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Clínica MédicaEndocrinologia

Cetoacidose diabética

Volume, potássio e só então insulina — nessa ordem, e é a ordem que é o tratamento. Quem inverte mata. E o que se acompanha não é a glicemia: é o ânion-gap.

Fontes deste capítulo

Santomauro AT, Santomauro Jr AC, Pessanha AB, Raduan RA, Marino EC, Lamounier RN — Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025 (capítulo publicado em 22/03/2023, última revisão em 27/03/2023). DOI 10.29327/5238993.2023-6

Santomauro Jr AC, Santomauro AT, Barbosa CCMC, Raduan RA, Marino EC, Lamounier RN — Manejo da síndrome hiperglicêmica hiperosmolar não cetótica (SHHNC). Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025 (publicado em 13/07/2025). DOI 10.29327/5660187.2025-5

Santomauro AT, Santomauro Jr AC, Raduan RA — Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética euglicêmica. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (publicado em 23/12/2021, última revisão em 18/04/2023). DOI 10.29327/557753.2022-22

Melo KFS, Almeida-Pititto B, Pedrosa HC — Tratamento do diabetes mellitus tipo 1 no SUS. Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2025 (publicado em 05/04/2023, última revisão em 12/04/2023). DOI 10.29327/5238993.2023-12

Ministério da Saúde / CONITEC — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 1. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17, de 12 de novembro de 2019

01

Responda antes de ler

Homem de 46 anos em cetoacidose grave, com pH venoso de 7,05, bicarbonato de 5 mEq/L, potássio de 3,6 mEq/L, já em expansão volêmica, reposição de potássio e insulina em bomba há duas horas. O plantonista pergunta se não seria o caso de administrar bicarbonato de sódio para corrigir o pH mais rápido. Qual é a resposta correta e a justificativa?

02

O paciente que você vai ver

Três e vinte da manhã, sala de emergência clínica. Rafael tem 22 anos, 68 quilos, e chegou de carro com a mãe, que dirigiu falando com ele o caminho inteiro para ele não dormir. Faz três dias que vomita. Começou com dor de barriga difusa e nas últimas doze horas parou de conseguir beber água sem devolver. Está sentado na maca, inclinado para a frente, respirando fundo e devagar, de um jeito que não é falta de ar: é uma respiração ampla, quase deliberada, levando muito mais ar do que a conversa exigiria. O hálito tem um cheiro adocicado que fica na sala.

Ele tem diabetes tipo 1 desde os treze anos e usa insulina NPH e regular desde então. Há duas semanas mudou de cidade para começar a faculdade, ficou sem a receita, adiou a ida ao posto — e faz oito dias que aplica apenas quando o dedo dá muito alto, o que na prática quer dizer duas vezes na semana. A mãe soube disso agora, na maca.

Ao exame: pressão arterial 96 por 58 mmHg, frequência cardíaca 128, frequência respiratória 30, temperatura 36,4 °C, saturação de 98% em ar ambiente. Mucosas secas, turgor de pele lentificado, extremidades frias com enchimento capilar de três segundos. Abdome difusamente doloroso, sem defesa. Consciente e orientado, mas lento. Glicemia capilar: HI — o aparelho estourou o limite de detecção e não há número para ler.

A gasometria venosa e os eletrólitos dizem o resto. Glicemia plasmática de 612 mg/dL, pH de 7,04, bicarbonato de 6 mEq/L, sódio de 128, potássio de 5,4, cloro de 96, ureia de 62 mg/dL, creatinina de 1,6 mg/dL, cetonemia capilar de 5,8 mmol/L. É cetoacidose diabética grave, e é a mais previsível de todas: um diabético tipo 1 que ficou sem insulina.

Repare no que a sala vai querer fazer nos próximos cinco minutos, e no que pode matá-lo. O reflexo, diante de uma glicemia de 612, é pendurar insulina — é o número mais feio da tela e há uma bomba a dois metros da maca. Só que o potássio dele é 5,4: alto no exame e enganosamente alto no corpo, porque a acidose empurrou potássio para fora das células e o rim vem eliminando isso há três dias. O estoque está baixo e o número não mostra. Quando a insulina começar a correr, esse 5,4 vira 3,2 em duas horas, e sem reposição simultânea ele faz arritmia.

E há uma segunda coisa que a tela não mostra: um déficit de quase sete litros de água. A pressão de 96 por 58 e as extremidades frias são hipovolemia, não hiperglicemia — e insulina em quem está hipovolêmico piora justamente a perfusão que sustenta o rim e o cérebro dele.

Por isso a ordem existe, e vem antes de qualquer dose. Volume primeiro. Potássio antes da insulina. Insulina depois. Não é preferência de escola: é a diferença entre o paciente que sai andando em dois dias e o que para na sala. Quase todo erro grave na cetoacidose é de sequência, não de conhecimento — o interno sabe que os três entram, e erra a ordem.

03

Quem adoece disso

O diabetes é uma das doenças que mais ocupam leito no Brasil, e a conta pública é grande. Em 2024, ano já consolidado, o Sistema de Informações Hospitalares do SUS registrou 139.598 internações por diabetes mellitus, com 5.257 óbitos — taxa de mortalidade hospitalar de 3,77% — e permanência média de 6,8 dias. Em 2025 foram 153.055 internações e 5.639 óbitos. A lista de morbidade do sistema reúne todo o diabetes numa linha só, sem separar a cetoacidose; mas a distribuição por idade denuncia onde ela está: 11.990 dessas internações de 2024, ou 8,6% do total, foram em menores de 20 anos. Diabetes não interna criança e adolescente por retinopatia nem por pé diabético. Interna por descompensação aguda.

O tamanho da população em risco é conhecido: cerca de 564.249 pessoas vivem com diabetes tipo 1 no Brasil, das quais 109.827 têm menos de 20 anos, o que coloca o país em terceiro lugar no mundo em número absoluto. E o controle é ruim — entre as pessoas com diabetes tipo 1 acompanhadas em serviço secundário ou terciário, menos de 13% atingem a meta de hemoglobina glicada. Quer dizer que a matéria-prima da cetoacidose, que é insulinopenia mal compensada, está distribuída por meio milhão de pessoas.

A incidência específica fica entre 4 e 8 episódios por mil pessoas com diabetes por ano. Numa região com 5.000 diabéticos tipo 1, são de 20 a 40 episódios por ano chegando aos prontos-socorros dali: frequente o bastante para você conduzir vários durante o internato, raro o bastante para ninguém aprender a sequência só de repetir.

A mortalidade depende de onde o paciente cai. Em centros de excelência é inferior a 1%; na maioria dos serviços fica entre 7% e 11%; passa de 5% em idosos e em quem tem doença grave associada e chega a 50% acima dos 80 anos. Com edema cerebral, alcança 30% ou mais. A diferença entre menos de 1% e 11% não está na droga, que é a mesma insulina regular em todos os lugares: está na sequência, no intervalo entre as reavaliações e em quem procura o fator precipitante.

Esse fator precipitante é o segundo número que muda o seu comportamento. Infecção responde por 30% a 39% dos episódios, e omissão ou interrupção da insulina por 21% a 49%. Somados, são a maioria esmagadora. Traduzindo para a beira do leito: em dois de cada três pacientes existe uma causa identificável, e ela é ou um foco infeccioso que ninguém procurou ou uma insulina que parou de ser aplicada por um motivo que ninguém perguntou. Tratar a acidose e dar alta sem responder a essa pergunta é agendar a próxima internação.

E há um número que muda de quem você suspeita. Entre 3% e 40% dos casos de cetoacidose são a apresentação inicial do diabetes tipo 1 — na casuística brasileira dessa revisão, 32,8%. Na criança e no adolescente é pior: de 30% a 50% dos diagnósticos de diabetes tipo 1 na infância são feitos tardiamente, com o paciente já em cetoacidose, porque os sintomas foram lidos como gastroenterite, abdome agudo ou broncoespasmo. Quer dizer que a frase segundo a qual o paciente não é diabético não exclui cetoacidose. Em um a cada três casos, ele ainda não era.

04

Por que acontece o que acontece

Três perguntas de mecanismo sustentam tudo o que vem depois, e cada uma delas é a razão de um degrau do tratamento existir. Por que falta água? Por que o potássio mente? E por que a acidose demora mais que a glicemia para melhorar?

O gatilho é sempre o mesmo: insulina insuficiente para o momento, seja porque não foi aplicada, seja porque a demanda subiu com o estresse de uma infecção. Sem insulina, duas coisas acontecem em paralelo, e é a segunda que faz a doença. A primeira é a hiperglicemia — o fígado, liberado do freio insulínico e estimulado por glucagon, cortisol, catecolaminas e hormônio do crescimento, aumenta a gliconeogênese e a glicogenólise, enquanto o músculo, sem insulina, para de captar glicose. A segunda é a lipólise sem freio. A insulina é o principal inibidor da lipase do tecido adiposo; retirada ela, ácidos graxos livres jorram para o fígado, que os oxida e produz corpos cetônicos — beta-hidroxibutirato e acetoacetato — em quantidade muito maior que a capacidade de consumo periférico. São ácidos fortes. Consomem bicarbonato, derrubam o pH e alargam o ânion-gap.

Daí sai a diferença que separa esta doença do estado hiperosmolar: quem tem alguma insulina residual, como a maior parte dos diabéticos tipo 2, freia a lipólise mesmo sem frear a produção hepática de glicose, e faz hiperglicemia extrema sem cetose. Quem não tem nenhuma faz as duas. E é por isso que a cetoacidose se instala em horas enquanto o estado hiperosmolar leva dias.

A água é a segunda história. A glicose que passa do limiar renal arrasta água consigo, e o paciente urina litros por dia enquanto vomita e não bebe. O déficit acumulado é da ordem de 100 mL por quilo — quase sete litros num adulto de 68 quilos. Duas consequências práticas caem daí. A primeira é que a hipovolemia, e não o açúcar, é o que derruba a pressão e a perfusão renal; e rim mal perfundido filtra menos glicose, o que sustenta a hiperglicemia num círculo. A segunda é que a reidratação, sozinha, já baixa a glicemia de 35 a 70 mg/dL por hora, antes de qualquer insulina. Quem pendura insulina em paciente seco atribui à insulina uma queda que era da água, e dosa errado o resto do tratamento.

Agora o potássio, que é o degrau em que se mata gente. O corpo de um paciente em cetoacidose perdeu potássio de verdade: a diurese osmótica leva potássio junto, o vômito leva mais, e o hiperaldosteronismo secundário à hipovolemia faz o túbulo distal trocar sódio por potássio. Só que o valor medido no sangue não mostra isso, porque duas forças empurram potássio para fora da célula ao mesmo tempo — a acidose, que troca hidrogênio de fora por potássio de dentro, e a própria falta de insulina, que é o hormônio que enfia potássio na célula. Daí o paradoxo: estoque corporal baixo com potássio sérico normal ou alto. Num estudo prospectivo de 29 casos, 82% chegaram normocalêmicos ou hipercalêmicos e 63% ficaram hipocalêmicos durante o tratamento.

O que a insulina faz nesse cenário é imediato e brutal: devolve potássio para dentro da célula. Some-se a correção da acidose, que faz o mesmo, e a expansão volêmica, que dilui e aumenta a excreção renal, e são três forças simultâneas derrubando a calemia. Por isso a regra não é repor potássio se estiver baixo: é medir potássio antes da insulina, sempre, e repor durante o tratamento mesmo em quem chegou normal. E por isso existe um corte absoluto — abaixo de 3,5 mEq/L a insulina fica adiada, porque nesse paciente ela produz arritmia, fraqueza da musculatura respiratória e parada cardíaca.

A terceira pergunta é a que muda o modo como você lê a evolução. A glicemia cai rápido porque depende de duas coisas rápidas, diluição e captação celular. A cetose não. Para acabar a cetose é preciso desligar a lipólise, metabolizar os cetoácidos já circulantes e regenerar bicarbonato, e isso leva horas depois de a glicemia já ter normalizado. Existe até um efeito de laboratório que confunde: com a insulina correndo, parte do beta-hidroxibutirato é convertida em acetoacetato, que é justamente o que a fita de urina mede — a cetonúria pode piorar enquanto o paciente melhora, e continuar positiva por horas ou dias depois de a acidose ter resolvido. A resolução é definida por beta-hidroxibutirato <0,6 mmol/L associado a pH ≥7,3 ou bicarbonato ≥18. O gap auxilia a compreensão, mas não substitui esse conjunto; nem a fita urinária nem a glicemia isolada encerram o tratamento.

O corolário terapêutico cai por gravidade, e é o eixo deste capítulo. Se falta água antes de faltar insulina, o volume vem primeiro. Se a insulina derruba o potássio, o potássio se mede e se repõe antes e durante. Se a cetose demora mais que a glicemia, a insulina não pode ser desligada quando o açúcar normaliza — e, como ela precisa continuar correndo num paciente que já está com glicemia de 200, entra glicose junto. O soro glicosado com insulina ainda correndo parece contraintuitivo até você lembrar que ele não está ali para tratar o açúcar. Está ali para permitir que a insulina continue tratando a cetose sem produzir hipoglicemia.

Predomínio intracelular de potássio nos dois painéis, com deslocamento para fora da célula antes da insulina e entrada durante o tratamento.
Na cetoacidose, o potássio sérico pode estar normal ou alto apesar de déficit corporal. A insulina favorece a entrada de potássio na célula e pode reduzir rapidamente sua concentração no sangue. Redistribuição não corrige o estoque perdido: a reposição, quando indicada, depende dos valores seriados, da função renal e da diurese. Pontos e áreas são qualitativos. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

A forma clássica é a do Rafael e é fácil: jovem, magro, diabético tipo 1 conhecido, poliúria e polidipsia que pioraram, vômito, dor abdominal, Kussmaul, hálito cetônico. Quem chega assim recebe o diagnóstico na porta. O problema do internato não é essa apresentação — é a distância entre ela e as outras cinco, que chegam com outro rótulo colado e passam.

O que muda entre elas quase nunca é o mecanismo. É qual dos três achados da tríade está mascarado: a hiperglicemia pode não estar alta, a acidose pode ser atribuída a outra causa, e a cetose pode simplesmente não ser procurada.

Percurso de aprendizagem

Primeira leitura: diagnóstico no adulto, gravidade, precipitante e ordem entre líquidos, potássio e insulina.

Segunda leitura: resposta horária, glicose durante a infusão e critérios de resolução. Use beta-hidroxibutirato e acidose; não reduza a decisão ao gap.

Aprofundamento: apresentações euglicêmicas, distúrbios mistos e complicações. A situação pediátrica é um contexto específico e não recebe automaticamente o protocolo de adultos.

Diabético tipo 2 — a cetoacidose que ninguém espera

Cetoacidose é doença do tipo 1 apenas majoritariamente. O tipo 2 a faz quando o estresse vence a reserva pancreática: sepse, infarto, pancreatite, cirurgia de grande porte, corticoide em dose alta. A idade e o tipo de diabetes não entram na decisão de dosar cetona — entra a apresentação. Diabético de qualquer tipo com glicemia acima de 250 mg/dL e sintoma sugestivo (náusea, vômito, dor abdominal, taquipneia, rebaixamento) recebe cetonemia e gasometria venosa.

Armadilha inversa: o idoso com tipo 2 pode chegar com as duas síndromes ao mesmo tempo — cerca de 27% das admissões por crise hiperglicêmica têm apresentação sobreposta. Nesses, trata-se a cetoacidose e vigia-se a osmolaridade; a régua do estado hiperosmolar está no capítulo Estado hiperosmolar hiperglicêmico, nesta apostila.

Cetoacidose euglicêmica — a que passa porque o número está bom

Glicemia abaixo de 200 mg/dL com pH abaixo de 7,3 e bicarbonato abaixo de 18 mEq/L, com cetose: todo o quadro, sem o achado que lhe dá nome. Passa despercebida porque o gatilho mental de todo mundo é a glicemia alta.

Cinco situações a produzem, e todas aparecem no hospital. Uso de inibidor de SGLT2, hoje a causa mais frequente — a droga glicosura, mantém a glicemia baixa e não impede a cetogênese, e o precipitante mais forte é o jejum hospitalar. Gestação, sobretudo no terceiro trimestre. Jejum prolongado ou vômitos. Doença renal crônica avançada. Abuso de álcool.

A conduta cabe em duas frases. Em diabético tipo 1 sintomático, e em diabético tipo 2 sintomático em uso de inibidor de SGLT2, dose cetona mesmo com glicemia normal. E o inibidor de SGLT2 sai de 24 a 72 horas antes de cirurgia de grande porte, procedimento invasivo planejado ou exercício muito intenso.

Criança e adolescente — a mesma doença com outro risco

Os cortes laboratoriais são os mesmos do adulto. A gravidade pediátrica soma pH e bicarbonato: leve com pH igual ou acima de 7,2 e bicarbonato de 10 a 15; moderada com pH de 7,1 a 7,2 e bicarbonato de 5 a 9; grave com pH abaixo de 7,1 e bicarbonato abaixo de 5.

O que muda de verdade é o desfecho temido. Edema cerebral ocorre em cerca de 1% das cetoacidoses pediátricas, com 30% de mortalidade e outros 30% de sequela neurológica, e é a principal causa de morte por cetoacidose na infância. Ele aparece tipicamente nas primeiras 12 horas de tratamento, podendo surgir antes dele ou, raramente, até 24 a 48 horas depois. Sinais: cefaleia que começa ou piora com o tratamento, vômito recorrente, irritabilidade, sonolência que não desperta, incontinência, paralisia de nervo craniano, papiledema, queda da saturação. A tríade de hipertensão, bradicardia e depressão respiratória é tardia.

Por isso a reposição na criança é deliberadamente mais lenta e o bicarbonato é ainda mais desaconselhado. Na suspeita de edema cerebral, manitol de 0,5 a 1 g por quilo, pela diretriz pediátrica da ISPAD de 2022 que Diabetes mellitus tipo 1 e cetoacidose diabética na criança, na apostila de Endocrinologia Pediátrica, adota — a Sociedade Brasileira de Diabetes, em 2023, dá 0,25 a 0,5 g/kg sem recorte de idade —: numa criança de 30 quilos, de 15 a 30 gramas, o que com manitol a 20% (0,2 g por mL) dá de 75 a 150 mL; num adolescente de 60 quilos, de 150 a 300 mL.

O outro dado pediátrico é de porta: de 30% a 50% dos diagnósticos de diabetes tipo 1 na infância são feitos já em cetoacidose. A poliúria vira enurese, a polidipsia vira criança birrenta com sede, e o quadro é lido como gastroenterite, abdome agudo ou broncoespasmo — a taquipneia da acidose chega a receber nebulização com beta-2 e corticoide, que pioram a hiperglicemia. Uma glicemia capilar na triagem desfaz os três erros em vinte segundos.

Gestante, idoso e o paciente já internado

Na gestação, três forças somadas — resistência insulínica progressiva, alcalose respiratória fisiológica que consome a reserva de bicarbonato e maior tendência à cetose de jejum — fazem a cetoacidose se instalar mais rápido e com glicemias mais baixas; gestante sintomática merece cetona e gasometria com uma barra mais baixa que a habitual, e o desfecho fetal acompanha a acidose materna, não a glicemia. No idoso, a apresentação perde os marcadores: a sede pode não existir, a poliúria é atribuída a próstata ou diurético, a dor abdominal a constipação, o rebaixamento a demência. A mortalidade aqui é a mais alta — passa de 5% e chega a 50% acima dos 80 anos —, e o precipitante silencioso é regra: infarto sem dor e infecção sem febre não aparecem se ninguém pedir eletrocardiograma e não procurar foco. E há o paciente já internado por outra coisa: diabético tipo 1 que fica em jejum e tem a basal suspensa faz cetoacidose em horas, às vezes com glicemia apenas moderadamente alta.

O que engana no exame físico, e o que não engana

Dor abdominal pode acompanhar CAD e melhorar com seu tratamento, mas essa melhora não prova exclusividade metabólica. Dor focal, defesa, sinais peritoneais ou instabilidade exigem investigação simultânea; dor persistente também pede revisão do diagnóstico. Não aguardar fechamento do gap para procurar abdome agudo. Leucocitose pode resultar do estresse, e febre ausente não exclui infecção: anamnese e exame do foco orientam a investigação.

O que não engana é a respiração. Kussmaul não é dispneia: é taquipneia com volume corrente amplo, em paciente que não se queixa de falta de ar e cuja saturação está normal — é o pulmão compensando a acidose metabólica, e sedar ou intubar sem manter ventilação-minuto equivalente retira a compensação e derruba o pH. Quando ela desaparece num paciente ainda acidótico, isso não é melhora: é fadiga da musculatura respiratória, e pede leito monitorizado. Já o rebaixamento tem capítulo próprio nesta apostila; o que importa aqui é que ele é motivo para proteger via aérea e monitorizar, não para pedir tomografia antes de começar o tratamento.

Eixos de cetose e acidose versus hiperosmolaridade, com regiões conceituais de cetoacidose, estado hiperosmolar e sobreposição.
As crises hiperglicêmicas combinam em diferentes intensidades cetose, acidose, desidratação e hiperosmolaridade. Há apresentações mistas. O gráfico organiza essas dimensões, mas não substitui critérios laboratoriais nem usa as bordas das regiões como limites diagnósticos. A glicemia isolada não resume a gravidade. Ilustração didática original.
06

Como fechar o diagnóstico

A investigação aqui tem uma peculiaridade: ela não serve só para fechar o diagnóstico — serve para liberar o tratamento. O potássio não é exame de rotina neste quadro, é a chave que autoriza a insulina.

A regra que organiza tudo: colhe-se gasometria venosa, eletrólitos e cetona antes de pendurar qualquer coisa, num mesmo furo, e a expansão com salina começa enquanto o resultado não volta. Volume não depende de exame. Insulina depende do potássio.

1. Os exames dos primeiros dez minutos

Quatro perguntas, quatro exames. Quanto de açúcar? Glicemia capilar imediata e plasmática colhida junto. Se o glicosímetro der HI, ele estourou o limite de detecção e não há valor a interpretar — sem o número plasmático você não acompanha a queda nem decide quando entra glicose. E em paciente com perfusão periférica ruim, que é quase todo mundo em cetoacidose grave, o capilar não é confiável: decida com sangue venoso ou arterial.

Há acidose, e de que tamanho? Gasometria venosa — não arterial. A punção arterial dói, sangra mais, atrasa, e a diferença de pH entre as duas não muda conduta nenhuma neste quadro. A venosa entrega pH, bicarbonato e, na maioria dos aparelhos, sódio, potássio e cloro em minutos.

Há cetose? Cetonemia capilar por beta-hidroxibutirato é o exame de escolha; a cetonúria serve para o diagnóstico inicial e só para ele.

Qual é o potássio? O da gasometria é mais rápido, mas não substitui a dosagem plasmática — os dois discordam o bastante para mudar de faixa. Use o da gasometria para decidir agora e confirme com o plasmático; nas faixas de decisão, em torno de 3,5 e 5,0 mEq/L, o plasmático manda. Use método de eletrólitos validado pelo serviço: o resultado rápido pode orientar a urgência quando confiável; discrepância, hemólise ou dúvida pré-analítica exige confirmação. A ressalva não proíbe universalmente o uso do potássio obtido em analisador de gasometria.

Complete com ureia e creatinina, que entram na osmolaridade e definem lesão renal aguda, e com hemograma — sabendo de antemão que a leucocitose vem e não fecha infecção.

2. O que confirma, e a faixa cinzenta

No adulto, reúna os três componentes: diabetes conhecido ou glicemia ≥200 mg/dL; beta-hidroxibutirato ≥3 mmol/L ou cetonúria ≥2 cruzes quando a dosagem sanguínea não está disponível; pH <7,3 ou bicarbonato <18 mEq/L. Esses são os critérios do consenso internacional de 2024 adotados nesta revisão. A cetose e a acidose precisam ser demonstradas; hiperglicemia sozinha não faz CAD, e glicemia relativamente baixa em uso de SGLT2 não a afasta.

O beta-hidroxibutirato é a medida preferida da cetose. Valores entre 1,5 e <3 mmol/L exigem interpretar sintomas, jejum, tempo de evolução e tratamento já recebido e repetir quando indicado. Gap elevado sugere ânions não medidos, mas também aparece com lactato, insuficiência renal e intoxicações; não converte automaticamente uma cetonemia limítrofe em CAD confirmada.

3. As três contas que se fazem à caneta

A leitura sistemática de uma gasometria e a abordagem geral das acidoses têm capítulo próprio nesta apostila, e a régua de lá vale aqui inteira. O que entra aqui são as três contas que mudam a conduta.

O gap calculado acompanha a compreensão do distúrbio, mas a resolução da CAD é definida por beta-hidroxibutirato <0,6 e pH ≥7,3 ou bicarbonato ≥18. Durante a reposição, aumento de cloro pode produzir acidose de gap normal. Se as cetonas já resolveram, prolongar insulina IV só para normalizar esse bicarbonato pode prolongar o tratamento sem benefício. Quando não há cetonemia disponível, use a evolução clínica e acidobásica conjunta e a avaliação do supervisor.

Sódio corrigido: responde qual solução usar depois da primeira hora. O fator é 1,6 mEq/L para cada 100 mg/dL de glicose acima de 100, e 2,4 quando a glicemia passa de 400. No Rafael, 128 mais 2,4 vezes 5,12 dá 140 mEq/L — normal, e a salina isotônica continua. Se desse 150 ou mais, a régua manda considerar salina a 0,45% de 250 a 500 mL por hora, porque nesse cenário a solução isotônica se associa a mais mortalidade que a hipotônica.

Osmolaridade efetiva: duas vezes o sódio aferido mais a glicemia dividida por 18. No Rafael, 256 mais 34 dá 290 mOsm/L — um paciente com glicemia de 612 e osmolaridade efetiva normal. Ele não é estado hiperosmolar, que exige mais de 320. E a osmolaridade também explica rebaixamento: estupor ou coma com efetiva abaixo de 320 obriga a procurar outra causa.

4. O que não pedir, e o que custa pedir

Cetonúria para acompanhar o tratamento — o pedido errado mais caro do capítulo. A fita mede acetona e acetoacetato, não beta-hidroxibutirato, que é produzido numa proporção de 20 para 1. Com a insulina correndo, parte do beta-hidroxibutirato vira acetoacetato, e a fita pode ficar mais positiva com o paciente melhorando. A negativação da cetonúria não é critério de resolução.

Gasometria arterial de rotina: não acrescenta decisão sobre a venosa e custa dor, tempo e hematoma em quem vai ser puncionado muitas vezes. Tomografia de crânio antes de iniciar tratamento em paciente rebaixado por cetoacidose: atrasa a expansão. Ela entra se houver sinal focal, se o rebaixamento não acompanhar a gravidade metabólica, se a osmolaridade efetiva estiver abaixo de 320 e mesmo assim houver coma, ou se o quadro neurológico piorar durante o tratamento. Amilase e lipase de rotina: a cetoacidose eleva amilase sem pancreatite — peça se a história e o exame sugerirem pancreatite, inclusive diante de dor persistente; não espere resolução metabólica se houver sinais de abdome agudo.

5. O diferencial, resolvido pelos mesmos exames

Todo o diferencial é de acidose com ânion-gap alto, e se separa com glicemia, cetonemia e história — não com exames novos. Cetoacidose alcoólica: etilista em libação seguida de jejum e vômito, glicemia normal ou baixa, cetose presente, e o tratamento diverge num ponto crucial — glicose e tiamina, com insulina raramente necessária. Cetose de jejum: cetonemia leve, ânion-gap discreto, resolve com alimentação. Acidose lática, inclusive a associada à metformina: ânion-gap alto sem cetose, com lactato elevado. Intoxicações por salicilato, paracetamol, metanol ou etilenoglicol: ânion-gap alto com cetona negativa ou discreta.

O diferencial mais próximo é o estado hiperosmolar, separado por quatro números: glicemia acima de 600 mg/dL, osmolaridade efetiva acima de 320 mOsm/L, cetonemia abaixo de 3 mmol/L e pH acima de 7,30 com bicarbonato acima de 15 mmol/L. O manejo dele tem capítulo próprio nesta apostila e não se improvisa com a régua da cetoacidose.

6. Procurar o precipitante: o exame que impede a volta

Infecção e omissão de insulina explicam a maioria dos episódios, e descobrir qual dos dois foi é o que define se o paciente volta em três semanas. O painel mínimo: hemograma, exame de urina com urocultura, radiografia de tórax, hemoculturas se houver febre ou instabilidade, eletrocardiograma em todo adulto — pelo infarto silencioso, precipitante clássico no diabético e no idoso — e beta-hCG em toda mulher em idade fértil. A infecção, que é o precipitante mais comum, tem capítulo próprio nesta apostila tanto para sepse quanto para febre no internado; aqui a única regra específica é de sequência: antibiótico e expansão correm juntos, e nenhum dos dois atrasa a insulina.

E o precipitante mais frequente não sai de exame: sai de pergunta. Quantas aplicações você deixou de fazer? Acabou a insulina? A receita venceu? Você tem geladeira, seringa, alguém que ajude a aplicar? A bomba está funcionando? Está em corticoide? Usa inibidor de SGLT2? Cocaína ou álcool nos últimos dias? No diabetes tipo 1 a insulina não é otimização de controle — é o que previne cetoacidose, coma e morte, e está escrito assim no protocolo nacional. Quem para de aplicar não está negligenciando um remédio: está retirando o único freio da lipólise.

7. O que existe no SUS, e o que fazer quando não existe

Sem cetonemia no serviço, registre essa limitação e use gasometria, eletrólitos, cetonúria para diagnóstico e evolução clínica seriada. A fita urinária não serve para acompanhar resolução. O gap ajuda a interpretar a acidose, mas exige cloro medido, referência laboratorial e consideração de albumina e outras causas; não é um substituto perfeito do beta-hidroxibutirato. Uma transição duvidosa deve ser discutida e, se necessário, apoiada por dosagem em outro laboratório.

A bomba de infusão é o segundo. Sem bomba não se improvisa insulina endovenosa em gotejamento por equipo comum — o erro de dose é grande e o risco de hipoglicemia é real. A alternativa validada está na régua nacional: cetoacidose leve, em paciente hemodinamicamente estável, pode ser tratada com análogo de ação rápida por via subcutânea, com dosagem e monitorização a cada duas a quatro horas e glicemia capilar de hora em hora, desde que haja equipe para vigiar — o que troca a bomba por enfermagem, e não por menos trabalho. Cetoacidose moderada ou grave, paciente instável, paciente gravemente enfermo e criança exigem via endovenosa em bomba; onde ela não existe, isso é critério de transferência, não de improviso.

O terceiro é a própria insulina, e essa não falta. A insulina humana regular é o que a assistência farmacêutica básica entrega e é a preferida também nas diretrizes, por custo, e é com ela que este capítulo inteiro funciona. Os análogos existem no SUS para o diabetes tipo 1 sob critérios definidos no protocolo nacional — hipoglicemias graves ou repetidas, controle inadequado persistente apesar de automonitorização e acompanhamento regular —, mas nada do tratamento agudo depende deles.

07

A sequência, as contas e as tabelas prontas

O objetivo é explicar e executar com supervisão a sequência que corrige perfusão, permite insulina com segurança e interrompe cetogênese. Diferencie diagnóstico, melhora glicêmica, resolução da crise e transição para o esquema subcutâneo. As contas abaixo estão feitas por extenso para um paciente de 68 quilos - refaça a sua trocando o peso. A régua é a diretriz brasileira de cetoacidose diabética; onde o texto e a figura da própria diretriz divergem num número, a escolha adotada está dita na linha.

  1. 1Dois acessos calibrosos, monitorização, glicemia capilar e peso
  2. 2Coleta única: gasometria venosa, eletrólitos, ureia, creatinina, cetonemia e glicemia plasmática
  3. 3Expansão com salina isotônica sem esperar resultado
  4. 4Potássio abaixo de 3,5 mEq/L: adiar insulina, repor e aguardar >3,5. Entre >3,5 e <5,0: repor conforme rim e velocidade e iniciar insulina se apropriado. Em 5,0 ou mais: insulina sem reposição inicial, com controle seriado.
  5. 5Insulina regular em bomba, 0,1 unidade/kg/h, sem bólus
  6. 6Glicemia de hora em hora; gasometria e eletrólitos a cada 2 horas
  7. 7Após recuperar perfusão, ajustar solução e velocidade pela evolução clínica, balanço, sódio e osmolalidade; não trocar automaticamente para hipotônica por um só valor de sódio corrigido.
  8. 8Glicemia <250 mg/dL: associar glicose 5–10% e reduzir em geral a insulina para 0,05 unidade/kg/h; titular pelo protocolo e não desligar apenas pela glicemia.
  9. 9Fator precipitante procurado na primeira hora e tratado em paralelo
  10. 10Resolução no adulto: beta-hidroxibutirato <0,6 mmol/L E (pH venoso ≥7,3 OU bicarbonato ≥18 mEq/L), com glicemia idealmente <200. Confirmar condição clínica e organizar cobertura basal antes de desligar a bomba. Não exigir negativação da cetonúria nem fechamento isolado do gap.
  11. 11Aplicar esquema subcutâneo com cobertura basal e manter a bomba por pelo menos 2 horas no esquema com NPH/regular deste caso, conforme protocolo de transição.
  12. 12Alta com receita, insumos, plano para dias de doença e retorno marcado
DegrauO que entraPor que nessa posiçãoSe inverter
1. VolumeSalina isotônica 15 a 20 mL/kg na 1ª hora; em 68 kg, 1.000 a 1.360 mLDéficit de cerca de 100 mL/kg. A reidratação sozinha já baixa a glicemia de 35 a 70 mg/dL/h e restaura perfusão renalInsulina em hipovolêmico empurra glicose, potássio e água para dentro da célula e piora a perfusão
2. PotássioMedir antes da insulina. K <3,5: repor de modo controlado e aguardar >3,5 para insulina. Entre >3,5 e <5,0, em geral 20–30 mEq/L, com ajuste renal e alvo 4–5.A insulina joga potássio para dentro da célula em minutos: 82% chegam normo ou hipercalêmicos e 63% ficam hipocalêmicos no tratamentoInsulina com potássio abaixo de 3,5 mEq/L: arritmia, fraqueza da musculatura respiratória, parada cardíaca
3. InsulinaRegular endovenosa em bomba, 0,1 U/kg/h, sem bólus, só com potássio acima de 3,5 mEq/LDesliga a lipólise e a cetogênese; espera-se queda de 50 a 70 mg/dL/hÉ a causa das duas complicações mais evitáveis do quadro
4. GlicoseCom glicemia <250 mg/dL, associar glicose 5–10% e reduzir em geral a insulina para 0,05 unidade/kg/h, titulando ambas as infusões.A cetose demora mais que a glicemia; a glicose permite manter a insulina sem hipoglicemiaDesligar a insulina porque o açúcar normalizou faz a cetoacidose voltar antes do fim do plantão
5. PrecipitanteProcurado na 1ª hora e tratado em paraleloInfecção em 30% a 39% dos episódios; omissão de insulina em 21% a 49%Acidose corrigida sem causa identificada é reinternação marcada

Diagnóstico, gravidade e o que dispara

ParâmetroValorConsequência
Glicemia ou diabetes prévioGlicemia ≥200 mg/dL OU diabetes já conhecidoPrimeiro componente do diagnóstico no adulto; glicemia menor não exclui CAD no diabetes conhecido.
AcidosepH venoso <7,3 OU bicarbonato <18 mEq/LAssociar à cetose e ao componente de diabetes/hiperglicemia; consenso de 2024.
CetonemiaBeta-hidroxibutirato ≥3 mmol/LSe abaixo de 3 com suspeita persistente, reavaliar tempo, tratamento já recebido e outras causas; o gap sozinho não confirma cetose.
Cetonúria2 cruzes ou maisServe ao diagnóstico. NÃO serve para acompanhar nem para dizer que resolveu
Ânion-gapNa − (Cl + HCO3); interpretar com albumina e laboratórioAjuda a reconhecer acidose com ânions não medidos. Não identifica sozinho a causa e não é critério isolado de resolução.
pH 7,20 a 7,30 / 7,10 a 7,20 / abaixo de 7,10Leve / moderada / graveLeve pode ir de análogo rápido subcutâneo em paciente estável e vigiado; moderada e grave, bomba endovenosa
Cetonemia acima de 6 mmol/L; bicarbonato abaixo de 5; potássio de admissão abaixo de 3,5; Glasgow abaixo de 12; saturação abaixo de 92%; sistólica abaixo de 90 mmHg; frequência acima de 100 ou abaixo de 60; ânion-gap acima de 16Outros indicadores de gravidadeQualquer um pede leito monitorizado, independentemente do pH
CriançaLeve: pH ≥ 7,2 com bicarbonato de 10 a 15. Moderada: pH 7,1 a 7,2 com bicarbonato de 5 a 9. Grave: pH < 7,1 com bicarbonato < 5Vigilância neurológica horária em paralelo desde a primeira hora

Potássio: a decisão e os mililitros (ampola de KCl 19,1%, 10 mL = 25,6 mEq; 2,56 mEq/mL)

Potássio séricoInsulinaReposição por litroVolume de KCl 19,1%Recontrole
Abaixo de 3,5 mEq/LADIADA até K >3,5Reposição inicial controlada de 10 mEq/h, ajustada com equipe e protocolo do acesso10 mEq = 3,9 mL de KCl 19,1%, sempre diluído; nunca injeção diretaA cada 1 hora, com ECG/monitorização
Acima de 3,5 e abaixo de 5,0 mEq/LLiberada se demais condições presentesHabitualmente 20–30 mEq/L; titular para 4–5 e individualizar no comprometimento renal7,8–11,7 mL/L de KCl 19,1%; conferir a entrega em mEq/hA cada 2 horas neste caso
5,0 mEq/L ou maisLiberada se demais condições presentesNão repor ainda; reavaliar porque o estoque pode estar baixoA cada 2 horas
Todas as faixasExige débito urinário presente
Velocidade que isso produzBolsa de 20 mEq/L a 250 mL/h = 5 mEq/h; a 500 mL/h = 10 mEq/h; a 1.000 mL/h = 20 mEq/hAcima de 10 mEq/h: monitorização cardíaca contínua e acesso de bom calibre

Insulina em bomba: de unidades por hora a mililitros por hora

ItemRegraEm 68 kg
Dose0,1 unidade/kg/h6,8 U/h → 7 U/h
Bomba de seringa50 unidades em 50 mL de SF 0,9% = 1 unidade/mL7 mL/h (U/h = mL/h)
Bomba volumétrica50 unidades em 500 mL de SF 0,9% = 0,1 unidade/mL70 mL/h (70 × 0,1 = 7 U/h)
Antes de conectarDesprezar 10% do volume pelo equipo (a insulina adsorve ao plástico) e trocar o conjunto a cada 6 h5 mL na seringa; 50 mL na volumétrica
Queda esperada50 a 70 mg/dL/hDe 612 a 250 mg/dL em 5 a 7 horas
Queda menor que 50 mg/dL na 1ª horaChecar acesso e equipo; depois dobrar a taxa a cada horaDe 7 para 14 U/h
Queda maior que 70 mg/dL/hReduzir para 0,07 e depois 0,05 U/kg/h5 U/h, depois 3,4 U/h
Glicemia <250 mg/dLAssociar glicose e reduzir em geral a insulina para 0,05 unidade/kg/h, conforme resposta3,4 unidades/h nos 68 kg; 3,4 mL/h em concentração final de 1 unidade/mL
Soro glicosado a 5%5 g por 100 mL, ou 50 g/LA 150 mL/h entrega 7,5 g de glicose por hora

O que quase nunca se faz — e por quê

IntervençãoQuandoDosePor que raramente
Bicarbonato de sódioNão rotineiro. Considerar na acidemia grave com pH <7,0, em equipe experiente (consenso 2024).Quando indicado: 100 mmol de bicarbonato 8,4% em 400 mL de água estéril, infundidos em 2 h; repetir avaliação e, se necessário, o regime até pH >7,0. 8,4% = 1 mmol/mL: são 100 mL do fármaco, com volume final de cerca de 500 mL. Conferir potássio, sódio e balanço.A SBD citada usa <6,9, diferença mantida como comparação. O pH de 7,04 do caso não preenche nenhum dos dois limiares. Não aplicar automaticamente a crianças; risco de hipocalemia e outras complicações.
FosfatoFosfato abaixo de 1 mg/dL, ou anemia, insuficiência cardíaca congestiva e condições com hipóxiaFosfato de potássio ou glicerofosfato 20 a 30 mEq por litro de fluido, com cálcio monitorizadoA reposição de rotina não muda duração, dose de insulina, morbidade nem mortalidade, e causa hipocalcemia
Bólus inicial de insulinaNão se fazNão encurta o tempo de resolução em nenhum estudo que o testou
Solução balanceadaPode ser consideradaRinger com lactato no lugar da salina isotônicaMetanálise com risco relativo de 1,46 a favor, com menos acidose hiperclorêmica. É opção, não obrigação
ManitolSuspeita de edema cerebral0,5 a 1 g/kg (ISPAD 2022; a SBD 2023 dá 0,25 a 0,5 g/kg sem recorte de idade). Com manitol a 20% (0,2 g/mL): 30 kg = 75 a 150 mL; 60 kg = 150 a 300 mLRaro (cerca de 1% na criança) e de altíssima letalidade: 30% de morte e 30% de sequela

Regra operacional de potássio nesta revisão: o consenso internacional de 2024 usa 3,5 mEq/L para adiar a insulina, em vez de 3,3 nas passagens da SBD transcritas como comparação; aguardar K >3,5. Iniciar reposição quando K <5,0, buscando 4–5. Em função renal preservada, habitualmente 20–30 mEq/L; com K <3,5, iniciar reposição controlada em torno de 10 mEq/h e medir de hora em hora. Concentração, volume por hora, acesso e função renal precisam ser conferidos juntos. Anúria ou injúria renal exigem prescrição individual; a presença de urina sozinha não torna qualquer dose segura.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a do Rafael, escrita como se você fosse o interno de plantão. Ele tem 68 quilos, glicemia de 612 mg/dL, pH de 7,04, bicarbonato de 6 mEq/L, sódio de 128, potássio de 5,4, cloro de 96, ureia de 62 mg/dL, creatinina de 1,6 mg/dL e cetonemia de 5,8 mmol/L. Ânion-gap de 26. Toda dose vem com a fonte que a sustenta, entre parênteses.

Uma convenção: a unidade se escreve por extenso - unidades, nunca a letra U -, porque a abreviatura lida como zero é o erro de prescrição com maior desproporção entre causa e desfecho, e este é um capítulo inteiro de insulina. E toda linha com potássio ou insulina sai com a diluição escrita: dose sem diluição é uma conta que alguém vai refazer às três da manhã.

  1. Minuto 0 a 10 — o que se faz antes de qualquer droga

    Nada aqui depende de exame, e é por isso que vem primeiro. Dois acessos calibrosos, monitorização, oximetria, glicemia capilar e peso — de balança se der, porque a dose de insulina e o volume da expansão saem dele. Coleta única, num mesmo furo. E a expansão começa agora, antes de o laboratório voltar. Duas coisas que NÃO se faz: insulina, porque o potássio não chegou, e tomografia de crânio, porque o rebaixamento tem explicação metabólica e o exame só atrasa a expansão.

    Prescrição
    • Dois acessos venosos periféricos calibrosos; monitorização cardíaca contínua e oximetria de pulso (potássio de admissão abaixo de 3,5 mEq/L, saturação abaixo de 92% em ar ambiente e Glasgow abaixo de 12 são indicadores de cetoacidose grave — SBD, Quadro 5)
    • Coletar agora, antes de iniciar insulina: gasometria venosa, sódio, potássio, cloro, ureia, creatinina, glicemia plasmática, cetonemia capilar e hemograma (SBD, R9, classe I: a determinação do potássio precede o início da insulina; e SBD, R2, classe I: cetonemia tem mais acurácia que cetonúria para diagnóstico e acompanhamento)
    • Cloreto de sódio 0,9%, 1.000 mL por via endovenosa, correndo em 1 hora — 1.000 mL/h (SBD, R6, classe I, nível B: 15 a 20 mL/kg na primeira hora. Em 68 kg, a faixa é de 1.020 a 1.360 mL; 1.000 mL é o arredondamento seguro do piso da faixa em paciente com creatinina de 1,6 mg/dL)
    • Glicemia capilar de hora em hora; gasometria venosa com sódio, potássio e cloro a cada 2 horas (SBD, Figura 3: a titulação da infusão de insulina é horária, guiada pela glicemia)
    • Jejum; sonda nasogástrica apenas se houver vômito incoercível ou rebaixamento com risco de aspiração
    • Buscar o fator precipitante desde já: exame de urina com urocultura, radiografia de tórax, eletrocardiograma e hemoculturas se houver febre ou instabilidade (infecção responde por 30% a 39% dos episódios; o infarto silencioso é precipitante clássico no diabético)
    • NÃO iniciar insulina até que o potássio esteja disponível (critério de potássio do consenso internacional de 2024; dose e monitorização individualizadas)
  2. Hora 1 — o potássio chegou: 5,4 mEq/L. O que isso libera e o que não libera

    Potássio de 5,4 está acima de 5,0: a insulina está liberada e o potássio ainda não entra na bolsa — e essa segunda metade é temporária, porque 5,4 é número de acidose e não de estoque. O sódio corrigido sai agora: 128 mais 2,4 vezes 5,12 dá 140 mEq/L, normal, e por isso a salina isotônica continua. A diurese está presente, que é o pré-requisito para repor potássio quando chegar a hora.

    Prescrição
    • Cloreto de sódio 0,9%, 500 mL por via endovenosa, correndo em 1 hora — 500 mL/h, a partir do término da primeira bolsa (SBD, R5, classe I: o déficit total é de cerca de 100 mL/kg, o que em 68 kg dá 6.800 mL; a fase de manutenção segue com 250 a 500 mL/h conforme a evolução dos eletrólitos e da diurese)
    • NÃO acrescentar cloreto de potássio nesta bolsa — potássio de 5,4 mEq/L (critério de potássio do consenso internacional de 2024; dose e monitorização individualizadas)
    • Manter cloreto de sódio 0,9% como solução, sódio corrigido de 140 mEq/L (SBD, R8, classe IIa: a salina a 0,45% de 250 a 500 mL/h fica reservada ao sódio corrigido igual ou acima de 150 mEq/L)
    • Controle de diurese, com sonda vesical apenas se houver retenção ou impossibilidade de aferir (a presença de débito urinário é o pré-requisito para repor potássio)
    • Não administrar bicarbonato neste caso com pH 7,04. Não há indicação rotineira: o consenso 2024 admite consideração com pH <7,0 e a SBD citada usa <6,9. Continuar volume, insulina quando K permitir e tratamento do precipitante.
  3. Hora 1, dez minutos depois — a bomba de insulina, escrita por extenso

    A conta cabe numa linha: 0,1 unidade por quilo por hora em 68 quilos dá 6,8, arredondado para 7 unidades por hora, sem bólus. A diluição depende do que o serviço tem. Em bomba de seringa, 50 unidades em 50 mL dão 1 unidade por mililitro, e a dose em unidades por hora vira, sem conta nenhuma, os mililitros por hora — 7 mL/h. Em bomba volumétrica, 50 unidades em 500 mL dão 0,1 unidade por mililitro, e 7 unidades por hora viram 70 mL/h; confira de volta, 70 vezes 0,1 dá 7. E despreze os primeiros 10% do volume pelo equipo antes de conectar, porque a insulina adsorve ao plástico.

    Prescrição
    • Insulina humana regular 100 UI/mL: diluir 50 unidades (0,5 mL) em 50 mL de cloreto de sódio 0,9%, resultando em 1 unidade por mL. Infundir em bomba de seringa a 7 mL/h, o que corresponde a 7 unidades por hora (SBD, R11, classe I, nível B: infusão contínua de insulina regular a 0,1 unidade/kg/h; 0,1 × 68 kg = 6,8 unidades/h)
    • Alternativa em bomba volumétrica: diluir 50 unidades de insulina humana regular em 500 mL de cloreto de sódio 0,9%, resultando em 0,1 unidade por mL. Infundir a 70 mL/h, o que corresponde a 7 unidades por hora
    • Desprezar os primeiros 10% do volume da solução pelo equipo antes de conectar ao paciente e trocar o conjunto a cada 6 horas (SBD, Nota importante 8: a insulina adsorve ao equipo)
    • NÃO administrar bólus endovenoso de insulina antes da infusão (SBD, R12, classe IIa, nível B: início da insulinoterapia em infusão contínua, sem bólus intravenoso inicial)
  4. Hora 3 — o potássio caiu para 4,1 mEq/L, como estava previsto

    Três horas depois: glicemia 430, potássio 4,1, bicarbonato 9, pH 7,15. O potássio entrou na faixa em que a reposição é obrigatória, e essa é a decisão do marco, porque a queda vai continuar. A conta: 20 mEq num litro de salina, com ampola de cloreto de potássio a 19,1% que tem 2,56 mEq por mililitro, são 7,8 mL — pouco menos de uma ampola. Com a bolsa a 250 mL/h isso entrega 5 mEq de potássio por hora; a 500 mL/h, 10 mEq. A régua geral da enfermaria é de 5 a 10 mEq por hora, com monitorização acima de 10 — a cetoacidose trabalha no teto dessa faixa, e é por isso que ele está monitorizado.

    Prescrição
    • Cloreto de sódio 0,9%, 1.000 mL, acrescido de cloreto de potássio 19,1% 7,8 mL (equivalente a 20 mEq de potássio), por via endovenosa, correndo a 250 mL/h — entrega 5 mEq de potássio por hora (critério de potássio do consenso internacional de 2024; dose e monitorização individualizadas)
    • Manter insulina humana regular a 7 mL/h da solução de 1 unidade por mL, equivalente a 7 unidades por hora
    • Potássio sérico a cada 2 horas enquanto a insulina estiver correndo (SBD, Figura 2)
    • Confirmar o potássio da gasometria com dosagem plasmática nas faixas de decisão (SBD, Nota importante 6: a dosagem na gasometria venosa não substitui a plasmática) Use método de eletrólitos validado pelo serviço: o resultado rápido pode orientar a urgência quando confiável; discrepância, hemólise ou dúvida pré-analítica exige confirmação. A ressalva não proíbe universalmente o uso do potássio obtido em analisador de gasometria.
  5. Hora 6 — a glicemia chegou a 230 mg/dL. É aqui que a maioria erra

    Às seis horas, glicemia 230, pH 7,26, bicarbonato 14, Na 138, Cl 108 e K 4,3. O gap é 16. A glicemia menor não encerra o tratamento; conferir beta-hidroxibutirato atual e a evolução da acidose. Associar glicose e reduzir em geral insulina para 0,05 unidade/kg/h enquanto se acompanha a resolução. O aumento de cloro pode contribuir para acidose, por isso não se deve atribuir todo bicarbonato baixo a cetose nem aumentar a insulina por reflexo. A glicose permite manter o tratamento anticetogênico sem hipoglicemia.

    Prescrição
    • Com glicemia <250 mg/dL, reduzir em geral insulina regular IV para 0,05 unidade/kg/h: 3,4 unidades/h nos 68 kg, correspondendo a 3,4 mL/h em concentração final de 1 unidade/mL. Titular pela resposta junto com a oferta de glicose, até resolver cetose e acidose.
    • Soro glicosado 5%, 500 mL por via endovenosa, correndo a 150 mL/h — entrega 7,5 g de glicose por hora (SBD, Nota importante 9: titular as duas infusões para manter a glicemia em torno de 200 mg/dL e não desligar a insulina)
    • Manter cloreto de sódio 0,9% com cloreto de potássio conforme o potássio da última coleta, em paralelo
    • Manter glicemia em torno de 200 mg/dL enquanto a CAD não resolveu, ajustando insulina e glicose, com glicemia de hora em hora. Evitar queda adicional sem suporte de glicose; acompanhar também potássio e cetonemia.
    • Considerar substituir a salina isotônica por solução balanceada, como Ringer com lactato, se o cloro continuar subindo (SBD, R7, classe IIa, nível A: resolução mais rápida e menos acidose hiperclorêmica)
  6. Hora 14 — cetonemia e acidose resolvidas: garantir a cobertura antes da transição

    Glicemia 186, pH 7,34, bicarbonato 19, sódio 139, cloro 108, potássio 4,2. Ânion-gap de 12, cetonemia de 0,4 mmol/L. Ele está acordado, sem náusea, aceitou uma refeição leve, e o precipitante está identificado. Agora vem o passo em que mais se recidiva no país inteiro, e ele é banal: desligar a bomba e prescrever a subcutânea depois. A insulina endovenosa some em minutos; a subcutânea leva de uma a duas horas para agir, e entre uma e outra existe uma janela sem insulina nenhuma em que a lipólise recomeça. A regra é uma só: a subcutânea entra primeiro, a bomba desliga depois. E a cetonúria dele ainda vai estar positiva amanhã de manhã — isso não significa nada.

    Prescrição
    • Insulina humana NPH 100 UI/mL: aplicar 12 unidades por via subcutânea agora e 6 unidades às 22 horas (dose total diária calculada pela infusão: a média das últimas 4 a 6 horas de bom controle foi de 2,5 unidades/h; 2,5 × 24 = 60 unidades/dia; 60% de 60 = 36 unidades/dia, sendo 50% como basal, ou 18 unidades, fracionadas em dois terços pela manhã e um terço à noite — SBD, Nota importante 16)
    • Insulina humana regular 100 UI/mL: aplicar 6 unidades por via subcutânea 30 minutos antes do café da manhã, do almoço e do jantar (os 50% restantes da dose total diária de 36 unidades, ou seja, 18 unidades, divididas pelas três refeições)
    • Aplicar o esquema subcutâneo com cobertura basal e manter a infusão IV por pelo menos 2 horas neste caso com NPH e regular, conforme protocolo de transição. Não desligar a bomba com apenas uma dose prandial ou de correção e sem insulina basal em ação.
    • NÃO usar insulina degludeca nesta transição (SBD, Nota importante 7: meia-vida de 25 horas e duração de 42 horas levam de 3 a 4 dias até o equilíbrio)
    • Suspender o soro glicosado quando a aceitação oral estiver estabelecida; manter hidratação de manutenção conforme necessidade, sem repetir a expansão
    • Glicemia capilar antes das refeições e ao deitar; reavaliar eletrólitos e, se persistirem sintomas ou dúvida de recorrência, gasometria e beta-hidroxibutirato. Não manter a bomba ou prolongar exames apenas por cetonúria positiva ou gap isolado.
    • NÃO acompanhar por cetonúria (SBD, Quadro 8: a negativação da cetonúria não é critério de resolução da cetoacidose)
  7. Dia 2, enfermaria — o esquema que ele vai usar até a alta

    Fora da sala de emergência ele deixa de ser emergência metabólica e passa a ser diabético internado, e a régua muda de capítulo: basal, bólus e correção titulados pela coluna de glicemia capilar, com a leitura por horário que diz qual fração ajustar. Isso tem capítulo próprio nesta apostila. Continuam específicas da cetoacidose duas linhas de segurança que não podem sumir na passagem: a basal nunca é suspensa, mesmo se ele voltar a ficar em jejum, e qualquer novo vômito com dor abdominal pede cetonemia antes de qualquer outra hipótese.

    Prescrição
    • Manter insulina humana NPH 12 unidades às 7 horas e 6 unidades às 22 horas, e insulina humana regular 6 unidades 30 minutos antes de cada uma das três refeições, com escala de correção por cima do bólus
    • A insulina basal NÃO é suspensa em jejum, em nenhuma circunstância (Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 1, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17/2019: no diabetes tipo 1 a insulina é essencial para prevenir cetoacidose, coma e morte. Se o jejum for prolongado, reduzir a basal de 20% a 30% e associar soro glicosado — reduzir é ajuste, zerar é omissão)
    • Cetonemia capilar se houver vômito, dor abdominal ou taquipneia novos, mesmo com glicemia normal (SBD, cetoacidose euglicêmica, R1, classe I)
    • Hemoglobina glicada, se não houver dosagem dos últimos 3 meses (separa o diabetes recém-descoberto do descontrole conhecido e decide o que ele leva na receita)
    • Titulação diária do esquema subcutâneo conforme a coluna de glicemia capilar, segundo a régua do capítulo de hiperglicemia hospitalar desta apostila
  8. Dia 3 — a alta, que é onde a próxima cetoacidose é decidida

    Ele está comendo, sem cetose, com glicemias entre 110 e 190. A tentação é entregar a receita e liberar. Só que o motivo da internação não foi metabólico: foi administrativo — ficou sem receita numa cidade nova e não conseguiu insulina. Alta sem resolver isso repete o episódio em três semanas. A alta de uma cetoacidose tem quatro peças: a insulina, os insumos, o plano escrito para dias de doença e o retorno com data. A terceira é a que quase ninguém escreve.

    Prescrição
    • Insulina humana NPH 100 UI/mL: 12 unidades por via subcutânea às 7 horas e 6 unidades às 22 horas. Insulina humana regular 100 UI/mL: 6 unidades por via subcutânea 30 minutos antes do café da manhã, do almoço e do jantar (esquema basal-bólus com insulinas humanas NPH e regular é o tratamento padrão do diabetes tipo 1 no SUS — Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 17/2019)
    • Receita em duas vias e cadastro na unidade básica para retirada continuada de insulina NPH e regular, tiras reagentes, lancetas, seringas com agulha acoplada e glicosímetro em comodato (Componente Básico da Assistência Farmacêutica)
    • Plano escrito para dias de doença, entregue em papel: nunca suspender a insulina basal, mesmo sem comer; medir glicemia a cada 4 horas; procurar serviço de saúde se houver vômito persistente, dor abdominal, respiração rápida ou impossibilidade de ingerir líquidos (omissão de insulina responde por 21% a 49% dos episódios de cetoacidose)
    • Retorno à unidade básica em 7 dias, com o registro das glicemias; consulta com endocrinologista ou com clínico de referência, e nova hemoglobina glicada em 3 meses (Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 1: acompanhamento regular, no mínimo duas vezes ao ano, é critério de manutenção do tratamento)
    • Orientação de técnica antes da alta: rodízio de locais de aplicação, conservação do frasco, e o que fazer diante de sintomas de hipoglicemia
    • Se houver uso de inibidor de SGLT2, reavaliar a indicação após CAD. Para cirurgia eletiva, interromper pelo menos 3 dias antes (4 dias para ertugliflozina), conforme bula/planejamento perioperatório. Em doença aguda com jejum, vômitos ou desidratação, suspender e avaliar; não usar uma regra genérica de 24 horas nem orientar suspensão apenas por qualquer exercício intenso.
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Como saber se está funcionando

Reavaliar cetoacidose tem um relógio próprio: glicemia de hora em hora, gasometria e eletrólitos a cada duas. É a única frequência em que dá para pegar a hipocalemia induzida pela insulina antes de ela virar arritmia, e a única em que dá para perceber que a infusão não está entregando o que a folha diz.

Leia duas trajetórias: a glicemia orienta o ajuste de insulina e glicose; cetonemia e acidose orientam a resolução da CAD. O gap ajuda a compreender o distúrbio e o cloro ajuda a reconhecer acidose hiperclorêmica. Nenhum desses números substitui perfusão, consciência e investigação do precipitante.

Glicemia capilar — o espelho da infusão de insulinaDe hora em hora, enquanto a bomba estiver correndo

Esperado: Queda de 50 a 70 mg/dL por hora. Depois que entra o soro glicosado, o alvo muda: manter entre 200 e 250 mg/dL até a cetoacidose resolver.

Se não melhora: Queda menor que 50 mg/dL na primeira hora quase nunca é resistência à insulina: é problema técnico. Cheque o acesso, o equipo e se os 10% iniciais foram desprezados; descartado isso, dobre a taxa a cada hora até atingir a queda. Queda maior que 70 mg/dL por hora pede reduzir para 0,07 e depois 0,05 unidade por quilo por hora — mas, se a cetonemia não estiver caindo junto, adicionar glicose é melhor que reduzir a insulina.

Beta-hidroxibutirato e acidose — evolução da CADGasometria e eletrólitos a cada 2 horas no caso grave, com beta-hidroxibutirato seriado, em geral a cada 4 horas, ajustando à disponibilidade e evolução

Esperado: Queda sustentada da cetonemia e melhora da acidose, com estabilidade clínica. Para resolução: beta-hidroxibutirato <0,6 e pH ≥7,3 ou bicarbonato ≥18. A velocidade não deve ser transformada em promessa de resolução em quatro horas.

Se não melhora: Conferir administração de insulina, hidratação, perfusão e tratamento do precipitante. Interpretar cetonas, lactato, função renal, cloro e gap em conjunto. Acidose hiperclorêmica pode persistir após controle da cetose e não responde simplesmente a mais insulina; deterioração clínica exige investigação imediata, sem atribuir toda alteração à salina.

Potássio sérico — o parâmetro que pode matar entre duas coletasA cada 2 horas com a insulina correndo; a cada 1 hora se o potássio de admissão estava abaixo de 3,5 mEq/L

Esperado: Manter-se entre 4 e 5 mEq/L. Espere que ele CAIA: 82% chegam normo ou hipercalêmicos e 63% ficam hipocalêmicos durante o tratamento.

Se não melhora: Se K cair abaixo de 3,5 mEq/L, interromper temporariamente a insulina, repor potássio sob monitorização e reiniciar quando >3,5. Conferir magnésio, perdas, rim e velocidade efetivamente infundida. Anúria ou hipercalemia com alteração de ECG exige abordagem específica, não reposição baseada só na tabela.

Sódio corrigido, cloro e a solução que está correndoA cada 2 horas, junto com a gasometria

Esperado: O sódio medido deve SUBIR conforme a glicemia cai — isso é esperado e não é hipernatremia iatrogênica. O corrigido deve permanecer abaixo de 150 mEq/L.

Se não melhora: Rever volume, perfusão, balanço e trajetória da osmolalidade antes de mudar a tonicidade. Sódio corrigido alto não torna salina hipotônica obrigatória. Com cloro elevado e cetose resolvida, considerar acidose hiperclorêmica e solução balanceada. Queda excessiva de tonicidade ou piora neurológica exige reavaliação imediata.

Nível de consciência — a única piora que muda tudoA cada hora, e obrigatoriamente nas primeiras 12 horas de tratamento

Esperado: Melhora progressiva, acompanhando a correção metabólica.

Se não melhora: Piora neurológica DEPOIS de o tratamento ter começado é edema cerebral até prova em contrário, e ele se desenvolve tipicamente nas primeiras 12 horas — podendo aparecer até 24 a 48 horas depois. Os sinais são cefaleia que começa ou piora, vômito recorrente, irritabilidade, confusão, sonolência que não desperta, incontinência, paralisia de nervo craniano, papiledema e queda da saturação; a tríade de hipertensão, bradicardia e depressão respiratória é tardia. Conduta imediata: manitol de 0,5 a 1 g por quilo — numa criança de 30 quilos, de 75 a 150 mL de manitol a 20% — e vaga em terapia intensiva. É a principal causa de morte por cetoacidose na infância, com 30% de mortalidade e 30% de sequela.

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Onde o erro machuca

Pendurar insulina antes do volume e antes de ver o potássio

O dano: São os dois erros de sequência, e cada um mata de um jeito. Sem o potássio: num paciente que chega com 3,1 mEq/L — e uma parte deles chega abaixo do normal —, a queda adicional provocada pela insulina produz arritmia ventricular, fraqueza da musculatura respiratória e parada cardíaca; num que chega com 5,4, produz uma hipocalemia de 3,2 em duas horas, que ninguém vê se o recontrole for só de manhã. Sem o volume: o paciente tem déficit de cerca de 100 mL por quilo, quase sete litros num adulto, e a insulina antes da expansão piora a perfusão que já está ruim, o que reduz a filtração de glicose e sustenta a hiperglicemia. Há ainda um efeito colateral pedagógico — como a reidratação sozinha derruba a glicemia de 35 a 70 mg/dL por hora, quem começa pelos dois juntos atribui à insulina uma queda que era da água e titula errado.

Como pegar a tempo: Salina isotônica de 15 a 20 mL por quilo na primeira hora, começando antes de qualquer resultado: volume não depende de exame nenhum. E trate a dosagem de potássio como pré-requisito da prescrição de insulina, não como exame de rotina — coleta única no primeiro furo, e a insulina só é escrita depois que o número chega. Abaixo de 3,5 mEq/L, insulina adiada e potássio primeiro; depois de iniciada, potássio a cada 2 horas, e a cada 1 hora se veio abaixo de 3,5.

Desligar a insulina porque a glicemia normalizou

O dano: A glicemia pode cair antes de a cetose resolver. Desligar a insulina sem confirmar resolução e sem cobertura basal pode retomar a cetogênese; manter ou aumentar a infusão apenas porque o gap ou bicarbonato seguem alterados também pode ser inadequado se houver outra causa de acidose. É o conjunto que decide.

Como pegar a tempo: Ao cair a glicemia abaixo de 250 mg/dL, associar glicose e ajustar a insulina, em geral para 0,05 unidade/kg/h. A insulina trata a cetogênese; a glicose permite mantê-la. Para encerrar o tratamento da CAD, conferir beta-hidroxibutirato e acidose, além de estabilidade e cobertura subcutânea. Gap e cetonúria isolados não decidem a transição.

Acompanhar a resposta pela cetonúria

O dano: Quem acompanha pela fita de urina mantém insulina endovenosa desnecessária em paciente já resolvido, ou conclui que o tratamento falhou e aumenta a dose num paciente que está melhorando. A cetonúria pode ficar mais positiva justamente quando o quadro cede, e permanece positiva por horas ou dias depois da resolução.

Como pegar a tempo: Preferir beta-hidroxibutirato sanguíneo para diagnóstico e resposta. Se indisponível, acompanhar clínica, gasometria e eletrólitos, calcular o gap com os valores efetivamente medidos e discutir a transição com o supervisor. Acidose hiperclorêmica após salina pode manter bicarbonato baixo sem cetose persistente; não usar a fita urinária como relógio de resolução.

Desligar a bomba e prescrever a insulina subcutânea depois

O dano: É onde a cetoacidose recidiva com mais frequência, e o mecanismo é aritmético: a insulina endovenosa desaparece em minutos, a subcutânea leva de uma a duas horas para agir, e entre as duas existe uma janela sem insulina nenhuma. A hiperglicemia por interrupção da infusão sem iniciar insulina subcutânea está listada entre as complicações do tratamento da cetoacidose.

Como pegar a tempo: A ordem é fixa: aplica-se a subcutânea primeiro e desliga-se a bomba de 30 a 120 minutos depois — cerca de 1 hora com análogo de ação rápida, 2 horas com insulina regular. Escreva a sobreposição na prescrição, com horário. E não use degludeca nessa transição.

Dar bicarbonato para ajudar a acidose

O dano: A intuição é forte e a evidência é contra. Ensaios randomizados em pacientes com pH acima de 6,9 não mostraram diferença em tempo de resolução, queda de glicemia, queda de cetonemia nem mortalidade — e um deles mostrou atraso na queda dos corpos cetônicos e do lactato no grupo tratado. Os riscos são reais: alcalose metabólica, acidose liquórica paradoxal, edema cerebral, hipóxia tecidual e hipocalemia, que num paciente já em risco é gasolina no fogo. Na criança, o desaconselho é ainda mais forte.

Como pegar a tempo: Não usar bicarbonato rotineiramente. Nesta revisão, considerar em acidemia grave com pH <7,0 conforme consenso 2024, com equipe experiente, monitorização e diluição da tabela. A fonte brasileira citada usa <6,9; nenhum desses limiares autoriza tratar pelo bicarbonato baixo isolado.

Atribuir toda piora neurológica à acidose

O dano: O paciente entra sonolento pela cetoacidose e a equipe aprende a esperar melhora lenta, o que cria um ponto cego: quando ele piora depois de duas horas de tratamento, a piora é lida como a mesma sonolência de antes. Mas piora neurológica após o início do tratamento é a apresentação típica do edema cerebral, que se desenvolve nas primeiras 12 horas e responde por 30% de mortalidade e outros 30% de sequela na criança.

Como pegar a tempo: Registre o nível de consciência de hora em hora, com escala, e trate qualquer piora como evento, não como tendência. Chame ajuda, considere manitol de 0,5 a 1 g por quilo (ISPAD 2022) e garanta leito monitorizado. Sódio medido que cai enquanto a glicemia cai é sinal de alerta e antecede o quadro.

Corrigir a acidose e dar alta sem o precipitante e sem o plano

O dano: É o erro que transforma um episódio em doença de repetição. A omissão de insulina quase nunca é preguiça: é receita vencida, insulina em falta, medo de hipoglicemia, transtorno alimentar, ou ninguém ter explicado que a basal não se suspende quando o paciente para de comer. Alta com a mesma prescrição que ele já não conseguia cumprir devolve o paciente ao cenário que produziu a internação.

Como pegar a tempo: Antes de assinar a alta, responda por escrito: o que precipitou este episódio e foi tratado; com o que ele vai aplicar insulina em casa e como vai consegui-la; o que ele faz num dia de doença, em papel entregue na mão; e quando e onde será reavaliado, com data. Sem a primeira resposta, ele não está de alta.

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O que dizer ao paciente e à família

Três conversas acontecem em toda cetoacidose, e nenhuma é sobre glicemia. A primeira é com quem parou de aplicar insulina e está esperando bronca. A segunda é a do dia seguinte, quando o paciente pergunta por que a insulina continua correndo se o açúcar já está normal. A terceira é a da alta, e é a que decide se ele volta. Comunicar a gravidade à família e dar má notícia têm capítulo próprio nesta apostila.

O erro de comunicação mais comum aqui não é falar demais: é moralizar. Omissão de insulina explica de 21% a 49% dos episódios e quase nunca é descuido puro — é receita vencida, insulina em falta, mudança de cidade, medo de hipoglicemia, vergonha, transtorno alimentar, falta de dinheiro para o transporte até o posto. Quem trata isso como falha de caráter perde o dado que impede a próxima internação.

O paciente jovem que parou de aplicar e está esperando ser repreendido

Eu preciso entender uma coisa com você, e não é para brigar — é porque muda o que eu vou fazer daqui pra frente. Nesses últimos dias, quantas aplicações você conseguiu fazer? Me conta o que atrapalhou: acabou a insulina, a receita venceu, você não conseguiu ir ao posto, estava com medo de baixar demais? No seu caso, a insulina não é para deixar o açúcar bonito no exame: é ela que segura o corpo de produzir esse ácido que te deixou desse jeito. Quando falta por alguns dias, é isso que acontece. Então o que eu quero resolver com você não é só o de hoje — é como garantir que você tenha insulina na mão semana que vem.

Não diga: Evite "você não pode fazer isso": ele sabe, e a frase só ensina a mentir sobre a adesão na próxima consulta. Se a resposta for "esqueci", pergunte o que estava acontecendo na vida dele naqueles oito dias.

"O açúcar já normalizou. Por que continua tomando insulina, e ainda com soro de glicose?"

Essa é uma boa pergunta, e ela confunde muita gente. O açúcar alto era o sintoma mais visível, mas o problema de verdade é o ácido que o corpo produziu — e esse ácido demora bem mais para acabar do que o açúcar demora para descer. Se eu desligasse a insulina agora, em duas ou três horas o corpo voltaria a produzir ácido e a gente recomeçaria do zero. Então eu mantenho a insulina até o exame mostrar que o ácido acabou. Só que, mantendo a insulina, o açúcar cairia demais — e é por isso que eu ligo o soro com glicose junto. O soro não é para tratar o diabetes: é para o açúcar não cair enquanto a insulina termina o serviço.

Não diga: Evite prometer um horário ou responder só com o nome de um exame. Explique que a melhora do açúcar vem antes do controle completo das cetonas e que a equipe acompanhará exames e estado clínico, mantendo insulina segura até organizar a transição.

Diagnóstico novo: a cetoacidose foi a estreia do diabetes

Eu tenho uma informação difícil para dar. O que trouxe seu filho aqui não foi uma virose: os exames mostram que ele tem diabetes tipo 1, e o que aconteceu foi uma complicação dela. Sei que é muito de uma vez. Duas coisas eu posso dizer com segurança agora: isso não foi causado por nada que vocês tenham feito ou deixado de fazer — no diabetes tipo 1 o próprio organismo destrói as células que fabricam insulina, e não tem a ver com doce nem com criação. E ele vai precisar de insulina todos os dias, que é um tratamento que funciona. Agora a prioridade é tirá-lo desta fase aguda. Depois disso, ainda aqui dentro, uma equipe vai ensinar vocês a aplicar, a medir e a reconhecer os sinais — ninguém vai embora daqui sem saber fazer.

Não diga: Evite despejar o plano de tratamento inteiro na conversa da notícia; a família não retém. E evite "controlado" como promessa: prefira dizer o que vai acontecer nos próximos dias.

A conversa da alta: o plano para dias de doença

Antes de você ir, tem uma coisa que eu quero que você leve escrita, porque é ela que evita você voltar aqui. Quando você ficar doente — gripe, virose, vômito, qualquer coisa —, a insulina da noite NÃO se suspende, nem se você não estiver comendo nada. É o contrário do que parece: quando a gente adoece, o corpo precisa de mais insulina, não de menos. O que você faz nesses dias é medir o dedo de quatro em quatro horas e beber líquido em pequenos goles. E procura um serviço de saúde na hora se aparecer vômito que não para, dor forte na barriga, respiração ofegante sem estar cansado, ou se não conseguir segurar líquido nenhum. Está tudo nesse papel. Guarda na carteira.

Não diga: Evite entregar a receita e considerar a orientação dada. O plano de dias de doença vai em papel, com letra legível, lido em voz alta — as três regras, não quinze. E não marque o retorno para daqui a meses: quem sai de uma cetoacidose precisa de alguém olhando os números na primeira semana.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Bólus inicial de insulina antes da infusão contínua

Sem bólus — o texto da recomendação

A recomendação diz que deve ser considerado o início da insulinoterapia em infusão contínua, sem bólus intravenoso inicial, com classe IIa e nível B. O argumento é direto: um ensaio comparou bólus de 0,07 unidade por quilo seguido de infusão de 0,07 por quilo por hora contra infusão direta de 0,07 ou de 0,14 por quilo por hora, e não houve diferença no tempo até a resolução da cetoacidose entre as três abordagens. Estudos retrospectivos que compararam usar ou não o bólus também não mostraram diferença de desfecho.

Sociedade Brasileira de Diabetes — Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética, R12 (classe IIa, nível B)

Bólus opcional — a figura-algoritmo da mesma diretriz

A figura que traz o algoritmo de insulinoterapia do mesmo capítulo escreve a linha assim: insulina regular em bomba de infusão contínua a 0,1 unidade por quilo por hora, e, entre parênteses, bólus opcional de 0,1 unidade por quilo por via endovenosa antes de iniciar a infusão contínua. A prática do bólus vem de protocolos consagrados e sobrevive por uma razão logística real: quando há atraso previsível para montar a bomba, uma dose inicial encurta o intervalo até a insulina começar a agir.

Sociedade Brasileira de Diabetes — Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética, Figura 3 (Manejo da terapia com insulina na CAD)

Como decidir

É uma divergência dentro do mesmo documento, e o texto da recomendação é mais explícito que a figura — comece sem bólus, que é a conduta com melhor apoio e sem custo de eficácia. A pergunta que muda a decisão é operacional, não fisiológica: quanto tempo vai levar até a bomba estar correndo? Se ela já está no leito e a solução fica pronta em dez minutos, não há nada a ganhar com o bólus e há uma dose a mais de risco de hipocalemia e hipoglicemia precoce. Se a insulina precisa ser buscada na farmácia central e a bomba está sendo negociada com outra unidade, o bólus resolve um problema de tempo — desde que o potássio já esteja acima de 3,5 mEq/L, que é a trava que não muda em nenhuma das duas posições. Em criança, prefira não usar bólus: a reposição mais rápida é justamente o que se evita pelo risco de edema cerebral.

Quanto potássio repor por litro de solução

10 a 30 mEq por litro — o texto da recomendação

A recomendação de reposição de potássio determina que, com potássio sérico abaixo de 5,2 mEq/L e débito urinário adequado, se inicie infusão de 10 a 30 mEq por litro de cloreto de potássio, com o objetivo de manter o potássio sérico entre 4 e 5 mEq/L. É a faixa citada também no corpo do capítulo, com a apresentação de cloreto de potássio a 19,1%.

Sociedade Brasileira de Diabetes — Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética, R10 (classe I, nível C)

10 a 20 mEq por litro, com 10 a 30 reservados a quem está abaixo de 3,3 — a figura-algoritmo

A figura de manejo do potássio do mesmo capítulo separa as faixas: com potássio entre 3,3 e 5,2 mEq/L, infundir 10 a 20 mEq de cloreto de potássio a 19,1% a cada litro de salina para manter o potássio entre 4 e 5 mEq/L, com recontrole a cada 2 horas; a faixa mais alta, de 10 a 30 mEq por litro correndo em 1 hora, fica reservada a quem chegou abaixo de 3,3 mEq/L, com recontrole horário e insulina suspensa até o potássio passar de 3,3.

Sociedade Brasileira de Diabetes — Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética, Figura 2 (Manejo da reposição de potássio na CAD)

Como decidir

As duas faixas da SBD acima ficam como comparação de fonte. Para não misturar limiares nos casos, esta revisão adota o consenso internacional de 2024: K abaixo de 3,5 adia insulina até superar 3,5; abaixo de 5,0 inicia-se reposição, com alvo 4–5. Habitualmente são 20–30 mEq por litro em função renal preservada; na hipocalemia que adia insulina, começar reposição controlada de cerca de 10 mEq/h. A dose por litro não é a velocidade: 20 mEq/L a 250 mL/h entrega 5 mEq/h. Conferir limites do acesso, ECG, débito urinário e função renal; não acelerar potássio junto com um bólus de expansão.

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O raciocínio, em voz alta

Sr. Aldemir, 54 anos, 92 kg. Diabetes tipo 2 há onze anos, em metformina e gliclazida. Há quatro dias com disúria e febre; há dois dias parou de comer e passou a vomitar. Chega ao pronto-socorro sonolento, mas despertável. Pressão arterial 92 por 54 mmHg, frequência cardíaca 118, frequência respiratória 28 com respiração ampla, temperatura 38,4 °C, saturação 96% em ar ambiente. Mucosas secas, extremidades frias, dor à percussão lombar à direita. Glicemia capilar 392 mg/dL. Exames: glicemia plasmática 388 mg/dL, pH venoso 7,18, bicarbonato 10 mEq/L, sódio 134 mEq/L, potássio 3,1 mEq/L, cloro 101 mEq/L, ureia 52 mg/dL, creatinina 1,4 mg/dL, cetonemia capilar 4,2 mmol/L, leucócitos 21.400 com desvio. Diurese presente. O plantonista pede que você prescreva.

  1. o que penso antes de escrever qualquer linha

    São três problemas simultâneos: CAD demonstrada por diabetes, cetonemia de 4,2 e acidose; hipocalemia de 3,1 que adia insulina; e infecção urinária com disfunção orgânica que exige tratamento em paralelo. O gap é 134 − (101 + 10) = 23 e ajuda a compreender a acidose, mas a cetonemia e a gasometria, não seu fechamento isolado, vão orientar a resolução. O fato de Aldemir ter diabetes tipo 2 não exclui CAD.

  2. a conta do sódio e da osmolaridade, para saber que doença estou tratando

    Sódio corrigido: a glicemia é 388, abaixo de 400, então uso o fator 1,6 — 134 mais 1,6 vezes 2,88 dá 138,6 mEq/L. Normal, e a salina isotônica continua. Osmolaridade efetiva: duas vezes 134 mais 388 dividido por 18, ou seja, 268 mais 21,6, dando 290 mOsm/L, bem abaixo de 320. Ela não é estado hiperosmolar, apesar de ser tipo 2 e de estar sonolenta — e isso importa por dois motivos: o manejo é o da cetoacidose, e a sonolência com osmolaridade normal me obriga a não atribuir o rebaixamento à crise hiperglicêmica sem antes considerar a sepse.

  3. a decisão que a maioria erra: a insulina fica esperando

    Com potássio de 3,1, a insulina está formalmente contraindicada até corrigir — é a única situação em que se atrasa a insulinoterapia. Repare no desconforto: glicemia de 388, acidose, e eu não vou dar insulina agora. Não é omissão, é sequência. O que entra agora é volume e potássio, e a insulina entra quando o potássio passar de 3,3, o que costuma acontecer em uma ou duas horas de reposição.

  4. a prescrição que eu escrevo agora, com os mililitros

    Em Aldemir, a expansão inicial será fracionada e reavaliada por pressão, perfusão e pulmão. Exemplo operacional com dois acessos: salina 0,9% 1.000 mL em uma hora no primeiro; no segundo, solução preparada com 10 mEq de KCl (3,9 mL da apresentação a 19,1%) em volume final de 500 mL, infundida em uma hora. O total é 1.500 mL e a entrega de potássio é 10 mEq/h; conferir compatibilidade, acesso e protocolo institucional, com monitorização contínua e potássio em uma hora. Não adicionar potássio ao bólus rápido. A infusão de insulina fica prescrita e suspensa, com gatilho K >3,5: regular em concentração final de 1 unidade/mL, iniciar cerca de 9 unidades/h nos 92 kg, com ajuste posterior. Antimicrobiano e culturas do foco urinário correm em paralelo; a coleta não atrasa tratamento urgente.

  5. o que eu NÃO peço, e por quê

    Gasometria venosa é suficiente para avaliar acidose, sem dispensar amostras adequadas de eletrólitos. TC de crânio não é automática, mas déficit focal, convulsão, deterioração ou rebaixamento desproporcional exigem investigação em paralelo ao suporte. A dor abdominal é reexaminada: não se pede amilase por reflexo, nem se espera a resolução da CAD diante de sinais de abdome agudo. A resposta metabólica é acompanhada preferencialmente por beta-hidroxibutirato e gasometria, sem utilizar cetonúria como marcador de resolução.

  6. como a resposta das próximas horas muda o que eu penso

    Com K de 3,6 na segunda hora, iniciar insulina IV a cerca de 9 unidades/h e titular a reposição de potássio, habitualmente 20–30 mEq/L com função renal adequada, conferindo a entrega por hora. Na quarta hora, glicemia de 244: associar glicose e reduzir em geral para 0,05 unidade/kg/h, 4,6 unidades/h. Nas horas seguintes, verificar a tendência de cetonemia, pH, bicarbonato, cloro e perfusão. Se a resposta for insuficiente, conferir bomba, volume e tratamento do precipitante; gap elevado sozinho não autoriza aumentar a insulina. Hipotensão persistente ou deterioração exige manejo de sepse/choque simultâneo, sem esperar normalização metabólica.

  7. por que a resposta reflexa estava errada

    O reflexo, com glicemia de 388 e pH de 7,18, é começar insulina e volume juntos e acrescentar potássio depois, quando ele cair. Aqui isso teria três consequências em cadeia: a insulina levaria o potássio de 3,1 para perto de 2,5 em duas horas, com risco de arritmia numa paciente séptica e taquicárdica; a expansão insuficiente manteria a hipoperfusão, e a glicemia cairia menos do que o esperado, o que provavelmente levaria alguém a aumentar a insulina; e o antibiótico da pielonefrite ficaria para depois da estabilização, quando ele é parte da estabilização. A ordem não é burocracia: é o próprio tratamento.

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Faça você

Dona Selma, 61 anos, 70 quilos, diabetes tipo 2 há quinze anos, em uso de metformina, gliclazida e dapagliflozina. Internou há 18 horas por cetoacidose diabética precipitada por pneumonia, e está em tratamento na sala de emergência com salina, potássio e insulina regular endovenosa em bomba a 0,1 unidade por quilo por hora — 7 unidades por hora, na diluição de 1 unidade por mililitro. Chamou atenção, na admissão, que a glicemia inicial era de apenas 212 mg/dL, com pH de 7,12 e cetonemia de 5,1 mmol/L. Agora, seis horas depois do início da insulina: glicemia de 168 mg/dL, pH de 7,26, bicarbonato de 15 mEq/L, sódio de 139 mEq/L, cloro de 110 mEq/L, potássio de 3,9 mEq/L. Ela está acordada, sem náusea, e diz que está com fome. O residente que assume o plantão olha a glicemia de 168, diz que ela já está compensada, e pede para desligar a bomba e prescrever a insulina subcutânea da manhã.

  1. o que os números dizem quando lidos na ordem certa

    A glicemia de 168 não basta para desligar a bomba. Há acidose, mas falta a cetonemia atual para distinguir cetose persistente de componente hiperclorêmico. O gap é 14, valor que deve ser interpretado com a referência e a albumina, e não prova sozinho que a CAD continua. O uso de dapagliflozina explica por que a hiperglicemia inicial foi discreta e reforça a necessidade de medir cetonas.

  2. o que acontece se a bomba for desligada agora

    Se ainda houver cetose significativa, suspender insulina sem cobertura permite retomada da cetogênese. Se a cetose já resolveu, manter insulina IV apenas pelo bicarbonato baixo de uma acidose hiperclorêmica também pode ser inadequado. A decisão exige recuperar o dado que falta e assegurar cobertura basal na transição; não se decide olhando somente a glicemia ou o gap.

  3. o detalhe do cloro, que explica parte do bicarbonato baixo

    O cloro subiu para 110 mEq/L ao longo de 18 horas de salina isotônica. Parte do bicarbonato ainda baixo é acidose hiperclorêmica pela própria reposição, e não cetose residual - o que muda o que se espera das próximas horas e o que se faz com a solução que está correndo.

  4. conduta: escreva o que você faz nas próximas horas — a infusão de insulina, a solução que corre junto, o que você monitoriza e com que intervalo, e as condições e a ordem exata em que você fará a transição para a insulina subcutânea, com dose

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

Não desligar a bomba apenas pela glicemia de 168. Dosar beta-hidroxibutirato agora, rever eletrólitos, gasometria, perfusão e evolução da pneumonia: o gap de 14 e o cloro de 110 não demonstram sozinhos cetose persistente. Enquanto se esclarece, com K de 3,9, reduzir a insulina para cerca de 0,05 unidade/kg/h — 3,5 unidades/h nos 70 kg, ou 3,5 mL/h em concentração final de 1 unidade/mL — e associar glicose, titulada pela glicemia horária. SG 5% a 150 mL/h fornece 7,5 g/h e é um ponto inicial do exemplo, ajustado junto com os demais volumes. Considerar cristaloide balanceado e repor potássio conforme função renal, tendência e velocidade, buscando 4–5 mEq/L. Manter eletrólitos/gasometria de duas em duas horas neste caso e cetonemia seriada. Suspender dapagliflozina e reavaliar sua indicação com a equipe. Se beta-hidroxibutirato continuar ≥0,6, prosseguir tratando e acompanhando a CAD. Se estiver <0,6, confirmar pH ≥7,3 ou bicarbonato ≥18; acidose persistente exige esclarecer componente hiperclorêmico, renal ou láctico e discutir a transição, sem assumir que aumentar insulina resolve todos esses mecanismos. Uma vez resolvida a crise, estável e com alimentação organizada, calcular um esquema basal e prandial adequado ao peso, função renal e necessidade de insulina de período estável. Não extrapolar automaticamente os 3,5 unidades/h usados para suprimir cetogênese para a dose domiciliar. Exemplo apenas se a necessidade estável realmente sustentar aproximadamente 50 unidades/dia: 25 basais e cerca de 8 antes de cada refeição, ajustadas pela equipe e pelo que ela come. Aplicar a basal e manter a infusão por pelo menos duas horas neste esquema com NPH/regular. Registrar os horários; cetonúria positiva não impede a transição.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Com pH de 7,05, bicarbonato não está indicado por esses critérios. O consenso de 2024 considera seu uso com pH <7,0; a fonte brasileira citada usa <6,9. A diferença não muda a resposta deste caso. Volume, insulina quando o potássio permite e tratamento do precipitante corrigem a CAD; bicarbonato rotineiro não melhora os desfechos e pode agravar hipocalemia.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Reconstrua a primeira hora e confira potássio, dose, concentração e velocidade da insulina. Explique por que glicose pode entrar no soro de uma pessoa com diabetes antes de o tratamento terminar.

Em 30 dias

Resolva um caso com glicemia normalizada e bicarbonato ainda baixo: peça o dado que falta, interprete cloro e cetonas e justifique a transição. Termine com cobertura basal, insumos e plano para dias de doença.

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Agora atenda

Agora atenda: adolescente de 16 anos, 52 quilos, trazido pela avó ao pronto-socorro às 5 da manhã. Há uma semana está bebendo muita água, urinando à noite e emagreceu — a avó achou que era "esticão". Há dois dias vomita e diz que a barriga dói; ontem foi levado a uma unidade de pronto atendimento, recebeu nebulização por "chiado" e voltou para casa. Chega sonolento, respirando fundo e rápido, com hálito adocicado, pressão arterial de 94 por 56 mmHg, frequência cardíaca de 130 e enchimento capilar de 3 segundos. Não tem diagnóstico de diabetes. Glicemia capilar: HI. Conduza: diga o que você colhe e em que ordem, o que você pendura antes de qualquer resultado, qual exame decide se a insulina pode começar, calcule e escreva a prescrição por extenso com diluições e mililitros por hora, defina a monitorização com intervalos, diga o que você faz quando a glicemia chegar a 230 mg/dL — e o que você vigia de hora em hora nas primeiras 12 horas por causa da idade dele.

Cetoacidose diabética — Internato | OsceLabs