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Clínica MédicaGeriatria

A queixa é da filha

Demências (Alzheimer, vascular) e comprometimento cognitivo

Envelhecimento normal, comprometimento cognitivo leve e demência se confundem na porta do consultório e pedem condutas opostas. A régua que separa os três não é quantos pontos ela fez no teste: é o que ela deixou de conseguir fazer sozinha.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 27, de 27 de novembro de 2025. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Alzheimer.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais — Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 254 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Gestão do Cuidado Integral. Coordenação de Atenção à Saúde da Pessoa Idosa. Identificação da Demência na Atenção Primária. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 1ª edição, versão eletrônica. Editora MS, OS 2024/0189.

Schilling LP, Balthazar MLF, Radanovic M, Forlenza OV, Silagi ML, Smid J, et al. Diagnóstico da doença de Alzheimer: recomendações do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia. Dement Neuropsychol. 2022 Set;16(3 Suppl 1):25-39. DOI 10.1590/1980-5764-DN-2022-S102PT.

Barbosa BJAP, Siqueira Neto JI, Alves GS, Sudo FK, Suemoto CK, Tovar-Moll F, et al. Diagnóstico do comprometimento cognitivo vascular: recomendações do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia. Dement Neuropsychol. 2022 Set;16(3 Suppl 1):53-72. DOI 10.1590/1980-5764-DN-2022-S104PT.

01

Responda antes de ler

Numa unidade básica de saúde, a equipe vai aplicar o fluxograma do Ministério da Saúde para identificação da demência na atenção primária. Sobre esse fluxograma, qual afirmação corresponde ao que o documento estabelece?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, nove e vinte. A unidade básica ocupa uma casa adaptada na esquina de uma rua que só tem asfalto até a metade, e o serviço que recebe os encaminhamentos fica do outro lado da cidade, com fila de meses para a neurologia. A agenda da manhã tem catorze nomes e o quinto é o de dona Rosalvina Almendra, 78 anos, aposentada, ex-lavadeira, hipertensa, em uso de losartana e hidroclorotiazida há uns doze anos. Ela entra devagar, senta, arruma a bolsa no colo e responde ao bom-dia com um bom-dia. Está bem-vestida, tem o cabelo preso, sabe o seu nome depois que você diz, e pergunta se você é o médico novo.

Atrás dela entra a filha. Waldirene tem 52 anos, trabalha em uma escola municipal, e é ela quem fala primeiro: "doutor, a minha mãe está esquecendo tudo". Você olha para dona Rosalvina e dona Rosalvina faz um gesto com a mão, daqueles que descartam o assunto antes de ele começar, e diz que não é nada, que é idade, que todo mundo esquece.

As duas frases não podem estar as duas certas, e é esse o problema clínico da consulta. Uma delas descreve envelhecimento; a outra descreve doença. Elas soam parecidas na sala de espera e pedem coisas opostas de você: uma pede que você tranquilize e vá embora, a outra pede uma investigação inteira, uma conversa difícil e um conjunto de decisões que precisam ser tomadas enquanto a pessoa ainda consegue participar delas.

Este capítulo é sobre separar as duas — e sobre a terceira coisa, que fica no meio e tem nome próprio. É também sobre uma inversão que o interno demora a aceitar: aqui, a história mais confiável não vem do paciente. Vem de quem convive com ele. A paciente é a pessoa menos capaz de relatar o que está acontecendo, e não por má vontade: o não reconhecimento do próprio déficit é parte da doença, e o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Alzheimer, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 27, de 27 de novembro de 2025, lista essa falta de reconhecimento entre as características comuns do quadro.

A consulta vai durar quinze minutos e você não vai fechar diagnóstico nela. O que você tem que sair sabendo é outra coisa: se o que ela perdeu é memória ou é autonomia, se há alguma causa tratável em cima da mesa, e o que precisa ser decidido antes que a decisão deixe de ser dela.

03

Quem adoece disso

O PCDT de 2025 abre com o número que enquadra o resto: segundo o Ministério da Saúde, a prevalência média de demência na população brasileira com 60 anos ou mais foi de 8,5% em 2019, sendo 9,1% entre as mulheres e 7,7% entre os homens. Numa agenda de catorze idosos por manhã, é mais de um por dia. Você não escolhe se vai atender demência no internato; escolhe se vai reconhecê-la.

A incidência dobra a cada cinco anos de idade. Os estudos populacionais compilados pelo protocolo dão a dimensão dessa curva: 80 pessoas em cada 10.000 entre 50 e 59 anos vivendo com demência, contra 3.572 em cada 10.000 na faixa de 90 a 99 anos. É um fator de quarenta e cinco vezes ao longo de quatro décadas de vida. Idade não é causa, mas é de longe o fator de risco mais forte, e é por isso que a mesma queixa muda de peso conforme quem a traz tem 62 ou 84 anos.

A doença de Alzheimer responde por até 70% dos casos de demência no mundo e por cerca de 60% dos casos no Brasil, segundo os dados que o protocolo compila. O restante se distribui entre o comprometimento cognitivo vascular, a demência com corpos de Lewy, as degenerações frontotemporais e as formas mistas — e essa distribuição importa menos do que parece na primeira consulta, porque o primeiro passo não é escolher a etiologia: é decidir se existe demência.

O número mais incômodo é o do subdiagnóstico. O fluxograma do Ministério da Saúde de 2024 abre dizendo que cerca de 80% das pessoas com demência no país desconhecem o diagnóstico; o PCDT estima que apenas 20% dos casos brasileiros são formalmente diagnosticados, com índices ainda menores nas regiões Norte e Nordeste. Não é um problema de exame indisponível. O protocolo lista as razões, e a primeira delas é uma crença: a de que perda de memória e outros problemas cognitivos fazem parte do envelhecimento normal. A segunda é a negação pelo próprio paciente e pela família. A terceira é o profissional de saúde que evita o assunto — e o documento diz, com todas as letras, que essa evitação normaliza o diagnóstico tardio e deve ser desestimulada.

Em junho de 2024, o país ganhou a Lei nº 14.878, que institui a Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências. Ela define demência no art. 2º, fixa diretrizes no art. 3º — apoio à atenção primária e capacitação de todos os profissionais que a integram, medicina baseada em evidências, articulação dos serviços existentes numa linha de cuidado, descentralização — e prevê, no art. 8º, um plano de ação a ser construído pelo poder público. Vale registrar o que o texto da lei diz e o que ele não diz: o art. 8º não fixa prazo para esse plano, ao contrário do que circula em boa parte da divulgação sobre a lei.

Isso deixa o Brasil numa posição específica, que convém ao interno entender antes de sair procurando o documento que não existe. Há uma lei de política nacional desde 2024. Há um protocolo federal de tratamento, novo, de novembro de 2025 — mas ele é da doença de Alzheimer, e só dela. Há um fluxograma de identificação para a atenção primária, de 2024. E há, ainda, um vazio no meio: entre a lei que promete uma linha de cuidado e o protocolo que trata uma única etiologia, não existe documento federal que governe o diagnóstico e o cuidado das demências não-Alzheimer. Quem preenche esse vazio, hoje, são os consensos da Academia Brasileira de Neurologia de 2022 — que são régua de sociedade, não norma.

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Por que acontece o que acontece

Demência não é um diagnóstico de causa; é um diagnóstico de consequência. O termo descreve um estado em que a perda cognitiva chegou ao ponto de comprometer o que a pessoa consegue fazer, seja qual for o processo que a produziu. É por isso que a definição da Lei nº 14.878/2024 fala em deterioração da função cognitiva além do que se esperaria no envelhecimento normal, e é por isso que a primeira pergunta clínica nunca é qual doença: é se o limiar funcional já foi cruzado.

Na doença de Alzheimer, o processo começa muito antes do sintoma. O PCDT descreve o desenvolvimento como um contínuo de três estágios: pré-clínico, comprometimento cognitivo leve e demência — e só o terceiro tem, por definição, perda funcional. A lesão se instala primeiro nas estruturas mediais do lobo temporal, que é onde a memória episódica é formada, e daí se espalha. Isso explica por que o esquecimento de fatos recentes vem primeiro e o de fatos antigos vem por último: o que a doença ataca não é o arquivo, é a máquina de arquivar. A pessoa lembra do casamento de 1968 e não lembra da consulta de terça, porque a de 1968 já estava guardada quando a máquina ainda funcionava.

A forma amnésica é a predominante e responde por 85% dos casos, com o prejuízo da memória episódica dominando o quadro inicial. As formas atípicas começam por outra porta: pela linguagem, pelas habilidades visuoespaciais, pelas funções executivas ou por alterações motoras complexas. São elas que enganam — e enganam justamente porque o interno aprendeu a associar Alzheimer a esquecimento, e não a uma pessoa que se perde no supermercado ou que não consegue mais seguir uma receita de bolo em ordem.

Dois sistemas de neurotransmissão sustentam o tratamento farmacológico que existe. O primeiro é o colinérgico: a degeneração de neurônios que produzem acetilcolina reduz a disponibilidade do neurotransmissor nas sinapses que sustentam atenção e memória, e é isso que os inibidores da acetilcolinesterase tentam compensar, impedindo a degradação do que ainda é liberado. O segundo é o glutamatérgico: com a perda de neurônios que usam glutamato, os receptores do tipo NMDA passam a sofrer estimulação crônica de baixo grau, que degrada a relação entre sinal e ruído na transmissão sináptica — e a memantina é um antagonista desse receptor. Nenhum dos dois mecanismos interfere na lesão que causa a doença. Os dois trabalham no que sobrou.

O comprometimento cognitivo vascular tem outra física. As lesões são isquêmicas ou hemorrágicas e vêm em modalidades variadas — infartos, microinfartos, lacunas, hiperintensidades da substância branca, espaços perivasculares alargados, micro-hemorragias — e o consenso da Academia Brasileira de Neurologia de 2022 é explícito ao dizer que não há uma lesão neuropatológica única que caracterize o quadro, nem critérios amplamente aceitos sobre localização e quantidade de lesões necessárias. O mecanismo central proposto é a perda da integridade da substância branca, com desconexão entre áreas estratégicas para as redes cognitivas. Não é o arquivo que apaga: são os cabos que se rompem.

Essa diferença de mecanismo é a que produz a diferença de história. Uma degeneração que se espalha por difusão produz uma ladeira: cada mês é um pouco pior que o anterior, sem que ninguém consiga apontar a semana em que mudou. Uma sequência de lesões vasculares discretas produz degraus: houve um antes e um depois, e a família costuma saber datar. É a mesma razão pela qual o perfil cognitivo difere — a doença que começa no hipocampo abre com amnésia, e a que rompe conexões frontossubcorticais abre com lentificação, desatenção e falha de planejamento, muitas vezes com a memória relativamente preservada quando se dá uma pista à pessoa.

Só que o cérebro idoso raramente hospeda um processo por vez. Estudos de autópsia mostram que a angiopatia amiloide cerebral se associa com frequência à patologia de Alzheimer, e o consenso vascular reserva um lugar formal para os fenótipos combinados. A recomendação prática que ele faz, e que vale levar para a evolução do prontuário, é evitar o rótulo genérico de demência mista e especificar qual patologia se suspeita estar contribuindo — porque "mista" não orienta conduta nenhuma, enquanto "provável Alzheimer com contribuição vascular de pequenos vasos" orienta duas: tratar a primeira e controlar os fatores de risco da segunda.

Há, por fim, dois processos que produzem exatamente o mesmo quadro de fora e não são demência. O delirium instala-se em horas a dias, flutua ao longo do dia e ataca primeiro a atenção; é reversível quando a causa é tratada, e é a armadilha do idoso internado. A depressão do idoso pode cursar com lentificação, queixa de memória e prejuízo de desempenho que melhoram quando o humor melhora. Os critérios diagnósticos que o Brasil usa excluem as duas de forma explícita: não se diagnostica demência quando os sintomas são explicáveis por delirium ou por doença psiquiátrica maior. Não é uma formalidade de prova. É a diferença entre uma doença que se trata e um rótulo que se carrega para sempre.

Curvas qualitativas de declínio cognitivo gradual e de piora em etapas ao longo do tempo.
Perguntar como a cognição e a funcionalidade mudaram ajuda a organizar a investigação, mas o padrão temporal não define sozinho a etiologia. Doença vascular pode evoluir lentamente ou em etapas, e causas mistas são possíveis. O esquema substitui uma metáfora anatômica por trajetórias clínicas; não representa lesões em exame de imagem.
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Como se apresenta de verdade

As seis apresentações abaixo são as que chegam à consulta com a mesma frase inicial — está esquecendo — e terminam em condutas diferentes. A ordem não é aleatória: as três primeiras são os degraus do contínuo que este capítulo existe para separar, as duas seguintes são as duas etiologias que o título anuncia, e a última é a que mais custa caro quando passa batida.

Vale fixar antes o vocabulário, porque ele é usado de forma trocada até em corredor de enfermaria. Demência é o diagnóstico sindrômico: perda cognitiva com repercussão funcional, qualquer que seja a causa. Doença de Alzheimer é uma causa. Comprometimento cognitivo leve é o estágio anterior ao limiar funcional, e não é sinônimo de "início de Alzheimer", porque nem todo mundo que está nele progride. Dizer "ela tem Alzheimer" para uma pessoa que ainda não foi investigada é errar duas vezes: no estágio e na etiologia.

Percurso de aprendizagem

Reconstrua a trajetória com paciente e informante e interprete os testes à luz da escolaridade, audição, visão e funcionalidade.

Acompanhe a investigação e a reavaliação sem esperar que um escore decida tudo; discuta benefícios, tolerância e preferências ao tratar.

O envelhecimento que não é doença

O cérebro que envelhece fica mais lento, e lentidão não é perda. A pessoa idosa saudável demora mais para encontrar a palavra, precisa de mais tempo para aprender coisa nova, divide pior a atenção entre duas tarefas simultâneas e recupera com esforço nomes próprios que sabe perfeitamente. O traço que define esse padrão é a preservação com pista: ela não lembra o nome do vizinho, você diz a primeira sílaba e ela completa na hora. O dado estava guardado; o que falhou foi o acesso.

O outro traço é que nada disso muda o que ela consegue fazer. Continua pagando as contas, continua tomando os remédios, continua cozinhando o mesmo que sempre cozinhou, continua indo ao mercado e voltando. Se ela anota tudo num caderninho para não esquecer, isso é adaptação, não doença — o critério não é se ela usa apoio, é se o apoio é novo e se, sem ele, a tarefa deixaria de acontecer.

Este é o grupo que o profissional apressado transforma em paciente. Dona Rosalvina, se estiver aqui, precisa de duas coisas suas: que você diga isso com convicção, para que a filha pare de vigiar cada esquecimento como se fosse um sintoma, e que você combine um retorno. O fluxograma do Ministério é claro nesse ponto: se o rastreio inicial não indica alteração sugestiva de demência, a suspeita não deve ser completamente eliminada, e esses pacientes devem manter acompanhamento próximo, no mínimo a cada seis meses.

Comprometimento cognitivo leve: o degrau do meio

Aqui a queixa deixa de ser só impressão. Há declínio objetivo em relação ao desempenho anterior da própria pessoa, geralmente confirmado em teste, e a família percebe: repete a mesma pergunta no mesmo dia, esquece compromisso que era importante, perde o fio de uma conversa longa. O que ainda não aconteceu é a perda de autonomia. Ela faz tudo o que fazia, com mais esforço, mais tempo ou mais checagem — mas faz.

O consenso vascular da Academia Brasileira de Neurologia descreve exatamente essa nuance ao caracterizar a versão leve do comprometimento cognitivo: as atividades instrumentais de vida diária estão preservadas, com o indivíduo ainda independente, embora realize as tarefas com esforço maior. Esforço maior, e não ajuda de outra pessoa: essa é toda a diferença entre este degrau e o próximo.

O que muda na conduta é substancial. Não há, no protocolo brasileiro de 2025, nenhuma via de tratamento medicamentoso para este estágio — os critérios de inclusão começam na demência estabelecida, com CDR 1 ou maior. O que existe é seguimento estruturado, controle de fatores de risco cardiovascular, revisão de medicamentos com efeito cognitivo, correção sensorial e reavaliação em intervalos curtos. Prometer remédio aqui é prometer o que o sistema não entrega e o que a evidência não sustenta.

E há uma armadilha de expectativa a desarmar já na primeira consulta: comprometimento cognitivo leve não é sentença de Alzheimer. Parte das pessoas progride, parte permanece estável por anos e parte melhora — sobretudo quando a causa era um fármaco, uma depressão ou um distúrbio do sono que ninguém tinha procurado.

Demência: quando o limiar funcional foi cruzado

O diagnóstico sindrômico se firma quando os sintomas cognitivos ou comportamentais interferem na habilidade para o trabalho ou para as atividades usuais, representam declínio em relação ao nível anterior de funcionamento e desempenho, e não são explicáveis por delirium ou por doença psiquiátrica maior. São os três critérios do quadro que o PCDT reproduz, e a palavra que os organiza é interferem.

Traduzido para a sala: alguém passou a fazer por ela algo que ela fazia sozinha. Quem separa o remédio na caixinha de comprimidos? Quem confere o extrato do banco? Quem liga para lembrar da consulta? Quem parou de deixar que ela cozinhe sozinha, e por quê? Quando a resposta a qualquer uma dessas é "eu, desde o ano passado", o limiar já foi cruzado — independentemente do que a paciente pontuar em qualquer teste.

As atividades instrumentais caem antes das básicas, e nessa ordem existe informação de estágio. Primeiro vão as complexas — finanças, medicação, transporte, telefone, compras, preparo de refeições — que são justamente as que o Questionário de Mudanças Cognitivas do fluxograma federal interroga, uma a uma, com o acompanhante. Depois vêm as básicas: banho, vestir-se, higiene, transferência, continência, alimentação, que é o que a Escala de Katz mede. A pessoa que ainda toma banho sozinha mas não administra mais o próprio dinheiro está num ponto do percurso; a que precisa de ajuda para se vestir está em outro.

Uma consequência prática, e pouco intuitiva, é que uma paciente pode ter demência com um escore de teste que pareceria aceitável, e outra pode ter escore ruim sem demência nenhuma — porque escolaridade baixa, déficit visual, surdez, depressão e ansiedade de prova derrubam pontuação sem que exista doença degenerativa. É por isso que a régua é funcional.

O desenho típico da doença de Alzheimer — e os atípicos

O quadro de doença de Alzheimer provável, tal como o PCDT o adota, exige que os critérios de demência estejam preenchidos e acrescenta um conjunto de exigências que descrevem a trajetória: início insidioso, ao longo de meses a anos; história clara de perda cognitiva referida pelo informante; e um déficit inicial e mais proeminente que se enquadre numa das categorias descritas — a amnésica, que é a mais comum e exige prejuízo do aprendizado e da evocação de informação recém-aprendida, ou uma das não-amnésicas, de linguagem, visuoespacial ou executiva.

O adjetivo insidioso está fazendo trabalho pesado. Início súbito não é Alzheimer; início em dias a semanas não é Alzheimer; piora que a família consegue datar por um acontecimento não é o desenho típico. Quando o interno consegue extrair da filha uma linha do tempo de dois a três anos com piora contínua e sem marco, já tem meio critério.

O quadro de exclusão é tão importante quanto o de inclusão, e ele lista cinco situações em que o diagnóstico não deve ser aplicado. Doença cerebrovascular importante, definida por história de acidente vascular cerebral temporalmente relacionada ao início ou à piora do comprometimento, ou por infartos múltiplos ou extensos, ou por lesões acentuadas de substância branca à neuroimagem. Características centrais de demência com corpos de Lewy — alucinações visuais, parkinsonismo, distúrbio comportamental do sono REM e flutuação cognitiva. Características proeminentes da variante comportamental da demência frontotemporal, como hiperoralidade, hipersexualidade e perseveração. Afasia progressiva primária, na variante semântica ou na não-fluente. E, por último, outra doença ativa, neurológica ou não, ou uso de medicamento com efeito substancial sobre a cognição.

Aquela última linha é a que mais interessa ao internato, porque ela é a que mais frequentemente se aplica e a que menos se lembra. Ela transforma a lista de medicamentos da paciente em critério diagnóstico formal — não em curiosidade de anamnese.

O lado vascular: degraus, executivo e o relógio de seis meses

O consenso brasileiro de 2022 não fala mais em demência vascular como entidade isolada: fala em comprometimento cognitivo vascular, um espectro que vai da forma leve, sem demência, até a forma maior, que corresponde ao que se chamava de demência vascular. A mudança de nome não é cosmética — ela existe porque o dano vascular produz perda cognitiva muito antes do limiar funcional, e porque tratar fator de risco no estágio leve é a única intervenção com potencial de mudar a trajetória.

O perfil clínico difere do amnésico. Predominam a lentificação do processamento, o déficit de atenção e as falhas fronto-executivas: planejar, sequenciar, alternar entre tarefas, inibir a resposta automática. A memória pode estar relativamente poupada, e melhora com pista de forma que a memória do Alzheimer típico não melhora. Sinais neurológicos focais, alteração de marcha precoce, urgência urinária e labilidade emocional acompanham com frequência.

Uma forma tem relógio próprio. A demência pós-AVC é definida pela presença de déficit cognitivo novo, súbito ou subagudo, até seis meses após um acidente vascular cerebral isquêmico ou hemorrágico — e o consenso é explícito ao dizer que a relação temporal objetiva de até seis meses só é exigida para essa forma. Nas demais formas de comprometimento cognitivo vascular, a doença de pequenos vasos vai corroendo devagar, e não há evento para datar.

Aqui está o achado que muda a conversa com a família, e convém dizê-lo sem rodeio: não existe protocolo clínico federal brasileiro para demência vascular. Os quatro medicamentos do capítulo constam da Rename 2024 no Componente Especializado tendo como documento norteador o PCDT da Doença de Alzheimer — e, no caso específico da rivastigmina, também o PCDT da Doença de Parkinson, por incorporação de junho de 2024. Nenhum deles tem um protocolo que autorize dispensação para comprometimento cognitivo vascular puro. O que resta ao paciente com quadro vascular no SUS é o controle agressivo dos fatores de risco, a reabilitação e o cuidado — que não são pouco, mas não são o que a família foi à farmácia buscar.

Delirium sobreposto: a armadilha do idoso internado

Dentro do hospital, essas duas condições se atraem: ter demência é o que mais aumenta a chance de um idoso desenvolver quadro confusional agudo, e o quadro confusional agudo é o que mais se confunde com demência aos olhos de quem chega agora. A sobreposição das duas é a regra, não a exceção, e ela produz dois erros simétricos. O primeiro: chamar de demência um quadro confusional agudo, dar alta com o rótulo e nunca procurar a infecção urinária, o fármaco ou a desidratação que o causaram. O segundo: atribuir à demência conhecida uma piora aguda que era delirium, e deixar de investigar.

A separação se faz por três eixos e nenhum deles é o escore. Tempo de instalação: horas a dias no delirium, meses a anos na demência. Curso ao longo do dia: o delirium flutua, com janelas de lucidez e piora vespertina, enquanto a demência é estável de hora para hora. E o domínio afetado primeiro: o delirium ataca a atenção — a pessoa não sustenta o fio de uma frase, perde o assunto no meio, não consegue repetir uma série de dígitos — enquanto a demência típica ataca a memória com a atenção inicialmente preservada.

A regra operacional é simples de enunciar e difícil de cumprir sob pressão: nenhuma demência se diagnostica durante uma internação aguda, e nenhuma piora cognitiva aguda em pessoa com demência se atribui à demência antes de excluir causa nova. Os critérios diagnósticos que o Brasil usa colocam isso no texto — não são explicáveis por delirium é um dos três requisitos do diagnóstico sindrômico —, e o fluxograma federal manda solicitar exames para descartar delirium e outras causas reversíveis antes de aprofundar a investigação de declínio cognitivo.

O reconhecimento, a prevenção e o manejo do quadro confusional agudo no leito pertencem ao capítulo Delirium no paciente internado, na apostila Síndromes do Paciente Internado — inclusive a triagem à beira do leito, as medidas não farmacológicas de prevenção e o manejo da agitação. Deste lado da fronteira ficam duas obrigações, e apenas elas: excluir delirium antes de nomear demência, e não deixar que um diagnóstico prévio de demência anestesie a investigação de uma piora aguda.

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Como fechar o diagnóstico

A investigação de declínio cognitivo tem uma inversão de hierarquia que precisa ficar explícita antes de qualquer lista de exames: a história colhida com o acompanhante vale mais que qualquer escala. Os testes graduam, documentam e abrem porta administrativa; eles não fazem o diagnóstico. Quem faz é a descrição do que a pessoa deixou de conseguir fazer sozinha, com data aproximada e exemplo concreto.

O segundo princípio é que o objetivo da propedêutica complementar não é provar Alzheimer — é excluir o que não é. Não há, no SUS, exame que confirme a doença: o próprio PCDT registra que a dosagem de biomarcadores específicos não está disponível no sistema. O diagnóstico é clínico, e os exames servem para que ele não seja dado por engano a quem tem outra coisa, tratável.

O terceiro princípio é de ritmo, e é o que mais destoa do resto do internato. Esta investigação não se resolve numa consulta e não deve ser apressada: entre a primeira consulta e o nome da doença passam-se, com frequência, três a quatro meses, porque é o tempo de excluir causa reversível, tratar o que for tratável e reavaliar depois da retirada do que atrapalhava. O interno acostumado ao pronto-socorro sente isso como demora; do ponto de vista da paciente, é a diferença entre carregar um rótulo definitivo e receber um diagnóstico que resistiu a ser desmentido.

A história com o acompanhante — e por que ela vale mais

O PCDT define o método logo na abertura do capítulo de diagnóstico: o comprometimento cognitivo é detectado e diagnosticado mediante a combinação de anamnese com o paciente e com um informante que tenha conhecimento da história, somada a avaliação cognitiva objetiva. Informante não é acompanhante qualquer: é quem convive e consegue comparar o hoje com o de dois anos atrás.

As perguntas que produzem informação são as que pedem exemplo e data, não as que pedem julgamento. "A senhora acha que ela está pior?" não vale nada. Valem: quem separa os remédios dela; se ela já tomou dose dobrada ou pulou dia; quem paga as contas e desde quando; se ela já se perdeu num trajeto que conhecia; se parou de cozinhar algum prato que fazia bem, e por quê; se repetiu a mesma pergunta na mesma visita; se deixou o fogo aceso; se alguém da família passou a acompanhá-la ao banco.

O protocolo organiza os domínios a interrogar e vale conhecê-los pelo nome, porque eles orientam o que perguntar. Memória: repetição das mesmas perguntas ou assuntos, esquecimento de eventos, compromissos ou do lugar onde guardou os pertences. Funções executivas: compreensão pobre de situações de risco, redução da capacidade de cuidar das finanças, de tomar decisões e de planejar atividades complexas ou sequenciais. Habilidades visuoespaciais: incapacidade de reconhecer faces ou objetos comuns, de encontrar objetos no campo visual, dificuldade para manusear utensílios ou para vestir-se sem que haja déficit visual ou motor que explique. Linguagem: dificuldade para encontrar ou compreender palavras, trocas de palavras ou fonemas. E alterações neuropsiquiátricas: humor, agitação, apatia, desinteresse, isolamento social, perda de empatia, desinibição.

Duas perguntas fecham a anamnese e definem a etiologia mais provável melhor do que qualquer exame. A primeira: piorou aos poucos, sem que ninguém consiga dizer quando, ou piorou de uma vez, num momento que a senhora consegue datar? A segunda: além do esquecimento, mudou alguma coisa no jeito de andar, na fala, na força de um lado, ou no controle da urina? A ladeira sem marco e sem sinal focal desenha o quadro degenerativo; os degraus com marco e com sinal focal desenham o vascular.

Há ainda uma pergunta que o interno esquece e que muda a conduta mais rápido que todas as outras: quem mora com ela, quem cuida, e como está essa pessoa. Voltaremos a isso — mas ela pertence à investigação, não à cortesia.

O que o Ministério manda aplicar na atenção primária

O fluxograma federal de 2024 organiza a identificação em três etapas e nomeia os instrumentos de cada uma. A primeira etapa é a identificação da população-alvo, e o documento é direto ao dizer que não existe benefício comprovado para a aplicação de testes cognitivos em toda a população idosa — o que dispara a investigação é a presença de sinal suspeito, seja por demanda espontânea, seja pelas três perguntas sobre cognição da Caderneta da Pessoa Idosa: se algum familiar ou amigo disse que a pessoa está ficando esquecida; se os esquecimentos estão piorando nos últimos meses; e se os esquecimentos estão impedindo a realização de alguma atividade do cotidiano.

Repare no desenho dessas três perguntas, porque ele é a tese deste capítulo em formato de triagem. A primeira pergunta é sobre o relato de terceiro. A segunda é sobre trajetória no tempo. A terceira é sobre função. Nenhuma delas pergunta quanto a pessoa lembra.

A segunda etapa é o rastreio cognitivo inicial, com dois instrumentos que qualquer profissional de saúde pode aplicar. O 10-CS é dirigido ao próprio paciente e soma orientação temporal — ano, mês e dia do mês, apenas respostas exatas —, fluência verbal de animais em um minuto e evocação de três objetos, com um ajuste que acrescenta pontos a quem tem baixa escolaridade. Rastreio sugestivo é escore de 7 pontos ou menos. O QMC8 é dirigido ao acompanhante e pergunta se houve mudança, nos últimos anos, em oito itens — aprender a usar um aparelho novo, lembrar o mês ou o ano, usar o telefone, usar transporte sozinho, tomar remédio sem supervisão, manter-se atualizado sobre fatos da comunidade, expressar opinião própria sobre assuntos de família e sair para caminhar sozinho e voltar sem se perder. Cada item vale 0 ou 1, e 4 pontos ou mais é rastreio sugestivo.

Vale ler a lista do QMC8 com atenção: sete dos oito itens são funcionais, e o único cognitivo puro é lembrar o mês ou o ano. O instrumento que o Ministério escolheu para o acompanhante mede, na prática, autonomia — o que confirma, no papel de uma folha de rastreio, que a régua é funcional.

A terceira etapa é a avaliação médica: aprofundar o diagnóstico diferencial, excluir causas reversíveis e aplicar a Bateria Breve de Rastreio Cognitivo, com o teste de memória de dez figuras, a fluência verbal de animais e o teste do desenho do relógio pelos critérios de Shulman. Os pontos de corte sugeridos que o documento imprime são: memória incidental 4 ou menos, memória imediata 6 ou menos, aprendizado 6 ou menos, memória tardia 5 ou menos, reconhecimento 7 ou menos; e, para a fluência verbal, 8 ou menos em analfabetos, 11 ou menos para quem tem de 1 a 7 anos de estudo e 12 ou menos para quem tem 8 anos ou mais.

O documento traz ainda uma alternativa de campo que vale para a enfermaria e para o domicílio: se a pessoa não for capaz ou não quiser desenhar o relógio, pergunta-se o nome do presidente e do presidente anterior, do governador e do governador anterior, do prefeito e do prefeito anterior. É um teste de orientação e de memória semântica remota que não exige lápis, papel nem mão firme.

As causas reversíveis que você é obrigado a excluir

Esta é a lista que separa o interno que investigou do interno que rotulou. O PCDT nomeia hipotireoidismo, hipovitaminoses e neurossífilis como condições clínicas que causam alteração cognitiva, e acrescenta que a depressão é comorbidade comum e tratável e deve ser rastreada. Diz mais: a deficiência de vitamina B12 é comum em idosos e a dosagem sérica deve ser incluída na rotina; e o hipotireoidismo, pela frequência, deve ser pesquisado nos pacientes idosos.

A bateria laboratorial que o protocolo autoriza para diagnóstico diferencial, a critério do médico, é: hemograma completo, sódio, potássio e cálcio, glicemia, ureia e creatinina, TSH, ALT/TGP e AST/TGO, vitamina B12, ácido fólico, VDRL e sorologia anti-HIV. O consenso da Academia Brasileira de Neurologia acrescenta a essa lista o perfil lipídico e o T4 livre, e reserva a sorologia anti-HIV especialmente para casos atípicos ou de suspeita clínica.

O fluxograma da atenção primária pede praticamente o mesmo conjunto com uma adição que merece nota: albumina. E ele acrescenta ao diferencial três coisas que exame nenhum encontra e que só a conversa revela — o uso de medicamentos, com dois exemplos citados nominalmente, benzodiazepínicos e anticolinérgicos; os transtornos de humor; e os déficits sensoriais.

O déficit sensorial é o mais subestimado de todos. Uma pessoa que não escuta a pergunta erra o teste; uma pessoa que não enxerga a folha não desenha o relógio. Antes de concluir que a cognição está ruim, cheque se o aparelho auditivo está com pilha e se os óculos são os certos — e, se não estiverem, remarque o teste em vez de registrar um escore que mede outra coisa.

Sobre os fármacos, vale sistematizar em vez de confiar na memória. Peça a sacola com tudo o que ela toma, incluindo o que ninguém prescreveu, e procure as classes que derrubam cognição no idoso: benzodiazepínicos e hipnóticos, anticolinérgicos de qualquer espécie — antidepressivos tricíclicos, anti-histamínicos de primeira geração, antiespasmódicos, antimuscarínicos para bexiga —, opioides, anticonvulsivantes sedativos, corticoide em uso prolongado e antipsicóticos. A revisão sistemática da lista de medicamentos e o método de conciliar o que ela toma com o que está prescrito são o assunto do capítulo A sacola e a receita, na apostila Prescrição e Cuidado do Paciente Internado; o manejo da polifarmácia como problema geriátrico próprio ainda não tem capítulo nesta apostila, e quando tiver, é dele. O que este capítulo assume é apenas a parte diagnóstica: fármaco com efeito substancial sobre a cognição é critério formal de exclusão do diagnóstico de doença de Alzheimer provável, e não uma observação lateral.

Duas fronteiras se declaram aqui. O hipotireoidismo como doença — quando dosar, como interpretar TSH no idoso, quando e como repor — é do capítulo Quem pediu este TSH, na apostila Endocrinologia; deste capítulo é só a obrigação de pedir. E a depressão maior, com seu diagnóstico, seu tratamento e o problema da pseudodemência depressiva, é da apostila Psiquiatria; a fronteira é compartilhada, e o que fica deste lado é a obrigação de rastrear humor antes de fechar demência, além do fato clínico incômodo de que a depressão de início tardio pode ser, ela mesma, um pródromo de doença neurodegenerativa — de modo que tratar o humor e reavaliar a cognição depois é conduta, não protelação.

Neuroimagem: o que ela exclui e o que ela não prova

O quadro de critérios que o Brasil adota exige, na letra D, que tomografia ou, preferencialmente, ressonância magnética de crânio seja realizada para excluir outras possibilidades diagnósticas ou comorbidades, principalmente a doença vascular cerebral. O verbo é deve. O consenso da Academia Brasileira de Neurologia repete o mesmo e chama a neuroimagem estrutural de passo fundamental.

O que se procura tem nome e é curto: infarto cerebral, neoplasia, coleções subdurais, hidrocefalia. São as lesões estruturais que produzem quadro demencial e que têm conduta própria — algumas cirúrgicas. O hematoma subdural crônico do idoso que caiu há dois meses e ninguém relacionou é o exemplo clássico, e é a razão pela qual a queda recente precisa ser perguntada.

A segunda função é apoiar a diferenciação etiológica: atrofia de predomínio mesial temporal aponta para o desenho degenerativo típico, e o consenso lembra que a escala de atrofia mesial temporal pode ser aplicada até em tomografia, sobretudo com reconstrução coronal. Já infartos múltiplos ou extensos e lesões acentuadas de substância branca são, pela letra E dos critérios, motivo para não aplicar o diagnóstico de doença de Alzheimer provável.

A ressonância é o método de escolha por resolução anatômica e pelas técnicas de aquisição úteis ao diferencial. Mas a tomografia é útil, mais disponível e mais barata, e o consenso diz textualmente que pode ser recurso mesmo no nível da atenção primária, com valor semelhante ao da ressonância para descartar lesão estrutural. Traduzindo para a realidade de quem atende num município sem ressonância: tomografia feita vale mais que ressonância pedida e não realizada.

E o que a imagem não faz: ela não confirma doença de Alzheimer. Atrofia hipocampal em pessoa idosa é achado frequente e inespecífico; laudo com "redução volumétrica compatível com a faixa etária" não fecha e não exclui nada. Do mesmo modo, o consenso vascular adverte que a presença de lesões à neuroimagem deve ser interpretada dentro do contexto clínico, porque não há consenso sobre quantidade e localização necessárias — hiperintensidade de substância branca em hipertenso de 78 anos não é, por si só, diagnóstico de comprometimento cognitivo vascular.

Punção lombar, biomarcadores e o que não se pede

O PCDT restringe a punção lombar a uma lista fechada de situações, e conhecê-la evita tanto o excesso quanto a omissão. São elas: suspeita de câncer metastático; suspeita de infecção do sistema nervoso central; paciente com sorologia sérica reativa para sífilis; hidrocefalia; idade menor de 65 anos; demências de início e evolução atípicos; imunossupressão; e suspeita de vasculite do sistema nervoso central.

Duas dessas merecem destaque no internato. A sorologia sérica reativa para sífilis obriga o líquor — não se trata neurossífilis presumida em quadro demencial sem examinar o líquido. E a idade abaixo de 65 anos entra na lista por si só: demência em pessoa jovem é, até prova em contrário, outra coisa, e merece investigação mais ampla do que a do idoso típico.

Sobre os biomarcadores, o protocolo é lacônico e definitivo: a dosagem de biomarcadores específicos que identificam as alterações biológicas características da doença não está disponível no SUS. Isso muda o que você promete à família. O diagnóstico que ela vai levar para casa é clínico e probabilístico — a palavra provável está no nome do critério — e nenhum exame vai transformá-lo em certeza dentro da rede pública.

Fica também o que não se pede. Não se pede rastreio cognitivo populacional de rotina, porque o próprio Ministério afirma que não há benefício comprovado em aplicar testes cognitivos a toda a população idosa. Não se pede eletroencefalograma de rotina. Não se pedem exames genéticos na investigação do idoso típico. E não se pede tomografia repetida a cada piora previsível de uma doença já diagnosticada — imagem nova se pede quando a trajetória muda de forma inesperada, não quando ela segue o esperado.

Por fim, a avaliação neuropsicológica formal tem lugar definido e não é o de rotina: ela entra quando a anamnese e o exame cognitivo breve feitos pelo médico não bastam para um diagnóstico confiável, ou não contribuem para o diferencial com outros transtornos neurocognitivos. Quando entra, o consenso brasileiro recomenda dois subtestes para cada um dos quatro domínios mais afetados — memória episódica, linguagem, funções executivas e visuoespaciais — e escore deficitário definido como mais de um desvio-padrão abaixo dos valores normativos, e não mais de 1,5 ou 2, por questão de sensibilidade na fase inicial.

Estadiar: as seis caixas da CDR e as escalas que medem função

Estadiar não é a mesma coisa que diagnosticar, e o interno costuma descobrir isso quando o processo do Componente Especializado volta com pendência. O diagnóstico se faz pela história e pela régua funcional; o estadiamento se faz por instrumento, e no Brasil o instrumento que abre a porta do medicamento é a escala CDR, aplicada junto com o Mini-Exame do Estado Mental.

A CDR avalia seis domínios, e o nome caixa vem de como a escala é impressa: memória, orientação, julgamento e solução de problemas, assuntos da comunidade, lar e passatempos, e cuidados pessoais. Cada domínio recebe 0, 0,5, 1, 2 ou 3 — a caixa de cuidados pessoais é a única que não tem o meio ponto —, e o escore global se obtém por um algoritmo em que a caixa de memória tem peso maior que as demais. Traduzindo os estágios: 0 é ausência de comprometimento, 0,5 é o questionável, que corresponde ao território do comprometimento cognitivo leve, 1 é demência leve, 2 é moderada e 3 é grave. Repare que quatro das seis caixas — julgamento, assuntos da comunidade, lar e passatempos, cuidados pessoais — perguntam o que a pessoa consegue fazer, e não o que ela lembra: a escala que o protocolo brasileiro escolheu para decidir o acesso é, ela própria, majoritariamente funcional.

Há uma segunda forma de ler a mesma escala, e ela importa para a reavaliação. Em vez do escore global, somam-se as seis caixas, o que produz a CDR-Soma das Caixas, com valores de 0 a 18 em passos de meio ponto. O consenso da Academia Brasileira de Neurologia registra que os estudos mais recentes vêm abandonando o escore global em favor dessa soma, por ter mais valores graduais e detectar mudanças pequenas dentro de um mesmo estágio — o que permite, inclusive, diferenciar comprometimento cognitivo leve de demência inicial. As faixas de correspondência que ele cita são 0,5 a 4,0 para o estágio 0,5; 4,5 a 9,0 para o 1; 9,5 a 15,5 para o 2; e 16,0 a 18,0 para o 3.

A consequência prática é a que aparece na primeira das divergências deste capítulo. O escore global é o que o processo exige e o que a farmácia confere; a soma das caixas é o que vai mostrar movimento entre duas reavaliações semestrais, quando o global ainda não mudou de número. Anotar os dois custa uma linha de prontuário e responde às duas perguntas diferentes que serão feitas — a da farmácia e a da filha.

Ao lado da CDR ficam as escalas de função propriamente ditas, e é aqui que o Caderno de Atenção Básica nº 19, de 2006, segue sendo a referência federal por ausência de substituto. Ele traz a Escala de Katz para as atividades básicas de vida diária — banho, vestir-se, higiene, transferência, continência e alimentação — e a Escala de Lawton para as instrumentais, que ele lista como usar transporte, realizar compras, fazer tarefas domésticas leves e pesadas, utilizar o telefone, preparar refeições e cuidar das próprias finanças. Sete itens que descrevem, um a um, exatamente o que a filha do início deste capítulo passou a fazer pela mãe.

O mesmo caderno propõe um roteiro de avaliação rápida que vale para a enfermaria: pedir que a pessoa memorize três objetos e os repita depois de três minutos, e, se ela não conseguir, aplicar o Mini-Exame do Estado Mental — complementado, em caso de dúvida, pelo teste do desenho do relógio e pela fluência verbal por categorias semânticas. Registra ainda que a combinação do Mini-Exame com o Questionário de Pfeffer indica maior especificidade para declínio cognitivo mais grave. E deixa uma frase que resume o método deste capítulo inteiro em uma linha de manual de 2006: na presença de declínio cognitivo, as informações dadas pela pessoa idosa deverão ser confirmadas com o acompanhante.

07

Avaliar cognição, função, segurança e apoio

Aprenda a distinguir queixa cognitiva, síndrome demencial e delirium, investigando contribuintes e respeitando a participação da pessoa. O plano inclui segurança, suporte ao cuidador e acompanhamento funcional desde o início, além de eventual medicação. Este bloco tem duas metades porque a prática tem duas metades. A primeira é clínica: o que separa envelhecimento, comprometimento cognitivo leve e demência, e o que separa o desenho degenerativo do vascular. A segunda é administrativa e o interno costuma descobri-la tarde demais: no Brasil, o que abre a porta do medicamento não é o diagnóstico — é uma combinação exata de escore no Mini-Exame do Estado Mental com estágio na escala CDR, fixada pelo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença de Alzheimer, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 27, de 27 de novembro de 2025. As notas ao final trazem a conferência das contas do protocolo, com o que fechou e o que não fechou.

  1. 11 · Ouça o informante primeiro. A pergunta que decide é funcional: alguém passou a fazer por ela algo que ela fazia sozinha, e desde quando?
  2. 22 · Datar a trajetória. Ladeira sem marco, ao longo de meses a anos, ou degraus que a família consegue datar? Houve acidente vascular cerebral nos últimos seis meses?
  3. 33 · Excluir delirium antes de qualquer rótulo. Instalação em horas a dias, flutuação no mesmo dia e atenção comprometida são delirium até prova em contrário — e não se diagnostica demência dentro de uma internação aguda.
  4. 44 · Rastrear com o que o Ministério indica na atenção primária: 10-CS com a paciente (7 pontos ou menos é sugestivo) e QMC8 com o acompanhante (4 pontos ou mais é sugestivo). Idealmente os dois; um alterado já indica avaliação médica.
  5. 55 · Excluir causa reversível: hemograma, sódio, potássio, cálcio, glicemia, ureia e creatinina, TSH, transaminases, vitamina B12, ácido fólico, VDRL, sorologia anti-HIV — e a sacola de medicamentos, os óculos e o aparelho auditivo.
  6. 66 · Fazer neuroimagem estrutural. Tomografia serve; ressonância é preferível. O objetivo é excluir lesão estrutural e avaliar a carga vascular.
  7. 77 · Fechar o diagnóstico sindrômico pela régua funcional, e só então nomear a etiologia mais provável — especificando a contribuição vascular quando houver, em vez de escrever demência mista.
  8. 88 · Se o quadro for doença de Alzheimer provável, medir MEEM e CDR para saber qual linha do protocolo se aplica — e conferir na tabela abaixo antes de prometer medicamento a alguém.

A régua é funcional, não cognitiva

O que separa comprometimento cognitivo leve de demência não é o escore: é a perda de autonomia. Preservou as atividades instrumentais, mesmo com esforço maior e mais tempo, é comprometimento leve. Precisa que outra pessoa faça por ela o que ela fazia — remédio, dinheiro, transporte, telefone, compras, comida — é demência, ainda que o teste tenha vindo aceitável. E o inverso também vale: escore ruim com autonomia intacta pede que você procure escolaridade baixa, surdez, catarata, depressão ou fármaco antes de chamar de doença. Nas três perguntas da Caderneta da Pessoa Idosa, a que decide é a terceira: os esquecimentos estão impedindo alguma atividade do cotidiano?

Antes de dizer Alzheimer, exclua isto

Delirium, sempre e primeiro — instalação em horas a dias, flutuação no dia, atenção comprometida. Depressão, que é comorbidade comum e tratável e deve ser rastreada. Hipotireoidismo, que pela frequência deve ser pesquisado no idoso. Deficiência de vitamina B12, comum o bastante para entrar na rotina. Neurossífilis, com VDRL sérico e punção lombar obrigatória se ele vier reativo. Fármaco com efeito substancial sobre a cognição, que é critério formal de exclusão do diagnóstico. Lesão estrutural à neuroimagem: infarto, neoplasia, coleção subdural, hidrocefalia. E, antes de tudo isso, o mais barato: os óculos e o aparelho auditivo.

O que o PCDT de 2025 libera, por escore no MEEM e estágio na CDR

Estágio pela CDRMEEM — mais de 4 anos de escolaridadeMEEM — até 4 anos de escolaridadeO que o protocolo autoriza
CDR 1 — demência leve12 a 248 a 21Donepezila, galantamina ou rivastigmina, em monoterapia
CDR 2 — demência moderada12 a 248 a 21Donepezila, galantamina ou rivastigmina, em monoterapia
CDR 2 — demência moderada12 a 198 a 15Memantina combinada a donepezila, galantamina ou rivastigmina
CDR 3 — demência grave5 a 113 a 7Donepezila em monoterapia, memantina em monoterapia, ou as duas combinadas
CDR 3 — demência graveabaixo de 5abaixo de 3Nada: nenhuma linha do protocolo alcança este piso
CDR 3 — demência grave12 a 248 a 21Nada: as faixas de MEEM desta linha exigem CDR 1 ou 2, e a CDR aqui é 3

Miligrama, comprimido e o que a família vai receber na farmácia — todos no Componente Especializado

Fármaco e apresentação na Rename 2024Como se começaComo se sobeUnidades por dia na manutenção
Donepezila — comprimido de 5 mg e de 10 mg5 mg por dia, com ou sem alimento10 mg por dia após 4 a 6 semanas1 comprimido de 10 mg
Galantamina — cápsula de liberação prolongada de 8, 16 e 24 mg8 mg por dia pela manhã, de preferência com alimento, por 4 semanas16 mg por dia por pelo menos 4 semanas; teto de 24 mg por dia1 cápsula, uma vez ao dia
Rivastigmina — cápsula de 1,5, 3, 4,5 e 6 mg3 mg por dia, divididos em duas tomadas junto às refeições6 mg por dia após 2 semanas; depois 9 e 12 mg, a cada 2 semanas, conforme tolerância2 cápsulas de 6 mg, no teto oral de 12 mg por dia
Rivastigmina — adesivo de 9 mg em 5 cm² e de 18 mg em 10 cm²Adesivo de 5 cm² por no mínimo 4 semanasAdesivo de 10 cm², que é o que traz a dose considerada efetiva1 adesivo a cada 24 horas, com rodízio de local
Memantina — comprimido de 10 mg, única apresentação incorporada5 mg por dia, que corresponde a meio comprimidoAumento de 5 mg por semana até 20 mg por dia na quarta semana2 comprimidos de 10 mg, um de manhã e um à noite

Onde mora a régua brasileira, e desde quando. O diagnóstico sindrômico segue os critérios do National Institute on Aging and Alzheimer's Association, de 2011 — critérios estrangeiros. Quem os adota no Brasil é o próprio PCDT, cuja Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 27 é de 27 de novembro de 2025 e cujo Quadro 4 os reproduz declarando-os endossados pela Academia Brasileira de Neurologia. O acesso ao medicamento é governado por esse mesmo protocolo somado à Rename 2024. O rastreio na atenção primária é governado pelo fluxograma Identificação da Demência na Atenção Primária, do Ministério da Saúde, de 2024. E a avaliação funcional continua ancorada no Caderno de Atenção Básica nº 19, de 2006, que segue em uso por ausência de substituto — o que precisa ser dito com essas palavras, porque é um teste de vigência mais fraco do que o de um documento novo que substitua o antigo.

Onde a régua brasileira não existe. Não há protocolo clínico federal para demência vascular, nem para demência com corpos de Lewy, nem para degeneração frontotemporal. Procurando cada nome, um a um, no texto da Rename 2024 normalizado quanto a espaço e hífen, o que se encontra é que donepezila, galantamina, rivastigmina e memantina constam do Componente Especializado, grupo 1A, tendo como documento norteador o PCDT da Doença de Alzheimer — e que a única outra indicação norteadora que aparece é a da rivastigmina para doença de Parkinson, incorporada pela Portaria Sectics/MS nº 27, de 19 de junho de 2024, a partir do Relatório de Recomendação nº 902 da Conitec. Cuidado com a coincidência: essa portaria de 2024 tem o mesmo número 27 da portaria conjunta que aprovou o PCDT em 2025, e são normas distintas, de anos e órgãos diferentes.

O buraco de uma palavra. Todos os critérios de inclusão do protocolo dividem a escolaridade em mais de 4 anos e até 4 anos — ou, na formulação equivalente que ele usa nas linhas seguintes, escolaridade menor ou igual a 4 anos. O critério de interrupção da galantamina e da rivastigmina, porém, muda a redação uma única vez em todo o documento e manda suspender quando o MEEM cai abaixo de 12 para quem tem mais de 4 anos de escolaridade, ou abaixo de 8 para quem tem menos de 4 anos de escolaridade. Refeita a conta em Python sobre as duas regras: quem tem exatamente 4 anos de estudo entra pela faixa de 8 a 21, mas não é alcançado por nenhuma das duas cláusulas de interrupção — nem por mais de 4, nem por menos de 4. É uma pessoa que o protocolo sabe incluir e não sabe parar. Vale registrar que a regra de interrupção da memantina, no mesmo item 6.2.4, escreve 4 anos de escolaridade ou menos e fecha o intervalo corretamente: o erro está só na cláusula dos anticolinesterásicos.

O piso e a discordância. Varrendo em Python as seis linhas de inclusão contra todos os pares possíveis de MEEM e CDR, aparecem duas faixas em que o paciente não se encaixa em nenhuma. A primeira é o piso: com mais de 4 anos de escolaridade, CDR 3 e MEEM de 0 a 4 — ou, com até 4 anos, CDR 3 e MEEM de 0 a 2 — a pessoa está no estágio mais grave que a escala descreve e o protocolo não prevê tratamento algum. A segunda é a discordância: CDR 3 com MEEM ainda na faixa de 12 a 24, para quem tem mais de 4 anos de estudo, também não encontra linha, porque toda faixa alta de MEEM exige CDR 1 ou 2. O protocolo assume que os dois instrumentos caminham juntos; quando eles divergem, o paciente cai fora. Os tetos, ao contrário, são esperados e não são achado: MEEM alto demais simplesmente descreve quem não tem demência.

A titulação contra a apresentação que existe. O esquema da memantina começa em 5 mg por dia e o próprio protocolo escreve, entre parênteses, meio comprimido. A Rename 2024 lista uma única apresentação: comprimido de 10 mg. Refeita a conta, duas das quatro semanas de titulação — a primeira, de 5 mg, e a terceira, de 15 mg — exigem partir o comprimido ao meio, numa doença cujo critério diagnóstico é a pessoa não conseguir mais administrar a própria medicação. Some-se a isso que o protocolo declara textualmente não preconizar solução oral nem comprimido orodispersível para pacientes com doença moderada ou grave com disfagia, por não terem sido incorporados ao SUS devido a impacto orçamentário elevado. É o único trecho do documento em que o motivo declarado para uma limitação clínica é o preço.

Conferências que fecharam. Primeira: as quatro cápsulas de rivastigmina da Rename — 1,5, 3, 4,5 e 6 mg — cobrem exatamente as quatro doses diárias do esquema em duas tomadas, de 3, 6, 9 e 12 mg por dia, sem sobra e sem falta, e o teto oral de 12 mg por dia sai em duas cápsulas de 6 mg. Segunda: os dois adesivos têm carga por área idêntica, 9 mg em 5 cm² e 18 mg em 10 cm², os dois a 1,80 mg/cm²; a liberação declarada, porém, não é proporcional — 9,5 mg em 24 horas contra 4,6 mg, o que dá 2,065 vezes e não o dobro exato, e corresponde a 52,8% e 51,1% da carga. Terceira: as faixas de soma das caixas da CDR citadas pelo consenso da Academia Brasileira de Neurologia são contíguas em passos de meio ponto — 0,5 a 4,0; 4,5 a 9,0; 9,5 a 15,5; 16,0 a 18,0 — e o teto de 18 confere com seis caixas de até 3 pontos.

O 10-CS soma mais do que o nome promete. Na folha impressa pelo Ministério, a orientação temporal vale até 3 pontos, a fluência verbal até 4 e a evocação até 3, somando 10, que é o nome do instrumento. O ajuste por escolaridade acrescenta 2 pontos a quem não tem escolaridade formal e 1 ponto a quem tem de 1 a 3 anos, e a folha não imprime teto: aritmeticamente, o escore final pode chegar a 12 num teste chamado de 10 pontos. O efeito prático do ajuste, com o corte em 7 ou menos, é que quem não estudou precisa de 6 pontos brutos para não ser encaminhado, quem tem de 1 a 3 anos precisa de 7 e quem tem 4 anos ou mais precisa de 8 — que é o desenho pretendido, e é preciso conhecê-lo para não achar que dois idosos com o mesmo desempenho bruto foram triados de forma inconsistente.

Uma falha de edição no PDF vigente. A expressão que o editor de texto imprime quando uma referência cruzada se perde — Erro! Fonte de referência não encontrada. — aparece nove vezes no arquivo publicado do protocolo em vigor, inclusive na seção 9, Fluxo de tratamento, exatamente onde o texto deveria apontar para o fluxograma que define o tratamento por gravidade. Não muda dose nem critério, e não invalida nada; registra-se porque quem for ler o documento original vai topar com isso e precisa saber que não é falha do seu arquivo.

Três documentos federais, três cortes de escolaridade diferentes no mesmo caminho de cuidado. O 10-CS do fluxograma de 2024 ajusta a pontuação em três faixas — sem escolaridade formal, de 1 a 3 anos, e 4 anos ou mais. A Bateria Breve de Rastreio Cognitivo, no mesmo documento, usa outro corte para a fluência verbal: analfabetos, de 1 a 7 anos, e 8 anos ou mais. E o PCDT de 2025, que decide quem recebe medicamento, divide em apenas duas faixas, com a fronteira em 4 anos. Uma paciente com 6 anos de estudo é do grupo intermediário no rastreio da unidade básica e do grupo de escolaridade alta no protocolo que libera o remédio. Nenhum dos documentos está errado — cada instrumento foi normatizado com a sua própria amostra —, mas quem preenche o processo precisa saber que a escolaridade que vale ali é a régua do protocolo, e não a da folha de rastreio que ele acabou de aplicar.

Um falso positivo que quase virou achado, e que vale como método. Na seção do adesivo transdérmico, o texto extraído do PDF traz a frase os que estão recebendo uma dose de 6 a 14 12 mg/dia de rivastigmina por via oral. Parece um erro de faixa. Não é: o documento imprime o número da página no corpo do texto, e a extração encaixou o marcador da página 14 dentro da frase. A faixa real é de 6 a 12 mg por dia, coerente com o teto oral de 12 mg declarado no mesmo quadro. Antes de acusar um documento oficial de erro de dose, confira se o número intruso não é a paginação — este capítulo teria relatado um erro que não existe.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é a de dona Rosalvina Almendra, 78 anos, 62 kg, hipertensa em uso de losartana e hidroclorotiazida, quatro anos de escolaridade, trazida pela filha Waldirene à unidade básica por esquecimento. Cada marco traz o que se pergunta, o que se pede e o que se decide — e as decisões que não são de exame nem de receita vêm junto, porque são elas que mudam a vida da paciente mais depressa do que qualquer comprimido.

Uma advertência atravessa todos os marcos: o tratamento medicamentoso é a menor parte do que você tem para oferecer, e é a parte que mais demora a chegar. O que muda o desfecho da família nas primeiras semanas é a exclusão de causa reversível, o ajuste de expectativa, a organização da medicação em casa e as decisões sobre direção, dinheiro e segurança. Quem conduz a consulta como se ela fosse sobre qual anticolinesterásico prescrever entrega à família o que ela menos precisa e nada do que ela mais precisa.

O protocolo diz explicitamente que o tratamento deve ser multidisciplinar e multiprofissional, e que o paciente deve ser acompanhado nos três níveis da rede — atenção primária e serviços especializados de neurologia, geriatria e psiquiatria, com profissionais treinados na avaliação de quadros demenciais. Ele reconhece que o manejo pode ser apoiado por especialista focal e por telessaúde, e afirma que a demência deve ser reconhecida e diagnosticada oportunamente sobretudo no contexto da atenção primária. Traduzindo para quem está na unidade básica: encaminhar não é transferir. O acompanhamento continua sendo seu, e o encaminhamento serve para confirmar o estadiamento e abrir o processo — não para tirar a paciente da sua lista.

  1. Consulta 1, dia 0 — a queixa é da filha

    Ouça a filha com a paciente presente, e depois ouça a paciente sozinha. Peça exemplos com data: Waldirene conta que há uns dois anos a mãe começou a repetir perguntas, que há um ano passou a se confundir com o dinheiro da feira e que, desde março, é ela quem separa os remédios na caixinha — porque a mãe tomou a pressão duas vezes no mesmo dia. Isso é trajetória de anos, sem marco datável, com perda de atividade instrumental. Aplique o QMC8 com a filha e o 10-CS com a paciente. Cheque óculos e audição antes de qualquer teste. Pergunte por queda nos últimos meses, por acidente vascular cerebral e por sintoma focal novo. E peça a sacola com tudo o que ela toma, inclusive o que ninguém prescreveu.

    Prescrição
    • Rastreio: 10-CS com a paciente e QMC8 com a acompanhante, na própria consulta
    • Laboratório: hemograma, sódio, potássio, cálcio, glicemia, ureia, creatinina, TSH, ALT/TGP, AST/TGO, vitamina B12, ácido fólico, VDRL, anti-HIV
    • Imagem: tomografia de crânio sem contraste (ressonância se disponível)
    • Revisar indicação e contribuição cognitiva de cada fármaco; reduzir ou retirar os desnecessários com plano individual, incluindo desmame de benzodiazepínico/hipnótico quando indicado. Não suspender classes inteiras sem avaliar uso, dependência e risco
    • Retorno em até 30 dias, com resultados avaliados à medida que chegarem; antecipar contato se houver achado tratável relevante ou piora clínica. Quadro agudo/flutuante exige investigação imediata de delirium
  2. Consulta 1, ainda — o que se decide antes de qualquer diagnóstico

    Três decisões não esperam o resultado do exame, porque o risco é hoje. A primeira é a medicação: se a paciente já errou dose, a administração passa a ser supervisionada a partir desta consulta, com caixa organizada semanalmente por alguém nomeado. A segunda é o fogão e a chave: pergunte se já deixou o fogo aceso, se já saiu e não soube voltar, e ajuste o ambiente conforme a resposta. A terceira é a direção veicular: se ela dirige, esta é a consulta em que o assunto entra, mesmo que a conclusão seja apenas reavaliar em três meses. Registre no prontuário o que foi perguntado e o que foi decidido — inclusive quando a decisão foi manter.

    Prescrição
    • Medicação sob supervisão: caixa semanal organizada por pessoa nomeada no prontuário
    • Orientar a família sobre fogão, chaves e saídas sozinha, conforme o que foi relatado
    • Registrar se dirige e o que ficou decidido a respeito
    • Anotar quem é o cuidador principal e como está a saúde dele
  3. Consulta 2, dia 30 — a leitura dos exames muda a conduta

    Volta com QMC8 de 6 pontos e 10-CS de 5 pontos, ambos sugestivos. Os exames mostram vitamina B12 de 148 pg/mL, TSH normal, hemograma sem anemia, VDRL não reagente, função renal e eletrólitos normais. A tomografia mostra atrofia difusa proporcional à idade, sem lesão estrutural e sem lesões vasculares acentuadas. Repare no que acontece aqui: existe uma causa potencialmente contribuinte e tratável em cima da mesa. Isso não exclui doença neurodegenerativa — as duas coisas coexistem com frequência —, mas obriga a tratar e reavaliar antes de fechar etiologia. Reponha a B12, mantenha a suspensão dos fármacos com efeito cognitivo, rastreie depressão e marque reavaliação.

    Prescrição
    • Cianocobalamina 500 mcg/mL solução injetável, disponível no Componente Básico da Rename 2024 — repor conforme o esquema adotado no serviço
    • Manter suspensos os fármacos com efeito anticolinérgico ou sedativo
    • Rastrear sintomas depressivos e avaliar sono
    • Reavaliar cognição e função em 8 a 12 semanas, com o mesmo instrumento e a mesma informante
    • Registrar síndrome cognitiva e hipótese etiológica provisória, tratar a deficiência de B12 e investigar em paralelo; não exigir espera fixa de três meses para toda decisão diagnóstica ou medida de proteção
  4. Consulta 3, dia 120 — reavaliação e o fechamento do diagnóstico

    B12 normalizada, fármacos suspensos há três meses, humor sem critérios para depressão maior. A filha relata que não houve melhora e que a mãe agora se confunde também com o telefone. O quadro tem trajetória de anos, início insidioso, déficit amnésico predominante confirmado pela informante, ausência de sinal focal, ausência de doença cerebrovascular importante à imagem, sem alucinação visual, sem parkinsonismo, sem desinibição e sem afasia progressiva. É este o momento de nomear: doença de Alzheimer provável, em estágio de demência leve a moderada. Aplique agora o MEEM e estadeie pela CDR — não porque o diagnóstico dependa disso, mas porque a porta do medicamento depende.

    Prescrição
    • Aplicar o MEEM e estadiar pela escala CDR, registrando escolaridade em anos completos
    • Registrar o diagnóstico como doença de Alzheimer provável, com o estágio
    • Avaliação funcional documentada: Lawton para atividades instrumentais e Katz para as básicas
    • Encaminhar para serviço com competência em quadros demenciais, mantendo o acompanhamento na unidade
  5. Consulta 3, ainda — a revelação do diagnóstico

    O protocolo dedica uma seção inteira a isto e diz que a pergunta não é se revelar, mas como e quando — e que a revelação não é um evento único, e sim um processo com preparo antes, individualização no momento e suporte prático e emocional depois. Prepare e envolva a família além da paciente, explore o que cada uma entende e teme, revele de forma individualizada respeitando os desejos da paciente, responda às reações, foque em qualidade de vida e planeje o futuro. Não descarregue prognóstico numérico na primeira conversa. E não use o diagnóstico como despedida: a frase que a família precisa ouvir é o que passa a ser feito a partir de agora. A técnica de conduzir a conversa difícil, passo a passo, é do capítulo Comunicação de más notícias; o conteúdo específico desta é o das falas mais adiante.

    Prescrição
    • Revelar em consulta agendada para isso, com a paciente e a filha juntas
    • Ajustar a expectativa sobre o que o medicamento faz e o que não faz, antes de prescrevê-lo
    • Entregar por escrito o plano das próximas 12 semanas
    • Oferecer retorno curto — duas a três semanas — só para dúvidas que surgirem depois
  6. Consulta 4 — o pedido do medicamento pelo Componente Especializado

    MEEM de 17 pontos, com quatro anos de escolaridade completos, e CDR 1. Confira a tabela deste capítulo: com até 4 anos de escolaridade, a faixa de 8 a 21 com CDR 1 autoriza donepezila, galantamina ou rivastigmina em monoterapia. Ela não preenche critério para memantina, que exige CDR 2 com faixa mais baixa, ou CDR 3. Verifique os critérios de exclusão antes de prescrever: incapacidade de adesão ao tratamento, lesão cerebral orgânica ou metabólica simultânea não compensada, insuficiência ou arritmia cardíaca graves, alteração de condução como bradicardia sintomática, bloqueio atrioventricular de segundo ou terceiro grau e doença do nó sinusal, asma ou doença pulmonar obstrutiva grave ou descompensada. Para a galantamina, acrescente a contraindicação em insuficiência hepática ou renal graves. Um eletrocardiograma antes de iniciar anticolinesterásico em idoso é prudência barata. MEEM e CDR apoiam estadiamento e acesso, mas não medem sozinhos benefício nem capacidade para decidir. Preencher o critério administrativo abre uma possibilidade: ainda é necessário discutir objetivo, adesão com apoio, comorbidades, eventos adversos e preferências. Um diagnóstico de demência não retira automaticamente autonomia ou capacidade para todas as decisões.

    Prescrição
    • Donepezila 5 mg por via oral, uma vez ao dia, por 4 a 6 semanas
    • Após 4 a 6 semanas, subir para 10 mg por dia se bem tolerada
    • Solicitar o medicamento pelo Componente Especializado da Assistência Farmacêutica, com o processo do PCDT da Doença de Alzheimer
    • Colher o termo de esclarecimento e responsabilidade, com a cientificação da paciente ou do responsável legal sobre riscos e eventos adversos
    • Orientar a família: náusea, vômito, diarreia, anorexia, cãibras, insônia e bradicardia são os eventos a relatar
  7. Dia 30 do tratamento — o cuidado de quem cuida

    Waldirene chega à consulta de retorno com olheiras e conta que não dorme direito, que largou o grupo da igreja e que discutiu com o irmão sobre quem ajuda. Isto é objeto clínico, não desabafo. O protocolo dedica uma seção inteira ao cuidado dos cuidadores e registra que eles têm maior risco de depressão, ansiedade e sobrecarga, que a maioria é informal e familiar e por isso não recebe formação suficiente, e que ser o único cuidador e ter doenças próprias agravam o desgaste. Registra também o que funciona: intervenções psicoeducacionais estão entre as que mais mostram efeito positivo, associadas ao adiamento da institucionalização, à redução do desgaste e ao aumento da qualidade de vida — e as ativas, que envolvem o cuidador na construção do conhecimento, superam as passivas. Nomeie Waldirene como paciente também: pergunte por sono, humor e rede de apoio, e faça a divisão de tarefas entre os filhos virar combinado escrito, não expectativa tácita.

    Prescrição
    • Registrar o cuidador principal no prontuário e agendar consulta própria para ele
    • Rastrear sintomas depressivos e de ansiedade no cuidador
    • Encaminhar a grupos de psicoeducação e suporte disponíveis no território
    • Mapear equipe multiprofissional e recursos locais, inclusive polos do Programa Academia da Saúde
    • Escrever com a família quem faz o quê, em quais dias
  8. Mês 4 do tratamento — as decisões que não podem esperar

    Enquanto a paciente ainda participa das decisões, elas precisam ser tomadas. Direção veicular: se dirige, a segurança é assunto médico e a conversa não se adia. Finanças: quem administra, como se protege de fraude, como o dinheiro do mês fica acessível sem ficar exposto. Medicação em casa: caixa organizada, sem frasco solto, sem receita antiga na gaveta. Segurança do ambiente: fogão, escada, tapete, tranca, identificação com telefone junto ao corpo. E a conversa sobre autonomia — o que ela quer se um dia não puder mais decidir, quem ela quer que fale por ela, o que aceita e o que recusa. As formalidades jurídicas dessa conversa, com a capacidade civil, a curatela e a tomada de decisão apoiada, são assunto da apostila Medicina Legal e Bioética; o que é seu é fazer a conversa acontecer enquanto ela ainda tem o que dizer, e registrar o que ela disse. Avaliar capacidade para a decisão concreta, oferecendo linguagem simples, tempo, auxílio sensorial e apoio escolhido pela paciente. Envolver familiares com sua concordância sempre que possível, preservando o que ela consegue decidir e realizar.

    Prescrição
    • Decidir e registrar sobre direção veicular
    • Definir quem administra as finanças e como o dinheiro do dia a dia fica acessível
    • Revisar a organização da medicação em casa a cada consulta
    • Ajustar o ambiente: fogão, escada, tapetes, iluminação noturna, tranca e identificação junto ao corpo
    • Documentar em prontuário as preferências da paciente sobre cuidado futuro, com a data em que ela ainda as expressou
09

Como saber se está funcionando

O protocolo fixa dois relógios. Depois de três a quatro meses do início do tratamento, o paciente deve ser submetido a uma reavaliação; a partir daí, o acompanhamento ocorre a cada seis meses, para estimar o benefício e a necessidade de continuidade pela avaliação clínica e pela aplicação do MEEM e da escala CDR, além do monitoramento dos eventos adversos. E acrescenta que a frequência deve ser avaliada de forma particular, conforme critério médico e estado clínico.

Uma advertência sobre o que se espera. O objetivo declarado do tratamento medicamentoso é propiciar a estabilização do comprometimento cognitivo, do comportamento e da realização das atividades de vida diária, com o mínimo de eventos adversos. Estabilização — a palavra está no documento. Quem reavalia esperando melhora vai concluir que o remédio falhou quando ele estiver fazendo exatamente o que se propôs a fazer, e quem reavalia sem parâmetro nenhum vai manter por anos um medicamento que não está mais entregando nada.

Uma segunda advertência, sobre a leitura dos escores. O Mini-Exame não é uma medida estável de laboratório: ele varia com o horário, com a fadiga, com a audição, com o humor e com quem aplica. Diferenças de um ou dois pontos entre duas aplicações não descrevem trajetória, e reagir a elas produz decisões erradas em ambas as direções — suspender medicamento por um ponto perdido numa manhã ruim, ou comemorar um ponto ganho como resposta ao tratamento. O que descreve trajetória é a combinação de três coisas na mesma consulta: o escore, o estágio pela escala e, sobretudo, o relato funcional da mesma informante, feito com as mesmas perguntas de sempre. Trocar de informante entre duas reavaliações estraga a comparação mais do que trocar de escala.

Funcionalidade, pela mesma escala e com a mesma informante3 a 4 meses após o início; depois a cada 6 meses

Esperado: Estabilização das atividades instrumentais e básicas em relação à consulta anterior, ou perda mais lenta que a trajetória prévia

Se não melhora: É este parâmetro, e não o escore, que descreve o que mudou na vida dela. Perda funcional acelerada em poucas semanas não deve ser atribuída automaticamente à evolução da doença: procure delirium, fármaco novo, dor não tratada, infecção, retenção urinária, constipação e piora sensorial antes de atribuir à progressão.

MEEM, com a escolaridade registrada em anos completosNa reavaliação de 3 a 4 meses e a cada 6 meses

Esperado: Estabilidade ou queda lenta compatível com a doença

Se não melhora: Para galantamina e rivastigmina, o protocolo manda interromper quando o escore cai abaixo de 12 em quem tem mais de 4 anos de escolaridade ou abaixo de 8 em quem tem menos de 4 anos — e é aqui que mora o buraco de quem tem exatamente 4 anos, relatado nas notas. Para memantina, a interrupção se dá quando o escore cai abaixo de 5, para mais de 4 anos de escolaridade, ou abaixo de 3, para 4 anos ou menos.

Estágio pela escala CDRA cada 6 meses

Esperado: Progressão lenta ou estabilidade de estágio

Se não melhora: Ao chegar a CDR 3, o protocolo manda interromper galantamina e rivastigmina, dizendo que não há qualquer evidência de benefício nesse estágio. A donepezila, ao contrário, é mantida na demência grave e o mesmo documento registra resultados positivos dela nesse estágio em cognição, atividades de vida diária e medidas globais. Duas condutas opostas para o mesmo estágio, decididas pela droga em uso — o que está no bloco de divergências.

Benefício clínico global, no julgamento do médico e da famíliaAos 6 meses de tratamento, no mínimo

Esperado: Melhora ou estabilização da deterioração

Se não melhora: Ausência de melhora ou de estabilização após no mínimo seis meses é critério explícito de interrupção, por falta de benefício, para as três classes. Não confunda com intolerância: se o problema é efeito adverso, reduza a dose ou substitua por outro da mesma classe. O protocolo é claro em dizer que a troca de um anticolinesterásico por outro se justifica pela intolerância, e não pela falta de resposta clínica.

Tolerância digestiva e pesoEm toda consulta, e ativamente nas 4 semanas seguintes a cada aumento de dose

Esperado: Náusea e diarreia leves e transitórias após o aumento, com peso estável

Se não melhora: Náusea e vômito são as queixas que mais fazem a família abandonar o tratamento em silêncio. Reduza a dose e retitule mais devagar, dê a galantamina com alimento, divida a rivastigmina junto às refeições. Perda de peso em quem já come mal muda o balanço de risco: pesar é reavaliar.

Frequência cardíaca e sintomas de bradicardiaEm toda consulta, com ausculta e pulso

Esperado: Frequência estável, sem síncope, tontura postural ou queda nova

Se não melhora: Anticolinesterásico é colinomimético: bradicardia, síncope e bloqueio são efeitos de classe, e o protocolo lista alteração de condução entre os critérios de exclusão. Síncope ou queda nova em paciente que iniciou ou aumentou a dose pede eletrocardiograma e reavaliação da indicação — e atenção às associações que somam bradicardia, como betabloqueador, digoxina, amiodarona e bloqueadores de canal de cálcio.

Sobrecarga do cuidadorEm toda consulta, com pergunta explícita

Esperado: Cuidador dormindo, com folga regular e com tarefas divididas

Se não melhora: Cuidador em exaustão é o principal preditor de institucionalização precoce e de crise. Pergunte por sono, por humor, por quantas horas seguidas ele fica sozinho na tarefa e por quem o substitui quando adoece. Encaminhar a grupo psicoeducacional é intervenção com efeito medido, não gentileza.

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Onde o erro machuca

Fechar demência pelo escore do teste, sem perguntar o que ela deixou de fazer

O dano: Produz os dois erros opostos ao mesmo tempo. Uma pessoa com quatro anos de escolaridade, catarata e surdez pontua mal e recebe um rótulo que vai segui-la para o resto da vida, com perda de autonomia imposta por uma nota. E uma professora aposentada com boa reserva cognitiva pontua bem, mantém o rótulo de normal e continua administrando as próprias finanças com déficit executivo já instalado — até a fraude, o empréstimo consignado ou a conta não paga.

Como pegar a tempo: A pergunta que decide é sempre a mesma: alguém passou a fazer por ela algo que ela fazia sozinha, e desde quando? Documente atividades instrumentais e básicas com a informante, com exemplo e data. O teste entra depois, para graduar e para abrir a porta administrativa — não para decidir.

Chamar de demência um quadro que se instalou em dias, dentro do hospital

O dano: É a armadilha do idoso internado e ela custa duas coisas. Custa a causa não investigada — a infecção urinária, o fármaco novo, a dor, a retenção, a hiponatremia — que era tratável e reversível. E custa o rótulo, que fica no prontuário e faz com que a próxima equipe atribua à demência qualquer piora futura, fechando o ciclo de não investigar.

Como pegar a tempo: Instalação em horas a dias, flutuação no mesmo dia e atenção comprometida são delirium até prova em contrário. Não se diagnostica demência durante uma internação aguda: registra-se a suspeita, trata-se o agudo e reavalia-se no ambulatório semanas depois. O reconhecimento e o manejo do quadro confusional agudo estão no capítulo Delirium no paciente internado.

Prometer o medicamento antes de conferir MEEM, CDR e escolaridade

O dano: A família sai da consulta com a expectativa de um remédio que a farmácia do Componente Especializado vai recusar, e volta em três semanas com raiva de você e sem tratamento nenhum. Pior: quando o processo é indeferido, parte das famílias desiste do seguimento inteiro, e a paciente perde também o que não dependia de receita.

Como pegar a tempo: Meça antes de prometer. As faixas de MEEM mudam com a escolaridade e o estágio pela CDR precisa estar registrado, porque o protocolo exige as duas coisas juntas. E saiba de antemão que há combinações que não se encaixam em linha nenhuma — CDR 3 com MEEM ainda alto, ou MEEM abaixo do piso — para poder explicar isso à família antes, e não depois.

Dizer que o remédio vai melhorar a memória

O dano: Cria uma expectativa que a doença vai desmentir em três meses, e o desmentido destrói a confiança de que você vai precisar nos anos seguintes. A família passa a atribuir cada piora a uma falha sua ou a uma dose insuficiente, pressiona por aumento, procura outro médico, compra suplemento caro na internet — e, quando chega a hora de decisões difíceis, não acredita mais no que você diz.

Como pegar a tempo: Diga na primeira consulta o que o objetivo declarado do tratamento é: estabilização do comprometimento cognitivo, do comportamento e das atividades de vida diária, com o mínimo de eventos adversos. Diga também o que ele não faz: não reverte o dano já causado e não interrompe a doença. Combine desde já o critério de suspensão, para que parar não pareça abandono.

Tratar a agitação com antipsicótico como primeira linha, sem procurar o gatilho

O dano: Antipsicótico em pessoa idosa com demência acrescenta risco de sedação, queda, sintomas extrapiramidais e piora cognitiva, e o próprio protocolo registra que o tratamento medicamentoso dos sintomas psicológicos e comportamentais está potencialmente associado a desfechos negativos. Enquanto isso, o gatilho real segue lá: dor não tratada, constipação, retenção urinária, infecção, fome, calor, barulho, escuro, ou uma rotina que mudou.

Como pegar a tempo: O consenso que o protocolo cita prioriza intervenções não medicamentosas: controle dos gatilhos, capacitação do cuidador, adaptação do ambiente, cuidado centrado na pessoa e programa de atividades personalizadas. Procure a causa física antes da receita, e reserve o fármaco para o sintoma que persiste apesar disso, com objetivo definido, dose mínima e prazo para reavaliar.

Não perguntar quem cuida — e como está essa pessoa

O dano: O cuidador que adoece leva os dois. A crise chega como internação por causa evitável, como institucionalização de emergência, como conflito familiar aberto no meio da consulta ou como abandono do tratamento inteiro. E quando ela chega, já não há espaço para planejar: só para reagir.

Como pegar a tempo: Registre no prontuário quem é o cuidador principal, agende consulta própria para ele e pergunte por sono, humor e rede de apoio em toda consulta. Encaminhe a intervenção psicoeducacional, que tem efeito medido sobre desgaste, qualidade de vida e adiamento da institucionalização. E faça a divisão de tarefas entre os filhos virar combinado escrito na frente de todos.

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O que dizer ao paciente e à família

As sete falas abaixo cobrem o que se pergunta e o que se responde numa consulta de demência. Todas são construídas do mesmo jeito: começam por descrever o fato sem eufemismo, seguem dizendo o que aquilo altera na vida prática da casa, e fecham num combinado concreto, com nome de quem faz o quê. O que elas evitam é a frase que a família ouve como sentença e a frase que ela ouve como promessa — as duas produzem o mesmo dano, que é a família parar de acreditar em você quando a doença fizer o que a doença faz.

A técnica de conduzir a conversa difícil — o preparo, o aviso prévio, a pausa, o acolhimento da reação — é assunto próprio e vale integralmente aqui; o capítulo Comunicação de más notícias a desenvolve passo a passo. O que muda nesta doença é o conteúdo e um detalhe de método: há duas pessoas na sala com necessidades diferentes, e a que menos entende do que está acontecendo é a que mais precisa ser respeitada na condução.

Com a paciente na sala, perguntar à filha sem constranger — a manobra que abre a consulta

"Dona Rosalvina, eu vou fazer umas perguntas para a senhora e depois umas para a sua filha, porque cada uma me conta uma parte. A senhora fica aqui comigo primeiro." E depois, com a paciente presente ou fora, conforme o caso: "Waldirene, me dê exemplos com data. Quando foi a última vez que a senhora percebeu alguma coisa que a sua mãe não conseguiu fazer sozinha e antes conseguia? O que a senhora passou a fazer por ela, e desde quando?"

Não diga: Não converse sobre a paciente por cima dela, como se ela não estivesse ali. Não pergunte à filha "ela está pior?" na frente dela, porque a resposta humilha e não informa. E não aceite a resposta genérica: sem exemplo e sem data, não há história.

"Doutor, isso não é da idade?" — a paciente descartando a queixa

"Parte é da idade, sim, e a senhora tem razão nisso: com o tempo, todo mundo demora mais para achar o nome de uma pessoa, e isso não é doença. O que eu preciso entender é outra coisa. Não é o quanto a senhora esquece, é se o esquecimento passou a atrapalhar alguma coisa que a senhora fazia sozinha. Foi isso que a sua filha veio me contar, e é por isso que eu vou investigar — não porque a senhora esqueceu um nome."

Não diga: Não tranquilize antes de investigar, e não assuste antes de ter dado. Evite tanto "é só da idade, dona Rosalvina" quanto "a senhora pode estar com Alzheimer" numa primeira consulta em que nada foi excluído ainda.

Explicar por que vai pedir exames se "o problema é a cabeça"

"Esses exames não servem para provar que é da cabeça. Servem para o contrário: para achar as coisas que imitam esse quadro e têm tratamento. Falta de vitamina B12, tireoide funcionando devagar, uma infecção antiga, um remédio que a senhora toma e que atrapalha a memória, uma coleção de sangue de uma queda antiga. Se for uma dessas, a gente trata e a senhora melhora. Por isso eu peço antes de dar nome a qualquer coisa."

Não diga: Não descreva os exames como formalidade ou como "protocolo". E não crie a expectativa contrária, prometendo que algum exame vai dizer o que ela tem — nenhum vai.

A revelação do diagnóstico, na consulta agendada para isso

"O que os exames mostraram é que não há uma causa reversível: a vitamina foi corrigida, a tireoide está normal, a tomografia não mostrou lesão. O que sobra, pelo jeito como isso começou e foi andando, é uma doença que afeta a memória, e a mais comum delas é a doença de Alzheimer. Eu quero dizer duas coisas junto com isso. A primeira é que existe muito a fazer, e a maior parte não é remédio. A segunda é que a senhora está aqui, entendendo o que eu digo, e é por isso que algumas conversas a gente vai ter agora, e não depois."

Não diga: Não despeje prognóstico em anos na primeira conversa e não diga "não tem cura" como frase de encerramento. Não revele em consulta espremida entre outras duas, e não revele à filha no corredor antes de contar à paciente.

"E o remédio, doutor? Ela vai voltar a lembrar?" — o ajuste de expectativa

"O remédio não devolve o que já se perdeu, e é importante que a senhora saiba disso antes de começar. O que ele faz, quando funciona, é segurar: o objetivo é que daqui a seis meses ela esteja parecida com hoje, em vez de pior. Isso não é pouco, mas não é o que a gente gostaria. Se em seis meses não houver nem melhora nem estabilidade, a gente para — e parar não é desistir dela, é tirar um remédio que não está entregando nada e ficar com o que está."

Não diga: Não prometa memória de volta e não use "vai melhorar" sem qualificar o que melhora. Não deixe o critério de suspensão para o dia da suspensão: combine agora, para que a retirada não seja lida como abandono.

A conversa sobre dirigir

"Eu preciso conversar sobre o carro, e não é para castigar a senhora. Dirigir depende de responder rápido a uma coisa inesperada, e é justamente isso que essa doença mexe primeiro, antes até de a memória atrapalhar. Eu não vou decidir isso sozinho hoje: eu quero saber como tem sido, se houve susto, se alguém já sentiu medo indo com a senhora. E quero que a gente combine como a senhora continua indo aonde precisa ir, porque essa parte é a que mais importa."

Não diga: Não abra pela proibição, e não delegue a conversa à família como se fosse briga doméstica. Também não a adie indefinidamente por desconforto: o risco é de terceiros e a omissão tem custo. As formalidades legais dessa decisão são da apostila Medicina Legal e Bioética, mas a conversa clínica é sua.

Com a filha, sozinha — o cuidado de quem cuida

"Agora eu quero falar da senhora. Quem cuida de alguém com essa doença adoece mais, dorme menos e fica com sintomas de depressão e ansiedade com muita frequência — isso está descrito, não é fraqueza sua. Então eu vou marcar uma consulta para a senhora, e vou fazer três perguntas hoje: a senhora está dormindo? Quantas horas seguidas a senhora fica sozinha nisso? E quem substitui a senhora quando a senhora adoecer, porque uma hora a senhora vai adoecer. Existe grupo de orientação para famílias, e quem participa se sai melhor — os dois se saem melhor."

Não diga: Não trate isso como conversa de corredor nem como elogio ("a senhora é uma filha maravilhosa"), que encerra o assunto sem resolver nada. E não distribua tarefas por você: faça a família combinar na sua frente e registre o combinado.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O que se mede para estadiar: o escore global da CDR ou a soma das suas caixas?

O escore global — norma federal em vigor, PCDT da Doença de Alzheimer, novembro de 2025

Todos os critérios de inclusão do protocolo exigem escore na escala CDR igual a 1, 2 ou 3, e o monitoramento manda aplicar o MEEM e a escala CDR a cada seis meses. É o escore global que aparece no processo do Componente Especializado e é ele que a farmácia confere. Do ponto de vista administrativo, não há alternativa: a soma das caixas não está prevista em nenhuma linha do protocolo.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 27, de 27 de novembro de 2025 — seções 4 e 7

A soma das caixas — régua de sociedade, consenso da Academia Brasileira de Neurologia, setembro de 2022

O consenso registra que estudos mais recentes têm abandonado os escores globais da escala e usado a soma das caixas, por ter maior número de valores graduais, capazes de detectar pequenas mudanças dentro de um mesmo estágio e entre estágios, o que torna possível diferenciar comprometimento cognitivo leve de demência inicial. Cita as faixas de correspondência entre as duas medidas, que este capítulo conferiu e são contíguas.

Schilling LP et al. Dement Neuropsychol 2022;16(3 Suppl 1):25-39

Como decidir

Para dona Rosalvina, cujo tratamento depende do processo do Componente Especializado, o escore global é obrigatório e não é opcional: sem ele, não há dispensação. O que o interno pode fazer é registrar os dois — o global, porque abre a porta, e a soma das caixas, porque é a medida que vai mostrar movimento entre as reavaliações de seis meses, quando o global ainda não mudou. Se você só puder anotar um, anote o que o processo exige; se puder anotar dois, o segundo é o que vai responder à filha quando ela perguntar se piorou.

Ao chegar à demência grave, mantém-se ou interrompe-se o anticolinesterásico?

Interromper — regra do próprio protocolo para galantamina e rivastigmina

O critério de interrupção manda suspender as duas em pacientes com escala CDR 3, mesmo que estejam em tratamento contínuo, com a justificativa explícita de que não há qualquer evidência de benefício nesse estágio. A mesma seção manda suspender quando o MEEM cai abaixo do piso de escolaridade correspondente. Quem segue a letra, para.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 27, de 27 de novembro de 2025 — seção 6.2.4, critérios de interrupção

Manter — regra do mesmo protocolo para donepezila, com indicação expandida em 2025

O documento afirma que a donepezila pode ser utilizada no tratamento da doença leve a grave, por apresentar resultados positivos na demência grave em cognição, atividades de vida diária e medidas globais de melhora. Os critérios de inclusão a autorizam em monoterapia e em combinação com memantina no estágio CDR 3, e o critério de interrupção correspondente não é o estágio: é a ausência de resposta, sem estabilização do quadro grave.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 27, de 27 de novembro de 2025 — seções 4, 6.2 e 6.2.4

Como decidir

A divergência não é entre dois documentos: é interna, e o que decide é qual molécula o paciente está usando quando o estágio muda. Na prática de enfermaria e de ambulatório isso significa que a passagem para CDR 3 é um ponto de decisão obrigatório e não automático. Se o paciente vem de galantamina ou rivastigmina, a regra manda suspender — e a pergunta que se coloca em seguida é se ele preenche critério para donepezila ou memantina no estágio grave, o que muda a conversa com a família de "vamos parar o remédio" para "vamos trocar o remédio". Se ele já vem de donepezila, o gatilho não é o estágio, é a resposta.

A neuroimagem é obrigatória na investigação, ou é o que houver?

Obrigatória — critério diagnóstico federal e consenso de sociedade

A letra D do quadro de critérios reproduzido pelo protocolo diz que tomografia ou, preferencialmente, ressonância magnética de crânio deve ser realizada para excluir outras possibilidades diagnósticas ou comorbidades, principalmente a doença vascular cerebral. O consenso da Academia Brasileira de Neurologia chama a neuroimagem estrutural de passo fundamental do diagnóstico. Sem ela, o critério não está formalmente preenchido.

Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 27, de 27 de novembro de 2025 — Quadro 4 e seção 3.2; Schilling LP et al., Dement Neuropsychol 2022;16(3 Suppl 1):25-39

Conforme disponibilidade — fluxograma federal da atenção primária, 2024

Na etapa de avaliação médica, o documento lista os exames úteis para excluir causas reversíveis — hemograma, creatinina, eletrólitos, TSH, B12, albumina, enzimas hepáticas, sorologias para sífilis e HIV — e acrescenta a neuroimagem com a ressalva se disponível. É o único item da lista que recebe condicional, e o desenho do fluxo não interrompe a investigação por sua ausência.

Brasil. Ministério da Saúde. Identificação da Demência na Atenção Primária, 2024 — etapa 3

Como decidir

São dois documentos federais em vigor com forças diferentes sobre o mesmo exame, e a diferença tem endereço: um governa a porta do medicamento, o outro governa a porta da suspeita. Numa unidade sem acesso a imagem, a conduta que os dois sustentam é a mesma — não parar a investigação, excluir o que o laboratório exclui, tratar o que for tratável e seguir acompanhando. O que muda é o momento em que a imagem deixa de ser desejável e passa a ser indispensável: quando o quadro for atípico, quando houver sinal focal, quando houver queda recente com suspeita de coleção subdural, quando o paciente tiver menos de 65 anos, e quando o processo do Componente Especializado for aberto — porque ali o critério é conferido.

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O raciocínio, em voz alta

Ambulatório de clínica médica de um hospital de ensino, quinta-feira de manhã. Seu Aurenildes Camurupim, 81 anos, 68 kg, aposentado da lavoura, três anos de escolaridade. Vem encaminhado pela unidade básica com a frase "quadro demencial para avaliação". Quem conta a história é a nora, que mora com ele há seis anos: nos últimos quatro meses ele ficou "devagar", dorme demais durante o dia, confunde os nomes dos netos, e há três semanas se perdeu voltando da padaria — trajeto de duas quadras que faz há anos. Antes disso, diz ela, ele era "esquecido igual a todo velho, mas se virava sozinho". É hipertenso, tem diabetes tipo 2, teve um acidente vascular cerebral há sete anos com sequela motora leve à direita, e a nora traz uma sacola com nove caixas. Entre elas: amitriptilina 25 mg à noite, iniciada há cinco meses "para dor nas pernas", e clonazepam, que ele toma "faz tempo". Ao exame está lúcido, orientado no espaço, erra o mês, tem marcha em passos curtos e hiper-reflexia à direita.

  1. o que eu penso antes de qualquer teste

    Duas coisas na história não combinam com o encaminhamento. A primeira é o tempo: quatro meses de piora, com sonolência diurna, é rápido demais para a ladeira de uma doença degenerativa e lento demais para um delirium clássico — é a janela em que fármaco e causa metabólica moram. A segunda é o que começou junto: a amitriptilina entrou há cinco meses e a piora tem quatro. Amitriptilina é um antidepressivo tricíclico e, portanto, um anticolinérgico potente, exatamente a classe que o fluxograma do Ministério manda procurar antes de aprofundar a investigação de declínio cognitivo. O clonazepam soma. Não vou testar cognição de forma definitiva num homem sob dois depressores centrais e chamar o resultado de linha de base.

  2. o que os critérios me obrigam a fazer com essa informação

    Isto não é bom senso, é critério formal. O quadro de doença de Alzheimer provável que o Brasil adota tem, na letra E, uma cláusula de exclusão que diz que o diagnóstico não se aplica quando há outra doença concomitante ativa ou uso de medicamento que possa ter efeito substancial sobre a cognição. Com amitriptilina e clonazepam em uso, eu não estou autorizado a fechar esse diagnóstico agora — independentemente do que qualquer escore mostrar hoje. O mesmo raciocínio vale para o rótulo genérico de demência: eu posso registrar declínio cognitivo em investigação, e não devo registrar demência.

  3. a segunda hipótese, que a história também sustenta

    Ele tem acidente vascular cerebral prévio, hipertensão e diabetes: carga vascular estabelecida. E tem marcha em passos curtos e sinal focal residual. O perfil de comprometimento cognitivo vascular é justamente esse — lentificação, desatenção, falha executiva, alteração de marcha precoce — e não o amnésico puro. Mas atenção ao relógio: a janela de até seis meses entre o evento cerebrovascular e o declínio cognitivo, que define a forma pós-AVC, só se aplica a essa forma, e o evento dele foi há sete anos. O que eu posso ter aqui é doença de pequenos vasos progredindo devagar, com a amitriptilina descompensando um cérebro que já tinha pouca reserva. As duas coisas ao mesmo tempo, que é o padrão.

  4. o que eu faço nesta consulta, em ordem

    Primeiro, retirar o que pode estar causando: suspender a amitriptilina, com desmame para não produzir rebote, e programar o desmame do clonazepam, que é lento e não se faz de uma vez. Segundo, pedir a bateria de causas reversíveis: hemograma, sódio, potássio, cálcio, glicemia, ureia e creatinina, TSH, transaminases, vitamina B12, ácido fólico, VDRL e anti-HIV. Terceiro, imagem: ele tem indicação clara — sinal focal, doença cerebrovascular conhecida, para caracterizar carga de lesão e excluir coleção subdural, já que a nora relata que ele "tropeça". Quarto, checar audição e visão antes de qualquer teste. Quinto, aplicar o QMC8 com a nora, que independe do estado dele hoje, e deixar a avaliação cognitiva formal para depois da retirada.

  5. o que eu digo à nora hoje

    "A senhora fez certo em trazer. Só que eu ainda não posso dizer que ele tem uma doença de memória, e vou explicar por quê. Ele começou a piorar mais ou menos quando entrou um remédio que atrapalha a cabeça de quem tem a idade dele — esse aqui, a amitriptilina. Eu vou tirar esse remédio devagar e vou tirar o outro do sono também, com calma, porque tirar de uma vez faz mal. Vamos pedir exames de sangue e uma tomografia. Em uns dois meses, sem esses remédios, eu vou testar a memória dele de verdade. Pode ser que melhore bastante, pode ser que fique igual — e as duas respostas me dizem coisas diferentes. Enquanto isso, quem separa os remédios dele é a senhora, e ele não sai sozinho."

  6. o que eu registro no prontuário

    Declínio cognitivo em investigação, de instalação subaguda, em homem de 81 anos com doença cerebrovascular prévia e carga de fatores de risco vascular, com uso de anticolinérgico e benzodiazepínico coincidente com o início da piora. Critério de exclusão da letra E preenchido para doença de Alzheimer provável enquanto os fármacos estiverem em uso. Conduta: retirada escalonada, propedêutica de causas reversíveis, imagem estrutural, reavaliação cognitiva formal em oito a doze semanas. Supervisão da medicação e restrição de saídas sozinho acordadas com a família. Não prescrever anticolinesterásico nesta fase — o diagnóstico que abriria a porta não está estabelecido, e o quadro pode ser parcialmente reversível.

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Faça você

Ambulatório de geriatria, retorno de seis meses. Dona Bernardina Sinimbu, 74 anos, seis anos de escolaridade, com diagnóstico de doença de Alzheimer provável firmado há dezoito meses. Está em rivastigmina 6 mg por dia, distribuídos em duas tomadas, dispensada pelo Componente Especializado, com boa tolerância e sem eventos adversos. No processo aberto há dezoito meses, os números eram MEEM 16 e CDR 1. Hoje, aplicados na consulta: MEEM 14 e CDR 2. A filha diz que a mãe piorou "um pouco" — parou de cozinhar sozinha, precisa de lembrete para o banho em alguns dias, e passou a acordar à noite e andar pela casa. Não há febre, não há queixa urinária, não houve queda, não entrou remédio novo. As duas primeiras etapas do raciocínio vêm resolvidas abaixo; continue a partir delas.

  1. reconheço o que os números dizem — e o que não dizem

    Ela caiu dois pontos de MEEM em dezoito meses e subiu um estágio na CDR. Isso é progressão compatível com a doença, e não uma piora aguda: a trajetória é lenta, não há sintoma sistêmico, não há fármaco novo, não há queda. A perda funcional que a filha descreve — parou de cozinhar sozinha, precisa de lembrete para o banho — é justamente a passagem das atividades instrumentais para as básicas, que é o que a CDR 2 descreve. O despertar noturno com deambulação é sintoma comportamental e merece investigação própria, mas não muda a leitura do estadiamento.

  2. confiro se o tratamento atual continua autorizado

    Com seis anos de escolaridade, ela cai na faixa de mais de 4 anos. Para a rivastigmina em monoterapia, o protocolo exige MEEM entre 12 e 24 com CDR 1 ou 2: com MEEM 14 e CDR 2, ela continua dentro do critério, e o critério de interrupção por queda de escore, que seria abaixo de 12, ainda não foi atingido. Não há intolerância e há estabilização relativa. Logo, a rivastigmina se mantém — e a dose atual de 6 mg por dia ainda não é o teto oral de 12 mg.

Ver como fecharíamos

O terceiro passo é notar o que os números novos abriram, e é isso que a consulta tem de decidir. Com MEEM 14 e CDR 2, ela passou a preencher a linha da terapia combinada: para memantina associada a galantamina ou rivastigmina, o protocolo exige MEEM entre 12 e 19 em quem tem mais de 4 anos de escolaridade, com CDR igual a 2. Ela preenche as duas condições. Antes de solicitar, confira os critérios de exclusão específicos da memantina, que são dois: incapacidade de adesão ao tratamento e depuração de creatinina abaixo de 5 mL/min/1,73 m². Confira também a função renal para a titulação, porque o esquema muda com ela — com depuração entre 50 e 80 não há ajuste; entre 30 e 49, a dose diária de referência é 10 mg, podendo chegar a 20 mg após avaliação de tolerância e conforme a bula; entre 5 e 29, a dose diária de referência é 10 mg. Essas doses renais não eliminam a titulação inicial baixa, geralmente a partir de 5 mg/dia, nem autorizam começar diretamente pela dose de manutenção. Na função renal normal, a titulação é de 5 mg na primeira semana, subindo 5 mg por semana até 20 mg por dia na quarta semana — e aqui entra o detalhe prático que o protocolo escreve entre parênteses e que a família precisa ouvir: como a única apresentação incorporada é o comprimido de 10 mg, a primeira semana é meio comprimido e a terceira é um comprimido e meio, o que exige partir o comprimido e exige que alguém confiável faça isso. O quarto passo é a titulação da própria rivastigmina, que ainda tem espaço até 12 mg por dia e cuja subida se faz a cada duas semanas conforme tolerância. O quinto passo é o sintoma que a filha trouxe e que os números não explicam: o despertar noturno com deambulação. Antes de qualquer fármaco, procure gatilho — dor, constipação, retenção urinária, sede, calor, ruído, escuro, cochilo diurno prolongado, rotina alterada — e trabalhe ambiente, luz, exposição solar diurna e rotina de sono com a família, que é a prioridade que o protocolo estabelece para os sintomas psicológicos e comportamentais. O sexto passo é a filha: pergunte quantas noites por semana ela acorda, se alguém a substitui, e agende consulta para ela. E o sétimo é combinar o que já se sabe que vem: quando a CDR chegar a 3, a rivastigmina deixa de ser autorizada pelo protocolo, e a conversa daquele dia será sobre trocar — para donepezila, isolada ou combinada com memantina —, e não sobre parar de tratar. Dizer isso hoje, com calma, evita que aquele dia seja lido como abandono. Discutir a associação da memantina como opção, sem iniciar e aumentar dois fármacos simultaneamente por mera elegibilidade. Acordar uma mudança por vez quando clinicamente viável e definir retorno para tolerância e benefício funcional. Investigar deambulação noturna por dor, ambiente, noctúria, sono e delirium; medicação sedativa não é resposta automática.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

O documento afirma que não existe benefício comprovado para a aplicação de testes cognitivos a toda a população idosa e que a investigação se amplia na presença de sinais suspeitos, que podem vir da demanda espontânea ou das três perguntas sobre cognição da Caderneta da Pessoa Idosa. O rastreio inicial usa dois instrumentos com destinatários diferentes: o 10-CS, dirigido ao próprio paciente, com corte em sete pontos ou menos, e o Questionário de Mudanças Cognitivas, dirigido ao acompanhante, com corte em quatro pontos ou mais; idealmente aplicam-se os dois, e um alterado já indica avaliação médica. O Mini-Exame do Estado Mental não aparece em nenhuma etapa desse fluxograma — ele é exigido depois, pelo protocolo de tratamento, para definir o acesso ao medicamento. O documento também determina que rastreio sem alteração não elimina a suspeita, mantendo acompanhamento no mínimo semestral. E a neuroimagem aparece na terceira etapa, junto e não antes da avaliação laboratorial, com a ressalva de disponibilidade.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Compare declínio insidioso com confusão aguda e flutuante. Descreva como entrevistar, testar e investigar, e quais medidas de segurança não esperam a definição etiológica.

Em 30 dias

Reavalie uma pessoa em tratamento que perdeu função e cuja cuidadora está exausta. Procure causas associadas, reveja benefício e tolerância e planeje apoio e decisões futuras preservando a capacidade que permanece.

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Agora atenda

Agora atenda: terça-feira de manhã, unidade básica de saúde. Mulher de 78 anos, hipertensa, quatro anos de escolaridade, trazida pela filha, que diz que a mãe "está esquecendo tudo". A paciente descarta a queixa e diz que é da idade. Colha a história com a filha e com a paciente, separe o que é envelhecimento do que é perda de autonomia, decida o que pedir para excluir causa reversível, e não saia da consulta sem ter resolvido três coisas de hoje: quem separa os remédios dela, o que se decide sobre segurança em casa, e como está quem cuida.