênico, o protocolo do SAMU muda o tamanho do bolus: 5 a 10 mL/kg em 10 a 20 minutos, repetidos conforme a necessidade e com o padrão respiratório vigiado a cada um. A droga que ajuda é inotrópica — dobutamina de 2 a 20 mcg/kg/min pela diretriz de ressuscitação da Sociedade Brasileira de Cardiologia, ou epinefrina quando há hipotensão —, a milrinona citada pelas diretrizes para a disfunção miocárdica não consta da Rename 2024, e o especialista é chamado cedo pela regulação.

Intoxicação por betabloqueador ou por bloqueador de canal de cálcio também deprime o miocárdio, e o protocolo do SAMU manda dar volume com o mesmo cuidado do choque cardiogênico; a intoxicação exógena da criança está em Acidentes na infância: prevenção, afogamento, queimadura e intoxicação exógena. E a própria sepse deprime o coração: a criança séptica que piora no terceiro bolus não mudou de diagnóstico, mudou de fase, e a resposta é a mesma — parar o volume e começar a droga.

Distributivo sem sepse e obstrutivo: anafilaxia, medula, tórax e canal arterial

A anafilaxia é a causa de choque em que a droga certa, dada cedo, desfaz o quadro: epinefrina intramuscular antes de qualquer outra coisa, e o volume depois. O protocolo pediátrico do SAMU reconhece a hipotensão da anafilaxia na criança pela sistólica abaixo do mínimo da idade ou por queda de mais de 30% da basal, depois da exposição a um alérgeno. A dose por quilo, a repetição, o volume e a observação estão em Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro (adrenalina IM, manejo), que traz o esquema da criança; a enterocolite induzida por proteína, que chega com vômitos e choque hipovolêmico e não é anafilaxia, está em Alergia à proteína do leite de vaca.

O choque neurogênico vem do trauma raquimedular: pressão baixa com frequência normal ou baixa e pele quente, numa criança que sofreu queda, mergulho ou acidente de carro. O fluxograma do SAMU manda bolus de 20 mL/kg, repetido conforme a necessidade, e vasopressor se disponível. O sangramento precisa ser afastado antes de atribuir a hipotensão à medula, porque a criança politraumatizada pode ter os dois; a lesão medular em si é tratada no nível pelo adulto, em Trauma raquimedular e choque neurogênico.

O choque obstrutivo pede um gesto, não um soro. No pneumotórax hipertensivo — murmúrio abolido de um lado, desconforto crescente, hipotensão, às vezes com ventilação por pressão positiva em curso —, o protocolo do SAMU manda descompressão com agulha e drenagem torácica, e o local da punção na criança e a técnica estão em Trauma torácico com risco iminente de morte (pneumotórax hipertensivo, tamponamento, tórax instável). No tamponamento e na embolia, o SAMU dá bolus de 5 a 10 mL/kg enquanto se chama quem resolve.

No recém-nascido, uma lesão cardíaca dependente do canal arterial pode descompensar nos primeiros dias com perfusão ruim, respiração rápida e acidose — o mesmo retrato de um choque séptico, como adverte Sepse neonatal precoce e tardia: fatores de risco e manejo. Pulso femoral fraco, diferença de saturação entre a mão direita e os pés e fígado grande num neonato em choque pedem que se pense no coração — o antibiótico não espera essa dúvida, e o especialista também não. O alprostadil, que mantém o canal aberto, não consta da Rename 2024 e vem da padronização hospitalar.

06

Como fechar o diagnóstico

Na criança em choque, investigar não pode atrasar tratar. O exame físico repetido é o exame mais importante e mais barato do capítulo; o lactato e a glicemia são os números que se pedem à beira do leito; a hemocultura se colhe sem segurar o antibiótico; e o que depende de transporte, de preparo ou de especialista — tomografia, punção lombar, ecocardiograma formal — espera a estabilização.

As seis seções seguem a ordem em que as perguntas aparecem: o que se repete a cada bolus, o que o lactato diz, o que se colhe antes do antibiótico, o que a glicemia e o cálcio pedem, o que o ultrassom acrescenta e o que pode esperar.

A folha de reavaliação: o exame que se repete a cada bolus

O protocolo pediátrico do ILAS fixa os alvos da primeira hora como exame, não como laboratório: enchimento capilar de até 2 segundos, sistólica normal para a idade, pulso periférico igual ao central, diurese acima de 1 mL/kg/h, extremidades aquecidas e estado mental normal. Esses alvos viram colunas numa folha — hora, volume acumulado em mL/kg, frequência cardíaca, enchimento capilar, linha do frio na perna, pulso, pressão, saturação, frequência respiratória, borda do fígado, ausculta e consciência —, preenchida antes do primeiro bolus e depois de cada um.

O fígado entra na folha com uma marca de caneta na borda palpada antes do volume. Ele é o primeiro órgão a denunciar que o coração direito não está dando conta: a borda que desce 1 ou 2 centímetros durante a expansão é sinal de sobrecarga, e a SSC 2026 inclui o fígado novo ou aumentado entre os sinais que mandam parar o bolus. A marca serve também a quem examina depois: sem ela, ‘fígado a 3 centímetros’ não diz se cresceu.

A oximetria de pulso na mão fria perde o sinal ou lê errado; um sensor no lóbulo da orelha ou no pé mais quente, com onda de pulso bem formada no monitor, diz se o número é confiável. O monitor cardíaco contínuo, a pressão não invasiva a cada 15 minutos e a temperatura completam o que o ILAS pede na admissão.

A diurese da criança sem sonda se mede pesando a fralda antes e depois — cada grama a mais é, na prática, um mililitro de urina — e anotando a hora. Na criança em choque que vai precisar de balanço exato, a sondagem vesical é decisão de quem continua o cuidado e não pode atrasar nada da primeira hora.

Lactato e gasometria: o número à beira do leito

A SSC 2026 recomenda, com força, medir o lactato na avaliação inicial de toda criança com sepse provável ou choque séptico suspeito. O lactato é marcador indireto e inespecífico da perfusão global, e valores a partir de 2 mmol/L se associam, de forma independente, a maior mortalidade, seja a amostra arterial, venosa ou capilar. Por isso a amostra que se consegue é a que serve: sangue venoso da primeira veia, ou capilar, no aparelho de gasometria à beira do leito.

Dois cuidados de leitura. O primeiro é a unidade: o resultado pode sair em mmol/L ou em mg/dL, e a conversão é multiplicar por 9 — 2 mmol/L são 18 mg/dL, 5 mmol/L são 45 mg/dL. O segundo é o limiar: 5 mmol/L (45 mg/dL) é o que conta ponto cardiovascular no Phoenix, mas a SSC 2026 lembra que elevações menores já podem indicar perfusão insuficiente e justificar o tratamento do choque. Lactato normal não afasta choque numa criança fria e de enchimento lento; lactato alto numa criança bem perfundida pede que se pense em outras causas.

O segundo lactato vale mais que o primeiro. A recomendação de 2020 de usar a tendência do lactato para guiar a ressuscitação foi incorporada à de 2026, com a observação de que lactato persistentemente alto na repetição pode indicar ressuscitação incompleta. Na prática da cena: colhe-se na chegada, repete-se depois da intervenção inicial — o volume da primeira hora e o antibiótico — e segue-se repetindo até cair.

A gasometria que traz o lactato traz também o que muda conduta imediata: glicose, cálcio iônico, potássio e excesso de bases. A acidose metabólica da criança em choque se corrige corrigindo a perfusão; a SSC 2026 não encontrou evidência para recomendar bicarbonato, e o número do pH, sozinho, não é indicação de infusão.

Culturas e foco: colher sem segurar o antibiótico

A regra da SSC 2026 é de boa prática e tem uma condição: colher hemocultura antes do antimicrobiano quando isso não atrasa substancialmente a administração. O ILAS monta o kit da primeira hora com hemoculturas e culturas dos sítios suspeitos, gasometria e lactato, hemograma, creatinina, bilirrubina, transaminase e coagulograma. A hemocultura se colhe na primeira punção venosa que der certo; se nenhuma veia deu certo e a agulha intraóssea já está no lugar, o antibiótico corre por ela, e a cultura espera a próxima oportunidade.

O foco se procura com o exame inteiro e a criança despida: pulmão, pele e mucosas, abdome, articulações e ossos, ouvidos e garganta, sinais meníngeos. Petéquias e púrpura mudam a urgência e o contexto, e lesões de pele infectadas, sobretudo depois de varicela, fazem pensar em estreptococo e em choque tóxico. A urina da criança febril sem foco evidente entra na investigação pela régua de Infecção do trato urinário na criança e investigação de malformações, na apostila de Nefrologia Pediátrica.

A punção lombar não entra na primeira hora da criança instável. Febre sem sinais localizatórios no lactente e abordagem da criança febril escreve a exceção com todas as letras: na criança grave em que a punção vai demorar, as hemoculturas vêm primeiro, o tratamento em seguida e a punção por último. A dose do antibiótico, nesse caso, já é a que alcança as meninges, e a punção se faz quando a criança estiver estável.

O controle do foco tem prazo próprio. A SSC 2026 manda que a intervenção de controle — drenar um empiema ou um abscesso, desobstruir uma via urinária — seja feita tão logo se diagnostique uma infecção passível de controle, e que o dispositivo intravascular confirmado como fonte seja retirado depois de garantido outro acesso. Na criança da cena, a radiografia de tórax feita depois da estabilização vai dizer se a pneumonia trouxe derrame.

Glicemia e cálcio iônico: os dois números que o miocárdio da criança cobra

A glicemia capilar se mede na chegada de toda criança em choque, e o protocolo pediátrico do SAMU 192 define hipoglicemia, a partir de 1 mês de idade, como glicemia abaixo de 60 mg/dL — abaixo de 50 mg/dL no recém-nascido sintomático. A criança pequena, febril, em jejum e em choque gasta a reserva de glicogênio depressa, e a hipoglicemia piora a função do miocárdio e confunde a leitura da consciência. O ILAS manda corrigir a hipoglicemia na primeira hora e depois controlar a glicemia com alvo de até 180 mg/dL, atento à hipoglicemia do lactente.

A dose é de 0,5 a 1 g/kg. O SAMU a escreve em glicose a 25%, de 2 a 4 mL/kg, mas a Rename 2024 só tem glicose a 5%, a 10% e a 50%. Com o que existe, 0,5 g/kg é glicose a 10%, 5 mL/kg — 70 mL em Otávia —, e a diretriz de ressuscitação da Sociedade Brasileira de Cardiologia fixa em 25% a concentração máxima para bolus, de modo que a glicose a 50% não vai pura na veia da criança. A glicemia se repete 10 minutos depois, e, quando for preciso repetir o bolus, entra a infusão contínua de glicose, que o SAMU dá de 2 a 5 mg/kg/min.

O cálcio iônico entra na monitorização que o ILAS pede na primeira hora, e o protocolo de 2019 manda corrigir a hipocalcemia junto com a hipoglicemia, pelo peso que ela tem na disfunção do miocárdio. A SSC 2026, por outro lado, não encontrou evidência para recomendar que se persiga cálcio normal nem que se tolere a hipocalcemia. As duas regras cabem numa só: dosar o cálcio iônico, corrigir a hipocalcemia documentada da criança em choque e não dar cálcio às cegas.

Quando indicado, o gluconato de cálcio a 10% vai na dose de 60 mg/kg — 0,6 mL/kg —, o triplo da dose de cloreto de cálcio para o mesmo cálcio elementar, pela diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia; em Otávia seriam 8,4 mL, diluídos e infundidos devagar. O gluconato é o sal adequado para veia periférica, por irritar menos, e não se mistura com bicarbonato no mesmo acesso, porque precipita. Nenhum cálcio injetável consta da Rename 2024 — o cloreto de cálcio aparece só dentro do Ringer lactato —, e ele vem da padronização do hospital.

Ultrassom à beira do leito: o coração que não aguenta volume

A SSC 2026 trouxe uma recomendação nova e condicional: usar o ultrassom cardíaco e pulmonar à beira do leito para guiar a ressuscitação, quando houver treinamento e equipamento. No painel, 71% dos especialistas já usam alguma monitorização avançada junto com o exame clínico, e o ecocardiograma ou o ultrassom cardíaco está entre as mais usadas. O fluxograma pediátrico do ILAS diz o mesmo em outras palavras: se houver ultrassom disponível, usá-lo para avaliar a necessidade de novos bolus.

O que o ultrassom acrescenta à folha de reavaliação é a resposta a duas perguntas que o exame físico responde tarde. O coração está contraindo bem, ou é um choque cardiogênico, ou uma sepse que já deprimiu o miocárdio? E o pulmão está começando a encharcar antes de os estertores aparecerem? A técnica e o que o interno precisa reconhecer em cada janela estão em Ultrassom à beira do leito: o que o interno precisa reconhecer, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito.

A diretriz deixa um aviso que vale para qualquer medida dinâmica: prever que um bolus vai aumentar o débito não significa que a criança vai se beneficiar dele. O ultrassom informa a decisão; não a toma. Sem treinamento e sem aparelho, a folha de reavaliação com o fígado marcado continua sendo o instrumento, e nenhum bolus espera a chegada do ultrassom.

O que espera a estabilização

A radiografia de tórax da criança da cena é pedida, mas feita no leito ou depois da estabilização, sem levar a criança para longe da sala de emergência no meio da ressuscitação. A tomografia, o ecocardiograma formal e a punção lombar seguem a mesma lógica: exames que exigem transporte, sedação ou tempo esperam a criança sair do choque.

O ILAS separa um pacote de exames para depois da primeira hora, para medir perfusão e procurar disfunções novas. Na criança que chegar a ter cateter venoso central, a SSC 2026 sugere buscar saturação venosa central de oxigênio de 70% ou mais — decisão da equipe que recebe, não da sala de emergência.

O escore de Phoenix se calcula nessa fase, com dados que já existem: a pressão média, o lactato, as drogas vasoativas, a relação entre a saturação e a fração inspirada de oxigênio, as plaquetas e a coagulação, a escala de coma. Serve para classificar e registrar a sepse e o choque séptico da criança — e, como adverte a própria nota técnica do ILAS, não para decidir quem recebe tratamento.

07

Qual régua o Brasil usa para a criança em choque, e o que cada número decide

A sepse da criança não tem PCDT nem protocolo clínico nacional do Ministério da Saúde; os protocolos que circulam são institucionais — de hospitais universitários, de municípios —, quase todos construídos sobre o ILAS e a Surviving Sepsis Campaign. O que existe de federal para o choque pediátrico são os protocolos do SAMU 192, de 2016, que definem hipotensão por idade, o primeiro volume, o acesso intraósseo e o reconhecimento dos tipos de choque. A régua brasileira de implantação da sepse pediátrica é a do Instituto Latino-Americano de Sepse: o protocolo clínico pediátrico (versão 3, revisão de fevereiro de 2019), o fluxograma de choque séptico em crianças, posterior aos critérios de Phoenix, e a nota técnica de maio de 2024. A diretriz mais recente é internacional — a SSC 2026, de março de 2026 —, e o ILAS ainda não revisou por ela os documentos pediátricos. As doses de antimicrobiano vêm do guia do ILAS de 2024; a dose de estresse de hidrocortisona, do PCDT de Insuficiência Adrenal de 2020, na leitura corrigida por Insuficiência adrenal e crise addisoniana; o que o SUS fornece, da Rename 2024; e a permanência da família, do art. 12 do Estatuto da Criança e do Adolescente.

  1. 1Suspeite de choque diante de um conjunto de hipoperfusão e contexto compatível: consciência, pulsos, enchimento capilar, temperatura periférica, diurese e pressão. Pressão normal não o exclui, mas um sinal isolado também não o confirma. Reconheça e trate a deterioração enquanto investiga o mecanismo.
  2. 2Sistólica abaixo do mínimo da idade — menos de 60 até 28 dias, de 70 até 1 ano, de 70 mais duas vezes a idade até 10 anos, de 90 depois — é choque descompensado: ajuda chamada, regulação acionada e tudo o que segue ao mesmo tempo.
  3. 3Primeiros minutos: ajuda, monitorização, oxigênio e ventilação conforme necessidade, glicemia e acesso. Obtenha peso confiável ou estimativa pelo método do serviço sem atrasar suporte para levar a criança à balança. Se acesso venoso não é obtido prontamente, use via intraóssea por profissional habilitado.
  4. 4Suspeita de sepse: lactato e hemocultura sem atrasar nada; antimicrobiano o quanto antes — idealmente em 1 hora no choque séptico suspeito, idealmente em 3 horas na sepse provável sem choque, depois de investigação rápida.
  5. 5VOLUME SE INDICADO. No choque séptico com suporte intensivo efetivamente acessível, cristaloide em alíquotas de 10–20 mL/kg, com reavaliação durante e após cada uma. Suspeita cardiogênica, obstrutiva, desnutrição grave ou condição neonatal exige estratégia própria; não administrar alíquotas padrão indiscriminadamente.
  6. 6Parar o volume quando o choque resolver ou quando aparecer sobrecarga: fígado que passa da marca de caneta, estertores novos, saturação que cai, trabalho respiratório que aumenta.
  7. 7RECURSOS E RESPOSTA. Com terapia intensiva disponível, a SSC 2026 admite até 40–60 mL/kg na primeira hora, titulados; não é meta obrigatória. Sem disponibilidade de terapia intensiva, não fazer bolus na sepse sem hipotensão; na hipotensão, até 40 mL/kg com reavaliação. O nome do sistema ou uma solicitação de vaga não comprovam capacidade de resgate: confirme equipe, ventilação, monitorização e acesso real à referência.
  8. 8VASOATIVO. Persistência de hipoperfusão, hipotensão importante ou intolerância a volume exige discussão precoce de vasoativo, sem esperar obrigatoriamente 40–60 mL/kg ou acesso central. A SSC 2026 não define superioridade universal entre epinefrina e norepinefrina. Escolha e titulação dependem do conjunto hemodinâmico, resposta, recursos e protocolo; pele fria ou quente isoladamente não decide.
  9. 9Glicemia abaixo de 60 mg/dL: glicose a 10%, 5 mL/kg. Cálcio iônico baixo documentado: gluconato de cálcio a 10%, 0,6 mL/kg, até 20 mL. Bicarbonato não corrige choque.
  10. 10Choque que não sai com catecolamina: procurar pneumotórax, tamponamento, sangramento, foco não drenado e insuficiência adrenal. Hidrocortisona em dose de estresse é obrigatória com risco adrenal — corticoide crônico, doença hipofisária ou adrenal, púrpura fulminante — e permitida sem ele, por decisão da terapia intensiva.
  11. 11Transferir com as horas escritas: peso, reconhecimento, acesso e local da intraóssea, culturas, antibiótico, cada bolus e a razão de parar o volume, droga com concentração e vazão, lactatos, glicemias, e o nome de quem da família acompanha.

Com terapia intensiva ou sem: onde fica o pronto-socorro brasileiro

Volume é titulado pela resposta e pela capacidade real de suporte. A faixa de 40–60 mL/kg não é um alvo a completar. Reavalie antes de cada alíquota e pare com resolução do choque ou sinais de sobrecarga. Confirme recursos acessíveis; uma vaga solicitada, por si, não equivale a terapia intensiva disponível.

A sistólica que marca a descompensação, pelo protocolo pediátrico do SAMU 192, e o que ela não afasta

Faixa etáriaHipotensão: sistólica abaixo deConta ou exemploO que a pressão acima desse número não afasta
Recém-nascido, até 28 dias60 mmHgNeonato de 5 dias com 64 de sistólica, frio e sem mamarChoque compensado; e lesão dependente do canal arterial com pulso femoral fraco
De 1 a 12 meses70 mmHgLactente de 7 meses com 78 de sistólica e fígado que cresce depois do bolusChoque cardiogênico ainda compensado
De 1 a 10 anos70 mais duas vezes a idade em anos3 anos: 76; 7 anos: 84; 10 anos: 90Enchimento lento, extremidade fria, pulso fino, sonolência e urina pouca — o choque compensado inteiro
Mais de 10 anos90 mmHgMenino de 11 anos com 94 por 40, pulso amplo e pele quenteChoque distributivo de resistência baixa, com diastólica baixa e pulso amplo

O tipo de choque decide o tamanho do bolus, a hora de parar e o primeiro passo além do volume

TipoO que se vêPrimeiro volumeQuando parar o volumePrimeiro passo além do volumeOnde está o resto
Hipovolêmico por diarreiaDesidratação grave com sinais de choque e pressão de pulso estreitaPlano C pelo fluxograma nacionalChoque que não sai na reavaliação de 2 horas pede outro diagnósticoRepensar sepse, cardiopatia e choque distributivoDiarreia aguda e desidratação: planos A, B e C de terapia de reidratação (AIDPI)
HemorrágicoTrauma, sangramento visível ou escondido, palidez e taquicardiaCristaloide 20 mL/kg como ponte, repetido conforme a respostaQuando o sangue chega: cristaloide não substitui hemáciasControle do sangramento e concentrado de hemácias o mais rápido possívelEste capítulo; a transfusão maciça da criança não tem régua no nível
SépticoInfecção com frio e pulso fino, ou quente e pulso amploRinger lactato 10 a 20 mL/kg por bolus, até 40 a 60 mL/kg na primeira horaChoque resolvido, ou fígado que cresce, estertores, saturação que caiAntimicrobiano em 1 hora; epinefrina ou norepinefrina por veia periférica ou intraósseaEste capítulo
AnafiláticoPele, respiração ou hipotensão minutos depois de um alérgenoDepois da epinefrina, pelo esquema da criançaPelo capítulo donoEpinefrina intramuscular antes de qualquer soroAnafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro (adrenalina IM, manejo)
NeurogênicoTrauma raquimedular, pele quente e ausência de taquicardia20 mL/kg, repetido conforme a necessidadeSobrecarga, ou pressão que não responde ao volumeVasopressor, depois de afastar sangramento associadoTrauma raquimedular e choque neurogênico, tratado no adulto
CardiogênicoTaquipneia sem febre, fígado grande, galope, piora depois do bolus5 a 10 mL/kg em 10 a 20 minutosAo primeiro sinal de congestãoInotrópico — dobutamina, ou epinefrina se houver hipotensão — e especialista pela regulaçãoEste capítulo; a insuficiência cardíaca que se trata em casa, no capítulo de cardiopatias congênitas acianóticas
ObstrutivoMurmúrio abolido de um lado, bulhas abafadas, ou neonato com pulso femoral fraco5 a 10 mL/kg enquanto se resolve a causaO volume não resolve: só compra minutosDescompressão com agulha e drenagem; no neonato, pensar no canal arterialTrauma torácico com risco iminente de morte (pneumotórax hipertensivo, tamponamento, tórax instável)

Tabela de conversão: dose por quilo, teto, conta nos pesos dos casos e o que a Rename 2024 tem

Fármaco ou soluçãoDose por quilo e tetoConta no casoApresentação e Rename 2024
Ringer lactato em bolus10 a 20 mL/kg por bolus; até 40 a 60 mL/kg na primeira hora, com terapia intensiva no sistemaOtávia, 14 kg: 140 mL por bolus de 10 mL/kg e 560 mL em 40 mL/kg. Ludovico, 36 kg: 360 mL e 1.440 mLSolução de Ringer com lactato e cloreto de sódio 0,9%, componente básico
Ceftriaxona100 mg/kg/dia em 50 mg/kg de 12 em 12 horas; máximo de 4 g/diaOtávia: 700 mg por dose, 35 mL a 20 mg/mL em 30 minutos. Ludovico: 1.800 mg por dose, 90 mL, 3,6 g/diaPó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g, componente básico
Epinefrina em infusão contínua0,05 a 0,3 mcg/kg/minA 4 mcg/mL (1 mg em soro fisiológico até 250 mL). Otávia: 10,5 mL/h a 0,05, 21 mL/h a 0,1 e 63 mL/h a 0,3. Ludovico: 54 mL/h a 0,1 e 162 mL/h a 0,3Epinefrina 1 mg/mL, componente básico
Norepinefrina em infusão contínua0,1 a 1 mcg/kg/min, expressos em norepinefrina baseA 4 mcg/mL de base (1 mL da solução de 2 mg/mL, que tem 1 mg de base, até 250 mL). Otávia: 21 mL/h a 0,1 e 210 mL/h a 1. Ludovico: 54 mL/h a 0,1Hemitartarato de norepinefrina 2 mg/mL, equivalente a 1 mg/mL de base, componente básico; uso pediátrico fora da bula
Dobutamina em infusão contínua2 a 20 mcg/kg/minPaulinho, 7,5 kg, a 5 mcg/kg/min: 2,25 mg/h. Numa diluição de 1 mg/mL (4 mL da solução de 12,5 mg/mL até 50 mL), 2,25 mL/hCloridrato de dobutamina 12,5 mg/mL, componente básico
Glicose a 10% na hipoglicemia0,5 g/kg = 5 mL/kg; repetir se a glicemia seguir abaixo de 60 mg/dL em 10 minutosOtávia: 70 mL (7 g). Ludovico: 180 mL (18 g)Glicose a 5%, 10% e 50%, componente básico; não há glicose a 25%
Gluconato de cálcio a 10% na hipocalcemia documentada60 mg/kg = 0,6 mL/kg; teto de 20 mL (2 g), a dose do adultoOtávia: 8,4 mL (840 mg), diluídos e lentos. Ludovico: 21,6 mL pela conta, limitados a 20 mLNão consta; o cloreto de cálcio só aparece como componente do Ringer lactato
Hidrocortisona em dose de estresseAtaque de 20 mg no recém-nascido, 50 mg no lactente e no pré-escolar, 100 mg do escolar em diante; manutenção de 60 a 100 mg/m²/dia de 6 em 6 horas, até 200 mg/diaLudovico, 36 kg e 145 cm (1,20 m²): ataque de 100 mg; manutenção de 72 a 120 mg/dia — 25 mg de 6 em 6 horasSuccinato sódico de hidrocortisona 100 mg e 500 mg, componente básico

Quando o mesmo volume não serve

ContextoComo organizar a condutaReavaliar antes de repetir
Sepse com suporte intensivo acessívelAlíquotas tituladas, antimicrobiano e controle do foco em paraleloPerfusão e congestão; volume acumulado não é objetivo isolado.
Sepse sem suporte intensivo disponívelAplicar ramo específico conforme presença de hipotensãoNão transportar automaticamente a estratégia de 40–60 mL/kg.
Desidratação por perdasSeparar ressuscitação, déficit, manutenção e perdas em cursoUsar o capítulo de desidratação, incluindo solução, eletrólitos e resposta.
Desnutrição graveSeguir protocolo específico de estabilização com avaliação cuidadosaNão usar os sinais ou bolus usuais sem considerar suas limitações nesse grupo.
Cardiogênico / congestãoRever indicação de fluidos e discutir suporte dirigido precocementeFígado, ausculta, esforço, saturação, pressão e resposta; evitar repetição automática.
ObstrutivoIdentificar e aliviar a causa quando indicadoVolume não resolve pneumotórax hipertensivo ou outra obstrução mecânica.
HemorragiaControlar sangramento e planejar hemocomponentes conforme traumaNão substituir indefinidamente sangue por cristaloide.
Recém-nascidoAplicar contexto neonatal de sepse, cardiopatia, glicose e transiçãoIdade, prematuridade e fisiologia mudam esquema e metas.

Folha após cada intervenção

IntervençãoResposta desejadaMotivo para mudar o plano
CristaloideMelhora integrada de perfusão e responsividadeNovo esforço respiratório, queda da saturação, estertores/congestão ou ausência de benefício.
VasoativoPerfusão e pressão adequadas com menor disfunção orgânicaArritmia, extravasamento, perfusão pior ou necessidade crescente de suporte.
Todas as infusõesDose e concentração conferidas com balanço totalSomar diluentes, manutenção, bolus e dieta; concentrar com segurança quando necessário.
Antimicrobiano / focoAdministração efetiva e revisão pela microbiologiaFoco não controlado, agente resistente ou diagnóstico alternativo.
TransferênciaContinuidade das infusões e monitorizaçãoTempo ou recursos insuficientes exigem recontato e novo plano de suporte.

Nota 1 — Fluxograma de tratamento do choque séptico em crianças (ILAS, posterior a janeiro de 2024). O fluxograma fixa a concentração da droga vasoativa por veia periférica em 4 mcg/mL — a diluição-padrão de 4 µg/mL de base da bula da norepinefrina para adulto — e, no mesmo quadro, as faixas de noradrenalina de 0,1 a 1,0 e de adrenalina de 0,05 a 0,3 mcg/kg/min. Conta: a vazão em mL/kg/h é a dose multiplicada por 60 e dividida por 4, o que dá de 1,5 a 15 mL/kg/h de noradrenalina e de 0,75 a 4,5 mL/kg/h de adrenalina. Em Otávia, com 14 kg, a noradrenalina a 1,0 correria a 210 mL/h, 4,2 vezes a manutenção inteira de Holliday-Segar (1.200 mL/dia, 50 mL/h), e a adrenalina a 0,3, a 63 mL/h, 1,26 vez — num fluxograma que manda suspender o volume ao primeiro sinal de sobrecarga. O protocolo de 2019 do mesmo instituto dava a diluição periférica como ‘proporção de 1 (droga) : 3 (soro fisiológico) … (4 mL/h)’, sem concentração que permita a conta. Esta apostila usa 4 mcg/mL para começar pela veia periférica, soma a vazão da droga ao balanço hídrico e manda concentrar a solução pela padronização do serviço quando essa vazão se aproximar da manutenção — o que costuma coincidir com a hora do cateter central e da terapia intensiva.

Nota 2 — Protocolo clínico pediátrico do ILAS (versão 3, fevereiro de 2019), hidrocortisona. O texto manda ‘dose de ataque de 100mg/m2/dia e manutenção da mesma dose, dividida de 6/6 horas’ e desmame ‘D1 25mg/m2, D2 12,5mg/m2 e D3 suspenso’, sem dizer se o desmame é por dia ou por dose. Conta, numa criança de 14 kg e 95 cm (0,61 m² pela fórmula de Mosteller): 100 mg/m²/dia são 61 mg/dia, 15 mg de 6 em 6 horas; o primeiro dia de desmame lido por dia dá 15 mg/dia, queda de 75% em 24 horas, e lido por dose de 6 em 6 horas dá os mesmos 61 mg/dia, desmame nenhum. E um ataque escrito por dia não é bolus. Esta apostila não usa a dose do protocolo de 2019: a hidrocortisona de estresse da criança segue o ataque graduado por idade e a manutenção de 60 a 100 mg/m²/dia, até 200 mg/dia, do PCDT de Insuficiência Adrenal (2020), como corrigido em Insuficiência adrenal e crise addisoniana, na apostila de Endocrinologia; o desmame é decisão da terapia intensiva.

Nota 3 — Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar da Sociedade Brasileira de Cardiologia (2019), cálcio no suporte avançado pediátrico. A frase dá a dose como ‘5 a 7 mg de cálcio elementar ou 20 mg/kg de cloreto de cálcio a 10%’ e, entre parênteses, ‘5,4 mg/kg de cálcio elementar’ para o segundo ramo; o primeiro ramo perdeu o ‘/kg’. Conta, em Otávia, com 14 kg: pelo primeiro ramo, 5 a 7 mg de cálcio elementar no total; pelo segundo, 76 mg (5,4 × 14) — de 11 a 15 vezes mais, apresentados como equivalentes pelo ‘ou’. A leitura coerente é a do segundo ramo, que a própria frase converte: 20 mg/kg de cloreto, ou o triplo em gluconato — 60 mg/kg de gluconato a 10%, 0,6 mL/kg.

Nota 4 — Protocolos do SAMU 192 (2016), APed 25, e Rename 2024. O protocolo pediátrico de hipoglicemia manda glicose a 25%, de 2 a 4 mL/kg, e a Rename 2024 lista glicose a 5%, a 10% e a 50%, sem 25%. Conta com o que existe, para 0,5 g/kg em Otávia (7 g): glicose a 10%, 70 mL; ou glicose a 50% diluída em igual volume de água para injeção — 14 mL mais 14 mL, 28 mL a 25%, os mesmos 2 mL/kg do protocolo. A glicose a 50% pura não vai em bolus na criança: a diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia fixa 25% como concentração máxima para bolus.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a noite de Otávia, contada pelas decisões. Ela chega às 21h40 com choque séptico suspeito, compensado, de foco pulmonar, num hospital sem UTI pediátrica, e sai pouco depois da meia-noite numa ambulância de suporte avançado, com epinefrina correndo, lactato caindo e uma folha que conta o que foi feito em cada minuto.

Cada marco traz a prescrição por extenso, com a dose por quilo, a conta para 14 kg e a apresentação que existe na Rename 2024. A régua é a da SSC 2026 para volume, antibiótico e droga vasoativa; a do SAMU 192 para acesso intraósseo e glicemia; a do ILAS para doses e alvos; e o capítulo toma posição declarada onde as fontes divergem.

  1. 21h40 — Pressão normal, criança em choque: quem sai da sala é a dúvida

    O interno reconhece o choque compensado pela soma dos sinais — enchimento capilar de 4 segundos, frio até o meio da perna, pulso radial fino, gemência e urina pouca — e diz em voz alta para a equipe: choque séptico suspeito, foco provável pulmonar. Chama o preceptor e a enfermagem, mantém a mãe ao lado da maca e começa pelo que não depende de acesso. A saturação de 90% pede oxigênio já; o peso de 14 kg vai para o alto da folha, porque tudo o que vem depois é por quilo; e a central de regulação é acionada antes do primeiro soro.

    Prescrição
    • Oxigênio por máscara não reinalante com reservatório, 10 a 15 L/min, enquanto a saturação estiver abaixo de 94%
    • Monitor cardíaco contínuo, oximetria de pulso e pressão não invasiva a cada 15 minutos
    • Peso de 14 kg no alto da folha; glicemia capilar de 68 mg/dL; temperatura axilar de 38,9 °C
    • Borda do fígado marcada com caneta (2 cm do rebordo costal direito) e ausculta registrada antes de qualquer volume
    • Ligar para a central de regulação: criança de 3 anos, 14 kg, choque séptico suspeito compensado, foco pulmonar, precisa de UTI pediátrica
  2. 21h46 — Duas tentativas em 90 segundos, e a tíbia

    A enfermeira tenta duas veias no dorso das mãos, frias e finas; as duas falham antes de completar 90 segundos. O protocolo do SAMU 192 é explícito: com duas tentativas sem sucesso em 90 segundos, a criança recebe acesso intraósseo, que vale até como primeira via na criança em choque com vasoconstrição intensa. O interno escolhe a tíbia proximal esquerda, de 1 a 3 centímetros abaixo e medial à tuberosidade, insere a agulha a 90 graus até a perda súbita de resistência, retira o mandril e infunde 5 mL de soro fisiológico, que correm fácil e não incham a perna. Enquanto isso, uma segunda enfermeira aquece o antebraço e consegue uma veia na fossa antecubital direita às 21h52.

    Prescrição
    • Acesso intraósseo na tíbia proximal esquerda às 21h48, testado com 5 mL de soro fisiológico sem infiltração; hora e local anotados na folha
    • Agulha e equipo fixados sem tensão; face posterior da perna conferida a cada bolus
    • Veia periférica proximal ao cotovelo tentada sem interromper o que corre pela intraóssea
    • Nenhuma tentativa de veia central na sala de emergência
  3. 21h50 — O primeiro bolus é de 10 mL/kg, porque o pulmão já está molhado

    A equipe confirma que há profissionais, ventilação, monitorização e via de referência disponíveis para manejar a deterioração enquanto aguarda transferência. Em Otávia, a suspeita de choque séptico com achados pulmonares exige alíquotas cautelosas e avaliação frequente; escolhe-se inicialmente 10 mL/kg dentro da faixa do protocolo. Não se programa completar 40–60 mL/kg: cada nova alíquota depende da resposta e da ausência de sobrecarga. Culturas devem ser colhidas oportunamente, sem atrasar antibiótico ou suporte.

    Prescrição
    • Ringer lactato 140 mL (10 mL/kg) pela intraóssea, empurrado com seringa de 20 mL e torneira de três vias, em cerca de 10 minutos
    • Na veia da fossa antecubital, às 21h52: hemocultura; gasometria venosa com lactato, glicose, cálcio iônico e potássio; hemograma, creatinina, bilirrubina, transaminase e coagulograma
    • Ao fim do bolus, preencher a folha: frequência cardíaca, enchimento capilar, linha do frio, pulso radial, pressão, saturação, frequência respiratória, borda do fígado, ausculta e consciência
  4. 22h00 — Melhora parcial, segundo bolus e o antibiótico escolhido

    A gasometria volta às 22h00: lactato de 4,6 mmol/L (41 mg/dL), glicose de 72 mg/dL e cálcio iônico normal — nada de glicose nem de cálcio. Depois do primeiro bolus, a frequência cai para 162 e o enchimento para 3 segundos, e o fígado segue na marca: melhora parcial, sem sobrecarga, e o segundo bolus começa. O antibiótico é escolhido pela criança à frente: previamente saudável, vacinação em dia na caderneta, infecção comunitária de foco pulmonar — o guia de antimicrobianos do ILAS diz que cefalosporina de terceira geração pode bastar. A dose de 100 mg/kg/dia, em 50 mg/kg por dose, é a mesma que alcança as meninges, caso a punção lombar adiada venha a ser necessária.

    Prescrição
    • Segundo bolus: Ringer lactato 140 mL (10 mL/kg) pela intraóssea, das 22h00 às 22h07, com a folha preenchida ao fim
    • Preparar ceftriaxona 700 mg (50 mg/kg) diluída em soro fisiológico 0,9% a 20 mg/mL — 35 mL — para correr em 30 minutos pela veia do braço
    • Punção lombar adiada até a estabilização, registrada na folha como adiada e por quê
  5. 22h08 — Ceftriaxona correndo, e o bolus muda de soro

    Às 22h08 a ceftriaxona começa pela veia do braço, 28 minutos depois do reconhecimento. Enquanto ela corre, os bolus pela intraóssea passam a ser de soro fisiológico: o Ringer lactato tem cloreto de cálcio, e a bula da ceftriaxona proíbe administrá-la ao mesmo tempo que solução com cálcio, mesmo por acessos diferentes — em pacientes que não são recém-nascidos, as duas podem correr em sequência, com a linha bem lavada. Às 22h10, com 20 mL/kg, Otávia tem frequência de 158, enchimento de 3 segundos, frio até o tornozelo, pressão de 92 por 56 e fígado na marca: terceiro bolus. Às 22h20 a regulação liga de volta com vaga na UTI pediátrica de referência e aciona a ambulância de suporte avançado. Às 22h22, com a folha igual, sai o quarto bolus.

    Prescrição
    • Ceftriaxona 700 mg intravenosa, 35 mL em 30 minutos, das 22h08 às 22h38; próxima dose às 10h08 (100 mg/kg/dia, máximo de 4 g/dia)
    • Terceiro bolus: soro fisiológico 0,9% 140 mL (10 mL/kg) pela intraóssea às 22h10; quarto bolus: 140 mL às 22h22 — sem Ringer lactato enquanto a ceftriaxona corre
    • Volume acumulado anotado em mL/kg a cada bolus: 20, 30, 40
    • Preparar a epinefrina antes de precisar dela: 1 mg (1 mL da solução de 1 mg/mL) em soro fisiológico até 250 mL — 4 mcg/mL —, em bomba de infusão, identificada
    • Diurese pela fralda pesada, com hora
  6. 22h35 — 40 mL/kg e o fígado 1 centímetro abaixo da marca: o volume para aqui

    Ao fim do quarto bolus, a borda do fígado está 1 centímetro abaixo da marca de caneta, há estertores finos nas duas bases, a saturação caiu de 95% para 92% com a mesma máscara e a frequência respiratória subiu para 58. A perfusão ainda não normalizou: enchimento de 3 segundos, pés frios, frequência de 156, pressão de 88 por 50. São os sinais que a SSC 2026 e o ILAS mandam ler como sobrecarga, e o volume para; a hipoperfusão que persiste passa a ser tratada com droga. O perfil de Otávia — fria, de pulso fino e com o fígado que cresceu — é o que o ILAS chama de hipodinâmico, e a equipe escolhe epinefrina considerando o conjunto clínico e a resposta. Essa escolha não representa superioridade universal estabelecida pela SSC 2026 nem pode ser feita apenas pela temperatura da pele. Às 22h40, terminada a ceftriaxona e lavada a veia do braço, a epinefrina começa por ela.

    Prescrição
    • Suspender os bolus: nenhum volume adicional sem nova reavaliação médica
    • Epinefrina a 4 mcg/mL, 0,05 mcg/kg/min — 10,5 mL/h —, em bomba de infusão, pela veia da fossa antecubital, a partir das 22h40; intraóssea como via de reserva
    • Titular a cada 5 a 10 minutos pela perfusão, até 0,3 mcg/kg/min (63 mL/h), anotando dose e vazão a cada mudança
    • Vigiar a pele em volta da veia a cada 15 minutos: palidez, endurecimento ou dor são extravasamento e pedem troca imediata do acesso
    • Segundo lactato às 22h40, depois da intervenção inicial
  7. 22h55 — Epinefrina a 0,1 e a respiração que decide se intuba

    Às 22h55, cinco minutos depois de a epinefrina subir para 0,1 mcg/kg/min, Otávia tem enchimento de 2 segundos nas mãos, pés mornos até o tornozelo e frequência de 148; o segundo lactato, das 22h40, veio em 4,2 mmol/L. A saturação volta a 94% com a máscara e a frequência respiratória cai para 50, sem esforço crescente. A SSC 2026 não encontrou evidência para recomendar a intubação nem da criança em choque refratário a volume e catecolamina quando não há insuficiência respiratória, e Otávia nem está refratária nem em falência respiratória: não se intuba agora, e os critérios que mudariam isso ficam escritos. Se for preciso, intuba a pessoa mais experiente, com a epinefrina correndo e sem etomidato, contra o qual advertem a SSC 2026 e o protocolo do SAMU 192 na suspeita de choque séptico.

    Prescrição
    • Epinefrina a 0,1 mcg/kg/min — 21 mL/h —, mantida enquanto a perfusão segue boa
    • Critérios escritos para intubar: saturação abaixo de 90% com oxigênio máximo, esforço respiratório crescente com cansaço, rebaixamento da consciência que não melhora com a perfusão
    • Etomidato proibido na sequência de intubação desta criança
    • Soro de manutenção isotônico com glicose em volume restrito, com o volume da epinefrina e do antibiótico contado no balanço
    • Glicemia capilar de hora em hora; terceiro lactato às 23h45
  8. 23h50 — O papel que viaja com a criança, e a mãe que vai junto

    O terceiro lactato veio em 2,8 mmol/L (25 mg/dL); a frequência é de 138, o enchimento é de 2 segundos, a pressão é de 96 por 54 com epinefrina a 0,1, e houve 30 mL de urina na fralda desde as 22h — pouco mais de 1 mL/kg/h. O interno escreve a transferência como a própria folha: tudo com hora. A mãe vai na ambulância: o Estatuto da Criança e do Adolescente garante a permanência de um dos pais na internação da criança, e o protocolo do SAMU manda atentar para o direito dela a acompanhante. A intraóssea fica fixada como via de reserva para o transporte, com o horário da inserção escrito, porque é acesso de curto prazo.

    Prescrição
    • Resumo de transferência: peso de 14 kg; reconhecimento às 21h40; intraóssea na tíbia proximal esquerda às 21h48; hemocultura às 21h52; ceftriaxona 700 mg das 22h08 às 22h38
    • Bolus: Ringer lactato 140 mL às 21h50 e às 22h00; soro fisiológico 140 mL às 22h10 e às 22h22, enquanto a ceftriaxona corria — 40 mL/kg —, suspensos às 22h35 por fígado 1 cm abaixo da marca, estertores nas duas bases e queda da saturação
    • Epinefrina a 4 mcg/mL desde 22h40 a 0,05 mcg/kg/min e a 0,1 desde 22h50 (21 mL/h); lactatos de 4,6, 4,2 e 2,8 mmol/L; glicemias; cálcio iônico normal
    • Transporte com bomba de infusão com bateria, seringa de epinefrina de reserva na mesma concentração, monitor e oxigênio; intraóssea retirada pela equipe que recebe em até 24 horas da inserção
    • Mãe acompanhando na ambulância, com o nome e o telefone dela no resumo
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Como saber se está funcionando

Reavaliar a criança em choque é repetir, com hora marcada, as perguntas da chegada — está perfundindo? o volume ainda ajuda? a droga está fazendo efeito? — e escrever a resposta em números. Na primeira hora a reavaliação acompanha cada bolus; depois da estabilização, segue de hora em hora até a equipe que recebe assumir. Os alvos da primeira hora são os do protocolo pediátrico do ILAS, e o que fazer quando eles não chegam segue a SSC 2026.

Perfusão periférica: enchimento capilar, temperatura das extremidades e pulso radialAntes do primeiro bolus, ao fim de cada bolus e a cada quarto de hora enquanto dura a primeira hora; com a criança estável, uma vez por hora

Esperado: Enchimento capilar de até 2 segundos com a extremidade aquecida, mãos e pés mornos, pulso radial cheio como o femoral

Se não melhora: Sem sobrecarga e abaixo de 40 a 60 mL/kg: novo bolus de 10 a 20 mL/kg. Com sobrecarga, ou depois de 40 a 60 mL/kg: droga vasoativa por veia periférica ou intraóssea. Já com droga: titular e procurar o que ela não resolve — sangramento, pneumotórax, tamponamento, insuficiência adrenal, foco não drenado.

Frequência cardíacaContínua no monitor, anotada ao fim de cada bolus e a cada mudança de dose

Esperado: Queda progressiva a cada intervenção, sem precisar chegar ao normal da idade enquanto houver febre

Se não melhora: Frequência que não cai com volume pede de novo a pergunta sobre o tipo de choque; que sobe durante o bolus, com o fígado crescendo, é choque cardiogênico ou sepse com miocárdio deprimido; que cai de repente para bradicardia é compensação que acabou — via aérea, ventilação e o capítulo de parada.

Sobrecarga: borda do fígado, ausculta pulmonar, saturação e trabalho respiratórioAntes e depois de cada bolus, com a borda do fígado comparada à marca de caneta

Esperado: Fígado na marca, sem estertores novos, saturação estável com o mesmo oxigênio, frequência respiratória caindo

Se não melhora: Fígado abaixo da marca, estertores novos ou saturação caindo: parar o volume e passar à droga vasoativa. Depois da estabilidade hemodinâmica, a SSC 2026 considera razoável limitar o fluido e retirá-lo ativamente, com diurético ou terapia renal, vigiando a perfusão.

ConsciênciaAo fim de cada bolus e de hora em hora

Esperado: Criança que acompanha a mãe com o olhar, chora com vigor ao ser examinada e se consola no colo

Se não melhora: Sonolência que não melhora com a perfusão: glicemia na hora; pensar em meningite — a punção segue adiada e o antibiótico já cobre —, em hipoxemia e em hipercapnia; rebaixamento com esforço respiratório entra nos critérios de intubação.

DiureseFralda pesada antes e depois, com hora; de hora em hora depois da estabilização

Esperado: Mais de 1 mL/kg/h — em Otávia, mais de 14 mL por hora

Se não melhora: Oligúria com perfusão ruim é choque não resolvido. Oligúria com perfusão boa e fígado grande pede cuidado com mais volume e avaliação da função renal pela equipe que recebe.

LactatoNa chegada, depois da intervenção inicial — o volume da primeira hora e o antibiótico — e de novo até cair

Esperado: Queda progressiva — em Otávia, de 4,6 para 4,2 e depois 2,8 mmol/L

Se não melhora: Lactato persistentemente alto na repetição sugere ressuscitação incompleta ou foco não controlado: reexaminar a perfusão, o tipo de choque e o foco antes de dar mais volume por reflexo.

Pressão arterial e glicemiaPressão não invasiva a cada 15 minutos na primeira hora; glicemia capilar na chegada, 10 minutos depois de qualquer correção e de hora em hora

Esperado: Sistólica acima do mínimo da idade, com a pressão de pulso alargando à medida que a vasoconstrição cede; glicemia entre 60 e 180 mg/dL

Se não melhora: Sistólica abaixo do mínimo é descompensação: escalonar a droga, chamar ajuda e procurar causa obstrutiva ou sangramento. Glicemia abaixo de 60 mg/dL: glicose a 10%, 5 mL/kg, e infusão contínua de glicose se for preciso repetir.

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Onde o erro machuca

Descartar choque porque a pressão está normal

O dano: A criança fica na fila com enchimento lento, pé frio e pulso fino, compensando até não compensar mais; quando a pressão cai, a distância até a parada se conta em minutos.

Como pegar a tempo: Procure os sinais que mudam antes da pressão em toda criança com infecção, trauma, diarreia ou exposição que parece mal, e leia a sistólica pela régua do SAMU 192 como marca de descompensação, não de choque.

Dar bolus em série sem reexaminar o fígado e o pulmão entre um e outro

O dano: A criança séptica com miocárdio deprimido, ou a cardiopata, recebe 60 mL/kg por hábito e sai do pronto-socorro com edema pulmonar e uma intubação que não precisava ter acontecido.

Como pegar a tempo: Marque a borda do fígado com caneta antes do primeiro bolus, preencha a folha ao fim de cada um e pare o volume ao primeiro sinal de sobrecarga, como mandam a SSC 2026 e o ILAS.

Esperar o cateter central para começar a droga vasoativa

O dano: A criança passa uma hora ou mais hipoperfundida enquanto se procura quem passe o cateter, e iniciar a droga pela veia periférica, em vez de esperar, esteve associado a menor mortalidade.

Como pegar a tempo: Comece a epinefrina ou a norepinefrina diluída numa veia proximal — na dobra do cotovelo ou acima, nunca na mão — ou pela intraóssea, vigie o local a cada 15 minutos e deixe o cateter central para quando for possível.

Segurar o antibiótico até colher tudo, ou até fazer a punção lombar

O dano: O antibiótico da criança em choque sai depois da primeira hora porque faltou veia para a hemocultura ou porque a punção lombar esperava a criança ficar quieta.

Como pegar a tempo: Colha a hemocultura na primeira veia que der certo, dê o antibiótico pela intraóssea se nenhuma der, e adie a punção lombar da criança instável para depois da estabilização.

Correr ceftriaxona ao mesmo tempo que Ringer lactato

O dano: A ceftriaxona forma precipitado com cálcio, e o Ringer lactato contém cloreto de cálcio; a bula proíbe a administração simultânea com solução que contém cálcio mesmo por acessos diferentes, e no recém-nascido a associação é contraindicada.

Como pegar a tempo: Enquanto a ceftriaxona corre, faça os bolus com soro fisiológico, ou dê os dois em sequência com a linha bem lavada; no recém-nascido, não use ceftriaxona com solução que contém cálcio.

Intubar a criança em choque com etomidato, ou antes de o volume e a droga estarem correndo

O dano: A indução derruba a pressão de uma criança que só se mantinha pela vasoconstrição e pelo esforço respiratório, e a parada acontece durante a laringoscopia.

Como pegar a tempo: Intube só com indicação respiratória ou neurológica, pela pessoa mais experiente, com a droga vasoativa já correndo e sem etomidato, contra o qual advertem a SSC 2026 e o protocolo do SAMU 192.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo acontecem com a criança em risco e a família dentro da sala. Quem acompanha uma criança em choque vê gente correndo, agulha na perna e um soro atrás do outro, e cada gesto sem explicação vira pânico. Explicar não atrasa nada quando é feito em frases curtas, por uma pessoa da equipe designada para isso, enquanto as mãos dos outros seguem trabalhando.

O art. 12 do Estatuto da Criança e do Adolescente manda que os estabelecimentos de saúde, inclusive as unidades de terapia intensiva, garantam a permanência de um dos pais ou do responsável em tempo integral na internação da criança, e o protocolo do SAMU manda atentar para o direito dela a acompanhante. A mãe que fica ao lado da maca não atrapalha a ressuscitação: é ela quem conta a última urina, quem acalma a criança para o enchimento capilar ser medido e quem vai na ambulância.

Eugênia, na porta da sala de emergência, quando a equipe começa a correr

“Dona Eugênia, eu sou o interno que está cuidando da Otávia. Ela está com uma infecção forte, provavelmente no pulmão, e o corpo dela está economizando sangue nas mãos e nos pés para proteger o cérebro e o coração. A pressão ainda está boa porque ela está compensando, e é agora que a gente trata, antes de ela cansar. A senhora pode ficar aqui do lado dela; se eu pedir espaço por um minuto, é só um minuto.”

Não diga: “A pressão está normal, mãe, fica tranquila.” — tranquiliza pelo número que ainda não caiu e desautoriza a preocupação que trouxe a criança na hora certa.

Eugênia, ao ver a agulha entrando na perna da filha

“Essa agulha entra no osso da perna, que por dentro tem muitos vasos, e funciona como uma veia. As veias dela estão fechadas pelo choque, e a gente não pode perder tempo procurando: por aqui entram o soro e os remédios agora mesmo. Dói na hora de entrar e depois fica quieta; ela sai assim que houver uma veia boa, em menos de um dia.”

Não diga: “É um procedimento de rotina.” — não é rotina para a mãe, e a frase fecha a pergunta sem explicar por que a perna.

Eugênia, perguntando por que pararam o soro se a filha continua fria

“Ela já recebeu bastante soro, e o fígado e o pulmão começaram a avisar que não cabe mais — o fígado cresceu um dedo e o pulmão ficou mais molhado. Mais soro agora encharcaria o pulmão dela. Por isso a gente trocou por um remédio que ajuda o coração a bater mais forte e fecha o vaso, na veia do braço, na dose certa para os 14 quilos dela.”

Não diga: “Soro demais faz mal.” — sem dizer o que se viu e o que se fez no lugar, soa como se o tratamento tivesse parado.

O interno com a central de regulação, atualizando o pedido de vaga

“Criança de 3 anos, 14 quilos, choque séptico de foco pulmonar, reconhecido às 21h40. Recebeu 40 mL/kg de cristaloide até 22h35, suspenso por fígado 1 centímetro maior e estertores nas duas bases; epinefrina a 0,1 mcg/kg/min por veia periférica desde 22h50, com enchimento de 2 segundos. Ceftriaxona às 22h08, hemocultura colhida. Lactato de 4,6 caiu para 4,2; saturação de 94% em máscara com reservatório, sem intubação. Precisa de UTI pediátrica e de transporte com bomba de infusão.”

Não diga: “É uma criança grave, precisa de UTI com urgência.” — adjetivo não disputa vaga; números, horas e o que já foi feito, sim.

Eugênia, antes da ambulância, perguntando se a filha vai morrer

“A Otávia está grave, e é por isso que ela vai para a UTI. Agora ela está respondendo: as mãos esquentaram, o coração desacelerou e o exame que mede o sofrimento do corpo está baixando. As próximas horas ainda pedem muito cuidado, e quem vai decidir cada passo é a equipe de lá, que já sabe tudo o que foi feito aqui. A senhora vai junto com ela na ambulância.”

Não diga: “Não, ela vai ficar bem.” — é promessa que ninguém pode fazer; e “não sei”, sozinho, abandona a mãe sem o que já melhorou.

Dona Pascoalina, avó, com Paulinho no colo, perguntando por que o soro dele foi tão pouco

“O Paulinho está com o coração cansado, e o soro que ajuda quem perdeu líquido pesa num coração assim. Ele recebeu uma quantidade pequena e a respiração piorou, e isso nos mostrou o caminho. O que ajuda agora é um remédio que dá força ao coração, correndo devagar na veia, e o cardiologista infantil que a regulação está chamando.”

Não diga: “Ele está desidratado, precisa de mais soro.” — é o raciocínio que afunda o lactente com o coração doente, e a avó vai repeti-lo em casa na próxima vez.

Ludovico, 11 anos, assustado com as manchas roxas nas pernas, e o pai, seu Alcides

“Ludovico, essas manchas são de uma infecção que caiu no sangue, e a gente já começou o antibiótico que mata essa bactéria. Você vai sentir a gente mexendo em você o tempo todo, e eu vou te avisar antes de cada coisa. Seu Alcides, essa infecção pode passar para quem convive bem de perto com ele, e a equipe vai dizer hoje mesmo quem da família precisa tomar remédio para se proteger.”

Não diga: “Não é nada, é da febre.” — mente ao menino que está vendo a púrpura crescer e atrasa a quimioprofilaxia de quem mora com ele.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O que dispara o tratamento da criança séptica: a resposta inflamatória de 2005, o escore de Phoenix de 2024 ou a suspeita clínica

Sepse definida pela resposta inflamatória sistêmica com infecção, pelos critérios de 2005 — protocolo clínico pediátrico do ILAS, versão 3, fevereiro de 2019

O protocolo segue as definições do consenso internacional de 2005: sepse é a resposta inflamatória sistêmica — dois critérios ou mais, um deles temperatura ou leucócitos — com infecção suspeita ou confirmada, e sepse grave soma disfunção cardiovascular, respiratória ou de dois outros órgãos. Uma tabela de parâmetros por idade define taquicardia, taquipneia e leucócitos, e o protocolo se abre por esses critérios.

Instituto Latino Americano de Sepse. Campanha de Sobrevivência à Sepse — Protocolo clínico pediátrico, versão 3, revisão de fevereiro de 2019.

Sepse e choque séptico confirmados pelo escore de Phoenix — critérios de Phoenix (2024), na nota técnica do ILAS de maio de 2024

Sepse é disfunção orgânica com risco de vida na infecção suspeita ou confirmada, operacionalizada por 2 pontos ou mais no escore; choque séptico é a sepse com 1 ponto cardiovascular ou mais. A nota técnica adverte que os critérios não se destinam à triagem precoce e que os fluxos de tratamento do ILAS não mudam por causa deles.

Instituto Latino Americano de Sepse. Nota técnica referente às novas definições de sepse e choque séptico em pediatria — critérios de sepse de Phoenix, 9 de maio de 2024.

Tratar pela suspeita clínica, sem exigir definição formal — SSC 2026 (março de 2026) e fluxograma pediátrico do ILAS

A diretriz não exige os critérios de 2005 nem os de Phoenix, usa as expressões sepse provável e choque séptico suspeito, e justifica começar o antimicrobiano antes de a criança preencher Phoenix pela avaliação clínica e pela evolução prevista. O fluxograma do ILAS registra que a resposta inflamatória pode ajudar a pensar em infecção, mas não entrou nos novos critérios.

Weiss SL et al. Surviving Sepsis Campaign International Guidelines for the Management of Sepsis and Septic Shock in Children 2026. Intensive Care Med 2026;52:937-983; Instituto Latino Americano de Sepse, Fluxograma de tratamento do choque séptico em crianças.

Como decidir

Esta apostila adota a suspeita clínica como gatilho: a criança com infecção provável e sinais de hipoperfusão ou de disfunção orgânica entra no tratamento na hora, conte ou não critérios de resposta inflamatória, e o escore de Phoenix se calcula depois, para confirmar e registrar. Decide o degrau da data: os documentos de 2024 e 2026 — a nota técnica do próprio ILAS e a SSC 2026 — deixaram a resposta inflamatória fora da porta de entrada e dizem, os dois, que Phoenix não é triagem. Entre esses dois não há conflito, há cronologia: suspeita para começar, Phoenix para classificar. A definição de 2005 fica no texto porque ainda é a do protocolo de 2019 que muitos serviços imprimem — e sua tabela de taquicardia tem faixas que se sobrepõem, com 190 e 140 batimentos para a mesma criança de 2 anos.

Droga vasoativa antes do cateter central: veia periférica e intraóssea, ou só acesso central

A norepinefrina deveria correr somente em acesso venoso central — diretriz de ressuscitação da Sociedade Brasileira de Cardiologia, 2019

Na lista de drogas do suporte avançado pediátrico, a diretriz dá a norepinefrina de 0,1 a 2 mcg/kg/min por via intravenosa ou intraóssea, lembra que o extravasamento pode causar necrose e registra, nas precauções, que ela deveria ser administrada somente em acesso venoso central.

Sociedade Brasileira de Cardiologia. Atualização da Diretriz de Ressuscitação Cardiopulmonar e Cuidados Cardiovasculares de Emergência – 2019. Arq Bras Cardiol. 2019;113(3):449-663, item 12.5.5.

Começar por veia periférica em vez de atrasar pelo central — SSC 2026 (recomendação condicional), ILAS (protocolo de 2019 e fluxograma) e, para a intraóssea, SAMU 192 (2016)

A SSC 2026 sugere iniciar a droga vasoativa por veia periférica em vez de adiar até o acesso central, com base em estudos observacionais que associaram a via periférica a menor mortalidade e a extravasamento em 2,5%, mais comum em veia distal. O ILAS manda iniciar por via periférica até obter o central, em veia proximal à fossa antecubital, diluída e por curto período; e o protocolo pediátrico do SAMU 192 diz que toda medicação intravenosa pode ser dada pela intraóssea, inclusive infusão de epinefrina.

Weiss SL et al. SSC 2026. Intensive Care Med 2026;52:937-983, recomendação 32; ILAS, protocolo clínico pediátrico (2019) e fluxograma de choque séptico em crianças; Brasil, Ministério da Saúde, Protocolos do SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida (2016), APed 46.

Como decidir

Esta apostila adota o início por veia periférica proximal ou pela intraóssea, com a droga diluída e o local vigiado a cada 15 minutos, e o cateter central quando for possível, sem segurar a droga. Decide o degrau do escopo: a SSC 2026 e o ILAS foram escritos para a criança com choque séptico, e a frase da diretriz de 2019 é uma precaução numa lista geral de drogas de ressuscitação; o degrau da data confirma, 2026 contra 2019. Para a criança à frente, a pergunta não é se existe cateter central, e sim quanto tempo ela vai ficar hipoperfundida esperando por ele.

Hidrocortisona na criança com choque séptico que não sai com volume e catecolamina

Indicada no choque resistente a catecolaminas acima de 0,6 mcg/kg/min e/ou no risco de insuficiência adrenal — protocolo clínico pediátrico do ILAS, fevereiro de 2019

O protocolo indica hidrocortisona na criança com choque refratário a fluidos e resistente a epinefrina ou norepinefrina em doses acima de 0,6 mcg/kg/min, ou com risco de insuficiência adrenal — corticoide de uso crônico, doença hipofisária ou adrenal, púrpura fulminante —, por 5 a 7 dias ou até suspender o vasoativo, e reconhece que a indicação não tem grau de evidência.

Instituto Latino Americano de Sepse. Protocolo clínico pediátrico, versão 3, revisão de fevereiro de 2019, item Terapia com hidrocortisona.

Dose única de 1 a 2 mg/kg, até 100 mg, no transporte prolongado do choque séptico refratário a fluidos — Protocolos do SAMU 192, APed 17, 2016

Nas observações do protocolo de choque pediátrico, em transporte prolongado com evidência de choque séptico refratário a fluidos, considerar uma dose de hidrocortisona de 1 a 2 mg/kg por via intravenosa, em bolus, com máximo de 100 mg.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. APed 17 — Choque.

Contra quando volume e vasoativo estabilizam; sem recomendação no refratário; dose de estresse obrigatória na insuficiência adrenal suspeita — SSC 2026 (março de 2026) e fluxograma do ILAS

A SSC 2026 sugere não usar hidrocortisona na criança estabilizada com volume e droga vasoativa, pelo sinal de dano nos estudos observacionais pediátricos; considera razoável usar ou não usar na criança que segue instável; e manda dar dose de estresse, independentemente da hemodinâmica, na insuficiência adrenal suspeita ou documentada. O fluxograma do ILAS, no choque refratário a catecolaminas, indica a hidrocortisona se houver risco de insuficiência adrenal.

Weiss SL et al. SSC 2026. Intensive Care Med 2026;52:937-983, recomendações 40 e 41; Instituto Latino Americano de Sepse, Fluxograma de tratamento do choque séptico em crianças.

Como decidir

Esta apostila adota: hidrocortisona em dose de estresse, sem esperar refratariedade, na criança com risco ou suspeita de insuficiência adrenal — corticoide crônico, doença hipofisária ou adrenal conhecida, púrpura fulminante; na criança sem esse risco que segue instável com catecolamina, a hidrocortisona é permitida e a decisão é da equipe de terapia intensiva; na criança que estabiliza, não se dá. Decide o degrau da data — 2026 contra 2019 e 2016 — somado ao do escopo, porque a SSC foi escrita para a criança séptica e o APed 17 é um protocolo de choque em geral, para o transporte. O limiar de 0,6 mcg/kg/min do ILAS de 2019 e a dose única do SAMU saem da decisão, mas ficam no texto, porque quem trabalha com esses protocolos precisa reconhecê-los. Quando indicada, a dose é a da crise adrenal da criança, em Insuficiência adrenal e crise addisoniana.

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O raciocínio, em voz alta

Tarde de terça, 15h20, numa UPA de cidade do interior, com regulação para o hospital de referência a 60 quilômetros. Dona Pascoalina Brejinho chega com o neto, Paulinho Maranhão, 7 meses e 7,5 kg, que há uma semana teve coriza e febre baixa e, há dois dias, mama pouco, cansa no meio da mamada, sua na cabeça e vomitou duas vezes. Hoje está pálido e gemente, sem febre há três dias. Frequência cardíaca de 196, respiratória de 64, saturação de 93% em ar ambiente, pressão de 78 por 56, enchimento capilar de 3 segundos, pés frios, pulso radial fino, fígado a 4 centímetros do rebordo costal, estertores finos nas bases e um ritmo em galope. Glicemia capilar de 84 mg/dL. Na caderneta, o peso seguia no canal até o mês passado.

  1. o que eu reconheço antes de pedir qualquer coisa

    Choque compensado — enchimento lento, pé frio, pulso fino, taquicardia —, com a sistólica acima do mínimo de 70 dos lactentes. Mas o resto do exame não é de criança desidratada: sem febre, fígado de 4 centímetros, estertores, galope e taquipneia antes de qualquer soro. Um lactente que cansa e sua para mamar depois de um quadro viral, com fígado grande e galope, está em choque cardiogênico até prova em contrário, e a hipótese mais provável é miocardite.

  2. o que eu faço no primeiro minuto

    Oxigênio, monitor, oximetria, pressão a cada 15 minutos, peso e glicemia anotados, borda do fígado marcada com caneta e acesso venoso — intraóssea se duas tentativas falharem em 90 segundos. A regulação é acionada agora, com a hipótese escrita: lactente de 7 meses em choque de provável causa cardíaca, precisa de terapia intensiva e de cardiologista pediátrico.

  3. quanto volume eu dou, e por que tão pouco

    Pode haver algum componente de desidratação — ele vomitou e mama pouco —, mas o protocolo pediátrico do SAMU 192 manda, no choque cardiogênico, bolus menores: 5 a 10 mL/kg em 10 a 20 minutos, com o padrão respiratório vigiado. Às 15h35 começo 37 mL (5 mL/kg) de soro fisiológico em 15 minutos e fico ao lado dele, com a mão no fígado.

  4. o que o bolus me contou

    Ao fim dos 15 minutos, a frequência subiu para 204, a respiratória para 70, a saturação caiu para 90%, os estertores subiram até o meio dos campos e o fígado passou 1 centímetro da marca. O bolus que ajudaria um desidratado piorou o Paulinho: é a resposta que confirma o coração como o problema. Suspendo o volume.

  5. o que eu uso no lugar do volume

    A droga que ajuda é inotrópica. A diretriz de ressuscitação da Sociedade Brasileira de Cardiologia dá a dobutamina como útil no choque cardiogênico, de 2 a 20 mcg/kg/min, e a Rename 2024 tem cloridrato de dobutamina a 12,5 mg/mL. A 5 mcg/kg/min, para 7,5 kg, são 2,25 mg por hora; numa diluição de 1 mg/mL — 4 mL da solução de 12,5 mg/mL em soro até 50 mL —, 2,25 mL/h em bomba de infusão, pela veia periférica, a partir das 15h55. Se a sistólica cair abaixo de 70, entra a epinefrina: a 0,05 mcg/kg/min e 4 mcg/mL, 5,6 mL/h. A milrinona, citada pelas diretrizes para a disfunção miocárdica, não consta da Rename.

  6. o que eu não faço

    Não repito o bolus por causa do vômito, não dou diurético antes de a perfusão melhorar e não intubo por rotina: a indução pode derrubar a pressão de um coração que só se mantém pela vasoconstrição. Se a respiração cansar ou a saturação ficar abaixo de 90% com oxigênio máximo, intuba a pessoa mais experiente, com a droga correndo e a equipe preparada para parada.

  7. o que eu peço enquanto espero a vaga

    Eletrocardiograma, para afastar taquiarritmia; radiografia de tórax no leito, para o tamanho do coração e a congestão; gasometria com lactato, eletrólitos e cálcio iônico; e, se houver alguém treinado, ultrassom à beira do leito para ver se o ventrículo contrai. Nenhum desses exames atrasa a dobutamina.

  8. como eu sei que funcionou

    Às 16h25, com a dobutamina a 5 mcg/kg/min, a frequência caiu para 176, o enchimento voltou a 2 segundos, os pés esquentaram, a saturação é de 94% com oxigênio e o fígado parou de crescer, com a pressão em 80 por 52. Paulinho continua grave: saiu do choque com uma droga, e o diagnóstico ainda depende de ecocardiograma e de cardiologista.

  9. o que vai escrito para a transferência, e o que a avó leva

    Peso, hora do reconhecimento, o bolus de 5 mL/kg às 15h35 e a piora que ele produziu, a suspensão do volume, a dobutamina com concentração e vazão desde 15h55, os sinais antes e depois, a glicemia e os exames colhidos. Dona Pascoalina vai junto na ambulância e ouve, em palavras simples, por que o neto recebeu pouco soro — porque é ela quem vai contar essa história ao próximo médico que atender o Paulinho.

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Faça você

Domingo, 6h10, pronto-socorro de hospital geral com UTI pediátrica no andar de cima. Seu Alcides Montenegro traz o filho, Ludovico, 11 anos, 36 kg e 145 cm, que começou com febre alta e dor nas pernas às 22h de ontem e acordou com manchas roxas que crescem nas coxas e no tronco. Não usa medicação contínua. Na chegada: sonolento, frequência cardíaca de 150, pressão de 84 por 40, enchimento capilar de 5 segundos, pés frios e rendilhados, púrpura que conflui. Em 40 minutos recebeu 40 mL/kg de cristaloide em bolus de 10 mL/kg, ceftriaxona 1.800 mg com os bolus trocados para soro fisiológico enquanto ela corria, e epinefrina a 4 mcg/mL por veia do antebraço, hoje em 0,3 mcg/kg/min. Às 6h50: pressão de 80 por 38, enchimento de 4 segundos, lactato de 6,1 mmol/L, fígado a 3 centímetros — era 1 na chegada — e estertores nas bases.

  1. o que eu reconheço

    Choque séptico descompensado — sistólica abaixo de 90, o mínimo depois dos 10 anos — com púrpura fulminante, doença meningocócica até prova em contrário. Persiste depois de 40 mL/kg e de epinefrina a 0,3 mcg/kg/min: é choque séptico com hipoperfusão persistente, resistente à catecolamina na dose em que está.

  2. o que já foi feito, e se foi feito certo

    O antibiótico saiu dentro da primeira hora e não correu ao mesmo tempo que o Ringer lactato. O volume parou no momento certo: o fígado cresceu 2 centímetros e apareceram estertores, e mais soro agora é dano. A epinefrina começou por veia periférica sem esperar cateter — mas a 4 mcg/mL, 0,3 mcg/kg/min em 36 kg correm a 162 mL/h, mais de duas vezes a manutenção de 76 mL/h: a solução precisa ser concentrada pela padronização do serviço, e o cateter central, passado pela equipe da UTI.

  3. o que eu procuro antes de subir a droga

    O que a droga não resolve: pneumotórax (murmúrio simétrico), sangramento, glicemia e cálcio iônico baixos. E o que a púrpura fulminante acrescenta: o protocolo do ILAS inclui a púrpura fulminante e a síndrome de Waterhouse-Friderichsen entre as condições de risco de insuficiência adrenal.

  4. a segunda droga

    A diastólica de 38 com a epinefrina já alta pede um vasopressor: o protocolo pediátrico do ILAS, no choque hipodinâmico de pressão baixa já em adrenalina, manda acrescentar noradrenalina para normalizar a pressão — o quadro do protocolo condiciona a decisão também à saturação venosa central, que o cateter vai trazer. Norepinefrina a 0,1 mcg/kg/min, expressa em base, pela via que a equipe da UTI deixar, com a vazão somada ao balanço.

  5. a pergunta que falta

    Com risco adrenal claro e choque que não sai com catecolamina, o que se prescreve agora, em que dose para 36 kg e 145 cm, e o que fica com o capítulo dono da doença meningocócica?

Ver como fecharíamos

Hidrocortisona em dose de estresse agora: púrpura fulminante é risco de insuficiência adrenal, e a SSC 2026 manda dose de estresse na insuficiência adrenal suspeita independentemente da hemodinâmica — na criança com esse risco, não se espera refratariedade maior. Ludovico é escolar: ataque de 100 mg por via intravenosa (um frasco de succinato sódico de hidrocortisona de 100 mg, que a Rename 2024 tem) e manutenção pela superfície corporal — 36 kg e 145 cm dão 1,20 m² pela fórmula de Mosteller, e 60 a 100 mg/m²/dia são 72 a 120 mg/dia —, 25 mg de 6 em 6 horas, abaixo do teto de 200 mg/dia, pelo esquema da crise adrenal da criança em Insuficiência adrenal e crise addisoniana. A dose única de 1 a 2 mg/kg do SAMU 192 é regra de transporte prolongado e não substitui a manutenção. A ceftriaxona segue a 100 mg/kg/dia; o esquema completo da doença meningocócica, a quimioprofilaxia de quem mora com Ludovico e a notificação ficam com Meningites bacterianas e virais na infância. A transferência para a UTI do andar de cima leva o resumo com as horas, como qualquer outra.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A dose é 0,3 × 20 = 6 mcg/min, ou 360 mcg/h. Dividindo por 4 mcg/mL, obtêm-se 90 mL/h, acima dos 62,5 mL/h equivalentes à manutenção informada. Incluir esse volume no balanço e revisar fluidos e concentração conforme protocolo, acesso e segurança. Dobrar a concentração para 8 mcg/mL reduz a vazão a 45 mL/h, mantendo a mesma dose. Não interromper o vasoativo necessário para voltar indiscriminadamente a bolus. A via periférica pode permitir início oportuno enquanto se avalia necessidade de acesso central, com vigilância do sítio e padronização do preparo.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Simule uma criança com hipoperfusão e pressão normal. Justifique a hipótese pelo conjunto, confirme os recursos e proponha uma intervenção com reavaliação. Depois acrescente congestão ou desnutrição grave e explique por que o plano muda. Demonstre a conta e a inspeção do acesso de uma infusão vasoativa.

Em 30 dias

Reveja um atendimento de choque com linha do tempo: reconhecimento, suporte, culturas, antibiótico, volume acumulado, decisão de parar fluidos e início de vasoativo. Mostre a resposta clínica e o balanço total. Confira se a referência recebeu concentração, vazão, acessos e pendências, e se o mecanismo presumido permaneceu válido.

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Agora atenda

Agora atenda: pronto-socorro de um hospital sem UTI pediátrica, noite de sexta-feira. Uma mãe traz a filha de 3 anos com três dias de febre e tosse, hoje prostrada e gemente, com a pressão normal na triagem. Examine a perfusão sinal por sinal, calcule a sistólica mínima da idade, garanta o acesso, colha o que não atrasa, dê o antibiótico dentro da primeira hora, decida o volume em alíquotas e a hora de parar, comece a droga pela veia certa, explique à mãe o que está acontecendo e peça a vaga com números.

Choque na criança – Antes de a pressão cair — Internato | OsceLabs