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Clínica MédicaGastroenterologia

A icterícia que ainda não tem nome

Hepatite A e hepatites agudas: quadro, diagnóstico e prevenção

Quatro adultos com hepatite aguda na mesma terça-feira: o painel que dá nome à causa, os sinais que decidem onde o paciente dorme hoje, e a vacina, a notificação e o afastamento que protegem quem mora e trabalha com ele

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. v. 2, capítulo Hepatites virais, p. 483-498

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais. Manual técnico para o diagnóstico das hepatites virais. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2018

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Instrução normativa do Calendário Nacional de Vacinação 2026. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2026 (atualizada em 17 jul. 2026)

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2023. ISBN 978-65-5993-501-7

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025. Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes. Diário Oficial da União, republicada em 21 jan. 2026; ed. 14, seção 1, p. 78

01

Responda antes de ler

Mulher de 63 anos, sem doença hepática conhecida, está ictérica há oito dias. Há três dias tinha alanina aminotransferase de 4.100 U/L e INR de 1,3. Hoje chega à unidade de pronto atendimento sonolenta, com respostas lentas desde a noite anterior, alanina aminotransferase de 1.500 U/L, bilirrubina total de 13 mg/dL, INR de 2,7 e glicemia capilar de 58 mg/dL. Não usou paracetamol. Qual é a conduta mais adequada neste momento?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, sete e meia da manhã, unidade de pronto atendimento de uma capital do Sudeste. A primeira ficha do dia é de Theodora Gondim, 61 anos, costureira aposentada, trazida pela filha. Está amarela há nove dias. Três dias atrás passou na unidade básica, onde colheram exames e marcaram retorno para sexta: o papel que a filha traz na bolsa mostra alanina aminotransferase de 3.900 U/L, bilirrubina total de 7,8 mg/dL e INR de 1,4. Desde ontem à noite, conta a filha, a mãe “trocou o dia pela noite”: dormiu a tarde inteira, acordou de madrugada querendo arrumar a casa e hoje responde devagar, com frases que não terminam. A glicemia capilar da triagem é 54 mg/dL. Ninguém na sala de espera parece mais doente que ela — e é justamente essa a primeira coisa que o interno precisa enxergar.

Na cadeira ao lado está Galdino Modesto, 34 anos, cozinheiro de um restaurante de comida a quilo no centro. Há seis dias sente o corpo moído, teve febre baixa por três noites, enjoa ao sentir cheiro de comida — logo ele, que passa o dia no fogão — e diz que o cigarro “ficou com gosto de ferrugem”. Há três dias a urina saiu cor de café; ontem a mulher reparou que o branco do olho estava amarelo. Chega andando, conversa bem, pede um remédio para o enjoo e um atestado de dois dias, porque na sexta tem evento no restaurante. Os exames que ele ainda não colheu vão mostrar alanina aminotransferase de 2.380 U/L — quase o dobro da de Theodora — com INR de 1,2.

Às nove chega Florêncio Palma, 47 anos, pedreiro. Bebe cerca de meio litro de cachaça por dia há quinze anos e parou há cinco dias, porque o estômago deixou de aceitar. Está amarelo há três semanas, a barriga cresceu, tem febre de 37,9 °C e as mãos tremem ao assinar a ficha. O fígado desce quatro dedos abaixo da costela e dói ao toque. Os exames da tarde vão trazer aspartato aminotransferase de 212 U/L, alanina de 84 U/L, bilirrubina total de 11,8 mg/dL, tempo de protrombina de 24,6 segundos contra 12,4 do controle e 16.400 leucócitos.

A quarta é Dalva Aguiar, 38 anos, professora, com hipotireoidismo por tireoidite de Hashimoto tratado com levotiroxina há seis anos. Há dois meses se sente cansada; há dez dias os olhos amarelaram. Não bebe e, perguntada item por item — remédio de farmácia, chá, cápsula, suplemento, produto para emagrecer —, nega tudo nos últimos três meses. Alanina aminotransferase de 890 U/L, aspartato de 760 U/L, bilirrubina total de 7,4 mg/dL, INR de 1,4. Pediu atendimento porque uma colega de escola teve hepatite A em agosto e ela tem medo de ter pegado.

O preceptor reúne os quatro prontuários na mesma pilha e faz a pergunta que organiza o plantão: “Quatro icterícias. Antes de saber a causa de cada uma, quem dorme em casa hoje?” A resposta não sai da maior transaminase. Galdino tem a enzima mais alta e é, dos quatro, o que vai para casa; Theodora tem a enzima caindo e é a única que precisa de um centro de transplante antes do fim do dia. A magnitude da aminotransferase diz que há necrose de hepatócito; quem diz quanto fígado sobrou para trabalhar são o tempo de protrombina, a glicemia e o estado mental.

A segunda pergunta vem logo depois, e é a que o interno costuma esquecer: quem mais está em risco por causa de cada um desses pacientes? Galdino prepara comida para duzentas pessoas por dia. Em casa, divide o banheiro com a mulher, Basília Gouveia, de 32 anos, e com a filha de três anos. Florêncio e Dalva não transmitem nada a ninguém, mas podem ter uma doença que só se trata com remédio de especialista — e Florêncio, uma abstinência que não espera.

Às dez e meia, Basília chega com a filha no colo e o cartão de vacina da menina na mão. A família mudou de cidade quando a criança tinha um ano e três meses, e a dose da vacina contra hepatite A daquela idade não está anotada. É neste ponto que o capítulo começa: pela icterícia que chega sem nome, pelos sinais que decidem o destino no mesmo dia, pelo painel que dá nome à causa sem pedir exame demais — e pela vacina, pela notificação e pelo afastamento, que são o tratamento que chega a quem ainda não adoeceu.

03

Quem adoece disso

A hepatite A voltou a crescer no Brasil. O Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais de julho de 2026 mostra a incidência nacional descendo até 0,2 caso por 100 mil habitantes em 2020 e 2021 e subindo depois disso, ano a ano: 0,4 em 2022, 1,1 em 2023, 1,7 em 2024 e 2,2 casos por 100 mil em 2025. Foram 4.639 casos confirmados no último ano, 26,1% a mais que os 3.680 de 2024. Como os dados dos últimos cinco anos são preliminares, o número definitivo tende a ser maior, não menor.

O retrato de quem adoece mudou junto. Somando 2000 a 2025, as regiões Nordeste e Norte concentram 52,5% dos 179.789 casos, e quase metade deles ocorreu em crianças com menos de dez anos. Em 2025 o desenho é outro: o Sudeste registrou 3.194 casos, 68,9% do país, com taxa de 3,6 por 100 mil, seguido do Sul, com 2,7; Nordeste e Norte ficaram em 0,4 e 0,3. As maiores taxas por idade estiveram nos adultos de 30 a 34 e de 25 a 29 anos (5,2 e 5,1 por 100 mil), os homens adoeceram 2,3 vezes mais que as mulheres, e entre os homens dessas duas faixas a taxa chegou a 7,9 e 7,6. Nove capitais passaram da taxa nacional, com Florianópolis, Campo Grande e Belo Horizonte acima de 18 casos por 100 mil. Galdino, homem de 34 anos numa capital do Sudeste, é o paciente típico de 2025.

A mudança tem uma lógica que o Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais descreve: onde o saneamento é precário, o vírus circula cedo e quase toda criança se infecta sem saber; onde o saneamento melhora, a infecção se desloca para adolescentes, adultos e idosos, e nesses ela é mais sintomática e eventualmente grave. O Manual Técnico para o Diagnóstico das Hepatites Virais dá a proporção: a forma ictérica aparece em 5% a 10% das crianças menores de seis anos e em 70% a 80% dos adultos. Um adulto que não se infectou na infância e não foi vacinado chega à idade de maior risco de icterícia suscetível. O boletim de 2026, ao orientar a investigação dos casos, manda perguntar por água e alimentos, locais frequentados no período de incubação, viagens, eventos e ambientes coletivos — e por práticas sexuais com possibilidade de transmissão fecal-oral, que o Guia de Vigilância em Saúde e o protocolo de profilaxia pré-exposição ao HIV também reconhecem como via.

Morrer de hepatite A é raro, e não é zero. Foram 1.061 óbitos com a hepatite A como causa básica entre 2000 e 2025 e 40 em 2025, com 19 deles em pessoas de 60 anos ou mais. O Manual Técnico registra que a infecção acima dos 50 anos evolui de forma mais grave, com icterícia em mais de 70% dos pacientes, e que há evolução para hepatite fulminante; o Guia de Vigilância em Saúde dá letalidade de 40% a 80% para a hepatite fulminante de qualquer vírus. Theodora, com 61 anos, está no grupo que concentra as mortes.

A hepatite E aparece pouco na notificação: 1.984 casos confirmados em 26 anos, 0,2% de todas as hepatites virais registradas no Sinan. O próprio boletim diz que ela é menos frequente na rotina de vigilância e deve ser considerada por critérios clínicos, epidemiológicos e laboratoriais — o que significa que é pouco testada, e que número baixo de caso confirmado não é o mesmo que doença ausente. O Guia de Vigilância em Saúde registra que suínos, roedores e aves podem ser reservatórios de alguns genótipos, o que faz parte da hepatite E uma zoonose, e que não há vacina contra ela disponível no Brasil.

As outras duas causas que este capítulo assume têm números menos precisos. Para a hepatite autoimune, o protocolo do Ministério cita prevalência de cerca de 17 casos por 100 mil habitantes e incidência anual de 1,9 por 100 mil em estatísticas do norte da Europa, e diz que no Brasil a incidência não é plenamente conhecida — um inquérito nacional apresentado em 2001 a encontrou em 3,3% das hepatopatias crônicas. Cerca de 30% dos pacientes abrem o quadro de forma aguda, com icterícia intensa, que é o jeito como Dalva chegou. Para a hepatite alcoólica, o manual de cuidados intensivos da Sociedade Brasileira de Hepatologia e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira situa o maior risco de doença alcoólica do fígado a partir de 40 g de etanol por dia no homem e 20 g na mulher, observa hepatite alcoólica em 20% a 40% desses casos e estima em torno de 50% a mortalidade dos que chegam a ser internados. O meio litro diário de cachaça de Florêncio passa com folga da faixa de risco.

04

Por que acontece o que acontece

O vírus da hepatite A entra pela boca e sai pelas fezes, e o fígado fica no meio do caminho. O Manual Técnico para o Diagnóstico das Hepatites Virais descreve a rota: por resistir ao pH ácido, o vírus atravessa o estômago, replica-se no tubo digestivo, cruza o epitélio intestinal e chega ao fígado pelo sistema porta. Replica-se dentro do hepatócito, sai pelos canalículos biliares, desce com a bile para o intestino e é eliminado nas fezes. Água, alimento manipulado por mão contaminada, contato íntimo dentro de casa e sexo com contato boca-ânus são apenas maneiras diferentes de fechar esse ciclo em outra pessoa. A hepatite E, que o Guia de Vigilância em Saúde agrupa com a A pela mesma via fecal-oral, faz trajeto parecido.

O que machuca o fígado não é o vírus: é a resposta contra ele. O manual divide a infecção em duas fases — uma fase não citopática, em que o vírus se multiplica no citoplasma do hepatócito sem destruí-lo, e uma fase citopática, com infiltração inflamatória do tecido — e afirma que o dano hepatocelular é mediado pela resposta imune do hospedeiro. Uma resposta forte, que derruba rapidamente o RNA viral, está associada à hepatite aguda e, eventualmente, à forma fulminante. É por isso que a doença aparece quando o organismo já está vencendo o vírus, e é por isso que não existe antiviral para a hepatite A: quando há sintoma, o que falta tratar é a consequência da batalha.

Esse descompasso tem uma consequência prática que atravessa o capítulo inteiro: o paciente transmite antes de adoecer. O manual encontra vírus nas fezes cerca de uma a duas semanas depois da exposição e situa a transmissão de duas semanas antes até pelo menos uma semana depois do início da icterícia; para o Guia de Vigilância em Saúde, a transmissibilidade começa duas semanas antes dos sintomas e vai até o término da segunda semana de doença. Quando Galdino percebeu os olhos amarelos, a mulher, a filha e a clientela do restaurante já tinham convivido com ele durante o período de maior eliminação. O afastamento protege quem ainda não se expôs; para quem já se expôs, sobra a vigilância do período de incubação — de 15 a 45 dias pelo Guia, até 50 pelo texto do manual — e, onde houver indicação, a vacina.

A necrose do hepatócito derrama no sangue as enzimas que ele guardava. O Guia de Vigilância em Saúde descreve a curva da forma aguda: a alta das aminotransferases antecede a icterícia em mais ou menos sete dias, chega a 25 a 100 vezes o valor normal e se desfaz em três a seis semanas. A bilirrubina sobe depois delas, com predomínio da fração conjugada, e aparece na urina antes de aparecer na pele — a colúria que Galdino notou três dias antes da icterícia. O hepatócito doente ainda conjuga a bilirrubina, mas não consegue excretá-la para o canalículo, e a bile que não chega ao intestino deixa as fezes claras.

Nada disso mede quanto fígado sobrou. A enzima no sangue mede a velocidade com que hepatócitos estão morrendo; a função está em outros números. O fígado fabrica os fatores de coagulação que o tempo de protrombina avalia, sustenta a glicemia entre as refeições e retira da circulação as substâncias nitrogenadas cujo acúmulo altera o nível de consciência. Quando a massa funcional cai, o INR alarga, a glicemia despenca e a encefalopatia começa pela troca do dia pela noite. Transaminase que cai enquanto o INR sobe não é melhora. A enzima baixa tanto quando a necrose termina porque o fígado se recuperou quanto quando termina porque restam poucos hepatócitos para necrosar, e é o INR que diz qual das duas leituras vale. Entre sábado e terça, Theodora trocou uma alanina de 3.900 por uma de 1.340 e um INR de 1,4 por um de 2,9.

O ritmo em que isso acontece muda o prognóstico, e de um jeito que contraria a intuição. O capítulo de insuficiência hepática aguda grave do manual da Sociedade Brasileira de Hepatologia e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira classifica o quadro pelo intervalo entre icterícia e encefalopatia: hiperaguda até uma semana, aguda de uma a quatro, subaguda de quatro a doze. Nas hiperagudas — paracetamol, vírus A e E — há mais coagulopatia e mais edema cerebral, mas a sobrevida sem transplante chega a 80%; nas subagudas — droga que não o paracetamol, hepatite autoimune — a coagulopatia é discreta, a icterícia é intensa, o edema cerebral é raro e a sobrevida sem transplante cai a 15%. A doença que anda devagar engana quem a acompanha, e é por isso que a janela que define a urgência importa tanto.

A hepatite E tem particularidades que explicam as perguntas a mais que ela exige. O Manual Técnico descreve genótipos com reservatórios diferentes: os tipos 1 e 2 só têm o ser humano como hospedeiro, e o tipo 1 está ligado a grandes surtos por contaminação do abastecimento de água; o tipo 3 circula em rebanhos suínos e o tipo 4 é zoonose, com casos esporádicos por ingestão de alimento de origem animal. A cronificação só foi relatada em imunossuprimidos. Na gestação, o Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério registra que a doença vai do quadro leve à falência hepática com alta mortalidade e que evolui mais vezes para a forma fulminante do que fora dela.

As duas causas não virais que este capítulo assume têm mecanismos opostos entre si. A hepatite alcoólica, diz o manual de cuidados intensivos, é a exacerbação de uma doença hepática que já era crônica — por isso o próprio livro considera impróprio chamá-la de aguda —, com necrose hepatocelular, balonização, infiltrado de neutrófilos e corpúsculos de Mallory, sobretudo em torno da veia centrolobular. A hepatite autoimune, pelo protocolo do Ministério, é um ataque do sistema imune ao próprio hepatócito, com hepatite de interface na biópsia, gamaglobulina elevada e autoanticorpos — fator antinuclear e antimúsculo liso no tipo 1, anti-LKM1 no tipo 2. A primeira melhora quando o álcool sai e a inflamação é contida; a segunda só melhora com imunossupressão, e é por isso que confundi-la com uma virose que “vai passar” custa fígado.

Transmissão oral do HAV, chegada ao fígado pela circulação portal e eliminação biliar e fecal.
O esquema relaciona exposição fecal-oral, replicação hepática e eliminação pela bile e pelas fezes. A excreção pode preceder a icterícia, o que ajuda a explicar exposições já ocorridas quando o diagnóstico é reconhecido. Circulação portal e via biliar são trajetos distintos. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

Hepatite aguda é uma síndrome antes de ser um diagnóstico: icterícia recente, urina escura, fezes claras e aminotransferases na casa das centenas ou dos milhares, num fígado que até ali funcionava. Este capítulo é dono dela no adulto que chega sem causa definida, da hepatite A e da hepatite E, e — até onde o interno reconhece, estratifica e encaminha — da hepatite alcoólica e da hepatite autoimune, que nenhum outro capítulo do Internato assume. A leitura do padrão das provas hepáticas e a insuficiência hepática aguda como entidade são do capítulo Provas hepáticas, da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e aqui são usadas sem ser reescritas: o que é deste capítulo é a hepatite aguda como doença e o destino do paciente. A hepatite B aguda é do capítulo Hepatite B e a hepatite C, do capítulo Achar é mais difícil que curar, os dois desta apostila; a intoxicação por paracetamol é de O antídoto é a menor parte, na apostila de Toxicologia.

Competência ao final deste capítulo. Reconhecer a hepatite aguda e percorrer a lista de causas na primeira consulta; pedir o painel mínimo e recusar o que não ajuda; separar em minutos quem vai para casa, quem interna e quem precisa de centro de transplante; notificar, afastar e proteger os contatos pela régua do SUS; e suspeitar, estratificar e encaminhar a hepatite alcoólica e a autoimune antes que o tempo de protrombina decida por você.

Pródromo, icterícia, convalescença

O Guia de Vigilância em Saúde descreve três tempos. O período prodrômico vem depois da incubação e antes da icterícia, com sintomas que não apontam para o fígado: anorexia, náusea, vômito, diarreia ou, raramente, constipação, febre baixa, cefaleia, mal-estar, fadiga, aversão a sabores e cheiros, dor muscular, fotofobia, desconforto no hipocôndrio direito, urticária, artralgia e exantema. É a fase em que o paciente recebe diagnóstico de virose e vai embora — e é também a fase de maior eliminação do vírus. O Manual Técnico acrescenta que, na hepatite A, o início costuma ser abrupto e que diarreia ocorre em cerca de metade das crianças, mas é incomum no adulto.

Com a icterícia, os sintomas do pródromo em geral diminuem. O paciente se sente um pouco melhor justamente quando fica amarelo, e isso confunde família e médico nas duas direções: alguns acham que piorou quando melhorou, outros acham que melhorou quando começou a falência. No exame, o Guia descreve hepatomegalia dolorosa e, ocasionalmente, esplenomegalia. A colúria costuma chegar antes da icterícia, porque a bilirrubina conjugada aparece na urina antes de se acumular na pele, e as fezes clareiam enquanto a bile não chega ao intestino.

A convalescença começa quando a icterícia some. A recuperação completa leva algumas semanas, mas cansaço e fraqueza podem durar meses, e é bom dizer isso ao paciente antes que ele volte achando que recaiu. O Manual Técnico lembra que muitos casos são subclínicos, só com fadiga, anorexia, náusea e mal-estar, e que a idade muda a proporção: criança pequena quase não fica ictérica; adulto fica na maioria das vezes; acima dos 50 anos a doença é mais grave.

O exame que separa a hepatite simples da grave

A pergunta do exame físico não é “o fígado está grande?”, e sim “o fígado ainda dá conta?”. Três achados respondem. O primeiro é o estado mental: sonolência de dia e agitação à noite, respostas lentas, frases que não terminam, desorientação, tremor em bater de asas das mãos estendidas. Na hepatite aguda sem doença hepática prévia, qualquer um deles faz o quadro virar insuficiência hepática aguda até prova em contrário, como ensina o capítulo Provas hepáticas; a graduação da encefalopatia está no capítulo Quatro perguntas, todo dia, sobre cirrose, desta apostila. O segundo é sangramento espontâneo — gengiva, punção que não para, equimose sem trauma. O terceiro é a hipoglicemia, que se procura com glicemia capilar e não com a impressão de que o paciente está só cansado.

O exame também procura o que não é hepatite aguda. Ascite volumosa, aranhas vasculares, eritema palmar, circulação colateral e baço grande sugerem doença hepática crônica por baixo — cirrose que descompensou, hepatite autoimune que vinha em silêncio, hepatite alcoólica sobre um fígado já doente. O manual de cuidados intensivos da Sociedade Brasileira de Hepatologia e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira trata a ascite, ao lado do tempo de protrombina abaixo de 50% e do INR acima de 2, como marca de hepatite aguda grave, para a qual o fluxo do livro propõe considerar a internação. E febre alta desde o primeiro dia, ou uma exposição que o paciente só conta quando perguntado — enchente, mata, viagem —, empurra a lista para as doenças febris que também deixam amarelo, do tópico seguinte.

O que parece hepatite viral e não é

O Guia de Vigilância em Saúde organiza o diagnóstico diferencial pelo momento do quadro. No pródromo, mononucleose infecciosa, toxoplasmose, citomegalovirose e outras viroses — nessas, a elevação das aminotransferases costuma parar por volta de 500 UI/L. Na fase ictérica, leptospirose, febre amarela, malária e dengue grave — a pergunta sobre onde essa pessoa esteve nas últimas semanas, e o manejo delas, são do capítulo Onde essa pessoa esteve, da apostila de Infectologia. Há ainda as hepatites alcoólica, medicamentosa, autoimune e a transinfecciosa, que acompanha a sepse; as icterícias hemolíticas; e a colestase extra-hepática por cálculo, tumor ou linfonodo. A icterícia obstrutiva é de Onde a bile para, na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo; colecistite e colangite, de A mesma pedra, três destinos e de Bile sob pressão, na de Urgência e Emergência Cirúrgica.

A lesão por medicamento, chá, suplemento e produto de manipulação merece pergunta própria, item por item, porque o paciente não conta como remédio o que comprou sem receita. O registro de tudo o que foi usado nas últimas doze semanas é ensinado no capítulo Provas hepáticas. O manual de cuidados intensivos lista entre as drogas mais associadas à insuficiência hepática aguda grave o paracetamol, o halotano, a isoniazida, a rifampicina, a metildopa, os anti-inflamatórios não esteroides, as sulfonamidas, a flutamida, o valproato, a carbamazepina e o ecstasy, além de ervas, fitoterápicos e cogumelos do gênero Amanita. A hepatotoxicidade do esquema para tuberculose é do capítulo Tuberculose: a pergunta que ninguém faz, da apostila de Infectologia.

Na gestante, icterícia com aminotransferase alta tem diferenciais que só existem na gravidez — esteatose aguda, síndrome HELLP, colestase intra-hepática —, e eles são do capítulo Uma coça, a outra vomita, da apostila de Obstetrícia. Este capítulo fica com a hepatite viral na gestante, que é um dos diferenciais daquele.

Hepatite alcoólica: o etilista que ficou amarelo

O manual de cuidados intensivos descreve um espectro. Num extremo, o paciente sem sintoma, só com leucocitose, volume corpuscular médio aumentado, gama-glutamil transferase alta, aspartato aminotransferase de 2 a 6 vezes o normal e razão entre aspartato e alanina acima de 2. No outro, icterícia progressiva, ascite, encefalopatia, disfunção renal, coagulopatia, febre com ou sem infecção e desnutrição. O diagnóstico junta história de consumo de álcool, clínica, laboratório e, quando a gravidade pede intervenção, histologia. O Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes, de 2025, nomeia o critério do Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo dos Estados Unidos para o diagnóstico da forma aguda grave.

O padrão das enzimas é o que protege o interno de dois erros opostos. Pelo capítulo Provas hepáticas, a lesão causada só pelo álcool quase nunca leva as duas aminotransferases acima de 300 U/L: um etilista com alanina de 1.800 U/L tem outra coisa acontecendo além do álcool — vírus, droga, isquemia — e precisa do painel inteiro antes de ganhar o rótulo. Florêncio, com aspartato de 212, alanina de 84, razão de 2,5, bilirrubina de 11,8 mg/dL, leucocitose e febre, tem o desenho da hepatite alcoólica; o que falta saber é a gravidade e se há infecção, e isso é conta e exame, não impressão.

A febre de Florêncio é uma armadilha nas duas direções. A hepatite alcoólica pode dar febre sem infecção, e o paciente com hepatite alcoólica infecta com facilidade — por isso o manual manda rastrear foco antes de qualquer corticoide. O tremor, a ansiedade e o fato de ter parado de beber há cinco dias pedem avaliação de abstinência no mesmo atendimento: o manejo da síndrome de abstinência e a prevenção da encefalopatia de Wernicke são do capítulo A abstinência que não pode esperar, da apostila de Psiquiatria.

Hepatite autoimune: a icterícia que se passa por virose

O protocolo do Ministério da Saúde descreve três jeitos de começar. Em cerca de metade dos casos, o início é insidioso: fadiga, náusea, anorexia, perda de peso, desconforto abdominal, icterícia, lesões de pele, dor articular e muscular. Em cerca de 30%, o quadro é agudo, com icterícia intensa, e o protocolo insiste que identificar e tratar cedo é o que evita a progressão para insuficiência hepática. O restante é descoberto por acaso, numa aminotransferase alterada em exame de rotina. No exame podem aparecer hepatoesplenomegalia, ascite, eritema palmar, aranhas vasculares, edema e encefalopatia — sinais de que a doença, apesar de parecer aguda, pode já ter anos.

Três pistas de anamnese aumentam a probabilidade, e as três entram no escore diagnóstico do protocolo: ser mulher, ter outra doença autoimune — na própria pessoa ou em parente de primeiro grau — e não ter álcool, droga hepatotóxica nem marcador viral que explique o quadro. Dalva tem as três: é mulher, tem tireoidite de Hashimoto e nega álcool e produtos nos últimos três meses. O medo dela é a hepatite A da colega; a hipótese que o interno não pode deixar de escrever é a autoimune. O protocolo registra ainda que idosos têm mais chance de apresentar a doença sem sintoma e já com cirrose.

Hepatite E: parecida com a A, e com duas exceções

O Manual de Gestação de Alto Risco resume a hepatite E como doença de epidemiologia e quadro clínico muito semelhantes aos da hepatite A, mais prevalente onde o saneamento é precário, com incubação de duas a dez semanas. O Guia de Vigilância em Saúde dá 14 a 60 dias, com média de 42. Como a A, tipicamente causa doença aguda, e o manual manda conduzi-la pelas mesmas recomendações.

As exceções são duas. A primeira é a gestante: o mesmo manual registra que a doença vai do quadro leve e subclínico à forma fulminante com falência hepática e alta mortalidade, e que evolui mais vezes para hepatite fulminante na gravidez. A segunda é o imunossuprimido — transplantado, pessoa em quimioterapia ou em imunossupressão prolongada —, o único em quem o Manual Técnico registra relato de cronificação. Nos dois, icterícia com painel de hepatites A, B e C negativo não se encerra como “hepatite a esclarecer”: pede anti-HEV.

06

Como fechar o diagnóstico

Na hepatite aguda correm duas investigações ao mesmo tempo, e a segunda não espera a primeira: qual é a causa, e onde esse paciente vai dormir hoje. A causa se resolve em dias, com sorologia e história; o destino se decide em minutos, com estado mental, glicemia capilar e tempo de protrombina. Um interno que manda Theodora para casa aguardando o anti-HAV acertou o diagnóstico e errou o paciente.

Qual régua o Brasil usa? Para os marcadores das hepatites virais, o Manual Técnico para o Diagnóstico das Hepatites Virais, na 2ª edição, de 2018, e o capítulo de hepatites virais do Guia de Vigilância em Saúde, de 2024, que remete a ele. Para decidir quem vai para um centro de transplante, a lista de protocolos clínicos do Ministério não tem protocolo de insuficiência hepática aguda: a norma em vigor, o Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes de 2025, define quem entra em urgência máxima, e o fluxo de avaliação inicial que este capítulo usa é o do manual de cuidados intensivos da Sociedade Brasileira de Hepatologia e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira, de 2017. Para a hepatite autoimune, o protocolo clínico do Ministério de 2018. Hepatite alcoólica, hepatite A e hepatite E também não têm protocolo clínico federal: para a primeira, o regulamento de transplantes define a forma grave e o tratamento está no mesmo manual de 2017; para as outras duas, valem o manual de diagnóstico e o Guia.

1. O painel da primeira consulta

Todo adulto com hepatite aguda sai da primeira consulta com três grupos de exame colhidos. O primeiro mede a função e decide o destino: tempo de protrombina com INR, glicemia, creatinina, sódio e potássio, hemograma com plaquetas e albumina. O segundo define o padrão: aspartato e alanina aminotransferases, fosfatase alcalina, gama-glutamil transferase e bilirrubinas total e frações — lidos pela razão R ensinada no capítulo Provas hepáticas, que não se repete aqui. O terceiro começa a dar nome à causa: anti-HAV IgM, HBsAg e anti-HBc IgM, anti-HCV.

O Manual Técnico organiza o pedido do jeito que o laboratório do SUS o executa: quando chega uma solicitação de “sorologia de hepatite” sem os marcadores discriminados, o laboratório deve pesquisar o anti-HAV IgM junto com os fluxogramas de diagnóstico da hepatite B e da hepatite C. Pedir pelo nome evita que o anti-HAV total, que só diz se a pessoa já teve contato com o vírus ou foi vacinada, apareça no lugar do IgM. A interpretação do HBsAg e do anti-HBc IgM é do capítulo Hepatite B. Na suspeita de hepatite C aguda, lembre que o próprio manual dá ao anti-HCV uma janela de 33 a 129 dias nos ensaios de segunda geração, contra 22 dias do teste molecular: anti-HCV não reagente logo depois de uma exposição de risco não encerra a hipótese, e o que fazer com ela está em Achar é mais difícil que curar.

Completam a primeira consulta a ultrassonografia do abdome superior, para não chamar de hepatite a icterícia de uma via biliar dilatada, e três perguntas que nenhum exame substitui: tudo o que o paciente usou nas últimas doze semanas, quanto bebe em quantidade e tempo, e quem mais em casa, no trabalho ou no círculo sexual adoeceu. Na mulher em idade fértil, a possibilidade de gestação muda o diferencial e o risco da hepatite E, e se pergunta. Quando a transmissão pode ter sido sexual, a mesma consulta é a oportunidade de propor os testes de HIV, sífilis e hepatites B e C, como faz o protocolo de profilaxia pré-exposição na primeira consulta — o que se faz com o resultado é do capítulo HIV: quem se testa, e o que começa no mesmo dia, da apostila de Infectologia.

2. Anti-HAV: como ler e quando não pedir

O Guia de Vigilância em Saúde descreve o anti-HAV IgM como o marcador que define a hepatite A aguda: já positivo no segundo dia de sintomas, em queda depois da segunda semana e ausente por volta do terceiro mês. O anti-HAV IgG aparece na convalescença, persiste por toda a vida e está presente também em quem foi vacinado; o anti-HAV total soma os dois. Na prática, IgM reagente com clínica compatível é hepatite A aguda; anticorpo total positivo com IgM negativo significa contato antigo ou vacinação; os dois não reagentes, em quem tem hepatite aguda, afastam a A e, em quem está saudável, identificam o suscetível.

O mesmo marcador tem um limite que o Manual Técnico faz questão de escrever. Com sensibilidade de 100% e especificidade de 99%, o valor preditivo positivo do anti-HAV IgM é de 88%, e resultado falso-reagente acontece — por isso o teste deve ser feito só em pessoa com sintomas. Isso tem duas consequências. Não se pede anti-HAV IgM em aminotransferase discretamente alterada de exame de rotina, nem em contato sem sintoma. E contato assintomático com IgM não reagente não está liberado: pode estar no período de incubação, que dura semanas, e o IgM só aparece perto dos sintomas. O próprio manual escreve essa janela contada a partir da infecção, e a conta que mostra o erro está nas notas do bloco de critérios.

Em surto, a definição de caso do Guia dispensa exame para quem tem sintoma: indivíduo com suspeita clínica e vínculo epidemiológico com um caso confirmado por anti-HAV IgM é caso confirmado de hepatite A. Galdino é o caso com laboratório; o auxiliar de cozinha que adoecer daqui a três semanas, trabalhando no mesmo restaurante, será caso confirmado por vínculo. No imunossuprimido, o manual pede cautela na leitura de qualquer resultado.

3. Quando o painel volta negativo

Com A, B e C negativos, sem droga, sem álcool e com via biliar normal, a investigação passa para a segunda linha, e a ordem depende do quadro. Na hepatite aguda sem sinal de gravidade, esta apostila propõe três pedidos juntos: autoanticorpos com gamaglobulina ou IgG, anti-HEV, e — quando há febre, linfonodos e aminotransferase abaixo de 500 UI/L, o terreno em que o Guia coloca as viroses sistêmicas — sorologias para mononucleose e citomegalovírus. Na hepatite aguda grave não há tempo para segunda linha, e a tabela de avaliação etiológica da hepatite fulminante do manual de cuidados intensivos serve de lista para colher tudo no mesmo dia: além dos vírus hepatotrópicos, herpes simples, Epstein-Barr e citomegalovírus, nível sérico de paracetamol, autoanticorpos, cobre e ceruloplasmina com pesquisa de anel de Kayser-Fleischer para doença de Wilson, e ultrassonografia com Doppler para síndrome de Budd-Chiari e congestão hepática.

Para a hepatite E, o Guia de Vigilância em Saúde descreve o anti-HEV IgM como reagente de quatro a cinco dias após o início dos sintomas e ausente quatro a cinco meses depois, o anti-HEV IgG como marcador de infecção passada, presente na convalescença, e o HEV-RNA como o material genético do vírus; o Manual Técnico acrescenta que o RNA aparece nas fezes cerca de uma semana antes dos sintomas. O mesmo manual, e o Manual de Gestação de Alto Risco que o repete, orientam a suspeita em área não endêmica depois de excluídas as hepatites A, B e C e as infecções por Epstein-Barr e citomegalovírus, dando peso a viagem, procedência e surto ligado à água. Esta apostila adota um degrau a mais: gestante, imunossuprimido e quem tem exposição a suínos ou a carne de porco mal cozida recebem anti-HEV já no primeiro pedido de segunda linha, sem esperar história de viagem — porque o próprio Guia registra reservatório animal para parte dos genótipos, e porque nesses dois grupos de pacientes a doença é a que mais pesa.

O resultado da hepatite E tem uma armadilha de notificação. O quadro de interpretação do Guia chama de hepatite E aguda o anti-HEV total reagente com IgM reagente; a definição de caso confirmado, no mesmo capítulo, exige anti-HEV IgM e anti-HEV IgG reagentes ou HEV-RNA detectável. Paciente no começo do quadro, com IgM reagente e IgG ainda não reagente, tem hepatite E pelo quadro e ainda não é caso confirmado para o Sinan. O que se faz: conduzir como hepatite E, repetir o IgG em duas a três semanas ou pedir o RNA, e notificar quando a definição fechar. A conta está nas notas do bloco de critérios.

4. Os números que decidem o destino

O fluxo de avaliação inicial do manual de cuidados intensivos tem três degraus. Hepatite aguda grave — ascite, tempo de protrombina abaixo de 50% ou INR acima de 2 — já pede considerar internação e monitorar o estado neurológico. Qualquer encefalopatia hepática nesse paciente define insuficiência hepática aguda grave e manda transferir para um centro com transplante de fígado, onde se avaliam os critérios de indicação. E encefalopatia grau II, pH abaixo de 7,3, lactato acima de 2,7 mmol/L, INR acima de 6,5 ou creatinina acima de 3,4 mg/dL pedem terapia intensiva. Glicemia capilar se mede na chegada e se repete, porque o mesmo manual põe a hipoglicemia entre os distúrbios a monitorar com frequência.

Entre o INR normal e o INR acima de 2 há uma faixa que nenhum documento brasileiro resolve com número. O capítulo Provas hepáticas já manda acionar o especialista em fígado diante de hepatite aguda com tempo de protrombina alargado, sem esperar a sorologia. Esta apostila adota, para essa faixa, a regra do mesmo dia: INR acima do limite do laboratório e abaixo de 2, sem encefalopatia e com glicemia normal, não recebe alta sem conversa com o especialista no mesmo atendimento e sem novo INR marcado em até 24 horas; qualquer piora do INR, da glicemia ou do estado mental no intervalo transforma o caso em internação. É uma escolha desta apostila, por prudência diante de uma doença cujo pior desfecho anda em dias.

Os critérios de indicação de transplante e a definição de urgência máxima estão no capítulo Provas hepáticas, que os lê a partir dos artigos 130 e 146 do regulamento de 2025, e não se repetem aqui. Duas coisas deles importam ao interno que decide o destino. A primeira: a transferência para o centro não espera o paciente preencher o King's College — encefalopatia na hepatite aguda basta para ligar. A segunda: no ramo sem paracetamol dos critérios do King's College, uma das variáveis de mau prognóstico é a etiologia ser diferente dos vírus A ou B; a hepatite A em si não pesa contra o paciente, mas a idade acima de 40 anos, a icterícia por mais de sete dias antes da encefalopatia, o INR acima de 3,5 e a bilirrubina acima de 17,5 mg/dL pesam. Theodora soma duas dessas variáveis na chegada e já tem indicação de transferência.

Um último cuidado com o INR: ele é número de prognóstico, e o manual pede para não corrigi-lo com plasma ou outro hemoderivado antes da definição sobre transplante, a não ser diante de sangramento ativo ou de procedimento invasivo. O paciente com INR alto não está naturalmente anticoagulado, e o plasma dado para “melhorar o exame” apaga a informação que a equipe de transplante vai usar.

5. Hepatite alcoólica: a conta e o rastreio antes do corticoide

A gravidade da hepatite alcoólica se mede por escore, e o que o interno faz à beira do leito é a função discriminante de Maddrey, cuja fórmula o manual de cuidados intensivos traz: 4,6 multiplicado pela diferença entre o tempo de protrombina do paciente e o do controle, em segundos, somado à bilirrubina total em mg/dL. Acima de 32, o risco de morte em curto prazo é alto e há indicação de tratamento específico; o manual acrescenta que, sem tratamento, só metade dos pacientes com função discriminante acima de 32 chega viva aos 30 dias. Florêncio: 4,6 × (24,6 − 12,4) + 11,8 = 4,6 × 12,2 + 11,8 = 56,1 + 11,8 = 67,9. É hepatite alcoólica grave pela régua de 32. O regulamento de transplantes de 2025 aceita como alternativa o MELD 3.0 igual ou maior que 21, calculado em calculadora a partir de creatinina, bilirrubina, INR, sódio e albumina.

Antes de qualquer corticoide, o manual pede um rastreio que o interno já pode deixar pronto: sorologias para hepatite B, hepatite C e HIV; ultrassonografia para excluir outra causa de icterícia; radiografia de tórax, hemoculturas, urocultura e estudo do líquido ascítico para procurar foco infeccioso; função renal; controle da glicemia; e a lista de contraindicações ao corticoide — sepse, sangramento ativo, hepatite B e HIV, com a ressalva de que a infecção bacteriana já controlada não impede o tratamento. Florêncio tem ascite e febre: a paracentese diagnóstica entra no mesmo dia, com a técnica do capítulo Paracentese, da apostila de Procedimentos e Vias de Acesso, e a leitura do líquido, com a peritonite bacteriana espontânea, do capítulo Quatro perguntas, todo dia.

A biópsia hepática, que o manual chama de padrão-ouro, é considerada nos pacientes de alto risco, por via transjugular, e é decisão da equipe de hepatologia. Na falta dela, o mesmo fluxo aceita tratar diante de etilismo de longa data, perfil bioquímico sugestivo, função discriminante de 32 ou mais ou encefalopatia, e ausência de contraindicação.

6. Hepatite autoimune: o que o interno pede e o que é do especialista

O protocolo do Ministério define o diagnóstico da hepatite autoimune como soma de clínica, bioquímica, histologia e resposta ao tratamento, sempre depois de afastadas as causas virais, tóxicas e metabólicas. Corroboram o diagnóstico a gamaglobulina muito elevada, a aminotransferase que sobe proporcionalmente mais que a fosfatase alcalina, fator antinuclear, antimúsculo liso ou anti-LKM1 reagentes, antimitocondrial negativo e biópsia com hepatite de interface. O interno entrega a primeira metade: painel viral completo negativo, história de droga e álcool registrada, e FAN, antimúsculo liso, anti-LKM1, antimitocondrial e IgG colhidos.

A segunda metade é do especialista, e o protocolo explica por quê. Os dois escores que ele recomenda — o escore revisado, para quem não tem outra doença autoimune, e os critérios simplificados, para quem tem — dependem da histologia; nos simplificados, a evidência de hepatite na biópsia é indispensável, e o diagnóstico é provável com 6 pontos e definitivo com 7 ou mais. Dalva, por ter tireoidite de Hashimoto, seria avaliada pelos critérios simplificados. O que o interno não faz é esperar a biópsia para encaminhar, nem iniciar corticoide por conta própria: o protocolo manda tratar prontamente a apresentação aguda, e esse tratamento é prescrito por quem vai acompanhar a imunossupressão, depois de afastada a infecção. Se o INR subir ou aparecer encefalopatia, Dalva sai do ambulatório e entra no degrau de destino do tópico 4 — o manual de cuidados intensivos inclui a hepatite autoimune entre as causas de hepatite fulminante e propõe considerar imunossupressão com prednisona de 40 a 60 mg por dia nesse cenário.

07

Duas perguntas que correm juntas: onde dorme hoje, e qual é a causa

Duas perguntas correm em paralelo: qual é a causa da icterícia e qual é o risco de deterioração? Consciência, coagulação, glicemia, perfusão e função renal podem mudar o destino antes de a etiologia ficar pronta. A queda das aminotransferases só significa melhora quando acompanha recuperação clínica e da função hepática. O capítulo tem uma régua para cada decisão, e elas não se misturam. O destino se decide pelo fluxo de avaliação inicial do manual de cuidados intensivos da Sociedade Brasileira de Hepatologia e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (2017), com a urgência de transplante definida pelo Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes (2025); a causa viral, pelo Manual Técnico para o Diagnóstico das Hepatites Virais (2018) e pelo Guia de Vigilância em Saúde (2024); a hepatite autoimune, pelo protocolo do Ministério (2018); a hepatite alcoólica, pelo mesmo manual de 2017 e pelo regulamento de 2025; a vacina, pela instrução normativa do calendário de 2026, pelo Manual dos CRIE (2023) e pelo protocolo de profilaxia pré-exposição (2025). Onde nenhum documento dá o número, o fluxo diz que a escolha é desta apostila. As notas no fim registram sete trechos dessas fontes que mudam o que o aluno faz, cada um com a conta.

  1. 1Confirme que é hepatite aguda: icterícia recente ou aminotransferases elevadas num fígado sem doença conhecida, com padrão lido pela razão R do capítulo Provas hepáticas.
  2. 2Antes de pensar em causa, na chegada: estado mental, glicemia capilar e sinais de sangramento. Colha tempo de protrombina com INR, creatinina, eletrólitos e hemograma no mesmo acesso.
  3. 3Qualquer encefalopatia na hepatite aguda sem doença hepática prévia é insuficiência hepática aguda grave: transferência para centro com transplante de fígado, sem esperar sorologia nem King's College.
  4. 4Encefalopatia grau II, pH abaixo de 7,3, lactato acima de 2,7 mmol/L, INR acima de 6,5 ou creatinina acima de 3,4 mg/dL: terapia intensiva.
  5. 5Sem encefalopatia, com ascite, tempo de protrombina abaixo de 50% ou INR acima de 2: internação, com estado mental e glicemia monitorados.
  6. 6INR acima do limite do laboratório e abaixo de 2, consciência e glicemia normais: especialista no mesmo atendimento e novo INR em até 24 horas — escolha desta apostila.
  7. 7INR normal, consciência preservada, glicemia normal e aceitando líquido: casa, com retorno marcado, sinais de alarme por escrito e sem álcool.
  8. 8Painel da causa: anti-HAV IgM, HBsAg, anti-HBc IgM, anti-HCV, ultrassonografia, e as perguntas sobre droga, álcool, gestação e quem mais adoeceu.
  9. 9Anti-HAV IgM reagente com clínica compatível: hepatite A — notificar em até sete dias, afastar de cozinha, creche e serviço de saúde, orientar e vigiar os contatos.
  10. 10Painel negativo: FAN, antimúsculo liso, anti-LKM1 e IgG; anti-HEV; Epstein-Barr e citomegalovírus se houver febre, linfonodos e aminotransferase abaixo de 500 UI/L. Gestante e imunossuprimido recebem anti-HEV já neste degrau.
  11. 11Etilista com aspartato maior que alanina e enzimas abaixo de 300 U/L: calcular Maddrey. Com 32 ou mais, internar, rastrear infecção antes de qualquer corticoide e chamar a hepatologia.
  12. 12Mulher com outra doença autoimune, painel viral negativo e sem droga: suspeita de hepatite autoimune — autoanticorpos e IgG colhidos, hepatologia com prioridade; o corticoide é prescrito pelo especialista.
  13. 13Dois ou mais casos ligados pela mesma cozinha, água, casa ou evento: comunicar a vigilância epidemiológica do município no mesmo dia, sem esperar o segundo exame.
  14. 14Antes da alta de qualquer paciente com hepatite aguda: conferir quem na casa precisa de vacina pelo calendário ou pelo CRIE, e quem, sem indicação, recebe só a orientação de higiene e o prazo de vigilância.

Marcadores da hepatite aguda: o que o resultado diz, onde engana e o que se faz

MarcadorO que indicaOnde enganaO que o interno faz
Anti-HAV IgMHepatite A aguda: aparece a partir do 2º dia de sintomas e some em cerca de três mesesValor preditivo positivo de 88%: falso-reagente em quem não tem sintoma; não reagente em contato em incubaçãoPedir só em sintomático; reagente com clínica fecha o diagnóstico e dispara a notificação
Anti-HAV total ou IgGContato passado com o vírus ou vacina; persiste por toda a vidaPedido no lugar do IgM, parece diagnóstico e não éUsar para saber quem é suscetível antes de indicar vacina
Anti-HEV IgMInfecção recente pelo vírus E: reagente de 4 a 5 dias após os sintomas, some em 4 a 5 mesesSozinho, não fecha a definição de caso do SinanConduzir como hepatite E e repetir IgG ou pedir RNA para confirmar e notificar
Anti-HEV IgG e HEV-RNAIgG: infecção passada ou convalescença; RNA: vírus presenteIgG ainda não reagente no começo do quadroIgG repetido em 2 a 3 semanas ou RNA: com IgM e IgG reagentes, ou RNA detectável, é caso confirmado
HBsAg e anti-HBc IgMInfecção pelo vírus B; o IgM aponta a forma agudaLeitura do perfil completo depende de outros marcadoresColher no painel inicial e seguir o capítulo Hepatite B
Anti-HCV e HCV-RNAContato com o vírus C; o RNA mostra infecção ativaAnti-HCV pode demorar de 33 a 129 dias para ficar reagenteSuspeita de infecção recente: RNA; seguir Achar é mais difícil que curar
FAN, antimúsculo liso, anti-LKM1 e IgGPistas de hepatite autoimune, tipo 1 ou tipo 2, com gamaglobulina elevadaAutoanticorpo em título baixo aparece em outras doenças; o diagnóstico exige biópsiaColher com o painel viral negativo e encaminhar sem esperar a biópsia

Onde o paciente com hepatite aguda dorme hoje

Achado na chegada ou no primeiro exameDestinoRéguaO que não pode faltar
Encefalopatia de qualquer grau, sem doença hepática préviaCentro com transplante de fígadoManual SBH/AMIB 2017; urgência pelo art. 146 do regulamento de 2025Ligar antes do resultado da sorologia; glicemia capilar seriada; não corrigir INR com plasma sem sangramento
Encefalopatia grau II, pH abaixo de 7,3, lactato acima de 2,7 mmol/L, INR acima de 6,5 ou creatinina acima de 3,4 mg/dLTerapia intensivaManual SBH/AMIB 2017Proteção de via aérea quando o grau avança; avaliação dos critérios de transplante pela equipe
Ascite, tempo de protrombina abaixo de 50% ou INR acima de 2, sem encefalopatiaInternaçãoManual SBH/AMIB 2017Estado mental e glicemia a cada turno; INR diário; especialista em fígado
INR acima do limite do laboratório e abaixo de 2, consciente, glicemia normalDecisão no mesmo dia com o especialistaEscolha desta apostilaNovo INR em até 24 horas; piora de qualquer número vira internação
Hepatite alcoólica com Maddrey de 32 ou mais, ou MELD 3.0 de 21 ou maisInternação com hepatologiaManual SBH/AMIB 2017; art. 129 do regulamento de 2025Rastreio de infecção e paracentese antes do corticoide; avaliação de abstinência
Suspeita de hepatite autoimune com INR normal e sem encefalopatiaAmbulatório de hepatologia com prioridadeProtocolo da hepatite autoimune de 2018Autoanticorpos e IgG colhidos; INR repetido até a consulta
Hepatite aguda sem nenhum dos achados acima, aceitando líquidoCasaGuia de Vigilância em Saúde 2024: tratamento sintomáticoRetorno marcado, sinais de alarme por escrito, álcool proibido, notificação e afastamento quando for hepatite A

Vacina contra hepatite A no SUS em 2026: quem recebe e por qual porta

QuemEsquemaPorta de entradaRégua
Criança de 15 mesesDose únicaSala de vacina da rede públicaInstrução normativa do calendário de 2026
Criança que perdeu a dose dos 15 mesesUma dose o mais breve possível, até 4 anos, 11 meses e 29 diasSala de vacina da rede públicaInstrução normativa do calendário de 2026; esquemas de atraso no capítulo Retomar, não recomeçar
Suscetível a partir de 1 ano com hepatopatia crônica, hepatite B ou C crônica, coagulopatia, HIV, imunodepressão, doença de depósito, fibrose cística, trissomia, transplante ou doação de órgão, hemoglobinopatiaDuas doses com seis meses de intervaloCentro de Referência para Imunobiológicos EspeciaisManual dos CRIE, 6ª edição, 2023
Suscetível com asplenia anatômica ou funcionalDuas doses com seis meses de intervaloCentro de Referência para Imunobiológicos EspeciaisManual dos CRIE de 2023 — a lista reproduzida no Guia de Vigilância em Saúde não traz esta indicação
Pessoa em profilaxia pré-exposição ao HIV com anti-HAV IgG ou total não reagenteVacinação recomendadaPrescrição de imunizantes feita pelo serviço de PrEP, aplicada no serviço especializado, no centro de testagem ou na unidade básicaProtocolo de PrEP oral de 2025, que remete as indicações ao Manual dos CRIE
Contato adulto de caso, sem nenhuma condição acimaSem indicação no calendário, no Manual dos CRIE nem no Guia de Vigilância em SaúdeOrientação de higiene e vigilância de sintomas até 50 diasManual dos CRIE registra eficácia de 79% da vacina até 14 dias após a exposição, mas não lista a pós-exposição entre as indicações

Conversões do capítulo, num adulto de 68 kg

ItemDose ou contaApresentação no SUSEm unidades
Prednisona na hepatite alcoólica grave, quando a hepatologia indica40 mg VO uma vez ao dia (manual SBH/AMIB 2017)Comprimido de 20 mg ou de 5 mg (Rename 2024, Básico e Estratégico)2 comprimidos de 20 mg
Prednisolona em dose equivalente40 mg VO uma vez ao diaSolução oral de 3 mg/mL ou de 1 mg/mL (Rename 2024, Básico)13,3 mL da solução de 3 mg/mL ou 40 mL da de 1 mg/mL
Metilprednisolona sem via oral32 mg EV uma vez ao dia (manual SBH/AMIB 2017)Frasco de 500 mg (Rename 2024, Especializado)6,4% do frasco; o volume segue a reconstituição da bula do produto disponível
Acetilcisteína adjuvante, quando a equipe prescreveDia 1: 150 mg/kg em 30 min, 50 mg/kg em 4 h, 100 mg/kg em 16 h; dias 2 a 5: 100 mg/kg/diaNão consta da Rename 202410.200 mg, 3.400 mg e 6.800 mg no dia 1; 6.800 mg por dia do 2º ao 5º
Aporte nutricional na hepatite alcoólica35 a 40 kcal/kg/dia e 1,2 a 1,5 g de proteína/kg/diaDieta oral ou enteral2.380 a 2.720 kcal e 82 a 102 g de proteína por dia
Função discriminante de Maddrey4,6 × (TP do paciente − TP controle, em segundos) + bilirrubina total em mg/dLTempo de protrombina e bilirrubina do mesmo diaFlorêncio: 4,6 × (24,6 − 12,4) + 11,8 = 67,9
Vacina hepatite A no adulto do CRIEDuas doses IM com seis meses de intervaloVacina adsorvida hepatite A, apresentação adulto (Rename 2024, Estratégico)1,0 mL por dose nos produtos GSK (a partir de 19 anos) e Sinovac (acima de 16 anos); para o produto Butantan/MSD, a instrução de 2026 descreve só a dose pediátrica de 0,5 mL até 17 anos

O Guia de Vigilância em Saúde de 2024 define hepatite fulminante como icterícia, coagulopatia e encefalopatia num intervalo de até oito semanas, e o manual de cuidados intensivos de 2017 afirma que a legislação brasileira usa a janela de oito semanas entre icterícia e encefalopatia para priorizar o transplante. A norma em vigor mudou: o art. 146, I, do Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes (Portaria GM/MS nº 8.041/2025) define a urgência máxima por encefalopatia até doze semanas após o início da icterícia. A conta: icterícia no dia 0 e encefalopatia no dia 70 — fora pelas oito semanas (70 > 56 dias), dentro pelas doze (70 ≤ 84 dias). O paciente que mais perde com a régua velha é justamente o de evolução subaguda, que o mesmo manual descreve com sobrevida sem transplante de 15%. Lado declarado na primeira divergência.

O Quadro 7 do capítulo de hepatites virais do Guia de Vigilância em Saúde lista as condições em que o suscetível recebe a vacina hepatite A no CRIE e diz seguir o Manual dos CRIE, citando a edição de 2019. Conferida item a item contra a 6ª edição do Manual dos CRIE, de 2023, a lista do Guia traz todas as condições do manual menos uma: a asplenia anatômica ou funcional, décima quarta indicação da seção 10.6. A conta: adulto esplenectomizado após trauma, sem hemoglobinopatia e com anti-HAV total não reagente — fora pela lista do Guia, dentro pelo manual a que o próprio Guia remete. Lado declarado na segunda divergência.

No mesmo capítulo do Guia, o quadro de interpretação chama de hepatite E aguda o anti-HEV total reagente com anti-HEV IgM reagente, e a definição de caso confirmado exige anti-HEV IgM e anti-HEV IgG reagentes, ou HEV-RNA detectável. O texto do Guia diz que o IgM fica reagente de quatro a cinco dias após os sintomas e que o IgG está presente na convalescença. A conta: no sexto dia de sintomas, IgM reagente e IgG ainda não reagente — hepatite E aguda pelo quadro, caso não confirmado pela definição. Sem IgG repetido ou RNA, o caso não entra no Sinan como confirmado, e a hepatite E, que já soma só 1.984 confirmações em 26 anos, fica ainda mais subnotificada.

O Manual Técnico para o Diagnóstico das Hepatites Virais escreve que os imunoensaios detectam o anti-HAV IgM entre cinco e dez dias após a infecção, e a sua Tabela 4 dá ao vírus A janela diagnóstica de cinco a dez dias. O mesmo manual dá incubação média de 28 dias, de 15 a 50, e diz que o IgM aparece antes ou no momento dos sintomas. A conta: se o IgM surge perto dos sintomas e os sintomas surgem entre o 15º e o 50º dia, o IgM fica detectável por volta dessa mesma faixa, e não no 5º ao 10º dia. Quem lê a janela ao pé da letra testa o contato assintomático dez dias depois da exposição, recebe IgM não reagente e libera como não infectado alguém que ainda está incubando — inclusive o manipulador de alimentos que entraria no pico de eliminação duas semanas antes de adoecer.

A figura do fluxo de hepatite alcoólica do manual de cuidados intensivos de 2017 põe “transaminases > 400 UI/L” entre os sinais clínicos e laboratoriais da hepatite alcoólica grave, e o texto do mesmo capítulo descreve aspartato aminotransferase de 2 a 6 vezes o normal. A conta: com limite superior de 40 U/L, 2 a 6 vezes são 80 a 240 U/L, faixa que não toca os 400 da figura. Lida ao pé da letra, a figura rotula como hepatite alcoólica — e candidato a corticoide — o etilista com alanina de 1.800 U/L, que precisa ser investigado para vírus, droga e isquemia; o capítulo Provas hepáticas registra que, na lesão alcoólica, as duas enzimas raramente passam de 300 U/L. Este capítulo segue o texto, não a figura.

O mesmo capítulo do manual de 2017 afirma que, no Brasil, é necessária abstinência superior a seis meses antes da inclusão em lista de transplante. A norma em vigor é outra: o art. 127, § 1º, do regulamento de 2025 exige no mínimo três meses de abstinência para a doença hepática crônica de origem alcoólica, e o art. 129 cria a indicação por hepatite alcoólica aguda grave — primeira manifestação da doença hepática, MELD 3.0 de 21 ou mais ou Maddrey de 32 ou mais, Lille de 0,45 ou mais apesar do corticoide, suporte familiar e compromisso de abstinência documentados —, com uma lista de critérios própria que não inclui prazo de abstinência. A conta: paciente de 38 anos na primeira descompensação, parou de beber há 20 dias e não respondeu ao corticoide no sétimo dia — sem indicação pela régua de seis meses (20 dias < 180), candidato a avaliação pelo art. 129. Lado declarado na terceira divergência.

No fluxo de avaliação inicial da insuficiência hepática aguda grave do manual de 2017, um dos gatilhos de terapia intensiva é escrito como creatinina acima de 3,4 mg/mL. A unidade está errada por um fator de 100: 3,4 mg/mL são 340 mg/dL, valor que nenhum paciente vivo atinge, e o critério ficaria inerte. O corte é 3,4 mg/dL, o mesmo número que o art. 130 do regulamento de 2025 usa no ramo do paracetamol dos critérios do King's College. Este capítulo usa mg/dL.

08

A conduta, hora a hora

A conduta desta terça-feira vai das 7h35 às 17h30 e termina na terça seguinte. A ordem dos marcos é a da gravidade, não a da chegada: Theodora é atendida primeiro porque é a única que pode morrer antes do fim do dia, e Galdino, com a maior transaminase da sala, espera o segundo lugar sem prejuízo.

Cada marco traz o que se faz, o que se escreve e o que se diz. Onde a fonte dá dose ou prazo, o número está na linha; onde nenhum documento o fixa, a linha diz que a escolha é desta apostila. As conversões para um adulto de 68 kg estão na última tabela do bloco de critérios.

  1. 7h35 — Theodora: a encefalopatia decide antes da sorologia

    Icterícia há nove dias, sono trocado desde ontem, respostas lentas e glicemia capilar de 54 mg/dL, numa mulher sem doença hepática conhecida: é insuficiência hepática aguda grave até prova em contrário. O interno não precisa saber a causa para agir, e não precisa que ela preencha os critérios do King's College para ligar — o fluxo do manual de cuidados intensivos manda transferir para centro com transplante diante de encefalopatia na hepatite aguda, e é a equipe desse centro que pontua os critérios. O regulamento de 2025 conta a urgência até doze semanas de icterícia; Theodora está no nono dia. A alanina de 3.900 que caiu para 1.340 enquanto o INR subia de 1,4 para 2,9 vai na primeira frase da ligação, porque é a informação que mais pesa.

    Prescrição
    • Corrigir a hipoglicemia por via endovenosa agora e manter aporte contínuo de glicose, com glicemia capilar de hora em hora
    • Dois acessos venosos periféricos; cabeceira elevada; dieta oral só com deglutição segura
    • Colher no mesmo acesso: TP com INR, glicemia, creatinina, sódio, potássio, gasometria com lactato, hemograma, aminotransferases, fosfatase alcalina, bilirrubinas e albumina
    • Colher para a causa, tudo de uma vez: nível sérico de paracetamol, anti-HAV IgM, HBsAg, anti-HBc IgM, anti-HCV, anti-HEV, sorologias para herpes simples, Epstein-Barr e citomegalovírus, FAN, antimúsculo liso, anti-LKM1, IgG e ceruloplasmina
    • Não prescrever plasma nem outro hemoderivado para corrigir o INR sem sangramento ativo ou procedimento invasivo
    • Acionar a regulação para transferência a centro com transplante de fígado e falar com a equipe receptora, informando a linha do tempo de icterícia, encefalopatia, alanina, INR e glicemia
    • Registrar na evolução a hora de início da encefalopatia e o grau observado
  2. 8h05 — Galdino: hepatite aguda sem sinal de gravidade vai para casa

    Consciente, sem tremor em bater de asas, sem sangramento, glicemia capilar de 88 mg/dL, bebendo água sem vomitar. O INR chega às 9h30: 1,2. Pela tabela de destino, Galdino dorme em casa. O Guia de Vigilância em Saúde não tem tratamento específico para a forma aguda da hepatite A: sintomático para náusea, vômito e prurido, repouso relativo até as aminotransferases normalizarem e uma única restrição de dieta, o álcool. O que não pode esperar o resultado é a conversa sobre o trabalho — um cozinheiro com hepatite aguda de provável transmissão fecal-oral não volta ao fogão amanhã, com ou sem anti-HAV reagente.

    Prescrição
    • Colher: TP com INR, glicemia, creatinina, eletrólitos, hemograma, aminotransferases, fosfatase alcalina, gama-glutamil transferase e bilirrubinas
    • Colher pelo nome: anti-HAV IgM, HBsAg, anti-HBc IgM e anti-HCV
    • Ultrassonografia de abdome superior, pedida hoje
    • Antiemético só se a náusea impedir a hidratação oral — ondansetrona consta da Rename 2024 em comprimido de 4 mg e de 8 mg
    • Álcool suspenso; nenhum remédio, chá ou suplemento novo sem falar com a equipe; dieta livre conforme a aceitação; repouso relativo
    • Afastamento do trabalho em cozinha a partir de hoje, com atestado e com as datas de início dos sintomas e da icterícia anotadas no prontuário
    • Sinais de alarme por escrito: sonolência de dia ou confusão, vômito que impede beber, sangramento, piora do estado geral
    • Retorno com INR e bilirrubinas em 48 a 72 horas — prazo escolhido por esta apostila
  3. 11h20 — O anti-HAV de Galdino e o que se comunica

    O anti-HAV IgM veio reagente, e os marcadores das hepatites B e C que acompanharam o pedido vieram negativos. É hepatite A aguda e é caso confirmado pela definição do Guia. As hepatites virais são de notificação compulsória semanal na lista nacional de 2026, e o Guia pede o registro de todo caso confirmado e de todo surto no Sinan, em até sete dias. O caso de Galdino tem um agravante que não espera a semana: ele cozinha para o público, trabalhou no período de maior eliminação e o restaurante tem evento na sexta. O Guia prevê que, identificados os primeiros casos de hepatite A, se estabeleçam medidas sobre água, manipulação de alimentos e higiene junto à comunidade — e quem as estabelece é a vigilância, que só age se souber. O método da investigação de surto é do capítulo O terceiro caso, e o surto de origem alimentar, de Quem pode abrir a porta, os dois da apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva.

    Prescrição
    • Preencher hoje a ficha de notificação e investigação de hepatites virais do Sinan
    • Telefonar para a vigilância epidemiológica do município: cozinheiro de restaurante com hepatite A confirmada, início dos sintomas há seis dias, icterícia desde ontem, evento no local marcado para sexta
    • Entrevistar Galdino em lugar reservado sobre água, alimentos, locais e eventos das semanas antes dos sintomas, viagens, contatos doentes e práticas sexuais com possibilidade de transmissão fecal-oral
    • Propor os testes de HIV, sífilis e hepatites B e C se houver exposição sexual de risco
    • Entregar por escrito a data até a qual dura o afastamento, calculada no retorno a partir das datas registradas
  4. 11h40 — Basília e a filha: o que se oferece a quem já se expôs

    A menina tem três anos e não recebeu a dose dos 15 meses. A instrução normativa do calendário de 2026 manda dar a dose a quem perdeu a oportunidade, o mais breve possível, até 4 anos, 11 meses e 29 dias: ela recebe hoje, pela regra do calendário, e não por uma indicação de pós-exposição que o Manual dos CRIE não lista — o manual registra 79% de eficácia da vacina em até 14 dias após a exposição, benefício possível que a dose de hoje pode trazer, sem que seja essa a indicação. Basília é adulta e não tem nenhuma condição da lista do CRIE: pelos documentos federais, não há vacina nem imunoglobulina para ela, e a Rename 2024 não traz imunoglobulina específica contra hepatite A. O que protege Basília é higiene e vigilância, e o que o interno não faz é pedir anti-HAV IgM a quem não tem sintoma.

    Prescrição
    • Filha, 3 anos: vacina adsorvida hepatite A (inativada), 0,5 mL IM no deltoide ou no vasto lateral da coxa, dose única, registrada na caderneta
    • Não pedir anti-HAV IgM para Basília nem para a criança enquanto não houver sintoma
    • Lavar as mãos com água e sabão depois do banheiro, depois de trocar fralda e antes de preparar ou servir comida; toalhas de uso individual
    • Limpar vaso, pia e superfícies do banheiro com água sanitária diluída
    • Vigiar febre, enjoo, urina escura e olhos amarelos por até 50 dias após o último contato; havendo sintoma, consulta e exame
    • Informar a vigilância de que a criança frequenta creche, para que as medidas da instituição sejam decididas por ela
  5. 14h10 — Florêncio: a conta de Maddrey e o rastreio antes do corticoide

    Ascite, febre de 37,9 °C, fígado doloroso, aspartato de 212 U/L com alanina de 84 U/L, bilirrubina de 11,8 mg/dL e tempo de protrombina de 24,6 segundos contra 12,4 do controle. A função discriminante de Maddrey é 4,6 × 12,2 + 11,8 = 67,9: hepatite alcoólica grave, com internação. O manual de cuidados intensivos manda rastrear infecção, excluir outra causa de icterícia e listar contraindicações antes de qualquer corticoide, e a febre de Florêncio pode ser da própria hepatite ou de uma peritonite. Ele parou de beber há cinco dias e treme: a abstinência se avalia no mesmo atendimento. O corticoide é decisão da hepatologia depois do rastreio; se vier, o esquema do manual é prednisona 40 mg por dia com o modelo de Lille no sétimo dia.

    Prescrição
    • Internação em enfermaria clínica, com parecer da hepatologia hoje
    • Hemoculturas, urocultura e radiografia de tórax antes de qualquer antibiótico ou corticoide
    • Paracentese diagnóstica hoje, com celularidade diferencial e cultura do líquido ascítico
    • Sorologias para hepatite B, hepatite C e HIV; ultrassonografia de abdome
    • Creatinina, eletrólitos e glicemia; controle da glicemia
    • Avaliação e manejo da síndrome de abstinência e prevenção da encefalopatia de Wernicke pelo capítulo A abstinência que não pode esperar
    • Dieta oral ou enteral com 2.380 a 2.720 kcal e 82 a 102 g de proteína por dia, para 68 kg
    • Se a hepatologia indicar depois do rastreio: prednisona 40 mg VO uma vez ao dia (2 comprimidos de 20 mg), com Lille calculado no 7º dia
  6. 15h40 — Dalva: autoimune até prova em contrário

    Mulher, com tireoidite de Hashimoto, sem álcool e sem produto nenhum nos últimos três meses, com dez dias de icterícia e dois meses de cansaço: a hipótese que precisa ser escrita é hepatite autoimune, ao lado da viral que ela teme. O INR de 1,4 está acima do limite do laboratório e abaixo de 2, sem encefalopatia e com glicemia normal — a faixa em que esta apostila manda decidir com o especialista no mesmo dia e repetir o INR em até 24 horas. O protocolo do Ministério manda tratar prontamente a apresentação aguda, mas o corticoide é prescrito por quem vai acompanhar a imunossupressão, depois de afastadas as causas virais e a infecção. O papel do interno é deixar o painel colhido e o especialista informado hoje.

    Prescrição
    • Colher: anti-HAV IgM, HBsAg, anti-HBc IgM, anti-HCV, FAN, antimúsculo liso, anti-LKM1, antimitocondrial e IgG
    • Ultrassonografia de abdome superior
    • Discutir o caso com a hepatologia hoje: internação ou consulta em até 24 horas, com a decisão registrada
    • INR, bilirrubinas e glicemia na manhã seguinte — escolha desta apostila para a faixa de INR entre o limite e 2
    • Não iniciar corticoide antes da avaliação do especialista
    • Anotar para o seguimento: anti-HAV total e marcadores de hepatite B, para vacinação no CRIE se a imunossupressão for confirmada
  7. Quarta, 10h — O anti-HAV de Theodora e a família dela

    O centro de transplante liga de volta: Theodora está na terapia intensiva, com encefalopatia grau II, INR de 3,3 e anti-HAV IgM reagente; o nível de paracetamol veio indetectável. É hepatite A com insuficiência hepática aguda grave numa mulher de 61 anos — a faixa etária que concentra as mortes. A avaliação para transplante segue com a equipe de lá, pelos artigos 130 e 146 do regulamento. Para a unidade de origem sobram duas tarefas que costumam ficar sem dono: notificar o caso e cuidar de quem mora com ela.

    Prescrição
    • Notificar a hepatite A de Theodora no Sinan, informando a internação, e atualizar a ficha com o desfecho
    • Ligar para a filha: higiene das mãos e do banheiro, vigilância de sintomas por até 50 dias, sem exame enquanto não houver sintoma
    • Perguntar se alguém na casa tem hepatopatia crônica, HIV, imunodepressão ou outra condição do CRIE — quem tiver e for suscetível tem indicação de vacina
    • Registrar na evolução da unidade o horário da ligação ao centro, o destino e o resultado recebido
  8. Terça seguinte — o retorno de Galdino e o sétimo dia de Florêncio

    Galdino volta com INR de 1,1, bilirrubina total de 3,9 mg/dL e alanina de 780 U/L, comendo melhor e ainda cansado. As datas anotadas decidem o afastamento: os sintomas começaram numa quarta-feira, que é o dia zero, e a icterícia no dia cinco. O Guia de Vigilância em Saúde dá a transmissibilidade até o fim da segunda semana de doença, o dia 14; o Manual Técnico, até pelo menos uma semana depois do início da icterícia, o dia 12. Esta apostila adota, para quem manipula alimento ou cuida de criança, a data mais tardia das duas: Galdino fica afastado até o dia 14, a quarta-feira desta semana, e volta na quinta. No hospital, Florêncio chega ao sétimo dia de prednisona e a hepatologia calcula o Lille.

    Prescrição
    • Galdino: retorno ao trabalho na quinta-feira, dia 15 da doença, com orientação de lavagem de mãos na cozinha
    • Galdino: aminotransferases e bilirrubinas em três a seis semanas, prazo em que o Guia descreve a normalização; álcool suspenso até lá
    • Galdino: avisar que o cansaço pode durar meses sem significar recaída
    • Florêncio: Lille abaixo de 0,45 no 7º dia — manter a prednisona por mais três semanas
    • Florêncio: Lille de 0,45 ou mais — suspender a prednisona e discutir com a hepatologia a avaliação para transplante pelo art. 129 do regulamento de 2025
    • Florêncio: anti-HAV total e marcadores de hepatite B antes da alta, para vacinação no CRIE por hepatopatia crônica se suscetível
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Como saber se está funcionando

Reavaliar hepatite aguda é refazer, com hora marcada, as duas perguntas da chegada. A da causa costuma se fechar em dias; a do destino precisa ser refeita a cada contato, porque o paciente que foi para casa bem pode voltar com o INR que ninguém repetiu. Os parâmetros abaixo seguem essa ordem: primeiro os que medem função, depois os que acompanham a causa, por fim os que protegem os outros.

Na hepatite alcoólica grave, o manual de cuidados intensivos lembra que os escores de prognóstico devem ser recalculados durante a internação e que a elevação de 2 pontos no MELD na primeira semana prediz mortalidade hospitalar. Na hepatite A, a normalização das aminotransferases leva de três a seis semanas pelo Guia de Vigilância em Saúde, e o manual técnico não registra forma crônica: elevação que persiste além disso não é hepatite A arrastada, é pergunta nova.

Estado mentalEm toda consulta; internado com hepatite aguda grave, a cada turno e sempre que a família notar mudança no sono ou no comportamento

Esperado: Vigil, orientado, sono noturno preservado, sem tremor em bater de asas

Se não melhora: Qualquer encefalopatia na hepatite aguda sem doença hepática prévia é insuficiência hepática aguda grave: transferência para centro com transplante no mesmo dia. Grau II ou maior pede terapia intensiva pelo fluxo do manual de cuidados intensivos.

Tempo de protrombina e INRNa chegada; em casa, com retorno em 48 a 72 horas (escolha desta apostila); na faixa entre o limite do laboratório e 2, em até 24 horas; internado, diariamente

Esperado: INR estável ou em queda, acompanhando a queda da bilirrubina

Se não melhora: INR acima de 2 ou tempo de protrombina abaixo de 50%: internação. INR acima de 6,5: terapia intensiva. INR que sobe enquanto a aminotransferase cai é piora, não melhora. Não corrigir com plasma sem sangramento ativo ou procedimento: o número é de prognóstico.

Glicemia capilarNa chegada de todo paciente com hepatite aguda; internado com insuficiência hepática aguda, de hora em hora enquanto houver encefalopatia (frequência escolhida por esta apostila, dentro da monitoração frequente que o manual pede)

Esperado: Glicemia normal sem necessidade de glicose endovenosa

Se não melhora: Hipoglicemia na hepatite aguda é sinal de falência de função: glicose endovenosa contínua e reclassificação do destino para centro com transplante, mesmo que o INR ainda pareça aceitável.

Aminotransferases e bilirrubinasNo retorno e depois em três a seis semanas, prazo em que o Guia de Vigilância em Saúde descreve a normalização na forma aguda

Esperado: Queda progressiva das aminotransferases e da bilirrubina, com INR normal; cansaço pode durar meses

Se não melhora: Aminotransferase que não normaliza em seis semanas pede revisão da causa — hepatite autoimune, droga ou produto que o paciente não contou, hepatite B ou C — e encaminhamento ao especialista. Bilirrubina que sobe com enzima caindo e INR alargando é piora.

Modelo de Lille na hepatite alcoólica tratada com corticoideNo 7º dia de prednisona, calculado pela equipe de hepatologia

Esperado: Lille abaixo de 0,45: há resposta, e o corticoide continua por mais três semanas

Se não melhora: Lille de 0,45 ou mais: ausência de resposta, com mais infecção e mais morte — suspender a prednisona, sobretudo acima de 0,56, e discutir avaliação para transplante se o paciente cumprir o art. 129 do regulamento de 2025.

Sorologia que ainda não fechou o casoAnti-HEV IgG ou HEV-RNA em duas a três semanas quando só o IgM veio reagente; HCV-RNA quando a suspeita de hepatite C recente persistir com anti-HCV não reagente; autoanticorpos e IgG assim que saírem

Esperado: Definição de caso fechada e notificada, ou causa nova identificada e entregue ao capítulo dono

Se não melhora: Hepatite aguda sem causa depois do painel viral, dos autoanticorpos e da história de droga e álcool vai ao hepatologista com o painel pronto, sem encerrar como “hepatite a esclarecer”.

Contatos e afastamento na hepatite AAfastamento até a data mais tardia entre o 14º dia de doença e o 7º dia de icterícia (escolha desta apostila para quem manipula alimento ou cuida de criança); vigilância dos contatos por até 50 dias após o último contato

Esperado: Nenhum caso secundário em casa, no trabalho ou no círculo sexual

Se não melhora: Contato que adoece é examinado e, com anti-HAV IgM reagente ou vínculo com caso confirmado, é caso confirmado e notificado. Dois ou mais casos ligados: vigilância do município no mesmo dia.

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Onde o erro machuca

Medir a gravidade da hepatite aguda pelo tamanho da aminotransferase

O dano: A enzima mede a velocidade da necrose, não o fígado que sobrou. O paciente com alanina de 2.380 U/L e INR normal é internado sem necessidade, e a paciente com alanina caindo para 1.340 U/L, INR subindo e glicemia de 54 mg/dL vai para casa esperar o exame — e volta em coma, quando a transferência já é mais arriscada e a janela de avaliação para transplante encurtou.

Como pegar a tempo: Em toda hepatite aguda, antes de olhar a enzima: estado mental, glicemia capilar e INR. Aminotransferase que cai com INR ou bilirrubina subindo é piora. O destino sai da tabela de destino, e não do valor da alanina.

Esperar a sorologia, o King's College ou o INR “preparado” com plasma para ligar para o centro de transplante

O dano: A encefalopatia avança em dias, e o manual de cuidados intensivos dá mortalidade de 60% a 90% nos graus III e IV. O plasma dado sem sangramento apaga o número que a equipe de transplante usa para decidir, e a sorologia que se esperou não mudaria a indicação de transferência.

Como pegar a tempo: Encefalopatia na hepatite aguda sem doença hepática prévia é motivo suficiente para ligar. Quem pontua critério é a equipe receptora. Hemoderivado só com sangramento ativo ou antes de procedimento invasivo.

Pedir anti-HAV IgM para o contato sem sintoma e liberá-lo com o resultado não reagente

O dano: Com valor preditivo positivo de 88%, o teste em quem não tem sintoma produz falso-reagente — e afastamento e notificação indevidos. E o não reagente não exclui a infecção de quem está incubando: o manipulador de alimentos liberado assim entra no pico de eliminação do vírus dentro da cozinha, duas semanas antes de adoecer.

Como pegar a tempo: Anti-HAV IgM só em pessoa com sintoma, como manda o Manual Técnico. Contato sem sintoma recebe higiene, vigilância por até 50 dias e, se tiver condição da lista do CRIE ou for criança dentro do calendário, vacina. Contato que adoece com vínculo com caso confirmado já é caso confirmado.

Dar alta ao cozinheiro com hepatite A com atestado de dois dias e deixar a notificação para o fim da semana

O dano: Ele volta ao fogão ainda eliminando vírus, o evento de sexta acontece, e a vigilância só descobre o surto quando os casos secundários começam a chegar, semanas depois — tarde para as medidas sobre alimento, água e higiene que o Guia de Vigilância em Saúde manda estabelecer depois dos primeiros casos.

Como pegar a tempo: Afastar quem manipula alimento ou cuida de criança desde a suspeita, com as datas de início dos sintomas e da icterícia no prontuário. Notificar o caso confirmado no Sinan e, em cozinha, creche ou serviço de saúde, telefonar para a vigilância do município no mesmo dia.

Rotular de hepatite alcoólica o etilista com aminotransferase em milhares, ou dar corticoide antes de rastrear infecção

O dano: Na lesão alcoólica as enzimas raramente passam de 300 U/L: o rótulo esconde uma hepatite viral, uma lesão por droga ou uma isquemia. E o corticoide dado a quem tem peritonite, pneumonia, hepatite B ou HIV sem avaliação agrava exatamente o que mata o paciente com hepatite alcoólica grave — infecção e falência.

Como pegar a tempo: Enzima acima de 300 U/L no etilista pede o painel completo antes do rótulo. Com o desenho compatível, calcular Maddrey; com 32 ou mais, internar, colher hemoculturas, urocultura, radiografia de tórax, líquido ascítico e sorologias antes de qualquer corticoide, que é decisão da hepatologia.

Tratar a hepatite autoimune aguda como virose que “vai passar” e dar alta sem autoanticorpos

O dano: Cerca de 30% dos casos começam de forma aguda, com icterícia intensa, e o protocolo do Ministério diz que é o tratamento precoce que evita a progressão para insuficiência hepática. A mulher com outra doença autoimune liberada com orientação de repouso volta semanas depois com o fígado que já não responde à imunossupressão — ou com a forma subaguda que tem a pior sobrevida sem transplante.

Como pegar a tempo: Painel viral negativo, sem álcool e sem droga, em mulher com outra doença autoimune: FAN, antimúsculo liso, anti-LKM1, antimitocondrial e IgG colhidos no mesmo atendimento, hepatologia com prioridade e INR repetido até a consulta. O corticoide é do especialista; o encaminhamento, do interno.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo têm dois tipos de dificuldade. Na hepatite A, o paciente se sente melhor justamente quando fica amarelo e não entende por que precisa ficar longe do trabalho, nem por que a família não pode fazer exame. Nas outras, a dificuldade é a contrária: explicar a Theodora, a Florêncio e a Dalva que o que eles têm é mais grave, ou mais demorado, do que a palavra hepatite fazia pensar.

As falas abaixo são modelos para adaptar à pessoa. O número que decide a conduta aparece dito com clareza, e o que o paciente precisa fazer em casa sai por escrito.

Explicando a Galdino o afastamento, com o evento de sexta no restaurante

“Galdino, o exame confirmou hepatite A. O vírus sai nas fezes e passa pelas mãos para a comida, e você está eliminando esse vírus desde antes de ficar amarelo. Por isso você não pode cozinhar agora, nem na sexta. Eu anotei o dia em que os sintomas começaram e o dia em que você ficou amarelo, e com essas duas datas eu te digo exatamente até quando vai o afastamento — fica perto de duas semanas desde o começo. O atestado sai hoje com esse motivo. A vigilância de saúde da prefeitura vai entrar em contato com você e com o restaurante: não é punição, é o que impede que outras pessoas adoeçam por causa do evento.”

Não diga: Dar os dois dias de atestado que ele pediu e deixar a decisão sobre o trabalho para o patrão, ou falar em contágio sem dizer a data de volta.

Respondendo a Galdino se vai passar a doença para a filha

“Pode passar, e por isso a gente vai agir em casa hoje. Sua filha perdeu a vacina da hepatite A que é dada com um ano e três meses, e o SUS ainda aplica essa dose até os quatro anos: ela toma hoje. Em casa, lavar as mãos com sabão depois de usar o banheiro e antes de mexer em comida — você e todo mundo —, toalha de cada um e banheiro limpo com água sanitária. Se ela ou sua esposa tiverem febre, enjoo, urina escura ou olho amarelo nas próximas semanas, tragam aqui. Enquanto estiverem bem, não precisa fazer exame: o exame antes da hora engana.”

Não diga: Pedir sorologia para toda a família “para tranquilizar”, ou prometer que a vacina da filha garante que ela não vai adoecer desta vez.

Perguntando a Galdino, em particular, sobre as exposições que a vigilância precisa conhecer

“Agora eu preciso fazer umas perguntas que faço a todo mundo que tem hepatite A, porque ajudam a descobrir de onde veio o vírus e quem mais pode estar em risco. Nas semanas antes de você ficar doente: bebeu água de fonte diferente, comeu em evento, viajou? Alguém perto de você teve olho amarelo? E sobre sexo: a hepatite A também passa no contato da boca com a região anal. Não é para julgar ninguém; é porque, se passou assim, as pessoas com quem você teve relação podem precisar de orientação, e você pode querer fazer outros exames que eu ofereço hoje.”

Não diga: Pular a pergunta sobre sexo por constrangimento, ou fazê-la na frente da esposa e da criança.

Explicando à filha de Theodora por que a mãe vai para um centro de transplante se “o exame melhorou”

“Eu entendo que o número do fígado baixou desde sábado, e parece melhora. Mas esse número mostra quantas células estão sendo destruídas, e ele também baixa quando sobra pouca célula. O que mostra se o fígado está trabalhando é a coagulação, o açúcar do sangue e a cabeça dela — e os três pioraram: o sangue está demorando mais para coagular, o açúcar caiu e ela está confusa desde ontem. Ela precisa ir hoje para um hospital que tenha equipe de fígado e de transplante. Ir para lá não quer dizer que ela vai fazer transplante; quer dizer que, se precisar, a decisão será tomada a tempo.”

Não diga: Dizer que é “só uma hepatite” e que ela vai para outro hospital “por precaução”, ou falar em transplante como certeza.

Conversando com Florêncio sobre o álcool e o corticoide

“Seu Florêncio, a bebida inflamou o fígado de um jeito grave, e eu fiz a conta que os hepatologistas usam: deu bem acima do ponto em que o risco é alto. O senhor vai ficar internado. Hoje a gente vai procurar infecção — sangue, urina, pulmão e a água da barriga —, porque o remédio que pode ajudar o fígado piora infecção, e só depois disso o especialista decide se usa. O senhor parou de beber há cinco dias e está tremendo: isso também é tratado aqui, e não é para passar sozinho. Ficar sem álcool, daqui para a frente, é parte do tratamento, e eu vou pedir ajuda para isso também.”

Não diga: Transformar a conversa em sermão sobre o vício, ou prometer o corticoide antes de saber se há infecção.

Respondendo a Dalva, que teme ter pegado hepatite A da colega

“Dona Dalva, o exame da hepatite A saiu e nós vamos conferir junto com os outros vírus, mas eu quero te falar da outra hipótese que eu estou considerando. Às vezes o próprio sistema de defesa ataca o fígado, e isso é mais comum em mulheres que já têm outra doença desse tipo, como a sua tireoide. Não passa para ninguém. Só que não melhora sozinha, e o tratamento é feito pelo especialista em fígado, que precisa ver você logo. O exame de coagulação está um pouco alterado, então eu conversei com a hepatologia hoje e você repete esse exame amanhã cedo. Não comece nenhum remédio, chá ou suplemento até lá.”

Não diga: Tranquilizar dizendo que é uma virose passageira, ou falar em “doença autoimune” sem explicar o que muda para ela e quando é o próximo passo.

Respondendo a Basília, que pergunta por que só a filha recebe vacina

“A vacina da hepatite A no SUS é dada para a criança pequena e para pessoas com algumas doenças, como hepatite crônica, HIV ou quem toma remédio que baixa a imunidade. Você não tem nenhuma delas, então pela regra do SUS não há vacina para você agora. O que protege você é o que eu expliquei: mãos lavadas, banheiro limpo e toalha separada. Se você sentir enjoo, febre, urina escura ou olho amarelo nas próximas semanas, volte, e aí o exame faz sentido. Se você tiver alguma doença que eu não sei, me conte agora, porque isso pode mudar a resposta.”

Não diga: Dizer que ela “não precisa se preocupar”, ou mandá-la procurar vacina sem explicar a regra e sem perguntar pelas condições que dariam indicação.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Até quantas semanas depois da icterícia a encefalopatia define a insuficiência hepática aguda grave: oito ou doze

Oito semanas — Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. rev., 2024, e manual de cuidados intensivos da SBH e da AMIB, 2ª ed., 2017

O Guia define hepatite fulminante como o surgimento de icterícia, coagulopatia e encefalopatia hepática num intervalo de até oito semanas, com letalidade de 40% a 80%, citando documento federal de 2008. O manual de 2017 afirma que, para priorizar o transplante, a legislação brasileira da época usava a definição de Trey e Davidson, com encefalopatia em até oito semanas do quadro ictérico.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, v. 2, capítulo Hepatites virais; Bittencourt PL et al., Manual de cuidados intensivos em hepatologia, 2. ed., 2017, capítulo 36

Doze semanas — Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes, Portaria GM/MS nº 8.041, de 25 de setembro de 2025, art. 146, I

A norma em vigor define como urgência máxima a insuficiência hepática aguda grave caracterizada por encefalopatia até doze semanas após o início da icterícia, em paciente sem doença hepática pré-existente, que preencha os critérios do King's College ou de Clichy/Beaujon e esteja internado em terapia intensiva. A janela alcança a forma subaguda inteira — de quatro a doze semanas na classificação do próprio manual de 2017 —, a de pior sobrevida sem transplante.

Brasil. Portaria GM/MS nº 8.041/2025, republicada no DOU de 21/01/2026, arts. 130 e 146

Como decidir

A decisão à frente do interno é para onde vai o paciente com icterícia e encefalopatia, e o documento escrito para essa decisão é o regulamento de transplantes: pelo primeiro degrau da régua, o escopo, ele vence o Guia, que é um documento de vigilância; pelo segundo, a data, vence também o manual de 2017, que descrevia a legislação anterior. Esta apostila adota as doze semanas. Na prática: escreva na evolução a data de início da icterícia e, havendo encefalopatia até a 12ª semana num fígado sem doença prévia, ligue para o centro com transplante — a paciente com icterícia há dez semanas que só agora ficou confusa está dentro, e é justamente a de pior prognóstico. As oito semanas continuam no texto porque ainda aparecem em livro e em prova como definição clássica de hepatite fulminante.

Adulto suscetível com asplenia: tem ou não indicação de vacina contra hepatite A no CRIE

Sem a asplenia na lista — Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed. rev., 2024, Quadro 7 do capítulo de hepatites virais

O quadro da vacina hepatite A traz, em nota, as condições em que o suscetível a partir de 12 meses recebe esquema diferenciado: hepatopatias crônicas, hepatite B e C crônicas, coagulopatias, HIV, imunodepressão, doenças de depósito, fibrose cística, trissomias, transplante, doação de órgãos e hemoglobinopatias, citando como régua o Manual dos CRIE de 2019. A asplenia não aparece.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, v. 2, capítulo Hepatites virais, Quadro 7 e nota a

Com a asplenia na lista — Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª ed., 2023, seção 10.6

O manual lista catorze indicações para o suscetível, em duas doses com seis meses de intervalo, e a décima quarta é asplenia anatômica ou funcional e doenças relacionadas. Todas as outras treze coincidem com a nota do Guia.

Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6. ed., 2023, capítulo 10

Como decidir

O paciente à frente é um adulto esplenectomizado, ou com asplenia funcional, com anti-HAV total não reagente. O documento escrito para decidir quem recebe imunobiológico especial é o Manual dos CRIE, e o próprio Guia remete a ele ao listar as indicações — o que o Guia reproduz é a edição de 2019, substituída pela de 2023. O primeiro degrau da régua, o escopo, decide: esta apostila adota o Manual dos CRIE de 2023. Prescreva as duas doses com seis meses de intervalo e encaminhe ao CRIE com o laudo da asplenia e o anti-HAV não reagente. Se a sala de vacina recusar citando o Guia, a resposta é a seção 10.6 do manual de 2023.

Hepatite alcoólica grave sem resposta ao corticoide: há prazo mínimo de abstinência antes de discutir transplante

Seis meses de abstinência antes da lista — manual de cuidados intensivos da SBH e da AMIB, 2ª ed., 2017, capítulo 42

O capítulo de hepatite alcoólica registra que o transplante hepático se associa a ganho de sobrevida com MELD acima de 15, mas afirma que, no Brasil, é necessário período de abstinência superior a seis meses antes da inclusão do paciente em lista de espera.

Bittencourt PL, Zollinger CC, Lopes EPA, editores. Manual de cuidados intensivos em hepatologia, 2. ed., 2017, capítulo 42

Critérios próprios para a hepatite alcoólica aguda grave — Regulamento Técnico do Sistema Nacional de Transplantes, Portaria GM/MS nº 8.041/2025, arts. 127 e 129

A norma exige no mínimo três meses de abstinência para a doença hepática crônica de origem alcoólica (art. 127, § 1º) e cria, no art. 129, a indicação por hepatite alcoólica aguda grave: primeira manifestação da doença hepática, diagnóstico pelo critério do NIAAA, MELD 3.0 de 21 ou mais ou Maddrey de 32 ou mais, Lille de 0,45 ou mais apesar do corticoide, suporte familiar, ausência de doença psiquiátrica descompensada e compromisso documentado com abstinência e seguimento multidisciplinar. A lista não inclui prazo de abstinência.

Brasil. Portaria GM/MS nº 8.041/2025, republicada no DOU de 21/01/2026, arts. 127 e 129

Como decidir

Os dois documentos falam do mesmo paciente e da mesma decisão, então o escopo empata; a data e a natureza decidem pelo regulamento de 2025, que é norma e é mais novo, e o manual de 2017 descrevia a regra da legislação anterior. Esta apostila adota o regulamento. Para Florêncio, se esta for a primeira manifestação da doença hepática e o Lille do sétimo dia vier de 0,45 ou mais, a hepatologia discute a avaliação para transplante agora, sem descartá-lo por não ter seis meses sem beber. Que o art. 129 dispensa prazo de abstinência é a leitura desta apostila do texto da norma, cuja lista de critérios não traz prazo; quem aplica é a equipe transplantadora com a Câmara Técnica. Na cirrose alcoólica que não é hepatite aguda grave, valem os três meses do art. 127.

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O raciocínio, em voz alta

Quinta-feira à tarde, consultório de clínica médica de um hospital universitário. Januário Perez, 52 anos, cria porcos num sítio da região metropolitana e chega encaminhado pela unidade básica com o diagnóstico de “hepatite a esclarecer”. Tem doze dias de mal-estar e enjoo e cinco de icterícia. Faz linguiça em casa e costuma provar a massa crua para acertar o tempero. Bebe duas latas de cerveja no fim de semana, nega remédio, chá, suplemento e viagem, e não conhece ninguém doente. A unidade básica colheu exames há quatro dias: anti-HAV IgM, HBsAg, anti-HBc IgM e anti-HCV não reagentes; alanina aminotransferase de 1.920 U/L, aspartato de 1.310 U/L, fosfatase alcalina de 180 U/L, bilirrubina total de 6,1 mg/dL. Hoje está consciente, sem tremor nas mãos estendidas, com glicemia capilar de 96 mg/dL; o INR colhido na chegada é 1,1. A ultrassonografia de ontem mostra fígado de ecotextura normal e vias biliares sem dilatação.

  1. onde ele dorme hoje

    Começo pelo destino, antes da causa. Januário está vigil, orientado, sem encefalopatia, com glicemia normal e INR de 1,1 — nenhum achado da tabela de destino. Vai para casa, com retorno marcado e sinais de alarme por escrito. A alanina de quase 2.000 U/L diz que há necrose importante; não diz que o fígado está falhando, e os três números de função dizem que não está.

  2. o que o painel já afastou

    O anti-HAV IgM foi colhido no oitavo dia de sintomas. Pelo Guia de Vigilância em Saúde ele fica reagente a partir do segundo dia e só some em cerca de três meses: não reagente no oitavo dia afasta hepatite A aguda. HBsAg e anti-HBc IgM não reagentes afastam a hepatite B aguda, e a leitura dos outros marcadores é do capítulo Hepatite B. O anti-HCV não reagente, sem exposição de risco na história, deixa a hepatite C recente improvável; com exposição, eu pediria RNA, porque o anticorpo pode demorar meses. A ultrassonografia afasta obstrução da via biliar.

  3. o que a história acrescenta

    Duas latas de cerveja no fim de semana não explicam alanina de 1.920 U/L, e na lesão alcoólica as enzimas raramente passam de 300. Não há droga, chá nem suplemento para investigar. Sobra a exposição que o próprio encaminhamento não perguntou: ele cria porcos e prova carne suína crua. O Guia registra que suínos podem ser reservatório de genótipos da hepatite E, e o Manual Técnico descreve casos esporádicos por ingestão de alimento de origem animal. Não há viagem, mas esta apostila não espera viagem para pedir anti-HEV quando a exposição a suíno está na mesa.

  4. a segunda linha

    Peço anti-HEV IgM e anti-HEV IgG, e junto os autoanticorpos — FAN, antimúsculo liso, anti-LKM1 — com IgG, porque o painel viral negativo sem droga nem álcool também é o terreno da hepatite autoimune, ainda que ele seja homem e não tenha outra doença autoimune. Não peço sorologias para mononucleose e citomegalovírus: ele não tem febre nem linfonodos, e a alanina está muito acima dos 500 UI/L em que o Guia situa as viroses sistêmicas. Repito INR e bilirrubina em 48 a 72 horas.

  5. o resultado

    Anti-HEV IgM reagente, anti-HEV IgG não reagente; FAN, antimúsculo liso e anti-LKM1 não reagentes; IgG normal. No retorno, INR de 1,0 e bilirrubina de 5,2 mg/dL. Pelo quadro de interpretação do Guia, anti-HEV com IgM reagente é hepatite E aguda, e o IgG ainda negativo combina com o começo do quadro, já que o Guia o descreve na convalescença.

  6. a notificação que ainda não fecha

    Aqui está a armadilha. A definição de caso confirmado de hepatite E, no mesmo capítulo do Guia, exige anti-HEV IgM e anti-HEV IgG reagentes, ou HEV-RNA detectável. Com IgM sozinho, Januário tem hepatite E pelo quadro e ainda não é caso confirmado para o Sinan. Não encerro como “hepatite a esclarecer” nem descarto: conduzo como hepatite E, colho o IgG de novo em duas a três semanas — ou peço o RNA, se o laboratório oferecer — e notifico quando a definição fechar.

  7. o que se orienta

    O manejo segue o da hepatite A, como manda o Manual de Gestação de Alto Risco para a hepatite E: sintomático, repouso relativo e nenhum álcool, com normalização das enzimas esperada em semanas. Oriento lavagem de mãos depois do banheiro e antes de mexer em comida, e deixo de provar carne crua — conclusão desta apostila a partir da via de transmissão descrita, não recomendação escrita pelas fontes. Pergunto se alguém da casa está grávida ou toma imunossupressor: seriam as duas pessoas em quem a hepatite E pesa mais, e nenhuma das duas existe na casa dele.

Januário tem hepatite E aguda, sem sinal de gravidade, e vai para casa com retorno. O que fechou o diagnóstico foi fazer a pergunta de exposição que o encaminhamento não fez e pedir o anti-HEV sem esperar história de viagem; o que evitou os dois erros clássicos foi começar pelo destino e ler o anti-HAV IgM pelo dia de sintoma em que foi colhido. A notificação fica pendente de propósito: com IgM reagente e IgG não reagente o caso não cumpre a definição do Guia, e o IgG repetido em duas a três semanas — ou o RNA — é o que transforma a suspeita documentada em caso confirmado no Sinan. Enquanto isso, o plano é o da hepatite A: sintomático, sem álcool, INR e bilirrubina no retorno e aminotransferases até normalizarem.

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Faça você

Segunda-feira, doze dias depois da notificação de Galdino, na mesma unidade de pronto atendimento. A vigilância do município já visitou o restaurante e pediu que todos os funcionários com qualquer sintoma procurassem atendimento. Chegam três pessoas ligadas à mesma cozinha. O lavador de pratos, de 41 anos, trabalhou lado a lado com Galdino até a segunda-feira em que ele ficou amarelo; há quatro dias tem enjoo, febre baixa e urina escura, está consciente e com glicemia capilar de 102 mg/dL. A atendente do caixa, de 23 anos, não sente nada, pede “o exame para ver se pegou” e um atestado para ficar em casa até sair o resultado. E uma cliente de 58 anos, que almoça no restaurante três vezes por semana e comeu lá pela última vez há nove dias, está sem sintomas, mas tem hepatite C crônica em acompanhamento e ouviu no bairro que “o restaurante da hepatite” fechou.

  1. o que já sei

    Galdino é caso confirmado de hepatite A por anti-HAV IgM reagente e trabalhou no período de maior eliminação do vírus. O Guia de Vigilância em Saúde dá incubação de 15 a 45 dias e o Manual Técnico, até 50. O Guia considera caso confirmado quem tem suspeita clínica e vínculo epidemiológico com caso confirmado em laboratório. O Manual Técnico manda pedir anti-HAV IgM só em quem tem sintoma.

  2. o que falta decidir para o lavador de pratos

    Decida: ele é caso suspeito ou confirmado, antes de qualquer exame? Quais exames saem hoje, e qual deles decide se ele vai para casa? O que se notifica, e o que muda na leitura da vigilância agora que há dois casos ligados à mesma cozinha? Até quando ele fica afastado, e de que datas você precisa para responder?

  3. o que falta decidir para a atendente

    Decida: você pede o anti-HAV IgM que ela quer? O que um resultado não reagente significaria hoje, e o que um reagente significaria sem sintoma? Ela tem indicação de vacina pelo SUS — e que pergunta você precisa fazer antes de responder? Até quando ela deve vigiar sintomas, contando a partir de que dia?

  4. o que falta decidir para a cliente com hepatite C

    Decida: ela tem indicação de vacina contra hepatite A, por qual documento e em que esquema, e que exame precisa sair antes? A última exposição foi há nove dias: isso transforma a vacina numa indicação de pós-exposição? O que ela precisa saber sobre o risco da hepatite A para quem já tem doença no fígado, e quando deve voltar? E quem responde à pergunta sobre o restaurante fechado?

Ver como fecharíamos

O lavador de pratos tem quadro clínico compatível e vínculo com um caso confirmado em laboratório: pela definição do Guia, já é caso confirmado de hepatite A, e o exame não é condição para notificar. Ainda assim colhe hoje o painel da primeira consulta com anti-HAV IgM — é sintomático, o teste está indicado —, e o que decide o destino é o estado mental, a glicemia e o INR, não a sorologia; com os três normais, vai para casa. A notificação sai no Sinan, e a vigilância é informada no mesmo dia de que o caso de Galdino deixou de ser isolado: dois casos ligados à mesma cozinha configuram surto. O afastamento vai até a data mais tardia entre o 14º dia de doença e o 7º dia de icterícia, e para isso ficam anotados o dia de início dos sintomas e o da icterícia, que ainda não chegou. A atendente não faz exame: sem sintoma, o anti-HAV IgM tem valor preditivo positivo de 88% e um não reagente pode ser só incubação, de modo que nenhum dos dois resultados muda o que ela deve fazer. Não há motivo clínico para atestado. Sem condição da lista do CRIE — é preciso perguntar por hepatopatia, HIV, imunodepressão e as demais —, não há vacina pelo SUS; ela recebe orientação de higiene e vigia sintomas por até 50 dias depois do último turno com Galdino. A cliente tem indicação de vacina por ter hepatite C crônica, condição listada no Manual dos CRIE de 2023, em duas doses com seis meses de intervalo, desde que o anti-HAV total venha não reagente — por isso ele sai antes. A indicação é pela doença hepática, não pela exposição: o manual registra eficácia de 79% da vacina até 14 dias após a exposição, e os nove dias fazem desse efeito um benefício possível, sem que ele vire indicação. Ela precisa saber que o mesmo manual descreve a forma fulminante da hepatite A como mais comum em quem tem doença hepática, e voltar no primeiro sintoma, para INR e glicemia no mesmo dia; o seguimento da hepatite C é do capítulo Achar é mais difícil que curar. E a pergunta sobre o restaurante não é do interno: as medidas sobre o estabelecimento são da vigilância, e o surto de origem alimentar, do capítulo Quem pode abrir a porta.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Encefalopatia numa hepatite aguda sem doença hepática prévia define insuficiência hepática aguda grave, e o fluxo de avaliação inicial do manual de cuidados intensivos da Sociedade Brasileira de Hepatologia e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira manda transferir para centro com transplante de fígado, onde a equipe avalia os critérios de indicação. A queda da alanina com INR subindo, bilirrubina alta e hipoglicemia não é melhora: a enzima mede necrose, e a função se lê no INR, na glicemia e no estado mental. O plasma sem sangramento apaga o valor prognóstico do INR, e esperar sorologia ou critério de King's College atrasa a decisão que já está indicada. A icterícia de oito dias está dentro das doze semanas do art. 146 do regulamento de transplantes de 2025.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Explique como história, padrão das provas hepáticas e exames dirigidos organizam o diferencial de icterícia. Pergunte por medicamentos, suplementos, álcool, exposição e gestação quando pertinente. Depois diga quais achados sugerem insuficiência hepática aguda e exigem contato urgente com equipe especializada. Consulte os cortes e marcadores específicos depois de formular a hipótese; não espere preencher um critério de transplante para reconhecer deterioração.

Em 30 dias

Retome Theodora com aminotransferases em queda, mas piora de INR ou consciência. Explique por que isso pode indicar perda de função e qual avaliação precisa ser acionada. Em outro cenário, compare icterícia sem disfunção sintética com sinais de colestase ou obstrução, justificando o próximo exame. Termine com um plano de reavaliação e comunicação da incerteza: o que já se sabe, o que ainda falta e quais mudanças exigem retorno ou transferência imediata.

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Agora atenda

Um adulto chega amarelo, com urina escura e aminotransferase na casa dos milhares, e quer saber se é hepatite A. Atenda: antes da causa, decida o destino pelo estado mental, pela glicemia capilar e pelo INR; colha o painel pelo nome dos marcadores e pergunte por droga, álcool, gestação, trabalho e quem mais adoeceu; se for hepatite A, notifique, calcule o afastamento com as duas datas e decida, contato por contato, quem recebe vacina pela regra do SUS e quem recebe só orientação e prazo de vigilância.

Hepatite A e hepatites agudas – A icterícia que ainda não tem nome — Internato | OsceLabs