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A fralda não é diagnóstico
Incontinência urinária e úlceras por pressão no idoso
Incontinência urinária e lesão por pressão na pessoa idosa: procurar a causa transitória antes de rotular, tratar a incontinência funcional com rotina, ambiente e cuidador, decidir o anticolinérgico pelo cérebro e não só pela bexiga, escolher a fralda como conduta e proteger a pele e a pressão em casa e na instituição de longa permanência.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde; 2006. 192 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 19; Série A. Normas e Manuais Técnicos). ISBN 85-334-1273-8.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Gestão do Cuidado Integral. Caderneta da Pessoa Idosa. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2025.
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Mulher de 84 anos com doença de Alzheimer moderada, em uso de donepezila 10 mg, passou a perder urina há dez dias. A filha conta que, há três semanas, começou a dar prometazina 25 mg à noite para a mãe dormir, que ela está há quatro dias sem evacuar e que apareceram fezes líquidas em pequena quantidade na fralda. Não há febre, ardência nem dor suprapúbica. A filha pede um remédio para a bexiga. Qual é a conduta inicial mais adequada?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, nove e meia da manhã, visita domiciliar da equipe de saúde da família numa casa de dois quartos no fim da linha do ônibus. Você chega com a enfermeira e com a agente comunitária que marcou a visita, e quem abre a porta é Sidália, 58 anos, de chinelo e com o celular na mão, porque passou a noite acordada. A mãe dela, Dona Brazilina Guimarães, 86 anos, voltou para casa há cinco dias depois de dez dias internada por pneumonia no hospital regional.
Dona Brazilina tem doença de Alzheimer há quatro anos. Até a internação, andava pela casa segurando no braço da filha, ia sozinha ao banheiro durante o dia, tinha um ou dois escapes de urina por semana de madrugada e comia com ajuda só para cortar a carne. Hoje está deitada de lado na cama de casal, de fralda, com uma sonda vesical ligada a uma bolsa pendurada na grade da cama. A urina da bolsa está escura e turva. O quarto cheira a urina.
Sidália mostra o resumo de alta e uma sacola de remédios. A sonda foi passada no pronto-socorro, na chegada, “para controlar a urina”, e ninguém a tirou; o resumo diz apenas “SVD, avaliar retirada ambulatorialmente”. Na sacola estão a donepezila de 10 mg que ela já tomava, a hidroclorotiazida de 25 mg e uma caixa nova de prometazina de 25 mg, prescrita na alta “à noite, se insônia”. Sidália dá a prometazina todas as noites, porque a mãe acorda chamando pelo marido morto, e passou a hidroclorotiazida para as seis da tarde, porque de manhã esquecia.
Ela também conta, sem que ninguém pergunte, que passou a dar pouca água: três copos por dia e nada depois das cinco da tarde. “A bolsa enche de noite e eu tenho que levantar para esvaziar. E a fralda já molha com o que sai em volta da sonda.” Diz que a mãe não evacua desde que chegou, e que ontem apareceu “uma diarreiazinha” que manchou a fralda duas vezes, pouca coisa, mole e escura.
Desde a alta, Dona Brazilina sai da cama só para almoçar sentada numa cadeira de plástico, por uma hora. “Ela ficou fraca, doutor. Tenho medo de ela cair se levantar.” O marido de Sidália trabalha fora o dia inteiro; uma vizinha fica com Dona Brazilina à tarde, três vezes por semana. Sidália tem dor nas costas desde o segundo dia, de virar a mãe sozinha.
Quando você cumprimenta Dona Brazilina pelo nome, ela abre os olhos, sorri, diz que está esperando a condução para a fazenda e pergunta se você é o moço do leite. Acompanha a conversa por alguns segundos e se perde. Sidália diz que no hospital ela “ficou muito pior, não conhecia ninguém, arrancava o soro”, e que em casa melhorou bastante, mas que ainda não é a mãe de antes da internação.
A enfermeira vira Dona Brazilina para trocar a fralda. Os dois calcanhares estavam apoiados diretamente no colchão de espuma fina. A pele das nádegas, do sulco entre elas e da raiz das coxas está vermelha, brilhante e úmida, sem ferida aberta. Sobre o osso sacro há uma mancha vermelha de uns quatro centímetros, e ela não fica branca quando a enfermeira aperta com o dedo. Sidália vê a mancha e pergunta, com a voz baixa, se aquilo é “escara”, se é culpa dela, e se tem remédio para a bexiga, porque a vizinha disse que tem um comprimido que resolve o xixi quando tirarem a sonda.
O que está diante de você não é um diagnóstico. É uma mulher de 86 anos com demência que era quase continente há três semanas e que hoje tem sonda sem motivo escrito, fralda, prometazina toda noite, diurético no fim da tarde, restrição de água, cinco dias sem evacuar com fezes líquidas escapando, uma cama da qual quase não sai, pele de fralda inflamada e uma mancha sobre o sacro que não clareia. A pergunta deste capítulo é qual parte disso é da idade, qual parte veio do hospital e qual parte se desfaz hoje, antes de alguém escrever a palavra incontinência no prontuário como se ela explicasse o resto.
Este capítulo não ensina o tratamento da incontinência de esforço e de urgência na pessoa que consegue treinar a própria bexiga — isso é do capítulo Incontinência urinária de esforço e de urgência: diagnóstico e manejo, na apostila de Ginecologia, que assume também a incontinência do homem depois da prostatectomia. Não ensina a passar nem a retirar sonda, que é de Sondagem vesical de alívio e de demora, nem estadia lesão por pressão ou escolhe cobertura, que é de Lesão por pressão: estadiamento, prevenção e curativo, na apostila de Síndromes do Paciente Internado. A retenção e a hiperplasia da próstata são de Hiperplasia prostática benigna, STUI e retenção urinária aguda; o delirium, de Delirium no idoso internado; o fecaloma, de Constipação, imobilismo e suas consequências.
O que este capítulo assume é o que só existe no idoso e não tinha dono no nível: a incontinência transitória, que começa de repente e some quando a causa sai; a incontinência funcional, de quem não chega ao banheiro a tempo; o anticolinérgico decidido pelo cérebro e não só pela bexiga; a fralda como conduta, com a pele de quem a usa; e a lesão por pressão fora do hospital, em casa e na instituição de longa permanência. O capítulo Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade fica com a urgência noturna como causa de queda — luz, cadeira higiênica, porta sem tranca —, e este capítulo fica com o tratamento da incontinência. A avaliação geriátrica ampla e o IVCF-20 são de Avaliação geriátrica ampla e fragilidade; o tratamento da perda de urina que essa avaliação encontra pertence a este capítulo.
Quem adoece disso
Perder urina é das queixas mais frequentes da velhice e das menos contadas. O Caderno de Atenção Básica nº 19, de 2006, estima entre 10% e 15% dos homens idosos e entre 20% e 35% das mulheres idosas com incontinência urinária. O protocolo clínico nacional de 2020 cita um estudo brasileiro em população idosa com 11,8% nos homens e 26,2% nas mulheres, e o Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa, de 2021, registra que a perda afeta uma em cada cinco mulheres de 85 anos ou mais. Os números mudam com a definição usada e com a população estudada; a direção não muda: a frequência sobe com a idade e, segundo o caderno de 2006, sobe também com o número de medicamentos em uso e de doenças associadas.
O lugar onde você atende muda o que você encontra. No estudo que validou o IVCF-20, o item de incontinência foi positivo em 47,6% dos idosos atendidos num centro de referência para pessoas idosas, a maioria já com dependência, e em 17,3% dos idosos de um centro de saúde. A mesma pergunta, feita a populações de fragilidade diferente, devolve quase o triplo de respostas afirmativas. Na visita domiciliar ao acamado e na instituição de longa permanência, a perda de urina deixa de ser exceção e passa a ser a regra do cuidado diário.
A frequência real é maior que a registrada porque a pessoa não conta. O caderno de 2006 é direto: a menos que se pergunte, a pessoa idosa não relata a perda, por vergonha ou por acreditar que ela faz parte do envelhecimento. O guia de 2021 manda procurar os sinais que aparecem sem pergunta — o odor de urina, o absorvente, o pano dobrado dentro da roupa — e perguntar de forma explícita ao longo da consulta. É por isso que o IVCF-20 da Caderneta da Pessoa Idosa, na 6ª edição de 2025, tem um item só para isso: “Você perde urina ou fezes, sem querer, em algum momento?”, que vale 2 pontos na soma de 40.
O custo da perda não fica na roupa molhada. O caderno de 2006 lista infecções urinárias e genitais, maceração e ruptura da pele, facilitação da úlcera por pressão, celulite, sono interrompido, disfunção sexual e quedas, além de constrangimento, isolamento social, depressão e pior autopercepção de saúde, e a coloca entre as principais causas de institucionalização. O guia de 2021 acrescenta a dependência de cuidados e o aumento da tensão e da carga de quem cuida. Uma idosa que molha a cama toda noite custa à filha o sono, as costas e, muitas vezes, o emprego.
Parte dessa carga é fabricada. O idoso que interna frequentemente sai do hospital com três coisas que não tinha ao entrar: uma sonda, uma fralda e uma cama da qual não se levanta. O capítulo Sondagem vesical de alívio e de demora traz a medida brasileira de sondas instaladas sem indicação em pacientes clínicos, e mostra que o idoso é o alvo preferencial delas. A fralda posta na admissão, por rotina, ensina o corpo a não ir ao banheiro; o repouso sem prescrição tira em dias a marcha que sustentava a continência. Muitas incontinências novas da primeira semana depois da alta são, na origem, efeitos da própria internação.
Na outra ponta, a oferta de remédio para a bexiga é curta e o benefício dela é modesto. Em 2019, a Conitec avaliou oxibutinina, tolterodina, solifenacina, darifenacina e mirabegrona para a incontinência de urgência e não recomendou nenhuma: a redução de episódios foi inconsistente e, em geral, menor que um episódio por dia. Nenhum antimuscarínico urinário consta da Rename 2024. Quando uma receita de oxibutinina sai da unidade básica, a família compra na farmácia um fármaco que o consenso brasileiro de medicamentos inapropriados manda evitar justamente na pessoa com demência.
A pele entra na mesma conta. A imobilidade prolongada no leito leva à perda de massa e de força e à lesão por pressão, e o guia de 2021 registra perda de cerca de 5% da massa muscular por semana de cama. O protocolo de feridas da atenção primária de Porto Alegre, de 2024, lembra que a pessoa desnutrida tem duas vezes mais chance de desenvolver lesão por pressão, e descreve a dermatite associada à incontinência como um dos tipos mais comuns de lesão de pele por umidade. Urina e fezes sobre a pele, fricção de fralda e pouca mudança de posição somam três agressões na mesma região do corpo.
Os documentos federais de saúde da pessoa idosa usados neste capítulo tratam a lesão por pressão como complicação da imobilidade e da incontinência, e nenhum deles mede quantas acontecem em casa ou na instituição de longa permanência. A régua hospitalar de prevenção existe e está no capítulo de lesão por pressão das Síndromes do Paciente Internado; fora do hospital, quem executa a prevenção é o cuidador, com a equipe da atenção primária, e quem escreve a régua é o protocolo de feridas de cada rede. É desse vão que este capítulo se ocupa.
A última variável é quem cuida. Em casa, o cuidado de 24 horas costuma recair sobre uma pessoa da família, frequentemente idosa ela mesma, que aprendeu a trocar fralda e a virar um adulto na cama sem que ninguém ensinasse. Todo plano que este capítulo propõe — rotina de ida ao banheiro, cronograma de mudança de posição, limpeza da pele, restrição de fralda — só existe se couber nas mãos e nas horas dessa pessoa. Um plano perfeito que a família não consegue cumprir é abandonado em três noites.
Por que acontece o que acontece
Continência, na pessoa idosa, é uma corrente de elos que ficam quase todos fora da bexiga. É preciso perceber que a bexiga encheu, segurar a urina até o lugar certo, lembrar onde fica o banheiro, chegar até ele, baixar a roupa e sentar. O Caderno de Atenção Básica de 2006 nomeia os elos que falham: a mobilidade, a destreza das mãos para tirar a roupa depressa, a motivação e a tendência a produzir mais urina depois de deitar. Quando qualquer um se rompe, a urina escapa de uma bexiga que pode estar perfeitamente normal. Essa é a incontinência funcional, que o mesmo caderno define como perda ligada à incapacidade de usar o vaso por dano cognitivo ou físico, falta de disposição psicológica ou barreira no ambiente.
A bexiga também muda com os anos, e o caderno descreve a mudança sem transformá-la em doença: diminuem a capacidade e a força de contração, cai a habilidade de adiar a micção, surgem contrações involuntárias do detrusor e o resíduo depois de urinar aumenta, sem passar de 50 a 100 mL. Nada disso, sozinho, faz perder urina. O que essas mudanças tiram é a folga: a idosa que era continente dependia de todos os elos funcionando ao mesmo tempo, com pouca margem para erro.
É por isso que a perda de urina no idoso aparece tantas vezes de repente. Uma agressão aguda rompe o elo que já estava no limite, e a perda começa em dias. O delirium tira a atenção que percebe a bexiga cheia; o sedativo da noite apaga o despertar; a infecção sintomática produz uma urgência tão intensa que não dá tempo; a glicose alta e o diurético aumentam o volume; a cama tira o caminho; o fecaloma distende o reto e perturba a bexiga ao lado; o anticolinérgico e o opioide impedem o esvaziamento. O caderno de 2006 manda descartar essas causas antes de qualquer outra intervenção, e registra, sobre o delirium, que revertida a causa, a confusão e a incontinência costumam desaparecer juntas.
Dona Brazilina reúne quase todas essas agressões numa semana. A sonda impede que a bexiga encha e que a paciente reaprenda a senti-la. A cama tira o trajeto que ela fazia com o braço da filha. A prometazina seda de madrugada e, pelo efeito anticolinérgico, prende o intestino — o consenso brasileiro lista os anti-histamínicos de primeira geração entre os fármacos a evitar pela sedação, pela confusão e pela constipação. A hidroclorotiazida às seis da tarde põe o pico de urina na hora de dormir. A restrição de água concentra a urina e resseca as fezes. O fecaloma faz o resto, e as fezes líquidas que escapam em volta dele são tomadas por diarreia, como o guia de reabilitação de 2021 adverte.
O anticolinérgico merece um parágrafo próprio porque o dano é previsível pelo mecanismo. A acetilcolina contrai a bexiga e, no cérebro, sustenta atenção e memória; a doença de Alzheimer é, em boa parte, uma perda de neurônios que usam acetilcolina, e a donepezila existe para aumentar a acetilcolina disponível. Esse aumento não escolhe o cérebro: chega também à bexiga e pode produzir urgência. Somar a isso a oxibutinina é bloquear, nos dois órgãos, o que a donepezila tenta estimular — a cascata de prescrição que o capítulo Polifarmácia e prescrição segura no idoso ensina a reconhecer. O consenso brasileiro lista a oxibutinina como inapropriada na demência, pelo risco de confusão e agitação, e os antimuscarínicos urinários como inapropriados na constipação crônica. Na bexiga, o mesmo bloqueio reduz a força de esvaziamento e aumenta o resíduo, empurrando para a retenção quem já esvazia mal. O ganho medido pela Conitec, menos de um episódio por dia, é pago pelo elo mais frágil.
A pele de quem usa fralda sofre por outro caminho. Umidade constante encharca a camada córnea, que fica mais permeável e se rompe com menos fricção; a urina e, pior ainda, as fezes líquidas trazem substâncias irritantes e enzimas que atacam a barreira; a fralda fechada mantém calor e umidade, e a limpeza esfregada completa a lesão. O resultado é uma dermatose inflamatória que ocupa a área da fralda — períneo, nádegas, sulco entre elas, raiz das coxas —, extensa e sem relação com o osso. O protocolo de Porto Alegre usa exatamente esse critério para separá-la da lesão por pressão: a dermatite ocupa áreas maiores que as de proeminência óssea.
A lesão por pressão nasce do outro lado da pele. O tecido mole fica esmagado entre o osso e o colchão, e o sofrimento começa por dentro, no músculo, antes de a pele mostrar qualquer coisa; a vermelhidão que não clareia à pressão do dedo já é dano, e não aviso. A pessoa idosa frágil tem menos gordura e menos músculo sobre o sacro e os calcanhares, come menos proteína, sente menos o desconforto que faria um adulto mudar de posição e, com demência, pode não pedir para ser virada. Umidade e fricção da mesma fralda baixam a tolerância do tecido à pressão. Por isso a dermatite e a lesão por pressão aparecem juntas no sulco entre as nádegas, e por isso tratar uma ignorando a outra não funciona.
Há uma última situação em que o mecanismo muda de natureza. Na pessoa que chega ao fim de uma doença longa — come cada vez menos, dorme a maior parte do dia, não sai da cama —, a pele recebe menos sangue como os outros órgãos, e uma lesão pode surgir em poucos dias apesar de um cuidado correto. O capítulo de lesão por pressão das Síndromes do Paciente Internado descreve essa apresentação e ensina a reconhecê-la. Em casa e na instituição, ela deixa de ser só uma ferida: passa a ser um sinal de que a trajetória mudou, e de que o objetivo do cuidado precisa ser conversado com a família.

Como se apresenta de verdade
A incontinência do idoso quase nunca chega à consulta com esse nome. Chega como “ela começou a fazer xixi na roupa”, como a fralda que a família já comprou, como a cama molhada, a infecção que volta, a queda da madrugada, a mancha na roupa de cama da instituição, a vermelhidão nas nádegas que a cuidadora mostra na visita. As seis apresentações abaixo são as que mudam a conduta, e cada uma aponta para uma pergunta diferente.
Percurso de aprendizagem
Acompanhe delirium, medicamentos, retenção, constipação e acesso ao banheiro antes de rotular a incontinência persistente.
Siga o cuidado da pele, alívio de pressão e mobilização; nas fases avançadas, avalie lesão e sofrimento sem presumir causa, inevitabilidade ou culpa.
A perda que começou numa data
A primeira pista de causa transitória é a família saber quando começou. “Desde que voltou do hospital.” “Desde que trocaram o remédio da pressão.” “Depois da queda.” “Na semana da gripe.” Perda que começa em dias, ou que piora de repente em quem tinha escapes raros, é tratada como sintoma de alguma coisa nova até prova em contrário — e não como a demência que avançou ou como a idade que chegou.
O que acompanha a perda indica o elo quebrado. Sonolência, desatenção, fala desconexa ou agitação que oscilam ao longo do dia apontam para delirium, cuja investigação é do capítulo Delirium no idoso internado e vale igualmente em casa. Ardência para urinar, urgência nova, febre ou dor acima do púbis apontam para infecção sintomática; urina turva e cheiro forte sozinhos, sem nenhum desses sintomas, não apontam. Sede, perda de peso e urina em grande volume sugerem glicose alta. Barriga distendida, dias sem evacuar e fezes líquidas em pequena quantidade manchando a fralda sugerem fecaloma. Gotejamento contínuo sugere retenção.
E há a pista que só aparece se alguém pedir a sacola: o fármaco novo. Sedativo para dormir, anti-histamínico para coceira ou enjoo, antidepressivo tricíclico para dor, antipsicótico começado na internação, diurético que mudou de horário, opioide para a dor do quadril, anti-hipertensivo trocado. O caderno de 2006 lista diuréticos, anticolinérgicos, antidepressivos, antipsicóticos, hipnótico-sedativos, opioides, agonistas e antagonistas alfa-adrenérgicos, bloqueadores de canal de cálcio, cafeína e álcool entre os que podem causar incontinência. A data da perda e a data da receita, lado a lado, costumam contar a história inteira.
Quem não chega a tempo
A incontinência funcional se apresenta pelo trajeto. A pessoa com demência que se levanta para urinar e não encontra o banheiro, e é achada molhada no corredor; a que urina no canto do quarto ou num balde, o que a família conta como “mania” e que é desorientação; a que chega ao vaso e não consegue abrir o botão da calça; a que depende de alguém para levantar da poltrona e espera tempo demais; a que dorme com grade na cama e não tem como sair dela à noite.
O padrão temporal denuncia o tipo. Os escapes acontecem no caminho, nos horários em que ninguém está disponível, na primeira hora da manhã, depois do cochilo, à noite com a luz apagada — e somem quando alguém leva a pessoa ao banheiro em intervalos regulares. Uma idosa que fica seca quando a filha está em casa e molhada quando fica sozinha com a vizinha tem incontinência que depende de quem cuida.
Na prática a funcional raramente vem sozinha. A mesma demência que atrapalha o trajeto também tira o freio da bexiga, e boa parte dos idosos com demência tem urgência e dificuldade de chegar ao mesmo tempo. A depressão grave entra no mesmo grupo por outro caminho: o caderno de 2006 lembra que ela pode fazer a pessoa deixar de se importar com a perda ou perder a iniciativa de ir ao banheiro.
Quem não conta
Muitas perdas chegam disfarçadas. A idosa que parou de ir à igreja e ao grupo de convivência, que bebe pouca água “para não dar vontade”, que carrega um pano dobrado na bolsa, que tem infecção urinária de repetição, que cai de madrugada correndo para o banheiro, cuja roupa tem cheiro de urina — nenhuma delas veio queixar-se de incontinência, e todas têm.
Na pessoa com demência, a resposta ao item de continência do IVCF-20 muda conforme quem responde. Ela diz que não perde urina; a filha, fora da sala, diz que troca a roupa de cama toda manhã. O capítulo Avaliação geriátrica ampla e fragilidade ensina a colher as duas vozes, e a perda de urina é justamente um dos domínios em que a segunda voz costuma ser a verdadeira — sem que isso autorize falar da pessoa como se ela não estivesse presente.
A perda contínua, a perda de fezes e os sinais que mudam de trilho
Gotejamento o dia inteiro e a noite inteira, em pequena quantidade, com fralda sempre úmida e nunca encharcada de uma vez, é perda contínua e não urgência. No homem com jato fraco, no diabético de longa data com neuropatia, em quem começou anticolinérgico ou opioide, e sobretudo quando a bexiga é palpável acima do púbis, a hipótese é retenção com transbordamento. Ela é do capítulo Hiperplasia prostática benigna, STUI e retenção urinária aguda, e o que cabe aqui é não a confundir: tratar como urgência o que é bexiga que não esvazia agrava a retenção.
Outros achados também tiram a perda do trilho da atenção primária e da rotina de banheiro: sangue na urina sem infecção, dor pélvica, perda que surgiu com sinal neurológico novo, infecção urinária de repetição com resíduo alto, prolapso visível. A lista de situações que se encaminham sem esperar prazo está no capítulo de incontinência de esforço e de urgência, e o prolapso, em Prolapso de órgãos pélvicos: diagnóstico, estadiamento e tratamento.
Quando a perda é de urina e de fezes ao mesmo tempo, a primeira hipótese na pessoa acamada é o fecaloma: fezes líquidas escapam em volta das endurecidas, o guia de reabilitação de 2021 adverte que isso costuma ser tomado por diarreia, e o caderno de 2006 registra que a remoção do fecaloma resolve as duas perdas. A segunda hipótese é o laxante em dose maior que a necessária. Afastadas as duas, a perda de fezes da pessoa com demência costuma seguir a lógica do trajeto e responde à mesma rotina — levar ao banheiro sempre no mesmo horário, como o guia de 2021 recomenda para recuperar o hábito, de preferência depois de uma refeição. A perda de fezes formadas em quem percebe e não consegue segurar, sugestiva de lesão do esfíncter, tem o reconhecimento e o encaminhamento assumidos pelo capítulo Corpo estranho retal e trauma anorretal, na apostila de Coloproctologia.
A pele conta antes da família
Na visita, a vermelhidão da fralda costuma aparecer antes de qualquer relato. A dermatite associada à incontinência é extensa, ocupa o períneo, as nádegas, o sulco entre elas e a raiz das coxas, tem aspecto brilhante e úmido, arde na limpeza e pode ter erosões rasas; manchas pequenas e pústulas soltas além da borda sugerem candidíase, cujo tratamento está em Micoses superficiais, na apostila de Dermatologia. O protocolo de Porto Alegre lembra que, na pele escura, a mesma inflamação aparece pálida ou em tons de púrpura a vermelho, e não como o vermelho que os livros fotografam.
A lesão por pressão tem endereço: sacro, cóccix, calcanhares, trocânteres, ísquios, maléolos, a nuca de quem vive deitado e qualquer pele sob um dispositivo. Começa como vermelhidão localizada que não clareia à pressão do dedo, pode virar bolha ou área arroxeada de pele íntegra que esconde dano profundo, e só depois abre. Na pele escura, a cor engana e o que denuncia é a diferença de temperatura, o endurecimento e a dor ao toque. No sulco entre as nádegas as duas lesões convivem, e é ali que a mistura mais confunde.
A ferida que chega com o fim
Na instituição de longa permanência e no domicílio de quem tem demência avançada, a lesão por pressão às vezes aparece do jeito errado para o que se esperava: numa pessoa que já comia cada vez menos e dormia a maior parte do dia, uma área arroxeada e irregular surge sobre o sacro em um ou dois dias e cresce rápido, com cuidado de pele e de posição mantidos. O capítulo de lesão por pressão das Síndromes do Paciente Internado descreve essa apresentação; o que ela traz para a atenção primária é uma conversa sobre fim de vida, e não só uma troca de cobertura.
Ao lado dela, com os mesmos achados no corpo, está a negligência: lesões em vários pontos, pele suja, desidratação, fralda sem troca, medicação em falta. O capítulo Notificação de violência (criança, mulher, idoso) e responsabilidade médica ensina a distinguir negligência de falta de meios e de sobrecarga de quem cuida, e é lá que está a decisão de notificar. O que decide não é a lesão, é o contexto: a trajetória da doença, o que foi feito, quem estava cuidando e como.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da perda de urina no idoso cabe numa consulta ou numa visita, quase sem exame complementar, e tem uma ordem: primeiro a régua, depois o tempo, depois o que mudou, depois o exame no quarto, e só então os poucos exames que respondem a uma pergunta. A pele é examinada na mesma visita, porque é na troca da fralda que a lesão aparece.
Que régua o Brasil usa, e desde quando
O protocolo clínico nacional sobre incontinência não tem recorte para a pessoa idosa. O documento normativo em vigor é o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Incontinência Urinária não Neurogênica, aprovado pela Portaria Conjunta nº 1, de 9 de janeiro de 2020: vale para adultos com incontinência de esforço, de urgência ou mista, põe o treinamento vesical como primeira linha da urgência e registra que a Conitec avaliou em 2019 os antimuscarínicos e a mirabegrona e não os recomendou. Ele não trata a incontinência funcional nem a transitória como tipos, e é nesse ponto que o idoso frágil sai do alcance dele.
Para esses dois tipos, o documento federal que descreve causas agudas e perda funcional na pessoa idosa é ainda o Caderno de Atenção Básica nº 19, Envelhecimento e saúde da pessoa idosa, de 2006, que nunca teve segunda edição. O capítulo de incontinência dele traz a lista de causas a descartar antes de qualquer intervenção, a classificação em esforço, urgência, sobrefluxo e funcional, a proibição de sonda no delirium e as terapias de comportamento — e dois quadros com erros que mudam conduta, registrados em criterio.notas. O Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa, de 2021, repete as medidas de prevenção e nomeia a incontinência funcional, e a Caderneta da Pessoa Idosa, na 6ª edição de 2025, leva os tipos à linguagem da própria pessoa e do cuidador, com o item de continência do IVCF-20.
Para a pele, nenhum desses três documentos federais descreve a dermatite associada à incontinência nem o seu cuidado; a Caderneta limita-se a mandar trocar a fralda molhada e limpar a pele a cada troca. A prevenção hospitalar da lesão por pressão tem régua nacional, ensinada no capítulo de lesão por pressão das Síndromes do Paciente Internado. Na atenção primária, a régua é o protocolo de feridas da rede municipal: este capítulo usa como exemplo o protocolo de enfermagem de Porto Alegre, aprovado por portaria municipal em julho de 2024, que traz as categorias da dermatite associada à incontinência e as medidas de prevenção da lesão por pressão. Na sua rede, vale o protocolo local quando ele existir.
Para os fármacos, a lista brasileira é o consenso de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos publicado em 2016, construído por método Delphi sobre duas listas estrangeiras, a de Beers na edição de 2012 e a STOPP na de 2006. A leitura da carga anticolinérgica total e dos critérios de Beers de 2023 é do capítulo Polifarmácia e prescrição segura no idoso; o que interessa aqui são os critérios que tocam a bexiga e o cérebro, e o que a Rename 2024 oferece em troca.
A primeira pergunta é de tempo, e a segunda é o que mudou
Comece falando com a pessoa, pelo nome, e depois com quem cuida. Pergunte quando a perda começou, e o que a pessoa fazia sozinha antes: ia ao banheiro de dia, tinha escapes à noite, usava absorvente, andava com ajuda. A diferença entre o antes e o agora é o tamanho do que pode voltar. Se a perda começou em dias ou semanas, ou piorou de repente, anote o evento que coincidiu com ela — internação, queda, infecção, remédio novo, mudança de casa ou de cuidador.
Então percorra as causas transitórias uma a uma, como perguntas de consulta. Está mais confusa, sonolenta ou agitada do que era, e isso oscila ao longo do dia? Tem ardência, urgência nova, febre ou dor abaixo do umbigo? Que remédios entraram, saíram ou mudaram de horário nas últimas semanas, inclusive o que a vizinha deu e o que foi comprado sem receita? Quanta água bebe, em que horário, e alguém está restringindo? Toma café, chá preto ou refrigerante à tarde? Quando foi a última evacuação, e como eram as fezes? Consegue levantar e andar como antes? Anda triste, sem vontade de nada?
Depois caracterize a perda. Acontece com tosse e esforço, com uma vontade que não dá tempo, o tempo todo em gotas, só no caminho, só à noite? Quantas vezes por dia e por noite? O que usa para conter — fralda, absorvente, pano — e quantas trocas? A fralda sai encharcada de uma vez ou úmida o tempo inteiro? Levanta à noite para urinar, e já caiu fazendo isso? A distância até o banheiro, a luz do caminho, a grade da cama, a roupa com botão e a altura do vaso entram na mesma lista.
E pergunte por quem cuida: quantas pessoas se revezam, em que horários, quem acorda à noite, quem consegue levantar e virar um adulto, como está o sono e as costas dessa pessoa. O capítulo Avaliação geriátrica ampla e fragilidade traz os instrumentos de sobrecarga do cuidador; aqui a pergunta é prática, porque cada item do plano precisa de um nome ao lado.
Dois registros que o cuidador faz melhor que qualquer exame
O diário miccional é o registro, hora a hora, de quando a pessoa urinou no vaso, quando se molhou e quanto bebeu. O caderno de 2006 traz um modelo simples, com colunas para molhado, seco e micção normal nas 24 horas, e manda incluir a história intestinal. Quem tem cognição preservada preenche sozinho ou com ajuda, por alguns dias seguidos, incluindo as noites. Ele mostra se a perda é de urgência, de esforço ou de trajeto, se há excesso de urina à noite e se o volume de líquido é baixo demais.
Na pessoa com demência, o registro muda de mãos e de forma: é a tabela de checagem do cuidador. Em horários fixos do dia — a cada duas horas, por exemplo, enquanto ela está acordada —, quem cuida anota se a encontrou seca ou molhada, se ofereceu o banheiro e se ela urinou no vaso ou na cadeira higiênica. Em poucos dias aparece o desenho: os horários em que ela sempre está molhada, os intervalos em que se mantém seca, a resposta quando alguém oferece. Essa tabela é o ponto de partida da rotina de micção programada e induzida da conduta, e é também o instrumento de reavaliação.
Os dois registros servem para mais uma coisa: trazer para a consulta a fralda que ninguém conta. Quando a filha anota seis trocas por dia e duas fraldas sobrepostas à noite, o problema da pele aparece antes de a pele ser examinada.
O exame, feito no quarto
Comece pela atenção. Uma pessoa com demência que não sustenta a atenção por alguns segundos, que oscila ao longo da visita ou que está mais sonolenta do que a família descreve como habitual pode estar em delirium; o instrumento e a investigação são do capítulo de delirium das Síndromes do Paciente Internado. Delirium muda a ordem de tudo: a causa dele vem antes da bexiga.
Palpe e percuta o abdome inferior à procura de bexiga distendida, que numa pessoa magra se sente acima do púbis e que não deveria estar lá depois de uma micção. Examine o períneo com boa luz e com a pessoa de lado: a pele da fralda, a mucosa vaginal fina e seca da atrofia, um prolapso que aparece com a tosse. Faça o toque retal com consentimento e privacidade quando houver dias sem evacuar ou fezes líquidas escapando — a ampola cheia de fezes endurecidas muda a conduta do dia, e a técnica e a escada de desimpactação estão no capítulo Constipação, imobilismo e suas consequências. No homem, o mesmo toque avalia a próstata.
Veja as pernas e os pés: edema que se acumula durante o dia volta para a circulação quando a pessoa deita e vira urina de madrugada. Observe a marcha, a força para levantar e a presença de sinal neurológico focal. E faça a prova mais útil e menos feita: peça que a pessoa vá ao banheiro enquanto você observa, e cronometre. Quanto tempo leva para sair da cama ou da poltrona, se precisa de apoio, se o caminho tem tapete, degrau ou porta difícil, se consegue baixar a roupa e sentar no vaso baixo, se levanta sozinha. Uma idosa que leva um minuto e meio até o vaso e sente a urgência trinta segundos antes de perder já explicou a incontinência dela.
Por fim, observe quem cuida trocando a fralda. Dá para ver se esfrega a pele com força, se usa sabão comum, se sobrepõe duas fraldas, se deixa a pele úmida antes de fechar, se aplica creme em camada grossa sobre a pele ainda suja. A técnica da troca é exame físico do cuidado.
Exames: poucos, e cada um com uma pergunta
A glicemia capilar responde se há glicose alta produzindo urina demais, e se faz na visita. Urina tipo I e urocultura só entram com sintoma urinário, febre sem outro foco ou dor suprapúbica: urina turva, cheiro forte e confusão sem sintoma urinário não são indicação, e a bactéria encontrada sem sintoma não se trata no idoso frágil — a regra e o protocolo estão no capítulo de infecção do trato urinário da Nefrologia. Na pessoa com sonda, cultura de rotina também não se colhe, como ensina o capítulo de sondagem vesical. Creatinina entra quando há suspeita de retenção, e cálcio quando há urina demais, constipação e confusão sem explicação.
O resíduo pós-miccional é o exame que separa a bexiga que esvazia da que retém. Meça-o por ultrassonografia de bexiga quando houver aparelho, ou pelo cateterismo de alívio, que diagnostica e trata ao mesmo tempo. Ele é obrigatório quando a perda é contínua, quando a bexiga é palpável, no homem com jato fraco, no diabético com neuropatia, em quem usa anticolinérgico ou opioide, quando a perda persiste depois de afastadas as causas transitórias e antes de qualquer decisão sobre fármaco que atue na bexiga. O caderno de 2006 dá a referência do envelhecimento — resíduo que aumenta, sem passar de 50 a 100 mL. Um resíduo de centenas de mililitros não é envelhecimento: é retenção, com trilho próprio no capítulo de hiperplasia prostática e retenção urinária.
O estudo urodinâmico não é pré-requisito para começar o cuidado conservador; o protocolo de 2020 o reserva a situações como falha do tratamento inicial e resíduo significativo, e numa pessoa idosa com demência e perda funcional ele raramente muda o que se faz em casa. Swab de superfície de ferida também não entra: o capítulo de lesão por pressão explica por que cultura de superfície devolve colonização e não infecção.
A pele e a pressão: risco, inspeção e quem estadia
Toda pessoa idosa acamada ou que passa o dia na cadeira, incontinente, desnutrida ou que não muda de posição sozinha tem risco alto de lesão por pressão, e o risco se registra na primeira visita. A enfermagem usa a escala de Braden, cujas faixas e medidas por faixa estão no capítulo de lesão por pressão; o que o protocolo de Porto Alegre acrescenta para a atenção primária é o uso da escala para planejar os cuidados em casa e a atenção à pele negra, em que o eritema inicial pode não aparecer.
A inspeção é feita a cada troca de fralda, e é por isso que ela precisa ser ensinada a quem troca. Sacro, cóccix, nádegas, trocânteres, calcanhares, maléolos, cotovelos e nuca, além da pele sob sonda, fixação ou elástico. Sobre qualquer vermelhidão localizada, faça o teste do dedo: pressione por alguns segundos e solte. Se a cor volta a clarear, a pele ainda está íntegra; se não clareia, já é lesão por pressão, e o estadiamento e a conduta são do capítulo de lesão por pressão. Em pele escura, compare a temperatura, a consistência e a dor com a pele vizinha.
A vermelhidão difusa da área da fralda é categorizada como dermatite associada à incontinência. O protocolo de Porto Alegre usa a ferramenta de categorização de Gante, que separa o rubor persistente da perda de pele e, em cada um, a presença ou não de sinais de infecção — como a descamação esbranquiçada e as pústulas em volta da lesão que sugerem fungo. Essa categoria decide a intensidade do cuidado local e a necessidade de antifúngico.
Complete com peso, ingestão e hidratação. A diretriz BRASPEN de nutrição no envelhecimento põe a meta de proteína do idoso com doença aguda ou crônica entre 1,2 e 1,5 g por quilo por dia, a mesma faixa que o capítulo de lesão por pressão usa; numa idosa de 48 kg, são cerca de 58 a 72 g por dia. E registre o que a família tem em casa: colchão, cadeira, travesseiros, número de pessoas e horas disponíveis. A prevenção que não cabe nesses recursos não sai do papel.
Na instituição de longa permanência, a mesma avaliação passa pelo livro de registro e pelos turnos. Pergunte quem troca a fralda e se a troca é feita quando a fralda está molhada ou num horário fixo igual para todos; se a mudança de posição tem registro por turno e quem o confere; quantos colchões de redistribuição de pressão existem e para quantos residentes acamados; quanto a residente come e bebe, anotado por quem a alimenta; e se alguém da equipe da instituição foi ensinado a fazer o teste do dedo. A troca por turno, igual para todos, costuma produzir dependência e dermatite; a rotina de banheiro individual, escrita na tabela de checagem, é o que a equipe da atenção primária pode propor, ensinar e acompanhar na visita.
Cuidar da continência e da pele preservando função e conforto
Aprenda a comparar o estado atual com o basal, procurar causas reversíveis de perda urinária e distinguir dermatite associada à incontinência de lesão por pressão. O plano deve ser possível para a pessoa e para quem cuida, com reavaliação e objetivos explícitos. Três decisões organizam este bloco, na ordem em que aparecem na visita: que causa transitória explica a perda nova, que tipo persiste depois de afastadas as causas e quem conduz cada um, e se a vermelhidão da fralda é dermatite ou pressão. Os eixos das tabelas são desta apostila; os números e as regras vêm das fontes citadas. As notas registram quatro erros de documento oficial que mudam o que se faz.
- 1Perda nova, ou piorada em dias ou semanas: trate como incontinência transitória até prova em contrário e não registre o tipo definitivo antes de percorrer as causas.
- 2Atenção que oscila, sonolência ou agitação nova: delirium. A causa dele vem primeiro, e a sonda vesical não entra — o caderno federal de 2006 adverte que ela causa ou agrava o delirium.
- 3Perda contínua, bexiga palpável, jato fraco, diabetes com neuropatia ou anticolinérgico em uso: meça o resíduo pós-miccional. Resíduo de centenas de mililitros é retenção: esvazie a bexiga e siga o capítulo de hiperplasia prostática e retenção urinária — fralda e dispositivo externo não são solução.
- 4Fármaco que entrou ou mudou nas semanas da perda: suspenda, substitua ou mude o horário antes de prescrever qualquer coisa nova.
- 5Dias sem evacuar ou fezes líquidas escapando: toque retal. Fecaloma se trata antes da bexiga, pela escada do capítulo de constipação.
- 6Sintoma urinário verdadeiro ou febre sem outro foco: investigue infecção. Bactéria na urina sem sintoma não explica a perda e não se trata.
- 7Glicose alta, diurético à tarde, café à noite ou edema que volta ao deitar: corrija o volume e o horário, sem restringir a água do dia.
- 8Afastadas as causas, classifique o que persiste. Cognição preservada com urgência ou esforço: capítulo de incontinência de esforço e de urgência. Demência, marcha ou ambiente impedindo o trajeto: rotina de micção programada e induzida, ambiente e cuidador, conduzidos por este capítulo.
- 9Antimuscarínico urinário na pessoa idosa com demência, delirium, constipação crônica, glaucoma ou resíduo alto: não prescreva. Nenhum consta da Rename 2024.
- 10Fralda só depois de a rotina ser tentada, e no período em que ela não alcança — a noite, a saída de casa, o fim de vida —, com troca quando molhada e cuidado da pele a cada troca.
- 11Vermelhidão difusa na área da fralda: categorize a dermatite e cuide com limpeza suave e barreira. Vermelhidão localizada sobre osso que não clareia: lesão por pressão, com estadiamento e cobertura pelo capítulo das Síndromes do Paciente Internado e plano de reposicionamento que a família consiga cumprir.
- 12Sonda de demora mantida por incontinência ou por conveniência: retire, com a vigilância das seis horas ensinada no capítulo de sondagem vesical.
- 13Declínio global, ingestão cada vez menor e lesão que surge em dias apesar do cuidado: a conversa passa a ser sobre objetivos de cuidado, com o capítulo de cuidados paliativos.
O que a Rename 2024 oferece para a bexiga e para a pele da pessoa idosa
Para a urgência, nada: oxibutinina, tolterodina, solifenacina, darifenacina, fesoterodina, tróspio e mirabegrona estão fora do elenco, em linha com a recomendação contrária da Conitec de 2019. A amitriptilina consta do Componente Básico em comprimidos de 25 e 75 mg, mas é tricíclico altamente anticolinérgico, listado como inapropriado para idosos pelo consenso brasileiro. Para o homem com hiperplasia prostática, doxazosina 2 e 4 mg e finasterida 5 mg constam do Básico, e o uso delas é do capítulo de hiperplasia prostática; os antagonistas alfa-adrenérgicos estão entre os fármacos que o caderno de 2006 lista como capazes de causar incontinência. Para a atrofia vaginal, estrogênios conjugados em creme vaginal a 0,625 mg/g, pelo capítulo de terapia hormonal. Para a pele, pasta de óxido de zinco a 25% como barreira e nitrato de miconazol creme a 2% quando há fungo, ambos no Básico. Fralda, película polimérica, creme barreira industrializado e coberturas de ferida não fazem parte da Rename: a disponibilidade deles depende da rede local.
Perda nova no idoso: a causa que se procura antes do rótulo
| Causa | Pista na consulta ou na visita | O que se faz antes de pensar na bexiga | Onde está o manejo completo |
|---|---|---|---|
| Delirium | Atenção que oscila, sonolência ou agitação nova, piora à noite, internação recente | Procurar e tratar a causa; manter óculos, aparelho auditivo e acompanhante; não passar sonda | Delirium no idoso internado |
| Infecção urinária sintomática | Ardência, urgência nova, febre, dor suprapúbica; urina turva sozinha não conta | Confirmar e tratar; se a perda não ceder com a infecção tratada, procurar outra causa em vez de repetir antibiótico | Infecção do trato urinário e pielonefrite no adulto |
| Fármaco | Receita nova ou mudada nas semanas da perda: sedativo, anti-histamínico de primeira geração, tricíclico, antipsicótico, opioide, diurético, alfabloqueador, bloqueador de canal de cálcio | Suspender, substituir ou mudar o horário; diurético pela manhã | Polifarmácia e prescrição segura no idoso |
| Urina demais | Sede e perda de peso com glicemia alta, diurético à tarde, cafeína ou álcool à noite, edema de pernas que some ao deitar | Glicemia capilar; tratar a hiperglicemia; ajustar o horário do diurético e da cafeína | Este capítulo; diabetes e insuficiência cardíaca nas apostilas próprias |
| Mobilidade que caiu | Internação, queda recente, dor, repouso sem prescrição, grade na cama, medo de cair | Tirar da cama, cadeira higiênica ao lado, caminho iluminado, fisioterapia; nunca repouso como proteção | Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade |
| Fecaloma | Dias sem evacuar, barriga distendida, fezes líquidas manchando a fralda, agitação na demência | Toque retal, desimpactação pela escada e laxante de manutenção | Constipação, imobilismo e suas consequências |
| Retenção | Perda contínua em gotas, bexiga palpável, jato fraco, anticolinérgico ou opioide em uso | Resíduo pós-miccional; esvaziar a bexiga; retirar o fármaco que retém | Hiperplasia prostática benigna, STUI e retenção urinária aguda |
| Atrofia urogenital | Mucosa vaginal fina e seca, ardência, urgência com infecções de repetição | Tratamento local com estrogênio vaginal | Terapia hormonal da menopausa, na apostila de Ginecologia |
| Depressão grave | Desinteresse pela perda, falta de iniciativa para ir ao banheiro, isolamento | Rastrear e tratar a depressão; não restringir líquido | Transtorno depressivo maior, na apostila de Psiquiatria |
O que persiste depois de afastadas as causas
| Tipo | Como aparece na pessoa idosa | Primeiro passo | Quem conduz |
|---|---|---|---|
| Urgência com cognição preservada | Vontade súbita que não dá tempo, várias micções de dia e à noite, perda antes de chegar | Treinamento vesical, ajuste de cafeína e de horário de líquidos, tratar constipação; resíduo antes de qualquer fármaco | Incontinência urinária de esforço e de urgência, na Ginecologia |
| Esforço | Perda em pequeno volume com tosse, riso, espirro ou ao levantar peso | Treinamento dos músculos do assoalho pélvico; tratar a tosse crônica; revisar alfabloqueador | Incontinência urinária de esforço e de urgência, na Ginecologia |
| Funcional | Perda no caminho, por não achar, não alcançar ou não conseguir usar o vaso; fica seca quando alguém a leva ao banheiro | Micção programada e induzida pelo cuidador, ambiente, roupa fácil de baixar, cadeira higiênica | Este capítulo |
| Urgência com demência | Urgência e dificuldade de trajeto somadas; escapes nos horários sem cuidador | Rotina de micção induzida e ambiente, sem antimuscarínico | Este capítulo |
| Transbordamento | Gotejamento contínuo, fralda sempre úmida, bexiga palpável, resíduo alto | Esvaziar a bexiga e retirar o que retém; nem antimuscarínico, nem fralda como solução | Hiperplasia prostática benigna, STUI e retenção urinária aguda |
| Mista | Urgência e esforço na mesma pessoa, frequentemente com componente funcional | Começar pelo que se desfaz em casa e pelo componente que mais incomoda | Ginecologia para urgência e esforço; este capítulo para o componente funcional |
Na pele de quem usa fralda: dermatite ou pressão
| O que se observa | Dermatite associada à incontinência | Lesão por pressão |
|---|---|---|
| Onde | Área da fralda: períneo, nádegas, sulco entre elas, raiz das coxas, abdome inferior | Sobre proeminência óssea — sacro, cóccix, calcanhares, trocânteres — ou sob dispositivo |
| Extensão e borda | Difusa, maior que a proeminência, borda irregular e mal definida | Localizada, com o contorno do osso ou do dispositivo |
| Profundidade | Superficial: rubor, maceração, erosão rasa, sem necrose | Do eritema que não clareia à perda de pele, com possível tecido desvitalizado |
| Teste do dedo | Rubor inflamatório que regride em dias com limpeza e barreira | Vermelhidão que não clareia à pressão já é lesão |
| Pele escura | Pálida ou de púrpura a vermelho | Diferença de temperatura, endurecimento e dor na área |
| Sinal de fungo | Descamação esbranquiçada e pústulas em volta da lesão | Não é característico |
| O que muda a conduta | Limpeza suave, barreira, fralda sem sobreposição e controle da causa da perda; antifúngico só com fungo | Alívio total de carga naquele ponto; estadiamento e cobertura pelo capítulo de lesão por pressão |
Caderno de Atenção Básica nº 19 (Ministério da Saúde, 2006), Quadro 18, p. 98, conferido na página renderizada: na linha “Psicológicas”, o tratamento indicado é limitar a ingestão de líquidos a 1,5 litro por dia, não tomá-los depois das 20 horas e encaminhar as outras causas ao especialista. Conta das linhas: o texto das p. 93 e 94 descreve a causa psicológica como depressão grave e ideias delirantes e lista, em item próprio, o excesso de débito urinário por hiperglicemia, hipercalcemia, diurético, cafeína e álcool; o quadro tem oito linhas, nenhuma para o excesso de débito, e a única orientação que trata volume de urina caiu na linha da depressão. Seguido ao pé da letra, o idoso deprimido que deixou de se importar com a perda sai com restrição de água e encaminhamento, sem tratamento da depressão, e a poliúria fica sem linha. Esta apostila trata a depressão pelo capítulo de Psiquiatria e reserva o ajuste de líquido e de horário para quem produz urina demais.
Mesmo caderno, Quadro 19, p. 98, conferido na página renderizada: o tratamento primário do sobrefluxo é “Cirúrgico” e “Uso de fraldões ou sonda externa”. O Quadro 15 do mesmo capítulo define o sobrefluxo como perda sobre a bexiga distendida pela retenção e põe entre as causas a bexiga hipocontrátil do diabetes e da lesão medular, que nenhuma cirurgia de saída corrige. Conta do que fica na bexiga: fralda e dispositivo externo recolhem só o que transborda; se o resíduo medido é de 600 mL, depois da troca da fralda ele continua de 600 mL e continua distendendo a bexiga e pressionando o trato urinário acima dela. Nenhuma das duas linhas esvazia a bexiga, e o cateterismo de alívio ou intermitente não aparece no quadro. Esta apostila trata o sobrefluxo esvaziando a bexiga, pelo capítulo de retenção urinária.
Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa (Ministério da Saúde, 2021), seção 8.1.4, p. 77: a lista de tipos define a incontinência “por transbordamento (bexiga hiperativa ou síndrome de urgência)” como gotejamento ou perda contínua com esvaziamento incompleto, por contração deficiente do detrusor ou obstrução de saída. Conta dos itens: dois itens acima, a mesma lista define a incontinência de urgência pela urgência miccional com polaciúria e noctúria, que é o quadro chamado de bexiga hiperativa. O parêntese dá ao transbordamento, em que a bexiga não esvazia, o nome do quadro oposto, em que ela contrai demais. Quem segue o rótulo chega ao tratamento da urgência, o antimuscarínico, que reduz ainda mais a força de contração e aumenta o resíduo de quem já retém. O erro foi conferido no texto extraído, com os itens da lista contíguos; a página não renderiza no arquivo disponível.
Protocolo de enfermagem na atenção primária de Porto Alegre (2024), Quadro 14, p. 60-61: nas caixas de cuidado da dermatite associada à incontinência com rubor persistente e com perda de pele sem infecção, a instrução é usar produtos com pH neutro; na nota geral do mesmo quadro, agentes de limpeza com pH levemente acidificado, com o sabonete líquido infantil como exemplo. Conta: pH neutro é 7 e levemente ácido é abaixo de 7, e nenhum produto cumpre as duas instruções ao mesmo tempo; quem lê só a caixa da categoria, ao lado da foto da lesão, compra o sabonete dito neutro. Esta apostila adota a nota geral — limpador suave levemente ácido, aplicado sem esfregar —, por ser a instrução escrita para a limpeza da pele afetada e a coerente com a superfície da pele, que é ácida; a escolha é leitura desta apostila, e não de fonte.
A conduta, hora a hora
A conduta da incontinência transitória começa por tirar, e não por acrescentar: tirar a sonda que não tem motivo, o sedativo que apaga a madrugada, o diurético da hora errada, a restrição de água, o fecaloma e a cama. Só depois de tirar se sabe o que sobrou, e o que sobra na pessoa com demência se trata com rotina, ambiente e cuidador, e não com antimuscarínico. A pele e a pressão entram na mesma visita, porque são cuidadas pelas mesmas mãos e nas mesmas horas.
A fralda, quando entra, entra como prescrição, e prescrição tem cinco partes. Para quê: conter a perda que a rotina não alcança, e não substituir a rotina. Em que período: a noite, a saída de casa, a fase final da doença — escrito, para que a fralda da noite não vire a fralda do dia inteiro. Qual tipo: a roupa íntima descartável, que se abaixa como uma calcinha, para quem ainda anda até o vaso; a fralda com fitas, para quem vive deitado; o absorvente, para a perda pequena; e, no homem sem retenção, o coletor externo, que o capítulo de sondagem vesical põe entre as alternativas à sonda. Quando trocar: sempre que molhada, como manda a Caderneta da Pessoa Idosa, e não num horário fixo que deixa a pele de molho. E como cuidar da pele a cada troca, com uma fralda por vez, no tamanho certo — apertada, marca a pele no elástico; frouxa, vaza.
A linha do tempo abaixo é a de Dona Brazilina Guimarães, 86 anos, 48 kg, com doença de Alzheimer, na primeira semana depois de uma internação por pneumonia. As prescrições são as de uma visita domiciliar da equipe de saúde da família; o que exige outro capítulo está nomeado em cada marco.
Visita domiciliar, primeiros 15 minutos — o antes, o agora e o que veio do hospital
Você cumprimenta Dona Brazilina pelo nome, explica quem é e pergunta a ela se tem perdido urina. Ela diz que não, e que precisa ir embora para a fazenda. Então, com a filha na sala ao lado, você reconstrói o antes: até três semanas atrás, andava com apoio, ia sozinha ao banheiro de dia e tinha um ou dois escapes noturnos por semana. O agora é outra pessoa, e a diferença entre as duas é o tamanho do que pode voltar. Você lê o resumo de alta procurando a indicação da sonda e não a encontra; lê a sacola item por item e põe as datas lado a lado com a data da perda.
Prescrição- Registro do antes: deambulava com apoio, continente de dia, um a dois escapes noturnos por semana, sem fralda
- Registro do agora: sonda vesical de demora sem indicação escrita desde a admissão, fralda contínua, restrita ao leito há cinco dias
- Registro dos eventos de três semanas: pneumonia com delirium na internação; prometazina 25 mg toda noite desde a alta; hidroclorotiazida mudada para as 18 h; água restrita a três copos, nada depois das 17 h; cinco dias sem evacuar, com fezes líquidas na fralda ontem
- Hipótese em uma frase: incontinência transitória sobre incontinência funcional prévia, com causas removíveis identificadas; vermelhidão sacral e dermatite da fralda a examinar
Mesma visita — o exame no quarto
A atenção de Dona Brazilina sustenta alguns segundos e escapa, e a filha diz que ela está melhor a cada dia, mas ainda não voltou a ser quem era: é um delirium em resolução, sem sinal de causa nova — sem febre, sem piora da respiração, com glicemia capilar normal —, e a investigação dele segue o capítulo de delirium se a melhora parar. A bolsa drena urina turva, sem febre e sem dor, e isso não pede cultura. O toque retal, feito com consentimento da filha e explicação à paciente, encontra a ampola cheia de fezes endurecidas. A pele da fralda tem rubor persistente e brilhante, sem perda de pele e sem pústulas; sobre o sacro, a mancha de quatro centímetros não clareia ao teste do dedo; os calcanhares clareiam. As pernas não têm edema. Ainda há delirium, portanto revisar nesta visita sinais vitais, oxigenação, hidratação, medicamentos, dor, retenção e impactação; pedir exames dirigidos quando o exame indicar. Estar melhorando não dispensa a procura de fatores persistentes. Consentimento para exame íntimo considera capacidade para aquela decisão, explicação à paciente, assentimento quando possível e representação adequada; a filha não substitui automaticamente uma paciente capaz.
Prescrição- Atenção flutuante, melhorando segundo a filha; sem febre, sem desconforto respiratório, glicemia capilar de 128 mg/dL
- Sem urina tipo I e sem urocultura: urina turva em sonda, sem febre, dor ou outro sintoma
- Toque retal: ampola com fezes endurecidas
- Pele: dermatite associada à incontinência com rubor persistente, sem sinal de infecção; vermelhidão sacral que não clareia — lesão por pressão, estadiada pela enfermagem pelo capítulo de lesão por pressão; calcanhares íntegros
Mesma visita — a sonda sai hoje
A sonda foi passada para controlar a urina de uma paciente confusa, e nenhuma das indicações que a sustentariam está presente: não há retenção documentada, não há necessidade de medir diurese hora a hora, não há ferida aberta que a urina contamine. Ela mantém Dona Brazilina deitada, pode restringir a mobilidade e perpetuar dependência, é porta de entrada de infecção e, segundo o caderno federal de 2006, causa ou agrava o delirium. A retirada é da enfermagem da equipe, na própria visita, e o protocolo das seis horas seguintes, ensinado no capítulo Sondagem vesical de alívio e de demora, vira instrução para a filha.
Prescrição- Retirar sonda sem indicação pela equipe capacitada, após confirmar plano de observação e acesso a avaliação nas horas seguintes; registrar horário. Não fazer pinçamento ou “treino vesical” de rotina antes da retirada
- Nas 6 horas seguintes, oferecer a cadeira higiênica ou o vaso a cada 2 horas e anotar se urinou
- Sem urina em 6 horas, ou barriga dolorida e estufada acima do púbis: a filha liga para a unidade no mesmo turno, para avaliação de retenção
- Sem antibiótico: urina turva sem sintoma não é infecção a tratar
Mesma visita — o que sai da sacola e o que volta para o copo
A prometazina sai hoje: é anti-histamínico de primeira geração, listado pelo consenso brasileiro entre os fármacos a evitar no idoso pela sedação e pelos efeitos anticolinérgicos — confusão, boca seca, constipação —, e está produzindo pelo menos três das causas que você encontrou. A agitação da madrugada passa a ser conduzida pelo capítulo de demências, com rotina, luz e presença. A hidroclorotiazida volta para a manhã. A água deixa de ser racionada. O fecaloma é desfeito na visita pela escada do capítulo Constipação, imobilismo e suas consequências, e a manutenção começa no mesmo dia. A donepezila fica: ela sustenta a cognição, e a lembrança de que é colinomimética fica anotada para a decisão da semana 3.
Prescrição- Suspender cloridrato de prometazina 25 mg
- Reavaliar necessidade, pressão, volemia e eletrólitos antes de manter hidroclorotiazida; se indicada, preferir administração pela manhã. Mudar o horário não corrige uma prescrição sem benefício ou com desidratação
- Cloridrato de donepezila 10 mg mantido no horário habitual
- Suspender a restrição de água: um copo oferecido a cada ida ao banheiro e a cada refeição, com a maior parte do líquido até o fim da tarde; sem café nem chá preto depois do almoço
- Desimpactação hoje pela equipe, a partir do degrau mais baixo da escada retal do capítulo de constipação
- Após tratar a impactação e afastar obstrução, lactulose inicialmente 15 mL/dia, ajustada à resposta e ao protocolo, evitando diarreia e desidratação. O valor de 30 mL/dia do esquema anterior não deve ser ensinado como teto farmacológico universal
Mesma visita — a pele, a pressão e um plano que caiba em quem cuida
A dermatite da fralda se cuida com limpeza suave e barreira, e a lesão sacral, com alívio total de carga: o sacro sai do plano de posições, e Dona Brazilina não volta a deitar de costas sobre ele enquanto a mancha não clarear. O cronograma precisa ser escrito com os nomes de quem vai cumpri-lo. De dia, a mudança de lado acontece a cada duas horas, na mesma passagem da fralda e da oferta do banheiro. À noite, com a filha e o genro revezando, o plano desta apostila começa em três horas e se mede pela pele: se a área em que ela esteve deitada estiver vermelha ao virar, o intervalo volta a duas horas, e o que falta passa a ser outra pessoa na escala ou uma superfície de pressão alternada, e não a filha acordada a noite inteira.
Prescrição- Pele da fralda: limpar a cada troca com água morna e limpador suave levemente ácido, sem esfregar; secar por toque; pasta de óxido de zinco a 25% em camada fina sobre a pele limpa e seca; uma fralda por vez, nunca sobreposta; trocar sempre que molhada
- Sacro: alívio total de carga — decúbito lateral direito e esquerdo a 30 graus, com travesseiro nas costas, sem decúbito dorsal pleno até a mancha clarear
- Aliviar pressão dos calcanhares com apoio sob as panturrilhas, sem comprimir o tendão; ajustar cabeceira para reduzir cisalhamento quando possível, mas priorizar segurança respiratória, prevenção de aspiração e conforto
- Cronograma individual de reposicionamento, com responsáveis e horários: intervalos iniciais de 2–3 horas podem ser usados neste exemplo, revistos pela pele, mobilidade, superfície e conforto. Não há intervalo único seguro para todos, e uma superfície especial não elimina a necessidade de reposicionar
- Providenciar superfície de redistribuição de pressão adequada, como espuma de alta especificação ou pressão alternada segundo avaliação e recursos; manter reposicionamento. Evitar almofada em anel e improvisos com luvas ou bolsas de água
- Meta de proteína de 58 a 72 g por dia (1,2 a 1,5 g/kg), com nutricionista da equipe multiprofissional e registro diário da aceitação
Dias 1 a 7 — tirar da cama e levar ao banheiro
Na visita do terceiro dia, Dona Brazilina urinou na cadeira higiênica três horas depois da retirada da sonda, evacuou duas vezes e está mais acordada de dia. A cama deixa de ser o lugar dela: o guia federal de reabilitação de 2021 manda evitar repouso no leito e restrição de mobilidade como forma de proteção, e a fisioterapia da equipe multiprofissional começa a treinar levantar, transferir e andar até o banheiro. A filha passa a preencher a tabela de checagem e aprende a micção induzida, que é o tratamento da parte funcional da perda: em horários fixos, perguntar, conferir, oferecer, levar e elogiar, sem nunca repreender a roupa molhada.
Prescrição- Fisioterapia da equipe multiprofissional: sentar, levantar, transferir para a cadeira higiênica e caminhar acompanhada até o banheiro
- Na cama, subir e virar com o lençol, entre duas pessoas, sem arrastar o corpo sobre o colchão; sentada, apoio nos pés e troca do peso de lado a cada período, sem ficar escorregada na cadeira
- Cadeira higiênica ao lado da cama à noite, luz do caminho acesa e porta do banheiro sem tranca, pelo capítulo de quedas
- Roupa de dia com elástico na cintura, sem botão nem zíper
- Tabela de checagem nas horas acordada: seca ou molhada, banheiro oferecido, urinou ou não
- Micção induzida a cada 2 horas acordada: perguntar se está seca, conferir, oferecer o banheiro, levar se aceitar, elogiar quando urinar no vaso ou estiver seca, sem repreender quando estiver molhada
Semana 3 — o que sobrou e o comprimido que não entra
A atenção voltou ao que a filha reconhece como a mãe dela. A tabela mostra Dona Brazilina seca na maioria das checagens diurnas, com um escape por dia, quase sempre antes de chegar ao vaso, e uma ou duas fraldas molhadas por noite. A mancha sacral clareia, e a pele da fralda está íntegra. O que persiste é urgência com dificuldade de trajeto numa pessoa com demência — e a filha pede de novo o remédio da vizinha. O resíduo pós-miccional medido é de 70 mL, dentro do que o envelhecimento produz. A resposta é não, e ela tem motivo escrito: na demência, a oxibutinina está na lista brasileira de inapropriados pelo risco de confusão; ela se opõe à donepezila no cérebro; o ganho medido na urgência foi menor que um episódio por dia; e nenhum antimuscarínico está na Rename 2024. A fralda noturna fica, agora como escolha que protege o sono dela e o da filha. O resíduo de 70 mL é interpretado com sintomas e contexto, sem um limite universal de normalidade. A decisão de evitar oxibutinina nesta paciente decorre da carga cognitiva, intestinal e funcional; não significa ausência de qualquer opção farmacológica para toda pessoa com demência. Persistência de sofrimento apesar das medidas iniciais justifica discussão especializada de alternativas e objetivos.
Prescrição- Resíduo pós-miccional por ultrassonografia: 70 mL
- Antimuscarínico considerado e não prescrito: demência em uso de donepezila; motivo registrado no prontuário
- Micção induzida mantida de dia; fralda noturna como escolha, com a cadeira higiênica oferecida quando ela acordar
- De dia em casa, calcinha com absorvente; roupa íntima descartável só para sair
- Adaptar o plano de alívio de pressão à mobilidade recuperada, incluindo tempo na cadeira e período noturno; não suspender toda prevenção apenas por passar o dia fora da cama. Manter inspeção da pele
Semana 8 — o plano escrito, quem cuida e quando voltar antes
O plano sai do prontuário e vai para a geladeira, em letra grande, com horário de banheiro, líquido do dia, laxante, cuidado da pele e sinais de alarme. A filha dorme quase a noite inteira e voltou a trabalhar meio período, com a vizinha e o marido escritos na escala. O que se combina para o futuro é também uma conversa: a doença de Alzheimer vai avançar, e haverá um momento em que Dona Brazilina deixará de andar e comerá menos; nessa fase, a pele pode abrir apesar de todo o cuidado, e isso será motivo para rever os objetivos com a equipe, e não para culpar quem cuida.
Prescrição- Plano escrito entregue à família: horários de banheiro, líquido, lactulose, cuidado da pele e sinais de alarme
- Voltar no mesmo dia se houver febre, ardência ou dor para urinar, perda contínua em gotas, barriga estufada sem urinar, confusão ou sonolência nova, fezes líquidas depois de dias sem evacuar, mancha que não clareia, bolha ou ferida aberta
- Sobrecarga da cuidadora avaliada pelo instrumento do capítulo de avaliação geriátrica ampla, com a escala de revezamento registrada
- IVCF-20 refeito no prazo do estrato, com as duas vozes, e depois de toda internação, queda ou mudança de prescrição
- Registro: incontinência funcional com urgência, sem causa transitória ativa; antimuscarínico não indicado, com o motivo
Como saber se está funcionando
Reavaliar a incontinência transitória é conferir se cada causa removida levou embora a parte da perda que era dela, e reavaliar a funcional é ler a tabela de checagem do cuidador. A pele e a pressão são reavaliadas a cada troca por quem cuida e a cada visita pela equipe. Quando algo não melhora, a pergunta raramente é qual remédio acrescentar; quase sempre é qual causa ficou para trás ou qual parte do plano a família não conseguiu cumprir.
Esperado: Urina espontânea na cadeira higiênica, no vaso ou na fralda nas primeiras horas, sem barriga estufada nem dor acima do púbis
Se não melhora: Sem urina em 6 horas ou bexiga palpável: avaliação de retenção no mesmo turno, pelo capítulo de sondagem vesical, com revisão do que retém — anticolinérgico, opioide, fecaloma
Esperado: Volta ao que a família reconhece como a linha de base da demência em dias depois da retirada do sedativo, da sonda e do fecaloma
Se não melhora: Delirium que não resolve pede nova procura de causa pelo capítulo de delirium; declínio que persiste semanas depois vai ao capítulo de demências, e não é atribuído à bexiga
Esperado: Retorno ao hábito intestinal prévio, sem fezes líquidas escapando na fralda
Se não melhora: Toque retal de novo antes de aumentar o laxante, e ajuste pela escada e pelo teto do capítulo de constipação
Esperado: Menos checagens molhadas de dia e mais micções no vaso quando o banheiro é oferecido
Se não melhora: Rever causa transitória esquecida, medir o resíduo e checar se as ofertas acontecem nos horários; se, com a rotina cumprida, as ofertas não reduzem as fraldas molhadas, o objetivo muda de continência para conforto e pele, com fralda trocada quando molhada
Esperado: Rubor regredindo em dias com limpeza suave, barreira e fralda sem sobreposição, até a pele íntegra
Se não melhora: Procurar fralda saturada, fraldas sobrepostas, fricção na limpeza e fezes líquidas; pústulas e descamação em volta sugerem fungo, tratado pelo capítulo de micoses superficiais; perda de pele muda a categoria e o cuidado local
Esperado: A vermelhidão sacral volta a clarear ao teste do dedo, e nenhum ponto novo aparece
Se não melhora: Bolha, área arroxeada ou pele aberta vão ao estadiamento e à cobertura do capítulo de lesão por pressão; vermelhidão presente ao virar encurta o intervalo, e a falta de mãos à noite pede outra pessoa na escala ou superfície de pressão alternada
Esperado: Peso estável ou subindo, com a meta de proteína atingida na maior parte dos dias
Se não melhora: Nutricionista da equipe multiprofissional, revisão de deglutição, dentição e humor; perda progressiva com declínio global e menos tempo acordada muda a conversa para objetivos de cuidado, pelo capítulo de cuidados paliativos
Onde o erro machuca
O dano: A fralda contém a perda e esconde a pergunta. A idosa que começou a perder urina porque tomou um sedativo, ficou com fecaloma ou deixou de andar ganha um rótulo definitivo, perde o hábito de ir ao banheiro e a musculatura da marcha, e passa a ter pele de fralda e risco de lesão por pressão. A causa removível continua lá.
Como pegar a tempo: Toda perda nova ou piorada em dias recebe a lista de causas transitórias antes de qualquer contenção. A fralda entra depois, com período definido — a noite, a saída, o fim de vida — e escrita como conduta, e não como resposta automática.
O dano: A oxibutinina bloqueia no cérebro o que a donepezila tenta estimular, aumenta o risco de confusão e agitação, prende o intestino e aumenta o resíduo. O consenso brasileiro a lista como inapropriada na demência, e o ganho medido na urgência foi menor que um episódio por dia. No SUS, a família compra do próprio bolso o fármaco que piora a cognição.
Como pegar a tempo: Na demência, no delirium, na constipação crônica, no glaucoma e no resíduo alto, a resposta é rotina de micção induzida, ambiente e revisão da lista. Na pessoa idosa de cognição preservada, a decisão segue o capítulo de incontinência de esforço e de urgência, com resíduo medido e carga anticolinérgica somada.
O dano: A urina fica concentrada e mais irritante, o intestino resseca e forma fecaloma, o risco de desidratação, de delirium e de queda aumenta — e a perda não diminui, porque a causa não era o volume. A restrição costuma ser feita pela família, calada, e só aparece se alguém perguntar.
Como pegar a tempo: Pergunte quanto a pessoa bebe e se alguém está racionando. Oriente ingestão suficiente para não desidratar, concentrada durante o dia e reduzida à noite, sem café e chá preto depois do almoço; restrição com número só quando outra doença a exige, prescrita pelo capítulo dessa doença.
O dano: A sonda que “veio do hospital” prende a pessoa à cama, é porta de infecção, gera cultura positiva que ninguém devia ter colhido e, na pessoa confusa, causa ou agrava o delirium. Em casa e na instituição, ela vira rotina porque poupa trocas de fralda.
Como pegar a tempo: Pergunte a indicação nominal da sonda na primeira visita. Sem indicação viva, retire no mesmo dia, com a vigilância das seis horas do capítulo de sondagem vesical. A exceção é nominal e temporária, como a lesão de pele aberta em incontinente, e tem critério de retirada escrito.
O dano: Cobertura de ferida sobre dermatite úmida e extensa abafa a pele e não resolve a causa; creme sobre uma lesão por pressão sem aliviar a carga deixa o osso continuar esmagando o tecido. Esfregar a pele com sabão comum, sobrepor duas fraldas e passar hidratante como se fosse barreira pioram as duas.
Como pegar a tempo: Pergunte onde está e se clareia. Difusa na área da fralda é dermatite: limpeza suave levemente ácida, secar por toque, barreira de óxido de zinco, uma fralda por vez. Localizada sobre osso e sem clarear é pressão: alívio total de carga naquele ponto, estadiamento e cobertura pelo capítulo de lesão por pressão.
O dano: “Virar de duas em duas horas, dia e noite” entregue a uma filha sozinha, com dor nas costas e emprego, dura três noites. Depois dele não sobra plano nenhum, sobra culpa, e a lesão aparece no intervalo em que ninguém conseguiu levantar.
Como pegar a tempo: Escreva o cronograma com os nomes de quem vai cumpri-lo, agrupe a mudança de posição com a troca da fralda e a oferta do banheiro, confira o intervalo pela pele e, quando faltam mãos à noite, peça outra pessoa na escala ou superfície de pressão alternada, e não uma madrugada inteira da cuidadora.
O que dizer ao paciente e à família
Quase todo o tratamento deste capítulo é executado por quem cuida, em casa, sem a equipe presente. A fala certa, na hora certa, decide se a sonda sai sem pânico, se a vermelhidão vira culpa ou plano, se a rotina de banheiro é cumprida e se o remédio da vizinha é recusado sem que a família saia se sentindo sem ajuda. As falas abaixo são da visita a Dona Brazilina e das semanas seguintes.
Abrir a conversa com Dona Brazilina, e não sobre ela
““Dona Brazilina, bom dia, eu sou o estudante que veio com a enfermeira. Posso sentar aqui e conversar com a senhora um pouquinho? A senhora tem sentido vontade de fazer xixi e às vezes não dá tempo de chegar?””
Não diga: “Pode falar comigo, ela não entende mais.” Falar da pessoa com demência como se ela não estivesse ali confirma a vergonha, tira dela o pouco que ainda consegue contar e ensina à família que ela deixou de ser ouvida.
A filha pergunta se a mancha no sacro é culpa dela
““Essa mancha é o começo de uma lesão por pressão. Ela apareceu porque sua mãe passou dias deitada na mesma posição, com a pele molhada, depois de uma internação em que ficou muito fraca. A pele ainda está fechada, e é agora que dá para fazer ela voltar. A senhora não causou isso sozinha, e a gente vai montar um jeito de virar sua mãe que caiba nas pessoas que moram aqui.””
Não diga: “Isso é escara, faltou cuidado.” A frase acusa quem cuida sem saber o que aconteceu no hospital e na primeira semana, e costuma fazer a família esconder a próxima lesão. O oposto também erra: “é normal em idoso, não se preocupe”.
Explicar por que a sonda sai hoje
““A sonda foi colocada no hospital para medir a urina quando ela estava muito confusa. Hoje ela não tem mais motivo: prende sua mãe na cama, facilita infecção e deixa a cabeça dela mais confusa. A enfermeira vai tirar agora. Nas próximas seis horas, ofereça a cadeira de duas em duas horas; se ela não fizer xixi nesse tempo, ou se a barriga ficar dura e dolorida em cima do púbis, ligue para a unidade hoje mesmo.””
Não diga: “Vamos deixar a sonda até ela passar com o urologista.” Manter sem indicação à espera de uma consulta que não foi marcada soma dias de risco sem nenhum benefício; e retirar sem dizer o que vigiar deixa a família sozinha com a retenção.
A filha pede o remédio de bexiga que a vizinha indicou
““Esse remédio existe e, em quem não tem problema de memória, às vezes ajuda um pouco. Na sua mãe, ele atrapalha justamente o remédio da memória, pode deixar ela mais confusa e agitada e prende o intestino — e, quando funciona, tira menos de um escape por dia. Ele nem é fornecido pelo SUS. O que costuma funcionar melhor para ela é o que a gente vai fazer junto: tirar o que está atrapalhando e levar ao banheiro em horários certos.””
Não diga: “Vou passar para a senhora experimentar.” Ou um “não pode” seco, sem motivo e sem alternativa, que manda a família comprar o comprimido na farmácia da esquina.
Ensinar a micção induzida à cuidadora
““A cada duas horas, enquanto ela estiver acordada, a senhora chega perto e pergunta: mãe, a senhora está sequinha? Confere com a mão. Depois pergunta se ela quer ir ao banheiro e leva se ela aceitar. Se ela fizer xixi no vaso, ou se estiver seca, elogie de verdade. Se estiver molhada, só troque, sem bronca e sem cara feia. Anote na tabela o que aconteceu, e daqui a uma semana a gente olha a tabela junto.””
Não diga: “Leve ao banheiro sempre que ela pedir.” Na demência, esperar o pedido é esperar a perda; e repreender a roupa molhada ensina a pessoa a esconder a urgência, não a segurar.
A filha sente a fralda noturna como derrota
““A fralda da noite não quer dizer que a gente desistiu. De dia, sua mãe está ficando seca com a sua ajuda, e isso é o tratamento funcionando. À noite, acordar ela toda hora para urinar tira o sono de vocês duas e aumenta a chance de ela cair e ficar confusa. Ali, a fralda é uma escolha para vocês dormirem, com a cadeira do lado da cama se ela acordar com vontade.””
Não diga: Transformar a fralda noturna em regra sem conversa, ou recusar qualquer fralda por princípio e deixar a cuidadora acordada a noite inteira.
Preparar a família para o que pode vir
““A doença da sua mãe vai continuar avançando. Pode chegar um tempo em que ela não vai mais andar e vai comer bem pouco. Nessa fase, a pele às vezes abre mesmo com todo o cuidado, porque o corpo inteiro está ficando mais fraco. Se isso acontecer, não vai ser sinal de que a senhora falhou; vai ser a hora de a gente sentar junto e conversar sobre o que é mais importante para ela.””
Não diga: “Com esses cuidados, nunca vai abrir ferida.” A promessa não se cumpre no fim de uma doença longa, e quando a lesão aparece ela vira acusação contra a cuidadora e contra a equipe.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Relaxante vesical entre os tratamentos da urgência, com vigilância de efeitos — Caderno de Atenção Básica nº 19, Ministério da Saúde, 2006
O caderno federal põe o uso de relaxantes vesicais entre as ações de tratamento primário da incontinência de urgência, depois da terapia comportamental que o mesmo quadro chama de primeira linha, e manda vigiar, em quem começa oxibutinina ou tolterodina, retenção aguda de urina, constipação, deterioração da cognição e boca seca, com reavaliação em duas semanas. Não faz recorte para a pessoa com demência: a vigilância da cognição é a salvaguarda proposta.
Brasil. Ministério da Saúde. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa (Cadernos de Atenção Básica, n. 19). Brasília: Ministério da Saúde; 2006. Cap. 15, Quadro 19 e medidas farmacológicas.
Evitar na demência e não incorporar — consenso brasileiro de medicamentos inapropriados (2016) e PCDT da Incontinência Urinária não Neurogênica (2020)
O consenso brasileiro lista a oxibutinina como potencialmente inapropriada na pessoa idosa com demência ou comprometimento cognitivo, pelo risco de aumento da confusão e da agitação, e os antimuscarínicos urinários como inapropriados na constipação crônica; os anticolinérgicos também estão entre os fármacos a evitar no delirium. Pelo protocolo nacional de 2020, os antimuscarínicos registrados no país para a bexiga hiperativa — como oxibutinina, tolterodina, solifenacina e darifenacina — e a mirabegrona passaram pela Conitec e saíram sem recomendação de uso, porque a queda no número de episódios foi inconsistente e, em geral, ficou abaixo de um por dia. Nenhum deles consta da Rename 2024.
Oliveira MG, et al. Consenso brasileiro de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos. Geriatr Gerontol Aging. 2016 (Quadro 2, critérios 3, 16 e 27). Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta nº 1, de 9 de janeiro de 2020: PCDT da Incontinência Urinária não Neurogênica, item 6.2.3.
Esta apostila adota a segunda posição, pelo primeiro degrau da régua: a pessoa à sua frente é idosa e tem demência, e o documento escrito para ela é o consenso de 2016, cujo critério nomeia a oxibutinina na demência; o caderno de 2006 foi escrito para a pessoa idosa em geral, sem recorte cognitivo. A data confirma o lado, e a norma nacional de 2020 não oferece a classe. Na prática: na demência, no delirium, na constipação crônica, no glaucoma ou com resíduo alto, não prescreva antimuscarínico urinário e registre o motivo no prontuário. Na pessoa idosa de cognição preservada, sem essas condições, a decisão pertence ao capítulo de incontinência de esforço e de urgência, com resíduo medido, carga anticolinérgica somada e a informação de que o SUS não fornece o fármaco.
Teto de 1,5 litro por dia e nada depois das 20 horas — Caderno de Atenção Básica nº 19, Ministério da Saúde, 2006
No quadro de ações terapêuticas das incontinências agudas, o caderno federal indica limitar a ingestão de líquidos a 1,5 litro por dia e orientar a pessoa a não tomá-los depois das 20 horas. A instrução está impressa na linha das causas psicológicas, e não na do excesso de débito urinário, que o texto do mesmo capítulo descreve e o quadro não traz.
Brasil. Ministério da Saúde. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa (Cadernos de Atenção Básica, n. 19). Brasília: Ministério da Saúde; 2006. Cap. 15, Quadro 18, p. 98.
Ingestão suficiente para não desidratar, reduzida à noite e sem teto — Guia de reabilitação da pessoa idosa (2021) e PCDT da Incontinência Urinária não Neurogênica (2020)
O guia federal de 2021 orienta a família e o cuidador a oferecer quantidade adequada, mas não excessiva, de líquidos, a reduzir a ingestão noturna e a evitar álcool e cafeína. O protocolo nacional de 2020 registra que a restrição de líquidos é conduta que o próprio paciente costuma adotar para aliviar os sintomas e manda basear o aconselhamento numa ingestão em 24 horas suficiente para evitar a desidratação.
Brasil. Ministério da Saúde. Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde; 2021. Seção 8.1.4.1. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta nº 1, de 9 de janeiro de 2020: PCDT da Incontinência Urinária não Neurogênica, tratamento conservador.
Esta apostila adota a segunda posição. No primeiro degrau, o caderno de 2006 e o guia de 2021 empatam, os dois escritos para a pessoa idosa; no segundo, vence o mais novo, e o protocolo nacional de 2020 aponta na mesma direção. O quarto degrau reforça: o teto do caderno está impresso na linha errada do próprio quadro, como registrado em criterio.notas. Na prática: pergunte quanto a pessoa bebe e quem está racionando; oriente líquido suficiente para não desidratar, oferecido principalmente de manhã e à tarde, com redução nas horas antes de deitar e sem cafeína depois do almoço. Um teto numérico só entra quando outra doença o exige — insuficiência cardíaca descompensada, doença renal com restrição prescrita —, e quem o escreve é o capítulo dessa doença.
Treinamento vesical como primeira linha para adultos com incontinência de urgência — PCDT da Incontinência Urinária não Neurogênica, 2020
Para o adulto com incontinência de urgência, o protocolo nacional começa pelo treinamento vesical: a pessoa aprende a urinar em horário marcado e a alongar aos poucos o tempo entre as micções, corrigindo o hábito de urinar por precaução, dominando a urgência e ganhando capacidade de bexiga. O escopo é o adulto acima de 18 anos, sem recorte para a pessoa com demência.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta nº 1, de 9 de janeiro de 2020: PCDT da Incontinência Urinária não Neurogênica, tratamento conservador da incontinência de urgência.
Treinamento vesical só com cognição e motivação preservadas; nos demais, horário e hábito conduzidos por quem cuida — Caderno de Atenção Básica nº 19 (2006) e Guia de reabilitação da pessoa idosa (2021)
O caderno federal de 2006 indica o treinamento vesical para pessoas com incontinência de urgência que tenham capacidades física e mental preservadas e estejam motivadas, e separa dele o treinamento do hábito e a micção programada. O guia de 2021 orienta a família e o cuidador a estabelecer horários e intervalos regulares para ir ou levar a pessoa idosa ao banheiro e a investigar o que a impede de chegar a tempo.
Brasil. Ministério da Saúde. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa (Cadernos de Atenção Básica, n. 19). Brasília: Ministério da Saúde; 2006. Cap. 15, terapias de comportamento. Brasil. Ministério da Saúde. Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde; 2021. Seção 8.1.4.1.
Esta apostila adota a segunda posição para a pessoa com demência, pelo primeiro degrau da régua: o protocolo de 2020 é mais novo e é norma, mas foi escrito para a incontinência do adulto em geral, enquanto o caderno de 2006 e o guia de 2021 foram escritos para a pessoa idosa, e o caderno faz o recorte cognitivo por extenso. O treinamento vesical pede que a pessoa aprenda a adiar a micção e a vencer a urgência, o que a demência moderada não permite; a micção programada e a induzida passam o controle para quem cuida. Na prática: cognição preservada e motivação, treinamento vesical pelo capítulo de incontinência de esforço e de urgência; demência, micção programada nos horários que a tabela mostrou e micção induzida — perguntar, conferir, oferecer, elogiar —, com a tabela de checagem como medida de resposta.
O raciocínio, em voz alta
Quinta-feira, consulta na unidade básica. Seu Arnóbio Prado, 81 anos, diabetes há 25 anos com dormência nos pés, hipertensão, vem com a esposa, que fala primeiro: há dois meses ele “pinga o dia inteiro”, molha a calça e a cama, e ela passou a comprar fralda. Um médico particular disse que era “bexiga solta” e receitou oxibutinina 5 mg duas vezes ao dia, que ele toma há seis semanas; “não adiantou nada, piorou”. Ele usa também, há anos, amitriptilina 25 mg à noite, “para dormir e para a dor nos pés”, metformina e losartana. A esposa acha que ele anda mais esquecido e com o intestino preso. Seu Arnóbio diz que urina “pouquinho e fraco, e fica sempre a sensação de que não saiu tudo”. A fralda que ele tira no banheiro está úmida por inteiro, e não encharcada. Glicemia capilar de 210 mg/dL. Palpa-se, acima do púbis, uma massa lisa e indolor que vai até perto da metade da distância ao umbigo, e ela continua lá depois de ele ir ao banheiro.
o padrão que eu leio antes de qualquer rótulo
Gotejamento contínuo, dia e noite, com fralda sempre úmida e nunca encharcada de uma vez, jato fraco e sensação de esvaziamento incompleto: isso é perda contínua, e perda contínua num homem idoso diabético é transbordamento até prova em contrário. O rótulo “bexiga solta” tratou como urgência uma bexiga que não esvazia — o mesmo equívoco que o guia federal de reabilitação de 2021 imprime ao chamar o transbordamento de bexiga hiperativa, registrado em criterio.notas.
o exame que confirma e trata ao mesmo tempo
A bexiga palpável depois de urinar já responde à pergunta, e o cateterismo de alívio feito pela enfermagem, pela técnica do capítulo de sondagem vesical, drena 750 mL. O caderno de 2006 dá como referência do envelhecimento um resíduo que não passa de 50 a 100 mL: 750 mL são de 7,5 a 15 vezes esse teto. Não é incontinência de um homem velho; é retenção com transbordamento. Peço creatinina, que volta no dia seguinte em 1,6 mg/dL, contra 1,0 mg/dL há um ano — pela equação CKD-EPI de 2021, filtração estimada de cerca de 43 mL/min/1,73 m².
o que estava retendo
Pelo menos quatro coisas somadas. A oxibutinina, que reduz a força de contração do detrusor; a amitriptilina, tricíclico altamente anticolinérgico que o consenso brasileiro lista entre os fármacos a evitar no idoso; a neuropatia do diabetes de longa data, que o caderno de 2006 põe entre as causas de bexiga hipocontrátil; e uma próstata aumentada ao toque, sem nódulo. A constipação e o esquecimento novos são o mesmo efeito anticolinérgico em outros órgãos, e a glicose alta aumenta o volume que chega a uma bexiga que já não esvazia.
o que sai hoje e o que eu não faço
A oxibutinina é suspensa hoje, e a retirada da amitriptilina entra no plano, com a dor dos pés reavaliada no retorno por outro caminho, sem ação anticolinérgica. Não prescrevo fralda nem dispositivo externo como solução — é o que o Quadro 19 do caderno de 2006 imprime para o sobrefluxo, e ele deixa os 750 mL onde estão. Não troco o antimuscarínico por outro. Não restrinjo água. Não peço urocultura sem sintoma urinário nem febre.
o que decide o destino hoje
Retenção com função renal caindo não é assunto de fila de ambulatório. O capítulo Hiperplasia prostática benigna, STUI e retenção urinária aguda traz a régua brasileira da retenção e os achados que tiram o paciente do ambulatório e o levam à urgência — filtração abaixo de 60 mL/min/1,73 m², hidronefrose, sepse urinária —, e é por ela que Seu Arnóbio segue hoje, com a bexiga drenada e o resumo do volume, da creatinina e da lista de fármacos por escrito. A forma de manter a bexiga vazia e a investigação da próstata são daquele capítulo.
o que volta para este capítulo
Resolvida a retenção, a perda que sobrar é reclassificada do zero, porque a maior parte dela era transbordamento. A pele da fralda, úmida há dois meses, recebe o cuidado de limpeza suave e barreira. O esquecimento é reavaliado semanas depois da retirada dos anticolinérgicos, e só se persistir vai ao capítulo de demências. E a esposa leva uma frase escrita: perda de urina em gotas, o tempo todo, com barriga cheia, é sinal de bexiga que não esvazia, e volta no mesmo dia.
Faça você
Sexta-feira, fim da manhã. A enfermeira de uma instituição de longa permanência do seu território, Lourdes Morais, liga para a unidade e pede uma visita no mesmo dia. Dona Honorina Tapajós, 93 anos, tem doença de Alzheimer avançada, está acamada há quatro meses, usa fralda por incontinência urinária e fecal e, há três semanas, aceita menos da metade das refeições mesmo com ajuda; pesava 42 kg e hoje pesa 38. Passa a maior parte do dia dormindo e engasga às vezes com líquidos. Há 36 horas apareceu sobre o sacro uma área arroxeada, irregular, de 6 por 5 cm, com pele íntegra e uma pequena bolha; a inspeção registrada dois dias antes não mostrava nada. O livro da instituição traz mudança de posição a cada duas horas, colchão de ar em uso, trocas de fralda anotadas e dermatite de fralda com rubor persistente em tratamento com barreira. O filho, Admilson, está na instituição, diz que vai denunciar a instituição por negligência e pede uma sonda “para ela comer” e um colchão melhor. Na visita, Dona Honorina geme quando é virada; não tem febre.
o que já está decidido antes de olhar a ferida
A trajetória sugere doença muito avançada e exige conversa sobre objetivos, mas piora de ingestão e consciência também pede avaliar causas tratáveis proporcionais ao cuidado. A área arroxeada com bolha pode corresponder a lesão por pressão tissular profunda. Aparência súbita ou registros de mudança de posição não comprovam “lesão terminal inevitável” nem excluem falha de cuidado. Descreva a lesão, perfusão, dor, sinais locais/sistêmicos, mobilidade, superfície e cuidados efetivamente possíveis.
o que muda no cuidado da pele e da pressão
A prevenção continua e deve ser compatível com conforto e objetivos de cuidado. Complete: como aliviar dor antes de mobilizar; como individualizar posição, superfície e ajuda disponível; quais achados exigem avaliação de infecção ou tratamento local; como cuidar da dermatite associada à incontinência; e como discutir alimentação e eventual sonda com a equipe e o representante, considerando preferências da paciente.
a conversa com o filho e o registro
Admilson está com raiva e com medo, e a pergunta dele sobre negligência merece resposta séria, não defensiva. Complete: o que você diz a ele sobre a lesão e sobre a mãe, o que você mostra, onde está a régua para distinguir negligência de falta de meios e de doença, e o que fica escrito no prontuário da unidade e no livro da instituição depois da visita.
Ver como fecharíamos
Avaliar Honorina como pessoa com demência avançada, sofrimento à mobilização e declínio recente, procurando causas reversíveis cujo tratamento ofereça benefício. Descrever e medir a área arroxeada com bolha, examinar perfusão, temperatura, consistência, dor, pele ao redor e demais pontos de pressão, e solicitar avaliação de feridas. A descrição sugere possível lesão por pressão tissular profunda; não basta para declarar lesão terminal inevitável. Ausência de febre não exclui infecção, e registros de reposicionamento ajudam a reconstruir o cuidado, mas não demonstram sozinhos que toda medida necessária ocorreu. O plano inclui analgesia antes dos cuidados, superfície adequada, alívio de pressão e reposicionamento ajustado ao conforto, cuidados de umidade e suporte a quem cuida. A lesão descrita tem pele majoritariamente íntegra e não há indicação de desbridar tecido apenas arroxeado; se evoluir com necrose, odor ou infecção, a decisão sobre desbridamento dependerá de perfusão, benefício sintomático, risco e objetivos, sem proibição universal por estar em cuidados paliativos. Manter oferta assistida de alimento e líquido conforme aceitação e segurança da deglutição, discutir risco de aspiração e não iniciar sonda automaticamente. A decisão exige equipe, representante e preferências previamente expressas por Honorina. Ao filho: “A ferida e a dor precisam ser cuidadas agora. Vamos avaliar a pele, rever como os cuidados estão sendo feitos e conversar sobre o que pode trazer conforto e benefício para sua mãe.” Acolher a preocupação, revisar condições reais e necessidades de suporte; não atribuir culpa nem afastar negligência apenas pela aparência da ferida. Havendo suspeita fundamentada de violência ou negligência, seguir o fluxo de proteção e notificação do capítulo correspondente. Registrar avaliação, achados, objetivos acordados, medidas, responsáveis e prazo de reavaliação tanto no serviço quanto no plano compartilhado com a instituição.
A perda começou em dias, coincidindo com um anti-histamínico de primeira geração — sedativo e anticolinérgico, listado pelo consenso brasileiro entre os fármacos a evitar no idoso — e com sinais de fecaloma, em que fezes líquidas escapam em volta das fezes endurecidas. É incontinência transitória até prova em contrário: tira-se o que causa, examina-se o reto e trata-se a impactação, e só então se classifica o que persistir. Antimuscarínico na demência piora a cognição e prende o intestino; bactéria sem sintoma não se trata; restringir água agrava a constipação; urodinâmica não é pré-requisito do cuidado inicial.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Uma pessoa volta do hospital com sonda e fralda: reconstrua o basal, confirme a indicação do cateter, procure retenção e impactação e planeje vigilância após a retirada quando indicada.
Em 30 dias
Compare dermatite por umidade e lesão arroxeada sobre o sacro. Proponha avaliação, proteção da pele, analgesia e alívio de pressão. Em doença avançada, explique como discutir alimentação, conforto e recursos de cuidado sem concluir negligência ou inevitabilidade pela aparência.
Agora atenda
Agora atenda: visita domiciliar da equipe de saúde da família. Mulher de 84 anos com demência, que voltou há uma semana de uma internação e passou a perder urina, está de fralda e com uma mancha avermelhada sobre o sacro; a filha pede um remédio para a bexiga. Converse com a paciente e com a filha, percorra as causas transitórias, examine a pele e os pontos de pressão, decida o que sai da lista de medicamentos e o que fica, explique por que o antimuscarínico não entra e deixe um plano de banheiro, de pele e de mudança de posição que caiba nas pessoas que moram com ela.
