Clínica Médica › Gastroenterologia
A gordura é o de menos
Doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA)
A esteatose que o ultrassom achou por acaso é a doença do fígado mais comum do adulto, e o nome dela mudou para dizer de onde ela vem. O que decide o destino da pessoa não é a quantidade de gordura: é a fibrose, que se estima com uma conta de quatro números antes de qualquer encaminhamento, e é o coração, que mata mais do que o fígado.
Moreira RO, Valerio CM, Villela-Nogueira CA, et al. Brazilian evidence-based guideline for screening, diagnosis, treatment, and follow-up of metabolic dysfunction-associated steatotic liver disease (MASLD) in adult individuals with overweight or obesity: a joint position statement from the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM), Brazilian Society of Hepatology (SBH), and Brazilian Association for the Study of Obesity and Metabolic Syndrome (Abeso). Arch Endocrinol Metab. 2023;67(6):e230123. DOI: 10.20945/2359-4292-2023-0123.
Silva Júnior WS, Valério CM, Araujo-Neto JM, Godoy-Matos AF. Manejo da doença hepática esteatótica metabólica (DHEM) no diabetes tipo 2 e pré-diabetes. In: Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes. Última revisão em 16/01/2024. DOI: 10.29327/5412848.2024-8. Disponível em: diretriz.diabetes.org.br.
TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de Regulação Ambulatorial: gastroenterologia adulto. 3. ed. Porto Alegre: UFRGS, 27 de janeiro de 2025.
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Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Portaria SCTIE/MS nº 39, de 20 de julho de 2026. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas Hepatite C e Coinfecções. Brasília: Ministério da Saúde, 2026.
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Mulher de 55 anos, com diabetes tipo 2 e hipertensão, traz ultrassom de abdome pedido por dor lombar que descreve esteatose hepática leve. Na ficha há exames de dois meses atrás: aspartato aminotransferase de 38 U/L, alanina aminotransferase de 45 U/L e plaquetas de 190 mil por milímetro cúbico. Ela não bebe. Qual é a conduta mais adequada nesta consulta?
O paciente que você vai ver
Quarta-feira, oito e quinze da manhã. A unidade básica ocupa um sobrado reformado perto da rodoviária, e o ambulatório de hepatologia que recebe os encaminhamentos da região fica na capital, a noventa quilômetros e dois ônibus dali. A agenda da manhã tem catorze nomes. A preceptora separou para você a terceira consulta com uma frase: “essa aqui trouxe um ultrassom e está com medo; antes de tranquilizar ou de assustar, faça as contas”.
Firmina Tupinambá tem 57 anos e é merendeira de uma escola municipal há vinte e dois. Senta com a bolsa no colo e tira dela, antes de dizer bom-dia, um envelope de clínica particular. É um ultrassom de abdome total que ela pagou do próprio bolso depois de uma dor do lado direito que apareceu num domingo de feijoada e sumiu na segunda. O laudo tem quatro linhas: fígado de dimensões aumentadas, com ecogenicidade difusamente aumentada, compatível com esteatose hepática moderada, grau II; vesícula biliar sem cálculos; vias biliares normais; demais órgãos sem alterações. A dor não voltou. O que ficou foi a palavra do laudo.
“A moça da clínica disse que gordura no fígado vira cirrose. Meu cunhado morreu de cirrose, doutor.” Ela conta que o cunhado bebia muito, e ela quase não bebe. Conta também que já começou a se tratar por conta própria: toma chá de cavalinha há dois meses, porque os tornozelos incham no fim do expediente, e viu na televisão um remédio de farmácia “para limpar o fígado”, que pretende comprar no sábado. Quer saber se pode, e quer saber se precisa repetir o ultrassom daqui a seis meses, como disse o médico do pronto-atendimento que ela procurou no dia da dor.
O prontuário conta o resto, e ninguém o tinha juntado. Seis anos de diabetes tipo 2, tratados com metformina 850 mg duas vezes ao dia. Hipertensão tratada com losartana. Os exames de quatro meses atrás estão colados na ficha, sem nenhuma anotação ao lado: hemoglobina glicada de 8,1%, triglicerídeos de 243 mg/dL, HDL de 38 mg/dL, alanina aminotransferase de 58 U/L e aspartato aminotransferase de 41 U/L, as duas acima do limite do laboratório, e plaquetas de 176 mil por milímetro cúbico. Na triagem de hoje: 86 kg, 1,61 m, circunferência da cintura de 104 cm, pressão de 136 por 84 mmHg.
Você pergunta pela bebida do jeito que a pergunta rende. Não “a senhora bebe?”, que ela já respondeu, mas o quê, quanto e quando. Cerveja, em lata, duas no sábado e duas no domingo, com a família, há muitos anos; destilado nunca; nunca bebeu a ponto de passar mal. São quatro latas por semana, e isso vai virar um número em gramas daqui a pouco.
O que está na mesa é a situação mais comum que a hepatologia produz na atenção primária, e a que mais se perde: uma esteatose achada por acaso num exame pedido por outro motivo, uma aminotransferase levemente alta que ninguém comentou, e uma pessoa com diabetes, obesidade abdominal, hipertensão e triglicerídeos altos, que tem todos os motivos para ter gordura no fígado e nenhum motivo conhecido para ter outra doença hepática. O grau II do laudo é o dado que mais assustou e o que menos informa. Ele mede gordura, e gordura não é o que decide o futuro dela.
Duas perguntas decidem, e nenhuma delas está no envelope. A primeira: há fibrose avançada nesse fígado? A segunda: qual é o risco de ela ter um infarto ou um derrame nos próximos anos, que é o jeito mais provável de essa doença matá-la? A primeira se estima hoje, com a idade dela e três números que já estão colados na ficha. A segunda também. Este capítulo é sobre fazer essas duas contas antes de tranquilizar, antes de assustar e antes de pedir qualquer exame novo — e sobre o que fazer com o resultado.
Quem adoece disso
A doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica é a doença do fígado mais comum do mundo. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes estima que ela atinja cerca de 30% da população mundial, e a diretriz conjunta das sociedades brasileiras de endocrinologia, de hepatologia e de obesidade registra prevalência na mesma faixa na América do Sul, com aumento importante na última década. A mesma diretriz conjunta a descreve como a causa mais comum de doença hepática crônica no mundo: é a hepatopatia que o interno mais vai encontrar na vida, quase sempre sem que ninguém a tenha procurado.
A prevalência depende de quem se olha. Na pessoa com diabetes tipo 2, a diretriz conjunta cita faixas de 47,3% a 63,7%, e a da Sociedade Brasileira de Diabetes cita metanálise em que a doença chegou a 68,8% das pessoas com diabetes tipo 2 estudadas entre 2016 e 2021, com fibrose avançada — estágios F3 e F4 — em cerca de 15%. Na obesidade, a diretriz conjunta fala em até 80%. No diabetes tipo 1 ela também existe, em cerca de 30% a 40% dos adultos, segundo a mesma diretriz de diabetes. Traduzido para a agenda de uma unidade básica: metade ou mais das pessoas com diabetes tipo 2 acompanhadas ali têm gordura no fígado, e cerca de uma em cada sete pode ter fibrose avançada sem nenhum sintoma.
A maioria nunca vai ter complicação hepática. A diretriz conjunta registra que menos de 10% das pessoas com a doença desenvolvem complicação de cirrose — descompensação ou carcinoma hepatocelular —, e a da Sociedade Brasileira de Diabetes estima que cerca de 5% das pessoas com esteato-hepatite evoluam para cirrose; entre as que chegam à cirrose, o risco de carcinoma hepatocelular varia de 5% a 30%, conforme o perfil clínico. Porcentagens pequenas sobre uma base tão grande viram muita gente em número absoluto — a própria diretriz conjunta ressalva que o número de pessoas com essas complicações continua substancial —, e é por isso que a doença deixou de ser tratada como achado benigno.
O que separa quem evolui de quem não evolui não é a quantidade de gordura. A diretriz europeia de 2024 afirma que a esteatose, na população geral, não se associa de forma independente a desfecho hepático; o que se associa é o estágio da fibrose e a elevação persistente das enzimas hepáticas. E a progressão é lenta: a diretriz conjunta brasileira cita metanálise de biópsias pareadas em que quem não tinha esteato-hepatite avançava, em média, um estágio de fibrose a cada catorze anos. É uma doença de décadas, e a janela para interferir nela é longa — desde que alguém saiba em que ponto da estrada a pessoa está.
Os marcadores de quem anda mais depressa são conhecidos. A diretriz europeia aponta o diabetes tipo 2 e a obesidade, sobretudo a abdominal, como as condições metabólicas de maior impacto na história natural da doença, e identifica maior risco de fibrose progressiva e de cirrose em homens acima de 50 anos, em mulheres na pós-menopausa e em quem acumula vários fatores de risco cardiometabólico. A diretriz conjunta cita metanálise com 19,3 milhões de participantes em que a obesidade — índice de massa corporal a partir de 30 kg/m² — aumentou em 20% o risco de eventos relacionados à doença hepática. Firmina, a mulher da cena, preenche quase todas essas casas.
E quem tem a doença morre mais do coração do que do fígado. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes afirma que a doença cardiovascular é a principal causa de morbidade e mortalidade dessas pessoas, e cita metanálise de 16 estudos observacionais, com 34.043 indivíduos, em que a doença hepática se associou a eventos cardiovasculares fatais e não fatais com razão de chances de 1,64 — maior quanto mais grave a doença hepática, com razão de chances de 2,58, mesmo depois de ajuste para os outros fatores de risco. O capítulo começa pelo fígado, mas qualquer plano que trate só o fígado erra o alvo principal.
A relação com o diabetes corre nos dois sentidos, e o protocolo federal registra isso. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Diabete Melito Tipo 2, atualizado em fevereiro de 2026, inclui a doença hepática esteatótica entre os fatores de risco que indicam rastrear diabetes em pessoa sem sintomas. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes faz o caminho inverso: recomenda estimar o risco de fibrose avançada em todo adulto com diabetes tipo 2 ou pré-diabetes. Quem tem esteatose rastreia diabetes; quem tem diabetes rastreia fibrose.
Do lado do sistema, o retrato é de ausência de régua federal. Até setembro de 2026, esta doença não tem Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas nem linha de cuidado federal. As réguas clínicas brasileiras em uso são de sociedades médicas — a diretriz conjunta de 2023 e a da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2024 —, e a régua pública mais próxima de um fluxo assistencial é um protocolo estadual de regulação, o do TelessaúdeRS com a Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul, de 2025. O resultado previsível é o que a cena mostrou: laudos com a palavra esteatose arquivados sem conta nenhuma, e exames que já permitiam estimar a fibrose colados na ficha sem anotação.
Por que acontece o que acontece
O nome antigo definia a doença pelo que ela não era. Doença hepática gordurosa não alcoólica dizia ao médico o que excluir e nada sobre a causa, e o adjetivo gordurosa soava a acusação para quem ouvia o diagnóstico. O consenso multissocietário de 2023 trocou a exclusão por um critério positivo: a doença hepática esteatótica é o guarda-chuva de todo fígado com excesso de gordura, e dentro dele a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica — MASLD, na sigla inglesa, DHEM na tradução que a Sociedade Brasileira de Diabetes adotou — é a esteatose de quem tem pelo menos um fator de risco cardiometabólico e nenhuma outra causa evidente. O nome agora diz o mecanismo. E não apagou a evidência anterior: o próprio consenso registra que 98% de uma grande coorte europeia de doença gordurosa não alcoólica preenche os critérios novos, de modo que os estudos feitos com o nome velho valem para o nome novo.
A gordura chega ao fígado por excesso de oferta. Quando o tecido adiposo subcutâneo esgota a capacidade de se expandir, os ácidos graxos passam a se depositar na gordura visceral e em locais ectópicos, entre eles o músculo e o fígado. A resistência à insulina no próprio tecido adiposo libera a lipólise, e o fluxo de ácidos graxos livres para o fígado aumenta. No hepatócito, a insulina alta estimula a síntese de gordura nova a partir de açúcar — a lipogênese de novo —, e o fígado resistente à insulina continua produzindo glicose e montando lipoproteínas ricas em triglicerídeos. É a descrição que a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes faz da fisiopatologia, e ela explica duas coisas que você vai usar na consulta: por que bebida adoçada e frutose em excesso entram na lista do que evitar, mesmo quando a dieta tem pouca gordura, e por que a mesma pessoa tem, ao mesmo tempo, glicemia alta, triglicerídeo alto e HDL baixo.
A gordura que o ultrassom vê é o sinal visível de um excesso; o dano vem do que esse excesso produz. Triglicerídeos acumulados e metabólitos lipídicos que sobram quando a capacidade de armazenar e de queimar é ultrapassada produzem lipotoxicidade, disfunção mitocondrial e estresse do retículo endoplasmático, e o hepatócito sofre, morre por apoptose e dispara reparo. Quando a lesão aparece na biópsia, ela tem forma própria — hepatócitos balonizados e inflamação lobular —, e é isso que define a esteato-hepatite. Esteatose e esteato-hepatite podem ter a mesma aparência no ultrassom, porque o ultrassom enxerga gordura e não enxerga balonização, inflamação nem cicatriz.
A cicatriz é a resposta ao dano repetido. Cada ciclo de morte celular ativa as células estreladas do espaço perissinusoidal, que depositam colágeno; a fibrose começa em volta dos sinusoides e, com os anos, forma pontes entre as regiões do lóbulo, até reorganizar o órgão em nódulos — a cirrose. É por isso que a fibrose, e não a gordura, prediz o futuro: a diretriz europeia de 2024 registra que o estágio da fibrose se associa aos desfechos hepáticos. E a cicatriz não é sentença: a mesma diretriz registra que, em quem já tinha fibrose avançada ou cirrose, a regressão da fibrose se associou a menor risco dessas complicações.

Os quatro números do FIB-4 carregam essa biologia. A fórmula é a idade em anos multiplicada pela aspartato aminotransferase, dividida pelo produto das plaquetas, em milhares por milímetro cúbico, pela raiz quadrada da alanina aminotransferase. A idade entra porque fibrose é tempo de exposição. A aspartato aminotransferase sobe em relação à alanina conforme a fibrose avança — o protocolo do TelessaúdeRS descreve a alanina maior que a aspartato na doença gordurosa e a inversão na cirrose. As plaquetas caem quando a cicatriz aumenta a pressão portal, o baço cresce e as retém, e quando o fígado doente produz menos trombopoetina. Por isso o escore sobe com a idade mesmo sem doença: com aminotransferases de 30 U/L e plaquetas de 200 mil, o resultado é 0,82 aos 30 anos, 1,23 aos 45, 1,64 aos 60 e 1,92 aos 70. O escore mede probabilidade, e a idade empurra o número para cima sozinha.
A aminotransferase conta a atividade do dano, não a quantidade de cicatriz. Ela sobe quando muitos hepatócitos estão sendo lesados, pode ser normal em quem já tem fibrose avançada e tende a cair quando a doença envelhece e o parênquima ativo diminui. O capítulo Provas hepáticas, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, é dono da leitura do padrão de lesão e escreve o aviso que vale aqui: prova hepática normal não exclui fibrose avançada nem cirrose. O consenso de nomenclatura acrescenta o outro lado da mesma moeda: na fibrose avançada e na cirrose a esteatose pode ter desaparecido, e o diagnóstico passa a se apoiar nos fatores de risco e na ausência de outra causa. O fígado mais gordo do laudo não é o mais doente; o cirrótico por essa doença pode chegar com fígado sem gordura nenhuma.
O mesmo defeito que enche o fígado adoece o coração. A resistência à insulina gera a dislipidemia aterogênica; a hiperinsulinemia aumenta a reabsorção renal de sódio e a atividade simpática, empurrando a pressão; o tecido adiposo inflamado libera mediadores que pioram a resistência. A diretriz de diabetes descreve ainda um eixo entre fígado e pâncreas: a gordura hepática torna o fígado resistente ao glucagon, os aminoácidos se acumulam, o pâncreas produz mais glucagon e o fígado libera mais glicose; no pâncreas, o excesso de ácidos graxos lesa a célula beta. É por isso que a diretriz chama a doença de manifestação hepática da síndrome metabólica, e é por isso que o plano de tratamento dela é, na maior parte, o plano cardiometabólico.
Álcool e genes aceleram o que o metabolismo começou. A diretriz europeia registra que o consumo de álcool e os fatores metabólicos têm efeitos independentes e que podem se somar sobre o início e a progressão da doença hepática, e que a evidência recente não sustenta proteção de doses leves a moderadas em quem tem risco cardiometabólico — daí a categoria intermediária do consenso, a MetALD, para quem tem as duas coisas. Os genes modulam quem progride: a mesma diretriz cita a variante do gene PNPLA3 como ferramenta de estratificação em centro especializado e manda considerar investigação genética quando há história familiar forte de doença grave ou doença grave precoce, sobretudo em quem não tem gatilho metabólico. E a biologia explica a resposta ao tratamento: tirar substrato reverte a lipotoxicidade em proporção à perda de peso. A diretriz europeia dá os degraus — perda sustentada de 5% ou mais para reduzir gordura, de 7% a 10% para melhorar a inflamação e de 10% ou mais para melhorar a fibrose.
Como se apresenta de verdade
Esta doença quase nunca chega como queixa. Não dói, não amarela, não cansa até que já seja cirrose. Chega por seis portas, e em cinco delas o que a pessoa traz é um papel — um laudo, um exame, um diagnóstico de outra doença — e não um sintoma. O trabalho do interno é reconhecer a porta e fazer, em cada uma, a mesma sequência: de onde vem essa gordura, quanta cicatriz ela já produziu e quanto risco cardiovascular a acompanha. Este capítulo trata do adulto; a doença na criança e no adolescente segue outras réguas, e o rastreio e o primeiro passo diante da transaminase alterada estão em Obesidade infantil e prevenção do sobrepeso na infância, na apostila de Nutrologia Pediátrica.
O laudo que diz esteatose
É a porta de Firmina e a mais frequente. O ultrassom foi pedido por dor abdominal, por check-up, por cálculo na vesícula, por qualquer motivo, e o laudo traz fígado com ecogenicidade aumentada, às vezes com um grau — leve, moderada, acentuada, ou I, II, III. A pessoa lê grau II e entende meio caminho da cirrose. O médico apressado lê grau I e entende nada.
O ultrassom é bom para o que faz. A diretriz conjunta brasileira o recomenda como método de rastreio da esteatose no adulto com sobrepeso ou obesidade e cita metanálise com sensibilidade de 85% e especificidade de 93% para separar esteatose moderada ou acentuada da ausência de esteatose. Mas registra os limites no mesmo parágrafo: o exame detecta gordura quando ela passa de cerca de 12,5% do fígado, perde quem tem entre 5% e 12,5%, não quantifica de forma confiável e fica difícil na obesidade, sobretudo com índice de massa corporal de 35 kg/m² ou mais. Ultrassom normal numa pessoa de 130 kg não afasta a doença.
E, principalmente, o ultrassom não mede o que importa. Ele não vê inflamação nem colágeno; o grau do laudo é grau de gordura. A diretriz europeia de 2024 transforma isso em regra de conduta: o achado incidental de esteatose deve disparar duas avaliações — a investigação da causa e um teste para fibrose avançada —, porque é isso que define o risco hepático e cardiovascular e o cuidado adequado. Laudo de esteatose, portanto, não se arquiva e não se repete: vira pergunta sobre a causa e conta de fibrose.
Firmina é o caso típico dessa porta, com um detalhe que ensina: o laudo diz fígado aumentado, e o exame dela não mostra nenhum sinal de doença hepática avançada. Tamanho do fígado no ultrassom, como grau de gordura, não estadia a doença.
A aminotransferase que ninguém comentou
A segunda porta é o exame de rotina com alanina aminotransferase um pouco acima do limite, quase sempre maior que a aspartato, quase sempre abaixo de duas ou três vezes o limite, sem sintoma nenhum. O protocolo de regulação do TelessaúdeRS abre a investigação com uma instrução que evita metade dos pedidos inúteis: repetir os exames alterados para confirmar se a alteração persiste. E acrescenta que gama-glutamiltransferase elevada isoladamente, com aminotransferases e fosfatase alcalina normais, não indica doença hepática.
Confirmada a elevação, a lista de causas do protocolo começa pelo que é comum — álcool, hepatites B e C, doença gordurosa, medicamentos — e só depois passa a hepatite autoimune e hemocromatose. A leitura do padrão — hepatocelular, colestático ou misto, as razões entre enzimas, o que cada faixa sugere — é do capítulo Provas hepáticas, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito; daqui se aproveita a conclusão de lá: padrão hepatocelular leve numa pessoa com diabetes e obesidade é, até prova em contrário, esta doença, e a prova em contrário se busca com uma lista curta de exames.
Duas advertências mudam a conduta. A primeira: a diretriz conjunta brasileira recomenda não usar enzimas hepáticas isoladas para rastrear a doença, porque aminotransferase normal é compatível com esteatose, com esteato-hepatite e com fibrose avançada. A segunda: elevação grande foge do retrato. O mesmo protocolo manda para a gastroenterologia a elevação acima de cinco vezes o limite sem causa definida depois da investigação inicial, e para a urgência a elevação com encefalopatia ou razão normalizada internacional acima de 1,5. Aminotransferase de 400 U/L em quem tem esteatose não é esteatose até que se prove que não é outra coisa.
A pessoa com diabetes que nunca teve o fígado olhado
A terceira porta não tem papel nenhum: é a pessoa com diabetes tipo 2, obesidade ou síndrome metabólica em acompanhamento na unidade, sem laudo de esteatose e com aminotransferases normais. É a porta que mais esconde fibrose avançada, porque nada chama a atenção. As réguas disponíveis diferem em quem procurar, mas concordam que é para procurar.
A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, escrita para essa pessoa, recomenda estimar o risco de fibrose avançada em todo adulto com diabetes tipo 2 ou pré-diabetes, começando por escore clínico-laboratorial como o FIB-4, independentemente de haver esteatose no ultrassom ou alteração de aminotransferase. A diretriz conjunta, escrita para o adulto com sobrepeso ou obesidade, recomenda considerar o rastreio da doença em quem tem índice de massa corporal acima de 25 kg/m² — e acima de 23 kg/m² em pessoas de origem asiática, lembrando que elas são parte expressiva da população brasileira —, com o ultrassom como método. A diretriz europeia não recomenda rastreio na população geral e manda procurar a doença com fibrose em três grupos: diabetes tipo 2; obesidade abdominal com pelo menos mais um fator de risco cardiometabólico; e enzimas hepáticas persistentemente alteradas.
Esta apostila junta as três sem contradição, porque elas respondem a perguntas diferentes. Na pessoa com diabetes tipo 2 ou pré-diabetes, o FIB-4 se calcula sempre, com os exames que o acompanhamento do diabetes já pede — é a régua escrita para esse paciente. Na pessoa com obesidade e outro fator de risco, calcula-se o FIB-4 quando houver aminotransferases e plaquetas recentes, e o ultrassom entra quando a dúvida é se há esteatose. O ultrassom responde se há gordura; o FIB-4 responde se há motivo para se preocupar com ela.
O consumo que muda o nome
A quarta porta é a mesma esteatose numa pessoa que bebe mais do que conta. O nome velho tratava o álcool como critério de exclusão e deixava sem lugar quem tinha as duas coisas; o consenso de 2023 criou esse lugar. Na doença hepática esteatótica com fator de risco cardiometabólico, o consumo semanal decide a categoria: abaixo de 140 g por semana na mulher e de 210 g no homem, é a doença metabólica pura; de 140 a 350 g na mulher e de 210 a 420 g no homem — em média, 20 a 50 g e 30 a 60 g por dia —, é a MetALD, que a diretriz de diabetes traduz por DHEM-DHA; acima disso, é doença hepática alcoólica, com ou sem fatores metabólicos.
Para usar a régua é preciso converter o que a pessoa conta em gramas, e a conta é simples: volume em mililitros vezes a graduação vezes 0,79, a densidade do etanol. Uma lata de cerveja de 350 mL a 5% tem cerca de 14 g; uma dose de 50 mL de destilado a 40%, cerca de 16 g; uma taça de 150 mL de vinho a 12%, cerca de 14 g. As quatro latas semanais de Firmina somam 55 g — doença metabólica pura. Uma mulher que toma duas latas por dia soma 194 g e já está na MetALD; um homem que toma três doses de cachaça por dia soma 332 g e está perto do limite da doença alcoólica. A tabela de conversão está no bloco de critérios.
O nome muda a conduta. Na MetALD o álcool é causa, não detalhe, e a interrupção entra no plano com o mesmo peso da perda de peso. A diretriz europeia manda documentar quantidade, padrão e história do consumo em toda pessoa com esteatose, desencorajar o álcool em quem tem a doença e interrompê-lo completa e definitivamente em quem tem fibrose avançada ou cirrose. O rastreio e o tratamento do transtorno por uso de álcool são do capítulo A abstinência que não pode esperar, na apostila de Psiquiatria; a intervenção breve feita ali mesmo, na consulta, pertence ao capítulo Pare de fumar não é conduta, na apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva; e a pessoa que chega ictérica depois de semanas bebendo pertence ao capítulo A icterícia que ainda não tem nome, desta apostila, dono da hepatite alcoólica até onde o interno reconhece, estratifica e encaminha.
A cirrose que chega sem aviso
A quinta porta é a pior, porque chega tarde. A pessoa com diabetes e obesidade há vinte anos aparece com plaquetas de 110 mil num hemograma de rotina, ou com baço aumentado num ultrassom, ou com varizes numa endoscopia pedida por dispepsia, ou já descompensada. O protocolo do TelessaúdeRS lista o que sugere cirrose em quem tem hepatopatia conhecida ou presumida: ascite, veias abdominais dilatadas, esplenomegalia, plaquetas abaixo de 160 mil — e, com especificidade maior, abaixo de 110 mil —, albumina abaixo de 3,5 e escore APRI acima de 2; no exame, aranhas vasculares, eritema palmar, ginecomastia; no ultrassom, fígado de bordas rombas, nodular, reduzido ou com lobo esquerdo aumentado.
Muitas dessas cirroses recebem o rótulo de criptogênicas. Numa pessoa com diabetes, obesidade ou síndrome metabólica, sem vírus, sem álcool importante e sem outra causa, o consenso de nomenclatura orienta raciocinar pela doença metabólica mesmo quando o ultrassom já não mostra gordura, porque a esteatose pode desaparecer quando a fibrose avança. O rótulo importa menos do que a consequência: essa pessoa entra em vigilância de carcinoma e em rastreio de varizes, e o metabolismo dela continua sendo tratado.
A partir desse ponto os donos são outros. As complicações da cirrose — ascite, peritonite bacteriana espontânea, encefalopatia, a internação — são do capítulo Quatro perguntas, todo dia, desta apostila. O rastreio de varizes e o manejo da hipertensão portal são do capítulo Antes de sangrar, é só um exame, na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo, e a vigilância do carcinoma hepatocelular, com o exame, o intervalo e o que fazer com o nódulo, é do capítulo A agulha que não precisa entrar, na mesma apostila. O que este capítulo assume é chegar até lá: reconhecer que a esteatose de décadas pode já ser cirrose e não deixar a pessoa sair da consulta sem essa pergunta respondida. E a descompensação — ascite ou encefalopatia de início recente, icterícia, sangramento digestivo — vai para a urgência, como manda o protocolo do TelessaúdeRS.
As esteatoses que não são metabólicas
A sexta porta é a esteatose sem fator de risco cardiometabólico nenhum, ou com um quadro que não fecha: pessoa magra, jovem, sem diabetes, sem hipertensão, com lipídios normais, ou com doença grave desproporcional. O consenso de nomenclatura manda, nessa situação, procurar outra causa antes de dar o nome; sem causa e sem fator de risco, a doença é chamada de esteatótica criptogênica e deve ser reavaliada periodicamente.
A diretriz de diabetes, adaptando o consenso, agrupa as outras causas em três conjuntos: lesão hepática induzida por medicamento; causas monogênicas, como deficiência de lipase ácida lisossomal, doença de Wilson, hipobetalipoproteinemia e erros inatos do metabolismo; e um grupo de causas diversas, que inclui vírus da hepatite C, desnutrição, doença celíaca e vírus da imunodeficiência humana. Na atenção primária, a revisão de medicamentos e de chás é o item que mais rende — o protocolo do TelessaúdeRS traz a lista de fármacos, fitoterápicos e suplementos associados a dano hepático, e nela está o chá de cavalinha que Firmina toma para o inchaço.
Três vizinhos recebem daqui o que é deles. A esteatose aguda da gestação é outra doença, com outra biologia e outra urgência: pertence ao capítulo Uma coça, a outra vomita, na apostila de Obstetrícia, e nada deste capítulo se aplica a ela. A hepatite C, que pode produzir esteatose e que se rastreia em todo adulto, tem dono no capítulo Achar é mais difícil que curar; a hepatite B, no capítulo Hepatite B, ambos desta apostila. A síndrome dos ovários policísticos, que divide a resistência à insulina com esta doença e cuja paciente merece a conta de fibrose, é do capítulo Síndrome dos ovários policísticos, na apostila de Ginecologia.
Como fechar o diagnóstico
A investigação tem uma ordem que não se inverte, e ela cabe em duas consultas. Primeiro dar o nome: há esteatose, há fator de risco cardiometabólico, quanto álcool entra. Depois excluir, com lista curta, as causas comuns que mudariam o tratamento. Então estimar a fibrose com o escore que os exames de rotina já permitem, e só então decidir se é preciso uma segunda etapa. No fim, e com o mesmo peso, medir o risco cardiovascular. O erro mais caro é inverter a ordem — pedir exame de imagem sofisticado ou encaminhar antes de fazer a conta que decide se o encaminhamento é necessário.
Dar o nome: esteatose, fator de risco e álcool em gramas
O diagnóstico exige esteatose documentada — em exame de imagem ou, raramente, em biópsia — e pelo menos um de cinco critérios cardiometabólicos, sem outra causa evidente. Na redação da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, que adapta o consenso de 2023, os cinco são: índice de massa corporal de 25 kg/m² ou mais, ou circunferência da cintura acima de 90 cm no homem e de 80 cm na mulher, ou o equivalente ajustado por etnia; pré-diabetes ou diabetes tipo 2; pressão arterial de 130 por 85 mmHg ou mais, ou tratamento anti-hipertensivo; triglicerídeos de 150 mg/dL ou mais, ou tratamento hipolipemiante; e HDL de 40 mg/dL ou menos no homem e de 50 mg/dL ou menos na mulher, ou tratamento hipolipemiante. Um basta. Firmina tem os cinco: índice de 33,2 kg/m², diabetes, hipertensão tratada, triglicerídeos de 243 e HDL de 38.
O álcool se pergunta em quantidade, padrão e história, e se converte em gramas por semana, porque é o número em gramas que separa a doença metabólica pura da MetALD e da doença alcoólica. A diretriz europeia admite instrumentos validados de rastreio do consumo; na prática da unidade básica, a pergunta concreta — que bebida, que volume, quantos dias, desde quando, se já houve episódio de beber muito de uma vez — já resolve a maioria. Firmina bebe 55 g por semana: abaixo de 140 g, doença metabólica pura.
O exame físico procura três coisas. Os critérios — peso, altura, cintura medida na altura certa, pressão arterial. Os sinais de doença avançada, que o protocolo do TelessaúdeRS lista para suspeitar de cirrose: aranhas vasculares, eritema palmar, ginecomastia, esplenomegalia, ascite, icterícia, sinais de encefalopatia. E as comorbidades que a diretriz europeia manda avaliar em toda pessoa com a doença: diabetes, dislipidemia, hipertensão, doença renal, apneia do sono e síndrome dos ovários policísticos. Firmina não tem nenhum sinal de cirrose; tem ronco que o marido reclama, e isso entra na lista de problemas.
Excluir o comum, com uma lista curta
A lista vem do Quadro 4 do protocolo do TelessaúdeRS, que organiza a investigação inicial da aminotransferase alterada na atenção primária, e começa por repetir o que veio alterado. Hepatites virais: teste rápido para hepatite B e para hepatite C, feitos na própria consulta, ou HBsAg e anti-HCV. Medicamentos, fitoterápicos e suplementos: revisar a lista do Quadro 5 do mesmo protocolo e substituir o suspeito quando possível — o chá de cavalinha de Firmina sai hoje. Doença gordurosa: ultrassom, glicose e perfil lipídico, que ela já tem.
Se a elevação persistir, o mesmo quadro completa a lista com as duas causas menos comuns que mudam tratamento: fator antinuclear, anticorpo antimúsculo liso e imunoglobulina G, para hepatite autoimune; ferritina e saturação de transferrina, para hemocromatose. E, porque a conta de fibrose e a suspeita de cirrose dependem deles, entram no mesmo pedido o hemograma com plaquetas, a albumina, as bilirrubinas e o tempo de protrombina com razão normalizada internacional — exatamente os exames que o protocolo exige, com data, em qualquer encaminhamento por esteatose. Para o diabetes e o risco cardiovascular: hemoglobina glicada, perfil lipídico e creatinina.
Se não houver nenhum fator de risco cardiometabólico, ou se o quadro não fechar, a lista se amplia na direção das causas que a diretriz de diabetes agrupa a partir do consenso — medicamento, causa monogênica, doença celíaca, desnutrição, vírus da imunodeficiência humana — e a condução passa a ser de quem tem acesso a essa investigação. Na pessoa com diabetes, obesidade e hipertensão, com testes virais negativos e sem medicamento suspeito, a lista curta basta.
O que não pedir
Não repita o ultrassom para acompanhar a gordura. O grau de esteatose não se associa de forma independente a desfecho hepático, como registra a diretriz europeia, e nenhuma decisão deste capítulo muda porque o laudo passou de moderada a leve. O seguimento é da fibrose e do metabolismo, com escore e, quando indicado, elastografia, em intervalos de anos, não de meses.
Não use a aminotransferase isolada como rastreio nem como termômetro de gravidade. A diretriz conjunta brasileira recomenda contra enzimas hepáticas isoladas no rastreio, e a normalização da enzima durante o tratamento é boa notícia sobre atividade, não prova de que a cicatriz regrediu. Hepatograma trimestral numa pessoa estável com esteatose é gasto sem decisão.
Não peça biópsia hepática como rotina. A diretriz europeia afirma que, na maioria das pessoas, a biópsia não é necessária para o manejo; ela continua sendo o único método para diagnosticar esteato-hepatite com certeza e para afastar causas alternativas, e a diretriz conjunta a reserva para quem os métodos não invasivos não conseguem classificar como de baixa probabilidade de fibrose significativa — decisão que, na prática, é do especialista. Para monitorar resposta ao tratamento, a diretriz europeia é explícita: a biópsia não serve.
Não peça alfafetoproteína nem ultrassom semestral para vigiar carcinoma em quem não tem cirrose. A diretriz europeia não recomenda vigilância abaixo do estágio F3, admite considerá-la no F3 por avaliação individual e a recomenda na cirrose. E não amplie o rastreio de câncer fora do fígado além do que vale para a população geral — a diretriz conjunta recomenda contra esse excesso; a europeia pede que a pessoa faça os rastreios habituais, para os quais obesidade e diabetes já são motivo de atenção. Ressonância com quantificação de gordura existe, e a diretriz conjunta a recomenda quando é preciso quantificar esteatose, mas quantificar gordura não é o que decide conduta na unidade básica.
A conta que decide: o FIB-4
O FIB-4 é idade vezes aspartato aminotransferase, dividido por plaquetas, em milhares, vezes a raiz quadrada da alanina aminotransferase. Os três exames precisam ser da mesma coleta e de um momento sem hepatite aguda, que inflaria as enzimas. A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes compara os escores clínico-laboratoriais disponíveis — FIB-4, BARD, APRI e o escore de fibrose da doença gordurosa — e aponta o FIB-4 como o de melhor acurácia. Não precisa de calculadora especial: cabe numa calculadora de celular.
Com os exames de quatro meses atrás, a conta de Firmina já podia ter sido feita no dia em que eles chegaram: 57 vezes 41 dá 2.337; a raiz de 58 é 7,62, que vezes 176 dá 1.340; 2.337 dividido por 1.340 dá 1,74. Com os exames repetidos três semanas depois da consulta — aspartato 43, alanina 61, plaquetas 172 mil —, 1,82. Os dois números contam a mesma história: ela não está na faixa que exclui fibrose avançada.
A leitura vem das duas diretrizes brasileiras escritas para esta doença. Abaixo de 1,3, a probabilidade de fibrose avançada é baixa — a diretriz de diabetes registra valor preditivo negativo de cerca de 91% — e a pessoa segue na atenção primária, tratando o metabolismo e repetindo a conta em anos. De 1,3 para cima, a fibrose avançada não pode ser excluída, e as duas diretrizes mandam uma segunda etapa, a elastografia; a diretriz de diabetes cita 2,67 como o corte alto de uma estratégia sequencial. O protocolo do TelessaúdeRS usa outros números — abaixo de 1,45 e acima de 3,25, cortes que ele atribui ao protocolo federal de hepatite B —, e a diferença não é detalhe: está no bloco de divergências, e o erro que ela produz na conduta está nas notas do bloco de critérios.
Três cuidados impedem o escore de enganar. O primeiro é a idade no numerador, que aumenta resultados indeterminados no idoso. A estratégia brasileira apresentada aqui usa 1,3 para solicitar a segunda etapa; a diretriz EASL-EASD-EASO 2024, Figura 2, ajusta o corte inferior para 2,0 em maiores de 65 anos. Portanto, um resultado entre 1,3 e 2,0 nessa idade tem interpretação diferente conforme a via escolhida. Em nenhuma delas o escore isolado confirma fibrose, nem um valor baixo anula sinais clínicos de doença avançada. O segundo é o jovem: como o escore é proporcional à idade, o mesmo fígado dá, aos 25 anos, metade do número que daria aos 50 — resultado baixo em pessoa muito jovem com obesidade grave e aminotransferase persistentemente alta tranquiliza menos. O terceiro é de uso: o FIB-4 estima risco num momento; a diretriz europeia registra que os testes não invasivos informam pouco, no indivíduo, sobre resposta ao tratamento.
A segunda etapa: elastografia hepática
A elastografia mede a rigidez do fígado, que aumenta com o colágeno. A elastografia transitória — a do aparelho FibroScan — é, para a diretriz conjunta e para a de diabetes, o método não invasivo mais validado; há também a elastografia por ondas de cisalhamento acoplada ao ultrassom e a elastoressonância, esta com boa acurácia e, segundo a diretriz de diabetes, custo alto e pouca disponibilidade. O protocolo federal de hepatite C de 2026 registra a elastografia hepática como já disponível em alguns serviços do país. Na maior parte das unidades básicas, ela chega por encaminhamento ou por regulação, não por pedido direto.
Os pontos de corte variam com o aparelho, e as fontes brasileiras dão os da elastografia transitória. Abaixo de 8 kPa, a fibrose avançada é improvável: a diretriz conjunta chama 8 kPa de corte mais validado para excluí-la, e a de diabetes usa o mesmo número. Acima de 12 a 15 kPa, a diretriz conjunta admite afirmar fibrose avançada, e a de diabetes cita 10 kPa como corte alto numa estratégia sequencial e 12 kPa como corte que reduziria biópsias. Entre 8 e 12 kPa fica a zona em que o especialista decide o próximo passo. A diretriz conjunta, no fluxograma, leva o resultado acima de 8 kPa a considerar biópsia, e a recomendação correspondente reserva a biópsia a quem os métodos não invasivos não mostram baixa probabilidade de fibrose significativa.
A obesidade complica a medida. A diretriz conjunta registra resultados conflitantes sobre quanto aminotransferases altas, índice de massa corporal, distância entre pele e cápsula hepática e esteatose interferem na acurácia e no risco de falso positivo, e descreve a sonda XL, desenvolvida para quem tem índice de massa corporal a partir de 30 kg/m² ou distância entre pele e cápsula acima de 25 mm, que reduz a falha do exame para menos de 5%. Um resultado de 9 kPa numa pessoa de 130 kg com alanina de 150 U/L pede cautela antes de ser chamado de fibrose. O mesmo aparelho mede também a atenuação do ultrassom como estimativa de gordura, o que a diretriz conjunta aceita como método possível, mas é a rigidez, e não a gordura, que decide.
Quando a rigidez é alta, ela também informa sobre hipertensão portal. A diretriz europeia registra que rigidez de até 15 kPa com plaquetas de 150 mil ou mais exclui hipertensão portal clinicamente significativa, e que, na doença hepática crônica avançada compensada, rigidez de 20 kPa ou mais ou plaquetas abaixo de 150 mil indicam endoscopia de rastreio de varizes; o corte de 25 kPa para afirmar hipertensão portal só vale, nessa doença, para quem tem índice de massa corporal abaixo de 30 kg/m². A decisão da endoscopia e o que se faz com ela são do capítulo Antes de sangrar, é só um exame. Como alternativa sérica de segunda escolha à elastografia, a diretriz conjunta cita o teste ELF, um painel patenteado de marcadores de fibrose.
Quem encaminhar, com o quê, e o coração
Três resultados mantêm a pessoa na atenção primária: FIB-4 abaixo de 1,3; elastografia abaixo de 8 kPa; e ausência de sinais de cirrose. Ela é tratada ali, e a conta se repete — a diretriz conjunta sugere a cada 3 anos em quem não tem outro fator de risco e a cada 2 anos em quem tem síndrome metabólica ou diabetes tipo 2. Quem deve reavaliar é assunto do bloco de divergências.
O protocolo do TelessaúdeRS, que regula o acesso ao especialista no Rio Grande do Sul, encaminha a pessoa com esteatose para a gastroenterologia em três situações: suspeita de cirrose pelo Quadro 1; suspeita de fibrose avançada pelo escore, com FIB-4 acima de 3,25; ou aminotransferase de pelo menos 1,5 vez o limite superior persistindo por seis meses depois de seis meses de tratamento conservador na atenção primária — e, para quem tem sobrepeso ou obesidade, esse tratamento só conta se houver perda de pelo menos 5% do peso. Esta apostila acrescenta, pelas diretrizes brasileiras da doença, o resultado que o protocolo não prevê: elastografia de 8 kPa ou mais também vai ao especialista. E a descompensação vai à urgência.
O encaminhamento, pelo mesmo protocolo, leva conteúdo mínimo: sinais e sintomas; comorbidades; exames com data — aminotransferases, hemoglobina, plaquetas, albumina, bilirrubinas, tempo de protrombina, testes para hepatite B e C; o resultado dos escores de fibrose; o laudo do exame de imagem que diagnosticou a esteatose; e o tratamento conservador feito na atenção primária, com o peso perdido medido. Encaminhamento sem o FIB-4 e sem o peso perdido é encaminhamento que volta.
O risco cardiovascular se estratifica no diagnóstico, como recomendam a diretriz conjunta e a europeia, e não depois de resolvida a questão do fígado. O cálculo do risco global, a meta de colesterol e a escolha da estatina são do capítulo Dislipidemias e risco cardiovascular global, na apostila de Cardiologia; o tratamento da hipertensão, do capítulo Hipertensão arterial sistêmica, na mesma apostila; o do diabetes pertence ao capítulo Diabetes tipo 2 na unidade básica; e a obesidade como doença — a medida, as causas, o tratamento clínico e a conversa —, do capítulo Não é falta de vontade, os dois na apostila de Endocrinologia. A doença hepática gordurosa é deste capítulo, e o que ele cobra de você é que essas quatro réguas sejam aplicadas à mesma pessoa, na mesma consulta.
As réguas da doença esteatótica: o nome, a fibrose, o álcool em gramas e o que o SUS tem
A presença de gordura deve levar à avaliação do risco metabólico e de fibrose, e a um plano de cuidado longitudinal. O FIB-4 é uma ferramenta de triagem, com limites de idade e contexto; não diagnostica sozinho a gravidade. Use o resultado para decidir a necessidade de outro teste ou de encaminhamento, mantendo o controle do risco cardiovascular no mesmo plano. O Ministério da Saúde não publicou Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas desta doença, e isso define de onde vem cada número deste capítulo. O nome e as categorias vêm do consenso multissocietário de 2023, na redação em português da diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, com última revisão em janeiro de 2024 e mantida na edição 2026. Quem procurar e como estimar a fibrose vêm das duas diretrizes brasileiras da doença: a conjunta das sociedades de endocrinologia, de hepatologia e de obesidade, de 2023, escrita para o adulto com sobrepeso ou obesidade, e a da Sociedade Brasileira de Diabetes, escrita para quem tem diabetes tipo 2 ou pré-diabetes. O acesso ao especialista, onde há régua pública, é regional: o protocolo de regulação do TelessaúdeRS com a Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul, de janeiro de 2025. O que o SUS oferece em fármaco vem da Rename 2024 e do protocolo federal do diabetes tipo 2, de fevereiro de 2026. A diretriz europeia de 2024 entra onde as brasileiras não dão número e onde discorda delas — nos fármacos, sobretudo —, e as discordâncias estão, com lado declarado, no bloco de divergências. As tabelas organizam em eixos próprios os números que decidem.
- 1Abra a pergunta diante de qualquer das portas: esteatose em exame de imagem, aminotransferase alterada, ou diabetes tipo 2, pré-diabetes ou obesidade com outro fator de risco cardiometabólico.
- 2Dê o nome: esteatose documentada mais pelo menos um dos cinco critérios cardiometabólicos, sem outra causa evidente. Converta o álcool em gramas por semana — abaixo de 140 g na mulher e de 210 g no homem, doença metabólica pura; acima, MetALD ou doença alcoólica.
- 3Exclua o comum: repita o exame alterado, faça os testes de hepatite B e C, revise medicamentos, chás e suplementos. Se a aminotransferase persistir alta, complete com fator antinuclear, antimúsculo liso, imunoglobulina G, ferritina e saturação de transferrina.
- 4Procure cirrose antes da conta: plaquetas abaixo de 160 mil, esplenomegalia, albumina abaixo de 3,5, APRI acima de 2, estigmas no exame. Suspeita de cirrose se encaminha como cirrose; descompensação vai à urgência.
- 5Calcule o FIB-4 com aspartato, alanina e plaquetas da mesma coleta.
- 6FIB-4 abaixo de 1,3: a pessoa segue na atenção primária, trata o metabolismo e repete a conta em 2 a 3 anos.
- 7Na estratégia brasileira usada neste capítulo, FIB-4 de 1,3 ou mais leva à segunda etapa com elastografia. Isso indica necessidade de esclarecer o risco, não confirma fibrose significativa. Trate os fatores metabólicos enquanto investiga. Para maiores de 65 anos, a EASL-EASD-EASO 2024 usa corte inferior de 2,0: registre qual estratégia está sendo aplicada e não atribua a todas as diretrizes uma regra única por idade.
- 8Elastografia abaixo de 8 kPa: atenção primária. De 8 kPa para cima: especialista, que decide se precisa de biópsia.
- 9No Rio Grande do Sul, o protocolo estadual libera a vaga de gastroenterologia com FIB-4 acima de 3,25, suspeita de cirrose, ou aminotransferase de 1,5 vez o limite ou mais persistindo depois de seis meses de tratamento conservador com pelo menos 5% de perda de peso. Mande o conteúdo mínimo: exames com data, escore de fibrose, laudo de imagem e peso perdido.
- 10No mesmo dia, estratifique o risco cardiovascular e trate pressão, lipídios e glicemia pelas réguas dos capítulos donos. Esteatose e aminotransferase alta não contraindicam estatina.
- 11Cirrose por esta doença: vigilância de carcinoma hepatocelular e decisão de endoscopia com os capítulos donos. Fibrose F3 sem cirrose: vigilância só por decisão individual do especialista. Abaixo de F3: sem vigilância de carcinoma.
Doença hepática esteatótica: qual é o nome, e o que o nome muda
| Categoria | Quando se aplica | Álcool por semana | O que muda na conduta |
|---|---|---|---|
| DHEM (MASLD): a doença metabólica pura | Esteatose, pelo menos um dos cinco critérios cardiometabólicos e nenhuma outra causa evidente | Abaixo de 140 g na mulher e de 210 g no homem | Plano cardiometabólico, conta de fibrose, álcool desencorajado e zerado se houver fibrose avançada ou cirrose |
| MetALD (DHEM-DHA) | Esteatose com critério cardiometabólico e consumo intermediário de álcool | 140 a 350 g na mulher; 210 a 420 g no homem (20 a 50 g e 30 a 60 g por dia) | O álcool vira causa: interrupção com o mesmo peso da perda de peso e rastreio de transtorno por uso de álcool |
| Doença hepática alcoólica | Esteatose com consumo acima da faixa da MetALD, com ou sem fatores metabólicos | Acima de 350 g na mulher e de 420 g no homem | Conduta da doença alcoólica; icterícia recente com consumo pesado é hepatite alcoólica até prova em contrário |
| Esteatose de causa específica | Medicamento; causa monogênica, como deficiência de lipase ácida lisossomal, doença de Wilson ou hipobetalipoproteinemia; hepatite C, desnutrição, doença celíaca, HIV | Qualquer | Tratar ou retirar a causa; pode coexistir com a doença metabólica, como etiologia combinada |
| Doença esteatótica criptogênica | Esteatose sem fator de risco cardiometabólico e sem causa identificada | Abaixo dos limites | Reavaliar periodicamente como possível DHEM; doença grave em pessoa sem gatilho metabólico ou com história familiar forte vai ao especialista |
Tabela de conversão: gramas de álcool, quilos de peso e a conta do FIB-4 (mulher de 57 anos e 86 kg)
| O que se converte | Conta | Resultado |
|---|---|---|
| Lata de cerveja, 350 mL a 5% | 350 × 0,05 × 0,79 | 13,8 g de etanol |
| Garrafa de cerveja, 600 mL a 5% | 600 × 0,05 × 0,79 | 23,7 g |
| Dose de destilado, 50 mL a 40% | 50 × 0,40 × 0,79 | 15,8 g |
| Taça de vinho, 150 mL a 12% | 150 × 0,12 × 0,79 | 14,2 g |
| Limite inferior da MetALD na mulher, 140 g por semana | 140 ÷ 13,8 | Cerca de 10 latas por semana, ou 20 g por dia |
| Limite inferior da MetALD no homem, 210 g por semana | 210 ÷ 13,8 | Cerca de 15 latas por semana, ou 30 g por dia |
| Consumo de Firmina, 4 latas por semana | 4 × 13,8 | 55 g por semana: doença metabólica pura |
| Perda de 5% do peso | 86 × 0,05 | 4,3 kg: chegar a 81,7 kg |
| Perda de 7% e de 10% do peso | 86 × 0,07 e 86 × 0,10 | 6,0 kg e 8,6 kg: chegar a 80,0 kg e a 77,4 kg |
| FIB-4 de Firmina, exames de quatro meses atrás | (57 × 41) ÷ (176 × √58) = 2.337 ÷ 1.340 | 1,74 |
| FIB-4 que a idade produz sozinha, com aminotransferases de 30 e plaquetas de 200 mil | (60 × 30) ÷ (200 × √30) e (70 × 30) ÷ (200 × √30) | 1,64 aos 60 anos; 1,92 aos 70 |
| Metformina, 850 mg duas vezes ao dia | 2 × 850 mg | 1.700 mg por dia = 2 comprimidos de 850 mg (Rename: 500 e 850 mg, Componente Básico) |
| Pioglitazona, 30 mg uma vez ao dia | 30 mg | 1 comprimido de 30 mg; não consta da Rename 2024, compra fora do SUS |
FIB-4 e elastografia transitória: o número, o que ele diz e o que se faz
| Resultado | O que significa | O que se faz | De onde vem o número |
|---|---|---|---|
| FIB-4 abaixo de 1,3 | Fibrose avançada improvável; valor preditivo negativo de cerca de 91% | Atenção primária; tratar o metabolismo; repetir em 2 a 3 anos | SBD 2024; diretriz conjunta 2023 |
| FIB-4 de 1,3 a 2,66 | Fibrose avançada não excluída | Elastografia; até o resultado, tratar como fibrose significativa | SBD 2024; diretriz conjunta 2023 |
| FIB-4 de 2,67 ou mais | Faixa alta da estratégia sequencial | Elastografia; sem acesso a ela, discutir o caso com a regulação | SBD 2024 |
| FIB-4 acima de 3,25 | Suspeita de fibrose avançada pelo protocolo estadual | Encaminhamento à gastroenterologia no Rio Grande do Sul | TelessaúdeRS 2025, Protocolo 4 |
| Elastografia abaixo de 8 kPa | Fibrose avançada improvável | Atenção primária | Diretriz conjunta 2023; SBD 2024 |
| Elastografia de 8 a 12 kPa | Fibrose avançada não excluída; as fontes usam 10 ou 12 kPa como corte alto | Especialista, que decide sobre biópsia | Diretriz conjunta 2023; SBD 2024 |
| Elastografia acima de 12 a 15 kPa | Fibrose avançada provável | Especialista; investigar cirrose e hipertensão portal | Diretriz conjunta 2023 |
| Rigidez de até 15 kPa com plaquetas de 150 mil ou mais | Hipertensão portal clinicamente significativa excluída | Sem endoscopia de rastreio por esse motivo | EASL-EASD-EASO 2024 |
| Doença crônica avançada compensada com rigidez de 20 kPa ou mais, ou plaquetas abaixo de 150 mil | Risco de varizes | Endoscopia de rastreio, pelo capítulo Antes de sangrar, é só um exame | EASL-EASD-EASO 2024 |
Fármacos discutidos nesta doença e o que o SUS oferece
| Fármaco | Diretrizes brasileiras (conjunta 2023; SBD 2024) | Diretriz europeia (2024) | SUS (Rename 2024; PCDT do DM2, 2026) |
|---|---|---|---|
| Metformina | Não recomendada para esteatose, esteato-hepatite ou fibrose; sem benefício hepático específico | Segura; usar pelo diabetes; na cirrose, só se compensada e com função renal preservada | Consta, 500 e 850 mg, Componente Básico; primeira escolha no diabetes tipo 2 |
| Pioglitazona | Recomendada na esteato-hepatite comprovada, sem restrição a quem tem diabetes; primeira linha para esteato-hepatite ou fibrose no diabetes tipo 2, 30 a 45 mg por dia | Segura sem cirrose; não recomendada como terapia dirigida ao fígado | Não consta; tiazolidinedionas não incorporadas ao SUS |
| Liraglutida e semaglutida (agonistas do receptor de GLP-1) | Recomendadas na esteato-hepatite comprovada; primeira linha para esteato-hepatite no diabetes tipo 2 | Não recomendadas como terapia dirigida ao fígado; seguras, inclusive na cirrose compensada; usar por diabetes e obesidade | Não constam; agonistas do GLP-1 não incorporados; processo da liraglutida encerrado a pedido do demandante em 2023 |
| Dapagliflozina (inibidor de SGLT2) | Considerar para reduzir esteatose no diabetes tipo 2; pode ser considerada na esteato-hepatite ou fibrose | Segura; usar por diabetes, insuficiência cardíaca e doença renal; possível no Child-Pugh A e B | Consta, 10 mg, Componente Especializado, com critérios de idade e risco cardiovascular |
| Vitamina E | Pode ser considerada na esteato-hepatite comprovada sem diabetes, 800 UI por dia; evidência insuficiente no diabetes tipo 2 | Não recomendada | Não consta isolada; aparece só como componente de sachê de micronutrientes |
| Resmetirom | Não discutido | Considerar, se aprovado localmente, na esteato-hepatite sem cirrose com fibrose F2 ou mais | Não consta |
| Orlistate e silimarina | Orlistate não recomendado para o fígado; silimarina com evidência insuficiente | Nutracêuticos e antiobesidade não incretínicos não recomendados como terapia dirigida | Não constam |
| Estatinas | Estratificar o risco cardiovascular no diagnóstico | Usar pelo risco cardiovascular, inclusive na cirrose compensada | Sinvastatina 10, 20 e 40 mg (Básico); atorvastatina 10 a 80 mg (Especializado) |
Protocolo de Regulação Ambulatorial do TelessaúdeRS, gastroenterologia adulto, 3ª edição (2025), Quadro 2, usado pelo Protocolo 4 (esteatose hepática): classifica o FIB-4 abaixo de 1,45 como baixa probabilidade de fibrose F2 a F4 e acima de 3,25 como alta probabilidade de F3 ou F4, com a fonte Brasil (2023) — o protocolo federal de hepatite B e coinfecções, conforme a lista de referências —, embora o mesmo quadro chame o FIB-4 de escore com maior validade para esteatose. As duas diretrizes brasileiras escritas para esta doença excluem fibrose avançada abaixo de 1,3 e mandam segunda etapa a partir de 1,3. Conta: pessoa de 50 anos com aspartato de 30 U/L, alanina de 36 U/L e plaquetas de 190 mil — FIB-4 = (50 × 30) ÷ (190 × √36) = 1.500 ÷ 1.140 = 1,32. O quadro diz baixa probabilidade e não pede nada; as diretrizes da doença pedem elastografia. Toda a faixa de 1,30 a 1,44 recebe as duas leituras opostas.
O mesmo Protocolo 4 não dá conduta de fibrose para FIB-4 entre 1,45 e 3,25: a faixa não é classificada como baixa, não gera encaminhamento e não pede segunda etapa, e o único outro critério é aminotransferase de 1,5 vez o limite ou mais persistindo depois de seis meses de tratamento conservador. Conta 1, Firmina: (57 × 41) ÷ (176 × √58) = 2.337 ÷ 1.340 = 1,74 — sem conduta pelo protocolo, elastografia pelas diretrizes. Conta 2: mulher de 68 anos com aspartato de 32 U/L, alanina de 25 U/L, normal, e plaquetas de 150 mil — (68 × 32) ÷ (150 × √25) = 2.176 ÷ 750 = 2,90, acima do corte alto de 2,67 citado pela diretriz de diabetes; como a alanina é normal e o número fica abaixo de 3,25, pelo protocolo ela nunca é encaminhada nem estratificada. Esta apostila usa as diretrizes da doença para decidir o próximo exame e o protocolo para organizar o acesso, como está no bloco de divergências.
A conduta, hora a hora
O que segue é uma paciente e vinte e oito meses. Firmina Tupinambá, 57 anos, 86 kg, diabetes tipo 2, hipertensão, esteatose moderada num ultrassom particular e exames de quatro meses com a conta de fibrose esperando para ser feita. Quase todo o cuidado acontece na unidade básica; há uma elastografia e uma consulta de hepatologia no meio, e o resto é conta, conversa e retorno com número.
Cada marco traz a decisão e as linhas que saem dela. As doses são as dos documentos abertos para este capítulo. A intensidade da estatina e as metas de colesterol são decididas pela régua do capítulo Dislipidemias e risco cardiovascular global, e as metas glicêmicas pela do capítulo Diabetes tipo 2 na unidade básica; aqui aparece o que a doença hepática muda nessas decisões, e não a régua inteira delas.
Dia 0, quarta-feira, 8h40 — a consulta que junta o que já estava na ficha
A consulta começa pela resposta ao medo, não pelo pedido de exame. Você diz a Firmina que ela tem gordura no fígado, que isso é muito comum em quem tem diabetes e pressão alta, e que a gordura sozinha não é o que preocupa: o que importa é saber se o fígado já fez cicatriz, e isso se estima com exames de sangue, não com outro ultrassom. Depois pergunta pela bebida em volume e dias, e anota 4 latas por semana, 55 g. Pergunta pelos remédios, chás e suplementos, e o chá de cavalinha aparece na lista de produtos associados a dano hepático do protocolo do TelessaúdeRS: sai hoje. O remédio de farmácia “para limpar o fígado” é silimarina, que a diretriz de diabetes considera sem evidência suficiente e a europeia não recomenda: não compra. No exame, nenhum sinal de cirrose — sem aranhas vasculares, sem eritema palmar, baço não palpável —, tornozelos com edema discreto, sem estase jugular e sem estertores. Com os exames de quatro meses você já faz a conta na frente dela: FIB-4 de 1,74. Não exclui fibrose avançada, e é por isso que os exames de hoje são pedidos de uma vez, sem repetir o ultrassom. Os testes rápidos de hepatite B e C saem na própria consulta, não reagentes.
Prescrição- Teste rápido para hepatite B e teste rápido para hepatite C, hoje, na unidade
- Hemograma com plaquetas; aspartato e alanina aminotransferases; gama-glutamiltransferase; fosfatase alcalina; bilirrubinas; albumina; tempo de protrombina com RNI
- Ferritina e saturação de transferrina; fator antinuclear, anticorpo antimúsculo liso e imunoglobulina G (aminotransferases alteradas há pelo menos quatro meses)
- Hemoglobina glicada, perfil lipídico e creatinina
- Suspender o chá de cavalinha; não iniciar silimarina
- Manter metformina 850 mg duas vezes ao dia e losartana nas doses em uso
- Retorno em 3 semanas, com os exames
Dia 21 — os resultados, o nome e as três decisões do dia
Aspartato 43 U/L, alanina 61 U/L, plaquetas 172 mil, albumina 4,1 g/dL, bilirrubinas e RNI normais, fosfatase alcalina normal. Ferritina e saturação de transferrina normais; fator antinuclear e antimúsculo liso não reagentes, imunoglobulina G normal. Hemoglobina glicada de 8,1%, triglicerídeos de 238, HDL de 39, creatinina de 0,8. O diagnóstico vai para a lista de problemas com as palavras certas: doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, cinco critérios, álcool de 55 g por semana, FIB-4 de 1,82 — fibrose avançada não excluída. Primeira decisão: elastografia, pedida pela regulação ao serviço de referência. Segunda: o plano de peso com número — a meta final é 10%, 8,6 kg, porque é o degrau que a diretriz europeia associa a melhora de fibrose, e o primeiro degrau é 5%, 4,3 kg, em três meses; atividade física de pelo menos 150 minutos por semana, com exercício resistido em três dias; padrão de dieta mediterrâneo, sem bebida adoçada e com menos ultraprocessado; e álcool zero até a elastografia sair, por precaução. O risco cardiovascular é estratificado hoje, e a estatina que a régua de dislipidemias indicar começa hoje: alanina de 61 não adia estatina. Terceira decisão: a glicada está acima da meta com metformina, e o diabetes precisa ser intensificado agora. No SUS, a opção é sulfonilureia ou insulina; a dapagliflozina não entra, porque o protocolo federal a reserva para a segunda intensificação e, sem doença cardiovascular estabelecida, a mulheres a partir de 60 anos com fator de risco. As diretrizes brasileiras da doença põem a pioglitazona e os agonistas do receptor de GLP-1 como primeira linha quando há esteato-hepatite ou fibrose, e nenhum dos dois está no SUS. Firmina não pode pagar injeção semanal e pode comprar um comprimido genérico. Antes de prescrever, você confere o que contraindica: sem sinal de insuficiência cardíaca, sem fratura prévia, e o edema dos tornozelos fica anotado como linha de base, porque a pioglitazona retém líquido.
Prescrição- Elastografia hepática transitória, via regulação, com a indicação escrita: FIB-4 de 1,82 em pessoa com diabetes tipo 2 e esteatose
- Pioglitazona 30 mg, 1 comprimido uma vez ao dia, associada à metformina (faixa de 30 a 45 mg dos estudos citados pela diretriz de diabetes; fora da Rename 2024)
- Estatina na intensidade definida hoje pela estratificação de risco cardiovascular (régua do capítulo Dislipidemias e risco cardiovascular global)
- Meta de peso escrita no prontuário e entregue a ela: 81,7 kg em três meses; 77,4 kg como meta final
- Atividade física: 150 minutos ou mais por semana de intensidade moderada, com exercício resistido em três dias
- Álcool: nenhum até o resultado da elastografia
- Retorno com a elastografia; orientar sobre inchaço que piora, falta de ar e ganho de peso rápido, que antecipam a consulta
Semana 7 — a elastografia: 10,4 kPa
O laudo da elastografia transitória traz rigidez de 10,4 kPa, com medidas válidas. Abaixo de 8 kPa teria encerrado a questão na atenção primária; acima de 8, não exclui fibrose avançada, e 10,4 passa do corte alto de 10 kPa que a diretriz de diabetes cita na estratégia sequencial. A diretriz conjunta, nessa situação, leva a pessoa a considerar biópsia, e quem considera biópsia é o especialista: Firmina é encaminhada à hepatologia. O encaminhamento segue o conteúdo mínimo do protocolo do TelessaúdeRS, que é também o que o especialista precisa para não pedir tudo de novo. A balança marca 84,0 kg: 2,3% em sete semanas, com um tropeço no aniversário do neto. O edema dos tornozelos está igual ao da linha de base; ela nega falta de ar. Parou a cerveja. A conversa de hoje é sobre o que o número quer dizer e o que ele não quer dizer: 10,4 kPa não é diagnóstico de cirrose, não muda o que ela já está fazendo e não é motivo para desespero; é motivo para que alguém que faz isso todo dia olhe o fígado dela, e para que a meta de peso deixe de ser opcional.
Prescrição- Encaminhamento à hepatologia com: sinais e sintomas; comorbidades; aminotransferases de duas datas, hemoglobina, plaquetas, albumina, bilirrubinas, tempo de protrombina e testes de hepatite B e C, com data; FIB-4 de 1,74 e de 1,82; elastografia de 10,4 kPa; laudo do ultrassom; tratamento feito e peso perdido (86,0 para 84,0 kg)
- Manter pioglitazona 30 mg ao dia, metformina 850 mg duas vezes ao dia, estatina e losartana
- Álcool: nenhum, sem prazo
Mês 4 — ambulatório de hepatologia, na capital
A hepatologista revisa o encaminhamento, examina e não encontra sinal de cirrose nem de hipertensão portal. Com rigidez de 10,4 kPa, abaixo de 15, e plaquetas de 170 mil, acima de 150 mil, a diretriz europeia exclui hipertensão portal clinicamente significativa: não há indicação de endoscopia de rastreio por esse motivo. Sem cirrose, não há vigilância de carcinoma hepatocelular; a própria diretriz europeia só a admite no estágio F3 por avaliação individual, e a especialista não a indica. Ela decide não biopsiar agora: a biópsia não mudaria o tratamento, que já é o que as diretrizes recomendam para quem pode ter esteato-hepatite com fibrose. A contrarreferência volta para a unidade com seis linhas: fibrose significativa provável, sem cirrose; manter pioglitazona; perda de peso de 10% como meta; abstinência de álcool mantida; nova elastografia em 12 meses, o intervalo que a diretriz conjunta recomenda para fibrose F2 e F3; retorno à hepatologia com o resultado, ou antes se as plaquetas caírem abaixo de 150 mil ou surgir sinal de descompensação.
Prescrição- Contrarreferência à unidade básica com o plano escrito
- Nova elastografia hepática transitória em 12 meses
- Sem endoscopia de rastreio e sem vigilância de carcinoma hepatocelular nesta etapa
- Retorno antecipado à hepatologia se plaquetas abaixo de 150 mil, ascite, icterícia, sangramento digestivo ou confusão mental
Mês 7 — unidade básica: o primeiro degrau
Firmina chega com 81,4 kg: 5,3% de perda, o primeiro degrau cumprido, o que pela diretriz europeia já reduz gordura hepática. A glicada caiu para 7,1%; a alanina, para 38 U/L. Você registra os dois números e não comemora o segundo como se fosse o primeiro: aminotransferase normalizando é boa notícia sobre atividade e não prova de que a cicatriz regrediu. O edema dos tornozelos não piorou, a pressão está em 128 por 80, e ela conta que o marido reclamou menos do ronco — ele ainda existe, e a suspeita de apneia do sono segue para a investigação que a unidade oferece. A atividade física virou caminhada de 40 minutos, quatro vezes por semana, com a turma da praça; o exercício resistido não aconteceu. Você não repete ultrassom, não repete FIB-4 e não pede hepatograma trimestral: nada disso mudaria o plano. Muda o que falta — o exercício resistido e a segunda metade da perda de peso.
Prescrição- Manter pioglitazona 30 mg ao dia, metformina 850 mg duas vezes ao dia, estatina e losartana
- Exercício resistido com carga leve a moderada em três dias da semana, com orientação do grupo de atividade física da unidade
- Meta de peso: 77,4 kg
- Retorno em 5 meses, com hemoglobina glicada e perfil lipídico
Mês 12 — unidade básica: o platô
Firmina está com 79,4 kg, 7,7% de perda, parada nesse peso há dois meses, e desanimada. A glicada está em 6,9% e o colesterol dentro da meta que a régua de dislipidemias fixou. É a consulta em que o plano costuma morrer, e a conversa vale mais do que a prescrição: 7,7% já passa do degrau de 7% a 10% que a diretriz europeia associa à melhora da inflamação, e o platô é o comportamento esperado de quem perdeu peso — não é falha, e não é motivo para abandonar o que funcionou. Você revisa com ela o que mudou na rotina, confirma que o álcool continua zerado e mantém o exercício resistido, que finalmente começou. Aproveita a consulta para o que a diretriz europeia pede a toda pessoa com a doença: os rastreios de câncer habituais para a idade dela, sem acrescentar nenhum por causa do fígado.
Prescrição- Manter pioglitazona 30 mg ao dia, metformina 850 mg duas vezes ao dia, estatina e losartana
- Rastreios de câncer indicados para mulher de 58 anos pela régua da população geral, conferidos e atualizados
- Elastografia de controle agendada para o mês 16, conforme a contrarreferência
Mês 16 — a segunda elastografia: 7,8 kPa
A rigidez caiu para 7,8 kPa, e o peso para 78,2 kg — 9,1% de perda. A alanina está em 30, a aspartato em 26 e as plaquetas em 181 mil. Refeita a conta, o FIB-4 dá 1,52, e Firmina pergunta por que o número do exame de sangue continua acima de 1,3 se o fígado melhorou. A resposta está na fórmula: a idade subiu um ano, a alanina caiu mais do que a aspartato e está debaixo de uma raiz no denominador — o escore não foi feito para medir resposta, e a diretriz europeia registra que os testes não invasivos informam pouco, no indivíduo, sobre resposta ao tratamento. Pelo mesmo motivo, a hepatologista não chama os 7,8 kPa de regressão de fibrose: a queda é compatível com menos inflamação e menos gordura, e é um bom sinal, mas não é biópsia. A decisão é prática: manter tudo, repetir a elastografia em mais 12 meses e, se ela seguir abaixo de 8 kPa, espaçar a reavaliação e deixá-la na atenção primária.
Prescrição- Manter pioglitazona 30 mg ao dia, metformina 850 mg duas vezes ao dia, estatina e losartana
- Elastografia hepática transitória em 12 meses
- Não usar o FIB-4 como medida de resposta ao tratamento
Mês 28 — o seguimento que fica na unidade
A terceira elastografia mostra 7,5 kPa; o peso está em 77,6 kg, 9,8% de perda, a glicada em 6,8%, sem edema novo, sem fratura, sem álcool. A hepatologia devolve o seguimento para a atenção primária com um plano de anos, não de meses: reavaliação de fibrose a cada dois anos, o intervalo que a diretriz conjunta sugere para quem tem diabetes ou síndrome metabólica e não tem fibrose avançada, feita com elastografia, que a mesma diretriz admite para monitorar progressão; pioglitazona mantida enquanto houver benefício e nenhum efeito adverso — a diretriz de diabetes cita benefício histológico e metabólico persistente após 36 meses; e uma lista curta do que reabre o encaminhamento. Você escreve essa lista no prontuário, porque ela é o que protege Firmina daqui a dez anos, quando outro médico, que não conhece esta história, pegar a ficha.
Prescrição- Reavaliação de fibrose a cada 2 anos na unidade básica, com elastografia: o FIB-4 dela fica acima de 1,3 pela idade e pela proporção entre as aminotransferases e já não separa quem piorou
- Reencaminhar à hepatologia se: plaquetas abaixo de 150 mil; rigidez de 8 kPa ou mais em nova elastografia; FIB-4 de 2,67 ou mais; sinal de cirrose no exame ou no ultrassom; volta do consumo de álcool
- Descompensação — ascite, icterícia, sangramento digestivo, confusão mental — vai à urgência
- Manter pioglitazona 30 mg ao dia, metformina 850 mg duas vezes ao dia, estatina e losartana; rever a pioglitazona se surgir edema importante, sinal de insuficiência cardíaca ou fratura
Como saber se está funcionando
Sete parâmetros, e nenhum deles é o grau de esteatose no ultrassom. O seguimento desta doença se mede em quilos, em gramas de álcool, em kPa e em plaquetas, com intervalos de meses para o metabolismo e de anos para a fibrose. Quem pede exame de fígado a cada três meses numa pessoa estável está medindo a coisa errada com a frequência errada.
Esperado: Perda de 5% ou mais nos primeiros meses, que já reduz gordura hepática; 7% a 10% para melhorar a inflamação; 10% ou mais quando há fibrose, que é o degrau associado à melhora dela
Se não melhora: Rever com a pessoa o que mudou na rotina, sem culpa, e o que o grupo da unidade oferece. Na pessoa com diabetes tipo 2 e índice de massa corporal de 27 kg/m² ou mais em que a mudança de estilo de vida não bastou, a diretriz de diabetes recomenda medicamento antiobesidade, e a decisão entre eles é do capítulo Não é falta de vontade. Com índice de 35 kg/m² ou mais, a mesma diretriz manda considerar cirurgia bariátrica, cuja indicação e técnica são do capítulo O peso saiu, a anatomia ficou.
Esperado: Zero em quem tem fibrose avançada suspeita ou confirmada, ou cirrose; nos demais, o menor consumo possível, e sempre abaixo do limite que manteria a pessoa na doença metabólica pura
Se não melhora: Consumo que passa a 140 g por semana na mulher ou 210 g no homem muda o nome para MetALD e muda o plano: intervenção breve na própria consulta, pelo capítulo Pare de fumar não é conduta, e rastreio de transtorno por uso de álcool, pelo capítulo A abstinência que não pode esperar. Icterícia com consumo pesado recente é hepatite alcoólica até prova em contrário, e vai para o capítulo A icterícia que ainda não tem nome.
Esperado: Estável ou em queda; abaixo de 8 kPa, fibrose avançada improvável. Queda de rigidez é bom sinal, mas no indivíduo não prova regressão de fibrose
Se não melhora: Rigidez que sobe para 8 kPa ou mais volta ao especialista. Acima de 15 kPa, a regra da diretriz europeia já não exclui hipertensão portal clinicamente significativa; na doença crônica avançada compensada, rigidez de 20 kPa ou mais, ou plaquetas abaixo de 150 mil, indicam endoscopia de rastreio pelo capítulo Antes de sangrar, é só um exame. Cirrose confirmada entra em vigilância de carcinoma hepatocelular pelo capítulo A agulha que não precisa entrar.
Esperado: Estáveis e acima de 150 mil por milímetro cúbico
Se não melhora: Queda para menos de 150 mil sem outra causa é o sinal mais barato de que a fibrose pode ter virado hipertensão portal: repetir para confirmar, procurar esplenomegalia e reencaminhar ao especialista. Abaixo de 160 mil, o protocolo do TelessaúdeRS já trata o achado como indício de cirrose em quem tem doença hepática.
Esperado: Queda ou normalização com a perda de peso. Normalizar é boa notícia sobre atividade da doença, não medida de fibrose
Se não melhora: Alanina de 1,5 vez o limite ou mais persistindo depois de seis meses de tratamento conservador com perda de pelo menos 5% do peso é critério de encaminhamento do protocolo do TelessaúdeRS. Elevação acima de cinco vezes o limite sem causa definida pede nova investigação e encaminhamento; com encefalopatia ou RNI acima de 1,5, urgência.
Esperado: Glicada na meta individual; edema dos tornozelos igual à linha de base; nenhum sinal de insuficiência cardíaca; nenhuma fratura
Se não melhora: Edema importante, dispneia, ortopneia ou ganho de peso rápido fazem suspender a pioglitazona e avaliar insuficiência cardíaca; fratura faz rever a indicação, pesando o risco que a diretriz de diabetes aponta. A alternativa com benefício hepático é o agonista do receptor de GLP-1, se houver acesso; no SUS, a intensificação segue com sulfonilureia ou insulina pelo protocolo federal.
Esperado: Pressão e LDL nas metas daqueles capítulos, com a estatina mantida
Se não melhora: Aminotransferase discretamente alta não é motivo para suspender estatina: a diretriz europeia recomenda usá-la pelo risco cardiovascular na doença hepática crônica, inclusive na cirrose compensada. Efeito adverso da estatina, ajuste de dose e troca seguem o capítulo de dislipidemias; o que este capítulo impede é a suspensão por causa do fígado.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro da ficha de Firmina: exames que permitiam calcular o FIB-4 ficaram quatro meses colados sem anotação, e o laudo foi tratado como achado benigno. Numa agenda de pessoas com diabetes tipo 2, cerca de uma em cada sete pode ter fibrose avançada sem sintoma, e o arquivamento transforma esse grupo em pessoas que só recebem o diagnóstico quando descompensam, sangram ou chegam com um nódulo hepático.
Como pegar a tempo: Todo laudo de esteatose sai da consulta com três registros: os critérios cardiometabólicos presentes, o consumo de álcool em gramas por semana e o FIB-4 calculado com os exames que já existem ou com os que forem pedidos no mesmo dia.
O dano: Aminotransferase conta atividade do dano, não quantidade de cicatriz. Fibrose avançada e cirrose convivem com enzimas normais, e a enzima tende a cair quando a doença avança e o parênquima ativo diminui. Uma mulher de 68 anos com diabetes, aspartato de 32 U/L, alanina de 25 U/L e plaquetas de 150 mil tem FIB-4 de 2,90, e ninguém calcula, porque o exame pareceu normal.
Como pegar a tempo: Não usar enzima isolada como rastreio, como recomenda a diretriz conjunta brasileira. A decisão sobre fibrose sai do FIB-4 e, quando ele não exclui, da elastografia — com qualquer valor de aminotransferase.
O dano: O ultrassom que passa de moderada para leve tranquiliza sem medir o que prediz desfecho, e o hepatograma trimestral gasta coleta sem mudar decisão. O encaminhamento indiscriminado enche a fila da hepatologia de pessoas de baixo risco, que o protocolo de regulação devolve por falta de escore, enquanto a pessoa com fibrose avançada espera na mesma fila sem prioridade.
Como pegar a tempo: Seguir fibrose com escore e elastografia em intervalos de anos e metabolismo com peso, glicada e lipídios em intervalos de meses. Encaminhar pelos critérios — elastografia de 8 kPa ou mais, suspeita de cirrose, e os critérios do protocolo de regulação onde ele vale — e com o conteúdo mínimo: exames com data, FIB-4, laudo e peso perdido.
O dano: Quem tem a doença morre mais do coração do que do fígado: a diretriz de diabetes cita metanálise em que a doença hepática se associou a eventos cardiovasculares com razão de chances de 1,64, maior quanto mais grave. Tirar a estatina para proteger um fígado que ela não agride deixa a pessoa exposta ao desfecho mais provável para evitar um improvável.
Como pegar a tempo: A diretriz europeia recomenda estatina pelo risco cardiovascular na doença hepática crônica, inclusive na cirrose compensada. Estratificar o risco no diagnóstico e iniciar a estatina pela régua do capítulo Dislipidemias e risco cardiovascular global, sem esperar a aminotransferase normalizar.
O dano: Duas latas por dia numa mulher somam 194 g por semana: a doença deixa de ser metabólica pura e passa a MetALD, com o álcool como causa que ninguém está tratando. E a diretriz europeia registra que álcool e fatores metabólicos têm efeitos independentes que podem se somar, sem proteção demonstrada de doses leves a moderadas em quem tem risco cardiometabólico — em quem já tem fibrose avançada, a cerveja liberada acelera exatamente o que se quer frear.
Como pegar a tempo: Perguntar bebida, volume, dias e episódios de consumo pesado, converter em gramas pela tabela de conversão e escrever o número. Desencorajar o álcool em toda pessoa com a doença e zerá-lo, sem prazo, em quem tem fibrose avançada ou cirrose.
O dano: A silimarina não tem evidência suficiente, pela diretriz de diabetes, e a europeia não recomenda nutracêuticos; a vitamina E não tem evidência suficiente no diabetes tipo 2 e parece aumentar o risco de câncer de próstata em homens idosos; a metformina não tem benefício hepático específico, e a diretriz conjunta recomenda contra usá-la para esteatose, esteato-hepatite ou fibrose. A receita dá à pessoa a sensação de estar tratada e tira a urgência do que funciona.
Como pegar a tempo: Dizer com clareza que o tratamento é perda de peso com número, atividade física, álcool e controle do diabetes, da pressão e dos lipídios. Na pessoa com diabetes tipo 2 e fibrose significativa provável, escolher o hipoglicemiante com benefício hepático — pioglitazona ou agonista do receptor de GLP-1, pelas diretrizes brasileiras — sabendo que nenhum dos dois está no SUS.
O que dizer ao paciente e à família
Sete falas, e em quase todas o trabalho é o mesmo: trocar uma palavra que assusta, ou que tranquiliza demais, por um número que a pessoa consiga levar para casa. As falas são para Firmina, mas servem, com os números trocados, para qualquer pessoa que chega com um laudo de esteatose na mão.
Explicar a Firmina o que ela tem e por que o nome mudou, sem culpa
““Dona Firmina, o ultrassom mostrou gordura dentro do fígado. Isso é muito comum em quem tem diabetes, pressão alta e peso acima do que o corpo aguenta bem. É o mesmo desequilíbrio que sobe o açúcar e os triglicerídeos, aparecendo agora no fígado. Hoje os médicos chamam isso de doença hepática esteatótica metabólica, justamente para dizer que o problema é o metabolismo, e não um defeito de caráter ou a comida de um domingo. A gordura em si não é o que me preocupa. O que eu preciso saber é se o fígado já fez alguma cicatriz, e isso eu consigo estimar com exames de sangue que a senhora já tem.””
Não diga: “A senhora está com o fígado gorduroso porque come errado” ou “isso não é nada, todo mundo tem”
Responder se gordura no fígado vira cirrose, com o medo do cunhado na sala
““Pode virar, mas na maioria das pessoas não vira. De cada cem pessoas com essa doença, menos de dez chegam a ter complicação de cirrose, e o que separa quem chega de quem não chega é a cicatriz, não a quantidade de gordura. O grau II do laudo mede gordura. A conta que eu fiz com os seus exames deu 1,74, que não é baixa o bastante para eu dizer que não tem cicatriz, e por isso vou pedir um exame que mede a rigidez do fígado. O caso do seu cunhado era outro: ele bebia muito. O seu é para a gente descobrir em que ponto a senhora está, com tempo para mudar o caminho.””
Não diga: “Grau II é meio caminho da cirrose” ou “isso nunca vira cirrose, pode ficar tranquila”
Falar da cerveja do fim de semana
““Quatro latas por semana dão uns 55 gramas de álcool. Não foi isso que colocou gordura no seu fígado, e eu não estou dizendo que a senhora bebe demais. Mas álcool e diabetes pesam juntos no fígado, e enquanto o exame da rigidez não sai, o combinado é parar. Se ele mostrar cicatriz avançada, a recomendação é parar de vez. Se não mostrar, a gente conversa de novo, e mesmo assim quanto menos, melhor para o fígado e para o açúcar.””
Não diga: “Pode beber socialmente, sem problema” ou “a senhora precisa admitir que tem problema com bebida”
Transformar “emagrecer” em meta com número
““Não vou dizer só ‘emagreça’. A senhora pesa 86 quilos. Perder 4 quilos e 300 gramas, chegando a 81 quilos e 700, já tira gordura do fígado, e esse é o primeiro alvo, para os próximos três meses. Se o exame mostrar cicatriz, o alvo que ajuda a cicatriz é perder uns 8 quilos e meio, chegando perto de 77. Não precisa ser rápido: precisa durar. E caminhar conta — duas horas e meia por semana, somando os dias, e um pouco de exercício de força três vezes por semana, que o grupo da unidade ensina.””
Não diga: “Tem que fechar a boca” ou “a senhora precisa perder uns 20 quilos”
Explicar o remédio que ajuda o fígado e não está no SUS
““O seu diabetes precisa de mais um remédio. Aqui na unidade eu tenho a gliclazida e a insulina, que controlam o açúcar, mas não fazem nada a mais pelo fígado. Existem dois tipos de remédio que controlam o açúcar e ajudam o fígado: uma injeção semanal, que é cara, e um comprimido, a pioglitazona, que o SUS não fornece e que tem versão genérica na farmácia. Ele pode reter um pouco de líquido e fazer ganhar algum peso, e eu vou olhar suas pernas e sua balança em toda consulta. Se inchar muito ou faltar ar, a senhora me procura antes do retorno. A decisão é nossa, juntos: se o preço não couber no mês, a gente segue com o da unidade, e o seu fígado continua sendo tratado pelo peso e pela caminhada.””
Não diga: “O remédio do posto não serve para nada” ou prescrever a pioglitazona sem perguntar se ela consegue comprar todo mês
Recusar o remédio “para limpar o fígado” e o chá, sem desqualificar quem pediu
““Esse remédio da propaganda não tem estudo que mostre que protege o fígado, e o chá de cavalinha está numa lista de chás que podem machucar o fígado em algumas pessoas. Eu sei que a senhora quer fazer alguma coisa, e é muito bom que queira. O que trata o fígado de verdade é o que a gente acabou de combinar: o peso, a caminhada, a cerveja parada e o açúcar controlado. Para o inchaço dos tornozelos, a gente olha juntos na próxima consulta.””
Não diga: “Isso é enganação, só quem cai é bobo” ou “pode tomar, mal não faz”
Explicar por que o coração entrou na consulta do fígado
““Tem uma coisa que eu preciso dizer com todas as letras: quem tem gordura no fígado por causa do diabetes corre mais risco de infarto e de derrame do que de cirrose. Por isso eu vou começar hoje um remédio para o colesterol. Ele não estraga o seu fígado — as diretrizes de fígado recomendam usar mesmo em quem tem doença hepática —, e esse exame do fígado um pouco alterado não é motivo para esperar. Cuidar do coração é a parte mais importante do tratamento dessa gordura.””
Não diga: “Vamos esperar a enzima do fígado normalizar para começar o remédio do colesterol”
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Diretriz conjunta SBEM, SBH e Abeso (2023) e diretriz da SBD (revisão de 16/01/2024, mantida na edição 2026): abaixo de 1,3 exclui; de 1,3 para cima, elastografia
As duas diretrizes brasileiras escritas para esta doença usam 1,3 como corte para excluir fibrose avançada. A conjunta recomenda o FIB-4 ou a elastografia para afastar fibrose avançada e, quando o FIB-4 é de 1,3 ou mais, um segundo método, a elastografia transitória. A de diabetes recomenda o FIB-4 em todo adulto com diabetes tipo 2 ou pré-diabetes e a elastografia para todo resultado de 1,3 ou mais, que ela descreve como risco indeterminado ou alto, e cita 2,67 como corte alto de uma estratégia sequencial.
Moreira RO et al. Arch Endocrinol Metab. 2023;67(6):e230123, recomendações 7 a 9; Silva Júnior WS et al. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, DOI 10.29327/5412848.2024-8, recomendações 1 e 2
Protocolo de Regulação Ambulatorial do TelessaúdeRS com a SES-RS, gastroenterologia adulto (27/01/2025): abaixo de 1,45 é baixa probabilidade; encaminha acima de 3,25
O Quadro 2 do protocolo, ao qual remetem os protocolos de cirrose e de esteatose, classifica o FIB-4 abaixo de 1,45 como baixa probabilidade de fibrose F2 a F4 e acima de 3,25 como alta probabilidade de F3 ou F4, citando o protocolo federal de hepatite B de 2023. O Protocolo 4, de esteatose, encaminha à gastroenterologia com FIB-4 acima de 3,25, suspeita de cirrose ou aminotransferase persistentemente de 1,5 vez o limite ou mais depois de seis meses de tratamento conservador, e não prevê segunda etapa para a faixa intermediária.
TelessaúdeRS-UFRGS; SES-RS. Protocolos de Regulação Ambulatorial: gastroenterologia adulto, 3. ed., 2025 — Protocolo 4 e Quadro 2
As diretrizes brasileiras específicas de MASLD apresentadas neste capítulo usam 1,3 para a segunda etapa; o quadro de regulação do TelessaúdeRS traz 1,45/3,25 de outro contexto. O fluxo conserva a estratégia brasileira de 1,3 e explicita sua origem. Há uma terceira informação relevante: a EASL-EASD-EASO 2024, Figura 2, usa corte inferior de 2,0 em maiores de 65 anos. Não é correto dizer que nenhuma fonte ajusta pela idade. Aplique a via escolhida de forma coerente, registre o motivo e interprete o resultado junto com risco metabólico, plaquetas, exame e evolução. O protocolo estadual regula o acesso; o escore estratifica probabilidade e não estabelece sozinho fibrose avançada. Sinais de cirrose ou descompensação exigem encaminhamento independentemente de um corte baixo.
Diretriz conjunta SBEM, SBH e Abeso (2023) e diretriz da SBD (revisão de 16/01/2024): tratamento de primeira linha da esteato-hepatite
A diretriz conjunta recomenda liraglutida e semaglutida para melhorar a esteato-hepatite comprovada sem piorar a fibrose, e pioglitazona para melhorar esteatose, esteato-hepatite e fibrose na esteato-hepatite comprovada, as duas com a classe mais forte de recomendação; admite considerar vitamina E na esteato-hepatite comprovada sem diabetes. A de diabetes põe a pioglitazona e os agonistas do receptor de GLP-1 com benefício comprovado como tratamento de primeira linha para esteato-hepatite, e a pioglitazona também para fibrose, na pessoa com diabetes tipo 2, e considera insuficiente a evidência para vitamina E nessa população.
Moreira RO et al. Arch Endocrinol Metab. 2023;67(6):e230123, recomendações 38, 40 e 41; Silva Júnior WS et al. Diretriz da SBD, DOI 10.29327/5412848.2024-8, recomendações 5 e 6
Diretriz EASL–EASD–EASO (junho de 2024): não como terapia dirigida ao fígado; usar pelas indicações próprias
A diretriz europeia afirma que os agonistas do receptor de GLP-1 não podem ser recomendados como terapia dirigida à esteato-hepatite enquanto não houver demonstração em ensaios de fase 3, mas são seguros, inclusive na cirrose compensada, e devem ser usados por diabetes tipo 2 e obesidade; que a pioglitazona é segura na esteato-hepatite sem cirrose e também não é recomendada como terapia dirigida; que a vitamina E não é recomendada; e que nenhuma melhora histológica induzida por tratamento demonstrou, até aqui, redução de mortalidade.
EASL; EASD; EASO. J Hepatol. 2024;81(3):492-542; Executive Summary em Diabetologia. 2024;67(11):2375-2392
Antes de desempatar, veja se as duas regras governam o mesmo paciente. Na pessoa com diabetes tipo 2 que precisa intensificar o tratamento e tem fibrose significativa provável — Firmina —, não há conflito: a diretriz europeia manda usar os agonistas do receptor de GLP-1 pelo diabetes e considera a pioglitazona segura, e as brasileiras mandam preferi-los pelo fígado; as duas levam à mesma receita. O conflito é real em dois pontos, e a régua decide no escopo: as diretrizes brasileiras foram escritas para a pessoa com sobrepeso ou obesidade e para a pessoa com diabetes tipo 2 no Brasil, e a europeia, para todo adulto com a doença, com a ressalva expressa de que suas recomendações devem ser adaptadas à disponibilidade local. Esta apostila adota as brasileiras: no diabetes tipo 2 com fibrose significativa provável ou comprovada, o fármaco de intensificação preferido é a pioglitazona ou o agonista do receptor de GLP-1, sabendo que nenhum dos dois está no SUS. Na pessoa sem diabetes, a indicação de pioglitazona da diretriz conjunta exige esteato-hepatite comprovada, isto é, biópsia, e a decisão é do especialista, não da atenção primária; a vitamina E, fora do diabetes, fica na mesma condição, e esta apostila não a inicia na unidade básica. O lado europeu fica no texto e na conversa: o benefício desses fármacos foi mostrado no tecido do fígado, não em sobrevida, e a pessoa tem o direito de ouvir isso antes de pagar pelo remédio.
Diretriz conjunta SBEM, SBH e Abeso (2023), recomendação 13: reavaliação por hepatologista a cada 2 a 3 anos
A recomendação diz que a pessoa com esteatose sem fibrose avançada deve ser reavaliada por hepatologista a cada 2 a 3 anos, com escores clínico-laboratoriais, e o texto que a acompanha sugere 3 anos para quem não tem fator de risco e 2 anos para quem tem síndrome metabólica ou diabetes tipo 2, porque a progressão média de quem não tem esteato-hepatite é de um estágio de fibrose a cada catorze anos.
Moreira RO et al. Arch Endocrinol Metab. 2023;67(6):e230123, recomendação 13
Protocolo de Regulação Ambulatorial do TelessaúdeRS com a SES-RS (27/01/2025): a esteatose é acompanhada na atenção primária e encaminhada por critério
O Protocolo 4 mantém a pessoa com esteatose na atenção primária, com o tratamento conservador do Quadro 6 — interromper o álcool, tratar diabetes, hipertensão e dislipidemia, perder de 5% a 10% do peso, ajustar a dieta e fazer exercício aeróbico moderado —, e encaminha à gastroenterologia só com suspeita de cirrose, FIB-4 acima de 3,25 ou aminotransferase persistentemente alta depois de seis meses de tratamento.
TelessaúdeRS-UFRGS; SES-RS. Protocolos de Regulação Ambulatorial: gastroenterologia adulto, 3. ed., 2025 — Protocolo 4 e Quadro 6
O escopo empata — os dois documentos tratam do adulto com esteatose — e a régua decide no segundo degrau, a data: o protocolo de janeiro de 2025 é mais novo que a diretriz de 2023, e vence no ponto em disputa, que é o lugar do seguimento. Esta apostila adota: a pessoa sem fibrose avançada é acompanhada na atenção primária, e o que a diretriz conjunta traz de útil continua valendo — o intervalo de 2 anos para quem tem diabetes ou síndrome metabólica e de 3 anos para quem não tem, com escore ou elastografia. O hepatologista entra por critério: elastografia de 8 kPa ou mais, suspeita de cirrose, e os critérios do protocolo de regulação onde ele vale. A razão prática confirma a da régua: numa doença que chega a 80% das pessoas com obesidade, uma regra que manda todas ao hepatologista não se cumpre, e quem paga a fila é a pessoa com fibrose avançada, que espera atrás de quem não precisava estar ali.
O raciocínio, em voz alta
Sexta-feira, 10h20, a mesma unidade. Odilon Souza tem 68 anos, é motorista de ônibus aposentado e veio renovar a receita do diabetes, que trata há quinze anos com metformina 850 mg duas vezes ao dia e glibenclamida 5 mg. Não tem queixa. Trouxe um ultrassom pedido pelo urologista para avaliar a próstata, e o laudo acrescenta, no fim, fígado de contornos discretamente irregulares, com ecogenicidade aumentada, e baço de 13,5 cm. Os exames de dois meses atrás mostram aspartato aminotransferase de 44 U/L, alanina de 36 U/L, plaquetas de 138 mil, albumina de 3,6 g/dL, bilirrubinas e creatinina normais. Pesa 84 kg, com cintura de 104 cm. Perguntado pela bebida em volume e horário, conta que toma três doses de cachaça por dia há mais de trinta anos — uma antes do almoço, uma no almoço e uma à noite — e que nunca se achou alcoólatra porque nunca faltou ao trabalho. No exame, eritema palmar discreto, baço não palpável, sem ascite, sem icterícia, sem alteração de consciência.
o que eu vejo antes de fazer conta
Plaquetas de 138 mil, baço de 13,5 cm e fígado de contorno irregular numa pessoa com hepatopatia presumida já são, pelo Quadro 1 do protocolo do TelessaúdeRS, suspeita de cirrose: plaquetas abaixo de 160 mil aumentam várias vezes a chance, e o ultrassom soma dois achados. Se eu fizesse primeiro o escore, correria o risco de discutir o número e esquecer o que o hemograma e o laudo já dizem. A pergunta desta consulta não é se ele tem esteatose; é se ele já tem cirrose.
o nome, com o álcool em gramas
Três doses de 50 mL de cachaça a 40% dão 47 g de etanol por dia, 332 g por semana. Com diabetes e cintura de 104 cm, ele tem critério cardiometabólico; com 332 g por semana, está dentro da faixa de 210 a 420 g do homem. O nome é MetALD, não doença metabólica pura, e muito menos doença não alcoólica. O álcool é causa, e a interrupção entra no plano com o mesmo peso de tudo o resto.
a conta, e o que ela acrescenta
FIB-4 = (68 × 44) ÷ (138 × √36) = 2.992 ÷ 828 = 3,61. Está acima de 2,67, o corte alto citado pela diretriz de diabetes, e acima de 3,25, o critério de encaminhamento do protocolo do TelessaúdeRS. Aos 68 anos a idade infla o escore, mas aqui ela não explica o resultado sozinha: são as plaquetas baixas que o puxam para cima. O APRI dele, com limite de 37 U/L para a aspartato, fica em 0,86 e não chamaria atenção nenhuma — o que mostra por que o capítulo usa o FIB-4 e por que o hemograma e o baço vêm antes de qualquer escore.
o que não pode esperar: o álcool, com segurança
Não há descompensação — sem ascite, sem icterícia, sem encefalopatia, sem sangramento —, e por isso ele não vai para a urgência hoje. O que precisa começar hoje é a interrupção do álcool, e ela não se faz com uma ordem: trinta anos de 47 g por dia criam risco de síndrome de abstinência quando a bebida para. A avaliação do transtorno por uso de álcool, o risco de abstinência e como parar com segurança são do capítulo A abstinência que não pode esperar, na apostila de Psiquiatria, e é por ele que o plano de parar é montado, com a intervenção breve feita já nesta consulta.
o encaminhamento e o que ele vai decidir
Encaminho à gastroenterologia pelos dois critérios do protocolo do TelessaúdeRS — suspeita de cirrose e FIB-4 acima de 3,25 —, com o conteúdo mínimo: exames com data, os dois escores, o laudo do ultrassom, as comorbidades e o consumo em gramas. Lá, a elastografia vai estadiar a doença. Com plaquetas abaixo de 150 mil, a diretriz europeia indica endoscopia de rastreio de varizes na doença crônica avançada compensada qualquer que seja a rigidez, e essa decisão, e a conduta diante das varizes, pertencem ao capítulo Antes de sangrar, é só um exame. Confirmada a cirrose, ele entra em vigilância de carcinoma hepatocelular, com o exame e o intervalo do capítulo A agulha que não precisa entrar.
o que muda e o que não muda na receita
A metformina continua: a diretriz europeia admite usá-la na cirrose compensada com função renal preservada, e a creatinina dele é normal; ela sai se houver descompensação. A glibenclamida sai hoje por outro motivo, que não é o fígado: o protocolo federal do diabetes tipo 2 não a recomenda a partir de 60 anos, e a troca para gliclazida segue o capítulo Diabetes tipo 2 na unidade básica — com a lembrança de que a diretriz europeia manda evitar sulfonilureia se o fígado descompensar, pelo risco de hipoglicemia. O risco cardiovascular é estratificado hoje, e a estatina, se indicada pela régua de dislipidemias, não é contraindicada pela doença hepática compensada.
a frase que fica no prontuário
“MetALD, com álcool de 332 g por semana e diabetes tipo 2; suspeita de cirrose por plaquetas de 138 mil, esplenomegalia ao ultrassom e FIB-4 de 3,61. Sem descompensação. Encaminhado à gastroenterologia para estadiamento, endoscopia de rastreio e vigilância de carcinoma se confirmada cirrose. Plano de interrupção do álcool iniciado com avaliação de risco de abstinência. Glibenclamida trocada. Metformina mantida enquanto compensado e com creatinina normal.” Quem pegar esta ficha daqui a um ano precisa entender, em cinco linhas, por que Odilon não é mais um paciente de esteatose.
Faça você
Terça-feira, 17h10, último horário da agenda. Didimo Canedo tem 36 anos, é vendedor de loja de material de construção e veio porque a empresa pediu exames admissionais para uma promoção. Pesa 98 kg, tem 1,78 m e cintura de 106 cm; pressão de 128 por 82 mmHg. Os exames mostram glicemia de jejum de 104 mg/dL, triglicerídeos de 212 mg/dL, HDL de 36 mg/dL, alanina aminotransferase de 96 U/L e aspartato de 52 U/L, com limite superior de 41 U/L para as duas no laboratório, e plaquetas de 250 mil. Um ultrassom feito no mesmo pacote descreve esteatose hepática acentuada. Toma quatro copos de chope de 300 mL toda sexta-feira, nunca mais do que isso; não usa medicamento, chá nem suplemento, nem anabolizante. Os testes rápidos de hepatite B e C feitos hoje, na unidade, são não reagentes. Ele quer saber se precisa ir ao especialista.
o que eu já sei
Esteatose documentada e, dos cinco critérios cardiometabólicos, pelo menos quatro: índice de massa corporal de 30,9 kg/m² e cintura de 106 cm, glicemia de jejum na faixa de pré-diabetes, triglicerídeos acima de 150 e HDL abaixo de 40. Quatro copos de 300 mL de chope a 5% dão 47 g de etanol por semana, abaixo de 210 g: doença metabólica pura. Testes virais negativos, sem medicamento suspeito. A alanina está em 2,3 vezes o limite, e é a primeira vez que alguém a mede.
a conta
FIB-4 = (36 × 52) ÷ (250 × √96) = 1.872 ÷ 2.450 = 0,76. Abaixo de 1,3: fibrose avançada improvável pelas duas diretrizes brasileiras. Sei também que o escore é proporcional à idade — aos 36 anos, o mesmo fígado daria um número bem menor do que daria aos 60 —, e por isso um resultado baixo com aminotransferase acima de duas vezes o limite tranquiliza sobre fibrose, mas não encerra a investigação da enzima.
o que falta decidir
Complete: o que se pede agora sobre a aminotransferase, qual é o plano de tratamento em números, quando se refaz a conta de fibrose e em que situação, pelo protocolo do TelessaúdeRS, Didimo vai à gastroenterologia.
Ver como fecharíamos
Agora: repetir aspartato e alanina para confirmar se a elevação persiste, como manda o Quadro 4 do protocolo do TelessaúdeRS, e, se persistir, completar a lista curta do mesmo quadro — fator antinuclear, anticorpo antimúsculo liso e imunoglobulina G; ferritina e saturação de transferrina —, junto com hemograma, albumina, bilirrubinas e tempo de protrombina, que um eventual encaminhamento vai exigir com data. Não se repete o ultrassom e não se pede biópsia. Tratamento: meta de perda de 5% do peso, 4,9 kg, chegando a 93,1 kg, como primeiro degrau, e de 10%, 9,8 kg, chegando a 88,2 kg, como meta final; 150 minutos ou mais de atividade física por semana, com exercício resistido; padrão de dieta mediterrâneo, sem bebida adoçada e com menos ultraprocessado; álcool reduzido ao mínimo; e a glicemia de jejum de 104 entra no seguimento de pré-diabetes pelo capítulo Diabetes tipo 2 na unidade básica, com o risco cardiovascular estratificado pela régua de dislipidemias. Conta de fibrose: com síndrome metabólica, a cada 2 anos, que é o intervalo que a diretriz conjunta sugere para quem tem fator de risco e não tem fibrose avançada. Encaminhamento: pelo Protocolo 4 do TelessaúdeRS, se a alanina seguir em 1,5 vez o limite ou mais — 61,5 U/L ou mais neste laboratório — depois de seis meses de tratamento conservador com perda de pelo menos 5% do peso; e antes disso se a investigação da lista curta apontar outra causa, se a elevação passar de cinco vezes o limite ou se surgir sinal de cirrose.
O grau de esteatose do ultrassom não estadia a doença: o que prediz desfecho é a fibrose, e ela se estima primeiro com o FIB-4, que usa a idade e três exames que já estão na ficha. Aqui, (55 × 38) ÷ (190 × √45) dá 1,64 — acima de 1,3, o que pede elastografia como segunda etapa. Repetir ultrassom mede gordura, biópsia não é rotina e esteatose leve não é sinônimo de doença benigna.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Explique a diferença entre identificar esteatose, reconhecer risco metabólico e estimar fibrose. Calcule um FIB-4 com unidades conferidas e consulte os limites aplicáveis à idade e ao contexto clínico, evitando interpretar uma doença aguda como avaliação basal de fibrose. Diga o próximo passo para risco baixo, resultado intermediário ou alto. Sua resposta deve ligar o exame à decisão e explicar por que aminotransferases normais não excluem doença avançada.
Em 30 dias
Prepare dois retornos simulados: uma pessoa com baixo risco de fibrose que precisa de acompanhamento metabólico e outra com exame que exige elastografia ou avaliação especializada. Negocie alimentação, atividade e metas viáveis, considerando comorbidades, recursos e preferências. Explique como acompanhar resposta sem reduzir sucesso a um único número de peso. Reavalie álcool, diabetes, risco cardiovascular, medicamentos e sinais de progressão, com prazo definido para repetir a estratificação quando indicada.
Agora atenda
Uma mulher de quase 60 anos, com diabetes e pressão alta, chega à unidade básica com um ultrassom particular que fala em gordura no fígado e com medo de cirrose; os exames de meses atrás estão na ficha sem ninguém ter olhado. Atenda: dê o nome certo à doença, pergunte o álcool em quantidade, faça a conta de fibrose com os exames que já existem, decida o próximo exame e o que não pedir, monte o plano de peso com número e explique por que o coração entra na consulta do fígado.
