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Cuidados paliativos e dor oncológica
Cuidados paliativos e manejo da dor oncológica
A morfina está na farmácia do hospital e o paciente passa a noite gemendo. Este capítulo dá a aritmética completa — dose fixa, resgate, titulação e conversão — e desmonta, um a um, os medos que fazem o interno prescrever menos do que o paciente precisa.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 3.681, de 7 de maio de 2024. Institui a Política Nacional de Cuidados Paliativos - PNCP no âmbito do Sistema Único de Saúde, por meio da alteração da Portaria de Consolidação GM/MS nº 2, de 28 de setembro de 2017. Diário Oficial da União, 22 mai. 2024, ed. 98, seção 1, p. 215.
Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1.805, de 9 de novembro de 2006. Diário Oficial da União, 28 nov. 2006, seção I, p. 169.
Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 1.995, de 9 de agosto de 2012. Dispõe sobre as diretivas antecipadas de vontade dos pacientes. Diário Oficial da União, 31 ago. 2012, seção I, p. 269-70.
Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica — Resolução CFM nº 2.217, de 27 de setembro de 2018, modificada pelas Resoluções CFM nº 2.222/2018 e 2.226/2019. Brasília: CFM, 2019.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância Sanitária. Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998. Aprova o Regulamento Técnico sobre substâncias e medicamentos sujeitos a controle especial (texto consolidado com as atualizações da ANVISA).
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2022. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.
D'Alessandro MP, Barbosa LC, Anagusko SS, et al. (eds.). Manual de Cuidados Paliativos. 2ª ed. rev. e ampliada. São Paulo: Hospital Sírio-Libanês; Ministério da Saúde (PROADI-SUS/CONASS), 2023. 421 p.
Santos MO, Lima FCS, Martins LFL, Oliveira JFP, Almeida LM, Cancela MC. Estimativa de Incidência de Câncer no Brasil, 2023-2025. Revista Brasileira de Cancerologia. 2023;69(1):e-213700.
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Academia Nacional de Cuidados Paliativos. Atlas dos Cuidados Paliativos no Brasil 2019. São Paulo: ANCP, 2020.
Scottish Palliative Care Guidelines. Pain management. https://www.rightdecisions.scot.nhs.uk/scottish-palliative-care-guidelines/scottish-palliative-care-guidelines/symptoms/pain/pain-management/
Responda antes de ler
Homem de 68 anos com câncer de próstata metastático mantinha dor 2/10 em uso de morfina simples 20 mg VO de 4/4 h. Evolui com obstrução intestinal maligna e perde a via oral. Você decide manter a mesma analgesia por via subcutânea intermitente, de 4/4 h. Qual prescrição reproduz corretamente a dose e o resgate? Para este exercício, utilize a razão oral:subcutânea de 3:1 adotada pelo protocolo do capítulo e reavalie clinicamente após a conversão.
O paciente que você vai ver
Três e dez da manhã, enfermaria de clínica médica. A técnica te chama no posto: "doutor, a do 14 não para de gemer". Dona Terezinha tem 74 anos, adenocarcinoma de pâncreas com metástases hepáticas, internada há quatro dias para controle de dor e icterícia. Você entra no quarto e ela está encolhida de lado, respiração curta, a mão fechada em cima do epigástrio. A filha, que dorme na poltrona, senta na hora: "ela ficou assim a noite inteira, doutor. Eu chamei três vezes".
Você olha a prescrição. Dipirona 1 g de 6/6 h de horário. Codeína 30 mg de 6/6 h. E, embaixo, a linha que explica a noite inteira: "morfina 2 mg EV se dor intensa". Se dor intensa. Sem dose de horário, sem intervalo mínimo, sem quem decida o que é intensa às três da manhã — e o resultado é que ela recebeu duas doses em doze horas, uma às 22 h e outra às 2 h, porque entre uma e outra a técnica não se sentiu autorizada a chamar de novo.
Você pergunta a dor de zero a dez. Ela diz oito. Pergunta como estava de manhã: "de manhã foi seis, doutor, aí eu aguento". Aguentar é a palavra que ela usa. Você abre o prontuário e lê a evolução da tarde: "paciente refere dor em melhora, mantida analgesia". Ninguém mediu. Alguém perguntou "tá doendo?", ela disse "um pouco", e virou melhora no papel.
A morfina está na farmácia do hospital, a dez metros do posto. Ela é barata, existe em ampola, em comprimido e em solução oral, e não tem dose máxima. Entre o frasco e o gemido há três coisas: uma conta que ninguém fez, um medo de depressão respiratória que não se sustenta na dose certa, e uma prescrição que foi escrita como se a dor fosse eventual. As três se resolvem antes de o sol nascer — e a partir da linha seguinte você vai saber exatamente como.
Quem adoece disso
O Brasil espera 781 mil casos novos de câncer por ano no triênio 2026-2028 — 518 mil quando se excluem os tumores de pele não melanoma. Mama feminina (78.610), próstata (77.920), cólon e reto (53.810) e pulmão (35.380) lideram. A consequência clínica é aritmética simples: em qualquer enfermaria de clínica médica de qualquer hospital geral do país, uma fração grande dos leitos está ocupada por gente com doença oncológica avançada. Dor oncológica não é assunto de serviço especializado que você talvez conheça na residência — é assunto do seu plantão de amanhã.
E paliativo não é sinônimo de câncer. No levantamento mundial que a Worldwide Palliative Care Alliance publicou em 2020, entre os adultos com necessidade de cuidados paliativos as neoplasias respondem por 28,2%: o resto é HIV, doença cerebrovascular, demência, doença pulmonar, cardiopatia e causas externas. Quarenta por cento da demanda está acima dos 70 anos, o que coloca o tema no centro da geriatria — mas 33% está entre 20 e 69 anos. O paciente que precisa de controle de sintoma não tem cara nem idade única.
A oferta, essa sim, tem cara. O levantamento nacional da Academia Nacional de Cuidados Paliativos contou 191 serviços em atividade no país em 2019 — metade deles dentro do SUS, e 55% concentrados no Sudeste, com São Paulo sozinho respondendo por mais de um terço do total. A recomendação europeia é de uma equipe domiciliar e uma hospitalar por 100 mil habitantes; a conta brasileira, considerando só os serviços públicos, chega perto de um serviço para cada 1,3 milhão de usuários do SUS. Em 40% dos serviços mapeados não havia protocolo estabelecido de controle da dor.
Traduzindo para o que isso significa no seu plantão: na esmagadora maioria dos hospitais brasileiros não existe equipe de paliativo para chamar às três da manhã. Quem prescreve a morfina é o plantonista, e no plantão é o interno quem está mais perto do leito. A Política Nacional de Cuidados Paliativos, instituída em 2024, resolve isso do lado certo — o art. 5º manda ofertar cuidado paliativo em todos os pontos da Rede de Atenção à Saúde, para todas as pessoas com indicação, o mais precocemente possível, e o art. 8º atribui a avaliação abrangente da dor e o controle de sintomas às equipes assistenciais, não a um serviço à parte. A norma diz, com todas as letras, que isso é competência sua.
Por que acontece o que acontece
A dor do câncer não é um fenômeno só. O tumor que invade o osso, distende a cápsula do fígado ou obstrui uma alça produz dor nociceptiva — somática quando vem de pele, músculo e osso, visceral quando vem de órgão interno. A somática costuma ser localizável e o paciente aponta com o dedo; a visceral é difusa, cólica quando a víscera é oca, em pontada quando é sólida, e vem acompanhada de náusea e sudorese porque os aferentes viscerais trafegam pela mesma lâmina medular dos somáticos e o cérebro erra o endereço. É por isso que a metástase hepática dói no ombro direito e a pancreatite dói nas costas: dor referida é erro de interpretação anatômica, não sintoma psicológico.
Quando o tumor comprime ou infiltra nervo, plexo ou medula, entra a dor neuropática: queimação contínua, choque, formigamento, dor a um toque que não deveria doer. A distinção muda a droga — dor neuropática responde mal a aumentos sucessivos de opioide e responde a adjuvante, anticonvulsivante e antidepressivo. No câncer avançado, o mais comum é a dor mista, e o plano precisa cobrir as duas rotas.
O opioide age em receptores no corno dorsal da medula e no tronco, reduzindo a transmissão do estímulo e, principalmente, mudando o significado emocional dele. Daí vêm, na mesma molécula, o efeito que se quer e os que se teme. No trato gastrointestinal, os mesmos receptores reduzem o peristaltismo, aumentam a absorção de água e apagam o reflexo evacuatório: constipação não é reação idiossincrásica, é farmacologia obrigatória, e não desenvolve tolerância — dura enquanto durar o opioide. Por isso o laxante entra na mesma receita, no mesmo dia, antes de existir queixa.
A sedação e a depressão respiratória vêm do mesmo receptor, mas com uma diferença que decide tudo: elas desenvolvem tolerância rápida, e a dor é antagonista fisiológico delas. Um paciente com dor 8/10 que recebe uma dose calculada fica com menos dor e continua acordado. A depressão respiratória em paciente com dor tratada por titulação é evento raro, e nunca aparece sozinha: vem depois da sedação, precedida por miose, com frequência respiratória caindo abaixo de dez. Essa sequência é a razão pela qual se vigia o nível de consciência e a frequência respiratória, e não o número de miligramas.
Morfina é metabolizada no fígado e os metabólitos saem pelo rim. Um deles, ativo, se acumula quando a filtração cai — e o quadro que aparece não é analgesia melhor, é neurotoxicidade: mioclonias, confusão, sonolência crescente e, às vezes, hiperalgesia, que é dor que piora apesar de a dose subir. Reconhecer esse padrão é o que separa o médico que reduz e roda o opioide daquele que aumenta a dose e afunda o paciente. A desidratação piora tudo, porque concentra o metabólito.
Duas consequências do metabolismo mudam a prescrição do dia a dia. A codeína é pró-fármaco: precisa ser convertida em morfina no fígado por uma enzima que parte da população não tem em atividade suficiente — nesses pacientes ela simplesmente não analgesia, por mais que se aumente. E há teto: acima de 360 mg/dia de codeína só se colhe constipação e náusea. Morfina, metadona e oxicodona não têm teto farmacológico; o que limita a dose é o efeito colateral. Essa assimetria — opioide fraco tem teto, opioide forte não tem — é o motivo de a escada da OMS ter três degraus em vez de dois.
Por fim, o mecanismo que não é molecular. Cicely Saunders chamou de dor total a soma que chega junto: o componente físico, o medo, a perda do papel na família, a conta que não vai fechar, a pergunta sobre o que vem depois. Quem tem dor 8/10 e medo de morrer sozinho não responde só à morfina — nem só à conversa. Tratar a dimensão física é pré-requisito para as outras: ninguém elabora nada com dor oito.

Como se apresenta de verdade
O paciente com indicação de cuidado paliativo raramente chega anunciado. Chega como dor abdominal que não cede, como dispneia, como confusão, como "parou de comer". O que muda é o enquadramento: em vez de perguntar apenas o que ele tem, pergunta-se também em que ponto da doença ele está e o que importa para ele daqui para frente. Os cenários abaixo são os que o internato entrega.
Um alerta de vocabulário atravessa todos eles. Cuidado paliativo e fim de vida não são sinônimos, e confundir os dois produz dois danos opostos: o encaminhamento tardio, que deixa meses de sintoma sem tratamento, e o abandono terapêutico, que suspende o que ainda ajudaria porque "ele é paliativo". A Política Nacional de Cuidados Paliativos resolve a ambiguidade no art. 2º, inciso VI: início precoce, ofertado em conjunto com o tratamento da doença. Junto — não depois.
Percurso de aprendizagem
Acompanhe dor, função, sedação e doses realmente recebidas; confira cada conversão com a referência da via e do serviço.
Leia as conversas e os casos como decisões clínicas: quais sintomas são tratáveis, quais intervenções trazem benefício e o que a pessoa deseja?
A dor que o paciente não conta — e a que ninguém mediu
A queixa espontânea subestima a dor de forma sistemática. Idoso relata menos, por geração e por medo de incomodar; quem tem câncer relata menos porque acha que dor é parte do pacote; e há quem esconda porque associa morfina a fim de vida. A pergunta aberta — "está doendo?" — colhe a resposta socialmente esperada, que é "um pouquinho". A pergunta com escala colhe o número.
Avaliar dor em cada visita, com escala de zero a dez quando a pessoa consegue responder e descrição de localização, fatores de piora, função e resposta. Na demência avançada ou alteração de consciência, observar expressão facial, gemido, tensão corporal, consolabilidade e respiração, usando instrumento apropriado. Careta ao mobilizar sugere dor, mas melhora da agitação após opioide não a comprova sozinha, pois sedação também muda o comportamento. Registrar medida, horário, dose, benefício funcional e efeitos adversos permite comparação entre turnos.
A dor descontrolada de madrugada — a cena da abertura
O padrão é sempre o mesmo: analgesia só "se necessário", enfermagem sem autorização clara, intervalo mínimo não escrito e ninguém titulando. A dor que volta antes da próxima dose de horário tem nome — dor do fim do intervalo — e significa dose insuficiente, não paciente exigente. Distinguir isso da dor incidental importa porque a conduta difere: a incidental aparece com o movimento, o curativo, o banho, e se trata com resgate programado 30 a 40 minutos antes do gatilho, não com aumento da dose fixa — subir a fixa para cobrir o pico do banho seda o paciente as outras 23 horas do dia.
O paciente que chega já com opioide — e a conta que precisa ser refeita
Muita gente interna já usando codeína, tramadol ou morfina de casa, e a primeira armadilha é a prescrição que "suspende tudo e recomeça". Suspender opioide de uso crônico produz abstinência — náusea, vômito, sudorese, taquicardia, agitação — que será interpretada como piora da doença. A regra é somar: converter o que ele usava para equivalente em morfina oral, decidir a via, e só então reduzir por segurança.
A segunda armadilha é confundir tolerância com adição. Tolerância é a necessidade de dose maior com o tempo, esperada, farmacológica; dependência física é a síndrome de abstinência na retirada abrupta, também esperada. Nenhuma das duas é vício. Adição é comportamento — uso compulsivo, receitas em vários médicos, aumento por conta própria, uso pelo efeito psíquico —, tem fatores de risco identificáveis e não se diagnostica pelo fato de o paciente pedir a dose no horário.
A dispneia do fim de vida — que não se investiga, se trata
Falta de ar em paciente com doença avançada e progressiva não pede o mesmo raciocínio da dispneia aguda indiferenciada de quem entra pela porta do pronto-socorro. Aqui há duas perguntas antes de qualquer exame: existe causa reversível cujo tratamento seja proporcional ao momento da doença — derrame pleural drenável, congestão que responde a diurético, broncoespasmo, anemia grave, infecção? E o exame que eu vou pedir muda alguma decisão?
Se a resposta é não para as duas, o tratamento é sintomático desde já, e o sintomático é opioide. Dispneia é experiência subjetiva: saturação normal não exclui o sintoma, e oxigênio não alivia quem não está hipoxêmico — a prescrição reflexa do cateter para todo mundo com falta de ar troca conforto por um cateter no nariz. A investigação da dispneia aguda de causa não estabelecida tem método próprio; o que muda aqui é o gatilho para parar de investigar.

Os últimos dias — quando o quadro muda de doença para processo
Há um ponto em que o conjunto de sinais deixa de ser a doença piorando e passa a ser o processo ativo de morte: o paciente fica acamado, sonolento a maior parte do tempo, aceita apenas goles, tem dificuldade para engolir comprimido, urina pouco, a pele esfria e muda de cor, a respiração fica irregular. Aparecem mioclonias, respiração ruidosa por secreção na orofaringe, incontinência, incapacidade de fechar os olhos.
Reconhecer isso é conduta, não prognóstico acadêmico. Quem reconhece tarde mantém dieta enteral que provoca vômito, antibiótico que exige punção, glicemia de 6 em 6 horas em quem não vai receber insulina — e não avisa a família do que vem, que é o que transforma desfecho esperado em trauma. Quem reconhece a tempo troca a via das medicações, suspende o que não serve mais, prescreve o desconforto antes de ele acontecer e senta com a família para dizer o que ela vai ver.
O paciente que ainda vai viver meses — e é onde paliativo mais rende
O cenário mais desperdiçado é o menos dramático: a pessoa com doença avançada que ainda tem meses ou anos, mantém tratamento modificador da doença e vive com dor, náusea, constipação e medo mal controlados. Aqui não se decide nada sobre reanimação nem se conversa sobre terminalidade — controla-se sintoma, ajusta-se função, organiza-se retorno, e pergunta-se ao paciente o que ele quer preservar. É também a hora de registrar preferências enquanto ele pode expressá-las: a diretiva antecipada de vontade escrita hoje é o que vai orientar a equipe no dia em que ele não puder falar, e deixar essa conversa para a UTI é deixá-la para quem não vai poder participar dela.
Como fechar o diagnóstico
O equivalente aqui do bloco de exames é o que se coleta antes de prescrever: que dor é essa, quanto ela vale, o que o paciente já usa, como está a função renal e hepática, e quais são os objetivos do cuidado. Errar essa coleta produz os dois erros clássicos e opostos — subtratar por medo e sedar por conta errada.
Uma régua atravessa todo o bloco: exame só entra se muda decisão. Em doença avançada, a pergunta não é "o que mais eu posso pedir", é "o que eu faria de diferente com esse resultado". A tomografia que confirma a progressão de um tumor já conhecido, num paciente que não vai receber tratamento antineoplásico, não muda uma linha da prescrição — e custa transporte, jejum, contraste e uma noite mal dormida.
1 · Caracterize a dor — porque a característica escolhe a droga
Localização, irradiação, qualidade, intensidade agora e no pior momento, o que melhora, o que piora, o que ela impede (dormir, comer, levantar), e o que já foi tentado com qual resultado. A qualidade é o que separa nociceptivo de neuropático: queimação contínua, choque elétrico, formigamento, dormência e dor ao simples toque apontam componente neuropático.
Para não depender de impressão, há instrumento curto e validado em português: o DN4, com dez itens entre entrevista (queimação, frio doloroso, choque, formigamento, alfinetada, adormecimento, coceira) e exame (hipoestesia ao toque, hipoestesia à picada, dor provocada pela escovação). Quatro pontos ou mais indicam dor neuropática. O exame neurológico dirigido — sensibilidade e força na área dolorosa — fecha a caracterização e ainda rastreia compressão medular, que é urgência.
A conclusão é uma bifurcação: dor nociceptiva escala por opioide; dor neuropática exige adjuvante desde cedo, e nela o aumento isolado de opioide entrega sonolência sem analgesia.
2 · Levante o opioide de casa e converta para uma moeda só
Anote droga, dose, via, intervalo e há quanto tempo — incluindo o que a família dá por conta própria. Depois converta tudo para equivalente em morfina oral, que é a moeda de troca do cálculo: codeína é cerca de um décimo da morfina oral; tramadol, entre um sexto e um décimo; oxicodona é o dobro; morfina parenteral é três vezes mais potente que a oral; fentanil parenteral é cerca de cem vezes mais potente que a morfina parenteral.
Duas checagens salvam a conta. Adesivo de fentanil e comprimidos de liberação prolongada continuam agindo depois de retirados — o adesivo tem efeito residual por até 18 horas —, então o cálculo da droga nova conta com o que ainda está no corpo. E o paciente que "não estava tomando direito" tem exposição menor do que a receita sugere: converter pela receita superestima a tolerância dele.
3 · Cheque função renal, hepática e o que já causa sonolência
Função renal e hepática, fragilidade, exposição prévia e interações ajudam a escolher fármaco, dose e intervalo. Na disfunção renal, metabólitos da morfina podem acumular e causar sedação, delirium ou mioclonias; não há um prazo fixo de 48 horas para isso ocorrer. Iniciar com cautela e monitorar. Metadona pode ser alternativa sob equipe experiente, mas não é a única opção nem automaticamente a melhor pelo fato de constar na Rename; conferir disponibilidade, experiência do serviço e perfil do paciente.
Some a lista de tudo que já sonoliza o paciente: benzodiazepínico, anti-histamínico, antipsicótico, anticonvulsivante, gabapentinoide. Quando ele amanhece torporoso, o interno culpa a morfina que prescreveu ontem, e muitas vezes o culpado é o clonazepam que está na receita há dois anos. O método de ajustar dose por função renal e hepática tem capítulo próprio; o que importa aqui é a decisão específica — qual opioide trocar por qual, e quando.
4 · Colete os objetivos de cuidado — antes de precisar deles
Três perguntas cabem em cinco minutos de visita e mudam tudo o que vem depois: o que o senhor entende sobre a sua doença hoje; o que é mais importante para o senhor daqui para frente; e existe alguma coisa que o senhor não quer que seja feita. As respostas orientam decisões futuras sobre internação em UTI, via alternativa de alimentação e reanimação — e evitam que essas decisões sejam tomadas por telefone, às quatro da manhã, com um familiar que nunca conversou sobre isso.
Registre no prontuário quem é o interlocutor indicado e o que o paciente expressou. A diretiva antecipada de vontade — o conjunto de desejos manifestados previamente sobre o que ele quer e não quer receber quando não puder mais decidir — prevalece sobre qualquer parecer não médico, inclusive sobre o desejo dos familiares, e o médico registra em prontuário as diretivas que o paciente lhe comunicou diretamente. Sem registro, ela não existe na hora em que faria falta. A técnica de conduzir a conversa difícil — preparo, aviso, silêncio, acolhimento — pertence à comunicação de más notícias; o que se acrescenta aqui é o conteúdo a coletar e a hora de coletá-lo, que é antes da crise.
5 · O que não pedir, e o que existe no SUS
Não peça imagem para confirmar progressão que não muda conduta, nem marcador tumoral seriado em quem não faz tratamento antineoplásico, nem hemograma diário em quem não vai transfundir por número. Não peça gasometria para justificar tratar dispneia: dispneia é diagnóstico clínico e saturação normal não exclui o sintoma. Cada um desses exames custa jejum, punção, transporte e — o mais caro — adia a prescrição que resolveria o sintoma hoje.
Do lado do que existe, a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais traz morfina, metadona e codeína no Componente Especializado, com as apresentações detalhadas na tabela adiante, e no Componente Básico dipirona, haloperidol, metoclopramida, ondansetrona, dexametasona, nortriptilina, lactulose, glicerol retal e cáscara-sagrada. Ficam fora oxicodona, fentanil transdérmico, buprenorfina, tramadol, bisacodil e midazolam parenteral — o que não impede que existam na padronização do seu hospital, mas define o que o paciente vai conseguir manter em casa. É essa conta que precisa fechar antes de você escrever o esquema da alta.
Aliviar sofrimento com analgesia segura e objetivos compartilhados
O objetivo é avaliar sofrimento, tratar sintomas e alinhar o plano ao que importa à pessoa. Aprenda a titular e converter opioides com supervisão, reconhecer toxicidade e distinguir analgesia, sedação paliativa e limitação proporcional de intervenções. Quatro números resolvem quase toda prescrição de dor oncológica: a dose diária total, o resgate como fração dela, o número de resgates que autoriza subir, e o fator de conversão quando muda a via ou a droga. O fluxo é a sequência; os cartões são os quatro números; as tabelas trazem as equipotências, as apresentações do SUS e os sintomas associados. Tudo com o que existe no país, porque conta que não fecha em mililitro não vira prescrição.
- 11 · Meça: escala de 0 a 10 agora e no pior momento das últimas 24 h — e caracterize (nociceptiva, neuropática ou mista)
- 22 · Converta o que ele já usa para equivalente em morfina ORAL — codeína ÷10, tramadol ÷6 a ÷10, oxicodona ×2, morfina parenteral ×3
- 33 · Escolha o degrau: dor leve → não opioide; moderada → opioide fraco; intensa ou sem controle → opioide FORTE direto (não há obrigação de subir degrau por degrau)
- 44 · Prescreva DOSE FIXA de horário + RESGATE (1/6 da diária, com intervalo mínimo escrito) + LAXANTE na mesma receita + antiemético se necessário nos primeiros dias
- 55 · Reavalie em 24 h: some fixa + resgates usados = nova dose diária; redistribua em 6 tomadas
- 66 · Três ou mais resgates em 24 h → suba a dose fixa. Sonolência + miose + FR < 10 → segure a dose e reavalie
- 77 · Mudou a via ou trocou a droga? Converta para morfina oral, aplique o fator, e reduza 25 a 50% por segurança (metadona: 50 a 75%)
Dose inicial no idoso
Virgem de opioide, dor intensa: morfina simples 5 mg VO de 4/4 h — 30 mg/dia. Idoso frágil, caquético ou com filtração reduzida: 2,5 a 5 mg de 6/6 h. Não existe dose máxima de morfina; o que limita é o efeito colateral. Quem começa com 2 mg "se necessário" não começou tratamento nenhum — começou uma noite de dor.
Resgate = 1/6 da dose diária
Faixa aceita: 1/6 a 1/10 da dose total diária, sempre com morfina simples pela rapidez de início. Em dor oncológica intensa, use 1/6 — 1/10 subtrata o pico e devolve o paciente ao gemido. Em idoso frágil ou disfunção renal, use 1/10. Escreva o intervalo mínimo (1/1 h VO, 30/30 min SC) e o teto de doses por turno: resgate sem intervalo escrito é resgate que a enfermagem não dá.
Três resgates autorizam subir
A frequência de resgates é sinal para reavaliar. Somar dose programada e doses recebidas ajuda a estimar necessidade, mas a nova prescrição considera alívio, sedação, função renal e causa da dor. Neste exemplo, 60 + 3 × 10 = 90 mg/dia; a equipe pode usar 15 mg de 4/4 h se essa exposição foi eficaz e tolerada.
Toxicidade tem três sinais, não um
Intoxicação por opioide é miose bilateral + sedação + FR abaixo de 10 — os três, nessa ordem de aparecimento. Sonolência isolada nas primeiras 48 h é esperada e cede. Conduta: suspender a próxima dose, oxigênio se necessário, hidratar; naloxona só na depressão respiratória grave, 0,04 mg, repetindo a cada 1 a 3 min, com a meta de FR acima de 10 — não de acordar o paciente, porque acordar traz de volta a dor inteira e abstinência.
| Conversão | Fator | Exemplo conferido |
|---|---|---|
| Codeína VO → morfina VO | ÷ 10 | Codeína 60 mg de 4/4 h = 360 mg/dia (teto) → 36 mg/dia de morfina oral; com margem de 25%, morfina simples 5 mg de 4/4 h = 30 mg/dia |
| Tramadol VO → morfina VO | ÷ 6 a ÷ 10 | Tramadol 100 mg de 6/6 h = 400 mg/dia (teto) → 40 a 67 mg/dia de morfina oral; adote o extremo baixo em idoso |
| Oxicodona VO → morfina VO | × 2 | Oxicodona 20 mg de 8/8 h = 60 mg/dia → 120 mg/dia de morfina oral |
| Morfina VO → morfina EV ou SC | ÷ 3 | 90 mg/dia VO → 30 mg/dia parenteral = 5 mg SC de 4/4 h, ou 30 mg em 24 h contínuo (1,25 mg/h); resgate 5 mg SC |
| Morfina EV ou SC → morfina VO | × 3 | 20 mg/dia EV → 60 mg/dia VO = 10 mg de 4/4 h |
| Morfina simples → morfina de liberação prolongada | mesma dose diária, em 2 tomadas | 60 mg/dia = 30 mg de 12/12 h; 120 mg/dia = 60 mg de 12/12 h; 200 mg/dia = 100 mg de 12/12 h |
| Morfina VO → fentanil transdérmico | tabela, com redução de 25 a 50% | 90 mg/dia VO, reduzidos para 45 a 67 mg/dia → adesivo de 25 mcg/h (50 mg/dia ≈ 25 mcg/h; 100 mg/dia ≈ 50 mcg/h) |
| Morfina VO → metadona | nomograma, com redução de 50 a 75% | Exemplo do nomograma: 90 mg/dia de morfina oral → cerca de 15 mg/dia de metadona antes da margem de segurança; faixa reduzida de 3,75–7,5 mg/dia. A dose e o resgate dependem de avaliação especializada, sobretudo na disfunção renal; não é conversão linear para uso autônomo. |
Opioides que existem no SUS — dose, teto e o mililitro que vai na prescrição
| Droga e apresentação na Rename | Dose inicial | Teto | Volume por dose |
|---|---|---|---|
| Codeína — solução oral 3 mg/mL; comprimidos de 30 e 60 mg | 15 a 30 mg VO de 4/4 h | 360 mg/dia | 30 mg = 10 mL; 60 mg = 20 mL |
| Morfina simples — solução oral 10 mg/mL; comprimidos de 10 e 30 mg | 5 mg VO de 4/4 h (2,5 a 5 mg de 6/6 h no idoso frágil ou renal) | sem teto — limita o efeito colateral | 5 mg = 0,5 mL; 10 mg = 1 mL; 15 mg = 1,5 mL |
| Morfina injetável — solução 10 mg/mL (ampola de 1 mL) | 2 a 3 mg SC ou EV de 4/4 h; ou 10 a 20 mg/dia contínuo | sem teto | 2 mg = 0,2 mL; 3 mg = 0,3 mL; 5 mg = 0,5 mL |
| Morfina de liberação prolongada — cápsulas de 30, 60 e 100 mg | converter a partir da diária já titulada | sem teto | cápsula inteira, 12/12 h — não abrir, não macerar, não passar por sonda |
| Metadona — comprimidos de 5 e 10 mg; solução injetável 10 mg/mL | a partir da conversão, de 12/12 h; opção quando a filtração cai | sem teto | aguardar 3 a 5 dias antes de subir; ECG pelo QT; nunca como resgate |
Os outros sintomas — o que prescrever junto, desde a primeira receita
| Sintoma | Prescrição | Observação que muda o resultado |
|---|---|---|
| Constipação por opioide | Laxante irritativo de horário desde o primeiro dia: cáscara-sagrada (Rhamnus purshiana) à noite, na dose diária padronizada de 20 a 30 mg de derivados hidroxiantracênicos; ou bisacodil 5 a 15 mg VO à noite onde houver. Lactulose 15 a 30 mL VO 2 a 3×/dia se não evacuar em 48 h. Supositório de glicerina ou lavagem glicerinada em impactação | Não desenvolve tolerância: dura o tratamento inteiro. Prescrever "se necessário" é prescrever fecaloma. O bisacodil fica fora da Rename; a cáscara-sagrada é o irritativo listado |
| Náusea nos primeiros dias de opioide | Metoclopramida 10 mg VO ou EV de 8/8 h; ou haloperidol 1 a 2 mg VO, SC ou EV, 2 a 3×/dia | Cede em 3 a 7 dias: prescreva por tempo limitado. Não associar ondansetrona a metoclopramida — antagonizam-se |
| Dispneia | Virgem de opioide: morfina 5 mg VO ou 2 mg EV/SC de 4/4 h ou 6/6 h. Já em uso: aumentar a diária em 25%; resgate de 10 a 15% da diária nas exacerbações. Ansiolítico só associado ao opioide, nunca isolado: diazepam 5 mg/dia titulado, ou clonazepam 0,25 a 2 mg de 12/12 h | Oxigênio só se hipoxêmico. Janela aberta, leque no rosto e posicionamento têm efeito real e custo zero |
| Delirium | Haloperidol 0,5 a 1 mg no idoso (1 a 2 mg no jovem), VO de preferência, repetindo em 45 a 60 min se persistir; controlado, manter de 12/12 h ou 8/8 h | Acima de 4,5 mg/dia sobe muito o risco extrapiramidal. Benzodiazepínico piora delirium — exceção: abstinência e sedação paliativa |
| Boca seca | Higiene oral frequente, gaze úmida nos lábios, hidratante labial, saliva artificial; revisar drogas anticolinérgicas | Não se trata com soro: excesso de hidratação no fim de vida piora edema, congestão e respiração ruidosa |
| Respiração ruidosa por secreção | Decúbito lateral; reduzir volume de hidratação e dieta; butilbrometo de escopolamina 20 mg EV ou SC até de 6/6 h | Aspiração repetida dói e reacumula em minutos. Incomoda mais quem assiste do que o paciente em coma — diga isso à família |
| Dor neuropática associada | Nortriptilina 10 mg VO à noite no idoso, titulando; ou gabapentina 300 mg à noite, subindo até 300 mg 3×/dia (máximo 3.600 mg/dia); dexametasona 4 a 8 mg/dia em compressão nervosa ou medular e em dor óssea | A apresentação permite medir a dose; a segurança depende também do perfil do paciente. Tricíclicos podem agravar confusão, hipotensão e constipação; gabapentina exige ajuste renal e vigilância de sedação. Escolher o adjuvante por benefício e risco, não só pelo menor comprimido disponível |
A escada analgésica da OMS organiza a escolha, mas não obriga a subir degrau por degrau: dor intensa em doença oncológica começa no opioide forte. Fazer o paciente "cumprir" o degrau da codeína por três dias antes de merecer morfina é transformar uma ferramenta didática em atraso terapêutico.
Os cinco princípios da OMS que sustentam a conta inteira: pela boca (a via menos invasiva possível), pelo relógio (dose de horário, para prevenir a dor em vez de correr atrás dela), pela escada, pelo indivíduo (não há dose padrão) e atenção aos detalhes (reavaliar sempre e antecipar o efeito colateral, sobretudo a constipação).
Metadona é a exceção a quase tudo: equipotência não linear, meia-vida longa e imprevisível, depósito em tecido adiposo, risco de alargamento do QT. Titula-se a cada 3 a 5 dias, nunca serve de resgate, e a prescrição pede médico com experiência na droga.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo abaixo é a de dona Terezinha, 74 anos, 52 kg, adenocarcinoma de pâncreas com metástases hepáticas, creatinina 0,9 e filtração estimada em 62 mL/min/1,73 m², em uso de codeína 30 mg de 6/6 h e dipirona, com dor 8/10 às três da manhã. Cada dose vem por extenso e cada conta está feita: dose diária, resgate, o que se soma no dia seguinte e o volume que a enfermagem vai aspirar.
Uma regra atravessa todos os marcos: nenhuma prescrição de opioide sai sem quatro linhas juntas — dose fixa de horário, resgate com intervalo mínimo escrito, laxante e antiemético por tempo determinado. Falta uma delas e o resultado é previsível: dor de madrugada, fecaloma no quarto dia, ou recusa da medicação por causa da náusea que ninguém preveniu.
Hora 0 — a madrugada da dor 8/10
Meça e caracterize antes de prescrever: 8 de 10 agora, 6 no melhor momento do dia, em faixa, contínua, irradiando para o dorso, piora deitada — dor visceral por invasão retroperitoneal, sem descritor neuropático dominante. Ela já usa codeína 120 mg/dia, que equivale a 12 mg/dia de morfina oral: tratamento nenhum para essa intensidade. Codeína tem teto de 360 mg/dia; morfina não tem teto. Troque de degrau em vez de espremer o degrau errado. Aplique o resgate agora, pela via mais rápida disponível, e prescreva a dose fixa para começar no próximo horário.
Prescrição- Agora, sob supervisão: morfina 2 mg IV lentamente, em diluição padronizada que permita medir com precisão; conferir concentração com enfermagem. Reavaliar dor, sedação, respiração e pressão em 10–15 minutos e antes de cada nova dose; repetir apenas se indicado, com reavaliação médica após resgates sucessivos
- Suspender a codeína (não se somam dois opioides pelo mesmo receptor no mesmo esquema)
- Morfina simples solução oral 10 mg/mL — 5 mg VO (0,5 mL) de 4/4 h de horário, a partir das 8 h → 30 mg/dia
- Resgate inicial: morfina simples 5 mg VO (0,5 mL da solução de 10 mg/mL), intervalo mínimo de uma hora conforme resposta. Registrar cada dose; dor persistente após dois resgates ou necessidade repetida em poucas horas exige avaliação médica, sem autorização para doses ilimitadas no turno
- Dipirona 1 g VO ou EV de 6/6 h de horário (mantida: o não opioide soma analgesia e poupa opioide)
- Laxante desde o início, escolhendo estimulante padronizado no serviço e/ou osmótico conforme hábito intestinal e tolerância; exemplo quando disponível: bisacodil 5–10 mg à noite, com lactulose 15 mL de 12/12 h se necessário. Conferir acesso, formulação e sinais de obstrução antes de escalonar
- Metoclopramida 10 mg VO ou EV de 8/8 h por 5 dias (náusea de início de opioide), depois reavaliar
Hora 6 e Dia 1 — reavaliar, e depois somar
Reavaliar após a dose oral de liberação imediata, em torno de uma hora, registrando dor, função, consciência e ventilação. Em 24 horas, somar dose programada e resgates realmente administrados. Dona Terezinha recebeu 30 mg fixos e cinco resgates de 5 mg, total de 55 mg. Conferir se esses resgates foram eficazes para dor persistente, se houve dor apenas incidental e se apareceram efeitos adversos. Somente então decidir com a equipe a nova dose basal e o resgate; a contagem isolada não obriga aumento. Orientar reavaliação mais cedo se forem necessários resgates sucessivos.
Prescrição- Registrar cada avaliação assim: "dor 8/10 às 3 h; 2 mg EV às 3 h05 e às 3 h25; dor 3/10 às 4 h; FR 16; desperta ao chamado"
- Dor antes do próximo horário: verificar duração do efeito, doses realmente recebidas, dor incidental, nova causa e toxicidade. Ajustar o esquema pela avaliação completa; encurtar de 4/4 h para 3/3 h também aumenta a dose diária se cada tomada for mantida, portanto não é uma mudança neutra
- Conta: 30 mg fixos + 5 resgates × 5 mg = 55 mg/dia → 55 ÷ 6 = 9,2 mg por dose → arredondar para 10 mg
- Morfina simples 10 mg VO (1 mL da solução, ou 1 comprimido de 10 mg) de 4/4 h → 60 mg/dia
- Resgate: morfina simples 10 mg VO se dor ≥ 4/10, intervalo mínimo de 1 h
- Manter dipirona, laxante e antiemético; reavaliar o hábito intestinal todo dia e por escrito
- Componente neuropático: selecionar adjuvante com a equipe, considerando função renal, sedação, quedas, QT e carga anticolinérgica. A cápsula de nortriptilina de 10 mg permite pequena dose, mas isso não a torna automaticamente a opção mais segura para uma idosa
Dia 2 — a segunda titulação, e a conta do dia seguinte
No dia seguinte, três resgates de 10 mg somaram-se aos 60 mg programados: exposição total de 90 mg em 24 horas. Esse dado abre a reavaliação, não determina sozinho aumento. Confirmar que os resgates trataram dor persistente, que foram eficazes e que não houve sedação relevante, retenção, delirium ou piora renal. Nessas condições, a equipe escolhe neste caso 15 mg de 4/4 h, ou 1,5 mL da solução oral de 10 mg/mL, e revê a resposta. Resgates apenas para curativo ou mobilização podem pedir ajuste dirigido ao procedimento, sem elevar toda a dose basal.
Prescrição- Conta: 60 mg fixos + 3 resgates × 10 mg = 90 mg/dia → 90 ÷ 6 = 15 mg por dose
- Morfina simples solução oral 10 mg/mL — 15 mg VO (1,5 mL) de 4/4 h → 90 mg/dia
- Resgate: morfina simples 15 mg VO (1,5 mL) se dor ≥ 4/10, intervalo mínimo de 1 h
- Reavaliar sonolência e frequência respiratória a cada 4 h nas primeiras 24 h após cada aumento
- Se náusea cedeu, suspender a metoclopramida — droga que não serve mais sai da prescrição
Dia 3 — dor controlada, hora de simplificar
Após 48 horas com dor estável em 2–3/10, considerar simplificar o esquema mantendo a analgesia obtida. A dose atual é 90 mg/dia. Se as apresentações de liberação prolongada disponíveis não permitirem reproduzir adequadamente essa dose, manter temporariamente a morfina de liberação imediata 15 mg de 4/4 h, com apoio para administração, até definir alternativa viável com a equipe e a farmácia. Reduzir automaticamente para 60 mg/dia e deixar os resgates cobrirem um déficit previsível pode devolver dor e dificultar a alta. Também não se dobra a liberação prolongada por um número isolado de resgates. Concentração, apresentação e horário precisam constar da orientação domiciliar.
Prescrição- Manter, neste exemplo, morfina de liberação imediata 15 mg VO de 4/4 h (90 mg/dia) enquanto se organiza formulação que preserve a dose e facilite o uso domiciliar; liberação prolongada apenas com plano de conversão conferido
- Resgate mantido com morfina simples solução oral 10 mg/mL — 15 mg (1,5 mL) VO se dor ≥ 4/10, intervalo mínimo de 1 h
- Manter o laxante de horário indefinidamente, enquanto durar o opioide
- Orientar separadamente a dose de horário e o resgate; conferir por demonstração como medir a solução oral. Se houver mudança de formulação, retirar a prescrição anterior e confirmar que a família compreendeu os novos horários
- Conversa de objetivos de cuidado com a paciente e a filha, agora que ela está sem dor e lúcida — e registro em prontuário do que ela expressou e de quem ela indicou como interlocutor
Quando a via oral se perde — a conversão que mais se erra
Vômitos, obstrução, mucosite, rebaixamento: a via oral cai e a conta muda de moeda — morfina parenteral é três vezes mais potente que a oral, então divide-se por três. A via subcutânea resolve quase tudo fora da UTI e dispensa acesso venoso: cateter fino em região deltoidea ou subclavicular (até 250 mL/24 h), abdominal ou interescapular (1.000 mL) e anterolateral da coxa (1.500 mL). Morfina, haloperidol, midazolam, escopolamina, dexametasona e metoclopramida passam por ela. As razões de conversão são aproximações: protocolos usam relações diferentes para morfina oral, IV e SC. Aqui os exercícios adotam 3:1 conforme a referência local; conferir a tabela do serviço para a via escolhida e titular pela resposta. O volume da hipodermóclise é individualizado, e a possibilidade de usar cada fármaco por SC não significa compatibilidade de misturá-los na mesma seringa.
Prescrição- Paciente em 90 mg/dia VO → 90 ÷ 3 = 30 mg/dia parenteral
- Opção A: morfina 5 mg SC (0,5 mL) de 4/4 h — seis doses de 5 mg = 30 mg/dia
- Opção B: morfina 30 mg em 24 h por infusão contínua SC ou EV = 1,25 mg/h
- Resgate: morfina 5 mg SC (0,5 mL) se dor ≥ 4/10, intervalo mínimo de 30 min
- Suspender a via oral de tudo que tiver equivalente parenteral; manter o laxante por via retal se necessário (supositório de glicerina)
Quando a filtração cai — trocar de droga, não só de dose
Mioclonias, sonolência progressiva, confusão, piora da dor e creatinina em ascensão sugerem neurotoxicidade por morfina e exigem avaliação imediata de ventilação, consciência, doses acumuladas e causas associadas. Corrigir desidratação se presente e benéfico, rever sedativos e ajustar ou reter doses conforme gravidade, com analgesia alternativa planejada. Reduzir dose e mudar intervalo ao mesmo tempo altera substancialmente a exposição: calcular o total, sem aplicar duas reduções por hábito. Rotação para metadona ou outro opioide adequado à função renal requer equipe experiente e acesso real ao medicamento. Metadona exige avaliação de interações e QT e vigilância de acúmulo; não aumentar automaticamente a cada três a cinco dias.
Prescrição- Hidratação cautelosa por hipodermóclise e revisão de todas as drogas sedativas em uso
- Redução imediata de 25 a 30% da dose diária e intervalo de 6/6 h
- Rotação para metadona somente com equipe experiente: o nomograma do exemplo leva a cerca de 15 mg/dia antes da redução de segurança, ou 3,75–7,5 mg/dia após redução de 50–75%. Um exemplo dentro dessa faixa é 2,5 mg de 12/12 h = 5 mg/dia; 5 mg de 12/12 h seriam 10 mg/dia e não correspondem à faixa calculada. Conferir interação, QT e exposição prévia; não titular automaticamente por calendário
- ECG antes e após a titulação (alargamento de QT), e nunca usar metadona como resgate
- Fentanil transdérmico é opção para paciente tolerante a opioide e com necessidade analgésica estável, quando disponível. Não resolver neurotoxicidade aguda com simples arredondamento para adesivo: escolher formulação, conversão e cobertura inicial com especialista, considerando que o efeito e a toxicidade persistem após retirar o adesivo
Os últimos dias — o que sai, o que fica, o que se prescreve antes de precisar
Reconhecido o processo ativo de morte, a prescrição é revista contra um objetivo só: conforto nas próximas horas. Sai o que só rende em anos — estatina, antiagregante, anti-hipertensivo, hipoglicemiante, profilaxia de trombose, glicemia capilar e aferição de rotina — e o que exige punção sem benefício. Fica o que previne sintoma: analgésico, anticonvulsivante, antiemético. A via passa a subcutânea. E entra o que ainda não é sintoma mas vai ser: a prescrição antecipada, escrita antes de a madrugada chegar, para a técnica não precisar procurar plantonista às quatro da manhã. Essa revisão é individual, discutida e registrada: não se suspendem automaticamente insulina, anticonvulsivante ou outro tratamento que evite sofrimento imediato. No diabetes tipo 1, alguma insulina pode continuar necessária para evitar cetoacidose; glicemia, hidratação e nutrição são ajustadas ao benefício e ao conforto, sem metas rígidas de prevenção de longo prazo.
Prescrição- Morfina SC de horário na dose já convertida + resgate de 1/6 da diária, intervalo mínimo de 30 min. Virgem de opioide, com dor ou dispneia: morfina 2 mg SC de 4/4 h + resgate 2 mg SC
- Agitação: buscar desconforto e causas proporcionais a tratar, usar medidas de conforto e discutir fármaco se sofrimento importante. Haloperidol em pequena dose pode ser opção conforme protocolo; evitar em Parkinson/corpos de Lewy e considerar QT, efeitos extrapiramidais e resposta. Não tratar todo delirium apenas por estar presente
- Butilbrometo de escopolamina 20 mg SC até de 6/6 h se respiração ruidosa — mais decúbito lateral e redução do volume infundido
- Antiemético conforme mecanismo da náusea; metoclopramida 10 mg SC de 8/8 h é exemplo que exige ajuste renal e não se aplica à obstrução intestinal completa ou ao parkinsonismo
- Rever dieta enteral, hidratação, antibiótico, controles e demais intervenções pelo benefício atual e pelos objetivos acordados; registrar o que é mantido, reduzido ou suspenso e explicar à família. Evitar tanto excesso de punções quanto retirada automática de tratamento que previna sintomas
- Cuidados de boca de 2/2 h com gaze úmida e hidratante labial: é o que mais alivia nessa fase, e não é medicação
Quando o sintoma é refratário — sedação paliativa
Sedação paliativa é o uso de medicação que reduz o nível de consciência para aliviar sintoma refratário — o que persiste apesar de todos os recursos habituais — em doença avançada, progressiva e irreversível. O objetivo é o sintoma, a dose é a menor que o alivia. Cinco perguntas autorizam: a doença é avançada, progressiva e irreversível? Há indicação de cuidado paliativo com priorização de conforto? Há desconforto importante? As causas reversíveis foram tratadas? A terapia farmacológica e não farmacológica está otimizada? Cinco sins, e a proposta é conversada com o paciente, a família e a equipe antes de começar. As perguntas organizam a avaliação; cinco respostas afirmativas não constituem autorização automática. A equipe confirma refratariedade, proporcionalidade, alternativas, capacidade decisória e consentimento, define a profundidade necessária e monitora conforto e efeitos. O interno participa da avaliação e do registro sob supervisão.
Prescrição- Midazolam: bolus inicial de 2 a 5 mg EV ou por hipodermóclise (favorecer 2 mg no idoso, no caquético e na disfunção renal)
- Infusão contínua a 1 mg/h, com solução de 1 mg/mL — por exemplo, 100 mg (duas ampolas de 50 mg/10 mL) diluídos em 80 mL de soro fisiológico
- Reavaliar logo após o bolus, em minutos conforme via e protocolo, mantendo acompanhamento próximo até conforto; não aguardar uma hora para a primeira avaliação. Repetição e ajuste da infusão dependem da resposta, fragilidade e função orgânica, por decisão da equipe responsável
- Manter o opioide — sedação não substitui analgesia, e retirar a morfina de quem está sedado devolve a dor a alguém que não pode mais avisar
- Registrar em prontuário a indicação, o sintoma refratário, a otimização prévia e o consentimento do paciente ou do representante
- Meta: conforto, não profundidade. Se o paciente ficou confortável e acordado com a dose inicial, a dose está certa e não se aumenta
A alta — a receita que o paciente consegue aviar
Morfina, metadona, oxicodona e fentanil são da lista A1, e codeína e tramadol da A2, do regulamento de substâncias sob controle especial. Dentro do hospital o paciente internado recebe por receita privativa do estabelecimento — por isso ninguém precisa de formulário amarelo para prescrever morfina na enfermaria. Na alta muda tudo: Notificação de Receita A, amarela, fornecida gratuitamente pela autoridade sanitária estadual ao médico cadastrado, acompanhada da receita, válida por 30 dias em todo o território nacional a partir da emissão. Cada notificação comporta no máximo 30 dias de tratamento — e, em ampolas, no máximo cinco.
Prescrição- Comprimido, cápsula e solução oral: prescrever até 30 dias de tratamento por notificação. Morfina simples 10 mg de 4/4 h = 6 comprimidos/dia = 180 comprimidos em 30 dias, dentro do permitido
- Ampolas: morfina 5 mg SC de 4/4 h = 30 mg/dia = 3 ampolas de 10 mg/dia = 90 ampolas em 30 dias — muito acima das cinco do caput. Nesse caso o prescritor preenche justificativa com o CID ou o diagnóstico e a posologia, data e assina, entregando junto com a notificação; sem ela a farmácia não dispensa
- Tramadol em apresentações de até 100 mg por unidade posológica sai em Receita de Controle Especial, em duas vias — não em notificação amarela
- Escrever a quantidade em algarismo e por extenso, sem rasura
- Combinar o retorno antes de a receita vencer, e deixar por escrito quem procurar se a dor escapar antes disso
Como saber se está funcionando
Analgesia é titulação, e titulação sem parâmetro é chute com boa intenção. Cada número abaixo tem um tempo de leitura ligado à farmacologia da via: morfina oral de liberação imediata dá o pico em cerca de uma hora, a subcutânea em 20 a 30 minutos, a endovenosa em 10 a 15. Reavaliar antes disso é concluir que não funcionou antes de a droga chegar; reavaliar no dia seguinte é deixar o paciente com dor por um turno inteiro.
E vale a inversão que salva paciente: quando não melhora, revise o diagnóstico antes de aumentar a dose. Dor que sobe apesar de o opioide subir pode ser dor neuropática pedindo adjuvante, hiperalgesia pedindo troca de droga, fecaloma, retenção urinária, fratura patológica nova ou compressão medular — nenhuma dessas responde a mais morfina.
Esperado: Queda de pelo menos dois pontos após o resgate, e dor de repouso mantida em 4/10 ou menos nas 24 h, com sono preservado
Se não melhora: Após resgates sem alívio, reexaminar o paciente, confirmar administração e mecanismo da dor, pesquisar toxicidade e causas novas antes de aumentar. Recalcular a dose pelo esquema e pela resposta; dor neuropática ou incidental pode exigir outra intervenção, e não apenas mais opioide
Esperado: Zero a dois resgates por dia, e concentrados em momentos identificáveis (banho, curativo, mobilização)
Se não melhora: Resgates frequentes exigem revisão da dose total, resposta e tolerância. Resgates para procedimento podem ser antecipados ao gatilho; os de fim de intervalo pedem rever a duração da analgesia e o esquema. Ausência de resgates com sofrimento exige avaliar comunicação e administração, sem atribuir automaticamente a falha à enfermagem
Esperado: Desperta ao chamado, frequência respiratória de 12 a 20, pupilas simétricas e reativas. Sonolência leve nas primeiras 48 h é esperada e cede com a tolerância
Se não melhora: Sonolência progressiva com miose bilateral e frequência abaixo de 10 é intoxicação: segure a próxima dose, ofereça oxigênio, hidrate e procure a causa (função renal caindo, dose subida rápido demais, outro sedativo somado). Naloxona só na depressão respiratória grave: 0,04 mg, repetindo a cada 1 a 3 min, com a meta de restabelecer a ventilação acima de 10 e não de acordar — reversão total devolve dor intensa e abstinência de uma vez. Ao reintroduzir, reduza a dose diária e reveja o intervalo.
Esperado: Evacuação confortável a cada 1 a 3 dias, na frequência habitual do paciente
Se não melhora: 48 h sem evacuar: associe osmótico ao irritativo. 72 h, ou desconforto com esforço improdutivo: toque retal. Ampola cheia — supositório de glicerina ou lavagem glicerinada; ampola vazia com fezes altas — intensifique o oral. Diarreia súbita em quem estava constipado é diarreia paradoxal por fecaloma até prova em contrário, e uma radiografia simples de abdome resolve a dúvida.
Esperado: Redução de pelo menos dois pontos no relato, com queda da frequência respiratória e do uso de musculatura acessória; conforto referido pela família no paciente rebaixado
Se não melhora: Aumente a dose diária de opioide em mais 25% e reavalie. Reveja causa reversível que ainda seja proporcional tratar — derrame drenável, congestão, broncoespasmo, anemia grave. Associe ansiolítico ao opioide se houver componente ansioso claro, nunca isolado. Persistindo desconforto apesar de tudo otimizado, o sintoma é refratário e a sedação paliativa entra na conversa.
Esperado: Ausência de mioclonias, sem confusão nova, sem hiperalgesia
Se não melhora: Mioclonia é sinal de neurotoxicidade e costuma vir com desidratação: hidrate, reduza a dose diária em 25 a 30%, espace para 6/6 h. Se persistir, ou se aparecer hiperalgesia (dor que aumenta quando a dose aumenta), troque de opioide — a morfina é a droga errada para aquele rim. Confusão nova em paciente que já tolerava a dose raramente é só o opioide: procure infecção, hipercalcemia, retenção urinária, fecaloma e drogas somadas antes de culpar a morfina que você prescreveu.
Esperado: O plano em vigor corresponde ao que o paciente disse querer, e a família sabe qual é
Se não melhora: Plano não revisto vira decisão tomada por inércia às quatro da manhã. Se o paciente mudou de patamar e ninguém reabriu a conversa, reabra: retome o que ele disse antes, diga o que mudou, pergunte se ainda vale. Divergência persistente entre a família e o que está registrado, ou ausência de representante e de consenso, é hora de acionar o Comitê de Bioética da instituição ou, na falta dele, a Comissão de Ética Médica do hospital.
Onde o erro machuca
O dano: Em dor contínua, o esquema apenas condicional garante que a analgesia chegue sempre depois do pico. O paciente passa a noite entre crises, a enfermagem hesita em chamar de novo, e cada episódio mal controlado sensibiliza o sistema nociceptivo e exige dose maior depois. A curva do dia vira serrote — e consome mais opioide do que teria sido preciso em dose fixa.
Como pegar a tempo: Dor contínua se trata pelo relógio: dose fixa para prevenir e resgate para o escape, sempre as duas na mesma prescrição. O esquema apenas condicional só é legítimo em dor verdadeiramente episódica, e mesmo aí com intervalo mínimo e critério escritos.
O dano: Dose fixa sem resgate deixa o paciente sem nada para o pico e a equipe sem autorização para agir. Resgate escrito como "se dor", sem intervalo mínimo, dá no mesmo por outro caminho: a técnica não sabe se pode repetir em uma hora ou se precisa esperar quatro — e não repete. O paciente é medicado por hesitação, e o prontuário dirá que havia analgesia disponível.
Como pegar a tempo: Escreva as quatro variáveis do resgate: droga, dose (1/6 da diária), gatilho (dor ≥ 4/10) e intervalo mínimo (1 h por via oral, 30 min por via subcutânea). E deixe claro que não há limite de doses no turno enquanto o critério for cumprido — o teto vem da reavaliação médica, não do relógio da enfermagem.
O dano: Constipação por opioide não desenvolve tolerância: acompanha o tratamento inteiro. Em quatro a cinco dias vira fecaloma, que se apresenta como dor abdominal (tratada com mais morfina), náusea, retenção urinária, agitação, delirium — e como diarreia paradoxal, lida como gastroenterite e tratada com antiespasmódico, piorando tudo. Há paciente que abandona a analgesia por medo do intestino e volta a sentir dor por causa de um laxante que custava centavos.
Como pegar a tempo: Laxante irritativo de horário, na mesma receita, no mesmo dia, antes de existir queixa — nunca "se necessário". Osmótico associado quando 48 h passam sem evacuação. Hábito intestinal perguntado e registrado todo dia, como se pergunta a dor.
O dano: Sonolência leve inicial pode acompanhar alívio da dor e adaptação ao opioide, mas sedação progressiva pode preceder depressão respiratória. Presumir que toda sonolência é dívida de sono perde um sinal de toxicidade; suspender ou antagonizar indiscriminadamente em paciente confortável e ventilando bem também pode devolver dor e precipitar abstinência. O exame e a evolução distinguem as situações.
Como pegar a tempo: Avaliar capacidade de despertar, profundidade e frequência respiratórias, pausas, saturação, pupilas, função renal e outros sedativos. Não exigir tríade completa nem esperar frequência abaixo de 10 para agir. Sedação progressiva ou ventilação inadequada exige avaliação imediata, retenção de doses conforme gravidade e suporte; naloxona é titulada conforme protocolo quando há depressão respiratória clinicamente relevante, preservando analgesia quando possível. Sonolência leve, estável e com ventilação adequada pede vigilância e reavaliação antes da próxima dose, antecipada se houver mudança.
O dano: Trocar morfina oral por parenteral mantendo o mesmo número é triplicar a dose. Converter tramadol com fator errado superestima a exposição em até o dobro. Somar adesivo de fentanil ao esquema oral sem descontar a dose em uso empilha dois opioides. Nos três casos o desfecho é sedação profunda e depressão respiratória em quem estava confortável — e o erro inverso, subestimar, devolve o paciente à dor 8/10 e ainda produz abstinência.
Como pegar a tempo: Converta sempre para a mesma moeda (equivalente em morfina oral), faça a conta escrita, aplique a redução de segurança de 25 a 50% na droga nova (50 a 75% quando a droga nova é metadona) e prescreva resgate generoso para cobrir a subestimativa proposital. Confira contra a apresentação: se a conta não fecha em miligramas que existem em comprimido ou em mililitros que a seringa mede, ela ainda não terminou.
O dano: Dor neuropática responde pouco a opioide e muito a adjuvante. Subir morfina nela entrega o efeito colateral inteiro — sedação, náusea, constipação — sem analgesia, e o paciente ainda leva o rótulo de refratário. Em doses altas entra a hiperalgesia: a dor aumenta quando a dose aumenta, e a leitura ingênua disso é subir mais.
Como pegar a tempo: Caracterize a dor antes de titular. Queimação contínua, choque, formigamento, dor ao toque leve ou DN4 com quatro pontos ou mais mudam a conduta: entre com adjuvante desde cedo — nortriptilina 10 mg à noite no idoso, gabapentina 300 mg à noite com titulação, dexametasona em compressão nervosa ou medular — e use o opioide para o componente nociceptivo que sobrar.
O dano: Dieta enteral em volume de manutenção provoca vômito, broncoaspiração e distensão. Hidratação venosa generosa piora edema, congestão e respiração ruidosa. Antibiótico, profilaxia de trombose, insulina e glicemia capilar exigem punções repetidas em quem não colhe benefício algum. Somadas, essas linhas transformam as últimas 48 horas numa sequência de procedimentos — e a família assiste.
Como pegar a tempo: Reconhecido o processo ativo de morte, revise a prescrição linha por linha contra a pergunta "isso dá conforto nas próximas horas?". Cada suspensão é explicada à família com o motivo: sem isso, limitar medida desproporcional é lido como abandono. E o direito de limitar não se exerce sem esclarecer as modalidades terapêuticas ao doente ou ao representante e sem registrar a decisão fundamentada no prontuário.
O dano: É abandono terapêutico disfarçado de decisão. O paciente com câncer avançado que faz infecção urinária continua tendo indicação de antibiótico, porque a infecção causa sintoma e o tratamento alivia; hipercalcemia sintomática se beneficia de ser tratada; derrame pleural com dispneia se beneficia da drenagem. Suspender tudo em nome de um rótulo entrega sintomas evitáveis — e contraria a norma, que manda ofertar cuidados paliativos junto com o tratamento da doença, não em vez dele.
Como pegar a tempo: A pergunta nunca é "ele é paliativo?", é "esta medida, neste momento, alivia mais do que pesa?". Antibiótico que trata sintoma entra; antibiótico que só prolonga o morrer, não. E a lei apoia os dois lados da decisão: é vedado abandonar paciente sob seus cuidados, e é vedado empreender ações inúteis ou obstinadas na doença incurável e terminal. Limitar terapêutica desproporcional e abandonar paciente são coisas opostas.
O dano: Na alta o paciente leva uma receita simples, volta da farmácia sem o remédio e passa o fim de semana com dor até alguém emitir a notificação. Pior com ampolas para uso domiciliar: a quantidade necessária excede em muito o limite por notificação, e sem justificativa a dispensação é recusada.
Como pegar a tempo: Notificação de Receita A, amarela, com a receita, quantidade em algarismo e por extenso, para até 30 dias — e, se forem ampolas acima de cinco, com justificativa contendo CID ou diagnóstico e posologia, datada e assinada, entregue junto. Combine o retorno antes de a receita vencer.
O que dizer ao paciente e à família
As falas abaixo são sobre objetivos de cuidado e sobre o que vem nos últimos dias. Todas seguem a mesma anatomia: nomeie o que está acontecendo, diga o que muda, e termine no que está sob seu controle. O que elas fazem é substituir uma frase que a família ouve como abandono por uma frase que descreve o cuidado que continua.
O medo do interno costuma ser dizer algo que apresse o luto. Na prática o dano é o inverso: o silêncio deixa a família descobrir sozinha, no pior momento, o que poderia ter sido dito com calma. A técnica de conduzir a conversa difícil — preparo, aviso, pausa, acolhimento — é assunto próprio e vale integralmente aqui; o que muda é o conteúdo.
"Doutor, morfina não é quando não tem mais jeito?" — a paciente, antes da primeira dose
“"Entendo por que a senhora pensa isso, muita gente pensa. Morfina é remédio de dor, e é o mais eficiente que a gente tem para a dor que a senhora está sentindo. Ela não acelera nada e não vicia quem toma para dor, na dose certa. A gente começa numa dose baixa, mede a sua dor de manhã e à noite, e vai ajustando junto com a senhora até a senhora conseguir dormir a noite inteira. Se em algum momento der sonolência demais, a gente reduz — quem manda no ajuste é a sua dor, não uma tabela."”
Não diga: "Não se preocupe, é só um analgésico" — a paciente sabe o nome do remédio e a minimização soa a engano. E o extremo oposto, o consentimento por susto: recitar a lista de efeitos colaterais sem dizer o que se faz com cada um.
"Se ele tomar morfina, ele vai ficar dopado e não vai mais falar comigo" — a filha
““Ele pode ficar um pouco sonolento no começo, mas precisamos observar como acorda e como respira. Não vamos presumir que toda sonolência é normal. Se ficar difícil acordá-lo, respirar superficialmente, fizer pausas ou ficar mais confuso, chame a equipe imediatamente. Vamos ajustar o tratamento para aliviar a dor com o nível de atenção e conforto que façam sentido para ele.””
Não diga: Prometer que não haverá sonolência nenhuma. E o silêncio: não avisar da sonolência das primeiras 48 h faz a família concluir sozinha que a morfina fez mal.
"O que vocês vão fazer agora?" — abrindo a conversa de objetivos de cuidado, com o paciente lúcido
“"Antes de eu propor qualquer coisa, eu preciso entender o senhor. Três perguntas. Primeira: o que o senhor entende sobre a sua doença hoje? Segunda: pensando nos próximos meses, o que é mais importante para o senhor — o que o senhor não quer perder? Terceira: existe alguma coisa que o senhor não quer que a gente faça, aconteça o que acontecer? … Vou anotar isso no prontuário, com as suas palavras, para que qualquer médico que te atender saiba o que o senhor decidiu. E o senhor pode mudar de ideia quando quiser; é só me avisar que eu mudo o que está escrito."”
Não diga: Abrir pelo procedimento ("o senhor quer ser entubado?") — pergunta técnica descontextualizada, que ninguém tem como responder. E deixar a conversa para quando ele já não puder participar dela: aí a decisão será tomada por outros, sobre ele.
"Vocês vão parar o tratamento? Vão deixar ele morrer?" — o filho, quando se propõe limitar medida
“"Não. Nada do que alivia vai ser retirado. O que a gente está propondo é deixar de fazer o que não ajuda mais e machuca — a sonda que provoca vômito, a ida para a UTI que separa vocês dele e não muda o desfecho. Tudo o que trata sintoma continua: a medicação para dor, para falta de ar, para náusea, os cuidados de boca, e vocês aqui do lado. É uma mudança de alvo, não uma retirada de cuidado: o alvo deixou de ser esticar o tempo e passou a ser a qualidade do tempo que existe."”
Não diga: "Não há mais nada a fazer" — tecnicamente falso e ouvido como abandono. E a lista do que não será feito: diga em positivo o que SERÁ feito, e mencione a limitação depois, dentro do plano.
"Ele não está comendo. Ele vai morrer de fome" — a esposa, sobre a sonda
“"Eu entendo — comida é cuidado, e ver ele recusar dói. O que está acontecendo é o contrário do que parece: ele não está morrendo porque parou de comer; parou de comer porque o corpo entrou numa fase em que não aproveita mais o alimento. Nessa fase, a sonda costuma trazer vômito, distensão e desconforto, sem prolongar a vida dele. O que ajuda é o que a senhora já faz: oferecer o que ele gosta, na quantidade que ele aceitar, sem forçar, e manter a boca dele úmida e limpa — isso alivia de verdade a sensação de sede, e é a senhora quem pode fazer."”
Não diga: "Alimentar agora seria fútil" — vocabulário que soa a desprezo pelo que a família mais valoriza. E ceder à sonda para encerrar o conflito: alivia a conversa de hoje e entrega semanas de desconforto.
"O que vai acontecer nas últimas horas?" — preparando a família para o que ela vai ver
“"Vou te contar o que costuma acontecer, para que nada te pegue de surpresa. Ele vai dormir cada vez mais e por fim não vai mais acordar — mas a audição costuma ser a última coisa a ir embora, então continuem falando com ele. A respiração vai ficar irregular, com pausas, e pode ficar barulhenta por causa de secreção na garganta: esse barulho assusta quem escuta e, nessa fase, não incomoda ele. As mãos e os pés vão esfriar e mudar de cor. Nada disso é dor. Tudo o que der desconforto já está prescrito, e a enfermagem pode aplicar na hora, sem esperar médico. Quando acontecer, não há pressa: vocês ficam com ele o tempo que precisarem."”
Não diga: Não avisar. Família despreparada interpreta a respiração ruidosa como sufocamento e pede aspiração, sedação ou UTI na última hora — e carrega essa cena por anos. Evite também o detalhe cru sem propósito.
"Aumentar a morfina agora não vai adiantar o fim?" — a pergunta que a família faz de madrugada
““O objetivo é aliviar a falta de ar e a dor. Ajustamos a dose observando o conforto, a consciência e a respiração, com reavaliação mais próxima quando iniciamos ou mudamos o tratamento. Se ele ficar difícil de acordar ou respirar de forma muito lenta ou superficial, chamem imediatamente; não esperem o próximo horário. Vamos conversar sobre cada mudança e sobre o que é mais importante para ele.””
Não diga: "Essas medicações vão deixá-lo morrer sem sofrer" — construção que soa como se a droga apressasse a morte. E responder só com farmacologia: a pergunta é moral, e o que ela pede é a garantia de que ninguém está decidindo a hora dele.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Pelo relógio, sempre que a dor é contínua — princípios da OMS no Manual de Cuidados Paliativos
Entre os cinco princípios do tratamento da dor está o "pelo relógio": os analgésicos são prescritos de horário, conforme o tempo de ação de cada um, porque o objetivo não é apenas tratar a dor, é impedir que ela se manifeste — e às doses de horário se acrescentam as de resgate para os intervalos. Em dor oncológica contínua, o esquema apenas condicional produz analgesia que sempre chega depois do pico, consumo maior de opioide no total e noites como a da abertura.
Manual de Cuidados Paliativos, 2ª ed., HSL/PROADI-SUS/MS/CONASS, 2023 — cap. 13, princípios da OMS e seção de resgate
Parcimônia e uso racional, sobretudo fora do câncer — Política Nacional de Cuidados Paliativos e a régua do SUS para dor crônica
Uma das diretrizes da Política Nacional de Cuidados Paliativos é o estímulo a ações de sensibilização na Rede de Atenção à Saúde para o uso racional de opioides. Na dor crônica não oncológica — osteoartrite, artrite reumatoide, lombalgia —, a régua do SUS é de parcimônia: o uso prolongado carrega retenção urinária, constipação e sonolência sem evidência convincente de eficácia sustentada. Aplicar automaticamente o esquema de horário a toda dor crônica expõe pacientes que não vão colher benefício proporcional.
Portaria GM/MS nº 3.681/2024, Anexo XLIV, art. 3º, V; e o Componente Especializado da Rename, que vincula morfina, metadona e codeína ao PCDT da Dor Crônica
Decida pelo padrão temporal da dor, não pelo rótulo do paciente. Dor presente na maior parte do dia — o caso típico da invasão de víscera, osso ou plexo — pede dose fixa de horário com resgate: sem a fixa, você trata picos a vida inteira. Dor genuinamente episódica, ligada a um gatilho identificável, trata-se com dose programada antes do gatilho. E a régua de parcimônia da dor crônica não oncológica não se transporta para quem tem câncer avançado e dor 8/10: ali o risco de longo prazo que ela protege não é o risco em jogo. Em qualquer caso, o que autoriza subir é a contagem de resgates, não a impressão do plantão.
Reduzir — o excesso de volume produz sintoma
Na fase final de vida, hidratação venosa e dieta enteral em volume de manutenção estão entre as medidas que produzem sofrimento evitável: edema periférico, congestão pulmonar, desconforto respiratório e respiração ruidosa por acúmulo de secreção. Diante de respiração ruidosa, uma das primeiras medidas é justamente identificar na prescrição os indutores do sintoma — hidratação venosa e dieta enteral em volume elevado — e reduzi-los. A boca seca, que é o sintoma que a família associa à desidratação, responde a cuidados locais e não a soro.
Manual de Cuidados Paliativos, 2ª ed., 2023 — cap. 23 (fase final de vida) e cap. 25 (processo ativo de morte)
Manter um volume mínimo — a desidratação precipita neurotoxicidade por opioide
Mioclonia é indicativo de neurotoxicidade por opioide e é comum surgir quando há quadro de desidratação; a conduta descrita inclui hidratar, além de reduzir a dose em 25 a 30% ou rodar o opioide. Em paciente que está justamente em titulação de morfina e com função renal em queda, secar completamente o aporte de volume aumenta a concentração do metabólito ativo e a chance de confusão, mioclonias e hiperalgesia. A hipodermóclise oferece uma via bem tolerada para volume pequeno, sem punção venosa, com limites por sítio bem estabelecidos.
Manual de Cuidados Paliativos, 2ª ed., 2023 — cap. 13 (efeitos colaterais e mioclonia) e cap. 29 (hipodermóclise)
Decida pelo sintoma que o paciente está tendo, e refaça a decisão todo dia. Com edema, estertores e respiração ruidosa, sem sinal de neurotoxicidade: reduza volume — o soro está produzindo sintoma. Com mioclonias, confusão nova e opioide em titulação com função renal caindo: um volume pequeno por hipodermóclise, de 500 a 1.000 mL/24 h conforme o sítio, ajuda a limpar o metabólito e costuma valer mais do que a troca imediata de droga. Prescreva por 24 h, olhe o efeito e refaça. E explique a escolha à família antes: volume retirado sem explicação é lido como abandono, e volume mantido sem explicação vira promessa de recuperação.
É conduta indicada e regrada, com critérios objetivos — Manual de Cuidados Paliativos
A sedação paliativa é o uso de medicações que reduzem o nível de consciência para aliviar sintoma refratário em doença avançada e progressiva, sempre com a sedação menos profunda possível para controlar o sintoma. A indicação passa por cinco perguntas objetivas — doença irreversível, indicação de cuidado paliativo com priorização de conforto, desconforto importante, causas reversíveis tratadas, terapia otimizada — e a proposta é conversada com paciente, família e equipe antes de começar. O objetivo é o sintoma: se o paciente ficar confortável e continuar acordado com a dose inicial, não se aumenta.
Manual de Cuidados Paliativos, 2ª ed., 2023 — cap. 26, critérios de indicação e titulação do midazolam
O limite é a intenção e a proporcionalidade — Código de Ética Médica e Resolução CFM nº 1.805/2006
É vedado ao médico abreviar a vida do paciente, ainda que a pedido dele ou de seu representante legal; e, na doença incurável e terminal, deve oferecer todos os cuidados paliativos disponíveis sem empreender ações inúteis ou obstinadas. O que a Resolução CFM nº 1.805/2006 autoriza é limitar ou suspender procedimentos que prolonguem a vida na fase terminal, garantindo os cuidados para aliviar o sofrimento — com decisão fundamentada e registrada em prontuário e com direito a segunda opinião. A régua ética que sustenta a sedação é o princípio do duplo efeito: proporcionalizar o alívio desejado do sintoma e o efeito colateral possível, com a decisão partilhada com o paciente ou seu representante.
CFM, Resolução nº 2.217/2018 (Código de Ética Médica), art. 41 e parágrafo único; CFM, Resolução nº 1.805/2006, art. 1º, §§ 1º a 3º, e art. 2º
As duas posições não se contradizem — elas se checam. Antes de sedar, responda por escrito: qual é o sintoma refratário, o que já foi otimizado, qual dose alivia. Se a resposta ao "o que já foi otimizado" for curta, o sintoma não é refratário, é subtratado, e a conduta é tratar melhor. A dose se titula pelo conforto; a meta registrada é o alívio do sintoma, nunca a profundidade da sedação. Mantenha o opioide — retirá-lo devolve a dor a quem não pode mais avisar. Registre indicação, otimização prévia, consentimento e reavaliação diária. Feito assim, pratica-se a limitação de medida desproporcional que a resolução autoriza, com o duplo efeito explicitado; feito sem esses passos, o mesmo midazolam vira decisão sem indicação — e é essa diferença, não a droga, que separa uma coisa da outra.
O raciocínio, em voz alta
Enfermaria, 15 h. Seu Nivaldo, 68 anos, adenocarcinoma de próstata com metástases ósseas em coluna e bacia, internado há oito dias. Vinha em morfina simples 15 mg VO de 4/4 h com boa analgesia (dor 2 a 3 de 10). Nas últimas 24 h apresentou vômitos persistentes por gastroparesia, não conseguiu tomar duas doses e agora refere dor 7/10. Creatinina 1,1 (filtração estimada em 58), potássio normal, sem febre. A esposa pergunta se "não dá para dar aquela injeção que ele tomou na cirurgia".
o que eu penso antes de qualquer conta
Duas coisas separadas estão acontecendo, e misturá-las produz erro. A primeira é a perda da via oral, que é problema de VIA. A segunda é a dor 7/10, consequência da primeira — ele perdeu duas doses, não é a doença que piorou de repente em 24 h. Se eu tratar isso como progressão e subir a dose, vou converter para parenteral já sobre uma dose inflada. Primeiro restabeleço a via mantendo a dose diária que funcionava; depois, se ainda houver dor, titulo.
a conta da dose diária e a conversão de via
Ele estava em 15 mg de 4/4 h — seis tomadas, 15 × 6 = 90 mg/dia de morfina oral. É essa a dose que controlava a dor, e é ela que preciso reproduzir por outra via, não a de hoje, que está incompleta porque ele vomitou duas. Morfina parenteral é três vezes mais potente que a oral: 90 ÷ 3 = 30 mg/dia por via endovenosa ou subcutânea. Duas formas de entregar: 30 ÷ 6 = 5 mg de 4/4 h, ou 30 mg em infusão contínua nas 24 h, que dá 1,25 mg/h. Escolho a subcutânea intermitente — acesso venoso difícil, serviço sem bomba sobrando, hipodermóclise bem tolerada. Na apresentação de 10 mg/mL, 5 mg são 0,5 mL por dose: cabe na seringa e a técnica consegue medir.
o resgate, e por que ele não pode ser tímido aqui
Resgate é 1/6 da dose diária da via em uso: 1/6 de 30 mg parenterais = 5 mg SC. Coincide com a dose fixa, e isso está certo — em esquema de 4/4 h, a dose fixa É um sexto da diária. Intervalo mínimo de 30 minutos, porque a via subcutânea dá pico em 20 a 30 min. E aqui eu me lembro de uma coisa: acabei de reduzir a exposição dele em relação à receita, porque a conversão é feita para baixo por segurança. É o resgate que cobre essa margem — se eu escrever resgate pequeno, eu subtrato duas vezes.
o que mais entra na prescrição, e a dor de agora
Ele está vomitando: metoclopramida 10 mg EV ou SC de 8/8 h, que age na zona de gatilho e no peristaltismo — a droga certa para gastroparesia; não associo ondansetrona, porque as duas se antagonizam. O laxante ele já tinha; como perdeu a via oral, passo a supositório de glicerina se necessário e reavalio o hábito intestinal todo dia, porque o vômito não suspende a constipação e fecaloma é diferencial do próprio vômito. Mantenho a dipirona por via endovenosa. Para a dor de 7/10 agora, dou o resgate imediatamente — 5 mg SC — e reavalio em 30 minutos, repetindo se ainda estiver acima de 4; não altero a dose fixa por causa desta crise, que é explicada pelas doses perdidas. A decisão de subir vem amanhã, pela contagem de resgates.
o que eu vigio nas próximas 24 horas
Após a mudança de via, reavaliar dor, capacidade de despertar e ventilação em intervalo compatível com o início de ação e depois conforme estabilidade, sempre antes de repetir resgates. Registrar todas as doses e horários, função renal e efeitos adversos. A passagem deve incluir: “Conversão segundo razão oral:subcutânea 3:1 do protocolo: 90 mg/dia oral para 30 mg/dia SC, 5 mg de 4/4 h; resgate de 5 mg SC com avaliação antes de repetir e acionamento médico se resgates sucessivos ou sedação”. A proporção varia entre protocolos, e a conta exige confirmação clínica. Piora renal ou neurológica pede revisão imediata, sem esperar a coleta de rotina; rotação é decidida com equipe experiente.
a pergunta da esposa
"É exatamente isso que a gente vai fazer — só que por baixo da pele, com uma agulhinha fina que fica no lugar, sem precisar espetar toda vez. É o mesmo remédio que ele já vinha tomando pela boca, na dose equivalente: como pela veia e pela pele ele é mais forte, a gente usa um número menor. Ele não vai ficar sem nada enquanto o estômago se recupera." Dizer o número menor em voz alta importa: sem isso, a família vê a dose cair de 15 para 5 e conclui que estamos tirando o remédio dele.
Faça você
Enfermaria, visita da manhã. Dona Alzira, 79 anos, câncer de mama metastático para osso e fígado, em morfina de liberação prolongada 60 mg VO de 12/12 h, com resgates de morfina simples 20 mg. Nas últimas 48 h a filha relata que ela ficou "estranha": mais sonolenta durante o dia, confusa à noite, e com abalos musculares breves nos braços quando cochila. A dor, que estava em 3/10, subiu para 6/10 — e os resgates "não estão mais fazendo efeito". Creatinina subiu de 0,9 para 2,4 (filtração estimada em 19 mL/min/1,73 m²), com desidratação clínica. Os primeiros passos do raciocínio estão dados — complete o que falta.
reconheço o padrão
O conjunto sugere neurotoxicidade por opioide agravada pela lesão renal e desidratação. Não aumentar automaticamente a morfina pela dor de 6/10. Avaliar gravidade, doses acumuladas e causas associadas de delirium; esse padrão não prova sozinho que a neoplasia não progrediu.
calculo a exposição atual
A dose programada é 60 mg de 12/12 h, total de 120 mg/dia oral. Somar todos os resgates realmente recebidos: o total não está informado e precisa ser reconstruído. Embora 20 mg seja um sexto da dose programada, essa proporção não garante segurança em lesão renal com toxicidade; não repetir por estar matematicamente correta.
as primeiras três medidas, antes de trocar qualquer coisa
Avaliar ventilação e consciência imediatamente, conferir volume e tratar desidratação se houver benefício, escolhendo via e velocidade conforme gravidade. Rever outros sedativos e ajustar ou reter morfina conforme o quadro, preservando um plano de analgesia. Investigar causas associadas de delirium, incluindo hipercalcemia, infecção, retenção e constipação. Não aplicar simultaneamente redução percentual e novo intervalo sem recalcular a exposição diária.
a rotação: qual droga, em que dose, com que resgate — e o que digo à filha
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Alzira precisa de avaliação médica imediata da ventilação, consciência, volemia, função renal e doses efetivamente recebidas, incluindo resgates. O quadro sugere neurotoxicidade por morfina, mas exige procurar causas associadas de delirium. Corrigir desidratação quando houver benefício, rever sedativos e reduzir ou suspender temporariamente doses conforme gravidade, mantendo um plano de analgesia. A rotação deve ser conduzida por equipe experiente; a presença da metadona na Rename não a torna única opção no SUS nem garante que seja a melhor para esta paciente. Alzira recebe pelo menos 120 mg/dia de morfina oral, mais resgates ainda não quantificados; por isso não é possível fornecer uma dose individual de rotação apenas com a vinheta. Reconstruir a exposição e utilizar o protocolo específico com o especialista, considerando redução de tolerância cruzada e a não linearidade da conversão para metadona. O exemplo de 90 mg/dia discutido anteriormente pertence a outra situação e não deve ser aplicado a ela. O esquema e o resgate dependem de tolerância, interações, QT e recursos do serviço; com lesão renal importante e toxicidade em curso, não manter resgates frequentes de morfina automaticamente. A metadona pode acumular por vários dias, inclusive além de uma janela fixa de três a cinco dias; dose e reavaliação são individualizadas. Monitorar dor, consciência, ventilação e mioclonias desde a intervenção, com intervalo proporcional à gravidade. À filha: “Os sinais sugerem que o remédio está se acumulando porque o rim piorou. Vamos ajustar o tratamento, cuidar da dor e investigar também outras causas da confusão.”
Neste exercício foi explicitada a razão oral:subcutânea de 3:1: 20 mg × 6 = 120 mg/dia oral; 120 ÷ 3 = 40 mg/dia SC; 40 ÷ 6 ≈ 6,7 mg por tomada e para o resgate de um sexto. Em solução de 10 mg/mL, isso corresponde a aproximadamente 0,67 mL, com preparo e mensuração conferidos. Protocolos podem adotar outra proporção, por isso ela deve estar explícita e a resposta precisa ser reavaliada. A repetição do resgate depende de consciência, ventilação, efeito e dose acumulada; intervalo mínimo não autoriza doses indefinidas. Manter 20 mg por dose SC triplicaria a dose calculada neste protocolo; as demais alternativas também não correspondem à razão pedida.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Apresente um plano de analgesia com dose de horário, resgate, prevenção de constipação e reavaliação. Explique por que resgates frequentes pedem exame e não apenas soma automática.
Em 30 dias
Reavalie uma pessoa com dor, mioclonias e piora renal em uso de morfina. Discuta os primeiros cuidados e a necessidade de apoio na rotação. Depois explique como uma decisão sobre sedação exige refratariedade, proporcionalidade e consentimento.
Agora atenda
Agora atenda: três e dez da manhã, enfermaria de clínica médica. Mulher de 74 anos com adenocarcinoma de pâncreas e metástases hepáticas, internada para controle de dor, em codeína 30 mg de 6/6 h e dipirona, com "morfina 2 mg EV se dor intensa" na prescrição. Ela refere dor 8/10, a filha está acordada ao lado e pergunta se morfina não é "quando não tem mais jeito". Avalie e caracterize a dor, trate o pico agora, deixe a prescrição das próximas 24 h por extenso — dose fixa, resgate com intervalo, laxante e antiemético — e responda à filha.
