Pediatria › Gastroenterologia Pediátrica
A diarreia que mudou de nome
Diarreia persistente e crônica na criança e doença celíaca
Diarreia persistente e crônica na criança para o interno: o dia 14 e o dia 30 que mudam a pergunta, as causas pela idade e pelo aspecto das fezes, o mínimo que se pede na unidade e o que fica para o gastroenterologista pediátrico — e a doença celíaca da criança inteira, da suspeita à dieta sem glúten, pelo protocolo federal de 2025. Três erros atravessam o capítulo e todos acontecem antes do primeiro resultado: tirar o glúten antes da sorologia, pedir a antitransglutaminase sem a IgA total e tratar a diarreia que dura tirando comida.
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Mearin ML et al. ESPGHAN Position Paper on Management and Follow-up of Children and Adolescents With Celiac Disease. JPGN. 2022;75:369–386. https://www.espghan.org/dam/jcr:57543039-6cdb-47e1-b782-ec7cfe326a60/ESPGHAN_Position_Paper_on_Management_and_Follow_up.29.pdf
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Menino de 3 anos tem fezes volumosas, oleosas e fétidas desde o primeiro ano, apetite grande, ganho de peso ruim e duas pneumonias no último ano. A triagem neonatal registrada na caderneta foi normal. Antitransglutaminase IgA e IgA total vieram normais, com glúten na dieta, e três parasitológicos foram negativos. Qual é o próximo passo?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, oito da manhã, no ambulatório de pediatria do hospital universitário. A primeira ficha do dia veio da unidade básica com duas linhas escritas à mão: diarreia há nove meses, anemia que não melhora com ferro. Luara Cajazeira tem 2 anos e 4 meses e entra no colo da mãe, Taís, com a barriga à frente do corpo — é a primeira coisa que se vê, antes do rosto.
Taís conta a história na ordem em que ela aconteceu para a família. Luara começou a comer pão, macarrão e biscoito aos 7 meses, junto com o resto da comida da casa, e cresceu bem até pouco depois de 1 ano. Por volta dos 15 meses as fezes mudaram: três a quatro vezes por dia, volumosas, claras, pastosas, de cheiro muito forte, “que boiam e grudam no vaso”. Vieram a irritação, a recusa do prato, o sono agitado. Na unidade básica fizeram um parasitológico de uma amostra, que veio negativo, deram albendazol, tiraram o leite de vaca por um mês sem mudança nenhuma e, há três meses, começaram sulfato ferroso para uma hemoglobina de 9,1 g/dL. Taís mostra o frasco e a receita: a dose está certa para o peso, e ela não esqueceu nenhum dia. O hemograma da semana passada mostra 9,3.
A caderneta está na bolsa, e é ela que muda o tom da consulta. Aos 15 meses Luara pesava 10,2 kg; hoje, na balança do ambulatório, pesa 9,6 kg. Em treze meses nos quais uma criança dessa idade deveria ter ganhado peso, ela perdeu 600 gramas. O traçado, que subia paralelo às linhas da curva, ficou horizontal e depois desceu. A estatura, medida em pé, ainda não caiu na mesma velocidade — e a preceptora pede que você anote isso, porque vai importar no retorno.
Ao exame, Luara está hidratada, corada o suficiente para enganar quem não viu o hemograma, e chora quando é tirada do colo. O abdome é globoso e distendido, os braços e as coxas são finos, e as nádegas têm pregas de pele sobrando. Não há edema, não há sangue na fralda, não há tosse de repetição nem internação por pneumonia na história. A irmã de Taís “não pode comer trigo”, mas ninguém da família sabe dizer se isso foi diagnóstico de médico ou decisão dela.
Então Taís diz a frase que decide a manhã. Há doze dias, uma vizinha falou em glúten, e ela tirou por conta própria o pão, o macarrão e a bolacha. “Melhorou um pouco. Ela está fazendo cocô duas vezes por dia. Eu não quero dar trigo de novo.” A preceptora não responde à mãe. Olha para você e pergunta o que se pede hoje, com que comida no prato de Luara, e por quê.
A resposta errada é a mais tentadora: manter a dieta sem glúten, já que melhorou, e ver no que dá. Ela parece prudente e custa caro, porque apaga justamente o sinal que o exame precisa encontrar e pode deixar uma criança numa dieta restritiva para a vida inteira sem diagnóstico — ou sem a dieta de que ela precisa, se a melhora for coincidência. A resposta certa começa por devolver o trigo ao prato e termina, semanas depois, numa endoscopia.
Este capítulo é sobre essa pergunta e sobre as que vêm antes dela. A diarreia que passou de quatorze dias muda de nome e de problema; a que passou de trinta dias muda de novo. Algumas dessas crianças precisam só de comida certa, de zinco e de um retorno em cinco dias; outras precisam de um exame de sangue colhido no momento certo, de uma biópsia e de uma dieta que não termina. A diferença entre as duas raramente está na fralda de hoje: está na curva, no aspecto das fezes e na ordem em que as coisas são pedidas.
Quem adoece disso
A diarreia persistente é definida por prazo, não por causa. O Manual de Quadros do Aidpi Criança, de 2017, chama de persistente a diarreia que dura 14 dias ou mais, e o cartaz federal de manejo do paciente com diarreia, de 2023, tira esse paciente do fluxo dos planos de hidratação e o manda para consulta de investigação — para o hospital, se estiver desidratado. Acima de trinta dias, fala-se em diarreia crônica. Os dois cortes não medem a mesma coisa: o primeiro separa a criança em que a infecção deixou uma mucosa ferida e um estado nutricional ameaçado; o segundo, a criança em que é preciso procurar uma doença que não é infecção aguda.
A doença celíaca é a doença crônica que mais se esconde nesse grupo, e é mais frequente na criança do que no adulto. O protocolo federal de 2025 cita uma metanálise com prevalência de 0,9% em crianças (intervalo de confiança de 95% de 0,6% a 1,3%) contra 0,5% em adultos, e estudos brasileiros com frequências que vão de 1 em cada 214 a 1 em cada 286 pessoas em São Paulo, 1 em 273 em Ribeirão Preto, 1 em 417 no Sul e 1 em 681 em Brasília. O mesmo protocolo registra que, para cada diagnóstico feito por sintoma, existem de três a sete pessoas oligossintomáticas ou assintomáticas sem diagnóstico. Numa unidade que atende algumas centenas de crianças, a doença celíaca não é rara: é despercebida.
O retrato da criança celíaca de livro — diarreia, barriga grande, nádegas vazias — é o que menos aparece. A diretriz europeia de 2020 descreve os sintomas de má absorção (déficit de crescimento, perda de peso e diarreia crônica) como os mais específicos, mas relata, numa revisão de 165 crianças com doença celíaca, que dor abdominal (52,7%) e constipação (38,9%) foram as queixas de apresentação mais frequentes. Quando 135 crianças com anemia ferropriva e nenhum sintoma intestinal foram rastreadas, seis delas (4,4%) tinham doença celíaca, contra nenhum caso entre 223 crianças sem anemia da mesma região. O interno encontra essa doença mais vezes na criança baixa, na anemia que não responde e na constipação que não cede do que na diarreia clássica.
Dois números explicam por que a sorologia sempre se pede em dupla. O guia de exames da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2023, registra que a antitransglutaminase IgA é positiva em cerca de 98% das crianças celíacas que estão comendo glúten e negativa em cerca de 95% das pessoas sem a doença — e que 2% a 3% dos celíacos têm deficiência de IgA, o que torna o teste falsamente negativo. Por isso a IgA total vai no mesmo pedido. O mesmo guia lembra que o HLA-DQ2 ou DQ8 aparece em até 30% da população sem doença celíaca: serve para afastar, não para confirmar, e não foi incorporado ao SUS.
A fibrose cística entra na conta da diarreia crônica por outro caminho. O manual técnico federal da triagem neonatal registra que 5% a 10% dos afetados nascem com obstrução intestinal por mecônio, que muitas crianças não têm sinal algum ao nascer por semanas, meses ou anos, e que o teste do pezinho dá falso-negativo justamente em algumas delas — na suficiência pancreática, no íleo meconial e na doença de aparecimento tardio. Uma triagem neonatal normal na caderneta diminui a chance e não encerra a pergunta.
O que o interno vê na maior parte das manhãs é outra coisa: a criança pequena que teve uma gastroenterite e não voltou ao normal, e a criança que evacua mole várias vezes por dia e cresce bem. As parasitoses continuam no caminho — a Sociedade Brasileira de Pediatria estimou, em 2020, 9,3 milhões de pré-escolares e escolares brasileiros candidatos a tratamento coletivo de helmintos —, e a giárdia é a que mais imita a má absorção. A doença celíaca, a alergia à proteína do leite de vaca, a fibrose cística e a doença inflamatória intestinal se escondem entre esses quadros comuns. O filtro que separa uns dos outros não é um exame: é a curva de crescimento.
Por que acontece o que acontece
Diarreia que dura é, quase sempre, mucosa que não se refez ou mucosa que continua sendo agredida. Depois de uma gastroenterite, a lesão das vilosidades leva primeiro as enzimas da borda em escova que ficam na ponta delas, e a lactase é a mais exposta: a lactose do leite deixa de ser absorvida, chega ao cólon, fermenta e puxa água. As fezes ficam líquidas, explosivas e ácidas, a região perianal fica vermelha e a barriga distende de gás. É uma diarreia osmótica, e o guia de exames da Sociedade Brasileira de Pediatria dá as duas marcas dela: pH fecal de 5 ou menos depois da lactose, e intervalo osmótico fecal — 290 menos duas vezes a soma de sódio e potássio fecais — acima de 125 mOsm/kg. A diarreia secretória, com intervalo abaixo de 50, não para com o jejum; a osmótica para.
A criança com diarreia persistente entra num círculo que se alimenta sozinho. A mucosa se renova em poucos dias e precisa de energia, proteína e zinco para isso; a diarreia faz perder zinco pelas fezes, e a falta de zinco prolonga a diarreia — o mecanismo e as reservas estão no capítulo Deficiências de micronutrientes: ferro, vitamina A, vitamina D, iodo e zinco, da Nutrologia Pediátrica. Quando a família, ou o serviço, responde à diarreia tirando comida, o círculo gira mais depressa: a mucosa se refaz menos, a absorção piora e a criança emagrece. É por isso que o Aidpi trata a diarreia persistente com comida e zinco, e não com jejum.
Na diarreia funcional da criança pequena, o intestino está inteiro. As fezes são moles porque o trânsito é rápido e porque a dieta costuma trazer muito líquido açucarado — suco de fruta, suco de caixa, refresco —, com açúcares e adoçantes que o intestino absorve mal em grande quantidade, e pouca gordura, que é o freio natural do esvaziamento. Não há lesão de mucosa, não há perda de nutriente que importe, e a prova disso é a curva: a criança continua crescendo. Tirar comida dessa criança só produz o que ela não tinha, que é déficit.
Na doença celíaca, o agressor é o próprio alimento. Proteínas do glúten do trigo, do centeio e da cevada, em quem tem a predisposição genética dos antígenos HLA-DQ2 ou DQ8, são reconhecidas por linfócitos T, que respondem com inflamação contínua na mucosa do intestino delgado proximal. O resultado é o que a biópsia mostra: vilosidades atrofiadas, criptas alongadas e mais de 25 linfócitos intraepiteliais para cada 100 enterócitos, o limite que o protocolo federal usa. A superfície de absorção encolhe exatamente onde se absorvem a gordura e o ferro — por isso as fezes gordurosas, claras e fétidas, e a anemia ferropriva que não responde ao sulfato ferroso bem tomado. A barriga distende de alças cheias de líquido e gás; braços, coxas e nádegas emagrecem porque a criança queima músculo para compensar a energia que não absorve. O que é igual ao adulto está no capítulo Síndrome do intestino irritável e diarreia crônica, da Gastroenterologia.

Os anticorpos que o exame procura são o rastro dessa resposta, e dependem de glúten na dieta. A antitransglutaminase IgA é fabricada enquanto a criança come glúten e cai quando ela deixa de comer: o protocolo federal usa essa queda para confirmar a adesão à dieta e trata a falta de queda como suspeita de contaminação. A mesma propriedade explica o primeiro erro deste capítulo — sorologia colhida depois que a família já tirou o glúten pode vir baixa ou negativa numa criança celíaca. E explica o segundo: quem tem deficiência de IgA não fabrica anticorpo da classe IgA, e a antitransglutaminase IgA sai negativa por falta da imunoglobulina, não por falta da doença.
Quando o problema é o pâncreas, a mucosa está íntegra e a gordura não é digerida. Na fibrose cística, a secreção espessa obstrui os ductos pancreáticos, a lipase não chega à luz intestinal e as fezes ficam volumosas e oleosas numa criança que come muito e não ganha peso. A elastase fecal, que atravessa o intestino sem se degradar, cai: o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria dá 200 µg/g como referência e registra valores abaixo de 100 µg/g em todos os homozigotos para a mutação delta F508. O mesmo defeito do canal de cloro que espessa a secreção faz o suor sair salgado, e é isso que o teste do suor mede. Na giardíase, o parasita se prende à mucosa do delgado proximal e produz uma má absorção parecida com a da doença celíaca, que também derruba a lactase; como os cistos são eliminados de forma intermitente, uma amostra só não basta.
Nos quadros inflamatórios, o sinal é outro. A alergia à proteína do leite de vaca no lactente e a doença inflamatória intestinal no escolar lesam a mucosa com inflamação, e aí aparecem muco, sangue e neutrófilos nas fezes — a calprotectina fecal é uma proteína desses neutrófilos. A inflamação crônica também tira o apetite e consome energia, e na doença inflamatória intestinal da criança a estatura pode desacelerar antes de a diarreia chamar atenção. Em qualquer uma dessas vias, o crescimento é o desfecho que resume o mecanismo: a criança que absorve mal gasta primeiro a reserva, depois para de ganhar peso e, por fim, desacelera a estatura.
Como se apresenta de verdade
A diarreia que dura chega ao interno por três portas, e cada uma pede uma primeira pergunta diferente. A primeira é a da criança que teve uma gastroenterite e não voltou ao normal: a mãe sabe o dia em que começou, e a pergunta é o que a infecção deixou para trás e se a criança está piorando. A segunda é a da criança que “sempre teve o intestino solto”, ou que passou a evacuar mal sem um episódio agudo claro: a pergunta é qual doença está por trás. A terceira é a mais traiçoeira — a criança que nem chega pela diarreia, e sim pela curva que achatou, pela anemia que não responde ou pela baixa estatura, e em quem a doença celíaca pode estar presente sem fralda suja nenhuma.
O que segue organiza essas portas na ordem em que você as usa: o prazo, o aspecto das fezes, a idade, a criança celíaca, os sinais que tiram a criança da unidade no mesmo dia e as doenças que o interno suspeita e entrega a outro capítulo. A diarreia aguda, a desidratação e os planos de reidratação ficam com o capítulo Diarreia aguda e desidratação: planos A, B e C de terapia de reidratação (AIDPI), desta apostila, e não se repetem aqui.
O dia 14 e o dia 30: persistente não é crônica
O Aidpi classifica a diarreia pelo tempo, pela desidratação e pelo sangue, em três classificações independentes. Com 14 dias ou mais, a diarreia é persistente: com desidratação, é diarreia persistente grave — tratar a desidratação antes de referir, a não ser que exista outra classificação grave, e referir com urgência ao hospital; sem desidratação, é diarreia persistente — orientar a alimentação própria dessa criança, dar zinco por dez dias, explicar quando voltar imediatamente e marcar retorno em cinco dias. O formulário, a sequência de perguntas e as demais classificações são do capítulo Estratégia AIDPI: avaliação e classificação de risco da criança de 2 meses a 5 anos, da Emergências Pediátricas, que remete a investigação ao capítulo dono; a investigação e a conduta da diarreia persistente e da crônica na criança são deste capítulo.
Acima de trinta dias, a diarreia é crônica, e a pergunta muda de natureza. Na persistente, pergunta-se o que a infecção deixou — a lactase que caiu, o zinco que se perdeu, o peso que foi embora — e se a criança responde a comida certa. Na crônica, pergunta-se qual doença produz a diarreia, e aí entram a doença celíaca, a alergia à proteína do leite de vaca, a fibrose cística, as parasitoses e a doença inflamatória intestinal. Os dois territórios se encostam: a persistente que não cede no retorno de cinco dias, ou que volta a cada tentativa de alimentação normal, já está fazendo a pergunta da crônica, mesmo que o calendário ainda não tenha chegado a trinta dias.
O quadro federal cobre a criança de 2 meses a 5 anos e não separa o lactente pela idade: o manual do curso do Aidpi trata na unidade a diarreia persistente sem desidratação em toda essa faixa, e o quadro de 2017 traz alimentação própria para o menor de 6 meses — em aleitamento exclusivo, misto ou sem aleitamento — e a dose de zinco dessa idade, com o mesmo retorno em cinco dias. O que tira o lactente da unidade é o que tira qualquer criança, e está na seção dos sinais que vêm adiante. No escolar e no adolescente não há quadro de classificação: vale o prazo, e vale mais ainda a curva.
O aspecto das fezes aponta o andar do intestino
Fezes líquidas, explosivas, de cheiro ácido, com assadura vermelha em volta do ânus e barriga cheia de gás apontam para açúcar mal absorvido — quase sempre a lactose, depois de uma gastroenterite. Fezes volumosas, claras, brilhantes, muito fétidas, que boiam e grudam no vaso apontam para gordura mal absorvida, e aí a lista é outra: doença celíaca, que lesa a mucosa; fibrose cística, que tira a lipase; giardíase, que imita as duas.
Muco e sangue apontam para inflamação: no lactente, alergia à proteína do leite de vaca; no escolar, doença inflamatória intestinal; em qualquer idade, infecção invasiva, que é disenteria e pertence ao capítulo da diarreia aguda. Fezes moles com restos de alimento visíveis, várias vezes ao dia, sem dor, sem acordar a criança à noite, numa criança que brinca e cresce, apontam para a diarreia funcional da criança pequena. E fezes líquidas que escapam e sujam a roupa numa criança que evacua com dor e retém fezes duras não são diarreia: são constipação com escape, que é do capítulo Constipação funcional e dor abdominal funcional na infância, desta apostila — tratá-la como diarreia, com dieta obstipante, piora a retenção.
O aspecto orienta e não diagnostica. Uma criança celíaca pode ter fezes normais, e uma diarreia pós-infecciosa pode ter fases gordurosas. Vale como a primeira pergunta ao laboratório, não como a última palavra — e, sempre que possível, vale ver a fralda ou pedir à família uma foto, porque “mole” e “líquido” significam coisas diferentes em cada casa.
As causas pela idade
No primeiro ano, a causa mais comum é a persistência depois de uma gastroenterite, com intolerância secundária à lactose e um estado nutricional que ameaça escorregar. Ao lado dela ficam a alergia à proteína do leite de vaca — que costuma começar com a entrada da fórmula ou do leite de vaca, com muco ou sangue, vômitos ou eczema, e cujo diagnóstico por dieta de exclusão e reintrodução é do capítulo Alergia à proteína do leite de vaca, desta apostila — e a fibrose cística, na criança que evacua gordura, come muito e não ganha peso, às vezes com tosse de repetição.
Entre 1 e 5 anos, somam-se a diarreia funcional da criança pequena, a giardíase, sobretudo em quem frequenta creche ou tem água e saneamento precários, e a doença celíaca na sua forma clássica, que costuma aparecer meses depois de o glúten entrar na alimentação. É a faixa em que a curva separa melhor: a criança funcional e a pós-infecciosa em recuperação mantêm o canal; a celíaca e a fibrocística o perdem.
No escolar e no adolescente, a doença celíaca muda de rosto e aparece mais como baixa estatura, anemia que não responde, dor abdominal ou constipação do que como diarreia. A doença inflamatória intestinal entra na lista com sangue, emagrecimento, estatura que desacelera, puberdade atrasada, doença perianal, aftas ou dor articular. A giardíase continua possível em qualquer idade, e a má absorção de lactose sem gastroenterite prévia aparece como distensão e fezes amolecidas ligadas ao leite, diagnosticadas pela história e, quando a dúvida muda a conduta, pelo teste do hidrogênio expirado.
A criança celíaca: quando pensar
Pense na doença celíaca diante de diarreia crônica ou intermitente, distensão, dor abdominal crônica, constipação que não responde ao tratamento habitual, náusea ou vômitos recorrentes, perda de peso, déficit de crescimento, baixa estatura, puberdade atrasada, irritabilidade e cansaço, anemia ferropriva crônica, aftas de repetição, defeito do esmalte dentário, osteopenia ou fraturas de repetição e aminotransferases elevadas sem explicação — é a lista de sinais e condições que a diretriz europeia de 2020 manda testar; o protocolo federal cobre o mesmo terreno, com lista adaptada da sociedade europeia de estudo da doença celíaca, nos seus dois quadros de indicação.
Pense também sem sintoma nenhum, porque existe um grupo de risco que se rastreia com ou sem queixa: parentes de primeiro grau de pessoa celíaca, crianças com diabetes tipo 1, tireoidite autoimune, deficiência seletiva de IgA ou hepatite autoimune, e crianças com síndrome de Down, de Turner ou de Williams. O protocolo federal da doença celíaca não fixa intervalo de repetição para esses grupos; o protocolo federal da síndrome de Turner fixa o rastreio a cada 2 anos a partir dos 2 anos. O diabetes tipo 1 da criança é do capítulo Diabetes mellitus tipo 1 e cetoacidose diabética na criança, da Endocrinologia Pediátrica, e a baixa estatura, do capítulo Baixa estatura e puberdade tardia, da mesma apostila; os dois registram que a investigação da doença celíaca na infância é da Gastroenterologia Pediátrica, e este capítulo a assume para essas crianças com a mesma dupla de exames.
Existe uma apresentação rara e grave que não pode esperar ambulatório: a crise celíaca, que o protocolo federal descreve como progressão rápida dos sintomas intestinais com desidratação grave, disfunção neurológica e renal, acidose, hipoalbuminemia, distúrbios eletrolíticos e perda importante de peso. É criança de internação, com hidratação venosa, correção eletrolítica e início da dieta sem glúten, às vezes com suporte nutricional ou corticoide, a critério do serviço.
Os sinais que tiram a criança da unidade no mesmo dia
Desidratação transforma a diarreia persistente em grave e manda a criança ao hospital depois de iniciada a reidratação. Qualquer sinal geral de perigo do Aidpi — não conseguir beber ou mamar, vomitar tudo, convulsão nas últimas 72 horas, letargia, enchimento capilar acima de 2 segundos, gemência ou batimento de asa do nariz — faz o mesmo. No retorno de cinco dias, a diarreia que não terminou com perda de peso é, pelo quadro federal, criança referida ao hospital.
Edema, pele que descama, cabelo que muda de cor e abdome muito distendido numa criança emagrecida são desnutrição grave até prova em contrário, com conduta no capítulo Desnutrição energético-proteica: marasmo e kwashiorkor, manejo do desnutrido grave, da Nutrologia Pediátrica — nessa criança, a própria diarreia persistente se trata de outro jeito. Sangue com comprometimento do estado geral é disenteria e volta ao capítulo da diarreia aguda. E a criança com o quadro da crise celíaca vai para internação no mesmo dia.
Fibrose cística, alergia ao leite, doença inflamatória e imunodeficiência: portas que o interno abre e não fecha
A fibrose cística aparece pela porta digestiva como fezes gordurosas numa criança que come bem e não ganha peso, às vezes com tosse crônica, pneumonias de repetição ou história de obstrução intestinal ao nascer. A triagem neonatal normal não encerra a pergunta, porque o manual técnico federal lista falso-negativos justamente na suficiência pancreática, no íleo meconial e na doença de aparecimento tardio. O exame que decide é o teste do suor, feito em centro de referência. A fibrose cística é de Fibrose cística: suspeita diagnóstica e manifestações pulmonares e digestivas, na apostila de Pneumologia Pediátrica; este capítulo fica com a suspeita pela porta digestiva, a elastase fecal e o pedido do teste do suor, e o tratamento — pulmonar, enzimático, nutricional — é daquele capítulo. A pancreatina está no Componente Especializado da Rename, pelo protocolo de fibrose cística.
A alergia à proteína do leite de vaca entra na lista do lactente com muco ou sangue nas fezes, vômitos, eczema ou início do quadro com a fórmula; o diagnóstico e a dieta são do capítulo Alergia à proteína do leite de vaca, desta apostila. A doença inflamatória intestinal entra na do escolar com sangue, emagrecimento, estatura desacelerando, doença perianal, aftas ou artrite. Não há capítulo pediátrico de doença inflamatória intestinal no nível: este capítulo assume a suspeita e o encaminhamento da criança, e a doença — classificação, tratamento, complicações — é do capítulo Doenças inflamatórias intestinais: doença de Crohn e retocolite ulcerativa, da Gastroenterologia.
Por fim, a criança com giardíase que volta, infecções respiratórias de repetição ou mãe vivendo com HIV pede que se pense em imunodeficiência. A dosagem de IgA total, que já vai junto da sorologia celíaca, costuma ser a primeira pista; a deficiência de IgA e as demais imunodeficiências são do capítulo Imunodeficiências primárias e secundárias, da Imunologia, e a investigação de agentes oportunistas numa criança imunossuprimida é conduta de especialista.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da criança com diarreia que dura tem uma ordem, e é a ordem que evita os dois desperdícios opostos: a bateria de exames na criança que só precisava de comida certa, e a criança celíaca que passa anos entre vermífugos e dietas sem leite. Primeiro o risco de hoje e a curva, depois a história, depois o exame físico, depois o pedido mínimo com o glúten no prato, e só então o que cabe ao especialista.
1. Antes de qualquer exame: hidratação, peso na mesma balança e a curva
Avalie a hidratação pelo quadro do capítulo Diarreia aguda e desidratação e procure os sinais gerais de perigo. Depois pese a criança sem roupa, na mesma balança sempre que possível, meça a estatura — deitada até 2 anos, em pé depois — e marque os pontos na curva da Caderneta da Criança. A leitura da curva, dos escores e dos canais é do capítulo Acompanhamento do crescimento: curvas da OMS, peso, estatura e perímetro cefálico, da Puericultura; aqui interessa o que ela decide.
Um ponto isolado decide pouco; a trajetória decide quase tudo. Peça todos os pesos anteriores que estiverem na caderneta ou no prontuário. A criança que mantém o canal com fezes moles é, provavelmente, funcional ou pós-infecciosa em recuperação, e a investigação pode ser mínima. A criança cujo traçado ficou horizontal ou desceu precisa de investigação, qualquer que seja o aspecto das fezes de hoje. O peso costuma ceder antes da estatura; quando a estatura também desacelera, a doença está ali há tempo.
2. A anamnese que muda a ordem dos exames
Pergunte quando começou e depois de quê: uma gastroenterite, a entrada do pão e do macarrão, a troca do leite, o início da creche, uma viagem, um antibiótico. Pergunte quantas evacuações por dia, como são, se há sangue ou muco, se há dor, se a criança acorda à noite para evacuar. Pergunte o que ela bebe e quanto: o Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos, do Ministério da Saúde, não recomenda suco de fruta antes de 1 ano, nem o natural, e de 1 a 3 anos considera o suco desnecessário e limita a cerca de 120 mL por dia, natural e sem açúcar — um litro de suco de caixa por dia muda o diagnóstico.
Pergunte, sobretudo, o que já foi feito: quantos parasitológicos e com quantas amostras, que vermífugos e antibióticos, que dietas a família ou o serviço já tentaram e por quanto tempo — e se o glúten saiu da dieta, desde quando. Pergunte por tosse crônica, pneumonias, internações e obstrução intestinal ao nascer; pelo resultado do teste do pezinho na caderneta; por doença celíaca, doença inflamatória intestinal ou fibrose cística na família; por diabetes tipo 1, tireoidite ou síndrome genética na própria criança; e pela sorologia materna para HIV.
3. O exame físico que conta
Olhe a criança inteira antes da barriga. Distensão abdominal com braços, coxas e nádegas emagrecidos conta perda de massa, não de apetite. Edema conta hipoalbuminemia e desnutrição grave. Palidez, aftas e alterações do esmalte dos dentes definitivos contam carência antiga. Baqueteamento digital, tosse e ruídos pulmonares apontam para fibrose cística. A região perianal conta duas histórias diferentes: a assadura vermelha e ácida é da lactose mal absorvida, e fissura fora da linha média, plicoma ou fístula na criança maior pedem que se pense em doença de Crohn.
O desenho clássico da criança celíaca — abdome grande, membros finos, nádegas vazias — tem valor quando está presente e quase nenhum quando falta. Na revisão de 165 crianças celíacas citada pela diretriz europeia de 2020, as queixas de apresentação mais frequentes foram dor abdominal e constipação, quadros em que o exame costuma ser pouco chamativo.
4. O pedido mínimo da unidade — com o glúten no prato
O pedido mínimo da criança com diarreia crônica, ou com persistente que não cede, cabe numa folha: hemograma e ferritina — com proteína C reativa, que ajuda a ler a ferritina —, parasitológico de fezes em três amostras colhidas em até dez dias ou, onde houver, pesquisa de antígeno de giárdia, e sorologia celíaca. Nas fezes líquidas recém-emitidas, a pesquisa de substâncias redutoras e o pH fecal triam açúcar mal absorvido, com resultado a partir de 0,5% indicando má absorção; nas fezes gordurosas, a pesquisa qualitativa de gordura pelo Sudan é triagem. Coprocultura não entra: o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria a reserva para a diarreia aguda claramente definida.
A sorologia celíaca, pelo protocolo federal de 2025, é antitransglutaminase IgA com IgA total no mesmo pedido, e, na criança com até 2 anos, soma-se a antigliadina deaminada IgG, incorporada ao SUS para essa faixa pela Portaria SECTICS/MS nº 10, de 2023. O antiendomísio não é recomendado pelo protocolo, e a genotipagem HLA não foi incorporada. Tudo isso só vale com glúten na dieta.
Se a família já reduziu ou retirou o glúten, registre quanto consumia, há quanto tempo mudou a dieta, quais sintomas apareceram e se existe diagnóstico prévio. Uma coleta pode ainda trazer informação, sobretudo após retirada recente, mas resultado negativo com ingestão insuficiente não exclui doença celíaca. A necessidade, a quantidade, a duração e a segurança de eventual reintrodução devem ser combinadas com gastroenterologia pediátrica. O caso de Luara, com doze dias de retirada, não define uma regra para quem está há meses sem glúten.
5. Como ler a sorologia celíaca
Antitransglutaminase IgA positiva com IgA total normal é encaminhamento à gastroenterologia pediátrica para confirmação por biópsia duodenal, com a criança comendo glúten até lá. Escreva no encaminhamento o valor e o limite de referência do laboratório, porque “quantas vezes o limite” só se calcula com os dois números. Antitransglutaminase IgA negativa com IgA total normal, numa criança que comia glúten, torna a doença celíaca improvável — o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria dá cerca de 98% de positividade nos celíacos em dieta com glúten — e a investigação segue pelas outras causas. Se as outras causas forem descartadas e a diarreia crônica sem sangue continuar sem explicação, o protocolo federal indica endoscopia com biópsia mesmo com a sorologia negativa.
IgA total baixa invalida a antitransglutaminase IgA negativa. A diretriz europeia e a Sociedade Brasileira de Pediatria mandam, como segundo passo, um teste da classe IgG — antigliadina deaminada, antiendomísio ou antitransglutaminase IgG. No SUS, a antigliadina deaminada IgG foi incorporada só para a criança com até 2 anos, e o protocolo põe sintoma intestinal com deficiência de IgA entre as indicações de biópsia duodenal mesmo com sorologia negativa: acima de 2 anos, a criança com IgA baixa e suspeita consistente vai à endoscopia. A definição de deficiência seletiva de IgA — IgA abaixo de 7 mg/dL com IgG e IgM normais, a partir de 4 anos — e o que ela significa para as infecções são do capítulo de imunodeficiências.
Antigliadina deaminada IgG positiva com antitransglutaminase IgA negativa, no lactente ou na criança pequena, não é diagnóstico: a diretriz europeia registra que a positividade isolada da antigliadina é fenômeno transitório comum abaixo de 4 anos. A criança vai ao especialista, e quem decide é a biópsia. E antitransglutaminase muito alta — dez vezes o limite ou mais — não dispensa a biópsia no SUS: é a divergência que este capítulo resolve no bloco próprio.
6. Gordura, suor, calprotectina e o que fica para o especialista
Diante de esteatorreia com sorologia celíaca negativa e IgA normal, a próxima pergunta é o pâncreas. A elastase fecal tem referência de 200 µg/g, e valores abaixo de 100 µg/g indicam insuficiência pancreática grave; em fezes diarreicas o resultado sai falsamente baixo e deve ser repetido fora da diarreia, e nos primeiros meses de vida é fisiologicamente mais baixo. Com esteatorreia e ganho ruim, com ou sem sintomas respiratórios, pede-se o teste do suor em centro de referência: pelo protocolo federal de 2024, um teste com cloro de 60 mmol/L ou mais confirma a fibrose cística, e o resultado de 30 a 59 é inconclusivo e fica para o especialista.
A calprotectina fecal ajuda a separar inflamação de função, com três ressalvas que o guia da Sociedade Brasileira de Pediatria faz para a criança: o ponto de corte pediátrico não está estabelecido; no recém-nascido e no lactente o valor é fisiologicamente alto; e acima de 4 anos o limite de 50 µg/g do adulto se usa com cautela, porque crianças saudáveis podem passar de 100. Anti-inflamatório, ácido acetilsalicílico e inibidor de bomba de prótons elevam o resultado. Ela não serve para alergia alimentar nem para doença celíaca, e, com forte suspeita de doença inflamatória intestinal, a endoscopia não se adia à espera dela.
Ficam para o especialista a endoscopia digestiva alta com biópsia — pelo protocolo federal, pelo menos seis fragmentos, dois do bulbo e quatro da segunda porção do duodeno, em frascos separados; a diretriz europeia pede pelo menos quatro do duodeno distal e um do bulbo, de modo que quem cumpre o protocolo cumpre as duas —, a colonoscopia, a gordura fecal de 72 horas, o teste do hidrogênio expirado com lactose de 1 g/kg até 50 g, lido como positivo acima de 20 ppm de hidrogênio ou 10 ppm de metano, e a prova de reintrodução do leite na suspeita de alergia. No encaminhamento, escreva os pontos da curva, a descrição das fezes, os valores da sorologia com a referência, a IgA total, as dietas tentadas com as datas e o que já foi prescrito.
Do dia 14 à biópsia: o que classifica, o que se pede, o que se prescreve e quem decide
Avalie repercussão clínica e nutricional e caracterize duração, fezes e alimentação. Antes de interpretar sorologia celíaca, registre ingestão de glúten e IgA total. Redução ou retirada de glúten altera a sensibilidade dos testes; um exame negativo nesse contexto não encerra a hipótese. Separe investigação inicial, eventual reexposição orientada e acompanhamento após confirmação.
- 1Hidratação e sinais gerais de perigo primeiro: desidratação numa diarreia de 14 dias ou mais é diarreia persistente grave — tratar a desidratação e referir ao hospital.
- 2Contar os dias: 14 ou mais é persistente; mais de 30 é crônica; a persistente que não cede no retorno já faz a pergunta da crônica.
- 3Persistente sem desidratação, de 2 meses a 5 anos: alimentação própria da diarreia persistente, zinco por 10 dias e retorno em 5 dias.
- 4No retorno de 5 dias: a diarreia terminou, alimentação de convalescença; continua sem perda de peso, nova avaliação completa e novo retorno em 5 dias; continua com perda de peso, hospital.
- 5Marcar peso e estatura na curva e buscar os pontos antigos: canal mantido pede pouco exame; traçado horizontal ou descendente pede investigação, qualquer que seja a fralda de hoje.
- 6Ler as fezes: açúcar mal absorvido, gordura mal absorvida, inflamação, função ou escape de constipação.
- 7Criança que cresce, fezes com restos de alimento, sem dor, com muito suco: diarreia funcional — tirar o suco, manter a comida da família, seguir a curva.
- 8Curva descendente ou fezes gordurosas: investigação dirigida de má absorção, incluindo sorologia celíaca com IgA total quando indicada. Antes da interpretação, documentar glúten na dieta; retirada ou redução exige plano específico, não uma conclusão automática a partir de resultado negativo.
- 9Sorologia positiva: gastroenterologia pediátrica para completar a confirmação conforme critérios aplicáveis. IgA total baixa exige testes apropriados à deficiência e avaliação especializada; não interpretar antitransglutaminase IgA negativa como exclusão. Planejar a dieta até concluir a investigação.
- 10Esteatorreia com sorologia negativa: elastase fecal fora da diarreia e teste do suor. Muco ou sangue no lactente: alergia à proteína do leite de vaca. Sangue e emagrecimento no escolar: doença inflamatória intestinal.
- 11Doença celíaca confirmada: dieta sem glúten para a vida toda, nutricionista, exames do protocolo, sorologia dos parentes de primeiro grau e antitransglutaminase IgA 6 meses depois do início da dieta.
O aspecto das fezes e o primeiro passo
| Fezes e contexto | O que o intestino está fazendo | Pensar em | Primeiro passo na unidade | Quem é dono do resto |
|---|---|---|---|---|
| Líquidas, explosivas, ácidas, com assadura perianal, depois de uma gastroenterite | Absorvendo mal o açúcar, com a lactase caída | Diarreia persistente pós-infecciosa com intolerância secundária à lactose | Classificar pelo Aidpi; alimentação com baixo teor de lactose sem tirar energia; zinco por 10 dias; substâncias redutoras e pH nas fezes líquidas frescas; retorno em 5 dias | Este capítulo |
| Volumosas, claras, brilhantes, fétidas, que boiam, com a curva caindo | Absorvendo mal a gordura por lesão da mucosa | Doença celíaca; giardíase | Antitransglutaminase IgA com IgA total, e antigliadina deaminada IgG até 2 anos, com glúten na dieta; parasitológico em 3 amostras ou antígeno de giárdia; hemograma e ferritina | Este capítulo; o tratamento da giardíase, Parasitoses intestinais na infância (Infectologia Pediátrica) |
| Gordurosas, com apetite preservado, ganho de peso ruim, tosse ou pneumonias, obstrução intestinal ao nascer | Digerindo mal a gordura por falta de lipase, com a mucosa íntegra | Fibrose cística | Elastase fecal fora da diarreia; teste do suor em centro de referência; triagem neonatal normal não afasta | A suspeita, este capítulo; o tratamento, Fibrose cística: suspeita diagnóstica e manifestações pulmonares e digestivas (Pneumologia Pediátrica) |
| Com muco ou sangue no lactente, vômitos, eczema, início com fórmula ou leite de vaca | Inflamando a mucosa por reação alérgica | Alergia à proteína do leite de vaca | Registrar a relação com o leite e o crescimento; encaminhar ao capítulo dono o diagnóstico por exclusão e reintrodução | Alergia à proteína do leite de vaca (desta apostila) |
| Com sangue, emagrecimento, estatura desacelerando ou doença perianal no escolar | Inflamando a mucosa de forma crônica | Doença inflamatória intestinal | Hemograma, proteína C reativa e calprotectina com as ressalvas da idade; encaminhar sem esperar resultado quando a suspeita é forte | A suspeita, este capítulo; a doença, Doenças inflamatórias intestinais: doença de Crohn e retocolite ulcerativa (Gastroenterologia) |
| Moles, com restos de alimento, sem dor, várias vezes ao dia, numa criança que cresce e bebe muito suco | Acelerando o trânsito com carga de açúcar, com a mucosa íntegra | Diarreia funcional da criança pequena | Conferir a curva; tirar o suco; manter a dieta da família sem restrição; nenhum exame além do que a história pedir | Este capítulo; o suco e a alimentação, Introdução alimentar e alimentação complementar saudável (Nutrologia Pediátrica) |
| Líquidas que escapam e sujam a roupa, com fezes duras e dor ao evacuar | Retendo fezes e transbordando | Constipação com escape | Não tratar como diarreia; examinar o abdome e a região perianal | Constipação funcional e dor abdominal funcional na infância (desta apostila) |
A sorologia celíaca na criança e a próxima decisão
| Resultado | O que significa | Próximo passo no SUS | O que não fazer |
|---|---|---|---|
| Antitransglutaminase IgA positiva, IgA total normal | Autoimunidade celíaca provável | Gastroenterologia pediátrica para endoscopia com biópsia, com o valor e o limite de referência escritos no encaminhamento | Iniciar dieta sem glúten antes da biópsia |
| Antitransglutaminase IgA dez vezes o limite ou mais | Doença muito provável; a diretriz europeia de 2020 dispensaria a biópsia com antiendomísio IgA positivo numa segunda amostra | Esta apostila adota o protocolo federal: biópsia, decidida pelo especialista com a família | Prometer à família que não haverá endoscopia |
| Antitransglutaminase IgA negativa, IgA total normal, criança comendo glúten | Doença celíaca improvável | Seguir as outras causas; descartadas elas, diarreia crônica sem sangue que continua vai à endoscopia com biópsia pelo protocolo | Repetir a sorologia sem fato novo |
| IgA total baixa, com qualquer resultado de antitransglutaminase IgA | A antitransglutaminase IgA não vale | Até 2 anos, antigliadina deaminada IgG; acima de 2 anos com suspeita, endoscopia com biópsia; IgG e IgM para o capítulo de imunodeficiências | Ler a antitransglutaminase IgA negativa como exclusão |
| Antigliadina deaminada IgG positiva isolada numa criança pequena | Pode ser transitória abaixo de 4 anos | Gastroenterologia pediátrica; a biópsia decide | Rotular de celíaca e tirar o glúten |
| Qualquer sorologia colhida sem glúten ou com poucos dias de glúten | O negativo não afasta a doença | Devolver o glúten na quantidade habitual e retestar com ingestão normal, no prazo combinado com o especialista | Aceitar o negativo como resposta |
| Antitransglutaminase IgA caindo depois do diagnóstico | Adesão à dieta | Seguir o calendário de sorologia do protocolo | Liberar o glúten porque a sorologia negativou |
A conta das doses do capítulo
| Fármaco e indicação | Dose e teto | Apresentação na Rename | A conta | O que conferir antes de entregar |
|---|---|---|---|---|
| Sulfato de zinco — diarreia persistente, criança até 6 meses | 10 mg de zinco por dia, 1 vez ao dia, por 10 dias; dose fixa por idade, sem cálculo por quilo (Aidpi) | Xarope 4 mg/mL e comprimido mastigável de 10 mg, Componente Básico | 10 mg = 2,5 mL do xarope | O rótulo declara zinco ou sulfato de zinco? Lido como sal heptaidratado, 4 mg/mL entregam 0,91 mg de zinco por mL, e os 10 mg exigiriam 11 mL |
| Sulfato de zinco — diarreia persistente, criança de 6 meses a 5 anos | 20 mg de zinco por dia, 1 vez ao dia, por 10 dias | Xarope 4 mg/mL e comprimido mastigável de 10 mg, Componente Básico | 20 mg = 5 mL do xarope ou 2 comprimidos mastigáveis na criança que mastiga | A mesma pergunta do rótulo: como sal, seriam 22 mL; a leitura do frasco é do capítulo de micronutrientes |
| Metronidazol — giardíase confirmada, criança de 14 kg (régua do capítulo de parasitoses intestinais na infância) | 15 mg/kg/dia em 3 tomadas por 5 dias, até 250 mg por tomada; o teto é atingido a partir de 50 kg | Benzoilmetronidazol 40 mg/mL suspensão, equivalente a 25 mg/mL de metronidazol; comprimidos de 250 e 400 mg; Componente Básico | 210 mg/dia = 70 mg por tomada = 2,8 mL da suspensão, 3 vezes ao dia | A conta feita com 40 em vez de 25 dá 1,75 mL — 62,5% da dose |
| Sulfato ferroso — anemia ferropriva na criança celíaca de 9,6 kg (régua do capítulo de anemia ferropriva na infância) | 3 a 6 mg/kg/dia de ferro elementar, junto com a dieta sem glúten | Solução oral de 25 mg/mL, xarope de 5 mg/mL e comprimido de 40 mg de ferro elementar, Componente Básico | 3 mg/kg/dia = 28,8 mg = 1,15 mL da solução; no frasco de 25 gotas por mL, 29 gotas | Solução e xarope diferem 5 vezes na concentração; o número de gotas depende do conta-gotas do frasco entregue |
| Pancreatina — insuficiência pancreática da fibrose cística | Dose do especialista, pelo protocolo de fibrose cística | Cápsulas de 10.000 e 25.000 UI, Componente Especializado, grupo 1B | Sem conta na unidade básica | Se a criança está cadastrada no componente especializado |
O calendário da criança celíaca
| Momento | O que se faz | O que se espera | Se não vier |
|---|---|---|---|
| Diagnóstico confirmado | Dieta isenta de glúten para a vida toda, com nutricionista; glicemia, hemograma, ferritina, vitamina B12, TSH, T4, TGO, TGP, cálcio, fósforo e densitometria, pela lista do protocolo; anemia ferropriva tratada junto com a dieta; sorologia dos parentes de primeiro grau | Família orientada sobre trigo, centeio, cevada, aveia contaminada, rótulo e utensílios de difícil lavagem | Repetir a orientação com a família inteira; assistente social para creche e escola |
| 3 meses | Consulta com médico e nutricionista; peso, estatura e curva; sorologia | Menos sintomas, peso voltando a subir, anticorpo em queda | Revisar a dieta item por item: rótulos, utensílios, creche, casa dos avós |
| 6 meses | Antitransglutaminase IgA, que o protocolo fixa 6 meses depois do início da dieta; curva | Anticorpo menor que o do diagnóstico | Sem queda: suspeita de contaminação por glúten |
| 12 meses | Sorologia; curva; revisão da anemia | Crescimento recuperado ou em recuperação | Contaminação, doença associada ou diagnóstico a rever com o especialista |
| Depois do primeiro ano | Consulta e sorologia anuais, com os exames de acompanhamento | Estabilidade, com crescimento no canal | Biópsia de controle não é rotina; o protocolo a torna necessária na doença celíaca soronegativa |
Glúten na dieta: o contexto vem antes do laudo
| Situação | O que registrar | Como interpretar e prosseguir |
|---|---|---|
| Consumo habitual antes da investigação | Quantidade aproximada e regularidade | Interpretar sorologia com IgA total e hipótese clínica |
| Redução ou retirada recente | Data, consumo anterior e sintomas | Teste pode ajudar; negativo não exclui se exposição insuficiente |
| Retirada prolongada ou história incerta | Duração, exames antigos e estado nutricional | Planejar investigação e eventual desafio com especialista |
| Reintrodução orientada | Quantidade, duração, tolerância e datas dos testes | Uma ingestão no dia da coleta não restaura sensibilidade imediatamente |
| Diagnóstico confirmado | Critérios usados, dieta e acompanhamento | Seguimento nutricional e clínico, sem desafios por conta própria |
Exceção à biópsia que o próprio protocolo não permite cumprir. O protocolo federal da doença celíaca, de 2025, fixa que o diagnóstico deve ser sempre confirmado por biópsia duodenal e, em seguida, admite dispensá-la em parentes de primeiro grau sintomáticos e geneticamente suscetíveis com antitransglutaminase IgA dez vezes acima do limite e antiendomísio positivo, desde que o ensaio seja ELISA e não quimioluminescência, atribuindo a regra a diretrizes internacionais — entre elas a diretriz europeia de 2020, que ele cita. No mesmo item, poucas linhas antes, o texto diz que o antiendomísio não é recomendado e que a genotipagem HLA não foi incorporada nem é recomendada (Portaria SECTICS/MS nº 18/2023), e o quadro de procedimentos lista só endoscopia, antitransglutaminase IgA e IgA total. A conta é de pertencimento: a exceção exige dois exames — antiendomísio e HLA — que o protocolo não oferece, e nenhuma criança do SUS consegue preenchê-la pelo próprio texto. E a regra atribuída não é a da diretriz de 2020, que não se restringe a parentes, não exige sintoma nem HLA e condiciona o método a ensaio com curva de calibração e os 10 vezes dentro da faixa de medida. Para o aluno: no SUS, a biópsia confirma, e a exceção do protocolo não é um caminho que ele possa oferecer à família.
O quadro de procedimentos do protocolo omite um exame que o texto manda pedir. O protocolo federal de 2025 recomenda, na criança com até 2 anos e suspeita de doença celíaca, a antigliadina deaminada IgG, incorporada pela Portaria SECTICS/MS nº 10, de 17 de abril de 2023; o Quadro 3, que lista os procedimentos da tabela do SUS contemplados no protocolo e orienta a regulação, traz só três códigos — esofagogastroduodenoscopia (02.09.01.003-7), antitransglutaminase IgA (02.02.03.118-7) e IgA total (02.02.03.015-6). A conta: para o lactente de 18 meses, o texto manda pedir três exames séricos, e o quadro que orienta a regulação cobre dois. Para o aluno: ao pedir a antigliadina deaminada IgG até 2 anos, escreva na solicitação a portaria de incorporação — é leitura desta apostila, e existe porque o quadro do protocolo não ampara o pedido.
O guia de exames da Sociedade Brasileira de Pediatria descreve a regra europeia de 2012 como se fosse a atual. Na seção de doença celíaca do Guia Prático de Atualização nº 45, de fevereiro de 2023, a observação atribui à sociedade europeia o diagnóstico sem biópsia com antitransglutaminase IgA dez vezes o valor de referência, antiendomísio IgA positivo em segunda amostra e a presença de HLA-DQ2 ou DQ8, e a bibliografia sugerida cita só a diretriz de 2012. A diretriz de 2020 retirou essa exigência: HLA e sintomas deixaram de ser critérios obrigatórios. A conta: a criança com antitransglutaminase 12 vezes o limite e antiendomísio positivo, lida pelo guia, precisaria de uma genotipagem que o SUS não incorporou para seguir a via europeia; lida pela diretriz de 2020, não precisaria. A conduta que esta apostila adota no SUS continua a biópsia, mas o aluno que seguir o guia vai pedir um exame desnecessário ou descartar a via europeia pelo motivo errado.
A tabela de polivitaminas da diarreia persistente troca miligrama por micrograma. No Manual de Quadros do Aidpi Criança, de 2017, o quadro da fase de convalescência da diarreia persistente manda dar duas ingestões diárias recomendadas de polivitaminas e sais minerais por duas semanas, e a coluna de unidade diz mcg em todas as linhas — inclusive zinco (5 a 10), cobre (0,4 a 2,0) e magnésio (40 a 170). A conta: duas ingestões de zinco para a criança de 1 a 3 anos dariam 20 mcg, ou 0,02 mg, mil vezes menos que os 20 mg por dia do quadro de zinco da mesma página; o magnésio seria 160 mcg, ou 0,16 mg. Nessa ordem de grandeza, zinco, cobre e magnésio se escrevem em miligramas. E polivitamínico não consta da Rename 2024. Para o aluno: o micronutriente que o SUS entrega na diarreia persistente, com dose certa no quadro, é o zinco por dez dias; um polivitamínico, se prescrito, se escreve em miligramas e não se copia dessa tabela.
O manual do curso do Aidpi dobra a dose de zinco na linha do comprimido. No Manual Aidpi Criança de 2016, o livro do curso, a caixa da dose de zinco (seção 2.2.8) escreve, para maiores de 6 meses, 5 mL por dia ou dois comprimidos mastigáveis duas vezes ao dia, por 10 dias, com a apresentação ao lado: xarope de 4 mg/mL e comprimido mastigável de 10 mg. A conta: dois comprimidos de 10 mg duas vezes ao dia são 40 mg de zinco por dia, o dobro dos 5 mL de xarope da mesma linha (20 mg) e dos 20 mg por dia do quadro de 2017; a linha do menor de 6 meses, na mesma caixa, diz uma vez ao dia. Para o aluno: a dose a partir de 6 meses é 20 mg uma vez ao dia — 5 mL do xarope ou dois comprimidos numa tomada só.
A conduta, hora a hora
A conduta na criança com diarreia que dura é, na maior parte do tempo, uma conduta de ordem: o que se faz hoje, o que se pede com o glúten no prato, o que se prescreve para a criança não piorar enquanto espera, e a quem se entrega o diagnóstico. A linha do tempo abaixo é a de Luara, e cada marco traz o que se escreve na receita e no prontuário.
Mantenha alimentação suficiente e trate os riscos identificados. Restrições específicas precisam de indicação e substituição adequadas. Na investigação celíaca, evite retirar glúten antes de concluir o percurso diagnóstico; se ele já foi retirado, a equipe deve planejar como investigar. O percurso pode incluir biópsia ou outra estratégia validada para o caso, sem que uma regra de dieta substitua essa decisão.
Os números de Luara — peso de 9,6 kg, antitransglutaminase de 128 U/mL — são deste caso. A conta das doses de outras crianças, com o zinco por idade, o metronidazol por quilo e o ferro pela concentração do frasco, está na tabela do critério.
Terça, 8h10 — hidratação, sinais de perigo e a curva antes de qualquer pedido
Você confere a hidratação e os sinais gerais de perigo, pesa Luara sem roupa e mede a estatura em pé. Ela está hidratada, sem sinal de perigo, e pesa 9,6 kg. Pela história, a diarreia dura nove meses: no quadro do Aidpi, que classifica pelo tempo e pela desidratação, é diarreia persistente sem desidratação, que se conduz em casa com retorno em cinco dias; pelo prazo, é crônica e pede investigação. Os pesos da caderneta desenham a trajetória que decide o resto: canal perdido desde os 15 meses.
Prescrição- Peso sem roupa: 9,6 kg; estatura em pé registrada na caderneta, com a data
- Pontos anteriores transcritos para a curva: 10,2 kg aos 15 meses
- Classificação registrada: diarreia persistente sem desidratação pelo Aidpi; diarreia crônica há 9 meses, com perda de peso
8h25 — a anamnese que muda a ordem dos exames
Fezes gordurosas, início meses depois de o trigo entrar na comida, tia que não come trigo, anemia que não respondeu ao ferro com dose certa e adesão confirmada, nenhuma pneumonia, triagem neonatal normal na caderneta, nenhum sangue. O desenho aponta para má absorção de mucosa, com a doença celíaca na frente e a giardíase como diagnóstico que não se descartou com uma amostra só. A fibrose cística fica mais distante, sem sair da lista. E há o dado que muda a coleta: o glúten saiu da dieta há 12 dias.
Prescrição- Registrar no prontuário: data de início, aspecto das fezes, história familiar, parasitológico anterior de uma amostra, albendazol, dieta sem leite por 1 mês e sulfato ferroso com dose conferida
- Registrar a data em que a família retirou o glúten: há 12 dias
- Triagem neonatal normal anotada, sem encerrar a hipótese de fibrose cística
8h40 — documentar a dieta e planejar a investigação
A retirada há doze dias precisa acompanhar o pedido de sorologia. Explique que a reintrodução no mesmo dia não restabelece imediatamente a sensibilidade de um exame. Um resultado positivo pode ajudar a investigação; um negativo será interpretado com cautela. Discuta com a equipe a manutenção ou reintrodução de glúten e o momento da avaliação especializada. Enquanto isso, proteja a nutrição e acompanhe a criança, sem jejum nem restrições acumuladas.
Prescrição- Combinar com a equipe a orientação de glúten para este caso, considerando retirada recente, sintomas e estado nutricional; registrar plano e prazo, sem aplicar automaticamente a mesma conduta a retiradas prolongadas.
- Antitransglutaminase IgA e IgA total no mesmo pedido, registrando retirada de glúten há 12 dias e orientação atual. Resultado negativo não exclui doença se a exposição estiver insuficiente.
- Hemograma, ferritina e proteína C reativa
- Parasitológico de fezes em 3 amostras colhidas em até 10 dias, ou antígeno de giárdia onde houver; pesquisa de gordura fecal pelo Sudan
- Sulfato de zinco xarope 4 mg/mL — 20 mg de zinco (5 mL) por via oral, 1 vez ao dia, por 10 dias; conferir no rótulo do frasco dispensado se os 4 mg/mL são de zinco elementar
- Sulfato ferroso solução oral 25 mg/mL de ferro elementar — manter 29 mg por dia (3 mg/kg/dia; 1,15 mL), conforme o capítulo Anemia ferropriva na infância
- Aumentar o número de refeições com a comida da família; nenhum suco de caixa; retorno em 5 dias
Retorno em 5 dias — os resultados e a pergunta que não se responde na unidade
Luara continua com três evacuações gordurosas por dia e pesa 9,6 kg: a diarreia não terminou e não houve perda de peso, então, pelo quadro federal, nova avaliação completa e novo retorno em cinco dias, e não hospital. Os exames chegaram: hemoglobina de 9,2 g/dL com microcitose, ferritina de 5 ng/mL, proteína C reativa normal, antitransglutaminase IgA de 128 U/mL com referência abaixo de 10 — 12,8 vezes o limite —, IgA total dentro da referência do laboratório para a idade, duas amostras de parasitológico negativas e Sudan positivo. A sorologia fecha a dúvida da unidade e abre a porta do especialista.
Prescrição- Encaminhamento à gastroenterologia pediátrica com prioridade, escrevendo: antitransglutaminase IgA 128 U/mL (referência abaixo de 10), IgA total normal para a idade, perda de 600 g em 13 meses na curva, anemia ferropriva sem resposta a 3 meses de ferro com dose conferida
- Manter o glúten na dieta até a endoscopia
- Completar os 10 dias de zinco e colher a terceira amostra de parasitológico
- Novo retorno em 5 dias, com peso na mesma balança
Retorno em 5 dias, 10h — a dispensa da biópsia não se promete
Taís leu que criança com exame muito alto pode ter o diagnóstico sem endoscopia. Leu certo: a diretriz europeia de 2020 aceita isso quando a antitransglutaminase IgA passa de dez vezes o limite e o antiendomísio IgA vem positivo numa segunda amostra, com a família de acordo. Mas esta apostila adota, no SUS, o protocolo federal de 2025, que manteve a biópsia como regra — e a exceção que ele descreve depende de antiendomísio e de genotipagem que o próprio protocolo não oferece. A decisão final é do gastroenterologista pediátrico com a família. O que cabe ao interno é não prometer, explicar para que serve a biópsia e garantir que Luara chegue à endoscopia comendo glúten.
Prescrição- Registrar a conversa: a família foi informada de que a confirmação no SUS é por biópsia duodenal e de que a decisão é do especialista
- Orientar a família a seguir o preparo e o jejum indicados pelo serviço de endoscopia pediátrica quando a data sair
Três semanas depois — endoscopia com biópsia, ainda com glúten
No hospital de referência, o gastroenterologista pediátrico faz a endoscopia sob sedação e colhe seis fragmentos, dois do bulbo e quatro da segunda porção do duodeno, em frascos separados, como pede o protocolo. O laudo descreve atrofia acentuada das vilosidades, criptas alongadas e mais de 25 linfócitos intraepiteliais por 100 enterócitos. O diagnóstico está confirmado, e a dieta começa agora — não antes.
Prescrição- Dieta isenta de glúten por toda a vida: sem trigo, centeio e cevada; aveia só a que não foi contaminada; ler 'contém glúten' ou 'não contém glúten' em todo rótulo, como obriga a Lei nº 10.674/2003
- Consulta com nutricionista na mesma semana
- Exames do diagnóstico pela lista do protocolo: glicemia, hemograma, ferritina, vitamina B12, TSH, T4, TGO, TGP, cálcio e fósforo; a densitometria, que o protocolo lista sem recorte de idade, a critério do especialista
- Sulfato ferroso mantido junto com a dieta, na dose do capítulo de anemia ferropriva, recalculada pelo peso de cada consulta
- Separar em casa só os utensílios de difícil lavagem, como a torradeira e a peneira
- Antitransglutaminase IgA e IgA total dos parentes de primeiro grau: mãe, pai e irmãos, se houver
Três meses de dieta — a consulta que confere a dieta, não só a criança
Luara pesa 10,4 kg, evacua uma ou duas vezes por dia fezes formadas, a barriga diminuiu e o humor mudou. Os exames do diagnóstico não mostraram alteração de tireoide nem de glicemia. A hemoglobina subiu para 10,6 g/dL, e a antitransglutaminase IgA caiu de 128 para 41 U/mL. A queda confirma o rumo. A conversa agora é sobre onde o glúten ainda entra: a creche oferece pão no lanche, e a avó dá “só um pedacinho” de bolo.
Prescrição- Relatório para a creche com o diagnóstico e a dieta, e contato com a assistência social da unidade para a alimentação na creche
- Revisão com a nutricionista dos rótulos dos produtos que a família compra
- Sulfato ferroso: dose recalculada pelo peso de 10,4 kg — 3 mg/kg/dia = 31 mg, 1,25 mL da solução de 25 mg/mL —, pela régua do capítulo de anemia ferropriva
- Próxima antitransglutaminase IgA aos 6 meses de dieta
Seis meses de dieta — a sorologia que mede a adesão
A antitransglutaminase IgA está em 8 U/mL, abaixo da referência; Luara pesa 11,2 kg e voltou a ganhar estatura. A sorologia da mãe e a do pai vieram negativas. O calendário que segue é o do protocolo: sorologia aos 12 meses de dieta e depois anual, consultas a cada três a seis meses no primeiro ano e anuais depois, biópsia de controle só com motivo. O tempo do ferro segue a régua do capítulo de anemia ferropriva, com hemograma e ferritina de encerramento.
Prescrição- Dieta sem glúten mantida por toda a vida, mesmo com a sorologia negativa
- Consulta com médico e nutricionista a cada 3 a 6 meses até completar 1 ano de dieta, depois anual
- Antitransglutaminase IgA aos 12 meses de dieta e depois anualmente
- Peso e estatura em toda consulta, marcados na curva da caderneta
Como saber se está funcionando
Acompanhe sintomas, ingestão, crescimento e resposta às intervenções. Sorologia é parte do seguimento da doença celíaca confirmada e deve ser interpretada no tempo e no contexto do tratamento; não substitui a avaliação nutricional nem demonstra sozinha tudo o que a criança come. Na diarreia persistente, a deterioração pode exigir retorno antes da data programada.
Os prazos vêm das fontes do capítulo: o retorno de cinco dias e a regra do peso são do Aidpi; o calendário da sorologia, do protocolo federal da doença celíaca; o tempo do ferro, do capítulo Anemia ferropriva na infância.
Esperado: Criança hidratada, bebendo e comendo
Se não melhora: Desidratação ou sinal de perigo: tratar a desidratação e referir ao hospital, como diarreia persistente grave
Esperado: Menos de três evacuações amolecidas por dia na persistente; fezes formadas em algumas semanas de dieta na celíaca
Se não melhora: Persistente que continua: nova avaliação completa, alimentação revista e novo retorno em 5 dias. Celíaca sem melhora: revisar a dieta antes de duvidar do diagnóstico
Esperado: Não perder na persistente; voltar a ganhar na celíaca em dieta
Se não melhora: Diarreia que continua com perda de peso no retorno: referir ao hospital, pelo quadro federal. Celíaca que não ganha: contaminação por glúten, doença associada ou diagnóstico a rever com o especialista
Esperado: Estatura voltando a acompanhar o canal, depois do peso
Se não melhora: Revisar a adesão e discutir com o especialista; a leitura da curva é do capítulo Acompanhamento do crescimento, e a baixa estatura que persiste, do capítulo Baixa estatura e puberdade tardia
Esperado: Queda em relação ao valor do diagnóstico
Se não melhora: Sem queda: suspeita de contaminação por glúten — rótulos, utensílios, creche, casa dos avós —, revista com a nutricionista
Esperado: Resposta ao ferro depois que a dieta começa
Se não melhora: Conferir a dose pelo peso atual e a adesão ao ferro e à dieta; sem resposta com as duas em dia, discutir com o especialista
Esperado: Creche, escola e família conhecem a dieta e leem o rótulo
Se não melhora: Relatório para a creche ou a escola, assistência social e nova orientação com a família inteira
Onde o erro machuca
O dano: Os anticorpos dependem de glúten e caem com a retirada: a sorologia pode vir negativa numa criança celíaca, e a biópsia pode não encontrar a lesão. A família fica com uma dieta difícil e cara sem diagnóstico — ou abandona a dieta de que a criança precisava, porque a melhora pareceu coincidência.
Como pegar a tempo: Investigar antes de iniciar exclusão quando possível. Se a dieta já mudou, documentar tempo, quantidade e resposta e interpretar os testes com essa limitação. Planejar a investigação e eventual desafio com a equipe; não mandar toda criança retomar a quantidade habitual e considerar uma coleta imediata suficiente para excluir a doença.
O dano: Na criança com deficiência de IgA, a antitransglutaminase IgA sai negativa por falta da imunoglobulina, e a doença celíaca é descartada por engano — o guia de exames da Sociedade Brasileira de Pediatria registra que 2% a 3% dos celíacos têm deficiência de IgA.
Como pegar a tempo: Os dois exames no mesmo pedido, sempre, como fixa o protocolo federal. IgA total baixa invalida o negativo e muda o caminho: antigliadina deaminada IgG até 2 anos, biópsia acima disso.
O dano: Jejum, dieta de chá com bolacha, leite diluído ou retirada do peito aprofundam o déficit que prolonga a diarreia: a mucosa se refaz menos, o zinco cai, e a criança emagrece mais depressa do que a diarreia sozinha faria.
Como pegar a tempo: Na diarreia persistente, seguir o Aidpi: peito mais vezes, mais refeições, leite de complemento substituído aos poucos por alimentos semissólidos, dieta com baixo teor de lactose enquanto houver leite artificial, zinco por 10 dias e retorno em 5 dias.
O dano: O rótulo de funcional numa criança que perdeu canal atrasa o diagnóstico de doença celíaca, fibrose cística ou doença inflamatória. A bateria de exames e as dietas numa criança funcional que cresce produzem restrição sem doença, custo e medo.
Como pegar a tempo: A curva decide antes da fralda. Canal mantido, com fezes moles, restos de alimento e suco em excesso, é função: tirar o suco e acompanhar. Traçado horizontal ou descendente é investigação.
O dano: Um parasitológico de uma amostra não afasta giárdia, e o tratamento sem diagnóstico não explica a diarreia que volta. A giardíase de repetição pode ser a pista de uma deficiência de IgA que ninguém dosou, e a doença celíaca espera atrás de cada novo ciclo de antiparasitário.
Como pegar a tempo: Parasitológico em três amostras em até dez dias, ou antígeno de giárdia; tratar o que foi encontrado pela régua do capítulo Parasitoses intestinais na infância; giárdia que volta pede IgA total e sorologia celíaca.
O dano: Pequenas exposições mantêm a inflamação: a antitransglutaminase não cai, a mucosa não se refaz, o crescimento não volta — e o protocolo federal registra que a falta de tratamento pode levar a um estado de refratariedade.
Como pegar a tempo: Dieta para toda a vida, com nutricionista desde a primeira semana; rótulo lido em todo produto; utensílios de difícil lavagem separados; aveia só a não contaminada; relatório para a creche e a escola; e a sorologia do calendário como medida objetiva da adesão.
O que dizer ao paciente e à família
A família precisa entender como a dieta interfere na investigação e como manter nutrição suficiente enquanto a hipótese é esclarecida. A conversa com Taís parte da melhora que ela observou, sem transformá-la em confirmação. Com Júlia, o foco é recuperar alimentação após a diarreia. Depois do diagnóstico, o plano precisa funcionar também na creche e na casa da avó.
Em todas vale a mesma disciplina. Diga o que vai acontecer e por que, antes de dizer o que a família deve fazer; use a palavra do corpo antes da palavra do laudo; e confira o que ficou entendido pedindo que a família explique de volta, com as palavras dela. O manual do curso do Aidpi ensina a verificar com perguntas que não se respondem com sim ou não — “entendeu?” recebe sempre um sim e não confere nada.
E não prometa o que não depende de você. A decisão sobre a endoscopia é do gastroenterologista pediátrico com a família; a data do exame é da regulação; a dieta é para a vida toda, e nenhuma frase de consolo deve sugerir o contrário. O que depende do interno é que a criança chegue ao exame comendo glúten, que a família saiba por que, e que o encaminhamento leve os números que o especialista precisa ler.
Taís diz que não quer dar trigo de novo, porque a filha melhorou
““Foi importante contar que a senhora retirou o glúten e percebeu melhora. Isso muda a interpretação dos exames: um resultado normal pode não afastar a doença se ela estiver comendo pouco glúten. Vamos registrar há quanto tempo isso aconteceu e combinar com a equipe como completar a investigação, mantendo a Luara bem alimentada. Se for preciso reintroduzir, a quantidade e o período serão orientados; não basta comer trigo hoje para o exame de hoje ficar confiável.””
Não diga: Evitar tanto confirmar doença celíaca apenas pela melhora na dieta quanto mandar reintroduzir glúten sem avaliar história, sintomas e tempo de retirada. Explicar a incerteza junto com o próximo passo.
Taís pergunta se a melhora já não prova que é o glúten
““Pode ser, e pode não ser. Doze dias é pouco, e muita coisa melhora sozinha nesse tempo. Se for mesmo doença celíaca, a Luara vai precisar de uma dieta sem glúten para a vida inteira, e uma decisão desse tamanho não pode ficar apoiada numa impressão de duas semanas. O exame e, se ele vier alterado, a biópsia dão uma resposta que vale para sempre — para ela e para o resto da família.””
Não diga: Dizer que a melhora não significa nada. A observação da mãe é dado clínico, e desprezá-la faz a família desconfiar do resto da consulta.
No retorno, Taís leu que exame muito alto dispensa a endoscopia
““A senhora leu certo: uma diretriz europeia aceita, em algumas crianças com o exame muito alto e um segundo exame confirmando, o diagnóstico sem biópsia. No SUS, o protocolo do Ministério manteve a biópsia para confirmar, e o segundo exame que a regra europeia pede não faz parte do que o protocolo oferece. Quem decide é a gastroenterologista, junto com a senhora. O que eu posso prometer é outra coisa: que a Luara chegue lá bem encaminhada, com os resultados escritos, e comendo trigo, para que o exame valha.””
Não diga: Prometer que não haverá endoscopia, ou dizer que a diretriz europeia está errada. A primeira promessa não depende do interno; a segunda é falsa e ensina a família a desconfiar do que leu certo.
Júlia diluiu o leite e trocou o almoço por chá com bolacha para “o intestino descansar”
““A senhora quis dar descanso ao intestino do Ignácio, e a intenção foi boa. Mas o intestino dele ficou machucado pela virose e precisa de comida para se consertar — é a comida que refaz o intestino, não o jejum. Chá com bolacha enche a barriga e não alimenta. Vamos fazer diferente: o peito mais vezes, de dia e de noite; a comida dele de volta, em mais refeições; e o leite da mamadeira diminuindo aos poucos, trocado pela papa. Eu vou preparar a água de arroz com leite aqui na sua frente, e depois a senhora prepara. O xarope de zinco é uma vez por dia, por dez dias, e eu quero ver o Ignácio de volta em cinco dias, na mesma balança.””
Não diga: “Suspende o leite e dá só soro e chá até parar.” A restrição prolonga a diarreia que pretende curar e faz a criança perder o peso que a consulta de retorno vai procurar.
Júlia pergunta quando deve voltar antes dos cinco dias
““Volte na hora, sem esperar o dia marcado, se ele não conseguir mamar nem beber, se vomitar tudo, se ficar muito sonolento e difícil de acordar, se tiver convulsão, se aparecer sangue no cocô, se fizer pouco xixi ou se a febre voltar. Agora me diga, com as suas palavras, quais são os sinais que fazem a senhora voltar antes.””
Não diga: Encerrar com “qualquer coisa, volta”. Sem os sinais nomeados, a família volta tarde ou volta por tudo — e a pergunta “entendeu?” recebe um sim que não confere nada.
Com o diagnóstico confirmado, Taís pergunta se foi o pão que ela deu cedo demais
““Não foi um erro seu. A doença celíaca acontece em quem nasceu com uma predisposição, quando essa pessoa come glúten — e comer glúten é o que toda criança faz quando começa a comer a comida da casa, como a Luara começou. A partir de agora, o que muda é que o glúten não entra mais, nem um pedacinho, e isso vale para a vida toda, mesmo quando ela estiver bem e o exame estiver normal: um pouco de glúten de vez em quando mantém a inflamação que a senhora não vê. E uma coisa para a sua família: pais e irmãos de quem tem a doença têm mais chance de tê-la, e eu vou pedir o exame para a senhora e para o pai dela.””
Não diga: “É uma alergia, com o tempo passa” ou “um pouquinho de vez em quando não faz mal”. As duas frases desfazem a dieta antes de ela começar.
Aos três meses de dieta, a creche serve pão no lanche e a avó dá “só um pedacinho” de bolo
““Vamos pensar em todo mundo que dá comida para a Luara durante a semana. A creche e a avó gostam dela e querem agradar, e é por isso que precisam entender que um pedacinho de bolo não é carinho para ela: é o que segura o exame lá em cima e faz a barriga voltar. Eu vou escrever um relatório para a creche com o diagnóstico e a dieta, e a assistente social da unidade ajuda a combinar o lanche. Traga a avó na consulta com a nutricionista, porque quem cozinha precisa ouvir junto: a farinha, a torradeira, o rótulo que diz ‘contém glúten’.””
Não diga: Culpar a família pela sorologia que não caiu, ou mandar a mãe “ter mais cuidado”. A contaminação quase sempre vem de onde a família não sabe que precisa olhar, e a bronca não ensina onde olhar.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Sim, com antiendomísio IgA positivo numa segunda amostra e a família de acordo — diretriz europeia de gastroenterologia pediátrica (2020)
A diretriz de 2020 aceita o diagnóstico sem biópsia na criança e no adolescente com antitransglutaminase IgA igual ou maior que dez vezes o limite superior, medida em ensaio com curva de calibração e com o valor de dez vezes dentro da faixa de medida, desde que o antiendomísio IgA venha positivo numa segunda amostra e que a decisão seja compartilhada com os pais e com a criança. Em relação à regra de 2012, retirou duas exigências: a genotipagem HLA-DQ2 ou DQ8 e a presença de sintomas deixaram de ser obrigatórias. Na deficiência de IgA com teste IgG positivo, a biópsia não se omite.
Husby S, Koletzko S, Korponay-Szabó I, et al. European Society Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition Guidelines for Diagnosing Coeliac Disease 2020. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2020;70(1):141-157, recomendações 6 e 7.
Não no SUS: a biópsia duodenal confirma o diagnóstico em crianças e adultos — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca (Ministério da Saúde, 2025)
O protocolo federal fixa a biópsia duodenal como padrão-ouro em crianças e adultos e manda confirmar sempre por ela, salvo contraindicação à endoscopia. A exceção que ele descreve — parentes de primeiro grau sintomáticos e geneticamente suscetíveis, com antitransglutaminase dez vezes o limite e antiendomísio positivo — depende de um exame que o mesmo protocolo não recomenda (o antiendomísio) e de outro que não foi incorporado (a genotipagem HLA), e o quadro de procedimentos lista só endoscopia, antitransglutaminase IgA e IgA total. O guia de exames da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2023, ainda descreve a via sem biópsia com a exigência de HLA da regra europeia de 2012.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8, de 23 de junho de 2025 (PCDT da Doença Celíaca); Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Atualização nº 45, 2023, seção 3.1.
Esta apostila adota o protocolo federal para a criança atendida no SUS: antitransglutaminase alta, por mais alta que seja, vai à endoscopia com biópsia, e a dieta só começa depois dela. Degrau 1, escopo: empate — os dois documentos foram escritos para a criança com suspeita de doença celíaca, e o protocolo nomeia a criança ao fixar a biópsia como padrão-ouro. Degrau 2, data: o protocolo é de 2025, cita a diretriz de 2020 e manteve a biópsia. Degrau 3, natureza: norma sobre diretriz de sociedade. Degrau 4, coerência: o defeito demonstrável do protocolo está na exceção, que ninguém consegue cumprir, e não na regra que manda biopsiar, exequível com os procedimentos que ele lista — por isso não derruba o degrau 3. A via europeia segue válida onde o antiendomísio está disponível, e a decisão final sobre a endoscopia é do gastroenterologista pediátrico com a família; ao interno, esta apostila manda não oferecer essa via. Na prática: escreva no encaminhamento o valor da antitransglutaminase e o limite do laboratório, mantenha o glúten, não peça HLA para dispensar a biópsia e não prometa à família que não haverá endoscopia.
Sim: antitransglutaminase IgA, IgA total e antigliadina deaminada IgG no mesmo pedido — protocolo federal da doença celíaca (2025), com a incorporação de 2023, e Sociedade Brasileira de Pediatria (2023)
O protocolo federal recomenda, na criança com até 2 anos e suspeita de doença celíaca, somar a antigliadina deaminada IgG à dupla inicial — exame incorporado ao SUS para essa faixa pela Portaria SECTICS/MS nº 10, de 17 de abril de 2023, e não para a deficiência de IgA em outras idades. O guia de exames da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2023, manda incluir o mesmo exame nos menores de 2 anos.
Brasil. Ministério da Saúde. PCDT da Doença Celíaca (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8/2025) e Portaria SECTICS/MS nº 10/2023; Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Atualização nº 45, 2023.
Não: antitransglutaminase IgA com IgA total em qualquer idade, e teste IgG só com IgA baixa — diretriz europeia de gastroenterologia pediátrica (2020)
A diretriz de 2020 recomenda a antitransglutaminase IgA com a IgA total como teste inicial em qualquer idade e não recomenda a antigliadina deaminada, o antiendomísio nem a antigliadina nativa na triagem inicial. O teste da classe IgG entra como segundo passo, quando a IgA total está baixa. A mesma diretriz registra que a positividade isolada da antigliadina é fenômeno transitório comum abaixo de 4 anos.
Husby S, Koletzko S, Korponay-Szabó I, et al. European Society Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition Guidelines for Diagnosing Coeliac Disease 2020. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2020;70(1):141-157.
Esta apostila adota o protocolo federal: na criança com até 2 anos, os três exames no mesmo pedido, sempre com glúten na dieta. Degrau 1, escopo: empate, as duas regras são para a criança pequena com suspeita. Degrau 2, data: 2025 contra 2020, e a Sociedade Brasileira de Pediatria, em 2023, fica do mesmo lado. Degrau 3, natureza: norma, com portaria de incorporação própria. Degrau 4, coerência: o protocolo tem um defeito neste ponto — o quadro de procedimentos omite a antigliadina que o texto manda pedir, como registra a nota do critério —, mas é defeito da lista, não da regra: a incorporação existe em portaria à parte, e o documento brasileiro de sociedade diz o mesmo; o degrau não vira. A preocupação europeia não se perde, porque governa outro momento, o da leitura do resultado: antigliadina positiva com antitransglutaminase negativa abaixo de 4 anos não é diagnóstico, e a criança vai ao gastroenterologista pediátrico, onde a biópsia decide. Escreva a portaria de incorporação na solicitação, para que a regulação não recuse o exame pelo quadro.
O raciocínio, em voz alta
Ignácio Casqueiro, 10 meses, chega à unidade básica no colo da mãe, Júlia, com diarreia há 17 dias. Começou com febre, vômitos e fezes líquidas uma semana depois de o irmão mais velho ter tido o mesmo quadro; a febre e os vômitos passaram no terceiro dia, a diarreia não. Evacua cinco a seis vezes por dia, fezes líquidas, explosivas, de cheiro azedo, sem sangue, e a pele da região das fraldas está vermelha. Mama no peito três vezes ao dia e toma duas mamadeiras de leite integral; há uma semana, por conselho de uma vizinha, Júlia dilui o leite pela metade e troca o almoço por chá com bolacha “para o intestino descansar”. Ele está ativo, bebe com vontade normal, não tem olhos fundos e a prega volta imediatamente. Pesava 8,6 kg na consulta de puericultura de 20 dias atrás; hoje, na mesma balança, pesa 8,4 kg.
O que penso agora
Uma gastroenterite, provavelmente viral, que passou de 14 dias: é diarreia persistente, e o cheiro azedo com a assadura vermelha apontam para lactose mal absorvida numa mucosa que ainda não se refez. A pergunta de hoje não é qual micróbio, e sim o que a infecção deixou para trás e se a comida que Ignácio está recebendo ajuda ou atrapalha.
Classificar antes de prescrever
Nenhum sinal geral de perigo. Nenhum sinal de desidratação. Diarreia há 17 dias, sem sangue. Pelo Aidpi: diarreia persistente, sem desidratação — não é a persistente grave, que exige desidratação e iria ao hospital. O peso segue no canal da caderneta, mas caiu 200 g em 20 dias, e é esse número que a consulta de retorno vai comparar.
O que não faço
Não peço coprocultura, que o guia de exames da Sociedade Brasileira de Pediatria reserva para a diarreia aguda; não prescrevo antibiótico nem metronidazol sem diagnóstico; não uso antidiarreico, que o cartaz federal de manejo manda não usar; e não suspendo o peito. O leite diluído e o chá com bolacha saem hoje, porque estão tirando energia e zinco de uma mucosa que precisa deles para se refazer.
A alimentação da diarreia persistente
Pelo quadro do Aidpi para a criança acima de 6 meses em aleitamento misto: peito mais vezes, de dia e de noite; mais refeições, com a comida recomendada para a idade; o leite da mamadeira substituído aos poucos por papas e outros alimentos semissólidos; e, enquanto houver leite artificial, dieta com baixo teor de lactose. A mucilagem de arroz entra como opção para a mamadeira que ainda fica: uma colher de sopa de arroz cru cozida em um copo de água até desmanchar e passada na peneira; meio copo dessa água de arroz, meio copo de leite integral e uma colher de chá de óleo, na quantidade que ele já tomava.
A receita
Sulfato de zinco xarope 4 mg/mL: 5 mL, que são 20 mg de zinco, por via oral, uma vez ao dia, por 10 dias — a dose do Aidpi a partir de 6 meses, fixa pela idade e não calculada por quilo. Antes de Júlia sair, confiro com ela o frasco dispensado: se o rótulo declarar 4 mg/mL de sulfato de zinco, e não de zinco, a conta muda, e a leitura do frasco é do capítulo de micronutrientes. Nenhum polivitamínico copiado da tabela do Aidpi, que está em unidade errada e não tem produto correspondente na Rename.
Um exame, se houver
Onde a unidade tiver a fita, peço substâncias redutoras e pH nas fezes líquidas recém-emitidas: redutoras a partir de 0,5% e pH de 5 ou menos confirmam o açúcar mal absorvido e sustentam a dieta com pouca lactose. É triagem, não diagnóstico, e não atrasa nada do que já foi prescrito. Parasitológico, sorologia e hemograma ficam para se a diarreia não ceder ou se a curva começar a descer.
Quando voltar
Retorno em 5 dias, na mesma balança. Júlia sai sabendo, e repetindo com as palavras dela, quando voltar antes: se ele não conseguir mamar nem beber, vomitar tudo, ficar muito sonolento, tiver convulsão, sangue nas fezes, pouco xixi ou febre de novo. Ela prepara a mucilagem na minha frente antes de ir embora.
Cinco dias depois
Ignácio evacua duas vezes por dia, fezes pastosas, a assadura melhorou, e ele pesa 8,5 kg. Com menos de três evacuações amolecidas por dia, a diarreia parou, e o quadro manda a alimentação recomendada para a idade: o peito mantido, a comida da família em volta da mesa, o leite artificial reintroduzido sem pressa. Os 10 dias de zinco se completam, e o peso volta a ser conferido na consulta de puericultura seguinte.
O que teria mudado a conduta
Se no retorno Ignácio ainda tivesse três ou mais evacuações amolecidas por dia e pesasse menos que 8,4 kg, o quadro manda reavaliar por completo e referir ao hospital; se continuasse sem perder peso, nova avaliação completa e novo retorno em cinco dias. Se desidratasse em qualquer momento, seria diarreia persistente grave. E se a diarreia voltasse a cada tentativa de alimentação normal, ou a curva começasse a cair, a pergunta deixaria de ser a da persistente e passaria a ser a da crônica, com o pedido mínimo da investigação.
Faça você
Oriana Redenção, 6 anos, é trazida pela avó, Modesta, que cuida dela durante a semana. Há um ano tem fezes amolecidas três a quatro vezes por dia, com fases melhores e piores, barriga distendida no fim da tarde e dor abdominal que a faz sair da sala de aula. Teve giardíase confirmada duas vezes nesse ano, tratada nas duas, e pneumonia aos 4 anos. Toma sulfato ferroso há quatro meses, com a dose conferida pelo peso e a adesão confirmada pela avó, e a hemoglobina foi de 9,8 para 10,0 g/dL. Na caderneta, a estatura seguia perto do percentil 25 até os 4 anos e hoje está no percentil 3; o peso acompanha. Come pão todos os dias. A unidade pediu antitransglutaminase IgA e IgA total, e os resultados chegaram: antitransglutaminase IgA de 0,8 U/mL, com referência abaixo de 10, e IgA total abaixo de 7 mg/dL.
Leia o par de exames
Diga o que a antitransglutaminase de 0,8 U/mL significa nesta criança e por que a IgA total muda essa leitura.
Decida o próximo passo da doença celíaca no SUS
Considere a idade de Oriana, o que o protocolo federal oferece acima de 2 anos e em que indicação ela se encaixa; diga também o que acontece com o pão até lá.
Amarre as outras pontas
O que a giardíase de repetição e a pneumonia sugerem, que exames completam essa suspeita e de quem é a investigação; o que se faz com a diarreia de hoje e com o ferro que não respondeu.
Escreva o encaminhamento
Liste o que precisa constar para que o gastroenterologista pediátrico decida sem repetir a sua consulta.
Ver como fecharíamos
A antitransglutaminase IgA negativa não afasta a doença celíaca em Oriana, porque ela quase não fabrica IgA: o exame sai negativo por falta da imunoglobulina, não por falta da doença. Um teste da classe IgG seria o segundo passo pela diretriz europeia e pela Sociedade Brasileira de Pediatria, mas a antigliadina deaminada IgG foi incorporada ao SUS só para a criança com até 2 anos. Acima dessa idade, o protocolo federal põe sintoma intestinal com deficiência de IgA entre as indicações de endoscopia com biópsia duodenal mesmo com sorologia negativa — e Oriana tem diarreia de um ano, distensão, estatura que caiu do percentil 25 para o 3 e anemia ferropriva sem resposta a quatro meses de ferro com dose certa. Ela vai à gastroenterologia pediátrica para endoscopia com biópsia, comendo pão todos os dias até lá, sem nenhuma dieta de exclusão antes. A giardíase que voltou e a pneumonia combinam com deficiência de IgA: a unidade dosa IgG e IgM — IgA abaixo de 7 mg/dL com IgG e IgM normais, a partir de 4 anos e excluídas as causas secundárias, é deficiência seletiva de IgA —, e a investigação da imunidade é do capítulo Imunodeficiências primárias e secundárias, da Imunologia. Para a diarreia de hoje, parasitológico em três amostras colhidas em até dez dias ou antígeno de giárdia, porque a giárdia pode ter voltado, e o tratamento de uma nova giardíase segue o capítulo Parasitoses intestinais na infância. O ferro continua pela régua do capítulo Anemia ferropriva na infância, com a dose recalculada pelo peso atual; com adesão confirmada, a falta de resposta é mais um motivo para a biópsia. O encaminhamento leva os pontos da curva de estatura com as datas, o tempo e a descrição da diarreia, os dois resultados com as referências do laboratório, as datas e os tratamentos das giardíases, a hemoglobina antes e depois do ferro com a dose usada, e a informação de que Oriana come glúten todos os dias.
Fezes gordurosas numa criança que come muito e não ganha peso, com pneumonias de repetição, apontam para o pâncreas: na fibrose cística a lipase não chega à luz intestinal e a mucosa está íntegra — por isso a sorologia celíaca e os parasitológicos vêm normais. A triagem neonatal normal diminui a chance e não encerra a pergunta, porque o manual técnico federal registra falso-negativo na suficiência pancreática, no íleo meconial e na doença de aparecimento tardio. O passo seguinte é a elastase fecal, colhida fora de diarreia porque fezes líquidas dão resultado falsamente baixo, e o teste do suor em centro de referência, onde, pelo protocolo federal de 2024, um teste com cloro de 60 mmol/L ou mais confirma. A pancreatina é do Componente Especializado, com dose do especialista, e não se inicia às cegas.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare diarreia persistente após gastroenterite, esteatorreia com crescimento insuficiente e apresentação celíaca sem diarreia importante. Justifique os exames e explique a função da IgA total. Antes de interpretar sorologia, pergunte sobre glúten. Diferencie criança em consumo habitual, retirada recente e retirada prolongada; diga por que o resultado negativo não tem o mesmo significado nas três.
Em 30 dias
Apresente uma investigação com dieta prévia, tempo de sintomas, curva, exames e próximos passos. Se houve retirada de glúten, explique o plano individual de confirmação com a equipe. Depois de diagnóstico confirmado, construa seguimento com alimentação, crescimento, sintomas, exames pertinentes e apoio à família. A melhora da diarreia não encerra o cuidado nutricional.
Agora atenda
Agora atenda: Floriano Sayão, 20 meses, trazido pelo pai, Acácio, porque há dois meses evacua quatro vezes por dia fezes claras e malcheirosas, anda irritado e “não engorda”; a caderneta mostra o peso parado desde os 16 meses. A família tirou o leite de vaca por conta própria há três semanas, sem melhora. Decida o que se pede hoje, com que comida no prato, e o que se diz ao pai.
