PediatriaGastroenterologia Pediátrica

Dois relógios para o mesmo leite

Alergia à proteína do leite de vaca

Reconhecer as duas alergias que dividem o nome — a de minutos, mediada por IgE, e a de horas ou dias, que não é —, confirmar pela volta do leite em vez de pelo exame, manter o peito com a dieta da mãe e escolher a fórmula certa quando ela precisa existir.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Fórmulas nutricionais para crianças com alergia à proteína do leite de vaca. Relatório de Recomendação nº 345. Brasília: Ministério da Saúde; novembro de 2018. Com a Portaria SCTIE/MS nº 67, de 23 de novembro de 2018 (DOU nº 226, seção 1, p. 57, 26/11/2018).

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Alergia à Proteína do Leite de Vaca — texto submetido à Consulta Pública Conitec/SCTIE nº 24/2022. Brasília: Ministério da Saúde; abril de 2022.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Promoção da Saúde. Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos. Brasília: Ministério da Saúde; 2019. 265 p. ISBN 978-85-334-2737-2.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, ano 2026, 3ª edição (atualizada em 17/07/2026).

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manual de normas e procedimentos para vacinação. 2ª ed. revisada. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. ISBN 978-65-5993-616-8.

01

Responda antes de ler

Lactente de 9 semanas, em aleitamento materno exclusivo, nascido a termo, é trazido à unidade básica com fios de sangue vivo e muco nas fezes há cinco dias. Está ativo, mamando bem, afebril, com abdome normal, sem fissura anal e com a curva de peso subindo paralela desde o nascimento. A mãe consome leite, queijo e iogurte todos os dias. Qual é a conduta mais adequada nesta consulta?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, dez da manhã, consultório de puericultura de uma unidade básica. Joelma Frazão, 26 anos, entra com a filha no colo e um saco plástico transparente na outra mão. Dentro do saco, dobrada com cuidado, uma fralda. Anabela tem 9 semanas, nasceu a termo com 3.200 g, mama só no peito e hoje pesa 5.100 g. Antes de sentar, a mãe abre o saco e mostra: nas fezes amarelas e pastosas há fios de sangue vivo e um pouco de muco. Começou há cinco dias, em quase todas as fraldas. Dona Cremilda, a avó, veio junto e fala antes da filha: o leite da Joelma está fraco, a menina está soltando sangue por dentro, e a vizinha resolveu o mesmo problema com leite de lata.

Você examina com a fralda aberta sobre a maca. A menina está corada, acordada, procura o peito quando chora e sossega quando acha. Temperatura axilar de 36,7 °C, abdome flácido, sem distensão e sem massa palpável. Você afasta as nádegas com cuidado e olha a borda do ânus: não há fissura. A curva de peso da caderneta subiu paralela desde o nascimento. Nenhum vômito, nenhuma febre, nenhuma diarreia volumosa, nenhuma prostração; o número de evacuações é o de sempre. Perguntando pela alimentação da casa, a mãe conta que toma café com leite três vezes por dia, come pão com requeijão e, desde o parto, dois potes de iogurte por dia, porque ouviu que ajuda a ter leite.

Existem três condutas prontas na cabeça de quem atende essa família, e as três já foram feitas com alguma Anabela em algum lugar do país. Trocar o peito por uma fórmula especial, porque sangue assusta e a lata parece remédio. Pedir um exame de sangue para ver se é alergia, porque um número dá a impressão de certeza que uma conversa não dá. Ou dizer que é fissura, que passa sozinho, e mandar a família para casa sem plano. Nenhuma das três é o que a régua brasileira manda, e a primeira custa à menina o leite que ela tem de melhor.

O que está na sua frente é a apresentação mais comum da alergia à proteína do leite de vaca no lactente amamentado: a proctocolite alérgica, com raias de sangue num bebê que cresce bem. As proteínas do leite de vaca que a Joelma consome chegam, em pequena quantidade, ao leite dela, e o reto da filha reage devagar — em horas ou dias, sem anticorpo IgE no meio. Existe outra alergia com o mesmo nome e outro relógio: a mediada por IgE, que dá urticária e vômito em minutos e pode virar anafilaxia. E existe uma terceira, a enterocolite induzida por proteína alimentar, que faz o lactente vomitar repetidas vezes uma a quatro horas depois do leite e chegar ao pronto-socorro pálido, largado, com cara de sepse. Este capítulo serve para que você saiba em que relógio cada criança está antes de decidir o que ela vai comer.

Com a Anabela, a decisão de hoje cabe numa frase: a menina continua no peito, o leite de vaca e seus derivados saem da dieta da mãe por duas a quatro semanas, a mãe recebe cálcio e vitamina D, e o diagnóstico só se fecha quando o leite voltar à dieta dela e o sangue voltar junto. Nenhum exame de sangue entra nessa decisão. O que torna o caso difícil não é a medicina: é a avó com a lata na mão, a mãe que sai do consultório achando que o próprio leite fez mal à filha, o rótulo que esconde leite onde ninguém procura e a vontade de resolver tudo numa consulta só.

O que este capítulo assume. Até aqui, a alergia à proteína do leite de vaca não tinha dono no nível; este capítulo passa a ser o dono dela e assume as alergias que dividem o nome — a mediada por IgE e as não mediadas: proctocolite, enteropatia e enterocolite induzida por proteína alimentar, inclusive o atendimento da crise de enterocolite no pronto-socorro —, o diagnóstico pela dieta de exclusão com prazo e pela reexposição, o que não é alergia ao leite (intolerância à lactose, cólica e regurgitação do lactente), o tratamento pela idade e pela forma de alimentação, a regra do SUS para as fórmulas, a rotulagem, a vacina tríplice viral da criança alérgica ao leite e a volta ao leite. A cólica do lactente não tem capítulo no nível: daqui fica só a pergunta “isto é alergia ao leite?”. A esofagite eosinofílica, forma mista de alergia alimentar, também não tem capítulo no nível; este assume apenas quando suspeitar dela e para onde encaminhar.

O que este capítulo cede, sempre pelo nome do dono. A anafilaxia — adrenalina, choque, observação e plano de alta — é de “Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro”, da apostila de Medicina de Emergência; a urticária aguda da criança, de “A placa que some e o inchaço que não coça”, de Imunologia; a dermatite atópica, de “A bisnaga acaba, a doença não”, de Dermatologia. Da Nutrologia Pediátrica: a técnica do aleitamento, a ordenha e as intercorrências da mama ficam com “Aleitamento materno exclusivo até 6 meses”; quando o alimento alergênico entra na dieta e a alimentação complementar inteira, com “O que não escorre da colher”; o ferro e a vitamina D profiláticos do lactente, com “Três camadas, uma criança”; a desnutrição grave, com “O risco não é a fome”. A anemia ferropriva fica com “O que está escrito no vidro não é a dose”, de Hematologia Pediátrica; a leitura da curva de crescimento, com “A linha, não o ponto”, de Puericultura e Desenvolvimento; o calendário vacinal da criança, com “Retomar, não recomeçar”, de Infectologia Pediátrica; os planos de reidratação, com “Diarreia e desidratação na criança”, desta apostila; a invaginação, com “Invaginação intestinal do lactente”, e a enterocolite necrosante do recém-nascido, com “A dieta que estava indo bem”, as duas de Cirurgia Pediátrica. Desta apostila, a constipação funcional — inclusive quando tentar a dieta sem leite de vaca na criança constipada que não responde — fica com “A cueca manchada e a dor das segundas-feiras”, e a diarreia persistente e crônica, com a intolerância secundária à lactose depois da gastroenterite e a doença celíaca, com “A diarreia que mudou de nome”; como fazer a dieta com prazo e a reintrodução, e o que se faz quando elas confirmam alergia ao leite, é daqui. O refluxo do lactente é de Refluxo gastroesofágico fisiológico versus doença do refluxo no lactente, nesta apostila: daqui fica só a pergunta “isto é alergia ao leite?”, e o manejo do refluxo é de lá.

03

Quem adoece disso

A alergia à proteína do leite de vaca é, ao mesmo tempo, frequente e superdiagnosticada, e as duas coisas se medem no Brasil. Num estudo brasileiro citado pela atualização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia e da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2025, os pais relataram alergia alimentar em 23,5% dos lactentes, e o teste de provocação oral confirmou em 1,9% — cerca de uma confirmação para cada doze suspeitas, com o leite de vaca como principal causa. Entre pré-escolares, o relato foi de 17,2% e a confirmação, de 0,61%. A consequência para a sua consulta é direta: a queixa da família abre a investigação, mas não fecha o diagnóstico. Quem fecha é a volta do alimento, e é por isso que este capítulo gasta tanto espaço com ela.

O retrato de quem atende é parecido. Gastroenterologistas pediátricos brasileiros registraram incidência de suspeita de alergia ao leite de 2,2% e prevalência de 5,4% entre as crianças avaliadas até 24 meses; o texto federal de protocolo levado à consulta pública em 2022 cita esse estudo e outro, nacional, que usou o teste de provocação oral e encontrou 1% entre 4 e 23 meses e 0,09% entre 24 e 59 meses. A doença é, portanto, dos dois primeiros anos. O relatório da Conitec de 2018 registra que o diagnóstico é muito raro depois dessa idade, porque a tolerância ao leite vai sendo adquirida — e isso muda o raciocínio no pré-escolar com dor abdominal ou constipação: a alergia ao leite de início tardio é hipótese de exceção, não a primeira.

O peso da suspeita chega ao SUS em forma de lata. O Ministério da Saúde estimou em 0,4% as crianças de até 2 anos acompanhadas em programas de atenção nutricional para alergia ao leite em 2012 e em 1,2% em 2019, segundo o mesmo texto de 2022: a fila triplicou em sete anos. Quando a Conitec avaliou a incorporação das fórmulas, em 2018, projetou, com os preços pagos pelas secretarias estaduais, impacto orçamentário de R$ 79,63 milhões no primeiro ano e de R$ 659,21 milhões em cinco anos. Cada diagnóstico sem reexposição é uma criança que pode ter perdido o peito sem precisar e uma família presa a uma fórmula cara por meses.

As formas não se distribuem por igual. A proctocolite é a apresentação não mediada por IgE mais comum no lactente em aleitamento exclusivo, e cerca de metade dos casos acontece em quem só mama no peito. O dado que mais pesa na conduta vem da mesma atualização de 2025: 95% dos lactentes com sangramento retal por colite alérgica param de sangrar com a dieta de eliminação, mas só 30% têm a reexposição positiva entre duas e oito semanas depois. Sem reexposição, dois em cada três ficariam rotulados de alérgicos. A história natural também separa as formas. Nas alergias mediadas por IgE a leite, ovo, soja e trigo, cerca de metade resolve até os 5 anos e 70% a 80% até os 16 anos, e 69% a 83% dos alérgicos ao leite já toleram o leite assado no forno. Na enteropatia, a maioria resolve entre 1 e 3 anos de idade. Na proctocolite, um estudo brasileiro viu 80% dos lactentes com a suspeita tolerando o leite por volta dos 6 meses de idade. A anafilaxia existe e é rara: num pronto-socorro pediátrico privado de São Paulo, ficou entre 0,013% e 0,016% dos atendimentos por ano, com o leite de vaca entre os alimentos mais envolvidos, e, em inquérito com alergistas brasileiros, leite e clara de ovo apareceram como os alimentos que mais causam anafilaxia em lactentes e pré-escolares.

04

Por que acontece o que acontece

Tudo começa numa pergunta que o intestino do lactente responde centenas de vezes por dia: essa proteína é comida ou é ameaça? O leite de vaca traz dois grupos de proteínas que importam aqui. As caseínas, a proteína do coalho, são a maior parte; as proteínas do soro são a alfa-lactoalbumina e a beta-lactoglobulina, e o relatório da Conitec de 2018 aponta esses dois grupos como os alvos principais da reação. A atualização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia e da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2025 acrescenta o que cada alvo sugere quando a IgE é medida por componente: sensibilização às caseínas se associa a alergia mais persistente, e à albumina sérica bovina, a reação também com a carne de vaca. É por isso que a pergunta “ela come carne?” às vezes muda a orientação, e é por isso que o leite de outra espécie de mamífero não resolve nada, como se verá no último parágrafo.

A resposta padrão do intestino é a tolerância oral. Antígenos da luz intestinal são captados por células epiteliais especializadas próximas às placas de Peyer, por vias entre e através dos enterócitos e pelos prolongamentos das células dendríticas; as dendríticas levam o peptídeo aos linfonodos, e os linfócitos T reguladores organizam uma resposta que não inflama. Nessa resposta normal o organismo até produz IgG e IgA contra a proteína do leite, sem reação nenhuma — o que explica, logo adiante, por que dosar IgG contra alimento não diagnostica nada. A alergia é a falha desse aprendizado. A atualização de 2025 registra que a composição da microbiota nos primeiros meses e as situações que aumentam a permeabilidade da mucosa, como uma lesão infecciosa do epitélio, favorecem a falha; e registra também que ela é, em boa parte, provisória: quando a tolerância se refaz, a alergia some. A conduta inteira do capítulo é construída em cima dessa provisoriedade.

Quando a falha toma o caminho da IgE, o primeiro contato sensibiliza: forma-se IgE contra a proteína, e ela fica presa à superfície de mastócitos e basófilos. No contato seguinte, a proteína liga duas moléculas de IgE vizinhas, a célula se desgranula e libera histamina e outros mediadores em minutos. O relógio é curto porque o mecanismo é pré-montado: urticária e angioedema, vômito, tosse e chiado aparecem de minutos a cerca de duas horas depois da ingestão, e a forma mais grave é a anafilaxia. O anti-histamínico bloqueia só um desses mediadores, no seu receptor, e por isso alivia a pele sem tratar a anafilaxia — essa distinção, e o que se faz na anafilaxia, é do capítulo dono dela. Para a investigação, a consequência é outra: só nessa forma existe um anticorpo circulante para medir e uma pele que reage ao extrato, e mesmo assim o anticorpo mede sensibilização, não reação.

Quando a falha não passa pela IgE, quem conduz são células — linfócitos e eosinófilos na mucosa —, e a atualização de 2025 reconhece que o mecanismo ainda não está plenamente definido. O relógio é longo: horas a dias. Na proctocolite, a mucosa do reto e do cólon distal se enche de eosinófilos, a biópsia pode mostrar mais de 20 por campo de grande aumento, e cerca de metade das crianças tem eosinofilia no hemograma; o sangramento é de mucosa inflamada, superficial, em raias. Na enteropatia, a lesão atinge o intestino delgado, encurta a superfície absortiva e produz má absorção, perda de proteína e deficiência secundária de lactase. Nenhuma das duas tem anticorpo para dosar, e é por isso que o único exame que as confirma é tirar o leite e devolvê-lo.

O leite materno entra nessa história por um fato medido: proteínas da dieta da mãe — a beta-lactoglobulina do leite de vaca entre elas — foram isoladas no leite humano, em quantidade suficiente para provocar resposta imune no bebê já sensibilizado. É uma quantidade mínima, e isso tem duas consequências clínicas. A primeira: o lactente amamentado reage com as formas brandas e lentas, sobretudo a proctocolite, e melhora quando a mãe tira o leite de vaca da própria dieta — o peito continua, porque o problema nunca foi o leite dela, e sim o que atravessa por ele. A segunda: a criança amamentada que só reagiu quando tomou fórmula diretamente, e que mamou no peito sem sintoma nenhum, não precisa de dieta materna — a atualização de 2025 é explícita nisso.

A enterocolite induzida por proteína alimentar — conhecida pela sigla inglesa FPIES — é a forma não mediada por IgE que parece outra doença. Uma a quatro horas depois do alimento, o intestino reage com vômitos repetidos e perda de líquido para a luz; a criança fica pálida, largada, hipotônica, e parte delas evolui para desidratação, hipotensão e choque — choque hipovolêmico, não anafilático. Podem aparecer hipotermia, acidemia e metemoglobinemia, e o hemograma pode mostrar neutrofilia acima de 1.500 células sobre a contagem basal. Esse conjunto é o retrato de uma sepse, e é esse o diagnóstico que muitas dessas crianças recebem na primeira crise. Como não há desgranulação de mastócito no centro do quadro, não há urticária nem chiado, e a adrenalina não trata o vômito; o que trata é volume. A forma crônica aparece quando o alimento é ingerido todo dia, como a fórmula: vômito intermitente, diarreia e peso que não sobe, até que uma reexposição depois de um intervalo produz a crise aguda.

Duas condições completam o mapa porque confundem. A esofagite eosinofílica é o protótipo da alergia alimentar mista: inflamação crônica do esôfago com infiltração de eosinófilos, defeito de barreira do epitélio e resposta imune do tipo 2, em que a IgE não tem papel direto demonstrado; ela se apresenta como recusa alimentar, vômito, refluxo que não responde e, na criança maior, disfagia e impactação de alimento, e só se confirma por endoscopia com biópsia. A intolerância à lactose é o oposto: não há sistema imune no meio. Falta a lactase na borda em escova, o açúcar do leite chega intacto ao cólon, fermenta e puxa água — distensão, gases, fezes líquidas e ácidas. A lactose não é proteína, e o leite “sem lactose” conserva todas as proteínas do leite de vaca: serve para quem não digere o açúcar e não serve para quem é alérgico à proteína. A deficiência secundária de lactase existe, e aparece justamente na enteropatia, quando a mucosa lesada perde a enzima.

O último elo explica as fórmulas. As proteínas do leite de cabra e de ovelha se parecem tanto com as da vaca que a reatividade cruzada passa de 90%, segundo a atualização de 2025: trocar de bicho não troca de alergia. As fórmulas extensamente hidrolisadas quebram a proteína do leite de vaca em peptídeos com menos de 3.000 daltons, pequenos demais para ligar duas IgE e desencadear a maior parte das reações; ainda guardam algum resíduo de alergenicidade, e por isso a régua para chamá-las de hipoalergênicas é serem toleradas por pelo menos 90% dos lactentes com alergia documentada. As parcialmente hidrolisadas, com peptídeos de até 5.000 daltons, não servem para tratar. As fórmulas de aminoácidos não têm peptídeo nenhum e são consideradas não alergênicas, o que as reserva para quem reage até ao resíduo do hidrolisado. E um detalhe fisiológico que atrapalha o diagnóstico: fórmulas hidrolisadas e de aminoácidos esvaziam o estômago mais depressa e são mais digeríveis, então a regurgitação e a cólica podem melhorar com a troca sem que haja alergia nenhuma — mais uma razão para a reexposição.

05

Como se apresenta de verdade

A alergia ao leite não tem um quadro: tem quatro, e o que os separa é quanto tempo depois do leite o sintoma aparece, se a criança continua bem ou não, e o que ela come. Por isso a primeira pergunta da anamnese não é “o que ela tem?”, e sim “quanto tempo depois de mamar, de tomar a mamadeira ou de a mãe comer o quê?”. As seções abaixo seguem os relógios, do mais curto ao mais longo, e terminam no que se parece com alergia e não é.

O relatório da Conitec de 2018 resume o relógio assim: na reexposição, a reação mediada por IgE volta em menos de duas horas, quase sempre em poucos minutos; a não mediada, de duas horas a sete dias. Guarde essa régua com uma ressalva que aparece na seção 4 — a enterocolite tem relógio próprio, de uma a quatro horas, e fica justamente em cima da fronteira.

1. Minutos: a alergia mediada por IgE

O cenário típico é o primeiro contato direto com o leite de vaca numa criança que até então só mamou no peito: a mãe volta ao trabalho, a avó oferece a primeira mamadeira de fórmula, e em poucos minutos aparecem vermelhidão e urticária em volta da boca, que se espalham, inchaço de pálpebras e lábios, vômito, choro e às vezes tosse, espirro ou chiado. A reação é reprodutível — volta a cada nova exposição — e tende a ser proporcional à quantidade. Ela pode ser só de pele e passar em horas, ou pode envolver mais de um sistema, e aí o nome é anafilaxia: vômito com urticária, chiado, estridor, palidez com hipotonia ou queda da pressão. O que fazer na anafilaxia, com a dose de adrenalina por quilo, está em “Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro”; a urticária isolada da criança e o anti-histamínico, em “A placa que some e o inchaço que não coça”.

Duas informações da história mudam o que se faz depois. Primeiro: se a criança mamava no peito sem sintoma e só reagiu ao leite que tomou diretamente, a mãe não precisa tirar o leite da própria dieta — a proteína que atravessa o leite materno é pouca, e essa criança já a tolerava. Segundo: a criança com dermatite atópica de início precoce e moderada a grave é a que mais concentra alergia alimentar mediada por IgE, e a atualização de 2025 registra que 80% das alergias alimentares nesse grupo envolvem leite, amendoim e ovo. Mas o eczema que piora sozinho, sem reação imediata reprodutível a um alimento, não é motivo para tirar comida às cegas: a investigação do bloco seguinte vale para ele também, e o tratamento da pele é de “A bisnaga acaba, a doença não”.

2. Raias de sangue num bebê que cresce: a proctocolite

É a Anabela da cena. Aparece nos primeiros meses de vida, às vezes nas primeiras semanas, quase sempre num lactente de bom estado geral: fezes normais ou um pouco mais amolecidas com raias de sangue vivo e muco, em várias fraldas, sem febre, sem vômito, sem distensão, com peso subindo. Pode haver cólica ou choro excessivo junto, mas a criança não parece doente. A atualização de 2025 registra que cerca de metade dos casos acontece em quem está em aleitamento materno exclusivo, que o leite de vaca da dieta da mãe é o gatilho habitual e que, só excepcionalmente, entram na lista soja, ovo, trigo, peixe ou castanhas. O acometimento é do reto e do sigmoide, e por isso o sangue vem por fora das fezes, em fios, e não misturado nem escuro.

Fralda aberta com fezes amarelas pastosas de lactente, com fios de sangue vivo e muco na superfície.
Pequenos fios de sangue vivo e muco em fezes de aspecto habitual podem ocorrer na proctocolite, mas a aparência da fralda não confirma APLV. História, crescimento, exame e evolução orientam a investigação; o registro da fralda pode ajudar no acompanhamento.

A evolução é boa por definição: o sangramento costuma sumir em uma a duas semanas depois que o leite sai completamente da dieta da mãe, podendo demorar mais na criança amamentada. Pelo menos 20% dos bebês com colite alérgica em aleitamento exclusivo param de sangrar sem mudança nenhuma, e existe ainda a colite eosinofílica transitória neonatal, com achados iguais e sangramento que cessa sozinho. É exatamente por isso que o diagnóstico precisa da reexposição. O que não é benigno é o tempo: a atualização alerta que o sangramento persistente vai consumindo o ferro, e a deficiência pode se instalar depois dos 6 meses, quando as reservas acabam. Proctocolite com anemia, com perda de peso, com sangramento volumoso ou com criança abatida já não é o quadro típico e pede revisão do diagnóstico.

3. Diarreia que não sangra e peso que não sobe: a enteropatia

A enteropatia induzida por proteína alimentar é hoje menos frequente, e aparece nos primeiros meses de vida, depois do desmame e da introdução de fórmula de leite de vaca ou de soja. O começo engana: a criança pode ganhar peso bem por um tempo, e só dias, semanas ou mais de um mês depois as manifestações se tornam evidentes, porque a reação é tardia e mediada por células. O quadro é de má absorção de instalação insidiosa: diarreia crônica com fezes aquosas e ácidas, assadura perianal, distensão abdominal, vômitos, anemia, perda de peso e desaceleração da curva. Como na doença celíaca, pode haver perda intestinal de proteína, com albumina baixa e edema, e a lesão do intestino delgado leva junto a lactase, somando uma intolerância secundária à lactose.

O que diferencia na prática é a curva: diarreia com sangue e criança bem aponta para proctocolite; diarreia sem sangue com peso parado aponta para enteropatia, e ela divide a sala com a diarreia persistente pós-infecciosa, a giardíase, a doença celíaca e a fibrose cística. Este capítulo fica com a pergunta “é alergia ao leite?” e com a conduta quando é; a investigação da diarreia crônica da criança é de “A diarreia que mudou de nome”, desta apostila. A recuperação da enteropatia com desnutrição é lenta — a atualização fala em um a dois anos de idade — e o manejo da desnutrição grave, se houver, é de “O risco não é a fome”.

4. O vômito de horas depois: a enterocolite induzida por proteína alimentar

A forma aguda é a que chega ao pronto-socorro. Uma a quatro horas depois de o alimento ser ingerido — tipicamente um lactente que acabou de começar fórmula, ou que voltou a tomá-la depois de um intervalo —, a criança vomita repetidas vezes, fica pálida, largada e hipotônica, e numa parte dos casos aparece diarreia entre cinco e dez horas depois. A atualização de 2025 registra que cerca de 15% evoluem com desidratação ou choque hipovolêmico, e a revisão de 2018 que reproduz as tabelas do consenso internacional acrescenta hipotermia, metemoglobinemia e acidemia. Não há urticária, não há chiado, não há febre de infecção. E a criança melhora em até 24 horas depois de hidratada, fica bem entre as crises, e a crise volta a cada nova exposição.

Nos menores de 6 meses, leite de vaca e soja são os gatilhos mais frequentes; depois dos 9 meses, entram os sólidos, com arroz, aveia, banana, frutas e peixe entre os mais citados. A maioria das crianças reage a um único alimento. A forma crônica aparece quando o alimento é ingerido todo dia: vômitos intermitentes, diarreia, às vezes com sangue, ganho de peso ruim, e nos quadros graves desidratação e acidose; ela some em dias com a retirada e, na reexposição depois de um intervalo, vira a crise aguda. Guarde o perfil da primeira crise, porque ele confunde com três diagnósticos de pronto-socorro: sepse, pelo aspecto e pela neutrofilia; gastroenterite, pelo vômito — mas a gastroenterite dura dias, e a crise de enterocolite se resolve em horas; e invaginação, pelo lactente pálido e prostrado que vomita, que tem dono em “Invaginação intestinal do lactente”.

5. Quando a alergia se disfarça de sintoma comum: refluxo, cólica, constipação e esôfago

O ponto de partida é a frequência: regurgitação, choro e cólica aparecem em mais de metade dos lactentes, fazem parte do desenvolvimento normal do tubo digestivo e somem ao longo do primeiro ano. A atualização de 2025 é explícita em não confundir essa regurgitação fisiológica com doença do refluxo nem com alergia ao leite. Ao mesmo tempo, ela registra que, em até metade dos lactentes com doença do refluxo — aquela com repercussão, recusa, irritabilidade às mamadas, ganho de peso ruim —, as manifestações são secundárias à alergia ao leite. A saída dessas duas frases é uma só: pensar em alergia quando o sintoma comum vem acompanhado de outro sinal — sangue nas fezes, diarreia, vômito com recusa, dermatite atópica, peso que não sobe — ou quando não responde ao manejo habitual, e então testar com dieta de exclusão com prazo e reexposição obrigatória.

A cólica do lactente, entre a segunda semana e os quatro ou cinco meses, é na maior parte das vezes um distúrbio funcional. Alguns lactentes melhoram quando a mãe tira o leite de vaca da dieta ou quando a fórmula comum é trocada por uma hipoalergênica, e a alergia deve ser aventada sobretudo quando a cólica ou o choro inconsolável vêm com vômitos, má aceitação, diarreia, constipação ou dermatite atópica. Na constipação, a alergia entra quando o tratamento convencional falha ou quando há fissura persistente, história de sangue nas fezes ou cólica e irritabilidade associadas; a atualização estima que cerca de 5% das crianças com quadro de constipação funcional tenham alergia alimentar. O tratamento da constipação, e a decisão de quando tentar a dieta sem leite nela, são de “A cueca manchada e a dor das segundas-feiras”; a dieta com prazo e a reintrodução seguem as regras deste capítulo. A esofagite eosinofílica fica na suspeita: no lactente, ela pode ter manifestações parecidas com as da doença do refluxo e se passar por um refluxo que não responde; na criança maior, soma dificuldade para engolir e alimento que entala. Nessas crianças o caminho é a gastroenterologia pediátrica, com endoscopia e biópsia, não uma dieta a mais.

6. O que não é alergia ao leite

A intolerância à lactose é a confusão mais comum, até no nome que a família usa. Na criança pequena, ela é quase sempre secundária — depois de uma gastroenterite, ou dentro da própria enteropatia —, dá distensão, gases, cólica e fezes líquidas e ácidas com assadura, e melhora com menos lactose — a conduta da forma pós-infecciosa é de “A diarreia que mudou de nome”; não dá urticária, não dá sangue nas fezes e não dá a crise de vômitos da enterocolite. A proteína continua lá: o leite sem lactose serve para ela e não serve para a alergia. E o outro lado vale igual: lactose purificada numa fórmula hidrolisada não é problema para a criança alérgica. Quem tem só intolerância à lactose pode, por exemplo, receber a vacina tríplice viral que contém lactoalbumina, como diz o manual de vacinação do Ministério da Saúde de 2024 — a restrição dessa vacina é para a alergia à proteína.

O sangue na fralda tem outros donos, e o exame da cena existe para achá-los. A fissura anal, visível afastando as nádegas, dá sangue vivo em pequena quantidade com evacuação endurecida e dor. A invaginação dá dor em crises, vômito, prostração e fezes em geleia de framboesa. A enterocolite necrosante é do recém-nascido, sobretudo prematuro, com distensão e intolerância à dieta, e tem dono em “A dieta que estava indo bem”. A diarreia aguda com sangue e febre, a disenteria, é infecção até prova em contrário, e os planos de hidratação são de “Diarreia e desidratação na criança”. Sangue deglutido de fissura do mamilo da mãe pode aparecer nas fezes ou no vômito de um bebê saudável — olhe o peito. E sangramento com palidez, com manchas roxas ou com sangue em outro lugar pede investigação de coagulação no mesmo dia, não dieta. O que sobra depois dessa triagem, num bebê que cresce bem, é a proctocolite.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação da alergia ao leite tem uma ordem que não se inverte: história, dieta de exclusão com prazo, reexposição. O relatório da Conitec de 2018 escreve que não há exame complementar definitivo para o diagnóstico, e que IgE sérica e teste cutâneo servem apenas de apoio; a atualização de 2025 chama a reexposição de obrigatória. O exame de sangue que a família espera sair do consultório é, na maior parte das crianças, o exame errado — e, quando é o certo, responde a uma pergunta menor do que parece.

O que este bloco ensina, portanto, é a montar um experimento clínico: tirar a proteína, por um tempo definido, e observar; devolver a proteína, no lugar certo para aquele relógio, e observar de novo. Os exames entram nas margens desse experimento, cada um com a pergunta que responde.

1. A história que decide o relógio

Relacione o sintoma à ingestão e meça três coisas: o tempo, a quantidade e a repetição. Quanto tempo depois do leite — minutos, uma a quatro horas, dias? Com que quantidade — uma mamadeira inteira, um gole, o leite do peito de uma mãe que toma café com leite? E aconteceu mais de uma vez, sempre com o mesmo alimento? O texto federal de 2022 insiste nesse ponto por uma razão prática: os sintomas da alergia ao leite são os mesmos de condições comuns do lactente, como a cólica e o refluxo fisiológicos, e só o vínculo com a ingestão os separa.

Depois, pergunte como a criança se alimenta, com precisão: peito exclusivo, peito com fórmula, só fórmula, fórmula de quê, desde quando, e quem mais oferece o quê. No bebê amamentado, o cardápio da mãe é parte da anamnese da criança — leite, queijo, requeijão, iogurte, manteiga, doces e pães com leite. Peça a fralda fotografada, anote o peso na caderneta e olhe a curva inteira, não o ponto de hoje. Pergunte por eczema, chiado e alergia na família, e pergunte o que já foi tentado: muitas crianças chegam com uma troca de fórmula feita por conta própria, e isso contamina a leitura da resposta.

2. A dieta de exclusão é o primeiro exame

Feita a suspeita, o leite de vaca e seus derivados saem — da dieta da mãe, no bebê em aleitamento exclusivo; da mamadeira, trocando a fórmula comum pela extensamente hidrolisada, no bebê que toma fórmula. O prazo é o que transforma a dieta em exame: duas a quatro semanas na atualização de 2025, estendidas até oito semanas na enteropatia grave; o relatório da Conitec de 2018 descreve a melhora esperada entre 1 e 30 dias. Na proctocolite do bebê em fórmula, a troca costuma controlar o sangramento em três a quatro dias; na do amamentado, a resposta é mais lenta, e o sangue costuma sumir em uma a duas semanas.

Leia a resposta com duas cautelas. A primeira é a adesão: leite escondido em pão, biscoito, bolo, embutido e margarina derruba a dieta sem que a família perceba, e o fluxograma da atualização de 2025 separa exatamente assim — sem melhora com boa adesão, não é alergia ao leite; com dúvida sobre a adesão, a criança volta para reavaliação antes de qualquer conclusão. A segunda é o viés da fórmula: hidrolisados e fórmulas de aminoácidos esvaziam o estômago mais depressa, e a regurgitação ou a cólica podem melhorar com a troca sem que haja alergia. Melhorar com a dieta não confirma nada; é o que autoriza o passo seguinte.

3. A reexposição fecha o diagnóstico — e o lugar dela depende do relógio

Depois de duas a quatro semanas de melhora, o alimento volta, na forma in natura, e o diagnóstico só se confirma se os sintomas voltarem com ele. O lugar é decidido pela forma da alergia, e a atualização de 2025 é clara na divisão. Em casa, sob supervisão dos responsáveis, podem ser reexpostas apenas as formas leves e moderadas não mediadas por IgE, como a proctocolite, e as manifestações leves e inespecíficas. Em ambiente preparado para tratar anafilaxia, por equipe treinada, fazem o teste de provocação oral a alergia mediada por IgE, as formas graves não mediadas, como a enterocolite induzida por proteína alimentar, e a enterocolite atípica, aquela com IgE específica positiva para o alimento.

O tempo de observação acompanha o relógio de cada forma. Na mediada por IgE, a resposta vem de minutos a duas horas e é fácil de reconhecer. Na enterocolite, as manifestações aparecem nas primeiras quatro horas. Nas não mediadas por IgE, o intervalo vai de horas a dias, e a atualização manda manter o acompanhamento por quatro semanas, mesmo que a criança fique bem nos primeiros dias, antes de dar o teste por negativo. No bebê amamentado, a reexposição é a mãe voltar a consumir leite e derivados na dieta habitual dela, com a família orientada a fotografar as fraldas e a voltar se o sangue reaparecer. Voltou o sangue: é alergia, e a dieta materna recomeça. Não voltou em quatro semanas: não é, e a dieta acabou.

4. Como se faz o teste no hospital

Antes de começar: termo de consentimento assinado pelo responsável, criança bem — o texto federal de 2022 lista febre, vômito e sintoma respiratório ativo como motivos para adiar —, anti-histamínico suspenso em média sete dias antes, betabloqueador suspenso quando possível, e todo o material e as medicações de atendimento de anafilaxia à mão. A atualização de 2025 estratifica o risco antes da decisão e aponta como maior risco a reação nos últimos seis a doze meses, a anafilaxia prévia e a asma não controlada; o texto de 2022 pede acesso venoso já instalado na criança pequena com asma, com reação grave anterior ou com enterocolite.

Na alergia mediada por IgE, o esquema habitual divide a porção normal para a idade em quatro a seis doses crescentes, com 15 a 30 minutos entre elas. Fracionar mais do que isso não é recomendado, porque dessensibiliza e produz falso negativo; quem tem alto risco pode começar com 1% da dose total, e quem tem baixo risco pode receber duas doses, de 10% e 90%. O protocolo com leite assado — uma porção com 1,3 g de proteína do leite incorporada a massa de farinha de trigo e levada ao forno a 180 °C por pelo menos 30 minutos — responde a outra pergunta: se a criança já pode ampliar a dieta pelo leite processado no calor.

Na enterocolite, a dose total é de 0,06 a 0,6 g de proteína por quilo, com teto de 3 g de proteína, 10 g do alimento e 100 mL de líquido; o esquema clássico dá três doses iguais com 30 minutos de intervalo, pode acrescentar uma porção habitual depois de duas horas e observa por pelo menos mais quatro horas, com dose inicial menor ou observação mais longa em quem já teve reação grave; há também um esquema alternativo em dias diferentes — 25%, 50% e 100% da dose no primeiro, no terceiro e no quinto dia. Num lactente de 8 kg, a faixa por quilo vai de 0,48 a 4,8 g de proteína, e o teto de 3 g chega antes da conta. O acesso venoso fica instalado em quem teve reação grave, porque cerca de 15% podem evoluir com hipotensão. O teste é positivo com o critério maior — vômito entre uma e quatro horas, sem sintoma de pele ou respiratório — e dois ou mais critérios menores: letargia, palidez, diarreia entre cinco e dez horas, hipotensão, hipotermia e neutrofilia acima de 1.500 células sobre a contagem basal. Como a ondansetrona dada cedo pode impedir os critérios menores de aparecerem, a atualização admite que o médico conclua pelo critério maior em alguns casos.

5. IgE específica e teste cutâneo: só na forma imediata, e só como apoio

O teste cutâneo de leitura imediata é positivo com pápula de pelo menos 3 mm de diâmetro médio, com controle positivo que reagiu e controle negativo sem pápula; exige profissional treinado, pele sem lesão no local e anti-histamínico suspenso por cinco a sete dias. Não há idade mínima, mas antes dos 6 meses a pele reage menos. A IgE sérica específica é a alternativa quando não há pele sã ou o anti-histamínico não pode parar. Os dois testes têm alto valor preditivo negativo — um resultado negativo exclui a alergia mediada por IgE em até 95% dos casos — e baixo valor preditivo positivo: muita criança sensibilizada toma leite sem sintoma nenhum. Positivo quer dizer sensibilizado; alérgico é quem reage.

Por isso a indicação é estreita: suspeita de reação imediata, para apoiar o diagnóstico, estimar risco antes de um teste de provocação e acompanhar a tendência — a atualização registra que a queda dos níveis ao longo de doze meses é marcador de bom prognóstico. Na proctocolite e na enteropatia, a IgE não tem o que medir. Na criança com dermatite atópica, painéis com muitos alimentos devem ser desencorajados, porque a pele inflamada gera IgE positiva sem correlação clínica; mede-se o alimento suspeito, e só na dermatite de início precoce e moderada a grave. Na enterocolite, a IgE específica não faz o diagnóstico, mas identifica a forma atípica, que muda o local da reexposição.

6. Os exames que não servem e os poucos que mudam conduta

Não servem para diagnosticar alergia alimentar, segundo a atualização de 2025: dosagem de IgG ou de subclasses contra alimento — ela faz parte da resposta de tolerância —, análise de cabelo e teste citotóxico. O teste de contato com alimento continua sem padronização e com resultados heterogêneos. A calprotectina fecal não é recomendada nem para diagnóstico nem para prognóstico da alergia ao leite, na posição de 2021 da sociedade europeia de gastroenterologia pediátrica que a atualização cita. Endoscopia e colonoscopia não são de rotina: os achados — hiperplasia nodular linfoide, colite focal, eosinófilos — são inespecíficos, e os exames ficam para os casos graves e o diagnóstico diferencial, pedidos pelo gastroenterologista pediátrico. A esofagite eosinofílica é a exceção que só a biópsia confirma.

O que muda conduta cabe numa lista curta. O hemograma não confirma a proctocolite — a eosinofilia aparece em metade — mas mostra a anemia do sangramento prolongado, e é pedido quando a criança está pálida, quando o sangue não cede ou quando a dieta passou de algumas semanas sem resposta. Na enteropatia, albumina e proteínas totais medem a perda intestinal e a gravidade. Na crise de enterocolite, gasometria com eletrólitos e dosagem de metemoglobina guiam a correção, e o hemograma pode mostrar a neutrofilia que entra como critério menor, sem diagnosticar nada sozinho. E o sangramento que não se comporta como proctocolite — com palidez, manchas roxas ou sangue em outro lugar — pede avaliação da coagulação antes de qualquer dieta.

07

Em que relógio, que leite, que gravidade — e as contas dos casos

Comece pela gravidade, depois use tempo, sintomas e tipo de exposição para formular a hipótese. A dieta de exclusão precisa de indicação, substituição nutricional adequada e data de avaliação. Quando a reintrodução for necessária, escolha o ambiente pelo risco, não apenas pelo nome do mecanismo. Diferencie confirmar a hipótese e testar aquisição de tolerância após o diagnóstico.

  1. 1Classifique o relógio pela história: minutos a duas horas com pele ou respiração é mediada por IgE; vômitos repetidos uma a quatro horas depois, sem pele, é enterocolite; horas a dias, com sangue ou diarreia e criança bem, é proctocolite ou enteropatia.
  2. 2Afaste o que não é: fissura, invaginação, disenteria infecciosa, sangramento com palidez ou manchas roxas, intolerância à lactose, regurgitação e cólica isoladas num bebê que cresce.
  3. 3Criança em crise — anafilaxia ou enterocolite com letargia — é tratada antes de ser investigada: marco 5 da conduta e o capítulo de anafilaxia.
  4. 4Na suspeita apropriada, planejar exclusão diagnóstica por período definido, em geral duas a quatro semanas conforme a forma clínica, mantendo nutrição adequada. Dieta materna só quando indicada; fórmula é escolhida pela necessidade e gravidade. Crises graves são tratadas antes desse percurso.
  5. 5Após a exclusão, avaliar resposta e adesão. Se houver indicação de reintrodução, fazê-la em casa apenas em formas não IgE de baixo risco com orientação explícita; IgE, enterocolite e outras situações de risco pedem ambiente supervisionado. Ausência de resposta exige revisão de hipótese e manejo, não um rótulo automático.
  6. 6Se o sintoma característico reaparecer em uma reintrodução planejada, retomar a exclusão e definir seguimento e avaliação futura de tolerância conforme mecanismo e risco. Se não reaparecer durante o período de observação adequado, reconsiderar o diagnóstico e ampliar a dieta de modo orientado. Nas manifestações tardias, ausência de reação no mesmo dia não encerra a avaliação. Reposição nutricional depende da ingestão e das necessidades de cada pessoa.
  7. 7Reavalie a tolerância no prazo da forma: 3 meses de dieta materna na proctocolite leve do amamentado; 6 a 12 meses na mediada por IgE; 12 a 18 meses depois da última crise na enterocolite.

Os cinco quadros pelo relógio: o que se vê, o que confirma, onde se reexpõe

QuadroComeça depois do leiteO que se vêO que confirmaOnde se reexpõeQuando costuma passar
Mediada por IgEMinutos a 2 horasUrticária, angioedema, vômito, tosse ou chiado; anafilaxiaReação no teste de provocação; teste cutâneo e IgE específica só apoiamHospital, com equipe e material de anafilaxiaCerca de metade até 5 anos e 70% a 80% até 16 anos (leite, ovo, soja e trigo)
ProctocoliteHoras a dias; o sangue some em 1 a 2 semanas de dietaRaias de sangue e muco, bebê bem, peso subindoSangue que volta na reexposição; nenhum exameEm casa: a mãe volta a consumir leite80% toleravam por volta dos 6 meses num estudo brasileiro
EnteropatiaDias a semanas depois da fórmulaDiarreia ácida crônica, distensão, anemia, curva parada, albumina baixaMelhora com dieta de até 8 semanas e piora na reexposiçãoEm casa se leve a moderada; hospital se graveMaioria entre 1 e 3 anos
Enterocolite aguda1 a 4 horas; diarreia em 5 a 10 horasVômitos repetidos, palidez, letargia, hipotonia; cerca de 15% com desidratação ou choqueCritérios clínicos; IgE específica só identifica a forma atípicaHospital, com acesso venoso se houve reação graveTestar tolerância 12 a 18 meses depois da última crise
Enterocolite crônicaCom a ingestão diária, como a fórmulaVômito intermitente, diarreia, ganho de peso ruimMelhora em dias com a retirada; crise aguda na reexposiçãoHospitalMesmo prazo da forma aguda

Que leite essa criança toma — a regra brasileira por idade e gravidade

SituaçãoPrimeira escolhaSuba para aminoácidos quandoNão use
Mama no peito (qualquer forma, exceto a IgE que só reagiu à fórmula)Peito, com dieta materna sem leite e derivados e cálcio e vitamina D para a mãeNão se aplica: fórmula só se o aleitamento for impossível, e aí vale a linha da idadeSuspender o peito; fórmula comum, de soja ou leite de outro mamífero
Não mama, abaixo de 6 meses, IgE ou nãoExtensamente hidrolisada; sem lactose se houver diarreia há mais de uma semanaSem controle dos sintomas ou sem recuperação nutricional depois de cerca de 15 diasSoja (só a partir de 6 meses); parcialmente hidrolisada; fórmula comum sem lactose; leite de cabra, de ovelha ou A2
Não mama, 6 a 24 meses, não mediada por IgEExtensamente hidrolisadaMesmo critério: cerca de 15 dias sem controleOs mesmos, e a soja não é a escolha
Não mama, 6 a 24 meses, mediada por IgE sem anafilaxiaExtensamente hidrolisada; soja aceitável quando acesso, custo ou aceitação pesaremMesmo critério: cerca de 15 dias sem controleLeite de outro mamífero, parcialmente hidrolisada, leite A2, bebida vegetal
Anafilaxia, enterocolite grave, esofagite eosinofílica, desnutrição descompensada, sangramento intestinal intenso, anemia grave, dermatite atópica grave com hipoproteinemiaAminoácidos desde o inícioJá está nela; sem melhora em cerca de 15 dias, rever o diagnóstico com a gastroenterologia pediátricaComeçar por hidrolisado ou por soja
Acima de 1 ano, sem fórmulaComida da família sem leite, com cálcio (500 mg/dia na infância, até 1.000 mg ou mais na adolescência) e vitamina DNão se aplicaBebida de arroz antes de 4 anos e meio; bebida vegetal como substituto nutricional do leite

Enterocolite induzida por proteína alimentar: o que fecha o diagnóstico e o que a gravidade manda fazer

PerguntaResposta que esta apostila usaBase
Qual é o critério maior?Vômito de uma a quatro horas depois do alimento suspeito, sem urticária, angioedema ou sintoma respiratórioAtualização ASBAI/SBP 2025; consenso internacional na revisão de 2018
Quantos critérios menores fecham a crise espontânea?Três ou mais: segundo episódio com o mesmo alimento, vômito com outro alimento, letargia extrema, palidez acentuada, ida à emergência, fluido venoso, diarreia em 24 horas, hipotensão, hipotermiaConsenso na revisão de 2018; a tabela brasileira escreve “mais de três” (ver notas)
Quantos fecham o teste de provocação?Dois ou mais: letargia, palidez, diarreia em 5 a 10 horas, hipotensão, hipotermia, neutrofilia acima de 1.500 sobre a basalAtualização 2025; revisão de 2018
Crise leve: um a dois vômitos, sem letargiaHidratação oral — peito ou líquidos claros; ondansetrona a partir de 6 meses pode ser considerada; observar 4 a 6 horas desde o inícioRevisão de 2018
Crise moderada: três ou mais vômitos, ou qualquer letargiaOndansetrona a partir de 6 meses; considerar acesso venoso para soro fisiológico 20 mL/kg, repetindo se preciso; observar 4 a 6 horas; alta se tolerar líquidos clarosRevisão de 2018; o corte em três é regra desta apostila (ver notas)
Crise grave: letargia intensa, hipotonia, cor acinzentada ou cianoseAcesso venoso com soro fisiológico 20 mL/kg rápido, repetindo até corrigir hipotensão; ondansetrona venosa a partir de 6 meses; considerar metilprednisolona 1 mg/kg (teto 60 a 80 mg); corrigir acidose, eletrólitos e metemoglobinemia; UTI se choque persisteRevisão de 2018; atualização 2025

Doses e quantidades para os pesos dos casos, contra o que a Rename 2024 tem

ItemRegra por quilo ou por idade, com tetoO que existeConta para o casoAtenção
Soro fisiológico 0,9% na enterocolite10 a 20 mL/kg em bolus, repetir se precisoCloreto de sódio 9 mg/mL, Rename, componente básicoSamuel, 8 kg: 80 a 160 mL; na crise grave, 160 mL rápidoReavaliar perfusão e sensório depois de cada bolus
Ondansetrona0,15 mg/kg por dose, teto 16 mg, só a partir de 6 mesesRename 2024: só comprimido e comprimido orodispersível de 4 e 8 mg; injetável só pela padronização do hospitalSamuel: 1,2 mg, ou 0,3 de um comprimido de 4 mg; na ampola de 2 mg/mL, 0,6 mLComprimido de 4 mg não se fraciona em 0,3 com precisão; abaixo de 6 meses não entra
Metilprednisolona na crise grave1 mg/kg em dose única, teto 60 a 80 mg; sem dado de eficáciaRename 2024: só frasco de 500 mg, componente especializadoSamuel: 8 mg, 1,6% do frascoO frasco de 500 mg não é apresentação de pronto-socorro pediátrico; use a do serviço
Epinefrina na anafilaxia0,01 mg/kg intramuscular; teto de 0,3 mg na criança pela atualização de 2025Ampola de 1 mg/mL, Rename; autoinjetor não constaNicolly, 8,4 kg: 0,084 mg = 0,08 mL em seringa de 1 mLConduta completa em “Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro”
Cálcio e vitamina D da mãe em dietaCobrir a recomendação da lactante: 1.000 mg de cálcio de 19 a 50 anos (1.300 mg de 14 a 18) e 600 UI de vitamina DCarbonato de cálcio + colecalciferol 1.250 mg (500 mg de cálcio elementar) + 400 UI, Rename, componente básicoJoelma, 26 anos: 1 comprimido 2 vezes ao dia = 1.000 mg de cálcio + 800 UIDose por comprimido é posição desta apostila; nenhum documento brasileiro a fixa
Fórmula extensamente hidrolisada ou de aminoácidosQuantitativo mensal mínimo sugerido no texto federal de 2022, lata de 400 g: 9 latas até 3 meses; 10 de 3 a 6; 8 de 6 a 9; 7 de 9 a 12; 6 de 12 a 24Não consta da Rename 2024; o acesso segue o fluxo da secretaria de saúde do estado ou do municípioNicolly, 9 meses: 7 latas = 2,8 kg por mês, cerca de 93 g de pó por diaA nutricionista refaz a conta pela necessidade da criança

Exclusão e reintrodução: percurso de consulta

EtapaO que precisa ficar definidoPróxima decisão
SuspeitaSintomas, exposição, tempo e gravidade; diagnósticos alternativosTratar urgência ou iniciar avaliação ambulatorial
Exclusão diagnósticaO que retirar, substituição, duração e sintoma acompanhadoConferir resposta e execução
Sem respostaAdesão, formulação, nutrição e hipóteseReavaliar antes de ampliar restrições
Com respostaNecessidade e segurança de reintroduçãoCasa somente em baixo risco orientado; supervisão nos demais
Diagnóstico estabelecidoDieta, plano de reação e apoio nutricionalSeguimento e avaliação individual de tolerância
Tolerância demonstradaComo reintegrar alimentos e retirar restrições desnecessáriasAcompanhar ingestão e evolução

Critério da enterocolite com um a mais. A Tabela 6 da atualização ASBAI/SBP de 2025 fecha o diagnóstico da crise aguda com o critério maior e “mais de três” critérios menores. O consenso internacional de 2017 que a própria tabela cita, reproduzido na revisão de 2018 assinada pela primeira autora do consenso, exige o critério maior e pelo menos três menores. Conta: lactente que vomita repetidas vezes duas horas depois da fórmula, sem pele nem respiração, com letargia extrema, palidez acentuada e levado à emergência soma o critério maior e três menores — fecha pelo consenso e fica de fora pela letra da tabela brasileira, que exigiria quatro. Esta apostila usa três ou mais, que é o critério da fonte citada.

Norma de rotulagem revogada. A seção de rotulagem da mesma atualização diz que a regulação brasileira de alérgenos é feita pela RDC nº 26/2015 da Anvisa. Essa resolução foi revogada pelo art. 40 da RDC nº 727/2022, em vigor desde 1º de setembro de 2022 (art. 41); o documento foi submetido em janeiro de 2025, 28 meses depois. Conta de conduta: as advertências que a família deve procurar — “Alérgicos: contém…”, “contém derivados de…” e “Alérgicos: pode conter…” — estão hoje nos arts. 13 a 15 da RDC nº 727/2022, e o art. 7º, § 2º, dispensa essas advertências no alimento preparado ou fracionado e vendido no próprio estabelecimento, como o pão da padaria e o salgado de balcão, que por isso precisam ser perguntados, não lidos.

Janela de duas horas que exclui a enterocolite. O texto do protocolo federal levado à Consulta Pública Conitec nº 24/2022 dá acesso à fórmula sem teste de provocação para a reação grave “ocorrida imediatamente ou em até duas horas” após o leite, e põe a enterocolite dentro desse critério. O próprio texto descreve o vômito da enterocolite começando de uma a três horas depois, e a atualização de 2025 e o consenso internacional dão uma a quatro horas. Conta: lactente que vomita repetidamente três horas depois da fórmula, pálido e letárgico, preenche o critério maior e fica fora da letra do critério de duas horas — perde a porta que dispensa justamente o teste que nele é perigoso. Esta apostila aplica a janela de uma a quatro horas.

Choque anafilático onde o choque é hipovolêmico. No apêndice sobre o teste de provocação, o mesmo texto de 2022 escreve que a enterocolite pode “acarretar choque anafilático”. O choque da enterocolite é hipovolêmico: a atualização de 2025 diz que anafilaxia e sinais de pele ou respiratórios não são vistos nela, a revisão de 2018 não recomenda adrenalina de rotina porque ela não age sobre o vômito, e a seção de emergência do próprio texto de 2022 manda fluidos venosos. Conta de conduta: a palavra “anafilático” empurra a mão para a adrenalina num lactente de 8 kg cuja primeira prescrição é 160 mL de soro fisiológico em bolus.

Três vômitos sem classe. As tabelas de gravidade da crise de enterocolite reproduzidas na revisão de 2018 — a do domicílio e a do serviço de saúde — definem a crise leve por um a dois vômitos e a moderada por “mais de três”, e o texto repete “mais de três vezes” ao mandar a família para a emergência. Três vômitos exatos não pertencem a classe nenhuma; no serviço, a leve exige ausência de letargia e a moderada exige mais de três vômitos, de modo que um a dois vômitos com letargia leve também ficam sem classe. Conta: a diferença entre as duas classes é hidratar por boca e observar ou pôr acesso venoso e correr 20 mL/kg. Esta apostila classifica como moderada a crise com três ou mais vômitos ou com qualquer letargia.

Duas normas de vacinação em vigor, duas regras. Sobre a vacina tríplice viral do Serum Institute of India, que contém lactoalbumina hidrolisada, o Manual de normas e procedimentos para vacinação do Ministério da Saúde (2024) diz num trecho que ela está contraindicada na “alergia grave” à proteína do leite de vaca e, em outro, que quem tem “história de alergia à proteína do leite de vaca” não deve recebê-la. A Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação de 2026 (3ª edição, atualizada em julho de 2026) usa só a segunda forma e manda usar a tetraviral nas duas doses quando faltar tríplice viral sem proteína do leite, citando a Nota Técnica nº 49/2025. Conta: o lactente com proctocolite, alergia que não é grave, recebe a vacina com lactoalbumina pela primeira frase do manual e não recebe pelas outras duas. Esta apostila segue a instrução normativa, mais nova e coerente consigo mesma: toda criança com história de alergia ao leite recebe vacina sem lactoalbumina.

08

A conduta, hora a hora

O acompanhamento da alergia ao leite se mede em semanas e meses, mas anafilaxia e enterocolite aguda grave exigem atendimento imediato. Anabela acompanha o percurso da suspeita de proctocolite; Samuel e Nicolly mostram apresentações com outros riscos. Em todos, o plano inclui alimentação segura e orientação sobre o que fazer em uma reação.

Toda exclusão precisa ser reavaliada. A melhora durante a dieta, isoladamente, não confirma alergia, e a reintrodução pode ser necessária para esclarecer causalidade. Isso não significa provocar uma criança de alto risco apenas para cumprir uma regra: história, gravidade e avaliação especializada determinam indicação, momento e ambiente. Após diagnóstico, o teste de tolerância tem outra finalidade e seu prazo é individualizado.

  1. Dia 0 — a consulta da suspeita, antes de a família levantar da cadeira

    A Anabela está no relógio longo: raias de sangue há cinco dias, bebê bem, curva paralela, sem fissura, sem massa, sem febre. É proctocolite até que a dieta e a reexposição digam o contrário, e a decisão de hoje não depende de exame nenhum. O que se decide é quem muda a dieta — a mãe, não a filha —, por quanto tempo e como a família vai saber se funcionou. A atualização de 2025 registra que há quem prefira esperar duas a quatro semanas sem dieta nenhuma na colite leve do bebê em aleitamento exclusivo; esta apostila adota a dieta com prazo, pelas razões que estão nas divergências. Antes de a família sair, a avó precisa ouvir, com a lata ainda na bolsa, por que o peito fica.

    Prescrição
    • Manter aleitamento materno exclusivo em livre demanda; registrar no prontuário que não há indicação de fórmula
    • Dieta materna sem leite de vaca e derivados — leite, queijo, requeijão, iogurte, manteiga, creme de leite, doce de leite e preparações que os levem — por 2 a 4 semanas, com a lista entregue por escrito
    • Carbonato de cálcio + colecalciferol 1.250 mg (500 mg de cálcio elementar) + 400 UI: 1 comprimido via oral 2 vezes ao dia para a mãe, junto das refeições, enquanto durarem a dieta e a amamentação
    • Nenhum exame hoje: nem IgE específica, nem hemograma, nem exame de fezes
    • Fotografar as fraldas com sangue e anotar a data do último sangue visto
    • Retorno em 2 semanas, com peso; motivos para voltar antes entregues por escrito — vômitos repetidos, prostração, febre, sangue em quantidade, choro com barriga distendida
  2. Semana 2 — a primeira leitura da dieta

    O sangue da Anabela sumiu no nono dia, e a curva seguiu subindo. É a resposta esperada, e ainda não prova nada — pelo menos um em cada cinco bebês com colite alérgica para de sangrar sem mudar coisa alguma. Se o sangue continuasse, a primeira pergunta não seria “que outro alimento tirar?”, e sim “onde o leite ficou?”: pão, biscoito, bolo, embutido, margarina, chocolate, a refeição na casa da sogra. Com adesão boa confirmada e sangue ainda presente ao fim de quatro semanas, a alergia ao leite deixa de ser a explicação, a dieta acaba e a criança vai para a gastroenterologia pediátrica. Tirar soja, ovo e trigo da mãe por conta própria é exceção de especialista, não passo seguinte da unidade básica.

    Prescrição
    • Conferir com a mãe, item por item, onde o leite pode ter ficado, inclusive refeições fora de casa
    • Sangue ainda presente com boa adesão: estender a dieta até completar 4 semanas
    • Sem resposta em 4 semanas com boa adesão: suspender a dieta materna e o cálcio e encaminhar à gastroenterologia pediátrica
    • Pesar e marcar o ponto na curva da caderneta
    • Manter cálcio e vitamina D da mãe enquanto a dieta continuar
    • Agendar a reexposição para o fim da 4ª semana de dieta
  3. Semana 4 — a reexposição que decide o diagnóstico

    Neste caso de provável proctocolite leve, Anabela permanece bem e cresce. Depois da resposta à dieta, a equipe orienta reintrodução materna em casa para avaliar causalidade, com sinais e prazo de observação definidos. O retorno de sangue deve ser comunicado e avaliado no contexto; reintrodução não significa oferecer diretamente fórmula à criança sem instrução. Este percurso não se aplica à história de anafilaxia, enterocolite ou outra reação de risco.

    Prescrição
    • Mãe retoma leite e derivados na quantidade habitual a partir de hoje
    • Observar as fraldas por até 4 semanas e fotografar se o sangue voltar
    • Sangue de volta: retomar a dieta materna e o cálcio no mesmo dia; registrar o diagnóstico confirmado e a forma na caderneta
    • Sem sangue em 4 semanas: não é alergia ao leite — dieta liberada, cálcio suspenso, rótulo de alérgica retirado do prontuário
    • Vômitos repetidos, prostração ou urticária na reexposição não são o relógio da proctocolite: trazer a criança ao serviço
  4. Confirmada a proctocolite — a dieta de manutenção, com data para ser testada de novo

    Na alergia não mediada por IgE, a atualização de 2025 recomenda a dieta de eliminação por pelo menos seis meses ou até os nove a doze meses de idade, o que chegar primeiro; na proctocolite leve do bebê em aleitamento exclusivo que respondeu bem, admite liberar o leite para a mãe depois de três meses de dieta, e, quando a reexposição é positiva, manda repeti-la a cada três meses, no máximo seis. Para a Anabela, isso quer dizer nova reexposição materna por volta dos 6 meses de idade — perto da idade em que, num estudo brasileiro, 80% dos bebês com a suspeita já toleravam o leite. Enquanto isso, a dieta precisa caber na vida da Joelma: ela come fora, compra pão na padaria, recebe marmita da mãe. É aqui que o rótulo entra — e a regra de rotulagem em vigor é a RDC nº 727/2022 da Anvisa, não a de 2015 que ainda aparece citada.

    Prescrição
    • Manter a dieta materna e o cálcio com vitamina D; nova reexposição materna em 3 meses de dieta, no máximo 6
    • No rótulo, procurar “Alérgicos: contém leite”, “contém derivados de leite” ou “contém leite e derivados”, em destaque logo abaixo da lista de ingredientes
    • “Contém lactose” e “zero lactose” falam do açúcar, não da proteína: não servem para decidir
    • Pão de padaria, salgado de balcão e comida de restaurante não são obrigados a trazer a advertência: perguntar como foi feito
    • Encaminhar a mãe à nutricionista da rede, quando houver, para cobrir energia, proteína e cálcio da dieta
    • Hemograma só se houver palidez, sangramento que se prolongou ou dieta sem resposta
  5. Qualquer hora, no pronto-socorro — a crise de enterocolite e a reação imediata

    O Samuel, 7 meses, 8 kg, que ainda mama no peito de manhã e à noite, tomou a primeira mamadeira de fórmula na creche e, duas horas depois, começou a vomitar sem parar; chega pálido, largado, com o tempo de enchimento capilar lentificado. Sem urticária, sem chiado, sem febre. É a crise aguda de enterocolite, e a gravidade — não o nome — decide a prescrição: três ou mais vômitos ou qualquer letargia já é moderada, e hipotonia com cor acinzentada é grave. O tratamento é volume, e a adrenalina não entra, porque não age sobre o vômito; o raciocínio inteiro está no caso resolvido. A outra criança do pronto-socorro é a da reação imediata: se há anafilaxia, a condução é de “Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro”, com a epinefrina intramuscular antes de qualquer outra coisa; se é urticária isolada, de “A placa que some e o inchaço que não coça”. As duas saem do pronto-socorro sem leite de vaca, com plano escrito e sem reexposição em casa.

    Prescrição
    • Classificar a crise: um a dois vômitos sem letargia é leve; três ou mais vômitos ou qualquer letargia é moderada; letargia intensa, hipotonia, cor acinzentada ou cianose é grave
    • Leve: hidratação oral — peito ou líquidos claros — e observação por 4 a 6 horas desde o início
    • Moderada ou grave: acesso venoso e soro fisiológico 0,9% 20 mL/kg em bolus (Samuel, 8 kg: 160 mL), repetindo até corrigir a perfusão
    • Ondansetrona 0,15 mg/kg por dose, teto 16 mg, só a partir de 6 meses: Samuel 1,2 mg EV (0,6 mL da ampola de 2 mg/mL da padronização do hospital), ou IM se o acesso demorar
    • Glicemia capilar, gasometria venosa com eletrólitos e metemoglobina, hemograma
    • Grave: considerar metilprednisolona 1 mg/kg EV em dose única (Samuel: 8 mg); corrigir acidose e metemoglobinemia; UTI se o choque persistir
    • Sem adrenalina e sem anti-histamínico de rotina na enterocolite; epinefrina só diante de sinal de anafilaxia
    • Alta depois de 4 a 6 horas, com a criança de volta ao estado basal e aceitando líquidos; sem leite de vaca, com plano escrito para nova crise e encaminhamento ao especialista
  6. A criança que não mama — a fórmula certa, pedida do jeito certo

    A Nicolly, 9 meses, 8,4 kg, mamou no peito até o mês passado; na primeira mamadeira de fórmula de seguimento fez urticária no rosto e vomitou em quinze minutos. Não há peito para proteger — a mãe secou —, e a pergunta passa a ser qual fórmula e como obtê-la. Pela tabela do bloco de critérios, a primeira escolha é a extensamente hidrolisada; a soja é aceitável nesta idade e nesta forma, e a divergência sobre ela está registrada adiante. O caminho no SUS tem um buraco que muda a conduta: a Portaria SCTIE/MS nº 67/2018 incorporou as fórmulas de soja, extensamente hidrolisada e de aminoácidos para crianças de 0 a 24 meses, mas elas não constam da Rename 2024, e o protocolo federal que organizaria a oferta ficou no texto de consulta pública de 2022. O acesso segue o fluxo da secretaria de saúde do estado ou do município, e é o relatório do médico que abre essa porta. A fórmula só é julgada depois de cerca de 15 dias; a relactação é oferta legítima quando o desmame é recente e a mãe quer.

    Prescrição
    • Fórmula extensamente hidrolisada como primeira escolha (sem lactose se houver diarreia há mais de uma semana); aminoácidos desde o início nos quadros graves da tabela de fórmulas
    • Quantidade de referência para Nicolly, 9 meses: 7 latas de 400 g por mês, cerca de 93 g de pó por dia (texto federal de 2022); a nutricionista ajusta
    • Relatório para a secretaria de saúde: forma da alergia, como foi diagnosticada, peso e curva, fórmula, quantidade mensal e data de reavaliação
    • Julgar a fórmula depois de cerca de 15 dias; sem controle, passar a aminoácidos; sem melhora em 15 dias de aminoácidos, rever o diagnóstico com a gastroenterologia pediátrica
    • Oferecer apoio à relactação quando o desmame for recente e a mãe quiser
    • Suspensão da fórmula do programa, pelo relatório da Conitec de 2018: melhora completa, teste de provocação negativo, falta ao teste de monitoramento ou 24 meses de idade
    • IgE específica ou teste cutâneo como apoio antes do teste de provocação hospitalar; encaminhar ao alergista
  7. 6 a 12 meses — a comida entra, o leite não, e a vacina dos 12 meses tem fabricante

    A alimentação complementar da criança alérgica ao leite começa na mesma idade e segue as mesmas recomendações das outras crianças, exceto os laticínios, diz a atualização de 2025, e o Guia Alimentar para crianças menores de 2 anos é a régua da técnica — que é de “O que não escorre da colher”. Duas diferenças são deste capítulo. A criança com enterocolite ao leite ou à soja tem mais chance de reagir também a sólidos, sobretudo arroz e aveia, e a revisão de 2018 sugere começar por frutas e hortaliças e deixar carnes e cereais para depois, ampliando à medida que ela tolera. E a vacina: pessoas com história de alergia à proteína do leite de vaca não recebem a tríplice viral do Serum Institute of India, que contém lactoalbumina; recebem vacina sem ela, e, na falta, a tetraviral nas duas doses, pela instrução normativa do calendário de 2026. Alergia ao leite não adia vacina nenhuma — muda o fabricante de uma delas; o calendário inteiro é de “Retomar, não recomeçar”.

    Prescrição
    • Alimentação complementar aos 6 meses, como para qualquer criança, sem leite e derivados
    • Criança com enterocolite: começar por frutas e hortaliças; carnes e cereais depois; arroz e aveia com atenção
    • Sem bebida de arroz antes de 4 anos e meio; bebida vegetal não substitui leite nem fórmula
    • Tríplice viral aos 12 meses em vacina sem lactoalbumina; sem ela, tetraviral nas duas doses; registrar a alergia na caderneta de vacinação
    • Vacinas com componentes diftérico, tetânico e pertussis podem conter derivados de caseína: avaliação individual, e aplicação sob supervisão nas formas graves com limiar baixo de reação
    • Acima de 1 ano sem fórmula: cálcio elementar 500 mg/dia e vitamina D; a Rename 2024 só traz cálcio em comprimido de adulto, e a apresentação pediátrica vem da farmácia ou da padronização local
  8. A partir dos 9 a 12 meses — a volta ao leite, no lugar que a forma permite

    A tolerância só se descobre expondo. Na forma não mediada por IgE, leve a moderada, a atualização de 2025 descreve a reexposição escalonada em casa, a escada do leite: começa pelo leite assado dentro de uma massa, passa ao cozido, depois ao queijo e ao iogurte e termina na dieta livre, sem tempo mínimo ou máximo por degrau. Ela não serve para quem teve enterocolite, sinais de reação imediata, dermatite atópica grave ou alergias múltiplas. Na forma mediada por IgE, a reintrodução é no hospital, e tolerar o leite assado — o que acontece com 69% a 83% das crianças — indica um fenótipo mais leve e permite ampliar a dieta; a imunoterapia oral, para quem não adquire tolerância, é procedimento de especialista em ambiente controlado. Na enterocolite, o teste é hospitalar, 12 a 18 meses depois da última crise. A Nicolly, se tudo correr como na maioria, faz o primeiro teste de provocação entre 15 e 21 meses de idade.

    Prescrição
    • Não mediada leve a moderada, acima de 1 ano: degrau 1 — bolo, pão ou biscoito com leite, assados a 180 °C, começando com 1 unidade por dia e subindo até 3
    • Degrau 2: panqueca, crepioca e purê com leite cozido; degrau 3: queijo e iogurte (125 mL); degrau 4: dieta livre para a idade
    • Não mediada leve a moderada, abaixo de 1 ano: trocar uma medida da fórmula de tratamento por uma da fórmula comum na mamadeira da manhã e acrescentar uma medida por dia até a mamadeira inteira; depois, uma mamadeira a mais a cada 2 a 3 dias, até todas
    • Sintoma em qualquer degrau: dieta por mais 3 a 6 meses e nova tentativa
    • Mediada por IgE: teste de provocação hospitalar a cada 6 a 12 meses, apoiado pela tendência da IgE específica
    • Enterocolite: teste de provocação hospitalar 12 a 18 meses depois da última crise, com acesso venoso se a crise foi grave
    • Tolerância confirmada: dieta livre, cálcio suspenso e diagnóstico atualizado na caderneta
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Como saber se está funcionando

Na crise aguda, acompanhe perfusão, consciência, vômitos e resposta ao suporte. No ambulatório, reveja sintomas, crescimento, ingestão e execução da dieta. Exames podem ajudar em situações selecionadas, mas não substituem a história nem autorizam uma reintrodução insegura. O retorno deve terminar com decisão e próxima data.

Registre qual sintoma motivou a exclusão, quando ele deveria melhorar e como será demonstrada a relação causal. Depois de confirmar o diagnóstico, programe avaliação de tolerância e acompanhamento nutricional. Sintoma novo, perda ponderal ou reação relevante pode antecipar qualquer prazo.

Sangue e muco nas fezes (proctocolite)Diário, pela família, com fotografia; revisão com 2 e 4 semanas de dieta

Esperado: Some em 1 a 2 semanas de dieta completa na mãe, podendo demorar mais no bebê amamentado; em 3 a 4 dias quando se troca a fórmula do bebê que não mama

Se não melhora: Primeiro, adesão: procurar o leite escondido. Com boa adesão ao fim de 4 semanas, não é alergia ao leite — encerrar a dieta e encaminhar à gastroenterologia pediátrica; sangue volumoso, palidez ou prostração pedem avaliação no mesmo dia

Peso, comprimento e a inclinação da curvaEm toda consulta; no mínimo mensal no primeiro semestre enquanto houver dieta

Esperado: Curva paralela às linhas de referência, sem queda de canal

Se não melhora: Curva que desacelera sugere enteropatia, enterocolite crônica, ingestão insuficiente ou dieta mal montada: nutricionista, revisão da fórmula e, se não houver resposta, aminoácidos; desnutrição grave segue “O risco não é a fome”

A mãe em dieta: adesão, alimentação, cálcio e vontade de continuar amamentandoA cada retorno, perguntando diretamente

Esperado: Dieta sustentável, comprimido de cálcio com vitamina D tomado, aleitamento mantido sem culpa

Se não melhora: Dieta que não cabe na vida da família se simplifica com a nutricionista, não se abandona trocando o peito por fórmula; sinais de sofrimento materno se acolhem e se encaminham na rede

Resposta à fórmula hipoalergênica no bebê que não mamaDepois de cerca de 15 dias de fórmula extensamente hidrolisada; de novo 15 dias depois de aminoácidos

Esperado: Controle dos sintomas e retomada da curva

Se não melhora: Sem controle com a extensamente hidrolisada: fórmula de aminoácidos. Sem melhora em 15 dias de aminoácidos: o diagnóstico de alergia ao leite deve ser revisto, a fórmula de aminoácidos interrompida e a criança encaminhada ao gastroenterologista

O resultado da reexposição diagnósticaObservação de até 2 horas na forma IgE, de 4 horas na enterocolite e de até 4 semanas nas não mediadas

Esperado: Duas saídas limpas: o sintoma volta e o diagnóstico está confirmado, ou não volta e a dieta termina

Se não melhora: Resposta ambígua — um episódio isolado, sintoma que não se repete, adesão incerta — não fecha nada: repetir a leitura com a família orientada, ou levar o teste para o ambiente supervisionado

Depois da crise de enterocolite: perfusão, sensório e aceitação de líquidosDepois de cada bolus e ao longo das 4 a 6 horas a partir do início da crise

Esperado: Enchimento capilar normal, criança desperta e interagindo, vômitos cessados, aceitando líquidos por boca

Se não melhora: Hipotensão persistente, choque, letargia extrema ou desconforto respiratório: novo bolus, correção de acidose e metemoglobinemia e transferência para sala de emergência ou UTI; não é hora de pensar em adrenalina, a não ser que surja sinal de anafilaxia

A tolerância: escada do leite em casa ou teste de provocação no hospitalNão mediada: depois de pelo menos 6 meses de dieta ou aos 9 a 12 meses de idade; IgE: a cada 6 a 12 meses; enterocolite: 12 a 18 meses depois da última crise

Esperado: Criança que sobe os degraus ou passa no teste, com dieta liberada e diagnóstico atualizado na caderneta

Se não melhora: Sintoma num degrau da escada: dieta por mais 3 a 6 meses e nova tentativa. Teste positivo: novo teste no prazo da forma; alergia IgE que persiste vai para o alergista discutir imunoterapia oral

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Onde o erro machuca

Trocar o peito por fórmula porque apareceu sangue na fralda — ou porque a avó chegou com a lata

O dano: O bebê perde o leite materno, que é o melhor alimento que ele tem, por uma alergia que costuma se resolver com a dieta da mãe e que, em dois de cada três casos, nem se confirma. A mãe sai achando que o próprio leite fez mal, e a fórmula especial ainda precisa ser conseguida na secretaria.

Como pegar a tempo: Na criança amamentada, a dieta muda na mãe, não na criança: leite e derivados fora da dieta materna, cálcio e vitamina D para ela, e o peito mantido. Fórmula só entra se o aleitamento for impossível, e aí é a extensamente hidrolisada.

Fechar o diagnóstico com a melhora na dieta, sem devolver o leite

O dano: Dos bebês com sangue nas fezes que param de sangrar com a dieta, só cerca de 30% reagem quando o leite volta. Os outros ficam meses — às vezes anos — com rótulo de alérgicos, dieta desnecessária, risco nutricional e fórmula cara, e a família perde a chance de voltar a comer junto.

Como pegar a tempo: Toda dieta começa com a data da reexposição marcada. Em casa na não mediada leve ou moderada; no hospital na IgE, na enterocolite e na forma atípica.

Pedir IgE específica, painel de alimentos ou IgG contra alimento para decidir se é alergia ao leite

O dano: Na proctocolite e na enteropatia, a IgE não tem o que medir e vem negativa numa criança alérgica. Na dermatite atópica, o painel acende alimentos que a criança come sem sintoma e produz dietas amplas e inúteis. A IgG faz parte da resposta de tolerância e não diagnostica nada.

Como pegar a tempo: IgE específica e teste cutâneo só na suspeita de reação imediata, só para o alimento suspeito, e sempre como apoio a um teste de provocação. Positivo quer dizer sensibilizado; alérgico é quem reage.

Receitar leite sem lactose, leite de cabra, fórmula parcialmente hidrolisada, leite A2 ou bebida vegetal como tratamento

O dano: Leite sem lactose tem toda a proteína do leite de vaca; o de cabra e o de ovelha cruzam em mais de 90%; a parcialmente hidrolisada e o leite A2 não são hipoalergênicos; bebida vegetal não cobre proteína, energia e cálcio de um lactente, e a de arroz carrega arsênico antes dos 4 anos e meio. A criança segue reagindo, ou segue sem reagir e sem crescer.

Como pegar a tempo: Na criança que não mama, a escolha segue a tabela: extensamente hidrolisada como primeira, aminoácidos nos quadros graves, soja só a partir dos 6 meses. Intolerância à lactose e alergia à proteína são doenças diferentes.

Tratar a crise de enterocolite como anafilaxia — ou como sepse sem nunca pensar em enterocolite

O dano: Adrenalina e anti-histamínico não agem no vômito nem no choque hipovolêmico, e atrasam o volume de que a criança precisa. Do outro lado, a criança tratada só como sepse recebe antibiótico, punção e internação, volta para casa sem diagnóstico e repete a crise na próxima mamadeira.

Como pegar a tempo: Lactente que vomita repetidas vezes uma a quatro horas depois de um alimento novo, sem pele e sem chiado, e que melhora em horas com hidratação: pense em enterocolite. Volume primeiro, ondansetrona a partir de 6 meses, observação de 4 a 6 horas, e alta com o alimento suspenso e plano escrito.

Esquecer o que a dieta leva junto: o cálcio da mãe, a data de parar e o fabricante da vacina

O dano: A mãe em dieta sem suplemento perde cálcio enquanto amamenta; a criança sem prazo de reavaliação carrega dieta muito depois de ter adquirido tolerância; e a criança alérgica ao leite pode receber, aos 12 meses, a tríplice viral que contém lactoalbumina.

Como pegar a tempo: A cada retorno, confira três coisas: cálcio com vitamina D para quem está sem leite, data do próximo teste de tolerância e alergia registrada na caderneta de vacinação, com vacina sem lactoalbumina — e tetraviral na falta dela.

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O que dizer ao paciente e à família

Na alergia ao leite, a conversa é metade do tratamento, e na cena da Anabela ela tem duas interlocutoras que querem coisas diferentes. A Joelma quer saber se fez mal à filha; a Dona Cremilda quer resolver hoje, com a lata que a vizinha recomendou. As falas abaixo são para as duas, na ordem em que a consulta acontece.

Uma nota de tom: nenhuma das duas está errada no que sente. A mãe tem razão de se preocupar, e a avó tem razão de querer agir. O que se oferece a elas não é uma correção, é um plano com datas — e plano com data é a forma mais eficaz de tranquilizar uma família que viu sangue na fralda.

Abrir a consulta pelo medo, com a fralda ainda aberta

Joelma, eu olhei a Anabela inteira e quero te dizer primeiro o que mais importa: ela está bem. Está corada, mamando, ganhando peso do jeito certo, e esse sangue não é hemorragia por dentro. É uma inflamação pequena, bem no final do intestino, e ela tem um nome e um plano. Vou te explicar os dois.

Não diga: Começar pela lista de possibilidades — “pode ser alergia, pode ser infecção, pode ser invaginação” — antes de dizer que a criança está bem. A família ouve só a palavra mais assustadora.

Explicar o que é, sem culpa, quando a mãe pergunta se o leite dela é fraco

O seu leite não é fraco e não fez mal a ela. O que acontece é que um pouquinho da proteína do leite de vaca que você toma passa para o seu leite, e o intestino da Anabela, ainda aprendendo, está reagindo a essa proteína. Por isso a gente não vai mexer no que ela toma: vai mexer no que você come, por um tempo.

Não diga: “É o seu leite que está dando alergia.” A frase é falsa e é a mais eficaz para fazer uma mãe desmamar.

Responder à avó sobre a lata, com respeito

Dona Cremilda, eu entendo a senhora querer resolver logo, e a senhora tem razão de que precisa de um plano hoje. Mas a lata, nesse caso, não resolve: o leite comum tem a mesma proteína que está incomodando, e trocar o peito por fórmula tira da Anabela o melhor que ela tem. O que resolve é a Joelma ficar sem leite de vaca por umas semanas — e aí eu vou precisar da senhora na cozinha.

Não diga: Ignorar a avó ou responder só à mãe. Quem cozinha e quem dá a mamadeira escondida também precisa sair da consulta convencida.

Dar a dieta de forma que caiba na vida real

Nas próximas quatro semanas, sai tudo o que vem do leite de vaca: leite, café com leite, queijo, requeijão, iogurte, manteiga, doce de leite, e o que for feito com eles, como bolo e pão de leite. No mercado, olha embaixo dos ingredientes: se estiver escrito “Alérgicos: contém leite”, não serve. Pão de padaria e salgado de balcão não têm esse aviso, então pergunta como foi feito. E “zero lactose” não quer dizer sem leite.

Não diga: “Corta laticínios.” Sem lista, sem rótulo e sem exemplos, a dieta falha no primeiro café da manhã, e a falha parece falta de resposta.

Prescrever o cálcio para a mãe, explicando por que é para ela

Esse comprimido é para você, não para a Anabela. Quando você tira o leite da dieta, tira uma das maiores fontes de cálcio, e você está dando cálcio para ela todos os dias pelo peito. Um comprimido no almoço e outro no jantar, enquanto durar a dieta.

Não diga: Esquecer a mãe na receita. A dieta sem suplemento cobra da lactante o cálcio que ela está passando para a filha.

Explicar a volta do leite, que a família vai achar estranha

Daqui a quatro semanas vou te pedir uma coisa que parece contraditória: voltar a tomar leite. É o único jeito de ter certeza. Se o sangue voltar, a gente confirma a alergia e retoma a dieta, que um dia vai acabar. Se não voltar, era outra coisa que já passou, e você fica livre da dieta. Muitas mães ficam livres nessa hora.

Não diga: Deixar a dieta sem data. “Vamos manter e ver” transforma quatro semanas de teste em um ano de restrição sem diagnóstico.

Fechar com os sinais para voltar antes, por escrito

Volta antes do combinado se ela vomitar várias vezes seguidas, ficar molinha ou difícil de acordar, tiver febre, soltar muito sangue ou chorar sem parar com a barriga dura. Isso não é o que eu espero, mas é o que muda o plano. O resto, a gente conversa daqui a duas semanas, com as fotos das fraldas.

Não diga: Mandar “voltar se piorar”. Piorar, para uma família assustada, pode ser qualquer fralda — ou nenhuma, até ser tarde.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Soja ou hidrolisado como primeira fórmula na alergia mediada por IgE, dos 6 aos 24 meses?

Soja como primeira opção de 6 a 24 meses na forma IgE — relatório da Conitec, novembro de 2018, repetido no texto federal de 2022

O Relatório de Recomendação nº 345 da Conitec, que embasou a incorporação das fórmulas pela Portaria SCTIE/MS nº 67/2018, põe a fórmula de soja como primeira opção para a criança de 6 a 24 meses com alergia mediada por IgE e reserva a extensamente hidrolisada para as formas não mediadas e para os menores de 6 meses. O texto do protocolo levado à Consulta Pública nº 24/2022 mantém, para a forma IgE com baixo risco de anafilaxia nessa faixa, a ordem soja, depois hidrolisado, depois aminoácidos.

Conitec, Relatório de Recomendação nº 345 (novembro de 2018); Conitec/MS, texto do PCDT de APLV em Consulta Pública nº 24/2022, Quadro 3

Hidrolisado como primeira escolha, soja por razão econômica, cultural ou de aceitação — ASBAI e SBP, 2025

A atualização conjunta de 2025 põe a fórmula extensamente hidrolisada como primeira escolha para o lactente não amamentado e registra, com a sociedade europeia de gastroenterologia pediátrica, que a fórmula de soja pode ser usada quando outras dietas de eliminação não forem possíveis por razões econômicas ou culturais, especialmente na forma mediada por IgE, que sua palatabilidade é melhor que a dos hidrolisados e que a criança que já está bem na soja não precisa trocar.

ASBAI e SBP, Atualização em Alergia Alimentar 2025, Arq Asma Alerg Imunol 2025;9(1):5-96

Como decidir

Pela régua, o escopo empata — as duas falam da mesma criança — e a data decide pela atualização de 2025, sete anos mais nova que o relatório; o texto de 2022 não foi publicado como protocolo e não muda o degrau. Esta apostila adota a extensamente hidrolisada como primeira escolha e a soja como alternativa legítima a partir dos 6 meses, na forma IgE sem anafilaxia, quando o acesso pela secretaria, o custo para a família ou a recusa do hidrolisado pesarem. Para a Nicolly, 9 meses, urticária sem anafilaxia, num município que dispensa hidrolisado: hidrolisado. A mesma Nicolly recusando a mamadeira há uma semana, ou num município que só tem soja: soja, sem culpa. Abaixo de 6 meses, com anafilaxia, com enterocolite ou na forma não mediada, a soja não entra.

Reintrodução na alergia não mediada leve a moderada: escada do leite em casa ou teste supervisionado com leite assado?

Teste com leite assado dentro do teste de provocação supervisionado — texto federal em consulta pública, 2022

O texto do protocolo de 2022 organiza a avaliação de tolerância por teste de provocação com intervalo de seis meses a um ano e reavaliação especializada, e recomenda que o teste de tolerância ao leite em alimentos assados seja feito durante o teste de provocação, supervisionado em serviço especializado, com os mesmos requisitos do teste diagnóstico, conforme a organização de cada localidade.

Conitec/MS, texto do PCDT de APLV em Consulta Pública nº 24/2022

Escada do leite em casa na não mediada leve a moderada — ASBAI e SBP, 2025

A atualização de 2025 descreve a reexposição escalonada domiciliar — do leite assado ao cozido, ao queijo e ao iogurte, até a dieta livre — para a alergia não mediada por IgE leve a moderada, sem tempo mínimo ou máximo por degrau, reserva o ambiente controlado para a forma mediada por IgE e exclui da escada a enterocolite, os sinais de reação imediata, a dermatite atópica grave e as alergias múltiplas.

ASBAI e SBP, Atualização em Alergia Alimentar 2025, seção de reexposição escalonada domiciliar e Figura 5

Como decidir

O escopo empata e a data decide: a atualização de 2025 é mais nova, e o texto de 2022 não chegou a ser publicado como protocolo. Esta apostila adota a escada em casa para a proctocolite e a enteropatia leves a moderadas, na criança sem nenhum critério de exclusão e com família que entendeu os degraus e sabe o que fazer diante de sintoma; e o teste supervisionado para a forma IgE, a enterocolite, a forma atípica e qualquer criança com um critério de exclusão. A Anabela sobe a escada em casa. O Samuel e a Nicolly, não.

Proctocolite leve no bebê em aleitamento exclusivo: dieta materna já ou esperar duas a quatro semanas?

Conduta expectante por duas a quatro semanas — revisão de literatura, na descrição da atualização de 2025

A atualização registra que pelo menos 20% dos bebês com colite alérgica em aleitamento exclusivo param de sangrar sem mudança nenhuma, que alguns autores e famílias optam por observar e esperar, e que uma revisão recente concluiu que a conduta expectante por duas a quatro semanas pode ser adotada na colite leve desses bebês. Os argumentos a favor são o impacto negativo da dieta sobre a mãe e a criança, as recorrências por falta de adesão, o estresse de manter a dieta e o custo das fórmulas.

Revisão citada pela ASBAI e SBP, Atualização em Alergia Alimentar 2025 (referência 226), conhecida aqui pela descrição da atualização

Dieta materna com prazo e reexposição — ASBAI e SBP, 2025

A mesma atualização classifica a discussão como retórica, sem base em evidência que se possa medir, e mantém a dieta materna: sangramento não é evento normal, gera estresse alto para a família, e a dieta reduz o tempo de sangramento; a preocupação especial é a deficiência de ferro, que pode se instalar depois dos 6 meses se o sangramento persistir; e a colite alérgica foi identificada como fator de risco para distúrbios gastrintestinais funcionais futuros.

ASBAI e SBP, Atualização em Alergia Alimentar 2025, seção de proctocolite alérgica

Como decidir

O escopo e a natureza decidem: a atualização brasileira foi escrita para esta criança e examinou o argumento contrário antes de rejeitá-lo, e a revisão que o sustenta chega aqui só pela descrição dela. Esta apostila adota a dieta materna com prazo de duas a quatro semanas e reexposição marcada. A espera tem lugar — e isto é leitura desta apostila — quando a família, informada, não consegue sustentar a dieta: aí ela não é abandono, é observação de duas a quatro semanas com o mesmo retorno marcado, as mesmas fotografias e os mesmos sinais de alerta, e a dieta começa se o sangue persistir. Sangramento volumoso, palidez, curva que desacelera ou criança abatida tiram a espera da mesa.

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O raciocínio, em voz alta

Samuel Cordeiro, 7 meses, 8 kg, é trazido pela mãe, Brenda, ao pronto-socorro às 11h40 de uma quinta-feira. Mamou no peito exclusivamente até os 6 meses e ainda mama de manhã e à noite; come frutas e legumes amassados há três semanas e, desde segunda-feira, fica na creche, onde a mãe deixou uma lata de fórmula infantil de seguimento. Às 9h tomou a primeira mamadeira inteira. Às 10h50 vomitou, e vomitou mais quatro vezes em quarenta minutos, a última só líquido. Chega no colo, pálido, hipotônico, abrindo os olhos quando estimulado e voltando a apagar. Temperatura axilar de 35,9 °C, frequência cardíaca de 176 bpm, tempo de enchimento capilar de 4 segundos, mucosas secas. Sem petéquias, sem urticária, sem chiado, abdome flácido e sem massa, fontanela normotensa. A creche mandou uma foto tirada às 10h: nenhuma mancha na pele.

  1. o que penso agora

    Lactente pálido, hipotônico e hipotérmico, com vômitos repetidos e perfusão ruim: a lista de pronto-socorro é sepse, invaginação, gastroenterite com desidratação, intoxicação, erro inato — e enterocolite induzida por proteína alimentar. Três dados puxam para a última: a primeira exposição direta ao leite de vaca, duas horas antes do primeiro vômito; a ausência de febre, de pele e de chiado; e um intestino que ainda não soltou diarreia. Mas nada disso muda os primeiros dez minutos, porque qualquer que seja a causa esta criança está hipovolêmica. O diagnóstico vem da evolução, não da porta.

  2. o que faço nos primeiros dez minutos

    Monitor, acesso venoso, glicemia capilar e, no mesmo acesso, gasometria venosa com eletrólitos e metemoglobina, hemograma e hemocultura, porque sepse não está descartada. Soro fisiológico 0,9% 20 mL/kg — 160 mL — rápido, e reavaliação ao terminar. A gravidade é grave, pela tabela: vômitos repetidos com letargia intensa, hipotonia e má perfusão. Ondansetrona 0,15 mg/kg por via venosa, porque ele tem mais de 6 meses: 1,2 mg, 0,6 mL da ampola de 2 mg/mL que o hospital padroniza — a Rename 2024 só lista o comprimido, que não serve a um lactente vomitando. Nada de adrenalina: não há sinal de anafilaxia, e ela não age sobre o vômito. A decisão de que a condução de sepse corra junto fica marcada para a primeira reavaliação: se ele não responder ao segundo bolus, se aparecer febre, foco ou petéquia, ela corre sem esperar; a condução do choque na criança é de Choque na criança: hipovolêmico, séptico e distributivo, na apostila de Emergências Pediátricas.

  3. o que as primeiras duas horas mostram

    Ao fim do primeiro bolus, o enchimento capilar caiu para 3 segundos; depois do segundo, para 2, e a frequência para 142 bpm. A gasometria mostrou pH de 7,29 e bicarbonato de 17 mEq/L, com metemoglobina de 3%; a glicemia estava em 84 mg/dL. Não houve novo vômito depois da ondansetrona. Às 13h30, o Samuel está acordado, segue a mãe com os olhos e procura o peito. A metilprednisolona, que o consenso deixa como opção na crise grave e sem dado que a sustente, não foi necessária diante da resposta ao volume. A velocidade da melhora é, ela mesma, um dado: a gastroenterite não se desfaz em duas horas com soro; a crise de enterocolite, sim.

  4. o diagnóstico, com os critérios na mão

    Critério maior: vômito uma hora e cinquenta minutos depois do alimento suspeito, sem pele e sem sintoma respiratório. Critérios menores presentes: letargia extrema, palidez acentuada, ida à emergência, necessidade de fluido venoso e hipotermia — cinco. Pelo consenso internacional, três já bastariam; pela letra da tabela brasileira de 2025, que pede mais de três, também fecha, porque são cinco. Fica uma ressalva honesta: é um episódio único, e a revisão de 2018 lembra que, com episódio único, a gastroenterite viral é diferencial frequente e o teste de provocação diagnóstico merece consideração. Essa decisão é do especialista, nunca da família em casa. A hemocultura segue em observação até o resultado.

  5. a alta, e o que o peito tem a ver com isso

    Às 16h50, seis horas depois do primeiro vômito, o Samuel está como sempre foi e mamou duas vezes sem vomitar: critério de alta cumprido. A mãe não precisa tirar leite da própria dieta, porque ele mamou a vida inteira sem sintoma e reagiu só ao leite tomado diretamente. A fórmula de leite de vaca sai de vez; como a crise foi grave, se a creche precisar de mamadeira, a fórmula é a de aminoácidos, pedida à secretaria de saúde com relatório. As frutas e os legumes seguem; carnes e cereais entram depois, com arroz e aveia observados de perto, porque a criança com enterocolite ao leite tem mais chance de reagir a eles.

  6. o que vai escrito para a família, a creche e o próximo pronto-socorro

    Um papel para cada um. Para a família: o nome do diagnóstico, o alimento proibido, o que é uma crise — vômitos repetidos uma a quatro horas depois do alimento, palidez, moleza — e a instrução de levar ao pronto-socorro quando houver mais de dois vômitos ou qualquer moleza — e, como esta crise foi grave, também quando ele tiver ingerido leite com certeza, mesmo antes de qualquer sintoma. Para a creche: nenhum leite de vaca nem derivado, a fórmula autorizada, e o mesmo retrato da crise. Para o próximo pronto-socorro: “enterocolite induzida por proteína alimentar ao leite de vaca, crise grave em tal data, respondeu a soro fisiológico 20 mL/kg em dois bolus e ondansetrona; não é anafilaxia”. Encaminhamento ao alergista ou ao gastroenterologista pediátrico.

  7. o que fica marcado para o futuro

    Nada de reexposição antes de 12 a 18 meses depois desta crise, e então só no hospital, com acesso venoso instalado, porque a crise foi grave. Aos 12 meses, a tríplice viral vai sem lactoalbumina — não a do Serum Institute of India —, e a alergia fica escrita na caderneta de vacinação. Enquanto não houver fórmula nem leite na dieta depois de 1 ano, cálcio e vitamina D entram na conta da nutricionista. E a hemocultura negativa, quando sair, fecha a porta que ficou aberta por prudência.

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Faça você

Nicolly Tavares, 9 meses, 8,4 kg, curva no canal de sempre, chega à unidade básica com o pai, Wellington, dois dias depois de uma ida ao pronto-socorro. Mamou no peito até os 8 meses; a mãe voltou ao trabalho e o leite secou. Na primeira mamadeira de fórmula de seguimento, em quinze minutos apareceram placas vermelhas elevadas no rosto e no tronco, os lábios incharam e ela vomitou uma vez; não houve chiado, rouquidão, palidez nem moleza. No pronto-socorro recebeu anti-histamínico, ficou em observação e foi liberada com a orientação de não dar leite. Desde então, a família oferece mingau de arroz feito com água e uma bebida de arroz comprada no mercado. Ela come frutas, legumes, feijão e carne desde os 6 meses. O pai pergunta se precisa de exame de sangue, qual leite dar e se ela vai poder tomar a vacina do primeiro ano.

  1. classifique e diga o que sai hoje

    Relógio curto — quinze minutos —, pele e vômito, sem sinal respiratório nem circulatório: alergia mediada por IgE, sem anafilaxia pelo que foi descrito. Não é caso de reexposição em casa, nem de escada do leite, nem de leite de cabra, sem lactose ou A2. A bebida de arroz sai hoje, porque não substitui leite num lactente e é desaconselhada antes dos 4 anos e meio pelo teor de arsênico.

  2. sua vez: a fórmula e como pedi-la, o papel do exame, o plano para uma nova reação, a vacina dos 12 meses e a data do próximo teste

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

Fórmula extensamente hidrolisada como primeira escolha; a soja é aceitável aos 9 meses, na forma IgE sem anafilaxia, se o acesso ou a aceitação pesarem (primeira divergência). Quantidade de referência: 7 latas de 400 g por mês, cerca de 93 g de pó por dia, ajustada pela nutricionista. Como as fórmulas não constam da Rename 2024 e o protocolo federal não foi publicado, o pedido segue o fluxo da secretaria de saúde, com relatório que traga a forma da alergia, o episódio, o peso e a curva, a fórmula, a quantidade e a data de reavaliação; a fórmula só é julgada depois de cerca de 15 dias. IgE específica para leite ou teste cutâneo servem de apoio, pedidos pelo alergista antes do teste de provocação — não para decidir a dieta de hoje, que já está decidida pela história. Plano escrito para nova reação: urticária isolada segue “A placa que some e o inchaço que não coça”; qualquer sinal de anafilaxia é pronto-socorro já, com epinefrina 0,01 mg/kg, que para 8,4 kg dá 0,08 mL da ampola de 1 mg/mL — o autoinjetor não consta da Rename, e a conduta completa é de “Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro”. Aos 12 meses, tríplice viral sem lactoalbumina, não a do Serum Institute of India; sem ela, tetraviral nas duas doses, com a alergia anotada na caderneta. Enquanto tomar a fórmula, não precisa de suplemento de cálcio; se passar de 1 ano sem fórmula e sem leite, cálcio elementar 500 mg/dia e vitamina D. Teste de provocação hospitalar em 6 a 12 meses, entre 15 e 21 meses de idade, com o leite assado como passo intermediário para ampliar a dieta se ela não tolerar o in natura.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

É a proctocolite alérgica do lactente amamentado: relógio longo, sangue em raias, bebê que cresce. A régua brasileira manda manter o aleitamento e tirar o leite de vaca da dieta da mãe por duas a quatro semanas, com cálcio e vitamina D para ela, e só fechar o diagnóstico com a reexposição. Nenhum exame entra nessa decisão: a IgE não mede a forma não mediada, e a endoscopia não é de rotina.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Distinga apresentação imediata, proctocolite, enteropatia e enterocolite pela história completa, sem usar o relógio sozinho. Proponha exclusão diagnóstica quando indicada, com alimentação adequada e retorno. Explique a diferença entre confirmar causalidade e testar tolerância. Identifique quem pode seguir orientação domiciliar e quem precisa de avaliação supervisionada.

Em 30 dias

Acompanhe uma família desde a suspeita até a decisão de manter ou retirar a restrição. Confira sintomas, crescimento, acesso à fórmula, dieta materna e suplementação quando necessária. Oriente o que fazer diante de reação e como será a próxima reintrodução. Evite manter o rótulo de alergia apenas porque a criança melhorou durante uma dieta.

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Agora atenda

Consultório de puericultura: uma mãe traz o bebê de 2 meses, que mama só no peito, com uma fralda num saco plástico e sangue nas fezes há cinco dias; a avó veio junto e quer trocar o peito por leite de lata. Conduza a consulta — exame, hipótese, dieta com prazo, cálcio para a mãe, data da reexposição — e a conversa com as duas.

Alergia à proteína do leite de vaca – Dois relógios para o mesmo leite — Internato | OsceLabs