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Clínica MédicaEndocrinologia

Diabetes tipo 2 na unidade básica

Diabetes mellitus tipo 2: diagnóstico e tratamento na APS

Quem se rastreia, quantas amostras fecham o diagnóstico, o que se começa e quando se sobe — com a régua que vale de verdade na atenção primária, que é o que está na gaveta da farmácia e o que o SUS financia.

Fontes deste capítulo

Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Diabete Melito Tipo 2, aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21 de fevereiro de 2026 (Relatório de Recomendação nº 1074/2025 da Conitec), 80 páginas

Ministério da Saúde — Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3, 1ª edição eletrônica, 252 páginas

Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica — Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: diabetes mellitus. Cadernos de Atenção Básica nº 36. Brasília, 2013, 1ª edição, tiragem de 50.000 exemplares

Sociedade Brasileira de Diabetes — Rodacki M, Cobas R, Lyra R, Ramos S e colaboradores. Capítulos "Classificação do diabetes", "Diagnóstico do diabetes e rastreamento do diabetes tipo 2", "Tratamento farmacológico da hiperglicemia no DM2" e "Terapia nutricional no pré-diabetes e no diabetes mellitus tipo 2". Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, 2022. ISBN 978-65-5941-622-6, DOI 10.29327/557753.2022-1, -2, -10 e -25

Anvisa — Bula profissional de cloridrato de metformina comprimido 500 mg e 850 mg, Vitamedic Indústria Farmacêutica, registro nº 1.0392.0215, texto atualizado conforme Bula Padrão aprovada em 27 de agosto de 2021

01

Responda antes de ler

Homem de 66 anos com diabetes tipo 2 há sete anos, em uso de metformina 850 mg três vezes ao dia, retorna com hemoglobina glicada de 8,4% e boa adesão. Creatinina com taxa de filtração glomerular estimada de 63 mL/min/1,73 m². Não tem doença cardiovascular. A farmácia da unidade dispõe de glibenclamida 5 mg e de gliclazida de liberação prolongada 30 e 60 mg. Após avaliação individual, decidiu-se acrescentar uma sulfonilureia. Qual opção é preferível entre as disponíveis?

02

O paciente que você vai ver

São 8h20 de uma terça-feira, e a sala 2 ainda cheira ao desinfetante que passaram às sete. O posto atende um bairro em que o hospital mais próximo fica a duas conduções, e a agenda do dia tem dezesseis nomes. Antes do primeiro, a enfermeira Alaíde entra com duas pastas e as apoia na mesa em pilhas separadas, uma de cada lado do teclado, do jeito que ela faz quando quer que você olhe as duas juntas.

“Esses dois são resultado de exame”, ela diz. “Um veio buscar, o outro eu chamei.”

A pasta da esquerda é de Aureliano Catunda, 41 anos, 1,74 m, 88 quilos, vigilante noturno num condomínio há onze anos. Ele nunca teve queixa nenhuma. Fez o exame porque a agente comunitária insistiu numa visita, e o resultado é uma linha só: glicemia de jejum 105 mg/dL. Embaixo do número, impresso pelo laboratório, o valor de referência: até 110 mg/dL. A palavra que o laudo usa para o resultado dele é normal.

A pasta da direita é de Deolinda Pitombeira, 58 anos, 1,58 m, 79 quilos, faz e vende bolo por encomenda no bairro. Ela foi chamada porque o exame veio com o número circulado a caneta pela recepção: glicemia de jejum 268 mg/dL. Quando entra, senta com dificuldade e conta, sem que você pergunte, que emagreceu “umas roupas” nos últimos três meses, que acorda três vezes por noite para urinar e que a vista embaça no fim da tarde, quando está mexendo na massa. Ela acha que é a idade e o cansaço.

Os dois números saíram do mesmo laboratório, no mesmo dia, no mesmo papel. Um vai exigir de você quase nada nesta consulta e uma decisão que vale dez anos. O outro vai exigir uma prescrição hoje, uma conversa difícil e uma sequência de decisões que começa agora e não termina.

E há uma armadilha na pasta da esquerda que não está no número: está no rodapé. O valor de referência impresso pelo laboratório é o de um documento do Ministério da Saúde de 2013, que ainda circula nas unidades e ainda alimenta sistema de laudo. Pela régua que o Brasil usa desde fevereiro de 2026, aquele 105 tem outro nome, outro seguimento e outra consulta. Se você ler o laudo em vez de ler a régua, o Aureliano sai da sala com a informação errada — e volta daqui a três anos, ou não volta.

Este capítulo é sobre a consulta que decide isso: quem se rastreia, com qual exame, quantas vezes é preciso repetir antes de escrever a palavra diabetes no prontuário, o que se começa, quando se sobe, e — o que quase ninguém ensina — quando aquilo que parecia diabetes tipo 2 é outra coisa. A régua aqui não é a da endocrinologia de hospital universitário. É a farmácia da unidade e o que o Sistema Único de Saúde financia.

03

Quem adoece disso

O protocolo brasileiro vigente abre com o tamanho do problema, e o tamanho é o motivo de este capítulo ser de atenção primária e não de ambulatório de especialidade. A prevalência de diabetes entre adultos passou de 14% no mundo em 2022, mais de um bilhão de pessoas. No Brasil, a estimativa é de 12,9%, o que dá mais de 26 milhões de adultos. Cerca de 95% desses casos são de tipo 2.

O número que muda a sua manhã é outro: segundo o atlas da federação internacional de diabetes de 2025, citado pelo protocolo, o Brasil é o sexto país em número absoluto de pessoas com a doença e 31,9% delas não sabem que têm. Quase um em cada três. Eles não estão num ambulatório de endocrinologia esperando vaga. Estão na sala de espera da unidade básica, com queixa de outra coisa, ou não estão em lugar nenhum — e é para achá-los que existe rastreamento.

A doença é insidiosa por construção. Os sinais e sintomas aparecem, em geral, depois dos 40 anos, com evolução lenta, e o intervalo entre o começo da hiperglicemia e o diagnóstico é o intervalo em que as complicações se instalam em silêncio. É por isso que uma parte dos diagnósticos é feita de trás para frente: a primeira manifestação é a albuminúria, a retinopatia achada num exame de rotina, a úlcera no pé que não fecha, o infarto.

As complicações crônicas dão a medida do que se ganha adiando cada uma delas. O diabetes é a causa mais comum de doença renal crônica e responde por cerca de metade dos casos novos de terapia renal substitutiva na maioria dos países desenvolvidos; no censo da Sociedade Brasileira de Nefrologia de 2023, 32% dos pacientes em diálise no Brasil por doença renal crônica tinham diabetes. A incidência de ferida nos pés em pessoas com diabetes varia de 19% a 34%, e mesmo depois de cicatrizada a recorrência chega a 40% em um ano e a 65% em três. As complicações do pé respondem por 40% a 70% de todas as amputações não traumáticas de membro inferior.

Do outro lado da conta está o que o tratamento precoce compra. O protocolo cita o estudo britânico em que o uso de metformina desde o diagnóstico, em pessoas com sobrepeso e obesidade, reduziu em 32% os desfechos relacionados ao diabetes, em 36% a mortalidade por todas as causas e em 36% o infarto do miocárdio, comparado apenas à mudança de modo de vida. O benefício é maior quanto mais cedo se começa — e é exatamente aí que a atenção primária ganha ou perde.

O inimigo que este capítulo persegue tem nome no próprio protocolo: inércia terapêutica. Não é o paciente que não adere; é a consulta que renova a receita sem olhar a hemoglobina glicada, o comprimido que fica em 500 mg por três anos, o exame que se pede e não se lê. Metade das pessoas que atingiram controle com um remédio só vai precisar de um segundo em dois anos, e em nove anos três em cada quatro precisam de mais de um. A doença avança de qualquer jeito; a diferença entre os serviços está em quem sobe a dose junto com ela.

Uma última nota de território, porque ela decide conduta. A atenção primária é a porta de entrada e a coordenadora do cuidado — e, no caso do diabetes tipo 2, é também o lugar onde quase todo o tratamento acontece. Os quatro primeiros degraus terapêuticos deste capítulo cabem inteiros na farmácia da sua unidade. O quinto não cabe, e saber disso na hora de conversar com o paciente é parte do ofício.

04

Por que acontece o que acontece

O diabetes tipo 2 é a soma de duas coisas que andam em velocidades diferentes: uma resistência à ação da insulina, que costuma estar instalada há anos e muda pouco, e uma falência progressiva da célula beta, que muda o tempo todo. Na resistência, o músculo capta menos glicose e o fígado continua produzindo glicose mesmo depois da refeição. A célula beta compensa aumentando a secreção — e é essa compensação que mantém a glicemia normal durante anos de doença já em curso. Some-se a isso a alteração na secreção das incretinas, os hormônios intestinais que amplificam a resposta de insulina à comida.

O que torna a doença progressiva não é a resistência: é a exaustão. O esforço secretor contínuo leva à perda funcional e à apoptose da célula beta. Essa é a frase mais prática do capítulo inteiro, porque explica por que um esquema que funcionou por dois anos para de funcionar sem que nada tenha mudado na vida do paciente, e por que a pergunta certa na consulta de retorno nunca é “está tomando o remédio?” sozinha, e sim “está tomando o remédio, e mesmo assim o número subiu?”.

A metformina age fora da célula beta, e isso decide quase tudo sobre ela. Ela diminui a produção hepática de glicose e aumenta a captação muscular. Como não obriga o pâncreas a secretar insulina, não provoca hipoglicemia quando usada sozinha, não engorda, e reduz a hemoglobina glicada de 1,5% a 2% e a glicemia de jejum de 60 a 70 mg/dL. O efeito adverso que faz o paciente parar é digestivo — diarreia, náusea, gosto metálico, distensão — e depende da velocidade com que se sobe a dose, não da dose final. Daí a titulação lenta ser parte do tratamento, e não uma cortesia.

A acidose láctica é o motivo de todas as contraindicações da metformina, e ela é rara. A droga é eliminada praticamente inalterada pelo rim; quando a filtração cai, a droga acumula, e o acúmulo é o que fecha o caminho. É por isso que o corte de taxa de filtração glomerular importa, que a droga se suspende em sepse, hipotensão, insuficiência hepática descompensada e contraste iodado, e que o desconforto abdominal com câimbra e dispneia num paciente em uso de metformina merece uma pergunta a mais.

As sulfonilureias fazem o oposto: são secretagogos. Fecham o canal de potássio dependente de ATP na célula beta e forçam a liberação de insulina — independentemente de a glicemia estar alta ou baixa naquele momento. Essa independência é toda a explicação da hipoglicemia: o remédio não sabe se o paciente almoçou. Reduzem tanto quanto a metformina, de 1,5% a 2% de hemoglobina glicada, mas cobram em hipoglicemia e em peso. Entre as duas do Sistema Único de Saúde, a gliclazida de liberação prolongada hipoglicemia menos que a glibenclamida, e essa diferença é a razão de a glibenclamida não ser recomendada a partir dos 60 anos.

Os inibidores do cotransportador sódio-glicose 2 trabalham no túbulo proximal do rim: bloqueiam a reabsorção de glicose e sódio e jogam açúcar na urina. Três consequências saem direto do mecanismo. A primeira: a potência depende do rim que filtra, e por isso a eficácia cai quando a taxa de filtração glomerular desce, até deixar de fazer sentido iniciar. A segunda: como não mexem na secreção de insulina, praticamente não causam hipoglicemia, e ainda reduzem um pouco o peso e a pressão. A terceira: urina doce e depleção de volume explicam as infecções geniturinárias, a rara fasciíte necrotizante do períneo e a cetoacidose com glicemia quase normal, para a qual o protocolo pede cautela particular na pessoa idosa.

A insulina não tem teto de eficácia, e essa é a razão de ela ser o degrau que resolve o que nenhum comprimido resolve — e também a razão de ela ser o degrau que mais machuca quando mal titulada. A insulina basal cobre a produção hepática de glicose entre as refeições e no sono; a insulina em bolo cobre a refeição. A separação importa na hora de escolher qual glicemia capilar olhar: a de jejum ajusta a basal, a de duas horas depois da refeição ajusta o bolo. Olhar a glicemia errada é a origem de metade dos ajustes ruins.

Falta o instrumento de medida, porque ele também tem mecanismo. A hemoglobina glicada mede a fração da hemoglobina que se ligou à glicose ao longo da vida da hemácia, e por isso reflete dois a três meses. Tudo o que mexer na vida da hemácia mexe no resultado sem que a glicemia tenha mudado: anemia aguda, hemoglobinopatia, variante de hemoglobina, transfusão, deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase, uso de alfaepoetina, antirretrovirais, insuficiência renal crônica, hemodiálise, segundo e terceiro trimestres de gestação e puerpério. Nessas situações o número existe, é preciso e não quer dizer o que parece.

05

Como se apresenta de verdade

Não existe um quadro clínico do diabetes tipo 2 — existem seis maneiras diferentes de ele chegar à sua sala, e cada uma pede uma conduta distinta na mesma consulta. Reconhecer qual delas está à sua frente é o que separa pedir um exame de fechar um diagnóstico, e fechar um diagnóstico de mandar alguém para a emergência.

As duas primeiras são as mais comuns e as menos parecidas entre si. As três seguintes são as que mais atrasam o diagnóstico. A última é a que não pode esperar.

Percurso de aprendizagem

Primeiro percurso: diagnóstico, avaliação global e indicação imediata de insulina quando houver deficiência clínica importante.

Segundo percurso: plano de alimentação, atividade e medicamentos com objetivos e retorno definidos; comorbidades podem mudar a primeira escolha.

Terceiro percurso: seguimento, prevenção de complicações e desintensificação. Documentos de acesso entram para viabilizar uma indicação clínica já compreendida.

O assintomático, que é a regra

A apresentação mais frequente do diabetes tipo 2 é nenhuma. A doença pode permanecer assintomática por longos períodos, e a hiperglicemia se instala devagar o bastante para que o corpo se acostume. Isso não é curiosidade: é a razão de existir rastreamento, e é a razão de quase um terço das pessoas com diabetes no Brasil não saber que tem.

O paciente assintomático chega de três jeitos. Chega chamado, porque a equipe rastreou. Chega por outra queixa, e o exame vem junto. Ou chega com um exame na mão, pedido por outro serviço, que ninguém explicou. Nos três casos a consulta tem duas tarefas, e não uma: confirmar ou afastar o diagnóstico e, se confirmar, estratificar e começar. Fazer só a primeira e mandar voltar quando puder é a forma mais comum de perder um ano.

Há uma armadilha específica no assintomático, e ela é de método. Como não existe sintoma para corroborar o número, um resultado alterado sozinho não fecha diagnóstico: exige confirmação, e o modo de confirmar é o assunto de uma seção adiante. O que importa registrar aqui é que a ausência de sintoma muda a regra probatória, não a urgência de resolvê-la.

Os sintomas clássicos, e o que cada um significa

Poliúria, polidipsia, perda ponderal não intencional, polifagia e noctúria. São os sintomas que o protocolo chama de clássicos, e cada um tem uma explicação de uma frase que vale ter na ponta da língua, porque é ela que convence o paciente.

A poliúria vem da diurese osmótica: acima de um certo limiar, a glicose filtrada não é toda reabsorvida e arrasta água. A noctúria é a mesma coisa, medida à noite, e é o sintoma que o paciente mais frequentemente considera normal — é a idade, é a próstata. A polidipsia é a resposta à perda de água. A perda de peso não intencional, em quem come igual ou mais, é a assinatura da falta de insulina como hormônio anabólico somada à perda calórica pela urina; em quem tem sobrepeso, ela costuma ser comemorada antes de ser investigada.

A presença desses sintomas muda o processo diagnóstico, e não só o grau de preocupação. Diante de sintomas clássicos e inequívocos, uma glicemia plasmática aleatória de 200 mg/dL ou mais já basta para o diagnóstico, sem segunda amostra — exatamente para não atrasar o tratamento de quem está sintomático.

Dona Deolinda, da abertura, tem quatro dos cinco. Ela não os trouxe como queixa: trouxe como explicação de por que anda cansada.

Os sintomas que ninguém liga ao diabetes

A segunda lista do protocolo é a que atrasa diagnóstico, porque manda o paciente para a farmácia, para a oftalmologia ou para o pronto-atendimento, nunca para a investigação metabólica. Fadiga, fraqueza e letargia. Visão turva. Prurido vulvar ou cutâneo e balanopostite. Infecções de repetição.

A visão turva merece nota, porque é reversível e assusta. A hiperglicemia altera a osmolaridade do cristalino e muda a refração; o paciente troca de óculos e, semanas depois de controlado o açúcar, o grau muda de novo. Isso não é retinopatia, e vale dizer isso a ele para que não gaste o que não tem em lentes que vão sobrar.

O prurido vulvar de repetição e a balanopostite são candidíase favorecida pela glicosúria, e são a queixa que mais frequentemente já passou por três consultas antes de alguém pedir uma glicemia. A mesma lógica vale para infecção urinária de repetição e para furunculose.

Regra prática que cabe na rotina: em toda pessoa acima de 35 anos com candidíase de repetição, infecção urinária de repetição ou lesão de pele que não fecha, uma glicemia de jejum custa pouco e às vezes é a consulta inteira.

Quando a apresentação já é a complicação

Uma parte dos diagnósticos é feita ao contrário: a doença aparece pela lesão que já produziu. Doença renal crônica com albuminúria e perda de função. Parestesias, dor ou câimbra nos membros inferiores. Retinopatia achada num exame de vista. Catarata. Doença aterosclerótica — infarto, acidente vascular cerebral, doença vascular periférica. Todas essas entradas estão listadas pelo protocolo como condições que levantam a suspeita de hiperglicemia.

O que muda na conduta quando o diagnóstico chega assim: não muda o critério laboratorial, mas muda o cronograma. O rastreamento de complicações que normalmente se faz ao diagnóstico e anualmente sai da lista de rotina e vira a razão de aquela pessoa estar ali. E muda a estratificação: uma pessoa com diabetes tipo 2 já é classificada como de alto risco cardiovascular, e passa a muito alto risco se tiver doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral ou doença arterial periférica.

Aqui vale ceder terreno com clareza. O estadiamento e o manejo da doença renal crônica são de Nefrologia, e este capítulo usa a taxa de filtração glomerular e a razão albumina/creatinina para duas coisas apenas: escolher e dosar o fármaco, e saber a hora de encaminhar. O pé já ulcerado, a doença arterial periférica e a retinopatia pertencem a Cirurgia Vascular e a Oftalmologia; aqui você rastreia, examina e encaminha na hora certa.

Quando isso não é diabetes tipo 2

Esta seção existe porque o erro que ela previne é caro e silencioso: tratar com comprimido, como tipo 2, quem precisa de insulina desde o começo. O protocolo diz que o diagnóstico diferencial é clínico e que exames complementares só entram na dúvida, mas lista o que procurar: diabetes tipo 1, formas monogênicas, lipodistrofias e causas secundárias, entre elas o transtorno por uso de álcool e o uso de corticoides.

Os sinais que devem acender a luz são de história, não de laboratório. Pessoa magra, sem história familiar, com sintomas instalados em semanas e não em anos. Perda de peso rápida e desproporcional. Cetonúria. Falha precoce e franca ao primeiro comprimido em quem adere. Diagnóstico antes dos 35 anos sem excesso de peso. Nesses casos o encaminhamento ao endocrinologista é parte da conduta, e a insulina não espera pela vaga.

As causas secundárias são a parte que a atenção primária mais deixa passar, porque a informação está na própria receita do paciente. Corticoide em uso crônico. Antipsicóticos atípicos — o protocolo nomeia clozapina, olanzapina, quetiapina e risperidona como capazes de desencadear diabetes tipo 2. Doença do pâncreas exócrino, incluindo a pancreatite crônica do etilista. Fibrose cística, que tem regra própria de rastreamento e de confirmação. Pessoas vivendo com o vírus da imunodeficiência humana, que se rastreiam independentemente da idade e nas quais alguns antirretrovirais ainda distorcem a hemoglobina glicada.

E há a fronteira de tempo: hiperglicemia detectada pela primeira vez na gestação não se resolve aqui. Rastreamento e manejo pertencem ao capítulo de diabetes mellitus gestacional, em Obstetrícia. O que este capítulo mantém é o outro lado da mesma moeda — quem já tem diabetes tipo 2 e engravida, ou planeja engravidar, interrompe o tratamento não insulínico e passa a insulina, e história prévia de diabetes gestacional ou de recém-nascido com mais de 4 quilos é fator de risco que indica rastreamento fora da gestação.

A apresentação que não pode esperar a próxima consulta

A última forma de apresentação é a que interrompe o roteiro. Desidratação franca, respiração profunda e rápida, dor abdominal, vômitos, sonolência ou confusão, hálito cetônico, glicemia capilar que o aparelho não lê. Nessa hora não se pede hemoglobina glicada nem se discute qual comprimido começar: estabiliza-se e transfere-se, conforme a regulação local.

O protocolo desenha essa fronteira explicitamente: pacientes com diabetes tipo 2 em cetoacidose diabética ou em coma hiperosmolar não estão incluídos nele, porque esse cuidado segue protocolos de urgência — e, depois da alta, essas pessoas voltam para cá. O reconhecimento e o tratamento da cetoacidose e do estado hiperosmolar são do capítulo de cetoacidose diabética, que abre esta apostila. O que você precisa nesta sala é reconhecer, não deixar sair andando e acionar o transporte.

Entre a consulta tranquila e a emergência há uma faixa intermediária que é sua e não se cede: a pessoa com hiperglicemia acentuada, sintomática, mas alerta, hidratada e sem acidose. Hemoglobina glicada acima de 9%, ou glicemia de jejum de 300 mg/dL ou mais, com poliúria, polidipsia e perda de peso, é indicação de começar insulina — e começar insulina na unidade básica é conduta de atenção primária, não motivo de encaminhamento.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação do diabetes tipo 2 tem uma peculiaridade que nenhuma outra doença crônica da atenção primária tem: o exame que rastreia é o mesmo que diagnostica. É por isso que a regra sobre quantas vezes repetir importa tanto. Um número alterado é começo de conversa, não diagnóstico — exceto em duas situações bem definidas, que estão adiante.

As seis seções abaixo respondem, em ordem, às seis perguntas da consulta: em quem pedir, o que pedir, quantas vezes, quando não acreditar no resultado, o que pedir junto e o que examinar com as próprias mãos.

Em quem pedir, e por que a idade mudou

A régua vigente é simples de decorar: rastreie todo mundo a partir dos 35 anos. E rastreie em qualquer idade quem tem sobrepeso ou obesidade e pelo menos um fator de risco.

A lista de fatores de risco do protocolo é maior do que a que se costuma decorar, e três itens dela são recentes o bastante para passarem despercebidos: apneia obstrutiva do sono, privação crônica do sono e ocupação laboral em turno noturno. Os demais são parente de primeiro grau com diabetes, história de doença cardiovascular, estilo de vida sedentário, dislipidemia com colesterol de alta densidade abaixo de 35 mg/dL ou triglicerídeos acima de 250 mg/dL, síndrome dos ovários policísticos, acantose nigricans, doença hepática esteatótica, hipertensão arterial sistêmica, pré-diabetes em exame prévio, história de diabetes gestacional ou de recém-nascido com mais de 4 quilos, terapia antipsicótica e escore finlandês de risco alto ou muito alto.

Fora dessa lista, quatro grupos se rastreiam por si: toda gestante a partir da 24ª semana, pessoas vivendo com o vírus da imunodeficiência humana, pessoas com fibrose cística e pessoas submetidas a transplante de órgãos.

O senhor Aureliano, da abertura, tem 41 anos e trabalha à noite há onze. Pela régua de 2013 que ainda circula impressa nas unidades, o rastreamento por idade começava aos 45, e o excesso de peso só o incluiria se ele tivesse um dos fatores daquela lista antiga, que não menciona turno noturno. Pela régua de 2026, ele entra pela idade, sozinha. É a diferença entre ter sido chamado e não ter sido.

A periodicidade fecha a regra e quase ninguém a escreve no prontuário: quem tem glicemia de jejum normal repete em três anos. Quem tem pré-diabetes recebe orientação de mudança de modo de vida e é reavaliado anualmente. E quem tem três ou mais fatores de risco, mesmo com exames normais, também volta em um ano.

O que pedir: quatro exames, quatro limitações

O método preconizado para rastreamento é a glicemia plasmática de jejum, podendo incluir a hemoglobina glicada conforme a disponibilidade local. Essa frase do protocolo é uma decisão de sistema, não de fisiologia: a glicemia de jejum é barata e está em toda unidade; a glicada é onerosa e nem sempre está.

A glicemia plasmática de jejum exige 8 a 12 horas sem ingestão calórica e tem uma exigência de coleta que quase ninguém cumpre e quase ninguém conhece: a glicose precisa ser medida imediatamente após a coleta; se não for possível, o tubo precisa de inibidor glicolítico, centrifugação imediata e congelamento até a análise. Sangue parado em temperatura ambiente perde glicose pela glicólise das próprias hemácias, e o resultado sai falsamente baixo. É uma explicação plausível para o exame que deu normal em quem tinha sintoma.

A glicemia plasmática aleatória é colhida a qualquer hora, sem jejum, e serve para uma coisa só: diagnosticar rápido quem está sintomático. Valores de 200 mg/dL ou mais na presença de sintomas típicos bastam.

O teste de tolerância à glicose oral usa 75 gramas de glicose anidra por via oral, com medida antes e depois. Tem duas leituras possíveis, em uma hora e em duas horas, e uma exigência de preparo que invalida muitos resultados: nos três dias anteriores o paciente precisa ingerir pelo menos 150 gramas de carboidrato por dia. Quem faz dieta restritiva na véspera para o exame dar bom produz resposta falsamente aumentada à sobrecarga. O protocolo não o elege como preferencial, pelo tempo e pelo desconforto, e o reserva para situações específicas.

A hemoglobina glicada não exige jejum nem preparo e sofre menos com estresse e doença aguda, mas é menos sensível para diagnóstico, é mais cara e não leva em conta a variabilidade individual de glicação: duas pessoas com a mesma glicemia média podem ter glicadas diferentes.

Os cortes estão na tabela do bloco seguinte, e há um detalhe que vale registrar antes: para o teste de tolerância de uma hora, o corte de diabetes é 209 mg/dL, e não 200. É o único número do capítulo que não termina em zero, e é o mais fácil de trocar.

Quantas vezes: a regra das confirmações

Esta é a seção que separa o interno cuidadoso do apressado, e ela tem duas regras: uma para o assintomático e outra para o sintomático.

No assintomático, o diagnóstico exige dois resultados acima do limite: ou o mesmo teste alterado em duas amostras diferentes, ou dois testes diferentes alterados na mesma amostra. A estratégia mais prática, e a que o protocolo recomenda, é pedir glicemia de jejum e hemoglobina glicada na mesma coleta — desde que não exista nenhuma das condições que distorcem a glicada.

O desdobramento é uma árvore de três galhos. Se os dois vierem alterados, o diagnóstico está fechado com uma única punção. Se os dois vierem normais, está afastado. Se apenas um vier alterado, repete-se; e se na repetição tudo estiver normal, o diagnóstico é afastado, mas a pessoa fica em acompanhamento clínico e volta a ser rastreada em um ano.

No sintomático a lógica é outra, porque atrasar custa mais do que errar por excesso. Uma glicemia aleatória de 200 mg/dL ou mais fecha. Alternativamente, fecham glicemia de jejum de 126 mg/dL ou mais e hemoglobina glicada de 6,5% ou mais. Se os valores ficarem abaixo desses limiares e a suspeita persistir, o protocolo manda um segundo teste, o de tolerância à glicose, para resolver a dúvida.

Há uma leitura desta regra que merece cuidado. Ao descrever a alternativa sem a glicemia aleatória, o protocolo liga a glicemia de jejum e a hemoglobina glicada pela conjunção e. Lido ao pé da letra, um paciente sintomático com glicemia de jejum de 300 mg/dL e glicada de 6,3% não estaria confirmado. Na prática, glicemia de jejum de 126 mg/dL ou mais em duas amostras já é diagnóstico por si, e ninguém deixa de tratar 300 mg/dL sintomático por causa de uma glicada discordante — mas a leitura literal está lá, e é o tipo de frase que vira conduta errada quando repetida sem pensar.

Para dona Deolinda, com 268 mg/dL de jejum e quatro sintomas clássicos, a segunda amostra não é obstáculo: colhe-se hemoglobina glicada na mesma consulta, começa-se o tratamento hoje, e o resultado da glicada serve para escolher o degrau, não para autorizar o começo.

Quando não acreditar na hemoglobina glicada

O protocolo traz uma lista fechada de situações em que a correspondência entre a hemoglobina glicada e a glicemia verdadeira se perde, e ela precisa ser lida antes de pedir o exame, não depois de receber o resultado: anemias agudas, hemoglobinopatias, variantes de hemoglobina, transfusões sanguíneas, deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase, uso de alfaepoetina, uso de antirretrovirais — especificamente inibidores da transcriptase reversa análogos de nucleosídeos e inibidores de protease —, insuficiência renal crônica, hemodiálise, segundo e terceiro trimestres da gestação e puerpério.

Nessas condições, e também na fibrose cística, a recomendação é substituir a dupla glicemia de jejum mais glicada pela dupla glicemia de jejum mais teste de tolerância à glicose. São duas linhas no prontuário que evitam meses de tratamento guiado por um número que não descreve o paciente.

Traço falciforme, talassemia menor e anemia ferropriva em tratamento são comuns na população que você atende e caem todas nessa lista. Vale olhar o hemograma antes de pedir a glicada — os dois exames costumam sair no mesmo pacote.

O que se pede junto, e o que cada um decide

Na avaliação inicial, além dos exames que fazem o diagnóstico, o protocolo pede um conjunto que serve para estimar risco cardiovascular e para escolher fármaco: colesterol total, colesterol de baixa densidade, colesterol de alta densidade, triglicerídeos, creatinina com estimativa da taxa de filtração glomerular pela equação de colaboração epidemiológica de doença renal crônica, razão albumina/creatinina em amostra urinária, exame comum de urina e eletrocardiograma.

Dois desses exames mudam a receita no mesmo dia, e por isso não são de rotina: a creatinina, porque a taxa de filtração glomerular decide se a metformina entra em dose plena, em dose reduzida ou não entra; e a razão albumina/creatinina, porque albuminúria é critério de encaminhamento e marcador de risco. Os demais mudam o tratamento das comorbidades, cujo manejo pertence aos capítulos de Dislipidemias e prevenção cardiovascular e de Hipertensão arterial sistêmica desta apostila.

A estratificação de risco cardiovascular tem uma regra que confunde e que o protocolo enuncia com todas as letras: ela não altera a conduta terapêutica do diabetes. A calculadora recomendada no Brasil, para pessoas de 40 a 74 anos, é a da iniciativa de saúde cardiovascular da Organização Pan-Americana da Saúde, de livre acesso, escolhida por ter mostrado a melhor calibração para a população brasileira. Ela serve para decidir o tratamento das outras condições e para organizar o cuidado — não para escolher entre metformina e sulfonilureia.

Abaixo dos 39 anos e acima dos 75, a avaliação é individualizada. Antes dos 40, o protocolo manda considerar de alto risco quem já tem nefropatia ou retinopatia.

O exame que se faz com as mãos

Duas avaliações do diabetes não dependem de laboratório e são as que mais se deixam de fazer na atenção primária: o exame dos pés e a fundoscopia. As duas começam no diagnóstico e se repetem anualmente, no mínimo.

O exame neurológico dos pés procura perda de sensibilidade protetora, e a regra do protocolo é objetiva: pelo menos dois testes, sendo um deles obrigatoriamente o monofilamento de 10 gramas e o segundo à escolha, de preferência o diapasão de 128 Hz. Os outros disponíveis são a sensação tátil de picada e o reflexo aquileu. Junto vão a inspeção da pele e das unhas, a avaliação musculoesquelética das deformidades e a palpação dos pulsos periféricos.

Para dar nome ao que se encontrou, o protocolo adota o escore de comprometimento neuropático, que soma quatro testes em cada pé: sensibilidade vibratória, sensibilidade térmica e dor superficial, cada um valendo 0 ou 1, e reflexo aquileu, valendo 0 se normal, 1 se presente com reforço e 2 se ausente. A soma bilateral vai de 0 a 10, e as faixas são ausente de 0 a 2, leve de 3 a 5, moderada de 6 a 8 e severa de 9 a 10. As contas fecham: 5 pontos possíveis por pé, 10 no total, sem faixa sobrando nem faltando.

O rastreamento da retinopatia começa no momento do diagnóstico do diabetes tipo 2, diferente do tipo 1, em que começa cinco anos depois. A avaliação inicial é feita com pupila dilatada e, no mínimo, retinografia ou mapeamento de retina com biomicroscopia de fundo. Se nada for encontrado, ou se a retinopatia for leve, repete-se anualmente. Programas de fotografia de retina com leitura remota são recomendados justamente para ampliar acesso onde não há oftalmologista.

O que se faz com o achado pertence a outros capítulos, e essa é uma cessão consciente: úlcera, deformidade importante, ausência de pulso, suspeita de isquemia e artropatia de Charcot vão para Cirurgia Vascular, pela via da urgência ou do ambulatório conforme a gravidade; retinopatia proliferativa, maculopatia e perda súbita de visão vão para Oftalmologia. O que é seu, e não se delega, é fazer o exame e pedir o encaminhamento na consulta em que se encontrou o achado, e não na próxima.

07

Os cortes, as contas e as tabelas prontas

Aprenda a construir um plano longitudinal de diabetes tipo 2 que una metas individuais, proteção de órgãos, segurança e acesso. As etapas do caso servem para compreender a intensificação; não representam uma fila obrigatória de medicamentos para todas as pessoas. As contas de insulina abaixo estão feitas por extenso para uma pessoa de 79 quilos — o peso da dona Deolinda, da abertura. Refaça a sua trocando o peso: a conta é a mesma. A primeira tabela existe porque três documentos do Ministério da Saúde convivem hoje nas unidades e dão nomes diferentes ao mesmo número; as notas ao final trazem as conferências feitas nos quadros do protocolo vigente, as que fecharam e as que não fecharam.

  1. 1Rastreie: 35 anos ou mais, ou qualquer idade com sobrepeso ou obesidade e um fator de risco. Peça glicemia plasmática de jejum, e junte a hemoglobina glicada se a unidade tiver.
  2. 2Sintomas clássicos e inequívocos na sala? Glicemia aleatória de 200 mg/dL ou mais fecha o diagnóstico agora, sem segunda amostra. Comece hoje.
  3. 3Sem sintomas: um único exame alterado não fecha nada. Repita o mesmo teste em outra amostra, ou peça dois testes diferentes na mesma coleta.
  4. 4Dois alterados: diabetes tipo 2. Dois normais: descartado. Só um alterado: repita, e se tudo normalizar, descarte e reavalie em um ano.
  5. 5Glicada não serve neste paciente? Anemia, hemoglobinopatia, transfusão, doença renal crônica, hemodiálise, gestação de segundo ou terceiro trimestre, puerpério, alfaepoetina, antirretroviral. Troque por glicemia de jejum mais teste de tolerância.
  6. 6Antes de escrever a primeira receita, pergunte-se se é mesmo tipo 2: magro, jovem, instalação em semanas, cetonúria, corticoide, antipsicótico atípico, doença pancreática. Se for, encaminhe e não espere a vaga para insulinizar.
  7. 7Peça na mesma consulta creatinina com taxa de filtração glomerular estimada e razão albumina/creatinina em amostra urinária. São eles que decidem a dose do primeiro comprimido.
  8. 8Diagnóstico há menos de 3 meses e sem fator de risco: mudança de modo de vida por 3 meses e reavaliação. Diagnóstico há 3 meses ou mais, ou com fator de risco: metformina já, junto com a mudança de modo de vida.
  9. 9Hemoglobina glicada acima de 7,5% ao diagnóstico: pode-se começar direto com combinação — sulfonilureia, inibidor do cotransportador sódio-glicose 2 ou insulina como segunda droga.
  10. 10Hemoglobina glicada acima de 9% ou glicemia de jejum de 300 mg/dL ou mais, com sintomas: insulina basal, agora. Não é falência, é a dose certa da hora.
  11. 11Reavalie o estado glicêmico em 3 meses, e no máximo em 6. Fora da meta significa subir a dose ou acrescentar droga na mesma consulta, e não na próxima.
  12. 12Segunda intensificação em quem tem 40 anos ou mais com doença cardiovascular estabelecida, ou homem com 55 anos ou mais e mulher com 60 anos ou mais com fator de risco: abra o processo de dapagliflozina. Não é receita da unidade, é Componente Especializado.
  13. 13Insulina basal ainda fora da meta com 0,75 U/kg/dia e boa adesão, ou complicação nova, ou taxa de filtração glomerular abaixo de 25: encaminhe, com o que o protocolo pede no papel — glicada com data, creatinina e filtração, lipidograma, risco cardiovascular, doses de insulina, peso e frequência das hipoglicemias.
A decisãoCaderno de Atenção Básica nº 36 (Ministério da Saúde, 2013)Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes (2022)Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (Ministério da Saúde, fevereiro de 2026)
Idade que, sozinha, indica rastreamento45 anos45 anos35 anos
Glicemia de jejum considerada normalabaixo de 110 mg/dLabaixo de 100 mg/dLabaixo de 100 mg/dL
Nome e faixa do estado intermediárioglicemia alterada, acima de 110 e abaixo de 126 mg/dLpré-diabetes, de 100 a 125 mg/dLpré-diabetes, de 100 a 125 mg/dL no quadro de critérios e de 101 a 125 mg/dL no texto corrido
Glicemia de jejum que define diabetes126 mg/dL ou maisacima de 125 mg/dL126 mg/dL ou mais
Hemoglobina glicada que define diabetesacima de 6,5%acima de 6,4%6,5% ou mais
Teste de tolerância, leitura de 1 horanão usanão usadiabetes com 209 mg/dL ou mais; pré-diabetes de 155 a 208 mg/dL
Glicemia que indica insulina já no diagnósticoacima de 300 mg/dL250 mg/dL ou mais, no sintomático300 mg/dL ou mais, ou glicada acima de 9%
Meta de hemoglobina glicada do adultoabaixo de 7%, com alvo de 7% a 7,9% nos casos complexosabaixo de 7%7,0% ou menos no texto corrido; abaixo de 7,0% no quadro de metas

Miligrama, comprimido, unidade e mililitro — o elenco do Sistema Único de Saúde numa pessoa de 79 quilos

Medicamento e apresentação da Rename 2024Como se começaTeto por diaQuanto isso é na mão do paciente
Cloridrato de metformina, comprimido de 500 mg1 comprimido ao dia, durante ou após o café da manhã ou o jantar2.500 mg5 comprimidos ao dia — dois no café, um no almoço e dois no jantar. O teto de 2.550 mg citado pelo protocolo não se faz com este comprimido: daria 5,1 comprimidos
Cloridrato de metformina, comprimido de 850 mg1 comprimido ao dia, durante ou após uma refeição; após 5 a 7 dias, 2 vezes ao dia2.550 mg3 comprimidos, um em cada refeição principal. 850 × 3 = 2.550, que é o teto declarado pelo protocolo e pela bula
Glibenclamida, comprimido de 5 mg5 mg ao dia20 mg4 comprimidos ao dia, em 1 a 2 tomadas. Não recomendada a partir dos 60 anos
Gliclazida de liberação prolongada, comprimidos de 30 mg e 60 mg30 mg ou 60 mg em dose única diária120 mg4 comprimidos de 30 mg ou 2 de 60 mg, em tomada única
Gliclazida, comprimido de 80 mg80 mg ao dia320 mg, posologia que só o caderno de 2013 trazaté 4 comprimidos ao dia, em 1 a 2 tomadas. O protocolo de 2026 lista este comprimido entre os medicamentos e não diz como usá-lo
Dapagliflozina propanodiol, comprimido de 10 mg10 mg em dose única diária10 mg1 comprimido. Não se inicia com taxa de filtração glomerular abaixo de 25 mL/min/1,73 m²
Insulina humana NPH, suspensão injetável 100 UI/mL0,1 a 0,2 U/kg ao deitar, o que dá 7,9 a 15,8 U nesta pessoa; ajuste de 2 U a cada 3 diasmenos de 0,5 U/kg/dia de basal, o que dá 39,5 U; até 0,75 U/kg, ou 59,3 U, na obesidade com resistência importante10 U = 0,10 mL; 20 U = 0,20 mL; 40 U = 0,40 mL. Até 30 U cabem na seringa de 30 U, cuja marcação é de 1 em 1 unidade
Insulina humana regular, solução injetável 100 UI/mL3 a 4 U antes da refeição de maior glicemia pós-prandial, 30 minutos anteso que sobrar da dose total diária depois da basal4 U = 0,04 mL. Numa seringa de 100 U, 4 unidades ocupam quatro marcas — motivo de sempre conferir a seringa com o paciente

O que está na gaveta da unidade e o que exige processo

MedicamentoComponente da Assistência Farmacêutica na Rename 2024Onde o paciente pegaO que muda na sua consulta
Metformina 500 e 850 mg, glibenclamida 5 mg, gliclazida 30, 60 e 80 mgBásicoFarmácia da própria unidade ou da rede municipalVocê prescreve e o paciente sai com o remédio. É por isso que os quatro primeiros degraus deste capítulo cabem na atenção primária
Insulina humana NPH e regular 100 UI/mL, com seringa, agulha e tira reagenteBásicoFarmácia da rede municipalInsulinizar é conduta de unidade básica. As agulhas e as tiras entram na mesma pactuação, e o gestor calcula uma agulha por dia para cada insulina
Metformina 500 mg de liberação prolongadaFora do elenco da Rename; ofertada pelo Programa Farmácia PopularFarmácia privada credenciadaÉ a alternativa para quem não tolera a liberação imediata, e evita subir de degrau por causa de efeito adverso
Dapagliflozina 10 mgEspecializadoFarmácia do componente especializado do estado, mediante processoNão é receita que se entrega hoje. Exige o critério de elegibilidade do protocolo e a abertura do processo — e a conversa com o paciente precisa dizer isso
Insulinas análogas de ação rápida e de ação prolongadaNão constam desta edição da Rename; foram incorporadas ao Sistema Único de Saúde por portarias de 2024, posteriores a elaDepende de notas técnicas de dispensação que o próprio protocolo anuncia que serão publicadasEstão no protocolo e podem ainda não estar na sua rede. Prometer análogo antes de confirmar a disponibilidade local é a forma mais rápida de perder a confiança do paciente
Inibidores da dipeptidil peptidase 4, agonistas do receptor de GLP-1, acarbose, glitazonas e glinidasNão incorporadosNão há oferta pelo Sistema Único de Saúde para diabetes tipo 2O protocolo afirma que as metas podem ser atingidas com o que há. Quando o paciente pergunta pela injeção que emagrece, é esta linha que responde

Metas, por quem está na frente

PerfilHemoglobina glicadaGlicemia de jejumGlicemia ao deitar
Adulto com diabetes tipo 2abaixo de 7,0%80 a 130 mg/dL90 a 150 mg/dL
Idoso saudável — poucas comorbidades, função física e cognitiva preservadasabaixo de 7,5%80 a 130 mg/dL90 a 150 mg/dL
Idoso comprometido — múltiplas comorbidades, comprometimento funcional leve a moderado ou cognitivo moderadoabaixo de 8,0%90 a 150 mg/dL100 a 180 mg/dL
Idoso muito comprometido — doença terminal, insuficiência cardíaca classe IV, oxigenoterapia, diálise, comprometimento graveevitar sintomas de hiperglicemia e de hipoglicemia, sem número100 a 180 mg/dL110 a 200 mg/dL
Glicemia 2 horas após a refeição, em todos os perfis acimaabaixo de 180 mg/dL

A conta de correção de insulina do protocolo, no Quadro 7, está escrita sem parênteses: bolus de correção igual a glicemia atual menos limite superior do objetivo glicêmico dividido pelo fator de correção. Pela precedência das operações, 190 − 130/50 é 190 − 2,6, ou 187,4 unidades. O próprio documento resolve o exemplo do jeito certo na linha seguinte, 190 − 130 = 60, dividido por 50 = 1,2 U, e chega a 8 U somando as 7 U prandiais. A fórmula escrita e o resultado calculado diferem por um fator de 156. Escreva sempre (glicemia atual − alvo) ÷ fator de correção, com os parênteses, e confira o resultado contra o bom senso: bolus de correção de mais de 10 U em paciente ambulatorial é erro de conta até prova em contrário.

O algoritmo de correção pronto do Quadro 8, para quem não faz conta, tem duas linhas que se sobrepõem: menor que 50 subtrai 2 U e menor que 70 subtrai 1 U. Uma glicemia capilar de 45 mg/dL satisfaz as duas, e o quadro não diz qual vale. Há um segundo problema, que é clínico e não aritmético: as duas linhas mandam somar um bolus de correção negativo à dose prandial, o que significa aplicar insulina em quem está com glicemia abaixo de 70 mg/dL. Hipoglicemia se trata com 15 gramas de carboidrato de absorção rápida e se reavalia em 15 minutos, como o próprio protocolo ensina três páginas adiante.

O protocolo define a faixa de pré-diabetes duas vezes e com dois números. No texto do capítulo de rastreamento, pré-diabetes é glicemia de jejum entre 101 e 125 mg/dL, e normal é abaixo de 100; no Quadro 4, de critérios diagnósticos, pré-diabetes é de 100 a 125. Uma glicemia de jejum de exatamente 100 mg/dL é pré-diabetes pelo quadro e não pertence a classe nenhuma pelo texto corrido. Vale o quadro, que é a tabela de critérios: 100 já é pré-diabetes.

A mesma discordância entre texto e quadro reaparece nas metas. O texto diz que o valor esperado de hemoglobina glicada é menor ou igual a 7,0%, e o Quadro 6 diz abaixo de 7,0%. Um paciente com glicada de exatamente 7,0% está na meta pelo texto e fora dela pelo quadro. No idoso a diferença é maior: o texto afirma que são aceitáveis valores entre 7,5% e 8,0%, enquanto o quadro fixa abaixo de 7,5% para o idoso saudável e abaixo de 8,0% para o comprometido — de modo que um idoso saudável com 7,4% está na meta do quadro e abaixo da faixa que o texto chama de aceitável.

O Quadro 11, que escolhe o hipoglicemiante pela função renal, tem cinco colunas — acima de 60 com razão albumina/creatinina acima de 30, depois 59 a 45, 44 a 30, 29 a 20 e abaixo de 20 — e três buracos entre elas. Uma taxa de filtração glomerular de exatamente 60 não cai em coluna nenhuma; 44,5 e 29,5 também não. E falta a coluna do paciente mais comum de todos: quem tem filtração acima de 60 com albuminúria normal, que é a maioria de quem você atende, não aparece na tabela. Some-se que a linha superior afirma que os inibidores do cotransportador sódio-glicose 2 são recomendados atravessando as cinco colunas, inclusive as duas em que o próprio documento proíbe iniciar dapagliflozina, e que a meta de glicada anotada nas duas primeiras colunas, de 7% a 7,9%, contradiz o Quadro 6 do mesmo protocolo.

Sobre sulfonilureia no idoso, o protocolo diz três coisas incompatíveis em menos de uma página. Primeiro, que se recomenda preferencialmente a gliclazida, que é a de liberação prolongada. Depois, que nas pessoas idosas as sulfonilureias de ação curta devem ser evitadas, além das de ação prolongada. E em seguida, que nas circunstâncias em que uma sulfonilureia for usada, as formas de ação curta são preferidas às de ação prolongada. A recomendação que sobrevive ao confronto com o resto do documento, e com a lista de contraindicações, é a primeira: no idoso, gliclazida, e nunca glibenclamida a partir dos 60 anos.

A contraindicação das sulfonilureias por função renal é desfeita pelo parêntese da mesma frase: são contraindicadas com filtração abaixo de 30, entre parênteses, a gliclazida de liberação modificada pode ser considerada com filtração abaixo de 30 desde que com muita cautela e em doses reduzidas. E o Quadro 17, de encaminhamento, manda suspender secretagogos abaixo de 25 e manter insulinoterapia exclusiva, enquanto o Quadro 11 escreve cautela com gliclazida justamente na faixa de 29 a 20. São três instruções do mesmo documento para a mesma paciente.

Ainda no Quadro 17, o critério de encaminhamento conjunto ao endocrinologista e ao nefrologista é doença renal crônica com filtração abaixo de 25, seguido, entre parênteses, do rótulo estágio 4 e 5. O estágio 4 vai de 15 a 29 e o estágio 5 fica abaixo de 15; um paciente com filtração de 28 está no estágio 4 e não alcança o corte de 25. O rótulo entre parênteses descreve uma população maior do que o número que o precede.

A seção de regulação abre afirmando que pacientes com diabetes tipo 2 devem ser atendidos em serviços especializados para diagnóstico, inclusão no protocolo e acompanhamento. Dois parágrafos depois, o mesmo documento diz que a atenção primária é a principal porta de entrada e a coordenadora do cuidado, e o protocolo inteiro é escrito para ela. A primeira frase é texto de formulário, herdado do formato dos protocolos de doenças raras; ler o protocolo como se ela valesse esvaziaria a unidade básica de tudo o que ele ensina.

As portarias que incorporaram as insulinas análogas estão citadas com número trocado. No corpo do protocolo lê-se que os análogos de ação rápida e os de ação prolongada entraram no Sistema Único de Saúde conforme as portarias nº 948/2025 e nº 949/2025, respectivamente. No Apêndice 2 do mesmo documento, os análogos de ação rápida aparecem sob a portaria nº 58/2024, com relatório de recomendação nº 949/2024, e os de ação prolongada sob a portaria nº 59/2024, com relatório nº 948/2024. O corpo trocou o número do relatório pelo da portaria, errou o ano e ainda inverteu a correspondência entre as duas classes. Quem procurar a portaria 948 de 2025 não vai achar. O mesmo Apêndice 2 identifica o relatório de recomendação desta atualização como nº 1075/2025; o relatório publicado pela Conitec traz nº 1074, de dezembro de 2025, na capa e no endereço eletrônico, e o registro de deliberação da reunião que o aprovou é o nº 1076/2025 — o número do apêndice não corresponde a nenhum dos dois.

Três achados menores, e todos com consequência prática. A gliclazida de 80 mg é listada entre os medicamentos do protocolo e não recebe posologia em lugar nenhum dele — a única posologia do Ministério para esse comprimido, que está na Rename 2024 e na prateleira, é a do caderno de 2013: 80 a 320 mg por dia, em uma a duas tomadas. A nota de rodapé do Quadro 15 manda titular a insulina em bolo até glicemia pré-prandial entre 90 e 180 mg/dL, enquanto o texto que a originou fala em glicemia pós-prandial, e a meta pré-prandial do próprio protocolo é 80 a 130. E a coluna dose diária máxima das insulinas em bolo traz maior que 50% da dose total diária de insulina, que é um piso escrito no lugar de um teto.

As conferências abaixo fecharam, e registrar isso importa tanto quanto registrar o que não fechou. O teto de 2.550 mg de metformina corresponde exatamente a três comprimidos de 850 mg, e coincide com a bula. O escore de comprometimento neuropático soma 5 pontos por pé e 10 no total, e as quatro faixas de interpretação cobrem de 0 a 10 sem sobra nem falta. A tabela de critérios diagnósticos da diretriz de sociedade de 2022 é internamente coerente, sem valor órfão entre as faixas — o que torna mais visível a incoerência da tabela oficial. E a busca exata sobre o texto normalizado da Rename 2024 confirma componente e apresentação de cada fármaco citado aqui, inclusive a ausência de qualquer insulina análoga naquela edição.

Um alerta sobre o caderno de 2013, que continua impresso e alimentando sistema de laudo. A tabela de critérios dele deixa a glicemia de jejum de exatamente 110 mg/dL sem classe — normal é abaixo de 110 e glicemia alterada é acima de 110 — e define diabetes pela hemoglobina glicada como acima de 6,5%, de modo que uma glicada de exatamente 6,5%, que é diabetes por todas as réguas atuais, não é diabetes por aquela tabela. E o quadro de efeitos adversos daquele caderno lista, sob cloridrato de metformina, hipotensão postural, hipertensão de rebote na retirada, sedação, distúrbio do sono, sinais e sintomas psicóticos, hepatotoxicidade e anemia hemolítica — que é o perfil de um anti-hipertensivo de ação central, e não o de uma biguanida, cujos efeitos digestivos o próprio caderno descreve corretamente páginas antes. A leitura de que a linha pertence a outro fármaco é deste capítulo; o que está no documento é a lista, e ela segue no ar.

08

A conduta, hora a hora

O tratamento do diabetes tipo 2 na atenção primária é uma sequência de decisões que se repetem a cada três a seis meses pelo resto da vida do paciente. Os oito marcos abaixo seguem a dona Deolinda, da abertura, do dia do resultado até a insulina — mas o que importa neles é a ordem, que não muda de paciente para paciente.

Duas coisas atravessam todos os marcos. A primeira é que mudança de modo de vida não é um degrau que se sobe e se abandona: ela acompanha todos os outros, do diagnóstico ao esquema mais complexo. A segunda é que a decisão de subir é sempre tomada na consulta em que o número aparece fora da meta, e nunca adiada para a próxima — porque adiar é o nome que a inércia terapêutica usa para se apresentar.

Gaveta de medicamentos e insumos ao alcance da mão, separada de uma pasta de documentação.
Escolher o tratamento do diabetes exige discutir eficácia, segurança, acesso e continuidade. Alguns medicamentos e insumos seguem fluxos de dispensação diferentes, com critérios e documentação específicos. A figura representa essa organização; o conteúdo de uma gaveta ou a presença em uma lista não garante disponibilidade local imediata nem define uma sequência universal de tratamento. Ilustração didática original.

Antes de seguir a sequência de medicamentos, construa o perfil da pessoa: sintomas de deficiência de insulina, doença cardiovascular, insuficiência cardíaca, doença renal/albuminúria, risco de hipoglicemia, peso, função e prioridades. A sequência cronológica apresentada ilustra um caso; não obriga quem tem indicação cardiorrenal a esperar todas as etapas nem quem tem catabolismo a aguardar meses por intensificação. Distinguir benefício clínico, contraindicação e possibilidade de acesso faz parte da consulta.

  1. Consulta 1 — o resultado na mesa, e o que se colhe antes de prescrever

    Dona Deolinda chega com glicemia de jejum de 268 mg/dL e quatro sintomas clássicos. Ela é sintomática, e isso encurta o caminho: não é preciso segunda amostra para confirmar. Ainda assim, colhe-se hemoglobina glicada hoje — não para autorizar o tratamento, que começa nesta consulta, mas para escolher qual degrau. Junto vão creatinina com taxa de filtração glomerular estimada, razão albumina/creatinina em amostra urinária, exame comum de urina, colesterol total e frações, triglicerídeos e eletrocardiograma. Antes de escrever a receita, três perguntas rápidas que mudam tudo. É mesmo tipo 2? Ela tem 58 anos, sobrepeso, história familiar e sintomas de meses, não de semanas: é. Existe alguma condição que distorça a hemoglobina glicada? Não há anemia conhecida, não faz diálise, não está grávida: o exame vale. E há sinal de descompensação aguda? Ela está alerta, hidratada, sem dor abdominal, sem vômitos, sem taquipneia: fica aqui. O exame físico da primeira consulta inclui peso, altura, circunferência abdominal, pressão arterial, inspeção dos pés e o teste com monofilamento de 10 gramas. Não é rotina de protocolo: é o marco zero contra o qual você vai comparar tudo daqui em diante.

    Prescrição
    • Hemoglobina glicada.
    • Creatinina sérica com taxa de filtração glomerular estimada pela equação CKD-EPI.
    • Razão albumina/creatinina em amostra urinária e exame comum de urina.
    • Colesterol total, HDL, LDL e triglicerídeos.
    • Eletrocardiograma de repouso.
    • Retorno em 7 dias com os resultados.
  2. Consulta 1, ainda — a decisão de começar, e as duas portas do protocolo

    O protocolo tem duas portas de entrada, e a diferença entre elas é o tempo de diagnóstico e a presença de fator de risco. Para quem foi diagnosticado há menos de três meses e não tem fator de risco, recomenda-se começar exclusivamente com mudança de modo de vida — controle de peso, alimentação adequada e atividade física — e avaliar a resposta em três meses. Para quem tem três meses ou mais de diagnóstico, ou qualquer fator de risco, o tratamento medicamentoso entra desde já, junto com a mudança de modo de vida, com o objetivo explícito de evitar inércia. Dona Deolinda está sintomática e com 268 mg/dL de jejum. Ela não passa pela primeira porta. E o número dela levanta a terceira possibilidade: hemoglobina glicada acima de 9% ou glicemia de jejum de 300 mg/dL ou mais, com sintomas de hiperglicemia, é indicação de insulina basal já. Ela está abaixo de 300, então começa por metformina — mas se a glicada voltar acima de 9%, a insulina entra na consulta seguinte, e não depois de meses de tentativa com comprimido. A mudança de modo de vida que se prescreve não é conselho genérico. O protocolo pede pelo menos 150 minutos semanais de caminhada de intensidade moderada ou alta, sem passar mais de dois dias consecutivos parada, somados a exercício resistido de cinco ou mais exercícios, com um ciclo de 10 a 15 repetições, em duas a três sessões semanais em dias não consecutivos. Na alimentação, o alvo é uma redução de 3% a 7% do peso inicial, com pelo menos 5% em quem tem excesso de peso, e a régua de fibras é de 14 gramas por 1.000 kcal, com mínimo de 25 gramas por dia.

    Prescrição
    • Cloridrato de metformina 850 mg — 1 comprimido por via oral, durante o jantar.
    • Caminhada de 30 minutos, cinco dias por semana, sem passar dois dias seguidos parada.
    • Retorno em 7 dias para subir a dose.
  3. Dia 7 — a titulação da metformina, que é onde o tratamento se ganha ou se perde

    Passados cinco a sete dias sem efeito adverso, a dose sobe para duas vezes ao dia, no café da manhã e no jantar. Se houver desconforto digestivo, a dose desce e se tenta de novo em três a seis meses — e não se abandona a droga na primeira diarreia. O teto efetivo é 850 mg em três refeições, 2.550 mg por dia. Essa titulação lenta existe porque o efeito adverso depende da velocidade da subida, não da dose final. É o mesmo motivo pelo qual a formulação de liberação prolongada, disponível pelo Programa Farmácia Popular, é uma alternativa legítima para quem não tolera a liberação imediata: trocar de formulação é melhor do que subir de degrau por causa de intolerância. A função renal manda na dose. Abaixo de 30 mL/min/1,73 m² a metformina não se usa. Entre 30 e 45, o protocolo limita a 1 grama por dia — e é aqui que o protocolo e a bula do medicamento discordam, o que está detalhado no bloco de divergências. Suspende-se a metformina em internação, em sepse, em hipotensão, em insuficiência hepática descompensada e antes de exame com contraste iodado. A glicada de dona Deolinda voltou em 9,4%, acima de 9%. Isso muda o plano: mantém-se a metformina em titulação e a insulina basal entra agora, no marco 6. Guarde a sequência dos marcos 4 e 5, porque é a que serve à maioria dos seus pacientes, cuja glicada volta entre 7,5% e 9%.

    Prescrição
    • Cloridrato de metformina 850 mg — 1 comprimido por via oral no café da manhã e 1 no jantar, durante as refeições.
    • Se diarreia, náusea ou distensão: voltar a 1 comprimido ao dia e retornar à unidade, sem suspender por conta própria.
    • Retorno em 3 meses com hemoglobina glicada.
  4. Três meses — a segunda droga, e como se escolhe entre as duas sulfonilureias

    Reavalia-se o estado glicêmico em três meses, e no máximo em seis. Se a hemoglobina glicada estiver fora da meta com metformina em dose otimizada e boa adesão, acrescenta-se a segunda droga na mesma consulta. As opções do protocolo como segunda linha são sulfonilureia, inibidor do cotransportador sódio-glicose 2 ou insulina; na farmácia da unidade, na prática, a escolha é entre as duas sulfonilureias. Glibenclamida e gliclazida de liberação prolongada têm eficácia similar, e a diferença que decide é a hipoglicemia: a gliclazida de liberação prolongada hipoglicemia menos, e é preferível em quem tem episódios recorrentes ou risco aumentado. A glibenclamida não é recomendada a partir dos 60 anos — o que, na prática de uma unidade básica, exclui boa parte da fila. Duas armadilhas de prateleira. A primeira é a apresentação: a Rename traz gliclazida de liberação prolongada de 30 e 60 mg, com teto de 120 mg em dose única, e também um comprimido simples de 80 mg, cuja posologia — 80 a 320 mg por dia, em uma a duas tomadas — só aparece no caderno de 2013. Se o que chegou à farmácia foi o comprimido de 80 mg, é essa a régua. A segunda é a conversa: antes de assinar a receita de qualquer sulfonilureia, o paciente precisa saber reconhecer e tratar hipoglicemia, e a orientação sobre álcool entra aqui, porque o etanol inibe a gliconeogênese e a hipoglicemia tardia depois de beber é particularmente relevante em quem usa glibenclamida e gliclazida.

    Prescrição
    • Manter cloridrato de metformina 850 mg — 1 comprimido no café, 1 no almoço e 1 no jantar.
    • Gliclazida de liberação prolongada 60 mg — 1 comprimido por via oral, uma vez ao dia, pela manhã.
    • Orientação escrita de hipoglicemia entregue, lida em voz alta e conferida com o paciente.
    • Retorno em 3 meses com hemoglobina glicada e glicemia de jejum.
  5. Seis a doze meses — a segunda intensificação, e por que ela não sai da sua receita

    Quando metformina e sulfonilureia não bastam, o protocolo abre a porta do inibidor do cotransportador sódio-glicose 2. O medicamento dessa classe disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde é a dapagliflozina, 10 mg em dose única diária, e ela não é para todos: exige necessidade de segunda intensificação mais um de dois critérios. O primeiro critério é ter 40 anos ou mais e doença cardiovascular estabelecida, que o protocolo define nominalmente: infarto agudo do miocárdio prévio, revascularização miocárdica prévia, angioplastia coronariana prévia, angina estável ou instável, acidente vascular cerebral isquêmico prévio, ataque isquêmico transitório prévio ou insuficiência cardíaca com fração de ejeção abaixo de 40%. O segundo é ser homem com 55 anos ou mais, ou mulher com 60 anos ou mais, com alto risco cardiovascular definido por pelo menos um entre hipertensão arterial, dislipidemia e tabagismo. Duas restrições fecham a indicação. Não se inicia dapagliflozina com taxa de filtração glomerular abaixo de 25 mL/min/1,73 m², e a eficácia glicêmica já é menor abaixo de 45. E, na pessoa idosa, o protocolo pede cautela com a classe inteira, pelo risco maior de cetoacidose com glicemia quase normal e de infecção geniturinária, principalmente nas mulheres no primeiro mês. O ponto que muda a conversa na sala: a dapagliflozina não pertence ao Componente Básico, e sim ao Especializado. Ela não sai da farmácia da unidade com a sua receita. Exige processo, e o paciente precisa ouvir isso de você, com o prazo real da sua rede, na consulta em que a indicação aparece.

    Prescrição
    • Dapagliflozina 10 mg — 1 comprimido por via oral, uma vez ao dia.
    • Laudo do Componente Especializado preenchido com o critério de elegibilidade que o paciente cumpre, nomeado por extenso.
    • Manter cloridrato de metformina e gliclazida de liberação prolongada enquanto o processo corre.
    • Definir retorno clínico conforme controle e sintomas, com checagem do acesso em prazo curto pela equipe; não esperar três meses para descobrir indeferimento. Manter plano de tratamento efetivo enquanto o processo tramita e orientar quando procurar atendimento antes.
  6. A insulina basal — quando entra, com quanto se começa e como se sobe

    A insulina entra quando os hipoglicemiantes orais disponíveis não dão conta, e entra antes disso em três situações: hemoglobina glicada acima de 9% ou glicemia de jejum de 300 mg/dL ou mais, sintomas de hiperglicemia aguda, ou intercorrência e internação decorrentes do diabetes. É o caso de dona Deolinda, com 9,4%. Começa-se com insulina humana NPH à noite, antes de dormir — por volta das 22 horas, ou oito horas antes do café da manhã. A dose inicial é 10 U, ou 0,1 a 0,2 U/kg. Nos 79 quilos dela, isso dá 7,9 a 15,8 U; começar com 10 U é escolha razoável e fácil de contar na seringa. A titulação é a parte que se ensina ao paciente, não se faz por ele: mais 2 U a cada três dias, guiado pela glicemia capilar de jejum, até chegar à faixa de 80 a 130 mg/dL. Se a glicemia de jejum ficar abaixo de 70, ou se houver hipoglicemia noturna, desce-se 2 a 4 U. Os hipoglicemiantes orais podem ser mantidos; a metformina em especial deve ser mantida, salvo contraindicação. Se a glicemia de jejum entrar na meta e a glicada continuar alta, acrescenta-se a segunda dose de NPH pela manhã. A regra do protocolo é aritmética: toma-se 80% da dose noturna total e distribui-se dois terços pela manhã e um terço à noite — de 30 U ao deitar saem 24 U, sendo 16 U pela manhã e 8 U à noite. A dose da manhã é titulada pela glicemia antes do jantar, com 1 a 3 U a cada três dias, para o mesmo alvo de 80 a 130 mg/dL. Sinais de que a basal já está em excesso, e de que o problema não é dose: mais de 0,5 U/kg/dia, queda de mais de 50 mg/dL entre o deitar e o despertar, glicemia pós-prandial acima de 180 com glicemia de jejum na meta, glicada acima da meta com jejum na meta, e hipoglicemia. Nesses casos, subir a basal piora.

    Prescrição
    • Insulina humana NPH 100 UI/mL — 10 U por via subcutânea às 22 horas.
    • Aumentar 2 U a cada 3 dias enquanto a glicemia capilar de jejum estiver acima de 130 mg/dL.
    • Reduzir 2 a 4 U se a glicemia de jejum ficar abaixo de 70 mg/dL ou houver sintoma noturno.
    • Glicemia capilar de jejum diária, anotada em papel, trazida no retorno.
    • Manter cloridrato de metformina 850 mg no café da manhã e no jantar.
    • Seringa de 30 U, agulha e tiras reagentes dispensadas na unidade; técnica de aplicação demonstrada e repetida pelo paciente.
  7. A insulina em bolo — a decisão que já é do limite da atenção primária

    Quando as duas doses de NPH estão tituladas, a glicemia de jejum está na meta e a hemoglobina glicada continua acima do alvo, o problema mudou de lugar: está depois das refeições. O protocolo pede seis glicemias no dia — antes e duas horas depois do café, do almoço e do jantar — para achar qual refeição produz a maior glicemia pós-prandial, e é nela que entra a primeira dose de insulina em bolo, de 3 a 4 U. A insulina humana regular exige meia hora de antecedência em relação ao prato; os análogos de ação rápida vão de 15 minutos antes até o momento de comer. Titula-se com 1 U duas vezes por semana. A segunda e a terceira doses entram nas refeições cujas glicemias pós-prandiais passem de 180 mg/dL, e é preciso lembrar de reduzir a dose noturna de NPH depois que a glicemia após o jantar se ajustar. Este marco é uma fronteira, e vale reconhecê-la. O próprio protocolo lista, entre os critérios de encaminhamento ao endocrinologista, o paciente sem controle adequado em uso de 0,75 U/kg/dia ou mais de insulina basal, com boa adesão e com hipoglicemias — nomeando como exemplo justamente os casos que requerem esquemas mais complexos, como a introdução da insulina em bolo. Nos 79 quilos de dona Deolinda, 0,75 U/kg são 59,3 U por dia. Iniciar bolo na unidade básica é possível e é feito. Iniciar bolo sem automonitorização, sem o paciente saber contar unidades na seringa e sem quem atenda o telefone quando a glicemia cair é o que não se faz.

    Prescrição
    • Perfil de 6 glicemias capilares em um dia típico — antes e 2 horas depois do café, do almoço e do jantar.
    • Insulina humana regular 100 UI/mL — 4 U por via subcutânea 30 minutos antes da refeição de maior glicemia pós-prandial.
    • Aumentar 1 U duas vezes por semana até a glicemia pós-prandial ficar abaixo de 180 mg/dL.
    • Reavaliar a dose noturna de NPH depois que a glicemia após o jantar se ajustar.
    • Manter cloridrato de metformina.
  8. Toda consulta — o que se olha antes de renovar qualquer receita

    A consulta de acompanhamento tem um mínimo obrigatório em toda visita: peso, pressão arterial e a estratificação de risco cardiovascular. A hemoglobina glicada e a glicemia de jejum se repetem a cada seis meses quando o paciente está na meta, e a cada três meses quando não está — e estar fora da meta com dosagem de três em três meses significa intensificar o tratamento, não apenas dosar mais vezes. Anualmente entram colesterol total, triglicerídeos, colesterol de alta e de baixa densidade, creatinina sérica, albuminúria, o exame neurológico dos membros inferiores e a fundoscopia. A automonitorização da glicemia capilar é recomendada para quem usa insulina; em quem usa apenas antidiabéticos orais, os estudos citados pelo protocolo não mostram benefício significativo, e insistir nela consome tira reagente e paciência sem mudar desfecho. E há a desprescrição, que o protocolo trata como conduta e não como recuo. O tratamento se reavalia periodicamente, e reduzir ou retirar fármaco é indicado quando o risco de evento adverso supera o benefício — especialmente na polifarmácia, na fragilidade e diante de mudança do estado clínico. No idoso muito comprometido, a meta deixa de ser um número e passa a ser evitar sintoma de hiperglicemia e de hipoglicemia.

    Prescrição
    • Em toda consulta: peso, pressão arterial, revisão da adesão e pergunta dirigida sobre hipoglicemia.
    • A cada 6 meses na meta, e a cada 3 meses fora dela: hemoglobina glicada e glicemia plasmática de jejum.
    • Anualmente: colesterol total e frações, triglicerídeos, creatinina com filtração estimada e albuminúria.
    • Avaliação completa dos pés pelo menos anual e inspeção/seguimento mais frequentes conforme neuropatia, ferida, deformidade ou doença vascular; avaliação de retina desde o diagnóstico e intervalo orientado pelos achados e pela equipe.
    • Reavaliar a cada consulta se algum medicamento deve ser reduzido ou retirado.
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Como saber se está funcionando

Sete parâmetros governam o acompanhamento, e cada um tem um prazo próprio e uma pergunta própria quando não melhora. A tabela abaixo é a que se consulta quando o paciente retorna e o número não fez o que se esperava.

Uma regra vale para todos eles: se o número está fora da meta e a adesão é boa, o problema é a dose ou o degrau — e a decisão se toma nesta consulta.

Hemoglobina glicadaA cada 6 meses quando dentro da meta; a cada 3 meses quando fora. Nunca antes de 3 meses de uma mudança de dose, porque ela reflete 2 a 3 meses.

Esperado: Abaixo de 7,0% no adulto; abaixo de 7,5% no idoso saudável; abaixo de 8,0% no idoso comprometido; sem número no idoso muito comprometido, em que a meta é ausência de sintoma.

Se não melhora: Confira adesão e técnica antes de subir. Depois disso, intensifique na mesma consulta: aumente a dose, acrescente droga ou insulinize. Se a glicada está alta e a glicemia de jejum está na meta, o problema é pós-prandial — suba bolo, não basal. Se houver anemia, hemoglobinopatia, doença renal crônica ou diálise, desconfie do exame antes de desconfiar do paciente.

Glicemia capilar de jejum, na automonitorizaçãoDiária durante a titulação da insulina basal; e sempre que houver sintoma de hipoglicemia. Não é recomendada em quem usa apenas antidiabéticos orais.

Esperado: 80 a 130 mg/dL no adulto e no idoso saudável; 90 a 150 no idoso comprometido; 100 a 180 no muito comprometido.

Se não melhora: Acima da meta: suba 2 U a cada 3 dias. Abaixo de 70, ou com hipoglicemia noturna: desça 2 a 4 U. Se a queda entre o deitar e o despertar passar de 50 mg/dL, a basal está alta mesmo com jejum aparentemente aceitável — investigue hipoglicemia noturna antes de subir.

Episódios de hipoglicemiaPerguntar em toda consulta, com pergunta aberta e depois dirigida: tontura, tremor, suor frio, fome súbita, confusão, acordar molhado de suor.

Esperado: Nenhum evento de nível 2 — abaixo de 54 mg/dL — e nenhum evento grave, que é o que exige ajuda de terceiro, independentemente do valor.

Se não melhora: Hipoglicemia recorrente é motivo para afrouxar a meta, e não para insistir. Troque glibenclamida por gliclazida de liberação prolongada; reduza a basal; reveja horários de refeição e consumo de álcool. Hipoglicemia assintomática — sem os sinais autonômicos de alerta — é condição funcional e reversível, e exige metas mais frouxas por algumas semanas.

Peso e circunferência abdominalEm cada consulta.

Esperado: Redução de 3% a 7% do peso inicial, e pelo menos 5% em quem tem excesso de peso. Acima de 10% mantidos, há chance de remissão do diabetes tipo 2.

Se não melhora: Ganho de peso em quem começou sulfonilureia ou insulina é efeito esperado da droga, e não falha de disciplina — diga isso ao paciente antes que ele abandone o tratamento. Perda de peso não intencional em quem estava estável é sinal de alarme: investigue descontrole glicêmico, neoplasia e, no idoso em uso de metformina, intolerância com risco nutricional.

Taxa de filtração glomerular e razão albumina/creatininaAo diagnóstico e anualmente; de uma a quatro vezes por ano conforme o risco individual.

Esperado: Filtração estável e razão albumina/creatinina abaixo de 30 mg/g.

Se não melhora: A filtração manda na receita: abaixo de 45, reveja a dose de metformina; abaixo de 30, suspenda-a; abaixo de 25, não se inicia dapagliflozina e o encaminhamento conjunto a endocrinologista e nefrologista está indicado. Queda de mais de 30% da filtração pede suspensão e investigação de estenose de artéria renal. Perda de mais de 5 mL/min/1,73 m² em seis meses, confirmada em dois exames com filtração abaixo de 60, e macroalbuminúria são critérios de nefrologia.

Exame dos pésAo diagnóstico e anualmente, no mínimo. Mais frequentemente conforme a estratificação de risco do pé.

Esperado: Sensibilidade protetora preservada em pelo menos dois testes, sendo um o monofilamento; pulsos presentes; pele íntegra; sem deformidade nova.

Se não melhora: Perda de sensibilidade muda o cuidado, não só o registro: entra a orientação de inspeção diária dos pés e do interior do calçado, secagem entre os dedos, corte adequado das unhas e proibição de andar descalço. Úlcera infectada, infecção em expansão, isquemia crítica, gangrena, suspeita de artropatia de Charcot aguda ou edema e rubor não explicados vão para a urgência. Deformidade importante, ausência de pulso e suspeita de isquemia vão para o ambulatório de cirurgia vascular.

FundoscopiaAo diagnóstico do diabetes tipo 2 e anualmente. Mais frequentemente na retinopatia moderada ou grave.

Esperado: Sem retinopatia, ou retinopatia não proliferativa leve — apenas microaneurismas.

Se não melhora: Retinopatia proliferativa, pré-proliferativa grave e suspeita de maculopatia são encaminhamento ao oftalmologista. Perda súbita de visão, hemorragia pré-retiniana ou vítrea e descolamento de retina, com percepção de luzes piscando, corpos flutuantes ou sombra sobre parte do campo, exigem avaliação imediata. Mulher com diabetes que engravida, ou que planeja engravidar, precisa de aconselhamento sobre retinopatia e de exame oftalmológico.

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Onde o erro machuca

Fechar o diagnóstico de diabetes com um único exame alterado num paciente sem sintomas

O dano: Um rótulo que não sai mais do prontuário, um comprimido para a vida inteira e, com alguma frequência, um erro: glicemia de jejum tem reprodutibilidade menor do que a hemoglobina glicada, e a coleta malfeita — sangue parado antes da análise — muda o resultado nas duas direções.

Como pegar a tempo: No assintomático, exija dois resultados alterados: o mesmo teste em duas amostras, ou dois testes na mesma coleta. Pedir glicemia de jejum e hemoglobina glicada na mesma punção resolve com uma única ida ao laboratório, e é o que o protocolo recomenda.

Chamar de normal a glicemia de jejum de 105 mg/dL porque o laudo do laboratório traz valor de referência até 110

O dano: O paciente sai com a informação de que está bem, e volta em três anos ou não volta. Perde-se a janela em que mudança de modo de vida ainda muda a história natural, e perde-se a reavaliação anual que o pré-diabetes exige.

Como pegar a tempo: O valor de referência impresso no laudo não é a régua clínica: 110 vem do caderno de 2013, que ainda alimenta sistema de laboratório. Pela régua vigente, de 100 a 125 é pré-diabetes, com orientação de modo de vida e reavaliação em um ano. Leia o número, não o adjetivo.

Manter metformina 500 mg uma vez ao dia por anos, renovando a receita sem olhar a hemoglobina glicada

O dano: É a inércia terapêutica em estado puro, e ela é responsável por uma parte grande das complicações crônicas. A doença é progressiva por natureza: metade de quem controlou com uma droga precisa da segunda em dois anos, e três em cada quatro precisam de mais de uma em nove anos.

Como pegar a tempo: Nenhuma receita se renova sem uma hemoglobina glicada com data. Fora da meta com boa adesão significa subir dose ou acrescentar droga naquela consulta. Marque a reavaliação em três meses, e no máximo em seis, no próprio papel da receita.

Prescrever glibenclamida ao paciente com 60 anos ou mais porque é o que tem na farmácia

O dano: Hipoglicemia, que no idoso raramente se apresenta com tremor e suor: apresenta-se como queda, confusão, sonolência ou déficit focal transitório, e chega ao pronto-socorro com outro diagnóstico. Hipoglicemia grave se associa a risco aumentado de demência.

Como pegar a tempo: O protocolo diz que a glibenclamida não é recomendada a partir dos 60 anos e que, no idoso, a preferência é gliclazida. Se a unidade só tem glibenclamida, isso é um problema de assistência farmacêutica que se resolve por escrito com a coordenação — não se resolve prescrevendo assim mesmo.

Prometer dapagliflozina na consulta, como quem entrega uma receita

O dano: O paciente sai acreditando que vai buscar o remédio na farmácia da unidade, não encontra, e a próxima consulta começa com a confiança quebrada. Pior: alguns param os medicamentos que estavam funcionando enquanto esperam o que não chegou.

Como pegar a tempo: Dapagliflozina é Componente Especializado e depende de processo e de critérios de elegibilidade — 40 anos ou mais com doença cardiovascular estabelecida, ou homem com 55 e mulher com 60 anos ou mais com fator de risco, sempre em segunda intensificação. Diga isso na consulta, com o prazo real da sua rede, e mantenha o esquema atual funcionando enquanto o processo corre.

Guiar o tratamento pela hemoglobina glicada em quem tem doença renal crônica, anemia, hemoglobinopatia ou está em diálise

O dano: O número existe, é preciso, e não descreve o paciente. Trata-se meses a mais ou meses a menos com base em um exame que perdeu a correspondência com a glicemia — e o preço, quando o erro é para mais, é hipoglicemia.

Como pegar a tempo: Confira a lista de condições que distorcem a glicada antes de pedi-la, não depois de recebê-la. Nessas situações, o protocolo recomenda glicemia de jejum somada ao teste de tolerância à glicose, e a automonitorização capilar passa a valer mais do que a glicada.

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O que dizer ao paciente e à família

O diabetes tipo 2 é uma doença que se trata pela conversa tanto quanto pela receita, porque quase tudo o que decide o desfecho acontece fora da sala: a comida, a caminhada, o comprimido tomado, a seringa preenchida, o pé olhado. As sete falas abaixo são as que mais aparecem numa manhã de unidade básica.

Nenhuma delas é roteiro para decorar. O que se aproveita é a estrutura: dizer a informação com clareza, dizer o que ela significa para aquela pessoa, e perguntar o que ela entendeu.

Dizer o diagnóstico a quem veio buscar um resultado

“A senhora tem diabetes tipo 2. Eu sei que a senhora veio buscar um papel e está saindo com um diagnóstico, e isso é muito para uma manhã só. O que esse exame mostra é que o açúcar no seu sangue está alto há um tempo — não desde ontem, e não por causa de nada que a senhora comeu na semana passada. Isso explica a sede, o xixi de madrugada e o peso que a senhora perdeu sem querer. É uma doença que dá para controlar bem, e a maior parte do controle a gente vai fazer aqui mesmo, nesta unidade. Hoje a gente começa. A senhora quer me perguntar alguma coisa antes de eu explicar o tratamento?”

Não diga: Não use “um pouquinho de açúcar no sangue”, “diabetes leve” nem “pré-diabetes” como amortecedor quando o diagnóstico está fechado. Também não abra pelo prognóstico ruim — amputação, cegueira, diálise — na consulta em que a pessoa recebe a notícia.

Explicar por que é preciso repetir o exame em quem não tem sintoma nenhum

“O seu exame veio alterado, e eu preciso de um segundo antes de dizer que o senhor tem diabetes. Não é desconfiança do laboratório: é que esse exame varia de um dia para o outro, e diabetes é um diagnóstico que fica no seu prontuário para sempre e muda remédio, muda consulta, às vezes muda plano de saúde e emprego. Se eu pedir os dois exames na mesma coleta — o de jejum e o que mostra a média de três meses —, o senhor faz uma picada só e a gente resolve. Se os dois vierem alterados, está fechado. Se os dois vierem normais, está descartado.”

Não diga: Não mande o paciente “repetir daqui a uns meses” sem marcar a coleta e sem marcar o retorno. Repetição sem data agendada é a forma educada de perder o paciente.

Dizer a quem tem pré-diabetes que não vai levar remédio, sem que ele ouça que não tem nada

“O seu açúcar não está normal, e também não é diabetes. Está numa faixa no meio, que a gente chama de pré-diabetes. Isso quer dizer duas coisas: hoje o senhor não precisa de comprimido, e o que o senhor fizer neste ano decide se vai precisar. Perder de três a cinco quilos e caminhar meia hora, cinco dias por semana, muda essa faixa mais do que qualquer remédio que eu pudesse receitar agora. Eu vou anotar isso aqui e vou te ver daqui a um ano com o exame repetido — e se aparecer sede, xixi demais ou perda de peso antes disso, o senhor volta sem esperar a data.”

Não diga: Não diga “está quase normal” nem “só precisa maneirar”. O paciente que sai achando que está bem não volta em um ano, e a reavaliação anual é a única coisa que essa consulta produziu.

Antes de assinar a primeira receita de sulfonilureia

“Esse segundo comprimido faz uma coisa que o primeiro não fazia: ele obriga o seu pâncreas a soltar insulina, tenha o senhor comido ou não. Por isso ele pode baixar demais o açúcar. Se der tremor, suor frio, tontura, fome de repente ou coração acelerado, é isso — e o que resolve é uma colher de sopa de açúcar, ou meio copo de suco, ou meio copo de refrigerante comum. Espera quinze minutos e mede de novo; se não melhorou, repete. E o senhor não pula refeição por causa do trabalho. Bebida alcoólica também baixa o açúcar, e o pior é que ela baixa horas depois, quando o senhor já está dormindo.”

Não diga: Não entregue a receita e diga “qualquer coisa procure a unidade”. A orientação de hipoglicemia é parte da prescrição, precisa ser dita, escrita e conferida — de preferência com alguém da casa presente.

Quando chega a hora da insulina, e o paciente ouve isso como sentença

“A insulina não é castigo e não é o fim da linha. O que aconteceu com a senhora acontece com quase todo mundo: essa doença cansa o pâncreas com o tempo, e chega um ponto em que comprimido nenhum consegue mais fazer o pâncreas produzir o que falta. Aí a gente repõe o que falta, que é a insulina. Não quer dizer que a senhora fez errado, e não quer dizer que é para sempre em dose alta — a gente vai começar com uma dose pequena, à noite, e subir devagar, com a senhora medindo o dedo em jejum. E o remédio de comprimido continua.”

Não diga: Não diga “vamos ter que partir para a insulina”, nem use insulina como ameaça em consulta anterior — “se a senhora não se cuidar, vai para a injeção”. Quem foi ameaçado com insulina resiste a ela quando ela é necessária.

Quando o paciente pede o remédio novo que viu na televisão

“Eu sei de qual remédio o senhor está falando, e eu entendo. Existem duas famílias novas: uma delas o Sistema Único de Saúde oferece, mas só para quem tem um problema de coração ou de circulação já documentado e já está no terceiro remédio — e mesmo assim ela não sai da farmácia daqui, ela vem por um processo que demora. A outra família, a das injeções que emagrecem, não é oferecida pelo Sistema Único de Saúde para diabetes tipo 2. O que eu posso te garantir é que dá para chegar na meta com o que a gente tem, se a gente ajustar a dose na hora certa. Vamos combinar de rever isso a cada três meses?”

Não diga: Não prometa o que depende de processo, e não desqualifique a pergunta. Quem pergunta pelo remédio novo está pedindo para ser levado a sério, e é isso que a resposta precisa entregar.

A conversa dos pés, que quase nunca é feita

“Eu vou tirar o seu sapato e a sua meia agora, e vou fazer isso toda vez que o senhor vier. Não é frescura: a maior parte das feridas que acabam em amputação começa com uma coisa pequena que a pessoa não sentiu. É por isso que eu testo com esse fiozinho — se o senhor não sentir onde eu encostar, quer dizer que o seu pé perdeu o aviso da dor, e aí uma pedrinha dentro do sapato vira ferida sem o senhor perceber. O que eu peço é: olhe os pés todo dia, inclusive entre os dedos, sacuda o sapato antes de calçar, seque bem depois do banho e não ande descalço. E se aparecer qualquer ferida, o senhor vem sem esperar a consulta marcada.”

Não diga: Não deixe o exame dos pés para a próxima consulta porque a agenda está cheia. E não diga “está tudo bem com seus pés” quando não os examinou.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual é o teto de metformina quando a filtração glomerular está entre 45 e 59 — a bula e o protocolo respondem com números que diferem em 1.550 mg por dia

Teto de 1.000 mg por dia desde que a filtração cai abaixo de 60

A bula profissional aprovada pela Anvisa é explícita: a metformina pode ser empregada na insuficiência renal moderada, estágio 3, definida como depuração de creatinina ou taxa de filtração glomerular estimada entre 30 e 59 mL/min/1,73 m², somente na ausência de outras condições que aumentem o risco de acidose láctica, e com ajuste — dose inicial de 500 ou 850 mg ao dia e dose máxima diária de 1.000 mg. A mesma bula pede monitorização da função renal a cada três a seis meses entre 45 e 59, a cada três meses entre 30 e 44, reavaliação de risco e benefício se a filtração cair abaixo de 45 e suspensão imediata abaixo de 30. O raciocínio é farmacocinético: a metformina é eliminada praticamente inalterada pelo rim, e o acúmulo é o mecanismo da acidose láctica.

Anvisa — bula profissional de cloridrato de metformina 500 e 850 mg, item 8, Posologia e modo de usar, subitem Pacientes com insuficiência renal; texto conforme Bula Padrão aprovada em 27 de agosto de 2021

Dose plena até 45, e teto de 1 grama apenas entre 30 e 45

O protocolo brasileiro vigente escreve o corte mais abaixo: não se deve usar mais de 1 grama por dia em pessoas com taxa de filtração glomerular de 30 a 45 mL/min/1,73 m², e a metformina se suspende abaixo de 30. O Quadro 11 do mesmo documento reafirma isso ao dar as colunas: entre 59 e 45 a metformina aparece sem qualquer restrição de dose, e só na coluna de 44 a 30 ela deve ser reduzida para 1 grama ou menos. Na faixa de 45 a 59, portanto, o protocolo admite até 2.550 mg por dia — 1.550 mg a mais que a bula, o equivalente a quase dois comprimidos de 850 mg.

Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Diabete Melito Tipo 2, Portaria SCTIE/MS nº 13, de 21 de fevereiro de 2026, item 8.3.1 e Quadro 11

Como decidir

Olhe o paciente que está na sua frente, não o número sozinho. Na faixa de 45 a 59, o que decide é a estabilidade da função renal e a presença de outros fatores que empurram para acidose láctica: idade avançada, insuficiência cardíaca, hepatopatia, etilismo, uso de diurético de alça, episódios recentes de desidratação ou infecção. Havendo qualquer um deles, adote o teto da bula, que é o mais conservador, e registre por quê. Numa pessoa jovem, estável, com filtração de 55 dosada duas vezes e sem nenhum desses fatores, manter a dose plena com creatinina a cada três a seis meses é defensável — e essa também precisa ser uma decisão escrita, e não um esquecimento. O que não é defensável é subir a dose e nunca mais pedir creatinina.

Quem tem direito a um inibidor do cotransportador sódio-glicose 2 no Brasil — a régua do financiamento e a régua da evidência não cobrem a mesma população

Só em segunda intensificação, e só com idade e risco cardiovascular definidos

O protocolo do Ministério da Saúde restringe a dapagliflozina a quem tem diagnóstico de diabetes tipo 2 com necessidade de segunda intensificação de tratamento mais um de dois critérios: 40 anos ou mais com doença cardiovascular estabelecida, nominalmente listada, ou homem com 55 anos ou mais e mulher com 60 anos ou mais com alto risco definido por hipertensão, dislipidemia ou tabagismo. A restrição é de elegibilidade e também de logística: a dapagliflozina pertence ao Componente Especializado, e não ao Básico, o que significa processo e não receita da unidade. Fora dessa moldura, o protocolo afirma que as metas podem ser atingidas com os medicamentos já disponíveis no Sistema Único de Saúde.

Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Diabete Melito Tipo 2, Portaria SCTIE/MS nº 13/2026, item 6, Critérios de inclusão, e item 8.3.3; e Rename 2024, componente de financiamento da dapagliflozina propanodiol 10 mg

Em toda doença aterosclerótica estabelecida, independentemente do valor da hemoglobina glicada

A diretriz oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes na edição de 2022 recomenda, em adultos com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida, o uso de um inibidor do cotransportador sódio-glicose 2 ou de um agonista do receptor de GLP-1 com benefício cardiovascular comprovado, associado à metformina, independentemente dos níveis de hemoglobina glicada, com o objetivo de reduzir eventos cardiovasculares. A indicação, nessa leitura, não depende de o paciente ter falhado a duas drogas: depende de ele ter doença aterosclerótica. O desfecho perseguido é cardiovascular, e não glicêmico.

Sociedade Brasileira de Diabetes — capítulo Tratamento farmacológico da hiperglicemia no DM2, Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, 2022, DOI 10.29327/557753.2022-10

Como decidir

A diferença entre as duas posições não é acadêmica: ela decide o que você escreve no encaminhamento e o que você promete na consulta. Diante de uma pessoa com doença aterosclerótica estabelecida que ainda está na primeira droga, verifique primeiro se ela preenche os critérios do protocolo, porque é ele que abre o processo — e, se preencher, abra, mesmo que a glicada esteja quase na meta, registrando a indicação cardiovascular. Se não preencher, não pare a conversa aí: documente a doença cardiovascular, otimize o que está na sua gaveta, e leve o caso à discussão com a atenção especializada ou à teleconsultoria, cujo número o próprio protocolo pede que conste do encaminhamento. E diga ao paciente, com todas as letras, qual das duas réguas está governando o acesso dele naquele momento.

A glicemia de jejum que compra insulina já no diagnóstico: 250 ou 300 mg/dL

300 mg/dL, nas duas réguas do Ministério da Saúde

O protocolo vigente considera indicação de insulina basal e em bolo a hiperglicemia definida como hemoglobina glicada acima de 9% ou glicemia de jejum de 300 mg/dL ou mais, além de sintomas de hiperglicemia aguda — poliúria, polidipsia, perda ponderal — ou de intercorrências e internações decorrentes do diabetes. O caderno de atenção básica de 2013 já usava o mesmo corte, ao dizer que casos com hiperglicemia severa ao diagnóstico, acima de 300 mg/dL, podem se beneficiar de insulina desde o início, e que a insulina também é considerada quando a glicose plasmática está acima de 300 na primeira avaliação, principalmente com perda de peso, cetonúria e cetonemia.

Ministério da Saúde — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Diabete Melito Tipo 2, Portaria SCTIE/MS nº 13/2026, item 8.3.4; e Cadernos de Atenção Básica nº 36, 2013, itens 3.4.2 e 3.4.5

250 mg/dL, na régua da sociedade

A diretriz oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, na edição de 2022, recomenda terapia à base de insulina em adultos com diabetes tipo 2 sintomáticos — poliúria, polidipsia, perda de peso — que apresentem hemoglobina glicada acima de 9% ou glicemia de jejum de 250 mg/dL ou mais, mesmo que de forma transitória. A mesma diretriz estrutura o começo do tratamento por faixas de glicada: monoterapia com metformina abaixo de 7,5%, terapia dupla entre 7,5% e 9,0% e metformina associada à insulina acima de 9,0%.

Sociedade Brasileira de Diabetes — capítulo Tratamento farmacológico da hiperglicemia no DM2, Diretriz Oficial da Sociedade Brasileira de Diabetes, 2022, seções Adultos sintomáticos e Adultos assintomáticos, DOI 10.29327/557753.2022-10

Como decidir

Entre 250 e 300 mg/dL de jejum, o que decide não é o corte e sim o resto do quadro. Havendo perda de peso não intencional, cetonúria, desidratação, infecção em curso ou dúvida sobre ser mesmo tipo 2, insulinize — o corte mais baixo protege exatamente esse paciente, e a insulina pode ser transitória. Sem nenhum desses sinais, numa pessoa com sobrepeso, sem cetonúria e com boa condição de seguimento, começar por metformina em titulação rápida e reavaliar em quatro a seis semanas é conduta defensável, desde que a reavaliação esteja marcada. O que não se faz é usar a diferença entre os dois números para adiar a decisão: quem tem 268 mg/dL e emagreceu seis quilos precisa de uma decisão hoje, seja ela qual for.

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O raciocínio, em voz alta

Wanderlei Solano, 63 anos, 81 quilos, 1,70 m, aposentado por invalidez depois de um infarto há dois anos, com angioplastia e um stent. Diabetes tipo 2 há nove anos. Usa metformina 850 mg três vezes ao dia e gliclazida de liberação prolongada 60 mg pela manhã, e diz que não esquece nenhum dos dois. Traz exames de duas semanas atrás: hemoglobina glicada 8,6%, glicemia de jejum 174 mg/dL, creatinina de 1,4 mg/dL, que dá filtração glomerular estimada de 52 mL/min/1,73 m², razão albumina/creatinina 62 mg/g. Pressão 138 por 84, sem queixa nova. Vem à unidade porque a receita venceu.

  1. 1. Ele está fora da meta, e a adesão não explica

    Hemoglobina glicada de 8,6% em quem usa duas drogas em dose otimizada, com boa adesão declarada e sem hipoglicemia, é falha terapêutica, não falta de disciplina. A meta dele, aos 63 anos, sem fragilidade e sem comprometimento funcional, é abaixo de 7,0%. Renovar a receita como está seria a definição de inércia terapêutica.

  2. 2. A metformina já está no teto — e a filtração dele levanta a pergunta da dose

    850 mg três vezes ao dia são 2.550 mg, o teto. Mas a filtração é de 52 mL/min/1,73 m², e é exatamente a faixa em que a bula do medicamento manda limitar a 1.000 mg por dia e o protocolo não manda reduzir nada. Ele tem 63 anos, infarto prévio e albuminúria — fatores que pesam para o lado conservador. A decisão razoável é confirmar a creatinina antes de mexer, e registrar por escrito qual régua está sendo seguida e por quê.

  3. 3. Ele preenche o critério para a segunda intensificação

    Necessidade de segunda intensificação: sim, está em duas drogas e fora da meta. Idade de 40 anos ou mais: sim, tem 63. Doença cardiovascular estabelecida: sim, e o protocolo nomeia um a um o infarto prévio e a angioplastia coronariana prévia. A filtração de 52 está acima de 25 e permite iniciar, ainda que a eficácia glicêmica seja menor abaixo de 45. Ele é elegível à dapagliflozina 10 mg em dose única diária.

  4. 4. O que isso significa na prática desta consulta

    A dapagliflozina é do Componente Especializado: não sai da farmácia da unidade hoje. O que sai desta consulta é o processo aberto, com o laudo e os critérios preenchidos, e a conversa dizendo a ele o prazo real. Enquanto o processo corre, o esquema atual se mantém — e não se suspende nada na expectativa do que ainda não chegou.

  5. 5. A albuminúria muda duas coisas, e nenhuma delas é o antidiabético

    Razão albumina/creatinina de 62 mg/g é albuminúria, e ela é, pelo próprio protocolo, critério de encaminhamento à atenção especializada e marcador de risco. Ela reforça a indicação de inibidor do cotransportador sódio-glicose 2 pelo desfecho renal, e obriga a revisar pressão arterial e lipídios. O estadiamento e o manejo da doença renal crônica em si pertencem a Nefrologia; aqui, o que se faz é confirmar em segunda amostra, encaminhar conforme a rede e não perder o seguimento.

  6. 6. O que mais precisa sair desta consulta, além da receita

    Peso e pressão anotados. Exame dos pés com monofilamento — ele tem nove anos de doença e nunca foi documentado no prontuário. Data da última fundoscopia; se não houver, pedido hoje. Revisão de estatina e de anti-hipertensivo, cujo manejo pertence aos capítulos de Dislipidemias e de Hipertensão arterial sistêmica, mas cuja verificação é obrigação de quem está com ele na sala.

  7. 7. E se a dapagliflozina não vier

    O plano B precisa existir antes de o processo emperrar. Com metformina e sulfonilureia otimizadas e glicada de 8,6%, o degrau seguinte disponível na sua gaveta é a insulina basal: NPH 10 U ao deitar, ou 0,1 a 0,2 U/kg — nos 81 quilos dele, 8,1 a 16,2 U —, titulada em 2 U a cada três dias pela glicemia capilar de jejum. Marque a reavaliação em três meses, com glicada nova, e não deixe a decisão pendurada no processo.

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Faça você

Osmarina Nogueirol, 74 anos, 52 quilos, 1,52 m, mora sozinha, esquece o almoço com alguma frequência e teve duas quedas nos últimos seis meses. Diabetes tipo 2 há dezesseis anos. Usa glibenclamida 5 mg duas vezes ao dia e insulina humana NPH 26 U ao deitar. A filha conta que, há duas semanas, encontrou a mãe confusa e suando de manhã, e que melhorou depois de tomar suco. Exames: hemoglobina glicada 6,4%, glicemia de jejum 88 mg/dL, creatinina de 1,3 mg/dL, que dá filtração glomerular estimada de 38 mL/min/1,73 m². Ela chega dizendo que está bem e que o exame veio ótimo.

  1. 1. Qual é a meta desta paciente

    Antes de olhar o número, classifique o perfil: idade, comorbidades, estado funcional e cognitivo, e quem cuida. Depois compare com a tabela de metas — e diga se 6,4% está dentro ou fora dela.

  2. 2. O que aconteceu há duas semanas

    Confusão e sudorese matinal que melhoraram com suco, numa pessoa em uso de secretagogo e de insulina basal, têm um nome e um nível. Diga qual, e diga o que isso significa para a meta.

  3. 3. Os dois medicamentos, revistos um a um

    Há uma regra de idade e uma regra de função renal que se aplicam ao esquema dela. Nomeie as duas e diga o que cada uma exige.

  4. 4. O que sai desta consulta

    Escreva a conduta: o que se retira, o que se ajusta, o que se orienta e quando ela volta.

Ver como fecharíamos

Ela é uma idosa comprometida — 74 anos, dezesseis anos de doença, mora sozinha, tem comprometimento funcional evidenciado por duas quedas e esquece refeições. A meta dela é hemoglobina glicada abaixo de 8,0%, com glicemia de jejum entre 90 e 150 mg/dL. Uma glicada de 6,4% com glicemia de jejum de 88 não é bom controle: é tratamento excessivo, e o protocolo desencoraja explicitamente metas mais agressivas em idosos vulneráveis, entre os quais valores abaixo de 7,0% se associaram a maior risco de mortalidade. O episódio de duas semanas atrás foi hipoglicemia com sintomas neuroglicopênicos — confusão — que exigiu ajuda de terceiro para ser tratada. Isso é hipoglicemia grave, nível 3, que se classifica pelo estado mental e não pelo valor da glicemia, e é o principal fator limitante do controle glicêmico. As duas quedas anteriores passam a ser suspeitas de terem sido a mesma coisa sem testemunha. Os dois medicamentos estão errados para ela, cada um por um motivo. A glibenclamida não é recomendada a partir dos 60 anos, e ela tem 74; além disso, as sulfonilureias são contraindicadas com taxa de filtração glomerular abaixo de 30 e exigem cautela e dose reduzida acima disso, e a dela é 38. A insulina basal de 26 U em 52 quilos são 0,5 U/kg/dia, exatamente o teto que o protocolo aponta como sinal de dose basal excessiva — e a glicemia de jejum de 88 confirma. A conduta é suspender a glibenclamida, reduzir a NPH — 2 a 4 U de imediato, com nova redução se a glicemia de jejum permanecer abaixo de 90 —, entregar orientação escrita de hipoglicemia à paciente e à filha, e afrouxar a meta declaradamente no prontuário, para glicada abaixo de 8,0% e glicemia de jejum de 90 a 150. Metformina não entra: a filtração de 38 permitiria até 1 grama por dia pelo protocolo, mas em pessoa de 52 quilos com risco nutricional e emagrecimento a própria recomendação é de cautela e de considerar desprescrição. Ela volta em quinze dias com o registro das glicemias capilares, e o encaminhamento à geriatria está indicado pelo próprio protocolo: idosa com multimorbidade, polifarmácia, hipoglicemias de repetição e quedas.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Entre as sulfonilureias disponíveis, gliclazida de liberação prolongada é preferível à glibenclamida pelo menor risco de hipoglicemia, particularmente em idosos. Ambas podem causar hipoglicemia e exigem titulação e orientação. A escolha global da intensificação depende da meta individual, comorbidades, função renal, risco de hipoglicemia e acesso. Dapagliflozina pode ter indicação em outros cenários, mas não é uma sulfonilureia; ausência de doença cardiovascular estabelecida não basta para negar todos os critérios de uso. Manter metformina se tolerada e sem contraindicação.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Organize uma primeira consulta: confirmar diagnóstico, procurar catabolismo e comorbidades, pactuar metas e escolher tratamento. Mostre como examina os pés e explique a necessidade de avaliar rim e retina.

Em 30 dias

Reavalie alguém fora da meta: confira uso, tolerância, hipoglicemia, função renal e prioridades antes de intensificar. Compare com um idoso com quedas e explique quando reduzir tratamento pode ser a decisão mais adequada.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 41 anos, vigilante noturno, 88 quilos e 1,74 m, que chega à unidade básica sem queixa nenhuma para buscar o resultado de uma glicemia de jejum de 105 mg/dL, com o laudo dizendo que o valor de referência é até 110. Ele tem pressa, trabalha à noite e quer saber se pode ir embora. Decida se aquilo é normal, o que mais precisa ser pedido hoje, o que ele leva escrito e quando ele volta.

Diabetes mellitus tipo 2 – Diabetes tipo 2 na unidade básica — Internato | OsceLabs