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Clínica MédicaEndocrinologia

O potássio, a receita e a tomografia

Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo (HAS secundária)

O hipertenso de potássio baixo, a pessoa que muda de corpo com estrias largas e o nódulo que a tomografia achou por acaso chegam por portas diferentes à mesma glândula — e cada um pede o exame certo, na ordem certa, antes de qualquer bisturi.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Portaria GM/MS nº 6.324/2024. ISBN 978-65-5993-710-3.

Brandão AA, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624. DOI 10.36660/abc.20250624.

Barroso WKS, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arq Bras Cardiol. 2021;116(3):516-658. DOI 10.36660/abc.20201238.

Machado MC, Fragoso MC, Moreira AC, Boguszewski CL, Vieira L, Naves LA, et al. Recommendations of the Neuroendocrinology Department of the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism for the diagnosis of Cushing's disease in Brazil. Arch Endocrinol Metab. 2016;60(3):267-286. DOI 10.1590/2359-3997000000174.

Vilela LAP, Almeida MQ. Diagnosis and management of primary aldosteronism. Arch Endocrinol Metab. 2017;61(3):305-312. DOI 10.1590/2359-3997000000274.

01

Responda antes de ler

Mulher de 50 anos com hipertensão resistente e potássio normal colheu, pela manhã e com os anti-hipertensivos em uso, aldosterona sérica de 16 ng/dL por imunoensaio e renina medida como concentração direta de 2,5 mU/L. Pelos critérios da Endocrine Society de 2025, como se interpreta a triagem?

02

O paciente que você vai ver

A pasta de plástico azul chega antes do paciente. A esposa a coloca sobre a mesa do consultório 6 com cuidado de quem guarda documento de cartório: dentro, em ordem de data, estão receitas da unidade básica, três folhas de papel quadriculado com medidas de pressão feitas em casa, um exame de sangue de dois meses atrás e um envelope de radiologia amarelado pelo tempo. Terça-feira, catorze e dez, ambulatório geral do hospital universitário, para onde nove unidades básicas da região norte da cidade mandam os seus encaminhamentos. Você é o interno da tarde.

Demétrio Bonfim tem 47 anos, pesa 92 quilos e dirige van escolar. Descobriu a hipertensão aos 38, numa consulta para renovar a carteira de motorista, e desde então os remédios foram se somando. Hoje são três: dois comprimidos de losartana de 50 mg por dia, um de hidroclorotiazida de 25 mg ao acordar e um de anlodipino de 10 mg antes de dormir. A carta de encaminhamento, em letra corrida, diz: “Hipertensão resistente, três fármacos em dose plena, potássio 3,1. Favor avaliar quarto fármaco.”

As folhas quadriculadas são obra da esposa. Duas medidas pela manhã e duas à noite, durante sete dias, com o mesmo aparelho de braço, anotadas a caneta com a hora ao lado. A média que ela mesma calculou no rodapé dá 156 por 97. No consultório, depois de cinco minutos sentado, o aparelho marca 164 por 100 no braço direito e 162 por 98 no esquerdo. Ela conta os comprimidos da caixa organizadora semanal e diz, antes que alguém pergunte, que ele não esquece nenhum: “Quem dá o remédio sou eu.”

Ele não se queixa de dor de cabeça. Queixa-se de câimbra na panturrilha de madrugada, “de acordar gritando”, e de uma canseira nas pernas no fim do dia que atribui às horas ao volante. Por conta própria, depois do exame de dois meses atrás, comprou numa farmácia um xarope de cloreto de potássio, que toma “quando lembra”. Não usa anti-inflamatório, não usa descongestionante, não bebe, parou de fumar há dez anos. Não ronca, segundo a esposa, que dorme mal e teria percebido.

O envelope amarelado é de cinco anos atrás. Numa madrugada de cólica renal, ele passou pelo pronto-socorro, fez uma tomografia de abdome sem contraste e saiu com analgésico e a orientação de beber água. O laudo, que ninguém releu desde então, descreve um cálculo de 4 milímetros no ureter distal direito e, no penúltimo parágrafo, “nódulo em glândula adrenal esquerda medindo 1,5 cm, homogêneo, com atenuação de 5 unidades Hounsfield. Sugere-se correlação clínica”. A esposa guardou o laudo porque guarda tudo. O cálculo saiu na urina dois dias depois. O nódulo ficou onde estava.

O exame de sangue de dois meses atrás completa a mesa: potássio de 3,1 mEq/L, sódio de 143 mEq/L, creatinina de 1,0 mg/dL, glicemia de jejum de 104 mg/dL. Na margem, a médica da unidade anotou “hipocalemia pelo tiazídico” e, embaixo, “repor K”. É uma leitura possível. Também é a leitura que mantém o paciente no mesmo lugar há nove anos.

A preceptora lê a carta, olha as folhas quadriculadas, puxa o laudo de dentro do envelope e o deixa aberto sobre a pasta azul, virado para você. “O posto quer um quarto remédio, e o quarto remédio talvez seja exatamente o que ele precisa. Mas antes de escrever a receita, me diga uma coisa: este homem tem hipertensão, ou tem uma doença que dá hipertensão? E me diga o que você colhe hoje, antes de mexer em qualquer comprimido, porque depois que mexer o exame leva semanas para voltar a valer alguma coisa.”

03

Quem adoece disso

Hipertensão secundária é a que tem causa identificável e tratável por uma intervenção específica, capaz de curar a pressão ou de melhorar muito o seu controle. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 estima que ela responda por 5% a 10% dos hipertensos e manda procurá-la diante de indícios na história, no exame ou nos exames de rotina. Entre as causas endócrinas, uma deixou de ser curiosidade de livro. O hiperaldosteronismo primário era contado como 1% das hipertensões; a edição de 2020 da mesma diretriz já o encontrava em até 22% dos hipertensos resistentes, e a Endocrine Society, em 2025, estimou sua prevalência em 5% a 14% dos hipertensos atendidos na atenção primária e em até 30% nos centros de referência.

O que o número esconde é o atraso. No serviço de suprarrenal do Hospital das Clínicas da USP, a mediana entre o diagnóstico da hipertensão e o do hiperaldosteronismo foi de 14 anos, e os próprios autores leem o dado como sinal de que o rastreio chega tarde no Brasil. O mesmo serviço encontrou hipocalemia em 79% dos adenomas e em 68% das hiperplasias, contra 48% e 17% no maior estudo de prevalência da literatura que eles citam: quem só procura a doença quando o potássio cai encontra os casos avançados e deixa passar a maioria. O atraso tem preço, porque o excesso de aldosterona traz mais doença e morte cardiovascular do que a hipertensão primária de mesmo nível pressórico, na mesma idade e no mesmo sexo. Demétrio, da abertura, está no nono ano.

A doença tem duas formas principais, e elas pedem tratamentos diferentes. A hiperplasia bilateral das suprarrenais responde por 50% a 60% dos casos e se trata com antagonista mineralocorticoide; o adenoma produtor de aldosterona responde por cerca de 40% e tem na adrenalectomia unilateral o tratamento preferencial. Mesmo quando o adenoma sai, a pressão se normaliza em cerca de metade dos operados, numa faixa de 35% a 80% entre as séries — e hipertensão longa antes do diagnóstico e hipertensão primária em parentes de primeiro grau pesam contra a cura. O alvo do tratamento, portanto, é a aldosterona, e não apenas o número do aparelho.

A síndrome de Cushing iatrogênica, causada por glicocorticoide que vem de fora, é relativamente comum; a endógena é rara. Dentro da endógena, pelas recomendações de 2016 do Departamento de Neuroendocrinologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a doença de Cushing — o adenoma de hipófise que produz ACTH — responde por cerca de 70% dos casos, o ACTH produzido fora da hipófise por 10%, e tumores ou hiperplasias da própria suprarrenal pelos outros 20%. A hipertensão aparece em 75% a 80% dos pacientes. Rastrear todo mundo, porém, não rende: nas mesmas recomendações, a prevalência de Cushing foi de 0,8% entre 2.381 diabéticos de doze estudos e de 0,8% entre 783 obesos avaliados antes de cirurgia bariátrica, subindo para 0,5% a 1% na hipertensão secundária, 6% a 9% no incidentaloma adrenal e 11% na osteoporose inexplicada com fratura vertebral.

No Cushing endógeno, o que mata é o tempo. O mesmo documento registra de dois a cinco anos entre a primeira consulta e o fim da investigação, e aponta a duração da exposição ao excesso de cortisol como fator independente de mortalidade. Numa metanálise, a mortalidade padronizada foi 2,22 vezes a da população geral; entre quem seguia com doença ativa, 5,50 vezes, e entre quem estava em remissão, 1,20. As mortes vêm da doença cardiovascular, do diabetes e das infecções favorecidas pela imunossupressão, e boa parte da demora nasce do fato de que cada sinal isolado — ganho de peso, pressão alta, glicemia alterada — também é o retrato da síndrome metabólica comum.

O incidentaloma adrenal é o nódulo que aparece num exame de imagem pedido por outro motivo. A diretriz europeia de 2023 estima prevalência de cerca de 3% nos adultos acima de 50 anos e de até 10% acima dos 80, e cita um estudo em que ela vai de 0,2% entre 18 e 25 anos a 3,2% acima dos 65. De cada cem, 80 a 85 são adenomas de córtex: 40% a 70% deles não produzem hormônio nenhum, 20% a 50% produzem cortisol em excesso discreto, 2% a 5% são aldosteronomas e 1% a 4% já dão Cushing franco. Entre os demais, estão o feocromocitoma (1% a 5%), o carcinoma adrenocortical (0,4% a 4%) e as metástases (3% a 7%). O feocromocitoma, sozinho, é raro — cerca de 0,6 caso por 100.000 pessoas-ano, pela diretriz de 2020 —, mas é o que não se pode deixar passar nem puncionar, e de 10% a 15% deles nascem fora da suprarrenal.

04

Por que acontece o que acontece

Cada suprarrenal é duas glândulas numa só. Por fora, o córtex, em três camadas: a mais externa faz aldosterona, a do meio faz cortisol e a mais interna faz androgênios. Por dentro, a medula, que é tecido nervoso modificado e faz catecolaminas. Cada camada tem o seu comando — a de fora responde à angiotensina II e ao potássio do sangue, a do meio responde ao ACTH da hipófise, e a medula responde ao sistema nervoso simpático. As doenças deste capítulo são, todas, a mesma falha vista em lugares diferentes: uma camada que passou a produzir sem obedecer ao comando.

A aldosterona age no ducto coletor do rim. Ela abre a porta para o sódio voltar ao sangue, e em troca o túbulo joga fora potássio e íons de hidrogênio. No hiperaldosteronismo primário, a produção deixa de depender da angiotensina e do potássio. O sódio retido expande o volume, a pressão sobe, e o próprio volume expandido desliga a renina, que despenca. O potássio sai pela urina, e com ele sai hidrogênio, o que explica a alcalose metabólica que às vezes acompanha o quadro. Quanto potássio se perde depende de quanto sódio chega ao ducto coletor, e é por isso que um tiazídico em dose habitual pode derrubar o potássio de quem tem aldosterona autônoma. Na folha de Demétrio, a hidroclorotiazida talvez não tenha criado a perda; talvez só a tenha revelado.

Essa fisiologia explica o exame de triagem, a relação aldosterona/renina. O numerador é a aldosterona, o denominador é a renina, e a renina é o pedaço mais sensível da conta. Tudo o que sobe a renina — os diuréticos, os di-hidropiridínicos e o bloqueio do sistema renina-angiotensina, por inibidor da enzima conversora ou por bloqueador do receptor AT1 — derruba a relação e pode esconder a doença. Tudo o que baixa a renina — betabloqueador, agonista alfa-2 central como clonidina e metildopa — infla a relação e pode inventar a doença. A idade avançada também baixa a renina. E o potássio baixo freia a própria secreção de aldosterona, puxando o resultado para o falso-negativo. A consequência prática é assimétrica: uma triagem positiva em quem toma losartana, tiazídico e anlodipino aconteceu apesar dos três, e vale muito; uma triagem negativa nas mesmas condições vale pouco.

Tratar a pressão não basta porque a aldosterona em excesso age sobre receptores do coração e dos vasos, e o paciente com hiperaldosteronismo primário tem mais doença e morte cardiovascular do que o hipertenso primário de mesma pressão. O tratamento, então, é bloquear o receptor ou retirar a fonte. Quando o bloqueio com espironolactona é suficiente, o rim deixa de reter sódio em excesso, o volume cai e a renina volta a subir. É por isso que a renina que se desbloqueia virou alvo de tratamento, e não só a pressão e o potássio. A espironolactona também bloqueia o receptor de androgênio, e é daí que vem a ginecomastia que depende da dose.

O cortisol obedece ao ACTH e segue um ritmo: alto ao acordar, baixo perto da hora de dormir. O próprio cortisol, e qualquer glicocorticoide sintético, desliga o ACTH por retroalimentação. É o princípio do teste de supressão: 1 mg de dexametasona à noite desliga o ACTH de uma pessoa saudável, e o cortisol da manhã seguinte cai abaixo de 1,8 µg/dL. Na produção autônoma, ou no ACTH que não obedece, ele não cai. O primeiro sinal bioquímico da síndrome de Cushing costuma ser a perda do vale noturno, e não o pico da manhã — por isso o cortisol salivar colhido na hora de dormir funciona, e por isso um cortisol basal da manhã dentro da referência não afasta nada. O estrogênio do contraceptivo aumenta a proteína que transporta cortisol no sangue; o cortisol total medido sobe, e o teste de supressão dá falso-positivo.

O excesso de cortisol é catabólico. Ele desmonta proteína para fabricar glicose: a pele afina, o colágeno da derme some e a estria que se forma é larga e violácea, porque os vasos aparecem através da derme adelgaçada; o vaso fica frágil e a equimose surge sem trauma; o músculo proximal perde massa e a pessoa não levanta da cadeira sem as mãos. A gordura migra para o tronco, a face e a nuca, a glicemia sobe, o osso perde massa e a imunidade cai. A pressão sobe por três vias descritas pela diretriz de 2020: o cortisol potencializa o efeito vasoconstritor das catecolaminas, age sobre o receptor de mineralocorticoide e aumenta a produção de angiotensinogênio pelo fígado. No rim, a enzima 11-beta-hidroxiesteroide desidrogenase tipo 2 inativa o cortisol antes que ele ocupe o receptor da aldosterona; quando a quantidade é enorme, a enzima satura e o potássio cai — o que acontece em cerca de 70% dos Cushing por ACTH ectópico e em só 10% das doenças de Cushing. A obesidade comum estica a pele sem destruí-la: a estria é fina e clara, o músculo é preservado, a face não fica pletórica.

O glicocorticoide que vem de fora produz o mesmo corpo por qualquer via — comprimido, injeção, pomada, spray inalatório — e desliga o ACTH do paciente. O cortisol que ele mesmo produz cai, e com o tempo as suprarrenais, sem comando, atrofiam. Duas consequências decidem a conduta. A primeira: no paciente com cara de Cushing e cortisol próprio baixo, a pergunta não é que tumor ele tem, mas que corticoide ele usa. A segunda: tirar de uma vez o corticoide de quem tem o eixo desligado pode deixá-lo sem cortisol nenhum, e essa é a porta da insuficiência adrenal, que tem capítulo próprio nesta apostila.

A medula é outra história. O feocromocitoma armazena catecolaminas e as solta de forma imprevisível, e daí vêm os paroxismos de cefaleia, sudorese e palpitação com pico de pressão. Dentro do tumor, as catecolaminas são convertidas continuamente em metanefrinas, o que torna as metanefrinas o exame mais sensível. Manipular esse tumor sem preparo — com agulha de biópsia ou com cirurgia sem bloqueio alfa — pode disparar uma descarga adrenérgica, e um betabloqueador dado sozinho deixa o efeito vasoconstritor alfa sem oposição. A imagem completa o raciocínio: o adenoma benigno do córtex costuma ser rico em gordura dentro das células, e gordura tem atenuação baixa na tomografia sem contraste. Um nódulo homogêneo com 10 unidades Hounsfield ou menos é lido como benigno pela diretriz europeia de 2023; feocromocitoma, carcinoma e metástase costumam ser tecidos mais densos, com números mais altos, e o nódulo de 4 cm ou mais e heterogêneo, ou com mais de 20 unidades, já carrega risco relevante de malignidade.

Rins e suprarrenais, com corte ampliado de córtex e medula e pequeno nódulo cortical na suprarrenal esquerda.
O córtex adrenal produz esteroides, e a medula participa da produção de catecolaminas. O nódulo cortical ilustrado é um exemplo anatômico; cor e aspecto esquemático não definem função hormonal, benignidade ou conduta. A investigação combina avaliação clínica, hormonal e de imagem conforme a indicação. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

Este capítulo é dono de quatro assuntos que não tinham dono no nível: o hiperaldosteronismo primário, a síndrome de Cushing, o incidentaloma adrenal e o reconhecimento do feocromocitoma. Com isso cumpre duas promessas escritas por vizinhos. Obesidade e síndrome metabólica, nesta apostila, entrega a este capítulo a investigação e o tratamento da síndrome de Cushing. Hiperandrogenismo e hirsutismo: investigação, na apostila de Ginecologia, assumiu o rastreamento inicial da síndrome na mulher que consulta por pelo, porque a síndrome ainda não tinha capítulo; esse rastreamento, dentro da queixa de pelo, continua lá, e a confirmação, a separação pelo ACTH e o que vem depois passam a ser deste capítulo.

Cede, pelo nome. O diagnóstico da hipertensão, a medida, a estratificação, as metas e a lista geral de pistas de causa secundária são de Hipertensão arterial sistêmica: diagnóstico, estratificação e metas de PA, na apostila de Cardiologia — este capítulo começa quando a pista é endócrina. A crise adrenérgica do feocromocitoma no pronto-socorro é de Crise hipertensiva: urgência vs. emergência hipertensiva, na mesma apostila. A correção do potássio baixo é de Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria, e o sódio alto é de Distúrbios do sódio no internado: hipernatremia, na apostila de Prescrição e Cuidado do Paciente Internado. O osso de quem usa glicocorticoide é de Osteoporose e metabolismo ósseo, e o diabetes é de Diabetes mellitus tipo 2: diagnóstico e tratamento na APS, nesta apostila. A insuficiência adrenal — inclusive a que vem da retirada do corticoide e a do operado que tinha excesso de cortisol — é de Insuficiência adrenal e crise addisoniana, nesta apostila. A síndrome dos ovários policísticos é de Síndrome dos ovários policísticos (SOP): critérios de Rotterdam e manejo, na Ginecologia. A investigação da hipófise — ressonância, cateterismo dos seios petrosos, cirurgia do adenoma que produz ACTH — é de centro de referência e de Doenças da hipófise (diabetes insípido, acromegalia, hipopituitarismo), nesta apostila; este capítulo leva o paciente até a dosagem de ACTH e o encaminhamento.

Percurso de aprendizagem

Unidade 1: hipertensão e aldosterona — selecionar/interpretar triagem e controlar pressão e potássio.

Unidade 2: fenótipo de Cushing — investigar exposição a glicocorticoide e só então escolher testes de hipercortisolismo.

Unidade 3: incidentaloma — caracterizar imagem e função, com atenção a feocromocitoma antes de procedimentos.

Aprofundamento: confirmação, cateterismo e cirurgia. Um nódulo não prova lateralização funcional e uma dosagem isolada pode refletir interferência.

1. O hiperaldosteronismo primário quase nunca avisa

O hiperaldosteronismo primário não tem cara. O paciente típico é um hipertenso como outro qualquer, e a doença se esconde atrás de três situações que a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 manda investigar: hipertensão resistente ou refratária, potássio baixo e nódulo de suprarrenal. O quadro da diretriz faz questão de escrever que a hipocalemia não é obrigatória, e os números da epidemiologia mostram por quê: a maioria dos pacientes, sobretudo os com hiperplasia bilateral, tem potássio normal.

Hipertensão resistente, pela diretriz de 2020, é a pressão de consultório que segue igual ou acima de 140 por 90 mmHg com três classes de anti-hipertensivo em dose máxima preconizada ou tolerada, uma delas de preferência um diurético tiazídico; quem precisa de quatro ou mais classes para ficar abaixo de 140 por 90 também é resistente, só que controlado. Antes de chamar alguém de resistente, afasta-se a falsa resistência — pressão medida errado, efeito do avental branco, dose baixa, remédio que o paciente não toma —, e esse trabalho é de Hipertensão arterial sistêmica: diagnóstico, estratificação e metas de PA. Demétrio já chegou com ele feito: três classes em dose plena, medida residencial de sete dias confirmando e a esposa contando comprimidos.

O potássio baixo vale mais quando é espontâneo, ou quando aparece com diurético em dose habitual — desproporcional ao que o tiazídico costuma fazer. Câimbra, fraqueza e cansaço nas pernas são o que o paciente sente, e muitas vezes atribui a outra coisa. Repor potássio por conta própria e continuar a vida é o desfecho mais comum, e foi o de Demétrio. O terceiro gatilho estava no envelope amarelado: um nódulo de suprarrenal num hipertenso manda investigar aldosterona, qualquer que seja o potássio. Demétrio preenche os três, e o capítulo inteiro passa por ele.

2. O corticoide que o paciente não conta

A causa mais comum de síndrome de Cushing não está na hipófise nem na suprarrenal: está no glicocorticoide que vem de fora. As recomendações da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia de 2016 põem essa exclusão antes de qualquer exame, e pedem que seja exaustiva — comprimido, injeção, uso tópico e inalatório. A dificuldade é que o paciente raramente chama aquilo de corticoide.

Pergunte por categoria, e não pelo nome do remédio. A injeção “para a coluna” ou “para alergia” aplicada na farmácia do bairro. A “bombinha” de asma e o spray de nariz. A pomada para coceira ou para mancha, usada em área extensa por meses. O colírio. A infiltração de joelho feita por outro médico. A cápsula de farmácia de manipulação que prometia emagrecer, engordar, tirar dor ou dar apetite, cuja fórmula ninguém leu. O remédio de reumatismo comprado sem receita. Cada uma dessas respostas muda o capítulo inteiro.

Palmira Vallim, 58 anos, recebe há um ano, a cada três semanas, uma injeção “para a coluna” no balcão de uma farmácia. Engordou, a face arredondou, a pressão subiu e a glicemia passou de 180 mg/dL. Um cortisol colhido na manhã veio muito baixo. Para quem tem corpo de Cushing, cortisol próprio baixo não é contradição — é a assinatura do glicocorticoide sintético desligando o eixo, e a diretriz de 2020 dá ao cortisol basal exatamente essa utilidade: afastar ou flagrar o uso de dexametasona e de betametasona. O que Palmira precisa não é de tomografia, e sim de alguém que saiba que as aplicações não podem simplesmente parar sem plano, porque o eixo dela está desligado. Esse plano é de Insuficiência adrenal e crise addisoniana; a pressão, o diabetes e o osso dela seguem os capítulos donos de cada um.

3. Os sinais que separam o Cushing da obesidade comum

Quase tudo o que a síndrome de Cushing causa também aparece na síndrome metabólica: ganho de peso em 95% dos pacientes, hipertensão em 75%, dislipidemia em 70%, intolerância à glicose ou diabetes em 60%, alteração menstrual em 80%, hirsutismo em 75%. Esses sinais não separam nada. As recomendações de 2016 da sociedade brasileira apontam os que separam, quando aparecem em quem está ganhando peso: pletora facial, fraqueza muscular proximal, estria larga — mais de 1 cm — vermelha ou violácea, e equimose espontânea.

Todos se examinam na consulta. Peça ao paciente que se levante da cadeira com os braços cruzados sobre o peito: quem precisa das mãos para sair do assento tem fraqueza proximal. Olhe as estrias do abdome, dos flancos, das axilas e da raiz das coxas, e meça a largura: a estria da obesidade e da gestação é fina, clara ou prateada; a do Cushing é larga e escura. Procure hematoma em lugar onde ninguém bate — face interna do braço, dorso da mão, abdome. Veja a face vermelha, a gordura acima das clavículas e na nuca, a pele fina que deixa ver os vasos.

O mesmo documento também indica rastreio diante de achado incomum para a idade — osteoporose com fratura vertebral e hipertensão no jovem —, na criança que ganha peso enquanto a velocidade de crescimento cai, e no incidentaloma adrenal. E diz com todas as letras o que não fazer: não rastrear rotineiramente a obesidade isolada, o diabetes ou o hirsutismo sem sinais mais específicos de hipercortisolismo. Nos obesos, curiosamente, o ritmo circadiano do cortisol salivar costuma estar preservado — o que ajuda o teste certo a separar os dois grupos.

4. O Cushing que não pode esperar

Existe um hipercortisolismo que não cabe na fila do ambulatório. As recomendações brasileiras de 2016 registram que o excesso de cortisol muito intenso pode se apresentar como emergência médica, com mortalidade muito alta se não for tratado logo, e que nesses pacientes o diagnóstico precisa ser rápido e o tratamento, imediato.

O retrato é diferente do Cushing clássico. Na síndrome por ACTH ectópico, sobretudo quando o tumor é maligno, como o carcinoma de pequenas células de pulmão, o paciente pode emagrecer em vez de engordar — o estado consumptivo aparece em 35% —, e a hipocalemia passa de 70%, junto com hiperpigmentação, perda óssea e intolerância à glicose. Potássio muito baixo, glicemia descontrolada, fraqueza que progride em semanas, infecção incomum ou fúngica, pressão alta de início recente num paciente que está perdendo peso: essa combinação vai para o hospital, e não para o próximo retorno.

5. O incidentaloma: o nódulo que chegou antes da pergunta

O incidentaloma chega pelo laudo de uma tomografia pedida por outra coisa — cólica renal, trauma, dor abdominal, estadiamento de câncer. A diretriz europeia de 2023 fixa em 1 cm o tamanho a partir do qual vale investigar, reconhece que o limite é arbitrário e abre exceção para quem tem sinais clínicos de excesso hormonal. Três informações do laudo decidem quase tudo: o maior diâmetro, a atenuação na fase sem contraste, em unidades Hounsfield, e se o nódulo é homogêneo. Se o laudo não traz a atenuação sem contraste, pergunte ao radiologista antes de pedir outro exame — muitas vezes a imagem já tem a resposta.

O contexto pesa tanto quanto a imagem. Em gestante e em quem tem menos de 40 anos, a diretriz manda avaliar com urgência, porque a chance de malignidade é maior. Em quem tem história de câncer fora da suprarrenal, o nódulo pode ser metástase. No frágil com pouca expectativa de vida, a investigação se mede pelo ganho que ela pode trazer. E em todos, antes de qualquer exame, faz-se o exame clínico procurando sinal de excesso hormonal: pressão, potássio, estrias, fraqueza proximal, crises adrenérgicas.

Os dois erros com o incidentaloma são opostos. O primeiro é o de Demétrio: o laudo diz “sugere-se correlação clínica” e ninguém correlaciona. O segundo é tratar todo nódulo como tumor, repetindo tomografia ano após ano num adenoma de aspecto claramente benigno, que a diretriz europeia manda não seguir por imagem.

6. O feocromocitoma: a crise que vai e volta

O feocromocitoma se anuncia por crises. A diretriz de 2020 descreve a tríade de cefaleia, sudorese profusa e palpitações, com hipertensão resistente, refratária ou paroxística — picos de pressão alternando com períodos normais, o que ocorre em cerca de metade dos pacientes. A tríade junto de crise hipertensiva tem sensibilidade de 89% e especificidade de 67% para o diagnóstico: ajuda a lembrar, mas não fecha nem descarta.

Nem todo feocromocitoma dá crise. Parte deles aparece como incidentaloma silencioso, e é por isso que o nódulo de suprarrenal com aspecto que não é o do adenoma benigno exige dosagem de metanefrinas antes de qualquer decisão. Duas proibições valem desde a suspeita: não se punciona massa de suprarrenal sem ter afastado feocromocitoma, e não se dá betabloqueador sozinho a quem pode tê-lo. A crise no pronto-socorro, com alvo pressórico e escolha de droga, é de Crise hipertensiva: urgência vs. emergência hipertensiva; aqui fica o reconhecimento, a investigação e o encaminhamento para a cirurgia preparada.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação das doenças da suprarrenal tem uma regra que atravessa as três: primeiro a bioquímica, depois a imagem. A tomografia mostra nódulos que não produzem nada com a mesma nitidez com que mostra os que produzem, e quem começa pela imagem acaba operando a glândula errada ou perseguindo um achado sem importância. A exceção é o incidentaloma, em que a imagem chegou primeiro por acaso — e mesmo nele a pergunta seguinte é hormonal.

Cada etapa tem um lugar. A triagem do hiperaldosteronismo, o primeiro teste de hipercortisolismo, a dosagem de metanefrinas e a leitura do laudo do incidentaloma cabem no ambulatório do generalista e na unidade básica. Os testes de supressão da aldosterona, o cateterismo de veias adrenais, a separação fina do Cushing dependente de ACTH e a cintilografia do feocromocitoma são do especialista. O interno que sabe a ordem encaminha com o exame certo pronto e poupa meses de fila.

1. A relação aldosterona/renina, do pedido à leitura

Colhe-se pela manhã, com o paciente sentado, sem restrição de sal nos dias anteriores, como pede a Endocrine Society em 2025. O serviço do Hospital das Clínicas da USP detalha: fora da cama há pelo menos duas horas e sentado de 5 a 15 minutos antes da punção. Potássio e creatinina vão no mesmo pedido.

A pergunta que paralisa o interno — suspendo os anti-hipertensivos? — tem, desde 2025, uma resposta prática: para a primeira coleta, em geral não é preciso suspender nada. A Endocrine Society descreve uma estratégia com retirada mínima e outra sem retirada, e admite colher com o que o paciente usa, interpretando o resultado conforme a segurança e a direção para a qual cada fármaco empurra. Se a triagem vem positiva em quem usa diurético, di-hidropiridínico ou bloqueio do sistema renina-angiotensina, ela venceu esses fármacos e vale. Triagem negativa em quem tem potássio baixo pede correção do potássio e nova coleta. Triagem negativa com fármaco que pode ter escondido a doença pede, se for seguro, nova coleta depois de retirar por quatro semanas o antagonista mineralocorticoide, a amilorida ou o triantereno e os demais diuréticos, e por duas semanas o inibidor da enzima conversora e o bloqueador do receptor de angiotensina. Triagem positiva em quem toma betabloqueador ou agonista alfa-2 central pede, se for seguro, nova coleta duas semanas sem eles.

Daí sai a regra que mais importa na hipertensão resistente com potássio baixo: colha antes de começar a espironolactona. Ela é o quarto fármaco preferencial da diretriz de 2020 para a hipertensão resistente, e é também o tratamento do hiperaldosteronismo — mas, depois de iniciada, uma triagem negativa só vale após quatro semanas sem ela.

Antes de ler o número, leia a unidade. A renina pode vir como atividade, em ng/mL/h, ou como concentração direta, em mU/L — que alguns laudos escrevem µUI/mL, a mesma coisa. A revisão do Hospital das Clínicas registra que a maioria dos kits comerciais mede concentração, embora os cortes clássicos da relação tenham nascido com a atividade. Também importa o método da aldosterona: imunoensaio ou cromatografia líquida com espectrometria de massas, com a qual o corte da relação fica cerca de 25% menor. Os cortes de cada combinação estão no bloco de critérios; a leitura sempre cruza duas condições — renina baixa e aldosterona que não está baixa — com a relação elevada.

2. Depois da triagem positiva: quem confirma, quem localiza, quem opera

A Endocrine Society de 2025 dispensa teste de supressão quando a doença é franca: hipertensão resistente, ou hipertensão com potássio baixo, com atividade de renina abaixo de 0,2 ng/mL/h ou concentração abaixo de 2 mU/L e aldosterona acima de 20 ng/dL por imunoensaio. Fora dessa situação, sugere o teste só quando a probabilidade de doença que se resolve com cirurgia é intermediária e o paciente quer ser candidato à cirurgia. Os testes — infusão de soro fisiológico, captopril, fludrocortisona e furosemida intravenosa — estão descritos no Quadro 15.7 da diretriz brasileira de 2020 e são do especialista; o bloco de critérios registra um erro de leitura nesse quadro.

Com a triagem positiva, pede-se tomografia de suprarrenais com cortes finos. Ela serve para afastar carcinoma e para planejar, mas não decide o lado da cirurgia: um nódulo não funcionante pode estar do lado errado, e uma hiperplasia pode não aparecer. Quem decide a lateralização é o cateterismo de veias adrenais, que dosa aldosterona e cortisol no sangue de cada uma das veias, ao mesmo tempo. A diretriz de 2025 o recomenda antes de decidir o tratamento em todo paciente que considera cirurgia, com uma exceção: menos de 35 anos, doença acentuada com hipocalemia e adenoma unilateral maior que 1 cm na tomografia.

As réguas anteriores eram mais econômicas. A diretriz brasileira de 2020 indicava o cateterismo com suprarrenais normais ou alteradas dos dois lados, e no nódulo menor que 1,5 cm em quem teve hipertensão diagnosticada depois dos 40 anos; o serviço do Hospital das Clínicas o dispensava na doença grave com hipertensão diagnosticada antes dos 40, lesão unilateral maior que 1 cm e suprarrenal oposta normal. Esta apostila adota a régua de 2025 para quem vai operar, por ser a mais nova e a escrita especificamente para o hiperaldosteronismo: a adrenalectomia do lado errado não tem volta, e o paciente que não consegue chegar ao cateterismo tem, na espironolactona, um tratamento que não depende de lado nenhum.

Um último exame antes da cirurgia: a Endocrine Society sugere teste de supressão com 1 mg de dexametasona em todo hiperaldosteronismo com adenoma, porque parte desses tumores produz também cortisol. Cortisol acima de 1,8 µg/dL na manhã seguinte muda o preparo, porque a diretriz europeia de 2023 manda dar glicocorticoide em dose de estresse na cirurgia a todo operado com esse resultado.

3. Cushing: a ordem que evita o nódulo errado

Afastado o glicocorticoide de fora, o primeiro passo é provar o excesso de cortisol com pelo menos um dos três métodos de primeira linha das recomendações brasileiras de 2016. O teste de supressão com 1 mg de dexametasona: comprimido à noite, entre 23 horas e meia-noite, e cortisol sérico entre 8 e 9 horas da manhã seguinte, anormal acima de 1,8 µg/dL, com sensibilidade acima de 95% e especificidade de 80%. O cortisol salivar colhido na hora de dormir, em pelo menos duas noites, anormal acima de duas vezes o limite superior da referência do laboratório. O cortisol livre na urina de 24 horas, em pelo menos duas coletas, anormal acima de três a quatro vezes o limite superior, com especificidade que varia muito entre os estudos.

A escolha depende do paciente. O teste de supressão é o mais fácil de fazer na unidade básica, com a dexametasona do Componente Básico: 10 mL do elixir de 0,1 mg/mL, que mede a dose com precisão, ou um quarto do comprimido de 4 mg, se ele for sulcado para essa divisão. Mas o estrogênio dá falso-positivo — até metade dos falso-positivos, pelo documento brasileiro, que pede suspensão por pelo menos seis semanas antes do teste —, e a gestação, o mitotano, a má absorção e os fármacos que aceleram o metabolismo da dexametasona também. Depressão e alcoolismo ativam o eixo e podem imitar a doença. Com depuração de creatinina abaixo de 60 mL/min, o documento prefere o cortisol salivar ou o sérico noturno.

Confirmado o hipercortisolismo, dosa-se o ACTH, em pelo menos duas amostras, porque a secreção não é regular: acima de 20 pg/mL, a síndrome é dependente de ACTH e a pergunta passa a ser hipófise ou tumor ectópico; abaixo de 10 pg/mL, é independente, e a origem é a própria suprarrenal; entre 10 e 20, é indeterminado e se repete. Só então vem a imagem — tomografia de suprarrenais no independente, ressonância de hipófise e testes dinâmicos no dependente, com cateterismo de seios petrosos quando a tríade inicial não concorda. Da dosagem de ACTH em diante, o paciente é do endocrinologista de centro de referência.

4. O que não pedir, e por quê

Cortisol basal da manhã para rastrear Cushing. Ele entra no quadro de causas secundárias das diretrizes brasileiras de hipertensão, mas não é método de primeira linha, e um valor dentro da referência não afasta a doença, cujo primeiro sinal é a perda do vale da noite. A utilidade que a diretriz de 2020 dá a ele é outra: flagrar o eixo desligado por dexametasona ou betametasona de fora.

Tomografia ou ressonância antes da bioquímica. A diretriz de 2020 manda fazer imagem só depois do diagnóstico clínico e laboratorial do hipercortisolismo, e o raciocínio vale para a aldosterona: a imagem responde onde, e ninguém deve perguntar onde antes de saber o quê. ACTH antes de confirmar hipercortisolismo, pelo mesmo motivo.

Aldosterona e renina no paciente internado por outra doença. A investigação é ambulatorial, como diz Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria; a internação acumula fármacos, soro e estresse, e a coleta fica para o retorno. Repetir a investigação hormonal, ano após ano, no incidentaloma cuja avaliação inicial foi normal: a diretriz europeia recomenda não repetir, salvo sinal novo de atividade endócrina ou piora das comorbidades. E catecolaminas ou ácido vanilmandélico urinários como primeira escolha no feocromocitoma: as metanefrinas são mais sensíveis.

5. Incidentaloma: quatro perguntas, nessa ordem

É benigno pela imagem? Nódulo homogêneo com 10 unidades Hounsfield ou menos na tomografia sem contraste dispensa qualquer outra imagem. Entre 11 e 20 unidades, com menos de 4 cm, a diretriz europeia de 2023 sugere imagem adicional imediata — para não ter de seguir — ou nova imagem em 12 meses. Com 4 cm ou mais e heterogêneo, ou acima de 20 unidades, o risco de malignidade é relevante: o caso vai para discussão multidisciplinar e, na maioria das vezes, para cirurgia. O nódulo indeterminado que se decide seguir repete a imagem em 6 a 12 meses, e crescimento acima de 20% do maior diâmetro, com pelo menos 5 mm a mais, indica ressecção.

Produz hormônio? Em todos, teste de supressão com 1 mg de dexametasona, que pode ser dispensado no frágil com expectativa de vida limitada. Cortisol de até 1,8 µg/dL exclui a secreção autônoma; acima disso, sem sinais de Cushing franco, é a secreção autônoma leve de cortisol, sem subdivisão por faixa, e ela não é considerada risco alto de evoluir para Cushing franco. Relação aldosterona/renina em quem tem hipertensão ou potássio baixo sem explicação. Metanefrinas plasmáticas livres ou urinárias fracionadas em todo nódulo que não tem o aspecto típico do adenoma benigno.

É dos dois lados? Cada nódulo se avalia individualmente, como se fosse o único. E quem é o paciente? Menos de 40 anos e gestante: avaliação urgente, com ressecção se a imagem for indeterminada. História de câncer fora da suprarrenal: metanefrinas antes de qualquer punção, e a tomografia com emissão de pósitrons ajuda — captação intensa sugere metástase. Frágil: investigação proporcional ao que ela pode mudar.

6. Feocromocitoma: bioquímica antes da imagem, e nunca agulha antes da bioquímica

O diagnóstico exige provar o excesso de catecolaminas e depois achar o tumor. As metanefrinas plasmáticas livres têm sensibilidade de 97% e especificidade de 93% pela diretriz de 2020, que, pelo custo, aceita a metanefrina urinária, isolada ou com catecolaminas urinárias; a metanefrina urinária é mais sensível que as catecolaminas e que o ácido vanilmandélico. Valores acima de duas vezes o limite superior tornam o diagnóstico muito provável.

Os falso-positivos costumam ficar abaixo de duas vezes o limite: o estresse agudo, como sepse, infarto ou insuficiência cardíaca descompensada, e três classes de fármacos — levodopa, antipsicóticos e antidepressivos tricíclicos —, que a diretriz manda suspender duas semanas antes da dosagem. Com a bioquímica positiva, a imagem de escolha é a tomografia; a ressonância é melhor para paraganglioma e metástase, e a cintilografia e o PET com análogo de somatostatina localizam doença múltipla — tudo isso já no especialista. A biópsia só se considera depois de afastado o feocromocitoma, e só se a histologia for mudar a conduta.

07

As réguas, os cortes e as contas

O capítulo reúne hiperaldosteronismo, hipercortisolismo e incidentaloma. Aprenda a escolher uma trilha a partir do problema clínico e a reconhecer interferências antes de interpretar hormônios ou atribuir sintomas a uma imagem. Cada decisão deste capítulo tem uma régua declarada. Quem investigar para hiperaldosteronismo primário vem da Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025, que não traz cortes numéricos e remete o detalhe das causas secundárias à edição de 2020 — que por isso segue em uso nesse capítulo. O Brasil não tem diretriz própria de hiperaldosteronismo primário: a régua brasileira é o capítulo de 2020, com a revisão do Hospital das Clínicas da USP que ele adapta, e os cortes de triagem, a conduta com fármacos e a titulação da espironolactona vêm da Endocrine Society de 2025. Para o hipercortisolismo, o único documento brasileiro é o do Departamento de Neuroendocrinologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, de 2016, escrito para a doença de Cushing e válido para a etapa de provar o excesso de cortisol. O incidentaloma adrenal não tem documento brasileiro, e a régua é a diretriz europeia de 2023. O feocromocitoma segue a edição de 2020. O elenco é o da Rename 2024, em que a espironolactona é o único antagonista mineralocorticoide e o cloreto de potássio só existe injetável. As contas usam Demétrio, 47 anos e 92 kg; nenhuma dose do capítulo depende de peso.

  1. 1Hipertensão resistente ou refratária, potássio baixo espontâneo ou com diurético em dose habitual, ou nódulo de suprarrenal num hipertenso: rastrear hiperaldosteronismo primário (Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025). A Endocrine Society de 2025 sugere rastrear todo hipertenso — ver divergências
  2. 2Colher aldosterona e renina pela manhã, sentado, sem restrição de sal e com os fármacos em uso; anotar como o laboratório mede a renina e a aldosterona. Quem vai começar espironolactona colhe antes dela
  3. 3Triagem positiva é renina baixa, aldosterona que não está baixa e relação elevada, com os cortes da tabela abaixo; doença franca — renina abaixo de 0,2 ng/mL/h ou de 2 mU/L com aldosterona acima de 20 ng/dL, em hipertensão resistente ou com hipocalemia — dispensa teste de supressão
  4. 4Triagem negativa com potássio baixo: corrigir o potássio e repetir. Negativa sob diurético, antagonista mineralocorticoide, inibidor da enzima conversora ou bloqueador do receptor de angiotensina: repetir após retirada segura (4 semanas para diuréticos e antagonistas, 2 para os outros dois). Positiva sob betabloqueador ou agonista alfa-2 central: repetir após 2 semanas sem eles, se seguro
  5. 5Hiperaldosteronismo provável em quem não quer ou não pode operar: espironolactona a partir da triagem, titulada até a renina subir do valor inicial
  6. 6Quem quer operar: tomografia de suprarrenais e cateterismo de veias adrenais antes de decidir; a exceção é o paciente com menos de 35 anos, doença acentuada, hipocalemia e adenoma unilateral maior que 1 cm. Com adenoma, teste de supressão com 1 mg de dexametasona antes da cirurgia
  7. 7Lateralizou: adrenalectomia unilateral laparoscópica, com espironolactona antes para normalizar potássio e renina. Bilateral: espironolactona
  8. 8Suspeita de Cushing: primeiro o glicocorticoide de fora, por qualquer via. Corpo de Cushing com cortisol próprio baixo aponta para ele, e a retirada tem plano (Insuficiência adrenal e crise addisoniana)
  9. 9Pletora facial, fraqueza proximal, estria violácea maior que 1 cm ou equimose espontânea em quem ganha peso; osteoporose com fratura vertebral ou hipertensão fora da idade; incidentaloma: fazer um teste de primeira linha. Obesidade, diabetes ou hirsutismo isolados: não rastrear
  10. 10Estrogênio em uso: preferir cortisol salivar ou urinário, ou suspender o estrogênio por 6 semanas antes da supressão. Depuração abaixo de 60 mL/min: cortisol salivar ou sérico noturno
  11. 11Teste anormal: confirmar com outro método e encaminhar. Confirmado: ACTH em duas amostras — acima de 20 pg/mL dependente, abaixo de 10 pg/mL independente, entre 10 e 20 repetir. Imagem só depois
  12. 12Hipercortisolismo com potássio muito baixo, glicemia descontrolada, infecção incomum ou emagrecimento: internar, porque é emergência
  13. 13Incidentaloma de 1 cm ou mais: homogêneo com até 10 UH sem contraste, sem mais imagem; 11 a 20 UH e menos de 4 cm, imagem adicional imediata ou em 12 meses; 4 cm ou mais e heterogêneo, ou mais de 20 UH, equipe multidisciplinar e, em geral, cirurgia
  14. 14Todo incidentaloma: exame clínico, supressão com 1 mg de dexametasona (até 1,8 µg/dL exclui; acima, sem Cushing franco, é secreção autônoma leve), relação aldosterona/renina se houver hipertensão ou hipocalemia, metanefrinas se o aspecto não for de adenoma benigno. Biópsia nunca antes de afastar feocromocitoma
  15. 15Suspeita de feocromocitoma: metanefrinas plasmáticas ou urinárias, com tricíclico, antipsicótico e levodopa suspensos 2 semanas antes; positivas, tomografia. Nunca betabloqueador sozinho. Cirurgia só com alfa-1-bloqueador e sal por pelo menos 2 semanas

Como ler a triagem do hiperaldosteronismo primário

Como o laboratório mediuRenina baixaAldosterona que não está baixaRelação indicativaRégua
Renina como atividade (ng/mL/h); aldosterona por imunoensaioAté 110 ng/dL ou mais (277 pmol/L)Acima de 20 (ng/dL por ng/mL/h)Endocrine Society, 2025
Renina como concentração direta (mU/L, o mesmo que µUI/mL); aldosterona por imunoensaioAté 8,210 ng/dL ou mais (277 pmol/L)Acima de 70 (pmol/L por mU/L), o que dá 2,5 em ng/dL por mU/LEndocrine Society, 2025; conversão desta apostila
Aldosterona por espectrometria de massas, qualquer reninaOs mesmos cortes7,5 ng/dL ou mais (208 pmol/L)Cerca de 25% abaixo dos cortes de imunoensaioEndocrine Society, 2025
Doença franca, em hipertensão resistente ou com hipocalemiaAtividade abaixo de 0,2 ou concentração abaixo de 2Acima de 20 ng/dL por imunoensaio ou de 15 ng/dL por espectrometriaDispensa teste de supressãoEndocrine Society, 2025
Protocolo do serviço do Hospital das Clínicas da USPNão fixa corte isolado12,5 ng/dL ou mais30 ou mais com atividade; 2,5 ou mais com concentraçãoVilela e Almeida, 2017
Quadro brasileiro de causas secundáriasNão fixa corte isoladoAcima de 15 ng/dLAcima de 30, sem dizer a medida da reninaDiretriz de hipertensão de 2020, em uso para causas secundárias — ver notas

Hipercortisolismo: os testes de primeira linha e o que cada um não faz

TesteComo fazerAnormalSensibilidade e especificidadeO que engana
Supressão com 1 mg de dexametasona1 mg por via oral entre 23 h e meia-noite; cortisol sérico entre 8 e 9 h do dia seguinteAcima de 1,8 µg/dLAcima de 95% e 80%Estrogênio (suspender 6 semanas), gestação, má absorção, indutor do metabolismo da dexametasona, depressão e alcoolismo
Cortisol salivar na hora de dormirPelo menos duas noitesAcima de 2 vezes o limite superior do laboratório88% a 100% e 82% a 100%Método do laboratório; é o preferido com depuração abaixo de 60 mL/min
Cortisol livre em urina de 24 horasPelo menos duas coletasAcima de 3 a 4 vezes o limite superior90% a 98% e 45% a 95%Coleta incompleta; não sofre efeito do estrogênio
Cortisol basal da manhãNão serve para rastrearValor normal não afastaSem papel de rastreioServe para flagrar dexametasona ou betametasona de fora, que o deixam baixo
ACTH, só depois de confirmado o excessoPelo menos duas amostrasAcima de 20 pg/mL: dependente; abaixo de 10: independenteEntre 10 e 20: indeterminado, repetirPedido antes da confirmação, não tem interpretação

Incidentaloma adrenal: do laudo à conduta

AchadoO que significaPróximo passo
Homogêneo, até 10 UH na tomografia sem contrasteBenigno pela imagemNenhuma outra imagem, nem agora nem no seguimento
11 a 20 UH, menos de 4 cmIndeterminado de baixo riscoImagem adicional imediata, para não precisar seguir, ou nova imagem em 12 meses
4 cm ou mais e heterogêneo, ou mais de 20 UHRisco relevante de malignidadeDiscussão multidisciplinar; na maioria, cirurgia imediata
Crescimento acima de 20% do maior diâmetro, com pelo menos 5 mmLesão que não se comporta como adenomaRessecção
Cortisol após 1 mg de dexametasona até 1,8 µg/dLSem secreção autônomaSem repetir a investigação hormonal, salvo sinal novo
Acima de 1,8 µg/dL, sem sinais de Cushing francoSecreção autônoma leve de cortisolRastrear hipertensão, diabetes e fratura vertebral; discutir cirurgia se houver comorbidade; glicocorticoide de estresse se operar
Hipertensão ou potássio baixo sem explicaçãoPode ser aldosteronomaRelação aldosterona/renina
Aspecto que não é o de adenoma benignoPode ser feocromocitomaMetanefrinas antes de qualquer procedimento
Menos de 40 anos, ou gestanteMaior chance de malignidadeAvaliação urgente; ressecção se indeterminado
Frágil, com pouca expectativa de vidaO ganho é pequenoInvestigação proporcional; a supressão pode ser dispensada

Os fármacos do capítulo no elenco do SUS, em miligrama e em comprimido

FármacoPara que aparece aquiDose de referência e réguaRename 2024Na prática
EspironolactonaHiperaldosteronismo primário; quarto fármaco da hipertensão resistenteInício de 12,5 a 25 mg/dia, 50 mg nos graves, subindo de 25 a 50 mg (Endocrine Society, 2025); 50 a 400 mg/dia na hiperplasia (diretriz de 2020)25 e 100 mg, comprimido, Componente Básico12,5 mg = ½ cp de 25 mg; 25 mg = 1 cp de 25 mg; 50 mg = 2 cp de 25 mg; 100 mg = 1 cp de 100 mg; 200 mg = 2 cp de 100 mg; 400 mg = 4 cp de 100 mg
DexametasonaTeste de supressão com 1 mg1 mg dose única à noite (recomendações brasileiras de 2016)4 mg comprimido e 0,1 mg/mL elixir, Componente Básico10 mL do elixir; ¼ do comprimido de 4 mg se sulcado para isso
LosartanaEsquema de Demétrio50 a 100 mg/dia em 1 ou 2 tomadas (diretriz de 2020)50 mg, comprimido, Componente Básico50 mg de 12 em 12 horas = 100 mg/dia = 2 cp de 50 mg
HidroclorotiazidaEsquema de Demétrio25 a 50 mg/dia (diretriz de 2020)12,5 e 25 mg, comprimido, Componente Básico25 mg = 1 cp de 25 mg
AnlodipinoEsquema de Demétrio2,5 a 10 mg/dia (diretriz de 2020)5 e 10 mg, comprimido, Componente Básico10 mg = 1 cp de 10 mg
DoxazosinaPreparo do feocromocitoma, no especialista; opção enquanto se repete a triagem1 a 16 mg/dia em 1 tomada (diretriz de 2020)2 e 4 mg, comprimido, Componente Básico1 mg = ½ cp de 2 mg; 2 mg = 1 cp de 2 mg; 4 mg = 1 cp de 4 mg; 16 mg = 4 cp de 4 mg
HidralazinaOpção enquanto se repete a triagem sem os fármacos que a falseiam50 a 200 mg/dia em 2 ou 3 tomadas (diretriz de 2020)25 e 50 mg, comprimido, Componente Básico25 mg 2 vezes = 50 mg/dia = 2 cp de 25 mg; 50 mg 3 vezes = 150 mg/dia = 3 cp de 50 mg; 100 mg 2 vezes = 200 mg/dia = 4 cp de 50 mg
VerapamilOpção enquanto se repete a triagem120 a 360 mg/dia (diretriz de 2020)80 e 120 mg, comprimido, Componente Básico120 mg/dia = 1 cp de 120 mg ou 1½ de 80 mg; 240 mg/dia = 2 cp de 120 mg ou 3 de 80 mg; 360 mg/dia = 3 cp de 120 mg
Cloreto de potássioHipocalemia (correção em Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria)Sem dose neste capítuloSó solução injetável a 19,1%, Componente Básico; não há forma oral no elenco2,56 mEq por mL; 10 mL = 25,6 mEq
HidrocortisonaDose de estresse na cirurgia de quem tem cortisol acima de 1,8 µg/dL após dexametasonaDose em Insuficiência adrenal e crise addisoniana100 e 500 mg, pó injetável, Componente BásicoSem forma oral no elenco

Relação aldosterona/renina sem unidade na diretriz brasileira de 2020. O quadro de causas secundárias pede “aldosterona (>15 ng/dL) e atividade/concentração de renina plasmática” e fixa a relação “> 30” para as duas medidas. O corte de 30 nasceu com a renina medida como atividade, em ng/mL/h; com concentração direta, em mU/L — a medida da maioria dos kits comerciais, segundo a revisão que a própria diretriz adapta —, o equivalente é de 2 a 3 pela revisão e de 2,5 pela Endocrine Society de 2025 (70 pmol/L ÷ 27,7 pmol/L por ng/dL). Conta com Demétrio: aldosterona de 26 ng/dL e renina direta de 1,4 mU/L dão relação de 26 ÷ 1,4 = 18,6, ou 515 em pmol/L por mU/L. Pelas réguas de concentração, é triagem positiva, e franca; lida contra o 30 do quadro, vira negativa, e o paciente volta para casa com a doença.

Teste da captopril invertido no Quadro 15.7 da diretriz de 2020. A coluna de resultado dá como positivo “valor de A > 8,5-13,9 ng/dL ou supressão da A > 30%”. A revisão de Vilela e Almeida, de onde vem o fluxograma do mesmo capítulo, descreve o contrário: a aldosterona normalmente cai mais de 30% depois do captopril, e no hiperaldosteronismo primário continua elevada, com renina suprimida. Conta: uma aldosterona que cai de 20 para 12 ng/dL caiu (20 − 12) ÷ 20 = 40% — resposta normal — e seria lida como positiva pela coluna do quadro. O teste é do especialista, mas o quadro é o que o aluno encontra quando abre a régua brasileira.

Cortisol basal e betametasona no quadro de Cushing das diretrizes de hipertensão. Os quadros de causas secundárias de 2020 e de 2025 listam “cortisol basal” entre os exames do hipercortisolismo e chamam o rastreio de “teste de supressão com dexametasona ou betametasona”. O texto corrido de 2020 (seção 15.4.6) diz para que serve o cortisol basal: excluir uso exógeno de dexametasona ou betametasona — a betametasona do quadro é resto dessa frase. A edição de 2025 não tem a seção e manteve só o quadro. Lido sozinho, ele manda rastrear Cushing com cortisol da manhã, que não está entre os três métodos de primeira linha das recomendações brasileiras de 2016 e não afasta a doença quando normal, porque o primeiro sinal bioquímico é a perda do vale noturno.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo é a de Demétrio, do dia em que a pasta azul chega ao ambulatório até um ano depois da cirurgia. Ela segue o caminho mais longo do capítulo — triagem, tomografia, cateterismo, adrenalectomia — porque é o que obriga a decidir mais coisas; o paciente que não quer ou não pode operar sai dela no segundo marco, com espironolactona titulada pela renina, e fica bem tratado.

Em cada marco estão a decisão do dia, o documento que a sustenta e as linhas da prescrição, com as apresentações da Rename 2024. Onde nenhum documento sustenta a escolha, o próprio marco registra que ela é uma opção desta apostila.

Este capítulo reúne três percursos. No hipertenso, pense primeiro na triagem de hiperaldosteronismo, nos efeitos de potássio e medicamentos e em como o resultado mudará a terapia. No fenótipo cushingoide, procure glicocorticoide exógeno antes de pedir provas de hipercortisolismo. No incidentaloma, caracterize imagem e função; não concluir causalidade porque há um nódulo. Testes confirmatórios, cateterismo e cirurgia são decisões compartilhadas com o especialista, depois de o interno reconhecer e organizar os dados essenciais.

  1. Dia 0, primeira consulta — colher antes de mexer

    Demétrio preenche a definição de hipertensão resistente da diretriz de 2020: três classes em dose plena, uma delas tiazídico, com medida residencial confirmando e adesão contada. A falsa resistência já foi afastada por quem o encaminhou. Ele tem os três gatilhos de rastreio de hiperaldosteronismo do quadro brasileiro de 2025 — resistência, potássio baixo e nódulo de suprarrenal —, e a pergunta da preceptora tem resposta: pode ser uma doença que dá hipertensão. O quarto fármaco preferencial seria a espironolactona, e é por isso mesmo que ela não entra hoje: começada antes da coleta, ela invalidaria uma triagem negativa por quatro semanas. A coleta se faz com o esquema atual, seguindo a Endocrine Society de 2025 — se vier positiva sob losartana, tiazídico e anlodipino, vale; se vier negativa, o potássio baixo e os fármacos obrigam a repetir. Como a coleta deve ser pela manhã e são duas da tarde, fica para amanhã cedo. O xarope de potássio que ele comprou continua como está até lá: mudar a véspera não ajuda a ler o exame.

    Prescrição
    • Losartana 50 mg: 1 comprimido de 12 em 12 horas — mantida, Componente Básico
    • Hidroclorotiazida 25 mg: 1 comprimido pela manhã — mantida, Componente Básico
    • Anlodipino 10 mg: 1 comprimido à noite — mantido, Componente Básico
    • Aldosterona sérica, renina (pedir que o laudo diga se é atividade ou concentração, e o método da aldosterona), potássio, sódio, creatinina e glicemia de jejum: amanhã entre 8 e 10 horas, depois de 2 horas fora da cama e 15 minutos sentado, sem restrição de sal nos dias anteriores Corrigir hipocalemia quando presente e registrar os medicamentos: potássio baixo pode reduzir aldosterona e gerar falso negativo. Se a suspeita continuar alta apesar de triagem negativa, repetir após correção e revisão supervisionada das interferências; não retirar anti-hipertensivos de modo inseguro.
    • Não iniciar espironolactona antes da coleta
    • Retorno em 7 dias, com o resultado e o laudo da tomografia antiga
  2. Dia 7 — a triagem veio positiva, e franca

    Potássio de 3,3 mEq/L, sódio de 142 mEq/L, creatinina de 1,0 mg/dL. Aldosterona de 26 ng/dL por imunoensaio e renina medida como concentração direta, 1,4 mU/L. Renina baixa (até 8,2), aldosterona que não está baixa (10 ou mais) e relação de 26 ÷ 1,4 = 18.6 ng/dL por mU/L, muito acima de 2,5: triagem positiva pela Endocrine Society de 2025. É mais que positiva — hipertensão resistente com hipocalemia, renina abaixo de 2 mU/L e aldosterona acima de 20 ng/dL —, e a diretriz dispensa teste de supressão. Quem lesse o 18.6 contra o “> 30” do quadro de 2020 mandaria Demétrio para casa; o erro está nas notas do bloco de critérios. Duas decisões saem desta consulta. A espironolactona começa hoje, porque trata o hiperaldosteronismo seja qual for o caminho e é o quarto fármaco da hipertensão resistente; na doença franca, a diretriz americana admite 50 mg de início, que é também a dose inicial do serviço do Hospital das Clínicas. E Demétrio é perguntado se quer ser avaliado para cirurgia — quer, “se for para tirar o problema” —, o que abre o caminho da tomografia e do endocrinologista. O xarope de potássio sai da folha: com losartana e espironolactona, a soma sobe o potássio, e ele normaliza em três a cinco dias só com o antagonista.

    Prescrição
    • Espironolactona 25 mg: 2 comprimidos (50 mg) pela manhã — Componente Básico
    • Suspender o xarope de cloreto de potássio comprado por conta própria
    • Losartana, hidroclorotiazida e anlodipino: manter as doses
    • Potássio e creatinina em 7 a 14 dias (prazo escolhido por esta apostila, pela soma de bloqueador do receptor de angiotensina e espironolactona)
    • Tomografia de abdome com protocolo de suprarrenais, cortes finos, fase sem contraste com atenuação em unidades Hounsfield
    • Encaminhamento ao endocrinologista: hiperaldosteronismo primário com triagem franca (aldosterona 26 ng/dL, renina direta 1,4 mU/L), hipertensão resistente, hipocalemia, nódulo adrenal esquerdo de 1,5 cm em tomografia de 5 anos atrás; deseja avaliação cirúrgica
  3. Dia 18 — o potássio, o rim e o primeiro efeito

    Potássio de 4,3 mEq/L e creatinina de 1,1 mg/dL. A pequena subida da creatinina é esperada: a Endocrine Society registra que a filtração glomerular pode cair quando o tratamento dirigido à aldosterona começa. Uma subida desse tamanho não é motivo para suspender; é motivo para medir de novo junto com o potássio no próximo retorno. A média da medida residencial caiu para 146 por 91. As câimbras da madrugada sumiram na primeira semana, e é isso que Demétrio mais valoriza. É a consulta para avisar do efeito que mais abandona tratamento: a espironolactona pode aumentar e deixar sensível a mama no homem, em geral depois de meses, e o efeito depende da dose. Quem sabe antes procura o médico; quem descobre sozinho para o remédio.

    Prescrição
    • Espironolactona 50 mg/dia mantida
    • Anotar a pressão em casa, duas medidas pela manhã e duas à noite, nos 7 dias antes de cada retorno
    • Renina, potássio e creatinina antes do próximo retorno
  4. Semana 5 — a tomografia mostra um nódulo, e o nódulo não decide nada sozinho

    A suprarrenal esquerda tem nódulo de 1,6 cm, homogêneo, com 4 unidades Hounsfield na fase sem contraste; a direita é normal. Cinco anos antes media 1,5 cm: cresceu 6.7%, longe dos 20% que indicariam ressecção, e o aspecto é o do adenoma benigno pela diretriz europeia de 2023, que dispensa qualquer outra imagem. O problema agora não é saber se é câncer, e sim se é ele que produz a aldosterona — um nódulo não funcionante do lado esquerdo e uma hiperplasia que a tomografia não mostra são possibilidades reais. Demétrio tem 47 anos e não cabe na exceção da Endocrine Society, restrita a quem tem menos de 35: precisa de cateterismo de veias adrenais antes de qualquer cirurgia. As réguas de 2020 e do Hospital das Clínicas o dispensariam, pelo nódulo de 1,6 cm e pela hipertensão diagnosticada aos 38; esta apostila adota a de 2025 pelos motivos da investigação. Metanefrinas não são necessárias num nódulo com esse aspecto. O teste de supressão com dexametasona entra agora, porque a Endocrine Society o sugere em todo hiperaldosteronismo com adenoma, e o resultado muda o preparo da cirurgia. A renina voltou em 1,6 mU/L, ainda suprimida, com pressão de 144 por 90 e potássio de 4,4: pela recomendação 7 da diretriz americana, sobe-se o antagonista até a renina subir.

    Prescrição
    • Espironolactona 100 mg: 1 comprimido pela manhã — Componente Básico (substitui os 2 comprimidos de 25 mg)
    • Dexametasona elixir 0,1 mg/mL: 10 mL (1 mg) por via oral às 23 horas, uma única vez — Componente Básico; cortisol sérico entre 8 e 9 horas da manhã seguinte
    • Potássio e creatinina em 7 a 14 dias, pela dose nova
    • Carta ao endocrinologista com o laudo da tomografia: pedido de cateterismo de veias adrenais
  5. Semana 9 — a renina subiu, e o cortisol suprimiu

    Cortisol de 1,1 µg/dL depois de 1 mg de dexametasona: abaixo de 1,8, sem secreção autônoma de cortisol. A consequência é prática — Demétrio não vai precisar de glicocorticoide em dose de estresse na cirurgia, que a diretriz europeia reserva ao operado com cortisol acima de 1,8 µg/dL. Potássio de 4,6 mEq/L, creatinina de 1,1 mg/dL. A renina, que era 1,4 mU/L, está em 6,8: subiu, e a Endocrine Society não fixa número de renina a atingir — o alvo é ela sair da supressão. A média residencial está em 132 por 84. A dose fica onde está. O endocrinologista confirmou o pedido de cateterismo, que no serviço de referência tem fila de meses; enquanto isso, a espironolactona reduz o dano cardiovascular do excesso de aldosterona tanto quanto controla a pressão, e a espera deixa de ser perigo para ser só espera.

    Prescrição
    • Espironolactona 100 mg/dia mantida
    • Losartana 50 mg de 12 em 12 horas, hidroclorotiazida 25 mg e anlodipino 10 mg mantidos
    • Potássio, creatinina e renina a cada retorno até o cateterismo
  6. Mês 5 — o cateterismo lateraliza para a esquerda: preparar a cirurgia

    O laudo do especialista mostra produção de aldosterona lateralizada para a suprarrenal esquerda, a do nódulo. A indicação é adrenalectomia unilateral por via laparoscópica, que a diretriz de 2020 dá como tratamento preferencial do adenoma produtor de aldosterona. O preparo tem uma regra que o generalista precisa conhecer para não desfazer: a espironolactona continua até a cirurgia. O serviço do Hospital das Clínicas explica o motivo — normalizar potássio e renina antes de operar evita o hipoaldosteronismo com renina baixa no pós-operatório, quando a suprarrenal que ficou, desligada por anos de renina suprimida, ainda não voltou a trabalhar. Como o cortisol suprimiu no teste da dexametasona, não se programa glicocorticoide perioperatório.

    Prescrição
    • Espironolactona 100 mg/dia até a véspera da cirurgia, salvo ordem diferente da equipe cirúrgica
    • Potássio, sódio, creatinina e renina na semana anterior à cirurgia
    • Sem glicocorticoide perioperatório: cortisol de 1,1 µg/dL após 1 mg de dexametasona
  7. Primeira semana depois da adrenalectomia — conferir o que foi retirado

    Na primeira semana, o serviço do Hospital das Clínicas colhe sódio, potássio, aldosterona e renina para ver a resposta. A armadilha aqui é de prescrição, e é leitura desta apostila a partir do mecanismo descrito por ele: a receita de casa, copiada na alta, traz espironolactona 100 mg, e a fonte do excesso de aldosterona acabou de sair. Com a suprarrenal que ficou ainda desligada, somar antagonista mineralocorticoide e losartana pode subir o potássio. O antagonista não volta à folha sem ordem expressa da equipe que operou e do endocrinologista. Os anti-hipertensivos se ajustam pela pressão medida, não pela receita antiga.

    Prescrição
    • Sódio, potássio, creatinina, aldosterona e renina na primeira semana após a cirurgia
    • Espironolactona: não reintroduzir sem ordem da equipe que operou
    • Losartana, hidroclorotiazida e anlodipino: ajustar pela medida residencial da primeira semana
  8. Três meses e um ano — curou a aldosterona; a pressão é outra conversa

    Aos três meses, potássio de 4,5 mEq/L sem suplemento e sem antagonista, aldosterona e renina normais: o hiperaldosteronismo acabou. A pressão melhorou e não normalizou — média residencial de 138 por 86 com losartana e anlodipino, sem tiazídico. É o desfecho previsto: a adrenalectomia normaliza a pressão em cerca de metade dos operados, e hipertensão longa antes do diagnóstico pesa contra a cura; Demétrio tinha nove anos de doença. A hipertensão que ficou é hipertensão primária, e as metas e o esquema voltam para Hipertensão arterial sistêmica: diagnóstico, estratificação e metas de PA, com a unidade básica. Com um ano, a carta de contrarreferência diz o que foi feito, o que não precisa ser repetido — nenhuma tomografia de seguimento para a suprarrenal que ficou, se nada mudar — e qual é o sinal de alerta: potássio baixo de novo.

    Prescrição
    • Losartana 50 mg de 12 em 12 horas e anlodipino 10 mg à noite — Componente Básico
    • Potássio e creatinina a cada seis meses no primeiro ano (intervalo escolhido por esta apostila)
    • Contrarreferência à unidade básica: hiperaldosteronismo primário curado por adrenalectomia esquerda; hipertensão residual a tratar pelas metas da diretriz; potássio baixo recorrente motiva retorno ao endocrinologista
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Como saber se está funcionando

Cada doença deste capítulo se reavalia por um marcador diferente. No hiperaldosteronismo tratado com remédio, o marcador é a renina, e não só a pressão. No operado, é o potássio da primeira semana e a pressão dos meses seguintes. Na secreção autônoma leve de cortisol que não foi operada, são as comorbidades, uma vez por ano. No nódulo indeterminado, é o tamanho.

Tão importante quanto saber o que repetir é saber o que não repetir. O incidentaloma de aspecto benigno com investigação hormonal normal não pede tomografia nem dosagem de novo, pela diretriz europeia de 2023, a menos que apareça sinal clínico novo ou que as comorbidades piorem. Repetir por hábito expõe à radiação, ocupa vaga e ensina ao paciente que ele tem uma doença que não tem.

Pressão arterial pela medida residencialSete dias de medida antes de cada retorno; aos três meses e com um ano depois da cirurgia

Esperado: Queda progressiva nas semanas de antagonista mineralocorticoide; depois da adrenalectomia, normalização em cerca de metade dos operados

Se não melhora: Pressão acima da meta com renina ainda suprimida: subir o antagonista. Pressão acima da meta com renina já desbloqueada, ou depois da cirurgia: tratar como hipertensão primária associada, pelas metas de Hipertensão arterial sistêmica: diagnóstico, estratificação e metas de PA

PotássioEm 7 a 14 dias depois de iniciar ou subir a espironolactona, depois a cada retorno; na primeira semana depois da adrenalectomia

Esperado: Normal em três a cinco dias de antagonista, mesmo em dose baixa; normal sem suplemento depois da cirurgia

Se não melhora: Potássio que não sobe: conferir adesão e dose, e se a hipocalemia tem outra causa. Potássio alto, sobretudo com bloqueador do receptor de angiotensina ou depois da cirurgia: suspender o que eleva e conduzir por Potássio: hipo e hipercalemia na enfermaria

Creatinina e filtração glomerularJunto com o potássio

Esperado: Pode subir discretamente no início do tratamento dirigido à aldosterona e estabilizar

Se não melhora: Subida progressiva: rever a dose do antagonista, o bloqueio do sistema renina-angiotensina associado e qualquer anti-inflamatório; no idoso e na doença renal crônica estágio 3, o antagonista pede cautela redobrada

Renina, no hiperaldosteronismo tratado com remédioAntes de cada ajuste de dose, até a pressão estar controlada

Esperado: Subir em relação ao valor do diagnóstico; a Endocrine Society de 2025 não fixa número a atingir

Se não melhora: Renina suprimida com pressão fora da meta: aumentar a espironolactona em passos de 25 a 50 mg, conferindo potássio e creatinina a cada passo

Efeitos antiandrogênicos da espironolactonaEm toda consulta, perguntando ativamente, a partir do segundo mês

Esperado: Ausentes ou toleráveis

Se não melhora: Mama aumentada ou dolorosa, queda de libido, irregularidade menstrual: o efeito depende da dose. A revisão do Hospital das Clínicas usa dose baixa de tiazídico para não subir a espironolactona; eplerenona e amilorida não estão na Rename. Em quem pode operar, o efeito é mais um argumento para o cateterismo

Comorbidades na secreção autônoma leve de cortisol não operadaUma vez por ano, e pode ser feito na atenção primária

Esperado: Pressão, glicemia e massa óssea estáveis

Se não melhora: Hipertensão, diabetes ou fratura vertebral surgindo ou piorando: rediscutir a cirurgia com o endocrinologista, pesando idade, saúde geral, grau de cortisol não suprimido e preferência do paciente

Tamanho do nódulo adrenal indeterminadoNova imagem em 6 a 12 meses, quando se decidiu seguir em vez de caracterizar ou operar

Esperado: Estável

Se não melhora: Crescimento acima de 20% do maior diâmetro, com pelo menos 5 mm a mais: ressecção, pela diretriz europeia de 2023

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Onde o erro machuca

Começar espironolactona antes de colher aldosterona e renina no hipertenso resistente de potássio baixo

O dano: A pressão melhora, o potássio sobe e o diagnóstico some. Uma triagem negativa sob antagonista só vale depois de quatro semanas sem ele, e poucos voltam atrás no remédio que finalmente controlou a pressão. O paciente segue rotulado como hipertenso resistente, sem a chance de uma cirurgia que poderia acabar com o excesso de aldosterona.

Como pegar a tempo: Na primeira consulta, colher aldosterona, renina e potássio com o esquema em uso, pela manhã, e só depois iniciar a espironolactona. Positiva apesar de diurético, di-hidropiridínico ou bloqueio do sistema renina-angiotensina, a triagem vale (Endocrine Society, 2025).

Ler a renina medida como concentração contra o corte de 30

O dano: O corte de 30 nasceu com a atividade de renina. Com concentração direta, a relação de Demétrio — 26 ng/dL de aldosterona por 1,4 mU/L de renina — dá 18,6, abaixo de 30, e seria chamada de negativa num paciente com doença franca.

Como pegar a tempo: Ler a unidade antes do número. Com renina em mU/L, a triagem é positiva com renina até 8,2, aldosterona de 10 ng/dL ou mais por imunoensaio e relação acima de 70 em pmol/L por mU/L, ou 2,5 em ng/dL por mU/L.

Mandar operar o nódulo que a tomografia mostrou num paciente com hiperaldosteronismo

O dano: O nódulo pode não ser a fonte: um adenoma não funcionante convive com hiperplasia bilateral ou com um aldosteronoma do outro lado. A glândula retirada não volta, a aldosterona continua alta e o paciente perdeu uma suprarrenal por nada.

Como pegar a tempo: Pedir cateterismo de veias adrenais antes de decidir a cirurgia em todo paciente que a considera, com a exceção da Endocrine Society de 2025: menos de 35 anos, doença acentuada, hipocalemia e adenoma unilateral maior que 1 cm. Quem não chega ao cateterismo trata com espironolactona.

Investigar Cushing endógeno sem perguntar pelo corticoide de fora — e, quando o encontra, mandar parar de uma vez

O dano: Pedem-se teste de supressão, ACTH e tomografia num eixo desligado por glicocorticoide sintético, e a imagem acha nódulos sem importância. Quando alguém enfim descobre a injeção da farmácia, a suspensão abrupta pode tirar do paciente o único cortisol que ele tem.

Como pegar a tempo: Perguntar por categoria: injeção para dor ou alergia, bombinha, spray nasal, pomada, colírio, infiltração, cápsula manipulada. Corpo de Cushing com cortisol próprio baixo aponta para o glicocorticoide de fora. A retirada se planeja por Insuficiência adrenal e crise addisoniana.

Fazer o teste de supressão com dexametasona em mulher que usa contraceptivo com estrogênio

O dano: O estrogênio aumenta a proteína que carrega o cortisol e responde por até metade dos falso-positivos do teste. O resultado anormal gera ACTH, tomografia, ressonância, achados incidentais e meses de medo numa mulher que não tem a doença.

Como pegar a tempo: Nessa mulher, rastrear com cortisol salivar na hora de dormir ou cortisol livre urinário, em duas amostras cada, que não sofrem esse efeito, ou suspender o estrogênio por pelo menos seis semanas antes da supressão (recomendações brasileiras de 2016).

Puncionar massa de suprarrenal, ou dar betabloqueador sozinho, antes de afastar feocromocitoma

O dano: A agulha ou o betabloqueador sem bloqueio alfa podem disparar a descarga de catecolaminas que se queria evitar, com crise hipertensiva, num procedimento que raramente muda a conduta.

Como pegar a tempo: Metanefrinas em toda lesão sem aspecto de adenoma benigno. Biópsia só em lesão hormonalmente inativa, não caracterizada como benigna e quando a histologia mudar a conduta (diretriz europeia de 2023). Cirurgia só depois de pelo menos duas semanas de alfa-1-bloqueador e sal (diretriz de 2020).

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa com Demétrio tem três adversários. O primeiro é a palavra tumor, que aparece no laudo como nódulo e chega em casa como câncer. O segundo é o cansaço de quem passou nove anos somando remédio e agora ouve falar de mais exame. O terceiro é a expectativa de cura: quem ouve que a cirurgia tira a causa entende que a pressão vai embora junto.

As falas vêm na sequência das visitas de Demétrio. Junto de cada uma está a frase tentadora — a que soa tranquilizadora e acaba em abandono, susto ou frustração. Todo número dito a ele sai de um dos documentos do capítulo, arredondado para caber numa conversa, e nenhuma fala promete mais do que o documento promete.

Na primeira consulta, Demétrio pergunta por que não sai logo com o quarto remédio que o posto pediu.

O senhor vai sair com ele, mas daqui a uma semana. Existe uma causa de pressão alta que vem de uma glândula que fica em cima do rim e que faz o corpo segurar sal e perder potássio — e o senhor tem três sinais dela: a pressão que não desce com três remédios, o potássio baixo e aquele carocinho que apareceu na tomografia da pedra no rim. O remédio que eu daria agora atrapalha o exame que mostra essa causa. Então amanhã cedo o senhor colhe o sangue, e com o resultado a gente escolhe o remédio certo.

Não diga: Evite “vamos investigar se é tumor”. A frase é tecnicamente defensável e faz o paciente passar a semana pensando em câncer, quando o que se investiga é um excesso de hormônio.

A esposa pergunta se ele deve cortar o sal nos dias antes do exame, “para dar certo”.

Não precisa, e é melhor que não corte. Esse exame fica mais confiável com a comida de sempre. O que ajuda é outra coisa: colher de manhã, depois de ele estar acordado e de pé há umas duas horas, e ficar sentado uns quinze minutos antes de tirar o sangue. E os remédios da pressão continuam todos, do jeito que a senhora dá.

Não diga: Evite “faça uma dieta sem sal esses dias”. Restringir sal antes da coleta é justamente o que a diretriz pede para não fazer, e a família, querendo ajudar, falseia o resultado.

No sétimo dia, com a triagem positiva nas mãos, Demétrio pergunta: “Então eu tenho um tumor?”

O exame mostrou que a glândula está produzindo um hormônio chamado aldosterona em excesso, e é isso que segura a sua pressão lá em cima e derruba o potássio. Isso está confirmado. O carocinho da tomografia tem jeito de ser benigno, mas ainda não sei se é ele que produz o hormônio ou se as duas glândulas estão exageradas. Começamos hoje um remédio que bloqueia esse hormônio. E vamos descobrir de onde ele vem, porque, se vier de um lado só, uma cirurgia pode tirar a fonte.

Não diga: Evite “é um tumorzinho benigno, a gente tira e resolve”. Promete uma cirurgia antes de saber o lado e uma cura que a cirurgia não garante.

No dia 18, antes de ele ir embora, você fala do efeito colateral que ele ainda não sentiu.

Esse remédio pode, com o tempo, fazer o peito aumentar um pouco ou ficar dolorido, e às vezes diminuir a vontade de ter relação. Não acontece com todo mundo, costuma aparecer depois de meses e depende da dose. Se acontecer, não pare por conta própria: me avise, porque tem como mexer na dose e porque parar de repente faz a pressão e o potássio voltarem ao que eram.

Não diga: Evite deixar para falar quando ele perguntar. O homem que descobre sozinho a mama crescendo costuma parar o remédio sem contar a ninguém.

Na semana 5, com a tomografia, ele pergunta por que não operam logo, “se o caroço está lá”.

Porque carocinho na glândula é comum, e nem todo carocinho é o que produz o hormônio. Às vezes ele está de um lado e o excesso vem das duas glândulas, ou do outro lado. Se tirarem a glândula errada, ela não volta, e o senhor continua com a doença. Existe um exame que colhe sangue das veias de cada glândula e mostra de que lado vem o hormônio. A fila é demorada, mas o remédio que o senhor toma já protege enquanto espera.

Não diga: Evite “é protocolo”. Sem o motivo, a espera parece burocracia, e o paciente procura quem opere sem o exame.

No mês 5, com a cirurgia marcada, ele pergunta se depois vai parar todos os remédios.

O que a cirurgia tira com certeza é o excesso de hormônio: o potássio tende a ficar normal sem xarope nenhum. A pressão, essa, só volta ao normal de vez em mais ou menos metade das pessoas operadas, e quem teve pressão alta por muitos anos antes de descobrir a causa tem mais chance de continuar precisando de algum remédio. O senhor tem nove anos de pressão alta. É provável que fique com menos remédio, e não sem nenhum.

Não diga: Evite “essa cirurgia vai curar a sua pressão”. Metade dos operados sai frustrada com uma promessa que a cirurgia nunca fez.

Três meses depois da cirurgia, ele pergunta se a operação não deu certo, porque a pressão ainda está 138 por 86.

Deu certo. O senhor não tem mais o excesso de hormônio, o potássio está normal sem suplemento e a pressão caiu com dois remédios, quando antes nem três davam conta. O que sobrou é uma pressão alta como a de muita gente, que se trata no posto com o que já está na sua receita. A carta que vai com o senhor explica isso para a médica de lá.

Não diga: Evite “pelo menos a gente tentou”. A frase transforma um tratamento que funcionou num fracasso, e o paciente perde a confiança no seguimento de que ainda precisa.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quem rastrear para hiperaldosteronismo primário

O hipertenso com indício — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, 2025

A diretriz manda investigar causa secundária diante de indícios na história, no exame ou nos exames de rotina, e estima a hipertensão secundária em 5% a 10% dos casos. Para o hiperaldosteronismo primário, o quadro de causas endócrinas aponta hipertensão resistente ou refratária, hipopotassemia — que não é obrigatória — e nódulo adrenal, com dosagem de aldosterona e renina e testes confirmatórios. O texto não estende a investigação a quem não tem indício.

Brandão AA et al. Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250624, seção 4.6 e Quadro 4.5

Todo hipertenso — Endocrine Society, 2025

A primeira recomendação sugere rastrear hiperaldosteronismo primário em todas as pessoas com hipertensão, com aldosterona e renina, como recomendação condicional e certeza baixa da evidência. A diretriz estima a doença em 5% a 14% dos hipertensos da atenção primária e sugere tratamento específico, clínico ou cirúrgico, para quem a tem.

Adler GK et al. Primary Aldosteronism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2025;110(9):2453-2495, recomendações 1 a 3

Como decidir

Não se trata de cronologia: as duas regras miram o mesmo hipertenso, ainda sem suspeita nenhuma, na mesma consulta. O primeiro degrau decide: esse paciente é o hipertenso geral, e a régua escrita para ele é a diretriz de hipertensão; a diretriz de uma doença específica não governa o paciente geral. Esta apostila adota a régua brasileira e rastreia quem tem indício: hipertensão resistente ou refratária, potássio baixo espontâneo ou com diurético em dose habitual, e nódulo de suprarrenal. A lista geral de pistas de causa secundária é de Hipertensão arterial sistêmica: diagnóstico, estratificação e metas de PA, e o que vale para o paciente é não esperar o potássio cair para pedir o exame, porque a hipocalemia falta na maioria dos casos. A sugestão de rastrear todos fica registrada, com a data e a força — condicional, certeza baixa —, para o aluno que a encontrar num serviço que já a adotou.

Com que números a triagem é positiva

Aldosterona acima de 15 ng/dL e relação acima de 30 — Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, 2020

No quadro de causas secundárias, a triagem pede aldosterona acima de 15 ng/dL, dosagem de atividade ou concentração de renina e relação aldosterona/renina acima de 30, seguida de testes confirmatórios, com o mesmo corte para as duas medidas de renina.

Barroso WKS et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arq Bras Cardiol. 2021;116(3):516-658, capítulo 15

Aldosterona de 12,5 ng/dL ou mais, relação de 30 com atividade ou de 2,5 com concentração — Hospital das Clínicas da USP, 2017

O serviço considera positiva a triagem com aldosterona de 12,5 ng/dL ou mais e relação de 30 ou mais com atividade de renina, ou de 2,5 ou mais com concentração, com potássio normal; baixou o mínimo de aldosterona de 15 para 12,5 porque 6% dos seus pacientes com a doença ficavam entre os dois valores.

Vilela LAP, Almeida MQ. Diagnosis and management of primary aldosteronism. Arch Endocrinol Metab. 2017;61(3):305-312

Renina baixa, aldosterona de 10 ng/dL ou mais e relação acima de 20 — Endocrine Society, 2025

A diretriz chama de positiva a triagem com renina baixa — atividade até 1 ng/mL/h ou concentração até 8,2 mU/L — e aldosterona de 10 ng/dL ou mais por imunoensaio (7,5 por espectrometria de massas), e com relação acima de 20 em ng/dL por ng/mL/h ou de 70 em pmol/L por mU/L.

Adler GK et al. J Clin Endocrinol Metab. 2025;110(9):2453-2495, definição de triagem positiva

Como decidir

Os três falam do mesmo paciente: o hipertenso com indício que colheu aldosterona e renina. Escopo: o quadro de 2020 é parte do capítulo de causas secundárias de uma diretriz de hipertensão, enquanto a revisão do Hospital das Clínicas e a Endocrine Society foram escritas para o hiperaldosteronismo, e governam a leitura do exame. Data: a de 2025 é a mais nova. Coerência: o quadro de 2020 aplica um corte único a duas medidas de renina que diferem em uma ordem de grandeza, defeito registrado nas notas. Esta apostila adota a Endocrine Society de 2025. Conta do que muda: aldosterona de 12 ng/dL com atividade de renina de 0,4 ng/mL/h dá relação de 12 ÷ 0,4 = 30. É negativa pelo quadro de 2020 — aldosterona abaixo de 15 e relação que não passa de 30 —, negativa pelo protocolo do Hospital das Clínicas — aldosterona abaixo de 12,5 — e positiva pela régua de 2025, com renina até 1, aldosterona de 10 ou mais e relação acima de 20. O preço é algum falso-positivo a mais, sobretudo no idoso e em quem usa betabloqueador, que baixam a renina; ele se resolve repetindo sem o fármaco ou no especialista. O falso-negativo custa anos de uma doença tratável sem tratamento.

Precisa de teste de supressão antes de tratar?

Confirmar sempre que a doença não é franca — Hospital das Clínicas da USP, 2017, com o fluxograma adaptado na diretriz brasileira de 2020

Com aldosterona de 20 ng/dL ou mais e renina suprimida, o serviço dispensa confirmação e segue para a tomografia; em todos os outros casos, faz teste confirmatório para excluir falso-positivo, começando pela furosemida intravenosa e seguindo para a infusão de soro fisiológico. A diretriz de 2020 descreve os quatro testes no Quadro 15.7, e o quadro de 2025 mantém os testes confirmatórios na investigação.

Vilela LAP, Almeida MQ. Arch Endocrinol Metab. 2017;61(3):305-312; Barroso WKS et al. Arq Bras Cardiol. 2021;116(3):516-658, Quadro 15.7

Confirmar só quando a cirurgia está em jogo — Endocrine Society, 2025

A quarta recomendação sugere teste de supressão quando a triagem indica probabilidade intermediária de doença lateralizável e o paciente quer ser elegível para cirurgia. Quem não quer ou não pode passar pelo cateterismo e pela adrenalectomia pode ser tratado empiricamente com antagonista mineralocorticoide a partir da triagem.

Adler GK et al. J Clin Endocrinol Metab. 2025;110(9):2453-2495, recomendações 4 e 5

Como decidir

Não é cronologia: as duas regras tratam do paciente com triagem positiva que não é franca, no mesmo momento. Escopo empatado — as duas foram escritas para o hiperaldosteronismo. Decide a data: a de 2025 é a mais nova. Esta apostila adota: teste de supressão quando a triagem não é franca e o paciente quer e pode operar, porque a cirurgia não tem volta; quem não vai operar começa espironolactona a partir da triagem e titula pela renina. Pesam dois fatos do paciente. Na hipertensão resistente, a espironolactona já é o quarto fármaco preferencial, e um falso-positivo tratado recebe o remédio que receberia de qualquer jeito. E os testes custam: a infusão salina é contraindicada em hipertensão grave, insuficiência cardíaca descompensada, insuficiência renal e hipocalemia grave, e a fludrocortisona exige internação — a própria diretriz de 2020 a chama de pouco viável na prática —, o que transforma a confirmação em fila de especialista para quem não ganharia nada com ela.

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O raciocínio, em voz alta

Camila Pontes, 29 anos, 96 kg, 1,63 m, operadora de caixa de supermercado, chega ao ambulatório encaminhada pela unidade básica com um pedido curto: “Suspeita de síndrome de Cushing — cortisol pós-dexametasona alterado.” Ganhou 18 kg em quatro anos, desde a segunda gestação. Tem ciclos irregulares desde a adolescência, que ficaram regulares com o anticoncepcional oral combinado que usa há três anos, e tira com pinça os pelos do queixo. Na unidade, a pressão foi de 146 por 94 mmHg em duas consultas e a glicemia de jejum, de 112 mg/dL. O teste de supressão com 1 mg de dexametasona deu cortisol de 3,4 µg/dL. No exame, as estrias do abdome e das coxas são finas, esbranquiçadas e antigas; a face não é pletórica; ela se levanta da cadeira com os braços cruzados, sem esforço; não há equimose em lugar nenhum. Nega corticoide em qualquer forma — injeção, pomada, bombinha, spray, cápsula manipulada.

  1. o que o quadro tem e o que não tem

    Camila tem índice de massa corporal de 36.1 kg/m², pressão alta, glicemia alterada, ciclos irregulares e hirsutismo — e cada um desses achados aparece também na síndrome metabólica e na síndrome dos ovários policísticos. Os sinais que as recomendações brasileiras de 2016 usam para separar Cushing da obesidade comum não estão lá: não há pletora, não há fraqueza proximal, as estrias são finas e claras, não há equimose espontânea. O mesmo documento não recomenda rastrear rotineiramente a obesidade, o diabetes ou o hirsutismo sem sinais mais específicos. A suspeita da unidade não era absurda — hipertensão aos 29 anos entra na lista de achados incomuns para a idade —, mas a probabilidade antes do teste era baixa.

  2. o corticoide de fora, perguntado por categoria

    Antes de interpretar qualquer cortisol, a pergunta que o documento brasileiro põe em primeiro lugar: há glicocorticoide de fora, por qualquer via? A pergunta foi feita por categoria, e Camila nega todas. O eixo dela não está desligado por remédio, e o teste pode ser lido — desde que se saiba o que mais pode tê-lo falseado.

  3. o que o anticoncepcional fez com o teste

    O estrogênio do contraceptivo combinado aumenta a proteína que transporta o cortisol no sangue; o cortisol total medido sobe, e o teste de supressão dá falso-positivo. Pelo documento de 2016, o estrogênio responde por até metade dos falso-positivos do teste, e a suspensão precisa ser de pelo menos seis semanas para o resultado valer. O cortisol de 3,4 µg/dL de Camila, colhido em uso de estrogênio, não tem interpretação: não prova nem afasta nada.

  4. escolher o teste que o estrogênio não engana

    Há dois caminhos. Suspender o contraceptivo por seis semanas e repetir a supressão exige outro método que a proteja de uma gestação e adia a resposta. Usar um método de primeira linha que não depende da proteína transportadora resolve já: cortisol salivar colhido na hora de dormir, em duas noites, ou cortisol livre na urina de 24 horas, em duas coletas, com a creatinina da mesma urina para conferir se a coleta foi completa. O ambulatório pede os dois, porque o laboratório de referência faz ambos.

  5. o que os resultados dizem

    Os dois cortisóis salivares noturnos vêm abaixo do limite superior do laboratório, e os dois cortisóis urinários, dentro da referência, com creatinina urinária compatível com coleta completa. Pelas regras do documento brasileiro — salivar anormal acima de duas vezes o limite, urinário acima de três a quatro vezes —, não há hipercortisolismo demonstrado. O resultado combina com o que o documento registra sobre os obesos: o ritmo do cortisol salivar costuma estar preservado.

  6. o que não pedir

    Nem ACTH, nem tomografia de suprarrenais, nem ressonância de hipófise. A diretriz de hipertensão de 2020 manda fazer imagem só depois do diagnóstico laboratorial do hipercortisolismo, e a razão é concreta: exames de imagem acham nódulos sem função em quem não tem doença nenhuma, e um nódulo achado numa mulher de 29 anos vira nova investigação, nova fila e novo medo.

  7. para onde ela vai

    A carta de volta diz que a síndrome de Cushing não foi demonstrada, que o teste inicial estava falseado pelo estrogênio e que os dois métodos corretos vieram normais. E distribui o que Camila tem de verdade. O peso é de Obesidade e síndrome metabólica. Os ciclos irregulares desde a adolescência com hirsutismo pedem a avaliação de Síndrome dos ovários policísticos (SOP): critérios de Rotterdam e manejo. A hipertensão aos 29 anos segue a lista de pistas de Hipertensão arterial sistêmica: diagnóstico, estratificação e metas de PA. E o contraceptivo combinado numa mulher com pressão de 146 por 94 é pergunta de elegibilidade, que pertence a Contracepção hormonal combinada: mecanismo, critérios de elegibilidade e contraindicações.

  8. quando voltar a pensar em Cushing

    O rastreio negativo não é vacina. Ele se refaz se aparecerem os sinais que separam — estria larga e violácea, fraqueza para levantar da cadeira, equimose sem trauma, face pletórica —, se a pressão ficar refratária, se vier uma fratura vertebral sem explicação ou se o peso subir enquanto músculo e pele afinam. Até lá, o que protege Camila é tratar o peso, a pressão, a glicemia e o ciclo, e não repetir um teste que já se sabe que o estrogênio falseia.

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Faça você

Filinto Veríssimo, 64 anos, 81 kg, contador aposentado, hipertenso há quinze anos em uso de anlodipino 10 mg, com medida residencial de 128 por 80 mmHg, e diabético em uso de metformina, com hemoglobina glicada de 7,4%. Há duas semanas foi ao pronto-socorro com dor na fossa ilíaca esquerda, e a tomografia de abdome confirmou diverticulite não complicada. O laudo acrescenta: “nódulo em suprarrenal direita de 2,4 cm, homogêneo, com atenuação de 7 UH na fase sem contraste; suprarrenal esquerda sem alterações”. Nunca teve câncer. Não tem crises de cefaleia, sudorese ou palpitação. No exame, não há pletora, fraqueza proximal, estria violácea nem equimose. Potássio de 4,5 mEq/L.

  1. o que a imagem já decidiu

    O nódulo tem mais de 1 cm, então merece investigação pela diretriz europeia de 2023. É homogêneo e tem 7 unidades Hounsfield sem contraste: pelo critério da mesma diretriz, é benigno pela imagem. Nenhuma outra imagem é necessária agora, e nenhuma será necessária no seguimento. A pergunta que resta é se ele produz hormônio.

  2. o que pedir e o que dispensar

    Filinto faz o teste de supressão com 1 mg de dexametasona, que a diretriz pede em todo incidentaloma, e relação aldosterona/renina, porque é hipertenso. Metanefrinas não são necessárias num nódulo com aspecto típico de adenoma benigno. Os resultados: cortisol de 2,9 µg/dL na manhã seguinte à dexametasona; aldosterona de 7 ng/dL por imunoensaio e renina direta de 21 mU/L. Complete: a triagem de aldosterona é positiva ou negativa pela Endocrine Society de 2025, e o anlodipino obriga a repeti-la?

  3. o que o cortisol de 2,9 significa

    Complete: que nome a diretriz europeia dá a esse resultado num paciente sem sinais de Cushing, se ele deve ser subdividido pela faixa do cortisol, qual é o risco de evoluir para Cushing franco e que três condições devem ser procuradas em quem tem esse diagnóstico.

  4. a decisão sobre a cirurgia e o seguimento

    Complete: por que a cirurgia deve ser discutida com Filinto, que fatores entram nessa conversa, o que muda no preparo se ele escolher operar e quem segue o paciente depois da cirurgia; e, se ele escolher não operar, o que se reavalia, com que frequência, onde, e o que não se repete.

Ver como fecharíamos

A triagem de aldosterona é negativa: a renina de 21 mU/L não está baixa (o corte é até 8,2) e a aldosterona de 7 ng/dL fica abaixo do mínimo de 10 ng/dL por imunoensaio. O anlodipino, di-hidropiridínico, tende a subir a renina, mas a aldosterona reprova sozinha, e esse fármaco não baixa a aldosterona, pela tabela de efeitos da revisão do Hospital das Clínicas. Os fármacos que a Endocrine Society nomeia para retirar antes de repetir uma triagem negativa são diuréticos, antagonistas mineralocorticoides, amilorida e triantereno, por quatro semanas, e inibidores da enzima conversora e bloqueadores do receptor de angiotensina, por duas; Filinto não usa nenhum, e o potássio é normal. Não há motivo para nova coleta. O cortisol de 2,9 µg/dL, acima de 1,8, sem sinais de Cushing franco, é secreção autônoma leve de cortisol, sem subdivisão por faixa, e não representa risco alto de evoluir para Cushing franco. Nesse diagnóstico, a diretriz europeia manda rastrear hipertensão, diabetes tipo 2 e fratura vertebral — Filinto tem as duas primeiras, e a busca da fratura vertebral segue Osteoporose e metabolismo ósseo. Como ele tem comorbidades relevantes e massa unilateral, a cirurgia deve ser discutida, pesando idade, sexo, saúde geral, grau e persistência do cortisol não suprimido, gravidade das comorbidades e a preferência dele. Se operar, a via é minimamente invasiva, com glicocorticoide em dose de estresse no perioperatório, porque o cortisol após dexametasona passou de 1,8 µg/dL, e o endocrinologista o acompanha até documentar a recuperação do eixo — a condução da reposição é de Insuficiência adrenal e crise addisoniana. Se não operar, reavaliam-se uma vez por ano pressão, glicemia e osso, o que pode ser feito na atenção primária; não se repete tomografia, porque o nódulo é benigno pela imagem, nem investigação hormonal, a menos que surja sinal novo de atividade endócrina ou piora das comorbidades.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A relação é 16 ÷ 2,5 = 6,4 ng/dL por mU/L. Renina direta baixa, aldosterona ≥10 ng/dL por imunoensaio e relação >2,5 preenchem critérios bioquímicos de triagem positiva. Isso não estabelece sozinho diagnóstico definitivo ou indicação cirúrgica. Revisar medicamentos: betabloqueadores e agonistas centrais podem suprimir renina e aumentar falsamente a relação; diuréticos e bloqueadores do sistema renina-angiotensina podem favorecer falso-negativo. A aldosterona de 16 ng/dL torna a hipótese mais provável mesmo sob betabloqueador, mas a interpretação continua contextual. O caso não preenche o perfil bioquímico franco especificado para dispensar supressão antes de avaliação cirúrgica. Cortes não são intercambiáveis entre atividade e concentração direta de renina.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Escolha uma das três portas de entrada e justifique o exame inicial. Explique o que medicamentos, potássio, horário e método podem alterar e como um resultado mudará a conduta.

Em 30 dias

Discuta um nódulo com suspeita de produção hormonal: diferencie confirmação, lateralização e indicação de cirurgia. Faça um encaminhamento com resultados, interferências e a pergunta específica ao especialista.

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Agora atenda

Agora atenda: Eudóxia Lustosa, 51 anos, 64 kg, costureira, hipertensa há dois anos com pressão que oscila muito, chega ao ambulatório com uma tomografia de abdome feita para investigar dor lombar que mostra massa de 3,8 cm na suprarrenal direita, heterogênea, com 34 UH na fase sem contraste. Conta crises de dor de cabeça forte, suor frio e coração disparado que duram minutos e passam sozinhas, e o posto acabou de lhe prescrever propranolol para as palpitações. Decida o que a imagem já diz, que exame bioquímico vem antes de qualquer procedimento e o que suspender antes dele, o que fazer com o propranolol, por que a biópsia está proibida por enquanto, que preparo a cirurgia exige e com qual fármaco do elenco do SUS, e o que fazer se ela chegar em crise ao pronto-socorro.

Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo – O potássio, a receita e a tomografia — Internato | OsceLabs