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Clínica MédicaGastroenterologia

Sete anos de omeprazol

Doença do refluxo gastroesofágico (DRGE)

Três fichas com a mesma palavra escrita pela recepção, e três destinos: quem se trata hoje sem exame nenhum, quem precisa de endoscopia antes da próxima consulta, e quem toma há sete anos um remédio cuja indicação ninguém consegue mais encontrar.

Fontes deste capítulo

Moraes-Filho JPP, Domingues G, Chinzon D; Brazilian GERD Counselors. Brazilian clinical guideline for the therapeutic management of Gastroesophageal Reflux Disease (Brazilian Federation of Gastroenterology, FBG). Arq Gastroenterol. 2024;61:e23154

Moraes-Filho JPP, Navarro-Rodriguez T, Barbuti R, Eisig J, Chinzon D, Bernardo W; Brazilian GERD Consensus Group. Guidelines for the diagnosis and management of gastroesophageal reflux disease: an evidence-based consensus. Arq Gastroenterol. 2010;47(1):99-115

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3

Bula profissional do omeprazol cápsula dura 20 mg, Geolab Indústria Farmacêutica S/A, versão V.02_11/2022, texto de bula notificado à Anvisa

Coelho LGV, Marinho JR, Genta R, Ribeiro LT, Passos MCF, Zaterka S, et al. IVth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection. Arq Gastroenterol. 2018;55(2):97-121

01

Responda antes de ler

Mulher de 47 anos procura a unidade básica por tosse seca há sete meses e pigarro constante, sem pirose e sem regurgitação. Não fuma, não usa inibidor da enzima conversora de angiotensina, e a radiografia de tórax é normal. Um colega sugere iniciar omeprazol 40 mg ao dia por oito semanas como teste para refluxo. O que a diretriz brasileira de 2024 orienta nesse cenário?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, sete e cinquenta da manhã. A unidade básica ocupa o fim de uma rua que só ganhou asfalto no ano passado, e o hospital de referência está a dois ônibus dali. A agenda da manhã tem dezesseis nomes e quatro vagas de demanda espontânea que já foram ocupadas antes de a porta abrir. Você é o interno da manhã. A médica da equipe está numa reunião de matriciamento até as dez e deixou o recado de sempre: comece, e chame quando precisar.

Auricélia, a agente comunitária, entra antes da primeira ficha com três pastas na mão e as coloca em cima da mesa em fila, como quem já separou. Ela diz que as três são a mesma queixa. Não são, e é por isso que este capítulo existe — mas a frase dela é exatamente o que está escrito nas três fichas, com a mesma letra da recepção: azia.

A primeira pasta é de Marcilene Padilha, 34 anos, atendente de padaria. Ela trabalha das cinco da manhã à uma da tarde, janta às onze da noite quando o filho dorme, e há uns três meses tem uma queimação que sobe do estômago para o meio do peito, quase toda noite, depois que deita. Passa quando ela senta na cama. Já tomou chá, já tomou leite, já tomou um comprimido que a cunhada deu. Não emagreceu, come de tudo, engole normal, nunca vomitou sangue. Está com pressa: o intervalo é curto.

A segunda é de Lindomar Teles, 63 anos, aposentado depois de vinte e dois anos dirigindo van escolar. Ele não veio por causa de azia. Veio renovar receitas, e traz um saco de supermercado com as caixas vazias. Dentro dele há losartana, sinvastatina, metformina — e omeprazol. Quando você pergunta desde quando toma o omeprazol, ele responde com a naturalidade de quem responde uma pergunta boba: desde sempre. Insistindo, sai um número: sete anos. Começou numa noite de pronto-atendimento, por uma dor no estômago que ele já não sabe descrever, e ninguém nunca mais tocou no assunto.

A terceira é de Sinval Rebelo, 58 anos, vigilante noturno. Ele tem azia há muito tempo, e isso não é o que o trouxe. O que o trouxe é que, há uns dois meses, a comida está parando. Não dói: para. Ele engole, sente o alimento descer até certo ponto e ficar. Começou com carne, agora acontece com arroz. Passou a comer menos e a comer mole, e emagreceu — ele não sabe quanto, mas a calça do uniforme está caindo e ele apertou o cinto dois furos desde o Natal.

As três pessoas têm a mesma queixa escrita na ficha e três destinos diferentes, e a parte difícil não é adivinhar qual é qual. A parte difícil é o que vem depois: uma delas pode ser tratada hoje sem exame nenhum e vai ficar boa; uma precisa de endoscopia e o pedido não pode esperar a próxima consulta; e uma toma há sete anos um remédio que talvez nunca tenha tido indicação, e desmontar isso dá mais trabalho, dura mais tempo e produz mais brigas do que qualquer receita que você vá escrever esta manhã.

A terceira é a que o sistema erra em escala. Ninguém prescreve omeprazol por sete anos de propósito. O que acontece é uma corrente de pequenos atos razoáveis: alguém prescreve por quatro semanas numa urgência, alguém renova porque o paciente pediu, alguém renova porque estava na lista de medicamentos de uso contínuo, alguém renova porque parar um remédio que o paciente diz que está funcionando parece uma crueldade gratuita numa consulta de quinze minutos. Nenhum desses atos é indefensável sozinho. Somados, produzem sete anos.

Este capítulo é sobre as duas decisões que ninguém ensina e que cabem inteiras na atenção básica: quem pode ser tratado sem nenhum exame, e quem precisa de endoscopia hoje. E sobre a terceira, que é a mais rara de ver escrita em qualquer lugar: como e quando parar. Vamos usar as três pastas até o fim da manhã.

03

Quem adoece disso

A diretriz brasileira de conduta terapêutica na doença do refluxo gastroesofágico, publicada pela Federação Brasileira de Gastroenterologia em 2024, abre declarando que a doença atinge de 12% a 20% da população urbana brasileira. É o número que sustenta tudo o que vem depois, e vale entender o que ele conta antes de usá-lo.

Ele conta sintoma, não lesão. A pirose é uma queixa, medida por inquérito, e a doença definida por ela não coincide com a doença definida por endoscopia. Isso importa porque a maioria das pessoas com essa queixa tem exame endoscópico normal — o que não as tira do diagnóstico, e é justamente o que o capítulo inteiro vai repetir de formas diferentes.

Projete esse número sobre a sua manhã. Se 12% é o piso, numa agenda de dezesseis adultos você atende, em média, uma a duas pessoas cuja queixa principal cabe neste capítulo — e muitas outras que têm a queixa e não a trazem, porque azia não parece assunto de médico. É uma projeção do número da diretriz sobre a sua agenda, não uma medida de campo; mas explica por que a queixa mais banal do consultório é também a que mais gera receita.

Do lado do que se prescreve, a mesma diretriz registra que os inibidores da bomba de prótons são a classe mais prescrita com efeito terapêutico consistente no controle dos sintomas típicos e na cicatrização da esofagite. E abre a atualização dizendo por que ela precisou existir: desde a publicação anterior, mais de uma década antes, cresceram as publicações sobre segurança de longo prazo, eventos adversos e prescrição excessiva. A prescrição excessiva está escrita, com essas letras, na primeira página do documento que orienta o tratamento.

Não é observação nova nem importada. Em dezembro de 2004, um fascículo da série Uso Racional de Medicamentos, publicado no Brasil pela Organização Pan-Americana da Saúde com o Ministério da Saúde, já registrava o uso desmedido desses medicamentos em pessoas com queixas dispépticas, e dizia que isso devia ser revisto pelos efeitos adversos potenciais e pelo custo. Vinte e dois anos depois, o saco de supermercado do Lindomar continua chegando à mesa.

O elenco público explica parte do fenômeno e nenhuma parte da desculpa. A Rename 2024 tem duas apresentações do omeprazol, a cápsula de 10 mg e a de 20 mg, custeadas pelo Componente Básico — quer dizer, o município compra, a unidade dispensa, e o paciente sai com o remédio na mão no mesmo dia. É barato, é onipresente e é fácil de renovar. Nada disso é defeito: é exatamente o que se espera de um medicamento essencial. O defeito é a renovação sem revisão.

E o elenco tem uma segunda característica que muda a conduta e quase ninguém sabe de cor: além do omeprazol, o único outro medicamento do elenco nacional com ação sobre a acidez é o hidróxido de alumínio, em comprimido de 230 mg e de 300 mg e em suspensão oral de 60 mg/mL. Não há nenhum outro inibidor de bomba na Rename 2024, nenhum bloqueador H2 — nem ranitidina, nem famotidina, nem cimetidina — e nenhum alginato. O arsenal público inteiro para esta doença cabe em duas linhas.

A suspensão de hidróxido de alumínio, aliás, entrou no elenco por decisão explícita e recente: relatório de recomendação nº 833 da Conitec, incorporado pela Portaria SECTICS/MS nº 43, de 21 de julho de 2023, com a finalidade declarada de tratar gastrite, úlceras gástricas e duodenais e esofagite de refluxo. É o documento normativo brasileiro mais recente a nomear a esofagite de refluxo como alvo de tratamento — e não é uma diretriz clínica: é uma decisão de incorporação.

Guarde a soma, porque ela é a moldura do capítulo: uma queixa que atinge no mínimo um em cada oito adultos urbanos; uma classe de medicamentos que a própria diretriz brasileira descreve como excessivamente prescrita; um elenco público de dois medicamentos; e um documento oficial de vinte e dois anos atrás avisando que isso ia acontecer. O interno na unidade básica está exatamente no ponto onde essa soma se decide, uma consulta por vez.

04

Por que acontece o que acontece

A junção entre o esôfago e o estômago não tem uma válvula desenhada. Tem um arranjo: uma faixa de músculo liso circular na porção terminal do esôfago, que se mantém tonicamente contraída, alojada dentro do hiato do diafragma, com o pilar diafragmático apertando por fora e um ângulo agudo entre o esôfago e o fundo gástrico ajudando por dentro. Quatro coisas diferentes fazem o trabalho de uma. Quando qualquer uma delas se desarranja — e a hérnia de hiato desarranja duas de uma vez, separando o esfíncter do pilar —, a barreira perde eficiência sem que nada tenha se rompido.

O refluxo, porém, não acontece principalmente porque o esfíncter está fraco. Acontece porque ele relaxa. Existem relaxamentos transitórios do esfíncter inferior do esôfago que não são disparados pela deglutição: são reflexos, deflagrados sobretudo pela distensão do fundo gástrico depois da refeição, e existem em todo mundo. É por isso que refluir é fisiológico. Uma refeição grande, gasosa, deitar-se logo depois — tudo o que aumenta a distensão do fundo aumenta o número desses relaxamentos, e é dessa mecânica, não de misticismo alimentar, que saem as orientações de comportamento.

Se todo mundo refluí, o que faz virar doença são três variáveis somadas: quanto tempo o material fica em contato com a mucosa, o que esse material contém, e o quanto aquele esôfago percebe. A terceira é a mais esquecida e a que mais atrapalha na clínica. O conteúdo, aliás, não é só ácido: a própria diretriz de 2024 registra que, em pessoas saudáveis, de 33% a 38% dos episódios de refluxo são não ácidos, e que em pessoas com a doença metade dos episódios é não ácida. Refluxo não ácido é, até certo ponto, normal.

Depois de comer existe um fenômeno que explica por que a azia é pior justamente quando o estômago está cheio, quando a lógica diria o contrário. Forma-se uma camada de suco gástrico não tamponado que flutua acima do bolo alimentar, logo abaixo da junção — a diretriz de 2024 a chama de bolsão ácido. O alimento tampona o resto do estômago e não tampona essa camada, que é justamente a que fica ao alcance do refluxo pós-prandial. É sobre esse bolsão que o alginato atua, formando barreira física no lugar exato onde ele se forma.

O inibidor da bomba de prótons não neutraliza ácido: desliga a bomba que o produz. E desliga, de forma irreversível, apenas as bombas que estiverem ativas naquele momento — as bombas em repouso escapam. Bombas ficam ativas quando a célula parietal é estimulada, e o estímulo maior é a refeição. Daí a regra que parece capricho e é farmacologia: a droga precisa estar no sangue quando a comida chegar. Tomar depois de comer, ou aleatoriamente ao longo do dia, desperdiça boa parte do efeito de um comprimido que o paciente engoliu, pagou e acredita estar tomando direito.

Aqui nasce a primeira armadilha da consulta, e ela não é do paciente. Três documentos brasileiros dizem coisas diferentes sobre quando engolir a cápsula: o consenso de 2010 fala em jejum matinal, a diretriz de 2024 fala em 30 a 60 minutos antes da primeira refeição do dia, e a bula aprovada diz para tomar imediatamente antes das refeições. As três frases estão em vigor. Duas descrevem a mesma coisa com precisão diferente; a terceira, seguida ao pé da letra, entrega menos droga no momento certo. O paciente que não melhorou pode não ter falhado ao tratamento: pode ter obedecido à bula.

A relação entre o que dói e o que se vê também não é a que a intuição promete. A doença não erosiva — sintomas típicos com refluxo demonstrado e mucosa sem lesão à endoscopia convencional — tem sintomas de intensidade e variedade semelhantes aos das formas com erosão, e a diretriz de 2024 registra explicitamente que os sintomas não se correlacionam linearmente com os achados endoscópicos. Endoscopia normal não absolve o esôfago nem desmente o paciente. Em compensação, a resposta ao bloqueio ácido é mais nítida nas formas erosivas: a resposta sintomática completa fica entre 70% e 80% na forma erosiva e é menor na não erosiva, provavelmente porque neste grupo estão misturadas a pirose funcional e a hipersensibilidade esofágica.

Essa mistura é a razão de a doença voltar e de o teste terapêutico provar menos do que parece. Dois terços das pessoas com a forma não erosiva voltam a ter sintomas depois de interromper o tratamento, e quase todas as pessoas com esofagite grave — graus C e D da classificação endoscópica de Los Angeles — recidivam em seis meses. Em outras palavras: o retorno do sintoma ao parar o remédio é o comportamento esperado da doença, e não é prova de que o remédio era necessário para sempre. Confundir uma coisa com a outra é o mecanismo íntimo dos sete anos do Lindomar.

Pessoa em decúbito lateral esquerdo, com cabeceira à direita da imagem e a cama inteira elevada por suportes estáveis.
Elevar a cabeceira e preferir o decúbito lateral esquerdo podem reduzir o refluxo noturno. A ilustração mostra elevação do leito, com suporte estável, e não apenas uma pilha de travesseiros. A altura não deve ser medida pela perspectiva do desenho; as medidas se ajustam à segurança e ao conforto da pessoa. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

A doença tem dois sintomas que a definem e uma dúzia que a imitam. A consulta inteira é o trabalho de separar os dois grupos com a conversa, porque nenhum exame disponível na unidade básica faz essa separação por você — e porque, feita a separação, a maioria das pessoas não precisará de exame nenhum.

Vale dizer de saída o que a história clínica consegue e o que não consegue. O consenso brasileiro de 2010 é explícito: sinais e sintomas são insuficientes para estabelecer diagnóstico conclusivo, qualquer que seja a frequência e a intensidade, e a certeza diagnóstica pela clínica fica em torno de 40%. Isso não é um argumento para pedir exame em todo mundo. É um argumento para saber que você está tratando uma hipótese provável, e para combinar com o paciente o que acontece se ela estiver errada.

Os dois sintomas típicos, e o que conta como típico

Pirose é a queimação retroesternal que sobe do epigástrio em direção ao pescoço. Regurgitação é o retorno de conteúdo à boca ou à faringe sem esforço de vômito, sem náusea que a preceda, sem contração abdominal. As duas juntas são o quadro típico, e a presença delas é o que autoriza a decisão de tratar sem exame no adulto jovem.

Peça ao paciente para mostrar com a mão. Quem tem pirose desenha uma linha vertical com a mão espalmada, subindo. Quem tem dor epigástrica aponta um ponto com o dedo. Quem tem dor coronariana costuma cobrir o peito com a mão fechada ou com a palma, sem o movimento de subida. O gesto é dado de anamnese, e é de graça.

Pergunte o padrão temporal com precisão de relógio, porque ele decide orientação: depois de qual refeição, quanto tempo depois, e o que acontece ao deitar. Sintoma que aparece de dez a sessenta minutos depois de comer e piora quando o paciente se deita é a assinatura mecânica. Sintoma noturno que acorda a pessoa muda o peso da medida da cabeceira e do intervalo entre a última refeição e o deitar — e, no caso da Marcilene, é o único sintoma que ela tem.

Frequência e duração entram na definição operacional que o consenso de 2010 usa para discutir diagnóstico: sintomas típicos com frequência maior que duas vezes por semana, por período não inferior a quatro semanas. Guarde esse par, porque ele é o que separa a pessoa que tem a doença da pessoa que comeu feijoada no domingo. Não é um critério de tratamento — é o corte a partir do qual vale a pena chamar de doença e organizar uma conduta.

Uma advertência que vale para tudo o que vem: a ausência de sintoma típico não exclui a doença. O consenso de 2010 diz isso na abertura da seção de diagnóstico. Existe refluxo que se manifesta fora do esôfago e existe esofagite em pessoa que nunca relatou azia — sobretudo no idoso, cuja percepção esofágica é menor. O idoso com anemia e sem queixa alguma não está protegido por não ter azia.

Quando a queixa não é do esôfago — e para onde ela vai

Refluxo produz um catálogo de manifestações fora do esôfago, e o consenso de 2010 lista as que investigou: dor torácica sem doença coronariana, asma, tosse crônica, rouquidão, pigarro, globus, laringite, bronquite. A tentação, diante dessa lista, é atribuir ao refluxo qualquer sintoma respiratório que não tenha outro dono. É o erro mais caro do capítulo, e há razão documental para não cometê-lo.

A razão é que a associação é frequente e a causalidade é fraca. O consenso de 2010 registra que 57% das pessoas com asma também têm refluxo gastroesofágico, e ao mesmo tempo que a resposta terapêutica é modesta: pantoprazol 40 mg ao dia por três meses melhorou a qualidade de vida do asmático e não melhorou o escore de sintomas nem a prova de função pulmonar; e os sintomas de laringite crônica posterior — pigarro, tosse, globus, dor de garganta e rouquidão — não melhoraram de forma significativa com esomeprazol 40 mg ao dia por 16 semanas em comparação ao placebo. Coexistir não é causar.

A asma do adulto e a tosse crônica como manifestação extraesofágica pertencem ao capítulo de Pneumologia, que trata delas com a régua da doença respiratória — e é para lá que este capítulo manda o leitor. O que fica aqui é uma trava de método, e ela é da diretriz de 2024: nas manifestações extraesofágicas — tosse, pigarro, rouquidão, disfonia, globus — o teste terapêutico empírico com inibidor de bomba não deve ser feito, e a investigação diagnóstica deve ser conduzida sem o uso da medicação. Quem trata primeiro perde o exame depois.

A dor torácica é caso à parte e não admite ordem trocada. Diante de dor no peito, a doença coronariana se exclui antes, e não depois de um teste com omeprazol. O capítulo de dor torácica no pronto-socorro é quem governa essa sequência; aqui basta a regra: refluxo é diagnóstico de dor torácica depois que o coração saiu da mesa, nunca antes.

O refluxo do lactente — o bebê que golfa, ganha peso e não tem sinal nenhum — é outra doença, com outra história natural e outro tratamento, e pertence a Refluxo gastroesofágico fisiológico versus doença do refluxo no lactente, na apostila de Gastroenterologia Pediátrica. Nada do que este capítulo diz sobre dose, duração e retirada se transporta para lá.

Os sinais de alarme, um por um, e o que cada um está procurando

Sinal de alarme não é sinal de gravidade do refluxo. É sinal de que a queixa pode não ser refluxo — ou de que já existe complicação estrutural. Cada item da lista está procurando uma coisa diferente, e o interno que decora a lista sem saber o que cada item procura não consegue julgar o caso duvidoso.

Disfagia é o item mais importante, e é o do Sinval. Ela procura obstrução: estenose péptica, anel, e neoplasia de esôfago. O detalhe que muda tudo é a progressão. Disfagia intermitente para sólidos, estável há anos, sugere anel ou distúrbio motor; disfagia que começou para sólidos e progrediu para pastosos e líquidos em semanas a meses, com perda de peso junto, é a apresentação clássica da obstrução que cresce. Pergunte sempre o que a pessoa engolia há dois meses e o que ela engole hoje.

Odinofagia — dor ao engolir, distinta da dificuldade — procura outra coisa: ulceração da mucosa esofágica, infecção em imunossuprimido, lesão por comprimido retido. Ela está na lista do consenso brasileiro de 2010 e não está nos exemplos do consenso de H. pylori de 2026, nem estava na lista de 2018 sobre dispepsia, e essa discordância entre dois documentos brasileiros está registrada na tabela do bloco de critérios.

Perda de peso não intencional procura consumo: neoplasia, e também redução da ingesta por medo de engolir. Quantifique. Quilos perdidos em quanto tempo, e como a pessoa sabe — balança, roupa, cinto. O cinto do Sinval marcou dois furos desde o Natal, e isso é dado clínico com data, não impressão.

Sangramento digestivo procura lesão que sangra, e tem duas caras: a evidente, com hematêmese ou melena, e a silenciosa, que aparece como anemia ferropriva. A hemorragia digestiva alta instalada não é assunto deste capítulo — é do capítulo de Hemorragia digestiva alta, e o paciente que vomita sangue vai para a sala vermelha, não para a fila da endoscopia ambulatorial. O que fica aqui é a versão de consultório: fezes escurecidas, anemia sem causa, ferro baixo.

Vômitos persistentes procuram obstrução da saída gástrica e doença péptica complicada. Massa abdominal palpável e icterícia — que não estão na lista de 2010; a massa está nos exemplos de 2026, e a icterícia só estava na lista de 2018 — procuram doença já estabelecida no estômago, no fígado ou no pâncreas. História familiar de câncer, em primeiro grau, muda a probabilidade prévia de tudo o que está acima e por isso entra como item próprio.

O que mais faz azia, e por que a distinção importa antes da receita

A dispepsia funcional é a grande vizinha, e a fronteira entre as duas é borrada de propósito: dor ou desconforto no andar superior do abdome, persistente ou recorrente, sem lesão estrutural que a explique. Ela não tem capítulo próprio neste nível, e por isso este capítulo assume o mínimo que a sua decisão exige — o suficiente para não tratar uma como se fosse a outra — e declara que assumiu. O mínimo é este: quando o sintoma dominante é queimação retroesternal ascendente e regurgitação, trate como refluxo; quando é plenitude pós-prandial, saciedade precoce e dor epigástrica em ponto, a resposta ao inibidor de bomba será pior e a conversa terá de mudar de eixo.

A úlcera péptica e a infecção por Helicobacter pylori têm capítulo próprio nesta apostila — doença ulcerosa péptica e Helicobacter pylori —, que conduz a dispepsia, o teste, o esquema de erradicação e a prova de cura pelo consenso brasileiro de 2026. Este capítulo assume delas apenas o que precisa para separar refluxo de dispepsia e decidir sobre endoscopia.

Medicamentos que o próprio paciente toma produzem ou pioram o sintoma, e a Figura 1 do consenso de 2010 traz a lista com nome: anticolinérgicos, teofilina, antidepressivos tricíclicos, bloqueadores de canal de cálcio, agonistas beta-adrenérgicos e alendronato. Alguns relaxam o esfíncter; o alendronato faz outra coisa — machuca a mucosa se ficar parado no esôfago. Revisar a receita do paciente é parte do exame físico deste capítulo, e no caso do Lindomar é onde a consulta vai render mais.

Faltam ainda os que não são digestivos. Doença coronariana, já dita. E o estômago que dói porque a pessoa está tomando anti-inflamatório por conta própria para a dor do joelho — situação tão comum que vale perguntar por nome comercial, e não por classe, porque quase ninguém sabe que o que toma é anti-inflamatório.

O esôfago de Barrett, o câncer de esôfago e o câncer gástrico aparecem neste capítulo apenas como destino: são o que os sinais de alarme estão procurando. Quem os assume são dois capítulos da apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo: o câncer de esôfago e o próprio Barrett, no capítulo de câncer de esôfago e disfagia de causa neoplásica; o câncer gástrico, no capítulo de câncer gástrico. Este aqui não assume o que não sabe fazer — não estadia, não vigia e não trata nenhum dos três. O que ele faz, e faz inteiro, é reconhecer o alarme e encaminhar com o pedido certo.

As três pastas, relidas com a lista na mão

Marcilene, 34 anos: pirose quase diária há três meses, noturna, pós-prandial, com regurgitação ocasional, sem disfagia, sem odinofagia, sem vômitos, sem sangramento, sem perda de peso, sem massa, sem icterícia, sem história familiar de câncer. Quadro típico, jovem, sem alarme. É a pessoa para quem o consenso brasileiro diz, com recomendação de grau A, que a endoscopia antes do tratamento não altera a evolução clínica.

Sinval, 58 anos: azia antiga, e disfagia que progrediu de carne para arroz em dois meses, com perda de peso não quantificada mas objetivada pelo cinto. Dois alarmes, e um deles progressivo. Não é candidato a teste terapêutico. É candidato a endoscopia, e o que resta decidir é o prazo, não a indicação — e o prazo está no bloco de conduta.

Lindomar, 63 anos: sem queixa atual. É a categoria que a lista de alarme não captura porque ele não tem sintoma nenhum para classificar. O problema dele não é diagnóstico, é iatrogênico, e a pergunta que o capítulo faz sobre ele não é qual é a doença — é qual era a indicação, e se ela ainda existe.

06

Como fechar o diagnóstico

Investigar refluxo na atenção básica é, na maior parte das vezes, decidir não investigar. É um bloco curto de exames e longo de justificativas, porque a decisão difícil aqui é sustentar diante do paciente — e diante de você mesmo — que a ausência de exame é conduta e não descuido.

Organize em quatro perguntas, nesta ordem: alguém aqui precisa de endoscopia hoje; alguém precisa de endoscopia por idade e não por sintoma; quem não precisa de nenhuma das duas recebe o quê; e o que se faz com quem recebeu e não melhorou. As duas primeiras se respondem antes de qualquer receita.

1. O que a endoscopia responde — e o que ela não responde

A endoscopia digestiva alta responde bem a três perguntas: existe lesão de mucosa e de que grau; existe complicação estrutural, como estenose, úlcera esofágica ou epitélio metaplásico; e existe outra doença explicando o sintoma, sobretudo neoplasia. É por isso que o consenso de 2010, ao dispensar a endoscopia no jovem típico, faz questão de registrar que na forma erosiva com sintomas típicos o exame melhora a acurácia diagnóstica e estabelece diagnóstico diferencial com outras doenças, entre elas o câncer.

Ela responde mal a uma pergunta central: esta pessoa tem refluxo. Endoscopia normal é o achado mais comum em quem tem a doença, porque a forma não erosiva é a maioria. O consenso de 2010 mede isso de outro jeito: em pacientes com sintomas típicos e endoscopia negativa, o escore de sintomas moderados a graves não identifica quem tem a doença — sensibilidade de 82%, mas especificidade de 22%. Endoscopia normal com sintoma típico não é diagnóstico excluído: é diagnóstico de doença não erosiva até prova em contrário.

Existe uma consequência prática disso que muda o que você escreve no pedido. Se a endoscopia não vai mudar sua conduta quando vier normal — e no jovem típico ela não vai —, então o pedido só se justifica quando existe uma pergunta cuja resposta negativa também mude alguma coisa. Alarme cria essa pergunta. Sintoma típico isolado, não.

A classificação endoscópica de Los Angeles, que gradua a esofagite erosiva de A a D, aparece nos dois documentos brasileiros — o consenso de 2010 a usa ao discutir histologia, e a diretriz de 2024 a usa para indicar cirurgia nos graus C e D e para dizer que quase todos esses pacientes recidivam em seis meses. É uma régua estrangeira, de origem internacional, e os documentos brasileiros a adotam pelo uso, sem nenhum ato normativo nacional que a institua. Quando o laudo do seu paciente disser grau C, é a diretriz brasileira de 2024 que transforma essa letra em conduta.

2. Quem faz endoscopia por causa de alarme — e por que as duas listas brasileiras não são iguais

Diante de qualquer sinal de alarme, a endoscopia deixa de ser opcional e o teste terapêutico deixa de ser aceitável. Essa é a única parte do capítulo em que os documentos brasileiros e a prática internacional concordam sem ressalva.

O problema é que os dois documentos brasileiros em vigor não listam os mesmos alarmes. O consenso brasileiro de DRGE de 2010 lista disfagia, odinofagia, perda de peso, sangramento digestivo, náuseas e/ou vômitos, e história familiar de câncer. O consenso brasileiro de H. pylori em vigor, a quinta edição, de 2026, não fecha uma lista: na justificativa da declaração que indica a endoscopia, cita como exemplos de alarme perda de peso, anemia ferropriva, sangramento gastrointestinal, massa palpável e disfagia, e a própria declaração indica o exame a familiares de pessoas com câncer gástrico a partir de 30 anos. A edição anterior, de 2018, hoje datada, listava, ao autorizar a estratégia de testar e tratar na dispepsia, perda de peso não intencional, disfagia, vômitos persistentes, massa abdominal palpável, icterícia, sangramento gastrointestinal e história de câncer gástrico em parente de primeiro grau — sem anemia, e com vômitos persistentes e icterícia, que a de 2026 não cita. Só três itens são idênticos nas duas listas em vigor.

A anemia ferropriva só entrou por escrito em 2026: a lista de 2010 não a traz, e a de 2018 também não trazia. Isso é relevante porque a anemia ferropriva sem causa aparente é, na prática, um dos motivos mais frequentes de encaminhamento para endoscopia no adulto, e porque ela é a forma silenciosa do sangramento digestivo — que ambas as listas trazem. Quem lê só a lista de 2010 ao pé da letra e encontra um hemograma com hemoglobina de 9 g/dL e ferritina baixa não acha amparo escrito para pedir o exame; a de 2026 dá esse amparo, e quem entende o que a lista procura nunca precisou dele. A investigação da anemia ferropriva do adulto tem capítulo próprio neste nível, e é lá que a conduta completa mora.

A regra prática que sobrevive à discordância é somar as duas listas em vez de escolher uma, e tratar a soma como o piso. Nenhum dos dois documentos proíbe investigar; um deles apenas não menciona um item que o outro menciona. Somar erra para o lado de pedir exame a mais em quem tem achado objetivo — e esse é o lado certo de errar quando o que está do outro lado é neoplasia.

Uma vez decidido o exame por alarme, o pedido precisa carregar o motivo. O documento federal de acesso ambulatorial de 2015, voltado à fila de consultas especializadas dos hospitais federais do Rio de Janeiro, ao descrever o encaminhamento digestivo, espera junto do pedido a descrição do quadro e o resultado de exames já feitos — e a regulação, em qualquer município, prioriza pelo que está escrito. Endoscopia pedida com a indicação azia entra na fila de azia. Endoscopia pedida com disfagia progressiva para sólidos há dois meses e perda ponderal entra em outra fila. A palavra que você escreve é o que classifica o risco.

3. Endoscopia por idade: uma régua que existe, mas não é a da DRGE

A pergunta que todo interno faz é: a partir de que idade eu peço endoscopia para quem tem azia. A resposta honesta é que nenhum documento brasileiro sobre doença do refluxo fixa um corte de idade. O consenso de 2010 diz apenas que a endoscopia não é habitualmente realizada em adultos jovens com história típica, porque não altera a evolução clínica frente ao tratamento empírico. Ele não define jovem. A diretriz de 2024 não trata do assunto, porque se declara terapêutica, para quem já tem diagnóstico confirmado.

O corte de idade que circula no Brasil vem de outro documento e de outra doença: o consenso brasileiro de H. pylori, cuja quinta edição, de 2026, recomenda testar e tratar com teste não invasivo até 45 anos, inclusive, na dispepsia não investigada sem sinais de alarme, e indica endoscopia digestiva alta com biópsias gástricas a partir de 40 anos com sintoma dispéptico. A justificativa é epidemiológica: o consenso põe a idade da endoscopia abaixo da das diretrizes globais, que falam em 45 ou 55 anos, pela tendência de câncer gástrico de início precoce, antes dos 40, em alguns países da América Latina, e pela diversidade brasileira na prevalência da bactéria e na incidência de câncer gástrico. A régua que ela substituiu, a da quarta edição, de 2018, reservava testar e tratar a quem tinha menos de 40 anos e mandava à endoscopia quem tinha mais de 40.

Duas ressalvas antes de usar esses números. A primeira é de escopo: essa régua é de dispepsia não investigada, não de pirose típica. O paciente de 50 anos cuja queixa é queimação retroesternal ascendente que piora ao deitar não é, estritamente, o paciente daquele enunciado — e transportar a régua de uma síndrome para outra é uma extensão de leitura, não uma citação. Está registrada aqui como leitura, e não como recomendação escrita.

A segunda ressalva é de leitura, e está no próprio consenso: as duas regras de 2026 se sobrepõem entre 40 e 45 anos, e o documento não diz qual vence. Esta apostila adota testar e tratar como regra nessa faixa, porque a declaração que o manda é recomendação forte e a que manda a endoscopia é fraca, e reserva a endoscopia, entre 40 e 45 anos, a quem traz um motivo individual ou vive numa rede sem teste não invasivo. A partir de 46 anos, endoscopia com biópsias. A dispepsia — quem vai para a endoscopia e quem testa e trata — é do capítulo Tratar e provar que tratou, nesta apostila, com a conta e o lado tomado.

O detalhe aritmético da borda mudou de lado entre as duas edições. Na de 2018, quem tinha exatamente 40 anos não pertencia a nenhuma das duas frases, porque uma dizia menos de 40 e a outra, mais de 40. Na de 2026, a borda deixou de ter buraco e passou a ter sobra: seis idades, dos 40 aos 45 anos, cabem nas duas condutas — e é a sobra que a posição acima resolve. A conta está nas notas do bloco de critérios.

4. O teste terapêutico: o que ele prova, o que ele não prova, e como fazê-lo direito

Chamar de teste terapêutico é usar como instrumento diagnóstico aquilo que já seria o tratamento: prescrever inibidor de bomba por um período definido e julgar o diagnóstico pela resposta. É a conduta que resolve a manhã da Marcilene, e é preciso saber exatamente o que ela vale.

Ela vale menos do que parece, e há número. O consenso de 2010 registra que em pessoas com pirose o teste terapêutico tem sensibilidade de 71% a 78% e especificidade de 44% a 54% quando comparado à combinação de endoscopia com pHmetria. Especificidade abaixo de 55% quer dizer que, entre as pessoas que não têm a doença, quase metade melhora assim mesmo. Melhorar com omeprazol não prova refluxo — prova que o sintoma era sensível a bloqueio ácido, o que também acontece na dispepsia, na úlcera e no efeito placebo.

Mais números da mesma família, agora da diretriz de 2024: o alívio sintomático é descrito por 68% das pessoas com esofagite de refluxo, por 49% das pessoas com a doença e endoscopia normal, e por 35% das pessoas com endoscopia e pHmetria normais. A escada é clara, e o degrau de baixo — 35% de melhora em quem não tem a doença por nenhum critério — é o tamanho exato do erro que o teste comete.

A diretriz de 2024 vai adiante e diz que o uso empírico por oito semanas é abordagem controversa que não deve ser usada de rotina, mas apenas em casos selecionados; e nomeia o caso selecionado no comentário: paciente jovem, com sintomas típicos e forte suspeita diagnóstica. Ela também registra que a recomendação difere entre sociedades — a associação americana recomenda formalmente o teste; o consenso internacional de definição adverte que a resposta ao inibidor de bomba não equivale a diagnóstico de refluxo. Marcilene é literalmente o caso selecionado: 34 anos, quadro típico, sem alarme.

Feito o teste, faça-o direito, porque um teste mal feito produz um resultado que você vai interpretar como doença refratária. Isso significa: dose padrão uma vez ao dia; horário correto — de 30 a 60 minutos antes da primeira refeição do dia, que é o que a diretriz de 2024 escreve; período de 4 a 8 semanas, que é o que o consenso de 2010 chama de esquema convencional; e medidas comportamentais junto, não depois. E significa marcar o retorno na mesma consulta, com data, porque um teste sem leitura do resultado não é teste: é uma receita.

E há uma exceção que já foi dita e vale repetir aqui, onde se decide: nas manifestações extraesofágicas — tosse, pigarro, rouquidão, disfonia, globus — a diretriz de 2024 diz que o teste empírico não deve ser feito e que a investigação deve correr sem a medicação. Nessas queixas, prescrever primeiro estraga o exame que viria depois.

5. Os exames que a unidade básica não vai pedir, e por quê

A pHmetria esofágica de 24 horas mede exposição ácida e correlaciona sintoma com episódio. A impedanciometria acrescenta o refluxo não ácido, que a pHmetria não enxerga. A manometria mede a motilidade, e esta apostila a recomenda antes da fundoplicatura, para excluir acalasia e distúrbio motor grave que contraindique a válvula. É recomendação, não exigência de documento: nenhuma diretriz clínica brasileira a pede, e o documento federal de acesso de 2015, dos hospitais federais do Rio de Janeiro, apenas a lista entre os exames sugeridos. Quem trata dessa recomendação é Quem não melhorou não é quem se opera, capítulo 13 da apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo. As três existem, as três têm indicação, e nenhuma delas é sua para pedir na unidade básica — todas são exames do serviço especializado, pedidos depois da endoscopia e com pergunta específica.

Vale saber para que servem, porque isso muda o que você escreve no encaminhamento. A pHmetria é útil quando a endoscopia é normal e a dúvida persiste; o consenso de 2010 registra que, com corte de 4,5% do tempo total com pH abaixo de 4 nas 24 horas, o exame tem sensibilidade de 93,3% e especificidade de 90,4%. A impedanciometria é a que responde pelo paciente que continua sintomático sob bloqueio ácido pleno — e a diretriz de 2024 registra por quê: entre pessoas consideradas refratárias a inibidor de bomba duas vezes ao dia, 82,7% dos episódios de refluxo eram não ácidos.

O consenso de 2010 acrescenta uma frase que continua verdadeira e que o encaminhamento tem de respeitar: o exame de impedâncio-pHmetria é caro e escassamente disponível no país. Encaminhar não é conseguir. O paciente que precisa desse exame precisa de um encaminhamento que explique a pergunta, porque a fila é decidida pela pergunta.

A radiografia contrastada de esôfago, estômago e duodeno aparece na lista de exames sugeridos do documento federal de acesso ambulatorial de 2015, dos hospitais federais do Rio de Janeiro, junto da endoscopia. Ela não substitui a endoscopia para investigar alarme: não vê mucosa, não colhe biópsia e não diagnostica esofagite. Onde ela ainda ajuda é na anatomia — hérnia volumosa, estenose longa, avaliação pré-operatória. Pedir contrastado no lugar de endoscopia em paciente com disfagia progressiva é trocar o exame que fecha diagnóstico por um que descreve o corredor.

O que a unidade básica deve pedir, quando pede alguma coisa, é o que responde à pergunta do alarme: hemograma no paciente com sangramento suspeito ou anemia clínica; e a pesquisa não invasiva de H. pylori quando a estratégia escolhida for a de testar e tratar, no perfil em que ela cabe. Nada mais. Solicitar ultrassonografia de abdome para investigar azia é o pedido mais comum e mais inútil deste capítulo — ela não vê esôfago, e o achado que vier virá de outro órgão, criando uma segunda investigação que ninguém pediu.

6. Quem não melhorou: a investigação começa pela prescrição, não pelo esôfago

Refratariedade tem definição, e ela é do consenso de 2010: doença que resiste ao tratamento convencional de supressão ácida com inibidor de bomba em dose padrão, administrado pela manhã em jejum, por período de 4 a 8 semanas. Guarde as três condições — dose, horário e duração —, porque a primeira coisa a fazer diante de quem não melhorou é conferir se as três aconteceram.

A diretriz de 2024 lista os mecanismos de falha na ordem em que vale a pena procurá-los: dose ou horário incorretos de administração; refluxo não ácido ou biliar; variação genética da enzima hepática que metaboliza a droga; hipersensibilidade esofágica ao refluxo fisiológico; e pirose funcional. Repare que o primeiro item é operacional, não biológico. E a mesma diretriz mede o tamanho desse primeiro item: apenas otimizar o uso do inibidor de bomba melhorou mais de 50% dos sintomas em 11% a 35% das pessoas.

Otimizar tem conteúdo concreto. Garantir que a pessoa toma todo dia; que toma de 30 a 60 minutos antes da primeira refeição, e antes do jantar quando o esquema for de duas tomadas; que não abandonou depois da primeira semana boa; que não está tomando junto com outro remédio que atrapalhe; e que as medidas comportamentais estão de pé. Antes de trocar de droga, corrija o uso da que já está lá.

Se o uso está correto e o sintoma persiste, a diretriz de 2024 lista as opções clínicas: estender a duração do tratamento com a dose padrão; aumentar a dose; trocar por outro inibidor de bomba da mesma classe; usar vonoprazana; e, em casos selecionados, cirurgia antirrefluxo. Duas dessas cinco não estão disponíveis pelo elenco público — a vonoprazana não consta da Rename 2024, e trocar por outro inibidor de bomba é impossível quando o elenco tem um só. É a diferença entre a régua e a prateleira, e ela está no bloco de critérios.

Há um ponto de método que a diretriz de 2024 faz questão de dizer e que muda o encaminhamento: a maioria dos casos refratários é de doença não erosiva, e a falta de resposta ao inibidor de bomba serve de sinal de alerta sobre a causa dos sintomas — quem responde melhor à cirurgia é justamente quem responde bem ao tratamento clínico. Traduzindo para o encaminhamento, e é uma sequência, não um conflito: não melhorar não é, sozinho, indicação de operar; é indicação de investigar se a doença é essa. Provado o refluxo, a não resposta volta a contar e abre a fila cirúrgica — a própria diretriz escreve, nos comentários das perguntas 6 e 10, que a indicação se faz em doença comprovada e depois de avaliação pré-operatória rigorosa. Quem decide essa indicação é Quem não melhorou não é quem se opera, capítulo 13 da apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo.

E existe o caminho oposto, que se abre no consultório e não no serviço especializado: nas manifestações atípicas, o consenso de 2010 registra que os casos respondem melhor a dose dobrada por períodos mais longos, de 2 a 6 meses. É o único lugar do capítulo em que prolongar antes de investigar tem amparo escrito, e mesmo assim ele convive com a trava da diretriz de 2024 de não fazer teste empírico nas queixas extraesofágicas. Os dois textos não se encaixam, e essa costura aparece no bloco de divergências.

07

Três decisões, três réguas, e uma prateleira que não é a régua

A revisão do omeprazol começa pela indicação e pela história atual. Diferencie sintomas típicos de refluxo, sinais de alarme, uso incorreto e necessidade real de manutenção. Deprescrever exige um plano de acompanhamento; continuar exige uma indicação que possa ser explicada ao paciente. São três decisões distintas neste capítulo, cada uma governada por uma régua própria. A primeira é quem faz endoscopia — e a régua é a lista de alarme, que no Brasil está escrita em dois documentos que não coincidem. A segunda é o que se prescreve, em que dose e por quanto tempo — e aqui a régua brasileira e a bula aprovada pela Anvisa divergem por um fator de dois. A terceira é o que o SUS entrega, que não é régua nenhuma e mesmo assim decide a conduta: metade das opções que a diretriz brasileira de 2024 lista não existe no elenco nacional. As quatro tabelas abaixo põem as três lado a lado; as notas no fim trazem as contas que não fecharam.

  1. 1Escute a queixa e faça o paciente mostrar com a mão onde é: linha que sobe é pirose, ponto que dói é epigastralgia, peito coberto com a palma pede outro capítulo antes deste.
  2. 2Antes de qualquer receita, percorra a lista de alarme inteira, somando os itens dos dois consensos brasileiros — disfagia, odinofagia, perda de peso, sangramento, vômitos persistentes, massa palpável, icterícia, história familiar de câncer — e acrescente anemia sem causa, que só o consenso de H. pylori de 2026 cita e que procura a mesma coisa que o sangramento.
  3. 3Com qualquer alarme: endoscopia, e nada de teste terapêutico. Escreva o alarme no pedido com as palavras que classificam risco, não a palavra azia.
  4. 4Sem alarme, some a idade e o tipo de queixa. Pirose típica em adulto jovem: trate sem exame. Dispepsia não investigada: a régua de idade que existe no Brasil é a do consenso de H. pylori de 2026, é de dispepsia e não de refluxo — testar e tratar como regra até 45 anos, endoscopia a partir de 46 —, e a decisão é do capítulo Tratar e provar que tratou.
  5. 5Antes de escrever a receita, revise a receita que já existe: anticolinérgicos, teofilina, tricíclicos, bloqueadores de canal de cálcio, agonistas beta-adrenérgicos e alendronato pioram ou imitam o quadro, e anti-inflamatório comprado por conta própria é a causa que ninguém declara.
  6. 6Prescreva as medidas comportamentais junto da primeira receita, não depois: perder peso se houver excesso, elevar a cabeceira da cama inteira, parar de fumar, reduzir álcool, não deitar por duas a três horas depois de comer, não dormir sobre o lado direito, e retirar os alimentos que aquela pessoa identificar como gatilho.
  7. 7Prescreva o inibidor de bomba em dose e horário corretos, com data de retorno marcada na mesma consulta. Sem data de retorno, o teste terapêutico vira receita de uso contínuo por omissão.
  8. 8Nas manifestações extraesofágicas — tosse, pigarro, rouquidão, disfonia, globus —, não faça teste empírico: a diretriz de 2024 manda investigar sem a medicação.
  9. 9No retorno, leia o resultado. Melhora completa: passe à decisão de manutenção, e essa decisão inclui a possibilidade de parar. Melhora parcial ou nenhuma: confira dose, horário e adesão antes de mudar qualquer coisa.
  10. 10Otimizado o uso e mantido o sintoma, considere estender a duração ou aumentar a dose — e saiba que trocar de inibidor de bomba e usar vonoprazana, que a diretriz lista, não estão ao alcance do elenco público.
  11. 11Para quem já usa há anos sem indicação registrada: não suspenda de uma vez sem combinar. Reconstrua a indicação original, decida se ela ainda existe, e proponha redução com plano escrito e data de reavaliação.
  12. 12Encaminhe quando houver alarme, quando houver falha de tratamento otimizado documentada, quando a queixa for extraesofágica que exige exame sem medicação, ou quando houver complicação já demonstrada. Escreva no encaminhamento o fármaco usado, a dose diária, as semanas de tratamento e o efeito obtido — sem isso, a regulação devolve.

Os sinais de alarme: o que cada um procura e onde cada um está escrito

AchadoO que ele está procurandoConsenso brasileiro de DRGE (2010)Consenso brasileiro de H. pylori (2026, exemplos citados; entre parênteses, a lista de 2018, datada)O que muda na conduta de hoje
DisfagiaEstenose péptica, anel, neoplasia de esôfago; a progressão é o que separaListadoCitado (2018: listado)Endoscopia; teste terapêutico proibido; se progressiva com perda de peso, o pedido não espera a próxima consulta
OdinofagiaUlceração da mucosa, esofagite infecciosa, lesão por comprimido retidoListadoNão citado (2018: não listado)Endoscopia; revisar medicamentos que possam ter ficado parados no esôfago
Perda de peso não intencionalConsumo por neoplasia e redução da ingesta por medo de engolirListadoCitado (2018: listado)Endoscopia; quantificar em quilos e em meses antes de encaminhar
Sangramento digestivoLesão que sangra — evidente (hematêmese, melena) ou silenciosa (anemia)ListadoCitado (2018: listado)Sangramento ativo é sala de emergência, não fila de endoscopia; a forma silenciosa vai para endoscopia eletiva com hemograma junto
Vômitos persistentesObstrução da saída gástrica, doença péptica complicadaListado como náuseas e/ou vômitosNão citado (2018: listado como vômitos persistentes)Endoscopia; a diferença de redação entre 2010 e 2018 muda quem entra, e a edição de 2026 não cita vômitos
Massa abdominal palpávelDoença já estabelecida no estômago, fígado ou pâncreasNão listadoCitado (2018: listado)Endoscopia e imagem de abdome; sai do roteiro deste capítulo
IcteríciaDoença biliar, pancreática ou hepática competindo pelo mesmo sintomaNão listadoNão citado (2018: listado)Investigação hepatobiliar antes de tratar refluxo
História familiar de câncerProbabilidade prévia aumentada de tudo o que está acimaListado como câncer, sem especificarIndicação própria de endoscopia: familiar de pessoa com câncer gástrico, a partir de 30 anos (2018: câncer gástrico em parente de primeiro grau)Baixa o limiar para endoscopia mesmo sem outro achado
Anemia ferropriva sem causaA forma silenciosa do sangramento digestivoNão listadoCitado como anemia ferropriva (2018: não listado)O consenso de 2026 passou a amparar por escrito; a investigação de anemia ferropriva tem capítulo próprio e é ela que governa

A mesma cápsula, quatro documentos brasileiros em vigor, quatro instruções

DocumentoQuando tomarDose adulta na esofagite de refluxoDuração declarada
Consenso brasileiro de DRGE, 2010Pela manhã, em jejumLista o omeprazol em dose plena como 40 mg ao dia4 a 8 semanas; sem diferença estatística entre 4 e 8, mas mais respostas satisfatórias em 8
Diretriz brasileira da FBG, 2024De 30 a 60 minutos antes da primeira refeição do dia; e antes do jantar quando o esquema for de duas tomadasNão fixa dose por fármaco; declara que não há diferença relevante entre os inibidores de bombaDose padrão uma vez ao dia por 4 a 8 semanas na forma não erosiva; manutenção contínua ou sob demanda depois
Bula profissional do omeprazol 20 mg, notificada à AnvisaImediatamente antes das refeições, preferencialmente pela manhã20 mg uma vez ao dia4 a 8 semanas no tratamento; a linha da profilaxia não declara duração nenhuma
Protocolos de encaminhamento em uso nas redesNão trata de horárioExigem inibidor de bomba em dose plena, escrita como 40 mg de omeprazolExigem no mínimo 2 meses antes de aceitar o encaminhamento

O que a diretriz brasileira de 2024 recomenda, e o que o elenco público entrega

ItemPosição da diretriz brasileira de 2024Na Rename 2024Consequência para o interno
OmeprazolInibidor de bomba, primeira linha; sem diferença relevante entre os representantes da classeCápsula de 10 mg e de 20 mg, Componente Básico, código ATC A02BC01É o que você prescreve; 40 mg ao dia significa duas cápsulas de 20 mg
Pantoprazol, esomeprazol, lansoprazol, rabeprazol, dexlansoprazolEquivalentes ao omeprazol no efeito terapêuticoNenhum consta do elencoTrocar de inibidor de bomba, que a diretriz lista como opção no refratário, não é possível pelo elenco público
VonoprazanaOpção mais adequada na DRGE erosiva, com recomendação forte a favorNão consta do elencoRegistrada no país e vendida em farmácia; não é conduta que a unidade básica possa oferecer
Bloqueadores H2 (ranitidina, famotidina, cimetidina, nizatidina)Inferiores ao inibidor de bomba no alívio da forma não erosivaNenhum consta do elencoNão há alternativa oral de segunda classe para oferecer
AlginatoBenefício no controle de pirose e regurgitação; recomendação condicional a favor, como resgateNão consta do elencoA medida de resgate que a diretriz recomenda não está disponível pelo SUS
Hidróxido de alumínioA diretriz de 2024 não o discute como terapia da DRGEComprimido de 230 mg e de 300 mg e suspensão oral de 60 mg/mL, Componente BásicoÉ o antiácido disponível; entrou no elenco por decisão que nomeia a esofagite de refluxo
Procinéticos (bromoprida, domperidona, metoclopramida)Não indicados para o tratamento da DRGESó a metoclopramida consta; bromoprida e domperidona não constamO medicamento mais associado a esta queixa no balcão não tem indicação aqui

mg ↔ mL ↔ cápsula: o que a receita vira na mão do paciente (adulto de 70 kg)

O que se escreveApresentação realUma doseUm diaO tratamento inteiro
Omeprazol 20 mg ao dia por 4 semanas — a posologia adulta da bulaCápsula dura de 20 mg (Rename; caixas de 28 e de 56)1 cápsula1 cápsula28 cápsulas — exatamente 1 caixa de 28
Omeprazol 20 mg ao dia por 8 semanasCápsula dura de 20 mg1 cápsula1 cápsula56 cápsulas — exatamente 1 caixa de 56
Omeprazol 40 mg ao dia por 8 semanas — a dose plena do consenso de 2010 e a que os protocolos de encaminhamento exigemNão existe cápsula de 40 mg no elenco: são duas de 20 mg2 cápsulas2 cápsulas112 cápsulas — 2 caixas de 56
Omeprazol 10 mg ao dia por 30 dias — meia dose de manutençãoCápsula de 10 mg (a apresentação pediátrica da Rename, que também serve aqui)1 cápsula1 cápsula30 cápsulas
Hidróxido de alumínio 300 mg — o mesmo que um comprimido de 300 mgSuspensão oral de 60 mg/mL5,0 mLconforme prescritoconforme prescrito
Hidróxido de alumínio 230 mg — o mesmo que um comprimido de 230 mgSuspensão oral de 60 mg/mL3,8 mLconforme prescritoconforme prescrito
Metoclopramida 10 mg — a conversão existe, a indicação na DRGE nãoComprimido de 10 mg; solução oral de 4 mg/mL; solução injetável de 5 mg/mL1 comprimido, ou 2,5 mL da solução oral, ou 2 mL da injetávelNenhum: a diretriz brasileira de 2024 não indica procinético na DRGE

A conferência que mais muda conduta: a dose plena brasileira é o dobro da dose de bula. O consenso brasileiro de 2010, ao comentar a questão da dose plena, lista para o omeprazol um único valor — 40 mg ao dia. A bula profissional do omeprazol 20 mg notificada à Anvisa, na seção de posologia, escreve para o adulto: úlceras gástricas e esofagite de refluxo, 20 mg uma vez ao dia, antes do café da manhã, durante quatro a oito semanas. A conta é simples e incômoda: 40 ÷ 20 = 2. A dose que o consenso brasileiro chama de plena, e que os protocolos de encaminhamento exigem por escrito antes de aceitar o paciente, é o dobro da dose que a bula autoriza para essa indicação no adulto. Mais: a única vez em que a expressão 40 mg ao dia aparece como teto na bula é no parágrafo pediátrico — criança acima de 20 kg, com aumento a critério médico até, no máximo, 40 mg ao dia. Não há, na posologia adulta daquela bula, autorização escrita para 40 mg. Isso não torna a conduta errada, e não é motivo para subdosar quem precisa: é motivo para saber que se está prescrevendo acima da bula, e para escrever isso no prontuário.

Duas linhas da mesma tabela da Rename 2024, com dois códigos para o mesmo fármaco. Na tabela do grupo A, o hidróxido de alumínio aparece em três apresentações consecutivas: comprimido de 230 mg com código ATC A02AB01, comprimido de 300 mg com o mesmo A02AB01, e suspensão oral de 60 mg/mL com o código A06AD11. O A06AD11 não é um código de antiácido: é o código que a própria Rename 2024 atribui, poucas páginas adiante, à lactulose 667 mg/mL xarope — um laxante osmótico. Ou seja, a suspensão de hidróxido de alumínio está classificada no elenco nacional na família dos medicamentos para constipação, enquanto os dois comprimidos do mesmo fármaco estão na família dos antiácidos. É a apresentação incorporada pelo relatório de recomendação nº 833 da Conitec, pela Portaria SECTICS/MS nº 43, de 21 de julho de 2023, com finalidade declarada de tratar gastrite, úlceras gástricas e duodenais e esofagite de refluxo. Nada na prescrição muda por causa disso; o que muda é a busca — quem filtrar o elenco por código terapêutico não encontra a suspensão onde ela deveria estar.

A linha da bula que não tem prazo. Na seção de posologia da bula profissional do omeprazol, o adulto tem cinco linhas. Quatro delas trazem duração: úlceras duodenais, duas a quatro semanas; úlceras gástricas e esofagite de refluxo, quatro a oito semanas; e a síndrome de Zollinger-Ellison, que é individualizada por definição. A quinta linha é esta, inteira: profilaxia de úlceras duodenais e esofagite de refluxo, 20 mg antes do café da manhã. Sem duração, sem teto, sem reavaliação. Quatro de cinco linhas dizem por quanto tempo; a que autoriza o uso indefinido é a única que não diz. Esse é o buraco por onde passam os sete anos do Lindomar — e ele está no documento regulatório, não na cabeça do prescritor.

Três instruções de horário para a mesma cápsula, e uma delas reduz o efeito. O inibidor de bomba inativa apenas as bombas que estiverem ativas, e elas são ativadas pela refeição, de modo que a droga precisa já estar circulando quando a comida chegar. O consenso brasileiro de 2010 escreve jejum matinal. A diretriz brasileira de 2024 escreve de 30 a 60 minutos antes da primeira refeição. A bula aprovada escreve imediatamente antes das refeições. As três estão em vigor e as três são citáveis; a terceira, obedecida ao pé da letra, entrega a droga no momento em que o estímulo já começou. Antes de chamar de refratário o paciente que não melhorou, pergunte a que documento ele estava obedecendo.

A faixa de prevalência com meia fonte. A diretriz brasileira de 2024 declara, na primeira frase do resumo e de novo na introdução, que a doença atinge de 12% a 20% da população urbana brasileira, e ancora a afirmação numa única referência: um estudo brasileiro de prevalência de pirose publicado em 2005. Dentro da diretriz não há segunda referência nesse ponto, e nenhuma passagem explica de onde vem o limite superior da faixa — o texto não distingue o que veio da medição e o que é estimativa de amplitude. Esta edição não abriu o estudo de 2005, e por isso não afirma seus números nem os corrige; registra apenas o que se pode conferir dentro da diretriz: uma faixa de oito pontos percentuais apoiada em uma referência só, e citada como se fosse medida.

A cabeceira: a figura diz 15 cm e o texto mediu 28 cm. A Figura 1 do consenso brasileiro de 2010, que é a lista de medidas comportamentais que o clínico entrega ao paciente, prescreve elevação da cabeceira da cama de 15 cm. Na questão 11 do mesmo documento, o parágrafo que sustenta a medida cita o estudo em que a elevação foi de 28 cm — quase o dobro — para reduzir episódios de refluxo e tempo de exposição. E há um detalhe a mais na mesma frase: o desfecho ali é medido com pH abaixo de 5, enquanto o corte que o próprio documento usa para diagnóstico, na questão 3, é pH abaixo de 4. Figura e texto do mesmo consenso não são a mesma prescrição. Na prática isto importa pouco para o paciente e muito para quem ensina: o número que circula nas orientações impressas do Brasil, 15 cm, não é o número do estudo citado para justificá-lo.

A régua de idade da dispepsia trocou de defeito ao trocar de edição. O consenso brasileiro de H. pylori de 2018 recomendava testar e tratar para menores de 40 anos e endoscopia para maiores de 40, e deixava sem conduta exatamente uma idade: 40. A quinta edição, de 2026, substituiu essa régua: a declaração 6 recomenda testar e tratar na dispepsia não investigada sem alarme até 45 anos, inclusive, com recomendação forte e evidência alta, e a declaração 18 indica endoscopia com biópsias a partir de 40 anos com sintoma dispéptico, com recomendação fraca e evidência moderada. A conta: de 40 a 45 anos, inclusive, são 45 − 40 + 1 = 6 idades com duas condutas, onde antes havia uma idade com nenhuma. Esta apostila adota testar e tratar como regra até 45 anos e reserva a endoscopia, entre 40 e 45, a quem traz motivo individual ou vive numa rede sem teste não invasivo; a partir de 46, endoscopia. É leitura desta apostila, não do consenso; a conta completa, com a Tabela 1 do mesmo documento, que escreve abaixo de 45 anos, está no capítulo Tratar e provar que tratou.

Duas listas brasileiras de alarme em vigor, e só três itens idênticos. O consenso de DRGE de 2010 lista seis manifestações de alarme: disfagia, odinofagia, perda de peso, sangramento digestivo, náuseas e/ou vômitos, e história familiar de câncer. O consenso de H. pylori de 2026 não fecha lista: na justificativa da declaração 18 cita cinco exemplos — perda de peso, anemia ferropriva, sangramento gastrointestinal, massa palpável e disfagia — e, na própria declaração, indica endoscopia a familiares de pessoas com câncer gástrico a partir de 30 anos. Confrontando item a item: três são idênticos (disfagia, perda de peso, sangramento); um é parecido com recorte diferente (câncer na família contra familiar de pessoa com câncer gástrico, com idade); dois só existem em 2010 (odinofagia e náuseas e/ou vômitos); dois só existem em 2026 (massa palpável e anemia ferropriva). A edição de 2018, datada, listava sete itens, sem anemia e com dois que a de 2026 não cita: vômitos persistentes e icterícia. A soma das duas listas em vigor, com a icterícia que só a de 2018 trazia, é o piso que este capítulo adota, e a adoção é leitura desta edição, não citação; a anemia sem causa, que antes entrava só por essa leitura, agora está escrita em 2026.

As conferências que fecharam, e valem tanto quanto as que não fecharam. Primeira: varrendo o texto da Rename 2024 com busca exata, depois de normalizar espaço e hífen, confirma-se que o omeprazol é o único inibidor de bomba do elenco (duas ocorrências, nas duas tabelas em que a Rename lista o mesmo item), e que pantoprazol, esomeprazol, lansoprazol e vonoprazana não aparecem nenhuma vez. Segunda: nenhum bloqueador H2 aparece — a busca por tidina devolve zero ocorrências no documento inteiro, o que cobre ranitidina, famotidina, cimetidina e nizatidina de uma vez. Terceira: alginato, sucralfato, bismuto e magaldrato também devolvem zero; bromoprida e domperidona também; metoclopramida aparece, com as três apresentações. Quarta: a cláusula de licença da Rename foi procurada com a mesma normalização e está lá, logo abaixo da ficha catalográfica — Creative Commons Atribuição–Não Comercial–Compartilhamento pela mesma licença 4.0, com reprodução permitida desde que citada a fonte.

Uma ausência que também é achado: a diretriz brasileira de 2024 não menciona o esôfago de Barrett. A busca pela palavra no texto integral das quinze páginas devolve zero ocorrências. Não é descuido de redação — é consequência do escopo que o documento declara para si: atualização terapêutica para pacientes com diagnóstico confirmado. A consequência para quem trabalha na porta é que a complicação que mais justifica indicar endoscopia numa doença benigna não é discutida pelo documento brasileiro mais recente sobre a doença; quem procura a régua da vigilância precisa procurá-la fora dele. Este capítulo não a assume: reconhece o alarme e encaminha.

Nota sobre a tabela de conversão: nenhum medicamento deste capítulo é dosado por peso no adulto. Ela foi calculada para um adulto de 70 kg apenas para fixar um paciente, e o peso não entra em conta nenhuma — o que entra é a apresentação real. As contas, recalculadas contra a bula e contra a Rename: 40 mg ao dia com cápsula de 20 mg dá 2 cápsulas por dia e 112 cápsulas em 8 semanas, que são exatamente 2 caixas de 56, a apresentação comercial que a bula declara; 20 mg ao dia por 4 semanas dá 28 cápsulas, uma caixa de 28, sem sobra. Na suspensão de hidróxido de alumínio de 60 mg/mL, 300 mg cabem em 5,0 mL e 230 mg em 3,8 mL — o equivalente exato de cada um dos dois comprimidos do elenco. E a metoclopramida 10 mg equivale a 2,5 mL da solução oral de 4 mg/mL e a 2 mL da injetável de 5 mg/mL, conversão que fica registrada com a ressalva de que a diretriz de 2024 não indica procinético nesta doença.

08

A conduta, hora a hora

O tempo desta doença corre em duas velocidades, e o interno decide nas duas. Uma se mede em semanas e é a do tratamento: prescrever, esperar, ler o resultado, decidir. A outra se mede em anos e é a que ninguém escreve na prescrição: quem começou, por que começou, e quando alguém vai revisar. Os marcos abaixo percorrem as duas.

Cada dose abaixo carrega o documento que a sustenta, e onde os textos brasileiros divergem — e eles divergem sobre a dose — as duas versões estão escritas, com o nome de quem sustenta cada uma. Nenhuma prescrição aqui é receita para copiar sem ler o bloco de critérios.

  1. Antes de qualquer receita, ainda com o paciente falando

    O trabalho que decide o capítulo inteiro é feito com a boca e com as mãos, e leva menos de cinco minutos. Caracterize a queixa, peça o gesto, estabeleça o padrão temporal, e percorra a lista de alarme inteira. Tudo o que vem depois é consequência dessa triagem — e trocar a ordem, prescrevendo antes de perguntar por disfagia e perda de peso, é o único erro deste capítulo que pode custar meses de atraso num diagnóstico de câncer.

    Prescrição
    • Perguntar, por nome, cada item da lista somada: disfagia (e se progrediu), odinofagia, perda de peso não intencional (quantos quilos, em quanto tempo), vômitos persistentes, sangramento visível ou fezes escurecidas, história familiar de câncer.
    • Examinar o abdome procurando massa palpável, e as escleras procurando icterícia — os dois itens que a lista de 2010 não traz: a massa está nos exemplos de 2026, e a icterícia vem da lista de 2018.
    • Pedir a caixa ou a lista de todos os medicamentos em uso, inclusive os comprados sem receita, perguntando por nome comercial.
    • Registrar no prontuário, com essas palavras, a frase que autoriza a conduta: quadro típico, sem manifestações de alarme — ou o alarme encontrado, com data de início.
  2. Mesmo dia, para quem tem qualquer alarme

    Com alarme, a decisão já está tomada e o teste terapêutico está proibido: o paciente vai para endoscopia digestiva alta, e o seu trabalho passa a ser conseguir a vaga. Quem consegue vaga não é quem pede com mais urgência na voz, é quem escreve no pedido o que a regulação usa para classificar risco. Disfagia progressiva com perda de peso é uma frase que reorganiza fila; azia não é.

    Prescrição
    • Solicitar endoscopia digestiva alta com biópsia a critério do endoscopista, escrevendo a indicação pelo alarme: por exemplo, disfagia progressiva para sólidos há 2 meses, com perda ponderal objetivada.
    • Escrever no pedido: tempo de evolução, o que mudou, medicamentos em uso e comorbidades — é o conjunto que o documento federal de acesso ambulatorial de 2015, voltado aos hospitais federais do Rio de Janeiro, espera junto do encaminhamento.
    • Solicitar hemograma completo no mesmo dia quando houver sangramento suspeito, anemia clínica ou perda de peso.
    • Não prescrever inibidor de bomba como teste diagnóstico neste paciente; se prescrever para alívio, registrar que é sintomático e que não substitui o exame.
    • Marcar retorno para ver o resultado com data, e combinar com o paciente o que fazer se a vaga não sair até lá — quem volta com o exame na mão é quem foi orientado a voltar mesmo sem ele.
    • Orientar retorno imediato, sem esperar a data, se surgir vômito com sangue, fezes pretas, incapacidade de engolir líquidos ou dor torácica.
  3. Mesmo dia, para quem não tem alarme — a parte que não é receita

    As medidas comportamentais têm má fama porque são entregues como uma lista genérica de proibições alimentares que ninguém segue. A diretriz brasileira de 2024 é honesta sobre isso: classifica a qualidade da evidência como baixa e a recomendação como condicional, e manda personalizar caso a caso. Mas dentro dessa lista há duas medidas que ela descreve como sustentadas por evidência forte, e elas quase nunca são as que o paciente ouve.

    Prescrição
    • Perda de peso, quando houver sobrepeso ou obesidade — a diretriz de 2024 registra os benefícios como sustentados por evidência forte.
    • Elevação da cabeceira da cama, também descrita com evidência forte: elevar o estrado inteiro pela cabeceira, apoiando os pés da cama, e não empilhar travesseiros. O consenso brasileiro de 2010 prescreve 15 cm na sua figura de orientação.
    • Manter intervalo de 2 a 3 horas entre a última refeição e o deitar — na Marcilene, que janta às 23h e deita em seguida, esta é a medida de maior efeito possível.
    • Não dormir sobre o lado direito: a diretriz de 2024 acrescenta o decúbito lateral direito à lista de medidas a evitar.
    • Cessação do tabagismo, com a observação de que coorte extensa mostrou melhora significativa dos sintomas após parar.
    • Redução do álcool, registrada como tema controverso pela própria diretriz.
    • Retirar apenas os alimentos que aquela pessoa identificar como gatilho — a diretriz de 2024 diz que a evidência para listas alimentares genéricas é limitada e variável.
    • Revisar e, quando possível, substituir medicamentos da lista de risco do consenso de 2010: anticolinérgicos, teofilina, antidepressivos tricíclicos, bloqueadores de canal de cálcio, agonistas beta-adrenérgicos e alendronato.
  4. Mesmo dia, para quem não tem alarme — a receita do teste terapêutico

    Aqui a divergência entre os documentos brasileiros vira escolha sua, e ela precisa ser consciente. A bula autoriza 20 mg ao dia por 4 a 8 semanas; o consenso brasileiro de 2010 lista o omeprazol em dose plena como 40 mg ao dia; os protocolos de encaminhamento exigem os 40 mg por no mínimo dois meses antes de aceitar o paciente. Prescrever 20 mg é ficar dentro da bula e correr o risco de o encaminhamento ser devolvido por tratamento insuficiente; prescrever 40 mg é seguir a régua nacional e a régua da regulação, acima da bula. As duas condutas são defensáveis e a escolha tem de estar registrada.

    Prescrição
    • Omeprazol 20 mg, uma cápsula ao dia, por 4 a 8 semanas — a posologia adulta escrita na bula para esofagite de refluxo.
    • Ou omeprazol 40 mg ao dia, que são duas cápsulas de 20 mg, por 8 semanas — a dose plena listada pelo consenso brasileiro de 2010 e a exigida pelos protocolos de encaminhamento, acima da posologia adulta de bula.
    • Tomar de 30 a 60 minutos antes da primeira refeição do dia, conforme a diretriz brasileira de 2024; no esquema de duas tomadas, a segunda antes do jantar.
    • Escrever o horário na receita com essas palavras, e não apenas o número de vezes ao dia — é a instrução mais frequentemente perdida entre a consulta e a farmácia.
    • Hidróxido de alumínio, comprimido de 300 mg ou 5 mL da suspensão de 60 mg/mL, como resgate sintomático, quando disponível na unidade — o alginato, que a diretriz de 2024 recomenda para esse papel, não consta da Rename 2024.
    • Não prescrever procinético: a diretriz brasileira de 2024 diz que procinéticos não são indicados no tratamento da DRGE, com recomendação forte.
    • Marcar o retorno com data, entre a 4ª e a 8ª semana, e dizer em voz alta que na volta a decisão será se continua, se reduz ou se para.
  5. Entre a 4ª e a 8ª semana — a consulta que quase ninguém marca

    Esta é a consulta que impede o capítulo de virar o capítulo do Lindomar. O teste terapêutico só é teste se alguém ler o resultado; sem essa consulta, ele é uma receita de uso contínuo criada por omissão. E a leitura tem três resultados possíveis, com três condutas diferentes.

    Prescrição
    • Melhora completa: registre no prontuário que o teste foi positivo, com a data, e passe à decisão de manutenção — que inclui a possibilidade de parar.
    • Melhora parcial: antes de qualquer mudança, confira as três condições da definição brasileira de refratariedade — dose, horário e duração — e verifique adesão real, perguntando quantos dias da semana a pessoa esqueceu.
    • Nenhuma melhora: confira as mesmas três condições, e reconsidere o diagnóstico. A diretriz de 2024 registra que a ausência de resposta serve de sinal de alerta sobre a causa dos sintomas.
    • Em qualquer dos três: reperguntar a lista de alarme inteira. Alarme que apareceu durante o tratamento vale como alarme novo e muda a conduta na hora.
    • Registrar a resposta em texto que possa ser lido por outro profissional daqui a três anos: o que foi usado, em que dose, por quantas semanas, com que efeito.
  6. Depois da resposta — a decisão de manutenção, que inclui parar

    Melhorou. Agora vem a decisão que o sistema erra por padrão, porque a opção default de uma receita é continuar existindo. A diretriz brasileira de 2024 diz que a manutenção pode ser contínua, em dose plena ou meia dose, ou sob demanda, e que não há diferença entre as duas formas — a escolha é do médico assistente, caso a caso. O consenso brasileiro de 2010 tinha ido além e dito, com recomendação de grau A, que na forma não erosiva o tratamento sob demanda é preferível ao contínuo, com vantagens clínicas e econômicas. Os dois textos estão em vigor e não dizem a mesma coisa.

    Prescrição
    • Definir, com o paciente, qual das três estratégias vai ser tentada primeiro: parar e observar, manter sob demanda, ou manter contínuo em meia dose.
    • Sob demanda significa retomar o inibidor de bomba quando o sintoma voltar e suspender quando ele ceder — e o paciente precisa sair da consulta sabendo essa frase, porque ela não é intuitiva.
    • Avisar que o retorno do sintoma ao parar é o comportamento esperado da doença — dois terços das pessoas com a forma não erosiva voltam a ter sintomas após a interrupção — e que isso, sozinho, não prova que o remédio é para a vida inteira.
    • Manter tratamento contínuo, sem tentativa de retirada, em quem tem esofagite erosiva grave documentada, graus C e D de Los Angeles: a diretriz de 2024 registra que quase todos recidivam em seis meses e que esses casos exigem observação e tratamento continuados.
    • Escrever na receita a duração e a data de reavaliação, mesmo na manutenção. Receita sem prazo é o mecanismo do problema.
  7. O paciente que já toma há anos — o marco mais demorado do capítulo

    Aqui não se prescreve: se desmonta. E o desmonte tem uma ordem, porque a primeira pergunta não é como parar, é por que começou. Existe uma parcela desses pacientes com indicação real e permanente, e suspender o medicamento deles é iatrogenia com outro sinal. A tarefa é separar os dois grupos antes de mexer em qualquer coisa — e isso costuma levar mais de uma consulta.

    Prescrição
    • Reconstruir a indicação original no prontuário e com o paciente: quem prescreveu, em que contexto, se houve endoscopia alguma vez, e o que o exame mostrou.
    • Procurar as indicações que justificam uso prolongado antes de propor retirada: esofagite erosiva grave documentada, complicação estrutural, síndrome de Zollinger-Ellison, e proteção gástrica em quem usa anti-inflamatório de forma crônica e não pode parar — indicação que o documento brasileiro de uso racional de 2004 classifica como benefício definido.
    • Se nenhuma dessas indicações aparecer, propor a redução como experimento com prazo, e não como retirada de um direito: reduzir para meia dose por algumas semanas, depois passar a uso sob demanda, com data marcada para avaliar.
    • Entregar por escrito o que fazer se o sintoma voltar — retomar a dose anterior e trazer a informação na consulta —, porque o paciente que não tem esse plano na mão volta à dose cheia sozinho e não conta.
    • Prescrever junto as medidas comportamentais: a retirada sem elas falha mais, e a pessoa atribui a falha à retirada.
    • Revisar a lista inteira de medicamentos na mesma consulta — no idoso, a conversa sobre um remédio a menos costuma abrir a conversa sobre outros.
    • Não suspender abruptamente e sem combinar. Não porque haja perigo imediato, mas porque a suspensão unilateral quebra a confiança e o paciente volta a comprar por conta própria, e aí ninguém mais sabe o que ele toma.
  8. Quando encaminhar — e o que precisa estar escrito para o encaminhamento valer

    Encaminhar é um ato clínico com forma, e a forma é o que decide se o paciente será atendido. Os protocolos das redes exigem, para a DRGE, que o encaminhamento demonstre tratamento otimizado prévio — medidas comportamentais mais inibidor de bomba em dose plena por tempo mínimo — e descrevem o que esperam ler no pedido. Quem encaminha sem isso recebe o paciente de volta semanas depois, com o problema intacto e uma consulta a menos na agenda.

    Prescrição
    • Encaminhar com prioridade para endoscopia quem tem qualquer sinal de alarme, escrevendo o alarme e o tempo de evolução.
    • Encaminhar à gastroenterologia quem manteve sintomas apesar de tratamento otimizado documentado — e documentar significa nomear o fármaco, a dose, o horário, as semanas de uso e o efeito obtido.
    • Encaminhar quem tem manifestação extraesofágica persistente que exige investigação sem medicação, porque o exame que responde a essa pergunta não é seu para pedir.
    • Encaminhar à avaliação cirúrgica quem, com refluxo comprovado, não responde ao tratamento clínico otimizado, e quem já tem complicação — esôfago de Barrett, estenose, úlcera ou sangramento esofágico —, registrando a complicação com laudo e o tratamento já feito. A manifestação extraesofágica isolada não é indicação cirúrgica: esta apostila segue a diretriz brasileira de 2024, e o documento de acesso de 2015 dos hospitais federais do Rio de Janeiro, que a admitia na fila, fica como régua anterior — o desempate está no capítulo de doença do refluxo gastroesofágico e fundoplicatura, na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo.
    • Anexar ao encaminhamento o laudo da endoscopia com data, quando existir, e os exames laboratoriais que sustentam o alarme.
    • Manter o paciente na sua agenda enquanto ele espera. Encaminhamento não transfere responsabilidade; transfere uma pergunta.
09

Como saber se está funcionando

Nesta doença o desfecho principal é um sintoma, e sintoma é medido pelo paciente. Isso muda o método: em vez de esperar um exame, você combina antes o que vai contar, e pede que a pessoa conte. Um parâmetro que não foi combinado na consulta anterior não pode ser avaliado nesta.

Duas ideias organizam o bloco. A primeira: o retorno do sintoma ao parar não é falha do tratamento — é o comportamento previsto da doença, e confundir os dois é o que gera prescrição perpétua. A segunda: alarme que aparece durante o tratamento vale mais que qualquer melhora, e reabre a investigação na hora, independentemente de o resto estar indo bem. A estratégia de manutenção sob demanda é o instrumento que separa as duas.

Número de noites por semana com piroseNa consulta inicial, para ter linha de base, e no retorno de 4 a 8 semanas

Esperado: Queda clara e sustentada; na forma erosiva, a resposta sintomática completa fica entre 70% e 80%, e na não erosiva é menor

Se não melhora: Confira dose, horário e adesão antes de mudar qualquer coisa: só otimizar o uso melhorou mais de 50% dos sintomas em 11% a 35% das pessoas, segundo a diretriz de 2024

Regurgitação — episódios por semanaMesmos momentos da pirose, contada em separado

Esperado: Melhora, em geral menor que a da pirose

Se não melhora: Regurgitação que persiste com pirose controlada sugere componente não ácido; é uma das perguntas que justificam impedâncio-pHmetria no serviço especializado, e portanto entra no encaminhamento

Uso de resgate — quantas vezes por semana o paciente precisou do antiácidoCombinado na primeira consulta como contador; lido no retorno

Esperado: Redução progressiva até uso esporádico

Se não melhora: Resgate diário com inibidor de bomba em uso correto é sinal de que o esquema não está funcionando, e é dado mais confiável que a impressão global de melhora

Peso, aferido na balança da unidadeToda consulta, sem exceção, inclusive nas de renovação de receita

Esperado: Estável, ou em queda planejada em quem tem sobrepeso e recebeu essa orientação

Se não melhora: Queda não intencional é alarme novo: reabre a investigação e indica endoscopia, mesmo que a pirose tenha melhorado

Disfagia — presença e progressãoPerguntada em toda consulta, com a pergunta do que engolia antes e do que engole hoje

Esperado: Ausente

Se não melhora: Aparecimento ou progressão indica endoscopia e suspende o raciocínio de refratariedade: a pergunta deixa de ser qual a dose e passa a ser o que está obstruindo

Adesão e horário real da tomadaEm todo retorno, perguntada por comportamento e não por sim ou não

Esperado: Uso diário, de 30 a 60 minutos antes da primeira refeição

Se não melhora: Pergunte que instrução a pessoa recebeu: a bula diz imediatamente antes das refeições, e quem obedeceu à bula pode estar tomando no pior horário possível sem ter errado nada

Depois da retirada: se o sintoma voltou, quando e com que intensidadeConsulta marcada 4 a 8 semanas após a redução ou suspensão

Esperado: Ausência de sintomas, ou sintomas esporádicos controlados sob demanda

Se não melhora: Retorno precoce e intenso, sobretudo em quem tinha esofagite erosiva, indica retomar a manutenção — mas registre que a tentativa foi feita e quando, para que a próxima pessoa que renovar a receita saiba que houve indicação e não apenas inércia

10

Onde o erro machuca

Prescrever o inibidor de bomba antes de percorrer a lista de alarme

O dano: É o erro que custa meses num diagnóstico de câncer de esôfago ou de estômago. O omeprazol melhora sintoma em gente que tem tumor — não porque trate o tumor, mas porque a esofagite associada responde —, e essa melhora parcial convence o paciente e o médico de que o caminho está certo. Quando a disfagia se torna inegável, passaram-se dois ou três ciclos de oito semanas. A lista de alarme é curta e leva menos de dois minutos; a receita leva dez segundos, e é por isso que ela vem primeiro.

Como pegar a tempo: Faça da lista uma pergunta fixa, na mesma ordem, em toda queixa digestiva alta, e registre no prontuário a frase que autoriza tratar sem exame: quadro típico, sem manifestações de alarme. Se a frase não puder ser escrita, a receita não pode ser feita.

Prescrever o teste terapêutico sem marcar a data de leitura do resultado

O dano: Transforma um instrumento diagnóstico em uso contínuo por omissão. O paciente melhora, não volta porque está bem, a receita vence, ele pede renovação na recepção, e a renovação acontece — porque negar remédio a quem está bem é difícil de justificar num balcão. Do lado de fora, isso se chama tratamento crônico; do lado de dentro, foi um teste que ninguém leu.

Como pegar a tempo: Marque o retorno na mesma consulta, com data no papel, e diga em voz alta que na volta a decisão vai ser continuar, reduzir ou parar. Escreva a duração na receita — 8 semanas, e não uso contínuo — porque a palavra que está na receita é a que a farmácia e o próximo colega vão ler.

Renovar o inibidor de bomba porque ele estava na lista de uso contínuo

O dano: É a engrenagem dos sete anos, e ela não é feita de má prática: é feita de consultas curtas e listas herdadas. Cada renovação isolada é razoável; a soma produz exposição prolongada sem indicação registrada, e a própria diretriz brasileira de 2024 pede atenção especial em idosos, imunossuprimidos e pessoas com risco ósseo, renal, de ferro, de vitamina D, de vitamina B12 e de magnésio. Há ainda o registro de que o uso prolongado se associou a aumento pequeno mas significativo de infecções entéricas em ensaio com 17.598 pessoas ao longo de três anos.

Como pegar a tempo: Trate a linha do inibidor de bomba em qualquer lista de uso contínuo como pendência, e não como item. Antes de renovar, pergunte desde quando, por que, e se houve endoscopia — três perguntas que cabem numa consulta de renovação e que ninguém faz.

Chamar de refratário o paciente que tomou o remédio no horário errado

O dano: Faz subir a dose, trocar de fármaco e encaminhar um paciente que nunca foi tratado de fato. A definição brasileira de refratariedade tem três condições — dose, horário em jejum e 4 a 8 semanas — e quem não confere as três está avaliando outra coisa. O peso desse erro é mensurável: apenas otimizar o uso melhorou mais de 50% dos sintomas em 11% a 35% das pessoas consideradas sem resposta.

Como pegar a tempo: Pergunte por comportamento, não por adesão: a que horas você toma, o que você come depois, quantos dias desta semana você esqueceu. E lembre que a bula manda tomar imediatamente antes das refeições — o paciente pode ter obedecido a um documento oficial e mesmo assim estar no pior horário.

Fazer teste terapêutico empírico na tosse crônica, no pigarro ou na rouquidão

O dano: Duas perdas de uma vez. A primeira é diagnóstica: a diretriz brasileira de 2024 diz explicitamente que, nessas manifestações, o teste empírico não deve ser feito e a investigação deve correr sem a medicação — quem trata primeiro inutiliza o exame que viria depois. A segunda é de tempo: os estudos citados pelo consenso brasileiro de 2010 mostram resposta pobre nessas queixas, de modo que o teste consome semanas para produzir uma resposta ambígua.

Como pegar a tempo: Diante de tosse crônica ou rouquidão, mande a queixa para o dono dela: a via aérea é do capítulo de Pneumologia, e a laringe pede avaliação própria. Se houver pirose típica associada, trate a pirose pelo que ela é, e diga ao paciente que o tratamento é para a azia, não uma tentativa de curar a tosse.

Ler endoscopia normal como diagnóstico excluído — ou pedir ultrassonografia de abdome para investigar azia

O dano: São dois erros com a mesma raiz: procurar no exame uma resposta que ele não dá. Endoscopia normal é o achado mais comum em quem tem a doença, porque a forma não erosiva é a maioria; devolver o paciente dizendo que não tem nada o manda para a automedicação. E a ultrassonografia não vê esôfago: ela devolve achados de outros órgãos que abrem investigações que ninguém pediu, enquanto a queixa segue sem conduta.

Como pegar a tempo: Antes de pedir qualquer exame, complete a frase: se vier normal, eu faço o quê. Se a resposta for a mesma que você faria sem o exame, não peça. E, diante de laudo endoscópico normal com sintoma típico, escreva no prontuário a conclusão correta — doença do refluxo na forma não erosiva — em vez de deixar o campo vazio.

11

O que dizer ao paciente e à família

Quase toda conversa difícil deste capítulo é sobre subtração. Não pedir um exame, não aumentar a dose, tirar um remédio que a pessoa toma há anos. Em nenhuma delas você tem a seu favor a coisa que costuma convencer o paciente, que é a sensação de que algo está sendo feito — e por isso a conversa tem de fazer o trabalho sozinha.

Há uma dificuldade específica, e ela é de vocabulário. Para o paciente, gastrite, refluxo, esofagite e azia são a mesma coisa, e ele tem uma teoria própria sobre nervoso e comida que costuma ser mais coerente que a explicação apressada que recebeu de alguém. Não combata a teoria: pergunte qual é, e construa em cima dela.

Explicando por que não vai pedir endoscopia a quem tem quadro típico e nenhum alarme

"Pelo que a senhora me contou, a queimação tem a cara clássica do refluxo: sobe do estômago, é pior à noite, piora quando a senhora deita. Nesse quadro, a câmera não muda o que eu vou fazer — mesmo se ela vier normal, que é o resultado mais comum, o tratamento seria exatamente este que eu vou prescrever. O que decide o exame não é a azia: são outros sinais, e a senhora não tem nenhum deles. Vou tratar agora, e vou te ver de novo com data marcada. Se não melhorar, ou se aparecer qualquer coisa da lista que eu vou te dizer, aí sim o exame passa a mudar alguma coisa."

Não diga: Dizer que não vai pedir porque não tem vaga, porque demora, ou porque não é caso para exame. As três frases dizem ao paciente que ele está sendo poupado de um recurso, e ele vai procurá-lo por fora.

Pedindo endoscopia com prioridade sem transformar a consulta em anúncio de câncer

"O senhor me contou uma coisa que a azia não explica: a comida está parando, e isso piorou nos últimos dois meses. Não sei ainda o que é, e não vou chutar. Sei que isso não se investiga com remédio, se investiga com uma câmera, e que não é caso de esperar a próxima consulta. Vou pedir hoje, escrevendo tudo o que o senhor me contou, porque é isso que faz o exame sair mais rápido. Enquanto espera, se ficar sem conseguir engolir nem líquido, ou aparecer vômito com sangue ou fezes pretas, o senhor não espera nada: vem direto."

Não diga: Prometer que provavelmente não é nada. Você não sabe, e a frase vale menos que o silêncio — se vier ruim, ela destrói a confiança justamente no dia em que ela mais fará falta.

Propondo, pela primeira vez, parar um omeprazol de sete anos

"Seu Lindomar, eu fui olhar a história desse omeprazol e não achei quem começou nem por quê. Não é crítica a ninguém: é uma coisa que acontece muito. O que eu quero propor é o seguinte: em vez de continuar tomando porque sempre tomou, a gente descobre se o senhor ainda precisa. A gente reduz devagar, com data marcada para conversar de novo, e se a azia voltar, o senhor volta à dose que estava tomando e me conta. Ninguém vai tirar nada do senhor à força. A gente vai testar, e o senhor participa do teste."

Não diga: Dizer que ele não precisa disso, que isso é remédio à toa ou que faz mal. Além de ser afirmação que você ainda não pode fazer, transforma sete anos da vida dele num erro alheio, e a reação previsível é defender o remédio.

Quando o paciente responde que passa mal sem o remédio

"Faz sentido, e não é impressão sua: quando se para esse remédio, é comum a azia voltar nos primeiros dias, e isso acontece com a maioria das pessoas. O que eu quero que a gente descubra é se ela volta e fica, ou se volta e passa. São coisas diferentes e pedem condutas diferentes. Por isso a gente não vai parar de uma vez: vai reduzir, com um plano no papel e uma data. E o senhor vai ter na mão o que fazer se apertar."

Não diga: Interpretar a volta do sintoma como prova de que a indicação existia. É exatamente o raciocínio que produziu os sete anos, e ele confunde recorrência esperada da doença com necessidade permanente de tratamento.

Ensinando o horário da cápsula de um jeito que a pessoa lembre

"Esse remédio tem uma manha, e ela é a diferença entre funcionar e não funcionar. Ele só age nas bombinhas de ácido que estão ligadas, e elas ligam quando a comida chega. Então ele precisa estar no sangue antes da comida. Na prática: a senhora acorda, toma a cápsula, e só depois faz o café. Meia hora antes, se der. Se tomar junto com a comida ou depois, perde metade do efeito — e aí a gente vai achar que o remédio não serve para a senhora, quando o problema era só o horário."

Não diga: Dizer apenas em jejum. Muita gente entende jejum como não ter comido nada desde a véspera, toma às dez da manhã e come às dez e cinco — e é exatamente o que não se quer.

Dizendo que a doença é crônica sem transformar a frase em sentença

"Isso costuma ser uma coisa que vai e volta ao longo da vida, e vale a senhora saber disso desde já para não se assustar quando voltar. Crônico aqui não quer dizer que vai piorar, nem que a senhora vai tomar remédio para sempre. Quer dizer que a gente vai conviver com isso e ajustar: tem época que precisa de remédio, tem época que não precisa. Quem manda no ajuste é o sintoma, não o calendário."

Não diga: A frase não tem cura, que é tecnicamente defensável e clinicamente destrutiva: o paciente ouve doença grave e progressiva, e sai da consulta com um medo que nenhum dos dois queria criar.

Quando o paciente pede um remédio mais forte

"Antes de subir a dose, eu preciso ter certeza de que o que a senhora está tomando teve chance de funcionar. Me conta: a que horas a senhora toma, quanto tempo depois come, e quantos dias desta semana a senhora esqueceu. Não é para te cobrar — é porque, em boa parte das pessoas que acham que o remédio não serviu, o que faltou foi o horário. Se estiver tudo certo, aí a gente muda, e eu já sei o que mudar."

Não diga: Aumentar a dose na hora para encerrar a consulta. Além de pular a etapa que mais rende, cria um paciente em dose dobrada que ninguém vai reduzir depois.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A dose adulta do omeprazol: a bula autoriza metade do que o consenso chama de dose plena

20 mg ao dia por 4 a 8 semanas — o que a bula aprovada escreve para o adulto

A seção de posologia da bula profissional do omeprazol cápsula de 20 mg escreve, para adultos: úlceras gástricas e esofagite de refluxo, 20 mg uma vez ao dia, antes do café da manhã, durante quatro a oito semanas. Não há, na posologia adulta, autorização para 40 mg ao dia nessa indicação; a única aparição de 40 mg como teto está no parágrafo pediátrico, para criança acima de 20 kg, com aumento a critério médico até no máximo 40 mg ao dia.

Bula profissional do omeprazol cápsula dura 20 mg, versão V.02_11/2022, texto notificado à Anvisa

40 mg ao dia — a dose plena que o consenso brasileiro lista e que a regulação exige

Ao comentar a questão da dose plena, o consenso brasileiro de 2010 lista os inibidores de bomba com os valores que considera dose plena, e para o omeprazol registra um único valor: 40 mg ao dia. É esse número que atravessou para os protocolos de encaminhamento das redes, que exigem inibidor de bomba em dose plena, escrita como 40 mg de omeprazol, por tempo mínimo, antes de aceitar o encaminhamento à gastroenterologia.

Consenso brasileiro de DRGE (Arq Gastroenterol. 2010;47(1):99-115), com o eco nos protocolos de encaminhamento em uso nas redes

Como decidir

Decida pelo destino do paciente à sua frente, e registre a escolha. Se o plano é tratar e reavaliar dentro da própria unidade, comece com 20 mg ao dia: é a dose de bula, resolve a maioria dos quadros típicos, e deixa espaço para subir com critério se não resolver. Se o plano já inclui encaminhar — porque a queixa é antiga, já falhou antes, ou o serviço de destino exige tratamento otimizado documentado —, prescreva os 40 mg ao dia por 8 semanas e escreva no prontuário que a dose está acima da posologia adulta de bula e por quê. O que não se pode é prescrever 40 mg sem saber que está acima da bula, nem prescrever 20 mg e chamar de tratamento otimizado num encaminhamento que será devolvido.

Depois que melhorou: manter sob demanda é preferível, ou tanto faz?

Sob demanda é preferível na forma não erosiva — consenso brasileiro de 2010, recomendação grau A

Ao responder se a manutenção da forma não erosiva deve ser contínua, intermitente ou sob demanda, o consenso brasileiro de 2010 conclui, com recomendação de grau A, que no período observado de seis meses o tratamento sob demanda é preferível ao contínuo e ao intermitente, com vantagens clínicas e econômicas.

Consenso brasileiro de DRGE (Arq Gastroenterol. 2010;47(1):99-115), questão 10 do bloco de manejo

Não há diferença entre contínuo e sob demanda; decide o médico assistente — diretriz brasileira de 2024, recomendação condicional

A diretriz brasileira de 2024 revisa o mesmo tema com dados de 15.755 pacientes acompanhados de 12 a 52 semanas e conclui que não há diferença entre as duas formas de manutenção, contínua ou sob demanda, cabendo a avaliação caso a caso ao médico assistente. Classifica a qualidade da evidência como baixa e a recomendação como condicional, atribuindo a variabilidade à natureza distinta dos estudos.

Diretriz brasileira da FBG para o manejo terapêutico da DRGE (Arq Gastroenterol. 2024;61:e23154), questão 7

Como decidir

Olhe para o que o seu paciente tem documentado, porque é o único elemento em que os dois textos concordam. Se há esofagite erosiva grave — graus C ou D de Los Angeles —, os dois documentos apontam para manutenção continuada, e a discussão acaba aí. Se a forma é não erosiva ou não há endoscopia, os dois autorizam a tentativa sob demanda, e ela tem uma vantagem que independe de qual texto está certo: é a única estratégia que produz, sozinha, a informação de quanto tempo o paciente fica bem sem o remédio. Escolha sob demanda quando quiser essa informação, e contínuo quando o paciente já demonstrou que não fica bem sem — mas só depois de ter tentado ao menos uma vez, com data registrada.

O teste terapêutico com inibidor de bomba: via padrão do jovem típico ou exceção controversa?

É a via padrão no jovem com quadro típico — consenso brasileiro de 2010, recomendação grau A

O consenso brasileiro de 2010, ao responder se o adulto com manifestações de refluxo e sem alarme deve fazer endoscopia antes do tratamento, conclui com recomendação de grau A que a endoscopia não é habitualmente realizada em adultos jovens com história típica, porque não altera a evolução clínica quando comparada ao tratamento empírico — e cita a equivalência entre tratar empiricamente e tratar após endoscopia, tanto em quatro semanas quanto na manutenção de vinte e quatro semanas.

Consenso brasileiro de DRGE (Arq Gastroenterol. 2010;47(1):99-115), questão 1 do bloco de diagnóstico

É abordagem controversa, para casos selecionados e não de rotina — diretriz brasileira de 2024, recomendação fraca

A diretriz brasileira de 2024 dedica sua última questão ao tema e conclui que o uso empírico por oito semanas é abordagem diagnóstica e terapêutica controversa, que não deve ser usada de rotina, mas apenas em casos selecionados, com qualidade de evidência moderada e força de recomendação fraca. Registra que as sociedades divergem — a associação americana recomenda formalmente o teste, e o consenso internacional de definição adverte que a resposta ao inibidor de bomba não equivale a diagnóstico — e nomeia o caso selecionado: paciente jovem, com sintomas típicos e forte suspeita diagnóstica.

Diretriz brasileira da FBG para o manejo terapêutico da DRGE (Arq Gastroenterol. 2024;61:e23154), questão 12

Como decidir

Repare que os dois textos, apesar do tom oposto, descrevem o mesmo paciente: jovem, típico, sem alarme, com suspeita forte. Quem cabe nessa descrição pode ser tratado sem exame pelos dois documentos. A divergência começa fora dela — no paciente de meia-idade, no quadro atípico, no sintoma que não é claramente pirose. Aí a diretriz de 2024 pede que você não use o teste como atalho diagnóstico, e a razão dela é medida: especificidade de 44% a 54%, com 35% de melhora em quem não tem a doença por nenhum critério. Diante da dúvida, a pergunta que decide não é qual texto seguir, e sim o que você fará com uma melhora parcial daqui a oito semanas. Se a resposta for encaminhar de qualquer jeito, encaminhe agora.

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O raciocínio, em voz alta

Terça-feira, 8h20, unidade básica de saúde. Marcilene Padilha, 34 anos, atendente de padaria, trabalha das cinco da manhã à uma da tarde. Há três meses tem queimação retroesternal ascendente quase toda noite, que começa cerca de meia hora depois do jantar — feito às 23h — e piora quando ela deita. Regurgitação ocasional, sem esforço de vômito. Sem disfagia, sem odinofagia, sem vômitos, sem sangramento visível, sem fezes escurecidas, sem perda de peso. Peso 78 kg, altura 1,60 m. Não fuma. Bebe cerveja nos fins de semana. Não usa anti-inflamatório. Abdome sem massas, escleras anictéricas. Sem história familiar de câncer. Nunca fez endoscopia.

  1. o que penso agora

    Antes de qualquer coisa, classifico a queixa. Queimação que sobe, pós-prandial, com piora ao deitar, e regurgitação sem náusea: é o par típico. Frequência quase diária, há três meses — muito acima do corte de duas vezes por semana por quatro semanas que o consenso brasileiro usa para chamar de doença. Isso já organiza tudo: estou diante de doença do refluxo provável, e a pergunta seguinte não é qual exame, é se existe algum alarme.

  2. o que peço

    Não peço exame nenhum, e essa é a conduta, não a ausência dela. Percorro a lista somada dos dois consensos brasileiros — disfagia, odinofagia, perda de peso, sangramento, vômitos persistentes, massa palpável, icterícia, história familiar de câncer — e acrescento anemia sem causa. Nenhum item presente. Escrevo no prontuário, com essas palavras: quadro típico, sem manifestações de alarme. Essa frase é o que autoriza o resto.

  3. o que penso agora

    Ela é literalmente o caso que a diretriz de 2024 nomeia como selecionado para o teste terapêutico: jovem, sintomas típicos, suspeita forte. E é o caso em que o consenso de 2010 diz, com grau A, que a endoscopia antes do tratamento não altera a evolução clínica. Os dois documentos apontam para o mesmo lugar. Se ela tivesse 58 anos, ou tosse crônica em vez de pirose, eu estaria na parte em que eles divergem.

  4. o que faço

    Antes da receita, olho o horário do jantar. Ela janta às 23h e deita em seguida — e esse é o maior gatilho mecânico que ela tem. Prescrevo, na mesma folha da medicação: intervalo de 2 a 3 horas entre jantar e deitar; elevação da cabeceira da cama inteira, apoiando os pés do estrado, e não travesseiro empilhado; não dormir sobre o lado direito; e a conversa sobre peso, com sobrepeso documentado. Ela mesma identifica dois gatilhos alimentares, e são esses dois que saem — não uma lista genérica.

  5. o que prescrevo

    Omeprazol 20 mg, uma cápsula ao dia, por 8 semanas, tomada de 30 a 60 minutos antes da primeira refeição do dia. Escrevo o horário na receita com essas palavras. Fico na dose de bula porque o plano é tratar e reavaliar aqui mesmo, e porque há espaço para subir se não resolver. Ofereço hidróxido de alumínio como resgate — o alginato, que a diretriz de 2024 recomendaria para esse papel, não existe no elenco público. Não prescrevo procinético.

  6. como a resposta muda o que penso

    Marco o retorno para oito semanas, com data, e digo em voz alta que na volta a decisão será continuar, reduzir ou parar. Digo também o que fazer antes da data: se aparecer dificuldade para engolir, vômito com sangue, fezes pretas ou perda de peso, ela volta sem esperar. Isso não é formalidade — é o que impede que um alarme surgido no meio do tratamento seja lido daqui a seis meses.

  7. o que penso agora

    Ela volta na data, sem pirose há cinco semanas, tomando certo. Registro o teste como positivo e a data. E aqui está a decisão que quase ninguém toma: em vez de renovar, proponho parar e observar. Explico que a azia pode voltar, que isso é o comportamento esperado da doença em dois terços das pessoas com a forma não erosiva, e que voltar não significa que o remédio é para sempre. Se voltar, ela retoma sob demanda — retomar quando o sintoma aparece, suspender quando ele cede — e me conta na consulta seguinte. É o desfecho que evita que Marcilene seja o Lindomar daqui a sete anos.

Marcilene não precisou de exame nenhum, e a decisão de não pedir foi a conduta principal da consulta — sustentada por uma frase registrada no prontuário: quadro típico, sem manifestações de alarme. O tratamento foi omeprazol 20 mg ao dia por 8 semanas, no horário certo, com as medidas comportamentais prescritas junto e não depois, sendo a mais importante delas o intervalo entre o jantar e o deitar. O retorno foi marcado com data na mesma consulta, porque teste terapêutico sem leitura do resultado vira uso contínuo por omissão. E, com a resposta completa, a conduta foi tentar parar — não porque a doença tenha acabado, mas porque a única forma de saber se ela ainda precisa do remédio é essa, e porque a tentativa, registrada com data, é o que permitirá ao próximo profissional saber que houve decisão e não inércia.

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Faça você

Terça-feira, 9h05, mesma unidade básica. Lindomar Teles, 63 anos, aposentado, ex-motorista de van escolar, 82 kg. Veio renovar receitas e trouxe as caixas vazias num saco: losartana 50 mg, sinvastatina 20 mg, metformina 850 mg e omeprazol 20 mg. Toma o omeprazol há sete anos, iniciado numa noite de pronto-atendimento por dor epigástrica que ele já não sabe descrever. Nunca fez endoscopia. Não tem azia hoje — diz que não tem porque toma o remédio. Não usa anti-inflamatório de rotina, mas toma diclofenaco comprado na farmácia quando o joelho piora, umas duas vezes por mês. Sem disfagia, sem perda de peso, sem sangramento. Hemoglobina de 13,8 g/dL no exame de seis meses atrás. A consulta tem quinze minutos e há doze pessoas na sala de espera.

  1. o que já sei

    Sei que uso prolongado sem indicação registrada é o problema que a própria diretriz brasileira de 2024 nomeia na primeira página, e que um documento brasileiro de uso racional de 2004 já apontava. Sei que a diretriz de 2024 pede atenção especial ao idoso e a quem tem risco ósseo, renal, de ferro, de vitamina D, de vitamina B12 e de magnésio.

  2. o que já sei

    Sei que existem indicações que justificam uso prolongado e que suspender nelas é iatrogenia com o sinal trocado: esofagite erosiva grave documentada, complicação estrutural, síndrome de Zollinger-Ellison, e proteção gástrica em quem usa anti-inflamatório de forma crônica — indicação que o documento brasileiro de uso racional classifica como benefício definido. Duas vezes por mês não é uso crônico; mas é uma informação que muda a conversa.

  3. o que já sei

    Sei que ele não tem sintoma para classificar e nenhum sinal de alarme, portanto a pergunta que este caso faz não é diagnóstica. É outra: qual era a indicação, ela ainda existe, e como se desmonta sete anos sem quebrar a relação. Sei também que não dá para resolver isso hoje, em quinze minutos, com doze pessoas esperando.

  4. o que eu faço agora — complete

    Decida, com o que cabe nesta consulta e o que fica para a próxima: o que você pergunta antes de tocar na receita; se ele precisa ou não de endoscopia antes de reduzir, e por quê; qual é o primeiro passo concreto da redução, com dose e prazo; o que você escreve na receita de hoje; o que você entrega por escrito na mão dele para o caso de a azia voltar; o que você faz com o diclofenaco; e o que precisa ficar registrado no prontuário para que a próxima renovação não recomece a contagem do zero.

Ver como fecharíamos

Comece pelas três perguntas que cabem em dois minutos e que ninguém faz na renovação: desde quando, por quê, e se alguma vez fez endoscopia. As respostas dele — sete anos, dor epigástrica numa noite de pronto-atendimento, nunca — significam que não existe indicação registrada de uso prolongado, e é isso, e não a duração, que autoriza propor a retirada. Ele não precisa de endoscopia para reduzir. Não há alarme, não há sintoma atual, e o exame não responderia à pergunta que importa: o achado que justificaria manter o remédio seria esofagite erosiva grave, que ele não teria como ter estando tratado há sete anos — o exame sob inibidor de bomba não mostra a doença que existia antes dele. Se ele voltar a ter sintomas depois da retirada, aí sim a endoscopia passa a ter pergunta. O primeiro passo concreto é reduzir, não parar: omeprazol 10 mg ao dia — a apresentação existe na Rename — por quatro semanas, com retorno marcado. Depois disso, se estiver bem, passar a uso sob demanda: retomar quando o sintoma aparecer, suspender quando ele ceder. Escreva na receita a duração, 4 semanas, e não uso contínuo, porque a palavra escrita é a que a farmácia e o próximo colega vão ler. Entregue por escrito, na mão dele, três linhas: o que ele está tomando agora, o que fazer se a azia voltar — retomar a dose anterior e trazer a informação —, e a data do retorno. Prescreva junto as medidas comportamentais, porque a retirada sem elas falha mais e a falha será atribuída à retirada. Sobre o diclofenaco: duas vezes por mês não é uso crônico e não sustenta, sozinho, proteção gástrica contínua — mas é a única coisa na história dele que poderia sustentar, e por isso entra na conversa em vez de ser ignorada. Pergunte por que o joelho dói, ofereça alternativa, e registre a decisão. E no prontuário fique escrito o que impede a próxima renovação de recomeçar do zero: indicação original não identificada; sem endoscopia prévia; sem sinais de alarme; iniciada redução para 10 mg ao dia em [data], com plano de passagem a uso sob demanda e reavaliação em 4 semanas. Sem esse registro, a redução vira apenas mais um episódio isolado numa história de sete anos — e o próximo colega, sem saber que houve uma decisão, vai renovar a dose cheia.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Em tosse e pigarro isolados, sem pirose ou regurgitação, a diretriz brasileira de 2024 não recomenda usar resposta ao IBP como teste diagnóstico. Investigar causas respiratórias, otorrinolaringológicas e outras; quando refluxo continuar em consideração, selecionar testes objetivos. Em DRGE ainda não comprovada, monitorização do refluxo costuma ser realizada sem supressão ácida, com suspensão planejada conforme o exame. Uso prévio de IBP não inutiliza definitivamente os testes. Endoscopia isolada não prova que refluxo cause a tosse, e melhora com IBP também não confirma causalidade. A presença concomitante de sintomas típicos muda o contexto e pode justificar abordagem diferente.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Faça uma anamnese dirigida de quem usa omeprazol há anos: qual era a indicação, quais sintomas persistem, como o remédio é tomado e que risco existe ao suspendê-lo? Explique quando a endoscopia muda a conduta e por que resposta ao medicamento não confirma sozinha o diagnóstico. Confira sinais de alarme e uso adequado antes de chamar o quadro de refratário. Termine justificando manutenção, ajuste, investigação ou tentativa supervisionada de redução.

Em 30 dias

Compare dois cenários: pessoa sem indicação atual documentada e pessoa com esofagite grave, Barrett ou necessidade de gastroproteção. Descreva o que precisa ser confirmado antes de mudar a receita e como acompanhar sintomas após qualquer redução. Treine explicar possível rebote ácido, sinais de retorno antecipado e limites da automedicação. Se os sintomas persistirem apesar de uso adequado, reveja o diagnóstico e a necessidade de investigação, em vez de aumentar a dose indefinidamente.

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Agora atenda

Uma pessoa de meia-idade chega à unidade básica com queimação no peito que piora à noite, e traz na bolsa uma cartela de omeprazol que já usa há tempo demais para saber desde quando. Atenda: caracterize a queixa, percorra a lista de alarme inteira antes de tocar na receita, decida se este paciente precisa de endoscopia hoje, prescreva o que couber com dose, horário e duração — e, se a conduta for retirar o inibidor de bomba, construa o plano de redução com o paciente, sem solicitar exame que não altere o que você faria de todo modo.

Doença do refluxo gastroesofágico – Sete anos de omeprazol — Internato | OsceLabs