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Clínica MédicaGastroenterologia

Hepatite B

Cinco siglas num papel, e cada uma responde a uma pergunta diferente. Ler o painel errado vacina quem já é imune, deixa de vacinar quem precisa, tranquiliza quem tem doença crônica e assusta quem só tem cicatriz — e, na sala de parto, custa doze horas que não voltam.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Hepatite B e Coinfecções. Anexo da Portaria SECTICS/MS nº 25, de 18 de maio de 2023. Brasília: Ministério da Saúde

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Prevenção da Transmissão Vertical de HIV, Sífilis e Hepatites Virais. Anexo da Portaria SCTIE/MS nº 55, de 11 de novembro de 2020, com anexo alterado em 4 de julho de 2024. Brasília: Ministério da Saúde

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-Exposição de Risco (PEP) à Infecção pelo HIV, IST e Hepatites Virais. Anexo da Portaria SECTICS/MS nº 14, de 8 de abril de 2024. Brasília: Ministério da Saúde

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação. Brasília: Ministério da Saúde

Brasil. Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6ª edição. Brasília: Ministério da Saúde; 2023

01

Responda antes de ler

Gestante de 26 anos, primigesta, com 22 semanas, HBsAg reagente identificado na primeira consulta de pré-natal. Assintomática, sem sinais de hepatopatia. Exames: ALT 24 U/L, plaquetas normais, HBeAg reagente. O HBV-DNA foi solicitado e ainda não retornou do laboratório de referência. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira de manhã, ambulatório de clínica médica de um hospital de ensino. Edvaldo tem 44 anos, é motorista de caminhão e veio buscar o resultado de exames que ninguém explicou direito por que foram pedidos. Três meses atrás, numa campanha de testagem no pátio da transportadora, ele fez um teste rápido de picada no dedo. Deu "reagente". Disseram para procurar a unidade de saúde. Ele procurou, colheu sangue, e hoje voltou com o papel.

O papel tem seis linhas. HBsAg reagente. Anti-HBc total reagente. Anti-HBc IgM não reagente. HBeAg não reagente. Anti-HBe reagente. Anti-HBs não reagente. Abaixo, num segundo papel: ALT 31 U/L, AST 28 U/L, plaquetas 214.000/mm³, bilirrubinas normais, INR 1,0. Um terceiro papel traz HBV-DNA de 1.400 UI/mL.

Edvaldo não sente nada. Nunca sentiu. Não bebe, não usa droga injetável, nunca fez transfusão, nunca ficou amarelo. Trabalha, dorme, come. A pergunta que ele faz, e que é a única que importa para ele, é: "então eu tenho ou não tenho?"

Ao lado dele está Neide, 31 anos, grávida de 22 semanas, segunda gestação. Ela pergunta se "pegou". Trouxe o cartão do pré-natal, onde está escrito, na primeira consulta, com 10 semanas: HBsAg reagente. Ninguém comentou esse resultado com ela. O cartão registra as consultas seguintes, a altura uterina, a pressão, e nada mais sobre isso. Ela tem 18 semanas até o parto.

Com eles veio Ariane, de 6 anos, filha do casal, que está na sala porque não tinha com quem ficar. E há uma quarta pessoa nesta consulta: o interno. Há três semanas ele se espetou com uma agulha ao desmontar um cateter num paciente que não sabia dizer se já tinha tido hepatite. Ele registrou o acidente, foi orientado a colher sorologias, colheu, e o resultado está no bolso do jaleco há quatro dias, sem que ele tenha aberto direito: HBsAg não reagente, anti-HBc total não reagente, anti-HBs 4 mUI/mL. Ele tomou vacina de hepatite B na escola, aos 12 anos. Acha que foram três doses.

São quatro decisões diferentes na mesma sala, e nenhuma delas depende de nenhum exame novo. Edvaldo tem infecção crônica — e a pergunta não é se trata, é se preenche critério de tratamento hoje, porque a maioria não preenche e mesmo assim precisa de seguimento e de rastreio de câncer de fígado. Neide tem infecção crônica e 18 semanas de gestação — e há um remédio que se começa entre a 24ª e a 28ª semana, uma injeção que o bebê tem de receber na sala de parto e um prazo de doze horas que ninguém no cartão dela anotou. Ariane precisa ser testada e, se suscetível, vacinada, como todo contato domiciliar. E o interno é um não respondedor provável, com um acidente de três semanas atrás cujo prazo de imunoglobulina — sete dias — passou.

O que amarra as quatro decisões é uma habilidade só, e ela cabe numa frase: cada marcador do painel responde a uma pergunta diferente, e a combinação conta uma história em ordem cronológica. Quem chegou primeiro, quem sumiu, quem ficou. Ler o painel como lista de siglas produz os quatro erros clássicos — vacinar quem já é imune, deixar de vacinar quem precisa, dizer que está tudo bem para quem tem doença crônica e assustar quem só tem cicatriz de infecção antiga.

O que vem a seguir é isso, nesta ordem: o que cada sigla mede e por quê; como a combinação vira um diagnóstico; que exame se pede depois e qual não se pede; o que se faz com o relógio na mão quando alguém se expõe ou quando um bebê nasce de mãe positiva; quem entra em tratamento, quem só é acompanhado, e o que "só acompanhar" obriga a fazer.

03

Quem adoece disso

Entre 2000 e 2024 o Brasil notificou 826.292 casos confirmados de hepatites virais, dos quais 302.351 de hepatite B — pouco mais de um terço do total. Em 2024 a taxa de detecção foi de 5,3 casos por 100 mil habitantes, uma queda de 34,6% em relação aos 8,1 de 2014. Essa curva descendente é uma boa notícia com uma armadilha embutida: a hepatite B que se detecta hoje foi, na maioria das vezes, adquirida há décadas. A queda da detecção mede o sucesso de uma vacina introduzida no calendário infantil nos anos 1990, não a ausência de doença nos consultórios de hoje.

A prova disso está na curva etária. Em 2024, a taxa de detecção foi de 0,7 caso por 100 mil habitantes em menores de 5 anos e de 0,1 entre 5 e 9 anos; sobe a partir dos 30 anos e chega ao máximo entre 50 e 54 anos, com 9,7 por 100 mil. O maior percentual de casos, 22,0%, apareceu em pessoas de 60 anos ou mais. Quem está adoecendo é a coorte que nasceu antes da vacinação universal. O paciente típico da hepatite B brasileira de 2026 não é uma criança: é um adulto de meia-idade que nunca soube que tinha nada.

A média nacional esconde diferenças de dez vezes. Em 2024, dezesseis capitais tiveram taxas acima da nacional, e as duas primeiras não estão perto das demais: Porto Velho, com 36,5 casos por 100 mil habitantes, e Rio Branco, com 31,7 — contra 5,3 do país. Porto Alegre teve 13,6 e Curitiba, 12,1. A Amazônia Ocidental é área de alta endemicidade, e isso muda a probabilidade pré-teste de quem atende ali: o mesmo paciente assintomático com transaminase discretamente alterada merece testagem em qualquer lugar do país, mas em Rondônia e no Acre a hipótese entra na lista antes.

A forma clínica desmonta a imagem que a palavra "hepatite" evoca. Dos casos com essa informação preenchida, 72,7% foram crônicos, 15,1% agudos e 0,2% fulminantes. A doença que se vê é silenciosa e antiga, não a icterícia do enfermeiro de plantão. Quanto à via de transmissão, entre os 121.443 casos com fonte provável conhecida, a relação sexual respondeu por 51,6% — o principal mecanismo no Brasil. Isso importa porque desloca a suspeita: a pergunta que mais falta na anamnese não é sobre transfusão nem sobre tatuagem, é sobre parceiras e parceiros sexuais e sobre a testagem deles.

O Ministério da Saúde estima que 0,52% da população brasileira viva com infecção crônica pelo vírus, o que corresponde a cerca de 1,1 milhão de pessoas. Colocando esse número ao lado dos 302 mil casos notificados em 24 anos, sai a conta que dá o tamanho do problema: a maior parte de quem tem hepatite B crônica no Brasil não sabe. O rastreamento não é um refinamento — é a única forma de encontrar essas pessoas, porque elas não têm sintoma para trazer ao consultório.

Gestantes aparecem em 30.965 dos casos detectados de 2000 a 2024, cerca de um em cada dez. E aqui há uma distorção de registro que o interno precisa conhecer para não ler o número errado: a notificação de hepatite B em gestante não é feita a cada gestação, e sim uma única vez, no momento em que a doença é detectada naquela pessoa. Uma mulher com três gestações depois do diagnóstico aparece uma vez. O número real de gestações expostas é maior que o notificado.

A coinfecção com HIV foi registrada em 5,0% dos casos com essa informação disponível, entre 2008 e 2024 — uma em cada vinte. É frequente o bastante para que testar um implique testar o outro, e para que o esquema antirretroviral de quem vive com HIV precise ser lido também como tratamento de hepatite B, porque tenofovir e lamivudina agem nos dois vírus.

A mortalidade é o dado que fecha o quadro e explica por que "não tratar" nunca significa "dar alta". De 2000 a 2024 foram registrados 21.065 óbitos relacionados à hepatite B, e em 51,9% deles a hepatite foi a causa básica. O coeficiente de mortalidade caiu pela metade na última década, de 0,2 para 0,1 óbito por 100 mil habitantes em 2024, e a razão entre sexos é de 27 óbitos masculinos para cada dez femininos. As pessoas não morrem da infecção: morrem de cirrose e de carcinoma hepatocelular, vinte ou trinta anos depois, e esses dois desfechos são justamente os que o seguimento existe para antecipar.

A meta assumida pelo Brasil é a eliminação das hepatites virais como problema de saúde pública até 2030, com redução de 90% na incidência e de 65% na mortalidade em relação a 2015. Para a hepatite B, isso significa chegar a menos de dois casos por 100 mil habitantes e a menos de quatro óbitos por 100 mil, diagnosticar pelo menos 90% das pessoas com infecção ativa e tratar 80% das que têm indicação. A meta que mais depende do plantão é outra: cobertura de pelo menos 95% da dose da vacina aplicada ao nascer. Essa dose não é dada em campanha nem em posto de bairro — é dada na maternidade, nas primeiras doze horas, por quem estiver lá.

04

Por que acontece o que acontece

O vírus da hepatite B é um vírus de DNA envelopado, e quase tudo o que o interno precisa saber sobre o painel sorológico vem da anatomia da partícula. Ela tem uma casca — o envelope, feito de uma proteína chamada antígeno de superfície, o HBsAg — e um miolo, o capsídeo, feito da proteína do core, o HBcAg. Dentro do capsídeo estão o DNA viral e a polimerase. Existe ainda uma terceira proteína, derivada do core, que não fica presa à partícula e circula solta no sangue: o antígeno "e", o HBeAg.

Cada uma dessas três proteínas gera um anticorpo, e são esses seis elementos — três antígenos e três anticorpos — que aparecem no papel. HBsAg e anti-HBs; HBcAg e anti-HBc; HBeAg e anti-HBe. O HBcAg é a única exceção prática: ele fica dentro do capsídeo, não circula livre e não é dosado no sangue. Por isso o painel tem cinco linhas úteis e não seis, e por isso ninguém pede HBcAg.

Daí sai a primeira regra de leitura, e ela é quase toda a habilidade. Antígeno reagente quer dizer vírus presente. Anticorpo reagente quer dizer contato — com o vírus ou com a vacina. HBsAg reagente significa que há vírus produzindo envelope agora. Anti-HBc reagente significa que houve contato com o vírus inteiro em algum momento da vida, e esse anticorpo, uma vez formado, não desaparece mais.

A segunda regra é a que separa vacinado de curado, e é puramente estrutural. A vacina brasileira é uma vacina recombinante: ela contém apenas o antígeno de superfície, produzido por engenharia genética, sem nenhum outro pedaço do vírus. Quem foi vacinado, portanto, só pode ter fabricado anti-HBs. Nunca anti-HBc, porque nunca viu o core. Quem teve a infecção e curou fabricou os dois. Anti-HBs sozinho é vacina; anti-HBs com anti-HBc é infecção curada. Essa única frase resolve a maior parte dos painéis confusos.

A terceira regra explica o marcador que mais confunde: o anti-HBc IgM. Como toda resposta humoral, a produção de anticorpo contra o core começa pela classe IgM e depois troca para IgG. O IgM é, então, um relógio: reagente indica infecção recente, dos últimos seis meses; não reagente num paciente com HBsAg reagente indica que o contato é antigo, isto é, infecção crônica. O anti-HBc total soma as duas classes e, por isso, uma vez positivo, fica positivo para sempre.

Falta o HBeAg, e ele mede outra coisa: quantidade de vírus, não tempo de doença. É um marcador de replicação intensa e de infectividade alta, secretado quando a máquina viral está a pleno vapor. Sua troca para anti-HBe — a chamada soroconversão do "e" — marca uma redução da replicação e, em geral, um prognóstico melhor. Mas não é cura, e não retira o vírus: existe uma forma inteira de hepatite B crônica com HBeAg não reagente, causada por vírus com mutação que impede a produção dessa proteína, e ela pode ser tão agressiva quanto a outra. Edvaldo, da cena, é exatamente esse caso.

Agora o mecanismo da lesão, que explica por que a transaminase é o que é. O vírus da hepatite B não destrói o hepatócito diretamente: ele não é citopático. Quem destrói é o sistema imune do hospedeiro, ao reconhecer células infectadas e matá-las. A consequência é contraintuitiva e decide leitura de exame todos os dias: ALT alta não mede quanto vírus existe, mede quanta briga está havendo. Um paciente com carga viral altíssima e ALT rigorosamente normal não está "bem": está numa fase em que o sistema imune ignora o vírus. E um paciente com carga viral modesta e ALT elevada pode estar com inflamação ativa e fibrose progredindo. É por isso que nenhum dos dois exames decide sozinho, e é por isso que o protocolo brasileiro exige as duas informações juntas.

Esse jogo entre vírus e imunidade se organiza em cinco fases, que não são necessariamente sequenciais e podem durar décadas cada uma. Com HBeAg reagente e ALT normal, é a fase de infecção — antes chamada de imunotolerante — em que a carga viral é altíssima, o fígado está quase intacto e a transmissibilidade é máxima. Com HBeAg reagente e ALT alta, é a fase de hepatite, em que a inflamação é moderada a grave e a fibrose avança rápido. Com HBeAg não reagente, ALT normal e carga viral baixa, é a fase de infecção de baixa replicação — o antigo "portador inativo", que tem bom prognóstico mas exige vigilância, porque pode escapar. Com HBeAg não reagente e ALT flutuante e alterada, é a fase de reativação, com necroinflamação e fibrose. E, por fim, a fase de HBsAg não reagente, chamada de cura funcional.

A palavra "funcional" nessa última fase não é enfeite, e explica três coisas que parecem sem relação. Ao infectar o hepatócito, o vírus deposita no núcleo uma forma circular e estável do seu DNA, o cccDNA, que funciona como um molde permanente e não é atingido pelos antivirais disponíveis. Além disso, pedaços do genoma viral se integram ao DNA da célula. Disso decorre: primeiro, que não existe cura no sentido de erradicação, e o desaparecimento do HBsAg significa controle, não expulsão; segundo, que qualquer imunossupressão forte — quimioterapia, corticoide em dose alta, transplante, biológicos — pode reativar a infecção em quem parecia curado, motivo pelo qual se rastreia hepatite B antes de imunossuprimir; terceiro, que o carcinoma hepatocelular pode surgir mesmo sem cirrose, porque a integração viral é oncogênica por si. Esse terceiro ponto é o que torna o rastreamento de câncer de fígado obrigatório em gente sem fibrose avançada, algo que não acontece em nenhuma outra hepatopatia crônica.

Resta o mecanismo que decide o desfecho de uma vida inteira: a idade em que a infecção acontece. O risco de cronificação é inversamente proporcional à idade — cerca de 90% em recém-nascidos, 25% a 30% entre 1 e 5 anos, e menos de 5% em adultos imunocompetentes. A explicação é imunológica: o sistema imune imaturo do recém-nascido não monta a resposta que elimina o vírus, e o resultado é infecção persistente com carga viral alta por décadas. Um adulto que se infecta hoje tem 95% de chance de resolver sozinho; um recém-nascido infectado no parto tem 90% de chance de carregar o vírus para sempre. A mesma infecção, em momentos diferentes da vida, é praticamente duas doenças distintas — e essa é a única razão pela qual vale a pena correr atrás de doze horas na sala de parto.

A transmissão vertical, aliás, acontece principalmente no parto, e não na gestação. A passagem intrauterina existe e é rara, favorecida por HBeAg materno reagente, parto pré-termo laborioso e manipulação da placenta; o momento crítico é o contato do recém-nascido com sangue e secreções maternas no nascimento. Isso tem duas consequências práticas: a imunoprofilaxia aplicada logo após o nascimento chega antes que a infecção se estabeleça — por isso funciona — e a via de parto não é a variável relevante, porque a cesariana não demonstrou reduzir a transmissão.

Por fim, o mecanismo das duas seringas da sala de parto. A vacina é imunização ativa: entrega o antígeno de superfície e pede ao recém-nascido que fabrique o próprio anti-HBs, o que leva semanas. A imunoglobulina humana anti-hepatite B é imunização passiva: entrega anti-HBs pronto, colhido do plasma de doadores hiperimunizados, que neutraliza partículas virais nas primeiras horas e depois se degrada. Uma cobre o intervalo até a outra fazer efeito. Como o anticorpo emprestado neutralizaria também o antígeno da vacina se os dois fossem injetados no mesmo lugar, as duas aplicações vão em grupos musculares diferentes. E como o anticorpo emprestado desaparece em meses, ele confunde a sorologia da criança por até meio ano — razão pela qual o anti-HBs do bebê que recebeu imunoglobulina só é lido entre 9 e 12 meses de idade.

Curvas sorológicas esquemáticas da hepatite B com resolução e com persistência do HBsAg, identificando a janela.
Na resolução, o HBsAg desaparece e o anti-HBs pode surgir depois, enquanto o anti-HBc total persiste. A janela é uma explicação possível para anti-HBc isolado, mas não a única. IgM anti-HBc também pode ocorrer em exacerbação de infecção crônica. Persistência do HBsAg por mais de seis meses caracteriza cronicidade. Fonte: CDC. Ilustração didática original.

O que cada marcador responde, e por que a ordem importa

HBsAg — "há vírus agora?" É a proteína do envelope, produzida em enorme excesso durante a infecção. Torna-se detectável cerca de 30 dias após a exposição e é o primeiro marcador do painel a aparecer. Reagente significa infecção — aguda ou crônica, não distingue. Persistente por mais de seis meses, define infecção crônica. É o marcador do teste rápido, é o critério de notificação e é o único que responde sozinho a alguma coisa.

Anti-HBc total — "esta pessoa já encontrou o vírus algum dia?" É o anticorpo contra a proteína do miolo, que a vacina não contém. Aparece semanas após o HBsAg e permanece pela vida inteira, reagente ou não o restante do painel. É o marcador que distingue quem teve a doença de quem só tomou vacina, e é por isso que ele entra no rastreamento das populações que precisam de dois marcadores.

Anti-HBc IgM — "faz menos de seis meses?" É a classe precoce do mesmo anticorpo. Reagente num paciente com HBsAg reagente sugere infecção aguda; não reagente sugere infecção crônica. Tem duas armadilhas: pode reaparecer em surtos de agudização de uma hepatite crônica, e pode persistir em títulos baixos em algumas pessoas com infecção crônica. Nunca é o único argumento — entra ao lado da história clínica e da data das exposições.

HBeAg e anti-HBe — "quanto vírus, e quanto contágio?" O HBeAg reagente indica replicação alta e transmissibilidade alta, e é o marcador que, na falta de carga viral, sinaliza a gestante de alto risco para transmissão vertical. A troca para anti-HBe indica redução da replicação. Nenhum dos dois faz sentido pedir em quem tem HBsAg não reagente, e nenhum dos dois substitui a carga viral quando ela está disponível.

Anti-HBs — "esta pessoa está protegida?" É o único anticorpo neutralizante do conjunto. Reagente em título igual ou maior que 10 mUI/mL, após esquema vacinal completo documentado, define imunidade. Sozinho, indica vacinação; acompanhado de anti-HBc, indica infecção resolvida. Há uma exigência que se esquece o tempo todo: o valor de 10 mUI/mL só foi validado para quem tem esquema vacinal comprovado — pedir anti-HBs em quem não sabe se tomou vacina produz um número que não se sabe interpretar.

HBV-DNA — "quanto vírus, em número?" Não é sorologia, é biologia molecular, e é o parâmetro com associação mais forte com progressão da doença. Os ensaios em tempo real detectam a partir de cerca de 10 UI/mL. Entra depois do diagnóstico, para estadiar e para decidir tratamento, e é o exame que responde à única pergunta que o painel sorológico não responde: qual é o risco desta pessoa nas próximas décadas.

A janela diagnóstica fecha o raciocínio e é o que impede a leitura ingênua de um exame colhido cedo demais. Após uma exposição, o material genético do vírus passa a ser detectável em cerca de 25 dias, o HBsAg em cerca de 30 dias e os anticorpos entre 30 e 60 dias. Um painel inteiramente não reagente colhido dez dias depois de um acidente com agulha não exclui nada — exclui apenas infecção prévia. É por isso que a conduta pós-exposição se decide pela situação vacinal e pela fonte, e nunca pelo resultado sorológico da própria exposição que se está investigando.

Por que a infecção crônica machuca o fígado devagar e o pâncreas nunca

A hepatite B crônica é, por décadas, uma doença sem sintoma. O mecanismo é o de sempre: agressão imune de baixa intensidade, morte de hepatócitos em pequena escala, regeneração, e deposição progressiva de matriz extracelular pelas células estreladas. Fibrose é cicatriz, e cicatriz não dói. O fígado tem reserva funcional enorme, de modo que albumina, bilirrubina e tempo de protrombina permanecem normais até que a arquitetura já esteja substituída. Quando o primeiro sinal aparece — ascite, varize que sangra, encefalopatia —, o processo tem vinte a trinta anos.

Cerca de 20% a 25% das pessoas com infecção crônica evoluem para cirrose e complicações de doença hepática terminal. A incidência anual de carcinoma hepatocelular é estimada em menos de 0,6% em não cirróticos e em 2% a 3% naqueles com cirrose; quem já é cirrótico descompensa a uma taxa de cerca de 3% ao ano. Esses números parecem pequenos ao ano e são enormes ao longo de trinta anos — e são a razão de o seguimento existir.

A infecção pode também produzir doença fora do fígado, por deposição de imunocomplexos: glomerulonefrite membranosa, poliarterite nodosa, vasculite, artrite e neuropatia periférica. São raras, mas mudam completamente a conduta, porque manifestação extra-hepática é, por si só, indicação de tratamento antiviral, independentemente de carga viral, de transaminase e de grau de fibrose. Um paciente com síndrome nefrótica e HBsAg reagente não é um paciente com duas doenças: é um paciente com uma doença e uma indicação.

Falta o vírus que só existe de carona. O vírus da hepatite D precisa do envelope do vírus B para montar sua partícula e, portanto, só infecta quem tem hepatite B. Quando os dois chegam juntos, é coinfecção; quando o D chega depois, em quem já era crônico, é superinfecção — e essa é a forma grave, com progressão rápida para fibrose avançada. No Brasil, a região Norte concentra 72,4% de todos os casos de hepatite D notificados. A consequência prática é local e simples: paciente com hepatite B da Amazônia, ou paciente com hepatite B que descompensa sem explicação, merece investigação para hepatite D. E toda medida que previne a hepatite B — a vacina, sobretudo — previne também a D.

05

Como se apresenta de verdade

A apresentação mais comum da hepatite B é nenhuma. Sete em cada dez adultos que se infectam têm quadro subclínico, e apenas cerca de 30% ficam ictéricos. Lactentes, crianças e pessoas imunossuprimidas são, na maioria das vezes, assintomáticos. Depois que a infecção cronifica, o silêncio se estende por décadas. O paciente que chega dizendo "acho que estou com hepatite" é a minoria; o paciente que chega para renovar receita de pressão e tem um HBsAg reagente esquecido num exame de dois anos atrás é a regra.

Isso desenha o capítulo inteiro. Se o diagnóstico dependesse de o paciente relatar alguma coisa, ele não aconteceria. Por isso a norma brasileira recomenda rastreamento com HBsAg pelo menos uma vez na vida para toda pessoa acima de 20 anos que seja suscetível, e testagem periódica para populações específicas — sem usar a vacinação para dispensar indicações próprias de rastreio, como a testagem em cada gestação. Exposição, imunossupressão e diálise também requerem avaliação específica.

Quando há sintoma na fase aguda, ele é inespecífico, insidioso e curto: mal-estar, fadiga, anorexia, náusea, vômito e desconforto no quadrante superior direito, que podem durar de um a cinco dias. Febre, exantema e poliartralgia podem ou não aparecer. A icterícia, quando vem, pode ser leve e fugaz, durando um ou dois dias. Não há nada nesse quadro que distinga hepatite B de hepatite A, de hepatite medicamentosa ou de uma virose qualquer — a distinção é sorológica, e o quadro clínico da hepatite aguda em geral tem capítulo próprio nesta apostila.

A infecção aguda pelo vírus B se resolve espontaneamente, com perda do HBsAg, em mais de 95% dos adultos imunocompetentes, e antiviral em geral não é necessário. Quando identificada nessa fase, o que se faz é monitoramento clínico e laboratorial a cada duas a quatro semanas, espaçando conforme os exames melhoram, e repetição do HBsAg seis meses após o primeiro resultado reagente, para saber se houve cronificação ou cura funcional. Desidratação grave ou vômitos incoercíveis indicam internação para hidratação.

Menos de 1% dos adultos com infecção aguda desenvolve hepatite fulminante, e essa é a apresentação que mata rápido: a mortalidade se aproxima de 80% quando não há transplante hepático. É a única forma aguda que exige antiviral imediato. A definição brasileira de hepatite B aguda grave é operacional e vale decorar, porque decide transferência: INR maior que 1,5; ou sintomas e icterícia com bilirrubina total acima de 3 mg/dL ou direta acima de 1,5 mg/dL por mais de quatro semanas; ou encefalopatia; ou ascite. Qualquer um desses quatro, isoladamente, indica tratamento com análogo nucleos(t)ídeo e avaliação por serviço com transplante.

A idade em que se pega decide a doença que se tem

Não existe outra variável nesta doença com o poder da idade da infecção. Cerca de 90% dos recém-nascidos infectados no parto cronificam; entre 1 e 5 anos, de 25% a 30%; em adultos imunocompetentes, menos de 5%. A curva é uma rampa descendente contínua, e ela inverte a intuição clínica: a infecção que menos dá sintoma é a que mais deixa sequela.

Traduzindo para a enfermaria: o adulto que chega ictérico com hepatite B aguda tem excelente prognóstico e provavelmente não precisará de nenhum remédio. O recém-nascido que sai da maternidade sem a vacina, filho de mãe positiva, não terá sintoma nenhum e tem quase certeza de carregar o vírus pela vida inteira, com risco de cirrose e de câncer de fígado na quarta ou quinta década. O caso dramático tem bom desfecho; o caso silencioso tem o desfecho ruim.

Em crianças, a infecção crônica também é quase sempre assintomática, e a cirrose ocorre em 1% a 5% delas. São fatores de risco a soroconversão precoce do HBeAg, antes dos 3 anos, que indica atividade necroinflamatória grave, e a longa duração da fase de hepatite com HBeAg reagente. As complicações extra-hepáticas, como a nefropatia membranosa, são raras na infância — abaixo de 1% —, mas quando aparecem exigem tratamento antiviral, como no adulto.

Há uma consequência de saúde pública que o interno enxerga na curva etária do país. A vacinação universal de menores de um ano começou no Brasil em 1998, e é ela que explica a taxa de detecção quase nula em crianças hoje. Quem nasceu antes disso não teve essa proteção, e a mortalidade dessa coorte tende a aumentar se essas pessoas não forem diagnosticadas e tratadas a tempo. O rastreamento de adultos de meia-idade não é zelo excessivo: é o resgate de uma geração que ficou de fora do calendário.

Barras do risco aproximado de hepatite B crônica após infecção: 90% em lactentes, 30% entre 1 e 5 anos e 5% em adultos.
Segundo o CDC, aproximadamente 90% dos lactentes infectados e 30% das crianças infectadas entre 1 e 5 anos evoluem com infecção crônica; cerca de 95% dos adultos recuperam-se da infecção aguda. São estimativas populacionais. A diferença ajuda a compreender a importância da prevenção perinatal. Ilustração didática original.

As cinco fases, e por que o mesmo paciente muda de rótulo

A infecção crônica não é um estado, é um processo, e o mesmo paciente pode transitar entre fases ao longo de décadas. As fases se definem por três informações: HBeAg, HBV-DNA e ALT. Saber em qual delas o paciente está é o que decide tratar, acompanhar de perto ou acompanhar de longe.

HBeAg reagente, infecção — antiga fase imunotolerante. ALT persistentemente normal, HBV-DNA acima de 10⁷ UI/mL, fígado com fibrose e necroinflamação mínimas ou ausentes. É mais frequente e mais prolongada em quem se infectou nos primeiros anos de vida, podendo durar de 10 a 40 anos. Transmissibilidade máxima.

HBeAg reagente, hepatite — antiga fase imunorreativa. ALT elevada, carga viral em queda relativa, entre 10⁴ e 10⁷ UI/mL, com necroinflamação moderada a grave e fibrose progredindo depressa. Pode durar de menos de 5 a mais de 25 anos.

HBeAg não reagente, infecção — antigo "portador inativo", ou fase de baixa replicação. ALT normal, HBV-DNA indetectável ou abaixo de 2.000 UI/mL, anti-HBe reagente. Bom prognóstico em quem não é cirrótico e permanece nessa fase — e a palavra "permanece" é o problema, porque a fase pode ser abandonada. A perda espontânea do HBsAg ocorre em 1% a 3% dos casos por ano.

HBeAg não reagente, hepatite — fase de reativação. ALT flutuante e alterada, HBV-DNA acima de 2.000 UI/mL, necroinflamação e fibrose na histologia. A maioria tem mutação pré-core ou do promotor do core. É a fase com menor taxa de remissão espontânea e maior risco de cirrose descompensada e de carcinoma hepatocelular. É onde Edvaldo pode entrar sem avisar, e é por isso que ALT normal hoje não encerra o seguimento.

HBsAg não reagente — cura funcional. ALT normal, DNA indetectável ou muito baixo, com ou sem anti-HBs. A perda do HBsAg antes de instalada a cirrose associa-se a risco mínimo de complicações e a maior sobrevida. Mas o cccDNA permanece no fígado, e imunossupressão intensa pode reativar a infecção — motivo pelo qual essas pessoas continuam sendo avaliadas antes de quimioterapia, de transplante e de tratamento de hepatite C com antivirais de ação direta.

O que muda em quem não é o adulto assintomático típico

Na gestante. Os critérios de tratamento são os mesmos da população geral, mas a escolha do fármaco não é: apenas o tenofovir desoproxila tem segurança comprovada na gestação, e quem já usa outro análogo deve ser trocado. A infecção crônica em si não costuma piorar desfechos obstétricos, exceto quando há fibrose avançada ou cirrose, que exigem pré-natal de alto risco. Um detalhe laboratorial evita erro de interpretação: na gravidez, ALT, AST, gama-GT e bilirrubinas costumam permanecer inalteradas ou até reduzidas no segundo e terceiro trimestres, de modo que elevação nesse período deve ser investigada, e não atribuída à gestação; a fosfatase alcalina, ao contrário, sobe até quatro vezes por produção placentária; e a alfafetoproteína não serve para rastrear câncer de fígado na gestante, porque é produzida pelo próprio feto. Métodos não invasivos de estadiamento não estão validados na gravidez — a rigidez hepática aumenta de forma reversível, sobretudo no último trimestre.

No recém-nascido exposto. Não há nada para ver. A criança nasce normal, mama normal e vai para casa. O que decide o desfecho dela aconteceu ou não aconteceu nas primeiras horas, e o único jeito de saber se deu certo é sorologia mais tarde. A conduta é integralmente preventiva, e o capítulo de reanimação e o de triagens neonatais cuidam do resto do que se faz com esse bebê.

Na pessoa que vive com HIV. A coinfecção aparece em cerca de 5% dos casos de hepatite B notificados e muda três coisas. A primeira: a coinfecção é, por si só, indicação de tratamento da hepatite B, independentemente de carga viral e transaminase. A segunda: o esquema antirretroviral precisa conter fármacos ativos contra o vírus B, e nunca se deve tratar um sem cobrir o outro, pelo risco de resistência. A terceira: o esquema vacinal para quem vive com HIV é diferente — quatro doses com o dobro do volume indicado para a idade —, com sorologia de controle 30 a 60 dias depois. O manejo do HIV em si é assunto do capítulo dele.

No paciente que vai ser imunossuprimido. Antes de quimioterapia, de terapia imunossupressora, de transplante ou de tratamento de hepatite C com antivirais de ação direta, rastreia-se hepatite B com dois marcadores, HBsAg e anti-HBc total — porque a reativação também acontece em quem tem HBsAg não reagente e anti-HBc reagente. Encontrar isso depois da primeira sessão de quimioterapia é encontrar tarde.

No paciente renal crônico em diálise. É população de rastreamento semestral, de esquema vacinal reforçado — quatro doses com o dobro do volume — e de testagem anual de anti-HBs, porque a imunidade vacinal declina mais rápido e a exposição é contínua. É também a população em que a falha vacinal é mais frequente, e em que o rótulo de não respondedor precisa ser registrado no prontuário, porque muda a conduta em qualquer acidente futuro.

No profissional de saúde — e o interno é um deles. O risco de transmissão do vírus B após exposição ocupacional a sangue varia de 6% a 30%, conforme a natureza da exposição, e o vírus B é cerca de dez vezes mais transmissível que o C e cem vezes mais que o HIV por exposição percutânea. Ele resiste até uma semana em sangue seco à temperatura ambiente. Não existe conduta pós-exposição correta para quem não sabe se respondeu à vacina: a resposta vacinal precisa estar documentada antes do acidente, não depois.

Na pessoa da Amazônia Ocidental, indígena, ribeirinha ou quilombola. A prevalência regional muda o cálculo. Acima de 8% a região é de alta endemicidade; entre 2% e 8%, intermediária; abaixo de 2%, baixa. No Brasil, a Amazônia é a única região de alta endemicidade, e o restante do país é intermediário ou baixo. Isso justifica rastreamento pelo menos uma vez em quem nasceu lá ou é filho de quem nasceu lá, e explica por que hepatite D entra no diferencial dessa população e não da outra.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar hepatite B custa quase nada e se organiza em quatro perguntas, nesta ordem: quem se testa, com o que se testa, o que a combinação significa, e o que se pede depois. Errar a ordem produz os dois desperdícios clássicos — o painel de seis marcadores pedido de uma vez em quem precisava de um, e o encaminhamento de um paciente sem nenhum dos exames que a especialidade vai exigir na primeira consulta.

Uma advertência de método atravessa o bloco. Nenhum marcador isolado, exceto o HBsAg, responde a uma pergunta clínica sozinho. O anti-HBc não diz se há doença, o anti-HBs não diz se houve infecção, o HBeAg não diz há quanto tempo. A leitura é sempre combinatória, e é justamente por isso que o painel completo pedido às cegas gera mais confusão do que informação: com seis resultados na mesa e nenhuma pergunta na cabeça, o interno tende a tratar cada linha como um veredito.

1. Quem se testa, e com quantos marcadores

A recomendação de base é ampla: rastreamento com HBsAg pelo menos uma vez na vida para toda pessoa acima de 20 anos que seja suscetível — isto é, não vacinada, sem registro de esquema completo, ou vacinada sem título protetor. Sobre essa base, há populações com testagem repetida, e a periodicidade não é a mesma para todas.

Pelo menos uma vez, com repetição conforme exposição: pessoas nascidas na Amazônia ou filhas de quem nasceu lá, e imigrantes de regiões de alta endemicidade; gestantes e mulheres em planejamento reprodutivo; filhos de mães HBsAg reagente; contatos domiciliares, sexuais e parentes de primeiro grau de pessoa HBsAg reagente; profissionais de saúde e de segurança pública; quem tem antecedente de exposição percutânea ou parenteral a material biológico fora das normas sanitárias; quem apresenta sinal de doença hepática — enzimas alteradas, hepatomegalia, esplenomegalia, plaquetopenia ou icterícia; pessoas com hepatopatia ou nefropatia crônica sem diálise; pessoas com diabetes; indígenas, ribeirinhos e quilombolas; quem esteve privado de liberdade; e quem procura atendimento por infecção sexualmente transmissível ou tem histórico delas.

Semestral: pessoas que usam drogas injetáveis, inaladas ou fumadas, ou que fazem uso abusivo de álcool; pessoas privadas de liberdade ou em outras situações de restrição; trabalhadoras e trabalhadores do sexo; pessoas em situação de rua; gays e outros homens que fazem sexo com homens; pessoas trans; pessoas com múltiplas parcerias sexuais ou uso inconstante de preservativo; pessoas em diálise; e pessoas vivendo com HIV ou imunossuprimidas.

Trimestral: pessoas em uso de profilaxia pré-exposição ao HIV.

A vacinação e o rastreamento resolvem perguntas diferentes. A documentação de esquema vacinal completo pode dispensar testagem periódica de rotina em alguns contextos, mas não substitui HBsAg em cada gestação nem a investigação indicada por exposição, imunossupressão ou diálise. Quem tem HBsAg não reagente e não comprova esquema completo deve receber orientação para vacinação, que pode começar no mesmo atendimento.

Há um subconjunto que precisa de dois marcadores, HBsAg e anti-HBc total, e não de um. São as pessoas em que a infecção oculta ou passada muda a conduta: quem vive com HIV; quem tem hepatite C e vai receber antivirais de ação direta; quem está em hemodiálise; quem tem hepatopatia crônica ou carcinoma hepatocelular sem etiologia definida; quem usa drogas injetáveis; quem é imunossuprimido ou vai ser; e doadores de sangue, tecidos, órgãos ou sêmen. Nesses casos, um HBsAg não reagente isolado não encerra a investigação.

2. Qual exame primeiro: o teste rápido, e por que ele basta para começar

O rastreamento se faz preferencialmente por HBsAg, e o teste rápido é a tecnologia de escolha: resultado em até 30 minutos, feito com sangue total colhido por punção venosa ou digital, sem estrutura laboratorial, executável em unidade básica, em maternidade, em campanha e em região remota. É o mesmo exame na campanha do pátio da transportadora e na sala de admissão da maternidade.

Um HBsAg reagente já é, por si só, critério de notificação de caso confirmado — e a notificação de hepatite viral é compulsória, com registro no Sinan em até sete dias. Também são critério de confirmação para notificação o anti-HBc IgM reagente e o HBV-DNA detectável, além do óbito com menção de hepatite B na declaração ou com hepatite sem etiologia especificada e confirmação posterior.

Para a conduta clínica, porém, o diagnóstico laboratorial da hepatite B se faz com pelo menos dois testes. O esquema preferencial é HBsAg reagente mais HBV-DNA detectável; o alternativo, HBsAg reagente mais anti-HBc total reagente ou HBeAg reagente. A regra geral de fluxograma vale aqui: conclusão reagente exige pelo menos dois testes sequenciais; conclusão não reagente sai com um teste só, mas se a suspeita persiste, colhe-se nova amostra 30 dias depois.

A definição de infecção crônica é uma só e é temporal: HBsAg reagente por período igual ou superior a seis meses. Há um atalho que ajuda quando não se tem seis meses de espera: anti-HBc IgM não reagente num paciente HBsAg reagente sugere que a infecção já é crônica.

3. Lendo a combinação: os cinco perfis clássicos

Cinco combinações cobrem a maioria dos painéis que chegam. Vale ler cada uma como uma frase, e não como uma linha de tabela.

Tudo não reagente — nunca encontrou o vírus e nunca respondeu a vacina. É pessoa suscetível: vacina-se.

HBsAg reagente, anti-HBc total reagente, anti-HBc IgM reagente, anti-HBs não reagente — hepatite B aguda. HBeAg e anti-HBe podem estar em qualquer combinação. Conduta: monitorar, repetir HBsAg em seis meses, tratar apenas se houver critério de gravidade.

HBsAg reagente, anti-HBc total reagente, anti-HBc IgM não reagente, anti-HBs não reagente — hepatite B crônica. É o painel de Edvaldo. A partir daqui, todo o resto do capítulo se aplica: estadiar, decidir tratamento, notificar, testar e vacinar contatos, rastrear carcinoma quando indicado.

HBsAg não reagente, anti-HBc total reagente, anti-HBs reagente — hepatite B curada, ou imunidade por infecção passada. Não se trata, não se notifica e não se vacina. É o painel que mais gera susto desnecessário, porque tem duas linhas reagentes e nenhuma doença.

HBsAg não reagente, anti-HBc total não reagente, anti-HBs reagente — imunidade por vacinação. É o painel que se quer encontrar no profissional de saúde, e o que dispensa qualquer medida em acidente com material biológico.

Há uma nota de rodapé que evita um erro comum: em alguns casos de cura funcional o anti-HBs não é detectado, por estar em títulos muito baixos. Anti-HBc reagente com HBsAg e anti-HBs não reagentes não significa que a pessoa precise ser vacinada por padrão — significa que ela precisa ser investigada, e é disso que trata o item seguinte.

4. Os painéis que confundem, e o que fazer com cada um

Anti-HBc total isolado, com HBsAg e anti-HBs não reagentes. Tem quatro explicações possíveis, e a conduta depende de qual delas. A primeira é a janela imunológica da infecção aguda em resolução, entre a perda do HBsAg e o aparecimento do anti-HBs — nesse caso o anti-HBc IgM também estará reagente. A segunda, e mais comum em populações de risco intermediário ou alto, é exposição prévia com queda do título de anti-HBs; nessa situação, atenção, o HBsAg pode estar não reagente apenas por estar abaixo do limite de detecção, o que caracteriza infecção oculta. A terceira é resultado falso-positivo, infrequente dada a alta especificidade dos testes atuais, mais plausível em pessoa sem vulnerabilidades vinda de região de baixa prevalência. A quarta é mutação do HBsAg gerando falso-negativo do antígeno, rara e diagnóstico de exclusão.

A conduta diante desse painel, nas populações rastreadas com dois marcadores, é escalonada. Testa-se anti-HBs e dosa-se ALT. Se o anti-HBs for não reagente e a ALT estiver alterada, pede-se HBV-DNA para avaliar infecção oculta. Se o anti-HBs for não reagente e a ALT normal, vacina-se — ou revacina-se — conforme as orientações para imunossuprimidos, pessoas vivendo com HIV e pacientes em diálise.

HBsAg reagente logo após a vacina. A vacina contém antígeno de superfície recombinante, e ele pode circular transitoriamente depois da aplicação. Colher HBsAg de um recém-nascido dias depois da dose ao nascer produz resultado reagente sem infecção nenhuma. Por isso a pesquisa de HBsAg na criança exposta se faz após os 6 meses de idade e, no mínimo, 30 dias após a dose da vacina.

Anti-HBs baixo em quem não comprova vacinação. Não se recomenda testar anti-HBs em quem não tem esquema vacinal documentado, porque os valores de soroproteção não foram validados para essa situação. Um anti-HBs de 4 mUI/mL em quem não sabe quantas doses tomou é um número sem régua — e é exatamente o papel que está no bolso do interno da cena.

Anti-HBc reagente em quem vai ser imunossuprimido. Aqui o painel "curado" deixa de ser tranquilizador. Reativação viral pode ocorrer tanto em quem é HBsAg reagente quanto em quem tem HBsAg não reagente e anti-HBc reagente, submetido a terapia imunossupressora, quimioterapia ou antivirais de ação direta contra hepatite C. Esse é o único cenário em que "hepatite B curada" gera conduta ativa — profilaxia com antiviral ou monitoramento, conforme a estratificação de risco.

Painel colhido cedo demais. Material genético detectável em cerca de 25 dias, HBsAg em cerca de 30 dias, anticorpos entre 30 e 60 dias: um painel colhido no dia do acidente informa sobre o passado da pessoa, que é precisamente o que se quer saber para decidir a profilaxia.

5. O que se pede depois do diagnóstico, e o que não se pede

Confirmada a infecção, o objetivo muda: não é mais saber se tem, é saber quanto de fígado já foi perdido e qual é o risco nas próximas décadas. Os exames que respondem a isso são poucos e todos disponíveis no SUS.

Para avaliar atividade e gravidade da doença hepática: ALT, AST, gama-GT, bilirrubinas totais e frações, albumina, proteínas totais, tempo de protrombina com INR, hemograma e creatinina. E ultrassonografia abdominal, recomendada para todos os pacientes após a confirmação diagnóstica — não é exame de rastreamento de câncer nesse momento, é a primeira olhada na arquitetura do fígado, no baço e no calibre da porta.

Para definir a fase clínica e decidir tratamento: HBeAg, HBV-DNA e ALT. Sem esses três, não há decisão possível. E há uma exigência temporal que se ignora com frequência: para indicar tratamento, o paciente precisa apresentar ALT alterada em pelo menos duas dosagens consecutivas com intervalo mínimo de três meses entre elas. Uma ALT alta isolada não indica tratamento; indica repetir.

Para estadiar a fibrose: elastografia hepática, preferencialmente, sobretudo em quem não preenche critério de tratamento sem ela. Há um filtro gratuito que ajuda a priorizar quem realmente precisa de elastografia: o FIB-4, calculado com idade, AST, contagem de plaquetas e ALT. Em pessoas acima de 30 anos, um FIB-4 igual ou menor que 0,70 tem boa acurácia para excluir cirrose, de modo que esses pacientes têm menor urgência de estadiamento. Vale insistir: o FIB-4 usa exames que qualquer unidade básica pede.

Para investigar coinfecções: sífilis, HIV e hepatite C em toda pessoa com HBsAg reagente, e anti-HDV nas situações que o justificam — procedência da Amazônia, descompensação hepática inexplicada, ou carga viral de hepatite B baixa ou indetectável com doença hepática ativa. Vale também checar anti-HAV IgG ou total: quem tem hepatite B crônica e é suscetível à hepatite A deve ser vacinado contra ela, o que se faz nos CRIE quando a testagem não estiver disponível.

O que não pedir, e o custo de pedir. Anti-HBs em quem não tem esquema vacinal documentado — produz número sem interpretação e leva a decisões erradas nos dois sentidos. HBeAg e anti-HBe em quem tem HBsAg não reagente — não há o que replicar. Testagem sorológica anual de anti-HBs em quem já foi classificado como não respondedor após dois esquemas completos: essa testagem seriada não está indicada, e o que se mantém é o rastreamento periódico de HBsAg. Biópsia hepática de rotina — ela ficou reservada para quando, mesmo após métodos não invasivos e critérios clínicos, ainda restar dúvida sobre a indicação de tratamento, ou quando houver suspeita de outra etiologia concomitante. Alfafetoproteína isolada como rastreamento de câncer: ela só entra acompanhando a ultrassonografia, e é dispensável em serviço com ultrassonografia confiável. E elastografia em quem tem ALT cinco vezes ou mais acima do limite superior da normalidade, colestase extra-hepática, congestão hepática, hepatite aguda ou doença infiltrativa — nessas condições o exame não é recomendado, porque o resultado não representa fibrose.

6. O diferencial mora aqui dentro

Diante de transaminase alterada com HBsAg reagente, a armadilha não é deixar de pensar em hepatite B — é atribuir tudo a ela. O vírus B pode estar presente e não ser o que está elevando a ALT hoje, e o protocolo brasileiro é explícito ao mandar considerar e controlar outras causas de lesão hepática antes de indicar tratamento: esteatose hepática metabólica, doença hepática alcoólica e hepatite medicamentosa. O exame que confirma um não exclui o outro; o que resolve é sequência — repetir a ALT após três meses tendo tratado as outras causas.

Do outro lado, HBsAg não reagente não exclui hepatite B nas populações certas, e é por isso que existe rastreamento com dois marcadores. Um paciente em diálise com anti-HBc reagente, HBsAg não reagente e ALT alterada precisa de HBV-DNA antes de se dizer que a hepatite dele é de outra causa.

Na hepatite aguda com HBsAg reagente, o diferencial é com as demais hepatites agudas — assunto de Hepatite A e hepatites agudas: quadro, diagnóstico e prevenção, nesta apostila — e o exame que separa é sorológico: anti-HAV IgM para hepatite A, anti-HCV e HCV-RNA para hepatite C, anti-HBc IgM para dizer se o quadro B é recente. A hepatite C tem capítulo próprio — Hepatite C: rastreamento, diagnóstico e tratamento, nesta apostila — e sai remetida daqui.

Na hepatite B crônica que descompensa, o diferencial inclui a superinfecção pelo vírus D, e é ele que muda tratamento e prognóstico. A doença hepática avançada — cirrose e suas complicações, hemorragia digestiva alta — tem capítulos próprios; aqui interessa apenas reconhecer que ela é o desfecho que este capítulo existe para prevenir, e que o achado de circulação colateral, bordas rombas, esplenomegalia, veia porta acima de 1,2 cm, ascite ou varizes esofágicas basta, sem elastografia e sem biópsia, para indicar tratamento.

7. O que existe no SUS, e onde

A organização da rede, os níveis de atenção e os princípios que os governam têm tema próprio; o que interessa aqui é estreito e prático — onde cada exame se faz, onde cada insumo se retira e quem pode pedir o quê.

Teste rápido de HBsAg: unidade básica, maternidade, campanha, serviço de urgência. É o exame do primeiro contato e não depende de laboratório.

Sorologia completa e HBV-DNA: rede laboratorial, com solicitação a partir da atenção primária. Os exames iniciais podem ser solicitados por médicos ou enfermeiros do serviço onde a pessoa recebeu a confirmação diagnóstica — o que existe justamente para que a terapia, quando indicada, comece em tempo oportuno e não espere a primeira consulta com o especialista.

Elastografia hepática: atenção especializada, com disponibilidade desigual pelo país. É a razão de o FIB-4 importar tanto: ele triagem quem realmente precisa da fila.

Vacina hepatite B: sala de vacina de qualquer unidade básica, e obrigatoriamente em toda maternidade, pública ou privada, em condições adequadas de conservação. Não é insumo de estoque opcional.

Imunoglobulina humana anti-hepatite B nas apresentações de 100 UI e 1.000 UI intramusculares, para profilaxia da transmissão vertical e para profilaxia pós-exposição: é adquirida e distribuída pelo Programa Nacional de Imunizações aos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, os CRIE, em todas as unidades da federação. Cabe à gestão local desenhar o fluxo que garante acesso em tempo oportuno — e esse fluxo é o que o interno precisa conhecer antes de precisar dele, não depois.

Tenofovir desoproxila 300 mg, entecavir 0,5 mg, tenofovir alafenamida 25 mg e alfapeginterferona 2a 180 mcg: fazem parte do Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica e são dispensados com registro no Siclom-Hepatites, na rede de farmácias pactuada entre estados e municípios. A aquisição é do Ministério da Saúde. Nenhum desses medicamentos se compra na farmácia da esquina, e nenhum deles falta por ser caro — falta por falha de fluxo.

07

O painel, o relógio e a régua do tratamento

Comece pelas perguntas que o painel sorológico consegue responder: há infecção atual, contato prévio ou resposta vacinal? Depois integre tempo de evolução, ALT, carga viral e fibrose para decidir acompanhamento ou avaliação de tratamento. Nenhum marcador isolado descreve toda a fase clínica, e prevenção nos contatos faz parte do mesmo cuidado. Três coisas diferentes se decidem neste capítulo, e cada uma tem a sua régua. A primeira é o que o painel diz — cinco marcadores, cinco perguntas, e uma leitura que só funciona em conjunto. A segunda é quanto tempo resta — porque toda a profilaxia da hepatite B é uma corrida contra o relógio, e o relógio começa no nascimento ou na exposição, não no momento em que alguém se lembra do assunto. A terceira é quem entra em tratamento, e essa régua é mais estreita do que parece: a maioria das pessoas com hepatite B crônica não preenche critério, e para elas "não tratar" é uma conduta com seguimento, exames e rastreio de câncer, não uma alta. O que segue são as três réguas escritas por extenso, com os marcadores, os prazos, as doses e os volumes.

  1. 1Ofereça teste rápido de HBsAg a quem tem indicação — e lembre que a indicação de base é ampla: pelo menos uma vez na vida para toda pessoa acima de 20 anos que não comprove vacinação. O resultado sai em até 30 minutos, na própria unidade.
  2. 2Nas populações que exigem dois marcadores — pessoas vivendo com HIV, hepatite C que vai receber antiviral de ação direta, hemodiálise, hepatopatia sem etiologia, uso de drogas injetáveis, imunossuprimidos e doadores —, peça HBsAg e anti-HBc total. HBsAg não reagente isolado não encerra a investigação nesse grupo.
  3. 3HBsAg não reagente e sem esquema vacinal completo comprovado: vacine no mesmo atendimento, inclusive a gestante em qualquer idade gestacional. A comprovação vacinal não substitui o rastreamento de hepatite B em cada gestação nem as indicações específicas de testagem por exposição, imunossupressão ou diálise. Delimite o contexto antes de dispensar testagem periódica.
  4. 4HBsAg reagente: notifique. Hepatite viral é agravo de notificação compulsória, com registro no Sinan em até sete dias, e o HBsAg reagente já basta como critério de caso confirmado.
  5. 5Complete o diagnóstico laboratorial com um segundo teste — HBV-DNA, preferencialmente, ou anti-HBc total ou HBeAg. E defina se é aguda ou crônica: anti-HBc IgM reagente sugere infecção recente; HBsAg reagente por seis meses define crônica.
  6. 6Estadie no mesmo pedido, para não perder consulta: ALT, AST, gama-GT, bilirrubinas, albumina, proteínas totais, TP/INR, hemograma, creatinina, HBeAg, HBV-DNA e ultrassonografia abdominal. Calcule o FIB-4 com o que já veio.
  7. 7Rastreie coinfecções: sífilis, HIV, hepatite C — e hepatite D em quem vem da Amazônia, descompensa sem explicação ou tem doença ativa com carga viral baixa. Cheque anti-HAV e vacine contra hepatite A quem for suscetível.
  8. 8Teste e cheque a caderneta de vacinação de todas as parcerias sexuais, contatos domiciliares e parentes de primeiro grau. Vacine os suscetíveis. Esta é a etapa que mais se perde, e é a que interrompe a cadeia.
  9. 9Aplique a régua do tratamento: HBV-DNA igual ou maior que 2.000 UI/mL e ALT igual ou maior que 52 U/L em homens ou 37 U/L em mulheres, em duas dosagens com pelo menos três meses de intervalo. Ou qualquer um dos critérios independentes — coinfecção, cirrose, manifestação extra-hepática, HBeAg reagente acima de 30 anos, história familiar de carcinoma, hepatite aguda grave, fibrose significativa.
  10. 10Quem não preenche critério não recebe alta: entra em monitoramento com periodicidade definida pela fase, e mantém rastreamento de carcinoma hepatocelular se tiver indicação — homens a partir de 40 anos, mulheres a partir de 50, e mais cedo em quem tem fibrose avançada, história familiar, coinfecção, esteatose ou doença alcoólica.
  11. 11Na gestante HBsAg reagente: encaminhe ao pré-natal de alto risco e ao serviço especializado, peça ALT, HBV-DNA e HBeAg com resultado disponível até o fim do segundo trimestre, e inicie tenofovir 300 mg por via oral, uma vez ao dia, a partir da 24ª semana, se HBV-DNA igual ou maior que 200.000 UI/mL e/ou HBeAg reagente.
  12. 12Escreva no cartão da gestante, com letra legível, que o HBsAg é reagente. É esse papel que a maternidade vai ler às três da manhã para decidir se o bebê recebe imunoglobulina.
  13. 13Na sala de parto, para todo recém-nascido de mãe HBsAg reagente: banho em água corrente imediatamente após o nascimento, aspiração gástrica das secreções, vacina hepatite B 0,5 mL por via intramuscular no vasto lateral e imunoglobulina 0,5 mL por via intramuscular no vasto lateral do membro oposto — ainda na sala de parto ou nas primeiras 12 horas.
  14. 14Para todo recém-nascido, independentemente do status materno: vacina hepatite B na sala de parto ou nas primeiras 12 horas, ainda na maternidade. Registre a dose no SI-PNI ou em sistema integrado à RNDS.
  15. 15Diante de exposição percutânea, de mucosa ou sexual: teste a pessoa exposta com teste rápido de HBsAg e defina suscetibilidade pela documentação vacinal. Inicie ou complete a vacina no mesmo atendimento e avalie a indicação de imunoglobulina pela situação vacinal e pelo status da fonte.
  16. 16Não atrase a vacina para esperar a imunoglobulina. A indisponibilidade da imunoglobulina não é impedimento para vacinar — e é a vacina, sozinha, que carrega a maior parte do efeito.
  17. 17Agende a checagem de resposta: anti-HBs entre 30 e 60 dias após a última dose do esquema, para quem tem indicação. Registre o resultado na caderneta e no prontuário — é o dado que decide a conduta no próximo acidente.

Hora 0 — sala de parto

O momento ideal para tudo o que se faz no recém-nascido de mãe HBsAg reagente. Banho em água corrente imediatamente após o nascimento, aspiração gástrica para remover secreção infectada, vacina hepatite B 0,5 mL por via intramuscular no vasto lateral e imunoglobulina humana anti-hepatite B 0,5 mL por via intramuscular no vasto lateral do membro oposto, em qualquer peso e em qualquer idade gestacional. Nessa condição, a proteção contra a transmissão no parto é praticamente completa.

Até 12 horas — a janela que o Brasil monitora

É o prazo preferencial da vacina para todos os recém-nascidos, não só os de mãe positiva, e é a meta que o país assumiu: cobertura de pelo menos 95% da dose ao nascer até 2030. Toda maternidade, pública ou privada, deve dispor da vacina em condições adequadas de conservação. Para o filho de mãe HBsAg reagente, é também o prazo ideal da imunoglobulina.

Até 24 horas — o limite operacional

Quando não foi possível na sala de parto nem nas primeiras 12 horas, vacina-se em até 24 horas após o parto, e a imunoglobulina segue indicada nesse intervalo. É também o prazo preferencial da vacina e da imunoglobulina em qualquer profilaxia pós-exposição do adulto — acidente com material biológico, contato sexual, violência sexual. Depois disso a eficácia cai, mas a intervenção não vira inútil.

Até 7 dias — o teto da imunoglobulina no bebê e no acidente percutâneo

Prazo máximo para aplicar a imunoglobulina em exposição perinatal e em exposição percutânea ou de mucosa. É o que salva a criança nascida de mãe com sorologia desconhecida: vacina-se imediatamente na sala de parto, colhe-se o HBsAg materno, e a imunoglobulina é fornecida dentro dos primeiros sete dias de vida se a mãe se confirmar positiva. Passado esse prazo, resta a vacina e o seguimento sorológico.

Até 14 dias — o teto da imunoglobulina na exposição sexual

Para exposição sexual — parceria de caso agudo de hepatite B, violência sexual —, a imunoglobulina pode ser aplicada até 14 dias depois, embora se recomende usá-la nas primeiras 24 horas. Este é o prazo mais largo do capítulo, e mesmo ele já havia passado para o interno da cena, que se acidentou há três semanas: para ele restam a vacinação completa e a checagem de anti-HBs, e o registro de que ele é suscetível, para que o próximo acidente seja conduzido em horas e não em semanas.

MarcadorPergunta que ele respondeReagente significaNão reagente significaErro comum de leitura
HBsAgHá vírus circulando agora?Infecção — aguda ou crônica. Reagente por mais de 6 meses define crônica. Basta para notificarSem infecção detectável no momento. Não exclui infecção oculta nas populações de riscoLer como "hepatite aguda". O HBsAg não distingue aguda de crônica; quem faz isso é o anti-HBc IgM
Anti-HBc totalEsta pessoa já encontrou o vírus algum dia?Contato prévio com o vírus, em qualquer momento da vida. Não desaparece maisNunca teve contato com o vírus. Se o anti-HBs estiver reagente, a imunidade é vacinalLer como doença ativa. Sozinho, é cicatriz — e é o marcador que separa vacinado de curado
Anti-HBc IgMO contato foi nos últimos seis meses?Infecção recente. Pode reaparecer em agudização de hepatite crônicaContato antigo. Num paciente HBsAg reagente, sugere infecção crônicaUsar como prova isolada de fase aguda. Precisa da história clínica e das datas de exposição ao lado
HBeAgQuanto vírus, e quanto contágio?Replicação intensa e transmissibilidade alta. Na gestante sem carga viral disponível, marca alto risco de transmissão verticalReplicação menor — mas existe hepatite B crônica HBeAg não reagente, tão agressiva quanto a outraLer HBeAg não reagente como doença inativa. Sem carga viral e ALT ao lado, não significa nada
Anti-HBeHouve soroconversão do antígeno "e"?Redução da replicação viral, em geral melhor prognósticoSem soroconversão; ler junto com o HBeAgLer como cura. Não é: o vírus continua, e a fase pode reativar
Anti-HBsEsta pessoa está protegida?Imunidade, se igual ou maior que 10 mUI/mL após esquema vacinal completo. Sozinho, é vacina; com anti-HBc, é infecção curadaSuscetível — desde que o esquema vacinal esteja documentado. Sem documentação, o número não tem réguaPedir em quem não comprova vacinação. Os valores de soroproteção não foram validados nessa situação
HBV-DNA (carga viral)Qual é o risco desta pessoa nas próximas décadas?Quantifica a replicação. É o parâmetro com associação mais forte com cirrose, carcinoma e morte, e o principal critério de tratamentoReplicação abaixo do limite de detecção do ensaio, que é de cerca de 10 UI/mLTratar por carga viral isolada. Sem ALT alterada em duas dosagens ou outro critério, a carga viral sozinha não indica tratamento
ALT (TGP)Quanta agressão imune está havendo?Acima de 52 U/L em homens ou 37 U/L em mulheres, é critério — desde que confirmada em segunda dosagem com 3 meses de intervaloNão significa fígado íntegro. Carga viral altíssima com ALT normal é a fase de infecção HBeAg reagente, não segurançaLer ALT como medida de carga viral. Ela mede a briga, não o vírus

Os cinco perfis clássicos e o que fazer com cada um

HBsAgAnti-HBc totalAnti-HBc IgMAnti-HBsInterpretaçãoConduta
Não reagenteNão reagenteNão reagenteNão reagenteSuscetível — nunca teve contato e não respondeu a vacinaVacinar: 3 doses aos 0, 1 e 6 meses a partir dos 7 anos de idade
ReagenteReagenteReagenteNão reagenteHepatite B agudaNotificar; monitorar a cada 2–4 semanas; repetir HBsAg em 6 meses; antiviral só se houver critério de gravidade
ReagenteReagenteNão reagenteNão reagenteHepatite B crônicaNotificar; estadiar; aplicar a régua de tratamento; testar e vacinar contatos; rastrear carcinoma se indicado
Não reagenteReagenteNão reagenteReagenteHepatite B curada — imunidade por infecção passadaNada a fazer. Não trata, não notifica, não vacina. Exceção: antes de imunossupressão, avaliar risco de reativação
Não reagenteNão reagenteNão reagenteReagenteImunidade por vacinaçãoNada a fazer. Registrar o título na caderneta — é ele que dispensa medidas em acidente futuro
Não reagenteReagenteVariávelNão reagenteAnti-HBc isolado — janela imunológica, exposição prévia com queda do anti-HBs, infecção oculta ou falso-positivoDosar anti-HBs e ALT. ALT alterada: pedir HBV-DNA para investigar infecção oculta. ALT normal: vacinar ou revacinar

Imunoprofilaxia do recém-nascido: o que, quanto, onde e até quando

Situação maternaVacina hepatite BImunoglobulina (IGHAHB)PrazoSeguimento sorológico da criança
HBsAg reagente0,5 mL IM no vasto lateral, monovalente, ao nascer; depois penta aos 2, 4 e 6 meses — 4 doses no total0,5 mL IM no vasto lateral do membro OPOSTO, em qualquer peso e idade gestacionalSala de parto ou primeiras 12 h; se não for possível, até 24 h. A imunoglobulina, no máximo até 7 dias de vidaHBsAg e anti-HBs entre 9 e 12 meses de idade — o anticorpo emprestado da imunoglobulina pode ser detectado por até 6 meses
HBsAg não reagente0,5 mL IM no vasto lateral, monovalente, ao nascer; depois penta aos 2, 4 e 6 mesesNão indicadaSala de parto ou primeiras 12 h, ainda na maternidade; até 24 h se não for possívelNão indicado de rotina
Sorologia materna desconhecida0,5 mL IM imediatamente na sala de partoColher HBsAg materno. Se confirmar reagente, fornecer imunoglobulina à criançaVacina imediata; imunoglobulina dentro dos primeiros 7 dias de vidaConforme a confirmação materna; se recebeu imunoglobulina, entre 9 e 12 meses
Qualquer situação, criança que não recebeu vacina nem imunoglobulinaRealizar HBsAg antes: se não reagente, fazer o esquema vacinalFora de prazoInvestigar infecção pelo HBV — vale também para a criança que chega tardiamente ao serviço sem registro de profilaxiaHBsAg após os 6 meses de idade e no mínimo 30 dias após a dose de vacina; anti-HBs 30 dias após o término do esquema
Recém-nascido que perdeu a dose ao nascerA vacina monovalente só pode ser administrada até 1 mês de vida. Perdido esse prazo, o esquema passa a ser 3 doses de penta, iniciadas aos 2 mesesAté 1 mês de vidaConforme a exposição materna

Profilaxia após exposição ocupacional a material biológico, em pessoa com HBsAg não reagente

Situação vacinal e sorológica de quem se expôsFonte HBsAg reagenteFonte HBsAg não reagenteFonte desconhecida ou não testada
Não vacinadoImunoglobulina + iniciar vacinaçãoIniciar vacinaçãoIniciar vacinação — associar imunoglobulina se a fonte tiver alto risco
Vacinação incompletaImunoglobulina + completar vacinaçãoCompletar vacinaçãoCompletar vacinação — associar imunoglobulina se a fonte tiver alto risco
Resposta vacinal conhecida e adequada (anti-HBs ≥ 10 mUI/mL)Nenhuma medida específicaNenhuma medida específicaNenhuma medida específica
Sem resposta após a 1ª série de 3 dosesImunoglobulina + 1ª dose da segunda série vacinalIniciar nova série de 3 dosesIniciar nova série de 3 doses
Sem resposta após a 2ª série (6 doses)Duas doses de imunoglobulina, com 1 mês de intervaloNenhuma medida específicaDuas doses de imunoglobulina, com 1 mês de intervalo
Resposta vacinal desconhecidaTestar anti-HBs. Adequada: nenhuma medida. Inadequada: imunoglobulina + 1ª dose da vacina — ou duas doses de imunoglobulina se já houve dois esquemasTestar anti-HBs. Adequada: nenhuma medida. Inadequada: segunda série vacinalTestar anti-HBs. Adequada: nenhuma medida. Inadequada: segunda série vacinal
Prazos e dosesImunoglobulina 0,06 mL/kg IM, dose máxima 5 mL, em extremidade diferente da vacina. Preferencialmente nas primeiras 24 h; até 7 dias na exposição percutânea e até 14 dias na sexualA indisponibilidade da imunoglobulina NÃO impede a vacinaçãoSe o anti-HBs não sair em 48 h, conduzir como resposta vacinal inadequada. Fonte de alto risco: uso de drogas, diálise, contato de pessoa HBsAg reagente, múltiplas parcerias sem preservativo, IST prévia, procedência de área de alta endemicidade, privação de liberdade

Esquemas vacinais contra hepatite B, por população — o calendário completo tem tema próprio, e aqui entra só o componente hepatite B

PopulaçãoNº de doses e intervalosVolume por doseObservações
Recém-nascido e criança até 6 anos, 11 meses e 29 dias4 doses: monovalente ao nascer + penta aos 2, 4 e 6 meses. Intervalo mínimo de 30 dias entre doses; a 3ª dose de penta não antes dos 6 meses de vida0,5 mLNão há esquema diferente para prematuros. A monovalente ao nascer só pode ser dada até 1 mês de vida; perdido o prazo, faz-se 3 doses de penta a partir dos 2 meses
Criança de 7 anos em diante e adulto3 doses: 0, 1 e 6 meses0,5 mL até 15 anos; 1,0 mL a partir de 16 anosEsquema incompleto NÃO se reinicia — completa-se. Em atraso, a 3ª dose vale se aplicada ≥ 8 semanas após a 2ª e ≥ 16 semanas após a 1ª
Gestante sem esquema completoIniciar ou completar em qualquer idade gestacional e em qualquer trimestre0,5 mL até 15 anos; 1,0 mL a partir de 16 anosAvaliar o cartão logo no início do pré-natal. Não sendo possível concluir na gravidez, concluir até 45 dias de puerpério. A vacina é segura na amamentação
Pessoa vivendo com HIV, imunossuprimida, nefropata crônica ou dialítica, transplantada, cirrótica, em quimioterapia ou corticoterapia4 doses, aos 0, 1, 2 e 6 meses (em adultos vivendo com HIV, 0, 1, 2 e 6–12 meses)O DOBRO do volume indicado para a idade: 1,0 mL até 15 anos; 2,0 mL a partir de 16 anosAnti-HBs 30 a 60 dias após a última dose. Se ≤ 10 UI/mL, repetir o esquema de 4 doses com o dobro do volume
Profissional de saúde3 doses, 0/1/6 meses. Anti-HBs 1 a 2 meses após a 3ª dose1,0 mL a partir de 16 anosAnti-HBs não reagente 1–2 meses após a 3ª dose: repetir o esquema. Não reagente ≥ 6 meses após a 3ª dose do 1º esquema: aplicar 1 dose e retestar em 1 mês; se positiva, imune; se negativa, completar mais 2 doses
Via, local e o que não fazerIntramuscular. Menores de 2 anos, vasto lateral da coxa; a partir de 2 anos, também o deltoide. NUNCA na região glútea, subcutânea ou intradérmica — a imunogenicidade cai. Subcutânea apenas em pessoas com tendência hemorrágica grave

Quem entra em tratamento, quem só é acompanhado

CritérioComo se verificaO que decorre
Critério principalHBV-DNA ≥ 2.000 UI/mL, independentemente do HBeAg, E ALT ≥ 52 U/L (homens) ou ≥ 37 U/L (mulheres) em duas dosagens consecutivas com intervalo mínimo de 3 mesesTratar. O limite superior da normalidade adotado é 35 U/L em homens e 25 U/L em mulheres, e o corte é 1,5 vez esse valor
Fibrose significativa ou cirroseElastografia transitória > 9 kPa (ALT normal) ou > 12 kPa (ALT entre 1 e 5× o LSN); pSWE/ARFI ≥ 1,8 m/s; 2D-SWE > 10 kPa; biópsia ≥ A2 e/ou ≥ F2 pelo METAVIR; ou sinais clínicos, radiológicos ou endoscópicos de doença avançadaTratar, e rastrear varizes esofágicas e carcinoma hepatocelular
Zona cinzenta da elastografia6 a 9 kPa na elastografia transitória (6 a 12 kPa se ALT elevada abaixo de 5× o LSN)Considerar sexo masculino, idade acima de 40 anos em HBeAg não reagente, história familiar de cirrose por HBV, etilismo pesado, diabetes, síndrome metabólica, esteatose ou coinfecção com HCV. Persistindo a dúvida, biópsia
Critérios independentesHBeAg reagente acima de 30 anos; história familiar de carcinoma hepatocelular; coinfecção com HIV, HCV ou HDV; manifestação extra-hepática (artrite, vasculite, nefropatia, poliarterite nodosa, neuropatia periférica); hepatite B aguda grave; profissional de saúde que faz procedimentos de alto risco; gestante com carga viral elevada; candidato a imunossupressão ou transplanteTratar ou fazer profilaxia com antiviral, independentemente de carga viral, ALT e histologia
Hepatite B aguda graveINR > 1,5; OU icterícia com BT > 3 mg/dL ou BD > 1,5 mg/dL por mais de 4 semanas; OU encefalopatia; OU asciteQualquer um deles, isoladamente, indica análogo nucleos(t)ídeo imediato e avaliação por serviço com transplante
Menores de 18 anosHBV-DNA ≥ 2.000 UI/mL E ALT ≥ 1,3× o LSN do laboratório local, por 6 meses ou mais, com pelo menos 2 dosagens de cada, separadas por no mínimo 6 mesesTratar sem necessidade de biópsia. Entre 1 e 1,3× o LSN com carga viral ≥ 2.000, indicar biópsia
Quem NÃO preenche critérioFase de infecção HBeAg reagente com ALT normal; fase de baixa replicação com HBV-DNA < 2.000 UI/mL e ALT normalNão trata — e não recebe alta. Segue em monitoramento, com rastreamento de carcinoma hepatocelular se tiver indicação por idade ou por fator de risco

O limite superior da normalidade adotado pelo protocolo brasileiro — 35 U/L em homens e 25 U/L em mulheres — não é o valor de referência impresso na maioria dos laudos, que costuma ser mais alto. Ler a ALT pelo intervalo do laboratório, e não pela régua do protocolo, é o caminho mais curto para deixar de tratar quem tem indicação.

O corte publicado para tratamento é de 52 U/L em homens e 37 U/L em mulheres, ainda que 1,5 vez os limites de normalidade adotados resulte em 52,5 e 37,5 U/L. Na prática, os valores publicados são o que se aplica, e um resultado de 37 U/L numa mulher preenche o critério.

Toda pessoa que perde o HBsAg mantém o rastreamento de carcinoma hepatocelular se já tinha indicação antes da perda. Cura funcional não apaga o risco acumulado nem o DNA integrado ao genoma do hepatócito.

08

A conduta, hora a hora

Esta doença tem duas linhas do tempo, e o interno trabalha nas duas. A primeira se mede em horas e é a da profilaxia: o recém-nascido na sala de parto, o colega que se espetou, a pessoa que sofreu violência sexual. A segunda se mede em anos e é a do adulto com infecção crônica, em que a única decisão urgente é não deixar o paciente sair sem um plano de seguimento. Confundir as duas produz os dois erros de tempo do capítulo — correr onde não precisa e esperar onde não pode.

Toda dose abaixo vem com a fonte que a sustenta. Onde os documentos brasileiros divergem entre si ou divergem da régua internacional, o capítulo escolhe, diz qual escolheu e por quê, e o bloco de divergências desenvolve o argumento.

  1. Antes de qualquer paciente — a unidade que consegue testar, vacinar e registrar no mesmo dia

    A maior parte do que previne hepatite B acontece antes de haver um caso. Uma unidade básica que tem teste rápido na gaveta, vacina na geladeira e o fluxo do CRIE anotado na parede resolve em trinta minutos o que, sem isso, vira encaminhamento e três semanas. Uma maternidade sem vacina em condições adequadas de conservação está descumprindo norma, não improvisando.

    Prescrição
    • Manter teste rápido de HBsAg disponível na unidade básica, na maternidade e no serviço de urgência: resultado em até 30 minutos, sangue total por punção venosa ou digital, sem estrutura laboratorial [PCDT de Hepatite B e Coinfecções, MS, Portaria SECTICS/MS nº 25/2023].
    • Manter vacina hepatite B recombinante em toda maternidade, pública ou privada, em condições adequadas de conservação, entre +2 °C e +8 °C, sem congelamento [Nota Técnica nº 108/2025-CGICI/DPNI/SVSA/MS; Manual dos CRIE, 6ª ed., 2023].
    • Ter escrito, e afixado, o fluxo local de acesso à imunoglobulina humana anti-hepatite B pelo CRIE da unidade da federação, com telefone e horário. A imunoglobulina é adquirida e distribuída pelo Programa Nacional de Imunizações aos CRIE, e cabe à gestão local garantir acesso em tempo oportuno [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Registrar toda dose aplicada no SI-PNI ou em sistema integrado à Rede Nacional de Dados em Saúde, conforme a Portaria GM/MS nº 5.663, de 31 de outubro de 2024 [Nota Técnica nº 108/2025].
  2. Hora 0 — sala de parto, recém-nascido de mãe HBsAg reagente

    É o marco de maior densidade de decisão do capítulo, e o único em que doze horas mudam o desfecho de uma vida. A conduta é curta, é toda de enfermagem e medicina de sala de parto, e não depende de nenhum exame novo — depende de alguém ter lido o cartão de pré-natal ou o teste rápido da admissão.

    Prescrição
    • Banho em água corrente ainda na sala de parto, imediatamente após o nascimento. Não sendo possível, limpar com compressas macias todo o sangue e as secreções visíveis e proceder ao banho logo em seguida [PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical, MS, Portaria SCTIE/MS nº 55/2020].
    • Aspiração gástrica para remoção de secreção infectada [PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical, 2020].
    • Vacina hepatite B (recombinante) monovalente: 0,5 mL por via intramuscular no vasto lateral da coxa, ainda na sala de parto ou, no mais tardar, nas primeiras 12 horas após o nascimento [PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical, 2020; Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação].
    • Imunoglobulina humana anti-hepatite B: 0,5 mL por via intramuscular no vasto lateral do membro OPOSTO ao da vacina, para recém-nascido de qualquer peso e de qualquer idade gestacional, ainda na sala de parto ou dentro das primeiras 12 a 24 horas de vida [PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical, 2020; Manual dos CRIE, 6ª ed., 2023].
    • Aplicar as duas em sítios musculares distintos, sempre. O anticorpo pronto da imunoglobulina neutraliza o antígeno da vacina se os dois forem injetados no mesmo local [Manual dos CRIE, 6ª ed., 2023; Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação].
    • Liberar a amamentação. Não está contraindicada em mãe HBsAg reagente, independentemente do uso de antiviral, desde que assegurada a imunoprofilaxia do recém-nascido [PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical, 2020; PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Não indicar cesariana com o propósito de reduzir transmissão vertical do vírus B: não há evidência de redução adicional de risco [PCDT de Hepatite B, 2023; PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical, 2020].
  3. Hora 0 — recém-nascido de mãe com sorologia desconhecida, e todos os demais

    Duas situações que se confundem e têm condutas diferentes. Mãe com sorologia desconhecida: vacina agora, imunoglobulina depois, se a sorologia dela confirmar. Mãe comprovadamente não reagente, ou qualquer recém-nascido: vacina agora, e só.

    Prescrição
    • Todo recém-nascido, independentemente do status materno: vacina hepatite B monovalente 0,5 mL por via intramuscular no vasto lateral, na sala de parto ou nas primeiras 12 horas, ainda na maternidade; não sendo possível, em até 24 horas [Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação; Nota Técnica nº 108/2025].
    • Mãe sem informação sobre o estado sorológico: vacina imediatamente na sala de parto, coleta de HBsAg materno, e imunoglobulina fornecida à criança confirmada como exposta dentro dos primeiros 7 dias de vida [PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical, 2020].
    • Completar o esquema com vacina penta (DTP + HB + Hib) aos 2, 4 e 6 meses de idade — quatro doses com componente hepatite B no total [PCDT de Hepatite B, 2023; Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação].
    • Se a dose ao nascer não foi aplicada até 1 mês de vida, ela não deve mais ser administrada: o esquema passa a ser de três doses de penta, iniciadas aos 2 meses [PCDT de Hepatite B, 2023; Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação].
  4. Primeiras 2 horas do plantão — acidente com material biológico

    A conduta se decide por duas informações que não são o resultado do acidente: a situação vacinal de quem se expôs e o status da fonte. O teste rápido da pessoa exposta serve para saber se ela já tinha infecção antes, não para saber se pegou agora — a janela diagnóstica torna isso impossível. Se o anti-HBs não sair em 48 horas, conduz-se como resposta vacinal inadequada.

    Prescrição
    • Teste rápido de HBsAg na pessoa exposta e, quando possível, na pessoa-fonte [PCDT de Profilaxia Pós-Exposição, MS, Portaria SECTICS/MS nº 14/2024].
    • Pessoa suscetível — HBsAg não reagente e sem registro de esquema completo com 3 doses, ou não respondedora após dois esquemas: iniciar ou completar a vacinação no mesmo atendimento, preferencialmente dentro de 24 horas da exposição [PCDT de Profilaxia Pós-Exposição, 2024].
    • Imunoglobulina humana anti-hepatite B: dose única de 0,06 mL/kg por via intramuscular, com dose máxima de 5 mL, em extremidade diferente daquela que recebeu a vacina. O teto de 5 mL passa a valer a partir de cerca de 83 kg [PCDT de Profilaxia Pós-Exposição, 2024; Manual dos CRIE, 6ª ed., 2023].
    • Prazo da imunoglobulina: preferencialmente nas primeiras 24 horas; no máximo até 7 dias em exposição percutânea ou de mucosa, incluindo a perinatal, e até 14 dias em exposição sexual [PCDT de Hepatite B, 2023; PCDT de Profilaxia Pós-Exposição, 2024].
    • Duas doses de imunoglobulina, com intervalo de um mês, para quem já fez dois esquemas de três doses sem resposta vacinal, ou tem alergia grave à vacina [Manual dos CRIE, 6ª ed., 2023; PCDT de Profilaxia Pós-Exposição, 2024].
    • A indisponibilidade de acesso oportuno à imunoglobulina NÃO impede a aplicação da vacina em pessoa suscetível [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Vacina e imunoglobulina são seguras na gestação, em qualquer idade gestacional, e durante a amamentação. Gestante suscetível exposta ao vírus por relação sexual ou por acidente com material biológico, em qualquer trimestre, recebe as duas [PCDT de Profilaxia Pós-Exposição, 2024; Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação].
    • A profilaxia pós-exposição ao HIV corre em paralelo e tem protocolo próprio; o capítulo de HIV cuida dela. Vale apenas registrar que tenofovir e lamivudina, usados na profilaxia do HIV, são ativos contra o vírus B, e que interrompê-los ao fim dos 28 dias em alguém com hepatite B crônica pode elevar transaminases [PCDT de Profilaxia Pós-Exposição, 2024].
  5. Mesma consulta — o adulto com HBsAg reagente

    Nada aqui é urgente no sentido de horas, e tudo aqui é urgente no sentido de não se perder. O paciente que sai da consulta sem notificação, sem pedido de estadiamento, sem orientação sobre contatos e sem retorno marcado tende a voltar dez anos depois, com ascite.

    Prescrição
    • Notificar. Hepatite viral é agravo de notificação compulsória regular, com registro no Sinan em até 7 dias, pela Ficha de Investigação das Hepatites Virais [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Solicitar, no mesmo pedido: ALT, AST, gama-GT, bilirrubinas totais e frações, albumina, proteínas totais, TP/INR, hemograma com plaquetas, creatinina, HBeAg, anti-HBe, HBV-DNA e ultrassonografia abdominal — recomendada para todos os pacientes após a confirmação diagnóstica [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Solicitar sorologias de coinfecção: sífilis, HIV e hepatite C. Solicitar anti-HDV em quem procede da Amazônia, descompensa sem explicação ou tem doença hepática ativa com carga viral baixa ou indetectável [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Solicitar anti-HAV IgG ou total. Se suscetível, vacinar contra hepatite A — duas doses; na impossibilidade de testar, encaminhar ao CRIE para vacinação [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Calcular o FIB-4 com idade, AST, plaquetas e ALT. Em pessoas acima de 30 anos, valor igual ou menor que 0,70 tem boa acurácia para excluir cirrose e indica menor urgência de estadiamento por elastografia [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Testar HBsAg e checar a caderneta de vacinação de todas as parcerias sexuais, contatos domiciliares e parentes de primeiro grau; vacinar os suscetíveis; orientar preservativo enquanto as parcerias não forem imunes [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Orientar abstinência de álcool — e, sendo impossível, redução ao máximo —, manutenção de peso adequado e tratamento de complicações metabólicas [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Orientar sobre não compartilhar lâminas de barbear e depilar, escovas de dente, material de manicure e pedicure, agulhas e seringas, e sobre não reutilizar material de tatuagem e piercing [PCDT de Hepatite B, 2023; Manual Técnico para o Diagnóstico das Hepatites Virais, 2018].
    • Encaminhar ao serviço especializado para cuidado compartilhado — sem esperar a consulta para pedir os exames iniciais, que podem ser solicitados por médicos ou enfermeiros do serviço onde o diagnóstico foi confirmado [PCDT de Hepatite B, 2023].
  6. Da 24ª à 28ª semana — a gestante HBsAg reagente

    É o único momento do capítulo em que se prescreve remédio para prevenir doença em outra pessoa. A profilaxia com tenofovir na gestante de alto risco existe porque a imunoprofilaxia do recém-nascido, sozinha, falha quando a carga viral materna é muito alta — e a carga viral materna é justamente o principal fator de risco de falha.

    Prescrição
    • Rastrear HBsAg em todas as gestantes, preferencialmente no primeiro trimestre ou na primeira consulta de pré-natal; se não houver registro, na admissão para o trabalho de parto; e, excepcionalmente, no puerpério. As mesmas orientações valem para abortamento [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • HBsAg não reagente e sem esquema vacinal completo: iniciar ou completar a vacinação durante a gestação, em qualquer idade gestacional; não sendo possível concluir, completar até 45 dias de puerpério, sem reiniciar o esquema [PCDT de Hepatite B, 2023; Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação].
    • HBsAg reagente: notificar, encaminhar ao pré-natal de alto risco e ao serviço especializado, e solicitar pelo menos duas dosagens de ALT, HBV-DNA e HBeAg, a primeira no primeiro trimestre ou na primeira consulta, com resultado idealmente disponível até o fim do segundo trimestre [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Profilaxia da transmissão vertical: fumarato de tenofovir desoproxila 300 mg, 1 comprimido por via oral, uma vez ao dia, iniciado a partir da 24ª semana de gestação, em toda gestante com HBeAg reagente e/ou HBV-DNA igual ou maior que 200.000 UI/mL [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Não tendo sido possível iniciar no prazo, o tenofovir pode ser iniciado até o fim da gestação — com prejuízo dos desfechos, mas ainda com benefício [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Antecipar o início do tenofovir para o segundo trimestre, a critério da equipe de alto risco, diante de risco de trabalho de parto prematuro, gestação gemelar, necessidade de procedimento invasivo como amniocentese, ou HBV-DNA igual ou maior que 10⁹ UI/mL na primeira dosagem [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Gestante que já tem indicação de tratamento — e não apenas de profilaxia — recebe tenofovir desoproxila 300 mg ao dia, por via oral: é o único antiviral para hepatite B com segurança comprovada na gestação e na amamentação. Quem já usa entecavir ou tenofovir alafenamida deve ser trocada [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Gestante com fibrose avançada (F3) ou cirrose (F4) que não estava em tratamento inicia tenofovir e mantém o análogo indefinidamente, para evitar descompensação hepática [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Escrever no cartão de pré-natal, com letra legível, que o HBsAg é reagente, com a data. É esse papel que a maternidade lê para decidir a imunoglobulina do recém-nascido.
    • Dosar ALT mensalmente nos primeiros 3 meses e aos 6 meses após o parto, em toda mulher com HBsAg reagente, independentemente de ter usado antiviral [PCDT de Hepatite B, 2023].
  7. Quando há indicação — o tratamento do adulto

    O tratamento da hepatite B não cura no sentido de erradicar: ele suprime a replicação, e por isso costuma ser longo, frequentemente indefinido. O desfecho ideal é a perda sustentada do HBsAg, alcançada por uma minoria — cerca de 13% após oito anos de tratamento em quem começou HBeAg reagente e cerca de 1% em quem começou não reagente. Dizer isso ao paciente antes de começar é o que sustenta a adesão de uma década.

    Prescrição
    • Fumarato de tenofovir desoproxila (TDF) 300 mg, 1 comprimido por via oral, uma vez ao dia. É o tratamento preferencial, inclusive na gestação e na amamentação [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Entecavir (ETV) 0,5 mg, 1 comprimido por via oral, uma vez ao dia, em quem não tem cirrose ou tem cirrose Child A; 1 mg, 2 comprimidos por via oral uma vez ao dia, em cirrose Child B ou C. Não indicado em quem já usou lamivudina, e não recomendado na gestação nem na amamentação [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Tenofovir alafenamida (TAF) 25 mg, 1 comprimido por via oral, uma vez ao dia. Alternativa em quem tem contraindicação ao TDF e uso prévio de lamivudina. Não recomendado na gestação, na amamentação, em cirrose descompensada Child B ou C, em clearance de creatinina abaixo de 15 mL/min fora de hemodiálise, e em menores de 18 anos [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Alfapeginterferona 2a 180 mcg, solução injetável, é a segunda opção terapêutica disponível no SUS, com indicação restrita e maior toxicidade; sua seleção e o seu monitoramento correm no serviço especializado [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Trocar o TDF por entecavir ou tenofovir alafenamida diante de clearance de creatinina abaixo de 60 mL/min, microalbuminúria ou proteinúria persistente, fosfato sérico abaixo de 2,5 mg/dL, queda de 25% ou mais na taxa de filtração glomerular após o início, uso de terapia imunossupressora nefrotóxica, osteoporose, fratura patológica, uso crônico de corticoide ou escore FRAX igual ou maior que 10% [PCDT de Hepatite B, 2023]. O ajuste de dose na disfunção renal e hepática tem capítulo próprio nesta apostila, e é ele que deve ser seguido.
    • Não coadministrar tenofovir alafenamida com indutores da glicoproteína P — carbamazepina, oxcarbazepina, fenitoína, fenobarbital, primidona, rifampicina, rifapentina, rifabutina, erva de São João, tipranavir — nem com itraconazol ou cetoconazol [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Não suspender o análogo por conta própria nem deixar o paciente sem retirada por mais de 90 dias: o Ministério da Saúde considera esse intervalo crítico e indica busca ativa. Retomado o tratamento após abandono, reavaliar clinicamente e reiniciar conforme os critérios de indicação [PCDT de Hepatite B, 2023].
  8. Quando não há indicação — a conduta que se confunde com nada

    A maioria das pessoas com hepatite B crônica não preenche critério de tratamento hoje. Isso não é um resultado neutro: é uma prescrição de seguimento, e o paciente precisa sair da consulta entendendo que não tomar remédio não significa que o problema acabou. É aqui que se perde gente — a pessoa que ouviu "não precisa tratar" e nunca mais voltou reaparece uma década depois com o fígado nodular.

    Prescrição
    • Registrar em qual fase o paciente está — HBeAg reagente com ALT normal, ou HBeAg não reagente com carga viral baixa e ALT normal —, porque é a fase que define a periodicidade do seguimento [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Fase de infecção HBeAg reagente, abaixo de 30 anos, sem critério de tratamento: consulta a cada 3 a 6 meses, ALT a cada 3 a 6 meses, HBV-DNA e HBeAg a cada 6 a 12 meses, e elastografia a cada 18 a 36 meses [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Fase de baixa replicação, HBeAg não reagente, HBV-DNA abaixo de 2.000 UI/mL e ALT normal: seguimento a cada 6 a 12 meses, ALT a cada 6 a 12 meses, HBsAg e HBV-DNA anuais, avaliação não invasiva de fibrose a cada 18 a 36 meses [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Carga viral igual ou maior que 2.000 UI/mL com ALT persistentemente normal: ALT a cada 3 meses no primeiro ano e semestral depois, com HBV-DNA e avaliação de fibrose anuais por pelo menos 3 anos; mantendo-se fora de critério, a fibrose passa a ser avaliada a cada 2 a 3 anos e a carga viral, anualmente [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Diante de ALT elevada — igual ou maior que 52 U/L em homens, 37 U/L em mulheres —, excluir outras causas de lesão hepática, repetir o exame com maior frequência e indicar tratamento se a alteração persistir por 3 meses ou mais [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Rastreamento de carcinoma hepatocelular com ultrassonografia de abdome total a cada 6 meses para: homens a partir de 40 anos; mulheres a partir de 50 anos; e, abaixo dessas idades, quem tem fibrose avançada (F3) ou cirrose (F4), história familiar de carcinoma, coinfecção com HIV, HCV ou HDV, esteatose hepática não alcoólica ou doença hepática alcoólica, ou escore PAGE-B acima de 9 [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Alfafetoproteína pode ser usada de forma concomitante — nunca isolada — à ultrassonografia, a cada 6 meses, sendo dispensável em serviço com ultrassonografia de elevada confiabilidade [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Manter o rastreamento de carcinoma independentemente da instituição do tratamento antiviral e da resposta a ele — e mesmo após a perda do HBsAg, em quem já tinha indicação [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Endoscopia digestiva alta apenas em quem tem cirrose, com repetição definida pelo Child-Pugh, pela presença de varizes e pelos fatores de evolução da hepatopatia; quem tem elastografia abaixo de 20 kPa e plaquetas acima de 150.000/mm³ tem risco muito baixo de varizes com necessidade de tratamento e pode não fazer o rastreamento endoscópico [PCDT de Hepatite B, 2023]. O manejo das varizes e da cirrose tem capítulos próprios nesta apostila.
  9. Antes de imunossuprimir — a conduta que ninguém lembra a tempo

    Este marco não pertence ao paciente com hepatite B: pertence ao paciente com linfoma, com artrite reumatoide, com transplante marcado, com hepatite C prestes a receber antiviral de ação direta. É o único cenário em que um painel de "hepatite B curada" gera conduta ativa, e é o cenário em que o interno pode evitar uma hepatite fulminante iatrogênica.

    Prescrição
    • Rastrear com DOIS marcadores — HBsAg e anti-HBc total — antes de iniciar terapia imunossupressora, quimioterapia, transplante de órgão sólido ou tratamento de hepatite C com antivirais de ação direta [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Fazer essa avaliação idealmente ANTES da introdução da terapia, e não depois do primeiro ciclo [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Encaminhar para estratificação de risco de reativação e definição de profilaxia com antiviral ou de terapia preemptiva, conforme o esquema imunossupressor e o perfil sorológico [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Vacinar quem é suscetível — HBsAg não reagente, sem esquema completo — com 4 doses e o dobro do volume indicado para a idade: 1,0 mL até 15 anos, 2,0 mL a partir de 16 anos, aos 0, 1, 2 e 6 meses. Imunizar com antígenos não vivos pelo menos duas semanas antes do início da imunossupressão [PCDT de Hepatite B, 2023; Manual dos CRIE, 6ª ed., 2023].
  10. Alta e encaminhamento — o que precisa estar escrito

    O encaminhamento que chega ao especialista com um HBsAg reagente e nada mais custa três meses ao paciente. O que chega com estadiamento pronto permite decidir tratamento na primeira consulta.

    Prescrição
    • No encaminhamento: data do HBsAg reagente, segundo marcador que confirmou o diagnóstico, HBeAg, HBV-DNA com data, duas dosagens de ALT com datas, hemograma com plaquetas, INR, albumina, creatinina, laudo de ultrassonografia, FIB-4 calculado, sorologias de coinfecção, situação vacinal para hepatite A, e resultado da testagem dos contatos.
    • No prontuário e na caderneta: o resultado de anti-HBs com a data, sempre que ele for dosado. É o dado que decide a conduta em qualquer exposição futura, e é o que estava faltando no interno da cena [PCDT de Hepatite B, 2023].
    • Para a gestante: no cartão de pré-natal, HBsAg reagente com data, e a data de início do tenofovir, se houver.
    • Para o recém-nascido: na caderneta, data e hora da vacina e da imunoglobulina, com o sítio de cada aplicação, e a data agendada da sorologia de controle.
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Como saber se está funcionando

Nesta doença quase nada melhora de um jeito que o paciente perceba, e quase nada piora de um jeito que ele avise. Todo o seguimento é feito de números, e a maioria deles só faz sentido comparada com o número anterior — o que significa que o primeiro valor colhido é tão importante quanto o exame de controle. A pergunta "está funcionando?" tem quatro versões diferentes neste capítulo, para quatro pessoas diferentes: o recém-nascido que recebeu profilaxia, a pessoa que se expôs, quem está em tratamento e quem não está.

Duas ideias organizam o bloco. A primeira: anticorpo emprestado atrapalha a leitura, e por isso o relógio da sorologia de controle depende de ter havido imunoglobulina ou não. A segunda: em quem não é tratado, o parâmetro que se acompanha não é a melhora, é a piora — o seguimento existe para flagrar o dia em que a pessoa passa a preencher critério, e esse dia costuma chegar sem sintoma nenhum.

Anti-HBs e HBsAg do recém-nascido exposto que recebeu vacina e imunoglobulinaEntre 9 e 12 meses de idade — ou 1 a 2 meses após a última dose do esquema, desde que a criança já tenha pelo menos 9 meses, quando o esquema foi feito fora do prazo padrão.

Esperado: HBsAg não reagente e anti-HBs acima de 10 UI/mL: criança protegida, encerra-se o seguimento específico. A imunoprofilaxia combinada previne a transmissão perinatal em mais de 90% dos casos.

Se não melhora: Anti-HBs abaixo de 10 UI/mL com HBsAg não reagente: revacinar conforme orientação do Programa Nacional de Imunizações — quatro doses de vacina monovalente com o dobro do volume para a idade, se a criança pertencer a grupo de risco. HBsAg reagente: notificar e solicitar HBV-DNA, HBeAg e AST/ALT, e encaminhar para seguimento pediátrico especializado. A profilaxia falha sobretudo quando a carga viral materna era muito alta, e há uma pequena proporção de infecções intraútero em que a imunoprofilaxia é ineficaz.

Anti-HBs e HBsAg do recém-nascido exposto que recebeu apenas a vacina1 a 2 meses após a última dose do esquema vacinal — sem esperar os 9 meses, porque não há anticorpo emprestado circulando para confundir a leitura.

Esperado: Anti-HBs acima de 10 UI/mL e HBsAg não reagente.

Se não melhora: Mesma conduta do item anterior. Vale ainda a regra que evita um falso positivo caro: a pesquisa de HBsAg na criança exposta se faz após os 6 meses de idade e no mínimo 30 dias após a dose de vacina, porque o antígeno de superfície recombinante da vacina pode circular transitoriamente e produzir resultado reagente sem infecção.

Anti-HBc total da criança exposta que não se infectouPode permanecer detectável por até 24 meses após o nascimento.

Esperado: Detecção de anti-HBc nesse período não indica infecção: é anticorpo materno adquirido passivamente.

Se não melhora: Não há conduta — há apenas o cuidado de não interpretar esse resultado como doença e não iniciar investigação por causa dele.

Anti-HBs de quem se expôs e foi vacinado após o acidentePreferencialmente 1 a 2 meses após a última dose da vacina, podendo ser feito em até 6 meses. Se houve imunoglobulina, a dosagem só é confiável pelo menos 6 meses depois da última dose dela.

Esperado: Anti-HBs igual ou maior que 10 mUI/mL após esquema completo: pessoa imune. Registrar na caderneta e no prontuário.

Se não melhora: Anti-HBs abaixo de 10 mUI/mL colhido no tempo adequado: revacinar com esquema completo. Colhido fora do período preconizado, mais de 6 meses após a última dose: aplicar uma dose de reforço e repetir o exame em 1 a 2 meses; persistindo não reagente, completar um segundo esquema. Depois de dois esquemas completos sem resposta, testar HBsAg — pelo menos 4 semanas após a última dose — e anti-HBc para excluir infecção prévia ou oculta; sendo ambos não reagentes, a pessoa é não respondedora e suscetível, e passa a ter indicação de imunoglobulina em qualquer exposição de risco futura.

HBsAg de quem se expôsNo atendimento inicial e no seguimento pós-exposição.

Esperado: Não reagente. O teste do dia do acidente informa sobre o passado da pessoa, não sobre a exposição em curso — a janela diagnóstica é de cerca de 30 dias para o HBsAg.

Se não melhora: HBsAg reagente: a infecção é anterior à exposição que motivou o atendimento. Coletar amostra para complementação diagnóstica, notificar e conduzir como infecção pelo HBV. Não se cancela a profilaxia por isso — cancela-se a lógica dela, porque não há o que prevenir.

HBV-DNA de quem está em tratamento com análogoA cada 6 meses no primeiro ano; a cada 12 meses depois — ou semestral, se houver suspeita de baixa adesão. Também na investigação de qualquer descompensação hepática.

Esperado: Resposta virológica primária: queda de pelo menos 2 log10 UI/mL aos 6 meses de tratamento. A supressão prolongada da carga viral é o desfecho fundamental da terapia.

Se não melhora: Sem resposta primária: perguntar sobre adesão, sempre e primeiro. Em uso de entecavir com boa adesão, reavaliar exposição prévia a lamivudina e trocar por tenofovir desoproxila ou alafenamida. Resposta viral incompleta — queda maior que 2 log10 com carga ainda detectável após um ano — é segura e não exige troca, desde que os níveis sigam caindo. Platô — viremia entre 69 e 2.000 UI/mL com variação menor que 1 log10 em dois anos — permite trocar de análogo. Escape virológico — elevação de 1 log10 sobre o nadir, ou carga viral igual ou maior que 100 UI/mL em quem estava indetectável — exige repetir a carga viral em 1 mês; confirmado, trocar entecavir por tenofovir. Em quem já usa tenofovir, reforçar adesão, porque não há resistência descrita aos pró-fármacos de tenofovir; e, se for alafenamida, investigar interação com anticonvulsivantes e rifamicinas.

HBeAg e HBsAg de quem está em tratamentoHBeAg anual, apenas em quem começou HBeAg reagente. HBsAg anual, apenas após a carga viral se tornar indetectável.

Esperado: Perda do HBeAg com soroconversão para anti-HBe indica controle imune parcial e melhor prognóstico. Perda sustentada do HBsAg é a chamada cura funcional e é o desfecho ideal, independentemente de haver anti-HBs.

Se não melhora: A soroconversão do HBeAg não autoriza suspender o tratamento: há risco de sororreversão e de evolução para hepatite crônica HBeAg não reagente, mesmo após três anos ou mais de análogo. A alternativa segura é manter o tratamento até a perda do HBsAg. Confirmada a perda, consolida-se por mais um ano em quem não é cirrótico; quem é cirrótico não suspende, mesmo com perda sustentada.

ALT de quem está em tratamentoJunto com os demais exames hepáticos, no ritmo do seguimento.

Esperado: Normalização — resposta bioquímica —, geralmente alcançada depois da supressão prolongada da replicação.

Se não melhora: ALT que permanece elevada depois de a carga viral se tornar indetectável não é falha do antiviral: é outra causa de lesão hepática convivendo com a hepatite B. Investigar esteatose e etilismo antes de mexer no esquema.

ALT de quem NÃO está em tratamentoA cada 3 a 6 meses na fase de infecção HBeAg reagente; a cada 6 a 12 meses na fase de baixa replicação; a cada 3 meses no primeiro ano e semestral depois em quem tem carga viral igual ou maior que 2.000 UI/mL com ALT normal.

Esperado: Permanecer abaixo de 52 U/L em homens e de 37 U/L em mulheres. Aqui não se busca melhora — busca-se o dia em que o número sobe.

Se não melhora: ALT elevada: excluir outras causas — álcool, esteatose, medicamento —, repetir o exame com maior frequência e indicar tratamento se a alteração persistir por 3 meses ou mais, com carga viral igual ou maior que 2.000 UI/mL. É esse par de dosagens separadas por três meses que abre a porta do tratamento, e é por isso que a segunda dosagem não pode ser esquecida.

Fibrose hepáticaElastografia a cada 18 a 36 meses em quem não é tratado e tem ALT persistentemente normal; anual por pelo menos 3 anos em quem tem carga viral alta com ALT normal, passando a cada 2 a 3 anos se seguir fora de critério; a cada 2 a 3 anos após interrupção de tratamento, até a perda do HBsAg.

Esperado: Estabilidade abaixo dos pontos de corte de fibrose significativa.

Se não melhora: Ultrapassar o ponto de corte é, por si só, indicação de tratamento — independentemente de carga viral e de ALT — e obriga a acrescentar rastreamento de carcinoma hepatocelular e, na cirrose, rastreamento endoscópico de varizes. A elastografia não está validada para acompanhar resposta histológica ao tratamento, e não há pontos de corte estabelecidos para esse uso: se for pedida durante o tratamento, compara-se com o valor prévio do próprio paciente.

Ultrassonografia de abdome para rastreamento de carcinoma hepatocelularA cada 6 meses, indefinidamente, em quem tem indicação — homens a partir de 40 anos, mulheres a partir de 50, e mais cedo em quem tem fibrose avançada, cirrose, história familiar de carcinoma, coinfecção, esteatose ou doença hepática alcoólica, ou PAGE-B acima de 9.

Esperado: Ausência de nódulo. O rastreamento se mantém independentemente do tratamento antiviral e da resposta a ele — inclusive após a perda do HBsAg, em quem já tinha indicação antes.

Se não melhora: Nódulo detectado: encaminhamento imediato para investigação de carcinoma hepatocelular em serviço especializado. Vale lembrar por que este item existe num capítulo de doença infecciosa: a integração do DNA viral ao genoma do hepatócito torna o câncer possível mesmo sem cirrose, o que não acontece na maioria das outras hepatopatias crônicas.

Adesão e retirada de medicamentoA cada dispensação, no Siclom-Hepatites.

Esperado: Retirada regular, sem intervalos.

Se não melhora: Intervalo superior a 90 dias sem uso do análogo, contados do primeiro dia de atraso na data prevista de dispensação, é considerado crítico pelo Ministério da Saúde e indica busca ativa. Na retomada, o paciente é reavaliado clinicamente e o tratamento é reiniciado conforme os critérios de indicação — não se retoma no ponto onde parou.

Reintrodução do antiviral em quem interrompeu por critérioHBV-DNA e exames hepáticos a cada 3 meses no primeiro ano e a cada 6 meses depois; HBeAg e anti-HBe a cada 6 meses; HBsAg anual.

Esperado: Manutenção do controle sem o medicamento.

Se não melhora: Reintroduzir imediatamente diante de qualquer um destes: sororreversão do HBeAg; ALT acima de 10 vezes o limite superior da normalidade numa única dosagem; bilirrubina total acima de 2 mg/dL e/ou INR acima de 1,2 numa única dosagem; ou HBV-DNA acima de 2.000 UI/L com ALT elevada — 1,5 vez o LSN por 3 meses ou mais, isto é, igual ou maior que 52 U/L em homens e 37 U/L em mulheres.

ALT da puérpera com HBsAg reagenteMensal nos primeiros 3 meses após o parto e novamente aos 6 meses, independentemente de ter usado antiviral na gestação.

Esperado: Estabilidade. Elevações após o parto costumam ser leves e benignas, com ou sem suspensão do antiviral.

Se não melhora: Elevação significativa: reavaliar critério de tratamento. Não há consenso sobre o melhor momento de interromper o tenofovir usado exclusivamente para prevenção da transmissão vertical; manter o análogo por 1 a 3 meses após o término da gestação parece reduzir discretamente o risco de elevação de transaminases, e a manutenção pode ser discutida com a paciente diante de planejamento de novas gestações ou de outras vulnerabilidades.

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Onde o erro machuca

Ler "anti-HBc total reagente" como doença ativa

O dano: É o erro mais frequente do capítulo e o mais barato de evitar. O anti-HBc total reagente com HBsAg não reagente e anti-HBs reagente é hepatite B curada — imunidade por infecção passada. Quem lê esse painel como doença encaminha um paciente saudável ao infectologista, pede carga viral, notifica caso que não existe, e, pior, comunica um diagnóstico de doença crônica a alguém que não tem nenhuma. O paciente sai com um rótulo que o acompanha em toda ficha de admissão, em todo seguro, em toda conversa com a família.

Como pegar a tempo: Antes de interpretar qualquer linha, olhe o HBsAg. Sem HBsAg reagente não há infecção ativa a tratar. E memorize a única frase que resolve a confusão: anti-HBs sozinho é vacina; anti-HBs com anti-HBc é infecção curada; anti-HBc sem anti-HBs e sem HBsAg é o único painel que exige investigação adicional.

Dizer que está tudo bem para quem tem HBsAg reagente e transaminases normais

O dano: É o espelho do erro anterior e machuca mais. Uma pessoa na fase de infecção HBeAg reagente tem carga viral acima de 10⁷ UI/mL, ALT rigorosamente normal e fígado quase intacto — e é a pessoa mais transmissora da doença. Chamar isso de "portador são" produz três danos: o paciente não volta, os contatos não são testados nem vacinados, e o dia em que a fase muda passa despercebido. Vinte anos depois o mesmo paciente reaparece com fibrose avançada.

Como pegar a tempo: ALT normal com HBsAg reagente é uma fase da doença, não a ausência dela. Registre em qual fase o paciente está, marque o retorno com a periodicidade que a fase pede e teste os contatos na mesma consulta. O termo "portador são" foi aposentado justamente porque descrevia mal o que estava acontecendo.

Esperar o resultado do laboratório para vacinar o recém-nascido

O dano: A dose ao nascer não depende de nenhum exame — nem do da mãe, nem do bebê. Esperar o HBsAg materno do laboratório num sábado à noite significa perder as primeiras 12 horas e, com frequência, as primeiras 24. Numa criança que se infecta no parto, o risco de cronificação é de cerca de 90%, e o que se perde por esperar é uma vida inteira de infecção crônica com risco de cirrose e câncer.

Como pegar a tempo: Todo recém-nascido recebe a vacina na sala de parto ou nas primeiras 12 horas, independentemente do status materno. O único elemento que depende do resultado da mãe é a imunoglobulina — e mesmo essa tem sete dias de prazo, o que dá tempo de sobra para o resultado chegar. Vacina primeiro, resultado depois.

Não aplicar a vacina porque a imunoglobulina não está disponível

O dano: Inverte a ordem de importância das duas intervenções. A vacina isolada, aplicada nas primeiras 12 horas, é altamente eficaz na prevenção da transmissão vertical; a imunoglobulina acrescenta proteção, e essa proteção adicional é descrita como pequena pelo próprio Manual dos CRIE. Deixar de vacinar para esperar a imunoglobulina troca a intervenção que carrega quase todo o efeito pela que carrega o resto.

Como pegar a tempo: A norma é explícita: a indisponibilidade de acesso oportuno à imunoglobulina não deve ser impeditiva para a aplicação da vacina em indivíduos suscetíveis. Aplique a vacina agora, acione o CRIE, e aplique a imunoglobulina quando chegar — no recém-nascido, até 7 dias; na exposição sexual, até 14.

Aplicar a vacina e a imunoglobulina no mesmo músculo

O dano: A imunoglobulina é anti-HBs pronto. Aplicada no mesmo sítio da vacina, ela neutraliza parte do antígeno de superfície que deveria estimular a resposta do recém-nascido. O resultado é uma criança que recebeu as duas seringas e não fabricou anticorpo próprio — e isso só será descoberto na sorologia de 9 a 12 meses, se ela for feita.

Como pegar a tempo: Sítios musculares distintos, sempre. No recém-nascido, vasto lateral de uma coxa para a vacina e vasto lateral da coxa oposta para a imunoglobulina. No adulto, extremidades diferentes. É uma regra de dois segundos e ela está em todos os documentos federais.

Aplicar a vacina na região glútea, por via subcutânea ou intradérmica

O dano: A imunogenicidade cai. Uma pessoa vacinada no glúteo pode fazer três doses e não soroconverter, e depois será rotulada como não respondedora — quando o problema foi a via. Em profissional de saúde, esse rótulo errado muda a conduta em todo acidente futuro e gera uso desnecessário de imunoglobulina pelo resto da carreira.

Como pegar a tempo: Via intramuscular, sempre. Menores de 2 anos, vasto lateral da coxa; a partir de 2 anos, também o deltoide, conforme a massa muscular. A via subcutânea é exceção estrita para pessoas com doenças hemorrágicas e tendência a sangramento grave, e mesmo assim com menor imunogenicidade.

Colher HBsAg do bebê logo depois da vacina e chamar de infecção

O dano: A vacina contém antígeno de superfície recombinante, que pode circular transitoriamente e produzir HBsAg reagente sem infecção nenhuma. Colher no dia seguinte à dose ao nascer gera notificação de um caso que não existe, investigação da criança, angústia da família e — o pior — a conclusão equivocada de que a profilaxia falhou, o que pode levar a condutas erradas nas gestações seguintes.

Como pegar a tempo: A pesquisa de HBsAg na criança exposta se faz após os 6 meses de idade e, no mínimo, 30 dias após a dose de vacina. E o anti-HBs de quem recebeu imunoglobulina só é lido entre 9 e 12 meses, porque o anticorpo emprestado pode ser detectado por até 6 meses.

Contraindicar a amamentação de mãe HBsAg reagente

O dano: Desmame sem motivo, com todas as consequências nutricionais, imunológicas e afetivas que ele traz — em cima de uma mulher que acabou de receber um diagnóstico que não esperava. A amamentação não está contraindicada, ainda que não tenham sido realizadas as ações de prevenção da transmissão vertical, e mesmo com a mãe em uso de tenofovir.

Como pegar a tempo: Diga à mãe, antes que alguém diga o contrário, que ela pode amamentar. A única ressalva prática, herdada da conduta de sífilis e de HIV, é o cuidado com lesão mamária sangrante; a coinfecção com HIV é que contraindica, e por outro motivo. O capítulo de aleitamento cuida do resto.

Indicar cesariana para prevenir transmissão vertical do vírus B

O dano: Uma cirurgia de grande porte sem indicação, com todos os riscos que ela carrega, para um benefício que não existe. Não há evidência concreta de que a cesariana reduza a transmissão vertical da hepatite B, e o procedimento não deve ser realizado com essa indicação isolada.

Como pegar a tempo: A via de parto se decide por indicação obstétrica. O que reduz a transmissão vertical é o tenofovir na gestante de alto risco e a imunoprofilaxia do recém-nascido nas primeiras horas — não o bisturi.

Pedir anti-HBs em quem não comprova esquema vacinal

O dano: Produz um número sem régua. Os valores de soroproteção não foram validados para pessoas não vacinadas ou com esquema incompleto, e o resultado leva a decisões erradas nos dois sentidos: um anti-HBs de 12 mUI/mL em quem nunca se vacinou pode ser lido como imunidade e dispensar uma profilaxia necessária; um de 4 mUI/mL pode gerar dois esquemas completos desnecessários e o rótulo de não respondedor.

Como pegar a tempo: Antes de pedir anti-HBs, pergunte pela caderneta. Sem esquema documentado, a conduta é vacinar — e dosar o anti-HBs 30 a 60 dias após a última dose, quando o número passa a ter significado.

Descobrir a situação vacinal do profissional de saúde depois do acidente

O dano: É o erro que atinge o próprio interno. O prazo da imunoglobulina em exposição percutânea é de sete dias, e a conduta depende do anti-HBs — que leva dias para sair. Quem só descobre que é não respondedor três semanas depois do acidente já perdeu a janela e fica com a vacinação e o seguimento sorológico, que são o que sobra. O risco de transmissão do vírus B após exposição ocupacional varia de 6% a 30%, e o vírus é cerca de dez vezes mais transmissível que o da hepatite C e cem vezes mais que o HIV por via percutânea.

Como pegar a tempo: A resposta vacinal se documenta antes, não depois: três doses aos 0, 1 e 6 meses e anti-HBs colhido 1 a 2 meses após a terceira. O resultado vai para a caderneta e para o prontuário. E, no dia do acidente, há uma regra que evita a paralisia: se o anti-HBs não sair em 48 horas, conduza como resposta vacinal inadequada.

Não rastrear hepatite B antes de imunossuprimir

O dano: A reativação viral pode ocorrer tanto em quem tem HBsAg reagente quanto em quem tem HBsAg não reagente e anti-HBc reagente, submetido a quimioterapia, terapia imunossupressora ou antivirais de ação direta para hepatite C. A reativação pode cursar com hepatite grave e insuficiência hepática, num paciente que já está imunossuprimido e frágil. É um dano iatrogênico inteiramente previsível.

Como pegar a tempo: Antes de imunossuprimir, rastreie com dois marcadores: HBsAg e anti-HBc total. Faça isso idealmente antes da primeira dose, e não depois. Encontrar anti-HBc reagente nesse contexto não é achado incidental — é indicação de estratificação de risco e, frequentemente, de profilaxia com antiviral.

Suspender o análogo por conta própria, ou deixar o paciente sem retirada

O dano: A interrupção sem critério pode desencadear elevação abrupta de transaminases e descompensação hepática, sobretudo em quem tem fibrose avançada. Em cirróticos, a suspensão não é aceitável nem após a perda sustentada do HBsAg. E o abandono silencioso — o paciente que simplesmente para de buscar o remédio — é frequente porque a doença não dói.

Como pegar a tempo: Trate a interrupção como uma decisão com critérios, e explique isso ao paciente no dia em que a receita é feita. Intervalo superior a 90 dias sem uso do análogo é considerado crítico pelo Ministério da Saúde e indica busca ativa. Na retomada, reavalie clinicamente e reinicie conforme os critérios de indicação.

Parar o rastreamento de câncer de fígado porque a carga viral ficou indetectável

O dano: A supressão viral reduz o risco, mas não o zera, porque parte do DNA viral já está integrada ao genoma do hepatócito e porque a fibrose acumulada não regride por completo. Suspender a ultrassonografia semestral em quem tinha indicação transforma um câncer que seria detectado com 2 cm num câncer que aparece sintomático e irressecável.

Como pegar a tempo: O rastreamento se mantém independentemente da instituição do tratamento antiviral e da resposta a ele — inclusive após a perda do HBsAg, em quem já tinha indicação antes. Escreva isso no plano do paciente, com a periodicidade, para que nenhum colega o suspenda por parecer redundante.

Tratar por carga viral isolada, ou deixar de tratar por causa do valor de referência do laudo

O dano: Dois erros opostos, mesma origem: ler um número sem a régua certa. Carga viral acima de 2.000 UI/mL com ALT normal não indica tratamento pelo critério principal — indica seguimento e estadiamento de fibrose. Do outro lado, uma ALT de 40 U/L numa mulher aparece como normal na maioria dos laudos, cujo intervalo de referência é mais alto, mas está acima do corte de 37 U/L que o protocolo brasileiro usa. O paciente que precisava de tratamento sai da consulta sem ele.

Como pegar a tempo: Guarde os dois números do protocolo: limite superior de normalidade de 35 U/L em homens e 25 U/L em mulheres, e corte de tratamento em 52 U/L e 37 U/L, respectivamente, confirmados em duas dosagens com pelo menos três meses de intervalo. E lembre que existem critérios que dispensam completamente carga viral e ALT — coinfecção, cirrose, manifestação extra-hepática, HBeAg reagente acima de 30 anos, história familiar de carcinoma.

Não testar nem vacinar os contatos

O dano: É o erro que perpetua a doença na casa. A via sexual responde por mais da metade dos casos de hepatite B com fonte conhecida no Brasil, e contatos domiciliares compartilham lâminas, escovas e alicates. Cada diagnóstico não seguido de testagem da família é uma cadeia de transmissão que continua — e um filho que poderia ter sido vacinado e não foi.

Como pegar a tempo: Na mesma consulta em que se dá o diagnóstico, liste nominalmente parcerias sexuais, contatos domiciliares e parentes de primeiro grau, teste todos, cheque a caderneta de cada um e vacine os suscetíveis. Oriente uso de preservativo enquanto as parcerias não forem imunes. Documente a vacinação, mas preserve as indicações específicas de rastreio: toda nova gestação requer testagem pré-natal, e exposição, imunossupressão ou diálise exigem avaliação própria.

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O que dizer ao paciente e à família

Quase toda conversa difícil deste capítulo acontece com alguém que se sente perfeitamente bem. Não há dor para aliviar, não há febre para baixar, não há nada que o paciente possa checar em casa para saber se você tem razão. O que existe é um papel com siglas e a sua palavra. Isso muda a tarefa: não é comunicar má notícia sobre um sintoma, é convencer uma pessoa saudável de que ela precisa voltar por vinte anos.

Há uma segunda dificuldade, específica: as duas palavras mais usadas nesta doença — "crônica" e "não tem cura" — significam, para quem escuta, coisas muito piores do que significam para quem fala. Vale escolher as palavras antes de entrar na sala, e vale dizer primeiro o que é verdade e alivia, antes de dizer o que é verdade e assusta.

Dando o diagnóstico de hepatite B crônica a quem não sente nada

"Seu exame mostrou que você tem o vírus da hepatite B, e ele está no seu corpo há bastante tempo — provavelmente há muitos anos. É por isso que você nunca sentiu nada. A maioria das pessoas com esse vírus vive a vida inteira sem sintoma, e por isso descobre por acaso, como foi o seu caso. Isso não é uma sentença, e não quer dizer que o seu fígado esteja ruim. Quer dizer que a partir de agora a gente vai olhar o seu fígado de perto, com exames simples, para que ele continue bem."

Não diga: Começar por "não tem cura". É verdade no sentido técnico e é falso no sentido que o paciente ouve, que é "você vai morrer disso". A frase que funciona é a que separa controle de cura: "a gente não elimina o vírus, mas consegue controlar, e quem é controlado envelhece com o fígado funcionando".

Explicando por que NÃO vai começar remédio

"Hoje você não precisa tomar remédio, e isso é uma boa notícia. Mas não quer dizer que a gente vá parar por aqui. O vírus muda de comportamento ao longo dos anos, e existe um momento em que o remédio passa a valer a pena. A única forma de não perder esse momento é você voltar nas datas que eu vou marcar, mesmo se sentindo bem — porque você vai continuar se sentindo bem exatamente até o dia em que não estiver mais."

Não diga: Dizer "está tudo bem, você só é portador" e liberar sem retorno marcado. Essa é a frase que produz o paciente que reaparece dez anos depois com ascite. Marque a data do retorno e do próximo exame ali, na frente dele, e escreva no papel.

Falando sobre transmissão sem transformar a consulta num interrogatório

"Esse vírus passa principalmente por relação sexual sem preservativo e por contato com sangue — agulha, alicate de unha, lâmina de barbear, escova de dente. Eu não preciso saber como você pegou, e provavelmente nem você sabe, porque muita gente pega e não descobre por décadas. O que eu preciso é que a gente teste quem mora com você e quem tem ou teve relação com você, porque quem não tiver o vírus pode tomar a vacina e ficar protegido para sempre."

Não diga: Perguntar "você sabe como pegou?" antes de dizer o que se faz agora. A pergunta soa como acusação e faz o paciente gastar a consulta se defendendo. A informação epidemiológica pode vir depois; a conduta vem primeiro.

Falando com a parceria sexual

"O exame dele mostrou hepatite B. Isso não quer dizer que você tenha — e é justamente para saber que eu vou pedir o seu. Se der que você não tem e não é vacinada, você toma a vacina, e a vacina protege de verdade. Enquanto o esquema não terminar, use preservativo. Se der que você já é imune, não precisa fazer mais nada."

Não diga: Dizer "você provavelmente também tem". A transmissão não é inevitável, e antecipar um diagnóstico que ainda não existe faz a pessoa chegar ao resultado já convencida. Também evite marcar a testagem para outro dia: o exame é rápido e a pessoa está ali.

Contando à gestante que ela tem hepatite B

"O exame do seu pré-natal mostrou hepatite B. Eu sei que ninguém tinha comentado isso com você, e sinto muito por isso. A informação importante é esta: existe o que fazer, e dá tempo. Se for necessário, você vai tomar um comprimido por dia a partir do sexto mês, e o bebê vai receber duas injeções ainda na sala de parto, logo depois de nascer. Feito isso, a chance de ele ficar com o vírus é muito baixa. E você vai poder amamentar normalmente."

Não diga: Dizer "você pode ter passado para o bebê" antes de dizer o que impede isso. E não deixe a conversa terminar sem que ela saiba a frase que vai precisar repetir na maternidade: que o exame de hepatite B dela deu positivo e que o bebê precisa da vacina e da imunoglobulina. Escreva isso no cartão dela, com letra legível.

Explicando as duas injeções ao pai ou à mãe na sala de parto

"São duas picadas, uma em cada perninha, e as duas são para proteger contra a hepatite B. Uma é a vacina, que ensina o corpo dele a se defender — mas leva algumas semanas para funcionar. A outra é um anticorpo pronto, emprestado, que protege já nas primeiras horas, enquanto a vacina não faz efeito. Elas precisam ser em pernas diferentes; se forem no mesmo lugar, uma atrapalha a outra. E precisam ser agora."

Não diga: Dizer "é rotina" e aplicar sem explicar. Uma das duas injeções não é rotina, é específica desse bebê, e a família vai precisar entender isso para levar a criança à consulta de controle aos 9 meses. Também evite negociar o horário: as primeiras 12 horas não são uma preferência administrativa.

Dando um resultado de hepatite B curada a quem chegou assustado

"O seu exame mostra que você teve contato com o vírus da hepatite B em algum momento da vida, e que o seu corpo resolveu sozinho. O que aparece no papel é a cicatriz desse contato, não o vírus. Você está imune — não precisa de vacina, não precisa de remédio e não precisa de acompanhamento por causa disso."

Não diga: Usar a palavra "positivo" sem qualificar. O paciente chegou lendo "reagente" em duas linhas e já se convenceu de que tem hepatite. Diga a conclusão primeiro — "você não tem hepatite" — e só depois explique de onde ela sai.

Falando com quem não respondeu a dois esquemas de vacina

"Você tomou a vacina duas vezes, seis doses no total, e o seu corpo não produziu a proteção. Isso acontece com uma parcela pequena das pessoas e não é culpa sua nem falha da vacina. O que muda é o seguinte: você continua suscetível, então precisa se cuidar nas exposições — e, se algum dia se acidentar com sangue ou material de alguém, você tem indicação de receber o anticorpo pronto, a imunoglobulina, e isso precisa ser feito em horas. Vou registrar isso no seu prontuário e quero que você guarde esse papel."

Não diga: Insistir num terceiro esquema. Para pessoas imunocompetentes recomendam-se no máximo dois esquemas completos; depois disso, o que muda a conduta é o registro do rótulo, não mais doses. E não deixe a conversa sem a informação prática: onde fica o CRIE e o que dizer lá.

Explicando o rastreamento de câncer sem aterrorizar

"Uma ultrassonografia a cada seis meses, para sempre. Não é porque eu ache que você vai ter câncer de fígado — a chance é baixa. É porque, quando aparece, esse tipo de câncer é silencioso, e o único jeito de encontrá-lo pequeno, quando ainda dá para curar, é procurando de tempos em tempos em quem tem mais risco. Se um dia a gente encontrar alguma coisa, vai ser cedo. É por isso que existe o exame."

Não diga: Dizer "é só para prevenir" sem nomear o que se procura — o paciente descobre pelo laudo, sozinho, e a confiança se perde. Também evite suspender o exame quando a carga viral zerar: se você mesmo tratar o rastreamento como opcional, ele será o primeiro a cair.

Falando com o colega que se acidentou e não sabe se respondeu à vacina

"Vamos fazer o que dá para fazer hoje, na ordem certa: teste rápido em você, teste na fonte se der, e a primeira dose da vacina agora. O seu anti-HBs foi pedido, e se ele não sair em 48 horas a gente vai tratar como se a resposta fosse inadequada e indicar a imunoglobulina — porque esperar o papel custa mais do que a conduta a mais. Depois, quando isso passar, você vai completar o esquema e dosar o anticorpo, para que da próxima vez a decisão leve minutos."

Não diga: Minimizar porque "ele tomou vacina quando era criança". Vacina tomada sem resposta documentada não é proteção documentada, e o risco de transmissão do vírus B por exposição percutânea é substancialmente maior que o do HIV. Também evite tratar o acidente como assunto administrativo: o registro é obrigatório, mas a conduta é clínica e tem hora marcada.

Respondendo à pergunta que sempre vem: "posso beber?"

"O ideal é não beber. E não é moralismo: o álcool e o vírus machucam o fígado pelo mesmo caminho, e juntos aceleram um o dano do outro. Se parar de vez não for possível agora, a gente trabalha para reduzir ao máximo — qualquer redução conta. A mesma coisa vale para o peso e para o açúcar no sangue, porque gordura no fígado também soma."

Não diga: Transformar a pergunta em sermão. O paciente que perguntou está disposto a negociar; quem ouve sermão não volta. E não dê um limite "seguro" em doses, porque não existe um estabelecido para quem tem hepatopatia crônica.

Quando não se sabe ainda

"Com o que eu tenho hoje, eu ainda não consigo dizer se você vai precisar de remédio. Para saber, eu preciso de duas dosagens dessa enzima do fígado separadas por três meses, e da medida do vírus no sangue. Não é enrolação nem falta de pressa: é que uma medida sozinha pode enganar, e começar um tratamento que dura anos com base numa medida só seria pior. O que eu já sei dizer é que a gente tem tempo, e que eu vou te acompanhar enquanto isso."

Não diga: Prometer que não vai precisar de remédio, ou prometer que vai. E não deixe o paciente sair sem entender por que existem duas coletas — sem isso, a segunda não acontece, e sem a segunda não há decisão possível.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quem entra em tratamento: a régua brasileira e a régua da OMS não são a mesma

Carga viral alta E transaminase alterada em duas dosagens, com limites brasileiros

O protocolo nacional trata quem tem HBV-DNA igual ou maior que 2.000 UI/mL, independentemente do HBeAg, E ALT igual ou maior que 52 U/L em homens ou 37 U/L em mulheres, confirmada em duas dosagens consecutivas com intervalo mínimo de três meses. Os limites superiores de normalidade adotados são 35 U/L para homens e 25 U/L para mulheres, e o corte é 1,5 vez esses valores. Para fibrose, o gatilho é elastografia transitória acima de 9 kPa com ALT normal, ou acima de 12 kPa se a ALT estiver entre 1 e 5 vezes o LSN; entre 6 e 9 kPa há uma zona cinzenta que se resolve por critérios clínicos ou biópsia. Além disso, tratam-se independentemente desses parâmetros: HBeAg reagente acima de 30 anos, história familiar de carcinoma hepatocelular, coinfecção com HIV, HCV ou HDV, manifestações extra-hepáticas, hepatite aguda grave e candidatos a imunossupressão.

PCDT de Hepatite B e Coinfecções (MS, Portaria SECTICS/MS nº 25, de 18 de maio de 2023).

Fibrose significativa por si só, e transaminase acima de limites mais baixos

A revisão da OMS de março de 2024 ampliou a elegibilidade. Trata-se todo adulto e adolescente a partir de 12 anos com fibrose significativa (F2) definida por APRI acima de 0,5 ou elastografia transitória acima de 7 kPa, ou cirrose por critério clínico, APRI acima de 1 ou elastografia acima de 12,5 kPa — independentemente de carga viral e de ALT. Ou com HBV-DNA acima de 2.000 UI/mL e ALT acima do limite superior da normalidade, definido em 30 U/L para homens e 19 U/L para mulheres. Ou com coinfecções, história familiar de câncer de fígado ou cirrose, imunossupressão, comorbidades como diabetes e esteatose hepática metabólica, ou manifestações extra-hepáticas, independentemente de APRI, carga viral e ALT. Onde não há acesso a carga viral, ALT persistentemente anormal isolada basta. A própria OMS estima que a proporção de pessoas com HBsAg reagente elegíveis a tratamento passa de cerca de 8% a 20% para pelo menos 50%.

World Health Organization. Guidelines for the prevention, diagnosis, care and treatment for people with chronic hepatitis B infection. Geneva; March 2024.

Como decidir

Este capítulo aplica a régua brasileira, e a razão é de acesso, não de mérito: no Brasil o análogo é dispensado pelo Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica com registro no Siclom-Hepatites, e o critério que autoriza a dispensação é o do PCDT vigente. Prescrever pelo critério da OMS não faz o medicamento chegar. O que muda na prática, e muda de verdade, é a intensidade do seguimento de quem fica de fora. Um paciente com ALT de 34 U/L, homem, e carga viral de 5.000 UI/mL está fora do critério nacional e dentro do critério internacional — e é exatamente esse paciente que precisa de estadiamento de fibrose e de retorno curto, e não de alta com "exames normais". Diante de elastografia entre 7 e 9 kPa, a norma brasileira manda decidir por critérios clínicos: sexo masculino, idade acima de 40 anos em quem tem HBeAg não reagente, história familiar de cirrose, etilismo pesado, diabetes, síndrome metabólica, esteatose e coinfecção com HCV. É nessa zona que o julgamento do assistente pesa mais, e é nela que a régua internacional mais recente sugere ser mais permissivo. Reversibilidade do erro também entra na conta: tratar a mais expõe a um análogo bem tolerado, de baixa toxicidade e sem resistência descrita para tenofovir; tratar a menos expõe a fibrose que não volta atrás.

Quanto a imunoglobulina realmente acrescenta à vacina no recém-nascido

Acrescenta pouco — a vacina isolada já é altamente eficaz

O Manual dos CRIE afirma que a vacinação isolada nas primeiras 12 horas após o nascimento é altamente eficaz na prevenção da transmissão vertical, e que a adição da imunoglobulina confere pequena proteção adicional. Na mesma passagem, registra que, aplicadas as duas nas primeiras 12 a 24 horas, a proteção contra a transmissão no momento do parto é de praticamente 100% — e lembra que uma pequena proporção de crianças sofre infecção intraútero, situação em que a imunoprofilaxia é ineficaz de qualquer forma.

Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª edição (MS, 2023).

Acrescenta o bastante para ser regra em todo filho de mãe positiva

O protocolo de hepatite B afirma que a imunoglobulina, usada sempre em associação com a vacina ao nascimento e aplicada idealmente nas primeiras 12 a 24 horas de vida em recém-nascidos de mães HBsAg reagente, aumenta a eficácia da imunização para 90% a 95%. O protocolo de transmissão vertical registra que a imunoprofilaxia combinada previne a transmissão perinatal em mais de 90% dos recém-nascidos. Na Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação a formulação é intermediária: a vacina isolada nas primeiras 12 horas é altamente eficaz, e a adição da imunoglobulina confere uma proteção adicional — sem o qualificador "pequena".

PCDT de Hepatite B e Coinfecções (MS, 2023); PCDT de Prevenção da Transmissão Vertical (MS, Portaria SCTIE/MS nº 55/2020); Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação (MS/DPNI).

Como decidir

A divergência é de ênfase, e ela não decide se a imunoglobulina é indicada — isso é consenso: todo recém-nascido de mãe HBsAg reagente recebe as duas. O que ela decide é uma pergunta operacional que aparece de madrugada, quando a imunoglobulina não está na maternidade: espera-se ou vacina-se? Aí não há divergência nenhuma, e a norma é explícita nos dois sentidos — a indisponibilidade de acesso oportuno à imunoglobulina não deve ser impeditiva para a aplicação da vacina, e a imunoglobulina tem prazo de até 7 dias. Portanto: vacina agora, imunoglobulina quando chegar, e acionamento do CRIE no mesmo turno. A leitura de que a proteção adicional é pequena serve para tranquilizar quem teve de vacinar sem a imunoglobulina, e não para justificar não correr atrás dela. E há um caso em que a diferença de ênfase muda mesmo a conduta: a criança de mãe com sorologia desconhecida recebe apenas a vacina de imediato, e a imunoglobulina só entra se a testagem materna confirmar HBsAg reagente, dentro dos primeiros sete dias.

Profilaxia com tenofovir na gestante quando não há carga viral nem HBeAg disponíveis

Só com carga viral alta ou HBeAg reagente

O protocolo brasileiro indica tenofovir desoproxila 300 mg ao dia a partir da 24ª semana para gestantes com HBV-DNA igual ou maior que 200.000 UI/mL e/ou HBeAg reagente, e admite o HBeAg como alternativa para identificar alto risco quando a carga viral entre 24 e 28 semanas não estiver disponível. A profilaxia é, portanto, seletiva: gestantes com carga viral baixa e HBeAg não reagente não recebem o antiviral, e a proteção do recém-nascido fica inteiramente a cargo da imunoprofilaxia da sala de parto.

PCDT de Hepatite B e Coinfecções (MS, 2023).

Todas as gestantes HBsAg reagente, onde não houver como medir

A OMS manteve, em 2024, a recomendação forte de tenofovir para gestantes com HBV-DNA igual ou maior que 200.000 UI/mL ou HBeAg reagente onde há acesso a esses exames, preferencialmente do segundo trimestre até pelo menos o parto ou a conclusão do esquema vacinal do lactente. E acrescentou uma recomendação nova, condicional e de baixa certeza de evidência: onde não houver acesso nem a carga viral nem a HBeAg, a profilaxia com tenofovir é recomendada para todas as gestantes HBsAg reagente.

World Health Organization. Guidelines for the prevention, diagnosis, care and treatment for people with chronic hepatitis B infection. Geneva; March 2024.

Como decidir

A pergunta prática não é qual régua é melhor, é o que fazer com a gestante de 26 semanas cujo HBV-DNA foi solicitado e não voltou. A régua brasileira tem uma saída para isso, e ela deve ser usada primeiro: o HBeAg é aceito como alternativa, e o HBeAg é um exame sorológico muito mais fácil de conseguir que a carga viral. Peça HBeAg imediatamente, e não espere a carga viral. Se nem HBeAg houver — e há serviços em que não há —, o argumento da OMS pesa: o risco de não tratar uma gestante de alto risco é uma criança com 90% de chance de infecção crônica, e o risco de tratar uma gestante de baixo risco é a exposição a um antiviral com segurança comprovada na gestação. Nessa situação, a decisão é do serviço especializado e do pré-natal de alto risco, para onde toda gestante HBsAg reagente deve ter sido encaminhada — e é a esse encaminhamento, feito cedo, que o interno tem obrigação de garantir. Vale registrar que iniciar tarde ainda vale: não tendo sido possível começar entre 24 e 28 semanas, o tenofovir pode ser iniciado até o fim da gestação, com prejuízo dos desfechos, mas com benefício.

Quanto tempo a hepatite B fica crônica em quem se infecta adulto — três números federais diferentes

Menos de 5% em adultos imunocompetentes

O protocolo de hepatite B afirma que o risco de cronificação é inversamente proporcional à faixa etária de exposição, variando de 90% em recém-nascidos a menos de 5% em adultos imunocompetentes, com 25% a 30% entre 1 e 5 anos de idade — e acrescenta que a cronificação é mais frequente em pessoas imunocomprometidas.

PCDT de Hepatite B e Coinfecções (MS, 2023).

Entre 6% e 10% em adultos, e 70% a 90% em quem se infecta ao nascer

O Manual dos CRIE registra que a cronicidade ocorre em 70% a 90% das crianças infectadas ao nascimento e diminui progressivamente com a idade, alcançando 6% a 10% quando a infecção inicial se dá em adultos. O Manual Técnico para o Diagnóstico das Hepatites Virais traz um terceiro par de números: cronificação de 90% em recém-nascidos e de 5% a 10% após os 5 anos de idade.

Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª edição (MS, 2023); Manual Técnico para o Diagnóstico das Hepatites Virais (MS, 2018).

Como decidir

Nenhuma conduta deste capítulo muda com a escolha entre 5% e 10%. A divergência importa por outro motivo: ela mostra que o número exato é uma estimativa de literatura, e que o que carrega a decisão é a ordem de grandeza, não a casa decimal. Diga ao paciente adulto com hepatite aguda que a grande maioria — mais de 90% — resolve sozinha, e não prometa um percentual fechado. Diga à família do recém-nascido exposto que, sem profilaxia, a maioria absoluta das crianças infectadas no parto carrega o vírus a vida inteira. A frase que sustenta a conduta é a comparação, não o valor: a mesma infecção, no primeiro dia de vida e aos quarenta anos, é praticamente duas doenças diferentes — e é essa assimetria, e não um número específico, que justifica correr atrás de doze horas na sala de parto.

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O raciocínio, em voz alta

Terça-feira de manhã, ambulatório de clínica médica. Edvaldo, 44 anos, motorista, assintomático, sem etilismo, sem uso de drogas, sem transfusão. Fez teste rápido numa campanha há três meses e voltou com o painel completo. HBsAg reagente. Anti-HBc total reagente. Anti-HBc IgM não reagente. HBeAg não reagente. Anti-HBe reagente. Anti-HBs não reagente. ALT 31 U/L, AST 28 U/L, plaquetas 214.000/mm³, bilirrubinas normais, INR 1,0, albumina 4,2 g/dL. HBV-DNA 1.400 UI/mL.

  1. o que penso agora

    Antes de qualquer linha do painel, olho o HBsAg. Reagente. Isso responde à primeira pergunta e sozinho: há vírus circulando. Também basta como critério de caso confirmado — vou notificar hoje, no Sinan, pela Ficha de Investigação das Hepatites Virais. Tudo o que vem a seguir é sobre há quanto tempo, quanto vírus, e quanto fígado já foi perdido.

  2. o que penso agora

    Segunda linha: anti-HBc total reagente. Confirma contato com o vírus inteiro, e não com a vacina — a vacina brasileira é recombinante e contém só o antígeno de superfície, de modo que quem foi apenas vacinado não pode ter anti-HBc. Terceira linha: anti-HBc IgM não reagente. Esse é o relógio, e ele diz que o contato não é recente. HBsAg reagente com IgM não reagente é sugestivo de infecção crônica.

  3. o que peço

    O que fecharia a definição de crônica com todas as letras é a persistência do HBsAg por seis meses ou mais. O teste rápido do pátio foi há três meses e o laboratorial é de agora — são dois HBsAg reagentes separados por três meses, ainda não seis. Repito o HBsAg em três meses para completar o critério temporal. Mas não paro a investigação por isso: o IgM não reagente já sustenta a conduta, e esperar seria repetir o erro clássico de adiar o que não depende do exame que falta.

  4. como a resposta muda o que penso

    HBeAg não reagente com anti-HBe reagente. Houve soroconversão do antígeno "e", o que reduz a replicação e melhora o prognóstico — mas não é cura, e não me autoriza a relaxar. Existe uma forma inteira de hepatite B crônica com HBeAg não reagente, por mutação pré-core, que reativa e progride. Com carga viral de 1.400 UI/mL e ALT de 31 U/L, ele está na fase de baixa replicação, o antigo "portador inativo". É a fase de melhor prognóstico — desde que ele permaneça nela.

  5. o que penso agora

    Aplico a régua do tratamento. O critério principal exige HBV-DNA igual ou maior que 2.000 UI/mL E ALT igual ou maior que 52 U/L em homens, em duas dosagens separadas por pelo menos três meses. Ele tem 1.400 UI/mL e 31 U/L. Não preenche nem uma coisa nem a outra. Antes de concluir, varro os critérios que dispensam carga viral e transaminase: não tem HBeAg reagente, tem 44 anos e não relata história familiar de carcinoma; preciso perguntar isso explicitamente. Não tem manifestação extra-hepática. Não é candidato a imunossupressão. Falta saber sobre coinfecções e sobre fibrose.

  6. o que peço

    Sorologias de coinfecção: sífilis, HIV e anti-HCV. Anti-HDV não peço de rotina nele — ele não procede da Amazônia, não descompensou e tem doença ativa modesta; peço se algum desses elementos mudar. Peço anti-HAV IgG: se for suscetível, ele tem indicação de vacina contra hepatite A, que se faz no CRIE. E peço ultrassonografia abdominal, que é recomendada para todos os pacientes após a confirmação diagnóstica.

  7. o que penso agora

    Falta estadiar fibrose, e a elastografia tem fila. Antes de pedir, calculo o FIB-4 com o que já tenho: idade 44, AST 28, plaquetas 214 × 10⁹/L, ALT 31. O resultado é aproximadamente 1,03 — acima de 0,70. Isso significa que ele não está no grupo de menor urgência de estadiamento, e a elastografia é justificada. Se estivesse abaixo de 0,70, eu poderia priorizar outros pacientes na fila do mesmo serviço, o que é uma decisão de alocação e não de descaso.

  8. como a resposta muda o que penso

    Suponha que a elastografia transitória volte com 7,4 kPa. Pelo protocolo brasileiro, isso cai na zona cinzenta — entre 6 e 9 kPa com ALT normal —, e a decisão passa a depender de critérios clínicos: sexo masculino, idade acima de 40 anos em HBeAg não reagente, história familiar de cirrose por hepatite B, etilismo pesado, diabetes, síndrome metabólica, esteatose ou coinfecção com hepatite C. Ele é homem, tem 44 anos e é HBeAg não reagente. São dois critérios. Isso não decide sozinho, mas muda a conversa com o especialista — e é exatamente o paciente que a régua internacional de 2024 já trataria, porque 7,4 kPa está acima do corte de 7 kPa que a OMS usa para fibrose significativa.

  9. o que penso agora

    Independentemente de tratar ou não, existe uma conduta que não é opcional e que quase todo mundo esquece: ele é homem e tem 44 anos, portanto tem indicação de rastreamento de carcinoma hepatocelular com ultrassonografia de abdome a cada seis meses, indefinidamente. Esse rastreamento se mantém tratando ou não tratando, com ou sem resposta virológica, e até depois de uma eventual perda do HBsAg.

  10. o que faço na consulta, sem depender de mais nenhum exame

    Notifico. Peço o teste de HBsAg e cheço a caderneta de vacinação de Neide, de Ariane e de qualquer outro contato domiciliar ou parente de primeiro grau. Oriento sobre álcool, peso e não compartilhar lâmina, escova de dente e alicate. Explico o que significa "crônica" antes que ele leia sozinho na internet. Marco o retorno com data — e escrevo a data no papel, não só no prontuário.

  11. o que a esposa muda no caso

    Neide tem HBsAg reagente registrado no cartão de pré-natal desde as 10 semanas e está com 22. O relógio dela é outro: preciso de ALT, HBV-DNA e HBeAg com resultado disponível até o fim do segundo trimestre, para decidir sobre o tenofovir a partir da 24ª semana. Peço hoje, marcado como prioridade, e encaminho ao pré-natal de alto risco e ao serviço especializado no mesmo dia. Se o HBV-DNA não voltar a tempo, o HBeAg decide — e ele é bem mais fácil de conseguir.

  12. o que escrevo no cartão dela

    "HBsAg reagente em [data]." Com letra legível, na primeira página. É esse papel que alguém vai ler às três da manhã para decidir se o bebê recebe imunoglobulina além da vacina. Explico à Neide, em voz alta, que o filho vai receber duas injeções na sala de parto, em pernas diferentes, e que ela vai poder amamentar.

  13. o que faço com a filha

    Ariane tem 6 anos e é contato domiciliar de pessoa HBsAg reagente — está entre as populações com indicação de rastreamento. Peço HBsAg e checo a caderneta dela. Se o esquema estiver completo, não há mais o que fazer. Se estiver incompleto e ela tiver menos de 7 anos, completo com penta, com intervalo de 60 dias entre as doses — e não reinicio nada.

  14. o que faço comigo

    O anti-HBs no meu bolso é 4 mUI/mL, abaixo de 10, e eu não comprovo o esquema da adolescência. Duas coisas decorrem. Primeira: o prazo da imunoglobulina para o meu acidente, sete dias em exposição percutânea, passou há duas semanas — não há o que recuperar disso, e reconhecer é melhor que fingir. Segunda: eu sou suscetível até prova em contrário, e a conduta é fazer o esquema completo de três doses aos 0, 1 e 6 meses e dosar anti-HBs 1 a 2 meses depois da terceira. O objetivo não é o acidente que já passou — é que o próximo se resolva em minutos, com uma linha na caderneta.

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Faça você

Sábado, 23h40, maternidade de médio porte. Nasce um recém-nascido a termo, 3,1 kg, Apgar 8/9, de parto vaginal. A mãe chegou em trabalho de parto sem cartão de pré-natal; o teste rápido colhido na admissão veio HBsAg reagente. A maternidade tem vacina hepatite B na geladeira. Não tem imunoglobulina anti-hepatite B, e o CRIE de referência abre segunda-feira às 8h.

  1. o que já sei

    Mãe HBsAg reagente confirmada por teste rápido na admissão. Recém-nascido a termo, sem intercorrência. O risco de cronificação se a criança se infectar no parto é de cerca de 90%, e o principal momento de transmissão é o nascimento, não a gestação. A profilaxia funciona porque chega antes de a infecção se estabelecer.

  2. o que já sei

    A vacina hepatite B monovalente é 0,5 mL por via intramuscular no vasto lateral, na sala de parto ou nas primeiras 12 horas. A imunoglobulina é 0,5 mL por via intramuscular no vasto lateral do membro oposto, para qualquer peso e idade gestacional, idealmente nas primeiras 12 a 24 horas.

  3. o que já sei

    Também sei que existem prazos diferentes para as duas coisas, e que existe uma norma explícita sobre o que fazer quando falta uma delas. E sei que há um seguimento sorológico dessa criança cujo calendário depende de ela ter recebido ou não a imunoglobulina.

  4. o que eu faço agora — complete

    Decida, com hora marcada: o que se aplica antes da meia-noite, o que se aciona no domingo, qual é o prazo máximo do que está faltando, o que se escreve na caderneta, o que se diz à mãe sobre amamentação, e em que idade essa criança volta para colher sorologia.

Ver como fecharíamos

Aplique a vacina agora, antes da meia-noite, ainda na sala de parto: hepatite B monovalente 0,5 mL por via intramuscular no vasto lateral. A ausência de imunoglobulina não adia a vacina — a norma federal é explícita ao dizer que a indisponibilidade de acesso oportuno à imunoglobulina não deve ser impeditiva para a aplicação da vacina em indivíduos suscetíveis, e é a vacina, aplicada nas primeiras 12 horas, que carrega a maior parte do efeito. Registre a dose no SI-PNI ou em sistema integrado à RNDS. No domingo, acione o CRIE de referência e a vigilância epidemiológica do município pelo plantão: a imunoglobulina é adquirida e distribuída pelo Programa Nacional de Imunizações aos CRIE, e o fluxo de acesso é responsabilidade da gestão local. O prazo máximo para a imunoglobulina em exposição perinatal é de 7 dias de vida — nascendo às 23h40 de sábado, há até 23h40 do sábado seguinte —, e o alvo continua sendo as primeiras 12 a 24 horas. Quando ela chegar, aplique 0,5 mL por via intramuscular no vasto lateral do membro OPOSTO ao da vacina, nunca no mesmo músculo. Na caderneta: data, hora e sítio de cada aplicação, e a data agendada da sorologia de controle. À mãe: ela pode amamentar — a amamentação não está contraindicada em mãe HBsAg reagente, ainda que as ações de prevenção não tenham sido todas realizadas —, e ela precisa saber, em voz alta e por escrito, que o bebê ainda tem uma injeção pendente e que isso não pode esperar a próxima consulta de puericultura. Complete o esquema com penta aos 2, 4 e 6 meses. A sorologia de controle — HBsAg e anti-HBs — é colhida entre 9 e 12 meses de idade se a criança tiver recebido a imunoglobulina, porque o anticorpo emprestado pode ser detectado por até 6 meses e falsearia a leitura; se a imunoglobulina não chegar a tempo, colhe-se 1 a 2 meses após a última dose do esquema vacinal, respeitando ainda a regra de que o HBsAg só se pesquisa após os 6 meses de idade e no mínimo 30 dias após uma dose de vacina. E há uma última tarefa que não é do bebê: a mãe é caso novo de hepatite B — notifique, peça o painel completo com HBeAg, HBV-DNA e transaminases, dose ALT mensalmente nos primeiros 3 meses e aos 6 meses de puerpério, teste os contatos domiciliares e sexuais e encaminhe-a ao serviço especializado antes da alta.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Toda gestante com hepatite B e HBeAg reagente e/ou carga viral igual ou maior que 200.000 UI/mL deve receber profilaxia com tenofovir desoproxila 300 mg por via oral, uma vez ao dia, a partir da 24ª semana de gestação. O HBeAg é explicitamente aceito como alternativa para identificar alto risco de transmissão vertical quando os níveis de HBV-DNA entre 24 e 28 semanas não estiverem disponíveis — e ele já está reagente aqui, de modo que esperar a carga viral só faz perder tempo. A profilaxia é uma decisão distinta do tratamento: os critérios de tratamento não estão preenchidos, porque a ALT é normal, mas a indicação de profilaxia existe pelo risco ao concepto, e o principal fator de falha da imunoprofilaxia neonatal é justamente a carga viral materna elevada. O entecavir não é recomendado na gestação nem na amamentação; apenas o tenofovir desoproxila tem segurança comprovada nesse contexto. E não se indica cesariana com o propósito de reduzir transmissão vertical do vírus B, porque não há evidência de redução adicional de risco — a via de parto se decide por indicação obstétrica.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Interprete três painéis simulados: HBsAg negativo com anti-HBs isolado; HBsAg negativo com anti-HBc e anti-HBs reagentes; HBsAg reagente. Diga o que cada um permite afirmar e o que ainda precisa ser investigado. Depois compare anti-HBc isolado e HBeAg negativo, explicando por que nenhum dos dois encerra a avaliação. Consulte a tabela para conferir e termine com uma decisão prática: orientar, completar investigação, acompanhar ou encaminhar.

Em 30 dias

Prepare o retorno de uma pessoa com HBsAg reagente. Organize história, sinais de doença hepática, sorologias, ALT, carga viral e avaliação de fibrose, sem indicar tratamento apenas pelo HBsAg. Acrescente gestação ou início de imunossupressão e explique por que o plano precisa ser revisto com a equipe. Inclua prevenção nos contatos, avaliação de vacinação e seguimento do risco de carcinoma quando indicado. Para a proteção ocupacional do estudante, interprete a documentação vacinal e o anti-HBs conforme o histórico e o protocolo, sem usar uma coleta tardia isolada para declarar falha vacinal.

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Agora atenda

Um homem de meia-idade, assintomático, chega ao ambulatório com o resultado de um painel sorológico de hepatite B que ninguém explicou. Ele quer saber se tem ou não tem, se vai morrer disso, se passa para a família e se vai precisar tomar remédio para sempre. Atenda: leia o painel em voz alta, decida se há indicação de tratamento, defina o seguimento de quem não trata, e resolva o que fazer com a esposa grávida e com a filha de 6 anos — sem pedir nenhum exame que não mude a sua conduta.

Hepatite B — Internato | OsceLabs