PediatriaEmergências Pediátricas

O acidente tem idade

Acidentes na infância: prevenção, afogamento, queimadura e intoxicação exógena

Prevenir pelo que a criança acabou de aprender, atender a que engoliu, caiu, se afogou ou se queimou, e reconhecer a história que o desenvolvimento não sustenta

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania. 7ª edição, versão menino. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

Brasil. Conselho Nacional de Trânsito. Resolução Contran nº 819, de 17 de março de 2021. Dispõe sobre o transporte de crianças com idade inferior a dez anos que não tenham atingido 1,45 m de altura no dispositivo de retenção adequado.

Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Básico de Vida. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Protocolos BPed 27 (afogamento), BPed 28 (queimaduras térmicas), BTox 1 (intoxicações agudas: medidas gerais) e BTox 12 (descontaminação).

Brasil. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. 6ª ed. rev., volume 3. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Capítulos Acidentes por animais peçonhentos (medidas de prevenção) e Intoxicação exógena.

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

01

Responda antes de ler

Menina de 3 anos bebeu, há 30 minutos, um gole de desentupidor de pia à base de soda cáustica guardado numa garrafa de refrigerante. O pai deu leite e provocou vômito em casa. Ela está salivando e recusa água, sem estridor, sem dor abdominal e sem lesão visível na boca. Qual é a conduta mais adequada?

02

O paciente que você vai ver

Domingo, uma e quarenta da tarde, pronto-socorro infantil de um hospital municipal. Jussara Mangueira entra com a filha no colo e não corre. Catarina tem 1 ano e 10 meses, está corada, curiosa, e tenta arrancar o crachá da técnica de enfermagem que mede a temperatura. A queixa cabe numa frase e vem acompanhada de um pedido de desculpas por ocupar a fila: “Acho que ela engoliu uma coisinha”. A coisinha estava na chave do carro do cunhado, que caiu no chão da sala perto do meio-dia e meio, se abriu em duas partes e perdeu a pilha redonda e prateada que ninguém encontrou depois, nem embaixo do sofá.

A triagem faz o que a triagem sabe fazer com o que vê. Sinais vitais normais, saturação de 99%, nenhuma dificuldade para respirar, nenhuma dor referida, uma criança que ri e aponta para o aquário da sala de espera. Catarina recebe a cor de quem pode aguardar e fica atrás de um lactente com febre e de um menino em crise de asma. Nada na ficha está errado. O que está errado é que a ficha não tem campo para o objeto, e o objeto é o diagnóstico.

O interno que passa pela sala de espera ouve a palavra pilha e para. Pergunta à mãe de onde a pilha saiu, se era do tamanho de um botão de camisa ou de uma moeda pequena, e a que horas Catarina brincava com a chave. A resposta é a pior das três possíveis: pilha de controle de alarme, redonda e chata, perdida entre meio-dia e cinquenta e uma e cinco. A menina come biscoito sem engasgar. É exatamente esse o problema: a bateria de botão parada no esôfago não dá sinal nas primeiras horas, e o dano que ela faz não espera o sintoma aparecer.

Não é a única criança do domingo que chega pelo que acabou de aprender. Às duas e vinte entra Gael, de 10 meses, com um galo atrás da orelha: descobriu há um mês que consegue ficar de pé apoiado no sofá e, hoje, que consegue subir no braço dele. Às três e dez o SAMU traz Bernardo, de 2 anos e 4 meses, tirado de uma bacia de água de chuva no quintal pela tia. Às quatro menos dez chega Pietra, de 3 anos, que aprendeu a desenroscar tampa de garrafa e bebeu da garrafa de refrigerante onde o pai tinha diluído soda cáustica para desentupir a pia.

Quatro crianças, quatro mecanismos, e a mesma estrutura. Todas estavam em casa, perto do almoço, com adultos por perto. Todas fizeram uma coisa que um mês antes não sabiam fazer. E todas chegam com uma família que pede desculpas, repete que foi só um minuto e espera ouvir, do médico, se a culpa foi dela. O pronto-socorro recebe o acidente pronto; a consulta de puericultura, semanas antes, é que teria recebido a habilidade nova antes que ela encontrasse a pilha, o braço do sofá, a bacia e a garrafa.

O que o interno precisa fazer nesse domingo não é uma coisa só. Precisa tirar da fila a criança que parece bem e tem um relógio de horas correndo. Precisa decidir qual cabeça vai à tomografia e qual fica em observação, sem expor um bebê à radiação para nada e sem mandar para casa quem tem sinal de fratura de base. Precisa manter no hospital a criança que saiu da água e só tossiu. Precisa não repetir o gesto que a família já fez de boa-fé — o leite, o dedo na garganta — e que piora o que ela bebeu. E precisa, em cada uma, perguntar se a história cabe no que aquela criança já faz, porque a queimadura por imersão e a fratura de quem não anda também chegam contadas como acidente.

No fim do plantão, as quatro famílias vão embora com alguma orientação. A diferença entre orientação que muda a casa e orientação que só alivia o médico está numa frase: dizer à família qual é a próxima coisa que a criança vai aprender, e qual gesto deve chegar antes dela. É dessa frase, e do plantão que a antecede, que trata este capítulo.

03

Quem adoece disso

Acidente na infância não se distribui ao acaso: tem idade, tem lugar e tem hora. A Caderneta da Criança, na 7ª edição do Ministério da Saúde, organiza a prevenção inteira por faixas — do nascimento aos 6 meses, dos 6 meses aos 2 anos, dos 2 aos 4, dos 4 aos 6 e dos 6 aos 9 — e abre a seção com a ideia que sustenta este capítulo: à medida que a criança cresce, a curiosidade e o movimento aumentam o risco, e atitudes simples, com supervisão contínua de um adulto, impedem acidentes que matam ou deixam sequela. Cada faixa troca o acidente dominante porque troca o que a criança alcança.

O afogamento é o exemplo mais nítido. Segundo a diretriz de afogamento de 2017 da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático, ele é a segunda causa de óbito de 1 a 9 anos e a terceira de 10 a 19 no Brasil, com cerca de 6.000 mortes por ano e mais de 100 mil incidentes não fatais. O lugar muda com a idade: 51% das mortes de 1 a 9 anos acontecem em piscinas e residências, as crianças menores de 9 anos se afogam mais em piscina e em casa, e a partir dos 10 anos o afogamento passa para as águas naturais — rios, represas e praias. Entre 4 e 12 anos, a criança que sabe nadar se afoga mais pela sucção da bomba da piscina. E 44% dos afogamentos se concentram entre novembro e fevereiro.

Para a intoxicação, os documentos brasileiros que governam a conduta descrevem mais o perfil do que a série. A intoxicação exógena é de notificação compulsória, e o Guia de Vigilância em Saúde coloca a criança, ao lado da gestante, da lactante e do idoso, entre os grupos mais suscetíveis. O perfil da criança pequena é o do produto doméstico e do remédio da casa, ao alcance de quem abre armário e desenrosca tampa — e é por isso que a Caderneta põe produto de limpeza e medicamento no alto e trancados já na faixa dos 6 meses aos 2 anos. O manual de toxicologia clínica da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo chama a intoxicação por descongestionante nasal de imidazolina de intoxicação predominantemente da criança — incomum no adulto que usa o frasco, grave na criança que o chupa.

Com o corpo estranho engolido acontece o mesmo movimento, e o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2022 descreve a distribuição: crianças abaixo de cinco anos, discreta predominância de meninos, moedas em primeiro lugar, baterias em segundo, depois objetos perfurocortantes e ímãs. A maior parte desses objetos — 70 a 80% — passa sozinha pelo tubo digestivo; cerca de 20% precisam de retirada endoscópica e menos de 1%, de cirurgia. A distribuição engana quem a lê pela média, porque a gravidade se concentra num item: a bateria, presente em brinquedos, controles e eletrônicos, responde por esofagites cáusticas, estenoses, perfurações, mediastinites e fístulas para a traqueia e para grandes vasos quando não é retirada em até duas horas.

O trauma craniano segue a mesma lógica de idade. O guia prático da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre o tema chama o trauma cranioencefálico de problema de saúde pública sobretudo de 0 a 4 e de 15 a 19 anos, e lista as causas na ordem em que a infância as encontra: acidentes domésticos, quedas da própria altura na criança que começa a andar, acidentes automobilísticos, esporte no adolescente e violência. A coorte que derivou a regra PECARN mostra o outro lado do número: entre 42.412 crianças com Glasgow 14 ou 15 atendidas em 25 serviços norte-americanos, 35,3% fizeram tomografia, e só 0,9% tinham lesão cerebral clinicamente importante — morte, neurocirurgia, intubação por mais de 24 horas ou internação de duas noites ou mais. Neurocirurgia, 0,1%.

Os três números — a moeda que passa sozinha, a criança que saiu da água e só tossiu, o trauma craniano sem lesão — contam a mesma história epidemiológica, e ela é a razão de existir deste capítulo. O acidente comum na criança é benigno quase sempre, e o raro que mata se esconde dentro dele, com a mesma aparência. A tarefa não é tratar todos como graves, porque isso significa tomografia em um terço, internação de quem não precisa e endoscopia desnecessária; nem tratar todos como benignos, porque isso significa mandar para casa a bateria no esôfago e a fratura de base. A tarefa é achar o raro com uma regra — o duplo halo na radiografia, o degrau da regra de trauma craniano, o grau do afogamento, a observação de horas depois do descongestionante.

E há a outra metade do número, que não aparece em estatística de pronto-socorro: a violência que chega registrada como acidente. O protocolo pediátrico de queimaduras do SAMU 192 escreve com todas as letras que os maus-tratos serão informados pelos familiares como acidentes, e que o grau de suspeição de quem atende pode salvar a vida de uma criança. O capítulo de violência e maus-tratos desta apostila lembra o contrário com a mesma força: o acidente verdadeiro é o principal diferencial da violência e é frequentíssimo. Os dois erros existem, e a epidemiologia do acidente só é útil a quem sabe que parte dos casos que ela conta não é acidente.

04

Por que acontece o que acontece

O acidente da infância tem três ingredientes que se encontram num minuto: uma habilidade nova, um objeto ao alcance e um adulto que desviou os olhos. O primeiro ingrediente é o que a medicina controla menos e o que mais prevê. A Caderneta descreve a sequência sem nomear marcos: o bebê que ainda não se desloca cai do trocador e do sofá quando o deixam sozinho em cima deles; dos 6 meses aos 2 anos, a criança começa a se locomover sozinha e alcança tomada, balde, armário de pia e cabo de panela; dos 2 aos 4 é mais independente, mas ainda não percebe a situação de perigo; dos 4 aos 6 faz muitas coisas, pedala, sobe em laje e varanda, e ainda precisa de supervisão; a partir dos 6, quase independente, vai para a rua e para a pipa. Os marcos em si, com a idade de cada um e os sinais de atraso, são do capítulo Marcos do desenvolvimento neuropsicomotor e sinais de alerta por faixa etária, da apostila de Puericultura e Desenvolvimento; aqui interessa o que cada marco abre.

A bateria de botão machuca de um jeito que nenhum outro corpo estranho comum machuca. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria descreve três mecanismos somados quando ela para no esôfago: a compressão local, a descarga elétrica e a liberação de material alcalino. O resultado é uma queimadura de dentro para fora, que progride enquanto a bateria continua ali, por isso o prazo é de horas e não de dias. A lesão não termina com a retirada: o mesmo manual relata óbito por hemorragia digestiva, por fístula para grande vaso, até 27 dias depois da endoscopia. Na radiografia, a bateria se separa da moeda pela forma — duplo halo na incidência frontal e degrau no perfil — e é por isso que o filme precisa das duas incidências. Os ímãs fazem um dano diferente: dois ou mais, ou um ímã e um objeto metálico, se atraem através das paredes de alças diferentes e produzem fístula entre alças, perfuração, volvo e necrose, com o risco maior nos ímãs de neodímio.

O produto de limpeza lesa pela química do pH, e o manual de toxicologia clínica de São Paulo descreve os dois caminhos. Os ácidos, com pH abaixo de 3, produzem necrose de coagulação, uma escara que resseca a mucosa; os álcalis, com pH acima de 11 — a soda cáustica dos desentupidores, a amônia de limpadores —, produzem necrose de liquefação, dissolvem proteína, destroem colágeno e penetram fundo no tecido. Não existe dose tóxica, porque a lesão depende da concentração, do pH, da quantidade e do tempo de contato. E a boca não é espelho do esôfago: em até 22% dos casos com lesão esofágica não havia lesão oral descrita. Provocar o vômito faz o cáustico passar de novo pelo caminho que ele acabou de queimar, e é por isso que o protocolo do SAMU proíbe tanto o vômito induzido quanto qualquer líquido pela boca na contaminação digestiva.

O querosene, o removedor e a cera de chão — hidrocarbonetos — mudam o órgão em risco. A ingestão dá náusea e vômito e, às vezes, sonolência ou agitação; mas o que faz desses produtos um problema de pronto-socorro é a aspiração, que produz tosse ou engasgo imediatos e pode evoluir para pneumonite química, com taquipneia, roncos e hipoxemia. Aqui o vômito provocado é pior do que inútil, porque leva o produto do estômago para o pulmão; o manual de São Paulo não indica descontaminação, não tem antídoto e desaconselha corticoide e antibiótico profiláticos.

Os descongestionantes nasais e colírios de nafazolina, oximetazolina e tetrahidrozolina são imidazolinas, da mesma família da clonidina. O efeito que o adulto procura é a vasoconstrição da mucosa. O que a criança pequena recebe é outro: o agonismo alfa-2 central e o dos receptores imidazólicos produzem um efeito simpatolítico marcado, sobretudo abaixo dos 6 anos. Nos casos leves há palidez, suor, sonolência, desequilíbrio e às vezes taquicardia e agitação; nos graves, bradicardia, miose, hipotonia, hipotermia, depressão respiratória e coma, com a pressão alta no início, pelo estímulo alfa-1 periférico, ou baixa. A dose tóxica oral não está estabelecida; entre 3 e 6 anos, 1 a 2 mL por via oral podem causar reação grave, e abaixo de 3 anos 1 a 2 gotas, por qualquer via, podem intoxicar. O frasco do adulto vira veneno pela proporção entre o que ele contém e o tamanho de quem o chupa.

O afogamento da criança pequena é silencioso por fisiologia. A diretriz de 2017 descreve a luta na superfície: a criança resiste de 10 a 20 segundos antes de submergir, o adulto até 60, e como a respiração tem prioridade instintiva a vítima em geral não consegue gritar. A Caderneta diz a outra metade para a família: mesmo pouca água pode causar afogamento, e a lista de lugares inclui banheira, bacia, balde, tanque e cacimba. Quem aspira água pode não ter nada na saída e piorar horas depois, e é essa possibilidade de sintomas respiratórios tardios que leva o protocolo pediátrico do SAMU a mandar para o hospital toda criança vítima de submersão, mesmo assintomática. A classificação brasileira em seis graus, que a diretriz de 2017 aplica sem distinguir idade, está explicada no capítulo Emergências ambientais no adulto, da apostila de Medicina de Emergência; a reanimação da criança afogada é do capítulo Parada cardiorrespiratória na criança e obstrução de via aérea por corpo estranho (OVACE), desta apostila; o que muda na criança fora da reanimação — quem vai ao hospital, o que se observa, a casa — está neste capítulo.

A queimadura da criança pequena é, na maioria, escaldadura, e a forma da lesão guarda o mecanismo. A criança que puxa o cabo da panela, a toalha da mesa ou a garrafa térmica recebe o líquido de cima para baixo: a mancha começa na face ou no tórax, escorre, se afina e tem bordas irregulares, com respingos. A criança mergulhada em água quente recebe outra forma, que o protocolo pediátrico do SAMU descreve entre as lesões que indicam maus-tratos: limites bem definidos nas extremidades e nas nádegas, junto com marcas de ponta de cigarro, de ferro de passar, lesão de períneo e história conflitante com os achados. A profundidade e a superfície queimada, e a razão pela qual a regra do adulto erra na criança, são do capítulo Cálculo de superfície corporal queimada e classificação de profundidade, da apostila de Queimados. O protocolo do SAMU acrescenta o risco próprio da idade: resfriar uma queimadura extensa pode provocar hipotermia, sobretudo no paciente pediátrico.

O trauma craniano do lactente engana por um motivo que a própria coorte da regra PECARN usou para separar as idades: abaixo de 2 anos a criança é mais sensível à radiação, se comunica pouco e tem mecanismos e riscos diferentes. Sem a queixa de cefaleia e sem a amnésia que o escolar relata, o sinal que sobra é o comportamento, e é por isso que “não está agindo normalmente, segundo os pais” entra na regra do menor de 2 anos, ao lado do hematoma não frontal. A mesma lógica sustenta a pergunta que atravessa este capítulo inteiro: a lesão precisa caber no mecanismo contado, e o mecanismo precisa caber no que a criança já faz. O bebê que ainda não rola não cai sozinho do sofá; o que não anda não puxa a garrafa térmica. Quando a história pede uma habilidade que a criança não tem, o assunto passa a ser do capítulo Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória, desta apostila.

Cozinha simples vista do chão, da altura de uma criança pequena: cabo de panela para fora do fogão, porta do armário da pia entreaberta com frascos, balde com água no piso, tomada baixa sem protetor e garrafa térmica na beira da mesa sobre uma toalha com a ponta pendente.
Cena de discussão sobre riscos domésticos: cabo de panela projetado para fora, frascos acessíveis, balde com água, tomada exposta e garrafa térmica junto à borda sobre toalha pendente. Peça à família que identifique os perigos e reorganize o ambiente conforme as novas habilidades da criança.
05

Como se apresenta de verdade

O que vem a seguir é organizado pelo que a criança fez, e não por diagnóstico: cada seção é um jeito de chegar ao pronto-socorro depois de um encontro com a casa. Quase todas chegam com a criança bem, e a apresentação que importa é o relato — o que a família viu, o que ninguém viu e o que a história exige que a criança saiba fazer.

Este capítulo assume o que no nível não tinha dono: a prevenção de acidentes por idade, a criança que engoliu objeto ou produto — incluída a bateria de botão —, a decisão de tomografia depois de trauma craniano leve na criança, a criança que saiu da água fora da reanimação, o primeiro atendimento da criança queimada e a pergunta entre acidente e violência. E cede pelo nome: a superfície queimada e a profundidade ao capítulo Cálculo de superfície corporal queimada e classificação de profundidade, a reposição ao capítulo Reposição volêmica no grande queimado, a via aérea do queimado ao capítulo Lesão inalatória e manejo de via aérea no queimado e a transferência e o curativo ao capítulo Critérios de encaminhamento a centro de queimados e cuidado da ferida, todos da apostila de Queimados; a reanimação e o engasgo ao capítulo Parada cardiorrespiratória na criança e obstrução de via aérea por corpo estranho (OVACE), desta apostila; os antídotos e as doses pediátricas ao capítulo Intoxicações exógenas agudas e antídotos, da apostila de Toxicologia, e o soro dos peçonhentos ao capítulo Acidentes por animais peçonhentos, da mesma apostila; as síndromes tóxicas e a ficha de notificação ao capítulo Intoxicação exógena e o paciente encontrado inconsciente, da apostila de Síndromes do Paciente na Emergência; a mordedura de cão ao capítulo Raiva humana e profilaxia pós-exposição antirrábica e o ferimento ao capítulo Tétano: profilaxia em ferimentos, esquema vacinal e imunoglobulina, da apostila de Infectologia; o trauma craniano moderado e grave ao capítulo Trauma cranioencefálico, da apostila de Trauma; a notificação da violência e o Conselho Tutelar ao capítulo Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória, desta apostila. O ambiente do sono do lactente é de Síndrome da morte súbita do lactente: fatores de risco e prevenção, nesta apostila; as medidas de sufocação que a Caderneta lista aparecem na primeira seção abaixo só como lembrete. O atendimento da lesão elétrica na criança não é tema deste capítulo, que fica com a prevenção dela. E este capítulo recebe, com as palavras de quem cede: o manejo do acidente em si, a prevenção e a orientação à família, do capítulo Violência e maus-tratos infantis; a orientação de prevenção domiciliar quando se trata de criança, do capítulo Acidentes por animais peçonhentos; o manejo pediátrico da exposição acidental, do capítulo Intoxicação exógena e o paciente encontrado inconsciente. O afogamento e a hipotermia na criança, que o capítulo Emergências ambientais no adulto cede à Pediatria, se dividem entre dois capítulos desta apostila: a reanimação, e a hipotermia que a acompanha, ficam com o de parada cardiorrespiratória na criança, que as recolheu; a criança que saiu da água sem precisar de reanimação fica com este.

Cada idade se apresenta com o seu acidente — e a consulta que chega antes

A Caderneta da Criança escreve para a família, por faixa, o que muda em casa quando a criança muda. Do nascimento aos 6 meses, o risco é o que acontece com o bebê que ainda não se desloca: sufocação por talco e outros pós, por lençol solto, cobertor, almofada e travesseiro sobre o rosto, por cordão e enfeite de cabelo, por saco plástico e por peça pequena — clipe, botão, moeda, brinco, tampinha; queda do berço de grade larga (no máximo 6 cm entre as barras), de cima de móvel e quando o bebê fica aos cuidados de outra criança; queimadura pela água do banho, que ela recomenda a 37 °C, pelo leite ou alimento quente e pelo líquido quente ou cigarro de quem segura o bebê no colo; afogamento na banheira e na bacia; e o transporte no bebê-conforto, voltado para o vidro traseiro, no banco de trás.

Dos 6 meses aos 2 anos a criança passa a se deslocar, e a lista cresce para cima e para dentro dos armários: barreira na escada e rede ou grade na janela; tanque e pia bem presos, porque a criança se pendura neles; produto de limpeza e medicamento no alto e, se possível, trancados; nunca produto de limpeza ou inflamável, como querosene, em embalagem de bebida; veneno de rato, formiga, mosquito e mosca, álcool e removedor de esmalte fora de alcance; acesso restrito à cozinha, bocas de trás do fogão e cabos das panelas voltados para o centro; atenção ao forno, ao ferro de passar e ao aquecedor; protetor de tomada e fio elétrico fora do alcance. Dos 2 aos 4 anos entram o cão desconhecido, o que está comendo e o que tem filhote; o fogo, a fogueira e os fogos de artifício; segurar a criança pelo pulso na rua; supervisão contínua de um adulto perto de qualquer água — piscina, rio, lago, mar, balde, banheira ou bacia —, mesmo que ela saiba nadar; e a arma de fogo, sempre longe.

Dos 4 aos 6 anos, a conversa com a própria criança começa a funcionar, e a Caderneta pede que se expliquem as situações de perigo: equipamento de proteção na bicicleta, no patins e no skate; brincadeira em parque, ciclovia e praça; o lado de dentro da calçada, com o corpo do adulto entre a criança e os carros; nunca laje, varanda ou terraço sem grade. Dos 6 aos 9, quase independente, a criança solta pipa, e a regra é dupla: longe de fio elétrico, pelo risco de choque de alta tensão, e sem produto que deixe a linha cortante, que causa acidente grave na própria criança e em outras pessoas. Para a família que mora onde há escorpião, o Guia de Vigilância em Saúde de 2024 dá as medidas da casa: inspecionar roupa, calçado, toalha, roupa de cama, pano de chão e tapete antes de usar; afastar cama e berço da parede; não pendurar roupa fora do armário; não acumular lixo, entulho e material de construção junto à casa; vedar frestas e buracos de parede, assoalho, forro e rodapé; usar tela, vedante ou saco de areia em porta, janela e ralo; combater baratas, que alimentam escorpiões e aranhas. O capítulo Acidentes por animais peçonhentos, da apostila de Toxicologia, cede a este a prevenção domiciliar quando o picado é criança, e a recebe de volta quando há picada: soro, analgesia e observação são dele.

O que torna isso consulta, e não cartaz, é a antecipação. A lista inteira não cabe numa consulta e não muda nada lida de uma vez; o que muda a casa é a próxima faixa, dita antes de a criança chegar a ela e amarrada ao marco que a família já vê começar. O bebê que começa a rolar pede o fim do trocador sem a mão de um adulto em cima; o que começa a engatinhar pede protetor de tomada e armário de pia fechado; o que começa a andar pede balde e bacia vazios e virados, cabo de panela para dentro e toalha de mesa sem ponta pendente; o que começa a desenroscar tampa pede remédio trancado. É a mesma lógica que faz este capítulo encerrar cada atendimento com a pergunta sobre a próxima habilidade — e que faz da prevenção por idade uma conduta com prazo, como qualquer outra.

A criança que engoliu um objeto: o que a família viu, e o que ninguém viu

A ingestão presenciada chega com um objeto nomeado e uma hora; a não presenciada chega com um sintoma e sem história. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria descreve os sinais que sugerem o diagnóstico na criança menor ou quando ninguém viu: a criança que estava bem e passa, de repente, a ter dificuldade ou dor para engolir, salivação excessiva, recusa alimentar, vômito, saliva com sangue, vômito com sangue, dor atrás do esterno, no tórax ou no abdome. O objeto impactado no esôfago pode dar sinais de aspiração — tosse e febre — e passar por pneumonia.

A bateria de botão é a exceção que precisa ser ensinada, porque não segue a regra do sintoma: a criança que engoliu a pilha do controle pode chegar sem nada, como Catarina, e a lesão progride enquanto ela brinca. Por isso a pergunta não é se a criança tem sintoma, e sim o que ela pode ter engolido: se era redondo e metálico, de onde saiu — controle remoto, chave de carro, balança, termômetro digital, brinquedo com luz ou som —, se o compartimento da pilha ficou aberto e se falta mais de uma. Quando a família não sabe se era moeda ou pilha, a resposta vem da radiografia, e não da impressão de quem viu de longe.

Os ímãs se apresentam como nada até que sejam dois, ou um ímã e um objeto de metal. A história que importa é a do brinquedo de peças magnéticas que perdeu peças, ou dos enfeites de geladeira que sumiram. Moedas, as mais frequentes, dão sintoma quando param no esôfago. Objetos pontiagudos — palito, osso, alfinete, agulha, vidro — respondem por 10 a 13% das ingestões e se apresentam pela complicação que causam no caminho, da perfuração ao abscesso, com a região ileocecal como o lugar mais comum de perfuração.

O engasgo — o objeto que foi para a via aérea e não para o esôfago — é apresentação vizinha e tem dono: a criança que tosse, não fala, não chora ou fica cianótica depois de pôr algo na boca pertence ao capítulo Parada cardiorrespiratória na criança e obstrução de via aérea por corpo estranho (OVACE). A confusão tem custo nos dois sentidos: manobra de desobstrução em quem engoliu uma moeda e respira bem não resolve nada, e a radiografia de abdome de quem aspirou não mostra o objeto que está no brônquio.

A criança que bebeu um produto ou um remédio da casa

O protocolo de intoxicações do SAMU 192 dá dois caminhos de suspeita, que valem para o bebê, a criança e o adulto: a história, certa ou suspeita, de contato com um agente potencialmente tóxico por qualquer via; e o quadro inexplicado, de início súbito, com alteração do nível de consciência, convulsão, alteração hemodinâmica ou respiratória, sem causa claramente definida. Na criança pequena o segundo caminho é mais frequente do que parece, porque ninguém viu a boca no frasco — e a pergunta que o protocolo manda fazer sobre a casa é a que resolve: que produtos de limpeza, inseticidas, raticidas, plantas e medicamentos existem ali, inclusive os usados pelos outros moradores.

O cáustico se apresenta pela boca e pelo que vem depois dela. O manual de São Paulo lista dificuldade para engolir, dor na boca, salivação, vômito, vômito com sangue e dor retroesternal; a perfuração do esôfago ou do estômago vem com dor abdominal ou torácica intensa e sinais de irritação peritoneal; e a inalação de gás corrosivo, como cloro e amônia, dá rouquidão, estridor e edema pulmonar. A criança que chora, cospe e baba depois de beber de uma garrafa estranha, como Pietra, tem cáustico até que o produto seja conhecido, com ou sem lesão visível nos lábios.

O hidrocarboneto se apresenta pelo pulmão: tosse ou engasgo logo depois de engolir e, na evolução, respiração rápida e desconforto se a aspiração virar pneumonite química. A ingestão em si dá náusea e vômito e, em exposição significativa, agitação, confusão, desequilíbrio, cefaleia ou sonolência. A garrafa de querosene, de removedor ou de cera no chão da área de serviço é a história típica — a mesma que a Caderneta tenta evitar quando proíbe guardar produto em embalagem de bebida.

O medicamento se apresenta pela classe, e a classe se reconhece pela síndrome, que é assunto do capítulo Intoxicação exógena e o paciente encontrado inconsciente. Uma apresentação merece lugar aqui porque é da criança: a do descongestionante nasal de imidazolina. De 20 a 60 minutos depois da ingestão, ou mesmo do uso no nariz, a criança fica pálida, suada e sonolenta, às vezes agitada e com taquicardia nos casos leves; nos graves, a frequência cardíaca cai, as pupilas ficam pequenas, o tônus e a temperatura baixam, a pressão sobe ou desce, e a respiração pode deprimir até o coma. Uma criança sonolenta e fria, com bradicardia, sem febre e sem trauma, pede a pergunta sobre o frasco da mesa de cabeceira.

A criança que saiu da água

A criança chega de três jeitos. A que foi tirada da água e não tosse nem tem dificuldade para respirar é, na terminologia da diretriz de 2017, um resgate — não um afogamento, porque não houve aspiração. A que tosse, com ausculta normal, é grau 1. A que tem estertores na ausculta é grau 2, e daí a classificação sobe até a parada cardiorrespiratória, no grau 6, com os critérios de cada degrau e a conduta por grau no capítulo Emergências ambientais no adulto.

O que a criança tem de próprio começa antes da chegada. A luta na superfície dura de 10 a 20 segundos e é silenciosa, e é por isso que a família relata “foi só um minuto” e está dizendo a verdade: um minuto é tempo demais. O tempo de submersão quase nunca é conhecido, e o que a história oferece de mais confiável é o que a criança fez ao sair da água — chorou, tossiu, ficou mole, respirou sozinha ou precisou de ventilação.

O lugar entra na apresentação. Na criança menor de 9 anos a água é a de casa e a da piscina — balde, bacia, banheira, tanque, piscina de plástico —, e, sem queda nem mergulho, o trauma associado é improvável; o protocolo do SAMU pede que a cinemática seja considerada e a lesão de coluna cervical lembrada, não presumida, e ela pesa no mergulho em água rasa e na queda de altura. Na criança maior e no adolescente, a água passa a ser a de rio, represa e praia, e o álcool, que a diretriz lista entre os fatores de risco, entra na história do adolescente.

E há a criança que chega fria. Roupa molhada, vento e o tempo até o atendimento baixam a temperatura de quem tem pouca massa, e a hipotermia muda a reanimação e o tempo de insistir nela — assunto, de novo, do capítulo de parada cardiorrespiratória na criança, que registra que os esforços devem ser mais prolongados em hipotermia e em afogamento.

A criança que se queimou

A queimadura que a Caderneta tenta evitar na criança pequena é, sobretudo, a de líquido quente dentro de casa — panela, café, água do banho, leite ou alimento —, seguida da de contato — ferro de passar, forno, aquecedor —, da de chama — álcool, fogueira, fogos de artifício — e da elétrica — tomada, fio solto, pipa em rede de alta tensão. É essa a lista de riscos que ela distribui pelas faixas de idade, e é a lista que o pronto-socorro encontra.

A apresentação que decide o destino não é a dor, que é sempre muita, e sim três coisas que se veem na primeira olhada. A primeira é a via aérea: queimadura de face por líquido não é incêndio em ambiente fechado, mas cílios, sobrancelhas e pelos do nariz queimados mudam o atendimento, levam ao regulador e ao capítulo Lesão inalatória e manejo de via aérea no queimado. A segunda é a circunferência: queimadura que dá a volta no pescoço, no tórax ou num membro, que o protocolo pediátrico do SAMU manda informar imediatamente. A terceira é a extensão, que na criança passa do corte de transferência mais cedo do que o olho acostumado ao adulto imagina — o capítulo Critérios de encaminhamento a centro de queimados e cuidado da ferida usa, para a criança, segundo grau acima de 10% da superfície corporal.

Por fim, o padrão. A escaldadura por derramamento costuma descer, se afinar e deixar respingos, com bordas irregulares; a queimadura por imersão tem limites nítidos. O protocolo do SAMU descreve como sugestivas de maus-tratos a queimadura por líquido escaldante por imersão, com limites bem definidos nas extremidades e nas nádegas, as marcas de ponta de cigarro e de ferro de passar, a lesão de períneo e a história conflitante com os achados — e manda remover sempre ao hospital a criança com essa possibilidade, mesmo com queimadura de primeiro grau e pequena, registrando a suspeita e informando-a ao médico que recebe. A partir da suspeita, quem conduz é o capítulo Violência e maus-tratos infantis.

A criança que caiu, ou que bateu a cabeça

A queda muda com a idade: do trocador, da cama e do sofá no bebê que rola e se põe de pé; da escada e da janela na criança que anda; da laje, da varanda, da bicicleta e do skate na que pedala e escala. A pergunta sobre a altura não é curiosidade: a regra PECARN chama de mecanismo grave a queda de mais de 0,9 m no menor de 2 anos e de mais de 1,5 m a partir dos 2 anos, ao lado da colisão com ejeção, capotamento ou morte de outro passageiro, do pedestre ou ciclista sem capacete atingido por veículo motorizado e da cabeça atingida por objeto de alto impacto.

No trauma leve, 95 a 98% das crianças chegam com Glasgow 15, segundo o guia prático da Sociedade Brasileira de Pediatria, e o problema é justamente esse: com a criança lúcida, o que separa a lesão importante da ausência dela são sinais pequenos. No menor de 2 anos, a alteração do estado mental aparece como agitação, sonolência ou resposta lenta; o hematoma de couro cabeludo occipital, parietal ou temporal pesa, e o frontal não entra na regra; a perda de consciência conta a partir de 5 segundos; e os pais dizem se a criança está agindo como sempre. A partir dos 2 anos entram a perda de consciência de qualquer duração, o vômito, a cefaleia intensa e os sinais de fratura de base de crânio — equimose atrás da orelha, equimose ao redor dos olhos, sangue atrás da membrana timpânica e saída de líquor pelo ouvido ou pelo nariz.

Algumas crianças ficam fora dessa leitura desde a porta. A que tem Glasgow abaixo de 14 tem trauma moderado ou grave e vai para o capítulo Trauma cranioencefálico, da apostila de Trauma, depois do atendimento inicial do capítulo Atendimento inicial ao politraumatizado. A que tem distúrbio de coagulação, como a hemofilia, faz tomografia de crânio em regra, independentemente da gravidade, pelo guia da Sociedade Brasileira de Pediatria. A que tem derivação ventricular ou doença neurológica prévia que atrapalha o exame não foi estudada pela regra. Na outra ponta, a queda da própria altura ou o encontrão num móvel parado, sem sinal nenhum além de escoriação ou corte no couro cabeludo, é mecanismo trivial e ficou de fora da coorte.

E o bebê que ainda não anda com hematoma extenso, a queda da cama que não explica a lesão e a demora de horas para procurar atendimento pedem outra leitura, que o próprio capítulo de trauma cranioencefálico registra para o lactente e a criança pequena: quando o relato não dá conta do que se encontra no exame, maus-tratos entram na lista de hipóteses.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar um acidente é, antes de pedir exame, reconstruir o minuto em que ele aconteceu: o que, quanto, quando, de que altura, com que produto, quem viu. O exame vem para responder a uma pergunta que a história levantou — onde está o objeto, quem precisa de imagem de crânio, se o esôfago queimou — e quase nunca para descobrir o acidente.

Nas seis seções abaixo, cada exame está amarrado ao prazo que a conduta tem. Quem pede a radiografia da bateria depois de uma hora de fila, ou a endoscopia do cáustico no quinto dia, fez o exame certo na hora errada.

A radiografia do corpo estranho: duas incidências, do pescoço ao abdome

O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria pede radiografias cervical, de tórax e de abdome, em incidência frontal e em perfil, na suspeita de corpo estranho radiopaco: elas mostram o objeto em todo o tubo digestivo e podem mostrar sinais de perfuração e de mediastinite. Nas moedas e baterias o exame tem importância especial, porque a conduta é diferente e a imagem as separa — a bateria mostra o duplo halo na incidência frontal e o degrau no perfil. Uma incidência só tira do exame metade do que separa uma da outra.

O local na imagem decide o relógio. Bateria no esôfago é retirada em menos de duas horas; no estômago, com a criança sem sintoma, sai em retirada urgente que espera o jejum; abaixo do duodeno, é seguida por radiografia em 48 horas e em 10 a 14 dias. Moeda no esôfago sai em até 24 horas se a criança não tem sintoma; no estômago e sem sintoma, pode ficar em controle radiológico em 2 a 4 semanas. O manual manda repetir a radiografia imediatamente antes da endoscopia, para não levar ao exame a criança cujo objeto já passou.

A tomografia entra quando se suspeita de corpo estranho que não aparece na radiografia, quando há suspeita de complicação — perfuração, mediastinite, peritonite — e para ajudar no diagnóstico diferencial. A endoscopia digestiva alta é, ao mesmo tempo, diagnóstico e tratamento: mostra o objeto que a radiografia não mostrou, retira o que precisa sair e examina a mucosa depois da retirada, que é o que define o seguimento da criança com bateria. Perfuração de esôfago ou de intestino contraindica o exame.

Radiografia normal não encerra a investigação quando a criança continua com sintoma de esôfago: a persistência de sintomas esofágicos mesmo sem evidência radiológica de corpo estranho está entre as indicações de endoscopia de urgência do manual. E o objeto que não é radiopaco — plástico, madeira, alimento — não é descartado por um filme limpo.

O telefonema ao CIATox: o que ter na mão antes de discar

Na intoxicação, o exame mais útil nas primeiras horas é uma ligação bem feita. O protocolo do SAMU manda acionar o Centro de Informação e Assistência Toxicológica da região ou o Disque-Intoxicação, 0800 722 6001 — o mesmo número que a Caderneta da Criança dá à família —, passando tudo o que se sabe do agente e do quadro para decidir a conduta e o destino. A qualidade da resposta do CIATox depende do que se leva à ligação.

Antes de discar, tenha: o nome comercial do produto e o princípio ativo, lidos na embalagem que a família trouxe ou fotografou; a concentração, ou a diluição feita em casa; a quantidade máxima possível — quantos comprimidos faltam na cartela, quanto baixou no frasco —, porque a quantidade real quase nunca é conhecida e só a máxima protege; a hora da exposição e a do primeiro sintoma; o peso da criança; se foi acidental; se pode haver outra substância; os sinais vitais, a glicemia capilar e o que já foi feito, inclusive em casa. O campo do agente tóxico na ficha de notificação pede o nome comercial ou popular e o princípio ativo, e o capítulo Intoxicação exógena e o paciente encontrado inconsciente mostra como preenchê-lo.

A mesma ligação serve para o que não parece intoxicação clássica: a planta mordida, o produto de piscina, o cosmético, a pomada de adulto. E ela não substitui o que não pode esperar: via aérea, respiração, circulação, glicemia e convulsão se tratam antes, e a regulação é avisada na mesma hora.

O exame toxicológico de laboratório raramente muda a conduta da criança que chega ao pronto-socorro. No descongestionante nasal, por exemplo, o manual de São Paulo registra que o exame específico por cromatografia em camada delgada quase sempre é negativo, e que isso não afasta a intoxicação; o diagnóstico é clínico e epidemiológico — o frasco e o quadro.

Cáustico e hidrocarboneto: a endoscopia com a boca limpa, e o pulmão que se vigia

No cáustico, o manual de São Paulo pede avaliação endoscópica sempre que houver forte suspeita de ingestão, mesmo sem lesão na boca, porque em até 22% dos casos com lesão de esôfago não havia lesão oral descrita. É o exame que gradua a lesão, define o seguimento e dá o prognóstico, e o manual o quer precoce, idealmente dentro de um dia, feito com cuidado técnico — o aparelho avança olhando, insufla pouco e para diante de necrose franca ou de edema que fecha a luz.

Duas janelas governam o exame. Do 5º ao 15º dia depois da ingestão, a parede em cicatrização rompe com mais facilidade, e o manual recomenda não fazer o exame nessa janela. E a suspeita de perfuração — dor torácica ou abdominal intensa, sinais de irritação peritoneal — contraindica o exame. Hemograma, eletrólitos, glicose, gasometria e radiografias de tórax e de abdome completam a avaliação geral; não há exame específico para o diagnóstico.

No hidrocarboneto, o que se vigia é a respiração. A tosse ou o engasgo imediatos são o sinal de aspiração; a radiografia de tórax faz parte da avaliação, junto com eletrólitos, glicose, funções hepática e renal, gasometria e eletrocardiograma na exposição significativa; e a endoscopia fica para quem permanece sintomático ou tem suspeita de lesão corrosiva associada. Não há exame específico e não há antídoto.

Nenhum dos dois exames se decide antes do telefonema. A composição do produto define se o caso é de cáustico, de hidrocarboneto, dos dois — polidor de metal pode ter abrasivo, solvente e hidróxido de amônio — ou de nenhum, e a embalagem na mão do médico evita tanto a endoscopia desnecessária quanto a dispensada.

Quem precisa de tomografia depois da queda: a regra por idade

A regra PECARN foi derivada e validada em menores de 18 anos atendidos até 24 horas depois do trauma, com Glasgow 14 ou 15. Ela não diz quem tem lesão; diz quem tem risco tão baixo de lesão clinicamente importante que a tomografia pode ser dispensada, e organiza o resto em dois degraus. O primeiro passo é saber se a criança pertence à regra: Glasgow abaixo de 14, coagulopatia, derivação ventricular, trauma penetrante, tumor cerebral e doença neurológica prévia que atrapalhe o exame ficam fora.

No menor de 2 anos, a tomografia é recomendada quando há Glasgow 14 ou outro sinal de alteração do estado mental — agitação, sonolência, resposta verbal lenta — ou fratura palpável: esse grupo foi 13,9% das crianças e teve risco de 4,4%. Hematoma occipital, parietal ou temporal, perda de consciência de 5 segundos ou mais, mecanismo grave ou a criança que não age normalmente segundo os pais colocam a criança no degrau de observação ou tomografia: 32,6% das crianças, risco de 0,9%. Sem nenhum dos seis achados, a tomografia não é recomendada — 53,5% das crianças, risco abaixo de 0,02%.

A partir dos 2 anos, a tomografia é recomendada diante de Glasgow 14, alteração do estado mental ou sinais de fratura de base de crânio — 14,0% das crianças, risco de 4,3%. Perda de consciência, vômito, mecanismo grave ou cefaleia intensa levam ao degrau intermediário — 27,7%, risco de 0,9%. Sem nenhum, a tomografia não é recomendada — 58,3%, risco abaixo de 0,05%. Na validação, a regra do menor de 2 anos não deixou passar nenhuma das 25 crianças com lesão importante, a do maior deixou passar 2 de 63, e nenhuma das duas perdeu uma neurocirurgia.

O degrau do meio é onde mora a decisão, e a regra lista o que pesa nela: a experiência de quem examina, se o achado é isolado ou vem com outros, a piora durante a observação no pronto-socorro, a idade abaixo de 3 meses e a preferência dos pais. O artigo registra que achados isolados — perda de consciência, cefaleia ou vômito isolados, e certos hematomas em lactentes acima de 3 meses — têm risco substancialmente menor que 1%. Para a criança que fica em observação, este capítulo usa o tempo do guia prático da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2017: no mínimo 4 horas e no máximo 6 a 8. A lista de indicação de tomografia do mesmo guia, que não separa os degraus e omite os sinais de fratura de base, está discutida nas divergências e nas notas do critério.

A criança que saiu da água: o que se mede, e por quanto tempo

A avaliação da criança que chegou bem é clínica e repetida: frequência respiratória contada, ausculta dos dois hemitórax, saturação em ar ambiente, temperatura e estado de consciência, anotados com hora. É isso que separa o grau 1 do grau 2 — a tosse com ausculta normal dos estertores — e é isso que detecta o sintoma respiratório tardio que leva o protocolo pediátrico do SAMU a mandar a criança ao hospital.

Para decidir entre unidade intensiva, enfermaria, observação na emergência e alta, a diretriz de 2017 pede anamnese completa, antecedentes, exame físico detalhado e exames complementares, com radiografia de tórax e, principalmente, gasometria arterial; hemograma, eletrólitos, ureia e creatinina também são pedidos, embora raramente alterados. A mesma diretriz permite a alta do resgate e do grau 1 com boa oxigenação e sem doença associada, e recomenda hospitalização do grau 2 ao 6: na criança que evolui para estertores, a internação e os exames entram juntos.

Por quanto tempo observar é a pergunta que os documentos que governam este capítulo não respondem com um número. O protocolo do SAMU manda a criança ao hospital pelo sintoma que pode aparecer depois, sem fixar prazo; a diretriz de 2017 diz que o grau 2 se resolve com oxigênio em 6 a 24 horas, e não fixa a observação do resgate e do grau 1, que ela libera. O que se tira dos dois, e é leitura desta apostila, é uma observação de horas, com reavaliações repetidas, e alta quando ausculta, frequência respiratória e saturação ficaram normais em várias delas, com uma família orientada e capaz de voltar.

O que não se pede também faz parte da investigação: imobilização e imagem da coluna cervical quando não houve mergulho, queda nem trauma. A temperatura, ao contrário, se mede sempre na criança pequena molhada, que é quem a hipotermia alcança primeiro.

O exame que decide entre acidente e violência

O instrumento aqui é a entrevista, e a pergunta é concreta: o que a criança estava fazendo, onde, de que altura caiu ou o que puxou, quem estava perto, o que foi feito em seguida e quanto tempo passou até chegar. O capítulo Violência e maus-tratos infantis orienta ouvir cada responsável em separado, quando der — não para flagrar contradição, e sim porque quem viveu um acidente conta os mesmos detalhes todas as vezes, e quem monta uma versão não consegue.

A história é confrontada com três coisas. Com o desenvolvimento: o que a caderneta registra que a criança já faz, e os marcos do capítulo Marcos do desenvolvimento neuropsicomotor e sinais de alerta por faixa etária — a queda do sofá precisa de um bebê que já se desloca, a garrafa térmica puxada precisa de uma criança que alcança a mesa. Com o padrão da lesão: a escaldadura por derramamento contra a por imersão, a marca de objeto, a lesão de períneo. E com o tempo: a demora em procurar atendimento e as feridas em estágios diferentes de cicatrização, que a Caderneta ensina a própria família a reconhecer como sinal de violência.

Havendo discordância, a investigação continua dentro do capítulo de violência, que é o dono dos exames que procuram outras lesões, da avaliação dos irmãos, da notificação compulsória e da comunicação ao Conselho Tutelar. Aqui fica a regra que evita o erro mais caro nos dois sentidos: uma versão de acidente repetida pela família não exclui violência, e a suspeita não autoriza tratar como agressora uma família cujo relato fecha.

Acidente verdadeiro também tem uma investigação social que não é acusação: a supervisão que falhou por um minuto, o produto guardado na garrafa porque não havia outra embalagem, a piscina sem cerca. Nada disso é, por si, notificação de violência; é a matéria da orientação de alta. Quando se repete ou se soma a sinais de negligência, é assunto do capítulo de violência, que separa a insuficiência material da negligência.

07

Qual régua o Brasil usa em cada acidente, e onde ela é de sociedade, de município ou de fora

Cada decisão deste capítulo tem uma régua diferente, e nem todas são federais. A prevenção por idade, dita à família, é a da Caderneta da Criança, 7ª edição (Ministério da Saúde, 2024), e o transporte no carro é o da Resolução Contran nº 819, de 17 de março de 2021, em vigor desde 12 de abril de 2021 — sem alteração ou revogação localizada, e com uma consulta pública para alterá-la, em novembro de 2022, sem resolução resultante localizada. O corpo estranho engolido, inclusive a bateria de botão, tem como régua o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2022, documento de sociedade. Para cáustico, hidrocarboneto e descongestionante nasal, a régua usada é municipal — o Manual de Toxicologia Clínica da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, de 2017 —, e o protocolo federal que alcança esses casos é o do SAMU 192, de 2016, que governa o primeiro gesto, mas não a endoscopia nem o tempo de observação. A criança que saiu da água é governada pelo protocolo pediátrico do SAMU, e os graus pela diretriz de afogamento de 2017; nenhum dos dois fixa por quantas horas observar a criança que chegou bem. A decisão de tomografia depois de trauma craniano leve tem como documento técnico brasileiro de sociedade o guia prático da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2017, com um defeito que muda a conduta, e esta apostila adota a regra PECARN, de 2009. A prevenção domiciliar do escorpionismo é a do Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, de 2024.

  1. 1Criança acidentada: via aérea, respiração e circulação antes da história — o que ameaça a vida se trata primeiro.
  2. 2Engoliu objeto redondo e metálico, visto ou suspeito: radiografias em incidência frontal e perfil, do pescoço ao abdome, antes de qualquer espera.
  3. 3Bateria no esôfago: remoção emergencial, sem aguardar sintomas ou jejum eletivo. Acionar endoscopia/transferência imediatamente. Mel 10 mL a cada 10 minutos, até 6 doses, apenas se idade ≥12 meses, ingestão há no máximo 12 horas, deglutição preservada e ausência de suspeita de perfuração. Não atrasa remoção ou transferência e não exige ausência de endoscopista para ser considerado.
  4. 4Bebeu ou comeu produto: nada pela boca, não provocar vômito, embalagem na mão e ligação ao CIATox com nome, concentração, quantidade máxima, hora e peso.
  5. 5Cáustico com suspeita forte: endoscopia nas primeiras 24 horas, mesmo com a boca limpa; suspeita de perfuração contraindica o exame.
  6. 6Descongestionante nasal ou colírio de imidazolina: sem vômito, sem lavagem e sem carvão; observar pelo menos 6 horas mesmo sem sintoma.
  7. 7Saiu da água: hospital sempre, mesmo sem sintoma; ausculta, frequência respiratória e saturação repetidas; estertores são grau 2 e internação.
  8. 8Queimou: afastar do agente, resfriar com soro fisiológico em temperatura ambiente, cobrir com compressa seca e estéril, analgesia por peso; superfície e destino pela apostila de Queimados.
  9. 9Caiu com Glasgow 14 ou 15, até 24 horas: regra PECARN pela idade — tomografia recomendada, observação ou tomografia, ou nenhum exame.
  10. 10Em todos: a história cabe no que esta criança já faz? Se não, capítulo de violência; se sim, orientação de prevenção pela próxima habilidade e notificação do que for compulsório.

Transporte no carro pela Resolução Contran nº 819/2021, e o que aconselhar à família

DispositivoA norma permite pela idadeOu pelo peso e alturaO que aconselhar
Bebê-conforto ou conversívelAté 1 anoAté 13 kg, no limite máximo do fabricanteVoltado para trás, no banco traseiro; nunca voltado para trás no banco da frente com airbag; trocar só quando a criança passar do peso ou da altura máximos deste dispositivo
CadeirinhaAcima de 1 e até 4 anosDe 9 a 18 kg, no limite máximo do fabricanteManter até o teto do fabricante: 15 kg aos 2 anos não é motivo para o assento de elevação, embora a letra da norma permita
Assento de elevaçãoAcima de 4 e até 7 anos e meioAté 1,45 m e de 15 a 36 kgCom cinto de três pontos, no banco traseiro; cinto de dois pontos sem assento só no veículo que tem apenas esse cinto de fábrica
Cinto de segurança do veículoAcima de 7 anos e meio e até 10 anosAcima de 1,45 mBanco traseiro até os 10 anos ou 1,45 m; a Caderneta aconselha o banco da frente só depois dos 10 anos, conselho mais rígido que a norma e sem conflito com ela

Tomografia depois de trauma craniano com Glasgow 14 ou 15, até 24 horas: a regra PECARN por idade

DegrauMenor de 2 anos2 anos ou maisRisco de lesão importanteO que fazer
Tomografia recomendadaGlasgow 14 ou outro sinal de estado mental alterado; fratura palpávelGlasgow 14 ou estado mental alterado; sinais de fratura de base de crânio4,4% no menor de 2 anos; 4,3% a partir dos 2Tomografia de crânio
Observação ou tomografiaHematoma occipital, parietal ou temporal; perda de consciência de 5 s ou mais; mecanismo grave; não age normalmente segundo os paisPerda de consciência; vômito; mecanismo grave; cefaleia intensa0,9% nas duas idades; achados isolados, substancialmente menos de 1%Decidir por número de achados, piora na observação, idade abaixo de 3 meses, experiência de quem examina e preferência dos pais; observar de 4 a 6 ou 8 horas
Nenhum achadoNenhum dos seisNenhum dos seisAbaixo de 0,02% no menor de 2 anos; abaixo de 0,05% a partir dos 2Sem tomografia; orientar os sinais de retorno
Mecanismo graveQueda de mais de 0,9 mQueda de mais de 1,5 mEntra no degrau intermediárioTambém: colisão com ejeção, capotamento ou morte de passageiro; pedestre ou ciclista sem capacete atingido por veículo motorizado; objeto de alto impacto na cabeça
Fora da regraGlasgow abaixo de 14, coagulopatia, derivação ventricular, trauma penetrante, doença neurológica préviaOs mesmosNão se aplicaCoagulopatia: tomografia em regra, pelo guia da SBP; Glasgow abaixo de 14: capítulo Trauma cranioencefálico

Corpo estranho engolido: prazo de retirada pelo tipo e pelo lugar, segundo o manual da SBP de 2022

ObjetoNo esôfagoNo estômago ou duodenoAbaixo do duodeno
Bateria de botãoRetirada em menos de 2 horas, com ou sem sintomaSem sintoma: urgente, esperando o jejum; com sintoma e risco de impactação, ou com ímã junto: imediataRadiografia em 48 horas e em 10 a 14 dias; colonoscopia ou cirurgia se não progredir ou se surgir sintoma
MoedaCom sintoma: imediata (ver nota 2); sem sintoma: em até 24 horasCom sintoma: em até 24 horas; sem sintoma: radiografia em 2 a 4 semanas se continuar no estômagoExpectante
Dois ou mais ímãs, ou ímã com objeto metálicoRetirada urgenteRetirada urgenteObservação clínica e radiológica; cirurgia se não progredir
Um ímãRetirada urgenteRetirada urgenteAlta
Objeto pontiagudo ou cortanteRetirada endoscópica de emergênciaRetirada endoscópica de emergênciaHospital com radiografia diária; cirurgia se não progredir em 72 horas ou se surgir dor, vômito, febre ou sangramento
Objeto rombo, sem ponta nem corteRetirada em até 24 horasMais de 2,5 cm de diâmetro ou 6 cm de comprimento: retirada em até 24 horas; menor e sem sintoma: expectanteExpectante

Conversão das drogas e medidas do capítulo pelo peso de cada criança (apresentações conferidas na Rename 2024)

Droga ou medidaDose e tetoCriança do capítuloQuanto dar
Mel de abelha (alimento, fora da Rename)10 mL a cada 10 minutos, até 6 doses: idade ≥12 meses, ingestão ≤12 h, consegue engolir e sem suspeita de perfuração. Não atrasar remoção.Catarina, 1 ano e 10 meses, 12 kg10 mL por dose; no máximo 60 mL em 50 minutos
Sucralfato em suspensão de 1 g/10 mL10 mL a cada 10 minutos, até 3 doses (SBP, 2022)Alternativa ao mel no manualNão consta da Rename 2024: não conte com ele no SUS
Dipirona 500 mg/mL, solução oral (Rename, componente básico)10 a 12 mg/kg por dose; no produto de referência, 1 gota = 25 mg (SBP, 2021); sem passar da dose do adultoTeodoro, 1 ano e 5 meses, 10 kg100 a 120 mg: 4 gotas (100 mg, 10 mg/kg)
Dipirona 500 mg/mL, solução oral (Rename, componente básico)10 a 12 mg/kg por dose; 1 gota = 25 mg (SBP, 2021)Gael, 10 meses, 9 kg90 a 108 mg: 4 gotas (100 mg, 11,1 mg/kg)
Paracetamol 200 mg/mL, solução oral (Rename, componente básico)10 a 15 mg/kg por dose; máximo de 75 mg/kg/dia (SBP, 2021); sem passar da dose do adultoTeodoro, 10 kg150 mg = 0,75 mL por dose, em seringa; teto de 750 mg/dia = 3,75 mL
Sulfato de atropina 0,25 mg/mL, solução injetável (Rename, componente básico)0,02 mg/kg por via intravenosa, repetível a cada 5 minutos, só na bradicardia com instabilidade (manual de São Paulo, 2017)Alícia, 2 anos e 8 meses, 13 kg0,26 mg = 1,04 mL; na prática, 1 mL (0,25 mg)
Cloreto de sódio 0,9%, solução injetável (Rename, componente básico)10 a 20 mL/kg por via intravenosa na hipotensão (manual de São Paulo, 2017)Alícia, 13 kg130 a 260 mL
Carvão ativadoNão indicado na imidazolina (manual de São Paulo); indicação e dose nas outras intoxicações no capítulo Intoxicações exógenas agudas e antídotosNenhuma criança do capítulo recebeNão consta da Rename 2024: confirme a disponibilidade no hospital antes de precisar

Entrada rápida: o que fazer, evitar e encaminhar

MecanismoPrimeiras açõesEvitarDestino / ligação com a coleção
Suspeita de bateriaAvaliar ABC e localizar por imagem adequada; remover urgentemente se esofágicaEsperar sintomas; adiar por jejum; mel fora dos critériosEndoscopia e Cirurgia Pediátrica, com horários e imagem.
Outro objeto ingeridoIdentificar tipo, número, localização e sintomasTratar ímãs ou perfurantes como moeda simplesGastro/Cirurgia Pediátrica conforme risco e localização.
CáusticoABC, identificar produto, jejum e CIATox; avaliar endoscopiaVômito induzido, neutralização, tentativa cega de sondaReferência com suporte de via aérea e avaliação digestiva/cirúrgica.
Medicamento ou tóxicoMonitorização conforme quadro; produto, concentração, dose máxima e horárioDescontaminação automática ou antídoto sem indicaçãoCIATox e capítulo de intoxicações.
AfogamentoResgate seguro, avaliação respiratória, oxigenação/ventilação quando necessáriasManobras para “tirar água” que atrasem suporteObservação e destino pela clínica e protocolo; RCP quando indicada.
QueimaduraInterromper exposição, resfriamento apropriado sem hipotermia, cobrir e analgesiaGelo, substâncias caseiras, atrasar via aérea ameaçadaQueimados: extensão, localização e necessidade de centro especializado.
Trauma cranianoABCDE e exame neurológico; aplicar regra de decisão na população corretaUsar PECARN fora do contexto ou substituir reavaliação por escoreTrauma/Cirurgia: imagem, observação ou alta justificada.
Mecanismo incompatívelAtender lesões e avaliar segurançaAcusação sem avaliação; alta sem proteçãoViolência: documentação, notificação e plano seguro.

Nota 1 — Guia Prático de Atualização nº 1 da Sociedade Brasileira de Pediatria, Trauma Cranioencefálico (abril de 2017). O guia cita a coorte PECARN e transforma a regra dela numa lista única de indicação de tomografia no trauma leve, com dois defeitos que mudam a conduta. Primeiro, os sinais de fratura de base de crânio ficam fora da lista — embora o mesmo guia os cite entre os dados que influenciam a gravidade —, e na regra PECARN de 2 anos ou mais eles estão no degrau de tomografia recomendada, com risco de lesão importante de 4,3%. Conta: menino de 4 anos, Glasgow 15, hemotímpano, sem perda de consciência, sem vômito, queda de 1 m — pela PECARN, tomografia recomendada; pela lista do guia, nenhum item se aplica e resta só “a critério médico”. Segundo, a lista promove a indicação de tomografia os achados que na regra levam a observação ou tomografia, com risco de 0,9% no grupo e substancialmente menor que 1% quando isolados: hematoma occipital, parietal ou temporal, perda de consciência, mecanismo grave e criança que não age normalmente. A regra põe nesse degrau 32,6% das crianças menores de 2 anos e 27,7% das maiores, e a lista do guia não distingue idade — hematoma não frontal e comportamento são preditores só do menor de 2 anos, e a perda de consciência ali conta a partir de 5 segundos. Esta apostila adota a regra por degraus (divergência 3) e mantém do guia o tempo de observação.

Nota 2 — Manual Ingestão de Corpos Estranhos da Sociedade Brasileira de Pediatria (2022), Tabelas 1 e 3. A Tabela 1 põe em retirada imediata, em menos de 2 horas, só o corpo estranho que causa obstrução esofágica completa, com a criança sem conseguir engolir a saliva, e põe em urgente, em menos de 24 horas, a moeda no esôfago sem obstrução completa. A Tabela 3 manda retirada imediata para toda moeda sintomática no esôfago. Conta: criança com moeda no esôfago, dor ao engolir, engolindo a própria saliva — prazo de 2 horas por uma tabela e de 24 horas pela outra, uma janela 12 vezes maior decidida pela tabela que se abre. Esta apostila adota a Tabela 3, que é a específica do tipo de objeto e do sintoma, e dá o prazo menor.

Nota 3 — Resolução Contran nº 819/2021, Anexo. As quatro classes de dispositivo são definidas pela idade ou pelo peso e altura, e as faixas de peso se sobrepõem: o bebê-conforto vai até 13 kg e a cadeirinha começa em 9 kg, de modo que de 9 a 13 kg a criança pertence às duas; a cadeirinha vai até 18 kg e o assento de elevação começa em 15 kg, de modo que de 15 a 18 kg pertence às duas. Conta: uma criança de 2 anos com 15 kg está na cadeirinha pela idade — acima de 1 e até 4 anos — e no assento de elevação pelo peso — de 15 a 36 kg, com menos de 1,45 m —, e a letra da norma autoriza o assento de elevação dois anos antes da idade da classe. O mesmo anexo subordina os pesos ao limite máximo definido pelo fabricante de cada dispositivo, e é essa a leitura que esta apostila adota: a troca se decide pelo teto do dispositivo em uso, nunca pelo piso do seguinte.

A Rename descreve um elenco nacional e não confirma o estoque de cada hospital. Em ingestão de bateria, verificar disponibilidade local e orientação do centro toxicológico. Abaixo de 12 meses, não administrar mel; não improvisar outro alimento ou neutralizante. Medidas protetoras eventualmente indicadas pelo especialista não substituem a remoção urgente. Comunicar ausência de recurso e iniciar regulação imediatamente, sem supor que a lista nacional esgote todas as possibilidades do serviço.

08

A conduta, hora a hora

A prioridade depende da ameaça atual e do mecanismo, não da ordem de chegada. Bateria esofágica exige remoção emergencial, trauma exige estratificação e observação, e intoxicações exigem identificação do produto e vigilância dirigida. Em cada passagem, registre horário, medidas feitas e resposta. O quadro de entrada rápida organiza a primeira decisão e leva ao capítulo que detalha o procedimento ou tratamento definitivo.

Cada marco traz a prescrição por extenso, com dose por quilo e apresentação que existe na Rename. O que é de outro capítulo — a reanimação, a superfície queimada, o antídoto, a ficha de notificação — aparece como remissão pelo nome.

  1. 13h50 — Catarina na sala de espera: a pergunta que a tira da fila

    O interno confirma com Jussara: pilha redonda e chata, de controle de alarme de carro, perdida entre 12h50 e 13h05, com Catarina sozinha na sala nesse intervalo. Catarina tem 12 kg, respira sem esforço, engole a própria saliva, não baba, não tosse e acabou de comer um biscoito na sala de espera sem engasgar. Nada disso tranquiliza, e ele diz à plantonista em voz alta o que tem: bateria de botão possível, criança sem sintoma, ingestão há cerca de uma hora. Antes de o filme sair, confirma que o hospital não tem endoscopia pediátrica no domingo e liga para a regulação — o tempo de conseguir vaga corre junto com o da radiografia, e na bateria no esôfago não há margem para somar os dois em fila.

    Prescrição
    • Radiografias cervical, de tórax e de abdome, em incidência frontal e em perfil, agora, com a mãe acompanhando
    • Nada por via oral até o resultado
    • Contato imediato com a central de regulação para endoscopia digestiva alta pediátrica de urgência, antes do resultado do filme
  2. 14h05 — O filme: duplo halo no esôfago, e o mel que a regra permite

    Na incidência frontal, um disco radiopaco de borda dupla projeta-se na altura da transição cervicotorácica; no perfil, a borda tem degrau. É bateria, e está no esôfago: retirada em menos de duas horas. A regulação consegue vaga num hospital a 25 km, com endoscopista de sobreaviso. Enquanto a ambulância é chamada, a equipe confirma os critérios para mel: Catarina tem pelo menos 12 meses, ingeriu a bateria há menos de 12 horas, consegue engolir e não tem suspeita de perfuração. Oferece 10 mL a cada 10 minutos, até seis doses, sem atrasar a remoção. A medida não depende da ausência de endoscopista. O sucralfato que o manual oferece como alternativa não está na Rename, e o hospital não tem. A primeira dose sai às 14h10.

    Prescrição
    • Mel 10 mL a cada 10 minutos, até 6 doses, apenas se idade ≥12 meses, ingestão há no máximo 12 horas, deglutição preservada e ausência de suspeita de perfuração. Não atrasa remoção ou transferência e não exige ausência de endoscopista para ser considerado. No caso de Catarina, conferir esses critérios e registrar doses e horários enquanto a equipe organiza a remoção.
    • Nada além do mel por via oral
    • Transferência regulada para retirada endoscópica em menos de 2 horas, com a imagem enviada antes da criança
    • Se o horário for incerto e puder ultrapassar 12 horas, houver dificuldade para engolir ou suspeita de perfuração, não administrar mel; manter a urgência da remoção e discutir com a equipe especializada.
  3. 14h20 — Gael, 10 meses: a queda do sofá e a regra do menor de 2 anos

    Osmar Vital conta que Gael subiu no braço do sofá, a cerca de meio metro do chão, e caiu de lado no piso de cerâmica há 40 minutos; chorou na hora, não desmaiou e mamou depois. Gael tem 9 kg, fica de pé apoiado nos móveis há um mês, segundo o registro de marcos da caderneta, e sobe onde alcança: a queda cabe no que ele já faz. Está alerta, acompanha com o olhar, chora e se acalma no colo do pai; fontanela normotensa, sem fratura palpável, hematoma parietal direito de 3 cm, amolecido; Glasgow 15 e, nas palavras do pai, “do jeito dele”. Pela regra PECARN do menor de 2 anos: estado mental normal e sem fratura palpável, portanto fora do degrau de tomografia recomendada; um único achado do degrau intermediário, o hematoma parietal; queda de meio metro, abaixo de 0,9 m, sem mecanismo grave; sem perda de consciência; agindo normalmente. Achado isolado, criança acima de 3 meses: observação, com a tomografia à mão. Não há outra lesão na pele, e o pai chegou em 40 minutos com uma versão que se repete igual.

    Prescrição
    • Observação no pronto-socorro por 4 a 6 horas, com reavaliação do estado mental, do tônus, da fontanela e do comportamento a cada hora, anotada com hora
    • Tomografia de crânio se surgir sonolência difícil de despertar, vômito, irritabilidade que não cede no colo, abaulamento da fontanela, convulsão, ou se o pai disser que Gael não está agindo como sempre
    • Mamar livremente, no colo do pai
  4. 14h25 — Catarina sai: o que vai escrito na transferência

    A ambulância sai com Catarina e Jussara, duas doses de mel dadas e quatro por dar no caminho. A folha de transferência não diz “ingestão de corpo estranho”; diz o que o endoscopista precisa para não esperar: pilha de botão de controle de alarme de carro, não encontrada em casa; ingestão entre 12h50 e 13h05; radiografia das 14h05 com duplo halo no terço superior do esôfago; criança sem sintoma, 12 kg; biscoito às 13h45; mel desde 14h10; pedido de radiografia imediatamente antes da endoscopia, como manda o manual, para confirmar onde a bateria está. Catarina bem não é argumento para esperar, e a folha diz isso com essas palavras.

    Prescrição
    • Transferência em ambulância com a mãe, levando a imagem e o horário de cada dose de mel
    • Completar o mel no trajeto — doses às 14h30, 14h40, 14h50 e 15h00 —, se Catarina engolir sem engasgar
    • Registrar na folha: bateria no esôfago, retirada em menos de 2 horas, radiografia imediatamente antes da endoscopia
  5. 15h10 — Bernardo, 2 anos e 4 meses: a bacia do quintal

    O SAMU traz Bernardo com a tia, Neide. Ela o encontrou de bruços numa bacia de lavar roupa, cheia de água de chuva, no quintal, e não sabe há quanto tempo — “foi um minuto, eu fui atender o portão” —; ao ser levantado, ele tossiu, vomitou água e chorou. A equipe do SAMU o encontrou chorando, com ausculta limpa, e o trouxe porque o protocolo pediátrico manda trazer toda criança vítima de submersão, mesmo sem sintoma. No pronto-socorro: 13 kg, alerta, tosse de vez em quando, frequência respiratória de 30, ausculta sem estertores, saturação de 96% em ar ambiente, temperatura axilar de 35,8 °C com a roupa ainda molhada, sem sinal de trauma, sem queda nem mergulho. É grau 1: tosse com ausculta normal. A diretriz de afogamento de 2017 permitiria mandá-lo para casa; o protocolo do SAMU, escrito para a criança, o mantém no hospital, e é esse que esta apostila adota (divergência 2). Neide chora na cadeira ao lado. A falha de supervisão de um minuto é a regra dos acidentes, não a exceção, e não há na criança nem na história nada além dela.

    Prescrição
    • Retirar a roupa molhada, secar e cobrir com manta; temperatura axilar a cada hora
    • Oximetria contínua; frequência respiratória e ausculta dos dois hemitórax a cada hora, anotadas com hora
    • Sem colar cervical e sem imagem de coluna: não houve queda, mergulho nem trauma
    • Estertores, queda da saturação ou esforço respiratório mudam o grau: oxigênio, radiografia de tórax, gasometria e internação, com a conduta por grau no capítulo Emergências ambientais no adulto
  6. 15h50 — Pietra, 3 anos: a garrafa de refrigerante da área de serviço

    Delfino Bustamante tinha diluído soda cáustica numa garrafa de refrigerante para desentupir a pia e deixou a garrafa no chão da área de serviço. Às 15h20 Pietra bebeu, gritou e cuspiu. Ele deu um copo de leite “para cortar” e pôs o dedo na garganta dela, que vomitou uma vez. Pietra tem 14 kg, baba, recusa até água, chora ao engolir e tem uma mancha esbranquiçada no lábio inferior; não tem estridor, rouquidão nem dor à palpação do abdome, e os sinais vitais são normais para a idade. É ingestão de álcali com lesão na boca — e, se a boca estivesse limpa, a endoscopia continuaria indicada, porque o manual de São Paulo registra que em até 22% das lesões de esôfago não havia lesão oral. O que se faz na primeira hora é, sobretudo, não fazer: não repetir o vômito, não dar nenhum líquido, não tentar neutralizar.

    Prescrição
    • Nada por via oral: nem água, nem leite, nem qualquer outro líquido; não provocar vômito
    • Ligação ao CIATox (Disque-Intoxicação 0800 722 6001) com o nome e a marca do produto, a diluição feita em casa, a quantidade estimada, a hora (15h20), o peso (14 kg) e o que foi feito em casa
    • Acesso venoso e hidratação venosa de manutenção enquanto durar o jejum, com volume e solução pelo capítulo Diarreia e desidratação na criança, da apostila de Gastroenterologia Pediátrica
    • Endoscopia digestiva alta nas primeiras 24 horas; contraindicada se surgir dor torácica ou abdominal intensa ou sinal de irritação peritoneal
    • Notificação de intoxicação exógena, pela ficha do capítulo Intoxicação exógena e o paciente encontrado inconsciente
  7. 18h20 — Gael, quatro horas depois; Bernardo, três

    Gael mamou duas vezes, brincou, cochilou 30 minutos e acordou fácil quando a enfermeira tocou nele; não vomitou, o hematoma não cresceu, a fontanela segue normotensa e o pai diz que ele está igual a sempre. Quatro horas de observação, dentro do tempo do guia da Sociedade Brasileira de Pediatria, sem nenhum sinal que mude o degrau: alta. Bernardo está aquecido, com 36,6 °C, frequência respiratória de 26, ausculta limpa e saturação de 97% nas três últimas reavaliações. Os documentos não fixam quantas horas bastam; a equipe decide mantê-lo até o começo da noite porque a família mora a uma hora do hospital, sem carro, e voltar de madrugada com uma criança cansada seria mais difícil do que ficar. É decisão clínica, e vai escrita como tal.

    Prescrição
    • Gael: alta com orientação escrita de retorno imediato se houver vômito, sonolência difícil de despertar, choro que não acalma, recusa de mamar, convulsão, sangue ou líquido saindo pelo nariz ou pelo ouvido, ou se ele deixar de agir como sempre
    • Gael: dipirona 500 mg/mL, solução oral, 4 gotas (100 mg, 11 mg/kg) até de 6 em 6 horas, só se houver dor
    • Bernardo: oximetria e reavaliação horária até as 21h; alta só com ausculta, frequência respiratória e saturação normais em reavaliações seguidas, e família orientada a voltar se houver tosse que piora, respiração rápida ou cansada, febre ou sonolência
  8. 21h00 — O fim do plantão: o que voltou da endoscopia, e a prevenção que cada família leva

    Chega o retorno do hospital de referência. A radiografia das 15h20, feita antes do exame, mostrou a bateria no mesmo lugar; a endoscopia das 15h35 retirou uma bateria de lítio de 20 mm do terço superior do esôfago — uma hora e meia depois do diagnóstico e cerca de duas horas e meia depois da ingestão —, com lesão superficial de mucosa e sem sinal de perfuração. Pelo manual da Sociedade Brasileira de Pediatria, qualquer lesão pede esofagograma ou tomografia de tórax em 1 a 2 dias, e a lesão leve segue com dieta líquida progressiva, inibidor de bomba de prótons, alta sem sintoma e nova endoscopia em 3 a 4 semanas; a família é orientada a voltar se houver vômito com sangue ou fezes escuras, porque a fístula para grande vaso pode sangrar semanas depois. Pietra está internada, em jejum, notificada, com endoscopia marcada para a manhã, dentro das 24 horas. Bernardo vai para casa às 21h10. Antes de cada alta, o interno fez a mesma pergunta às famílias: o que esta criança vai aprender no próximo mês, e o que a casa precisa mudar antes disso.

    Prescrição
    • Registrar no prontuário de cada criança a orientação de prevenção dada pela idade: Catarina — compartimento de pilha fechado com parafuso ou fita, pilhas novas e usadas guardadas trancadas, chaves e controles fora do alcance; Gael — nunca sozinho em cima de sofá, cama ou trocador; Bernardo — bacia, balde e tanque vazios, virados ou tampados, e um adulto a um braço de distância perto de qualquer água; Pietra — produto de limpeza na embalagem original, no alto e trancado, nunca em garrafa de bebida
    • Catarina: seguimento pelo serviço de endoscopia — imagem do esôfago em 1 a 2 dias, endoscopia de controle em 3 a 4 semanas, retorno imediato se houver vômito com sangue ou fezes escuras
    • Pietra: notificação de intoxicação exógena no Sinan, com o produto no campo do agente tóxico
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Como saber se está funcionando

Reavaliar uma criança acidentada é repetir, com hora marcada, a pergunta que a trouxe: o dano que não aparecia apareceu? Cada acidente tem o seu sinal e o seu relógio, e a anotação com hora é o que transforma uma impressão de melhora num dado que outra pessoa do plantão pode usar.

Depois da retirada da bateria: sangue no vômito, nas fezes ou na saliva, febre, dor para engolirNos dias e semanas seguintes; o manual da SBP relata óbito por hemorragia até 27 dias depois da retirada

Esperado: Dieta líquida aceita e progredindo, sem dor, sem sangramento, sem febre

Se não melhora: Vômito com sangue é fístula para grande vaso até prova em contrário: cirurgia e cirurgia cardiovascular juntas; lesão com perfuração ou fístula pede dieta zero, antibiótico endovenoso e internação de pelo menos 21 dias, pelo manual

Depois da queda: estado mental e o “agir normalmente” para os paisA cada hora, nas 4 a 6 horas de observação

Esperado: Glasgow 15, criança que mama ou come, brinca, reconhece os pais e acorda fácil de um cochilo

Se não melhora: Sonolência, vômito, irritabilidade persistente, abaulamento de fontanela ou convulsão mudam o degrau: tomografia de crânio; Glasgow abaixo de 14 sai da regra e vai para o capítulo Trauma cranioencefálico

Depois da submersão: frequência respiratória, ausculta e saturaçãoA cada hora durante a observação, e sempre que a criança tossir mais ou parecer cansada

Esperado: Ausculta limpa, frequência respiratória e saturação normais em reavaliações seguidas

Se não melhora: Estertores são grau 2: oxigênio e hospitalização, com resolução esperada em 6 a 24 horas; piora além disso sobe para os graus 3 a 6, de unidade intensiva, com a conduta por grau no capítulo Emergências ambientais no adulto

Temperatura axilarNa chegada e a cada hora, depois da submersão e durante o resfriamento de queimadura

Esperado: Normotermia, sem tremor, com mãos e pés aquecidos

Se não melhora: Roupa seca e manta; na queimadura, interromper o resfriamento prolongado da área extensa — gelo e água gelada são contraindicados, e o resfriamento de área grande esfria a criança pequena

Depois do cáustico: salivação, dor ao engolir, voz, respiração, dor torácica ou abdominalA cada hora até a endoscopia

Esperado: Criança confortável, sem estridor, sem dor progressiva, com sinais vitais estáveis

Se não melhora: Estridor ou desconforto respiratório: via aérea primeiro; dor torácica ou abdominal intensa ou irritação peritoneal: suspeita de perfuração, que contraindica a endoscopia e pede radiografias de tórax e de abdome

Depois da imidazolina: frequência cardíaca, pressão arterial, consciência, temperatura e respiraçãoMonitorização contínua por pelo menos 6 horas, mesmo sem sintoma

Esperado: Sem sintoma em 6 horas: alta; com sintoma, melhora em 8 a 12 horas e resolução em até 24

Se não melhora: Bradicardia com instabilidade: atropina 0,02 mg/kg por via intravenosa, repetível a cada 5 minutos; hipotensão: soro fisiológico 10 a 20 mL/kg; depressão respiratória ou coma: via aérea e ventilação

Depois da queimadura: dor, perfusão distal e extensão real da lesãoTrinta minutos depois de cada dose de analgésico e a cada troca de compressa

Esperado: Dor controlada, perfusão distal preservada, bolhas íntegras, extensão igual à da primeira estimativa

Se não melhora: Dor que não cede com analgesia simples, lesão que se revela maior ou circunferencial: reavaliar superfície, destino e analgesia pelos capítulos da apostila de Queimados, e avisar a regulação

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Onde o erro machuca

Tratar a pilha redonda como moeda e esperar sair nas fezes

O dano: No esôfago, a bateria de botão lesa em horas: esofagite cáustica, estenose, perfuração, mediastinite, fístula para a traqueia ou para um grande vaso, com relato de morte por hemorragia semanas depois da retirada. A criança que chega brincando é justamente a que a fila empurra para o fim.

Como pegar a tempo: Toda ingestão de objeto redondo e metálico, vista ou suspeita, faz radiografia em incidência frontal e perfil do pescoço ao abdome antes de qualquer espera; procure o duplo halo e o degrau, pergunte de onde saiu o objeto e acione a regulação antes do resultado quando o hospital não tem endoscopia.

Mandar vomitar, dar leite ou água depois de produto de limpeza ou de querosene

O dano: O vômito faz o cáustico passar de novo pelo esôfago que ele acabou de queimar e leva o hidrocarboneto ao pulmão, onde ele produz pneumonite química; qualquer líquido pela boca é o que o protocolo do SAMU proíbe na contaminação digestiva.

Como pegar a tempo: Por telefone e na porta, a mesma frase: nada pela boca, não provocar vômito, trazer a embalagem; depois, ligar para o CIATox com o nome do produto, a quantidade máxima possível, a hora e o peso.

Liberar do local, ou da recepção, a criança que saiu da água e “está bem”

O dano: Os sintomas respiratórios podem aparecer horas depois; a criança que só tossiu pode voltar à noite com estertores e hipoxemia, longe de quem a viu de manhã e sem que ninguém tenha auscultado o pulmão dela duas vezes.

Como pegar a tempo: Toda criança vítima de submersão vai ao hospital e fica em observação com ausculta, frequência respiratória e saturação repetidas, mesmo classificada como resgate ou grau 1 — é o que o protocolo pediátrico do SAMU manda, e é o que esta apostila adota.

Pedir tomografia para toda criança que bateu a cabeça, ou dispensar a que tem sinal de fratura de base porque está lúcida

O dano: O primeiro erro expõe à radiação muitas crianças para achar quase nada, e o lactente é o mais sensível a ela; o segundo manda para casa uma criança do degrau de maior risco — hemotímpano e equimose atrás da orelha, com Glasgow 15, estão no degrau de tomografia recomendada a partir dos 2 anos.

Como pegar a tempo: Aplique a regra PECARN pela idade, degrau por degrau — tomografia recomendada, observação ou tomografia, nenhum exame — e lembre que a lista de indicação do guia prático da SBP de 2017 omite os sinais de fratura de base.

Aceitar a história sem confrontá-la com o que a criança já faz — ou acusar a família de um acidente verdadeiro

O dano: No primeiro caso, a criança volta para quem a queimou por imersão ou a machucou e contou que ela caiu; no segundo, uma família que chegou cedo, com a mesma versão repetida, aprende a não voltar ao pronto-socorro na próxima vez.

Como pegar a tempo: Pergunte o mecanismo em detalhe, confira com o desenvolvimento registrado na caderneta, olhe o padrão da lesão e o tempo até procurar atendimento; havendo discordância, siga o capítulo Violência e maus-tratos infantis, que é o dono da notificação e da comunicação ao Conselho Tutelar.

Encerrar o atendimento com “tomem cuidado com acidentes”

O dano: O conselho genérico não muda nada na casa; a família sai culpada e sem saber qual é o próximo risco — que é o da habilidade que a criança vai ganhar no mês seguinte, não o do acidente que acabou de acontecer.

Como pegar a tempo: Diga a próxima aquisição da criança e o gesto que precisa chegar antes dela: engatinhar pede protetor de tomada e produto no alto; andar pede balde virado e cabo de panela para dentro; desenroscar tampa pede remédio trancado; 15 kg aos 2 anos não pede assento de elevação.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo acontecem com uma família que se sente culpada, e a culpa atrapalha em duas direções: faz esconder o detalhe que decide a conduta — quanto tempo, quanto produto, de que altura — e faz ouvir a orientação como sentença. A fala que funciona separa o que aconteceu do que se faz agora, dá à família uma tarefa dentro do atendimento e transforma a prevenção em próximo passo, não em sermão.

Com a criança maior, a conversa é também com ela. A partir dos 4 anos a Caderneta pede que se explique à própria criança a situação de perigo, e aos 9 é ela quem decide onde solta a pipa.

Jussara, na porta, pedindo desculpa por “uma coisinha”

“A senhora fez certo em vir agora. Pilha redonda é a única coisa pequena que eu não posso esperar sair sozinha: se ela parou no caminho, machuca em poucas horas, mesmo com a Catarina brincando assim. Vou pedir um raio X já, e até o resultado ela não come nem bebe nada.”

Não diga: “Se ela está bem, deve ter passado.” — é a frase que atrasa a radiografia justamente da criança que não tem sintoma nenhum.

Osmar, pai de Gael, pedindo tomografia “para garantir”

“Entendo querer ter certeza. O que o Gael tem hoje — um galo atrás da cabeça depois de uma queda baixa, chorando na hora e agindo como sempre — coloca ele num grupo em que observar algumas horas, com o exame à mão, é uma escolha segura e poupa radiação num bebê. Se qualquer coisa mudar nessas horas, a tomografia está aqui e a gente faz. E o senhor faz parte da observação: se achar que ele não está normal, me chama na hora.”

Não diga: “Tomografia não precisa, isso não é nada.” — dispensa a preocupação do pai sem dar a ele o papel que a regra dá aos pais: dizer se a criança está agindo normalmente.

Neide, tia de Bernardo, repetindo que “foi só um minuto”

“Criança pequena afunda em segundos e sem gritar, e isso acontece em famílias cuidadosas. A senhora tirou ele da água e ele tossiu e chorou — isso foi o que importava. Ele vai ficar aqui algumas horas porque o pulmão pode dar sinal mais tarde, e a gente quer ver isso aqui, não em casa de madrugada. Em casa, depois, bacia e balde ficam vazios e virados para baixo.”

Não diga: “Onde a senhora estava?” — pergunta de acusação, que não muda a conduta e faz a família esconder o tempo real longe da criança, que é o dado que você precisa.

Delfino, pai de Pietra, contando que deu leite e fez a filha vomitar

“O senhor tentou ajudar, e agora eu preciso que ela fique sem nada pela boca, nem água. Vomitar faz o produto passar de novo pelo caminho que ele já machucou. Ela vai precisar de um exame por dentro, com uma câmera, até amanhã cedo, mesmo que a boca melhore, porque às vezes a lesão está só lá embaixo. Me diz a marca da soda e como o senhor diluiu, que eu vou ligar agora para o centro de toxicologia.”

Não diga: “Nunca se dá leite, o senhor piorou tudo.” — culpa que não desfaz o gesto e atrapalha a informação sobre o produto, que é o que decide a conduta.

Seu Aristides, avô de Teodoro, na sala de curativo — a conversa que confere a história

“Seu Aristides, me conta devagar, como se eu estivesse lá: onde estava a garrafa, onde o Teodoro estava, o que ele puxou e para que lado o café escorreu. Eu pergunto isso para todo mundo que chega com uma criança queimada, porque o desenho da queimadura tem que bater com o jeito que ela aconteceu — e, no caso dele, bate.”

Não diga: “Isso foi acidente mesmo?” — pergunta que acusa sem investigar; e, no extremo oposto, deixar de perguntar porque a família parece cuidadosa.

Uma mãe na alta perguntando se o filho de 2 anos e 15 kg já pode ir no assento de elevação

“A lei até deixa, pelo peso, mas quem manda é o limite da cadeirinha que ele usa hoje: está no manual e na etiqueta dela. Enquanto ele couber no peso e na altura máximos dessa cadeirinha, ele fica nela, no banco de trás. No assento de elevação, quem segura o corpo dele numa batida é o cinto do carro, e não o cinto da cadeirinha.”

Não diga: “Pode, a lei permite com 15 quilos.” — é verdade na letra da norma e errado para a criança que está no seu consultório.

Luan, 9 anos, irmão de um paciente, contando que vai soltar pipa na laje com linha com cerol

“Pipa é bom demais, e eu quero que você continue soltando. Três coisas, combinado? Longe dos fios da rua, porque se a linha encosta num fio de alta tensão o choque chega até você. Sem cerol, porque a linha cortante machuca feio você e quem passa. E laje sem grade não é lugar de soltar pipa: quem olha para cima não vê a borda.”

Não diga: Falar só com o adulto, por cima da cabeça dele — com 9 anos, quem decide onde e com que linha vai soltar a pipa é ele.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Bateria de botão no estômago de uma criança sem sintoma: retirar imediatamente ou em até 24 horas?

Retirada imediata no esôfago ou no estômago, e laxante se já passou — Manual de Toxicologia Clínica da SMS de São Paulo, 2017

No capítulo de saneantes domésticos, o manual manda remover imediatamente por endoscopia a bateria tipo disco localizada no esôfago ou no estômago, para prevenir perfuração, e, se ela estiver no intestino, dar laxante suave como óleo mineral e dieta rica em fibras, acompanhando a eliminação por radiografia. Não distingue idade, sintoma nem tamanho.

São Paulo (cidade), Secretaria Municipal da Saúde, COVISA. Manual de Toxicologia Clínica: orientações para assistência e vigilância das intoxicações agudas, 2017, capítulo Intoxicação por saneantes domésticos

Esôfago em menos de 2 horas; estômago sem sintoma em até 24 horas, esperando o jejum — Sociedade Brasileira de Pediatria, 2022 (adotada)

O manual pediátrico separa lugar e sintoma: no esôfago, remoção em menos de 2 horas, com ou sem sintoma; no estômago ou duodeno sem sintoma, remoção urgente que espera o jejum; com sintoma e risco de impactação, ou com ímã ingerido junto, remoção imediata. Abaixo do duodeno, radiografia em 48 horas e em 10 a 14 dias, com colonoscopia ou cirurgia se não progredir ou se surgir sintoma — sem laxante.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Gastroenterologia. Ingestão de Corpos Estranhos, 2022, Tabelas 1 e 3

Como decidir

Decide o degrau do escopo: o manual da SBP foi escrito para a criança que engoliu um corpo estranho, e o de São Paulo trata a bateria como um item dentro dos produtos domésticos, para qualquer idade — e o pediátrico é também o mais novo. Esta apostila adota a SBP. Para a criança à sua frente: bateria no esôfago tem relógio de 2 horas, e nada nisso muda com idade ou sintoma; bateria no estômago numa criança bem pede endoscopia urgente que cabe no jejum; se ela tem dor, vomita, recusa comer ou engoliu também um ímã, trate como imediata. Nos dois documentos a endoscopia é a regra no esôfago e no estômago — a diferença é de horas, não de indicação —, e o óleo mineral não entra na conduta pediátrica: abaixo do duodeno, o seguimento é radiológico.

Criança retirada da água que só tossiu: vai para casa ou para o hospital?

Resgate e grau 1 podem ser liberados sem cuidado hospitalar — diretriz de afogamento da Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático, 2017

A classificação brasileira manda avaliar e liberar do local, sem necessidade de cuidados médicos, quem saiu da água sem tosse nem dificuldade respiratória, e permite mandar para casa o grau 1 — tosse com ausculta normal —, desde que não haja comorbidade ou doença associada. Os cuidados hospitalares ficam indicados do grau 2 ao 6. A diretriz não faz distinção de idade.

Szpilman D. Diretriz de Ressuscitação 2017 — Afogamento. Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático

Toda criança vítima de submersão vai ao hospital, mesmo sem sintoma — protocolo pediátrico do SAMU 192, 2016 (adotada)

O protocolo de afogamento das emergências pediátricas determina que todos os pacientes pediátricos vítimas de submersão, mesmo assintomáticos, sejam transportados para o hospital, pela possibilidade de aparecimento tardio de sintomas respiratórios, e que a criança em parada seja levada porque receberá esforços de ressuscitação por período mais prolongado.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Básico de Vida, 2ª ed., 2016, protocolo BPed 27

Como decidir

Decide o degrau do escopo: o protocolo do SAMU foi escrito para a criança, e a diretriz de 2017 para o afogado de qualquer idade — por isso o documento mais antigo vence, e esta apostila adota o hospital. Não é cronologia: as duas regras falam do mesmo momento, a saída da água. Para a criança à sua frente, a classificação por grau continua útil para decidir o que se faz dentro do hospital — oxigênio e internação a partir do grau 2 —, mas não para decidir se ela entra. Nenhum dos dois documentos diz por quantas horas observar a criança que chegou bem: a alta é decisão clínica, depois de reavaliações seguidas com ausculta limpa e saturação normal, e com uma família que saiba quando voltar e consiga voltar.

Quem faz tomografia depois de uma queda com Glasgow 14 ou 15?

Lista única: tomografia diante de qualquer um dos achados — Guia Prático de Atualização nº 1 da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2017

O guia do Departamento Científico de Terapia Intensiva indica tomografia no trauma leve quando há alteração do estado mental, suspeita de fratura à palpação, hematoma subgaleal importante occipital, temporal ou parietal, perda de consciência, mecanismo de trauma grave, criança que não age normalmente na percepção dos pais, ou a critério médico. Não separa por idade nem por degrau de risco, e recomenda observação de no mínimo 4 e no máximo 6 a 8 horas.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Terapia Intensiva. Guia Prático de Atualização nº 1: Trauma Cranioencefálico, abril de 2017

Dois degraus por idade: tomografia recomendada, observação ou tomografia, nenhum exame — regra PECARN, Lancet, 2009 (adotada)

A regra derivada e validada em 42.412 crianças separa o menor de 2 anos do maior. A tomografia é recomendada diante de estado mental alterado e de fratura palpável, no menor, e de estado mental alterado e sinais de fratura de base, no maior — risco de lesão importante de 4,4% e de 4,3%. Hematoma não frontal, perda de consciência, mecanismo grave, não agir normalmente, vômito e cefaleia intensa levam a observar ou a fazer tomografia, pesando número de achados, piora, idade abaixo de 3 meses e preferência dos pais — risco de 0,9%. Sem nenhum achado, a tomografia não é recomendada.

Kuppermann N, Holmes JF, Dayan PS et al. Identification of children at very low risk of clinically-important brain injuries after head trauma: a prospective cohort study. Lancet. 2009;374(9696):1160-70

Como decidir

Pelo escopo, empate: os dois são para a criança com trauma leve. Pela data, o guia brasileiro é mais novo, e pela natureza nenhum dos dois é norma. O que decide é a coerência interna: o guia se apoia na regra que cita e deixa fora da sua lista de tomografia os sinais de fratura de base, que o próprio texto registra como dado de gravidade e que a regra coloca no degrau de maior risco; e transforma em indicação de tomografia os achados que a regra põe em observação. Esta apostila adota a regra por degraus — escolha desta apostila, que estende a um documento de sociedade o degrau da coerência, pensado para norma — e guarda do guia brasileiro o tempo de observação, que não conflita com ela. Para a criança à sua frente: sinal de fratura de base com Glasgow 15 faz tomografia; um achado isolado do degrau intermediário, numa criança que age normalmente, permite observar com o exame à mão; nenhum achado dispensa a imagem. O texto para famílias do Departamento Científico de Emergência Pediátrica da SBP, de outubro de 2025, vai na mesma direção: diz que a maioria dos traumas leves não precisa de exame de imagem e que a decisão segue regras clínicas validadas.

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O raciocínio, em voz alta

Quarta-feira, 19h10, unidade de pronto atendimento. Aristides Navarro, 67 anos, entra com o neto Teodoro, de 1 ano e 5 meses e 10 kg, enrolado numa toalha molhada. Há vinte minutos, na cozinha, Teodoro puxou a ponta pendente da toalha da mesa, e a garrafa térmica de café, destampada, virou sobre ele. O avô tirou a camiseta do menino e o pôs debaixo da torneira da pia. Teodoro chora alto. Tem vermelhidão e bolhas no queixo, no pescoço, na metade superior da face anterior do tórax e na face interna do braço direito, em faixas que descem do queixo em direção ao umbigo e se estreitam, com respingos em volta; as mãos estão poupadas. A mãe está a caminho. Pela caderneta, Teodoro anda desde os 13 meses.

  1. o que eu olho antes de perguntar qualquer coisa

    A via aérea e a respiração. Queimadura de face e pescoço por líquido derramado não é incêndio em ambiente fechado, mas eu olho o que o protocolo pediátrico do SAMU manda olhar: cílios, sobrancelhas e pelos do nariz. Estão íntegros, o choro é forte e limpo, não há estridor, e a saturação é de 99%. Se houvesse sinal de via aérea, o assunto passaria para o capítulo Lesão inalatória e manejo de via aérea no queimado, da apostila de Queimados, e a regulação seria avisada antes de qualquer outro passo. Frequência cardíaca de 152 com choro, enchimento capilar de 2 segundos.

  2. como resfrio sem esfriar a criança

    O avô fez o gesto certo, e fez logo: água corrente. Aqui continuo pelo protocolo do SAMU — soro fisiológico em temperatura ambiente sobre as áreas queimadas, sem gelo e sem água gelada, e depois compressa seca, estéril e não aderente. O resto do corpo fica seco e coberto, porque resfriar área extensa esfria a criança pequena, e meço a temperatura axilar. Não rompo as bolhas. Tiro a pulseira de contas do punho direito antes que o edema a transforme em garrote. Por quanto tempo resfriar é assunto com duas réguas — a do SAMU e a de uma revisão publicada na revista da Sociedade Brasileira de Queimaduras —, e a escolha entre elas está no capítulo Cálculo de superfície corporal queimada e classificação de profundidade.

  3. a dor, por peso, antes do resto

    Dez quilos. Dipirona em solução oral de 500 mg/mL, 10 a 12 mg/kg: 100 a 120 mg, que no produto de referência, com 25 mg por gota, dão 4 gotas — 100 mg, 10 mg/kg. A alternativa é paracetamol em solução oral de 200 mg/mL, 15 mg/kg: 150 mg, 0,75 mL medidos em seringa, sem passar de 75 mg/kg por dia, 750 mg. As duas apresentações estão no componente básico da Rename. Dou a dipirona e reavalio a dor em 30 minutos, pelo choro, pela expressão e por quanto ele aceita o colo.

  4. quanto queimou, sem a conta do adulto

    A estimativa da superfície na criança pequena é assunto do capítulo Cálculo de superfície corporal queimada e classificação de profundidade, que ensina por que a palma de quem examina e a regra dos nove do adulto erram num menino de 10 kg — na tabela da criança, a cabeça e o pescoço valem 18% e cada membro inferior 13,5%. Pela estimativa que aquele capítulo ensina, as áreas de segundo grau de Teodoro — queixo, pescoço, metade superior do tórax e face interna do braço — ficam em torno de 12%. É o número de que o destino precisa.

  5. a pergunta que eu faço a todo queimado pequeno

    A história cabe no desenho da lesão e no desenvolvimento? Teodoro anda há quatro meses e alcança a borda da mesa; puxar a ponta da toalha é o que uma criança dessa idade faz. O café desceu de cima para baixo: a lesão começa no queixo, se estreita em direção ao umbigo, tem bordas irregulares e respingos, e poupa as mãos. Não há limite bem definido em extremidades ou nádegas, marca de objeto, lesão de períneo nem feridas em estágios diferentes, e o avô chegou em vinte minutos com a mesma versão que repete à enfermeira. O protocolo do SAMU descreve o outro desenho — imersão com limites bem definidos em extremidades e nádegas, ponta de cigarro, ferro de passar, períneo, história conflitante —, e, se fosse esse o desenho, Teodoro seguiria pelo capítulo Violência e maus-tratos infantis.

  6. o destino

    A lista de transferência que o capítulo Critérios de encaminhamento a centro de queimados e cuidado da ferida usa põe na criança o corte de segundo grau acima de 10% da superfície corporal, e soma a ele as áreas nobres. Teodoro passa do corte: aciono a regulação para unidade de tratamento de queimados. A sonda vesical, o acesso e o volume — que na criança soma manutenção e reposição — seguem os capítulos da apostila de Queimados, e o volume é conferido com o centro que vai receber antes de começar.

  7. o que não esqueço enquanto a vaga não sai

    O cartão de vacinas: a queimadura é ferida, e a decisão sobre a profilaxia do tétano é do capítulo Tétano: profilaxia em ferimentos, esquema vacinal e imunoglobulina, da apostila de Infectologia, com a caderneta aberta na página das vacinas. A temperatura de novo. A dor de novo, 30 minutos depois da dipirona. E nenhuma pasta de dente, manteiga, café ou babosa, que o capítulo de superfície queimada lembra que contaminam, aderem e escondem a lesão.

  8. o que digo ao avô

    “Seu Aristides, o senhor fez a coisa mais importante, que foi pôr água logo. O Teodoro queimou uma área que, numa criança desse tamanho, precisa de um hospital com equipe de queimados, e eu já pedi a vaga. Ele vai sentir dor, e já tomou remédio para isso. Eu perguntei com detalhe como tudo aconteceu porque pergunto para toda família que chega com criança queimada — e o que o senhor contou bate com o que eu vejo.”

  9. o que vai escrito

    Hora do acidente e da chegada; o mecanismo nas palavras do avô; o desenho da lesão — de cima para baixo, bordas irregulares, respingos, mãos poupadas —; a compatibilidade com o que Teodoro já faz, citando a caderneta; a superfície estimada e o método; o resfriamento feito e com o quê; a dipirona com dose, via e hora; o cartão de vacinas visto; a regulação acionada, com hora e nome de quem atendeu.

  10. a prevenção que cabe nesta casa

    Não é um sermão sobre acidentes; são os gestos que a Caderneta lista para a criança que começa a se deslocar: acesso restrito à cozinha, bocas de trás do fogão com os cabos das panelas voltados para o centro, e nenhum líquido quente tomado com a criança no colo. E um que o próprio acidente ensinou: garrafa térmica longe da borda e toalha de mesa sem ponta ao alcance — a ponta pendente é a alça que a criança de um ano e meio encontra.

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Faça você

Sábado, 10h30, pronto-socorro infantil. Zenaide chega com a neta Alícia, de 2 anos e 8 meses e 13 kg, sonolenta no colo, e com o frasco na bolsa: descongestionante nasal de nafazolina 0,5 mg/mL, de 30 mL, que ela usa para o nariz entupido e deixou na mesa de cabeceira. Às 9h40 encontrou Alícia com o frasco aberto na boca; não sabe quanto faltava. Às 10h15 a menina ficou molinha, pálida e suada. No exame: sonolenta, acorda com estímulo e volta a dormir; frequência cardíaca de 72, pressão arterial de 104 × 62 mmHg, frequência respiratória de 20, saturação de 96% em ar ambiente, temperatura axilar de 35,6 °C, pupilas mióticas, glicemia capilar de 98 mg/dL.

  1. o que eu reconheço

    Sonolência, palidez, suor, bradicardia para a idade, miose e temperatura baixa, começando 35 minutos depois de uma boca num frasco de descongestionante nasal: o quadro das imidazolinas, que o manual de toxicologia clínica de São Paulo chama de intoxicação predominantemente da criança e descreve como possível com 1 a 2 gotas abaixo dos 3 anos. Bradicardia, miose e hipotermia estão na lista dos casos graves. A glicemia normal afasta o diferencial que eu não posso perder.

  2. o que eu não faço

    Não provoco vômito, não passo sonda e não dou carvão ativado: a absorção é rápida, a criança fica letárgica depressa, e o manual não indica esvaziamento gástrico nem carvão para essa classe. Complete: o que faço com a sonolência e com a temperatura, sem remédio nenhum?

  3. o telefonema

    Ligo para o CIATox. Complete: o que eu preciso ter na mão antes de discar?

  4. a bradicardia

    Complete: em que situação a atropina entra, em que dose para 13 kg, e quanto isso dá em mililitros da ampola que existe na Rename? E o que entra se a pressão cair?

  5. o destino, a alta e o que se notifica

    Complete: por quanto tempo Alícia fica em observação, o que decide a alta, o que se notifica — e o que se diz à avó antes de ir embora.

Ver como fecharíamos

Sem remédio: aquecimento, com roupa seca e manta, e estimulação cutânea leve para mantê-la acordada — o manual registra que isso em geral melhora a bradicardia e o nível de consciência —, oxigênio suplementar, monitor de frequência cardíaca, pressão, respiração e temperatura, e acesso venoso. No telefonema ao CIATox: nome comercial e princípio ativo (nafazolina 0,5 mg/mL), volume do frasco e a quantidade máxima que pode ter faltado, hora da exposição (9h40) e do primeiro sintoma (10h15), peso (13 kg), sinais vitais, glicemia e o que já foi feito. Atropina só se a bradicardia vier com instabilidade hemodinâmica: 0,02 mg/kg por via intravenosa, que para 13 kg são 0,26 mg — na ampola de 0,25 mg/mL da Rename, 1,04 mL, na prática 1 mL —, repetível a cada 5 minutos. Hipotensão: soro fisiológico 10 a 20 mL/kg, de 130 a 260 mL. Depressão respiratória ou coma: via aérea e ventilação. Destino: observação monitorizada até ficar sem sintoma — o manual descreve melhora em geral em 8 a 12 horas e resolução em até 24 —; a criança que tivesse chupado o frasco sem apresentar sintoma nenhum ficaria no mínimo 6 horas antes da alta. Notificação de intoxicação exógena, com o produto no campo do agente tóxico, pela ficha do capítulo Intoxicação exógena e o paciente encontrado inconsciente. E a conversa de alta: imidazolinas são contraindicadas abaixo de 6 anos e a nafazolina abaixo de 12, segundo o mesmo manual; a nafazolina não está na Rename, e o que o SUS oferece para o nariz entupido é o soro fisiológico nasal, que está; remédio de adulto fica no alto e trancado, inclusive o da bolsa e o da mesa de cabeceira.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Na ingestão de cáustico, a descontaminação gastrintestinal é contraindicada, não há antídoto, e o protocolo do SAMU proíbe induzir vômito e dar qualquer líquido por via oral. O manual de toxicologia clínica de São Paulo indica endoscopia sempre que houver forte suspeita de ingestão, mesmo sem lesão oral — em até 22% das lesões de esôfago não havia lesão na boca —, de preferência nas primeiras 24 horas, e recomenda não fazê-la do 5º ao 15º dia, quando a parede em cicatrização rompe com mais facilidade.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Use o quadro de entrada para bateria, cáustico, submersão e queda. Em cada cenário, demonstre a primeira avaliação, uma ação contraindicada e a condição que muda o destino. Confira os critérios completos antes de oferecer mel e aplique PECARN apenas à população apropriada, mantendo reavaliação clínica.

Em 30 dias

Na consulta, relacione a próxima habilidade da criança a duas mudanças possíveis no ambiente: acesso a água, produtos, medicamentos, objetos pequenos, altura ou transporte. Após um acidente, confira se os responsáveis compreenderam sinais de retorno e se a referência recebeu o caso. Registre barreiras e uma medida concreta para resolvê-las.

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Agora atenda

Agora atenda: pronto-socorro infantil, domingo à tarde. Uma mãe traz o filho de 2 anos, bem e brincando, e diz que acha que ele engoliu a pilha do controle do portão há pouco mais de uma hora. Pergunte o que precisa, examine, decida o exame e leia a imagem, organize a retirada no prazo com o que existe no seu hospital, oriente a família sem culpa e, antes da alta, faça a orientação de prevenção pela idade.

Acidentes na infância – O acidente tem idade — Internato | OsceLabs