Ginecologia e Obstetrícia › Ginecologia
Doença inflamatória pélvica
Esperar a confirmação é o erro. O preço de não tratar não aparece no plantão — aparece dez anos depois, no ambulatório de infertilidade.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST). Anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12, de 19 de abril de 2021, com anexo alterado em 4 de julho de 2024. Brasília: Ministério da Saúde
Menezes MLB, Giraldo PC, Linhares IM, Boldrini NAT, Aragón MG. Protocolo Brasileiro para Infecções Sexualmente Transmissíveis 2020: doença inflamatória pélvica. Epidemiol Serv Saúde. 2021;30(spe1):e2020602
Ross J, Cole M, Evans C, Lyons D, Dean G, Cousins D. United Kingdom National Guideline for the Management of Pelvic Inflammatory Disease (2019 Interim Update). British Association for Sexual Health and HIV
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024
Perciney P, Costa ALS, Leite ICG, Nogueira MC. Internações por doença inflamatória pélvica no Brasil: tendência temporal de 2000 a 2019. Rev Bras Saude Mater Infant. 2022;22(4):767-776
Bula profissional aprovada pela Anvisa. Metronidazol solução injetável 500 mg/100 mL (medicamento genérico, Lei nº 9.787/1999)
Workowski KA, Bachmann LH, Chan PA, et al. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021. MMWR Recomm Rep. 2021;70(4):1-187
Responda antes de ler
Mulher de 27 anos com dor no baixo-ventre, corrimento cervical purulento e dor à mobilização do colo. O teste de gravidez vem positivo e a ultrassonografia mostra gestação tópica de 9 semanas, com anexos sem massas. Qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
Vinte e uma horas de uma quinta-feira. Larissa Andrade tem 22 anos, é estudante, e está sentada na cadeira do consultório do pronto-atendimento com as duas mãos sobre o baixo-ventre. Foi classificada como verde na triagem: dor abdominal há três dias, sem febre aferida, sinais vitais dentro da faixa. Pressão 112 por 70, frequência cardíaca 92, temperatura axilar 37,6 °C, saturação 98%.
A história que ela conta em pé, antes de você mandar deitar, é curta. A dor começou devagar, do lado esquerdo, depois pegou os dois lados e o meio do baixo-ventre. É uma dor que não passa completamente, que piora quando ela anda depressa e quando ela senta rápido demais. Há dois dias apareceu um corrimento diferente, mais amarelado, com cheiro. Ontem doeu na relação — doeu fundo, não na entrada. E hoje, saindo do banho, ela viu uma mancha de sangue na calcinha, fora da data.
Ela responde que a última menstruação foi há dezoito dias, que veio normal, e que usa anticoncepcional oral — mas esqueceu dois comprimidos no mês passado. Tem um parceiro fixo há oito meses. Preservativo, quase nunca; ela diz isso baixo, olhando para o lado, e emenda que ele disse que fez exame.
Você deita a paciente e examina o abdome. Ele está flácido, doloroso à palpação profunda nos dois quadrantes inferiores, sem defesa, sem descompressão brusca, ruídos hidroaéreos presentes. Está feito. É o exame que quase todo interno faz nessa paciente, e é o exame que quase todo interno para de fazer aqui.
Falta a parte que decide. Falta o exame especular, que mostraria se o colo está friável e se sai secreção mucopurulenta pelo orifício. E falta o toque bimanual, que responde à única pergunta cujo sim muda o plantão inteiro: dói quando o colo é mobilizado? Essa manobra custa dois minutos, um par de luvas e uma frase bem dita à paciente. É a manobra mais barata do pronto-socorro e é a que mais é pulada — por pressa, por não ter mesa ginecológica livre, por vergonha do interno, por vergonha da paciente, por não haver acompanhante para a porta.
A conta desse exame que não foi feito não vence esta noite. Larissa vai receber dipirona, vai melhorar um pouco, vai para casa com o diagnóstico de dor abdominal a esclarecer e com a orientação de procurar um ginecologista. A conta vence daqui a dez anos, numa sala de reprodução humana, quando uma histerossalpingografia mostrar as duas trompas obstruídas e ninguém souber dizer quando isso aconteceu.
Este é o diagnóstico em que esperar a confirmação é o erro. Não existe exame que confirme na porta, o padrão-ouro é uma laparoscopia que ninguém vai fazer numa paciente estável, e a doença deixa sequela irreversível enquanto se espera. A regra que organiza tudo o que vem a seguir cabe em uma linha, e ela é do Ministério da Saúde: por menor que seja a suspeita, o tratamento deve ser iniciado o quanto antes.
Quem adoece disso
As internações por doença inflamatória pélvica no Brasil caíram em média 5,2% ao ano entre 2000 e 2019, e caíram em todas as regiões: 8,1% ao ano no Centro-Oeste, 5,7% no Nordeste, 5,0% no Sudeste, 4,6% no Norte e 4,3% no Sul. A leitura otimista dessa curva é que o país está diagnosticando e tratando mais cedo, no ambulatório, antes de a doença precisar de leito. A leitura que interessa ao plantão é outra: internação é a ponta visível de uma doença que, na maior parte das vezes, não gera registro nenhum. Se o tratamento ambulatorial melhorou, quem sustenta a queda é o pronto-socorro e a unidade básica — ou seja, você.
O número que não existe é o do denominador. Não há notificação compulsória de DIP no Brasil, e não há rastreamento de clamídia e gonococo em mulheres assintomáticas na rede pública. Os próprios autores da série do Sistema de Informações Hospitalares registram que, por isso, a magnitude real da doença é desconhecida. A consequência prática é direta: você nunca vai poder dizer que a DIP é rara no seu serviço, porque o seu serviço não conta os casos que trata sem internar — e não vê nenhum dos que passam sem tratamento.
As faixas etárias mais internadas são as de 20 a 29 e de 30 a 39 anos. Nas adolescentes de 10 a 19 anos, ao contrário do resto do país, as internações subiram: 0,9% ao ano no Sudeste desde 2008 e 3,3% ao ano no Nordeste desde 2014. Esse é o grupo em que a doença mais custa, porque é o grupo com mais anos de vida reprodutiva pela frente — e é também o grupo com mais risco de base: a adolescente sexualmente ativa tem risco três vezes maior de DIP aguda do que a mulher acima de 25 anos, por razões biológicas, como a ectopia cervical, e comportamentais.
A sequela é a razão de o capítulo existir. A infertilidade por fator tubário aparece em 9% a 20% das mulheres que tiveram DIP, e a taxa sobe a cada novo episódio. Junto com ela vêm a gravidez ectópica e a dor pélvica crônica, que é a queixa que mais enche ambulatório de ginecologia e a que menos tem solução. Nada disso é reversível. O antibiótico impede a lesão que ainda não aconteceu; ele não desfaz aderência tubária nenhuma.
Há ainda a doença que ninguém vê. A observação de que dois terços das mulheres com infecção sexualmente transmissível não tinham história prévia nem tratamento de DIP deu origem ao conceito de DIP subclínica — uma entidade tão comum quanto a forma clínica, com as mesmas etiologias e o mesmo potencial de sequela. É a razão pela qual o limiar para tratar tem de ser deliberadamente baixo: a doença que se apresenta com o quadro completo é a minoria, e a que se apresenta com pouco sintoma faz o mesmo estrago.
Uma última proporção arruma a suspeita. Estima-se um caso de DIP para cada oito a dez casos de cervicite por gonococo, clamídia ou pelos demais agentes envolvidos. Cervicite é comum no pronto-socorro e na unidade básica; portanto DIP também é. Quando a paciente jovem chega com dor no baixo-ventre, esta hipótese não entra na lista como curiosidade — ela entra entre as duas ou três primeiras, ao lado da gravidez ectópica e da apendicite.
Por que acontece o que acontece
A doença inflamatória pélvica é uma infecção que sobe. Todo o resto — o quadro clínico, a escolha do antibiótico, o prazo de reavaliação, a sequela — deriva dessa única frase, e é por isso que ela vale mais do que qualquer lista de agentes.
O trato genital inferior é colonizado; o superior não é. O colo do útero, com seu muco, é a fronteira. Quando microrganismos do colo e da vagina atravessam essa fronteira — espontaneamente ou empurrados por uma manipulação, como inserção de dispositivo intrauterino, biópsia de endométrio ou curetagem —, eles encontram endométrio, tubas, ovários e peritônio pélvico, que são superfícies estéreis e sem defesa treinada para eles. A infecção começa como endometrite, que é habitualmente a primeira manifestação clínica, e progride pela luz da tuba em direção à cavidade peritoneal.
Duas coisas facilitam a subida, e as duas explicam achados do exame. O muco cervical perde efeito bacteriostático durante o fluxo menstrual, e a menstruação retrógrada carrega os agentes para cima — daí a doença ter preferência pelo período pós-menstrual imediato. E o anticoncepcional combinado, ao favorecer a ectopia cervical, aumenta a superfície de epitélio colunar exposta, que é justamente o epitélio que gonococo e clamídia infectam. A mesma ectopia responde por outra coisa: sangramento fora de data, em pequena quantidade, em usuária de pílula de baixa dose. Esse escape é comum e quase sempre banal, mas em uma paciente com dor pélvica ele deixa de ser banal e passa a ser um dado a investigar.
A infecção que começa monomicrobiana termina polimicrobiana, e isso decide o antibiótico. Clamídia e gonococo são os agentes clássicos, mas hoje aparecem em cerca de um terço dos casos; 85% dos quadros são causados por patógenos sexualmente transmitidos ou por agentes associados à vaginose bacteriana. O que acontece depois é mecânico: os aeróbios consomem oxigênio, o potencial de oxirredução local despenca, o tecido desvitalizado cria um ambiente de microaerofilia — e nesse ambiente crescem os anaeróbios oportunistas, sobretudo Bacteroides fragilis. É a teoria de Monif, e ela tem uma consequência de prescrição direta: monoterapia não trata DIP. Nenhum esquema de droga única cobre gonococo, clamídia e anaeróbio ao mesmo tempo, e o anaeróbio é justamente o que produz lesão tubária.
O dano à trompa não é feito pela bactéria; é feito pela resposta inflamatória a ela. O epitélio ciliado da tuba é o alvo: os cílios batem numa direção só, empurrando o oócito para o útero, e não se regeneram depois de destruídos. O que se instala no lugar é fibrose, com aderência de pregas, oclusão de fímbrias e hidrossalpinge. Uma trompa assim tem três destinos possíveis, e todos aparecem no ambulatório dez anos depois: não deixa o oócito passar, e é infertilidade; deixa passar devagar e não deixa o embrião voltar, e é gravidez ectópica; ou cicatriza colada às vísceras vizinhas, e é dor pélvica crônica. Repetir episódios repete o processo em um tecido que já perdeu reserva, e é por isso que a taxa de infertilidade sobe a cada episódio novo.
A geografia da progressão explica os achados que assustam. Quando a tuba se obstrui nas duas pontas, o pus fica preso e forma o piossalpinge; quando o processo engloba o ovário, forma-se o abscesso tubo-ovariano — que é uma coleção, e coleção não se resolve só com antibiótico, precisa de drenagem quando não responde. Quando o material infectado escorre pela fímbria para o fundo de saco, dá pelviperitonite, e é dela que vem a dor à descompressão no hipogástrio. E quando o líquido peritoneal contaminado sobe pela goteira parietocólica direita até o espaço infradiafragmático, dá peri-hepatite: a síndrome de Fitz-Hugh-Curtis, que se apresenta como dor em hipocôndrio direito, com ou sem alteração de enzimas hepáticas, numa paciente jovem cuja doença está na pelve. É a razão pela qual a dor no quadrante superior direito de uma mulher jovem sexualmente ativa não é automaticamente vesícula.
Fica, por fim, o motivo de o diagnóstico ser clínico e não laboratorial. A infecção mora num compartimento fechado, acima do colo. O que se colhe da endocérvice diz o que está na porta, não o que está lá dentro: um teste positivo para gonococo ou clamídia apoia o diagnóstico, mas um teste negativo não exclui nada, porque o agente que subiu pode não estar mais embaixo, e porque em boa parte dos casos o agente da porta nunca foi o principal. O único exame que enxerga o compartimento é a laparoscopia — e ela não é conduta de plantão em paciente estável.

Como se apresenta de verdade
Na dor pélvica com suspeita de DIP, a decisão inicial é tratar com segurança sem deixar passar uma emergência cirúrgica ou uma gestação. Você deve justificar o limiar de suspeita, escolher local de tratamento e combinar uma reavaliação que reconheça falha cedo. Tratar a infecção inclui resolver acesso aos medicamentos e abordar as parcerias.
Há uma assimetria que vale memorizar antes de tudo. Sintoma e sinal têm sensibilidade e especificidade ruins para DIP: o valor preditivo positivo do diagnóstico clínico, comparado à laparoscopia, fica entre 65% e 90%. Isso significa duas coisas ao mesmo tempo. Que entre uma e pouco mais de três em cada dez mulheres tratadas por DIP não tinham DIP — e que a única alternativa a essa imprecisão seria uma laparoscopia que ninguém vai indicar numa paciente estável. O erro de tratar quem não tinha custa um curso de antibiótico e uma conversa. O erro de não tratar quem tinha custa trompa.

Percurso clínico: Tratar suspeita coerente e reavaliar
Na dor pélvica, exclua gestação e reconheça instabilidade ou possível emergência cirúrgica. Avalie critérios de DIP e gravidade; investigação etiológica não deve atrasar tratamento indicado. O plano inclui esquema completo, parceria, orientação e reavaliação de resposta, com referência se houver falha ou complicação.
O que entra pela porta
A dor é o sintoma de entrada em quase todas: dor no abdome inferior ou pélvica, tipicamente bilateral, mas que pode ser unilateral e enganar. Ela costuma ser de instalação gradual, ao longo de dias, com piora progressiva — o que a coloca no mesmo grupo temporal da apendicite e da colecistite e, por isso, no grupo que mais depende da reavaliação. Instalação em segundos, com a paciente sabendo o minuto, não é a linguagem desta doença: é linguagem de torção, de rotura de cisto ou de gravidez ectópica rota.
Ao lado da dor vêm os achados que fecham a suspeita. Corrimento vaginal ou cervical anormal, frequentemente purulento. Dispareunia de profundidade — a paciente descreve dor "lá dentro", e não na entrada; essa distinção separa DIP de vaginite e de vulvodinia, e ela só aparece se você perguntar com essas palavras. Sangramento vaginal anormal em pequena quantidade, fora da data, ou depois da relação. Dismenorreia secundária, isto é, cólica que começou a existir num ciclo que antes não doía.
Febre acima de 38 °C aparece na doença moderada a grave. O critério menor do Ministério da Saúde é mais baixo e mais útil no plantão: temperatura axilar acima de 37,5 °C ou retal acima de 38,3 °C. Ausência de febre não afasta nada — a maior parte das pacientes de porta está afebril, e insistir em febre como requisito é uma das formas mais comuns de perder o diagnóstico.
Náusea e vômito ajudam pelo avesso. Eles ocorrem na maioria dos pacientes com apendicite e em apenas cerca de metade das mulheres com DIP. Não servem para confirmar, mas o quadro em que o vômito domina a cena e a dor é francamente localizada à direita empurra a lista na direção do apêndice.
As três apresentações que enganam
A primeira é a paucissintomática, e é a mais frequente e a mais cara. Dor leve que a paciente atribuiu a cólica, corrimento que ela achou normal, dispareunia que ela não contou porque não perguntaram. Não há febre, não há leucocitose, a proteína C reativa está normal. Essa paciente vai embora com diagnóstico de dor pélvica inespecífica em quase todo serviço do país, e é ela que reaparece anos depois na investigação de infertilidade. O antídoto não é exame: é o toque bimanual, que nessa paciente costuma ser o único achado positivo do dia.
A segunda é a que se apresenta no lugar errado. Dor em hipocôndrio direito, às vezes pleurítica, às vezes irradiada para o ombro, numa mulher jovem — com dor pélvica discreta ou ausente no relato espontâneo. É a peri-hepatite da síndrome de Fitz-Hugh-Curtis, e ela manda a investigação inteira para a vesícula. O ultrassom vem sem cálculo, as enzimas vêm normais ou pouco alteradas, e a paciente é liberada. A pergunta que resolve custa dez segundos: dói também no baixo-ventre, dói na relação, mudou o corrimento?
A terceira é a que se apresenta como sangramento. Escape fora de data, sangramento após a relação, ou menstruação que virou dolorosa. Em usuária de anticoncepcional de baixa dosagem esse escape é comum e quase sempre banal — mas em uma paciente que também tem dor pélvica ele deixa de ser banal. Sangramento pós-coito, em particular, é um sinal de colo doente, e colo doente com dor no baixo-ventre é DIP até prova em contrário.
Quem muda o limiar
A adolescente. Risco três vezes maior de DIP aguda do que a mulher acima de 25 anos, mais anos reprodutivos em jogo e, com frequência, mais dificuldade de retorno. O que o protocolo brasileiro diz é que a adolescente, embora tenha mais risco de doença e de complicação, não precisa obrigatoriamente ser internada — mas isso vale só quando o seguimento está garantido de verdade, com data e com quem trazê-la. Adolescente sem retorno assegurado é critério de internação pela porta da dificuldade de seguimento, não pela idade.
A gestante. Toda gestante com suspeita ou com DIP confirmada é internada e recebe antibiótico intravenoso de amplo espectro imediatamente, porque o quadro se associa a risco alto de abortamento e corioamnionite. Doxiciclina e quinolona estão contraindicadas. Essa é a razão prática pela qual o beta-hCG vem antes do antibiótico e não depois: ele não muda apenas o diagnóstico, muda a via, o local e as drogas.
A usuária de dispositivo intrauterino. O risco atribuível ao dispositivo se concentra nos primeiros vinte dias após a inserção, e o que causa DIP nesse período é a infecção sexualmente transmissível já presente no momento da colocação, não o dispositivo em si. Passado esse prazo, ter DIU não é fator de risco relevante — e, o que mais importa na hora, não muda o tratamento inicial.
A imunossuprimida e a pessoa vivendo com HIV. O comportamento da doença é semelhante ao de quem tem imunidade preservada, com uma ressalva: forma-se abscesso tubo-ovariano com mais facilidade. Isso não indica internação por si só; indica imagem com limiar mais baixo e reavaliação mais atenta.
A mulher acima dos 40 anos e a que fez procedimento uterino recente. Nessas, gonococo e clamídia são causas menos prováveis, e ganham peso os germes entéricos. A conduta antimicrobiana empírica não muda, mas o diferencial se abre: diverticulite, apendicite e doença anexial não infecciosa competem com mais força.
A que já chega grave
Uma parte pequena chega com o quadro fechado do outro lado: febre alta com calafrio, taquicardia, vômitos que impedem a via oral, abdome com defesa e descompressão dolorosa no hipogástrio, massa anexial palpável e dolorosa. Aqui não há dúvida diagnóstica; há decisão de local. Essa paciente não vai para casa com receita: ela é internada, recebe antibiótico intravenoso e é reavaliada com imagem à procura de abscesso.
A forma extrema é o abscesso tubo-ovariano roto, que se apresenta como abdome agudo com peritonite difusa e instabilidade hemodinâmica, e que é emergência cirúrgica. Se o quadro evoluir com disfunção orgânica, a régua deixa de ser a deste capítulo e passa a ser a do capítulo de sepse: reconhecimento, hemoculturas, antibiótico na primeira hora, volume e reavaliação da perfusão. O que não muda é a origem: infecção pélvica com foco que pode precisar de drenagem, e foco não drenado não responde a antibiótico nenhum.
Como fechar o diagnóstico
Existe uma ordem, e ela não é a ordem em que os exames ficam prontos. Primeiro se afasta gravidez. Depois se faz o exame ginecológico completo, que é o que fecha o diagnóstico. Depois se colhe o que vai orientar a parceria e o rastreio. E o tratamento começa no meio disso, não no fim.
A régua que autoriza começar sem certeza está escrita em dois documentos. O Ministério da Saúde manda iniciar o tratamento o quanto antes, por menor que seja a suspeita. A diretriz nacional do Reino Unido recomenda um limiar baixo para tratamento empírico e diz por quê: atrasar o tratamento aumenta o risco de sequela a longo prazo, e não existe critério diagnóstico definitivo para esperar. As duas frases dizem a mesma coisa por caminhos diferentes — a decisão de tratar não é a decisão de saber.

Antes de tudo: beta-hCG
Toda mulher em idade fértil com dor pélvica ou no abdome inferior faz teste de gravidez. Não é um exame da lista; é a primeira linha do pedido, e ele vem antes de qualquer antibiótico. Laqueadura, dispositivo intrauterino, anticoncepcional em uso, menstruação recente e a informação de que não há atividade sexual não dispensam o exame.
Ele responde duas perguntas de uma vez. A primeira é diagnóstica: gravidez ectópica é o diferencial que mata, tem apresentação que se confunde com DIP e cursa com dor pélvica, sangramento fora de data e atraso menstrual que a paciente às vezes não percebeu. O manejo dela — a leitura seriada do beta-hCG, a zona discriminatória, a escolha entre metotrexato, conduta expectante e cirurgia — é assunto do capítulo de gravidez ectópica; o que este capítulo exige é que ela seja afastada antes, e afastá-la começa com um teste que fica pronto em minutos.
A segunda pergunta é terapêutica. Gestante com suspeita de DIP não recebe o esquema ambulatorial: ela é internada e recebe antibiótico intravenoso de amplo espectro, e doxiciclina está contraindicada. Um beta-hCG positivo, portanto, muda o local, a via e as drogas — três decisões que já teriam sido tomadas erradas se o exame viesse depois da receita.
Beta-hCG negativo não encerra o assunto de gravidez, mas encerra o assunto de hoje: com teste negativo e quadro compatível, a decisão passa a ser entre DIP e as outras causas de dor pélvica, e nenhuma delas exige esperar.
O exame que fecha o diagnóstico é o toque
O exame clínico da paciente com suspeita de DIP tem quatro partes obrigatórias, nesta ordem: sinais vitais completos, exame abdominal, exame especular e exame bimanual com mobilização do colo e palpação dos anexos. As duas primeiras quase todo interno faz. As duas últimas são as que decidem, e são as que ficam de fora.
O especular responde por inspeção o que nenhum exame de sangue responde. Você está procurando três coisas: secreção mucopurulenta saindo pelo orifício externo do colo, friabilidade do colo — isto é, sangramento fácil ao simples contato do swab — e conteúdo vaginal anormal. Qualquer uma delas é critério menor. É também o momento de colher material de endocérvice, e por isso o espéculo deve ser introduzido sem lubrificante em gel, aquecido em água corrente se necessário.
O bimanual é o exame que muda a noite. Dois dedos na vagina, a outra mão espalmada sobre o hipogástrio. Você faz três manobras e observa a reação da paciente em cada uma. Mobiliza o colo lateralmente, para um lado e para o outro: dor aqui é o achado clássico e é critério maior. Palpa os anexos entre as duas mãos, um de cada vez, procurando dor e procurando massa. E aprecia o fundo de saco posterior, que pode estar abaulado e doloroso quando há coleção.
Três detalhes de execução mudam o resultado. Peça que a paciente esvazie a bexiga antes — bexiga cheia dói e produz falso positivo em qualquer manobra. Comece pelo lado que ela diz doer menos, para ter um parâmetro de comparação antes de provocar a dor. E olhe para o rosto dela, não para a mão: o achado é a reação, e a reação acontece meio segundo antes de a paciente falar.
A parte que ninguém ensina é como pedir. O que trava o exame não costuma ser a técnica, é o constrangimento — o seu e o dela. A frase que resolve tem quatro partes: o que você vai fazer, por que sem isso o diagnóstico não fecha, que ela pode interromper a qualquer momento, e que haverá uma segunda pessoa na sala. Algo assim: "Preciso fazer um exame ginecológico, com o espéculo e depois com a mão. É ele que vai me dizer se a infecção subiu para o útero e para as trompas, e não existe exame de sangue que responda isso. Vai incomodar em alguns momentos, e é importante que a senhora me diga quando incomodar, porque essa informação faz parte do exame. Uma colega da enfermagem fica na sala comigo. Se quiser parar em qualquer momento, é só falar. Posso começar?"
Pular esse exame não é economizar tempo; é trocar o exame mais sensível do plantão por um hemograma. E é assim que o diagnóstico se perde: a paciente que só tem dor à mobilização do colo — sem febre, sem leucocitose, sem massa — é exatamente a que se beneficia de tratar cedo, e é a única em que o achado positivo depende inteiramente de alguém ter feito a manobra.
Os critérios, e por que eles são frouxos de propósito
O Ministério da Saúde organiza o diagnóstico clínico em critérios maiores, menores e elaborados, listados na tabela do bloco seguinte. A regra é simples: três critérios maiores mais um menor, ou um critério elaborado isolado.
Repare no que isso significa na prática. Os três maiores são todos do exame físico, e dois deles só existem se você fizer o bimanual. E o critério menor mais fácil de preencher é a secreção endocervical anormal, que você vê no especular. Uma paciente com dor no baixo-ventre, dor à mobilização do colo, dor anexial e corrimento cervical purulento já fecha o diagnóstico sem nenhum exame complementar — com um par de luvas e um espéculo.
Esse conjunto é deliberadamente permissivo, e vale dizer isso em voz alta em vez de tratá-lo como falha. A doença é subdiagnosticada, a sequela é irreversível e não existe teste de confirmação disponível no plantão. Um critério rigoroso protegeria o antibiótico e entregaria trompas. A escolha foi a inversa: aceitar tratar pacientes que não têm a doença para não deixar de tratar as que têm. O corolário é que os critérios servem para autorizar, não para vetar.
O que o laboratório responde — e o que ele não responde
Hemograma, proteína C reativa e velocidade de hemossedimentação entram como critérios menores quando alterados, e não valem nada quando normais. Isso não é uma opinião sobre exames: é a definição de critério menor. Eles se alteram na doença moderada a grave, e são normais em boa parte das pacientes com doença leve — que são a maioria. Leucograma normal jamais autoriza alta sem tratamento numa paciente que preencheu os critérios de exame físico.
O exame de urina e a urocultura servem a uma pergunta específica: afastar infecção do trato urinário, que é o diferencial mais comum e o mais frequentemente usado como desculpa para não fazer o exame ginecológico. Cuidado com a armadilha: piúria e bacteriúria assintomática convivem com DIP, e um exame de urina alterado não exclui infecção pélvica em quem tem dor à mobilização do colo.
A pesquisa de gonococo e clamídia por biologia molecular em material de endocérvice é o exame que dá nome ao agente. Um resultado positivo apoia o diagnóstico e organiza o tratamento da parceria e o rastreio; um resultado negativo não exclui DIP, porque o agente que subiu pode já não estar na endocérvice e porque em boa parte dos casos o agente principal nunca foi gonococo nem clamídia. O ponto é o tempo: esse exame demora dias, e o tratamento não espera por ele.
A bacterioscopia do conteúdo vaginal tem um uso assimétrico que vale conhecer. A ausência de piócitos no esfregaço corado tem bom valor preditivo negativo, em torno de 95%, e é um dos poucos achados que enfraquecem de verdade a hipótese; a presença deles, ao contrário, é inespecífica e tem valor preditivo positivo de apenas 17%. Serve para duvidar, não para confirmar.
E, porque toda DIP é porta de entrada para o resto: nesta mesma consulta se oferece testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C. Não é rastreio genérico — é conduta associada ao diagnóstico de uma infecção sexualmente transmissível, e o momento em que a paciente está na sua frente é o único momento garantido.
A imagem: quando e qual
O ultrassom transvaginal e pélvico é o exame de imagem de escolha, e ele não é pedido para confirmar DIP — é pedido para procurar complicação e para afastar o que a imagem afasta. O achado ultrassonográfico descrito como principal na DIP é uma fina camada líquida preenchendo a trompa, com ou sem líquido livre na pelve. É um sinal pouco sensível: ultrassom normal não exclui nada, e a diretriz britânica é explícita ao dizer que o método tem valor limitado na DIP não complicada.
O que ele responde bem é o que muda conduta: abscesso tubo-ovariano, hidrossalpinge, cisto ovariano com sinais de torção ou de rotura, e líquido livre em quantidade. Peça imagem sem demora quando houver massa anexial palpável, quadro grave, febre alta persistente, ou falha em melhorar depois de 72 horas de antibiótico. Nas demais, ele pode ser feito no seguimento sem atrasar o tratamento.
Tomografia e ressonância podem ajudar a separar DIP de outros diagnósticos, mas não são indicadas de rotina. Quando o problema for diferenciar de apendicite ou de diverticulite em paciente com quadro ambíguo, a tomografia entra pela porta do diferencial cirúrgico, não pela porta da DIP — e a decisão passa a ser compartilhada com a cirurgia.
O que não pedir, e o que custa pedir
Não peça laparoscopia para confirmar o diagnóstico em paciente estável. Ela é o padrão-ouro e é, por isso mesmo, a fonte da confusão: padrão-ouro que exige centro cirúrgico e anestesia geral não é exame de decisão. Ela entra em outra pergunta — quando o quadro não melhora e é preciso decidir entre diagnóstico errado, foco não drenado e necessidade de intervenção.
Não peça tomografia como triagem de dor pélvica em mulher jovem. Além de não responder à pergunta na maior parte das vezes, ela expõe a radiação uma pelve em idade reprodutiva por uma informação que o exame bimanual e a ultrassonografia entregam.
E não peça exame nenhum com a expectativa de que ele autorize a alta sem tratamento. Nenhum dos disponíveis exclui a doença — o que eles fazem, quando alterados, é somar critério menor.
O diferencial mora aqui dentro
Separar DIP das outras causas de dor pélvica não é uma etapa posterior ao diagnóstico: é a própria investigação. O exame que confirma um é quase sempre o que exclui outro, e por isso a tabela do bloco seguinte é de pares de pergunta e resposta, não de doenças soltas. Duas armadilhas dela merecem destaque: a gravidez ectópica é a única exclusão obrigatória antes de qualquer conduta, e a dor à mobilização do colo aparece em cerca de um quarto das mulheres com apendicite — ou seja, o achado não é exclusivo de DIP e não dispensa pensar no apêndice.
Duas fronteiras merecem uma frase própria. A primeira é o corrimento vaginal sem dor: vaginose bacteriana, candidíase e tricomoníase produzem corrimento, incômodo e às vezes dispareunia superficial, mas não produzem dor à mobilização do colo nem dor anexial. Corrimento é doença do trato genital inferior; DIP é doença do superior, e a manobra que separa os dois é a mesma de sempre. O manejo do corrimento pertence ao capítulo de corrimento vaginal.
A segunda é a dor abdominal indiferenciada. Quando não há foco pélvico definido — quando a dor não é de baixo ventre, quando não há dado ginecológico e quando o exame bimanual é normal —, a paciente pertence à abordagem do capítulo de dor abdominal no pronto-socorro, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência, que decide entre a sala, a maca de investigação e a alta com retorno. Aqui já se partiu de uma suspeita de foco pélvico, e a investigação começa pelo exame ginecológico.
O que existe no SUS
Está disponível em qualquer unidade que atenda essa paciente: teste rápido de gravidez, hemograma, proteína C reativa, exame de urina, urocultura e testes rápidos para HIV e sífilis. Com esse conjunto e com o exame ginecológico, o diagnóstico se faz e o tratamento começa. Nada do que falta impede tratar.
Tem disponibilidade desigual: ultrassonografia transvaginal fora do horário comercial e biologia molecular para clamídia e gonococo. A consequência prática é a mesma nos dois casos — nenhum deles é condição para iniciar o antibiótico. O ultrassom se agenda para o seguimento quando não há sinal de complicação; a biologia molecular se colhe se houver, e se não houver, o esquema empírico já cobre os dois agentes por construção.
O que precisa ser resolvido na hora, e não pode ser adiado, é a via. Ceftriaxona intramuscular exige uma unidade capaz de aplicar e observar; se a paciente vai ser tratada ambulatorialmente, a primeira dose é aplicada ali, na frente de quem prescreveu, e não entregue como receita para aplicar depois.
Da porta à decisão
A paciente com suspeita de DIP sai do atendimento por uma de três portas: internação, tratamento ambulatorial com retorno marcado, ou outro diagnóstico. O fluxo abaixo é a ordem em que essas portas se decidem — e ele foi montado de modo que o antibiótico não dependa de nenhum exame que demore.
- 1Sinais vitais completos, com temperatura aferida. Se houver instabilidade hemodinâmica, abdome com defesa difusa ou sinais de disfunção orgânica, a paciente sai da fila e vai para a sala: a régua passa a ser a do capítulo de sepse, e a hipótese de abscesso roto entra na frente.
- 2Teste de gravidez em toda mulher em idade fértil, sem exceção. Positivo muda tudo: internação, antibiótico intravenoso, doxiciclina proibida, e a gravidez ectópica passa a ser a primeira hipótese a afastar.
- 3Exame ginecológico completo: especular, procurando secreção mucopurulenta cervical e friabilidade do colo; e bimanual, com mobilização do colo e palpação dos anexos. É aqui que o diagnóstico se fecha ou não se fecha.
- 4Conte os critérios. Três maiores mais um menor, ou um elaborado, autorizam o diagnóstico. Dois maiores sem menor não excluem: nessa zona a decisão volta a ser sua, e os fatores de risco pesam.
- 5Colha o que orienta a parceria e o rastreio — material de endocérvice, testes rápidos de HIV e sífilis, sorologias de hepatites — e colha hemograma, proteína C reativa e exame de urina. Nenhum deles é condição para começar.
- 6Aplique a primeira dose do antibiótico ainda no serviço, na sua frente. Prescrição de ceftriaxona entregue para aplicar depois é prescrição que frequentemente não é aplicada.
- 7Decida o local pelos critérios de internação. Se for ambulatorial, a alta só sai com data e hora do retorno de 72 horas escritas na receita, com a parceria convocada e com a lista do que faz a paciente voltar antes.
Grau I — salpingite sem peritonite
Dor no baixo-ventre, dor à mobilização do colo e dor anexial, abdome sem defesa e sem descompressão. É o grau de tratamento ambulatorial e o grau em que a doença é reversível sem sequela na maioria das vezes. Também é o grau que mais recebe alta sem tratamento, porque é o que menos parece doente.
Grau II — salpingite com peritonite
O mesmo quadro com sinais de irritação peritoneal no hipogástrio: dor à descompressão, dor à tosse, paciente que evita mexer. Aqui já há material infectado no fundo de saco. É grau de internação e de antibiótico intravenoso — e é o degrau em que a decisão de local costuma ser tomada errada, para menos.
Grau III — complexo tubo-ovariano
Massa anexial palpável ou vista no ultrassom, com a tuba e o ovário formando um bloco: hidrossalpinge no subgrupo A, abscesso no subgrupo B. Internação obrigatória, imagem obrigatória. Abscesso é coleção — e coleção que não responde ao antibiótico precisa ser drenada, por punção guiada, culdotomia ou cirurgia.
Grau IV — abscesso roto
Peritonite difusa, com ou sem instabilidade. Emergência cirúrgica: laparotomia, e a régua de sepse rodando em paralelo. Não é um grau que se maneja com escalonamento de antibiótico — é um grau que se maneja chamando a cirurgia.
Critérios diagnósticos — três maiores mais um menor, ou um elaborado
| Grupo | Critério | O que ele exige de você |
|---|---|---|
| Maior | Dor no hipogástrio | Anamnese — é o motivo pelo qual ela está aí |
| Maior | Dor à palpação dos anexos | Exame bimanual, um lado de cada vez |
| Maior | Dor à mobilização do colo uterino | Exame bimanual: mobilizar o colo para os dois lados e olhar o rosto da paciente |
| Menor | Temperatura axilar acima de 37,5 °C ou retal acima de 38,3 °C | Termômetro na triagem — e aferir de novo, porque a primeira medida costuma ser a única |
| Menor | Conteúdo vaginal ou secreção endocervical anormal | Exame especular; é o critério menor mais fácil de preencher |
| Menor | Massa pélvica | Exame bimanual ou ultrassonografia |
| Menor | Mais de dez leucócitos por campo de imersão em material de endocérvice | Coleta de endocérvice e bacterioscopia |
| Menor | Leucocitose em sangue periférico | Hemograma — que é normal na maioria das formas leves |
| Menor | Proteína C reativa ou VHS elevadas | Sangue; alteram-se nas formas moderada e grave |
| Menor | Infecção cervical comprovada por gonococo, clamídia ou micoplasmas | Biologia molecular ou cultura; o resultado chega depois do tratamento começar |
| Elaborado | Evidência histopatológica de endometrite | Biópsia de endométrio — fora do plantão |
| Elaborado | Abscesso tubo-ovariano ou de fundo de saco em estudo de imagem | Ultrassonografia transvaginal; sozinho já fecha o diagnóstico |
| Elaborado | Laparoscopia com evidência de DIP | Centro cirúrgico; não é exame de decisão em paciente estável |
Critérios de tratamento hospitalar — e por que cada um muda o local
| Critério | Por que ele tira a paciente do ambulatório |
|---|---|
| Abscesso tubo-ovariano | É coleção. Precisa de imagem seriada e pode precisar de drenagem; antibiótico oral não alcança o interior de um abscesso |
| Gravidez | Risco de abortamento e corioamnionite; doxiciclina e quinolona proibidas; o esquema tem de ser intravenoso e de amplo espectro |
| Ausência de resposta clínica após 72 horas de antibiótico oral | Falha documentada. Muda a via, reabre o diagnóstico e obriga a procurar coleção |
| Intolerância a antibiótico oral | Um esquema de 14 dias que a paciente vomita não é tratamento |
| Dificuldade de seguimento ambulatorial | O tratamento depende de retorno em 72 horas. Sem retorno garantido, o esquema oral vira meia dose de sorte |
| Estado geral grave, com náuseas, vômitos e febre | Doença moderada a grave; a via intravenosa deixa de ser preferência e passa a ser necessidade |
| Dificuldade em excluir emergência cirúrgica | Apendicite e gravidez ectópica se parecem com DIP. Observar internada é mais barato que operar tarde |
O diferencial e o exame que separa
| Hipótese | O que a distingue da DIP | O exame que responde |
|---|---|---|
| Gravidez ectópica | Atraso menstrual, sangramento fora de data, dor unilateral; pode não haver nenhum desses | Beta-hCG — exclusão obrigatória antes de qualquer conduta |
| Apendicite aguda | Migração da dor para a fossa ilíaca direita, náusea e vômito na maioria; dor à mobilização do colo aparece em cerca de um quarto delas | Quadro clínico, imagem e avaliação cirúrgica |
| Torção de anexo ou de mioma | Instalação em segundos, dor intensa e desproporcional, vômitos | Ultrassonografia com Doppler, sem demora |
| Rotura de cisto ovariano | Instalação súbita, muitas vezes no meio do ciclo | Ultrassonografia com líquido livre |
| Infecção do trato urinário | Disúria e polaciúria dominando o quadro | Exame de urina e urocultura — que não excluem DIP quando há dor à mobilização do colo |
| Litíase ureteral | Dor em cólica com irradiação para a região lombar e a genitália | Exame de urina com hematúria; imagem |
| Endometriose e endometrioma roto | Sintomas ligados ao ciclo, história longa e recorrente | História; ultrassonografia |
| Diverticulite | Idade mais alta, dor à esquerda, alteração do hábito intestinal | Tomografia de abdome e pelve |
| Corrimento vaginal isolado | Corrimento e incômodo local sem dor à mobilização do colo e sem dor anexial | Exame especular e bimanual — o bimanual normal é o que separa |
O estadiamento acima é a classificação de Gainesville. Existe ainda o grau V, que é qualquer um dos graus anteriores associado a tuberculose genital — hipótese a levantar em quadro arrastado, com má resposta ao tratamento habitual e história epidemiológica compatível.
O estadiamento não substitui a decisão: ele descreve o que já aconteceu. A decisão de tratar se toma no grau I, antes de qualquer imagem, e é justamente essa decisão que impede a paciente de chegar ao grau III.
Dois maiores sem nenhum critério menor não excluem DIP. Esse é o ponto em que o protocolo devolve a decisão ao médico — e em que os fatores de risco valem mais que a contagem: idade abaixo de 25 anos, parceria nova, ausência de preservativo, infecção sexualmente transmissível prévia, procedimento uterino nos últimos vinte dias.
A conduta, hora a hora
Avaliar estabilidade, possibilidade de gravidez e diagnósticos alternativos antes de definir o regime. Suspeita de DIP com condições para acompanhamento permite tratamento empírico; gestação, gravidade, abscesso ou impossibilidade de tolerar o esquema exigem avaliação hospitalar. Os esquemas brasileiros e as apresentações estão detalhados abaixo. Reavaliar a resposta em até 72 horas, com retorno antecipado se piorar.
Todos os esquemas antimicrobianos citados abaixo são os do Quadro 44 do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com IST, do Ministério da Saúde, anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021. Os critérios de internação são os do Quadro 43 do mesmo documento. A disponibilidade de cada apresentação na rede foi conferida na Rename 2024, e as duas correções de apresentação estão sinalizadas no marco correspondente.
Uma regra vale para os três esquemas: monoterapia não trata DIP. A associação é obrigatória porque a infecção é polimicrobiana por construção, e porque o anaeróbio — que é justamente o que lesa a trompa — não é coberto por cefalosporina nem por tetraciclina. E, por resistência emergente e em expansão do gonococo ao ciprofloxacino, o Ministério da Saúde não recomenda tratamento empírico de DIP com quinolona.
A titulação da analgesia não é assunto deste capítulo: analgésicos e anti-inflamatórios são úteis, hidratação intravenosa está indicada se houver desidratação, e as doses e a escada de analgesia estão no capítulo de dor abdominal no pronto-socorro, na apostila de Síndromes do Paciente na Emergência. O que este capítulo exige é que a analgesia não seja adiada para "não mascarar o exame" — o exame que decide aqui é a dor à mobilização do colo, e ela não é mascarada por dipirona.
Minuto 0 a 15 — antes de qualquer receita
Sinais vitais completos com temperatura aferida, e a decisão de porta antes da decisão de droga. Se houver instabilidade, defesa difusa ou disfunção orgânica, a paciente vai para a sala e a régua passa a ser a de sepse. Se não houver, o passo seguinte é o teste de gravidez — que precede o antibiótico porque muda o antibiótico.
Prescrição- Teste rápido de gravidez ou beta-hCG em toda mulher em idade fértil, sem exceção
- Exame ginecológico completo: especular e bimanual com mobilização do colo e palpação dos anexos
- Acesso venoso periférico apenas se houver vômitos, desidratação, quadro grave ou indicação de via intravenosa
- Hemograma, proteína C reativa, exame de urina e urocultura; hemocultura se houver febre alta ou quadro grave
Hora 1 — o esquema ambulatorial, com a primeira dose aplicada no serviço
Aplica-se à paciente com quadro leve e exame abdominal e ginecológico sem sinais de pelviperitonite. A cefalosporina é aplicada ali, na sua frente: ceftriaxona entregue como receita para aplicar depois é a dose que mais falta no fim do tratamento. Os comprimidos saem com a quantidade contada, não com "uso contínuo".
Prescrição- PRIMEIRA OPÇÃO — Ceftriaxona 500 mg, via intramuscular, dose única, aplicada no serviço
- MAIS Doxiciclina 100 mg, 1 comprimido, via oral, de 12 em 12 horas, por 14 dias — 28 comprimidos no curso
- MAIS Metronidazol 250 mg, 2 comprimidos (500 mg por tomada), via oral, de 12 em 12 horas, por 14 dias — 56 comprimidos no curso, 1.000 mg por dia
- SEGUNDA OPÇÃO — Cefotaxima 500 mg, via intramuscular, dose única, mantendo doxiciclina e metronidazol nas mesmas doses e durações
- Se a unidade só tiver frasco de ceftriaxona de 1 g: reconstituir e aplicar metade da dose. A Rename 2024 traz os frascos de 250 mg, 500 mg e 1 g, todos no componente Básico
- Se a unidade só tiver metronidazol em comprimido de 400 mg: 1 comprimido de 12 em 12 horas por 14 dias — 28 comprimidos, 800 mg por dia. É a posologia da diretriz nacional britânica, evita partir comprimido e entrega 25% menos de metronidazol por dia que o esquema do Ministério da Saúde
- Doxiciclina é contraindicada na gestação e na lactação. Na Rename 2024 ela está no componente Estratégico, não no Básico — se não estiver na prateleira da unidade, o caminho é a farmácia que recebe o componente estratégico, não a troca por outro antibiótico
Hora 1 — quando a porta é a internação
Vale para abscesso tubo-ovariano, gestação, ausência de resposta após 72 horas de antibiótico oral, intolerância à via oral ou dificuldade de seguimento, estado geral grave com náuseas, vômitos e febre, e dificuldade de excluir emergência cirúrgica. O antibiótico intravenoso começa na admissão, sem esperar imagem.
Prescrição- PRIMEIRA OPÇÃO — Ceftriaxona 1 g, via intravenosa, 1 vez ao dia
- MAIS Doxiciclina 100 mg, 1 comprimido, via oral, de 12 em 12 horas (a via oral da doxiciclina é preferida sempre que tolerada)
- MAIS Metronidazol por via intravenosa. O Quadro 44 registra 400 mg de 12 em 12 horas, mas 400 mg é a força do comprimido: a apresentação injetável disponível no Brasil é bolsa de 100 mL com 500 mg (5 mg/mL). Prescreva a bolsa — metronidazol 500 mg, via intravenosa, de 8 em 8 horas, em infusão de cerca de 20 minutos, que é a posologia adulta da própria bula —, e passe para 400 mg por via oral três vezes ao dia assim que a paciente tolerar
- SEGUNDA OPÇÃO — Clindamicina 900 mg, via intravenosa, 3 vezes ao dia (2.700 mg por dia) MAIS gentamicina 3 a 5 mg/kg, via intravenosa ou intramuscular, 1 vez ao dia — para 60 kg, 180 a 300 mg por dia
- TERCEIRA OPÇÃO — Ampicilina/sulbactam 3 g, via intravenosa, de 6 em 6 horas (12 g por dia) MAIS doxiciclina 100 mg, via oral, de 12 em 12 horas
- Escolhida a segunda opção, a cobertura para clamídia precisa ser garantida na transição: mantenha ou acrescente doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas para completar os 14 dias. Clindamicina e gentamicina não cobrem Chlamydia trachomatis
- Gestante: internação e esquema intravenoso de amplo espectro, com doxiciclina e quinolona proibidas — a escolha recai sobre a associação que não as contenha
Ainda na primeira consulta — o que sai junto com a receita
Prescrição isolada é metade do tratamento. O que impede a reinfecção, o que evita a segunda perda de trompa e o que descobre a outra infecção que a paciente tem sem saber é tudo decidido aqui, enquanto ela ainda está na sua frente.
Prescrição- Parcerias sexuais dos dois meses anteriores ao diagnóstico, sintomáticas ou não: ceftriaxona 500 mg via intramuscular MAIS azitromicina 1 g via oral (2 comprimidos de 500 mg), ambas em dose única
- Abstinência sexual até a cura clínica, dela e da parceria — e não apenas uso de preservativo
- Testagem para HIV, sífilis e hepatites B e C nesta consulta, com teste rápido quando disponível; sífilis adquirida e sífilis em gestante são de notificação compulsória, e o manejo das demais infecções sexualmente transmissíveis pertence ao capítulo de sífilis e outras IST
- Não beber álcool durante o uso de metronidazol e por pelo menos 24 horas após a última dose, pelo risco de reação do tipo dissulfiram
- Usuária de dispositivo intrauterino: não é necessário remover. Se houver indicação de remoção por outro motivo, ela nunca precede o antibiótico — só depois de duas doses do esquema. Orientar método de barreira e não usar ducha vaginal
- Data e hora do retorno de 72 horas escritas na receita, não combinadas de viva-voz
- Lista do que faz voltar antes: febre nova ou que sobe, vômito que impede tomar o comprimido, dor que piora, aumento do volume abdominal, ou desmaio
72 horas — o marco que descobre a falha
A melhora clínica deve acontecer nos três primeiros dias de antibiótico. Esse retorno não é cortesia: é o momento em que se descobre que o esquema falhou, que existe abscesso, ou que o diagnóstico era outro. Ausência de resposta em 72 horas com esquema oral é, por si só, critério de internação. O que fazer com cada achado está no bloco seguinte.
Prescrição- Reexaminar o abdome e refazer o exame bimanual — a comparação com o exame da admissão é o dado, não o exame isolado
- Conferir adesão de verdade: quantos comprimidos sobraram na cartela
- Conferir se a parceria foi tratada
- Ultrassonografia transvaginal e pélvica se não houver melhora, à procura de abscesso tubo-ovariano
Dia 14 — o fim do curso, e a transição de via
O curso é de 14 dias em todos os esquemas, por qualquer via. Na paciente internada, o uso parenteral é suspenso 24 horas após a cessação dos sintomas e a terapia continua por via oral até completar os 14 dias — a menção a 14 dias de via intravenosa no quadro do protocolo descreve a duração total do tratamento, não a permanência da veia. A cura é clínica: o desaparecimento dos sinais e sintomas.
Prescrição- Completar 14 dias de tratamento, contados do primeiro dia — começando numa segunda-feira, o último dia cai no domingo da semana seguinte
- Suspender a via parenteral 24 horas após a cessação dos sintomas e completar por via oral
- Não repetir curso de antibiótico por achado bacteriológico isolado: cerca de 40% das mulheres ainda apresentam um ou mais agentes bacterianos aos 30 dias, segundo o estudo PEACH, e isso não define falha
Primeira semana e 30 dias — o seguimento que fecha o caso
Uma consulta de retorno na primeira semana após a alta hospitalar, e uma segunda aos 30 dias. É nesse intervalo que se confirma a cura clínica, que se recolhe o resultado da biologia molecular e das sorologias, que se verifica se a parceria foi de fato tratada, e que se retoma a conversa sobre contracepção e prevenção — que é a conversa que evita o segundo episódio.
Prescrição- Confirmar cura clínica: ausência de dor à mobilização do colo e de dor anexial no exame bimanual
- Ler e agir sobre os resultados pendentes: biologia molecular, cultura, HIV, sífilis, hepatites
- Confirmar tratamento da parceria; se não foi tratada, tratar agora, porque reinfecção é o mecanismo mais comum de segundo episódio
- Retomar contracepção e prevenção combinada, incluindo preservativo e vacinação para HPV e hepatite B quando indicadas
- Registrar o diagnóstico no prontuário com essas palavras — "doença inflamatória pélvica" —, porque é esse registro que, daqui a dez anos, vai explicar uma histerossalpingografia alterada
Como saber se está funcionando
A melhora clínica deve acontecer nos três primeiros dias de antibiótico. Esse é o prazo do Ministério da Saúde, e a diretriz nacional britânica recomenda a mesma coisa por outro caminho: revisão em 72 horas para quem tem sintomas moderados ou graves, porque a falta de melhora indica necessidade de nova investigação, de terapia parenteral ou de intervenção cirúrgica. Setenta e duas horas, portanto, não é um prazo confortável — é o prazo em que a falha ainda é reversível.
O parâmetro que confirmou o diagnóstico é o parâmetro que acompanha a resposta. Se a paciente entrou com dor à mobilização do colo, é a dor à mobilização do colo que precisa ceder — e conferir isso exige refazer o bimanual no retorno, com a mesma técnica e, de preferência, pela mesma pessoa. Um exame isolado descreve um instante; a comparação entre dois exames é que diz para onde a curva aponta.
Vale dizer o óbvio, porque é o que mais se erra: cura em DIP é clínica. Não existe teste de cura de rotina. Cerca de 40% das mulheres ainda têm um ou mais agentes bacterianos identificáveis aos 30 dias, e isso não significa falha nem indica novo curso de antibiótico.
Esperado: Redução clara em relação ao exame da admissão: a paciente tolera a mobilização que antes a fazia recuar, e a dor anexial diminuiu dos dois lados
Se não melhora: Dor igual ou pior às 72 horas é falha, e falha com esquema oral é critério de internação por si só. Antes de trocar antibiótico, faça três perguntas nesta ordem: o diagnóstico está certo, existe coleção, e o esquema está sendo tomado? Massa nova ou dor que se lateralizou pede ultrassonografia transvaginal no mesmo dia.
Esperado: Queda progressiva, com a paciente afebril em até 72 horas de antibiótico adequado
Se não melhora: Febre que persiste depois de 72 horas de esquema correto é sinal de foco não drenado até prova em contrário — abscesso tubo-ovariano ou coleção em fundo de saco. Peça imagem antes de trocar a droga: escalonar antibiótico não drena coleção. Se houver disfunção orgânica associada, a régua passa a ser a do capítulo de sepse, e a de febre em paciente internado cobre o diferencial de outras causas de febre em quem já está no leito.
Esperado: Defesa e dor à descompressão que estavam presentes desaparecem; nada de novo aparece
Se não melhora: Defesa nova, dor à descompressão nova ou abdome que se distende é indicação de avaliação cirúrgica imediata, sem esperar a próxima janela de reavaliação. Rotura de abscesso tubo-ovariano se apresenta assim, e ela é emergência de centro cirúrgico.
Esperado: Cerca de 6 comprimidos de doxiciclina e 12 de metronidazol consumidos ao fim do terceiro dia
Se não melhora: Adesão a esquema de duas semanas em DIP é reconhecidamente ruim, e não melhorar por não ter tomado não é falha do antibiótico. Se o motivo foi náusea ou intolerância, a saída não é reduzir dose: é internar para via intravenosa, que é um dos critérios formais de tratamento hospitalar. Se o motivo foi não conseguir o medicamento, resolva a via de acesso — a doxiciclina vem pelo componente estratégico, não pela prateleira comum.
Esperado: Ausente na admissão e permanecendo ausente; quando presente, redução do volume e da dor sob antibiótico intravenoso
Se não melhora: Massa anexial que não responde ao tratamento, ou que cresce, indica drenagem. As opções descritas no protocolo são a punção transabdominal guiada por ultrassonografia, a culdotomia quando o abscesso ocupa o fundo de saco de Douglas, e a laparotomia nas massas não responsivas ou que se rompem. A laparoscopia entra aqui — não para confirmar o diagnóstico, mas para tratar o que o antibiótico não alcança.
Esperado: Parceria dos dois meses anteriores tratada com ceftriaxona e azitromicina, e abstinência mantida até a cura clínica dos dois
Se não melhora: Parceria não tratada é a causa mais comum de recidiva precoce, e recidiva é o mecanismo pelo qual a taxa de infertilidade sobe. Se a paciente não conseguiu levar o parceiro, ofereça convocar pelo serviço, com o consentimento dela. Comunicação à parceria é voluntária e não pode ser imposta à paciente.
Esperado: Tendência de queda acompanhando a melhora clínica
Se não melhora: Não use esses marcadores para decidir alta nem para prolongar antibiótico. Eles não definem cura, e valor normal com exame bimanual ainda doloroso significa exame bimanual ainda doloroso. Quando o número e o exame discordam, o exame vence.
Onde o erro machuca
O dano: Dois dos três critérios maiores só existem no bimanual. Sem eles, a paciente com doença leve — que é a maioria — não preenche critério nenhum, sai com diagnóstico de dor pélvica inespecífica e leva a infecção para casa. O dano é silencioso: a trompa fibrosa sem doer, e a conta chega dez anos depois, numa investigação de infertilidade que ninguém consegue datar.
Como pegar a tempo: Trate o especular e o bimanual como parte obrigatória do exame de qualquer mulher com dor no baixo-ventre, do mesmo modo que ausculta faz parte do exame de quem tem dispneia. Se faltar mesa, luva ou acompanhante, resolva isso — não substitua o exame por um hemograma. E use a frase pronta: dizer o que vai fazer, por que sem isso o diagnóstico não fecha, que ela pode interromper, e que haverá uma segunda pessoa na sala.
O dano: Gravidez ectópica se apresenta com dor pélvica, sangramento fora de data e exame ginecológico pouco esclarecedor — e a paciente liberada com receita de antibiótico volta em choque hemorrágico. Na gestante com DIP verdadeira o erro é outro e igualmente caro: doxiciclina é contraindicada, o tratamento é intravenoso e a paciente deveria estar internada.
Como pegar a tempo: Transforme em automatismo do pedido, não em julgamento clínico: toda mulher entre a menarca e a menopausa com dor pélvica tem teste de gravidez antes da primeira dose. Laqueadura, dispositivo intrauterino, pílula em uso e a informação de que não há atividade sexual não dispensam o exame.
O dano: Cultura e biologia molecular demoram dias, e cada dia é dia de inflamação em epitélio ciliado que não regenera. O atraso não muda o desfecho de hoje — muda o desfecho reprodutivo, que é o único desfecho que essa doença cobra.
Como pegar a tempo: Colha e trate no mesmo atendimento, nessa ordem. O resultado, quando chegar, serve para orientar a parceria, o rastreio e a vigilância; raramente muda o esquema já iniciado. E lembre que o esquema empírico já cobre gonococo, clamídia e anaeróbio por construção.
O dano: Leucograma, proteína C reativa, exame de urina e ultrassonografia normais convivem, todos ao mesmo tempo, com DIP em atividade. Quando um deles vira o argumento da alta sem tratamento, o que aconteceu foi trocar um exame físico que estava dizendo alguma coisa por um número que não respondeu à pergunta.
Como pegar a tempo: Escreva a conduta antes de olhar o hemograma. Se, com os resultados normais na mão, você mudaria a decisão, pergunte-se qual dado novo justificaria isso — e perceba que não há nenhum: eles são critérios menores, e critério menor normal não exclui.
O dano: Nenhum agente isolado cobre gonococo, clamídia e anaeróbio, e o anaeróbio é justamente o que lesa a trompa. A combinação de doxiciclina com metronidazol sem cefalosporina tem base de evidência limitada e taxas relevantes de falha; o acréscimo da cefalosporina melhora o desfecho. Azitromicina em dose única, sozinha, não trata DIP — ela trata a parceria.
Como pegar a tempo: Prescreva as três drogas juntas, sempre. E não substitua a cefalosporina injetável por cefalosporina oral: os níveis teciduais são mais baixos e não há ensaio que sustente a troca.
O dano: A rede nacional de vigilância da resistência do gonococo encontrou alta resistência ao ciprofloxacino no Brasil, e por isso o Ministério da Saúde não recomenda tratamento empírico de DIP com quinolona. Tratar assim é entregar uma receita que a paciente vai cumprir por 14 dias enquanto a infecção segue subindo.
Como pegar a tempo: Use os esquemas do protocolo. Quinolona em DIP no Brasil não é alternativa de conveniência — é fora de recomendação, e as diretrizes que ainda a citam o fazem em países com prevalência de gonococo abaixo de 3% e com o alerta de eventos adversos graves em tendões, músculos e sistema nervoso.
O dano: Remover o dispositivo antes da cobertura antimicrobiana manipula um trato genital infectado sem proteção. Não há benefício demonstrado que justifique o risco, e a paciente ainda sai sem método contraceptivo no meio de um episódio agudo.
Como pegar a tempo: Comece o antibiótico e deixe o dispositivo onde está. Se houver indicação real de remoção, ela só acontece depois de duas doses do esquema terapêutico — e a conversa sobre método de barreira e sobre contracepção entra na mesma consulta.
O dano: O retorno de 72 horas é o único mecanismo que detecta falha de esquema e abscesso em formação enquanto ainda dá tempo. E parceria não tratada é a causa mais comum de recidiva precoce — cada novo episódio soma risco de infertilidade sobre uma trompa que já perdeu reserva.
Como pegar a tempo: Escreva data e hora do retorno na receita, não combine de viva-voz. Convoque as parcerias dos dois meses anteriores para ceftriaxona 500 mg intramuscular mais azitromicina 1 g por via oral em dose única, com o consentimento da paciente, e oriente abstinência sexual até a cura clínica dos dois.
O que dizer ao paciente e à família
Duas conversas decidem o desfecho desta doença, e nenhuma delas é sobre antibiótico. A primeira é a que consegue o exame ginecológico. A segunda é a que faz a paciente tomar 84 comprimidos ao longo de duas semanas, voltar em 72 horas e trazer o parceiro — sem que nada disso doa mais do que já dói.
O erro de linguagem que mais custa aqui é o julgamento disfarçado de anamnese. Perguntar "quantos parceiros?" com o tom errado encerra a consulta: a paciente passa a responder o que acha que você quer ouvir, e a informação que faltava — a parceria nova, o preservativo que não é usado, o corrimento de duas semanas atrás — não aparece mais. A pergunta que funciona é neutra e específica, e vem depois de uma frase que tira o peso: isso é comum, acontece com muita gente, e a resposta muda o tratamento.
A paciente que não quer fazer o exame ginecológico
“Eu entendo, e a senhora pode recusar — a decisão é sua e não muda em nada o meu atendimento. Só preciso que a senhora saiba o que a gente perde. A dor que a senhora está sentindo pode estar no útero e nas trompas, e o único jeito de eu saber isso hoje é com esse exame: nenhum exame de sangue responde. Se a infecção estiver lá e a gente não tratar agora, o risco é de ficar uma cicatriz nas trompas, e é isso que depois dificulta engravidar. Podemos fazer do jeito que for melhor: com a enfermeira do meu lado, com a senhora podendo parar a qualquer momento, e eu falando antes de cada coisa que eu for fazer. Se preferir, eu espero a senhora pensar e volto em dez minutos.”
Não diga: Se a senhora não deixar examinar, não tenho como ajudar. É rapidinho, nem vai sentir. Todo mundo faz.
Explicar por que se trata sem ter certeza
“Vou começar hoje um tratamento com antibiótico, e quero ser honesto sobre uma coisa: eu não tenho um exame que prove que a senhora tem essa infecção. Esse exame não existe fora de uma cirurgia, e não faz sentido operar alguém para descobrir. O que eu tenho são os sinais do exame que acabei de fazer, e eles apontam para infecção no útero e nas trompas. A escolha que eu faço aqui é a seguinte: se eu tratar e a senhora não tiver, a senhora tomou um antibiótico à toa por duas semanas. Se eu não tratar e a senhora tiver, pode ficar uma sequela nas trompas que não tem volta. Entre os dois erros, eu prefiro correr o primeiro — e é o que eu faria com alguém da minha família.”
Não diga: É melhor prevenir. Vou passar um antibiótico só por garantia. Provavelmente não é nada, mas toma aí.
A conversa da parceria, e a pergunta "foi ele que me passou?"
“Essa infecção quase sempre vem por via sexual, e por isso o seu parceiro precisa ser tratado também, mesmo que ele não sinta nada — e na maior parte das vezes ele não sente. Não dá para dizer quem passou para quem, nem quando: essa infecção pode ficar meses sem dar sintoma nenhum, nos dois. O que eu posso dizer é o seguinte: se ele não tratar, a senhora se reinfecta, e é a repetição que estraga as trompas. São duas medicações, uma injeção e dois comprimidos, tudo em dose única, e ele não precisa esperar exame. A senhora prefere levar a receita e conversar com ele, ou quer que o serviço entre em contato? Quem decide isso é a senhora. E até os dois terminarem o tratamento, sem relação sexual — nem com camisinha.”
Não diga: Foi seu parceiro que te passou isso. Ele te traiu. Você precisa trazer ele aqui, senão não adianta nada.
A pergunta sobre fertilidade, quando ela aparece
“Essa é uma pergunta importante e eu vou responder direto. Essa infecção pode deixar cicatriz nas trompas e, em parte das mulheres, isso dificulta engravidar depois — os números na literatura variam de mais ou menos uma em dez a duas em dez. O que reduz esse risco é exatamente o que a gente está fazendo hoje: tratar cedo. O que aumenta é ter um episódio novo, e é por isso que eu insisto tanto no tratamento do seu parceiro e na camisinha. Hoje eu não tenho como dizer se a senhora ficou com alguma sequela, e nenhum exame de agora responde isso. O que eu sei é que quanto mais cedo trata, menor o risco — e a senhora chegou hoje.”
Não diga: Fica tranquila, isso não dá nada. Você pode ficar estéril. Depois a gente vê se você consegue engravidar.
A alta com o retorno de 72 horas
“A senhora vai para casa com a medicação, mas quero marcar uma coisa: quinta-feira, às nove da manhã, aqui, a senhora volta para eu examinar de novo. Não é para pegar exame, é para eu comparar com o exame de hoje — é assim que eu descubro se o remédio está funcionando. Anotei a data na receita. E tem quatro coisas que fazem a senhora voltar antes, a qualquer hora: se aparecer febre ou ela subir, se a dor piorar em vez de melhorar, se a senhora vomitar e não conseguir tomar o comprimido, ou se a barriga inchar. Pode me repetir quais são, só para eu ter certeza de que ficou claro?”
Não diga: Toma o remédio direitinho e, se piorar, procura um médico. Volta daqui a 14 dias para reavaliação.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
500 mg por via intramuscular, em dose única
É a dose do esquema de primeira opção para tratamento ambulatorial de DIP no Brasil, associada a doxiciclina e metronidazol por 14 dias. É também a dose brasileira para as demais infecções gonocócicas, e a que está prevista na apresentação de 500 mg disponível na rede.
Ministério da Saúde, PCDT para Atenção Integral às Pessoas com IST, Quadro 44 (anexo da Portaria SCTIE/MS nº 12/2021)
1 g por via intramuscular, em dose única
A atualização britânica de 2019 elevou a dose de ceftriaxona no tratamento da DIP para 1 g, acompanhando a mudança feita no guideline nacional de gonorreia. A justificativa não é a DIP em si: é a queda de suscetibilidade do gonococo às cefalosporinas, que recomenda maximizar níveis teciduais.
Ross J et al., UK National Guideline for the Management of Pelvic Inflammatory Disease, atualização interina de 2019, BASHH, terapia ambulatorial de primeira linha, grau 1A
Dose ajustada ao peso
O guia norte-americano de 2021 passou a recomendar ceftriaxona intramuscular em dose aumentada e ajustada ao peso corporal, junto de doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas e metronidazol 500 mg de 12 em 12 horas, ambos por 14 dias.
Workowski KA et al., Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, MMWR Recomm Rep. 2021;70(4), conforme reproduzido em Am Fam Physician. 2022;105(5):514-519
No Brasil, prescreva 500 mg: é a dose do protocolo que rege o serviço, e é a apresentação que a farmácia entrega. A divergência vira decisão em duas situações. Quando a unidade só tem frasco de 1 g e a paciente tem alto risco de gonococo — parceria com gonorreia confirmada, quadro clínico exuberante, contato sexual recente no exterior —, aplicar o frasco inteiro é defensável e nenhum dos documentos o desaconselha. E quando a paciente pesa bem acima da média, o argumento de nível tecidual do guia americano ganha força. Fora disso, o ganho de dobrar a dose é teórico, e a energia é mais bem gasta garantindo que a paciente complete os 14 dias de doxiciclina — que é onde o tratamento realmente falha.
Sempre, como parte fixa do esquema
No protocolo brasileiro o metronidazol integra as três opções de tratamento, ambulatorial e hospitalar, sem cláusula de dispensa. O fundamento é a teoria de Monif: a infecção evolui para anaerobiose, e o anaeróbio — em especial o Bacteroides fragilis — é agente de lesão tubária. O guia americano seguiu o mesmo caminho ao incorporar o metronidazol ao esquema recomendado em 2021.
Ministério da Saúde, PCDT IST, seção 10.3.1 e Quadro 44; e MMWR Recomm Rep. 2021;70(4), conforme reproduzido em Am Fam Physician. 2022;105(5):514-519
Pode ser suspenso na doença leve ou moderada em quem não o tolera
A diretriz britânica trata o metronidazol como acréscimo para melhorar a cobertura anaeróbia e registra que os anaeróbios têm importância relativamente maior na doença grave — motivo pelo qual ele pode ser descontinuado em pacientes com DIP leve ou moderada que não conseguem tolerá-lo. A mesma diretriz lista a utilidade do metronidazol como adjuvante na doença leve a moderada entre as questões abertas para pesquisa futura.
Ross J et al., UK National Guideline for the Management of PID, atualização interina de 2019, BASHH, seção de regimes recomendados e recomendações para pesquisa futura
A pergunta não é se o metronidazol ajuda — é o que fazer com a paciente que vomita com ele. Comece sempre com o esquema completo. Se surgir intolerância real, o cálculo é de adesão: um esquema de três drogas que a paciente abandona no quinto dia protege menos que um esquema de duas que ela completa. Nessa situação, a saída ordenada é tentar primeiro a apresentação de 400 mg de 12 em 12 horas, que entrega menos metronidazol por dia e costuma ser mais bem tolerada; depois, considerar a suspensão apenas se o quadro for leve, o exame estiver melhorando às 72 horas e a paciente tiver retorno garantido. Doença moderada ou grave, abscesso e gestação não entram nessa conta: aí a cobertura anaeróbia não é negociável, e a via passa a ser a intravenosa.
Fica, e a remoção só depois de duas doses do antibiótico
Na paciente usuária de dispositivo intrauterino não há necessidade de remoção. Havendo indicação por outro motivo, a retirada não deve ser anterior à instituição da antibioticoterapia, e só deve ser feita após duas doses do esquema terapêutico, com orientação sobre métodos de barreira.
Ministério da Saúde, PCDT IST, seção 10.9.1
Fica, mas sai se não houver melhora significativa em 48 a 72 horas
A evidência de ensaios randomizados sobre manter ou retirar o dispositivo é limitada. Na DIP leve a moderada, ele pode ser mantido, com revisão em 48 a 72 horas e retirada se não tiver havido melhora clínica significativa — e a decisão de retirar precisa ser pesada contra o risco de gravidez em quem teve relação desprotegida nos sete dias anteriores.
Ross J et al., UK National Guideline for the Management of PID, atualização interina de 2019, BASHH, seção de complicações
As duas posições concordam no começo: não se retira o dispositivo antes do antibiótico, nunca. Elas se separam no que fazer quando o quadro não melhora, e é aí que a decisão é sua. Se às 72 horas a dor à mobilização do colo continua igual, você já vai reabrir o caso de qualquer forma — procurar abscesso, revisar diagnóstico, considerar internação —, e retirar o dispositivo nesse momento é um passo coerente com essa revisão, não uma contradição com o protocolo. O que pesa do outro lado é concreto e frequentemente esquecido: a paciente sai sem método contraceptivo, e se houve relação desprotegida nos sete dias anteriores é preciso oferecer contracepção de emergência antes de retirar.
Ceftriaxona 500 mg intramuscular mais azitromicina 1 g por via oral, em dose única
As parcerias dos dois meses anteriores ao diagnóstico, sintomáticas ou não, devem ser tratadas empiricamente para Neisseria gonorrhoeae e Chlamydia trachomatis com esse esquema. A vantagem é operacional e decisiva: é dose única, aplicada e tomada no serviço, sem depender de o parceiro cumprir sete ou quatorze dias de comprimido.
Ministério da Saúde, PCDT IST, seção 10.6
Doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por sete dias, com janela de rastreio de seis meses
A diretriz britânica recomenda rastrear parcerias dos seis meses anteriores ao início dos sintomas e, como boa parte dos casos não se associa a gonococo, clamídia ou Mycoplasma genitalium, oferecer terapia empírica de amplo espectro ao parceiro com doxiciclina por uma semana. A mesma diretriz desaconselha azitromicina em dose única quando possível, porque ela pode induzir resistência a macrolídeo em M. genitalium.
Ross J et al., UK National Guideline for the Management of PID, atualização interina de 2019, BASHH, seções de notificação de parcerias e de regimes alternativos
Decida pela probabilidade de o parceiro completar o tratamento, não pela elegância do esquema. Parceiro que está ali, no corredor, hoje: dose única, agora, aplicada por você — é o esquema do protocolo brasileiro e é o único que tem chance de ser cumprido. Parceiro que já é acompanhado no serviço, que vem à consulta e que tem seguimento: o curso de sete dias cobre melhor a clamídia e evita a pressão de seleção sobre o micoplasma. E, seja qual for a escolha, a janela brasileira de dois meses é o mínimo, não o máximo — se a história aponta parceria nova há quatro ou cinco meses, ela entra na convocação.
O raciocínio, em voz alta
Volte a Larissa Andrade, 22 anos, 21h de uma quinta-feira. Dor no baixo-ventre há três dias, começou de um lado e pegou os dois. Corrimento amarelado com odor há dois dias, dispareunia de profundidade ontem, mancha de sangue fora de data hoje. Última menstruação há 18 dias. Anticoncepcional oral com dois esquecimentos no mês passado, parceiro fixo há oito meses, preservativo quase nunca. Pressão 112 por 70, frequência cardíaca 92, temperatura axilar 37,6 °C. Abdome flácido, doloroso à palpação profunda nos dois quadrantes inferiores, sem defesa, sem descompressão.
o que penso agora
Antes de qualquer hipótese, verifico se ela tem critério de sala: não tem — está estável, sem defesa, sem sinal de disfunção. Então penso na tríade que organiza a mulher jovem com dor no baixo-ventre: gravidez ectópica, apendicite e DIP. A dor bilateral e gradual afasta um pouco o apêndice, que costuma migrar e localizar. E três dados da história pesam a favor de infecção do trato genital superior: corrimento novo, dispareunia de profundidade e sangramento fora de data.
o que peço primeiro
Teste de gravidez, antes de tudo e antes de qualquer receita. Não porque a história sugira gestação — ela menstruou há 18 dias —, mas porque dois esquecimentos de pílula existem, porque a ectópica é a exclusão que mata e porque o resultado muda o local, a via e as drogas. Vem negativo.
o exame que decide
Explico o exame, chamo a técnica de enfermagem para a sala e peço que ela esvazie a bexiga. No especular: colo com secreção mucopurulenta saindo pelo orifício externo e sangramento fácil ao toque do swab. Colho material de endocérvice. No bimanual, começando pelo lado que ela diz doer menos: dor à mobilização do colo para os dois lados, com ela recuando na maca antes de falar; dor à palpação dos dois anexos; sem massa; fundo de saco livre.
como a resposta muda o que penso
Conto os critérios. Maiores: dor no hipogástrio, dor à palpação dos anexos, dor à mobilização do colo — três. Menores: temperatura axilar de 37,6 °C e secreção endocervical anormal — dois, e bastaria um. O diagnóstico está fechado pelos critérios do Ministério da Saúde, e ele foi fechado sem nenhum exame de sangue, com um espéculo e um par de luvas. Repare no que aconteceria se eu tivesse parado no exame do abdome: eu teria zero critério maior confirmado e uma paciente com "dor abdominal a esclarecer".
o que peço e o que não espero
Peço hemograma, proteína C reativa, exame de urina e urocultura, e ofereço testes rápidos para HIV e sífilis mais sorologias de hepatites B e C. Não espero nenhum deles para tratar. Não peço ultrassonografia agora: não há massa palpável, não há gravidade, e ela não muda a conduta desta noite. O hemograma vem com 9.400 leucócitos e a proteína C reativa com 22 mg/L — normais o bastante para não somarem critério, e irrelevantes para a decisão que já foi tomada.
a decisão
Quadro leve, exame abdominal e ginecológico sem sinais de pelviperitonite, tolera via oral, tem como voltar: tratamento ambulatorial. Ceftriaxona 500 mg intramuscular aplicada agora, na minha frente. Doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas por 14 dias, 28 comprimidos. Metronidazol 250 mg, 2 comprimidos, de 12 em 12 horas por 14 dias, 56 comprimidos. Sem álcool durante e por 24 horas após o metronidazol. Retorno na segunda-feira às 9h, escrito na receita. O parceiro é convocado para ceftriaxona 500 mg intramuscular mais azitromicina 1 g por via oral em dose única, com o consentimento dela, e os dois ficam sem relação sexual até a cura clínica. Anoto no prontuário, com todas as letras: doença inflamatória pélvica.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do retorno de Larissa: em 48 horas a dor diminuiu, ela está afebril e consegue tomar os medicamentos. Conferir doses efetivamente recebidas, efeitos adversos e tratamento das parcerias; manter o curso completo e os cuidados para evitar reexposição. Melhora não significa que pode interromper os comprimidos.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se em 72 horas não houver melhora, ou antes disso aparecerem vômitos, febre alta ou piora da dor, reavaliar diagnóstico, adesão, abscesso e necessidade de internação. Não apenas acrescentar mais um antibiótico à receita. Uma gestação ectópica ou uma torção não responde ao esquema de DIP.
Faça você
Sábado, 3h da manhã. Mulher de 34 anos, dor no baixo-ventre há cinco dias, piorando desde ontem. Vomitou quatro vezes nas últimas seis horas e não conseguiu tomar nem água nas últimas três. Dispositivo intrauterino de cobre inserido há oito meses. Pressão 104 por 62, frequência cardíaca 118, temperatura axilar 38,7 °C, saturação 97%, sem alteração de consciência. Abdome doloroso nos dois quadrantes inferiores, com dor à descompressão no hipogástrio. Ao especular, secreção mucopurulenta cervical. Ao bimanual, dor intensa à mobilização do colo e massa dolorosa palpável em anexo direito. Teste de gravidez negativo. Não há ultrassonografista de plantão; o exame só sai às 8h.
leitura da história
Cinco dias de evolução com piora nas últimas 24 horas é a curva de uma infecção que subiu e progrediu. O dispositivo inserido há oito meses não é o fator: o risco atribuível à inserção se concentra nos primeiros vinte dias, e o que causa DIP nesse período é a infecção sexualmente transmissível que já estava presente. O vômito que impede a via oral é um dado de conduta, não de diagnóstico.
leitura do exame
Três critérios maiores presentes e vários menores: febre acima de 37,5 °C, secreção endocervical anormal e massa pélvica. O diagnóstico está fechado. Mas o exame diz mais do que o diagnóstico: dor à descompressão no hipogástrio é pelviperitonite, e massa anexial dolorosa levanta complexo tubo-ovariano — os graus II e III da classificação de Gainesville.
leitura dos critérios de internação
Quatro dos critérios do protocolo estão presentes ao mesmo tempo: suspeita de abscesso tubo-ovariano, estado geral comprometido com náuseas, vômitos e febre, intolerância à via oral, e dificuldade em excluir emergência cirúrgica com esse abdome às 3h da manhã. A ausência de ultrassonografista não é motivo para adiar decisão nenhuma.
a decisão
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Internação, agora, sem esperar a ultrassonografia das 8h. Acesso venoso e hidratação intravenosa pela desidratação. Antibiótico intravenoso na admissão, com o esquema de primeira opção: ceftriaxona 1 g por via intravenosa uma vez ao dia, doxiciclina 100 mg de 12 em 12 horas — por via oral assim que ela parar de vomitar — e metronidazol 500 mg por via intravenosa de 8 em 8 horas, que é a bolsa de 100 mL disponível. Hemograma, proteína C reativa e hemocultura pela febre alta; coleta de endocérvice; testes rápidos para HIV e sífilis e sorologias de hepatites. O dispositivo intrauterino não é retirado agora: fica onde está, e a discussão de removê-lo só se abre depois de duas doses do esquema e diante de falta de melhora. Ultrassonografia transvaginal na primeira hora disponível, à procura de abscesso — e a cirurgia avisada, porque abdome com descompressão dolorosa às 3h da manhã sem imagem é diagnóstico em aberto. O curso total é de 14 dias, com a via parenteral suspensa 24 horas depois de cessarem os sintomas e o restante completado por via oral.
Gestação é critério formal de tratamento hospitalar na doença inflamatória pélvica: o quadro se associa a risco alto de abortamento e corioamnionite, e todas as gestantes com suspeita ou doença confirmada devem ser internadas e receber antibiótico intravenoso de amplo espectro imediatamente. Doxiciclina e quinolonas estão contraindicadas na gestação. Adiar o tratamento não protege a gestação — a infecção em atividade é o principal risco para ela. Monoterapia com azitromicina não cobre o espectro polimicrobiano e não trata a doença em nenhuma paciente.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Sem consultar o capítulo, escreva de memória: os três critérios maiores e pelo menos cinco menores; a regra que autoriza o diagnóstico; e os sete critérios de tratamento hospitalar. Depois escreva a receita ambulatorial completa, com dose, via, frequência, duração e número de comprimidos de cada item, mais o esquema da parceria. Confira no bloco da conduta o que faltou. Em seguida, pegue dois prontuários de mulher jovem com dor no baixo-ventre do seu último plantão e verifique uma coisa só: havia exame especular e bimanual descritos? Aplicação comentada: Sem melhora no prazo combinado, não basta renovar antibiótico. Reveja adesão, diagnóstico, abscesso e necessidade de internação.
Em 30 dias
Refaça o caso de Larissa mudando um dado de cada vez e diga em voz alta o que muda na conduta: se o teste de gravidez viesse positivo; se ela tivesse 15 anos e viesse sozinha; se estivesse vomitando; se houvesse massa dolorosa em anexo direito; se ela morasse a três horas do serviço e não tivesse como voltar em 72 horas. Depois faça o exercício inverso: liste tudo o que teria acontecido com ela se o exame ginecológico não tivesse sido feito — o diagnóstico registrado, a receita entregue, o retorno marcado ou não, e onde essa paciente reaparece dez anos depois.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 19 anos que chega ao pronto-atendimento acompanhada da mãe, com dor no baixo-ventre há quatro dias e corrimento que ela só menciona quando a mãe sai da sala. Diz que a menstruação atrasou alguns dias, mas que isso é comum para ela. Sinais vitais na faixa, temperatura axilar de 37,8 °C, abdome flácido e doloroso à palpação profunda. Ela pergunta se dá para não fazer o exame ginecológico. Consiga o exame, decida o local do tratamento e explique à paciente por que você vai tratar antes de ter certeza.
