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Diarreia e desidratação na criança
Diarreia aguda e desidratação: planos A, B e C de terapia de reidratação (AIDPI)
Classificar o grau à beira do leito, escolher entre plano A, B e C, e executar o plano escolhido com volume, tempo e via escritos — inclusive quando a via oral resolveria e o interno já pediu o acesso venoso.
Brasil. Ministério da Saúde; Organização Pan-Americana da Saúde; Fundo das Nações Unidas para a Infância. Manual de Quadros de Procedimentos — AIDPI Criança: 2 meses a 5 anos. Brasília: Ministério da Saúde, 2017.
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Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Gastroenterologia (gestão 2022-2024). Diarreia Aguda Infecciosa. Guia Prático de Atualização nº 74, 6 de junho de 2023.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Gastroenterologia. Diarreia aguda: diagnóstico e tratamento. Guia Prático de Atualização nº 1, março de 2017.
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Lactente de 8 meses, 7 kg, completou 4 horas de plano B na unidade. Ao reexame permanece irritado, com olhos fundos, boca seca e prega que desaparece lentamente; o pulso segue cheio e ele continua consciente. Pesa 7,05 kg (chegada: 7,0 kg). A equipe relata que ele recusou boa parte do soro e que ninguém conseguiu sustentar a oferta. Qual é o próximo passo?
O paciente que você vai ver
São nove e quarenta da manhã de segunda-feira e a fila do pronto-socorro dobra o corredor. A mãe do Heitor está de pé há quarenta minutos porque, sentada, ele chora. Heitor tem 11 meses, pesa 8 quilos, e ela repete a mesma frase para a técnica, para a recepcionista e agora para você: “ele não para de evacuar desde ontem”. Foram, pela conta dela, umas dez vezes. Fezes líquidas, amarelas, sem sangue. Vomitou três vezes de manhã. Não teve febre alta.
Ele está no colo, acordado, e não é uma criança tranquila: se contorce, resmunga, empurra a mão da mãe. Os olhos parecem afundados nas órbitas — você olha para a foto do celular que ela mostra, de duas semanas atrás, e a diferença está lá. Quando você oferece o copo com água, ele agarra a borda com as duas mãos e bebe rápido, avidamente, e chora quando o copo sai. A pele do abdome, pinçada entre os dedos, volta devagar. A boca está seca. Não há lágrima quando ele chora.
Duas cadeiras adiante está Vitória, 2 anos e 4 meses. A avó a trouxe. Está no quarto dia de diarreia, e a avó diz que “hoje ela amanheceu diferente, quietinha demais”. Vitória está mole no colo, não olha para você, não reage ao estetoscópio gelado. Quando você oferece água, ela vira o rosto. O pulso radial é fino e rápido. A prega da pele fica de pé por mais de dois segundos antes de voltar. Ela pesa 12 quilos; a caderneta, preenchida na unidade básica há três semanas, registra 13,4.
As duas crianças têm a mesma doença. Nenhuma das duas precisa de exame para ser classificada, e as duas serão tratadas de maneiras completamente diferentes na próxima hora. Heitor tem desidratação e vai ser reidratado pela boca, no serviço, sem agulha nenhuma. Vitória tem desidratação grave e precisa de veia agora, com volume calculado e cronômetro. Trocar as duas condutas — puncionar Heitor porque “já vomitou três vezes” ou insistir no copinho com Vitória porque “o soro oral é o que o Ministério manda” — é o erro que este capítulo existe para impedir.
Repare no que decidiu tudo: nenhuma pergunta de laboratório. O que separou uma criança da outra foram sete ou oito sinais colhidos com os olhos, um copo de água e dois dedos pinçando a pele. É a parte da medicina que o interno mais subestima, porque não tem resultado impresso para colar no prontuário, e é a que decide quem sai andando e quem precisa de acesso venoso em dez minutos.
E há um terceiro personagem invisível, que vai ser tão importante quanto os outros dois: a criança que não está aqui. É a que a mãe levou de volta para casa depois da primeira consulta, com um sachê de soro na sacola e uma orientação mal explicada, e que vai voltar em 36 horas na cadeira da Vitória. A diferença entre esses dois desfechos quase nunca está no que se prescreveu; está no que se disse — e em se alguém conferiu que a mãe entendeu.
Quem adoece disso
A diarreia foi, durante boa parte do século passado, a maneira mais comum de uma criança brasileira morrer depois do primeiro mês de vida. O tamanho dessa mudança é difícil de exagerar: a mortalidade infantil no país saiu de cerca de 70 óbitos por mil nascidos vivos na década de 1970 para a casa dos 15 por mil nas últimas décadas, e uma parcela considerável dessa queda veio da diarreia. Em 1980 a diarreia era a segunda causa de mortalidade infantil e respondia por 24,3% dos óbitos; em 2005 já havia caído para a quarta posição, com 4,1%. Um em cada quatro virou um em cada vinte e cinco. A consequência clínica é direta: você está atendendo uma doença cuja letalidade caiu porque o tratamento certo foi disseminado — e não porque a doença mudou. Se você fizer errado, ela volta a matar como antes.
O que produziu essa queda tem nome, e nenhum dos nomes é antibiótico. Foram saneamento e água tratada, foi a queda da desnutrição, foi o aleitamento materno e foi, sobretudo, a difusão da terapia de reidratação oral entre profissionais e famílias. A reidratação oral é considerada uma das intervenções que mais salvaram vidas no século XX, e a ironia é que ela é gratuita, não precisa de médico para ser mantida e é a primeira coisa que o serviço abandona quando fica cheio. Quando um interno pula o copinho e pede acesso, ele não está sendo mais agressivo com a doença: está desfazendo, num paciente, a intervenção que reverteu a estatística do país.
A vacina de rotavírus entrou no calendário nacional em 2006 e mudou o perfil de quem interna. No Brasil, entre 2006 e 2018, a taxa de hospitalização por diarreia em menores de cinco anos caiu 52,5%, com redução significativa da mortalidade, mais marcada na região Nordeste. E há um dado nesse levantamento que vale mais que a média: a cobertura vacinal e a mortalidade por diarreia foram inversamente correlacionadas com o índice de vulnerabilidade social. Ou seja, a vacina protegeu mais exatamente onde a criança tinha mais chance de morrer. Na prática do plantão, isso significa duas coisas: perguntar pela caderneta vale a pena, e a criança não vacinada de uma área socialmente vulnerável tem, ao mesmo tempo, mais risco de rotavírus e menos rede para voltar se piorar — o que muda o seu limiar para observar em vez de liberar.
A vacina também deslocou o cardápio de agentes. Globalmente, onde não há vacinação, o rotavírus é detectado em cerca de 38% das internações anuais por gastroenterite aguda; onde há, essa fração cai para perto de 23% — um declínio relativo próximo de 40%. Com o rotavírus recuando, os norovírus ganharam espaço, sobretudo em surtos ligados a água e alimentos, que atingem todas as faixas etárias e frequentemente explodem em creches e escolas. Para você isso tem uma tradução simples: a diarreia aquosa da criança vacinada continua sendo, na esmagadora maioria das vezes, viral e autolimitada — e continua não precisando de antibiótico.
Nada disso descreve um problema resolvido. O Brasil tem dimensões continentais e bolsões onde saneamento, água potável e educação em saúde ainda faltam, e é lá que a diarreia mantém o círculo vicioso clássico: diarreia causa desnutrição, desnutrição aumenta a chance da próxima diarreia, e cada episódio cobra do crescimento. Episódios repetidos atrasam crescimento e desenvolvimento. Quando você atende um lactente com o terceiro episódio de diarreia no semestre, o problema imediato é o volume perdido; o problema real, que ninguém anota no prontuário, é o que aquilo está fazendo com a curva de peso e estatura dele.
Por que acontece o que acontece
A fisiologia aqui não é decoração. Ela responde a três perguntas que decidem conduta: por que a criança desidrata tão mais rápido que o adulto, por que oferecer soro pela boca funciona mesmo com o intestino inflamado e derramando líquido, e por que suspender a alimentação — o reflexo mais intuitivo do mundo diante de uma criança que evacua — é justamente o que piora o desfecho.
1. Por que a criança desidrata antes do adulto
Comece pela água que ela tem. A água corporal total representa uma fração maior do peso na criança pequena do que no adulto, e — o que importa mais — a proporção dessa água que fica no compartimento extracelular é maior. O líquido extracelular é justamente o que se perde primeiro na diarreia, porque é dele que sai o volume plasmático e o interstício. Um lactente, portanto, tem uma reserva relativamente maior no exato compartimento que a doença está drenando, e é o esvaziamento desse compartimento que produz taquicardia, pulso fino, prega lenta e enchimento capilar arrastado.
Some a isso a superfície corporal. Em relação ao peso, a criança pequena tem muito mais pele por quilo que o adulto, e a perda insensível — evaporação pela pele e pela respiração — é proporcional à superfície, não à massa. Uma criança de 8 quilos perde por evaporação uma fração do seu peso muito maior do que um adulto de 80 quilos perde do dele. Acrescente febre, que aumenta a perda insensível, e taquipneia, que aumenta a perda pela via respiratória, e você tem duas torneiras abertas além do intestino. É por isso que a criança com diarreia e febre alta desidrata mais rápido que a criança com a mesma diarreia sem febre.
O terceiro fator é a taxa de renovação. A criança pequena movimenta, por quilo, um volume de água muito maior que o adulto todo dia — ela precisa de mais água por quilo para manter o mesmo estado. Uma perda que o adulto compensa esperando o próximo copo d'água consome, no lactente, a margem inteira em poucas horas. É a razão aritmética de a mesma doença ser banal aos trinta anos e potencialmente fatal aos onze meses.
E há o fator que não é fisiológico e mata tanto quanto: a criança pequena não tem autonomia para beber. Ela depende de alguém oferecer, e depende de que esse alguém insista quando ela recusa, e insista de novo depois do vômito. Uma criança de dois anos com sede intensa pega o copo; uma de seis meses precisa que a mãe ofereça de colherzinha, dez minutos depois do vômito, pela quinta vez, às três da manhã. Metade do tratamento da diarreia é fisiologia; a outra metade é a conversa que garante que alguém vai fazer isso.
2. Osmótica e secretora: por que os dois nomes mudam o que você faz
A diarreia aquosa nasce do desequilíbrio entre o que o intestino absorve e o que ele secreta, e há dois modos de produzir esse desequilíbrio. Na diarreia osmótica, solutos que não foram absorvidos permanecem na luz intestinal e puxam água para dentro dela por gradiente osmótico. É o que acontece quando a lesão viral das microvilosidades reduz a lactase da borda em escova e a lactose não digerida segue adiante, e é o que acontece quando se oferece à criança um suco industrializado ou refrigerante de alta carga osmótica achando que “é líquido, então hidrata”.
Na diarreia secretora, o intestino é ativamente empurrado a secretar. Enterotoxinas — o protótipo é o Vibrio cholerae, mas a Escherichia coli enterotoxigênica e outras fazem o mesmo em menor escala — ativam vias que aumentam a secreção de cloro e água pela cripta, e o volume sai independentemente do que há na luz. A diferença clínica clássica está aí: a diarreia osmótica melhora com jejum, porque some o soluto que puxa água; a secretora não melhora com jejum nenhum, porque a bomba está ligada por conta própria.
Essa distinção parece acadêmica até você perceber o estrago que ela desfaz. O raciocínio popular — “ele evacua toda vez que come, então vou parar de dar comida” — só faria sentido se toda diarreia fosse puramente osmótica, e mesmo aí o preço seria alto. Na prática, a maioria dos quadros mistura os dois mecanismos, o jejum não desliga a secreção, e o que o jejum garante é déficit calórico num paciente que já está perdendo nutriente pelas fezes. É por isso que todas as diretrizes convergem no mesmo ponto contraintuitivo: a alimentação se mantém, e o único jejum admissível é o das poucas horas da fase de reversão da desidratação — e mesmo esse não vale para o leite materno, que nunca se suspende.
Um subproduto prático: como a lesão de mucosa pode derrubar a lactase, o lactente hospitalizado com diarreia aguda pode se beneficiar de fórmula sem lactose, e a criança com diarreia persistente também. Mas isso é exceção hospitalar, não regra de ambulatório — na diarreia aguda tratada em casa não há indicação de trocar a fórmula, e trocar significa, com frequência, uma família comprando um produto caro para resolver um problema que ia se resolver sozinho. Fórmula, aliás, nunca se dilui: diluir é transformar um problema de água num problema de caloria.
3. Por que o soro oral funciona mesmo com o intestino doente
Aqui está o mecanismo mais elegante e mais mal explicado da pediatria, e é ele que sustenta tudo o que este capítulo vai mandar você fazer. O enterócito tem, na membrana voltada para a luz intestinal, um transportador que carrega sódio e glicose juntos, acoplados, para dentro da célula. A água acompanha esse movimento por osmose. O ponto decisivo é que essa via de cotransporte sódio-glicose permanece preservada na diarreia aguda, praticamente qualquer que seja o agente — as vias que estão desreguladas, aumentando a secreção e reduzindo a absorção, são outras.
Ou seja: o intestino que está derramando líquido continua tendo, ao lado, uma porta de entrada funcionando. Oferecer água pura não abre essa porta, porque falta o sódio e falta a glicose; oferecer refrigerante também não, porque a proporção está errada e a carga osmótica é alta demais. O que abre a porta é uma solução com sódio e glicose em concentrações próximas, que é exatamente o que o sachê de sais de reidratação oral entrega. Não é uma bebida “que hidrata mais”: é uma chave desenhada para uma fechadura que sobrevive à doença.
Duas consequências práticas saem daí. A primeira: a via oral funciona em graus de desidratação que assustam, e por isso a indicação de furar a veia é muito mais estreita do que o instinto sugere. A segunda: quando a via oral falha, ela quase sempre falha por logística, não por fisiologia — ninguém ofereceu, ofereceram rápido demais e a criança vomitou, ofereceram na mamadeira e ela recusou, ou a mãe foi deixada sozinha numa cadeira com um copo e nenhuma orientação. Falha de execução se corrige com técnica, não com agulha.

4. Sódio, osmolaridade e por que existe mais de um soro
O sachê de sais de reidratação oral não é um produto único no mundo. A solução clássica da Organização Mundial da Saúde, dos anos 1970, foi desenhada num contexto em que a preocupação dominante era a cólera — perdas fecais enormes e muito ricas em sódio — e por isso carregava sódio e osmolaridade altos. Funcionou espetacularmente para o que foi feita. Em 2002 a própria Organização Mundial da Saúde reduziu sódio e glicose da fórmula, criando o que se chama de soro de baixa osmolaridade, com o objetivo de reduzir as perdas diarreicas; a Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica trabalha há mais tempo com uma solução ainda mais hipotônica.
A lógica da redução é a mesma da diarreia osmótica: quanto menor a osmolaridade da solução ofertada, menos ela própria puxa água para a luz intestinal, e mais líquido líquido sobra absorvido. Os números comparados de sódio, glicose e osmolaridade das três soluções estão no quadro do bloco seguinte, e vale conferi-los lado a lado uma vez na vida — depois disso, o que fica é o princípio.
O Brasil distribui pela rede pública o sachê com a concentração de sódio mais alta, da fórmula tradicional, e não estabeleceu política de difusão da solução de baixa osmolaridade. Isso tem uma consequência de balcão que muda o que você fala com a mãe: se a criança está usando o sachê da rede pública apenas para repor perdas, e não para reverter uma desidratação instalada, ela deve receber também líquidos sem sódio ao longo do dia — água, inclusive — para não acumular sódio. Não é detalhe teórico: é a diferença entre orientar “dê só o soro” e orientar “dê o soro depois de cada evacuação e água quando ele quiser”.
E o soro caseiro? A mistura de sal, açúcar e água tem uma limitação de composição que não é opinião: não contém potássio e não contém citrato, e o açúcar é sacarose, não glicose. Ele repõe volume e alguma coisa de sódio; não repõe o potássio que a diarreia leva embora nem oferece a base que ajuda a corrigir a acidose. Além disso, a composição final do que sai da cozinha varia muito, e os erros são menos frequentes quando se usa a colher-medida de dupla concha do que quando a família mede “a olho”. O soro caseiro é o que se usa quando não há sachê — e “não há sachê” é uma situação real no Brasil, o que faz dele conteúdo obrigatório, não folclore.
5. O que a desidratação faz além de tirar água
Perder líquido extracelular reduz o volume circulante. A resposta é taquicardia e vasoconstrição periférica, que sustentam a pressão arterial até tarde — e é por isso que pressão normal em criança desidratada não tranquiliza ninguém. Os sinais de que a compensação está no limite são periféricos e aparecem antes: extremidades frias, pulso fino, enchimento capilar arrastado, e o mais importante deles, a mudança do nível de consciência. Criança que fica “quietinha demais” não está descansando; está com perfusão cerebral no limite.
Junto com a água saem eletrólitos, e junto com as fezes sai bicarbonato. A desidratação grave costuma vir acompanhada de acidose metabólica e de distúrbios hidroeletrolíticos, e a taquipneia sem esforço respiratório e sem alteração de ausculta que você observa nessa criança é frequentemente respiração compensatória de acidose — não pneumonia. Reconhecer isso evita uma radiografia inútil e, pior, evita que alguém trate um “desconforto respiratório” em vez de tratar a hipovolemia que o está causando.
O potássio pode enganar na desidratação: perdas digestivas reduzem os estoques, enquanto acidose e alterações renais modificam a concentração sérica. Com a recuperação, o valor pode cair, mas isso não justifica uma dose fixa para todos. Conheça o resultado inicial, a função renal e a diurese, acompanhe a tendência e discuta a reposição com a equipe. A prescrição deve declarar unidade, diluição e velocidade; não se administra potássio em bolus.
Por fim, a glicose. A criança pequena com diarreia, vômitos e ingestão reduzida tem reserva hepática de glicogênio pequena e faz hipoglicemia com facilidade — e a hipoglicemia se apresenta com letargia, exatamente o mesmo sinal que a hipovolemia grave produz. Daí a solução de manutenção do plano C ser glicosada e daí, também, a orientação de tratar para evitar hipoglicemia antes de transferir uma criança grave. Diante de uma criança letárgica com diarreia, hipovolemia e hipoglicemia não competem: você trata as duas.
Como se apresenta de verdade
O diagnóstico de diarreia é clínico, e a classificação — que é o que decide conduta — também. O que segue é a diferença entre o que o livro descreve e o que entra pela porta, organizado na ordem em que você usa: primeiro definir se é diarreia, depois separar aguda de persistente e de disenteria, depois graduar a desidratação, e por último reconhecer a criança que sai desse fluxo porque tem outra coisa.
Os sinais que graduam a desidratação, com o que cada coluna significa, estão no quadro do bloco seguinte, e é lá que eles moram. Aqui interessa como cada um se colhe, o que engana em cada um, e o que fazer quando eles discordam entre si.
1. Isto é diarreia? O erro que começa antes da classificação
A definição operante é a da Organização Mundial da Saúde, adotada pelo Ministério da Saúde: três ou mais evacuações amolecidas ou líquidas em vinte e quatro horas. O elemento que mais pesa não é a frequência, é a mudança de consistência em relação ao habitual daquela criança. Uma criança que evacua quatro vezes ao dia há meses, com fezes formadas e ganhando peso, não passou a ter diarreia porque a mãe contou as fezes hoje.
O contraexemplo obrigatório é o lactente em aleitamento materno exclusivo. Ele pode evacuar várias vezes ao dia, tipicamente depois das mamadas, por reflexo gastrocólico, com fezes semilíquidas e às vezes com um pouco de muco. Se o ganho de peso está adequado e não há outro sinal clínico, isso não é diarreia — e é uma das causas mais frequentes de intervenção desnecessária em consultório: a mãe é convencida de que o leite dela “está fraco” ou “está soltando”, introduz fórmula, e o desfecho é a interrupção do aleitamento por um problema que não existia.
Do outro lado do espectro há a chamada diarreia de fome, do paciente desnutrido: fezes amolecidas, esverdeadas, de pequeno volume, formadas basicamente por descamação celular e muco. O volume é pequeno; o significado é grave, porque o que ela sinaliza é o estado nutricional, não uma infecção nova.
2. Aguda, prolongada, persistente, crônica — e disenteria
A diarreia aguda tem início abrupto, etiologia presumivelmente infecciosa, é potencialmente autolimitada e dura menos de quatorze dias — embora a maioria dos casos se resolva em até sete. Quando passa de sete e não chegou aos quatorze, alguns autores falam em diarreia aguda prolongada, e o valor dessa etiqueta é servir de alerta: uma diarreia que já passou de uma semana merece um olhar mais atento, não uma segunda receita igual à primeira.
A partir de quatorze dias, o nome é diarreia persistente, e ela muda de categoria clínica. Persistente não é “a mesma coisa, mais tempo”: é um quadro com risco alto de desnutrição e de complicações, com letalidade maior, que exige avaliação do estado nutricional e conduta alimentar própria. Acima de trinta dias, fala-se em diarreia crônica, que já é outro território diagnóstico — alergia à proteína do leite de vaca, doença celíaca, fibrose cística, parasitoses, entre outros.
A disenteria é definida por sangue nas fezes e significa lesão da mucosa intestinal, com invasão. É o único cenário da diarreia infantil em que antibiótico entra em pauta no protocolo nacional, e mesmo assim com condição: sangue nas fezes mais comprometimento do estado geral. Sangue nas fezes de uma criança em bom estado geral não é senha automática de receita.
E há a armadilha do lactente: sangue nas fezes com dor abdominal em cólica, palidez e prostração, sobretudo em crianças entre três meses e dois anos, obriga a pensar em invaginação intestinal antes de pensar em Shigella. Fezes em geleia de framboesa, choro em crises que vêm e vão com intervalos de acalmia, massa palpável no quadrante superior direito. Tratar isso como disenteria e mandar para casa com azitromicina é o tipo de erro que se paga com necrose de alça.
3. Como colher cada sinal de desidratação — e o que engana em cada um
Estado geral é o sinal de maior peso e o mais ignorado. A escala vai de ativo e alerta, passa por irritado e intranquilo, e chega em letárgico, hipotônico, comatoso. O ponto que confunde é que irritabilidade e letargia são graus da mesma coisa: a criança irritada está compensando, a letárgica desistiu. Nunca aceite “ele está dormindo” como explicação de uma criança que não desperta direito — peça para a mãe acordá-la e observe como ela responde.
Olhos fundos é um sinal excelente e depende de referência. Pergunte à pessoa que cuida da criança se os olhos estão diferentes do habitual, e olhe a foto do celular — quase todas as famílias têm. É a maneira mais confiável de não confundir uma criança magra de base com uma criança desidratada.
Lágrimas e boca são complementares e enganam de maneiras opostas. Lágrima ausente só vale se a criança está chorando de verdade; e a boca seca pode ser artefato de uma criança que respira pela boca por obstrução nasal, ou pode estar falsamente úmida logo depois de ela ter tomado água. Olhe a mucosa por dentro da bochecha, não só o lábio.
A sede é o sinal que mais separa graus, e se testa oferecendo líquido, não perguntando. A criança sem desidratação bebe normalmente e larga o copo; a desidratada agarra o copo e bebe rápido e avidamente, e chora quando você tira; a gravemente desidratada bebe mal ou não é capaz de beber. Essa última é a que assusta pouco quem não conhece: uma criança que recusa água não está “sem sede” — está com o nível de consciência rebaixado demais para pedir.
O sinal da prega se pesquisa no abdome, pinçando pele e subcutâneo no sentido longitudinal e soltando. Volta imediatamente, volta lentamente, ou volta muito lentamente — acima de dois segundos. Dois vieses conhecidos: no desnutrido grave a prega é lenta mesmo sem desidratação, porque falta o subcutâneo que a devolve; e na criança obesa a prega pode voltar rápido apesar de desidratação real. Nesses dois extremos o sinal perde valor e você se apoia em estado geral, pulso e perfusão.
Pulso e enchimento capilar são os sinais de circulação. O pulso vai de cheio a fraco ou ausente; o enchimento capilar se avalia mantendo a mão da criança fechada e comprimida por quinze segundos, abrindo e observando quanto tempo a palma leva para recorar. Em desnutridos, em que os outros sinais falham, a avaliação da perfusão periférica é o que sobra de mais confiável.
Diurese não é um dos itens do quadro oficial, mas é o dado que a família traz e é excelente para acompanhar. Pergunte objetivamente: quantas fraldas molhadas nas últimas seis horas, e a última fralda estava pesada? Uma criança que não urina há seis a oito horas está desidratada até prova em contrário, e voltar a urinar é um dos melhores marcadores de que a reidratação está funcionando.
Quando os sinais discordam entre si, a regra do protocolo é aritmética: dois ou mais sinais fecham desidratação; dois ou mais sinais com pelo menos um dos sinais de gravidade fecham desidratação grave. E quando a dúvida é entre um grau e o seguinte, a orientação nacional é explícita e vale a pena decorar: considere o pior cenário.
4. O peso é um sinal clínico, não um número administrativo
O percentual de perda de peso é o melhor indicador isolado do grau de desidratação, e a régua é conhecida: perda de até 5% corresponde a desidratação leve, entre 5% e 10% a moderada, acima de 10% a grave. Essa correspondência é o que permite estimar o déficit em mililitros por quilo, e é a razão física de os volumes de reposição serem os que são.
O problema é que quase nunca se tem o peso de ontem. Duas soluções práticas, ambas usadas todo dia por quem faz pediatria de verdade. A primeira: a caderneta da criança tem pesos anotados, e a unidade básica pesou essa criança há semanas — é uma referência imperfeita, mas real, e transforma um palpite em conta. A segunda, mais importante: mesmo sem referência anterior, pese a criança agora, na chegada, e anote. Esse número não serve para classificar hoje; serve para você comparar daqui a quatro horas e saber se o que você fez funcionou.
Vale a advertência que o próprio fluxograma nacional faz: a avaliação da perda de peso é especialmente exigida no paciente internado que evolui com diarreia e vômito. Na porta de entrada, o peso raramente é o que classifica; é o exame clínico que classifica. Mas o peso da chegada é o parâmetro mais barato e mais sensível que você vai ter para a reavaliação — e não pesar a criança na entrada é jogar fora, de graça, o melhor instrumento de acompanhamento do caso.
5. Sinais de perigo e crianças que saem da regra
Independentemente do grau de desidratação, alguns achados classificam a criança como grave e mudam o destino dela: não conseguir beber ou mamar, vomitar tudo o que ingere, convulsão, letargia ou inconsciência. Essa é a checagem que se faz antes de qualquer outra, em qualquer criança doente, e é ela que impede que alguém se ocupe do grau de desidratação de uma criança que precisa, primeiro, de via aérea, glicose e veia.
Alguns pacientes têm risco maior de complicar e merecem limiar mais baixo para observação: menores de dois meses; portadores de doença de base grave — cardiopatia, nefropatia, hepatopatia, diabetes; crianças com vômitos persistentes; crianças com perdas volumosas e frequentes, acima de oito episódios diários; e — este é subestimado — os filhos de pais que dizem que a criança está desidratada. A percepção dos pais figura nas listas de risco porque acerta com frequência incômoda.
O desnutrido grave é um capítulo à parte dentro deste. Nele, os sinais clássicos mentem nos dois sentidos: a prega é lenta pela ausência de subcutâneo, os olhos são fundos de base, e o edema do kwashiorkor pode mascarar a perda de volume. A avaliação se apoia em atividade geral, características do pulso, frequência cardíaca e perfusão de extremidades. E a conduta muda: nele, a hidratação venosa é mais lenta e mais cautelosa, porque a sobrecarga hídrica é um risco real — os volumes específicos estão no quadro do bloco seguinte.
Por fim, a febre alta. Temperatura de 39 °C ou mais em uma criança com diarreia obriga a procurar outro foco — pneumonia, otite, amigdalite, faringite, infecção urinária — em vez de atribuir tudo à gastroenterite. Diarreia não é diagnóstico de exclusão de nada: ela convive com outras infecções, especialmente na criança pequena, e a infecção urinária do lactente é famosa por se apresentar com sintomas gastrointestinais e nada mais.
Como fechar o diagnóstico
Este é o bloco em que a maioria dos capítulos sobre diarreia decepciona, porque a resposta correta é curta e antipática: na esmagadora maioria das crianças com diarreia aguda, você não vai pedir exame nenhum. Os exames laboratoriais não estão indicados nos quadros leves. Eles podem ser úteis nos casos moderados de abordagem difícil e nos casos graves — e mesmo aí, com uma condição de tempo que quase todo mundo erra.
O que ocupa o lugar do exame é uma balança e um relógio. A ordem abaixo é a ordem real do atendimento: primeiro o que se faz, depois o que se pede em quem realmente precisa, e por último o que se recusa a pedir e por quê.
1. O exame mais valioso é a balança
Pese a criança despida, na mesma balança, na chegada. Anote o número no prontuário com o horário. Depois pese de novo ao fim da fase de reidratação e — se ela estiver internada — nos horários combinados. Esse par de números faz três coisas que nenhum exame faz: estima o déficit, mede a resposta ao tratamento e detecta sobrecarga hídrica antes que ela apareça como estertor ou edema.
A leitura é direta. Uma criança que recebeu volume e ganhou peso está sendo reidratada. Uma criança que recebeu volume e não ganhou peso, ou perdeu, está perdendo mais rápido do que você repõe — e isso, não a impressão subjetiva de “ela parece melhor”, é o sinal objetivo de que o plano precisa mudar. No paciente em reidratação oral supervisionada, a recomendação clássica é pesar antes de iniciar e a cada duas horas.
Vale um alerta de execução: balança de adulto não serve para pesar lactente, e pesar com fralda, roupa e cobertor destrói a comparação. O peso só vale se as duas medidas forem feitas do mesmo jeito. Anote também como pesou.
2. Quando os eletrólitos importam de verdade
Exames não são rotina na criança com quadro leve e boa evolução. Quando há necessidade de hidratação intravenosa, avaliar sódio, potássio, ureia, creatinina e glicemia inicialmente; suspeita de choque também pode indicar gasometria venosa e cloro. Distúrbios neurológicos, perdas incomuns, doença renal e suspeita de disnatremia reforçam a necessidade de investigação e monitorização.
Suspeite de distúrbio do sódio diante de alteração neurológica, irritabilidade desproporcional, hipertonia ou história de reposição inadequada. Sinais de hipernatremia podem tornar a desidratação menos evidente. Valor, sintomas, duração provável e perfusão orientam a correção; chame a equipe experiente e evite alterar a velocidade da reposição sem esse conjunto.
Na criança que precisa de hidratação venosa, procure colher os exames pertinentes durante a obtenção do acesso, sem atrasar ressuscitação. A avaliação inicial identifica alterações que podem modificar composição, velocidade e monitorização da reposição. Ureia e creatinina elevadas podem refletir hipoperfusão e lesão renal; não são resultados falsos a descartar por terem sido obtidos antes da expansão. Interprete com diurese, estado clínico e evolução após o tratamento.
A glicemia à beira do leito deve ser obtida prontamente na criança com sinais de perigo ou alteração de consciência e tratada quando necessário. Ela não é a única coleta permitida na entrada. Os demais exames indicados podem ser obtidos em paralelo ao suporte, sem transformar a coleta em condição para começar a reposição.
3. Coprocultura, parasitológico e pesquisa de vírus: quem precisa
A investigação etiológica da diarreia aguda não é obrigatória e não deve ser rotina. Ela se justifica nos casos graves e nos pacientes hospitalizados, e a razão é simples: o resultado demora mais que a doença, os laboratórios em geral não dispõem de recursos para identificar todos os vírus e bactérias envolvidos, e — o ponto que decide — o resultado quase nunca muda o tratamento, que é reidratação e alimentação independentemente do agente.
Nos casos em que se investiga, o repertório é parasitológico de fezes, coprocultura e pesquisa de vírus, além de pesquisa de leucócitos, sangue e substâncias redutoras nas fezes. A coprocultura tem indicação mais definida na disenteria com comprometimento do estado geral: colher antes de iniciar o antibiótico é o que permite ajustar depois, e é especialmente relevante porque no Brasil a Shigella tem taxa alta de resistência ao sulfametoxazol-trimetoprim, um esquema que ainda circula por hábito.
Há um cenário em que colher fezes deixa de ser decisão individual e vira dever de saúde pública: o surto. Vários casos na mesma creche, na mesma escola, no mesmo prédio ou ligados à mesma fonte de água exigem acionar a vigilância epidemiológica do município, que orienta a coleta. Nesse caso a amostra não é para tratar aquela criança; é para achar a fonte antes que ela adoeça as próximas.
4. O que NÃO pedir, e o custo de pedir
Exame parasitológico de fezes de rotina em diarreia aguda. Custo: a criança fica esperando resultado, a família paga o transporte, e o resultado — quase sempre negativo ou com um achado incidental — chega quando a diarreia já parou. Pior: um cisto de Giardia encontrado por acaso em uma criança com diarreia viral leva a um tratamento desnecessário e à falsa sensação de que se resolveu o caso.
Hemograma de rotina. Ele não distingue diarreia viral de bacteriana com confiabilidade que sustente conduta, e na criança desidratada vem hemoconcentrado, o que produz leituras enganosas. Na criança grave, ele entra junto com o resto — mas como parte de uma avaliação, não como triagem.
Radiografia de abdome de rotina. A dor abdominal em cólica faz parte do quadro, e a radiografia em quadro de diarreia aguda sem sinais de obstrução ou peritonite responde pouco e irradia. As exceções são clínicas, não protocolares: distensão importante com timpanismo, vômitos biliosos, ausência de eliminação de gases, abdome doloroso à descompressão. Aí não é mais diarreia — é abdome agudo até prova em contrário.
Cultura de urina “porque tem febre”, na criança em que a diarreia explica tudo e o exame físico é normal, também é pedido em excesso. Mas aqui a régua se inverte no lactente: no menor de dois anos com febre e sem foco claro, a infecção urinária é diagnóstico frequente que se manifesta com sintomas digestivos. Diante de febre alta com diarreia, a pergunta certa não é “peço urina?”, é “existe outro foco?”, e a resposta vem do exame físico completo.
O último item da lista não é um exame, é um gesto: pedir qualquer coisa antes de classificar. Uma criança gravemente desidratada esperando o resultado do ionograma para começar a reidratar é um erro de sequência com desfecho, não uma preferência de estilo.
5. O que existe no SUS, e o que isso implica
A boa notícia deste tema é que quase tudo o que ele exige está disponível na atenção primária brasileira: sais de reidratação oral, balança, copo, colher, soro fisiológico, Ringer lactato, equipo, e uma sala com uma cadeira onde a mãe possa sentar por quatro horas. Essa sala tem nome histórico — sala de reidratação oral — e sua existência ou não é o que determina, na prática, se uma unidade consegue tratar o plano B ou se empurra tudo para o hospital.
Duas faltas reais merecem ser ditas porque mudam a conduta. A primeira é o zinco: ele está no protocolo nacional, com dose e duração definidas, e a Rename 2024 o tem no Componente Básico — sulfato de zinco em xarope de 4 mg/mL e em comprimido mastigável de 10 mg —, mas nem sempre na prateleira da unidade. O erro que se repete é de conta: o quadro do AIDPI manda manipular a 10 mg/mL, e 2 mL do xarope de 4 mg/mL dão 8 mg, e não 20. Prescrever zinco é escrever a dose em miligramas e o volume na apresentação que existe, e conversar com a família sobre acesso, em vez de escrever e ficar por isso mesmo.
A segunda é a solução de reidratação oral de baixa osmolaridade: o sachê distribuído pela rede é o de concentração de sódio mais alta. Isso não impede tratar ninguém — impede apenas fingir que o soro brasileiro é igual ao que a literatura internacional descreve, e obriga a orientar líquidos sem sódio junto, na reposição domiciliar.
Uma terceira, menos citada: o material do plano C. Ringer lactato nem sempre está na unidade básica, e a alternativa prevista é o soro fisiológico — que está em toda parte. Saber que os dois servem para a fase rápida evita a paralisia de quem procura a solução ideal enquanto a criança espera.
Classificar o grau, escolher o plano e executar com volume, tempo e via
Tudo o que decide o destino da criança com diarreia cabe em três perguntas, nesta ordem: há sinal de perigo? qual o grau de desidratação? qual o peso? As duas primeiras escolhem o plano; a terceira transforma o plano em prescrição. Os quadros abaixo são a régua de execução — os números moram aqui e não se repetem no texto corrido. Quando a dúvida for entre dois graus, a orientação nacional é considerar o pior cenário.
- 1Procure primeiro os sinais de perigo: não consegue beber ou mamar, vomita tudo, convulsão, letargia ou inconsciência. Se houver, a criança é grave por definição e a classificação de desidratação vem depois do atendimento inicial.
- 2Pergunte há quanto tempo é a diarreia e se há sangue nas fezes. O tempo separa aguda de persistente; o sangue abre a classificação de disenteria.
- 3Observe: estado geral, olhos, lágrimas, boca e língua; e ofereça líquido para ver como a criança bebe.
- 4Explore: sinal da prega no abdome, pulso, enchimento capilar. Pese a criança e anote o peso com o horário.
- 5Decida contando sinais: dois ou mais sinais da coluna do meio classificam como desidratação; dois ou mais da coluna da direita, com ao menos um dos assinalados, classificam como desidratação grave; nenhuma das duas, sem desidratação.
- 6Trate: sem desidratação, plano A em casa; com desidratação, plano B na unidade de saúde, com a criança permanecendo até reidratar; desidratação grave, plano C, com via venosa e transferência.
- 7Prescreva zinco em qualquer um dos três planos, para toda criança menor de cinco anos com diarreia.
- 8Antes de a criança sair, ensine os sinais de retorno imediato e marque o retorno de seguimento.
Sem desidratação — plano A, tratamento em casa
Criança ativa e alerta, olhos sem alteração, lágrimas presentes, boca úmida, bebe normalmente sem avidez, prega desaparece imediatamente, pulso cheio. Não há sinais suficientes para classificar como desidratação. O tratamento é domiciliar: líquidos adicionais após cada evacuação, alimentação mantida, zinco, e orientação de retorno.
Com desidratação — plano B, soro oral na unidade de saúde
Dois ou mais destes: irritada e intranquila, olhos fundos, lágrimas ausentes, boca seca, sedenta — bebe rápido e avidamente —, prega desaparece lentamente. O pulso ainda é cheio, e a perda de peso vai até 10%. O tratamento é soro de reidratação oral supervisionado, com a criança permanecendo no serviço até a reidratação completa.
Desidratação grave — plano C, via venosa
Dois ou mais sinais, sendo ao menos um destes: comatosa, hipotônica, letárgica ou inconsciente; não é capaz de beber; pulso fraco ou ausente. Somam-se olhos fundos, lágrimas ausentes, boca muito seca e prega que desaparece muito lentamente, acima de dois segundos. A perda de peso passa de 10% e sinais de choque são visíveis. Reidratação venosa imediata e transferência.
| Etapa e sinal | A — sem desidratação | B — com desidratação | C — desidratação grave |
|---|---|---|---|
| OBSERVE · estado geral | Ativo, alerta | Irritado, intranquilo | Comatoso, hipotônico, letárgico ou inconsciente * |
| OBSERVE · olhos | Sem alteração | Fundos | Fundos |
| OBSERVE · sede | Sem sede, bebe normalmente | Sedento, bebe rápido e avidamente | Não é capaz de beber * |
| OBSERVE · lágrimas | Presentes | Ausentes | Ausentes |
| OBSERVE · boca e língua | Úmida | Seca ou levemente seca | Muito seca |
| EXPLORE · sinal da prega (abdome) | Desaparece imediatamente | Desaparece lentamente | Desaparece muito lentamente (mais de 2 segundos) |
| EXPLORE · pulso | Cheio | Cheio | Fraco ou ausente * |
| EXPLORE · enchimento capilar | Normal, até 3 segundos | Prejudicado, 3 a 5 segundos | Muito prejudicado, mais de 5 segundos * |
| EXPLORE · perda de peso | Sem perda | Até 10% | Acima de 10% |
| DECIDA | Nenhum conjunto de sinais | Dois ou mais sinais desta coluna | Dois ou mais sinais, sendo ao menos um assinalado com * |
| TRATE | PLANO A — em casa | PLANO B — soro oral na unidade | PLANO C — reidratação venosa |
Plano A — o que a família faz em casa, depois de cada evacuação
| Item | Conduta | Detalhe de execução |
|---|---|---|
| Volume de soro após cada evacuação · menor de 1 ano | 50 a 100 mL | Pequenos goles de copo ou colher; nunca mamadeira |
| Volume de soro após cada evacuação · 1 a 10 anos | 100 a 200 mL | Oferecer tanto quanto a criança aceitar; se quiser mais, dar mais |
| Volume de soro após cada evacuação · acima de 10 anos | O volume tolerado | Manter até a diarreia parar |
| Se a criança vomitar | Aguardar 10 minutos e retomar mais lentamente | Vômito não é falha do soro oral; é sinal de ter oferecido rápido demais |
| Alimentação | Manter a habitual; manter e intensificar o aleitamento materno | Não diluir fórmula; não trocar por fórmula sem lactose no tratamento em casa |
| Líquidos adequados | Soro de reidratação oral, água potável, água de coco, sopa de frango com hortaliças, água de arroz | Com o sachê da rede pública, oferecer também líquidos sem sódio ao longo do dia |
| Líquidos inadequados | Refrigerante, sucos industrializados, chá ou suco adoçado, café | Alta osmolaridade: puxam água para a luz intestinal e pioram a diarreia |
| Água sem garantia de potabilidade | Ferver por 20 minutos ou tratar com 2 gotas de hipoclorito de sódio por litro | Orientação do protocolo nacional, não improviso |
Plano B — soro de reidratação oral nas primeiras 4 horas, na unidade de saúde
| Idade (usar só se o peso for desconhecido) | Peso | Volume de soro em 4 horas | Velocidade média |
|---|---|---|---|
| Até 4 meses | menos de 6 kg | 200 a 400 mL | 50 a 100 mL/h |
| 4 a 11 meses | 6 a menos de 10 kg | 400 a 700 mL | 100 a 175 mL/h |
| 12 meses a 2 anos | 10 a menos de 12 kg | 700 a 900 mL | 175 a 225 mL/h |
| 2 a 5 anos | 12 a 19 kg | 900 a 1400 mL | 225 a 350 mL/h |
| Regra de cálculo pelo peso | qualquer | peso em kg × 75 mL | o total dividido por 4 horas |
| Estimativa por déficit (referência da SBP) | qualquer | 50 a 100 mL/kg em 4 a 6 horas | conforme a gravidade e a sede |
Plano C — fase rápida de expansão venosa, por faixa etária
| Paciente | Solução | Primeira etapa | Segunda etapa |
|---|---|---|---|
| Menor de 1 ano | Soro fisiológico 0,9% ou Ringer lactato | 30 mL/kg em 1 hora | 70 mL/kg em 5 horas |
| Maior de 1 ano | Soro fisiológico 0,9% ou Ringer lactato | 30 mL/kg em 30 minutos | 70 mL/kg em 2 horas e 30 minutos |
| Recém-nascido e menor de 5 anos com cardiopatia grave | Soro fisiológico 0,9% | 10 mL/kg | Ajustar a velocidade por parâmetros clínicos, reavaliando |
| Desnutrido grave | Soro fisiológico 0,9% | 10 mL/kg | Reavaliação a cada hora; não superestimar a desidratação |
| Sem acesso venoso disponível | Soro de reidratação oral por sonda nasogástrica | 20 a 30 mL/kg por hora | Reavaliar a cada 1 a 2 horas; se em 3 horas não melhora, encaminhar para via venosa |
| Enquanto o venoso corre | Soro de reidratação oral por via oral | cerca de 5 mL/kg/hora, assim que a criança conseguir beber | Em geral 2 a 3 horas após o início do soro venoso |
Após a ressuscitação — cálculo inicial e ajustes da hidratação
| Componente | Referência | O que conferir antes de prescrever |
|---|---|---|
| Manutenção até 10 kg | 100 mL/kg em 24 horas | Estimativa inicial; descontar ingestão e ajustar ao estado clínico |
| Manutenção de 10 a 20 kg | 1000 mL + 50 mL por kg acima de 10 kg em 24 horas | 12 kg: 1100 mL; 15 kg: 1250 mL, antes dos ajustes |
| Manutenção acima de 20 kg | 1500 mL + 20 mL por kg acima de 20 kg em 24 horas | Respeitar limites e ajustes do protocolo do serviço |
| Composição venosa | Solução isotônica, com glicose quando necessária | Glicemia, eletrólitos, função renal e eventual distúrbio específico |
| Perdas em curso | Reposição adicional conforme perdas, sem duplicar o déficit já tratado | Quantificar ou estimar, registrar e reavaliar; usar via oral quando possível |
| Potássio | Decisão individual após avaliação laboratorial e renal | Diurese, dose em mEq, concentração, velocidade e monitorização; nunca bolus |
| Transição | Aumentar a via digestiva e reduzir o venoso progressivamente | Aceitação, hidratação, diurese e capacidade de manter o plano |
Medicamentos: o que entra, o que só entra com condição, o que não entra
| Medicamento | Quando | Dose e duração |
|---|---|---|
| Zinco | Toda criança menor de 5 anos com diarreia, em qualquer plano | Até 6 meses: 10 mg/dia. De 6 meses a 5 anos: 20 mg/dia. Uma vez ao dia, por 10 a 14 dias |
| Ondansetrona | Só no plano B, com vômitos persistentes que impedem a via oral | 6 meses a 2 anos: 2 mg. Mais de 2 a 10 anos (até 30 kg): 4 mg. Acima de 10 anos (mais de 30 kg): 8 mg. Referência de 0,2 a 0,4 mg/kg, comprimido dispersível |
| Azitromicina | Disenteria com comprometimento do estado geral, até 10 anos ou 30 kg | 10 mg/kg no primeiro dia e 5 mg/kg por mais 4 dias, via oral — total de 5 dias |
| Ceftriaxona | Disenteria em caso grave, menor de 3 meses ou imunodeficiência | 50 a 100 mg/kg, uma vez ao dia, intramuscular ou endovenosa, por 3 a 5 dias |
| Ciprofloxacino | Disenteria acima de 10 anos ou 30 kg | 500 mg de 12 em 12 horas, via oral, por 3 dias |
| Metronidazol | Amebíase confirmada, ou falha do tratamento de Shigella | 50 mg/kg/dia divididos em 3 tomadas, por 10 dias |
| Metronidazol | Giardíase: diarreia de 14 dias ou mais com cistos ou trofozoítos identificados | 15 mg/kg/dia divididos em 3 tomadas, por 5 dias, sem passar de 250 mg por tomada; a suspensão de benzoilmetronidazol de 40 mg/mL equivale a 25 mg/mL de metronidazol, e a conta se faz com 25 (Parasitoses intestinais na infância: ascaridíase, giardíase, enterobíase e ancilostomíase, na apostila de Infectologia Pediátrica) |
| Vitamina A | População com risco de deficiência, sobretudo desnutridos | Menor de 6 meses: 50.000 UI. De 6 a 12 meses: 100.000 UI. Maiores: 200.000 UI |
| Antibiótico em diarreia aquosa | Nunca | Ineficaz e indutor de resistência antimicrobiana |
| Loperamida e outros antidiarreicos | Nunca em pediatria | Contraindicada |
| Metoclopramida | Nunca em menores de 18 anos | Uso proibido nessa faixa etária pela Anvisa |
Composição das soluções de reidratação oral — por que existe mais de um sachê
| Componente (mmol/L) | OMS 1975, tradicional — é o distribuído no Brasil | OMS 2002, osmolaridade reduzida | ESPGHAN, hipotônica |
|---|---|---|---|
| Glicose | 111 | 75 | 74 a 111 |
| Sódio | 90 | 75 | 60 |
| Potássio | 20 | 20 | 20 |
| Cloro | 80 | 65 | 60 |
| Citrato | 10 | 10 | 10 |
| Osmolaridade | 311 | 245 | 225 a 260 |
Quando reavaliar, quando trocar de plano e quando encaminhar
| Situação | Prazo | Decisão |
|---|---|---|
| Plano A em casa | 2 dias | Retorno se não melhorar; retorno imediato diante de qualquer sinal de alerta |
| Plano B na unidade | 4 horas | Reavaliar e reclassificar: sem sinais, passa ao plano A; ainda desidratado, considerar sonda nasogástrica; evoluiu para grave, plano C |
| Plano B sem melhora | 3 a 4 horas na prática; 6 horas no texto do protocolo | Encaminhar ao hospital de referência |
| Plano C, fase rápida | Reavaliar durante a reposição e após intervenções; imediatamente se instável | Persistência de choque exige revisão e escalonamento, sem esperar prazo fixo nem acelerar automaticamente |
| Plano C, após reidratação | observar por pelo menos 6 horas | Suspender o venoso só quando a criança tolerar o soro oral em volume suficiente e sem vômitos |
| Diarreia persistente sem desidratação | 5 dias | Reavaliação com peso; se perdeu peso, referir ao hospital |
| Disenteria tratada | 2 dias | Consulta de retorno obrigatória |
| Diarreia com 14 dias ou mais em menor de 6 meses, ou com desidratação | imediato | Hidratar primeiro e encaminhar |
Exames e reidratação: decisões em paralelo
| Situação | Investigação | Princípio de execução |
|---|---|---|
| Quadro leve, sem complicação | Sem exames sanguíneos de rotina | Avaliação clínica, soro oral e orientação |
| Hidratação venosa necessária | Sódio, potássio, ureia, creatinina e glicemia | Coleta inicial quando possível, sem atrasar tratamento |
| Choque suspeito ou confirmado | Avaliar também equilíbrio ácido-base venoso e cloro | Ressuscitação e reavaliação contínuas |
| Alteração neurológica ou disnatremia suspeita | Glicemia e exames dirigidos prontamente | Equipe experiente e ajuste monitorizado da reposição |
| Função renal alterada | Diurese, valores iniciais e tendência | Reconhecer possível lesão renal e acompanhar resposta |
Os sinais marcados com asterisco no primeiro quadro são os que, sozinhos, puxam a classificação para desidratação grave quando acompanhados de pelo menos mais um sinal.
As variáveis de estado geral, olhos, sede e sinal da prega são as que a Organização Mundial da Saúde aponta como de maior sensibilidade e especificidade — quando os sinais discordam, o peso maior é delas.
O quadro do plano B traz duas réguas de volume que convivem: a tabela por peso do protocolo nacional, cujo total equivale a multiplicar o peso por 75, e a estimativa por déficit de 50 a 100 mL/kg em 4 a 6 horas usada pela Sociedade Brasileira de Pediatria. A primeira é mais prática à beira do leito; a segunda calibra melhor a criança no limite inferior ou superior do grau.
A avaliação da perda de peso é exigida sobretudo no paciente internado que evolui com diarreia e vômito. Na porta de entrada, quem classifica é o exame clínico — mas o peso da chegada é o que permitirá dizer, quatro horas depois, se funcionou.
Havendo dúvida entre plano B e plano C, considere o pior cenário e trate como plano C.
A fase rápida do plano C soma 100 mL/kg, que é justamente o déficit estimado de quem perdeu mais de 10% do peso. O volume não é arbitrário: é a tradução do percentual em mililitros.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo acompanha as duas crianças da primeira página, porque elas percorrem os dois caminhos que o interno precisa saber executar. Heitor, 11 meses, 8 quilos, com desidratação: entra no plano B e sai de alta no plano A. Vitória, 2 anos e 4 meses, 12 quilos, com desidratação grave: entra no plano C.
Cada marco traz o que se faz, por que se faz e a prescrição como ela sai no papel, com os volumes já calculados para o peso de cada uma. Trocar o peso troca todos os números — as regras de cálculo estão nos quadros do bloco anterior, e a conta se refaz em trinta segundos.
Na chegada, reconheça sinais de perigo e perfusão antes de uma conta detalhada. Obtenha peso confiável quando possível; se a criança estiver instável, use estimativa apropriada enquanto organiza o atendimento, sem atrasar ressuscitação para levá-la à balança. Registre o peso usado e confirme quando seguro.
Hora 0 — Heitor, 8 kg, desidratação: classificar e montar o plano B
Três gestos antes de escrever qualquer coisa. Primeiro, checar sinais de perigo: ele bebe, não convulsionou, não está letárgico — não há. Segundo, contar os sinais de desidratação: irritado, olhos fundos, sedento bebendo avidamente, prega lenta, boca seca, sem lágrima. São seis; bastavam dois. Classificação: com desidratação. Terceiro, pesar e anotar com o horário: 8,0 kg às 9h55. O plano é B, e o plano B se faz aqui, na unidade, com a criança e a mãe sentadas, até a reidratação completa. O volume das primeiras quatro horas sai da conta pelo peso e é fracionado em pequenos goles contínuos, de colher ou copo — nunca mamadeira. Enquanto o soro é preparado, a mãe já começa a oferecer. Não há acesso venoso, não há exame, não há jejum de leite materno: se ele quiser mamar, mama.
Prescrição- Soro de reidratação oral 600 mL para correr nas próximas 4 horas, por via oral, em pequenos goles frequentes de copo ou colher (equivale a cerca de 150 mL por hora, ou uma colher de sopa cheia a cada 5 minutos)
- Se vomitar: pausar 10 minutos e retomar mais lentamente, sem reduzir o volume total previsto
- Manter o aleitamento materno em livre demanda durante toda a reidratação
- Zinco 20 mg por via oral, uma vez ao dia, por 10 dias — solução de sulfato de zinco 4 mg/mL: 5 mL ao dia
- Pesar na chegada e a cada 2 horas; anotar peso e horário
- Registrar número de evacuações e de vômitos no período
Hora 1 — Heitor: quando o vômito ameaça derrubar o plano
Uma hora depois, Heitor vomitou duas vezes e a mãe está desanimada: “doutor, ele bota tudo pra fora”. Este é o momento exato em que a maioria dos planos B do Brasil morre e vira acesso venoso. A conduta correta é técnica, não farmacológica: pausar dez minutos, recomeçar mais devagar, oferecer volumes menores em intervalos mais curtos. Vômito no início da reidratação é comum e costuma ceder à medida que a desidratação corrige — a desidratação, aliás, é uma das causas do vômito. Se os vômitos são persistentes a ponto de impedir a ingestão, o protocolo prevê uma dose de ondansetrona, e só então se reavalia. É importante entender o que essa dose é: ela existe para salvar a via oral, não para substituí-la por veia. E há um item não farmacológico que decide tanto quanto: alguém precisa estar oferecendo. Mãe cansada, sozinha, sem cadeira e sem instrução, não sustenta quatro horas de colherzinha.
Prescrição- Pausa de 10 minutos após o vômito; retomar com volumes menores e intervalos menores (uma colher de chá a cada 2 a 3 minutos, cerca de 120 mL por hora)
- Se vômitos persistentes impedirem a via oral: ondansetrona 2 mg, comprimido dispersível, dose única, por via oral — faixa de 6 meses a 2 anos
- Reavaliar a aceitação 30 minutos após a dose
- Manter o volume total de 600 mL previsto para as 4 horas; o que muda é a velocidade, não o alvo
Hora 4 — Heitor: reavaliar, reclassificar e decidir o destino
Quatro horas depois, refaz-se o exame inteiro, do mesmo jeito que na entrada: estado geral, olhos, lágrimas, boca, sede, prega, pulso, enchimento capilar — e peso. Heitor está ativo, brincando com a tampa da garrafa, aceita água sem avidez, tem lágrima ao chorar, boca úmida e prega que volta imediatamente. Pesa 8,4 kg. Molhou duas fraldas na última hora. Reclassificação: sem desidratação. Ele passa para o plano A, e — este é o detalhe que o protocolo faz questão de marcar — a alimentação é reiniciada aqui, no serviço, na frente da mãe, não em casa. Reiniciar a comida na unidade tem uma função pedagógica explícita: ela vê que a criança come, e não vai voltar ao jejum assim que atravessar o portão. Se, ao contrário, ele continuasse desidratado, o próximo passo não seria a veia: seria sonda nasogástrica para gastróclise. E se tivesse evoluído para grave, seria plano C.
Prescrição- Reiniciar a alimentação habitual para a idade ainda na unidade, sem diluir fórmula e sem trocar por fórmula sem lactose
- Alta com soro de reidratação oral: 50 a 100 mL após cada evacuação líquida, em casa, até a diarreia parar (menor de 1 ano)
- Entregar sachês de soro em quantidade suficiente e demonstrar o preparo na frente da mãe, pedindo que ela repita
- Manter zinco 20 mg ao dia até completar 10 dias
- Retorno em 2 dias para reavaliação, com a criança pesada de novo
- Retorno imediato se: piora da diarreia, vômitos repetidos, sangue nas fezes, muita sede, recusa de líquidos, diminuição da diurese ou piora do estado geral
Hora 0 — Vitória, 12 kg, desidratação grave: o que se faz nos primeiros cinco minutos
Vitória é o outro caminho e o relógio é outro. Ela está letárgica, não é capaz de beber, o pulso é fraco e a prega demora mais de dois segundos — três sinais de gravidade, quando bastava um deles somado a outro qualquer. Pesa 12,0 kg contra 13,4 kg registrados na caderneta há três semanas: perdeu 1,4 kg, o que corresponde a 10,4% do peso. Classificação: desidratação grave, plano C. A sequência dos primeiros cinco minutos é: acesso venoso — de preferência veia calibrosa, e dois acessos se houver choque —, glicemia capilar, e início imediato da expansão. Se o acesso periférico falhar em poucas tentativas, a via seguinte é a intraóssea, não a insistência. E se a criança conseguir beber enquanto o equipo é montado, oferece-se soro oral em paralelo: não há competição entre as vias. Enquanto isso, aciona-se a transferência.
Prescrição- Acesso venoso periférico calibroso; se choque, dois acessos. Falha em poucas tentativas: via intraóssea
- Glicemia capilar imediata; se hipoglicemia, corrigir junto com a expansão
- Fase rápida, primeira etapa: soro fisiológico 0,9% 360 mL por via endovenosa em 30 minutos (720 mL/h — em equipo de macrogotas, cerca de 240 gotas por minuto, o que na prática exige equipo aberto, bolsa pressurizada ou bomba de infusão)
- Fase rápida, segunda etapa: Ringer lactato ou soro fisiológico 0,9% 840 mL por via endovenosa em 2 horas e 30 minutos (336 mL/h — cerca de 112 gotas por minuto)
- Soro de reidratação oral por via oral, cerca de 60 mL por hora, assim que ela conseguir beber
- Zinco 20 mg ao dia por 10 dias, iniciado assim que houver via oral
- Acionar transferência para serviço hospitalar desde já, sem esperar o fim da expansão
Hora 0 a 3 — Vitória: reavaliar com o cronômetro na mão
Reavalie consciência, perfusão, pulso, respiração e diurese durante a reposição e após cada intervenção. Choque persistente não espera a marca de duas horas: exige revisão imediata da resposta, do volume administrado, de perdas, de complicações e de outras causas, com ajuda da equipe. Aumentar velocidade ou repetir volume não é uma resposta automática a qualquer ausência de melhora. Colha os exames iniciais pertinentes em paralelo ao acesso e ao suporte, quando possível. Os resultados e a evolução ajudam a ajustar composição, ritmo e monitorização. Assim que houver condição clínica e aceitação, retome soro oral em pequenas ofertas e coordene o volume das duas vias para evitar sobreposição não planejada.
Prescrição- Reavaliar repetidamente durante a expansão e após cada intervenção: consciência, perfusão, pulso, respiração, diurese e sinais de sobrecarga; frequência maior na instabilidade.
- Choque persistente ou deterioração: reavaliação imediata e escalonamento com a equipe; não aguardar duas horas para decidir.
- Ausência de melhora: revisar volume entregue, perdas, distúrbios metabólicos e diagnóstico antes de repetir ou acelerar a infusão.
- Colher sódio, potássio, ureia, creatinina e glicemia inicialmente quando indicada hidratação venosa; considerar gasometria venosa e cloro no choque. Fazer em paralelo ao suporte, sem retardá-lo.
- Iniciar soro de reidratação oral em pequenas doses assim que aceitar, mantendo o soro venoso
Hora 3 a 24 — Vitória: manutenção, reposição e potássio
Após recuperar a perfusão, refaça o balanço: déficit ainda necessário, manutenção, perdas em curso e tudo o que a criança já recebe por boca, sonda ou veia. O volume calculado pelo peso é uma estimativa inicial. Para a manutenção hospitalar deste percurso, usa-se solução isotônica com glicose quando necessária, conforme NICE CG84, em lugar de transformar misturas hipotônicas de cartazes antigos em receita universal. Potássio depende do valor sérico, função renal, diurese e monitorização; não se acrescenta automaticamente. Perdas fecais devem ser medidas ou estimadas e repostas com reavaliação. Reduza o venoso à medida que a via digestiva se torna suficiente.
Prescrição- Referência de manutenção pelo peso de 12 kg: 1100 mL/24 h, cerca de 46 mL/h, antes dos ajustes por ingestão, perdas, função renal e evolução. Se precisar permanecer venosa, usar solução isotônica com glicose conforme o protocolo hospitalar e a glicemia.
- Decidir suplementação de potássio com resultado sérico, função renal e diurese avaliados; registrar dose em mEq, diluição e velocidade conforme protocolo, com dupla conferência. Não adicionar KCl automaticamente nem administrá-lo em bolus.
- Reposição das perdas: preferir soro oral quando tolerado; se necessária via venosa, escolher composição e volume a partir das perdas e eletrólitos, reavaliando o balanço e evitando somas automáticas de volumes fixos.
- Suspender o soro venoso quando a criança estiver hidratada, tolerando soro oral em volume suficiente e sem vômitos
- Reintroduzir alimentação e aleitamento assim que houver melhora da desidratação e estabilidade hemodinâmica
- Manter observação por pelo menos 6 horas após a reidratação
Quando não há veia — o plano C fora do hospital
O plano C foi desenhado para um país em que nem toda unidade tem acesso venoso imediato, e a árvore de decisão do AIDPI reflete isso: se não é possível dar líquidos por via venosa aqui, é possível a trinta minutos daqui? Se não, há alguém treinado para reidratação por sonda nasogástrica? Se não, a criança consegue beber? Só depois de esgotar essas três portas é que a resposta vira transferência urgente com soro oral em goles durante o trajeto. A reidratação por sonda tem volume e ritmo próprios, e tem um critério de desistência: se em três horas a criança não estiver melhorando, ela precisa de via venosa, e a transferência não pode mais esperar. É um algoritmo desenhado para não paralisar o serviço que não tem tudo — e para não deixar a criança sem nada enquanto se procura o ideal.
Prescrição- Sem via venosa disponível e com equipe treinada: soro de reidratação oral por sonda nasogástrica, 20 a 30 mL/kg por hora
- Reavaliar a cada 1 a 2 horas; se houver vômitos repetidos ou distensão abdominal, reduzir a velocidade
- Se após 3 horas não houver melhora, encaminhar para via venosa
- Reavaliar em 6 horas e reclassificar a desidratação para escolher o plano seguinte
- Na impossibilidade de qualquer uma das vias: transferência urgente, com soro oral em goles frequentes durante o trajeto e aleitamento mantido se possível
- Se a transferência não for possível, observar a criança por pelo menos 6 horas após a reidratação, garantindo que quem cuida consegue manter a hidratação por via oral
A criança com disenteria — quando o antibiótico entra
Sangue nas fezes muda uma coisa e só uma: abre a possibilidade de antibiótico. Não muda a reidratação, que segue exatamente o mesmo caminho de A, B ou C conforme o grau, e não muda o zinco, que é para todos. A condição para o antibiótico é dupla: sangue nas fezes mais comprometimento do estado geral. Criança com sangue nas fezes e bom estado geral não recebe antibiótico de rotina. Quando o antibiótico entra, a hipótese que se cobre é Shigella, e o esquema oral mudou na recomendação nacional mais recente — a azitromicina assumiu o lugar de primeira linha para a criança pequena, e o ciprofloxacino ficou para o paciente acima de dez anos ou trinta quilos, entre outras razões porque não existe apresentação em suspensão oral de ciprofloxacino no Brasil. O sulfametoxazol-trimetoprim, que ainda circula por hábito, esbarra em taxa alta de resistência de Shigella no país. E há um retorno obrigatório: dois dias.
Prescrição- Reidratar conforme o grau: plano A, B ou C — a disenteria não altera o plano de hidratação
- Criança até 10 anos ou 30 kg, com comprometimento do estado geral: azitromicina 10 mg/kg no primeiro dia e 5 mg/kg por mais 4 dias, via oral (para 12 kg: 120 mg no primeiro dia e 60 mg do segundo ao quinto — suspensão de 200 mg/5 mL: 3 mL e depois 1,5 mL ao dia)
- Caso grave, menor de 3 meses ou imunodeficiência: ceftriaxona 50 a 100 mg/kg, uma vez ao dia, por 3 a 5 dias
- Colher coprocultura antes de iniciar o antibiótico, sempre que possível
- Zinco 20 mg ao dia por 10 dias
- Retorno em 2 dias, obrigatório
Alta — o contrato que a criança leva para casa
A alta da criança com diarreia não é a soma de uma receita e um carimbo. São quatro coisas, e se qualquer uma delas faltar, a alta vira aposta. Primeira: o que dar, com volume e com demonstração do preparo feita na frente de quem vai preparar. Segunda: o que comer — a alimentação habitual, sem diluição e sem suspensão do leite materno. Terceira: os sinais que trazem a criança de volta antes do dia marcado, ditos em palavras da casa, não do prontuário. Quarta: a data do retorno. A criança do plano A volta em dois dias se não melhorar; a com disenteria volta em dois dias sempre; a com diarreia persistente volta em cinco. E há uma quinta, que não é do contrato mas é do episódio: a orientação de higiene — lavar as mãos com sabão, tratar a água, higienizar os alimentos —, que é o que impede o próximo episódio e o irmão de adoecer junto.
Prescrição- Soro de reidratação oral após cada evacuação líquida, no volume da faixa etária, até a diarreia parar
- Alimentação habitual mantida; aleitamento materno mais frequente e por mais tempo
- Zinco até completar 10 a 14 dias, mesmo depois que a diarreia parar
- Sinais de retorno imediato ditos em voz alta e repetidos pela família: piora da diarreia, vômitos repetidos, sangue nas fezes, sede excessiva, recusa de líquidos, redução da urina, piora do estado geral
- Data do retorno anotada no papel, não só falada
- Orientação de higiene das mãos com sabão, tratamento da água e higienização dos alimentos
Como saber se está funcionando
No plano B, acompanhe ingestão, vômitos, perdas e sinais clínicos durante a reidratação, com reclassificação ao final do período previsto ou antes se houver piora. Se ainda houver desidratação, reveja oferta e resposta e decida manter estratégia oral, usar via assistida ou mudar o plano conforme o quadro. No choque, a reavaliação é imediata e repetida; nenhuma janela de horas justifica aguardar deterioração.
Compare com a avaliação inicial, registrando sinais clínicos, volumes administrados, perdas e diurese. Quando colhidos, os exames entram como tendência e como informação para ajustar o plano. Melhora da perfusão, da atividade e da ingestão precisa ser coerente; um único número não encerra a reavaliação.
Esperado: A criança irritada fica calma e interativa; a letárgica acorda, chora, resiste ao exame. Voltar a reclamar e a se irritar com o exame é melhora, não piora.
Se não melhora: Letargia persistente exige verificar resposta da perfusão, glicemia, eletrólitos e outras causas, como sepse, meningite, intoxicação ou invaginação. Não espere terminar um volume predeterminado para investigar a piora, nem suponha que a persistência da letargia exclua desidratação ainda não corrigida.
Esperado: Ganho de peso proporcional ao volume reposto. Ganhar peso durante a reidratação é o dado objetivo de que o tratamento está entrando — cada 100 mL retidos pesam cerca de 100 g.
Se não melhora: Peso estável ou em queda apesar do volume ofertado significa que as perdas superam a reposição, ou que o volume não está sendo realmente ingerido. Verifique primeiro se alguém ofereceu de fato; depois aumente a frequência da oferta; depois considere sonda nasogástrica. Ganho de peso excessivo com estertores, galope ou hepatomegalia é o oposto: reduza a velocidade.
Esperado: Desaparecimento dos sinais, com a criança bebendo sem avidez e a prega voltando imediatamente. A reclassificação é formal: refaz-se o quadro inteiro, não se olha só um sinal.
Se não melhora: Se ainda houver sinais de desidratação sem gravidade, o próximo passo é sonda nasogástrica para gastróclise, não punção venosa. Se surgiu qualquer sinal de gravidade, o plano passa a ser C imediatamente.
Esperado: Retomada da diurese em 4 a 6 horas de reidratação adequada, com fralda pesada. Diurese abundante é um dos melhores marcadores de que a desidratação foi revertida.
Se não melhora: Diurese ausente ou insuficiente exige revisar perfusão, volume realmente recebido, perdas e função renal. No plano C, use os exames colhidos inicialmente e repita conforme resposta; não espere a expansão terminar para conhecer eletrólitos e função renal. Considere lesão renal aguda e outras causas, com ajuda da equipe, antes de aumentar volume ou adicionar potássio.
Esperado: Pulso que enche, frequência cardíaca que cai em direção à faixa da idade, extremidades que aquecem e enchimento capilar que normaliza. É o primeiro conjunto a responder, antes do estado geral.
Se não melhora: Persistência de sinais de choque em 2 horas manda repetir a prescrição de expansão, conforme o fluxograma nacional. Se, mesmo assim, não melhorar, o diagnóstico de choque puramente hipovolêmico por diarreia deve ser questionado — sepse, cardiopatia e choque distributivo entram na conversa, e a criança precisa de terapia intensiva.
Esperado: Redução progressiva à medida que a desidratação corrige. Um ou dois vômitos no início não indicam falha; indicam velocidade excessiva de oferta.
Se não melhora: Vômitos incoercíveis que impedem a ingestão configuram fracasso da reidratação oral. A sequência é: reduzir velocidade, uma dose de ondansetrona na faixa prevista, e — se ainda assim não ingerir — sonda nasogástrica ou via venosa conforme o grau. Vômito bilioso muda o problema: é suspeita de obstrução, não de gastroenterite.
Esperado: Redução progressiva ao longo dos dias. A maioria das diarreias agudas se resolve em até 7 dias, e a criança tratada em casa deve estar melhor em 2 dias.
Se não melhora: Aumento da frequência ou do volume é sinal de alerta para retorno imediato. Diarreia que passa de 14 dias muda de categoria para persistente, exige avaliação nutricional e conduta alimentar própria, e, com desidratação, exige encaminhamento; sem desidratação, trata-se na unidade — também no menor de 6 meses —, pelo quadro do AIDPI de 2017. A investigação da diarreia que não cede é de Diarreia persistente e crônica na criança e doença celíaca, nesta apostila.
Esperado: Retorno à alimentação habitual dentro de 4 a 6 horas, sem diluição de fórmula e com aleitamento materno mantido durante todo o episódio.
Se não melhora: Criança que não retoma a alimentação, ou família que suspendeu leite e comida por conta própria, é motivo de reavaliação — o déficit calórico do episódio é o que transforma um evento agudo em perda de peso duradoura. Confirme o que está sendo oferecido em casa perguntando o cardápio de ontem, item por item.
Esperado: Febre baixa ou ausente na gastroenterite viral típica, cedendo com o quadro.
Se não melhora: Temperatura de 39 °C ou mais obriga a procurar outro foco: pneumonia, otite, amigdalite, faringite, infecção urinária. Atribuir febre alta à diarreia sem examinar o resto é como assinar um diagnóstico que não se procurou.
Esperado: A criança volta melhor, com peso igual ou maior que o da consulta anterior, e a família repete corretamente os sinais de alerta.
Se não melhora: Criança que volta sem melhora, com perda de peso, deve ser reavaliada por completo e referida ao hospital se o peso caiu. E a pergunta a fazer antes de trocar a conduta é sempre a mesma: o plano anterior foi executado? Muita 'falha de tratamento' é, na verdade, tratamento que nunca aconteceu em casa.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro mais comum e o mais caro. A criança com desidratação sem sinais de gravidade tem cotransporte sódio-glicose preservado e reidrata pela boca com segurança. Puncionar significa dor, risco de infecção, imobilização, tempo de equipe consumido em algo que uma cadeira e um copo resolveriam, e — o pior — o ensino errado à família de que diarreia é doença de soro na veia. Em serviço lotado, cada punção desnecessária tira leito e braço de quem precisa.
Como pegar a tempo: Faça a classificação antes de decidir a via. Se a criança está na coluna do meio do quadro, o plano é B, e o plano B é oral. Reserve a agulha para os sinais que estão na coluna da direita e para as falhas documentadas da via oral — vômitos incoercíveis, ausência de ganho de peso, evolução para grave.
O dano: O espelho do erro anterior, e mata mais rápido. A criança letárgica, que não consegue beber e tem pulso fino, não vai reidratar pela boca porque não tem consciência nem força para deglutir volume — e cada dez minutos perdidos oferecendo colherzinha são dez minutos de hipoperfusão. O desfecho é choque hipovolêmico com acidose, lesão renal e parada em atividade elétrica sem pulso.
Como pegar a tempo: Os sinais de gravidade são poucos e devem ser procurados ativamente antes de tudo: incapacidade de beber, letargia ou inconsciência, pulso fraco ou ausente. Qualquer um deles somado a outro sinal fecha desidratação grave. E na dúvida entre plano B e C, a regra nacional é explícita: considere o pior cenário.
O dano: Sem o peso da entrada, você perde de uma vez a base do cálculo do volume, a estimativa do déficit e — sobretudo — o único parâmetro objetivo para dizer, quatro horas depois, se o tratamento funcionou. A reavaliação vira 'ele parece melhor', que é exatamente o tipo de julgamento que erra na criança que está compensando. Também se perde a chance de detectar sobrecarga hídrica antes de ela virar estertor.
Como pegar a tempo: Trate o peso como sinal vital obrigatório em toda criança com diarreia: despida, na mesma balança, anotado com horário. Peça a caderneta e procure o peso mais recente registrado na unidade básica — é a referência que transforma um palpite em porcentagem.
O dano: O jejum não desliga a diarreia secretora e cobra caro em caloria de uma criança que já está perdendo nutriente pelas fezes. Suspender o aleitamento é pior ainda: tira a fonte de líquido, de caloria e de fatores de proteção justo quando são mais necessários, e frequentemente não se retoma depois — o episódio de diarreia vira o dia em que aquela criança desmamou. Um terço das crianças com diarreia em países em desenvolvimento é mantido em jejum ou com alimentação muito reduzida.
Como pegar a tempo: Diga explicitamente à família que o peito não para, nem durante a reidratação. Reinicie a alimentação habitual ainda na unidade, ao fim da fase de reidratação, e observe a criança comendo antes da alta. Não dilua fórmula e não troque por fórmula sem lactose em tratamento domiciliar de diarreia aguda.
O dano: A imensa maioria das diarreias agudas da criança é viral e autolimitada. O antibiótico não encurta o quadro, expõe a criança a efeito adverso — inclusive diarreia associada a antibiótico —, seleciona resistência na comunidade e ensina a família a exigir receita no próximo episódio. Em alguns cenários piora: antibiótico na infecção por Escherichia coli êntero-hemorrágica está associado a risco aumentado de síndrome hemolítico-urêmica.
Como pegar a tempo: Guarde o antibiótico para a condição dupla do protocolo: sangue nas fezes com comprometimento do estado geral, ou cólera grave. Explique à família por que não está prescrevendo — a conversa de não prescrever é mais difícil que a de prescrever, e é ela que impede a compra na farmácia da esquina no dia seguinte.
O dano: O vômito do início da reidratação costuma ser efeito de oferta rápida demais e da própria desidratação, e cede com pausa e volumes menores. Medicar de saída troca um ajuste gratuito por um fármaco, e nas mãos erradas vira senha para pular a via oral. Pior é a metoclopramida, que a bula brasileira aprovada pela Anvisa deixa em dois degraus — contraindicada abaixo de 1 ano de idade e não recomendada entre 1 e 18 anos — e que carrega risco de reação extrapiramidal na criança. Os dois degraus não têm o mesmo peso: um fecha a porta, o outro exige justificativa. Na diarreia aguda não existe justificativa que a sustente.
Como pegar a tempo: Diante do vômito, pause 10 minutos, retome mais devagar, com colher, em volumes menores e mais frequentes. Reserve a ondansetrona para vômitos persistentes que impedem a ingestão, em dose única na faixa etária prevista, e reavalie a aceitação depois. Metoclopramida não entra aqui: além do risco extrapiramidal, ela é contraindicada abaixo de 1 ano de idade e não recomendada entre 1 e 18 anos, e a diarreia aguda não oferece indicação que justifique a exceção.
O dano: Loperamida é contraindicada em pediatria. Ao reduzir a motilidade, ela retém líquido e agente infeccioso na luz intestinal — o que produz distensão, íleo, e mascara a perda em vez de interrompê-la: a criança continua sequestrando volume, só que agora dentro da alça, e chega ao choque sem que ninguém tenha contado as evacuações. Há relatos de depressão do sistema nervoso central em lactentes.
Como pegar a tempo: Não prescreva e pergunte ativamente se a família deu algo por conta própria — é um medicamento comum na farmácia doméstica, muitas vezes sobra de tratamento de adulto. Se quiser oferecer algo além da reidratação, o que tem respaldo em diretriz como coadjuvante são probióticos de cepa específica e racecadotrila, com efeito modesto sobre a duração e nenhum efeito sobre a necessidade de reidratar.
O dano: O soro caseiro não contém potássio nem citrato, e a composição final varia muito conforme quem prepara. Preparado com sal demais, provoca hipernatremia — que se apresenta com irritabilidade, hipertonia e uma criança que parece menos desidratada do que está; com açúcar demais, aumenta a carga osmótica e piora a diarreia. Em ambos os casos a família acredita que está tratando.
Como pegar a tempo: Entregue sachês de sais de reidratação oral sempre que houver, em quantidade suficiente, e demonstre o preparo na frente de quem vai preparar. Quando o soro caseiro for a única opção, ensine com a colher-medida de dupla concha e peça que a pessoa refaça a mistura na sua frente antes de sair.
O dano: Este é o erro que produz a criança da terceira cadeira — a que volta em 36 horas já grave. A família que não sabe o que observar espera até o quadro ser evidente, e o intervalo entre 'ficou molinho' e 'não acorda direito' pode ser de poucas horas num lactente. Nenhuma prescrição compensa a ausência dessa lista.
Como pegar a tempo: Diga os sinais em palavras da casa, não do prontuário, e peça que a pessoa repita. Anote a data do retorno no papel. E use a regra prática do protocolo: a criança que recebeu plano B ou C nesta visita, e a criança que não conseguiria voltar se piorasse, saem obrigatoriamente com sachês de soro na mão.
O dano: O zinco está no protocolo nacional para toda criança menor de cinco anos com diarreia, em qualquer plano, e quase ninguém prescreve. Ele reduz a duração do episódio, a chance de a diarreia passar de sete dias e a ocorrência de novos episódios nos meses seguintes — e o racional é a alta prevalência de deficiência de zinco em populações vulneráveis. Não prescrever não causa dano agudo visível; causa episódios mais longos e mais frequentes numa criança que já está perdendo peso.
Como pegar a tempo: Coloque o zinco na mesma linha mental do soro: classificou, prescreveu soro, prescreveu zinco. Escreva a dose por idade e a duração completa, e avise que ele continua mesmo depois de a diarreia parar. Como a disponibilidade na rede pública ainda é irregular, escreva a receita de modo que uma farmácia de manipulação consiga aviar.
O dano: O adiamento pode ocultar distúrbios que modificam o plano de líquidos e a monitorização. Atribuir ureia ou creatinina elevadas apenas à concentração do sangue pode minimizar lesão renal associada à hipoperfusão. O erro oposto é pedir exames de rotina em toda diarreia leve, sem uma pergunta clínica.
Como pegar a tempo: Quando houver indicação de hidratação venosa ou suspeita de distúrbio relevante, avaliar coleta inicial durante obtenção do acesso, sem atrasar o suporte. Interpretar eletrólitos, glicemia e função renal com exame, diurese e tendência. Na criança leve com boa evolução, investigação laboratorial não é rotina.
O dano: Fezes com sangue e muco em um lactente entre três meses e dois anos, com crises de choro e palidez que vêm e vão, podem ser invaginação intestinal. Prescrever azitromicina e mandar para casa custa horas de isquemia de alça, e o que era redutível por enema vira ressecção.
Como pegar a tempo: Diante de sangue nas fezes em lactente, pergunte pelo padrão da dor — crises com intervalos de acalmia, criança que dobra as pernas e depois relaxa —, palpe o abdome procurando massa e observe a criança durante uma crise. Na suspeita, o caminho é imagem e cirurgia pediátrica, não antibiótico.
O que dizer ao paciente e à família
A pessoa que vai tratar essa criança nas próximas 48 horas não é você: é quem está segurando ela no colo. Tudo o que este capítulo ensina depende de essa conversa funcionar, e ela costuma durar menos de três minutos no plantão cheio — o que torna a escolha das palavras ainda mais importante.
Três regras práticas. A primeira: não use palavra técnica sem traduzi-la para o corpo. 'Sinal da prega' não existe fora do hospital; 'a pelinha da barriga demora a voltar' existe em qualquer casa do Brasil. A segunda: peça que a pessoa repita — não como teste, mas como conferência da sua explicação. Se ela repete errado, quem falhou foi quem explicou. A terceira: demonstre em vez de descrever. Preparar o soro na frente dela e pedir que ela prepare o próximo vale mais que qualquer folheto.
E há uma conversa que o interno evita: a de não prescrever antibiótico. A família chegou esperando remédio e vai sair com orientação, e se ela não entender por quê, compra na farmácia no dia seguinte. Essa conversa é mais difícil que a de prescrever, e é a que protege a criança e a comunidade.
Explicar por que a criança vai tomar soro pela boca em vez de na veia
““O intestino dela está inflamado e está soltando muita água, mas a parte que absorve água continua funcionando — e esse soro foi feito exatamente para entrar por ali. Por isso ele funciona melhor pela boca do que parece. A senhora vai ficar aqui comigo, com ela no colo, e vamos dar de colherzinha, devagar, durante umas quatro horas. Se em quatro horas ela não tiver melhorado, aí sim eu mudo o plano e usamos a veia. Não estou economizando: estou usando o que resolve mais rápido e machuca menos.””
Não diga: “Não precisa de soro na veia, é coisa simples.” Minimizar faz a família achar que você não levou a sério, e é ela quem vai desistir do copinho na segunda hora.
Ensinar a preparar e a oferecer o soro em casa
““Vou preparar aqui na frente da senhora e depois quero que a senhora prepare o próximo, para eu ver. Um sachê inteiro em um litro de água — o sachê todo, não metade, e o litro certinho, porque mais forte não é melhor. Prepara de manhã, guarda tampado, e o que sobrar do dia joga fora e faz de novo no dia seguinte. Cada vez que ele fizer cocô mole, a senhora dá meio copo, devagar, de colher ou de copo. Se ele vomitar, não desiste: espera dez minutos e recomeça mais devagar. Nada de mamadeira, porque na mamadeira ele toma rápido demais e vomita.””
Não diga: Entregar o sachê com a orientação escrita e nada mais. Instrução lida sozinha em casa, à noite, com criança chorando, não se sustenta — a demonstração é a parte que gruda.
Falar sobre manter a amamentação e a comida
““O peito não para em nenhum momento. Pelo contrário: nesses dias é para dar mais vezes e por mais tempo do que o normal, porque é ao mesmo tempo água, comida e defesa. E a comida também não para. Sei que parece errado dar comida para quem está com diarreia, e sei que a senhora deve ter ouvido que é para dar só água e chá — mas quem fica em jejum perde peso e demora mais para melhorar. Comida normal, a mesma de sempre, sem diluir o leite dele.””
Não diga: “Pode dar comida se ele quiser.” A permissão vaga é lida como 'melhor não dar'. A instrução precisa ser afirmativa: a comida continua.
Dizer os sinais que trazem a criança de volta antes do dia marcado
““Quero que a senhora volte antes do dia marcado, na hora que for, se acontecer qualquer uma destas coisas: se ele começar a fazer cocô mais vezes ou em quantidade maior; se vomitar várias vezes seguidas e não segurar nada; se aparecer sangue no cocô; se ele ficar com muita sede, agarrando o copo com desespero; se recusar líquido; se a fralda ficar seca por seis horas; ou se ele ficar molinho, quietinho demais, difícil de acordar. Esse último é o mais importante de todos. Consegue me repetir dois deles, para eu ver se expliquei direito?””
Não diga: “Qualquer coisa você volta.” É gentil e não informa nada. A família precisa de gatilhos concretos, e a fralda seca e a criança 'molinha' são os dois que mais salvam.
Explicar por que não vai prescrever antibiótico
““Na quase totalidade das vezes, essa diarreia é causada por um vírus, e antibiótico não age contra vírus — ele não vai encurtar nem um dia. E não é inofensivo: pode causar diarreia por conta própria, e faz com que os remédios parem de funcionar quando ele realmente precisar. O que trata esse quadro é repor o líquido e manter a comida, que é exatamente o que estamos fazendo. Se aparecer sangue no cocô e ele piorar do estado geral, aí a conversa muda e eu mesmo prescrevo.””
Não diga: “Não precisa de antibiótico.” Sem o porquê, a família ouve 'o médico não quis dar' e resolve o problema na farmácia da esquina.
Explicar o zinco, que a família nunca ouviu falar
““Vou receitar zinco, que é um mineral, uma vez por dia, durante dez dias. Ele faz a diarreia durar menos e diminui a chance de ele ter outra nos próximos meses. Uma coisa importante: continua dando os dez dias mesmo depois que a diarreia parar. Não é para tomar só enquanto está solto.””
Não diga: Prescrever sem explicar. Remédio cujo efeito a família não vê é o primeiro a ser abandonado, e o zinco é justamente o que se toma depois que o sintoma sumiu.
Falar com a família de uma criança grave, enquanto se punciona e se aciona a transferência
““Vou ser direto com a senhora porque preciso agir agora. Ela perdeu muito líquido, mais do que dá para repor pela boca, e por isso vou colocar soro na veia já. Ela está bem mais quietinha do que deveria, e isso é por causa da falta de líquido. Estou pedindo transferência para o hospital neste momento — não porque piorou agora, mas porque ela precisa continuar recebendo soro sob observação. Nas próximas duas horas eu vou reavaliar várias vezes e vou contando à senhora o que estou vendo.””
Não diga: “Ela está desidratadinha, vamos dar uma hidratação.” O diminutivo desmente a urgência que os seus próprios atos estão demonstrando, e a família fica confusa sobre a gravidade — o que atrapalha o consentimento e a adesão à transferência.
Responder quando a família pergunta se pode dar 'aquele remédio que segura'
““Entendo, é o que qualquer um ia querer. Mas esses remédios que seguram a diarreia são proibidos para criança, e o motivo é sério: eles não fazem a criança perder menos líquido, só fazem o líquido ficar parado dentro da barriga. A criança continua desidratando, mas a gente para de enxergar — e aí quando percebemos já está grave. Se alguém em casa tiver dado, me diga agora, sem problema nenhum, porque isso muda o que eu preciso observar.””
Não diga: Repreender quem já deu. A informação de que a criança recebeu loperamida é clinicamente útil, e você só a recebe se a pergunta for feita sem julgamento.
Orientar a higiene sem culpar a família
““Essa diarreia passa de uma pessoa para outra com muita facilidade, principalmente entre irmãos e na creche. Duas coisas ajudam muito: lavar as mãos com sabão depois de trocar a fralda e antes de preparar a comida, e cuidar da água que a família bebe — se não for tratada, ferver ou usar as gotinhas de hipoclorito. Não é culpa de ninguém: é um vírus que circula. É só para o próximo da casa não pegar.””
Não diga: Frases que insinuam descuido — 'a senhora precisa ter mais higiene'. Além de injusto na maioria das vezes, encerra a conversa e a família não volta a te procurar.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
O sachê é a solução de composição controlada — Organização Mundial da Saúde e protocolo nacional
O sachê entrega concentrações definidas de sódio, glicose, potássio e citrato, e é o que sustenta a fisiologia do cotransporte sódio-glicose e a correção da acidose. O soro caseiro não contém potássio nem citrato, e o açúcar é sacarose, não glicose; a composição final varia conforme quem prepara, com risco real de hipernatremia por excesso de sal ou de piora da diarreia por excesso de açúcar. Nos protocolos nacionais, a entrega de sachês é parte da conduta — em especial para a criança que recebeu plano B ou C na visita e para a que não conseguiria voltar ao serviço se piorasse.
Brasil. Ministério da Saúde; OPAS; UNICEF. Manual de Quadros de Procedimentos — AIDPI Criança, 2017 (plano A: entregar pacote de sais de reidratação oral e ensinar o preparo). Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático nº 1, 2017 (limitações de composição do soro caseiro e o papel da colher-medida de dupla concha).
O soro caseiro é líquido caseiro previsto no plano A e é o que existe quando não há sachê — protocolo nacional
O próprio plano A lista o soro caseiro entre os líquidos caseiros aceitáveis para prevenir a desidratação em domicílio, ao lado de caldos e água potável. A lógica é de cobertura: em situações em que o sachê não está disponível, o pior desfecho não é a composição imperfeita, é a criança não receber líquido nenhum. Os erros de preparo são mensuravelmente menos frequentes quando a família usa a colher-medida de dupla concha, o que faz do treinamento — e não da proibição — a intervenção com maior efeito.
Brasil. Ministério da Saúde; OPAS; UNICEF. Manual de Quadros de Procedimentos — AIDPI Criança, 2017 (plano A, líquidos caseiros). Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático nº 1, 2017, citando Sena LV, Maranhão HS, Morais MB, Jornal de Pediatria, 2001.
A pergunta que resolve o caso concreto não é qual solução é melhor, e sim para que ela vai servir. Para reverter uma desidratação já instalada — plano B —, use o sachê: aqui a composição precisa estar certa e você tem controle sobre a oferta. Para prevenir desidratação em casa — plano A —, o sachê continua sendo a primeira escolha e deve ser entregue, mas a decisão real é logística: existe sachê na unidade hoje? A família tem como conseguir mais? Se a resposta for não, ensinar o soro caseiro com a colher-medida, na sua frente, e pedir que a pessoa refaça a mistura é conduta melhor do que prescrever o ideal e liberar a criança sem nada. O erro reversível aqui é assimétrico: um soro caseiro imperfeito raramente mata; a ausência de qualquer líquido, sim.
Solução de baixa osmolaridade — posição da Organização Mundial da Saúde desde 2002 e da sociedade europeia
Reduzir sódio e glicose diminui a osmolaridade da solução e, com isso, reduz o quanto ela própria puxa água para a luz intestinal. A justificativa declarada da mudança foi reduzir as perdas diarreicas, e há descrição de menor duração da diarreia e menor frequência de vômitos com a solução de menor osmolaridade. A sociedade europeia trabalha, tradicionalmente, com solução ainda mais hipotônica.
World Health Organization. The Treatment of Diarrhoea — A Manual for Physicians and Other Senior Health Workers, 2005, e a revisão de composição de 2002, conforme reproduzidas nos guias da Sociedade Brasileira de Pediatria nº 1 (2017) e nº 74 (2023). ESPGHAN, solução hipotônica.
Solução tradicional, com concentração de sódio mais alta — é a distribuída pela rede pública brasileira
O Brasil optou nas décadas de 1970 e 1980 pela solução com a concentração de sódio mais alta e não estabeleceu política de difusão da solução de baixa osmolaridade; o cartaz de manejo do Ministério da Saúde não trata do assunto, e a Sociedade Brasileira de Pediatria registra em 2023 que a adequação ainda não foi feita. No mercado brasileiro há soluções com composições variáveis, algumas alinhadas a uma recomendação e outras à outra.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático nº 1, 2017, e Guia Prático nº 74, 2023 (registro explícito de que o Ministério da Saúde ainda não adotou a nova solução).
Na prática do plantão você não escolhe a composição: usa o sachê que existe na unidade. O que a divergência muda é o que você fala e o que você associa. Com o sachê de sódio mais alto usado para repor perdas em casa, ao longo de dias, oriente também líquidos sem sódio — água inclusive — para evitar acúmulo de sódio; essa combinação é a que aproxima o resultado do que a solução de baixa osmolaridade entregaria sozinha. Para reversão de desidratação em ambiente supervisionado, por poucas horas, a diferença entre as soluções é clinicamente pequena e não justifica adiar o tratamento à procura de um produto específico. E quando a família comprar soro pronto na farmácia, vale olhar o rótulo: as duas composições circulam no Brasil.
Não usar antiemético — posição histórica da Organização Mundial da Saúde
A recomendação clássica é que antieméticos não sejam utilizados no tratamento da diarreia aguda, com o argumento de que os vômitos tendem a desaparecer conforme a desidratação é corrigida. O risco apontado é de a medicação mascarar a evolução e substituir o ajuste da técnica de oferta — pausa, volume menor, intervalo menor —, que é o que resolve a maioria dos casos.
World Health Organization, The Treatment of Diarrhoea, 2005, e documentos de 2009 e 2013, conforme reproduzidos no Guia Prático nº 1 da Sociedade Brasileira de Pediatria, 2017.
Uma dose de ondansetrona no vômito persistente durante o plano B — protocolo brasileiro atual e sociedade europeia
O manual nacional do AIDPI já traz a ondansetrona dentro do quadro do plano B, para o caso de vômitos persistentes, com dose por faixa etária; e o fluxograma nacional de 2023 mantém e detalha essa indicação, com faixas de idade e peso. A sociedade europeia sustenta que a ondansetrona reduz a frequência de vômitos, a necessidade de hidratação parenteral e a de internação; a diretriz íbero-latino-americana recomenda seu uso em pacientes com vômitos frequentes. Há alerta da Anvisa contra o uso em gestantes e recomendação de cautela em lactentes; a metoclopramida é contraindicada abaixo de 1 ano de idade e não recomendada entre 1 e 18 anos.
Brasil. Ministério da Saúde; OPAS; UNICEF. AIDPI Criança, 2017 (plano B e quadro de antiemético). Brasil. Ministério da Saúde, Manejo do paciente com diarreia, 2023, conforme reproduzido no Guia Prático nº 74 da Sociedade Brasileira de Pediatria. ESPGHAN 2014 e diretriz íbero-latino-americana 2014.
A divergência é de data, e o documento brasileiro em vigor já incorporou a posição mais nova — o que resolve a dúvida de qual seguir. O que resta decidir é quando, e o critério é temporal: depois de tentar a técnica, nunca antes. Vômito nas primeiras ofertas quase sempre é velocidade, e se corrige com pausa de dez minutos e volumes menores. Se, apesar disso, os vômitos impedem a ingestão e a alternativa concreta seria puncionar uma veia ou passar uma sonda, uma dose única na faixa etária prevista é a intervenção menos invasiva disponível — e é assim que o protocolo a posiciona: para salvar a via oral, não para substituí-la. Em lactentes pequenos, a cautela recomendada pesa mais, e o limiar sobe.
Ciprofloxacino como primeira escolha — posição de 2017 da Sociedade Brasileira de Pediatria, seguindo a OMS
O documento de 2017 lista o ciprofloxacino como primeira escolha para disenteria presumivelmente causada por Shigella, na dose de 15 mg/kg duas vezes ao dia por três dias, com azitromicina como segunda escolha e ceftriaxona para casos graves hospitalizados. O argumento é de sensibilidade: levantamentos brasileiros mostraram boa sensibilidade de Shigella ao ciprofloxacino e à ceftriaxona, e alta taxa de resistência ao sulfametoxazol-trimetoprim. O mesmo documento registra a limitação prática de não existir apresentação de ciprofloxacino em suspensão ou solução oral no Brasil.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Gastroenterologia. Diarreia aguda: diagnóstico e tratamento. Guia Prático de Atualização nº 1, março de 2017.
Azitromicina para a criança até 10 anos ou 30 kg, ciprofloxacino acima disso — fluxograma nacional de 2023
A recomendação nacional mais recente inverte a ordem por faixa: azitromicina 10 mg/kg no primeiro dia e 5 mg/kg por mais quatro dias, via oral, para crianças até 10 anos ou 30 kg; ciprofloxacino em comprimido de 500 mg de 12 em 12 horas por três dias para maiores; ceftriaxona intramuscular ou endovenosa nos casos graves, em menores de três meses e em imunodeficientes. O texto nacional mantém a condição de sempre: antibiótico apenas na diarreia com sangue e comprometimento do estado geral, ou na cólera grave.
Brasil. Ministério da Saúde. Manejo do paciente com diarreia. Brasília, 2023, quadro de antibioticoterapia, conforme reproduzido no Guia Prático nº 74 da Sociedade Brasileira de Pediatria, junho de 2023.
Três critérios resolvem o caso à sua frente. O primeiro é a data: entre dois documentos nacionais, o de 2023 é o que está em vigor e é o que a rede segue. O segundo é a via: para uma criança de dois anos, o ciprofloxacino esbarra na inexistência de suspensão oral no Brasil, o que torna a azitromicina não só a recomendação mais nova como a única executável fora do hospital. O terceiro é a gravidade e a idade: menor de três meses, imunodeprimido ou criança que não sustenta a via oral saem do esquema oral e vão para ceftriaxona parenteral. E antes de qualquer um dos três, confirme que a condição de entrada está preenchida — sangue nas fezes com comprometimento do estado geral —, porque a decisão mais frequente e mais valiosa neste tema continua sendo não prescrever.
Coadjuvantes com evidência de cepa específica — sociedade europeia e diretriz íbero-latino-americana
Cepas específicas — Saccharomyces boulardii CNCM I-745, Lacticaseibacillus rhamnosus GG, Limosilactobacillus reuteri DSM 17938 — reduzem, em média, cerca de um dia na duração da diarreia aguda, com doses e durações definidas, e são recomendadas como coadjuvantes, sempre junto da reidratação e da manutenção da alimentação. A racecadotrila, inibidor da encefalinase, reduz as perdas e a duração sem interferir na motilidade intestinal, na dose de 1,5 mg/kg três vezes ao dia, contraindicada abaixo de três meses. Outras cepas foram avaliadas e explicitamente não recomendadas por falta de eficácia.
ESPGHAN, position paper sobre probióticos em distúrbios gastrointestinais pediátricos, 2023, e diretrizes de 2014; diretriz íbero-latino-americana, 2014 — conforme reproduzidos nos Guias Práticos nº 1 (2017) e nº 74 (2023) da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Fora do plano de tratamento nacional — Organização Mundial da Saúde e Ministério da Saúde
Nem a Organização Mundial da Saúde nem o Ministério da Saúde mencionam probióticos ou antissecretores nos seus planos de tratamento da diarreia aguda. O foco declarado das duas instituições para reduzir mortes por diarreia é outro: terapia de reidratação, manutenção da alimentação e zinco no tratamento; vacinação contra rotavírus e sarampo, aleitamento materno prolongado, vitamina A, água de boa qualidade, higiene das mãos e saneamento na prevenção. A Sociedade Brasileira de Pediatria registra que falta ainda ampla disponibilização de zinco e de probióticos na rede pública, e que o custo-efetividade dos probióticos precisa ser avaliado.
World Health Organization, documentos de 2009 e 2013 sobre mortes evitáveis por pneumonia e diarreia; Brasil, Ministério da Saúde, Manejo do paciente com diarreia, 2023 — conforme reproduzidos nos Guias Práticos nº 1 e nº 74 da Sociedade Brasileira de Pediatria.
O critério é o tamanho do efeito diante do custo e de quem paga. Reduzir um dia de diarreia não é irrelevante — importa para o desnutrido, para a criança que precisa voltar à creche e para reduzir a contaminação do ambiente doméstico —, mas é um efeito acessório diante da intervenção que decide o desfecho, que é reidratar e alimentar. Na prática: nunca ofereça coadjuvante no lugar de soro, e nunca deixe uma família comprando probiótico caro enquanto falta sachê em casa. Se a família tem condições, se a reidratação está garantida e se a criança se beneficia de encurtar o episódio, prescrever uma cepa com evidência é defensável — mas escreva a cepa, não a palavra 'probiótico', porque o efeito é de cepa e há combinações explicitamente não recomendadas. E a racecadotrila não se confunde com antidiarreico: ela não freia a motilidade, e por isso não carrega o risco da loperamida.
Esquemas reproduzidos nas referências nacionais do capítulo
Esses materiais apresentam misturas de soro glicosado e fisiológico para manutenção e reposição. A presença em um esquema não transforma composição, adição de potássio ou volume de perdas em receita automática para qualquer criança internada.
Ministério da Saúde. Manejo do paciente com diarreia, cartaz de 2023; AIDPI, 2017.
Percurso de hidratação intravenosa da NICE
Indica solução isotônica para reposição de déficit e manutenção, exames no início e ajuste posterior; a suplementação de potássio depende de conhecer sua concentração sérica.
NICE CG84, recomendação 1.3.3.5.
Preserve a distinção entre ressuscitação, déficit, manutenção e perdas. O exemplo hospitalar revisado adota composição isotônica com ajuste de glicose e potássio à criança; não combina automaticamente partes de protocolos diferentes. Discuta disnatremia, doença renal, desnutrição grave e resposta insuficiente com a equipe e siga o percurso específico.
O raciocínio, em voz alta
Heitor, 11 meses, 8,0 kg, trazido pela mãe ao pronto-socorro. Diarreia líquida desde ontem, cerca de dez episódios, sem sangue. Três vômitos pela manhã. Sem febre alta. Está no colo, irritado, resiste ao exame. Olhos parecem mais fundos que na foto de duas semanas atrás. Ao receber o copo, agarra a borda e bebe rápido, avidamente, e chora quando o copo é retirado. Boca seca, sem lágrimas ao chorar. Prega no abdome volta lentamente. Pulso cheio. Mãe relata que a última fralda molhada foi de madrugada.
o que penso agora
Diarreia aguda aquosa, provavelmente viral, em lactente — o cenário mais comum do pronto-socorro pediátrico brasileiro. A pergunta que decide tudo não é qual o agente: é qual o grau de desidratação. Antes de qualquer hipótese, preciso de duas coisas que a história não me dá: a checagem de sinais de perigo e a contagem formal dos sinais de desidratação. E preciso do peso.
primeiro gesto
Checo os sinais de perigo antes de tudo: ele bebe, e bebe com vontade; não vomitou tudo o que ingeriu; não convulsionou; está irritado, não letárgico. Nenhum sinal de perigo. Peso na balança de lactente, despido: 8,0 kg às 9h55 — anotado com horário, porque é com este número que vou comparar daqui a quatro horas.
como isso muda o que penso
Agora conto os sinais. Irritado e intranquilo; olhos fundos; sedento, bebendo rápido e avidamente; boca seca; sem lágrimas; prega que volta lentamente. Seis sinais da coluna do meio, e bastavam dois. Nenhum dos sinais de gravidade: o pulso é cheio, ele está consciente, e é capaz de beber — e é capaz de beber com avidez, o que é o oposto de não conseguir beber. Classificação: diarreia aguda com desidratação. A diurese reduzida corrobora, mas não é ela que classifica.
o que decido, e o que decido NÃO fazer
Plano B, aqui, agora. E decido explicitamente o que não vou fazer: não vou puncionar veia, não vou pedir hemograma, ionograma ou parasitológico, não vou pedir radiografia, e não vou prescrever antibiótico nem antidiarreico. Nenhum desses mudaria a conduta de uma criança que se classifica pelo exame e se trata pela boca. A única coisa que eu pediria de imediato se ele estivesse letárgico seria glicemia capilar — e ele não está.
a prescrição
Volume das primeiras quatro horas pelo peso: 8 kg multiplicados por 75 dão 600 mL de soro de reidratação oral, o que confere com a faixa da tabela para 6 a menos de 10 kg. Divididos por quatro horas, são cerca de 150 mL por hora — na prática, uma colher de sopa cheia a cada cinco minutos, de colher ou copo, nunca mamadeira. Zinco 20 mg ao dia por dez dias, que na solução de sulfato de zinco de 4 mg/mL são 5 mL diários. Aleitamento materno mantido em livre demanda. Mãe sentada em cadeira, com o soro na mão, e a técnica orientada a conferir a cada meia hora.
o obstáculo previsível
Uma hora depois ele vomita duas vezes e a mãe quer desistir. Este é o ponto em que a maioria dos planos B do Brasil vira acesso venoso. Pauso dez minutos, retomo com volumes menores em intervalos menores, e mantenho o alvo total de 600 mL — o que mudou foi a velocidade, não a meta. Explico à mãe que vômito nas primeiras ofertas é esperado e costuma ceder à medida que ele reidrata. Só se os vômitos impedissem completamente a ingestão eu daria uma dose de ondansetrona, que na faixa de 6 meses a 2 anos é de 2 mg.
a reavaliação com hora marcada
Às 13h55, refaço o exame inteiro do mesmo jeito. Ele está ativo, brinca com a tampa da garrafa, aceita água sem avidez, tem lágrima ao chorar, boca úmida, prega que volta imediatamente. Pesa 8,4 kg — ganhou 400 g, coerente com o volume retido. Molhou duas fraldas na última hora. Reclassificação: sem desidratação. Não é 'ele melhorou': é uma classificação nova, feita com os mesmos critérios da primeira.
a alta, que é a parte que decide o desfecho
Reinicio a alimentação habitual aqui, na unidade, com a mãe vendo. Preparo um sachê na frente dela e peço que ela prepare o próximo. Oriento 50 a 100 mL de soro após cada evacuação líquida em casa, com goles pequenos, e entrego sachês suficientes — regra do protocolo, já que ele recebeu plano B nesta visita. Zinco até completar dez dias, mesmo depois que a diarreia parar. Retorno em dois dias, anotado no papel. E digo os sinais de retorno imediato em palavras da casa, pedindo que ela repita dois deles: fralda seca por seis horas, e criança molinha e difícil de acordar.
o raciocínio, em uma frase
Nada do que decidiu este caso veio de exame. Veio de contar sinais, pesar, escolher o plano correspondente, transformar o peso em mililitros, sustentar a via oral quando ela ameaçou falhar, e reavaliar com hora marcada usando os mesmos critérios da entrada.
Faça você
Vitória, 2 anos e 4 meses, 12,0 kg, trazida pela avó ao mesmo pronto-socorro. Quarto dia de diarreia líquida, sem sangue, com vômitos nos dois primeiros dias. A avó diz que hoje ela 'amanheceu diferente, quietinha demais'. Ao exame: mole no colo, não fixa o olhar, não reage ao estetoscópio; recusa o copo de água e vira o rosto; olhos fundos, boca muito seca, sem lágrimas; prega no abdome demora mais de dois segundos para voltar; pulso radial fino e rápido; extremidades frias. A caderneta, preenchida na unidade básica há três semanas, registra 13,4 kg. Glicemia capilar 62 mg/dL. A unidade tem soro fisiológico, Ringer lactato, equipo e material de punção; o hospital de referência fica a 40 minutos.
achado
Três sinais de gravidade presentes ao mesmo tempo: letargia, incapacidade de beber e pulso fraco. Somam-se olhos fundos, boca muito seca, ausência de lágrimas e prega acima de dois segundos. O peso caiu de 13,4 para 12,0 kg.
o que isso significa
A perda de 1,4 kg corresponde a 10,4% do peso corporal — acima do limiar de 10% que define desidratação grave, e coerente com o quadro clínico. Bastariam dois sinais com um de gravidade; há três de gravidade. Classificação: desidratação grave, com sinais de choque hipovolêmico. Há ainda hipoglicemia associada, que explica parte da letargia e é rapidamente reversível.
plano
Plano C, com reidratação venosa imediata na unidade e transferência acionada em paralelo — os primeiros cuidados não esperam a ambulância. Correção da hipoglicemia junto da expansão. A via oral não está descartada: assim que ela conseguir beber, o soro oral entra em paralelo ao venoso.
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Vitória tem desidratação grave com sinais de choque e alteração de consciência. Acione transferência e ajuda experiente enquanto inicia suporte e obtém acesso venoso; considere via intraóssea se o acesso não for rapidamente viável. Avalie e trate a glicemia no contexto clínico, com nova medida. Colha sódio, potássio, ureia, creatinina e glicose na obtenção do acesso; no choque, inclua gasometria venosa e cloro quando disponíveis. A coleta não pode atrasar a reposição. No esquema do plano C por idade apresentado no capítulo, a criança acima de 1 ano recebe inicialmente 30 mL/kg em 30 minutos, seguidos de 70 mL/kg em 2 horas e 30 minutos: para 12 kg, são 360 mL e 840 mL, respectivamente. Esse esquema deve ser conduzido por equipe que reavalia perfusão, consciência, respiração e resposta durante a administração. O total de 100 mL/kg é uma referência do protocolo, não uma medida exata do déficit de cada criança. Choque persistente ou piora exige ação imediata, revisão de perdas, volume efetivamente administrado e outras causas; não se espera a marca de duas horas nem se abre o equipo automaticamente. Protocolos de ressuscitação por bolus utilizam outra sequência e devem ser aplicados integralmente, com reavaliação, sem somar volumes inadvertidamente. Assim que for seguro e tolerado, introduza soro oral em pequenas quantidades e ajuste a reposição venosa. Após recuperar a perfusão, recalcule déficit remanescente, manutenção e perdas em curso. Para 12 kg, 1100 mL/24 h é a referência de manutenção antes de descontar ingestão e fazer os ajustes clínicos. Neste percurso hospitalar, a solução venosa de manutenção é isotônica, com glicose conforme necessidade; potássio só após avaliação laboratorial, renal e da diurese. Não copie uma mistura 4:1 ou um volume fixo de KCl sem essa avaliação. A reposição das perdas depende do que continua sendo perdido. Use os resultados iniciais e a tendência para acompanhar função renal e eletrólitos. Retome alimentação e o zinco do protocolo quando houver via adequada. Antibiótico não é rotina para a gastroenterite aquosa deste caso, mas suspeita de sepse ou outro foco exigiria tratamento próprio mesmo sem sangue nas fezes. A alta depende de hidratação sustentada, ingestão suficiente, evolução estável, orientação demonstrada pela cuidadora e retorno viável; o período de observação é definido pelo quadro e pelo serviço.
A criança segue classificada como desidratação — sem nenhum sinal de gravidade —, e o ganho de peso praticamente nulo confirma que o volume não entrou. Quando a reidratação oral não se sustenta em uma criança sem sinais de gravidade, o passo seguinte previsto é a sonda nasogástrica para gastróclise, que mantém a via enteral e o mecanismo de cotransporte sódio-glicose. Manter o plano B por mais 4 horas com a mesma estratégia ignora que a falha foi de execução e já está documentada. O plano C está reservado à desidratação grave, e nada aqui a caracteriza. Liberar para casa mandaria embora uma criança ainda desidratada. E a ondansetrona trata vômito persistente, que não é o problema descrito — além de reavaliar em 24 horas ser abandonar a criança por um dia inteiro.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Classifique desidratação a partir de sinais obtidos de modo confiável e reconheça choque e outras situações de risco. Justifique plano A, B ou C e confira volume, via e tempo para o peso do caso. Explique quando exames iniciais são indicados e como obtê-los sem atrasar suporte. Diferencie diarreia leve de necessidade de hidratação venosa e de suspeita de distúrbio do sódio.
Em 30 dias
Conduza uma criança que vomita durante reidratação oral e outra com perfusão inadequada. Na primeira, ajuste oferta e reavalie antes de declarar falha. Na segunda, apresente suporte, coleta pertinente e resposta após cada intervenção, sem esperar um prazo fixo para reconhecer choque persistente. Interprete função renal e eletrólitos com diurese e evolução. Na alta, demonstre preparo do soro e confirme sinais de retorno com a família.
Agora atenda
Mãe traz ao pronto atendimento um lactente de 10 meses, 7,5 kg, com diarreia líquida há dois dias e vômitos desde ontem. Diz que ele 'está bebendo com muita vontade' e que a última fralda molhada foi de manhã cedo. Colha a história, procure os sinais de perigo, classifique o grau de desidratação com os sinais que você mesmo colher, decida entre plano A, B e C, e prescreva com o volume calculado para o peso — incluindo zinco, orientação de retorno e o que a mãe precisa ouvir antes de sair da sala.
