Pediatria › Gastroenterologia Pediátrica
A cueca manchada e a dor das segundas-feiras
Constipação funcional e dor abdominal funcional na infância
Constipação funcional e dor abdominal funcional da criança, da unidade básica ao ambulatório: reconhecer a retenção que a família chama de diarreia, separar pelos sinais de alarme o que não é funcional, esvaziar o reto antes de manter, calcular a lactulose que a rede tem e o macrogol que a família compra, com o teto do adulto, manter por meses sem parar cedo — e dizer à família que a dor é real e que a criança volta à escola
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Gastroenterologia (gestão 2022-2024). Constipação intestinal. Guia Prático de Orientação nº 144. Rio de Janeiro: SBP; 4 abr. 2024. 11 p.
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Muvinlax (macrogol 3350 + bicarbonato de sódio + cloreto de sódio + cloreto de potássio) pó para solução oral. Bula para o profissional de saúde. Libbs Farmacêutica; registro MS 1.0033.0131.
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Menino de 6 anos, 25 kg, com constipação funcional, acabou de completar a desimpactação com enema de soro fisiológico na unidade. A família não pode comprar macrogol, e a farmácia da unidade tem lactulose em xarope de 667 mg/mL. Qual prescrição de manutenção segue a dose por quilo do guia prático da Sociedade Brasileira de Pediatria sem ultrapassar a dose diária do adulto, de 30 mL?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, oito e quarenta, numa unidade de saúde da família da periferia. Gildete Bittencourt entra no consultório com dois filhos e uma sacola plástica. Caetano, de 4 anos e 3 meses, vem pela mão; Iara, de 10 anos, vem atrás, de uniforme, num dia em que deveria estar na escola. A mãe tira da sacola um bilhete da escola de educação infantil e o põe na mesa antes de se sentar: pede que o menino fique em casa até a diarreia passar, porque a professora já trocou a roupa dele três vezes nesta semana. Gildete diz o que veio buscar — um remédio para prender o intestino — e acrescenta, quase como quem pede desculpa, que aproveitou para trazer a menina, que está de novo com dor de barriga.
A diarreia de Caetano, contada devagar, não é diarreia. Há três semanas a cueca aparece manchada de uma pasta marrom e mole, três ou quatro vezes por dia, às vezes com cheiro forte, sem febre, sem vômito, sem que ele diga que precisa ir ao banheiro. As fezes de verdade vêm a cada cinco ou seis dias: grossas, duras, tão grandes que entopem o vaso, e ele chora para eliminá-las. Há duas semanas havia sangue vivo no papel. O desfralde foi aos 3 anos e 8 meses, com pressa, porque a escola não aceitava fralda, e com bronca a cada escape. Desde então, quando a vontade vem, Caetano corre para trás do sofá, fica na ponta dos pés com as pernas cruzadas, o rosto vermelho e o corpo duro — e Gildete, que via o esforço, achava que ele estava tentando fazer cocô. A vizinha ensinou água de arroz e ela deu por dois dias; piorou. Ele toma três mamadeiras de leite por dia, bebe pouca água e deixa o feijão no prato.
Na maca, o menino deixa examinar a barriga depois de negociar o estetoscópio. O abdome é flácido e indolor, e acima do púbis, estendendo-se para a fossa ilíaca esquerda, os dedos encontram uma massa endurecida, alongada, que se deixa marcar pela pressão. Não há distensão, vômito, defesa ou dor à descompressão. A cueca está manchada de fezes pastosas. O ânus está na posição habitual e há uma fissura pequena na linha média posterior; não há cicatriz perianal. A pele da região sacral é lisa, sem fosseta nem tufo de pelos, e o sulco entre as nádegas é reto. A força e os reflexos das pernas estão normais, e o reflexo cremastérico está presente dos dois lados. A balança marca 16 kg e a régua, 104 cm; na caderneta, os pontos de peso e de estatura do último ano seguem o mesmo canal.
Iara conta a própria dor sem que a mãe precise ajudar. Dói em volta do umbigo, quase todas as manhãs de aula, há quatro meses; na segunda-feira é pior, no sábado quase não aparece. A dor dura de meia hora a duas horas, não a acorda à noite, não vem com vômito nem febre, e não muda quando ela evacua — o que acontece todos os dias, com fezes normais. Ela faltou a nove dias de aula no último mês. Foi levada duas vezes ao pronto-atendimento, onde fizeram um exame de urina, deram um antiespasmódico na veia e disseram que era virose. Pesa 31 kg, mede 138 cm e, na caderneta, cresceu sempre no mesmo canal. O exame do abdome é normal. Gildete quer uma ultrassonografia: tem medo de apendicite, de verme, de alguma coisa que ninguém viu.
A agente comunitária de saúde, Zuleide, deixou uma anotação no prontuário da família antes da consulta. A avó materna, que buscava as crianças na escola, morreu em março; desde então Gildete trabalha em dois turnos e Iara mudou de escola. Nada disso explica sozinho a dor de uma nem o intestino do outro, e nenhuma das duas crianças tem um sinal que obrigue a pensar em doença orgânica. Mas os dois motivos de consulta são o que chega com mais frequência ao ambulatório de pediatria geral, e são justamente os que mais saem dele com a conduta errada: o menino com um antidiarreico e a volta para casa, a menina com mais um exame e mais uma semana sem escola.
Este capítulo responde às perguntas que a interna tem diante dessa família antes de escrever qualquer receita. Por que o escape de Caetano é constipação, e o que no exame dele teria dito o contrário. O que precisa ser feito antes do laxante de manutenção, com que fármaco — o que a farmácia da unidade tem ou o que a família precisa comprar —, em que dose por quilo, até que teto e por quantos meses. Por que a dor de Iara tem nome e critério, o que pedir de exame para ela e o que não pedir, e o que dizer a uma mãe que ouviu duas vezes que não era nada. E o que dizer às duas crianças, que estão ouvindo.
Quem adoece disso
O número de evacuações muda com a idade, e a queixa de intestino preso só se lê contra esse fundo. O guia prático da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2024 dá as médias: o lactente evacua cerca de quatro vezes por dia; até os 2 anos, duas; depois dos 4, uma. A constipação, com ou sem incontinência fecal, responde por cerca de 3% das consultas de rotina em pediatria e por até um quarto das consultas de gastroenterologia pediátrica, e em 95% das crianças é constipação funcional — não há doença orgânica por trás. A prevalência agrupada no mundo é de 9,5%, número que o guia brasileiro e a diretriz europeia e norte-americana de 2026 repetem, e em 17% a 40% das crianças o problema começa no primeiro ano de vida.
O pico de início está no desfralde. O texto de Roma IV para a criança e o adolescente registra que a incidência é máxima na época do treino esfincteriano, sem diferença entre meninos e meninas, e que os meninos constipados perdem fezes na roupa com mais frequência. A distribuição é igual entre as classes sociais e não tem relação com o tamanho da família, com a ordem de nascimento da criança nem com a idade dos pais. A retenção costuma começar depois de uma evacuação dolorosa ou desagradável — uma fissura, uma doença aguda que secou as fezes, um desfralde feito com pressa —, e é por isso que a história de Caetano, com a bronca a cada escape e o sangue no papel, é a história típica e não a exceção.
Três dados brasileiros explicam por que a criança constipada chega tarde e sai mal tratada. O primeiro é a hidratação: estudos com escolares brasileiros encontraram alta prevalência de hipoidratação voluntária, e o guia da Sociedade associa esse achado à constipação funcional. O segundo é o reconhecimento: num estudo com escolares, só 17% dos que preenchiam os critérios de Roma IV tinham recebido algum tratamento nos dois meses anteriores. O terceiro é o acesso ao fármaco de primeira escolha: o mesmo guia registra que o macrogol, em geral, não é fornecido pela maior parte dos serviços de saúde, e a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 confirma — o macrogol não consta, enquanto a lactulose em xarope e o óleo mineral estão no Componente Básico.
No lactente, duas situações frequentes nem são constipação. A pseudoconstipação do aleitamento materno — intervalo longo entre evacuações, com fezes amolecidas e eliminadas sem dor — foi estimada em 5,1% no primeiro semestre de vida. A disquesia do lactente foi encontrada em 3,9% dos lactentes numa pesquisa em consultórios pediátricos brasileiros. As duas desaparecem sozinhas, e o dano que produzem vem do que se faz com elas: supositório, estímulo retal com haste e laxante numa criança que não precisava de nada.
O desfecho da constipação tratada depende menos do fármaco do que da persistência. Numa revisão citada por Roma IV, só metade das crianças encaminhadas a um centro terciário e acompanhadas por 6 a 12 meses se recuperou e conseguiu parar o laxante. O guia brasileiro aponta as causas de fracasso que o pediatra geral controla: adesão baixa, dose baixa dada de forma intermitente e desimpactação incompleta, que torna inútil a manutenção. Nenhuma delas se resolve com um exame; todas se resolvem com uma prescrição por escrito, a dose certa e um retorno marcado.
A dor abdominal crônica é o outro motivo de consulta mais comum desta faixa etária. O guia prático da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2019 dá prevalências entre 0,5% e 19%, conforme a idade e a definição, com dois picos — entre 4 e 6 anos e entre 7 e 12 anos —, e registra que a causa orgânica responde por apenas 5% a 10% dos casos. A diretriz europeia e norte-americana de 2025 estima em 13,5% a prevalência agrupada dos distúrbios de dor abdominal ligados à interação intestino-cérebro dos 4 aos 18 anos. A dor abdominal funcional não é benigna no sentido que a família entende: em cerca de 30% das crianças ela persiste, e quem tem dor abdominal crônica na infância corre mais risco de chegar à vida adulta com síndrome do intestino irritável.
A constipação funcional e a dor abdominal funcional da criança não têm protocolo clínico e diretriz terapêutica do Ministério da Saúde. A régua brasileira de cada uma é da Sociedade Brasileira de Pediatria — o Guia Prático de Orientação nº 144, de abril de 2024, para a constipação, e o Guia Prático de Atualização nº 6, de janeiro de 2019, para a dor abdominal crônica —, e o SUS entra pela Rename, que define o que a farmácia da unidade entrega. Os dois guias aplicam os critérios de Roma IV, de 2016, e são esses que as diretrizes da sociedade europeia e da norte-americana de gastroenterologia pediátrica usam nas recomendações de tratamento de 2025 e de 2026. Roma V, publicado em 2026, revisou os critérios de constipação funcional, de síndrome do intestino irritável e de incontinência fecal não retentiva e trocou a divisão por idade por grupos de sintomas; como nenhuma régua em uso no Brasil já os adotou e o texto integral é de acesso restrito, este capítulo ensina os limiares de Roma IV e não reproduz os novos.
Por que acontece o que acontece
O trânsito colônico, a abordagem da constipação crônica do adulto e a síndrome do intestino irritável como doença do adulto estão em «Não ter nada não é diagnóstico», da apostila de Gastroenterologia, e a constipação de quem está acamado, em «O repouso que ninguém prescreveu», de Síndromes do Paciente Internado. Nada disso muda na criança, e o texto não o repete. O que cabe aqui é o que só a infância tem: a criança que aprende a segurar, o reto que se dilata para caber o que ela segura, o escape que sai dessa dilatação e a dor que aparece sem lesão — e com o que cada um desses mecanismos obriga a fazer.
Tudo começa com uma evacuação que doeu. Pode ter sido a fissura aberta por fezes ressecadas numa doença febril, o desfralde feito com pressa ou a escola sem privacidade para usar o banheiro. A criança associa a vontade de evacuar à dor e aprende a evitá-la. O guia brasileiro descreve o que os pais veem: a criança fica subitamente ansiosa, o corpo enrijece, o rosto empalidece, ela cruza as pernas, pula e corre para um canto da casa ou para trás de um sofá, em movimentos que se repetem sempre iguais. Os pais confundem esse comportamento de retenção com a tentativa de evacuar — e às vezes a estimulam com mais força, o que reforça o medo.
Cada retenção bem-sucedida deixa as fezes mais tempo no reto e no sigmoide, onde a água continua a ser absorvida. A fezes seguinte é maior e mais dura, a evacuação dói mais, e a criança segura com mais empenho: é um ciclo que se alimenta sozinho. Com as tentativas repetidas, o reto se dilata e passa a acomodar grandes quantidades de material fecal, e a criança deixa de perceber — ou de anunciar — a vontade na hora em que ela chega. A dieta pobre em fibra e a pouca água deixam o ponto de partida mais seco; mas é a retenção, e não a dieta, que sustenta o ciclo depois que ele começou.
O escape nasce da dilatação. A massa fecal endurecida ocupa o reto, e o conteúdo mais recente, mais mole, desce do cólon e escorre pela parede em volta dela até o canal anal, sem que a criança consiga contê-lo. É a incontinência fecal retentiva, que o guia brasileiro lembra ter sido chamada no passado de escape fecal ou soiling, e é a mancha que a família descreve como diarreia. Três consequências práticas saem daqui. O antidiarreico e a dieta obstipante pioram a criança, porque endurecem ainda mais a massa. O laxante de manutenção dado sobre um reto cheio aumenta o fluxo em volta da massa e, portanto, o escape — por isso a desimpactação vem antes da manutenção. E a ampola retal cheia de fezes comprime a bexiga e deixa urina parada, mecanismo pelo qual a constipação alimenta a infecção urinária de repetição, descrito em «Infecção urinária na criança», da apostila de Nefrologia Pediátrica.

A doença de Hirschsprung é o oposto no exame, e o contraste é o que mais ajuda a separar as duas no consultório. O segmento sem células ganglionares não relaxa e segura as fezes antes que elas cheguem ao reto: o dedo encontra um canal apertado e uma ampola sem conteúdo, e escape ou esforço intenso para evacuar são raros. Na retenção funcional, ao contrário, a ampola é larga e está ocupada. O guia brasileiro traz os dois retratos, e o reconhecimento, a biópsia e a cirurgia estão em «A cor do vômito e a fralda que não sujou», da apostila de Cirurgia Pediátrica, que usa a mesma distinção.
Os fármacos agem sobre o ciclo de maneiras diferentes, e a diferença explica os efeitos adversos. O macrogol, ou polietilenoglicol, é um polímero inerte, praticamente não absorvido, que se liga à água por pontes de hidrogênio — na proporção, citada pelo guia brasileiro, de cem moléculas de água para cada uma de polímero — e mantém água no conteúdo do cólon sem ser fermentado. A lactulose é um dissacarídeo sintético que as bactérias do cólon fermentam em ácidos de baixo peso molecular: os ácidos puxam água e baixam o pH, o que estimula a motilidade, e a fermentação produz gases e cólica. O óleo mineral não é absorvido e lubrifica as fezes, mas, aspirado, causa pneumonia lipoide exógena, e há relatos de granulomas intestinais: por isso nunca se dá à força, nem abaixo de 2 anos, nem à criança com distúrbio de deglutição.
No lactente, duas situações imitam a constipação sem sê-la. Na pseudoconstipação do aleitamento materno, o intervalo entre as evacuações aumenta, mas as fezes saem amolecidas e sem dor. Na disquesia do lactente, a criança com menos de 9 meses faz força ou chora por pelo menos 10 minutos antes de evacuar — com sucesso ou não — e não tem nenhum outro problema de saúde; o critério é de Roma IV, e a condição desaparece sozinha. O que se aprende com as duas é que o esforço visível e o intervalo longo não medem a consistência das fezes, e só a consistência dura, a dor e a retenção fazem constipação.
A dor abdominal funcional não é dor imaginada. Roma IV descreve a síndrome do intestino irritável da criança como distúrbio do eixo intestino-cérebro, em que cada criança tem afetado um componente diferente: há crianças com hiperalgesia retal e sem hiperalgesia gástrica, e o inverso aparece em parte das crianças com dor abdominal funcional sem outra especificação. A hipersensibilidade visceral relaciona-se ao sofrimento psicológico — ansiedade, depressão, raiva —, e parte dos casos começa depois de uma gastroenterite aguda, com citocinas inflamatórias aumentadas na mucosa. Na dispepsia funcional, há crianças com acomodação gástrica prejudicada e esvaziamento lento, e um quarto delas desenvolve o quadro depois de uma gastroenterite bacteriana. A dor é sentida de verdade, por um sistema que amplifica o sinal; dizer que não há nada é negar o que a criança sente, e é por isso que as terapias que atuam sobre a percepção da dor — a terapia cognitivo-comportamental e a hipnoterapia — são as que têm a evidência mais forte.
Como se apresenta de verdade
Há dois percursos principais neste capítulo. No primeiro, dor ao evacuar, retenção e escape formam o ciclo da constipação; diferencie também disquesia e variações normais do lactente. No segundo, a dor abdominal recorrente é avaliada pelo impacto na vida e pelos sinais de alerta. Os percursos se conectam: tratar retenção pode esclarecer parte da dor. Suspeita de doença orgânica exige investigação dirigida e encaminhamento conforme os achados.
A criança que segura: o retrato da constipação funcional
A história da constipação funcional tem quatro elementos, e a família raramente os traz na ordem certa. O primeiro é a frequência: poucas evacuações por semana. O segundo é a consistência e o calibre — fezes duras, em cíbalos ou grossas a ponto de entupir o vaso —, que a escala de Bristol ajuda a nomear. O terceiro é a dor: a criança chora, sangra no papel, tem medo do vaso. O quarto, o mais específico e o mais esquecido, é a retenção: a postura de segurar, as pernas cruzadas, a ponta dos pés, o canto da casa. Uma criança que evacua a cada dois dias fezes macias e sem dor não está constipada; uma que evacua todos os dias pequenas quantidades de fezes duras, com dor e escape, está.
Para a criança com idade de desenvolvimento a partir de 4 anos, Roma IV exige dois ou mais de seis achados, presentes ao menos uma vez por semana, por no mínimo um mês: duas evacuações ou menos no vaso por semana; ao menos um episódio de incontinência fecal por semana; história de postura de retenção ou retenção voluntária excessiva; história de evacuações dolorosas ou endurecidas; grande massa fecal no reto; e história de fezes de grande diâmetro, capazes de entupir o vaso. A criança não pode preencher os critérios da síndrome do intestino irritável, e os sintomas, depois de avaliação adequada, não podem ser explicados por outra condição. Caetano tem cinco dos seis: evacua uma vez a cada cinco ou seis dias, perde fezes todos os dias, segura atrás do sofá, chora para evacuar e entope o vaso.
Abaixo dos 4 anos, a lista do guia brasileiro tem cinco itens, dos quais dois ou mais devem estar presentes por pelo menos um mês: duas evacuações ou menos por semana, retenção excessiva de fezes, dor ou dificuldade para evacuar, fezes de grande calibre e massa fecal no reto. Na criança que já tem controle esfincteriano entram dois critérios adicionais: um episódio de incontinência fecal por semana e fezes volumosas que obstruem o vaso. Para a criança maior, Roma IV reduziu a duração exigida de dois meses para um, igualando-a à da criança pequena e às diretrizes de 2014 das sociedades europeia e norte-americana, que viam no intervalo de dois meses um atraso indevido do tratamento.
Nem toda constipação começa crônica. A criança com uma doença aguda come e bebe menos, e as fezes diminuem e ressecam; na maioria das vezes o hábito volta com a recuperação, mas o guia brasileiro lembra que esse episódio pode ser o começo de uma constipação funcional, se a evacuação dolorosa desse período ensinar a criança a segurar. Esse é o momento de prevenção que a consulta de retorno de uma doença febril costuma perder.
O escape que a família chama de diarreia
A incontinência fecal da criança constipada é quase sempre retentiva: vem de um reto cheio. A família conta manchas ou fezes pastosas na roupa, várias vezes ao dia, sem aviso, com cheiro forte, e a criança parece não perceber — o que irrita os adultos e costuma render bronca, que alimenta a retenção. O que separa o escape da diarreia está na própria história: as evacuações de verdade são raras, grandes e duras, e o abdome ou o reto têm fezes. É por isso que a pergunta decisiva, diante de uma queixa de diarreia na criança que já desfraldou, é quando foi a última evacuação grande e como ela era.
A incontinência fecal não retentiva é outra doença, e o tratamento é outro. Roma IV a define, na criança com idade de desenvolvimento acima de 4 anos e por pelo menos um mês, como evacuação em lugar inapropriado ao contexto sociocultural, sem nenhuma evidência de retenção fecal e sem outra condição que a explique depois de avaliação adequada. A frequência das evacuações é normal, e não há massa no abdome nem no reto. Essa criança não precisa de laxante: precisa de terapia comportamental, com uso regular do vaso e recompensa, e de alguém que investigue o que está por trás. O texto de Roma IV diz que ela pode ser a expressão de um sofrimento emocional, e que as vítimas de violência sexual precisam ser identificadas e encaminhadas.
A incontinência que aparece de repente numa criança que já tinha controle — a encoprese que se reinstala —, sobretudo quando vem com enurese nova, mudança de comportamento, dor ou sangramento anal, é um dos sinais indiretos de violência sexual listados em «Violência e maus-tratos infantis», da apostila de Emergências Pediátricas, que é dono da abordagem, da notificação e da proteção. Este capítulo fica com o reconhecimento de que o escape pode não ser constipação, e com uma regra de exame: com suspeita de violência sexual, não se faz toque retal na consulta; a avaliação é multiprofissional.
O lactente que faz força: o que não é constipação
O lactente em aleitamento materno exclusivo pode ficar vários dias sem evacuar e estar perfeitamente bem. Na pseudoconstipação do aleitamento, o intervalo aumenta, mas as fezes saem amolecidas, sem dor e sem esforço fora do comum, e a criança mama, cresce e não distende. O guia brasileiro é explícito: não há intervenção terapêutica a fazer. O que se faz é explicar à mãe que o intervalo não mede o intestino, e sim a consistência das fezes e o bem-estar do bebê — e não suspender o aleitamento nem introduzir chá, água ou fórmula para “soltar” o intestino.
A disquesia do lactente assusta mais do que a pseudoconstipação. O bebê, com menos de 9 meses, faz força, fica vermelho e chora por 10 minutos ou mais antes de evacuar, e as fezes que saem são moles; o critério de Roma IV exige a ausência de outros problemas de saúde. A disquesia não precisa de tratamento e desaparece sozinha, e o guia brasileiro insiste no reconhecimento justamente para impedir o que costuma acontecer: supositório, estímulo retal com haste flexível ou termômetro e laxante.
A constipação verdadeira do lactente existe e segue os critérios da criança menor de 4 anos, mas pede mais atenção aos sinais de alarme do que a do pré-escolar. O guia brasileiro lembra que, quando a constipação é causada por doença orgânica, a natureza real do problema geralmente fica evidente na primeira infância. Início no primeiro mês de vida, mecônio eliminado depois de 48 horas, distensão e vômito, ganho de peso ruim ou alteração do exame da coluna tornam o lactente constipado um caso de investigação. E o lactente com constipação que não responde ao tratamento é o que o guia brasileiro e a diretriz de 2026 indicam para o teste de exclusão da proteína do leite de vaca, descrito na conduta.
Os sinais de alarme da constipação — e para onde cada um aponta
Os sinais de alarme reúnem o guia brasileiro e a Tabela 3 de Roma IV, e cada um aponta para um grupo de doenças. Os da história neonatal — mecônio eliminado depois de 48 horas num recém-nascido de termo, constipação que começa no primeiro mês de vida, doença de Hirschsprung na família — e o reto estreito e vazio ao exame apontam para a doença de Hirschsprung. Fezes em fita, vômito bilioso e distensão abdominal grave apontam para obstrução. O baixo ganho de peso e de estatura e a queda do estado geral apontam para doença sistêmica — a doença celíaca entre elas.
A tireoide aumentada ou um quadro de hipotireoidismo apontam para a glândula: o hipotireoidismo congênito do recém-nascido é detectado pelo teste do pezinho e está em «O pezinho voltou alterado». Os sinais da coluna e da medula — fosseta sacral, tufo de pelos na coluna, desvio do sulco interglúteo, reflexo anal ou cremastérico ausente e força, tônus ou reflexos diminuídos nas pernas — apontam para disrafismo e lesão medular, e mandam a criança para investigação dirigida, que não é deste capítulo. Ânus em posição anormal e fístulas perineais apontam para malformação anorretal. Sangue nas fezes sem fissura que o explique pede investigação da mucosa. Cicatrizes anais apontam para violência.
Caetano não tem nenhum desses sinais, e o exame dele foi feito para procurá-los: o ânus na posição habitual, a fissura que explica o sangue, a região sacral lisa, o sulco reto, os reflexos e a força das pernas presentes e a curva de crescimento no mesmo canal. Um sinal de alarme não faz diagnóstico, mas muda a pergunta: deixa de ser como tratar uma constipação funcional e passa a ser o que está causando a constipação dessa criança.
Dor abdominal funcional: quatro quadros, quatro critérios
O guia brasileiro de 2019 descreve a dor abdominal crônica funcional típica: periumbilical ou epigástrica, raramente irradiada, em episódios de minutos a horas intercalados com períodos de bem-estar, durante o dia, às vezes intensa a ponto de fazer chorar e interromper as atividades, às vezes com palidez, sudorese, náusea ou vômito. Roma IV divide a dor abdominal funcional da criança e do adolescente em quatro quadros, e todos terminam com a mesma exigência: depois de avaliação adequada, os sintomas não podem ser explicados por outra condição médica.
A dispepsia funcional exige um ou mais sintomas incômodos, pelo menos quatro dias por mês, por dois meses: plenitude pós-prandial, saciedade precoce ou dor ou queimação epigástrica que não se associa à evacuação. A síndrome do intestino irritável exige dor abdominal pelo menos quatro dias por mês, por dois meses, associada a pelo menos um de três elementos — relação com a evacuação, mudança da frequência ou mudança da forma das fezes —, e tem uma regra que liga as duas metades deste capítulo: na criança constipada, a dor não pode desaparecer com o tratamento da constipação. A criança cuja dor some quando o intestino passa a funcionar tinha constipação funcional, não síndrome do intestino irritável.
A migrânea abdominal exige, por seis meses, pelo menos dois episódios paroxísticos de dor intensa, periumbilical, na linha média ou difusa, com uma hora ou mais de duração, separados por semanas a meses, incapacitantes, com padrão estereotipado na mesma criança e acompanhados de dois ou mais de anorexia, náusea, vômito, cefaleia, fotofobia e palidez. Entre as crises a criança está bem, e é esse intervalo livre que a separa da dor que volta toda semana.
A dor abdominal funcional sem outra especificação é o que sobra: dor episódica ou contínua, ao menos quatro vezes por mês, por dois meses, que não acontece só durante eventos fisiológicos como comer ou menstruar, numa criança que não preenche critério para os outros três quadros. É o quadro de Iara: dor periumbilical quase diária nas manhãs de aula, que não muda com a evacuação, com hábito intestinal normal, sem saciedade precoce nem queimação, sem crises separadas por semanas. Na adolescente, a exigência de que a dor não seja só menstrual existe para que a dismenorreia e a dor pélvica não sejam rotuladas como funcionais.
O que tira a dor do funcional
Os sinais de alerta para doença orgânica na dor abdominal crônica são os da Tabela 2 de Roma IV, que o guia brasileiro de 2019 adota: doença inflamatória intestinal, doença celíaca ou doença péptica na família; dor persistente no quadrante superior ou inferior direito; disfagia; odinofagia; vômitos persistentes; sangramento gastrointestinal; diarreia noturna; artrite; doença perianal; perda de peso involuntária; desaceleração do crescimento linear; atraso puberal; e febre sem explicação. O guia brasileiro acrescenta duas perguntas simples que valem muito: a dor que acorda a criança à noite e a dor que interrompe atividades prazerosas devem alertar para causa orgânica.
Nenhum sinal isolado prova doença, e Roma IV pede julgamento clínico — o sinal é lido dentro da história e do exame. Mas o raciocínio é o mesmo da constipação: cada sinal presente transforma a pergunta, e quanto mais sinais, maior a probabilidade de doença orgânica. A diarreia noturna e a perda de peso pedem investigação de doença inflamatória intestinal; a desaceleração da estatura e o atraso puberal, de doença celíaca e de outras doenças crônicas; o vômito persistente e a disfagia, de doença do esôfago e do estômago.
A dor aguda é outro capítulo. Dor abdominal que começou há horas ou poucos dias, com febre, vômito, defesa ou dor à descompressão, não é dor abdominal funcional nem na criança que já tinha dor crônica, e sai daqui para «Apendicite aguda», de Urgência e Emergência Cirúrgica, ou, no lactente com choro em crises, palidez e fezes com muco e sangue, para «Invaginação intestinal do lactente», de Cirurgia Pediátrica. Iara não tem nenhum sinal de alerta: cresce no canal, não perde peso, não acorda com dor, não vomita, não tem diarreia e não tem ninguém na família com doença inflamatória intestinal, celíaca ou úlcera — pergunta que precisa ser feita, não suposta.
Como fechar o diagnóstico
Na maioria das crianças com constipação funcional ou dor abdominal funcional, a investigação é a história e o exame, e o diagnóstico é positivo: faz-se pelos critérios, não pela exclusão de tudo o que poderia ser. O que se pede de exame é pouco e tem indicação escrita — o sinal de alarme, a falta de resposta ao tratamento bem feito, a norma que manda rastrear. Este bloco diz o que perguntar, o que examinar, quando fazer o toque retal e quando não fazê-lo, o que não pedir e em que criança o exame muda a conduta.
A história que faz o diagnóstico
O guia brasileiro pede cinco dados da evacuação: a idade de início, a frequência, o tamanho e a consistência das fezes, o hábito de retenção e a presença de incontinência fecal. A escala de Bristol, mostrada à família, substitui a palavra “dura”, que cada um entende de um jeito. Pergunte pela história familiar de constipação e de outros distúrbios funcionais, que é frequente, em parte porque a dieta é da família inteira. Pergunte quando o bebê eliminou o mecônio — a caderneta costuma registrar a alta, e a mãe costuma lembrar se houve demora — e quando começou a constipação: no primeiro mês de vida, o raciocínio muda.
Na criança com escape, Roma IV pede ainda a dieta, os medicamentos, os sintomas urinários que coexistem, as comorbidades psicossociais e o estresse da família ou da própria criança. Dos medicamentos, o guia brasileiro lista os que constipam — fenitoína, imipramina, fenotiazínicos, codeína e sais de ferro. O último é o que mais aparece no ambulatório: a criança em tratamento ou profilaxia de anemia ferropriva, cuja dose e cujo manejo estão em «O que está escrito no vidro não é a dose», de Hematologia Pediátrica. Pergunte pelo desfralde — quando, como, com que pressa —, pelo banheiro da escola e pelo que acontece em casa quando a criança se suja. Pergunte pela urina: perda de urina de dia, urgência, manobras para segurar e infecção urinária na história fazem da constipação metade de uma disfunção vesical e intestinal.
Na dor abdominal crônica, a história é o próprio exame complementar. Onde dói, quanto tempo dura cada episódio, a que horas, com que frequência, se tem relação com as refeições, com a evacuação, com a menstruação, se acorda a criança, se a impede de brincar, quantos dias de aula ela perdeu no último mês. O guia brasileiro de 2019 recomenda construir essa história centrada na criança e sem julgamento, entender o que a família pensa que a criança tem e partir das preocupações dela: Gildete tem medo de apendicite e de verme, e a consulta que não responder a esse medo vai terminar num terceiro pronto-atendimento.
O exame que procura o que não é funcional
O exame da criança constipada tem um roteiro, e cada parte dele procura um sinal de alarme. Peso e estatura vão para a curva da caderneta — a interpretação do canal e da queda de canal está em «A linha, não o ponto». No abdome, avalie o tônus da musculatura, a distensão e o conteúdo: a massa fecal é endurecida, costuma ocupar o hipogástrio e a fossa ilíaca esquerda e se deixa moldar pela palpação. Inspecione a região perineal com a criança deitada e o responsável ao lado: a posição do orifício anal, fissuras, fístulas, cicatrizes e fezes na pele.
A região lombossacra é examinada com a criança de bruços: fosseta, tufo de pelos, mancha, desvio do sulco interglúteo. O exame neurológico dos membros inferiores inclui força, tônus e reflexos, e o reflexo cremastérico no menino. Palpe a tireoide. Nada disso leva mais de cinco minutos, e é o que autoriza dizer à família que não há sinal de doença orgânica.
Na dor abdominal crônica, o guia brasileiro de 2019 pede peso, estatura, velocidade de crescimento e estágio puberal, e um exame abdominal detalhado — localização da dor, massas, fígado, baço e lojas renais —, com avaliação perianal. A velocidade de crescimento pesa muito: a desaceleração do crescimento linear e o atraso puberal estão na lista de alerta de Roma IV, a baixa estatura está entre as indicações de investigação da doença celíaca no protocolo federal, e a caderneta com pontos de um ano atrás responde uma pergunta que nenhum exame de sangue responde.
O toque retal: quando sim, quando não
O toque retal não é rotina no diagnóstico da constipação. O guia brasileiro não encontra evidência que o sustente como rotina, sobretudo depois do primeiro ano de vida e na criança sem sinais de alarme, e o reserva para três situações: suspeita de fecaloma, presença de sinais de alarme e suspeita de causa orgânica. A recomendação de 2014 que Roma IV endossa acrescenta a quarta: quando a criança tem só um critério de Roma e o diagnóstico fica incerto, o toque confirma a retenção e afasta outras condições.
O que o dedo encontra separa as duas doenças que mais importam. A retenção funcional deixa uma ampola larga, ocupada por fezes endurecidas. Na doença de Hirschsprung, o dedo passa por um canal apertado e chega a uma ampola sem fezes, porque o bolo ficou parado antes do segmento que não relaxa. Um reto vazio numa criança muito constipada desde o primeiro mês de vida é um achado que muda de capítulo.
Há uma situação em que o toque retal não se faz: a suspeita de violência sexual. O guia brasileiro é explícito — é situação que exige avaliação multiprofissional —, e a abordagem, com a notificação, é a de «Violência e maus-tratos infantis». Em Caetano, o toque não acrescenta nada: há cinco critérios, a massa é palpável no abdome e não há sinal de alarme. Fazê-lo numa criança de 4 anos com fissura e medo de evacuar teria custo e nenhum benefício.
Na constipação, quase nenhum exame
A radiografia simples de abdome não diagnostica constipação funcional e não se pede de rotina. O guia brasileiro e a recomendação de 2014 endossada por Roma IV dão a ela uma única indicação: suspeita de impactação numa criança em que a palpação do abdome é difícil ou pouco confiável, como a criança obesa ou a que não deixa examinar.
Exames de sangue também não entram na criança sem sinal de alarme. A recomendação de 2014 reproduzida por Roma IV diz que não se rastreiam hipotireoidismo, doença celíaca e hipercalcemia na criança constipada sem sinais de alarme, nem se testa alergia ao leite de vaca. O guia brasileiro abre a porta para a criança que não responde ao tratamento inicial: aí o hormônio tireoestimulante com a tiroxina livre, o cálcio e a sorologia da doença celíaca podem ser pedidos. O distúrbio metabólico que constipa é a hipercalcemia; o guia brasileiro escreveu hipercalemia, e o erro está registrado nas notas do bloco de critério.
O enema opaco não é exame inicial de constipação funcional. A manometria anorretal tem como principal indicação a constipação refratária, para verificar o reflexo inibitório retoanal, e pode ser útil na criança maior com sintomas sugestivos de doença de Hirschsprung; a biópsia retal é o padrão-ouro para o diagnóstico dessa doença. Os dois exames são do especialista, e a escolha entre eles está em «A cor do vômito e a fralda que não sujou».
Na dor abdominal crônica: o mínimo e o dirigido
O guia brasileiro de 2019 sugere uma avaliação laboratorial básica para a criança com dor abdominal crônica: hemograma, sumário de urina e exame parasitológico de fezes. É um conjunto que cabe na unidade básica e que, num país em que a parasitose intestinal ainda é frequente, tem razão de ser. A sorologia da doença celíaca entra por norma federal: o protocolo clínico da doença celíaca de 2025 manda rastrear, com antitransglutaminase IgA e IgA total pedidas juntas, a pessoa com síndrome do intestino irritável e a que tem sintomas crônicos do trato gastrointestinal. Conforme a história, o guia de 2019 amplia para velocidade de hemossedimentação, proteína C-reativa, função tireoidiana, amilase e lipase.
O que não se pede também está escrito. O guia de 2019 diz que exames de imagem de rotina, incluindo a ultrassonografia, não são mais indicados na criança sem evidência clínica de causa orgânica — e é exatamente o exame que Gildete veio pedir. Roma IV não exige endoscopia para diagnosticar dispepsia funcional e registra que não há evidência, na criança, de que a gastrite por Helicobacter pylori cause sintoma dispéptico sem úlcera duodenal: pesquisar e tratar a bactéria na criança com dor funcional não trata a dor. A calprotectina fecal é citada por Roma IV como triagem não invasiva de inflamação da mucosa, superior à proteína C-reativa, na criança com síndrome do intestino irritável com diarreia, em que infecção, doença celíaca, má absorção de carboidratos e doença inflamatória intestinal merecem atenção.
Na criança com dor, distensão e diarreia, o guia de 2019 aceita tirar a lactose por algum tempo, sem teste prévio: se a criança melhora, a hipótese é má absorção. A retirada de alimentos por conta própria, porém, tem custo — a diretriz de 2025 lembra que dietas restritivas pedem esforço desproporcional da criança e cautela em quem tem risco de transtorno alimentar —, e toda restrição com duração deve ser supervisionada por nutricionista.
Celíaca, tireoide, leite de vaca e medula: quando ir atrás
A doença celíaca pode se apresentar com constipação, e o protocolo federal a lista entre as manifestações intestinais. A sorologia de rastreamento é a antitransglutaminase IgA com a IgA total, pedidas juntas; até 2 anos, o protocolo admite o anticorpo contra peptídeo de gliadina desamidada IgG. O diagnóstico é sempre confirmado por biópsia duodenal, e o glúten não se retira da dieta antes do diagnóstico, porque a retirada falseia os dois exames. Na criança constipada sem sinal de alarme, a sorologia espera a falta de resposta ao tratamento bem feito — a divergência entre o guia brasileiro e o protocolo federal está resolvida no bloco de divergências; na criança com dor abdominal crônica, entra na primeira avaliação. A confirmação, a dieta e o seguimento são de «Diarreia persistente e crônica na criança e doença celíaca», desta apostila.
O hipotireoidismo congênito é detectado no teste do pezinho e está em «O pezinho voltou alterado». O hipotireoidismo adquirido entra pela mesma porta da doença celíaca: sinal clínico — tireoide aumentada, desaceleração do crescimento, pele seca e sonolência — ou constipação que não responde. O cálcio sérico acompanha esses exames no refratário.
A alergia à proteína do leite de vaca não se testa de rotina na criança constipada. No lactente com constipação refratária, o guia brasileiro indica o teste terapêutico: dieta sem proteína do leite de vaca, seguida de desencadeamento oral aberto para confirmar. A diretriz de 2026 sugere, com recomendação condicional e certeza baixa, a dieta sem leite de vaca por 2 a 4 semanas como adjuvante na criança que não responde ao tratamento convencional e em quem há suspeita de alergia. A escolha da fórmula, a dieta da mãe que amamenta e o diagnóstico da alergia são de «Alergia à proteína do leite de vaca», desta apostila.
Os sinais de disrafismo — fosseta sacral, tufo de pelos, desvio do sulco interglúteo — e o déficit neurológico das pernas pedem investigação dirigida da coluna e da medula e o encaminhamento ao especialista; a constipação dessa criança é neurogênica e sai do escopo deste capítulo. A criança com mielomeningocele ou paralisia cerebral tem constipação por outro mecanismo e outro plano de cuidado, e o guia brasileiro a lista entre as constipações neurogênicas.
Da queixa ao plano: funcional ou não, esvaziar ou manter, quanto e até quando
Para constipação, procure sinais de alarme, confirme retenção e decida se há impactação. Depois organize desimpactação, manutenção e retirada gradual. Para dor abdominal, avalie sinais de alerta, relação com evacuação e impacto em escola, sono e atividades. As duas linhas têm metas próprias; um diagnóstico funcional não dispensa acompanhamento nem significa que o sintoma seja inventado.
- 1Queixa de diarreia na criança que já desfraldou: pergunte quando foi a última evacuação grande e como ela era. Evacuações raras, grandes e duras com manchas na roupa entre elas são incontinência fecal retentiva — sem antidiarreico, sem dieta obstipante.
- 2Lactente com menos de 9 meses que faz força ou chora por 10 minutos ou mais e elimina fezes moles, sem outro problema de saúde: disquesia. Lactente em aleitamento materno exclusivo com intervalo longo e fezes amolecidas, sem dor: pseudoconstipação. Nenhum dos dois recebe laxante, supositório ou estímulo retal.
- 3Qualquer sinal de alarme — mecônio após 48 horas no recém-nascido de termo, início no primeiro mês, Hirschsprung na família, fezes em fita, vômito bilioso, distensão grave, déficit de crescimento, tireoide anormal, alteração anal, sacral ou neurológica, sangue sem fissura, cicatriz anal —: a pergunta passa a ser a causa, com investigação e destino pelo sinal (segunda tabela).
- 4Suspeita de violência sexual — encoprese que se reinstala, sangramento ou cicatriz anal, mudança súbita de comportamento —: sem toque retal; avaliação multiprofissional e notificação por «Violência e maus-tratos infantis».
- 5Sem sinal de alarme e com dois ou mais critérios de Roma IV por um mês: constipação funcional, com diagnóstico positivo. Sem exame de sangue e sem radiografia; toque retal só com critério isolado e diagnóstico incerto, ou com suspeita de fecaloma que a palpação não confirma.
- 6Massa fecal palpável, reto cheio ou escape diário: desimpactar antes de manter. Macrogol 1 a 1,5 g/kg/dia por via oral, por 3 a 6 dias, sem passar da dose do adulto; sem macrogol ou sem aceitação oral, acima de 1 ano, enema de soro fisiológico a 0,9%, 6 mL/kg, uma ou duas vezes ao dia, pelo mesmo prazo.
- 7Desimpactação completa — fezes amolecidas ou líquidas, sem massa palpável —: manutenção a partir do dia seguinte. Macrogol 0,4 a 0,8 g/kg/dia ou, sem ele, lactulose 1 a 3 mL/kg/dia sem passar de 30 mL/dia; ajuste pela consistência até fezes pastosas diárias ou a cada dois dias.
- 8Desde o primeiro dia, junto com o fármaco: explicação à família e à criança sem culpa, sentar no vaso 5 a 10 minutos depois das refeições com os pés apoiados num banquinho e redutor no assento, registro das evacuações e dos escapes, elogio sem punição, dieta com fibra e água adequadas à idade, sem suplemento de fibra.
- 9Manter por pelo menos dois meses e só começar a reduzir depois de um mês inteiro sem nenhum sintoma; reduzir aos poucos, mantendo o programa de toalete, e voltar à dose anterior se as fezes endurecerem ou o escape voltar.
- 10Sem resposta: conferir adesão, dose, preparo e se a desimpactação foi completa antes de trocar o plano. Sem resposta ao tratamento bem feito: hormônio tireoestimulante com tiroxina livre, cálcio e sorologia da doença celíaca; com suspeita de alergia ao leite de vaca, dieta sem a proteína por 2 a 4 semanas e reintrodução aberta; encaminhamento à gastroenterologia pediátrica. Refratária, na definição de 2026, é a que não responde à dose máxima de dois laxantes de classes diferentes por três meses, com boa adesão, no serviço especializado.
- 11Escape com frequência de evacuação normal, sem massa no abdome nem no reto, acima de 4 anos: incontinência fecal não retentiva — sem laxante; terapia comportamental e investigação do contexto da criança, violência incluída.
- 12Dor abdominal crônica com sinal de alerta de Roma IV, dor que acorda à noite ou que interrompe atividade prazerosa: investigar doença orgânica pelo sinal antes de rotular. Dor aguda com febre, vômito, defesa ou descompressão dolorosa: abdome agudo, fora deste capítulo.
- 13Dor abdominal crônica sem sinal de alerta: classificar pelos critérios — dispepsia funcional, síndrome do intestino irritável, migrânea abdominal ou dor abdominal funcional sem outra especificação —; hemograma, sumário de urina, parasitológico de fezes e sorologia da doença celíaca; sem ultrassonografia de rotina, sem endoscopia para diagnosticar dispepsia e sem pesquisa de Helicobacter pylori para explicar a dor.
- 14Dor abdominal funcional: diagnóstico positivo explicado à criança e à família, volta à escola com plano combinado, terapia cognitivo-comportamental ou hipnoterapia onde houver; na síndrome do intestino irritável com constipação, tratar a constipação e rever o diagnóstico se a dor desaparecer; fármaco só como opção condicional e com o especialista.
Roma IV na criança: o que conta, com que frequência e por quanto tempo
| Quadro | Idade | O que exige | Frequência e duração | O que exclui |
|---|---|---|---|---|
| Constipação funcional | Menor de 4 anos | Dois ou mais de: duas evacuações ou menos por semana; retenção excessiva; dor ou dificuldade para evacuar; fezes de grande calibre; massa fecal no reto. Com controle esfincteriano, somam-se um escape por semana e fezes que obstruem o vaso | Pelo menos 1 mês | Sintomas explicados por outra condição médica |
| Constipação funcional | Idade de desenvolvimento de 4 anos ou mais | Dois ou mais de: duas evacuações ou menos no vaso por semana; um escape por semana; postura ou retenção voluntária excessiva; evacuação dolorosa ou endurecida; grande massa fecal no reto; fezes de grande diâmetro que entopem o vaso | Ao menos uma vez por semana, por no mínimo 1 mês | Critérios suficientes para síndrome do intestino irritável; outra condição médica |
| Incontinência fecal não retentiva | Idade de desenvolvimento acima de 4 anos | Evacuação em lugar inapropriado ao contexto sociocultural | Pelo menos 1 mês | Qualquer evidência de retenção fecal; outra condição médica |
| Disquesia do lactente | Menor de 9 meses | Pelo menos 10 minutos de esforço ou choro antes de evacuar fezes moles, com ou sem sucesso | Sem exigência de duração | Outros problemas de saúde |
| Dispepsia funcional | 4 a 18 anos | Um ou mais sintomas incômodos: plenitude pós-prandial; saciedade precoce; dor ou queimação epigástrica sem relação com a evacuação | Pelo menos 4 dias por mês, por 2 meses | Sintomas explicados por outra condição médica |
| Síndrome do intestino irritável | 4 a 18 anos | Dor abdominal associada a um ou mais de: relação com a evacuação; mudança da frequência; mudança da forma das fezes | Pelo menos 4 dias por mês, por 2 meses | Dor que desaparece com o tratamento da constipação (é constipação funcional); outra condição médica |
| Migrânea abdominal | 4 a 18 anos | Crises paroxísticas de dor intensa, periumbilical, na linha média ou difusa, de 1 hora ou mais, incapacitantes, estereotipadas, separadas por semanas a meses, com dois ou mais de anorexia, náusea, vômito, cefaleia, fotofobia e palidez | Ao menos duas crises, com 6 meses de história | Sintomas explicados por outra condição médica |
| Dor abdominal funcional sem outra especificação | 4 a 18 anos | Dor episódica ou contínua que não ocorre só em eventos fisiológicos, como comer ou menstruar | Pelo menos 4 vezes por mês, por 2 meses | Critérios suficientes para os outros três quadros; outra condição médica |
Sinal de alarme, hipótese e destino
| Sinal | O que sugere | O que fazer e para onde |
|---|---|---|
| Mecônio após 48 horas no recém-nascido de termo; constipação desde o primeiro mês; Hirschsprung na família; reto estreito e vazio ao toque | Doença de Hirschsprung | Encaminhar ao cirurgião pediátrico; manometria e biópsia retal são do especialista — «A cor do vômito e a fralda que não sujou» |
| Vômito bilioso; distensão abdominal grave; fezes em fita | Obstrução intestinal | Avaliação cirúrgica no mesmo dia — «A cor do vômito e a fralda que não sujou» e «Invaginação intestinal do lactente» |
| Baixo ganho de peso e estatura; queda do estado geral | Doença sistêmica, doença celíaca entre elas | Curva da caderneta, hemograma, antitransglutaminase IgA com IgA total e investigação dirigida |
| Tireoide aumentada; quadro clínico de hipotireoidismo | Hipotireoidismo | Hormônio tireoestimulante e tiroxina livre; o congênito está em «O pezinho voltou alterado» |
| Fosseta sacral; tufo de pelos na coluna; desvio do sulco interglúteo; reflexo anal ou cremastérico ausente; força, tônus ou reflexos das pernas diminuídos | Disrafismo ou lesão medular | Investigação da coluna e da medula com o especialista; constipação neurogênica, fora deste capítulo |
| Ânus em posição anormal; fístula perineal | Malformação anorretal | Encaminhar ao cirurgião pediátrico |
| Sangue nas fezes sem fissura que o explique | Doença da mucosa | Investigação com a gastroenterologia pediátrica |
| Cicatriz anal; encoprese que se reinstala; sangramento anal sem explicação | Violência sexual | Sem toque retal; avaliação multiprofissional e notificação — «Violência e maus-tratos infantis» |
| Na dor abdominal crônica: dor que acorda à noite ou interrompe atividade prazerosa; perda de peso; desaceleração do crescimento; atraso puberal; vômito persistente; disfagia; odinofagia; sangramento; diarreia noturna; artrite; doença perianal; febre sem explicação; dor persistente no quadrante direito; doença inflamatória intestinal, celíaca ou péptica na família | Doença orgânica | Investigação dirigida pelo sinal antes de qualquer rótulo funcional |
Dose na criança, teto e apresentação — a conta para Caetano, 16 kg, e Cauã, 22 kg
| Fármaco e uso | Dose na criança | Teto | Apresentação e onde se consegue | 16 kg | 22 kg |
|---|---|---|---|---|---|
| Macrogol — desimpactação | 1 a 1,5 g/kg/dia, por 3 a 6 dias | 5 envelopes de 14 g por dia (65,6 g de macrogol), a dose da constipação intensa na bula | Fora da Rename 2024: a família compra. Macrogol 3350 ou 4000, com ou sem eletrólitos, industrializado ou manipulado; o envelope de 14 g com eletrólitos tem 13,125 g de macrogol e se dissolve em 125 mL de água | 16 a 24 g/dia — 152 a 229 mL da solução do envelope | 22 a 33 g/dia — 210 a 314 mL da solução do envelope |
| Macrogol — manutenção | 0,4 a 0,8 g/kg/dia; o guia brasileiro aceita começar em 0,2 | 2 envelopes por dia (26,25 g de macrogol) | A mesma | 6,4 a 12,8 g/dia — 61 a 122 mL da solução | 8,8 a 17,6 g/dia — 84 a 168 mL da solução |
| Lactulose — manutenção sem macrogol | 1 a 3 mL/kg/dia do xarope, em 1 ou 2 tomadas | 30 mL/dia, a dose do adulto na bula | Xarope de 667 mg/mL, Componente Básico da Rename 2024 | 16 a 30 mL/dia — de 8 a 15 mL duas vezes ao dia | 22 a 30 mL/dia — de 11 a 15 mL duas vezes ao dia |
| Óleo mineral — segunda linha, nunca de rotina | 1 a 3 mL/kg/dia (tabela de contexto da diretriz de 2026, a partir de 3 anos) | 90 mL/dia | Óleo para uso oral, Componente Básico; nunca abaixo de 2 anos, com distúrbio de deglutição ou à força | 16 a 48 mL/dia | 22 a 66 mL/dia |
| Soro fisiológico a 0,9% — enema de desimpactação acima de 1 ano | 6 mL/kg, uma ou duas vezes ao dia, por 3 a 6 dias | Não fixado nas fontes | Cloreto de sódio a 0,9% em solução injetável, Componente Básico | 96 mL por aplicação | 132 mL por aplicação |
| Glicerol retal | Sem volume pediátrico nas duas réguas | Não fixado nas fontes | Solução retal de 120 mg/mL e supositório, Componente Básico | Só com protocolo local que fixe o volume | Só com protocolo local que fixe o volume |
Dois percursos, metas diferentes
| Percurso | Primeira decisão | Meta de seguimento |
|---|---|---|
| Constipação com impactação | Desimpactar de modo apropriado e planejar manutenção | Fezes macias, sem dor, sem escape e sem retenção |
| Constipação em manutenção | Conferir dose, uso real e rotina de toalete | Resposta sustentada antes de redução gradual |
| Dor abdominal funcional | Avaliar critérios, sinais de alerta e impacto | Recuperar participação e reduzir incapacidade |
| Novo sinal de alarme | Reavaliar hipótese e gravidade | Investigação ou encaminhamento dirigidos |
Exemplo adicional de diário intestinal preenchido
| Dia | Fezes | Dor/escape | Tratamento e rotina | Leitura para o retorno |
|---|---|---|---|---|
| Segunda | Pequenas e endurecidas, Bristol 1 | Dor e pequena mancha na roupa | Dose prescrita esquecida; evitou banheiro da escola | Investigar retenção e barreira para uso do banheiro |
| Terça | Volumosas e duras, Bristol 2 | Dor ao evacuar, sem escape depois | Dose retomada; sentou após o jantar com apoio para os pés | Resposta ainda insuficiente; não encerrar manutenção |
| Quarta | Macias, Bristol 4 | Sem dor ou escape | Dose conforme plano; toalete sem pressão | Sinal de melhora; acompanhar antes de reduzir |
Hipercalemia no lugar de hipercalcemia. O Guia Prático de Orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2024 escreve, para a criança que não responde ao tratamento inicial, que a investigação de hipotireoidismo, de doença celíaca ou de hipercalemia pode ser considerada. A recomendação de origem — a de 2014 das sociedades europeia e norte-americana, reproduzida no texto de Roma IV como o item 8 das recomendações de avaliação — lista hipotireoidismo, doença celíaca e hipercalcemia. A troca de uma letra muda o exame pedido: a hipercalcemia constipa, o potássio alto não. Lido ao pé da letra, o guia leva a dosar o potássio e a não dosar o cálcio, e o documento não menciona o cálcio em nenhum outro ponto — a lista de causas endócrinas e metabólicas traz só hipotireoidismo e acidose tubular renal. Este capítulo manda dosar o cálcio.
Enema salino do lactente em mL/kg. O mesmo guia dá o enema de soro fisiológico como “5 a 10 mL/kg à noite” abaixo de 1 ano e 6 mL/kg acima. A tabela de doses da diretriz europeia e norte-americana de 2026 dá, para o recém-nascido, volume por dose — 5 mL abaixo de 1 kg e 10 mL acima de 1 kg — e 6 mL/kg só a partir de 1 ano: os números 5 e 10 aparecem nos dois documentos em unidades diferentes. Refeita a conta, o recém-nascido de termo de 3,5 kg receberia pelo guia brasileiro 17,5 a 35 mL, de 1,75 a 3,5 vezes os 10 mL da tabela, e o lactente de 8 kg, 40 a 80 mL. A tabela de 2026, por sua vez, não tem linha para o lactente de 1 mês a 1 ano. Este capítulo não indica enema abaixo de 1 ano: o lactente constipado com fecaloma é caso para o especialista.
Lactulose sem linha para a criança de 7 meses a 7 anos. A tabela de doses da diretriz de 2026 dá a lactulose em três linhas — recém-nascido e 1 a 7 meses, 350 a 700 mg/kg/dia; 7 a 18 anos, 0,6 a 2 g/kg/dia — e nenhuma para a criança de 7 meses a 6 anos e 11 meses, justamente a faixa do desfralde e do pico da constipação funcional; o texto confere no XML da publicação. Entre as linhas vizinhas o limite superior salta de 700 mg/kg para 2 g/kg, 2,9 vezes. No xarope de 667 mg/mL da Rename, as duas linhas equivalem a 0,5 a 1 mL/kg/dia e a 0,9 a 3 mL/kg/dia. Para qualquer idade, este capítulo usa a dose do guia brasileiro, 1 a 3 mL/kg/dia, com o teto de 30 mL/dia da bula.
Enema de fosfato de sódio sem teto e contraindicado no mesmo parágrafo. O guia brasileiro admite o enema de fosfato de sódio “em pacientes acima de um ano (2,5 mL/kg)”, sem teto, e duas frases adiante diz que ele deve ser evitado pelo risco de hiperfosfatemia. A tabela de 2026 começa aos 2 anos, com volume fixo: 29 mL de 2 a 4 anos, 59 mL de 5 a 11 e 118 mL de 12 a 18. Pela conta do guia, a criança de 14 meses e 10 kg receberia 25 mL numa idade que a tabela não cobre, e o adolescente de 60 kg, 150 mL — 32 mL acima do frasco de adulto da tabela. O enema de fosfato de sódio não consta da Rename 2024, e este capítulo não o indica: quando a desimpactação precisa ser retal, é com soro fisiológico.
A conduta, hora a hora
A receita deve identificar formulação, dose, concentração ou gramas por medida e como preparar. Pergunte o que a família consegue obter e usar; a disponibilidade modifica a escolha prática, mas não a necessidade de oferecer tratamento adequado. A orientação precisa ser demonstrável, com plano alternativo quando o produto prescrito não estiver acessível.
A linha do tempo cobre seis meses porque a constipação funcional se trata em meses. Os dois primeiros marcos são da consulta; o terceiro, dos dias em casa; os demais, dos retornos, com a agente comunitária de saúde entre eles. A conduta da irmã, Iara, está no caso resolvido.
Os esquemas deste caso identificam a formulação utilizada e as escolhas diante de divergências de bula e diretriz. A prescrição pediátrica é validada pela equipe. A redução do laxante é individual e gradual, depois de resposta sustentada; a sequência do caso exemplifica um plano possível, não um calendário obrigatório para toda criança.
Dia 0, 9h — consultório: o diagnóstico que troca a receita
Caetano preenche cinco dos seis critérios de Roma IV da criança de 4 anos ou mais, tem incontinência fecal retentiva e uma massa fecal palpável que define impactação, e a fissura explica o sangue no papel. O exame procurou e não achou nenhum sinal de alarme. O diagnóstico é constipação funcional, e ele é positivo: não precisa de exame para ser feito. A primeira decisão é suspender o que piora a criança — a água de arroz e o remédio para prender que Gildete veio buscar — e a segunda é devolver o menino à escola, que o afastou por uma diarreia que não existe. A interna explica a Gildete, em duas frases, que o escape é fezes mole vazando em volta de fezes dura presa, e combina que o plano tem duas fases e dura meses.
Prescrição- Suspender a água de arroz e qualquer medicamento para prender o intestino
- Nenhum exame de sangue, de fezes ou radiografia de abdome
- Declaração para a escola: constipação com escape, sem doença contagiosa; pode frequentar as aulas, com roupa de troca na mochila
- Registro na caderneta: 16 kg, 104 cm, cinco critérios de Roma IV, massa fecal palpável, fissura anal, sem sinal de alarme
Dia 0, 9h20 — desimpactar primeiro, pela boca se possível
O reto cheio precisa ser esvaziado antes da manutenção, ou o laxante diário só vai aumentar o escape. A via oral é a primeira escolha do guia brasileiro e poupa uma criança de 4 anos, com fissura e medo de evacuar, de um procedimento retal que a diretriz de 2026 manda decidir junto com a família pelo peso psicossocial que tem. A dose é de 1 a 1,5 g/kg/dia por 3 a 6 dias: para 16 kg, 16 a 24 g/dia. Gildete consegue comprar o macrogol manipulado, sem eletrólitos, em sachês de 2,5 g, que permitem ajustar a dose sem fracionar envelope — o envelope industrializado é para uso imediato depois de dissolvido. Se a família não pudesse comprar, a desimpactação seria retal, com soro fisiológico da unidade; a lactulose não é boa escolha para desimpactar, porque a diretriz de 2026 registra que faltam evidência de eficácia e dose estabelecida para essa indicação.
Prescrição- Macrogol 4000 sem eletrólitos, manipulado em sachês de 2,5 g (fora da Rename 2024: a família compra)
- Desimpactação: 4 sachês (10 g) dissolvidos num copo de água ou suco, de manhã e à tarde — 20 g/dia, 1,25 g/kg/dia — por 3 dias, até 6 dias se ainda houver massa palpável
- Sem macrogol: enema de soro fisiológico a 0,9%, 96 mL (6 mL/kg), aplicado na unidade uma vez ao dia, por 3 dias
- Retorno no dia 4, com o diário
Dias 1 a 3 — em casa: o que Gildete vai ver e quando voltar antes
A desimpactação oral piora antes de melhorar, e a família precisa saber disso antes de sair: o guia brasileiro registra que o macrogol se associa a mais incontinência fecal na fase inicial. Caetano vai ter cólica, uma ou mais evacuações grandes e depois fezes pastosas ou líquidas, com mais manchas na roupa. O sinal de que o reto esvaziou é a fezes mole sem pedaços duros e a barriga macia. A bronca a cada escape, que ajudou a criar o problema, precisa parar agora — e é o momento em que ela mais tende a voltar. Zuleide passa na casa no segundo dia.
Prescrição- Trocar a roupa sem bronca: o escape aumenta nos primeiros dias e é esperado
- Diário: cada evacuação com o tipo na escala de Bristol, cada escape e cada dose
- Sentar no vaso 5 a 10 minutos depois do almoço e do jantar, com banquinho para os pés
- Voltar antes se houver vômito, barriga distendida e dura, sangue além de raias no papel ou recusa de líquidos
Dia 4 — retorno: a ampola esvaziou e começa a manutenção
No terceiro dia vieram três evacuações grandes e depois fezes líquidas; hoje o abdome não tem massa, e o escape da última noite foi uma mancha só. A desimpactação está completa, e a manutenção começa amanhã. O objetivo, nas palavras do guia brasileiro, é fezes pastosas todo dia ou a cada dois dias, para prevenir a retenção e evitar a passagem de fezes volumosas. A dose de manutenção do macrogol é de 0,4 a 0,8 g/kg/dia: para 16 kg, 6,4 a 12,8 g. A interna começa com 10 g, ajusta pela consistência e deixa escrito, para o caso de o dinheiro acabar, o plano com a lactulose da unidade — 1 mL/kg/dia para começar, até 3 mL/kg/dia, sem passar dos 30 mL/dia da dose do adulto.
Prescrição- Macrogol 4000: 4 sachês (10 g) uma vez ao dia, de manhã — 0,62 g/kg/dia
- Ajustar pela consistência: diarreia, reduzir 1 sachê (2,5 g); fezes duras, aumentar 1 sachê, sem passar de 5 sachês (12,5 g/dia, 0,78 g/kg)
- Se faltar o macrogol: lactulose 667 mg/mL, 8 mL duas vezes ao dia (16 mL/dia, 1 mL/kg), podendo subir até 15 mL duas vezes ao dia (30 mL/dia, o teto)
- Toalete depois do almoço e do jantar, 5 a 10 minutos, com banquinho e redutor de assento; recompensa por sentar no horário, nunca punição pelo escape
- Frutas com casca e bagaço, verduras, leguminosas e pães integrais; água ao longo do dia; sem suplemento de fibra
Semana 2 — visita da agente comunitária: o diário e a primeira tentação de parar
Zuleide leva o diário para a equipe: fezes pastosas todos os dias, um escape em cinco dias, nenhum na escola. Caetano recusou o pó na água duas vezes, e Gildete passou a misturar no suco. A mãe pergunta se já pode parar, porque ele está bom. A resposta da equipe é que ele está bom porque está tomando, e que o guia brasileiro exige pelo menos dois meses de tratamento e um mês inteiro sem sintomas antes de começar a reduzir.
Prescrição- Manter o macrogol 10 g/dia, misturado no suco se ele recusar a água
- Não suspender por melhora: a primeira redução é discutida na consulta
- Consulta na semana 6
Semana 6 — consulta: três semanas sem escape
Caetano evacua todos os dias, fezes tipo 4 na escala de Bristol, sem dor e sem sangue; o último escape foi há três semanas, e ele pede para ir ao banheiro sozinho. O abdome não tem massa. Pesa 16,4 kg, no mesmo canal. O guia brasileiro manda manter a medicação por pelo menos dois meses e só considerar a redução gradual quando todos os sintomas tiverem desaparecido há pelo menos um mês: Caetano completa as duas condições por volta da semana 10, e a interna marca o retorno para depois disso, avisando que dose baixa e tratamento interrompido estão entre as causas de fracasso que o guia brasileiro mais aponta.
Prescrição- Manter o macrogol na dose que dá fezes pastosas diárias: 10 g/dia
- Manter o programa de toalete e o diário
- Retorno no terceiro mês de tratamento
Mês 3 — começar a reduzir, e o que seria feito se ele não tivesse respondido
Caetano está há semanas com fezes macias, sem dor nem escape, após manutenção bem executada. É possível discutir redução gradual com a família, mantendo rotina de toalete e acompanhamento. Neste caso, a dose será reduzida conforme a prescrição abaixo e revista se houver recaída. Outra criança pode precisar de uma redução mais lenta. Se a resposta fosse insuficiente, antes de chamar o quadro de refratário seria necessário confirmar desimpactação, produto, preparo, dose e uso real, além de rever sinais de alarme. Exames e intervenções adicionais são dirigidos pela hipótese; não se inicia uma dieta de exclusão apenas porque um laxante ainda não resolveu.
Prescrição- Macrogol 4000: 2 sachês (5 g) uma vez ao dia — 0,31 g/kg/dia — por 4 semanas
- Se as fezes endurecerem ou o escape voltar: retornar a 10 g/dia e manter por mais um mês antes de nova tentativa
- Manter o programa de toalete depois das refeições
Mês 4 a 6 — suspender, vigiar e saber o que fazer na recaída
O mês com meia dose passou sem escape e sem fezes duras, e o macrogol é suspenso. O programa de toalete continua, porque é ele que sustenta o hábito sem o fármaco. Gildete sai com um plano escrito para a recaída, que pode acontecer: voltar à última dose que funcionou e ligar para a equipe; se voltar a massa ou o escape diário, repetir a desimpactação antes de retomar a manutenção. No sexto mês, Caetano pesa 17 kg, evacua todos os dias sem remédio, e a declaração da escola já não é necessária.
Prescrição- Suspender o macrogol
- Manter o programa de toalete e o diário por mais um mês
- Na recaída: voltar a 10 g/dia de macrogol; com massa palpável ou escape diário, repetir a desimpactação de 20 g/dia por 3 dias
- Retorno no sexto mês com peso e estatura na caderneta
Como saber se está funcionando
Na constipação típica, o retorno é guiado por história, diário e exame pertinente, sem exames complementares de rotina. As metas são fezes macias e sem dor, desaparecimento do escape e redução do medo de evacuar. Se a resposta falhar, reveja impactação, acesso, preparo, dose e adesão; sinais de alerta ou persistência apesar de manejo adequado podem indicar investigação.
Na dor abdominal funcional, o alvo não é a dor zero. É a criança de volta à escola, às brincadeiras e ao sono, com crises menos frequentes e menos incapacitantes. O diário da dor e a frequência escolar dizem mais do que qualquer escala feita no consultório, e os sinais de alerta são repassados em todo retorno, porque a doença orgânica que não estava lá no primeiro dia pode aparecer depois.
Esperado: Fezes pastosas todos os dias ou a cada dois dias, eliminadas sem dor
Se não melhora: Fezes duras ou escape persistente pedem rever impactação, adesão, preparo e dose; ajuste deve considerar resposta e teto do produto. Fezes líquidas podem ser efeito do tratamento ou escape por retenção, por isso não reduzir automaticamente sem contexto. Persistência apesar de manejo adequado pede avaliação especializada.
Esperado: Aumenta nos primeiros dias da desimpactação e cai nas semanas seguintes até desaparecer
Se não melhora: Escape diário depois da desimpactação: palpar o abdome e pensar em reimpactação, com nova desimpactação. Escape com fezes normais e sem massa: incontinência fecal não retentiva — abordagem comportamental e investigação do contexto, violência incluída
Esperado: Nenhuma massa palpável depois que a desimpactação termina
Se não melhora: Massa depois de 6 dias de desimpactação oral: via retal com soro fisiológico acima de 1 ano ou avaliação especializada. Reto vazio e estreito numa criança muito constipada: rever a hipótese de doença de Hirschsprung
Esperado: Evacuação sem dor e sem sangue; a criança avisa a vontade e senta no vaso
Se não melhora: Dor e sangue com fezes já macias: reexaminar o ânus; sangue sem fissura: investigação da mucosa. Retenção que persiste com fezes macias: reforçar o programa de toalete sem punição e buscar apoio da psicologia quando houver problema de comportamento
Esperado: Doses dadas como prescritas, sem cólica intensa, distensão ou diarreia
Se não melhora: Recusa do sabor: misturar em suco ou trocar para formulação sem eletrólitos; flatulência e cólica com lactulose: reduzir ou trocar pelo macrogol; família que suspendeu por conta própria: retomar e explicar de novo o prazo
Esperado: Crescimento no mesmo canal e nenhum sinal de alarme
Se não melhora: Queda de canal, distensão, vômito ou alteração neurológica nova: sair do diagnóstico funcional e investigar pela tabela de sinais de alarme do critério
Esperado: Frequência escolar recuperada, crises mais curtas ou menos frequentes, nenhum sinal de alerta
Se não melhora: Faltas que continuam: rever com a família o plano com a escola e o acesso à terapia psicológica; sinal de alerta novo: investigar; dor que persiste com impacto na vida da criança: gastroenterologia pediátrica, onde entram as opções farmacológicas condicionais
Onde o erro machuca
O dano: Endurece a massa fecal que produz o escape, prolonga a retenção e atrasa o tratamento por semanas; a criança, que não controla o que acontece, fica em casa, envergonhada e culpada.
Como pegar a tempo: Diante de uma queixa de diarreia na criança que já desfraldou, pergunte quando foi a última evacuação grande e como ela era, e palpe o abdome. Evacuações raras, grandes e duras com manchas na roupa entre elas são incontinência fecal retentiva.
O dano: O laxante aumenta o fluxo de fezes em volta da massa e o escape piora; a família conclui que o remédio não funciona e abandona o tratamento. O guia brasileiro aponta a desimpactação incompleta como causa frequente de fracasso da manutenção.
Como pegar a tempo: Com massa palpável, reto cheio ou escape diário, desimpacte primeiro — macrogol 1 a 1,5 g/kg/dia por 3 a 6 dias, ou enema de soro fisiológico a 0,9%, 6 mL/kg, acima de 1 ano — e só comece a manutenção quando a massa tiver desaparecido.
O dano: A retenção se refaz, a evacuação volta a doer e o ciclo recomeça, agora numa família que já não acredita no tratamento. Dose baixa e uso intermitente estão entre as principais causas de fracasso descritas pelo guia brasileiro.
Como pegar a tempo: Prescreva dose contínua, ajustada pela consistência, por pelo menos dois meses, e só comece a reduzir depois de um mês inteiro sem sintoma; reduza aos poucos e deixe por escrito o que fazer na recaída.
O dano: O óleo aspirado causa pneumonia lipoide exógena. A diretriz de 2026 registra também granulomas intestinais e não recomenda o uso de rotina, e o guia brasileiro o reserva para tratamento adicional ou de segunda linha.
Como pegar a tempo: Prefira o macrogol ou, sem ele, a lactulose da farmácia da unidade. Se o óleo mineral entrar, que seja como segunda linha, na criança maior, que engole bem e aceita tomar, e nunca à força.
O dano: Trata com procedimento retal e fármaco uma condição que desaparece sozinha — exatamente o que o guia brasileiro diz que o reconhecimento da disquesia serve para evitar —, e costuma vir junto com chá, água ou fórmula oferecidos para soltar o intestino de um bebê em aleitamento exclusivo.
Como pegar a tempo: Aplique os critérios: menos de 9 meses, 10 minutos ou mais de esforço ou choro, fezes moles e nenhum outro problema de saúde é disquesia; intervalo longo com fezes amolecidas e sem dor no aleitamento exclusivo é pseudoconstipação. Examine, confira os sinais de alarme, explique e não prescreva.
O dano: A família ouve que a dor da filha é inventada e procura outro pronto-atendimento; a criança acumula faltas e exames sem que a dor seja tratada, numa condição que persiste em cerca de 30% das crianças.
Como pegar a tempo: Faça o diagnóstico positivo pelos critérios de Roma IV, peça o mínimo que o guia brasileiro e o protocolo da doença celíaca indicam, explique que a dor é real e tem mecanismo, combine a volta à escola e encaminhe à terapia cognitivo-comportamental ou à hipnoterapia onde houver.
O que dizer ao paciente e à família
Quatro conversas mudam o que acontece depois desta consulta. A primeira desfaz a palavra diarreia sem que Gildete ouça que errou. A segunda explica o que vai acontecer nos dias em casa e por que o tratamento dura meses. A terceira responde à bula que a mãe vai ler antes de dar a primeira dose. A quarta é com Iara e com a mãe ao mesmo tempo: a dor é real, tem nome, e a escola continua.
Caetano e Iara estão na sala. O menino de 4 anos entende mais do que parece e ouve a palavra sujeira como acusação; a menina de 10 anos precisa ser a primeira a responder sobre a própria dor, e a primeira a ouvir o plano. O guia brasileiro lembra que a comunicação com a criança constipada é o lugar de discutir culpa, vergonha e punição, e o de 2019 pede, na dor abdominal crônica, que a consulta parta do que a família teme.
Nenhuma fala promete o que as fontes não prometem: que o remédio resolve em uma semana, que a dor some para sempre, que nunca será preciso pedir outro exame. A promessa possível é outra — um plano por escrito, um retorno marcado e alguém da equipe que responde quando algo sair do esperado.
Gildete veio buscar um remédio para diarreia e ouve que o filho está constipado
““Dona Gildete, a senhora fez muito bem em trazer o Caetano e em reparar em tudo o que ele faz. O que suja a cueca não é diarreia: é cocô mole que vaza em volta de um cocô duro e grande que está parado lá dentro. Eu senti esse cocô na barriga dele agora há pouco. Por isso a água de arroz piorou — ela deixa ainda mais duro o que está preso. Ele não faz de propósito nem por preguiça: ele não consegue segurar o que escapa.””
Não diga: Dizer que a mãe errou ao dar a água de arroz, ou tratar o escape como falta de higiene ou manha da criança.
Explicar a desimpactação e o que vai acontecer nos primeiros dias
““Primeiro a gente precisa tirar esse cocô parado, e isso se faz com um remédio em pó que a senhora mistura num copo de água ou de suco, de manhã e à tarde, por três dias. Nesses dias ele vai sujar mais a roupa e pode ter cólica — é sinal de que está funcionando. Troque a roupa sem brigar. Se ele vomitar, se a barriga ficar grande e dura, ou se sangrar mais do que um risquinho no papel, volte antes do dia marcado. No quarto dia a gente se vê e começa a segunda parte.””
Não diga: Deixar a família descobrir sozinha que o escape aumenta nos primeiros dias, o que leva a suspender o remédio no segundo dia.
A bronca a cada escape e o medo do vaso — com Caetano ouvindo
““Caetano, você não fez nada de errado. Seu cocô ficou duro e doeu, e aí seu corpo aprendeu a segurar. O remédio vai deixar o cocô mole, e cocô mole não dói. Depois do almoço e da janta você vai sentar no vaso um pouquinho, com os pés no banquinho, e cada vez que sentar vai ganhar uma estrela no papel da geladeira. — Dona Gildete, a bronca faz ele segurar mais. Elogie quando ele sentar; quando escapar, só troque a roupa.””
Não diga: Castigar o escape ou dar a recompensa só quando sai cocô — a criança não controla o escape, e a punição alimenta a retenção.
Gildete leu que o macrogol com sais é contraindicado abaixo de 7 anos
““A senhora tem razão de perguntar, e é bom que tenha lido. A bula daquele produto diz sete anos. As sociedades de pediatria que escrevem as regras para essa doença indicam esse remédio como primeira escolha para crianças, e os estudos que elas usaram incluíram crianças a partir de 6 meses. Por isso eu receitei o macrogol sem sais, feito na farmácia de manipulação: é o mesmo remédio, sem os sais que deixam o gosto ruim. Se tiver qualquer dúvida em casa, ligue para a unidade antes de parar.””
Não diga: Dizer que a bula está errada, ou trocar a receita pelo óleo mineral só para fugir da pergunta.
Quanto tempo dura, e o medo de que o remédio vicie
““Esse remédio pode ser usado por muito tempo com segurança: ele age segurando água dentro do cocô. O que faz o problema voltar é parar cedo. Ele vai tomar todo dia por pelo menos dois meses, e só depois de um mês inteiro sem sujar a roupa e sem dor a gente começa a diminuir, devagar. Se parar antes, o cocô endurece de novo, volta a doer e ele volta a segurar.””
Não diga: Prometer que em uma semana está resolvido, ou deixar a suspensão por conta da família no dia em que a criança melhorar.
Iara conta a dor, e a interna fala primeiro com ela
““Iara, essa dor que você sente é de verdade. A barriga tem nervos que, em algumas pessoas, ficam mais sensíveis, e aí coisas que não doeriam em outra criança doem em você. Isso tem nome — dor abdominal funcional —, acontece com muitas crianças da sua idade e não é perigoso. Eu examinei você com cuidado e não achei nada que me preocupe. Vamos fazer alguns exames simples e, se vierem normais, o plano é você voltar para a escola e aprender jeitos de deixar a dor menor quando ela vier. Você topa anotar num caderno os dias de dor, para me mostrar na volta?””
Não diga: Falar só com a mãe, por cima da criança, ou dizer que a dor é emocional como quem diz que ela a inventa.
Gildete pede a ultrassonografia e pergunta por que a filha deve ir à escola com dor
““Dona Gildete, eu entendo o medo, ainda mais depois de duas idas ao pronto-atendimento. A dor da apendicite começa e piora em horas, com febre ou vômito; a da Iara está aí há quatro meses, e ela continua crescendo bem, sem nenhum sinal que me preocupe. A ultrassonografia não ajuda nesse tipo de dor e não está indicada agora. Vou pedir exame de sangue, de urina, de fezes e o da doença celíaca. A perda da avó e a escola nova contam: não inventam uma dor, mas deixam o corpo mais sensível, e vale a Iara conversar com a psicologia. Ficar em casa não trata a dor e faz ela perder aula — o que ajuda é ir, com um combinado com a professora para os dias de crise. E se a dor acordar a Iara à noite ou vier com febre, vômito, perda de peso ou sangue, a senhora volta no mesmo dia.””
Não diga: Pedir a ultrassonografia para encerrar a consulta, ou responder que é frescura.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Por quilo e sem teto — Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Orientação nº 144 (abril de 2024)
O guia dá a lactulose como segunda opção quando o macrogol não está disponível, na dose de 1 a 3 mL/kg/dia, sem teto e sem faixa etária. A tabela de contexto da diretriz europeia e norte-americana de 2026 usa a mesma escala — 0,6 a 2 g/kg/dia de 7 a 18 anos, ou 0,9 a 3 mL/kg/dia do xarope —, também sem teto, e não tem linha para a criança de 7 meses a 7 anos.
Sociedade Brasileira de Pediatria, GPO nº 144, 2024; ESPGHAN/NASPGHAN, J Pediatr Gastroenterol Nutr 2026, tabela 10
Por faixa etária, em dose fixa — bula brasileira do xarope de 667 mg/mL (registro MS 1.0454.0043)
Para a constipação intestinal crônica, a bula dá 5 mL/dia no lactente, 5 a 10 mL/dia de 1 a 5 anos, 10 a 15 mL/dia de 6 a 12 anos e 15 a 30 mL/dia acima de 12 anos e no adulto, com ajuste para duas ou três evacuações diárias. Para Caetano, de 4 anos e 16 kg, a dose por quilo do guia dá 16 a 48 mL/dia — de 1,6 a 4,8 vezes o limite superior da faixa da bula —, e o limite superior do guia alcança os 30 mL/dia do adulto já aos 10 kg.
Bula para o profissional de saúde de Lactulona, Daiichi Sankyo Brasil
Esta apostila adota a dose por quilo do guia brasileiro, 1 a 3 mL/kg/dia, com o teto de 30 mL/dia, que é a dose do adulto na bula. Degrau 1, escopo: o guia foi escrito para a criança com constipação funcional; a bula, para o produto em todas as idades e indicações — a mesma bula dá 60 a 150 mL/dia na encefalopatia hepática. Na criança à sua frente, a régua é a do guia. O teto não está no guia e é escolha desta apostila, pela regra que vale para toda prescrição pediátrica — não passar da dose do adulto — e porque, sem ele, uma criança de 20 kg poderia receber 60 mL/dia, o dobro da dose do adulto. Na prática: comece com 1 mL/kg/dia, em uma ou duas tomadas; suba pela consistência das fezes; se a criança chegar a 30 mL/dia com fezes ainda duras, não suba mais — associe ou troque a classe, de preferência pelo macrogol, e trate como falta de resposta. Acima de 30 kg o teto fica abaixo de 1 mL/kg, e o macrogol é a escolha que cabe na dose.
Não de rotina; só na criança que não responde — Sociedade Brasileira de Pediatria (2024) e recomendação de 2014 das sociedades europeia e norte-americana, reproduzida em Roma IV (2016)
A recomendação de 2014, que o texto de Roma IV endossa, diz que não se rastreiam hipotireoidismo, doença celíaca e hipercalcemia na criança constipada sem sinais de alarme. O guia brasileiro repete a regra — com hipercalemia no lugar de hipercalcemia — e abre a investigação para a criança que não responde ao tratamento inicial.
Sociedade Brasileira de Pediatria, GPO nº 144, 2024; Hyams et al., Gastroenterology 2016;150:1456-68
Rastrear nos sintomas gastrointestinais crônicos — Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Celíaca (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8, de 23 de junho de 2025)
O protocolo lista a constipação entre as manifestações intestinais da doença celíaca e manda fazer rastreamento sorológico, com antitransglutaminase IgA e IgA total, na pessoa com síndrome do intestino irritável e na que tem sintomas crônicos do trato gastrointestinal sem história familiar de doença celíaca e sem doença autoimune. Lido ao pé da letra, toda criança com constipação funcional seria testada na primeira consulta.
Ministério da Saúde, PCDT da Doença Celíaca, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 8/2025
Esta apostila adota, para a criança constipada sem sinal de alarme, a régua do guia brasileiro: sorologia só quando não há resposta ao tratamento bem feito. Degrau 1, escopo: o protocolo federal foi escrito para uma doença — define quem testar para doença celíaca na população inteira —, e o guia, para o paciente à sua frente, a criança com constipação; régua feita para uma doença específica não governa o paciente geral, por mais federal que seja. A decisão muda com a criança, e o protocolo volta a governar quando o paciente passa a ser dele. Com sinal de alarme — baixo ganho de peso, desaceleração da estatura, anemia sem outra causa, diarreia —, a sorologia entra na primeira consulta. Na criança com dor abdominal crônica e hábito intestinal alterado, que é síndrome do intestino irritável, o protocolo e Roma IV concordam em testar. Na dor abdominal funcional sem outra especificação, o guia brasileiro de 2019 sugere a sorologia de rotina — atribuindo a sugestão a Roma IV, que só a pede na síndrome do intestino irritável — e o protocolo a indica pelos sintomas crônicos: teste. Em qualquer caso, antitransglutaminase IgA com IgA total, pedidas juntas, com a criança comendo glúten.
Primeira escolha em qualquer idade — Sociedade Brasileira de Pediatria (2024) e diretriz ESPGHAN/NASPGHAN de tratamento (2026)
O guia brasileiro chama o macrogol de medicamento de primeira escolha, seguro para uso prolongado em qualquer faixa etária, e anota que as bulas dos produtos comercializados no Brasil indicam o uso a partir dos 2 anos. A diretriz de 2026 dá ao macrogol a única recomendação forte do documento, com ensaios que incluíram crianças de 6 meses a 18 anos, e registra a experiência do grupo desde 1 mês de idade, ressalvando a falta de evidência abaixo dos 6 meses.
Sociedade Brasileira de Pediatria, GPO nº 144, 2024; ESPGHAN/NASPGHAN, J Pediatr Gastroenterol Nutr 2026
Contraindicado abaixo de 7 anos — bula do macrogol 3350 com eletrólitos (Muvinlax, registro MS 1.0033.0131, texto de 2025)
A bula declara uso adulto e pediátrico acima de 7 anos e inclui, entre as contraindicações, a idade abaixo de 7 anos; dá 1 a 2 envelopes de 14 g por dia na constipação funcional e até 5 envelopes na constipação intensa. A família que compra esse produto para uma criança de 4 anos lê a contraindicação antes da primeira dose.
Bula para o profissional de saúde de Muvinlax, Libbs Farmacêutica
Esta apostila adota o macrogol como primeira escolha a partir dos 6 meses, também antes dos 7 anos. Degrau 1, escopo: as duas diretrizes foram escritas para a criança com constipação funcional, e a bula, para um produto; o próprio guia brasileiro registra bulas com uso desde os 2 anos, o que indica que o limite de sete anos é daquela formulação, e não do fármaco. Para a criança abaixo de 7 anos, prescreva uma formulação cuja bula cubra a idade ou o macrogol manipulado — de preferência sem eletrólitos, que o guia brasileiro diz ter sabor melhor —, e diga à família, antes que ela leia, por que a bula do outro produto fala em sete anos. Abaixo de 6 meses, a diretriz de 2026 aponta falta de evidência, e o lactente tão pequeno com constipação verdadeira é caso para o especialista.
O raciocínio, em voz alta
Iara, 10 anos, 31 kg, 138 cm, é a outra metade da consulta de quarta-feira. Há quatro meses sente dor em volta do umbigo quase todas as manhãs de aula, pior na segunda-feira e rara no sábado, com meia hora a duas horas de duração. A dor não a acorda, não vem com febre nem vômito e não muda quando ela evacua, o que acontece todos os dias, com fezes normais. Faltou a nove dias de aula no último mês e passou por dois pronto-atendimentos, onde recebeu antiespasmódico na veia e ouviu que era virose. Cresceu sempre no mesmo canal da caderneta, e o exame do abdome é normal. A avó que a buscava na escola morreu em março, a mãe passou a trabalhar em dois turnos e Iara mudou de escola. Gildete pede uma ultrassonografia e quer saber se a filha deve ficar em casa até a dor passar.
Os sinais de alerta, perguntados um a um
Antes de dar nome à dor, a interna percorre a lista de Roma IV que o guia brasileiro de 2019 adota, perguntando em vez de supor. Na família não há doença inflamatória intestinal, doença celíaca nem úlcera. A dor não acorda Iara e não a tira das brincadeiras do fim de semana; ela não perdeu peso, não vomita, não tem disfagia, sangramento, diarreia noturna, artrite, febre nem lesão perianal, e a dor não se fixa no quadrante direito. A curva da caderneta responde à pergunta da desaceleração do crescimento, e o estágio puberal fica registrado no exame de hoje, para servir de comparação nos retornos. Nenhum sinal de alerta está presente.
O nome da dor
Com a lista vazia, o diagnóstico sai dos critérios. A dor aparece bem mais de quatro vezes por mês e já dura mais de dois meses. Não é síndrome do intestino irritável, porque não se relaciona com a evacuação e não muda a frequência nem a forma das fezes. Não é dispepsia funcional, porque não há plenitude depois das refeições, saciedade precoce nem queimação epigástrica. Não é migrânea abdominal, porque volta toda semana, sem crises separadas por semanas de bem-estar. É dor abdominal funcional sem outra especificação, e o nome é dito a Iara e à mãe já nesta consulta, com a ressalva de que os exames simples fecham a avaliação que o critério exige.
O que se pede, e o que não se pede
Pelo guia de 2019: hemograma, sumário de urina e parasitológico de fezes. Pelo protocolo federal da doença celíaca de 2025: antitransglutaminase IgA com IgA total, pedidas juntas, com Iara comendo glúten como sempre — na dor funcional, o lado adotado no bloco de divergências é testar. A ultrassonografia não se pede, porque o guia de 2019 a tirou da rotina da criança sem evidência clínica de causa orgânica. Endoscopia e pesquisa de Helicobacter pylori também não: Roma IV não as exige para o diagnóstico, e tratar a bactéria não trata essa dor. Velocidade de hemossedimentação, proteína C-reativa, função tireoidiana, amilase e lipase ficam para a história que as peça, e a de Iara não pede.
O que sai do plano: o antiespasmódico e a dieta
O antiespasmódico do pronto-atendimento não vira receita. O guia de 2019 registra que o anticolinérgico não tem estudo controlado na dor abdominal crônica da criança, e a diretriz de 2025 das sociedades europeia e norte-americana não encontrou evidência a favor nem contra ele; o analgésico comum, quando usado, é intermitente, e as outras classes ficam com o especialista. Nenhum alimento sai do cardápio por conta própria: Iara não tem distensão nem diarreia, que são o que justificaria o período sem lactose do guia de 2019, e a diretriz de 2025 pede cautela com dieta restritiva, pelo esforço que ela exige da criança e pelo risco de transtorno alimentar.
A escola, a partir de amanhã
Nove faltas num mês são hoje o maior dano, e o plano começa por elas. Iara volta à aula no dia seguinte, com uma declaração que diz o diagnóstico sem expor a família e pede um combinado com a professora para o dia de dor: onde ela espera a crise passar e quando volta à sala, em vez de a mãe ser chamada para buscá-la a cada episódio. Em casa, o dia com dor segue a rotina de um dia de aula. Quem decide o que a escola consegue oferecer é a escola; o que a unidade entrega é o diagnóstico por escrito e a explicação de que ir à aula faz parte do tratamento.
O tratamento que tem evidência
A diretriz de 2025 dá recomendação forte a só duas intervenções na síndrome do intestino irritável e na dor abdominal funcional sem outra especificação, dos 4 aos 18 anos: a hipnoterapia e a terapia cognitivo-comportamental — a que o guia de 2019 aponta como a mais efetiva das terapias psicológicas. A interna encaminha Iara à psicologia da rede com o luto da avó e a troca de escola escritos no pedido, não como causa da dor, mas como o que deixa mais sensível um sistema que já amplifica o sinal. Probióticos multicepa, cápsulas de hortelã-pimenta com revestimento entérico e amitriptilina são opções condicionais da mesma diretriz para quem não melhora, e a escolha entre elas é do especialista.
O retorno, e o que mudaria o caminho
Retorno em quatro a seis semanas, com os exames e com o caderno em que Iara aceitou anotar os dias de dor, a duração, o que ela fazia quando a dor veio e as faltas. O alvo não é a dor zero: é a frequência escolar de volta e crises mais curtas ou mais raras. Os sinais de alerta são repassados de novo, porque a doença orgânica ausente hoje pode aparecer depois. Sorologia positiva tira Iara deste capítulo para a confirmação por biópsia duodenal; parasita no exame de fezes é tratado, e a dor é reavaliada depois; anemia sem explicação abre investigação; e a dor que continua tirando Iara da escola apesar do plano vai à gastroenterologia pediátrica, onde entram as opções farmacológicas condicionais.
Faça você
Cauã Paranaguá, 7 anos e 3 meses, 22 kg, 122 cm, volta à unidade com o pai, Edvaldo, para o controle de uma cistite confirmada por urocultura há um mês, a primeira da vida dele. A urina de hoje está normal. Perguntado pela enfermeira, Edvaldo conta o que ninguém tinha perguntado: de dia o menino molha a roupa, corre para o banheiro no último minuto e cruza as pernas para segurar a urina; evacua duas vezes por semana fezes grossas e duras, que doem e entopem o vaso; e há três meses a cueca volta suja da escola quase todo dia. No exame, uma massa endurecida ocupa o hipogástrio; ânus, região sacral, força e reflexos das pernas estão normais, e a curva segue o canal. Edvaldo está desempregado e pede o que houver na farmácia da unidade.
Dê nome aos dois problemas
Diga quantos critérios de Roma IV Cauã preenche e quais, se há impactação, e o que a perda de urina de dia, a urgência e as manobras para segurar significam ao lado da constipação, numa criança que acabou de ter a primeira infecção urinária.
Desimpacte com o que a unidade tem
Sem macrogol, escolha a via e o fármaco da desimpactação, calcule o volume por aplicação para 22 kg, diga quantas vezes por dia e por quantos dias, e explique por que a lactulose não é a escolha para esvaziar o reto.
Escreva a manutenção
Prescreva a lactulose em xarope de 667 mg/mL: a dose de início em mL por tomada, a dose máxima para o peso dele e o que faz a dose subir ou descer. Diga por quanto tempo ela dura e o que acompanha o fármaco desde o primeiro dia.
Quatro semanas depois
Cauã está em 15 mL duas vezes ao dia há dez dias, o pai confirma todas as doses e a massa não voltou, mas as fezes seguem duras e doloridas. Diga se a lactulose sobe, qual segunda classe entra com o que a unidade tem — com a dose em mL para 22 kg e as condições para usá-la —, o que muda se a família conseguir comprar o macrogol com eletrólitos e que exames entram agora.
A metade urinária
Diga o que o tratamento da constipação faz pela bexiga, que orientações urinárias saem na receita, de que capítulo elas vêm e quando Cauã vai ao nefrologista pediátrico.
Ver como fecharíamos
Os dois problemas: Cauã preenche, há três meses, cinco dos seis critérios de Roma IV da criança de 4 anos ou mais — duas evacuações por semana, escape quase diário, evacuação dolorosa e endurecida, fezes que entopem o vaso e massa fecal —, sem nenhum sinal de alarme. É constipação funcional com incontinência fecal retentiva, e há impactação, porque a massa é palpável. A perda de urina de dia, a urgência e as manobras de contenção ao lado da constipação, numa criança que teve infecção urinária, são a disfunção vesical e intestinal, e o reto cheio que comprime a bexiga faz parte do mecanismo. Desimpactação: sem macrogol e acima de 1 ano, enema de soro fisiológico a 0,9% da farmácia da unidade, 6 mL/kg — 22 × 6 = 132 mL por aplicação —, uma ou duas vezes ao dia, por 3 a 6 dias, até a massa desaparecer, combinado com o pai e explicado a Cauã, porque a via retal pesa para a criança. A lactulose não serve para esvaziar o reto: a diretriz de 2026 registra que faltam evidência de eficácia e dose estabelecida para essa indicação. Manutenção, a partir do dia seguinte ao fim da massa: lactulose a 1 mL/kg/dia, 22 mL/dia, 11 mL duas vezes ao dia. A dose sobe pela consistência das fezes e desce com diarreia; 3 mL/kg/dia dariam 66 mL, mas o teto é de 30 mL/dia, 15 mL duas vezes ao dia, 1,36 mL/kg. O alvo são fezes pastosas todo dia ou a cada dois dias, por pelo menos dois meses, com um mês inteiro sem sintoma antes de reduzir. Desde o primeiro dia: vaso por 5 a 10 minutos depois das refeições, com apoio para os pés, diário das fezes, dos escapes e das perdas de urina, elogio sem castigo, fibra e água na dieta, sem suplemento de fibra. Quatro semanas depois: a lactulose já está no teto e não sobe. Com adesão confirmada e sem massa, a regra é associar ou trocar a classe e tratar como falta de resposta. Com o que a unidade tem, a segunda classe é o óleo mineral, lubrificante: 1 a 3 mL/kg/dia a partir de 3 anos, sem passar de 90 mL/dia — 22 a 66 mL/dia para Cauã, começando por 11 mL duas vezes ao dia —, porque ele tem mais de 2 anos, engole bem, não tem doença neurológica e aceita tomar; nunca à força. Se a família conseguir comprar o macrogol, ele é a troca preferida e cabe na dose: Cauã passou dos 7 anos que a bula do produto com eletrólitos exige, e a manutenção de 0,4 a 0,8 g/kg/dia dá 8,8 a 17,6 g — um envelope de 14 g por dia, com 13,125 g de macrogol em 125 mL de água, 0,6 g/kg. Os exames da falta de resposta entram agora: hormônio tireoestimulante com tiroxina livre, cálcio e antitransglutaminase IgA com IgA total, com encaminhamento à gastroenterologia pediátrica, onde a constipação que não responde à dose máxima de duas classes por três meses é chamada refratária. A metade urinária: tratar a constipação reduz as recorrências da infecção, e a perda de urina é reavaliada com o intestino funcionando. As orientações urinárias da receita — não segurar a urina, beber água ao longo do dia, urinar em horários combinados — são o conjunto mínimo de «Infecção urinária na criança», da apostila de Nefrologia Pediátrica, que também diz quando encaminhar ao nefrologista pediátrico: a disfunção que não responde ao tratamento da constipação e às micções programadas. O manejo detalhado da disfunção vesical é de «Enurese noturna e distúrbios miccionais funcionais», na apostila de Nefrologia Pediátrica.
O guia prático da Sociedade Brasileira de Pediatria dá a lactulose, quando falta o macrogol, a 1 a 3 mL/kg/dia, e a regra de toda prescrição pediátrica é não passar da dose do adulto, 30 mL/dia na bula brasileira do xarope. Para 25 kg, 1 mL/kg dá 25 mL/dia, 12,5 mL duas vezes ao dia; 3 mL/kg dariam 75 mL, mas o teto para em 30 mL/dia, 15 mL duas vezes ao dia. A dose sobe pela consistência das fezes, é contínua e dura pelo menos dois meses; chegando ao teto com fezes ainda duras, associa-se ou troca-se a classe, de preferência pelo macrogol.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare um lactente que elimina fezes macias sem dor, uma criança com escape por retenção e outra com dor abdominal e perda de peso. Justifique o diagnóstico ou a investigação necessária. Para constipação com impactação, separe desimpactação e manutenção e confira a formulação da receita. Explique o ciclo da retenção à família sem culpa ou punição.
Em 30 dias
Leia um diário intestinal e decida se as metas foram atingidas. Diante de recaída, verifique rotina, produto, preparo e dose antes de trocar o plano. Discuta quando manter, reduzir gradualmente ou encaminhar. Na dor funcional, acompanhe participação em escola, brincadeiras e sono, revendo sinais de alerta em cada retorno.
Agora atenda
Agora atenda: Joaquim Valadares, 11 anos, trazido pela mãe, Débora, por dor de barriga há três meses que o faz sair da aula e melhora depois que ele consegue evacuar — o que acontece duas vezes por semana, com esforço. Pergunte o que separa a síndrome do intestino irritável da constipação funcional, examine procurando os sinais de alerta dos dois quadros, decida o que pedir e o que tratar primeiro, escreva a receita com dose por quilo e teto e marque o retorno em que o diagnóstico é revisto.
