Clínica Médica › Endocrinologia
O cortisol vem antes
Doenças da hipófise (diabetes insípido, acromegalia, hipopituitarismo)
Hipopituitarismo, diabetes insipidus, acromegalia, o lado hipofisário da doença de Cushing e o achado incidental de sela para o interno: a ordem em que as reposições entram, a poliúria que não é diabetes mellitus, a cara que mudou devagar por dez anos, e o que se faz nas duas horas antes de o especialista chegar.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 17, de 5 de agosto de 2025 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Insípido (DOU nº 178, de 18 de setembro de 2025, seção 1, p. 116).
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 23, de 22 de outubro de 2025 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Acromegalia.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Portaria Conjunta nº 28, de 30 de novembro de 2018 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Deficiência do Hormônio de Crescimento – Hipopituitarismo.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos em Saúde. Portaria Conjunta nº 20, de 24 de novembro de 2020 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Insuficiência Adrenal (primária, secundária e terciária).
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3; Portaria GM/MS nº 6.324/2024.
Santa Catarina. Secretaria de Estado da Saúde. Diretoria de Assistência Farmacêutica. Resumo do Componente Especializado da Assistência Farmacêutica: Diabete Insípido — Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 17, de 5 de agosto de 2025. Florianópolis: DIAF/SAS/SES/SC, outubro de 2025.
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Responda antes de ler
Mulher de 33 anos, oito meses depois de um parto com hemorragia grave e transfusão, não conseguiu amamentar e não voltou a menstruar. Na unidade básica, refere cansaço e tontura ao levantar; pressão de 90 por 60 mmHg, sódio de 131 mmol/L, potássio de 4,0 mmol/L, glicemia de 70 mg/dL, hormônio estimulante da tireoide de 1,3 mUI/L e tiroxina livre de 0,5 ng/dL. Qual é a conduta inicial mais adequada?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, 14h20, sala de observação do pronto-socorro de um hospital geral. Silvina Queiroga, 41 anos, professora, 62 kg, chegou há quarenta minutos com uma cefaleia que começou de repente, seis horas antes, enquanto ela corrigia provas — descreveu como um estouro atrás do olho direito —, seguida de dois episódios de vômito. Na triagem, pressão de 92 por 58 mmHg, pulso de 104 batimentos por minuto, temperatura axilar de 36,4 °C, glicemia capilar de 74 mg/dL. A classificação de risco marcou cefaleia de início súbito, e a tomografia de crânio sem contraste saiu em vinte minutos: massa na sela túrcica com expansão para cima, 2,6 cm no maior diâmetro, conteúdo heterogêneo, sem sangue no espaço subaracnóideo.
O plantonista pediu que você examinasse enquanto ele falava com a neurocirurgia. A pálpebra direita cai um pouco, a pupila direita está maior que a esquerda e o olho direito não acompanha o dedo quando ele vai para dentro do nariz. Pedindo que ela tampe um olho e conte quantos dedos você mostra em cada quadrante, o campo temporal do olho esquerdo falha. Ela conta, sem que ninguém tenha perguntado antes, que está sem menstruar há dois anos, que atribuiu isso a estresse, que sente frio quando ninguém sente e que subir a escada da escola virou um problema no último ano. A filha acrescenta que a mãe emagreceu e que a pele ficou seca.
Os exames de chegada voltam no fim da tarde: sódio de 128 mmol/L, potássio de 4,1, creatinina de 0,8 mg/dL, hemoglobina de 11,2 g/dL. O residente escreve a prescrição: soro fisiológico, analgesia, dipirona, antiemético, e uma linha que ele hesita antes de assinar — levotiroxina de 50 microgramas, porque a tiroxina livre da triagem de rotina do ambulatório, que a filha trouxe num papel de abril, estava em 0,54 ng/dL com hormônio estimulante da tireoide de 1,1 mUI/L, dentro da referência do laboratório.
Essa linha é o motivo deste capítulo existir. O papel de abril não diz que a tireoide dela está bem: diz que a hipófise não está pedindo hormônio à tireoide, porque tiroxina livre baixa com hormônio estimulante normal é o desenho do hipotireoidismo central. E, no paciente com massa selar, a linhagem que interessa antes da tireoide é outra: a corticotrófica. Começar levotiroxina em quem tem deficiência de corticotrofina não corrigida acelera o metabolismo do pouco cortisol que sobrou e pode abrir uma crise adrenal na enfermaria — a cefaleia súbita, a hipotensão que não responde a volume, a hipoglicemia e o sódio de 128 já estavam dizendo qual eixo pedia socorro primeiro.
O que se faz, então, na ordem: colher num tubo o cortisol, o hormônio adrenocorticotrófico, a tiroxina livre com o hormônio estimulante, prolactina, hormônio luteinizante, folículo-estimulante, estradiol e o fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 — tudo na mesma punção, porque depois da hidrocortisona o cortisol não se interpreta mais —, e, colhido o tubo, administrar hidrocortisona por via endovenosa sem esperar resultado nenhum. Só depois vêm a ressonância de sela, a avaliação formal de campo visual e o telefone da neurocirurgia e da endocrinologia, que já estava sendo discado pelo plantonista.
Silvina tem uma apoplexia hipofisária — infarto ou hemorragia dentro de um macroadenoma que ninguém sabia existir — instalada sobre um hipopituitarismo de dois anos que foi lido como estresse. A cefaleia súbita entrou pela porta certa: o capítulo Cefaleia no pronto-socorro: reconhecer a secundária lista a apoplexia entre as causas de cefaleia em trovoada, e o capítulo Hiperprolactinemia e galactorreia: investigação e tratamento ensina a reconhecê-la no paciente que já tem prolactinoma conhecido. Nenhum dos dois ensina o que fazer nas duas horas seguintes, e é essa parte que este capítulo assume: qual hormônio entra antes da imagem, qual exame confirma o que está sendo perdido, quem opera hoje, e o que ela vai levar para casa por toda a vida.
Quem adoece disso
A hipófise chega ao interno por três portas, e vale saber qual delas você mais vai atender. A primeira é a massa: adenomas são 10% a 15% dos tumores intracranianos, e cerca de 30% deles não secretam nada clinicamente — são os não funcionantes, com prevalência estimada de 7 a 22 casos por 100 mil habitantes, incidência de 1 caso por 100 mil por ano e algo em torno de 2 mil casos novos por ano no Brasil pela conta do documento brasileiro de 2016. A segunda porta é o cansaço sem nome, que chega ao ambulatório e à enfermaria como fadiga, hipotensão, sódio baixo, amenorreia ou perda de libido. A terceira é o exame de imagem pedido por outro motivo, que virou frequente com a tomografia de crânio no pronto-socorro.
No adenoma não funcionante que chega com sintomas, o hipopituitarismo documentado está em 62% a 85% dos pacientes das grandes séries: hipogonadismo em 43% a 78%, hipocortisolismo em 24% a 32% e hipotireoidismo em 20% a 25%. A deficiência de hormônio de crescimento não foi medida sistematicamente na maioria das séries; num estudo que a mediu, apareceu em 77%. Cefaleia estava em 10% a 41%, alteração visual em 31% a 68%, déficit de nervo craniano em 4% a 5% e o achado incidental em 7% a 12%. Ou seja: quando a massa selar aparece, a chance de haver pelo menos uma linhagem caída é maior do que a de não haver — o painel hormonal não é refinamento, é parte do diagnóstico.
A apoplexia, que é o quadro da Silvina, aparece em 4% a 10% das séries cirúrgicas de adenoma não funcionante, e o documento brasileiro registra que o risco verdadeiro é desconhecido porque, na maioria dos casos relatados, foi a própria apoplexia que levou ao diagnóstico do tumor. Em macroadenomas descobertos por acaso e acompanhados sem cirurgia, a incidência relatada de apoplexia foi de 1,1% por ano. É um evento raro e de reconhecimento imediato: raro o bastante para você atender poucos, imediato o bastante para que o primeiro deles não possa esperar o horário comercial.
O diabetes insipidus é mais raro ainda: há relato de cerca de 1 caso por 25 mil pessoas, e o protocolo federal de 2025 registra que não existem estudos epidemiológicos brasileiros sobre a doença. Homens e mulheres adoecem igualmente e em qualquer idade. Onde o interno o encontra com frequência, na prática, não é no ambulatório de endocrinologia, e sim no pós-operatório de cirurgia hipofisária: a deficiência transitória de vasopressina ocorre em até 15% das cirurgias transesfenoidais e a forma permanente em 0,9% a 5%. Pense na conta: se o serviço opera cinquenta hipófises por ano, são até sete pacientes por ano com poliúria nas primeiras 48 horas, e um a dois que sairão de alta com desmopressina para sempre.
A acromegalia é a doença deste capítulo que mais atrasa. A prevalência mundial varia de 2,8 a 13,7 casos por 100 mil habitantes e a incidência anual de 0,2 a 1,17 por 100 mil; aplicadas à população brasileira, essas faixas dão uma estimativa de 5.768 a 27.398 pessoas acometidas e de 412 a 2.300 casos novos por ano. O único dado brasileiro de centro de referência, em Londrina, achou 1,27 caso por 100 mil habitantes. E o número que muda a conduta do interno é outro: o atraso diagnóstico é de sete a dez anos. Isso significa que a pessoa com acromegalia que você atende hoje por hipertensão, diabetes ou dor articular já tinha a doença quando entrou na faculdade — e que o diagnóstico não depende de um exame novo, depende de alguém olhar.
Quase toda acromegalia — cerca de 98% dos casos — vem de um adenoma hipofisário produtor de hormônio de crescimento, e mais de 70% desses tumores já são macroadenomas quando descobertos. Hipertensão arterial aparece em até 30% dos pacientes, e diabetes, cardiopatia com hipertrofia ventricular, apneia do sono, síndrome do túnel do carpo e artropatia completam a lista. Sem controle, a mortalidade é alta; com a doença controlada e as comorbidades tratadas, ela volta à da população geral. É um dos poucos lugares da medicina em que reconhecer cedo uma cara muda uma curva de sobrevida.
O outro excesso hormonal que nasce na hipófise e que este capítulo acompanha é o de hormônio adrenocorticotrófico: a doença de Cushing. É rara — o documento brasileiro de diagnóstico, de 2016, estima de 2 a 3 casos novos por milhão de habitantes por ano e prevalência de cerca de 40 por milhão —, acomete de 3 a 8 mulheres para cada homem e se concentra entre a segunda e a terceira décadas de vida. Ainda assim, depois dos 6 anos de idade é a causa mais comum da síndrome de Cushing endógena: cerca de 70% dos casos, contra 10% do hormônio adrenocorticotrófico produzido por tumor fora da hipófise e 20% das causas da própria suprarrenal — perto de nove em cada dez síndromes dependentes de hormônio adrenocorticotrófico começam na sela. E o tumor é pequeno: de 80% a 90% são microadenomas, com menos de 10 mm, o que explica por que a ressonância falha tantas vezes e por que esse paciente quase nunca chega pela cefaleia ou pelo campo visual.
A última conta que interessa é a da radioterapia, porque ela cria o hipopituitarismo que você vai acompanhar anos depois. Depois de radioterapia convencional de região selar, o hipopituitarismo aparece em 30% a 80% dos pacientes; com técnicas estereotáxicas, em 10% a 50% em cinco anos. Numa série de 165 pacientes irradiados, em cinco anos a deficiência de hormônio de crescimento estava em 100%, a de gonadotrofinas em 91%, a de corticotrofina em 77% e a de hormônio estimulante da tireoide em 42% — e novas deficiências continuaram surgindo por até vinte anos. Quem foi irradiado por tumor de sela não tem alta do eixo; tem calendário.
Por que acontece o que acontece
A hipófise são duas glândulas coladas, e quase todo raciocínio deste capítulo nasce dessa diferença. A anterior, a adeno-hipófise, fabrica corticotrofina, hormônio estimulante da tireoide, hormônio luteinizante e folículo-estimulante, hormônio de crescimento e prolactina, e obedece a hormônios que o hipotálamo manda por um sistema de vasos portais que desce pela haste. A posterior, a neuro-hipófise, não fabrica nada: é o terminal dos axônios de neurônios do hipotálamo, que produzem a vasopressina lá em cima e a guardam cá embaixo para liberar. Por isso um adenoma dentro da sela, por maior que seja, costuma poupar a vasopressina — quem a fabrica está acima dele —, e o documento brasileiro de adenoma não funcionante registra que diabetes insipidus presente já no diagnóstico faz pensar que a massa provavelmente não é um adenoma: craniofaringioma, germinoma, metástase, hipofisite, histiocitose.
A sela é uma casa pequena com vizinhos importantes. Acima dela passa o quiasma óptico, onde cruzam as fibras que vêm da metade nasal de cada retina — as que enxergam o campo temporal —, e é por isso que o tumor que sobe pela sela apaga primeiro os dois campos temporais, a hemianopsia bitemporal, quase sempre de forma assimétrica e tão lenta que o paciente não percebe até bater o carro do lado cego. Dos lados ficam os seios cavernosos, com a artéria carótida interna e os nervos oculomotor, troclear, abducente e os ramos oftálmico e maxilar do trigêmeo: tumor que invade o seio cavernoso ou que sangra e incha de uma vez produz ptose, diplopia e dor facial. Embaixo fica o seio esfenoidal, que é o caminho da cirurgia transesfenoidal e também o caminho da fístula liquórica quando o tumor corrói o assoalho da sela.
A prolactina é a exceção que confunde. Enquanto os outros hormônios da adeno-hipófise dependem de estímulo hipotalâmico, a prolactina vive sob freio: a dopamina que desce pela haste segura os lactotrofos. Um macroadenoma que não secreta nada, ao comprimir a haste, tira o freio — a prolactina sobe um pouco, em geral até 150 a 200 ng/mL segundo o documento brasileiro, ao mesmo tempo em que os outros eixos caem por falta de estímulo. É o efeito haste, e ele explica por que um tumor de 2,6 cm com prolactina de 90 ng/mL não é, por definição, um prolactinoma. A leitura desse número, a diluição que desmascara o efeito gancho e a decisão entre comprimido e cirurgia pertencem ao capítulo Hiperprolactinemia e galactorreia: investigação e tratamento; este capítulo usa o conceito para não tratar a massa errada.
As linhagens não caem juntas. Na compressão e na radioterapia, hormônio de crescimento e gonadotrofinas costumam ir primeiro em praticamente toda série. Entre a corticotrófica e a tireotrófica a ordem varia: o protocolo federal da insuficiência adrenal diz que a corticotrofina geralmente é o último hormônio a ser perdido, e lembra a exceção da hipofisite linfocítica, em que ela pode faltar cedo; já na série de pacientes irradiados, a corticotrofina caiu em 77% e o hormônio estimulante da tireoide em 42% em cinco anos. A lição prática não é decorar uma ordem: é medir os dois eixos sempre, e presumir a deficiência de corticotrofina até prova em contrário em quem tem massa selar, cirurgia ou irradiação de sela e está doente.
O cortisol é o eixo que mata, e cada um dos sinais da Silvina é uma função dele que faltou. Sem cortisol, o tônus vascular e a resposta às catecolaminas caem, e a pressão não sobe com volume; a gliconeogênese falha, e a glicemia desce em quem nem está em jejum prolongado; e a vasopressina, que o cortisol normalmente ajuda a conter, fica solta — o rim retém água livre e o sódio cai, num quadro que imita a secreção inapropriada de hormônio antidiurético. O potássio, porém, fica normal: a aldosterona é comandada pelo sistema renina-angiotensina, não pela corticotrofina, e só a insuficiência adrenal primária perde o mineralocorticoide. Hiponatremia com potássio normal e pressão baixa, em quem tem motivo para doença de hipófise, é deficiência de corticotrofina até prova em contrário. E a tiroxina acelera o metabolismo do cortisol e aumenta o gasto: dada sozinha a quem já tem pouco cortisol, ela consome a reserva que faltava.
A água segue a vasopressina. Quando a osmolalidade do plasma sobe poucos pontos percentuais, o hipotálamo libera vasopressina e dispara a sede; a vasopressina age nos receptores V2 do túbulo coletor e põe canais de aquaporina-2 na membrana, e a água volta ao sangue. Sem vasopressina — o diabetes insipidus central — ou sem resposta renal a ela — o nefrogênico, que o lítio, a hipercalcemia e a hipocalemia produzem —, a urina sai diluída em volumes que podem chegar a 18 litros por dia, e a sede compensa. Enquanto o paciente tem sede e acesso à água, o sódio fica normal; ele sobe quando uma das duas coisas falha: o sedado, o operado com o nariz tamponado, o idoso acamado, a lesão hipotalâmica que apagou também o centro da sede. Na polidipsia primária o desenho é o inverso: o paciente bebe primeiro, a vasopressina se cala como deveria, e o sódio fica no limite inferior. Na diurese osmótica, como na hiperglicemia, a urina é volumosa mas não é diluída.
Duas armadilhas saem dessa fisiologia. A primeira é o diabetes insipidus mascarado: o rim precisa de cortisol para excretar água livre, e quem perdeu ao mesmo tempo corticotrofina e vasopressina pode não urinar muito enquanto o cortisol está baixo — a poliúria aparece dias depois que a hidrocortisona entra, e parece complicação do tratamento quando é revelação da doença. A segunda é a resposta em fases depois da cirurgia ou do trauma da haste: primeiro os axônios lesados param de liberar vasopressina e vem a poliúria; depois, à medida que os terminais degeneram, soltam a vasopressina que tinham guardado, e o sódio cai por alguns dias; por fim, se neurônios suficientes morreram, a poliúria volta para ficar. Nem todo paciente passa pelas três fases, mas é por causa da segunda que desmopressina em horário fixo, mantida no automático depois de cirurgia de hipófise, é uma receita de hiponatremia grave.
O excesso de hormônio de crescimento faz o fígado e outros tecidos produzirem o fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1, e é esse fator que produz a maior parte da doença: crescimento de partes moles e de osso onde ainda há como crescer — mãos, pés, mandíbula, língua, nariz —, espessamento da pele, sudorese, cardiomiopatia com hipertrofia, resistência à insulina, apneia por aumento de partes moles da via aérea, compressão do nervo mediano no carpo. Antes de a cartilagem de crescimento fechar, o mesmo excesso vira gigantismo. Duas consequências diagnósticas vêm daqui. O hormônio de crescimento é pulsátil e sobe em gente saudável com estresse, exercício e jejum, então uma dosagem isolada não diagnostica nada; o fator de crescimento integra a secreção do dia inteiro e é o exame de triagem. E a glicose normalmente freia o hormônio de crescimento, então a falta de supressão depois de uma carga de glicose confirma a secreção autônoma. A mudança lenta do corpo, por sua vez, é invisível para quem convive todo dia com o paciente — é por isso que a foto antiga diagnostica. O excesso de hormônio adrenocorticotrófico da doença de Cushing deixa uma armadilha diferente, que só aparece depois da cirurgia. O adenoma corticotrófico produz o hormônio sem obedecer ao freio do cortisol, as suprarrenais estimuladas sem pausa fabricam cortisol demais, e esse cortisol passa meses ou anos calando os corticotrofos normais que ficaram em volta do tumor. Quando o adenoma é retirado, eles ainda estão suprimidos: o cortisol despenca e o operado entra em insuficiência adrenal — que, aqui, é o sinal de que o tumor saiu, e não uma complicação. O documento brasileiro de tratamento, de 2018, dá de 6 a 18 meses para o eixo voltar, e é por isso que o operado que entrou em remissão costuma sair do hospital tomando glicocorticoide.

Como se apresenta de verdade
Doença de hipófise quase nunca chega com o nome no encaminhamento. Chega como cefaleia, como vista embaçada de um lado, como cansaço que ninguém explicou, como sódio baixo que não corrige, como diabetes que desandou, como poliúria atribuída à glicemia, como uma imagem pedida para outra coisa. As seis apresentações abaixo são as portas pelas quais você vai encontrá-la, e em cada uma há um detalhe que separa a hipófise do resto.
Uma regra atravessa todas elas: diante de massa selar, de cirurgia ou irradiação de sela, de hemorragia pós-parto grave ou de traumatismo craniano, qualquer piora clínica sem explicação — hipotensão, vômito, confusão, hipoglicemia, sódio caindo — é deficiência de corticotrofina até prova em contrário.
Há uma sétima porta, e ela abre noutro capítulo. A suspeita clínica de síndrome de Cushing, o rastreio, o Cushing causado por corticoide de fora e a separação entre as formas dependente e independente de hormônio adrenocorticotrófico pertencem ao capítulo Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo (HAS secundária), desta apostila. O paciente chega aqui com o hipercortisolismo provado e o hormônio adrenocorticotrófico acima de 20 pg/mL, e daí em diante a parte da hipófise — ressonância, cateterismo dos seios petrosos, cirurgia transesfenoidal e o pós-operatório que vira insuficiência adrenal — é deste capítulo, que a assume. Duas marcas dessa porta são do lado da hipófise. O tumor quase sempre é pequeno demais para dar cefaleia ou defeito de campo. E o operado que entrou em remissão volta com a cara da falta de cortisol: cansaço, falta de apetite, enjoo, pele que descama, dor nas articulações e nos músculos, perda de peso e pressão baixa ao levantar, às vezes com febre baixa e sódio baixo, e raramente com hipotensão grave ou potássio alto, porque o sistema renina-angiotensina continua intacto.
Percurso de aprendizagem
Unidade 1: apoplexia e insuficiências hormonais — reconhecer urgência e garantir cortisol antes da reposição tireoidiana.
Unidade 2: equilíbrio de água — distinguir diurese osmótica, deficiência de vasopressina e fases do pós-operatório.
Unidade 3: acromegalia, doença de Cushing e achado incidental — escolher investigação inicial e reconhecer o ponto de encaminhamento.
Aprofunde testes dinâmicos e decisões cirúrgicas após dominar o que precisa ser feito antes de o especialista chegar.
A massa que chega pelo olho e pela cabeça
O macroadenoma que cresce devagar dá sintomas de vizinhança antes de dar sintomas de hormônio. A perda de campo visual é insidiosa e assimétrica: o paciente não se queixa de ver menos, e sim de esbarrar em portas, de derrubar o copo que estava do lado, de não ver o carro que vinha pela lateral. A hemianopsia bitemporal é a forma clássica, mas o documento brasileiro lembra que a perda pode ser de um olho só, dos dois ou até central. Pergunte pelo lado das batidas e pelo último exame de vista.
A cefaleia é frequente e inespecífica — de 10% a 41% das séries de adenoma não funcionante —, e ganha peso quando é nova, muda de padrão ou vem com sinal de nervo craniano. Ptose, diplopia e dor na face apontam o seio cavernoso. Líquido claro pingando pelo nariz, sobretudo ao inclinar a cabeça, é fístula liquórica por erosão do assoalho da sela e pede atendimento no mesmo dia. Tumores muito grandes podem obstruir a circulação do líquor e causar hidrocefalia, e o manejo da hipertensão intracraniana e da hidrocefalia pertence ao capítulo Hipertensão intracraniana não traumática e hidrocefalia, da apostila de Neurocirurgia.
O exame de campo por confrontação é o que você consegue fazer na maca: sentado de frente para o paciente, na mesma altura, cada um tampa o olho do mesmo lado, e você mostra dedos em cada quadrante a meio caminho entre os dois. Serve para suspeitar e para documentar a hora zero. Não serve para descartar nem para seguir: o documento brasileiro é explícito que a confrontação feita no consultório não é precisa quando a campimetria formal está indicada. A leitura geral da perda visual sem olho vermelho — acuidade, defeito pupilar aferente — está no capítulo Perda visual sem olho vermelho, da apostila de Oftalmologia; o defeito de campo por compressão do quiasma e a indicação de campimetria são deste capítulo, que os assume.
O hipopituitarismo que chega sem nome
Cada linhagem que cai tem sua assinatura, e elas se somam num paciente que parece deprimido, anêmico ou velho antes da hora. A corticotrófica dá fadiga, falta de apetite, perda de peso, náusea, tontura ao levantar, hipoglicemia e hiponatremia com potássio normal; a pele não escurece, porque a corticotrofina que pigmenta é justamente a que falta — o que separa, na beira do leito, a insuficiência adrenal central da primária. A tireotrófica dá frio, constipação, pele seca, bradicardia e lentidão, com tiroxina livre baixa e hormônio estimulante da tireoide que pode vir baixo, inapropriadamente normal ou até discretamente elevado.
A gonadotrófica é a mais frequente e a mais ignorada: na mulher antes da menopausa, amenorreia e infertilidade; no homem, perda de libido, disfunção erétil, menos barba, rarefação de pelos axilares e pubianos; nos dois, pele fina com rugas finas ao redor dos olhos e da boca e perda de massa óssea. Na mulher depois da menopausa a pista é laboratorial: gonadotrofinas normais ou baixas, quando deveriam estar altas, indicam deficiência. A investigação da amenorreia em si pertence ao capítulo Amenorreia primária e secundária: investigação, da apostila de Ginecologia, que ensina em que andar do eixo ela parou; quando o andar é a hipófise, o paciente vem para cá.
A somatotrófica, no adulto, é discreta: menos massa muscular, mais gordura abdominal, colesterol LDL alto, densidade óssea baixa, menos disposição. Ninguém é internado por ela. E a falta de prolactina tem um único sinal, e ele é clássico: a mulher que não consegue amamentar depois do parto. O hipopituitarismo raramente descompensa sozinho; descompensa quando o paciente pega uma pneumonia, é operado, vomita por dois dias ou recebe levotiroxina sem glicocorticoide — e é nessa hora, e não no ambulatório, que o interno costuma conhecê-lo.
A apoplexia: a cefaleia que avisa uma vez
Apoplexia é a expansão aguda do tumor por infarto ou hemorragia, e o documento brasileiro a descreve como cefaleia intensa de início súbito que pode vir com sinais neuro-oftalmológicos, hipertensão intracraniana, rebaixamento de consciência e hipopituitarismo agudo, inclusive insuficiência adrenal, que agrava o quadro. Na maioria das vezes o tumor não era conhecido. A combinação que deveria acender a luz é a da Silvina: cefaleia em trovoada, olho que deixou de mexer ou campo que sumiu, e uma pressão que não responde ao volume.
O diagnóstico diferencial imediato é a hemorragia subaracnóidea, e a tomografia sem contraste costuma resolver a dúvida de um jeito que confunde quem não espera: não mostra sangue no espaço subaracnóideo e mostra uma massa na sela, às vezes com área hiperdensa. Sangue irritando as meninges pode dar rigidez de nuca e febre baixa e fazer pensar em meningite. A investigação da cefaleia súbita no pronto-socorro pertence ao capítulo Cefaleia no pronto-socorro: reconhecer a secundária, da apostila de Síndromes do Paciente na Emergência; o capítulo Hiperprolactinemia e galactorreia: investigação e tratamento lembra que gestação e agonista dopaminérgico são fatores de risco no prolactinoma. O que se faz depois do reconhecimento é deste capítulo.
O documento brasileiro registra ainda um gatilho que o interno pode encontrar em outras enfermarias: análogos do hormônio liberador de gonadotrofina, usados no câncer de próstata e em outras condições, podem precipitar apoplexia em adenomas volumosos. Cefaleia súbita com alteração visual em homem que acabou de receber a primeira dose de análogo pede tomografia e a mesma sequência da Silvina.
A poliúria que é doença
O primeiro sinal do diabetes insipidus costuma ser a noctúria, porque é à noite que a urina normalmente mais se concentra. Depois vêm a poliúria — o protocolo federal a define no adulto e no adolescente como mais de 3 litros em 24 horas ou mais de 40 mL/kg por dia — e a sede, que o paciente descreve com uma precisão característica: quer água gelada, acorda para beber, não sai de casa sem garrafa. O início ajuda: nos adultos, o protocolo registra que o diabetes insipidus central costuma começar de forma súbita, e o nefrogênico, de forma insidiosa.
A história de medicamento e de causa entra na primeira conversa. Cirurgia ou trauma de crânio recente, tumor da região hipotalâmica, doença infiltrativa conhecida apontam para o central; lítio de longa data, hipercalcemia e hipocalemia apontam para o nefrogênico; diurético e inibidor do cotransportador sódio-glicose tipo 2 dão poliúria que não é doença de água. Na gestante de terceiro trimestre, a enzima placentária que degrada a vasopressina produz um diabetes insipidus gestacional que regride dias depois do parto. O manejo do lítio pertence ao capítulo Transtorno afetivo bipolar e mania, da apostila de Psiquiatria, e o da hipercalcemia ao capítulo Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo, da apostila de Medicina Intensiva e Emergências; reconhecer o diabetes insipidus nefrogênico que eles produzem é deste capítulo, que o assume.
O paciente que mais importa é o que não consegue beber. Enquanto há sede e água, o sódio fica normal e a doença é um incômodo; no sedado, no operado, no idoso acamado que depende de alguém para o copo, e no raro paciente com lesão hipotalâmica que perdeu a sede, a mesma poliúria vira hipernatremia em horas. O capítulo Distúrbios do sódio no internado: hipernatremia, da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado, ensina a suspeitar do diabetes insipidus, repor a água que está sendo perdida e chamar quem investiga. Este capítulo é o que recebe a chamada.
No outro extremo está a polidipsia primária, que o protocolo federal associa principalmente a transtornos psiquiátricos: o paciente bebe oito, dez litros por dia por hábito ou por pensamento, urina o que bebe, e o sódio fica normal baixo. A distinção pela conversa é imperfeita, e é para ela que existe o teste de restrição hídrica.
A acromegalia: a cara que mudou devagar
A acromegalia não tem uma queixa principal; tem um conjunto que ninguém juntou. Hipertensão arterial, diabetes que precisou de mais remédio, dor nas articulações, formigamento das mãos à noite pelo túnel do carpo, ronco e sonolência de dia, sudorese excessiva, cefaleia. Isoladas, cada uma cabe na clínica de qualquer adulto; juntas, e numa pessoa entre os 30 e os 50 anos, pedem que alguém olhe para a cara.
O que se olha: mandíbula que avançou e separou os dentes de baixo, nariz e lábios maiores, testa proeminente, língua grande, pele grossa e oleosa, voz mais grave, mãos em forma de pá com dedos grossos. As perguntas que diagnosticam não são de sintoma, são de tamanho: a aliança ainda passa pelo dedo, o número do sapato mudou depois de adulto, a dentadura parou de encaixar. E o exame que ninguém pede e que mais ajuda é a foto antiga — a da carteira de identidade de quinze anos atrás, a do casamento — ao lado do rosto de hoje.
O protocolo federal lembra dois outros caminhos pelos quais a doença costuma ser descoberta: sintomas de hiperprolactinemia — alteração menstrual e galactorreia na mulher, impotência e hipogonadismo no homem — e sintomas do próprio tumor, como defeito visual e paralisia de nervo craniano. Registra também que pacientes mais jovens tendem a ter tumores mais agressivos, que doença de próstata é mais comum nos homens com acromegalia e que, na criança e no adolescente, o quadro é de estatura alta com crescimento exagerado. Antes de a cartilagem fechar, pergunte pela altura dos pais.
O achado que ninguém procurou, e a mulher que não amamentou
O incidentaloma hipofisário é a lesão de sela descoberta num exame de imagem pedido por outra razão — o traumatismo de crânio, a sinusite, a cefaleia comum, a tontura — em alguém sem queixa atribuível a ela. O documento brasileiro estima que ele representa cerca de 10% das apresentações do adenoma não funcionante. O que decide o destino desse paciente é o tamanho — microadenoma abaixo de 10 mm, macroadenoma a partir de 10 mm —, a relação com o quiasma e a presença de sinal de hipersecreção ou de deficiência. A primeira pergunta do interno não é se aquilo é câncer; é se a pessoa enxerga bem dos lados e se tem algum sinal de hormônio em excesso ou em falta.
A outra apresentação silenciosa começa na sala de parto. A hipófise cresce na gestação e fica vulnerável à queda de fluxo: depois de uma hemorragia pós-parto com choque, parte dela pode infartar. A primeira pista é a que a paciente e a equipe de alojamento conjunto percebem sem saber o que significa — o leite não desce. Depois, a menstruação não volta, vêm o cansaço, a pressão baixa, o frio, e às vezes a hiponatremia de uma internação qualquer, meses ou anos mais tarde. É a síndrome de Sheehan. A hemorragia pós-parto pertence ao capítulo Hemorragia pós-parto: atonia uterina, causas (4 Ts) e manejo, da apostila de Parto e assistência ao nascimento; o hipopituitarismo que ela deixa é deste capítulo, que o assume.
Pergunte, em toda mulher com hipopituitarismo sem tumor, como foi o último parto, se precisou de transfusão e se conseguiu amamentar. Uma resposta dessas vale mais que metade do painel hormonal.
Como fechar o diagnóstico
Quatro perguntas guiam a investigação da doença de hipófise, e elas vêm na sequência do risco: falta algum hormônio que mata hoje; sobra algum hormônio que precisa ser tratado; o que é a lesão e o que ela está tocando; e, no paciente que urina demais, se aquilo é uma doença da água e de quem é a culpa.
Uma regra organiza a primeira hora: colha antes de repor, mas nunca espere o resultado para repor. O cortisol dosado depois da hidrocortisona, ou durante o uso de prednisona, não tem leitura; e a hidrocortisona que esperou o laboratório pode chegar tarde.
O tubo da primeira hora, antes da hidrocortisona
No paciente instável com suspeita de doença de hipófise — a apoplexia, o operado de sela que piorou, a puérpera de hemorragia grave que não sai do choque —, o protocolo federal da insuficiência adrenal é direto: quem está instável recebe hidrocortisona endovenosa antes de qualquer teste, e só o paciente estável pode esperar os métodos diagnósticos. O que o interno pode fazer, sem atrasar nada, é aproveitar a punção do acesso venoso para colher os tubos que depois não se colhem mais.
O pedido da primeira hora: cortisol; hormônio adrenocorticotrófico, em tubo com EDTA levado no gelo para centrífuga refrigerada, como pede o protocolo, porque colhido de outro jeito ele não vale; tiroxina livre e hormônio estimulante da tireoide; prolactina; hormônio luteinizante e folículo-estimulante; estradiol na mulher ou testosterona no homem; fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1; e o bioquímico de sempre — sódio, potássio, glicemia, ureia, creatinina, gasometria venosa se houver choque. Escreva no pedido o horário da coleta e se já houve glicocorticoide.
O resultado desse tubo não decide a hidrocortisona. Decide o que vem depois: se o cortisol colhido em choque vier francamente baixo, o diagnóstico de deficiência está feito e ninguém vai precisar suspender o corticoide para testar; se vier alto, a endocrinologia vai reavaliar o eixo mais tarde, com o paciente estável. A tiroxina livre desse tubo, por sua vez, entra no plano só depois que o glicocorticoide estiver correndo.
O painel do paciente estável com lesão selar
Fora da urgência, todo macroadenoma e toda lesão de 6 a 9 mm precisam de avaliação das linhagens, independentemente de sintoma: é o que dizem o documento brasileiro de adenoma não funcionante e a diretriz internacional de incidentaloma. O painel é o mesmo nos dois: cortisol no início da manhã, entre 6 e 9 horas; tiroxina livre com hormônio estimulante; hormônio luteinizante e folículo-estimulante, com testosterona total no homem; prolactina; fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1. Na mulher antes da menopausa, a história menstrual basta para o eixo gonadal; depois da menopausa, gonadotrofinas normais ou baixas já são deficiência.
O cortisol matinal se lê em três faixas, e esta apostila adota os cortes do protocolo federal da insuficiência adrenal de 2020 para a deficiência central: 3 µg/dL ou menos confirma a deficiência; acima de 15 µg/dL, com hormônio adrenocorticotrófico normal, a torna pouco provável; entre os dois — com o 15 exato incluído —, é preciso teste de estímulo. O documento brasileiro de adenoma não funcionante, de 2016, usa 18 µg/dL como corte superior; a divergência e o motivo da escolha estão no bloco de divergências. Na faixa intermediária, o paciente que vai ser operado ou que está doente recebe glicocorticoide enquanto o teste não sai.
O teste de estímulo que o protocolo federal descreve para o Brasil é a hipoglicemia insulínica, porque a cortrosina não tinha registro na Anvisa quando ele foi escrito: insulina a 0,05 UI/kg na suspeita de hipopituitarismo, metade da dose usual, com glicemia-alvo de 40 mg/dL e cortisol em 0, 30, 60 e 90 minutos; cortisol de 18 µg/dL ou mais em qualquer tempo afasta a deficiência. É teste de supervisão médica, contraindicado em quem tem convulsão, cardiopatia ou doença cerebrovascular, e não é do interno — mas é o interno quem vai perceber, na história, que o paciente tem uma dessas contraindicações.
Três armadilhas mudam a leitura desse painel. Estrogênio oral, anticoncepcional e gestação elevam a globulina que carrega o cortisol e fazem o cortisol total vir falsamente alto, e o protocolo manda suspender o estradiol para investigar. Hormônio estimulante da tireoide normal não descarta hipotireoidismo central, e nunca serve para ajustar a dose de levotiroxina nele. E o fator de crescimento normal não afasta deficiência de hormônio de crescimento no adulto — o documento brasileiro registra que quase metade dos adultos com a deficiência tem valor normal —, enquanto doença hepática, renal, diabetes descompensado, desnutrição e hipotireoidismo o abaixam por conta própria.
A imagem e o campo visual
O exame da sela é a ressonância magnética com protocolo dedicado e contraste; a tomografia entra quando a ressonância é contraindicada ou para ver erosão óssea do assoalho, que ela mostra melhor. O laudo precisa responder cinco coisas, e vale a pena ligar para o radiologista se não responder: o tamanho no maior diâmetro — microadenoma abaixo de 10 mm, macroadenoma a partir de 10 mm —; se há extensão para cima e se toca ou comprime o quiasma; se invade o seio cavernoso e envolve a carótida; se há sangue ou necrose dentro; e se o aspecto é mesmo de adenoma.
A última pergunta importa porque cerca de 10% das massas selares não são adenomas, segundo o documento brasileiro — a maioria craniofaringiomas e cistos da bolsa de Rathke —, e a lista inclui meningioma, germinoma, metástase de mama, pulmão e rim, hipofisite, sarcoidose, histiocitose, tuberculose e aneurisma da carótida interna. O tratamento de muitas delas é diferente do tratamento do adenoma, e nenhuma lesão selar é biopsiada ou operada sem que a imagem tenha afastado o aneurisma. Diabetes insipidus já presente no diagnóstico reforça que a lesão provavelmente não é um adenoma.
A campimetria formal, de preferência manual pelo método de Goldmann, é obrigatória no macroadenoma que chega perto do quiasma ou o comprime e em quem tem queixa visual, e o documento brasileiro repete que a confrontação de consultório não a substitui. O exame de hoje vira linha de base: a campimetria depois da cirurgia se compara com ela, e a do seguimento também. No diabetes insipidus central confirmado, o protocolo federal manda ressonância da região hipotálamo-hipofisária em todos os pacientes, para investigar causa e afastar tumor; a ausência do brilho normal da neuro-hipófise nas imagens ponderadas em T1 é achado frequente.
Na síndrome de Cushing dependente de hormônio adrenocorticotrófico, a ressonância tem outra tarefa e outro limite. A tarefa é dizer se a fonte é a hipófise ou um tumor fora dela; o limite é o tamanho do adenoma, que deixa a sensibilidade da ressonância convencional em 50% a 60%, segundo o documento brasileiro de diagnóstico. Por isso a imagem não decide sozinha: ela se lê com dois testes dinâmicos que o especialista faz — o estímulo com hormônio liberador de corticotrofina e a supressão com dose alta de dexametasona. Macroadenoma praticamente confirma a doença de Cushing; lesão acima de 6 mm, com os testes apontando para a hipófise, é suficiente para o diagnóstico. Sem lesão, com lesão menor, ou com testes negativos, duvidosos ou discordantes, o passo seguinte é o cateterismo bilateral e simultâneo dos seios petrosos inferiores, que o documento chama de padrão-ouro, com acurácia de 90% a 98%.
O cateterismo é procedimento de centro de referência, e o que cabe ao interno é saber o que ele responde. O hormônio adrenocorticotrófico é colhido ao mesmo tempo nos dois seios petrosos e numa veia periférica, antes e depois de um estímulo; a razão entre o central e o periférico acima de 2 no basal, ou acima de 3 no pico, aponta a hipófise. O exame só vale com o hipercortisolismo ativo, e por isso se colhe cortisol urinário ou salivar nos dias dele. As complicações graves são muito raras, e a mais comum é o hematoma no local da punção, em 3% a 4%. O que o cateterismo faz mal é apontar o lado do tumor — a lateralização se confirma na cirurgia em só 60% a 80% dos casos —, e, como a chance de doença de Cushing antes do exame é alta, a ausência de gradiente não a afasta de vez.
A poliúria: provar que é água, e descobrir de quem é a culpa
O protocolo federal divide o diagnóstico em três etapas, e a primeira é a que o interno faz. Confirme a poliúria com volume de urina de 24 horas e balanço hídrico — mais de 3 litros ou mais de 40 mL/kg por dia no adulto — e afaste o que dá poliúria sem ser doença de água: diurético, inibidor do cotransportador sódio-glicose tipo 2, glicosúria. Peça glicemia, ureia, creatinina, cálcio, potássio, sódio e osmolalidade sérica e urinária, para descartar diabetes mellitus, insuficiência renal e o diabetes insipidus nefrogênico da hipercalcemia e da hipocalemia.
Onde não houver osmômetro, a osmolaridade sérica se estima pelo sódio, pela glicose e pela ureia, com a fórmula do protocolo: duas vezes o sódio, mais a glicose em mg/dL dividida por 18, mais a ureia em mg/dL dividida por 6. Com sódio de 144 mmol/L, glicose de 90 e ureia de 30 mg/dL, são 288 + 5 + 5 = 298 mOsm/L. A leitura da urina é o que separa: osmolalidade urinária abaixo de 300 mOsm/kg num paciente sem glicosúria e com sódio no limite alto é poliúria hipotônica; urina acima de 600 mOsm/kg mostra vasopressina produzida e agindo; acima de 800, o diabetes insipidus fica afastado com grande certeza.
A segunda etapa, separar diabetes insipidus de polidipsia primária, é o teste de restrição hídrica seguido do teste da desmopressina, e o protocolo sugere que ele seja feito com o paciente internado e por quem tem experiência, pelo risco de desidratação e distúrbio eletrolítico. Em geral sete horas de privação bastam. No adulto, o teste para quando o sódio passa de 145 mEq/L, quando a osmolalidade urinária atinge a faixa normal, quando ela para de subir em duas ou três medidas horárias seguidas apesar de o plasma concentrar, ou quando a osmolalidade plasmática passa de 295 a 300. Aí se aplica desmopressina — 4 microgramas por via subcutânea ou 10 microgramas por via nasal no adulto —, com a bexiga esvaziada, e se mede osmolalidade e volume urinário de 30 em 30 minutos por duas horas.
A leitura final: no central, a urina concentra depois da desmopressina, e o paciente com diabetes insipidus central costuma passar de 300 mOsm/kg; no nefrogênico, a urina segue diluída; na polidipsia primária, a urina já tinha concentrado durante a privação, às vezes só depois de um período mais longo. O critério de inclusão do protocolo para receber desmopressina pelo SUS pede resposta com aumento maior que 15% e osmolalidade urinária acima de 300, obtida com o plasma concentrado — osmolalidade acima de 295 ou sódio acima de 145. Duas proibições valem aqui: desmopressina dada antes do teste apaga o exame, e nenhum teste de restrição hídrica se faz na enfermaria sem protocolo e sem supervisão.
A copeptina, fragmento que sai junto com a vasopressina, aparece em pedidos e prontuários, mas o protocolo federal não a recomenda, por falta de valores de referência consolidados. Se o interno a encontrar num prontuário, a fisiologia resolve a leitura: no diabetes insipidus central ela é baixa, porque falta a vasopressina que a acompanha; valor alto num paciente poliúrico sem restrição hídrica aponta para resistência renal. A frase do protocolo sobre o corte de 21,4 pmol/L tem um problema de leitura registrado nas notas do bloco de critério.
A acromegalia: um exame de triagem, um de confirmação, e o resto é comorbidade
O primeiro exame é o fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1, que o protocolo federal chama de melhor teste inicial. Como a referência muda conforme a idade, o índice de massa corporal e o método do laboratório, o seguimento se faz sempre no mesmo laboratório. Com quadro clínico sugestivo e valor acima de 30% do limite superior — acima de 325 ng/mL num laboratório cujo limite é 250 —, o protocolo dispensa o teste de supressão. Hormônio de crescimento ultrassensível abaixo de 0,4 ng/mL com fator de crescimento normal exclui a doença. O que não se faz é pedir hormônio de crescimento isolado e interpretar valor alto: ele sobe com estresse, exercício, jejum, diabetes descompensado, doença hepática e desnutrição.
Quando o fator de crescimento é duvidoso, o teste de confirmação é o de supressão: glicose anidra 75 g por via oral e hormônio de crescimento antes e aos 30, 60, 90 e 120 minutos; em pessoas saudáveis ele cai abaixo de 0,4 ng/mL em pelo menos uma dosagem, e ficar acima disso em todas indica secreção desregulada. Quem tem diabetes não faz a sobrecarga — o protocolo aceita, nesse paciente, fator de crescimento alto com hormônio de crescimento basal acima de 0,4 ng/mL na vigência de hiperglicemia. Um cuidado de leitura: diabetes descompensado, hepatopatia e desnutrição abaixam o fator de crescimento, e um valor apenas normal num acromegálico muito descompensado pode enganar.
Confirmado o excesso, vêm a ressonância de sela — e, se ela não mostrar adenoma, tomografia de tórax e abdome atrás de tumor produtor ectópico —, o painel das outras linhagens e a lista de comorbidades que o protocolo manda individualizar: glicemia de jejum e hemoglobina glicada, ecocardiograma, polissonografia, radiografia de coluna, palpação da tireoide com ultrassonografia se houver nódulo, campimetria se a lesão toca o nervo óptico, e colonoscopia, que o protocolo inclui pela associação com neoplasia de cólon descrita em alguns estudos, embora a registre como controversa. O interno raramente fecha essa lista; o que faz diferença é pedir o fator de crescimento e encaminhar.
A apneia do sono, que o protocolo coloca entre as comorbidades que pesam, tem capítulo — Apneia obstrutiva do sono, na apostila de Pneumologia —; este capítulo fica com a parte que decide no acromegálico: perguntar por ronco, pausas testemunhadas e sonolência diurna, registrar, e incluir a polissonografia no encaminhamento. O tratamento da apneia é daquele capítulo.
O que não pedir, e quando o exame certo mente
Para a insuficiência adrenal, o protocolo federal nega valor diagnóstico ao cortisol salivar e ao urinário de 24 horas — são exames de excesso, não de falta. Cortisol colhido à tarde, na vigência de estrogênio oral ou depois de qualquer dose de glicocorticoide não se interpreta. Hormônio adrenocorticotrófico colhido em tubo comum e mandado em temperatura ambiente é dinheiro jogado fora.
Para o eixo tireoidiano do paciente de hipófise, hormônio estimulante da tireoide sozinho é o exame errado, e continuar a titular levotiroxina por ele depois do diagnóstico de hipotireoidismo central é o erro mais comum do seguimento. Para o hormônio de crescimento do adulto, o teste de estímulo só vale depois de corrigido o hipotireoidismo central e com as outras deficiências já repostas — o protocolo federal e a diretriz internacional dizem o mesmo —, e nunca é pedido de enfermaria.
Para o incidentaloma, rastrear hipercortisolismo com teste de supressão com dexametasona, cortisol salivar noturno ou cortisol urinário só se justifica quando há suspeita clínica de síndrome de Cushing, como registra o documento brasileiro; a investigação da síndrome de Cushing pertence ao capítulo Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo (HAS secundária), desta apostila. O inverso também é erro: pedir ressonância de hipófise para procurar Cushing antes de o hipercortisolismo estar provado e o hormônio adrenocorticotrófico dosado. Adenomas pequenos e silenciosos aparecem em cerca de 10% das hipófises nas séries de autópsia reunidas pela diretriz internacional de 2011, e um deles, achado antes da hora, pode mandar para a sela quem tem o tumor fora dela ou nem tem Cushing. E, na poliúria, dosar vasopressina ou copeptina e tentar a restrição hídrica por conta própria na enfermaria não fazem parte da investigação do interno: o capítulo Distúrbios do sódio no internado: hipernatremia diz o mesmo — quem separa o central do nefrogênico é a resposta à desmopressina, e esse teste se faz em serviço preparado para ele.
Fluxo, tabelas e contas das doenças da hipófise
A prioridade é reconhecer deficiência de cortisol e emergência selar, organizar reposições na ordem segura e acompanhar água e sódio. Depois, estude as síndromes de excesso hormonal e os incidentalomas como percursos separados. O fluxo vai do paciente doente com motivo para doença de hipófise até o seguimento. As tabelas separam as causas de poliúria hipotônica, põem as reposições na ordem em que entram, convertem as doses do capítulo em frasco e comprimido pelas apresentações da Rename 2024 num adulto de 70 kg, e resumem o seguimento do achado incidental de sela. Nas notas estão os erros das fontes que alteram a conduta, cada um com a sua conta.
- 1Massa selar, cirurgia ou irradiação de sela, hemorragia pós-parto grave ou trauma de crânio, com hipotensão, vômito, hipoglicemia, confusão ou sódio caindo: colha cortisol e os outros eixos na mesma punção e aplique hidrocortisona 100 mg por via endovenosa sem esperar resultado; depois, 50 mg de 6 em 6 horas.
- 2Cefaleia súbita com alteração visual ou de movimento ocular e massa selar na tomografia: apoplexia. Hidrocortisona, acuidade e campo por confrontação documentados, neurocirurgia no mesmo dia — a cirurgia é urgente quando há comprometimento neuro-oftalmológico.
- 3Paciente estável com lesão selar de 10 mm ou mais, ou de 6 a 9 mm: cortisol entre 6 e 9 horas, tiroxina livre com hormônio estimulante, prolactina (diluída no macroadenoma), hormônio luteinizante e folículo-estimulante, testosterona no homem, fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1, sódio, potássio e glicemia.
- 4Cortisol matinal de 3 µg/dL ou menos: deficiência — repor. Acima de 15 µg/dL com hormônio adrenocorticotrófico normal: deficiência pouco provável. Entre os dois, 15 exato incluído: teste de estímulo pela endocrinologia, com cobertura de glicocorticoide se houver cirurgia ou doença aguda no caminho.
- 5Tiroxina livre baixa com hormônio estimulante baixo, normal ou pouco elevado: hipotireoidismo central. Levotiroxina só com o glicocorticoide já correndo; ajuste pela tiroxina livre, nunca pelo hormônio estimulante.
- 6Lesão encostando ou comprimindo o quiasma, ou queixa visual: campimetria formal, de preferência manual. Déficit de campo, oftalmoplegia, compressão das vias ópticas, apoplexia com distúrbio visual ou tumor hipersecretor que não seja prolactinoma: encaminhamento cirúrgico.
- 7Achado incidental sem indicação cirúrgica: ressonância em 6 meses se macro, em 12 meses se micro, e a sequência da tabela de seguimento; prolactina e fator de crescimento em todos; rastreio de Cushing só com suspeita clínica.
- 8Poliúria acima de 3 litros em 24 horas ou de 40 mL/kg por dia: glicemia, ureia, creatinina, cálcio, potássio, sódio, osmolalidade sérica e urinária; afastar diurético, inibidor do cotransportador sódio-glicose tipo 2 e lítio.
- 9Osmolalidade urinária abaixo de 300 mOsm/kg sem glicosúria e com sódio no limite alto: poliúria hipotônica. Não dê desmopressina: garanta água, registre o balanço e encaminhe para teste de restrição hídrica supervisionado.
- 10Paciente com poliúria que não consegue beber (sedado, operado, acamado) e sódio subindo: repor a água perdida pelo capítulo de hipernatremia e chamar a equipe que conduz o caso; a desmopressina é decisão dela.
- 11Urina que concentra acima de 600 mOsm/kg na restrição: vasopressina presente e ativa. Resposta à desmopressina com aumento maior que 15% e osmolalidade urinária acima de 300, com plasma concentrado: diabetes insipidus central. Urina que segue diluída: nefrogênico — lítio, cálcio, potássio, nefrologia.
- 12Diabetes insipidus central confirmado: ressonância da região hipotálamo-hipofisária; desmopressina iniciada e titulada com o paciente internado, sódio mantido entre 137 e 145 mEq/L; beber só por sede; janela periódica de poliúria.
- 13Suspeita de acromegalia: fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1. Acima de 1,3 vez o limite superior com quadro típico: excesso confirmado. Duvidoso: supressão com 75 g de glicose (hormônio de crescimento abaixo de 0,4 ng/mL afasta). Diabético: fator de crescimento com hormônio de crescimento basal acima de 0,4 ng/mL na hiperglicemia.
- 14Acromegalia confirmada: ressonância de sela, painel das outras linhagens, pressão, glicemia, ecocardiograma, polissonografia, colonoscopia conforme o especialista, campimetria se houver contato com o nervo óptico — e encaminhamento a serviço de endocrinologia com neurocirurgia de hipófise.
- 15Hipercortisolismo provado com hormônio adrenocorticotrófico acima de 20 pg/mL, pelo capítulo Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo (HAS secundária): serviço de referência, com ressonância de sela e testes dinâmicos. Macroadenoma, ou lesão acima de 6 mm com testes a favor da hipófise: doença de Cushing e cirurgia transesfenoidal. Sem lesão, lesão menor ou testes discordantes: cateterismo dos seios petrosos — razão central-periférica acima de 2 no basal ou de 3 no pico aponta a hipófise.
- 16Operado de doença de Cushing: sem glicocorticoide na indução anestésica, com a estratégia da equipe para os primeiros dias — dosagens seriadas e reposição só com sintoma ou cortisol abaixo de 5 µg/dL, ou hidrocortisona desde o pós-operatório imediato com cortisol das 8 às 9 horas, 18 a 24 horas depois da última dose. Cortisol abaixo de 5 µg/dL na primeira semana indica remissão; a reposição segue até o eixo voltar, de 6 a 18 meses, com regra de estresse, cartão e seguimento de longo prazo, porque a recidiva pode vir anos depois.
Poliúria hipotônica e o que a imita: como as causas se separam
| Causa | Sódio antes do teste | Urina durante a restrição hídrica | Resposta à desmopressina | O que fazer |
|---|---|---|---|---|
| Polidipsia primária | Normal ou no limite inferior | Concentra, às vezes só com privação mais longa | Pouca: a urina já tinha concentrado | Não usar desmopressina — ela prende a água que o paciente continua bebendo; tratar a causa |
| Diabetes insipidus central completo | Normal alto ou alto | Segue diluída | Osmolalidade urinária sobe muito, tipicamente o dobro, e passa de 300 | Desmopressina; ressonância hipotálamo-hipofisária |
| Diabetes insipidus central parcial | Normal alto | Concentra pouco, abaixo do normal | Sobe de 15% a 50% e costuma passar de 300 | Desmopressina conforme sintoma e sódio; ressonância |
| Diabetes insipidus nefrogênico | Normal alto ou alto | Segue diluída | Sobe menos de 10% no completo e até 45% no parcial; raramente passa de 300 | Retirar a causa — lítio, hipercalcemia, hipocalemia — e encaminhar à nefrologia |
| Diurese osmótica pela glicose | Variável | A urina não é diluída: a osmolalidade é alta | Não se aplica | Tratar a hiperglicemia; não é doença de água |
Reposição no hipopituitarismo: a ordem, o alvo e o que a Rename 2024 fornece
| Ordem | Eixo | Como se repõe | Como se acompanha | Rename 2024 |
|---|---|---|---|---|
| 1ª | Corticotrófico | Prednisona 2,5 a 5 mg/dia pelo protocolo federal; hidrocortisona 15 a 20 mg/dia pela diretriz internacional, onde houver; sem fludrocortisona na deficiência central | Clínica — peso, pressão, disposição —, e não por cortisol nem por hormônio adrenocorticotrófico; dose de estresse e identificação de emergência | Prednisona 5 e 20 mg (Básico e Estratégico); hidrocortisona só injetável, 100 e 500 mg (Básico) |
| 2ª | Tireotrófico | Levotiroxina, só depois do glicocorticoide | Tiroxina livre na metade superior da referência; hormônio estimulante não serve | Levotiroxina de 12,5 a 100 microgramas (Básico) |
| Quando houver | Neuro-hipófise | Desmopressina nasal, oral ou injetável, em esquema individual | Sódio entre 137 e 145 mEq/L, diurese, peso; janela periódica de poliúria | Spray 0,1 mg/mL e comprimidos 0,1 e 0,2 mg (Especializado); injetável 4 e 15 microgramas/mL (Estratégico) |
| 3ª | Gonadotrófico | Testosterona no homem; estrogênio com progestagênio na mulher antes da menopausa, sem contraindicação | Clínica, hemoglobina no homem em testosterona, massa óssea | Testosterona não consta; estrogênios conjugados 0,3 e 0,625 mg e etinilestradiol com levonorgestrel (Básico) |
| Por último | Somatotrófico | Somatropina, se a deficiência for comprovada por teste e houver indicação | Fator de crescimento abaixo do limite superior; cortisol e tiroxina livre revistos ao iniciar | Somatropina de 4 a 30 UI (Especializado) |
Da dose ao frasco: as drogas do capítulo num adulto de 70 kg
| Fármaco e apresentação (Rename 2024) | Dose usada no capítulo | Quanto é | Observação |
|---|---|---|---|
| Succinato de hidrocortisona, pó injetável de 100 mg (Básico) | Crise, apoplexia ou cirurgia: 100 mg por via endovenosa e depois 50 mg de 6 em 6 horas | 1 frasco no ataque; 2 frascos por dia na manutenção de 200 mg/dia | Na deficiência central não precisa de mineralocorticoide |
| Prednisona, comprimido de 5 mg (Básico e Estratégico) | Manutenção na deficiência central: 2,5 a 5 mg/dia | Meio a um comprimido por dia | Equivale a 10 a 20 mg de hidrocortisona, na proporção de 1 para 4 |
| Acetato de desmopressina, spray nasal de 0,1 mg/mL, frasco de 2,5 mL (Especializado) | 10 a 20 microgramas de 1 a 3 vezes ao dia; início com 10 microgramas à noite | 1 jato = 10 microgramas = 0,1 mL; frasco = 250 microgramas = 25 jatos; a 20 microgramas por dia, dura 12 dias e meio | Só dá múltiplos de 10 microgramas; inútil com tamponamento nasal |
| Acetato de desmopressina, comprimidos de 0,1 e 0,2 mg (Especializado) | Início 0,05 a 0,1 mg; manutenção 0,1 a 1,2 mg/dia em 2 a 3 tomadas | 0,05 mg = meio comprimido de 0,1; 1,2 mg/dia = 12 comprimidos de 0,1 ou 6 de 0,2 | Potência 10 a 20 vezes menor que a nasal; trocar de via exige retitular com diurese e sódio |
| Acetato de desmopressina, solução injetável de 4 microgramas/mL (Estratégico) | Teste diagnóstico do adulto: 4 microgramas por via subcutânea | 1 mL da ampola | Única via que funciona sem nariz e sem deglutição; não aparece na lista de tratamento do protocolo federal |
| Acetato de desmopressina, solução injetável de 15 microgramas/mL (Estratégico) | Os mesmos 4 microgramas | 0,27 mL | Volume pequeno para medir à beira do leito; quando houver as duas, a de 4 microgramas/mL é a que se mede com segurança |
Achado incidental de sela: o que pedir e quando repetir, pela diretriz internacional de 2011
| Lesão | Avaliação inicial | Ressonância de seguimento | Hormônios e campo no seguimento |
|---|---|---|---|
| Microincidentaloma abaixo de 6 mm | Prolactina e fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1; rastreio de Cushing só com suspeita clínica; painel de deficiência se houver sintoma | Em 12 meses; estável, a cada 1 a 2 anos por 3 anos e depois mais espaçada | Sem reteste se a clínica e a imagem não mudam |
| Microincidentaloma de 6 a 9 mm | O mesmo, mais o painel de deficiência completo | Em 12 meses; estável, a cada 1 a 2 anos por 3 anos | Reteste se crescer ou surgir sintoma novo |
| Macroincidentaloma, 10 mm ou mais, longe do quiasma | Prolactina diluída se a lesão for grande, fator de crescimento, painel completo; campimetria dispensável | Em 6 meses; estável, anual por 3 anos e depois mais espaçada | Painel em 6 meses e depois anual; campimetria se crescer até encostar no quiasma |
| Qualquer lesão encostando ou comprimindo o quiasma, com déficit de campo, oftalmoplegia ou apoplexia com distúrbio visual | Painel completo e campimetria formal | Definida pela equipe cirúrgica | Encaminhamento para cirurgia — recomendação da diretriz |
Desmopressina sem via para o operado. O protocolo federal de 2025 lista, entre os medicamentos do tratamento, só a solução e o spray nasal de 0,1 mg/mL e os comprimidos de 0,1 e 0,2 mg — mas o teste diagnóstico do mesmo documento usa 4 microgramas por via subcutânea, e a Rename 2024 tem a forma injetável, de 4 e 15 microgramas/mL, no Componente Estratégico. A conta do pós-operatório transesfenoidal: nariz tamponado torna o spray inutilizável, jejum e vômito tiram o comprimido, e a única via que funciona — 1 mL da ampola de 4 microgramas/mL — não aparece na lista de tratamento. No paciente sem via oral ou nasal, esta apostila usa a injetável, prescrita pela equipe que conduz o caso.
Critério de dispensação mais alto no estado que no protocolo. O resumo do Componente Especializado de Santa Catarina de outubro de 2025 transcreve o critério de inclusão com sódio acima de 147 mEq/L e osmolaridade urinária acima de 600 mOsm/kg depois da desmopressina; o protocolo federal que ele cita pede sódio acima de 145 e osmolalidade urinária acima de 300. A conta: diabetes insipidus central parcial com osmolalidade urinária subindo de 280 para 450 mOsm/kg (61%) e sódio de 146 entra pelo protocolo federal e é recusado pelo resumo nos dois números. O laudo de solicitação se preenche pelo texto federal, que é a norma.
Copeptina lida ao contrário. O protocolo de 2025 escreve que a copeptina é biomarcador para diagnosticar diabetes insipidus com níveis acima de 21,4 pmol/L e 100% de sensibilidade e especificidade. Copeptina sai junto com a vasopressina: no diabetes insipidus central ela é baixa, e o próprio parágrafo, adiante, liga os níveis basais ao nefrogênico. A conta de quem segue a frase como está: poliúrico com copeptina basal de 25 pmol/L é rotulado como diabetes insipidus e recebe desmopressina, quando o valor alto aponta resistência renal, em que a desmopressina não funciona. A leitura pela fisiologia é desta apostila; o protocolo, de todo modo, não recomenda dosar copeptina.
Dose de estresse que não fecha. O protocolo federal da insuficiência adrenal de 2020 manda pelo menos dobrar a dose habitual em cirurgia com anestesia geral, grande trauma e parto (seção 6.1) e dá, na seção 6.5, hidrocortisona 200 mg/dia em estresse. No paciente de hipófise em prednisona 5 mg/dia, dobrar dá 10 mg de prednisona, o equivalente a 40 mg de hidrocortisona — cinco vezes menos que 200 mg —, e quem está em jejum para anestesia não absorve comprimido. Esta apostila adota a seção 6.5 para cirurgia, trauma, vômito e internação por doença aguda, e reserva o aumento da dose oral para a doença leve em casa, com febre, na qual o paciente come e bebe.
Cortisol na borda. No item 3.2.2 do protocolo federal da insuficiência adrenal, a deficiência central se confirma com cortisol basal de 3 µg/dL ou menos e fica muito pouco provável acima de 15, com teste de estímulo entre 3 e 15; a Figura 2 do mesmo documento troca o acima de 15 por 15 ou mais. Conta: cortisol de 15,0 µg/dL com hormônio adrenocorticotrófico normal encerra a investigação pela figura e vai ao teste de hipoglicemia insulínica pelo texto — um teste com contraindicações reais —, e o 3,0 cabe ao mesmo tempo no 3 ou menos e no entre 3 e 15, no texto e na figura. Esta apostila lê pelo texto onde o sinal é explícito, a mesma leitura do capítulo Insuficiência adrenal e crise addisoniana: 3 ou menos confirma, acima de 15 torna pouco provável, e o 15 exato vai para o teste.
Reteste do hormônio de crescimento com dois estímulos diferentes. O protocolo federal de 2018 aceita, na seção de inclusão, retestar o adulto com deficiência isolada da infância com estímulo de insulina ou de clonidina; a seção de acompanhamento do mesmo documento manda o reteste com insulina ou glucagon, e a seção de diagnóstico só traz corte adulto para insulina (menor que 5 ng/mL) e glucagon (menor que 3). Um teste de clonidina no adulto fica sem régua de leitura no próprio protocolo; esta apostila segue a seção que tem corte.
A conduta, hora a hora
A conduta na doença de hipófise corre em três relógios. O das horas decide o cortisol, a água e o olho; o dos dias decide a cirurgia, a desmopressina, o sódio e a ordem em que as reposições entram; o dos meses decide o reteste dos eixos, a imagem, a campimetria e a tentativa de retirar a desmopressina. O interno está presente nos três, e em cada um há uma coisa que ele não pode deixar passar.
A linha do tempo abaixo acompanha a Silvina do pronto-socorro ao primeiro retorno. As prescrições são decisões da equipe; em cada marco está escrito o que cabe a você fazer, pedir, conferir e dizer. A insuficiência adrenal como doença — a crise e sua hidrocortisona, o teste de estímulo, a reposição de todos os dias, a dose de estresse em cirurgia e parto e a educação que as acompanha — pertence ao capítulo Insuficiência adrenal e crise addisoniana, desta apostila, e as doses e regras usadas aqui são as dele; o que é deste capítulo é o paciente em quem a falta de cortisol vem da hipófise: a lesão que a causou, os outros eixos que caíram junto, a ordem em que as reposições entram e o que a água e o olho fazem na mesma semana. A hiponatremia e a hipernatremia que aparecem no caminho são manejadas pelos capítulos Distúrbios do sódio no internado: hiponatremia e Distúrbios do sódio no internado: hipernatremia, da apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado; a este capítulo cabe reconhecer de onde elas vêm quando a origem é a hipófise.
O operado de doença de Cushing passa pelos mesmos relógios com três diferenças, e o interno precisa conhecê-las antes de a equipe prescrever. A primeira é o que se dá na indução: ele chega à cirurgia com cortisol de sobra, e as duas estratégias descritas pelo documento brasileiro de tratamento, de 2018, dispensam glicocorticoide na indução anestésica. Numa, nada se repõe de rotina — o cortisol é dosado pela manhã ou de 6 em 6 horas nos primeiros dias, e o glicocorticoide entra com sintoma de falta, colhendo o cortisol imediatamente antes, ou com cortisol abaixo de 5 µg/dL; na outra, a hidrocortisona começa no pós-operatório imediato e o cortisol é dosado das 8 às 9 horas, em jejum, 18 a 24 horas depois da última dose. A escolha é da equipe; o que muda para você é a coleta, porque cortisol colhido fora dessas condições não se lê — e a prednisona, o comprimido de fácil acesso no Brasil, interfere na dosagem e só é suspensa para medir, pelo menos 48 horas antes, por decisão da endocrinologia e com vigilância. A segunda diferença é o sentido do resultado: cansaço, enjoo e cortisol abaixo de 5 µg/dL na primeira semana indicam remissão, e a reposição que começa ali dura até o eixo voltar, com a mesma regra de estresse, o mesmo cartão e a mesma carta de alta da Silvina. A terceira é a trombose: o documento recomenda profilaxia ativa, com compressão pneumática das pernas, heparina de baixo peso molecular assim que possível — 24 horas depois da cirurgia — e deambulação precoce, embora não exista protocolo de anticoagulação específico da doença. O diabetes insipidus transitório, em 3% a 9% desses operados, e a hiponatremia, pela falta de cortisol ou pela secreção inapropriada de hormônio antidiurético, seguem os marcos abaixo.
Terça-feira, 14h40 — o tubo e a hidrocortisona
Você explica ao residente, em uma frase, por que a levotiroxina espera: tiroxina livre baixa com hormônio estimulante normal numa mulher com massa selar, pressão baixa, glicemia de 74 e sódio de 128 é hipopituitarismo com deficiência de corticotrofina presumida, e tiroxina sem cortisol pode abrir a crise. Ele risca a linha. A punção do acesso é aproveitada para colher os tubos, e a hidrocortisona entra às 14h50, antes de a ressonância ser marcada. Você documenta com horário a acuidade visual de cada olho com a cartela de bolso, o campo por confrontação, as pupilas, a motricidade ocular e a escala de coma de Glasgow — é contra esse registro que a neurocirurgia vai medir piora ou melhora. Confirma, na conversa, que ela não usa estrogênio nem anticoncepcional, o que tornaria o cortisol total falsamente alto. O plantonista liga para a neurocirurgia e para a endocrinologia com o quadro montado: cefaleia súbita, paralisia do terceiro nervo à direita, falha de campo temporal, massa selar de 2,6 cm e hipocortisolismo clínico já tratado.
Prescrição- Colher antes do corticoide, na mesma punção: cortisol, hormônio adrenocorticotrófico em tubo com EDTA no gelo, tiroxina livre, hormônio estimulante da tireoide, prolactina, hormônio luteinizante, folículo-estimulante, estradiol, fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1, sódio, potássio, glicemia, ureia, creatinina e hemograma A coleta não atrasa hidrocortisona: se não puder ser imediata, administrar o corticoide e documentar dose e horário para interpretar os exames posteriores.
- Succinato de hidrocortisona 100 mg por via endovenosa, agora
- Soro fisiológico 0,9% por via endovenosa guiado pela pressão arterial e pela diurese
- Glicemia capilar de hora em hora nas primeiras 6 horas
- Levotiroxina suspensa
- Ressonância magnética de sela com contraste, com urgência
- Evolução com horário: acuidade de cada olho, campo por confrontação, pupilas, motricidade ocular, escala de coma de Glasgow
Terça-feira, 19h — a ressonância e o plano da noite
A ressonância mostra macroadenoma de 2,6 cm com conteúdo hemorrágico, que eleva e achata o quiasma e invade o seio cavernoso direito sem estreitar a carótida. A neurocirurgia examina, confirma a paralisia do oculomotor e a falha de campo, e marca a descompressão transesfenoidal para a manhã seguinte: apoplexia com comprometimento neuro-oftalmológico é indicação de cirurgia urgente pelo documento brasileiro. Os exames da tarde voltam: cortisol colhido antes da hidrocortisona, em plena crise, de 2,1 µg/dL — abaixo até do corte matinal de 3, num momento em que o estresse deveria tê-lo elevado: deficiência confirmada, sem necessidade de teste antes da cirurgia —, tiroxina livre de 0,48 ng/dL com hormônio estimulante de 0,9 mUI/L, prolactina de 38 ng/mL, gonadotrofinas e estradiol baixos, fator de crescimento no limite inferior, sódio de 129. A prolactina modesta, na faixa do efeito haste, não muda o plano de hoje; a leitura dela, se a patologia sugerir prolactinoma, é do capítulo de hiperprolactinemia. Você registra que a levotiroxina fica para depois da cirurgia: na urgência, o documento brasileiro pede ao menos o glicocorticoide imediatamente antes da operação, e a tireoide não tem pressa de horas. E você deixa uma instrução para a noite que evita um erro clássico: a diurese vai aumentar à medida que o cortisol solta a água retida, e isso é correção esperada se o sódio estiver subindo a partir de 129 em direção ao normal; passa a ser outra coisa se o sódio ultrapassar 145 com urina diluída.
Prescrição- Succinato de hidrocortisona 50 mg por via endovenosa de 6 em 6 horas, mantida no centro cirúrgico
- Sódio sérico de 6 em 6 horas, respeitando o limite de correção do capítulo de hiponatremia
- Balanço hídrico com diurese de 2 em 2 horas; densidade urinária se a diurese superar a entrada
- Jejum a partir da meia-noite, com hidratação venosa de manutenção pelo peso
- Levotiroxina adiada para depois da cirurgia
- Acuidade e campo por confrontação às 23h e antes do encaminhamento ao centro cirúrgico
Quarta-feira, 7h30 às 20h — descompressão e as primeiras horas depois dela
A cirurgia retira um tumor amolecido, com sangue e necrose, e deixa o nariz tamponado. À tarde, na enfermaria de neurocirurgia com a clínica acompanhando, a ptose segue igual, mas a falha de campo temporal ao confronto já é menor que a do registro de terça. O que você confere nas primeiras horas é curto e inegociável: a hidrocortisona prescrita e aplicada no horário, porque o estresse cirúrgico é exatamente a situação em que a dose não pode faltar; a diurese de hora em hora; o sódio de 6 em 6 horas; e o copo de água ao alcance da mão, porque ela respira pela boca, tem sede e precisa conseguir beber sozinha. Você não prescreve desmopressina de horário para prevenir poliúria que ainda não existe, e escreve isso na evolução para o plantão da noite. E orienta a enfermagem a comunicar a neurocirurgia se sair líquido claro pelo nariz.
Prescrição- Succinato de hidrocortisona 50 mg por via endovenosa de 6 em 6 horas
- Diurese de hora em hora e balanço hídrico nas primeiras 48 horas
- Sódio sérico de 6 em 6 horas; densidade urinária se a diurese superar a entrada por 2 horas seguidas
- Água por via oral conforme a sede, com o copo ao alcance
- Sem desmopressina de horário
- Comunicar a neurocirurgia se houver saída de líquido claro pelo nariz, febre ou piora visual
Quinta-feira, 3h — a poliúria da madrugada
A enfermeira chama: 420, 380 e 450 mL nas últimas três horas, com 1,5 litro bebido no mesmo período; o sódio da meia-noite era 141 e o das 3h é 146; a densidade urinária é de 1,002; a glicemia capilar é de 132 mg/dL e não há glicosúria; ela não recebeu manitol e o soro está em manutenção. Você faz a conta que separa as coisas: não é diurese osmótica, não é a eliminação do volume dado na cirurgia — que viria com sódio estável ou caindo e urina não tão diluída —, e o sódio já passou da correção esperada. É diabetes insipidus pós-operatório. O plantonista da neurocirurgia decide tratar, e a pergunta seguinte é por qual via: o spray é inútil com o nariz tamponado, e os comprimidos não parariam no estômago de quem vomitou há uma hora. A farmácia tem a desmopressina injetável de 4 microgramas/mL, que a Rename coloca no Componente Estratégico e que o protocolo federal não lista no tratamento. A equipe prescreve uma dose única por via subcutânea e, a seu pedido, deixa escrito o critério para a próxima, em vez de um horário.
Prescrição- Acetato de desmopressina, ampola de 4 microgramas/mL: dose única por via subcutânea, na dose definida pela equipe; não repetir por horário
- Reavaliar diurese, concentração urinária, balanço e sódio antes de repetir desmopressina. Retorno de poliúria diluída pode exigir nova dose sob orientação da equipe; não é obrigatório esperar o sódio ultrapassar 145 se a perda estiver sendo compensada por água. Evitar doses de horário sem reavaliação no pós-operatório.
- Sódio sérico de 4 em 4 horas nas 12 horas seguintes à dose
- Água pela sede; se vomitar ou não conseguir beber, glicose a 5% por via endovenosa repondo a perda, pelo capítulo de hipernatremia
- Glicemia capilar de 6 em 6 horas
Quinta-feira, 11h, a sábado — o glicocorticoide que desce e a tireoide que entra
A diurese normaliza em quatro horas e fica normal por um dia e meio; no sábado às 9h volta a passar da entrada, com sódio de 145 e urina diluída, e recebe a segunda dose. Depois dela, 48 horas sem poliúria e sem nova dose. Enquanto isso, a hidrocortisona venosa é reduzida pela equipe à medida que ela come, e passa a prednisona oral na dose de manutenção do protocolo federal — hidrocortisona por via oral não está disponível no Brasil, registra o protocolo, e a Rename só tem a injetável. Com o glicocorticoide já correndo, a levotiroxina entra agora, na quinta-feira: é a ordem que a diretriz internacional recomenda, e a dose segue a lógica do capítulo Hipotireoidismo e rastreamento tireoidiano. O que muda aqui é o alvo, e você escreve na prescrição para ninguém errar depois: o ajuste será pela tiroxina livre, e o hormônio estimulante da tireoide não entra no pedido de controle.
Prescrição- Hidrocortisona venosa reduzida pela equipe até a troca por prednisona 5 mg por via oral pela manhã, quando a dieta estiver aceita
- Levotiroxina por via oral em jejum, iniciada com o glicocorticoide já em curso
- Controle futuro pela tiroxina livre; hormônio estimulante da tireoide fora do pedido
- Desmopressina injetável sob demanda, pelos critérios da madrugada de quinta-feira
- Sódio sérico diário
Segunda-feira, quinto dia de pós-operatório — o sódio que desce
O sódio de domingo era 139; o de segunda de manhã é 131, e ela acordou com cefaleia diferente da do pós-operatório, enjoada, urinando pouco. Uma visita a aconselhou a beber muita água para recuperar, e ela bebeu três litros sem sede. Nenhuma desmopressina foi dada desde sábado. Você reconhece a segunda fase: os terminais que degeneram estão soltando a vasopressina guardada, e qualquer dose de desmopressina agora — ou qualquer litro bebido por conselho — soma retenção de água à retenção de água. A conduta da hiponatremia é a do capítulo Distúrbios do sódio no internado: hiponatremia, com a restrição hídrica e os limites de correção dele; a parte deste capítulo é outra: garantir que desmopressina nenhuma fique prescrita, conferir que a prednisona foi tomada e não vomitada — deficiência de cortisol também derruba sódio —, e explicar para ela e para a família que, nesta semana, beber se faz pela sede e não pela recomendação de ninguém.
Prescrição- Suspender qualquer prescrição de desmopressina, inclusive a sob demanda
- Restrição hídrica e sódio seriado conforme o capítulo Distúrbios do sódio no internado: hiponatremia
- Sem soro hipotônico
- Confirmar a tomada da prednisona e a ausência de vômito
- Enquanto houver restrição hídrica prescrita, explicar o limite diário e como contar líquidos; não manter simultaneamente uma orientação irrestrita de beber pela sede. Reavaliar sódio, balanço e indicação de restrição, com orientação de urgência diante de piora neurológica.
Quarta-feira, sétimo dia de pós-operatório — alta com duas receitas, uma regra e uma carta
O sódio está em 138, a diurese é normal há três dias sem desmopressina, a ptose melhorou e o campo por confrontação quase fechou. Ela sai sem desmopressina de uso contínuo, com a instrução do que fazer se a sede e a urina clara voltarem. O que você não deixa para a consulta é a regra de estresse, porque é ela que decide se a próxima febre vira internação: com febre de 38,5 °C ou mais em casa, comendo e bebendo, a prednisona dobra enquanto durar a febre e ela procura a unidade; com vômito, diarreia com desidratação, trauma, cirurgia ou qualquer quadro que impeça o comprimido, é pronto-socorro para hidrocortisona venosa, sem tentar dobrar em casa. Ela sai com cartão de identificação de insuficiência adrenal central em uso de glicocorticoide — o protocolo federal recomenda pulseira, corrente ou cartão — e com a carta de alta para a unidade básica, escrita para quem nunca viu o caso: diagnóstico, doses, a regra de estresse e a proibição de suspender a prednisona.
Prescrição- Prednisona 5 mg por via oral pela manhã, todos os dias, sem suspender
- Levotiroxina por via oral em jejum, todos os dias
- Febre de 38,5 °C ou mais em casa: dobrar a prednisona enquanto durar a febre e procurar a unidade básica
- Vômito, diarreia com desidratação, trauma ou cirurgia: pronto-socorro para hidrocortisona venosa
- Cartão de identificação: insuficiência adrenal central em uso de glicocorticoide
- Sódio sérico em 3 dias na unidade básica; voltar antes se houver sede intensa com urina clara e abundante, ou cefaleia com enjoo e sonolência
- Campimetria formal em 1 mês; endocrinologia em 4 a 6 semanas; ressonância de sela a partir de 3 meses
Seis semanas depois — o primeiro retorno
No ambulatório, a campimetria formal mostra defeito temporal residual menor que o esperado pela apresentação, a ptose sumiu e ela voltou a subir a escada da escola. A tiroxina livre está na metade superior da referência, que é o alvo da diretriz internacional, e a dose fica. A anatomia patológica confirmou adenoma de linhagem gonadotrófica, sem hormônio em excesso. Não houve poliúria desde a alta: o diabetes insipidus foi transitório, como na maior parte dos operados, e não haverá laudo para desmopressina. O que fica para os meses seguintes está no plano: o reteste do eixo corticotrófico pela endocrinologia, porque a recuperação de função depois da cirurgia acontece em 30% a 50% dos casos segundo o documento brasileiro — e ninguém suspende a prednisona para descobrir isso por conta própria —; a ressonância de três meses como linha de base; a discussão da reposição de estrogênio com progestagênio, que a diretriz internacional recomenda na mulher antes da menopausa com deficiência gonadotrófica; e o hormônio de crescimento, que não entra agora e só entraria depois de teste de estímulo com as outras linhagens repostas.
Prescrição- Manter prednisona e levotiroxina; ajuste da levotiroxina pela tiroxina livre
- Reteste do eixo corticotrófico pela endocrinologia, com a suspensão do glicocorticoide conduzida pelo serviço
- Ressonância de sela aos 3 meses; sem resíduo, anual por 5 anos e depois a cada 2 a 3 anos
- Painel hipofisário a cada 6 a 12 meses no seguimento
- Estrogênio com progestagênio: decisão compartilhada, pela endocrinologia
- Hormônio de crescimento: fora do plano atual
Como saber se está funcionando
Reavaliar doença de hipófise é separar, a cada visita ao leito ou ao consultório, três coisas que se parecem: a deficiência que ainda não foi reposta, a reposição que passou do ponto e a doença que voltou. Cefaleia com enjoo pode ser falta de cortisol, sódio baixo por excesso de desmopressina ou tumor crescendo; cansaço pode ser prednisona de menos ou tiroxina de menos; poliúria pode ser diabetes insipidus, glicose alta ou a correção esperada de uma hiponatremia.
O parâmetro que mais muda de sentido é o sódio. No mesmo paciente e na mesma semana, sódio subindo pode ser o cortisol soltando a água retida — o que é bom —, a fase de poliúria do pós-operatório — o que pede água e, às vezes, desmopressina — e, dias depois, sódio caindo pode ser a fase de liberação da vasopressina guardada — o que proíbe desmopressina. Por isso cada valor se lê junto com a diurese, a densidade da urina e o que foi prescrito nas últimas doze horas.
Esperado: Entre 137 e 145 mEq/L, que é a faixa-alvo do protocolo federal para quem usa desmopressina
Se não melhora: Acima de 145 com urina diluída: fase de poliúria — água pela sede ou glicose a 5%, e decisão de desmopressina pela equipe. Abaixo de 135: suspender qualquer desmopressina, pensar na fase de liberação de vasopressina e na falta de cortisol, e conduzir a hiponatremia pelo capítulo próprio
Esperado: Diurese que acompanha a entrada, urina não diluída e noites sem acordar para urinar; no paciente em desmopressina de uso contínuo, uma janela de poliúria pelo menos semanal, como recomenda a diretriz internacional, mostrando que o efeito da dose terminou
Se não melhora: Diurese acima da entrada por 2 horas seguidas com densidade de 1,005 ou menos e sódio subindo: diabetes insipidus. Com glicemia alta: diurese osmótica. Logo depois de iniciar hidrocortisona, com sódio subindo a partir de valor baixo: correção esperada — reavaliar em 4 horas antes de rotular. Paciente em desmopressina que nunca tem a janela de poliúria e ganha peso: excesso de dose
Esperado: Sem hipotensão postural, sem hipoglicemia, apetite e disposição de volta, peso estável; o protocolo federal manda acompanhar pela clínica, e não por cortisol nem por hormônio adrenocorticotrófico No operado de doença de Cushing, a endocrinologia acompanha também o cortisol matinal colhido nas condições da estratégia usada, que sobe à medida que o eixo volta, de 6 a 18 meses depois da cirurgia.
Se não melhora: Tontura ao levantar, enjoo, cansaço que voltou ou sódio caindo: dose insuficiente, dose vomitada ou doença intercorrente — aplicar a regra de estresse. Ganho de peso, pressão subindo, glicemia alta e insônia: excesso — a redução é da endocrinologia, nunca por conta própria. No operado de doença de Cushing, sintoma de falta de cortisol pode aparecer mesmo com a reposição correndo, e a reposição não se suspende porque os traços de Cushing sumiram
Esperado: Tiroxina livre na metade superior da faixa de referência, que é o alvo da diretriz internacional; o hormônio estimulante da tireoide não entra na leitura
Se não melhora: Abaixo do alvo com sintomas: aumentar a levotiroxina, conferindo antes adesão e horário de tomada. Acima da faixa, palpitação ou perda de peso: reduzir. Hipotireoidismo central que aparece depois de iniciar hormônio de crescimento é previsto pela diretriz e pede o mesmo ajuste
Esperado: Melhora progressiva: o documento brasileiro registra melhora visual em até 80% dos operados por compressão das vias ópticas
Se não melhora: Piora aguda do campo ou da acuidade nas primeiras horas depois da cirurgia é emergência neurocirúrgica. Defeito que não melhora em semanas: seguimento com a oftalmologia, com a campimetria de base para comparação
Esperado: Eixos estáveis ou recuperados — a recuperação acontece em 30% a 50% dos operados — e imagem sem crescimento
Se não melhora: Deficiência nova no seguimento pode ser o primeiro sinal de recidiva ou crescimento: antecipar a ressonância e avisar a endocrinologia; após radioterapia, deficiência nova é esperada e pode surgir por até vinte anos. No operado de doença de Cushing, sinais de hipercortisolismo voltando — mesmo anos depois, e mesmo em quem teve cortisol pós-operatório abaixo de 2 µg/dL, que numa série recidivou em 20% em cinco anos — se investigam com os exames do capítulo Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo (HAS secundária) e voltam ao serviço que operou
Esperado: Fator de crescimento normal para idade e sexo; hormônio de crescimento abaixo de 0,4 ng/mL na supressão pós-operatória por ensaio ultrassensível, ou basal abaixo de 1 ng/mL em quem usa análogo
Se não melhora: Fator de crescimento ainda elevado três meses depois da cirurgia é o critério do protocolo federal para tratamento complementar com octreotida ou lanreotida, decidido pelo serviço especializado; pressão, glicemia e apneia seguem tratadas em paralelo, porque são elas que matam
Onde o erro machuca
O dano: Tiroxina acelera o metabolismo do cortisol e aumenta o gasto; em quem tem deficiência de corticotrofina não reposta, pode precipitar crise adrenal dias depois — com hipotensão, vômito e sódio caindo atribuídos a qualquer outra coisa.
Como pegar a tempo: Tiroxina livre baixa com hormônio estimulante baixo, normal ou pouco elevado é hipotireoidismo central até prova em contrário, e hipotireoidismo central manda avaliar o eixo corticotrófico antes da primeira dose, como recomenda a diretriz internacional; se a avaliação não for possível, glicocorticoide empírico antes, levotiroxina depois.
O dano: O hormônio estimulante vem baixo ou normal por causa da doença, não por excesso de dose. Quem o persegue reduz a levotiroxina ou nunca a aumenta, e o paciente segue anos sub-reposto, com colesterol alto, cansaço e lentidão atribuídos à idade.
Como pegar a tempo: Escreva na prescrição e na carta de alta que o controle é pela tiroxina livre, com alvo na metade superior da referência, e tire o hormônio estimulante do pedido de controle desse paciente.
O dano: A deficiência aguda de cortisol mata por choque que não responde a volume nem a vasopressor, e mata rápido. O cortisol que se ganhou esperando não muda a conduta: a hidrocortisona teria sido dada de qualquer forma.
Como pegar a tempo: Colha o tubo na punção do acesso, sem atrasar nada, e aplique hidrocortisona 100 mg por via endovenosa em seguida. O protocolo federal é explícito: o paciente instável recebe hidrocortisona antes de qualquer teste.
O dano: Na fase em que os terminais lesados liberam a vasopressina guardada, a dose fixa soma retenção de água e produz hiponatremia grave, com cefaleia, vômito, confusão e convulsão. Antes do diagnóstico, a desmopressina apaga o teste que separaria central de nefrogênico e de polidipsia primária.
Como pegar a tempo: No pós-operatório, dose sob demanda com critério escrito — diurese acima da entrada, urina diluída e sódio acima de 145 —, sódio medido a cada dose e uma tentativa de suspensão nas semanas seguintes. Fora do pós-operatório, desmopressina só depois do teste, em serviço que o faça.
O dano: É o erro que produz o atraso de sete a dez anos da acromegalia, com o coração, a apneia e o diabetes progredindo no caminho, e o que deixa um hipopituitarismo de dois anos à espera de uma apoplexia ou de uma pneumonia para se revelar em choque.
Como pegar a tempo: Amenorreia ou perda de libido com cansaço, frio e sódio baixo pede tiroxina livre, cortisol e gonadotrofinas. Hipertensão, diabetes, túnel do carpo e ronco no mesmo adulto pedem que alguém olhe a cara, pergunte pela aliança e pelo sapato, peça a foto antiga e dose o fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1.
O dano: Crise adrenal na gastroenterite, no pós-operatório de uma colecistectomia, na pneumonia — em pacientes cuja doença de base ninguém da nova equipe conhecia. Dobrar o comprimido de quem está em jejum dá, no papel, uma dose cinco vezes menor que a de estresse e, na prática, nenhuma.
Como pegar a tempo: Regra de estresse escrita na alta, cartão de identificação e carta para a unidade básica. Febre em casa com o paciente comendo: aumentar a dose oral. Cirurgia, trauma, vômito ou internação por doença aguda: hidrocortisona venosa, 100 mg e depois 50 mg de 6 em 6 horas. E nunca suspender por um cortisol que veio normal durante o uso de glicocorticoide. No operado de doença de Cushing, o raciocínio é o mesmo: a falta de cortisol depois da cirurgia é o sinal de cura, dura meses, e a reposição não se suspende porque a cara de Cushing foi embora.
O que dizer ao paciente e à família
Doença de hipófise pede duas conversas difíceis: explicar uma glândula que ninguém conhece e que manda em quase todas as outras, e convencer alguém que se sente bem a tomar, para sempre e sem falhar, um remédio que ele associa a efeito colateral. A primeira se resolve com uma imagem simples e com o nome da função perdida; a segunda, com uma regra curta que caiba na carteira.
As falas abaixo seguem a Silvina, a filha dela e dois pacientes dos casos deste capítulo. Em cada uma, a frase a evitar é uma que se ouve de verdade na enfermaria.
Explicar a apoplexia e a injeção, na chegada
““Dona Silvina, a dor de cabeça veio de um sangramento dentro de um tumor da hipófise, uma glândula do tamanho de um grão de feijão que fica atrás dos olhos e dá ordens para outras glândulas. Na grande maioria das vezes esse tipo de tumor não é câncer, e a cirurgia vai confirmar. Ele apertou o nervo que mexe o seu olho e fez a glândula parar de mandar um hormônio que segura a pressão e o açúcar do sangue. A injeção que a senhora está recebendo agora é esse hormônio. A neurocirurgia vem avaliar ainda hoje se precisa operar para soltar o nervo.””
Não diga: “A senhora tem um tumor na cabeça e vai precisar operar de urgência.” A frase é verdadeira e deixa a paciente sem saber o que é, por que a injeção e o que vai acontecer — e é a última coisa que ela vai lembrar do dia.
Por que o remédio da tireoide vai esperar
““O exame que a senhora trouxe de abril mostra que o hormônio da tireoide está baixo porque a hipófise parou de mandar a tireoide trabalhar. A senhora vai precisar repor esse hormônio, sim. Mas ele entra depois do corticoide: se a tireoide acelerar o corpo antes, o pouco hormônio de estresse que ainda existe acaba, e a pressão cai de novo.””
Não diga: “O seu exame de tireoide está normal, o TSH está bom.” É exatamente o erro que atrasou o diagnóstico dela, dito em voz alta.
A poliúria da madrugada
““A senhora está urinando muito porque a cirurgia mexeu na parte da glândula que segura a água no corpo. Na maioria das pessoas isso melhora em alguns dias. Beba sempre que tiver sede, e só quando tiver sede — o seu corpo sabe a quantidade. Se precisar, a gente dá uma injeção que segura a água, uma dose de cada vez, olhando o exame de sangue antes da próxima.””
Não diga: “Vou passar um remédio de horário para a senhora parar de urinar, e beba bastante água para não desidratar.” As duas metades da frase, juntas, são o caminho mais curto para a hiponatremia da semana seguinte.
A filha que quer ajudar com água, no quinto dia
““Nesta semana, o corpo da sua mãe está segurando água sozinho, por causa da cirurgia. Água a mais, sem sede, faz o sódio do sangue cair, e é isso que está dando a dor de cabeça e o enjoo de hoje. O cuidado agora é oferecer quando ela pedir, e não insistir. Se ela ficar sonolenta ou confusa, chame a enfermagem na hora.””
Não diga: “Pode dar bastante líquido, que ajuda a recuperar.” Conselho de visita que, depois de cirurgia de hipófise, vira internação prolongada.
A alta: o remédio que não pode faltar e a regra da febre
““A prednisona substitui um hormônio que a sua hipófise não está fazendo. Ela não é como o anti-inflamatório que a gente toma e para: é como a insulina para quem tem diabetes tipo 1, todo dia, sem esquecer. Se tiver febre acima de 38,5 °C e estiver comendo, tome o dobro enquanto durar a febre e procure o posto. Se vomitar e não conseguir segurar o comprimido, ou se for operar qualquer coisa, não tente resolver em casa: vá ao pronto-socorro e mostre este cartão.””
Não diga: “É corticoide, então tome o mínimo possível e pare assim que se sentir bem.” É a orientação certa para quase todo mundo que usa corticoide, e a errada para ela.
Dar o nome à acromegalia, com a foto na mão
““Seu Lázaro, olhando a sua foto da identidade e o seu rosto hoje, dá para ver as mudanças que aconteceram devagar demais para o senhor ou a sua família perceberem. Elas têm uma causa: um tumor na hipófise, geralmente benigno, que produz hormônio de crescimento demais. Esse excesso também ajuda a explicar a pressão alta, o diabetes que piorou, as mãos formigando e o ronco. Tem tratamento, e tratar diminui o risco para o coração.””
Não diga: “O senhor tem uma doença rara e grave chamada acromegalia.” Nomeia sem explicar, assusta sem orientar e não conecta a doença a nada do que ele sente.
O achado incidental, depois da tomografia da queda
““Seu Deodato, a tomografia que o senhor fez por causa da queda não mostrou sangramento. Ela mostrou, por acaso, uma alteração pequena na hipófise, que não tem relação com a queda. Alterações assim aparecem com frequência em exames feitos por outro motivo, e a maioria nunca dá problema. Vamos fazer uns exames de sangue para ver se ela produz algum hormônio e repetir uma ressonância em um ano. Se continuar igual, é só acompanhar.””
Não diga: “Apareceu um tumor no seu cérebro, o senhor precisa ver o neurocirurgião.” Troca um achado que quase sempre só pede seguimento por meses de medo e por um encaminhamento que o paciente não precisava.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Protocolo federal da insuficiência adrenal, novembro de 2020 — 15 µg/dL
Na insuficiência adrenal central, cortisol basal colhido entre 6 e 9 horas de 3 µg/dL ou menos, com hormônio adrenocorticotrófico baixo ou normal, confirma o diagnóstico; acima de 15 µg/dL com hormônio adrenocorticotrófico normal torna o diagnóstico muito pouco provável; entre 3 e 15, teste de estímulo — hipoglicemia insulínica, com cortisol de 18 µg/dL ou mais em qualquer tempo afastando a deficiência. Antecedente de radioterapia ou cirurgia hipofisária aumenta a probabilidade na faixa intermediária.
Portaria Conjunta nº 20, de 24 de novembro de 2020, item 3.2.2 e Figura 2
Revisão do Departamento de Neuroendocrinologia da SBEM sobre adenoma não funcionante, 2016 — 18 µg/dL
No paciente com adenoma não funcionante, cortisol basal colhido entre 7 e 9 horas abaixo de 3 confirma a insuficiência adrenal, acima de 18 a exclui, e valores entre 3 e 18 exigem teste de estímulo, com cortisol acima de 18 no teste excluindo o diagnóstico. O documento remete os detalhes do diagnóstico de insuficiência adrenal a outra referência.
Vieira Neto L et al. Arch Endocrinol Metab. 2016;60(4):374-390, seção de exames complementares
Os dois documentos são brasileiros e alcançam o mesmo paciente — quem tem lesão selar e precisa saber se lhe falta corticotrofina —, mas só um foi escrito para a pergunta: o protocolo de 2020 trata do diagnóstico da insuficiência adrenal central, e a revisão de 2016 trata do adenoma e remete o diagnóstico adrenal a outra fonte. O protocolo vence no escopo da pergunta, é quatro anos mais novo e é norma. Esta apostila adota 15 µg/dL, lido pelo texto do item 3.2.2: acima de 15 afasta, e o 15 exato vai para o teste. O corte de 18 fica registrado porque é de um documento brasileiro em circulação e porque erra para o lado seguro: num paciente com cortisol entre 15 e 18 µg/dL que vai para cirurgia de hipófise ou está doente, o glicocorticoide de cobertura custa pouco enquanto a endocrinologia decide se testa. O que nenhum dos dois autoriza é aplicar o corte a cortisol colhido à tarde, em uso de estrogênio oral ou depois de glicocorticoide.
Revisão da SBEM sobre adenoma não funcionante, 2016 — o fator de crescimento baixo basta
Com três deficiências hipofisárias, fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 baixo é preditor específico de deficiência de hormônio de crescimento; o teste de liberação fica para quem não tem pelo menos três deficiências. O documento lembra que valor normal não afasta a deficiência no adulto.
Vieira Neto L et al. Arch Endocrinol Metab. 2016;60(4):374-390, avaliação do eixo somatotrófico
Protocolo federal da deficiência do hormônio de crescimento – hipopituitarismo, novembro de 2018 — teste obrigatório
A comprovação da deficiência iniciada na vida adulta requer, além de fator de crescimento baixo para a idade, teste de estímulo, especialmente na presença de outras deficiências, cirurgia ou trauma de crânio. A inclusão do adulto exige pico abaixo de 3 ng/mL, ou abaixo de 5 com baixa densidade óssea, dislipidemia ou prejuízo funcional atestado, e o teste só vale com as outras deficiências repostas.
Portaria Conjunta nº 28, de 30 de novembro de 2018, itens 3.2 e 4
A pergunta — este adulto tem deficiência de hormônio de crescimento a ponto de receber somatropina? — é a do protocolo de 2018, escrito para essa deficiência, enquanto a revisão de 2016 a trata como parte da avaliação do adenoma. O protocolo vence no escopo, é dois anos mais novo e é a norma que decide a dispensação. Esta apostila adota o teste de estímulo. Para o interno, a consequência prática independe do lado: hormônio de crescimento é a última reposição e nunca é urgente, e o teste — com as contraindicações da hipoglicemia insulínica — é pedido pela endocrinologia depois de cortisol, tiroxina e hormônio gonadal repostos. Um fator de crescimento baixo num paciente com três deficiências diz muito sobre a probabilidade; não autoriza pular o teste no SUS.
O raciocínio, em voz alta
Lázaro Azevedo, 46 anos, 96 kg, motorista de ônibus, vem ao ambulatório de clínica médica com encaminhamento da unidade básica por diabetes de difícil controle: glicemia de jejum de 188 mg/dL e hemoglobina glicada de 8,9% em uso de metformina 2 g por dia e gliclazida, e pressão de 152 por 96 mmHg em uso de losartana com hidroclorotiazida. Conta que as mãos formigam à noite há dois anos, que os joelhos doem, que a esposa reclama do ronco e descreve pausas, e que ele cochilou duas vezes ao volante no último mês — o que o assustou. Sua a camisa em dia frio. Trocou a aliança por uma maior e o sapato foi do 42 para o 44 na última década. Não tem queixa visual. Na foto da carteira de motorista, de 2011, o rosto é mais estreito; hoje a mandíbula avançou, os dentes de baixo se separaram, o nariz e os lábios são maiores e as mãos são largas e grossas. Refere queda da libido, que atribui à idade e ao cansaço.
o que a soma das queixas já diz
Nenhuma dessas queixas é rara, e é justamente por isso que o diagnóstico atrasa de sete a dez anos. Juntas, num homem de 46 anos — diabetes que precisou de mais remédio, hipertensão, síndrome do túnel do carpo bilateral, artralgia, ronco com pausas e sonolência diurna, sudorese —, elas formam o retrato da acromegalia. O que fecha a suspeita não é exame nenhum: é a comparação entre a foto de dez anos atrás e o rosto de agora, e as duas perguntas de tamanho que ele já respondeu sem ser perguntado — a aliança e o sapato.
o exame que confirma a suspeita, e o que não pedir
O protocolo federal chama o fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 de melhor teste inicial, e é ele que se pede, com a referência do laboratório por idade e sexo impressa no resultado. O que não se pede é hormônio de crescimento isolado: ele é pulsátil e sobe com estresse, exercício, jejum e diabetes descompensado. O resultado de Lázaro volta em 780 ng/mL para um limite superior de 240 — 3,25 vezes o teto.
por que ele não faz o teste de sobrecarga de glicose
Por duas razões que se somam. A primeira é do protocolo: com quadro clínico sugestivo e fator de crescimento mais de 30% acima do limite superior, a supressão do hormônio de crescimento não é necessária — e 780 está muito acima dos 312 que seriam 1,3 vez o teto. A segunda também: quem tem diabetes não deve ser submetido à sobrecarga de glicose, e nesse paciente o protocolo aceita fator de crescimento alto com hormônio de crescimento basal acima de 0,4 ng/mL na vigência de hiperglicemia.
a imagem, e as cinco perguntas que o laudo tem de responder
Ressonância de sela com contraste: macroadenoma de 1,8 cm, sem contato com o quiasma, sem invasão de seio cavernoso, sem sangramento, aspecto compatível com adenoma. As cinco respostas estão lá — tamanho, extensão, quiasma, seio cavernoso e aspecto —, e é isso que permite dizer que ele não precisa de campimetria formal agora: a indicação dela é a lesão que encosta ou comprime o quiasma, ou a queixa visual.
o painel das outras linhagens, que muda uma receita
Cortisol das 7h de 16,8 µg/dL — acima de 15 torna a deficiência de corticotrofina pouco provável, e ele não precisa de glicocorticoide. Hormônio estimulante da tireoide de 1,8 mUI/L com tiroxina livre de 1,1 ng/dL, normais. Prolactina de 32 ng/mL, discretamente alta, o que o protocolo registra como achado frequente na acromegalia e que não muda o plano cirúrgico. E o achado que muda: hormônio luteinizante e folículo-estimulante no limite inferior com testosterona total de 210 ng/dL, ou seja, hipogonadismo central — a queda de libido tinha causa. Aqui entra uma limitação que precisa estar na conversa: a testosterona não consta da Rename 2024, e a reposição dele dependerá do serviço e da via que o serviço conseguir.
as comorbidades que matam, e quem as trata
A acromegalia não mata pela cara; mata pelo coração, pela apneia e pelo metabolismo. O protocolo manda individualizar ecocardiograma, polissonografia, radiografia de coluna, ultrassonografia de tireoide se houver nódulo palpável e colonoscopia — esta última pela associação com neoplasia de cólon descrita em alguns estudos, que o próprio protocolo chama de controversa. O ecocardiograma de Lázaro mostra hipertrofia ventricular esquerda; a polissonografia entra no encaminhamento, e o sono é o que mais o assusta, porque ele dirige ônibus. O diabetes segue o capítulo Diabetes mellitus tipo 2: diagnóstico e tratamento na APS e a hipertensão, o capítulo Hipertensão arterial sistêmica: diagnóstico, estratificação e metas de PA, da apostila de Cardiologia — com uma nota para o futuro: controlar o tumor melhora a resistência à insulina, e as doses vão precisar de revisão.
o encaminhamento que resolve, e o que o interno escreve nele
O protocolo é claro sobre onde esse paciente é tratado: serviço com ambulatório de endocrinologia de hipófise e neurocirurgia com experiência em cirurgia hipofisária. O que faz o encaminhamento andar é o que você escreve nele: fator de crescimento com a referência do laboratório, laudo da ressonância, painel das outras linhagens, pressão e hemoglobina glicada atuais, ecocardiograma, e a frase que prioriza o caso — motorista profissional com sonolência diurna e pausas testemunhadas. Enquanto a fila corre, a orientação sobre dirigir sonolento é dada e registrada, e a polissonografia é pedida.
o que vai acontecer, para ele saber e para você acompanhar
A cirurgia transesfenoidal é o tratamento de primeira linha, e em macroadenoma não invasivo a normalização do fator de crescimento acontece em 40% a 68% dos casos nas séries do protocolo. O controle se mede de 3 a 6 meses depois, com fator de crescimento e hormônio de crescimento após sobrecarga de glicose — considerando cura o nadir abaixo de 0,4 ng/mL por ensaio ultrassensível —, e ressonância a partir de três meses. Se o fator de crescimento seguir elevado três meses depois da cirurgia, é esse o critério do protocolo para tratamento complementar com octreotida ou lanreotida, e depois dele vêm cabergolina e pasireotida. O que Lázaro precisa ouvir é o desfecho: sem controle, a mortalidade é alta; com a doença controlada e as comorbidades tratadas, ela volta à da população geral.
Faça você
Deodato Fanucchi, 66 anos, 74 kg, aposentado, caiu em casa ao tropeçar no tapete e bateu a cabeça. Foi ao pronto-socorro, fez tomografia de crânio — sem sangramento, sem fratura — e a última linha do laudo, que ninguém explicou a ele, dizia: lesão hipofisária de 8 mm. Está assintomático. Não tem cefaleia, não tem queixa visual, não esbarra em portas, não tem galactorreia. Usa losartana. Diz que a libido caiu, como imagina ser normal na idade dele. Chega ao seu ambulatório com o papel na mão, preocupado com câncer, e pergunta o que tem que fazer.
o que o tamanho já decide
Oito milímetros é microadenoma, e cai na faixa de 6 a 9 mm que tanto o documento brasileiro de adenoma não funcionante quanto a diretriz internacional de incidentaloma tratam de forma diferente das lesões menores: nessa faixa, a avaliação das linhagens é indicada mesmo sem sintoma, porque algumas se comportam como macroadenomas. A tomografia, porém, não é o exame da sela: ela sugere, a ressonância define.
o que se pede na primeira consulta
Triagem de hipersecreção em todos — prolactina e fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 —, rastreio de hipercortisolismo só se houver suspeita clínica de síndrome de Cushing, e avaliação de deficiência: cortisol entre 6 e 9 horas, tiroxina livre com hormônio estimulante, hormônio luteinizante e folículo-estimulante com testosterona total. Campimetria formal não está indicada numa lesão de 8 mm longe do quiasma, e a ressonância dedicada de sela substitui a tomografia.
o que cada resultado mudaria
Prolactina muito alta levaria o caso para o capítulo Hiperprolactinemia e galactorreia: investigação e tratamento, onde estão a diluição do soro e a decisão de tratamento. Fator de crescimento alto traria o caso de volta para este capítulo, no fluxo da acromegalia. Cortisol de 3 µg/dL ou menos abriria reposição de glicocorticoide; tiroxina livre baixa com hormônio estimulante normal, hipotireoidismo central, tratado depois do glicocorticoide. E a testosterona baixa com gonadotrofinas baixas não é a idade: é hipogonadismo central, com a limitação de que a testosterona não consta da Rename 2024.
a pergunta que ele fez, e a que ele não fez
A que ele fez — é câncer? — se responde com o que se sabe: lesões assim aparecem com frequência em exames feitos por outro motivo, e a grande maioria é adenoma benigno que nunca dá problema. A que ele não fez é a que decide o seguimento: quem vai marcar a próxima ressonância, e quando. Achado incidental sem dono é achado que volta em dez anos como macroadenoma com hemianopsia.
Ver como fecharíamos
Complete o caso decidindo o seguimento. Os exames voltam normais: prolactina de 14 ng/mL, fator de crescimento dentro da referência para a idade, cortisol de 15,6 µg/dL às 7h, tiroxina livre e hormônio estimulante normais, hormônio luteinizante e folículo-estimulante normais com testosterona total de 380 ng/dL; a ressonância confirma microadenoma de 8 mm, intrasselar, sem contato com o quiasma. A conduta que este capítulo adota, pela diretriz internacional de 2011: nenhuma cirurgia — ele não tem déficit de campo, oftalmoplegia, lesão encostando no quiasma, apoplexia nem tumor hipersecretor —, ressonância de controle em 12 meses e, se a lesão não mudar de tamanho, ressonância a cada 1 a 2 anos por três anos, depois mais espaçada; campimetria só se a lesão crescer até encostar ou comprimir o quiasma; e reteste hormonal apenas se aparecer sintoma novo ou se a imagem mudar, porque microadenoma estável com clínica e imagem inalteradas não pede repetição de painel. O que se escreve no prontuário e no papel que ele leva é o calendário e o responsável por ele: a unidade básica agenda a ressonância de 12 meses e a consulta; ele retorna antes se aparecerem cefaleia nova, alteração visual, sede excessiva com urina clara e abundante, ou cansaço com tontura ao levantar. E a queda no tapete não tem relação com o achado — o exame estava certo em descrevê-lo, e o achado estava lá antes da queda.
O quadro é de hipopituitarismo depois de hemorragia pós-parto: agalactia, amenorreia, hipotensão, hiponatremia com potássio normal e hipotireoidismo central, com tiroxina livre baixa e hormônio estimulante normal. O eixo que mata é o do cortisol, e a levotiroxina dada sozinha acelera o consumo de um cortisol que já falta, podendo precipitar crise adrenal; por isso se colhe o cortisol matinal, o glicocorticoide entra primeiro e a levotiroxina vem depois.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Apresente um caso com cefaleia e alteração visual ou suspeita de hipopituitarismo. Justifique suporte, glicocorticoide, exames e avaliação especializada; explique por que TSH isolado não orienta reposição central.
Em 30 dias
Reveja o pós-operatório com poliúria seguida de hiponatremia. Relacione balanço, sódio e doses de desmopressina e proponha reavaliação. Termine com orientação de estresse, sintomas de retorno e seguimento.
Agora atenda
Agora atenda: Rita Correia, 31 anos, 58 kg, professora de creche, chega à unidade básica com cansaço que não passa há oito meses. Teve um parto há dez meses, com hemorragia pós-parto que exigiu transfusão de três concentrados de hemácias e uma noite em terapia intensiva. Nunca conseguiu amamentar — o leite não desceu, e ela ainda se culpa por isso. Não menstruou nenhuma vez desde o parto e não usa anticoncepcional. Sente frio quando ninguém sente, tem tontura ao levantar e emagreceu 4 kg sem dieta. Pressão de 94 por 60 mmHg sentada, frequência de 92 bpm. Traz exames de um mutirão: sódio de 131 mmol/L, potássio de 4,1, glicemia de 71 mg/dL, hemoglobina de 10,9 g/dL, hormônio estimulante da tireoide de 1,2 mUI/L. A sua tarefa é descobrir por que ela não amamentou, decidir qual exame pede hoje e em que horário, qual hormônio repõe primeiro e qual espera, o que pede de imagem e o que ela precisa saber fazer se tiver febre ou vômito antes do retorno.
