Clínica Médica › Geriatria
O escore não é o plano
Avaliação geriátrica ampla e fragilidade
Fragilidade e avaliação geriátrica ampla na pessoa idosa: rastrear com o IVCF-20 sem errar a soma, entender o que cada faixa manda fazer, examinar os domínios que pontuaram e transformar vinte respostas em um plano de cuidado com responsável na rede do SUS.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Gestão do Cuidado Integral. Caderneta da Pessoa Idosa. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.
Rio Grande do Sul. Secretaria da Saúde. Departamento de Atenção Primária e Políticas de Saúde. Manual de aplicação do Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20): orientações para profissionais da Atenção Primária à Saúde. 1. ed. Porto Alegre: ESP/SES, 2023. 36 p. ISBN 978-65-89000-37-2.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. 192 p. (Cadernos de Atenção Básica, n. 19). ISBN 85-334-1273-8.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. 144 p. ISBN 978-65-5993-112-5.
Gonçalves TJM, Horie LM, Gonçalves SEAB, Bacchi MK, Bailer MC, Barbosa-Silva TG, et al. Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no envelhecimento. BRASPEN J. 2019;34(Supl 3):2-58.
Moraes EN, Carmo JA, Moraes FL, Azevedo RS, Machado CJ, Montilla DER. Índice de Vulnerabilidade Clínico Funcional-20 (IVCF-20): reconhecimento rápido do idoso frágil. Rev Saúde Pública. 2016;50:81. doi:10.1590/S1518-8787.2016050006963.
Brasil. Ministério da Saúde; Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. Nota técnica para organização da rede de atenção à saúde com foco na atenção primária à saúde e na atenção ambulatorial especializada: saúde da pessoa idosa. São Paulo: Hospital Israelita Albert Einstein, 2019.
Responda antes de ler
Homem de 83 anos mora com a esposa, que sempre cuidou do dinheiro e da casa. Há três meses ele deixou de ir à padaria do bairro, onde comprava o pão todas as manhãs, porque sente falta de ar ao andar. Nunca fez as compras do supermercado, que são tarefa da esposa, e toma banho sozinho. Como pontuam as perguntas de atividades de vida diária do IVCF-20?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, oito e meia da manhã, unidade básica de saúde numa rua de comércio. Antes de chamar a primeira paciente, você lê o bilhete que a agente comunitária Alaíde Bueno prendeu com clipe na ficha, escrito à mão depois da visita de terça: “Dona Minervina não vai à feira há três semanas. Geladeira com comida estragada. Emagreceu. A filha pediu consulta, acha que é memória.” A preceptora passa atrás da sua cadeira, lê por cima do seu ombro e diz uma frase só antes de seguir para a sala ao lado: “Faz a avaliação inteira e me traz o plano, não o número.”
Dona Minervina Vilar tem 81 anos e entra de braço dado com a filha, Odete Holanda, de 54. Está de casaco de lã num dia de 27 graus, e o vestido de festa que ela escolheu para vir ao médico sobra nos ombros. Senta-se devagar, apoiando as duas mãos nos braços da cadeira, e quando você pergunta como ela está, ela olha para a filha e diz “o quê?”. Você repete mais alto. Ela sorri, meio sem graça, e responde que está bem, que está só cansada, e que isso é da idade.
Odete não espera a pergunta seguinte. “Doutor, minha mãe não é mais a mesma. Desde que meu pai morreu, em janeiro, ela foi apagando. Esqueceu de pagar a conta de luz duas vezes, e cortaram. Deixou uma panela de feijão no fogo e o vizinho sentiu o cheiro. Parou de ir à igreja, e ela era do coral havia trinta anos. Eu acho que é caduquice. A vizinha disse que é Alzheimer, que a mãe dela começou igualzinho.” Dona Minervina escuta com as mãos no colo e não contesta nada. Só diz, quando a filha termina, que a cabeça anda cheia.
A história vem aos pedaços. Há quatro meses, em maio, ela ficou cinco dias internada por pneumonia e voltou para casa andando mais devagar, com medo da escada do quintal. Desde então Odete assumiu as contas, porque a mãe já não conseguia se organizar com os boletos, e passa na casa dela todo fim de tarde depois do trabalho, na cozinha de uma escola do bairro. Os remédios vêm numa sacola plástica: são sete caixas, e desde a internação é Odete quem separa os comprimidos num porta-comprimidos de plástico com os dias da semana. Um deles, para dormir, foi a vizinha que indicou.
Você procura a Caderneta da Pessoa Idosa. Odete lembra que ficou na recepção e sai para buscá-la. Com a filha fora da sala, Dona Minervina se inclina para a frente e fala baixo, como quem conta um segredo. Não foi só por tristeza que ela largou o coral. “A bexiga não segura mais, doutor. Quando dá vontade, não dá tempo. Eu tenho vergonha de molhar a roupa na igreja.” Pede para você não contar para a filha, que já tem problema demais. E acrescenta, olhando para a janela, que desde que o marido morreu não vê graça em nada, nem nas plantas do quintal, que ele regava junto com ela todo fim de tarde.
Odete volta com a Caderneta. No registro de uma consulta de hipertensão de setembro do ano passado, ela pesava 58 quilos. A balança da sala marca 52. A altura anotada é 1,55 metro. Enquanto você faz a conta, Odete completa o que falta: em casa, a televisão fica no volume máximo e a mãe não atende mais o telefone, “porque não quer falar com ninguém”; a dentadura de baixo ficou larga e ela passou a comer só sopa e pão amolecido no café; tomar banho ela ainda toma sozinha, mas demora, e ontem Odete a encontrou sentada na cama, de roupão, às onze da manhã, sem ter tomado o café.
Nada do que chegou até agora é uma doença com nome. É uma mulher de 81 anos que emagreceu seis quilos em um ano, perdeu o marido, parou de fazer compras, de pagar as contas, de cantar e de atender o telefone, que perde urina e esconde, que ouve mal, mastiga mal, voltou de uma internação mais fraca, toma sete remédios e tem uma filha que trabalha o dia inteiro e acha que a mãe está com demência. Cada um desses fatos, sozinho, costuma ser anotado e esquecido. Juntos, eles são o motivo de existir uma avaliação que olha a pessoa inteira de uma vez.
Você pega o formulário do índice de vulnerabilidade na Caderneta e já sabe que a soma vai sair alta. A preceptora sabe também, e por isso pediu o plano. Uma soma alta pode querer dizer uma pessoa que só vai piorar, e pode querer dizer uma pessoa carregando meia dúzia de problemas que ninguém somou ainda, e que se desfazem um a um. A diferença entre as duas não está no número. Está em saber o que cada pergunta mediu, o que se examina quando ela pontua, e quem, na rede, se responsabiliza por cada pedaço.
Este capítulo é sobre essa diferença. Ele acompanha Dona Minervina da primeira consulta até a reaplicação do índice seis meses depois, e é dono, nesta apostila, do que é a avaliação geriátrica ampla e do que ela muda, dos domínios que ela examina, da fragilidade como conceito, do rastreio com o IVCF-20 e do que cada faixa manda fazer, da sarcopenia no nível do rastreio e do plano de cuidado com os encaminhamentos na rede.
As fronteiras vão com o nome de cada vizinho. Do capítulo Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade, nesta apostila, este recebe a pontuação total do índice e o estadiamento da fragilidade; aquele fica com a fragilidade conhecida como marcador de alto risco, com os itens do índice de vulnerabilidade que medem marcha, músculo e quedas e com a prescrição de exercício e de proteína no ciclo da queda. O rastreio cognitivo dentro da avaliação ampla é deste capítulo; o diagnóstico e o tratamento das demências são de Demências (Alzheimer, vascular) e comprometimento cognitivo. A revisão dos medicamentos é de Polifarmácia e prescrição segura no idoso (critérios de Beers), e o cuidado de fim de vida, de Cuidados paliativos e dor oncológica, ambos nesta apostila. O delirium é de Síndromes do Paciente Internado, a depressão maior é de Psiquiatria, e o que é fragilidade e por que a população brasileira passou a produzi-la em volume é de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva.
Quem adoece disso
Para o Sistema Único de Saúde, pessoa idosa é quem tem 60 anos ou mais, e é a partir dessa idade que o manual de aplicação do índice de vulnerabilidade da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul, de 2023, manda aplicá-lo. Por que o Brasil passou a ter tanta gente nessa faixa, e por que a fragilidade virou problema de saúde pública e não de consultório, está no capítulo Transição demográfica e epidemiológica no Brasil, na apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva, que assume o que é fragilidade e por que a população brasileira passou a produzi-la em volume. Este capítulo fica com o que aquele deixa para a Geriatria: como rastrear, como estadiar e o que fazer com a pessoa que está na sua frente.
Os números de fragilidade que circulam nos documentos brasileiros vêm, na maior parte, do estudo que definiu o fenótipo. O Caderno de Atenção Básica nº 19, de 2006, registra a prevalência encontrada por Linda Fried e colaboradores: 6,9% das pessoas idosas eram frágeis, com incidência de 7,2% em quatro anos e predomínio entre as mulheres. O Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa, de 2021, completa a distribuição do mesmo estudo: cerca de 7% frágeis, 47% pré-frágeis e 46% sem nenhum critério. A diretriz brasileira de nutrição no envelhecimento, de 2019, cita uma média de 10,7% de fragilidade entre pessoas com 65 anos ou mais que vivem na comunidade, mais frequente nas mulheres e crescente com a idade, chegando a 26,1% depois dos 85.
O número que importa para quem trabalha na atenção primária é o do meio. Quase metade da população idosa do estudo original estava no degrau intermediário, e o Guia de 2021 chama a atenção para duas coisas sobre ela: quem é pré-frágil tem mais chance de chegar à fragilidade do que quem não tem critério nenhum, e o movimento entre os estados acontece nos dois sentidos, inclusive da fragilidade de volta para a ausência dela. Em geral, segundo o mesmo Guia, a mudança de degrau é provocada por um evento estressante — uma doença, uma queda, uma internação. É nesse intervalo, entre o primeiro sinal e a dependência instalada, que a avaliação tem mais para oferecer.
O índice brasileiro de rastreio foi validado justamente em duas populações muito diferentes, e a diferença entre elas ensina o que ele enxerga. No estudo de validação, publicado na Revista de Saúde Pública em 2016, 397 pessoas atendidas num centro de referência para o idoso em Belo Horizonte e 52 avaliadas num centro de saúde responderam às mesmas vinte perguntas. No centro de referência, 43,3% pontuavam no item de capacidade aeróbica e muscular (perda de peso, índice de massa corporal abaixo de 22, panturrilha abaixo de 31 cm ou mais de 5 segundos para andar 4 metros), 38,8% tinham deixado de fazer ao menos uma atividade instrumental, 38,5% somavam cinco ou mais doenças, cinco ou mais medicamentos ou internação recente, e 61,7% tinham um familiar que já notara esquecimento; a pontuação média foi 12,6. No centro de saúde, cada um desses quatro itens ficava entre 1,9% e 9,6%, a média foi 1,98 e a mediana, 1.
Dois achados dessa tabela merecem ser guardados. O primeiro é que, na população do centro de saúde, a pontuação baixa é a regra: quem soma muito na atenção primária está longe da média de quem senta na mesma sala de espera, e isso por si só já é informação. O segundo é o que aparecia mesmo ali: entre os itens que apontam um problema, o mais frequente depois da autopercepção de saúde regular ou ruim, marcada por 19,2%, foi a perda involuntária de urina ou fezes, em 17,3% — um problema que quase ninguém conta ao médico por iniciativa própria, e que no centro de referência chegava a 47,6%.
A perda de músculo acompanha a mesma curva. Com base no consenso europeu de 2010, o Guia de 2021 estima sarcopenia em 6% a 12% das pessoas acima de 60 anos e em metade das que passaram dos 85. A desnutrição depende de onde se procura: o mesmo Guia registra prevalências de 15% a 60% conforme a pessoa esteja em casa, numa instituição de longa permanência ou no hospital, baixo peso em 11% da população acima de 50 anos no Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros e desnutrição em 58,8% das pessoas com mais de 60 anos internadas pelo SUS em diferentes estados. É por isso que a diretriz de nutrição de 2019 manda triar toda pessoa idosa, saudável ou doente.
Os sentidos entram na conta com números da mesma ordem. O Guia de 2021 cita o Censo de 2010, em que a deficiência visual atingia 49,5% das pessoas acima de 65 anos. A perda auditiva e o cerume impactado, que imitam desatenção e confusão, têm os números e a técnica no capítulo Epistaxe, corpo estranho em nariz e ouvido e trauma nasal e no capítulo Hipoacusia e zumbido: avaliação inicial e encaminhamento, ambos na apostila de Otorrinolaringologia. O que interessa aqui é o efeito conjunto: a mesma pessoa idosa costuma somar um pouco de cada perda, e nenhuma delas, sozinha, parece grave o suficiente para mudar a consulta.
O Caderno de 2006 resume por que tudo isso pesa mais do que o diagnóstico de cada doença. A dependência é o maior temor nessa faixa etária, e a capacidade funcional passou a ser, desde a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, o eixo da atenção. O exemplo que o Caderno usa é direto: duas pessoas idosas com diabetes, uma independente para todas as atividades do dia e outra que precisa de ajuda para sair da cama e se alimentar, têm a mesma doença e necessidades completamente diferentes. A lista de diagnósticos não distingue as duas. A avaliação funcional distingue.
Para o interno, isso tem endereço nos dois lugares por onde ele passa. Na unidade básica, a pessoa idosa frágil chega trazida por outra pessoa, com uma queixa vaga e uma sacola de remédios, como Dona Minervina. Na enfermaria, ela é presença frequente, e mais da metade das pessoas com mais de 60 anos internadas pelo SUS está desnutrida, segundo o Guia de 2021. O rastreio que este capítulo ensina foi desenhado para a atenção primária, mas a pergunta que ele faz — o que esta pessoa deixou de conseguir fazer, e por quê — vale em qualquer porta.
Por que acontece o que acontece
Fragilidade não tem definição consensual, e o Caderno de Atenção Básica nº 19 começa por admitir isso. O que os documentos brasileiros compartilham é a ideia de reserva. Para a diretriz brasileira de nutrição no envelhecimento, publicada em 2019, a fragilidade é um estado de vulnerabilidade aumentada a desfechos adversos — internações frequentes, quedas, dependência e morte —, produzido pelo declínio das reservas fisiológicas e traduzido em menor capacidade de lidar com estressores. O Caderno de 2006 diz a mesma coisa pelo lado da homeostase: a pessoa frágil tem dificuldade de se manter em equilíbrio quando algo a perturba, seja uma onda de calor, seja uma pneumonia. A consequência prática é que a fragilidade quase não aparece em repouso. Ela aparece no dia em que o organismo é cobrado.
O modelo que o Caderno de 2006 e o Guia de reabilitação de 2021 reproduzem, o de Fried, apoia essa perda de reserva num tripé: alterações neuromusculares, principalmente a sarcopenia; desregulação do sistema neuroendócrino; e disfunção do sistema imune, que o Guia descreve como um estado inflamatório crônico. Sobre esse tripé agem causas primárias, ligadas ao próprio envelhecimento celular, e causas secundárias, que são doenças: depressão, neoplasias, infecções crônicas, insuficiência cardíaca. Somam-se a elas fatores de fora — comorbidades, redução da ingestão alimentar, inatividade — e o resultado, nas palavras do Guia, é um declínio acumulativo dos sistemas fisiológicos.
O ponto mais útil desse modelo para quem atende é o ciclo, porque cada volta dele tem uma porta de entrada que se pode fechar. O Caderno de 2006 o descreve assim: a ingestão de energia abaixo da necessidade leva a balanço negativo de nitrogênio e à perda de fibras musculares; a perda de massa reduz a força; menos força reduz a atividade física e a tolerância ao esforço, e daí a velocidade da marcha; menos músculo e menos movimento reduzem o gasto de energia, e o apetite acompanha. O ciclo passa a se alimentar sozinho, e a causa que o iniciou — um luto, uma internação, uma dentadura que não encaixa — deixa de ser necessária para mantê-lo girando.
O músculo que se perde não é qualquer músculo. A diretriz de 2019 descreve uma perda lenta de massa a partir da quinta década, mais expressiva a partir da sétima, à custa da redução do número de fibras e, nas idades mais avançadas, da atrofia das fibras do tipo 2, as de contração rápida; o Guia de 2021 acrescenta que ela é mais intensa nos membros inferiores. Mas a qualidade cai antes da quantidade: gordura e tecido fibroso infiltram o músculo, e a função se perde mais depressa do que a massa. É por isso que a revisão do consenso europeu, adotada pela diretriz, trocou a massa pela força como eixo do diagnóstico de sarcopenia, e é por isso que medir a força diz mais do que medir a perna.
Fragilidade, doença e dependência são três coisas diferentes, e confundi-las é a origem de quase todos os erros deste capítulo. O Caderno de 2006, citando Fried, separa as três: comorbidade é a presença de duas ou mais doenças diagnosticadas; incapacidade é a dificuldade ou a necessidade de ajuda para as atividades cotidianas; fragilidade é a perda de reserva. Elas podem coexistir, e costumam, mas uma pessoa com cinco doenças crônicas bem controladas pode ser robusta, e outra sem diagnóstico nenhum pode estar frágil. A lista de problemas do prontuário não mede a terceira.
Há duas maneiras de olhar para essa perda de reserva, e o Caderno de 2006 registra as duas. Uma a entende como síndrome fortemente biológica, com sinais que podem ser detectados cedo — é a leitura do fenótipo de Fried, feito de peso, cansaço, força, marcha e atividade. A outra insiste na multidimensionalidade: renda insuficiente, baixa escolaridade e ausência de apoio social agravam a fisiopatologia da própria síndrome. O índice brasileiro de rastreio pertence à segunda família. Suas vinte perguntas passam por idade, autopercepção, atividades de vida diária, cognição, humor, mobilidade, comunicação e doenças múltiplas, e o artigo de validação o apresenta como instrumento que contempla os aspectos multidimensionais da condição de saúde.
Quando a reserva se esgota, a função não cai de uma vez. A classificação clínico-funcional em dez estratos, que o artigo de validação do índice reproduz, mostra a ordem: primeiro somem as atividades avançadas, as do lazer, do trabalho e da vida social; depois as instrumentais, como fazer compras, controlar o dinheiro e cuidar da casa; depois as básicas aprendidas, como banhar-se, vestir-se e usar o banheiro; depois as mais vegetativas, como transferir-se e controlar os esfíncteres; por último, alimentar-se. As instrumentais caem antes porque exigem tudo ao mesmo tempo: memória, humor, marcha, visão, audição e disposição. O índice reflete essa hierarquia ao dar 6 pontos a quem deixou de tomar banho sozinho e no máximo 4 às três instrumentais juntas.
Falta dizer o que faz a pessoa mudar de degrau. O Guia de 2021 descreve a pré-fragilidade como um estado que, em geral, se converte em fragilidade depois de um evento estressante — uma doença, uma queda, uma alteração hormonal ou inflamatória — e insiste que a transição também acontece no sentido inverso. O manual gaúcho de 2023 dá a esses gatilhos o nome de evento sentinela e manda reaplicar o índice quando eles aparecem: queda, internação, mudança na prescrição, viuvez recente. Dona Minervina tem dois deles em oito meses. A pneumonia cobrou a reserva; o luto tirou a comida, o coral e o movimento; a surdez e a tristeza, que ninguém tratou, fecharam o ciclo. Parte do que se perdeu dessa maneira volta quando se fecha a porta por onde entrou.

Como se apresenta de verdade
A fragilidade não tem sintoma próprio. Ela se apresenta pelo que a pessoa deixou de fazer, pelo que outra pessoa percebeu e pelo que ninguém perguntou. O Caderno de Atenção Básica nº 19 põe isso numa frase que vale para todo este bloco: a presença de declínio funcional pode sugerir doenças ou alterações ainda não diagnosticadas. Aprender a apresentação, aqui, é aprender a reconhecer seis cenas.
Percurso de aprendizagem
Compare funcionalidade prévia e atual e investigue cognição, humor, nutrição, sentidos, mobilidade, continência e rede de apoio.
Acompanhe quem fará cada ação e em qual prazo. Reavalie pelo que a pessoa recupera, pelo sofrimento e pela carga do cuidado, além da soma do índice.
A queixa chega pela boca de outra pessoa, e é vaga
“Ela não é mais a mesma.” “Ele está parado.” “Acho que está caducando.” A frase costuma ser de um filho, de uma nora, da agente comunitária, e quase nunca traz um sintoma: traz uma mudança de comportamento percebida por quem convive. A pessoa idosa, quando fala, normaliza. Diz que é cansaço, que é a idade, que a cabeça anda cheia. As duas versões são informação, e nenhuma delas é o diagnóstico.
O manual gaúcho de aplicação do índice, de 2023, manda valorizar a resposta do familiar, do cuidador ou do acompanhante, sobretudo quando há incapacidade cognitiva, anosognosia — a perda da consciência sobre a própria limitação — ou depressão com desmotivação grave. O risco oposto também existe e é o que ronda Dona Minervina: a família que já decidiu que é demência lê todo esquecimento como prova, e a surdez, a tristeza e a desnutrição passam a ser detalhes de uma doença que ninguém confirmou.
A consequência para a consulta é de método, e ela aparece no bloco de conduta: ouvir as duas vozes, em momentos separados quando for preciso, e anotar de quem veio cada informação. Uma perda relatada só pela filha e negada pela paciente não é descartada nem aceita. É uma pergunta a ser respondida pelo exame.
A ordem em que a vida encolhe
Antes de qualquer doença ganhar nome, a vida da pessoa frágil diminui numa ordem previsível. Primeiro somem as atividades avançadas: o coral, o trabalho voluntário, a viagem para visitar a irmã, o jogo de cartas na praça. Depois as instrumentais: ir à feira, pagar as contas, cuidar da casa, controlar os próprios remédios, usar o telefone, pegar o ônibus. Por último as básicas, que a escala de Katz mede: tomar banho, vestir-se, usar o banheiro, transferir-se da cama para a cadeira, controlar urina e fezes, alimentar-se.
O Caderno de 2006 separa duas medidas que parecem a mesma e não são. Desempenho é o que a pessoa realmente faz no dia a dia. Capacidade é o que ela conseguiria fazer. O exemplo do Caderno é a escada: uma pessoa idosa pode ter perfeitamente a capacidade de subir e descer, e não subir mais porque a família tem medo de que ela caia. A atividade sumiu, mas não por incapacidade dela. Na cena, Odete assumiu as contas depois dos boletos esquecidos; se a mãe não controla mais o dinheiro, falta saber se é porque não consegue ou porque deixou de ter a chance.
O índice de rastreio pontua exatamente o declínio, e não o hábito. O manual gaúcho é explícito: as perguntas de atividades de vida diária só pontuam quando a pessoa fazia a atividade e deixou de fazer por causa da saúde. O homem que nunca controlou as finanças da casa, porque a esposa sempre controlou, não pontua por isso. A mulher que parou de ir à feira porque o joelho dói, ou porque não tem ânimo, pontua.
O fenótipo que se vê da cadeira do consultório
O fenótipo de Fried, descrito no Caderno de 2006 com os cinco componentes do estudo original, tem uma tradução visual que se aprende a notar antes de medir. A perda de peso não intencional — no estudo, 4,5 kg ou mais, ou 5% ou mais do peso, no último ano — aparece na roupa que sobra, no cinto com furo novo, na dentadura que ficou larga. A exaustão é o cansaço relatado quando se pergunta com que frequência, na última semana, tudo o que a pessoa fez exigiu grande esforço, ou ela sentiu que não conseguia fazer nada.
A força de preensão reduzida aparece no aperto de mão e, antes dele, no jeito de sentar e levantar, apoiando as duas mãos nos braços da cadeira. A lentidão da marcha se vê no corredor, entre a sala de espera e o consultório. O baixo nível de atividade física aparece na rotina descrita: a manhã inteira sentada, a tarde em frente à televisão. Três ou mais componentes definem, no estudo original, a pessoa frágil; um ou dois, a pré-frágil.
O fenótipo original, porém, foi desenhado para pesquisa. O Caderno de 2006 descreve a força medida com dinamômetro e ajustada para sexo e índice de massa corporal, a atividade física convertida em gasto semanal de energia em quilocalorias e a marcha cronometrada em 4,5 metros e ajustada para sexo e altura. Nenhuma dessas medidas cabe inteira numa consulta de atenção primária. O índice de rastreio brasileiro guarda o espírito dos componentes num item só — perda de peso, índice de massa corporal, panturrilha ou marcha em 4 metros — e o capítulo usa o fenótipo para reconhecer, não para classificar quem vai para onde.
Os domínios que ninguém conta ao médico
Alguns problemas quase nunca chegam como queixa, e todos eles se disfarçam de outra coisa. A perda auditiva aparece como desatenção, isolamento e confusão: a televisão alta, o telefone que ninguém atende, o “o quê?” repetido que a família lê como má vontade ou como memória. A visão ruim aparece como perda de interesse pela leitura, pelas agulhas de crochê, pelo ônibus que não se consegue identificar de longe. Óculos de dez anos atrás passam anos sem ser questionados.
A incontinência aparece como isolamento. A pessoa que perde urina e tem vergonha deixa de sair, larga a igreja, recusa o almoço na casa da filha, diminui a água para não precisar do banheiro. Dona Minervina só contou quando a filha saiu da sala. O humor deprimido, na pessoa idosa, costuma chegar como queixa de memória ou de cansaço, e o capítulo Transtorno depressivo maior: diagnóstico e tratamento farmacológico, na apostila de Psiquiatria, trata essa fronteira como decisão do médico da atenção primária.
A boca e o prato completam a lista. A dentadura frouxa leva à comida mole, a comida mole tira a proteína, e a Caderneta da Pessoa Idosa reserva páginas próprias para a avaliação da saúde bucal pela equipe. A geladeira com comida estragada, a panela esquecida e o café da manhã que não aconteceu são sinais de que a pessoa não está conseguindo cuidar de si. O Caderno de 2006 chama essa situação de autonegligência e a lista entre as formas de violência; quando houver suspeita de negligência ou maus-tratos por terceiros, a obrigação de notificar está em Notificação de violência (criança, mulher, idoso) e responsabilidade médica, na apostila de Medicina Legal e Bioética.
A pessoa frágil que você encontra internada
Na enfermaria, a fragilidade se apresenta de dois jeitos. O primeiro é a própria internação, que para o índice de rastreio é um item — internação nos últimos seis meses soma 4 pontos, e o manual gaúcho esclarece que internações eletivas ou curtas contam, enquanto observação de menos de 24 horas não conta — e, para o manual, é também um evento sentinela que manda reaplicar a avaliação. A pessoa que volta para casa depois de cinco dias de pneumonia andando mais devagar, como Dona Minervina, saiu do hospital num degrau diferente daquele em que entrou.
O segundo é a desnutrição que ninguém pesou. Com 58,8% das pessoas com mais de 60 anos internadas pelo SUS desnutridas, segundo o Guia de 2021, a diretriz de nutrição de 2019 manda fazer a triagem nutricional nas primeiras 24 horas da internação e repeti-la toda semana. Na pessoa que mora em instituição de longa permanência, a triagem é feita na admissão e repetida a cada três meses ou anualmente, conforme a condição clínica.
Três assuntos que moram nesse cenário têm dono em outro lugar do nível. A confusão que aparece durante a internação é do capítulo Delirium no idoso internado: reconhecer, prevenir e manejar, na apostila de Síndromes do Paciente Internado. A fragilidade como parte do risco cirúrgico, com a escala clínica de nove níveis, é do capítulo Avaliação pré-operatória e estratificação de risco cirúrgico, na apostila de Pré e Pós-operatório. A queda no hospital é de Queda do paciente internado: conduta e prevenção, na mesma apostila do delirium.
Quando não é hora de rastrear
Tudo o que este bloco descreveu se instala em semanas ou meses. A primeira pergunta diante de uma pessoa idosa que “não é mais a mesma” é, por isso, de tempo: desde quando? A mudança que se instala em horas ou poucos dias — a mãe que ontem conversava e hoje não reconhece a filha, a sonolência nova, a agitação que vai e volta ao longo do dia, a febre, a fraqueza de um lado do corpo, a queda com batida de cabeça — não é assunto de rastreio. É pergunta de urgência, e aplicar vinte perguntas de vulnerabilidade a quem está com um quadro agudo só atrasa o que precisa ser feito.
O reconhecimento do quadro confusional agudo e das suas causas está no capítulo de delirium citado acima, e as demais urgências têm seus capítulos no nível. Resolvido o episódio agudo, a avaliação ampla volta a ter lugar, e é justamente depois dele — como depois da pneumonia de maio — que ela costuma ser mais necessária. Na cena, a história é de oito meses de declínio arrastado, a atenção de Dona Minervina se sustenta durante toda a conversa e não há sinal de doença aguda: o caminho é a avaliação geriátrica ampla.
Como fechar o diagnóstico
A avaliação geriátrica ampla tem dois tempos, e confundi-los é o jeito mais comum de fazê-la mal. O primeiro é rastrear: um questionário curto, aplicado a todos, que diz quem está vulnerável e em que domínios. O segundo é aprofundar: para cada domínio que pontuou, um exame ou um instrumento que confirma ou descarta o problema e diz quem cuida dele. O Caderno de Atenção Básica nº 19 define a avaliação global da pessoa idosa como trabalho de equipe multiprofissional, com ênfase na funcionalidade, para quantificar capacidades e problemas e estabelecer um planejamento de longo prazo. Rastrear sem aprofundar produz um número. Aprofundar sem rastrear produz uma lista de escalas. Nenhum dos dois produz o plano.
Que régua o Brasil usa, e desde quando
O instrumento de rastreio do SUS é o Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional, o IVCF-20, impresso na íntegra na Caderneta da Pessoa Idosa, 6ª edição, de 2025, com um quadro para registrar a pontuação de cada domínio e um quadro de acompanhamento que vai de 0 a 40 pontos. A ficha-espelho do diagnóstico multidimensional global da mesma Caderneta pede, no alto, o escore de risco inicial — a pontuação do IVCF-20 ou de instrumento similar. Na atenção básica, ele ocupou o lugar da avaliação multidimensional rápida do Caderno de 2006.
A Caderneta, porém, não escreve as faixas da pontuação nem o que fazer com cada uma. Quem as escreve é o manual de aplicação do índice da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul, de 2023: de 0 a 6 pontos, pessoa idosa robusta; de 7 a 14, potencialmente frágil; 15 ou mais, frágil. O manual afirma que o índice é preconizado desde 2019 como instrumento de referência para a triagem inicial da pessoa idosa brasileira e atribui essa preconização a uma nota técnica federal daquele ano, feita pelo Ministério da Saúde com o Hospital Israelita Albert Einstein. É com essa cadeia de documentos, e não com um texto federal que imprima as faixas, que a atenção primária trabalha hoje.
A linha de baixo das faixas tem validação publicada. No estudo da Revista de Saúde Pública de 2016, o ponto de corte de maior acurácia contra a avaliação geriátrica ampla feita por equipe especializada foi 6: acima dele, a pessoa tinha forte possibilidade de ser frágil, com sensibilidade de 90,5% e especificidade de 71,0%. A conclusão do artigo diz que o índice identifica a pessoa idosa com fragilidade no sentido amplo — a que está em risco de fragilização e a frágil. A linha de 15, que separa entre as positivas quem vai para a equipe especializada, não está no artigo; o manual gaúcho lista entre suas referências um trabalho de 2020 dos mesmos autores sobre a hierarquização dos idosos frágeis.
A aplicação é registrada no prontuário eletrônico da atenção primária como procedimento, o 03.01.09.003-3, avaliação multidimensional da pessoa idosa, e o manual recomenda que um único profissional de nível superior faça o lançamento, mesmo quando a equipe inteira participou. Na Caderneta, a pontuação vai para o quadro de acompanhamento, onde a próxima pessoa que atender Dona Minervina vai ver de onde ela partiu.
Aplicar o índice sem mudar a pergunta
O manual gaúcho estima de 5 a 15 minutos de aplicação e aceita como respondente a própria pessoa idosa ou quem convive com ela. A pergunta não precisa ser lida palavra por palavra, mas não pode mudar de sentido nem induzir a resposta. O exemplo do manual é a autopercepção de saúde, que pede comparação com outras pessoas da mesma idade: “o senhor se sente bem de saúde?” muda a pergunta, e “comparando com os outros, o senhor diria que está melhor, né?” induz a resposta.
Nas atividades de vida diária, pontua o declínio. Deixar de fazer compras, de controlar o dinheiro ou de fazer pequenos trabalhos domésticos por causa da saúde vale 4 pontos, e as três perguntas dividem esse teto: quem deixou de fazer as três soma 4, não 12. Deixar de tomar banho sozinho vale 6. Na cognição, o familiar que notou esquecimento vale 1, o esquecimento que piorou nos últimos meses vale 1 e o que já impede alguma atividade do cotidiano vale 2: a seção soma 4. A Caderneta imprime “Máx. 3 pts” nessa seção, erro registrado nas notas do bloco de critérios; esta apostila soma os itens.
No humor, desânimo, tristeza ou desesperança no último mês vale 2, e perda de interesse ou prazer em atividades antes prazerosas vale 2. A mobilidade soma até 10 pontos: 1 para incapacidade de elevar os braços acima do ombro, 1 para incapacidade de manusear ou segurar pequenos objetos, 2 para o item de capacidade aeróbica e muscular, 2 para dificuldade de caminhar que impeça alguma atividade, 2 para duas ou mais quedas no último ano e 2 para perda involuntária de urina ou fezes. Visão e audição valem 2 cada, mas só quando o problema impede alguma atividade do cotidiano mesmo com óculos ou aparelho auditivo: o objetivo, diz o manual, não é detectar baixa acuidade, e sim um problema grave o bastante para tirar a pessoa de alguma coisa.
O último item vale 4 pontos se houver qualquer uma de três condições: cinco ou mais doenças crônicas, uso regular de cinco ou mais medicamentos diferentes todos os dias, ou internação nos últimos seis meses. O manual lembra que “doença crônica” inclui condições como incontinência, perda auditiva e quedas de repetição, e que responder sim à polifarmácia torna obrigatória uma revisão minuciosa da prescrição, de preferência com o farmacêutico clínico. Essa revisão é o assunto do capítulo Polifarmácia e prescrição segura no idoso (critérios de Beers), nesta apostila.
Dois itens dependem de medida. A velocidade de marcha é tomada num percurso de 4 metros, pedindo que a pessoa ande um pouco mais depressa que o habitual, “como se estivesse atravessando uma rua”, sem correr; o cronômetro começa quando ela começa a andar e para quando ela atinge a marca dos 4 metros, e a velocidade é 4 dividido pelo tempo em segundos. A panturrilha é medida com fita inelástica no maior perímetro, sem comprimir, conferindo acima e abaixo do ponto, com a fita em ângulo reto com a perna; o manual prefere a perna esquerda e manda usar a outra se houver plegia, linfedema, trombose, erisipela ou cicatriz retrátil.
Funcionalidade: o que ela faz, e com quanta ajuda
Quando qualquer atividade de vida diária pontua, o manual gaúcho manda aplicar dois instrumentos, que o médico generalista ou a equipe podem usar: o índice de Katz, para as atividades básicas, e a escala de Lawton-Brody, para as instrumentais. O índice diz que houve perda; Katz e Lawton dizem quais funções se perderam e quanto. A diferença importa para o plano: quem perdeu o banho precisa de outra ajuda que quem perdeu o controle dos remédios.
O Caderno de 2006 acrescenta a medida de independência funcional, que em vez de apenas registrar se a pessoa precisa ou não de ajuda procura quantificar a ajuda necessária, e por isso serve ao planejamento. O Guia de reabilitação de 2021 amarra o grau de independência ao projeto terapêutico singular: é conhecendo o que a pessoa ainda faz sozinha que se decide o que a reabilitação vai perseguir.
O exame acompanha a entrevista. O Quadro 4 do Caderno de 2006, que o índice substituiu como rastreio mas que continua útil como roteiro, pede três gestos simples: tocar a nuca com as duas mãos, pegar um lápis sobre a mesa com cada mão e colocá-lo de volta, e levantar da cadeira, caminhar alguns metros, voltar e sentar, com atenção para dor, amplitude de movimento, equilíbrio e marcha. Quem não consegue fazer um deles precisa do exame completo daquele segmento. As escalas de equilíbrio e marcha, e o que fazer quando elas falham, estão em Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade, nesta apostila.
Por fim, pergunte pelo que sumiu antes das instrumentais. Nenhum instrumento do rastreio mede as atividades avançadas, e são elas que dão sentido ao plano: o coral de Dona Minervina não pontua em lugar nenhum do índice e é, provavelmente, a meta que ela aceitaria perseguir.
Humor e cognição — nesta ordem, e depois dos sentidos
O Quadro 4 do Caderno de 2006 examinava visão e audição antes do humor, e o humor antes da memória, e a ordem continua certa. Um teste de memória aplicado a quem não ouve a pergunta mede a surdez. Aplicado a quem está deprimido, mede também a depressão. Na pessoa idosa com as duas coisas e mais uma queixa de esquecimento, como Dona Minervina, corrigir o que dá para corrigir no ouvido e olhar o humor vem antes de qualquer conclusão sobre cognição.
No humor, o manual gaúcho torna imperativo o rastreio aprofundado de depressão maior quando as duas perguntas do índice são respondidas com sim. Um sim sozinho não autoriza descanso: o critério de depressão maior ensinado no capítulo Transtorno depressivo maior: diagnóstico e tratamento farmacológico exige como âncora apenas um dos dois sintomas, humor deprimido ou perda de interesse e prazer. Esta apostila, por isso, leva qualquer sim no humor à pergunta pelos critérios, que são diagnóstico e tratamento daquele capítulo.
Como complemento, o manual e o Caderno de 2006 usam a escala de depressão geriátrica de 15 perguntas, respondidas com sim ou não sobre a última semana, que não substitui a entrevista diagnóstica. A classificação do Caderno é 0 a 5 normal, 6 a 10 depressão leve e 11 a 15 depressão severa. A instrução impressa no Caderno — somar 1 ponto a cada resposta afirmativa — está errada para cinco itens, que são afirmações de bem-estar: satisfeito com a vida, bem na maior parte do tempo, alegre, maravilhoso estar vivo, cheio de energia. Pontua-se a resposta que indica depressão: sim nos dez itens de queixa, não nesses cinco. A conta do estrago está nas notas do bloco de critérios.
Na cognição, qualquer sim nas três perguntas do índice pede, pelo manual gaúcho, a caracterização do esquecimento e o Miniexame do Estado Mental, para confirmar ou descartar a hipótese que o índice levantou. O Caderno de 2006 começava antes, pedindo que a pessoa repita três palavras e as recorde três minutos depois, e completava com o desenho do relógio, a fluência verbal e o questionário de Pfeffer, aplicado ao informante. Os pontos de corte por escolaridade, os exames que excluem causas tratáveis e o diagnóstico diferencial das demências pertencem ao capítulo Demências (Alzheimer, vascular) e comprometimento cognitivo, nesta apostila. Este capítulo fica com o rastreio dentro da avaliação ampla e com a ordem em que ele é feito.
Músculo, marcha e prato
O item de capacidade aeróbica e muscular do índice pontua 2 se houver qualquer uma de quatro condições: perda de peso não intencional de 4,5 kg ou 5% do peso no último ano, de 6 kg em seis meses ou de 3 kg no último mês; índice de massa corporal abaixo de 22 kg/m²; panturrilha abaixo de 31 cm; ou mais de 5 segundos para percorrer os 4 metros. A conta da velocidade decide o limite: 4 metros em 5 segundos são 0,80 m/s, e o manual lembra que a velocidade abaixo de 0,8 m/s é um dos principais marcadores de sarcopenia. Cinco segundos exatos não pontuam. Dona Minervina pontua pelas quatro: perdeu 6 kg de 58 em um ano, tem índice de 21,6, panturrilha de 30 cm e, como se verá, anda 4 metros em 6,2 segundos.
Um item positivo ainda não diz o que está errado, porque ele junta músculo e prato na mesma pergunta. Para o músculo, o passo seguinte é medir força. A diretriz de nutrição de 2019 adota a revisão do consenso europeu, em que a força baixa torna a sarcopenia provável e já basta para iniciar o tratamento, enquanto a massa muscular baixa a confirma; aponta a preensão palmar no dinamômetro como o principal método e traz cortes brasileiros: menos de 30 kg nos homens e menos de 16 kg nas mulheres. O desempenho, medido pela marcha, gradua a gravidade. O questionário de rastreio de sarcopenia com panturrilha, com os cortes de 33 cm ou menos nas mulheres e 34 cm ou menos nos homens, e a prescrição de exercício e de proteína no ciclo da queda estão em Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade, que esta apostila segue sem repetir.
A velocidade de marcha tem ainda uma leitura prognóstica, que o Guia de reabilitação de 2021 chama de sexto sinal vital: abaixo de 0,6 m/s estão as pessoas mais frágeis, com alto risco de declínio funcional, institucionalização e morte; entre 0,6 e 1 m/s, risco moderado; acima de 1 m/s, marcha normal. Em tempo, isso quer dizer mais de 6,7 segundos nos 4 metros para o grupo de maior risco e menos de 4 segundos para a marcha normal.
Para o prato, a diretriz de 2019 manda triar toda pessoa idosa, saudável ou doente, e aponta a Mini Avaliação Nutricional reduzida como o instrumento mais usado para essa população. A frequência acompanha a situação: no hospital, nas primeiras 24 horas e toda semana; na instituição de longa permanência, na admissão e a cada três meses ou anualmente. O Caderno de 2006 manda encaminhar ao nutricionista quem refere perda de peso ou tem índice de massa corporal nos extremos. A boca entra aqui: a dentadura que não encaixa muda o que a pessoa consegue comer, e a Caderneta traz a avaliação de saúde bucal feita pela equipe de saúde bucal da unidade.
Visão, audição, continência e a rede em volta
Para a visão, o Caderno de 2006 pergunta se a pessoa tem dificuldade para dirigir, ver televisão ou fazer outra atividade por causa da vista e, se tiver, aplica o cartão de Jaeger: incapacidade de ler além de 20/40 leva ao oftalmologista. Para a audição, o teste do sussurro: se a pessoa não responde à pergunta sussurrada, procure cerume antes de qualquer outra conclusão; sem cerume e sem resposta, encaminhe ao otorrinolaringologista. A remoção do cerume está no capítulo Epistaxe, corpo estranho em nariz e ouvido e trauma nasal, e a investigação da perda auditiva, em Hipoacusia e zumbido: avaliação inicial e encaminhamento, na apostila de Otorrinolaringologia.
O Guia de 2021 descreve o caminho do aparelho auditivo: o diagnóstico da perda exige avaliação otorrinolaringológica e audiológica completas, a adaptação do aparelho de amplificação sonora individual vem acompanhada de reabilitação auditiva, e a família precisa participar do manuseio e da manutenção. Sem essa orientação, avisa o Guia, os aparelhos mal adaptados acabam engavetados.
Para a continência, o Caderno de 2006 pergunta se a pessoa às vezes perde urina ou fica molhada e, se sim, quantas vezes e se isso provoca incômodo ou constrangimento, definindo quantidade e frequência e pesquisando as causas. O tratamento pertence ao capítulo Incontinência urinária e úlceras por pressão no idoso, nesta apostila; este capítulo fica com o rastreio e com a pergunta que muda o plano hoje: a perda de urina é o motivo pelo qual a pessoa deixou de sair de casa?
A rede em volta tem roteiro na Caderneta. O suporte familiar pergunta se a pessoa mora sozinha, se vive em instituição, se tem cônjuge, se ficou viúva no último ano, se há alguém disponível para ajudá-la ou um cuidador, se recebe visitas e se ela mesma cuida de alguém dependente; o suporte social pergunta se lê e escreve, se recebe benefício de prestação continuada ou Bolsa Família, se a moradia é própria e está em boas condições, se a renda basta e se participa de alguma atividade fora de casa. As sentinelas de vulnerabilidade marcam tabagismo, álcool, restrição ao leito, restrição ao domicílio e situação de rua. Vale fazer também a pergunta do Caderno de 2006 que quase ninguém faz a tempo: quem tomaria as decisões de saúde por ela, se ela não pudesse tomá-las?
Dois instrumentos do Caderno de 2006 completam o domínio. O APGAR de família mede, em cinco perguntas de 0 a 2, a satisfação com adaptação, companheirismo, desenvolvimento, afetividade e capacidade resolutiva da família: 0 a 4 indica disfunção elevada, 5 e 6 moderada, 7 a 10 boa funcionalidade. A escala de Zarit avalia a sobrecarga do cuidador principal e deve ser aplicada sem a pessoa idosa na sala. O genograma e o ecomapa, com a técnica de construção, são do capítulo Método clínico centrado na pessoa e abordagem familiar: genograma e ecomapa, na apostila de Medicina de Família e Comunidade.
Transformar avaliação geriátrica em plano de cuidado
Aprenda a usar a avaliação geriátrica ampla para reconhecer necessidades, definir metas com a pessoa e coordenar ações. O IVCF-20 organiza prioridades na rede, enquanto diagnóstico, prazo e intensidade do cuidado dependem dos achados e da complexidade. Três perguntas organizam este bloco, na sequência em que surgem na consulta. A primeira é o que fazer com cada domínio que pontuou, e para ela não existe número: existe um segundo passo e um responsável. A segunda é o que a soma decide — o nome do estrato, quem conduz o plano e quando refazer —, e aqui a régua federal em uso, a Caderneta de 2025, traz o instrumento mas não as faixas, que vêm do manual gaúcho de 2023. A terceira é a aritmética que o índice pede à beira da cadeira. As notas no fim registram três erros de fonte que mudam a soma ou a leitura de quem seguir o texto ao pé da letra.
- 1Antes de qualquer pergunta, confirme que a mudança é arrastada, de semanas ou meses. Mudança em horas ou dias, atenção que oscila, febre, déficit novo ou queda com trauma craniano são urgência, não rastreio.
- 2Aplique o IVCF-20 da Caderneta a toda pessoa com 60 anos ou mais, ouvindo a pessoa e quem convive com ela, sem mudar o sentido das perguntas. Pontue declínio, não hábito; some a cognição até 4; pontue visão e audição só se o problema impede alguma atividade mesmo com óculos ou aparelho.
- 3Meça o que o índice pede medir: peso e altura, panturrilha com fita inelástica e 4 metros cronometrados. Registre cada domínio no quadro da Caderneta e a soma no quadro de acompanhamento.
- 4Com 0 a 6 pontos, a pessoa é robusta: plano da atenção primária, doenças crônicas pelas diretrizes de cada uma, índice refeito anualmente ou diante de evento sentinela. Um domínio que pontuou continua merecendo o segundo passo.
- 5Com 7 a 14, é potencialmente frágil: plano da atenção primária com aprofundamento de cada domínio que pontuou e cuidado compartilhado com equipe especializada em suspeita cognitiva, quedas de repetição, sarcopenia, prescrição inapropriada e insuficiência sociofamiliar. Refazer semestralmente ou diante de evento sentinela.
- 6Com 15 ou mais, é frágil: encaminhamento para equipe ou serviço especializado. Esta apostila acrescenta que a atenção primária começa no mesmo dia o que resolve sozinha e não entrega a coordenação do cuidado. Refazer semestralmente ou diante de evento sentinela.
- 7Para cada domínio que pontuou, faça o segundo passo da tabela abaixo antes de concluir qualquer diagnóstico — sentidos antes de humor, humor antes de cognição —, e escreva ao lado de cada problema quem cuida dele e até quando.
- 8Diante de queda, internação, mudança de prescrição ou viuvez recente, não espere o prazo: reaplique o índice e compare com o quadro de acompanhamento.
Quando a soma tem de esperar
O índice mede vulnerabilidade acumulada ao longo de meses e não foi feito para quem mudou ontem. A pessoa idosa que perdeu em horas ou poucos dias a atenção, a fala, a força de um lado, a capacidade de andar ou o reconhecimento da família, que está febril ou sonolenta, ou que caiu e bateu a cabeça, precisa primeiro do capítulo da urgência correspondente — o quadro confusional agudo, por exemplo, é de Delirium no idoso internado: reconhecer, prevenir e manejar. Pontuar vinte perguntas nesse momento produz um número falso e atrasa o que não pode esperar. Resolvido o episódio, a avaliação ampla volta, e costuma ser justamente depois dele que ela mais tem a oferecer.
Cada domínio do índice, o que o faz pontuar e o segundo passo
| Domínio | O que pontua | Segundo passo quando pontua | Quem conduz, ou onde está a conduta |
|---|---|---|---|
| Idade | 75 a 84 anos, 1 ponto; 85 ou mais, 3 | Nenhum: é o único domínio que não se trata, e pesa na soma | — |
| Autopercepção de saúde | Regular ou ruim, comparando com pessoas da mesma idade: 1 | Perguntar o que a faz pensar assim; a resposta costuma apontar o domínio que a pessoa sente | Equipe da atenção primária |
| Atividades instrumentais | Deixou de fazer compras, de controlar o dinheiro ou de fazer pequenos trabalhos domésticos por causa da saúde: 4, teto comum às três | Escala de Lawton-Brody; separar incapacidade de falta de oportunidade | Equipe da atenção primária |
| Atividade básica | Deixou de tomar banho sozinho: 6 | Índice de Katz; medida de independência funcional para quantificar a ajuda | Equipe e reabilitação, no projeto terapêutico singular |
| Cognição | Familiar notou esquecimento, 1; piora nos últimos meses, 1; impede atividade do cotidiano, 2 — a seção soma 4 | Corrigir audição e visão, olhar o humor, caracterizar o esquecimento e aplicar o Miniexame do Estado Mental | Demências (Alzheimer, vascular) e comprometimento cognitivo |
| Humor | Desânimo, tristeza ou desesperança no último mês, 2; perda de interesse ou prazer, 2 | Qualquer sim leva aos critérios de depressão maior; escala de depressão geriátrica como complemento, pontuada pela resposta que indica depressão | Transtorno depressivo maior: diagnóstico e tratamento farmacológico |
| Alcance, preensão e pinça | Incapaz de elevar os braços acima do ombro, 1; de manusear ou segurar pequenos objetos, 1 | Exame completo do membro superior: dor, fraqueza, amplitude de movimento | Equipe da atenção primária e fisioterapia |
| Capacidade aeróbica e muscular | Qualquer uma: perda de peso de 4,5 kg ou 5% no ano, 6 kg em seis meses ou 3 kg no mês; índice de massa corporal abaixo de 22; panturrilha abaixo de 31 cm; mais de 5 s em 4 m — 2 | Duas perguntas separadas: força de preensão para o músculo; Mini Avaliação Nutricional reduzida e boca para o prato | Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade, para sarcopenia e exercício; nutricionista e equipe de saúde bucal |
| Marcha | Dificuldade para caminhar que impeça alguma atividade, 2; duas ou mais quedas no último ano, 2 | Avaliação multifatorial de quedas | Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade |
| Continência | Perde urina ou fezes sem querer, em algum momento: 2 | Quantas vezes, quanto incomoda, se afasta a pessoa de alguma atividade; pesquisar causas | Capítulo Incontinência urinária e úlceras por pressão no idoso, nesta apostila; o rastreio fica aqui |
| Visão | Problema que impede alguma atividade mesmo de óculos: 2 | Cartão de Jaeger; incapacidade de ler além de 20/40 leva ao oftalmologista | Oftalmologia |
| Audição | Problema que impede alguma atividade mesmo com aparelho: 2 | Otoscopia e teste do sussurro; cerume antes de tudo; sem cerume e sem resposta, otorrinolaringologista | Epistaxe, corpo estranho em nariz e ouvido e trauma nasal; Hipoacusia e zumbido: avaliação inicial e encaminhamento |
| Comorbidades múltiplas | Cinco ou mais doenças crônicas, cinco ou mais medicamentos por dia ou internação nos últimos seis meses: 4, teto comum às três | Revisão minuciosa da prescrição, de preferência com o farmacêutico clínico | Polifarmácia e prescrição segura no idoso (critérios de Beers); Prevenção quaternária e manejo da multimorbidade na APS |
A soma, o nome, o destino e o prazo
| Pontuação | Nome e leitura no manual gaúcho (2023) | O que o artigo de validação (2016) permite dizer | Quem conduz o plano | Refazer o índice |
|---|---|---|---|---|
| 0 a 6 | Robusta: baixo risco de vulnerabilidade clínico-funcional, ausência de declínio funcional | Abaixo do ponto de corte de maior acurácia contra a avaliação ampla | Atenção primária; doenças crônicas pelas diretrizes de cada doença; domínio que pontuou recebe o segundo passo | Anualmente ou diante de evento sentinela |
| 7 a 14 | Potencialmente frágil: risco moderado, possível declínio funcional | Acima do corte: forte possibilidade de fragilidade no sentido amplo, em risco de fragilização ou frágil | Atenção primária, com cuidado compartilhado com equipe especializada em suspeita cognitiva, quedas de repetição, sarcopenia, prescrição inapropriada e insuficiência sociofamiliar | Semestralmente ou diante de evento sentinela |
| 15 ou mais | Frágil: alto risco de vulnerabilidade clínico-funcional | O artigo não traz esta linha; o manual lista um trabalho de 2020 dos mesmos autores sobre hierarquização dos frágeis | Encaminhamento para equipe ou serviço especializado; esta apostila mantém a atenção primária coordenando e começando no mesmo dia | Semestralmente ou diante de evento sentinela |
Aritmética de cadeira: as conversões que o índice e o plano pedem
| Medida | Como calcular | Valores calculados | Como ler |
|---|---|---|---|
| Velocidade de marcha | 4 metros divididos pelo tempo, em segundos | 4,0 s = 1,00 m/s; 5,0 s = 0,80 m/s; 5,6 s = 0,71 m/s; 6,2 s = 0,65 m/s; 6,7 s = 0,60 m/s; 8,0 s = 0,50 m/s | O índice pontua acima de 5 s, e 5,0 s exatos não pontuam; no Guia de 2021, abaixo de 0,6 m/s é o grupo de maior risco e acima de 1 m/s, marcha normal |
| Perda de peso de 5% | Peso de um ano atrás multiplicado por 0,05 | 45 kg: 2,25 kg; 52 kg: 2,6 kg; 58 kg: 2,9 kg; 70 kg: 3,5 kg; 90 kg: 4,5 kg | Abaixo de 90 kg, os 5% chegam antes dos 4,5 kg: na pessoa leve, é o percentual que dispara o item |
| Perda de peso de Dona Minervina | Diferença dividida pelo peso anterior | 58 kg para 52 kg: 6 kg, 10,3% em um ano | Pontua pelo critério absoluto e pelo percentual |
| Índice de massa corporal | Peso dividido pela altura ao quadrado | 52 kg e 1,55 m: 21,6 kg/m²; para chegar a 22 com essa altura, 52,9 kg | O índice pontua abaixo de 22; 900 gramas separam Dona Minervina do limite |
| Proteína pela diretriz de nutrição de 2019 | Meta em gramas por quilo multiplicada pelo peso | 52 kg: 52 a 62 g/dia na pessoa saudável (1,0 a 1,2 g/kg); 62 a 78 g/dia com doença aguda ou crônica (1,2 a 1,5 g/kg); cerca de 21 g por refeição (0,4 g/kg) | Ponto de partida para a nutricionista, não prescrição do capítulo; a meta no ciclo da queda está no capítulo de quedas |
| Escala de depressão geriátrica | 1 ponto por resposta que indica depressão: sim nos dez itens de queixa, não nos itens 1, 5, 7, 11 e 13 | Sem depressão e com um único sim em item de queixa: 1 ponto; depressão grave com todas as respostas típicas: 15 pontos | 0 a 5 normal, 6 a 10 leve, 11 a 15 severa, pela classificação do Caderno de 2006 |
| APGAR de família | Cinco perguntas de 0 a 2, somadas | Total de 0 a 10 | 0 a 4 disfunção elevada; 5 e 6 moderada; 7 a 10 boa funcionalidade |
Caderneta da Pessoa Idosa, 6ª edição (Ministério da Saúde, 2025), p. 68, seção de cognição do IVCF-20: o formulário imprime “Máx. 3 pts”, mas os três itens valem 1 (familiar notou esquecimento), 1 (piora nos últimos meses) e 2 (esquecimento que impede atividade do cotidiano), que somam 4. Conta das seções com o teto impresso: 3 + 1 + 4 + 6 + 3 + 4 + 2 + 2 + 4 + 2 + 2 + 2 + 4 = 39, enquanto o quadro de acompanhamento da mesma Caderneta, na p. 72, vai de 0 a 40. Com a cognição em 4, a soma fecha em 40, que é o máximo declarado no artigo de validação de 2016 e o valor da seção no manual gaúcho de 2023. Quem aplicar o teto impresso tira 1 ponto de toda pessoa que pontua nos três itens: uma soma real de 7 vira 6 (potencialmente frágil passa a robusta, e a reaplicação semestral vira anual) e uma de 15 vira 14 (frágil passa a potencialmente frágil, e o encaminhamento à equipe especializada não acontece). Esta apostila soma os itens.
Cadernos de Atenção Básica nº 19 (Ministério da Saúde, 2006), Anexo 4, p. 142, escala de depressão geriátrica abreviada: a instrução é “a cada resposta afirmativa some 1 ponto”, com 0 a 5 normal, 6 a 10 depressão leve e 11 a 15 severa. Cinco dos quinze itens, porém, são afirmações de bem-estar — 1, está satisfeito com a vida; 5, sente-se bem na maior parte do tempo; 7, sente-se alegre; 11, acha maravilhoso estar vivo; 13, sente-se cheio de energia. Conta: a pessoa sem depressão que responde sim a esses cinco e não aos outros dez soma 5 pela instrução impressa, e não 0; basta um sim a mais em item de queixa, como preferir ficar em casa, para chegar a 6, depressão leve. A pessoa com depressão grave, que responde não aos cinco e sim aos dez, soma 10, leve, e não 15, severa. A instrução transforma o normal em doente e o grave em leve. Pontua-se a resposta que indica depressão.
Manual de aplicação do IVCF-20 da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul (2023), p. 12, seção de autopercepção da saúde: a lista explicativa dá 0 ponto a “excelente, muito boa, boa, regular ou ruim” e 1 ponto a “regular ou ruim”, de modo que a resposta regular aparece nas duas linhas; o recorte do próprio instrumento, na mesma página, dá 0 a “excelente, muito boa ou boa” e 1 a “regular ou ruim”, como a Caderneta. Conta: quem seguir a lista pode registrar 0 para quem respondeu regular, e a pessoa com soma real de 7 fica em 6, robusta, com reaplicação anual em vez de semestral; a de 15 fica em 14, sem encaminhamento. Vale o instrumento: regular ou ruim soma 1.
A conduta, hora a hora
A avaliação geriátrica ampla transforma achados em problemas, metas importantes para a pessoa, responsáveis e prazos. O IVCF-20 ajuda a priorizar na rede, mas não substitui diagnóstico de fragilidade, sarcopenia, depressão ou demência. Corrigir audição, nutrição, humor e medicamentos melhora a interpretação cognitiva; essas frentes podem andar em paralelo. A prioridade é segurança e função, e a complexidade clínica pode justificar cuidado especializado mesmo com soma baixa.
Há uma regra de tempo que esta apostila adota para a pessoa frágil, e ela não é uma escolha entre dois documentos: é a cronologia deles. O manual gaúcho manda encaminhar à equipe especializada quem soma 15 ou mais; o Caderno de 2006 afirma que a coordenação do cuidado, dentro e fora do sistema de saúde, é responsabilidade da equipe de atenção básica. As duas frases valem ao mesmo tempo. O encaminhamento sai no primeiro dia, com o índice por domínio e o que já foi feito; o que a atenção primária resolve sozinha — cerume, humor, prato, prescrição, apoio à cuidadora — começa no mesmo dia e não espera a vaga, que pode levar meses.
Consulta, primeiros 10 minutos — arrastado ou agudo
Antes do índice, a pergunta de tempo. A história de Dona Minervina é de oito meses de declínio, com piora depois da internação de maio e nenhuma mudança nos últimos dias. Ela acompanha a conversa inteira sem oscilar, responde ao que ouve, não tem febre, fraqueza de um lado do corpo nem queda recente. Com sete medicamentos, um deles para dormir, e uma dieta pobre, vale medir a glicemia capilar. Nada aponta para urgência, e o caminho é a avaliação ampla. A orientação de volta imediata fica dita em voz alta para as duas.
Prescrição- Registro: declínio arrastado de oito meses; atenção sustentada durante a consulta; temperatura axilar 36,4 °C; glicemia capilar 112 mg/dL; sem déficit focal nem queda recente
- Sem indicação de pronto-socorro hoje
- Orientação à filha: voltar no mesmo dia se aparecer confusão de instalação súbita, febre, sonolência nova, fraqueza de um lado do corpo ou queda
Consulta, 30 minutos — o índice com as duas vozes
Aplique o IVCF-20 perguntando a Dona Minervina e ouvindo Odete depois de cada resposta, sem deixar a filha responder por ela. Onde as duas discordam — a mãe diz que não esquece nada, a filha lembra da conta de luz cortada —, pontue o que foi descrito com fato e anote de quem veio. A perda de urina, contada com a filha fora da sala, entra no índice e no plano porque é dela e é verdade; se e como a filha vai saber é decisão de Dona Minervina, combinada com ela antes de a porta abrir. A soma sai 24. Com o teto de 3 que a Caderneta imprime na cognição, sairia 23: aqui a diferença não muda o estrato, mas a conta certa é 24.
Prescrição- IVCF-20: idade 1; autopercepção de saúde 1; atividades instrumentais 4 (compras, dinheiro e casa, por cansaço, desânimo e esquecimento); banho 0; cognição 4; humor 4; alcance, preensão e pinça 0; capacidade aeróbica e muscular 2; marcha 0; continência 2; visão 0; audição 2; comorbidades múltiplas 4 (sete medicamentos e internação em maio) — total 24, frágil
- Registro na Caderneta, no quadro de cada domínio e no quadro de acompanhamento, e no prontuário eletrônico como procedimento 03.01.09.003-3
- Perda de urina registrada no índice e no plano; o que a filha vai saber fica a critério da paciente, que decidiu ela mesma contar no retorno
Mesma consulta — o que se mede e se examina hoje
O índice pediu medidas, e elas saem na mesma consulta. A balança, a fita e o corredor confirmam o item de capacidade aeróbica e muscular por todas as quatro condições. A otoscopia explica boa parte da televisão alta e do telefone que ninguém atende: há cerume impactado dos dois lados, e ela não responde ao teste do sussurro. A prótese inferior dança na boca. A escala de depressão geriátrica, pontuada pela resposta que indica depressão, dá 9. O Miniexame do Estado Mental fica para depois da remoção do cerume: aplicado hoje, mediria a surdez.
Prescrição- Peso 52 kg, altura 1,55 m, índice de massa corporal 21,6 kg/m²; panturrilha esquerda 30 cm; 4 metros em 6,2 segundos (0,65 m/s); levanta da cadeira apoiando as duas mãos
- Cerume impactado bilateral: remoção nesta semana por profissional capacitado, após avaliação de contraindicações à técnica escolhida, como perfuração timpânica ou cirurgia otológica prévia; repetir avaliação auditiva e encaminhar se persistir perda
- Prótese dentária inferior frouxa; alimentação restrita a sopa e pão amolecido
- Escala de depressão geriátrica: 9 pontos
- Miniexame do Estado Mental adiado para depois da remoção do cerume
Fim da primeira consulta — a lista, o humor e o encaminhamento
Com 24 pontos, o manual manda encaminhar à equipe especializada, e o encaminhamento sai hoje. Ele leva o índice por domínio e os achados, e não a frase “idosa frágil para avaliação”. Antes de encerrar, faça a entrevista dos critérios de depressão maior: humor deprimido e perda de interesse desde janeiro, sono ruim, perda de apetite e de peso, cansaço e dificuldade de concentração — e pergunte diretamente por ideias de morte. O diagnóstico e o tratamento seguem Transtorno depressivo maior: diagnóstico e tratamento farmacológico, e a escolha do fármaco passa pela revisão de medicamentos; se houver ideação, a avaliação de risco segue Risco de suicídio: avaliação e manejo em emergência, na apostila de Psiquiatria.
Prescrição- Lista de problemas com responsável e prazo: humor e risco de suicídio, hoje; triagem de segurança da prescrição, hoje, com revisão completa em curto prazo; audição, nesta semana; prato/boca e músculo, em até 15 dias; continência, já caracterizada inicialmente e aprofundada no retorno; apoio à filha, em até 15 dias
- Encaminhamento à equipe especializada de geriatria da rede, com o IVCF-20 por domínio, as medidas de hoje e o que já começou
- Critérios de depressão maior avaliados, com pergunta direta sobre ideias de morte registrada
- Retorno em 7 dias com a filha; visita da agente comunitária na semana, com atenção à geladeira e às refeições
Dia 7 — audição primeiro, memória depois
Com o cerume removido, o sussurro é respondido à esquerda e não à direita: há uma perda auditiva que o cerume escondia e que precisa de diagnóstico. Só agora, ouvindo a pergunta, Dona Minervina faz o Miniexame do Estado Mental. O resultado fica abaixo do esperado para os quatro anos de escola dela, e é exatamente aqui que o rótulo de demência mais tenta: há depressão em tratamento há uma semana, um ouvido ainda sem correção e um remédio para dormir que ninguém revisou. A leitura dos cortes, os exames de causas tratáveis e o seguimento pertencem ao capítulo de demências; o que este capítulo decide é não concluir antes de repetir o teste com o humor tratado. Isso não suspende a investigação cognitiva nem o cuidado até completar três meses. Documentar desde agora trajetória, funcionalidade e segurança, investigar contribuintes e manter hipótese provisória. Depressão, hipoacusia e doença neurodegenerativa podem coexistir; melhora de um domínio não exclui automaticamente os demais.
Prescrição- Cerume removido; teste do sussurro: responde à esquerda, não responde à direita
- Encaminhamento para avaliação otorrinolaringológica e audiológica, com vistas a aparelho de amplificação sonora individual
- Miniexame do Estado Mental registrado com a audição parcialmente corrigida; interpretação e exames de causas tratáveis pelo capítulo Demências (Alzheimer, vascular) e comprometimento cognitivo
- Reavaliar cognição após ajustes sensoriais e tratamento do humor, com prazo individual e investigação etiológica em paralelo; piora funcional ou sinais neurológicos antecipam avaliação, sem espera obrigatória de três meses
Dias 7 a 30 — a equipe entra
Cada domínio ganha a sua gente. A nutricionista aplica a Mini Avaliação Nutricional reduzida e parte da meta de proteína da diretriz de nutrição de 2019 para pessoa idosa com doença crônica; a organização das refeições, que é o problema real de quem mora sozinha e perdeu o ânimo, é combinada com Odete e com a agente comunitária. A equipe de saúde bucal ajusta a prótese. A fisioterapeuta mede a preensão, que fica abaixo do corte brasileiro para mulheres: com força baixa e marcha lenta, a sarcopenia é provável e tem desempenho baixo. A sacola de remédios vai para a revisão do capítulo de polifarmácia. E Odete, sozinha na sala, responde à escala de Zarit.
Prescrição- Mini Avaliação Nutricional reduzida; plano alimentar com meta inicial de 62 a 78 g de proteína por dia (1,2 a 1,5 g/kg para 52 kg), dividida pelas refeições
- Equipe de saúde bucal: ajuste da prótese inferior e reavaliação da mastigação
- Fisioterapia: preensão palmar de 13 kg, abaixo de 16 kg; programa de fortalecimento supervisionado conforme Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade
- Revisão de todos os medicamentos, incluindo o indicado pela vizinha, conforme Polifarmácia e prescrição segura no idoso (critérios de Beers), com o farmacêutico
- Escala de Zarit com a filha, sem a mãe na sala; APGAR de família com Dona Minervina; ecomapa com a agente comunitária
- Registrado na Caderneta quem decide por ela se ela não puder decidir: a filha, escolhida por ela
Dias 30 a 90 — especializada, aparelho auditivo e o coral
A consulta na equipe especializada acontece no segundo mês e encontra o plano andando: ela confirma a fragilidade, revisa a lista e devolve à unidade a coordenação, com a contrarreferência escrita. O aparelho auditivo chega com orientação para Dona Minervina e para Odete sobre colocar, limpar e trocar pilha, porque o Guia de reabilitação avisa que aparelho sem orientação acaba na gaveta. A perda de urina, caracterizada como urgência três ou quatro vezes por semana, tem as causas pesquisadas e segue o tema de incontinência desta apostila. A agente comunitária combina com uma amiga do coral uma carona para o ensaio de quinta-feira.
Prescrição- Contrarreferência da equipe especializada anexada à Caderneta, com a coordenação mantida na unidade
- Aparelho de amplificação sonora individual adaptado, com orientação de manuseio para a paciente e a filha
- Perda de urina caracterizada (urgência, três a quatro episódios por semana) e com causas pesquisadas; tratamento pelo tema Incontinência urinária e úlceras por pressão no idoso
- Retorno ao coral com acompanhante; peso e panturrilha em cada consulta mensal
Mês 6 — refazer o índice e decidir o estrato de novo
Seis meses depois, o prazo do estrato frágil, o índice é refeito com as duas vozes e comparado ao quadro de acompanhamento. Dona Minervina voltou a ir à feira com a vizinha e a controlar o próprio dinheiro, o humor melhorou, o aparelho resolveu a conversa e o teste cognitivo, repetido, ficou dentro do esperado para a escolaridade. Ainda pesa menos do que há um ano, ainda anda os 4 metros em mais de 5 segundos, ainda perde urina e ainda toma cinco remédios. A soma é 10: potencialmente frágil. Quatorze pontos saíram, e cada um tem nome. Os dez que ficaram continuam no plano.
Prescrição- IVCF-20: idade 1; autopercepção 0; atividades instrumentais 0; banho 0; cognição 1 (a filha ainda relata o esquecimento do início do ano); humor 0; alcance e pinça 0; capacidade aeróbica e muscular 2 (54 kg, perda de mais de 5% no último ano; 4 metros em 5,4 s); marcha 0; continência 2; visão 0; audição 0; comorbidades múltiplas 4 (cinco medicamentos) — total 10, potencialmente frágil
- Plano mantido na atenção primária, com cuidado compartilhado nos domínios de sarcopenia e prescrição
- Próxima aplicação em seis meses ou antes, diante de queda, internação, mudança de prescrição ou nova perda
Como saber se está funcionando
Reavaliar a avaliação ampla é diferente de reavaliar uma doença: não há um exame que normaliza. O que se mede é o que a pessoa voltou a fazer, o que o corpo recuperou e quanto pesa o cuidado sobre quem cuida. A régua de tempo é a do manual gaúcho de 2023 — índice refeito anualmente no robusto, semestralmente no potencialmente frágil e no frágil, e sempre diante de queda, internação, mudança de prescrição ou viuvez recente —, e o registro que permite comparar é o quadro de acompanhamento da Caderneta. Os parâmetros abaixo são os de Dona Minervina, e a regra por trás deles vale para qualquer pessoa: cada ponto que sai da soma precisa ter nome, e cada ponto que fica precisa ter responsável.
Esperado: Queda da soma à custa de domínios tratáveis — humor, audição, atividades instrumentais —, com o nome de cada ponto que saiu
Se não melhora: Ler o que persiste em cada domínio, verificar acesso e execução do plano e compartilhar cuidado conforme complexidade. Atravessar o corte do escore ajuda a organizar a rede, mas não determina automaticamente encaminhamento ou alta da equipe especializada
Esperado: Volta às compras e ao controle do próprio dinheiro, ainda que com companhia
Se não melhora: Separar incapacidade de falta de oportunidade: a família que assumiu a tarefa pode simplesmente ter ficado com ela. Se a pessoa tenta e não consegue, reabrir humor, cognição e mobilidade
Esperado: Interrupção da perda e melhora de ingestão, força e função; panturrilha acompanhada como tendência, considerando edema e técnica. Ultrapassar 31 cm, isoladamente, não confirma recuperação muscular
Se não melhora: Perda que continua com a prótese ajustada, a depressão tratada e as refeições organizadas deixa de ser explicada pelo luto e pela boca e pede investigação clínica da perda de peso, além de nova triagem nutricional
Esperado: Critérios em remissão progressiva e escala caindo para a faixa de 0 a 5
Se não melhora: Resposta insuficiente é conduzida por Transtorno depressivo maior: diagnóstico e tratamento farmacológico; ideias de morte, em qualquer retorno, seguem Risco de suicídio: avaliação e manejo em emergência
Esperado: Resposta ao sussurro com o aparelho, uso diário do aparelho e teste cognitivo dentro do esperado para a escolaridade
Se não melhora: Aparelho na gaveta: rever adaptação e orientação com a família. Teste cognitivo alterado com audição e humor corrigidos segue a investigação de Demências (Alzheimer, vascular) e comprometimento cognitivo
Esperado: Menos episódios e retorno a ao menos uma atividade perdida, como o coral
Se não melhora: Perda de urina que mantém a pessoa em casa volta à pesquisa de causas e ao tema de incontinência da apostila; o isolamento é tratado como problema do plano, e não como consequência aceitável
Esperado: Sobrecarga menor, tarefas divididas com outras pessoas da rede, visitas regulares
Se não melhora: Sobrecarga alta ou sinais de cuidado insuficiente: o manual gaúcho manda compartilhar a insuficiência sociofamiliar com a equipe especializada; suspeita de negligência ou maus-tratos segue Notificação de violência (criança, mulher, idoso) e responsabilidade médica
Onde o erro machuca
O dano: Cerume, depressão, desnutrição, prótese frouxa e remédio para dormir somaram, na cena, 24 pontos que pareciam envelhecimento. Aceitar “é da idade” — dito pela paciente, pela família ou pelo médico — encerra a investigação antes do segundo passo, e a pessoa continua perdendo função por causas que se tratam.
Como pegar a tempo: Toda perda recente de atividade é sintoma até que o domínio responsável tenha sido examinado. A pergunta não é se ela está velha: é o que ela deixou de fazer, desde quando e por quê.
O dano: Frágil vira sentença, com a frase “não há o que fazer”, e robusto vira dispensa, mesmo quando um domínio pontuou sozinho. Quem soma 4 com uma perda auditiva que impede a conversa tem um problema que o total não mostra.
Como pegar a tempo: A soma decide estrato, destino e prazo; o plano sai dos domínios. Leia o quadro de cada domínio, não só o total, e dê o segundo passo a tudo o que pontuou, em qualquer faixa.
O dano: O teto de 3 na cognição impresso na Caderneta, a instrução do Caderno de 2006 que soma o sim da escala de depressão geriátrica e a lista do manual gaúcho que zera a autopercepção regular tiram ou põem pontos justamente onde as faixas se decidem. A pessoa muda de estrato, de prazo e de destino por aritmética.
Como pegar a tempo: Some a cognição até 4; na escala de depressão, pontue a resposta que indica depressão; dê 1 ponto a regular ou ruim. Pontue declínio e não hábito, e nunca a atividade que a pessoa nunca fez.
O dano: O teste cognitivo aplicado a quem não ouve a pergunta, ou a quem está deprimida, mede a surdez e a depressão. O rótulo de demência que sai daí é difícil de tirar: muda o jeito como a família trata a pessoa, o que ela ouve sobre si mesma e o que a próxima equipe presume.
Como pegar a tempo: Otoscopia e teste do sussurro antes; critérios de depressão antes; teste cognitivo depois, repetido quando o humor estiver tratado. Registre em que condições o teste foi feito.
O dano: Enquanto aguarda a equipe especializada, a pessoa passa meses com o ouvido tampado, a depressão sem tratamento e o prato vazio, e chega à consulta especializada mais frágil do que saiu da unidade.
Como pegar a tempo: O encaminhamento sai no primeiro dia, com o índice por domínio e o que já foi feito; o que a atenção primária resolve começa no mesmo dia. A coordenação continua com a equipe da unidade, que recebe a contrarreferência.
O dano: Ouvindo só a paciente, a anosognosia e a depressão escondem perdas reais. Ouvindo só a família, a pessoa é infantilizada, a incontinência que ela esconde da filha nunca aparece e a sobrecarga de quem cuida vira queixa contra quem é cuidado.
Como pegar a tempo: Pergunte primeiro à pessoa idosa e ouça o familiar depois de cada resposta. Reserve um momento sem a filha na sala e outro sem a mãe, para a escala de sobrecarga e para qualquer suspeita de violência.
O que dizer ao paciente e à família
A avaliação geriátrica ampla é, antes de tudo, uma conversa longa com duas pessoas que se gostam e estão cansadas. As falas abaixo são da primeira consulta e do retorno de Dona Minervina, e todas protegem as mesmas duas coisas: a dignidade de quem está sendo avaliada e a veracidade do que se avalia. Uma pessoa idosa tratada como ausente responde menos, e uma cuidadora tratada como suspeita conta menos.
Abrir a consulta falando com ela, e não com a filha
““Dona Minervina, eu vou conversar primeiro com a senhora, e depois vou pedir à Odete que me ajude a completar. Se eu falar baixo demais, a senhora me avisa, que eu chego a cadeira mais perto.””
Não diga: “Pode deixar, a filha dela responde.” Falar com o acompanhante como se a pessoa idosa não estivesse na sala ensina a ela que não precisa mais responder, e ao médico, que ela não tem nada a dizer.
Pedir a versão da filha sem desautorizar a mãe
““A senhora me disse que não esquece as contas, e a Odete lembrou que cortaram a luz duas vezes. As duas coisas podem ser verdade: às vezes a gente não percebe o que muda na gente. Posso anotar o que ela contou também?””
Não diga: “A senhora não lembra, então quem sabe é a sua filha.” A frase decide a divergência antes do exame e ensina a paciente a se calar.
Quando ela conta a perda de urina e pede segredo
““Que bom que a senhora me contou. Isso acontece com muita gente, tem tratamento, e não precisa ser o motivo de a senhora largar o coral. O que a senhora me disse fica entre nós. Se um dia quiser contar para a Odete, eu ajudo, do jeito que a senhora achar melhor.””
Não diga: “Isso é da idade, é só usar fralda.” A resposta confirma a vergonha, encerra o assunto e mantém a pessoa dentro de casa.
Perguntar pelo humor e pelas ideias de morte
““Desde que o seu marido faleceu, a senhora tem ficado triste a maior parte do dia? Tem perdido a vontade das coisas de que gostava, como as plantas e o coral? E alguma vez pensou que seria melhor não acordar mais, ou em tirar a própria vida?””
Não diga: “É normal ficar triste depois de perder o marido, vai passar.” A frase encerra a conversa antes dos critérios, e a pergunta sobre a morte nunca chega a ser feita.
Explicar a soma sem transformá-la em rótulo
““As perguntas mostraram que, neste momento, a senhora está mais vulnerável: juntou tristeza, ouvido tampado, pouca comida, perda de urina e muito remédio. A parte boa é que quase tudo isso tem conserto, e a gente vai cuidar de uma coisa de cada vez. Daqui a seis meses a gente refaz as mesmas perguntas e vê o que mudou.””
Não diga: “A senhora é uma idosa frágil.” O nome do estrato é linguagem de equipe; para a pessoa, soa como diagnóstico definitivo e sem saída.
Com a filha, a sós
““Odete, e você? Trabalhar o dia inteiro, passar na casa da sua mãe todo fim de tarde e ainda cuidar das contas dela é muita coisa para uma pessoa só. Queria fazer umas perguntas sobre como está sendo para você, com calma, sem a sua mãe na sala.””
Não diga: “Você precisa ter mais paciência com ela.” A cuidadora sobrecarregada que ouve cobrança some das consultas, e o plano perde a pessoa que o sustenta.
Explicar o encaminhamento e o que não para
““Vou pedir a avaliação da equipe de geriatria, porque ela pode ajudar a enxergar o que ainda faltar. Essa vaga pode demorar. Enquanto isso, nada fica parado: o ouvido, a tristeza, a comida, a dentadura e os remédios começam aqui, esta semana, e a senhora continua sendo acompanhada por esta equipe.””
Não diga: “Agora é com o geriatra.” A frase tira a coordenação da unidade e deixa a família esperando uma vaga sem saber o que fazer até lá.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Três ou mais critérios definem a pessoa frágil — fenótipo de Fried, como o reproduzem o Caderno de Atenção Básica nº 19 (Ministério da Saúde, 2006), a Diretriz BRASPEN (2019) e o Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa (Ministério da Saúde, 2021)
Os três documentos descrevem o fenótipo do estudo original: perda de peso não intencional, exaustão, força de preensão reduzida, baixa atividade física e lentidão da marcha. Três ou mais componentes classificam a pessoa como frágil; um ou dois, como pré-frágil; nenhum, como robusta. Nessa leitura, a fragilidade é uma síndrome física que se detecta antes da dependência — o Caderno de 2006 insiste que fragilidade, comorbidade e incapacidade são condições distintas —, e a pessoa independente com três critérios já é frágil.
Brasil. Ministério da Saúde. Envelhecimento e saúde da pessoa idosa (Cadernos de Atenção Básica, n. 19), 2006, cap. 9; Gonçalves TJM et al. BRASPEN J. 2019;34(Supl 3):2-58, p. 4; Brasil. Ministério da Saúde. Guia de atenção à reabilitação da pessoa idosa, 2021, p. 83
Três ou mais critérios põem a pessoa em risco de fragilização; frágil é quem já perdeu atividade instrumental — classificação clínico-funcional reproduzida no artigo de validação do IVCF-20 (2016) e faixas do índice no manual da SES-RS (2023)
A classificação em dez estratos reproduzida no artigo de validação coloca a pessoa independente com três ou mais critérios de Fried no estrato 4, idoso em risco de fragilização, ao lado de quem tem marcadores de sarcopenia, comprometimento cognitivo leve ou comorbidades múltiplas; o nome frágil começa no estrato 6, com declínio das atividades instrumentais. O índice de rastreio, validado pelo mesmo grupo, decide o destino pela soma: o manual gaúcho dá a quem soma de 7 a 14 um plano da atenção primária com cuidado compartilhado nos domínios que pedem equipe especializada, e reserva o encaminhamento para 15 pontos ou mais.
Moraes EN, Carmo JA, Moraes FL, et al. Rev Saúde Pública. 2016;50:81, quadro de classificação clínico-funcional; Rio Grande do Sul. Secretaria da Saúde. Manual de aplicação do IVCF-20, 2023, p. 8 e 25
Esta apostila adota a segunda régua para decidir o destino, e a decisão sai no primeiro degrau, o do escopo. Diante da pessoa independente com três critérios, a pergunta não é se ela tem a síndrome física — tem —, e sim onde e por quem será cuidada. Essa pergunta é respondida pelo instrumento escrito para organizar o cuidado da pessoa idosa na atenção primária: o índice que a Caderneta federal de 2025 traz como escore de risco inicial, com as faixas e os destinos do manual gaúcho. O fenótipo foi escrito para definir a síndrome e prever desfechos, com medidas de pesquisa — força ajustada ao índice de massa corporal, gasto semanal de energia em quilocalorias —, e não diz para onde a pessoa vai. Na prática: some o índice e decida o destino pela faixa; transforme cada critério do fenótipo presente em item do plano — força, peso, cansaço, atividade —; e, quando precisar registrar o fenótipo, escreva “fenótipo frágil”, para que ninguém o leia como estrato. Com 15 pontos ou mais, o encaminhamento vem pela soma, tenha a pessoa quantos critérios tiver.
Máximo de 3 pontos — Caderneta da Pessoa Idosa, 6ª edição (Ministério da Saúde, 2025)
O formulário federal imprime, ao lado dos três itens de cognição — familiar notou esquecimento, 1 ponto; piora nos últimos meses, 1; esquecimento que impede atividade do cotidiano, 2 —, a indicação “Máx. 3 pts”. Nenhuma instrução explica o teto, ao contrário das seções de atividades instrumentais, de capacidade aeróbica e muscular e de comorbidades múltiplas, em que a Caderneta escreve que o máximo vale mesmo quando a pessoa responde sim a todos os itens.
Brasil. Ministério da Saúde. Caderneta da Pessoa Idosa. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2025, p. 68
Máximo de 4 pontos — soma dos próprios itens, manual da SES-RS (2023) e total de 40 pontos no artigo de validação (2016)
Os três itens somam 4, e o manual gaúcho escreve que a pontuação máxima da seção de cognição é de 4 pontos. O artigo de validação declara 40 pontos como o máximo do índice, e o quadro de acompanhamento da própria Caderneta vai de 0 a 40 — total que só fecha com a cognição em 4, porque, com o teto de 3, as seções somam 39.
Rio Grande do Sul. Secretaria da Saúde. Manual de aplicação do IVCF-20, 2023, seção 4; Moraes EN et al. Rev Saúde Pública. 2016;50:81; Caderneta da Pessoa Idosa, 2025, p. 72
Os três primeiros degraus não resolvem a favor da conta certa: o escopo é o mesmo instrumento para a mesma pessoa, a data favoreceria a Caderneta de 2025 e a natureza também, por ser a régua federal. A decisão sai no quarto degrau, o da coerência interna, que existe exatamente para isso: o documento normativo se contradiz no ponto em disputa, porque os seus itens somam 4 e o seu quadro de acompanhamento vai até 40, total impossível com o teto impresso. Vence o lado coerente. Esta apostila soma os itens da cognição até 4, e o defeito foi registrado, com a conta feita, entre as notas do bloco de critérios. A diferença pesa justamente nas fronteiras: a pessoa que soma 7 ou 15 com os três itens de cognição positivos não pode mudar de estrato, de prazo e de destino por um erro de impressão.
Sim: qualquer das quatro condições do item indica presença de sarcopenia e manda compartilhar o cuidado — manual da SES-RS (2023)
No plano da pessoa potencialmente frágil, o manual gaúcho lista a presença de sarcopenia e manda compartilhar o cuidado com equipe especializada caso a pessoa tenha pontuado em qualquer uma das quatro perguntas referentes à capacidade aeróbica e muscular — perda de peso, índice de massa corporal abaixo de 22, panturrilha abaixo de 31 cm ou mais de 5 segundos nos 4 metros. O mesmo manual chama a velocidade abaixo de 0,8 m/s de um dos principais marcadores de sarcopenia e pede abordagem interdisciplinar com nutricionista, fisioterapeuta e profissional de educação física.
Rio Grande do Sul. Secretaria da Saúde. Manual de aplicação do IVCF-20, 2023, seção 6 e p. 25
Não: sarcopenia se reconhece pela força baixa; peso e índice de massa corporal são triagem nutricional — Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no envelhecimento (2019), com o consenso europeu revisado
A diretriz adota a revisão do consenso europeu em que a força muscular é o parâmetro central: a sarcopenia é provável quando a força está baixa, o que já basta para iniciar o tratamento, e confirmada quando a massa muscular também está baixa; a velocidade de marcha gradua a gravidade. O principal método para medir força é a preensão palmar no dinamômetro, com cortes brasileiros de 30 kg nos homens e 16 kg nas mulheres. Perda de peso e índice de massa corporal pertencem à triagem nutricional, que a mesma diretriz manda fazer em toda pessoa idosa com a Mini Avaliação Nutricional reduzida. Pela definição, a pessoa com índice de massa corporal de 21 e força normal não tem sarcopenia provável.
Gonçalves TJM, Horie LM, et al. Diretriz BRASPEN de terapia nutricional no envelhecimento. BRASPEN J. 2019;34(Supl 3):2-58, seções de triagem nutricional e de sarcopenia
Esta apostila adota a diretriz para o diagnóstico, e a decisão sai no primeiro degrau, o do escopo: a pergunta “esta pessoa tem sarcopenia?” pertence ao documento que tem uma seção escrita para diagnosticar sarcopenia, e não ao manual de aplicação de um índice de vulnerabilidade. É a mesma linha que Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade usou para a panturrilha: para pontuar o índice, vale o número do índice; para dizer se há sarcopenia, vale o documento de sarcopenia. Na prática, o item positivo abre duas perguntas separadas. A força, medida pela preensão palmar, responde se há sarcopenia provável e chama fisioterapia e exercício. A Mini Avaliação Nutricional reduzida responde se há risco nutricional ou desnutrição e chama a nutricionista. As duas podem ser positivas ao mesmo tempo, como em Dona Minervina. A instrução do manual de compartilhar o cuidado continua valendo para quem tem a sarcopenia reconhecida pela força.
O raciocínio, em voz alta
Terça-feira, consulta de hipertensão e diabetes na unidade. Seu Bonifácio Lisboa tem 77 anos, foi motorista de ônibus por trinta e dois anos e mora com a esposa, que veio junto e fala antes dele: “Ele está parado, doutor. Passa o dia no sofá.” Ele não se queixa de tristeza nem perdeu o gosto pelas coisas — ainda vai ao dominó da praça, só volta mais cedo, porque “cansa”. Diz que tudo o que faz exige esforço. Continua pagando as contas, indo à padaria e tomando banho sozinho, e a esposa confirma que ele não esquece nada. Há quatro meses fez uma cirurgia eletiva de hérnia inguinal, com dois dias de internação. Usa cinco medicamentos. Há um ano pesava 70 kg; hoje pesa 66 kg, com 1,68 m. A panturrilha mede 33 cm, ele anda os 4 metros em 5,6 segundos e a fisioterapeuta da equipe, que estava na unidade, mede a preensão palmar: 26 kg. Não tem febre, não mudou nos últimos dias e acompanha a conversa sem dificuldade.
o que eu descarto antes de somar
A mudança é arrastada, de meses, e não de dias; não há febre, déficit novo, queda ou oscilação de atenção. Não é urgência, e o índice pode ser aplicado hoje. A queixa dele e a da esposa não se contradizem: ela vê o sofá, ele sente o esforço. As duas entram.
a soma, e o que ela decide
Idade entre 75 e 84 anos, 1 ponto; autopercepção de saúde regular comparado a outros da idade dele, 1; nenhuma atividade instrumental ou básica perdida, 0; cognição e humor, 0; capacidade aeróbica e muscular, 2, porque perdeu 4 kg de 70, o que dá 5,7% em um ano, e porque 5,6 segundos nos 4 metros são 0,71 m/s; marcha, quedas, continência, visão e audição, 0; comorbidades múltiplas, 4, pelos cinco medicamentos e pela internação eletiva, que o manual gaúcho manda contar. Total, 8: potencialmente frágil. A soma decide que o plano é da atenção primária, com cuidado compartilhado nos domínios que o manual lista, e que o índice é refeito em seis meses ou antes, diante de evento sentinela.
o fenótipo, e por que ele não muda o destino
Ele tem, pelo menos, perda de peso não intencional acima de 5% no ano, exaustão, força de preensão reduzida, marcha lenta e baixa atividade física: pela régua de Fried, é frágil. Pela régua que esta apostila adota para decidir destino, isso não o manda para a equipe especializada, porque o destino sai da soma do índice, e a soma é 8. Registro “fenótipo frágil; IVCF-20 igual a 8, potencialmente frágil” e transformo cada critério em item do plano.
o item positivo abre duas perguntas
O item de capacidade aeróbica e muscular pontuou, e isso não é diagnóstico. Para o músculo, a preensão de 26 kg está abaixo do corte brasileiro de 30 kg para homens: pela diretriz de nutrição de 2019, a sarcopenia é provável, o que já basta para começar o tratamento, e a marcha de 0,71 m/s, abaixo de 0,8, indica desempenho baixo. Para o prato, a Mini Avaliação Nutricional reduzida, feita na mesma consulta, mostra risco nutricional. As duas respostas são positivas, e cada uma chama um profissional diferente.
o que eu não posso atribuir à sarcopenia
Quatro quilos em um ano sem intenção, num homem de 77 anos com diabetes, não se explicam só pelo sofá. A perda de peso não intencional entra na lista como problema próprio, com investigação clínica orientada pela história e pelo exame, antes de ser debitada ao músculo. E a resposta sim ao item de medicamentos obriga, pelo manual gaúcho, a revisar a prescrição inteira, que é o assunto de Polifarmácia e prescrição segura no idoso (critérios de Beers).
o plano, com responsável e prazo
Fisioterapia e educação física: programa de fortalecimento supervisionado, com o desenho que Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade descreve, começando em duas semanas. Nutricionista: plano alimentar partindo de 79 a 99 g de proteína por dia, que é 1,2 a 1,5 g/kg para 66 kg, faixa que a diretriz de 2019 dá à pessoa idosa com doença crônica. Médico da equipe: iniciar investigação da perda de peso e revisão da prescrição agora, com resultados acompanhados e retorno em até 30 dias, antecipado por achados de risco. Cuidado compartilhado com a equipe especializada no domínio da sarcopenia, como o manual manda para a faixa de 7 a 14. Peso, preensão e marcha a cada retorno; índice refeito em seis meses.
Faça você
Visita domiciliar da equipe de saúde da família. Dona Sergiana Pequeno tem 84 anos, é viúva há dez e mora com o filho, que sempre cuidou das contas da casa — antes dele, o marido. Há um ano deixou de ir à feira por causa de uma dor no joelho direito que piora quando anda, e desde então é o filho quem faz as compras. Toma banho sozinha, cozinha e arruma a casa. O filho diz que ela não esquece nada. Ela nega tristeza, mas conta que, há dois meses, perdeu o gosto pelo crochê que fazia todas as tardes. Acha a própria saúde regular. Caiu uma vez no ano, tropeçando no degrau do quintal, sem se machucar. Perde urina quando tosse ou espirra, algumas vezes por semana. Enxerga bem com os óculos novos e ouve bem. Pesa 68 kg, estáveis, com 1,58 m; a panturrilha mede 34 cm e ela anda os 4 metros em 4,6 segundos. Tem hipertensão, artrose de joelho, refluxo e a perda de urina; usa quatro medicamentos e não foi internada nos últimos seis meses.
o que já está decidido na porta
Nada mudou em dias, não há sinal de doença aguda e a queda do ano foi um tropeço sem lesão, que a avaliação de quedas do capítulo próprio vai examinar. O índice pode ser aplicado hoje, com ela e com o filho.
as armadilhas da soma nesta casa
O dinheiro que ela nunca controlou não pontua, porque o índice mede declínio e não hábito. A feira que ela deixou por dor pontua, e a mesma dor pontua de novo em outro item, o de dificuldade para caminhar que impede alguma atividade, porque os dois itens medem coisas diferentes. Um único sim no humor soma 2 e não fica sem resposta. A perda de urina “só quando tosse” pontua do mesmo jeito que qualquer outra.
a pergunta que falta responder
Some o IVCF-20 item por item, diga o estrato e o prazo para refazê-lo, e diga quais domínios entram no plano e o que se faz com cada um.
Ver como fecharíamos
A soma é 12: idade entre 75 e 84 anos, 1; autopercepção regular, 1; atividades instrumentais, 4, pela feira abandonada por causa da dor; humor, 2, pela perda de interesse; dificuldade para caminhar que a tirou da feira, 2; perda de urina, 2. O dinheiro não pontua, a única queda não atinge as duas do item, o item de capacidade aeróbica e muscular é negativo (peso estável, índice de massa corporal de 27,2, panturrilha de 34 cm e 0,87 m/s) e as quatro condições crônicas não chegam às cinco. Potencialmente frágil: plano da atenção primária, índice refeito em seis meses ou antes diante de evento sentinela. Entram no plano três domínios. O joelho e a marcha: tratamento da dor e fisioterapia, com a queda examinada pela avaliação de Síndromes geriátricas: quedas e imobilidade. O humor: um sim basta para perguntar os critérios de depressão maior, que são de Transtorno depressivo maior: diagnóstico e tratamento farmacológico. A perda de urina aos esforços: caracterizar frequência e incômodo e pesquisar causas, com o tratamento pelo tema Incontinência urinária e úlceras por pressão no idoso desta apostila.
As perguntas de atividades de vida diária do IVCF-20 pontuam declínio, e não hábito: a atividade conta quando a pessoa fazia e deixou de fazer por causa da saúde. Comprar o pão na padaria era uma compra que ele fazia e abandonou pela falta de ar, o que vale 4 pontos. Supermercado, dinheiro e cuidado da casa nunca foram tarefas dele e não pontuam, como o manual gaúcho de 2023 exemplifica com as finanças. O banho feito sozinho soma 0, e as três instrumentais dividem um teto único de 4.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Converta os domínios alterados de uma avaliação em uma lista com problema, objetivo, responsável e prazo. Explique a diferença entre rastreio de vulnerabilidade e diagnóstico de fragilidade ou sarcopenia.
Em 30 dias
Compare um escore baixo com perda de peso e fraqueza relevantes e um escore alto influenciado por problemas tratáveis. Defina prioridades e seguimento sem deixar a soma substituir o julgamento clínico.
Agora atenda
Agora atenda: consulta na unidade básica de saúde. Homem de 79 anos trazido pela esposa, que diz que, desde uma internação três meses atrás, ele “não é mais o mesmo”. Descarte primeiro o que é agudo, aplique o IVCF-20 ouvindo os dois, meça o que o índice pede, faça o segundo passo em cada domínio que pontuar — adequando a comunicação e avaliando sentidos, humor e cognição em conjunto, sem adiar a investigação necessária — e saia da consulta com a lista de problemas, o estrato, o destino e a data da próxima aplicação.
