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Rastreamento do câncer do colo do útero
Rastreamento do câncer de colo uterino (citologia oncótica) e conduta por resultado
Colher é a parte fácil: ler o laudo, aplicar a conduta e trazer a mulher de volta
Instituto Nacional de Câncer. Diretrizes Brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero: volume 1: rastreamento organizado com teste molecular para detecção de DNA-HPV oncogênico. 3. ed. rev. atual. e ampl. Rio de Janeiro: INCA, 2025. 96 p. ISBN 978-65-88517-55-0 (versão eletrônica)
Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13, de 29 de julho de 2025 — aprova as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero: Parte I. Diário Oficial da União, 18 de agosto de 2025
Ministério da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 3, de 7 de março de 2024 — torna pública a decisão de incorporar ao SUS os testes moleculares para detecção de HPV oncogênico por técnica de amplificação de ácido nucleico. Diário Oficial da União: seção 1, n. 47, p. 60, 8 mar. 2024
Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero. 2. ed. rev. atual. Rio de Janeiro: INCA, 2016. 114 p. ISBN 978-85-7318-296-5 (versão eletrônica)
Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Nomenclatura brasileira para laudos citopatológicos cervicais. 3. ed. Rio de Janeiro: INCA, 2012
Instituto Nacional de Câncer. Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026. 168 p. ISBN 978-65-88517-52-9 (versão eletrônica)
Instituto Nacional de Câncer. Controle do câncer do colo do útero no Brasil: dados e números 2025. Rio de Janeiro: INCA, 2025. 78 p. ISBN 978-65-88517-68-0 (versão eletrônica)
Ribeiro CM, Claro IB, Tomazelli JG, Dias MBK. Rastreamento do câncer do colo do útero no Brasil: análise da cobertura a partir do Sistema de Informação do Câncer. Cadernos de Saúde Pública 2025;41(8):e00152224
Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Nota Técnica nº 41/2024-CGICI/DPNI/SVSA/MS — atualização das recomendações da vacinação contra HPV no Brasil
Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação — vacina HPV quadrivalente: esquemas e grupos prioritários
Brasil. Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012 — dispõe sobre o primeiro tratamento de paciente com neoplasia maligna comprovada e estabelece prazo para seu início (texto compilado, com o § 3º do art. 2º incluído pela Lei nº 13.896, de 30 de outubro de 2019)
Ministério da Saúde. Diretrizes brasileiras para rastreamento organizado com DNA-HPV oncogênico. Portaria Conjunta 13/2025. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/r/rastreamento-cancer-do-colo-do-utero
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Mulher de 33 anos, assintomática, sem doença crônica e sem imunossupressão, traz o resultado do exame citopatológico colhido há dois meses na unidade básica. O laudo diz: amostra satisfatória; epitélios representados: escamoso e glandular; diagnóstico descritivo: células escamosas atípicas de significado indeterminado, possivelmente não neoplásicas; microbiologia: bacilos supracitoplasmáticos, sugestivos de Gardnerella ou Mobiluncus. Qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
Dona Marlene tem 47 anos, é diarista, e veio à unidade básica renovar a receita da pressão. A consulta é a última da manhã, ela está com pressa porque precisa pegar o ônibus, e a queixa que traz é que a receita venceu. Enquanto você abre o prontuário para transcrever losartana e hidroclorotiazida, aparece na tela um resultado de exame citopatológico do colo do útero anexado catorze meses atrás. O laudo tem uma linha só que importa: lesão intraepitelial escamosa de alto grau.
Você pergunta se ela chegou a fazer a colposcopia. Ela pergunta o que é colposcopia. Você pergunta se alguém ligou para ela sobre o preventivo. Ela diz que fez o exame, sim, no ano passado, na campanha de outubro, e que ninguém falou mais nada — e que ela imaginou que, se estivesse tudo bem, ninguém falaria mesmo. Ela está sem nenhum sintoma. Nunca sangrou fora de hora, nunca sangrou depois de relação, não tem dor. Do ponto de vista dela, o assunto estava encerrado havia catorze meses.
Repare no que já aconteceu, porque é quase tudo. Dona Marlene foi convidada. Ela foi. Tirou a roupa diante de um profissional que não conhecia, aceitou um espéculo, deixou que raspassem o colo do seu útero. O material foi colhido com técnica suficiente para o laboratório ler. O laboratório leu, e leu certo: encontrou uma lesão de alto grau, que é exatamente aquilo que o rastreamento existe para encontrar. O laudo voltou. E parou ali, num anexo do prontuário, catorze meses.
A parte que falhou não foi a difícil. Colher é a parte fácil: é procedimento de dez minutos, feito por médico ou enfermeiro, que qualquer unidade básica do país sabe fazer e faz aos milhões. O que falhou foi alguém ler o laudo, entender o que aquela sigla obriga, chamar a mulher de volta, explicar e conseguir a colposcopia. Nada disso é procedimento. É ciclo — e ciclo não tem código na tabela, não aparece na produção do mês e não acontece se ninguém assumir.
A conta de catorze meses é esta. Lesão de alto grau é lesão precursora: tratada, cura em praticamente todos os casos, com um procedimento ambulatorial de quinze minutos e anestesia local. Não tratada, uma parte dela vira carcinoma invasor, e aí o tratamento deixa de ser uma alça de eletrocirurgia e passa a ser cirurgia de grande porte ou radioterapia com quimioterapia e braquiterapia, com uma chance concreta de morrer de uma doença que o Brasil sabe prevenir desde antes de Dona Marlene nascer. O tempo que separa uma coisa da outra é medido em consultas que aconteceram e não fecharam.
E há a outra metade da história, sentada na mesma sala de espera. Enquanto Dona Marlene colhia três exames em quatro anos sem que ninguém lesse o terceiro, a vizinha dela, de 52 anos, nunca colheu nenhum. O rastreamento brasileiro não erra só para menos: ele oferece demais a quem já alcança e de menos a quem nunca alcançou, e é a segunda mulher — a que não aparece — que morre. O interno está exatamente no lugar onde essas duas coisas se decidem: a consulta que ninguém achou importante.
Quem adoece disso
A Estimativa 2026 do INCA projeta 19.310 casos novos de câncer do colo do útero por ano no Brasil para cada ano do triênio 2026-2028 — cerca de 53 diagnósticos por dia —, com risco estimado de 17,59 casos por 100 mil mulheres. Excluídos os tumores de pele não melanoma, é o sexto câncer mais incidente do país e o terceiro entre as mulheres. Não é doença rara e não está encolhendo: a estimativa anterior, para o triênio 2023-2025, era de 17.010 casos por ano, o que dá um aumento de 13,5% de uma projeção para a seguinte.
A geografia dessa doença é a geografia da desigualdade brasileira, e ela muda a probabilidade a priori de quem atende. O risco estimado é de 22,79 por 100 mil mulheres no Norte e 20,76 no Nordeste — onde o câncer do colo do útero é o segundo mais incidente entre as mulheres —, contra 14,06 no Sudeste, onde ocupa a quinta posição. Uma mulher de 45 anos em Macapá e outra de 45 anos em Campinas não carregam o mesmo risco de base, embora a conduta diante do mesmo laudo seja idêntica nas duas cidades.
Em 2023 morreram 7.209 mulheres de câncer do colo do útero no Brasil, cerca de 20 por dia, com risco estimado de 6,65 mortes por 100 mil mulheres. Colocado ao lado dos casos novos estimados, isso dá aproximadamente 0,37 óbito para cada diagnóstico — numa doença cuja lesão precursora é tratável em regime ambulatorial e leva anos a décadas para virar câncer. A distância entre essas duas frases é a matéria deste capítulo.
Boa parte da distância está no estádio em que a mulher chega. Nos dados do Registro Hospitalar de Câncer, entre 2016 e 2020, apenas 19,1% dos casos de câncer do colo do útero no Brasil estavam em estádio I, e 49,9% já estavam em estádios III ou IV. No Nordeste e no Sul, mais da metade dos casos estava em estádio avançado — 52,2% e 52,1%, respectivamente. Uma série clínica citada pelas diretrizes nacionais é ainda mais dura: 81,8% das mulheres em estádio Figo II ou superior ao diagnóstico. Não são mulheres que apareceram tarde por acaso; são mulheres que o rastreamento não alcançou, ou alcançou e não seguiu.
A cobertura explica isso, e explica de um jeito que surpreende quem só olha inquérito. Na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, 81,3% das mulheres de 25 a 64 anos disseram ter feito o exame preventivo nos últimos três anos, e apenas 6,1% disseram nunca ter feito. Mas, quando se conta a mulher em vez de contar o exame, o número desaba: pelos registros do Sistema de Informação do Câncer, entre 2021 e 2023, 35,6% das mulheres de 25 a 64 anos usuárias exclusivas do SUS foram rastreadas. Nenhuma Unidade da Federação chegou a 60% — a cobertura vai de 18,0% no Amapá a 52,8% no Espírito Santo. O indicador antigo, a razão de exames por 100 mulheres, dava 47,4 e superestima a cobertura em cerca de 34%, porque conta exame repetido na mesma mulher como se fosse mulher a mais. As duas medidas não são intercambiáveis, e é a segunda que diz quantas mulheres estão realmente protegidas.
O desperdício e a falta convivem no mesmo sistema. No triênio 2021-2023 foram 14.288.170 exames em 10.720.808 mulheres da faixa-alvo, ou seja, 1,33 exame por mulher onde o protocolo previa um: 3.567.362 exames a mais. No mesmo período, 1,9 milhão de exames foram colhidos em mulheres com menos de 25 anos, que não deveriam ser rastreadas. Só em 2023, 10,0% de todos os exames citopatológicos do SUS foram feitos abaixo dos 25 anos e 5,4% acima dos 64. Cada um desses exames é uma vaga de coleta, um lugar na fila do laboratório e, quando dá alterado, uma colposcopia — consumidos por quem o exame não protege, enquanto duas em cada três mulheres da faixa-alvo não são alcançadas.
Quando o câncer é finalmente diagnosticado, o relógio legal também não fecha: entre 2019 e 2023, pouco mais de 50% dos casos de câncer do colo do útero registrados no Painel-Oncologia foram tratados em até 60 dias, e na Região Norte — a de maior incidência e maior mortalidade — a proporção média foi de 32%. A leitura clínica de tudo isso cabe numa frase: neste capítulo, quase nenhuma morte se explica por não existir exame. Elas se explicam por exame colhido na pessoa errada, por resultado que ninguém leu e por encaminhamento que não virou consulta.
Por que acontece o que acontece
A infecção persistente por tipos oncogênicos do papilomavírus humano é condição necessária para o câncer do colo do útero. Isso é raro em oncologia e muda tudo: existe um agente, ele é sexualmente transmissível, e sem ele a doença não acontece. Doze tipos são classificados como oncogênicos — 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58 e 59 —, aos quais os testes comerciais costumam somar o 68 e o 66. Numa revisão sistemática da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer citada pelas diretrizes nacionais, os tipos 16 e 18 responderam por 77% dos casos de câncer do colo do útero em todas as regiões avaliadas. É por isso que a genotipagem não é luxo: identificar 16 ou 18 já separa o maior risco de todo o resto.
O lugar onde a doença acontece é pequeno e tem nome. O colo do útero é revestido por dois epitélios diferentes — o escamoso, da ectocérvice, e o glandular, da endocérvice — que se encontram na junção escamocolunar. Sob influência hormonal, o epitélio glandular exposto ao meio ácido da vagina se transforma em escamoso, e essa faixa de metaplasia é a zona de transformação. É ali que praticamente todo câncer do colo do útero nasce, porque é ali que existem células em transformação ativa, vulneráveis à ação do vírus. Toda a técnica de coleta serve a um único objetivo: trazer células dessa faixa. Um exame bem colhido amostra ectocérvice e endocérvice; um exame que só traz células escamosas pode estar dizendo que o raspado não chegou onde a doença mora.
A maioria das infecções por HPV é transitória e se resolve sozinha, em geral em um a dois anos, e a prevalência do vírus atinge o pico nos primeiros anos após o início da vida sexual. Daí decorre o fato mais contraintuitivo deste capítulo: quanto mais jovem a mulher, mais provável que o vírus esteja lá e menos provável que aquilo signifique doença. Rastrear aos 20 anos encontra muito HPV e muitas alterações de baixo grau que iriam embora sozinhas, e quase nenhum câncer — as taxas de incidência estimadas são de cerca de 3 por 100 mil mulheres aos 20 anos, 5 por 100 mil aos 25 e 12 por 100 mil aos 30.
Quando a infecção persiste, ela produz alterações celulares progressivas. A neoplasia intraepitelial cervical grau I é a expressão morfológica da infecção transitória e hoje não é considerada lesão precursora do câncer. As lesões precursoras verdadeiras são a NIC graus II e III e o adenocarcinoma in situ. E mesmo a NIC II regride com frequência, dependendo da idade: numa metanálise de evolução de NIC II, a regressão foi de 70% em 36 meses em mulheres com menos de 30 anos e de 44% em 24 meses nas de 30 anos ou mais. Perder juventude, aqui, significa perder a capacidade de resolver a infecção sozinha — e é por isso que a mesma alteração citológica pede conduta diferente aos 24 e aos 44 anos.
O outro lado do mecanismo é o dano do tratamento, e ele é a razão de metade das regras deste capítulo. Tratar uma lesão precursora significa retirar a zona de transformação com uma alça de eletrocirurgia, ou seja, remover um cilindro de colo. Uma metanálise mostrou aumento do risco de prematuridade após o tratamento de NIC: risco relativo de 1,78 (IC 95%: 1,60-1,98) para nascimento antes de 37 semanas, 2,40 (IC 95%: 1,92-2,99) entre 32 e 34 semanas e 2,54 (IC 95%: 1,77-3,63) entre 28 e 30 semanas, além de mais rotura prematura de membranas, corioamnionite, baixo peso ao nascer, internação em terapia intensiva neonatal e mortalidade perinatal. Rastrear cedo demais não é apenas ineficiente: numa mulher de 21 anos com prole indefinida, é trocar um câncer que provavelmente não aconteceria por um parto prematuro que pode acontecer.
Os dois exames deste capítulo olham para coisas diferentes, e essa é a chave para entender por que a régua mudou. A citologia oncótica olha para a consequência: procura, no esfregaço corado, células que já mudaram de forma por ação do vírus. O teste molecular olha para a causa: procura o DNA dos tipos oncogênicos. Procurar a causa é mais sensível e tem valor preditivo negativo muito alto — um teste negativo dá segurança para esperar cinco anos —, mas o valor preditivo positivo é baixo, porque a maioria das mulheres com o vírus não tem lesão. Procurar a consequência é o inverso: menos sensível, e por isso o intervalo tem de ser curto; em compensação, quando dá alterado, a chance de existir alguma coisa é maior.
É essa assimetria que desenha o fluxo inteiro. Como o teste molecular positivo isolado não distingue infecção transitória de lesão, o programa não manda todas as positivas para a colposcopia: usa um segundo exame, o de triagem, para separar risco alto de risco baixo. A genotipagem faz isso primeiro — 16 ou 18 detectados já justificam a colposcopia. Para os outros tipos oncogênicos, a citologia feita na mesma amostra decide. Os números explicam a divisão: em mulheres não vacinadas acima de 30 anos, o risco de NIC 3 ou mais grave foi de 19,9% (IC 95%: 15,0-26,1%) com HPV 16 e/ou 18 detectado, mesmo com citologia negativa, e de 5,5% (IC 95%: 4,2-7,1%) com outros tipos e citologia negativa. Quase 20% justifica colposcopia hoje; 5,5% justifica repetir o teste em um ano.
A comparação direta entre os dois métodos foi feita, e é o que sustenta a mudança. Numa análise agrupada de quatro ensaios clínicos randomizados europeus com 176.464 mulheres seguidas por tempo mediano de 6,5 anos, a detecção cumulativa de câncer do colo do útero foi 40% menor no braço rastreado com teste de DNA-HPV do que no braço da citologia (razão de taxas 0,60; IC 95%: 0,40-0,89). Num ensaio randomizado indiano com uma única rodada de rastreamento, o risco relativo de morte por câncer do colo do útero foi de 0,52 (IC 95%: 0,33-0,83) no grupo do teste molecular contra o cuidado habitual, enquanto no grupo da citologia foi de 0,89 (IC 95%: 0,62-1,27) — ou seja, a citologia isolada, naquele ensaio, não reduziu mortalidade de forma distinguível do acaso.
Por fim, o mecanismo que explica todas as situações especiais: a imunidade celular é o que elimina o HPV. Quando ela falha — por HIV, por imunossupressores após transplante de órgão sólido ou medula, por tratamento oncológico, por corticoide crônico —, a infecção persiste mais, as lesões progridem mais rápido e recorrem mais. Não é detalhe de rodapé: é a razão pela qual essas mulheres começam a rastrear mais cedo, repetem em intervalo menor, nunca encerram o rastreamento e vão à colposcopia com qualquer tipo oncogênico detectado, sem esperar a triagem.

Como se apresenta de verdade
O rastreamento começa pela pergunta sobre sintomas e termina com um resultado resolvido. Você deve identificar qual método está implantado na rede, aplicar o fluxo correspondente e garantir o próximo atendimento. Teste molecular, citologia de transição e investigação de mulher sintomática têm caminhos próprios, que precisam ficar claros no prontuário.
A regra que organiza a primeira: rastreamento é para quem não tem queixa nenhuma. As diretrizes nacionais dizem isso com todas as letras — as recomendações de rastreamento não se aplicam a casos sintomáticos, que podem estar relacionados a câncer avançado, e a mulher sintomática deve ser avaliada para excluir essa possibilidade e encaminhada ao serviço especializado, independentemente do intervalo desde o último exame.
Percurso clínico: Separar rastreamento e investigação
Comece perguntando se há sintomas. Sangramento ou lesão suspeita requer investigação, mesmo com rastreamento recente normal. Na pessoa assintomática, identifique idade, risco e estratégia efetivamente implantada: teste HPV ou percurso citológico de transição. Registre método e data para interpretar o resultado e planejar seguimento.
A mulher que se rastreia: a que não tem nada
A candidata ao rastreamento é a mulher assintomática, de 25 a 64 anos, que já teve atividade sexual. Ela costuma chegar por outro motivo — pré-natal, consulta de anticoncepção, renovação de receita, queixa de dor no joelho — e o rastreamento é oferecido ali, de forma oportunística, que é como o Brasil vem fazendo há décadas. A transição em curso pretende inverter isso: identificar a população-alvo, convidar ativamente, reconvidar quem não atendeu e registrar tudo, que é o que caracteriza um programa organizado.
Existe uma ordem de prioridade explícita para essa convocação durante a transição, e ela é a resposta prática à pergunta 'a quem eu ligo primeiro'. Primeiro, mulheres de 30 a 49 anos com atraso no rastreamento, ou seja, que fizeram o exame há mais de 36 meses ou nunca fizeram. Depois, mulheres de 50 a 64 anos na mesma situação. Depois, mulheres de 30 a 49 anos, independentemente de história anterior. Por último, mulheres de 25 a 29 anos que nunca fizeram. Quem nunca fez vem antes de quem já fez: essa é a única lista que aumenta cobertura em vez de aumentar produção.
O motivo dessa ordem está na história natural. Num estudo brasileiro com mais de dois milhões de citologias, o pico de prevalência de lesões de alto grau nas mulheres já rastreadas antes ficava entre 25 e 35 anos e caía muito depois disso; nas que faziam o exame pela primeira vez, o pico acontecia entre 35 e 45 anos e permanecia pelo menos três vezes maior nas idades mais avançadas. Mulher que nunca rastreou continua com lesão precursora onde a mulher já rastreada não tem mais. É por isso que a primeira vez importa mais que a quinta.
A mulher que sai do rastreamento: a que tem sintoma
Sangramento vaginal anormal e sangramento pós-coito não associados a distúrbios menstruais são os sintomas que as diretrizes nomeiam como associados ao câncer do colo do útero. Some-se, na prática de porta, o corrimento persistente de odor fétido ou sanguinolento, a dor pélvica que não cede, e o achado de colo com lesão vegetante, ulcerada ou endurecida ao exame especular.
Diante de qualquer um desses achados, a conduta não é pedir preventivo. É encaminhar ao serviço especializado com hipótese escrita de neoplasia do colo do útero. O motivo é aritmético e vale a pena entender: a citologia foi desenhada para encontrar lesão precursora em epitélio íntegro, e num tumor invasor grande o material colhido pode vir necrótico, hemorrágico e inflamatório — insatisfatório ou falsamente tranquilizador. Uma citologia normal em mulher com colo suspeito ao exame não afasta nada, e o tempo gasto esperando esse resultado é tempo de doença crescendo.
Esta é a mesma distinção que separa, no câncer colorretal, rastrear de investigar: quem tem sintoma não faz o exame de rastreamento, faz o exame que fecha diagnóstico. Vale ali, vale aqui, e por trás está o mesmo raciocínio de probabilidade pré-teste.
Existe um corolário incômodo: o exame especular faz parte de toda coleta, e é ele que enxerga o colo. Colher o material sem olhar o colo — ou olhar e não descrever — é perder o único achado deste capítulo que não depende de laboratório nenhum. Nas diretrizes, mesmo no pré-natal, a rotina inclui avaliação clínica do colo do útero para descartar lesões macroscópicas.
O laudo citopatológico, linha por linha
O laudo brasileiro segue a Nomenclatura Brasileira para Laudos Citopatológicos Cervicais, e ele tem uma ordem fixa. Ler na ordem evita o erro mais comum, que é pular direto para a última linha.
Primeiro campo: tipo de amostra — convencional ou em meio líquido. Segundo campo: avaliação pré-analítica, onde aparece a amostra rejeitada, por ausência ou erro de identificação da lâmina ou do frasco, identificação que não confere com o formulário, lâmina danificada ou ausente. Amostra rejeitada não é resultado: é exame que não aconteceu, e a única conduta é chamar a mulher para nova coleta.
Terceiro campo: adequabilidade, num sistema binário. Satisfatória é a amostra com células em quantidade representativa, bem distribuídas, fixadas e coradas, que permita conclusão diagnóstica. Insatisfatória é a amostra com material acelular ou hipocelular, abaixo de 10% do esfregaço, ou com leitura prejudicada em mais de 75% do esfregaço por sangue, piócitos, artefatos de dessecamento, contaminantes externos ou intensa superposição celular. A categoria antiga satisfatória mas limitada foi abolida — se um laudo ainda a traz, o laboratório está usando nomenclatura vencida.
Quarto campo: epitélios representados na amostra — escamoso, glandular, metaplásico. É informação obrigatória, e é a única do laudo cuja interpretação a nomenclatura devolve explicitamente ao médico assistente, e não ao citopatologista. A presença de células metaplásicas ou endocervicais indica que a coleta alcançou a junção escamocolunar, que é onde nasce quase todo câncer do colo do útero. Um esfregaço normal só com células escamosas, em mulher com colo presente, tem regra própria: repetir em um ano e, com dois exames anuais normais consecutivos, voltar ao intervalo de três anos.
Quinto campo: diagnóstico descritivo, que tem três linhas possíveis. Dentro dos limites da normalidade no material examinado — diagnóstico completamente normal. Alterações celulares benignas, reativas ou reparativas — inflamação sem identificação de agente, metaplasia escamosa imatura, reparação, atrofia com inflamação, radiação. E atipias celulares, que é onde mora tudo o que muda conduta.
Sexto campo: microbiologia — lactobacilos, bacilos supracitoplasmáticos sugestivos de Gardnerella ou Mobiluncus, outros bacilos, cocos, Candida, Trichomonas vaginalis, sugestivo de Chlamydia, Actinomyces, efeito citopático compatível com vírus do grupo herpes. Aqui mora a armadilha mais frequente do capítulo, e ela vai adiante.
As categorias de atipia, em ordem crescente de exigência: células escamosas atípicas de significado indeterminado possivelmente não neoplásicas (ASC-US) e não podendo excluir lesão de alto grau (ASC-H); células glandulares atípicas (AGC), possivelmente não neoplásicas ou não podendo excluir lesão de alto grau; células atípicas de origem indefinida, nas mesmas duas variantes; lesão intraepitelial escamosa de baixo grau (LSIL), que abrange o efeito citopático do HPV e a NIC I; lesão intraepitelial escamosa de alto grau (HSIL), que abrange NIC II e NIC III; HSIL não podendo excluir microinvasão; carcinoma epidermoide invasor; adenocarcinoma in situ; adenocarcinoma invasor cervical, endometrial ou sem outras especificações; e outras neoplasias malignas. Há ainda uma linha que costuma passar batida: presença de células endometriais na pós-menopausa ou acima de 40 anos, fora do período menstrual.
Duas notas de leitura que evitam erro. A sigla ASCUS sozinha não existe mais como categoria: a nomenclatura brasileira desaconselha acrônimos e manda escrever o diagnóstico por extenso, justamente porque ASC-US e ASC-H têm condutas opostas e uma letra as separa. E as atipias glandulares e de origem indefinida, apesar do nome tranquilizador, são categorias de alto risco: a associação com NIC II/III ou câncer nas atipias glandulares vai de 15% a 56% dos casos.

O laudo do teste de DNA-HPV, que é bem mais curto
O laudo molecular tem essencialmente quatro saídas possíveis, e cada uma tem uma conduta. DNA-HPV oncogênico não detectado: nenhum tipo oncogênico foi encontrado. Detectado, tipos 16 e/ou 18. Detectado, outros tipos oncogênicos que não 16 ou 18, muitas vezes escrito como HPV-outros. E inválido — também chamado insatisfatório ou inconclusivo —, que pode acontecer por amostra inadequada, armazenamento ou transporte ruins, ou problema no processamento.
Quando o resultado é de outros tipos que não 16 ou 18, o laudo costuma vir acompanhado da citologia reflexa: um exame citopatológico processado preferencialmente na mesma amostra já colhida, sem depender de novo pedido médico e sem chamar a mulher de volta. Essa citologia usa o mesmo vocabulário descrito acima, e o que interessa nela é uma pergunta binária: ASC-US ou coisa mais grave, sim ou não.
Há uma exceção operacional que vale conhecer antes de oferecer a autocoleta: amostra autocoletada não serve para citologia reflexa. Se o teste vier positivo para tipos diferentes de 16 ou 18 numa amostra autocoletada, a mulher precisa voltar à unidade para uma nova coleta feita por médico ou profissional de enfermagem. Isso não desqualifica a autocoleta — ela existe para alcançar quem não viria de outro jeito —, mas significa uma visita a mais que precisa ser combinada desde o início.
As mulheres cuja régua é outra
Gestante. Rastrear na gestação não é errado, mas também não é o momento ideal: há aumento na detecção de DNA-HPV, geralmente transitório, que tende a se tornar indetectável depois do parto. A coleta é segura em qualquer idade gestacional, inclusive a endocervical. As diretrizes de 2025 dizem que a gestante que precisa regularizar o rastreamento pode fazer o teste no pré-natal, e que é seguro deixá-lo para a revisão puerperal, evitando a angústia de um resultado positivo durante a gestação. O que a gestação não dispensa é a avaliação clínica do colo.
Pós-menopausa. Mesma régua das demais, com um ajuste técnico: a atrofia produz alterações celulares que imitam atipia e amostras insatisfatórias. Quando há atrofia genital ao exame especular, faz-se estrogenização antes da coleta, e o mesmo preparo é usado antes da colposcopia quando indicada.
Histerectomizada. Mulher submetida a histerectomia total por lesão benigna, sem história prévia de diagnóstico ou tratamento de lesão cervical de alto grau, e com exames anteriores normais, pode ser excluída do rastreamento — não tem mais colo, e a prevalência de alteração nesse grupo é ínfima. Se a histerectomia foi por lesão precursora ou câncer do colo, a mulher continua sendo rastreada, com coleta vaginal, por pelo menos 25 anos ou indefinidamente. E há a situação que aparece na prática mais que as duas — a mulher não sabe por que foi operada —, tratada no bloco de erros.
Mulher sem história de atividade sexual. Não se rastreia. Como o HPV é de transmissão sexual, o risco é desprezível. A definição de atividade sexual nas diretrizes é ampla — inclui sexo vaginal, anal e oral, com pênis, dedos ou objetos, atos não penetrativos, e inclui atividade não consentida. Isso significa que a pergunta precisa ser feita com cuidado e sem pressuposto, e que a resposta 'nunca tive relação' merece uma segunda pergunta gentil antes de virar dispensa definitiva.
Mulher vivendo com HIV ou com outra imunodepressão ou imunossupressão. Régua própria, e é a mais diferente de todas: começa após o início da atividade sexual, e não aos 25 anos; repete a cada três anos, e não a cada cinco, após teste negativo; vai à colposcopia com qualquer tipo oncogênico detectado, independentemente da citologia reflexa; e não encerra o rastreamento em idade nenhuma. O manejo da infecção pelo HIV em si, incluindo terapia antirretroviral e monitoração de CD4, é assunto do capítulo próprio; o que este capítulo exige é que o diagnóstico de HIV mude o cronograma de rastreio na mesma consulta em que é conhecido.
Homens trans, pessoas não binárias e pessoas intersexo com colo do útero. As recomendações são as mesmas de risco-padrão, e a autocoleta deve ser considerada quando a coleta por profissional for barreira. Dois detalhes técnicos: a hormonização pode reduzir a sensibilidade do teste de DNA-HPV, mais ainda na autocoleta, e a atrofia do epitélio vaginal aumenta a chance de citologia insatisfatória — por isso, nesse grupo, faz-se o mesmo preparo estrogênico recomendado na pós-menopausa quando é preciso coletar de novo ou fazer colposcopia.
Mulher vacinada contra HPV. Rastreia igual. A recomendação nacional é explícita: o rastreamento não depende do status vacinal neste momento, entre outras razões porque a vacina não protege contra todos os tipos oncogênicos e porque não há informação confiável e vinculada sobre quem foi vacinado. Isso vai mudar quando os registros de vacinação e de rastreamento estiverem ligados — as próprias diretrizes recomendam essa vinculação —, mas hoje a resposta ao consultório é uma só.
Como fechar o diagnóstico
O método de rastreamento do câncer do colo do útero no Brasil mudou, e mudou recentemente. Quem se formou lendo que o preventivo é citologia trienal está lendo a régua anterior. Quem se formou lendo que agora é só teste de HPV está lendo a régua que ainda não chegou à maior parte do país. As duas coexistem hoje, por decisão explícita das diretrizes nacionais, e saber qual delas vale na unidade em que se trabalha é o primeiro ato clínico deste bloco.
A segunda coisa a fixar antes de qualquer fluxograma: o exame não é o rastreamento. O rastreamento é convidar, colher, processar, entregar o resultado, encaminhar quem precisa, garantir que a mulher chegue lá e trazê-la de volta no prazo. O exame é uma etapa de sete. Um programa que só executa a terceira etapa produz muitos exames e nenhuma redução de mortalidade, e é exatamente o retrato brasileiro.
O que mudou, e com que documento
A sequência é curta e vale saber de cor, porque ela é a resposta à pergunta 'de onde vem essa regra'. Em março de 2023 o Ministério da Saúde lançou um projeto-piloto com a nova estratégia de controle e eliminação. Em fevereiro de 2024 a Conitec recomendou por unanimidade a incorporação dos testes moleculares para detecção de HPV oncogênico por técnica de amplificação de ácido nucleico baseada em reação em cadeia da polimerase, com genotipagem parcial ou estendida, para rastreamento em população de risco-padrão e em contexto de rastreamento organizado. Em 7 de março de 2024 a Portaria sectics/MS nº 3 tornou pública a decisão de incorporar, condicionando o uso à atualização das diretrizes. E as diretrizes atualizadas saíram: a 3.ª edição revista, atualizada e ampliada das Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, volume 1, aprovada pela Portaria Conjunta SAES/sectics nº 13, de 29 de julho de 2025.
Essa 3.ª edição é a edição vigente. A 1.ª é de 2011, a 2.ª de 2016, e a de 2016 continua sendo a referência para a citologia — não por inércia, mas porque a própria edição de 2025 remete a ela nos cenários em que o teste molecular ainda não está disponível e para as mulheres já encaminhadas com base em citologia.
O volume 1 trata do rastreamento propriamente dito: quem testar, com quê, de quanto em quanto tempo, e o que fazer com cada resultado até a colposcopia. As condutas a partir da colposcopia com doença presente estão remetidas, no próprio documento, a um volume 2 sobre como avaliar, tratar e seguir as mulheres identificadas no rastreamento. Para o interno, isso desenha bem o território: o que se decide na atenção primária termina no encaminhamento à colposcopia, e o que vem depois é da atenção especializada.
A régua nova: teste de DNA-HPV como método primário
O método de rastreamento primário é o teste de DNA-HPV oncogênico com genotipagem parcial ou estendida. Genotipagem parcial identifica isoladamente os tipos 16 e 18, e um conjunto agrupado dos demais oncogênicos; a estendida identifica separadamente mais tipos. Neste momento, o protocolo de encaminhamento à colposcopia é o mesmo para as duas — não se faz conduta diferente por ter usado um teste com genotipagem estendida.
A amostra é obtida por médico ou profissional de enfermagem, nos mesmos sítios anatômicos da citologia — ectocérvice e endocérvice —, ou por autocoleta. A idade de início é 25 anos. O intervalo, após resultado negativo, é de cinco anos. O rastreamento se encerra quando o último teste acima dos 60 anos vier negativo. Mulher com mais de 60 anos que nunca fez teste faz um: se negativo, encerra; se positivo, segue as regras de risco-padrão. E mulher com mais de 60 anos que já tratou NIC 2, NIC 3 ou adenocarcinoma in situ mantém o rastreamento enquanto for possível e aceitável, até 25 anos após o tratamento.
A conduta por resultado é o coração da régua nova, e cabe em quatro linhas. Não detectado: repetir em cinco anos. Detectado 16 e/ou 18: colposcopia, independentemente da citologia. Detectado outros tipos oncogênicos: citologia reflexa na mesma amostra — se ela vier alterada, com ASC-US ou lesão mais grave, ou insatisfatória, colposcopia; se vier negativa, repetir o teste molecular em 12 meses. Inválido para todos os tipos virais: nova coleta por profissional de saúde e repetição do teste.
O seguimento de quem foi triada e não tinha doença tem regra própria e é onde se perde gente. Após teste de triagem negativo — colposcopia negativa, no caso de 16/18, ou citologia reflexa negativa, no caso dos outros tipos —, repete-se o teste de DNA-HPV em 12 meses contados da data daquele resultado. Se o novo teste for negativo, a mulher volta ao intervalo de cinco anos. Se for positivo para 16 ou 18, vai à colposcopia. Se for positivo para outros tipos com citologia reflexa ainda negativa, repete em mais 12 meses; e se aos 24 meses o DNA-HPV oncogênico continuar detectável, vai à colposcopia independentemente do resultado da citologia reflexa. A regra dos 24 meses existe porque persistência deixa de ser infecção transitória e passa a ser fator de risco por si.
Quanto ao limite superior: a Figura 1 das diretrizes desenha a população-alvo entre 25 e 64 anos, com a nota de que qualquer teste negativo a partir dos 60 anos libera do rastreio seguinte, considerando que o próximo já ultrapassaria os 64. É a mesma ideia dita de dois jeitos — 60 é a idade em que um teste negativo encerra; 64 é o teto da faixa.

A régua da citologia, que continua valendo onde o teste ainda não chegou
Para os locais em que o teste molecular ainda não está disponível para rastreamento primário, a recomendação nacional é manter a citologia — e a recomendação é forte, baseada em viabilidade. A régua da citologia é a de 2016 e tem quatro números: início aos 25 anos em quem já teve atividade sexual; os dois primeiros exames com intervalo anual; se ambos negativos, os seguintes a cada três anos; e seguimento até os 64 anos.
O encerramento tem uma condição que se esquece: os exames seguem até os 64 anos e, nas mulheres sem história prévia de doença neoplásica pré-invasiva, são interrompidos quando ela tiver pelo menos dois exames negativos consecutivos nos últimos cinco anos. Sem esses dois exames recentes, 64 anos não encerra nada. E, para a mulher com mais de 64 anos que nunca se submeteu ao exame, a conduta é fazer dois exames com intervalo de um a três anos; se ambos negativos, ela pode ser dispensada de exames adicionais.
Quando o teste molecular chega ao serviço, três regras de transição resolvem quase todas as dúvidas. Primeira: introduzido o teste, ele substitui a citologia na próxima data de rastreio da mulher — não se antecipa, não se acumula. Segunda: onde a transição já foi implementada, interrompe-se o rastreio com citologia. Terceira, e a mais esquecida: mulher que já foi identificada pela citologia com indicação de colposcopia não deve ser testada para DNA-HPV para reavaliar essa indicação. A indicação de colposcopia dada pela citologia não é revogável por um teste molecular negativo. Se a colposcopia ainda não foi feita, ela é prioridade — e essa é exatamente a situação de Dona Marlene.
Vale registrar o que isso significa para a próxima década de prática: por um período, o mesmo interno vai receber laudos de citologia e laudos de DNA-HPV, às vezes na mesma manhã, e vai precisar aplicar duas tabelas diferentes. Não há atalho para isso. As duas estão adiante.
Quem não rastrear — e o custo de rastrear mesmo assim
Não se rastreia antes dos 25 anos. Essa é recomendação forte, baseada em evidência de certeza alta, e vale para o teste molecular e para a citologia. Há mais dano que benefício: alta prevalência de infecção transitória, alta taxa de regressão espontânea das lesões, incidência de câncer muito baixa, e um excesso de colposcopias e de excisões cujo efeito documentado é aumento de parto prematuro em mulheres que ainda vão engravidar. Um estudo inglês estimou que antecipar o início dos 25 para os 20 anos exigiria de 12.500 a 40.000 exames adicionais em mulheres de 20 a 24 anos, e tratar entre 300 e 900 mulheres com NIC, para prevenir um caso de carcinoma invasor.
Existe uma regra específica e desconfortável para o teste feito por engano: se o rastreamento com DNA-HPV for realizado inadvertidamente antes dos 25 anos, o resultado com presença de qualquer tipo de HPV não deve ser considerado, e a mulher deve ser orientada sobre a história natural da infecção e sobre iniciar o rastreamento aos 25 anos. É uma recomendação condicional, baseada em opinião de especialistas, e o próprio documento registra que não houve consenso e que a decisão foi por votação. Ela existe porque a alternativa — investigar — produz o dano que se queria evitar. Na prática, isso obriga a uma conversa difícil, e ela está no bloco de conversa.
Não se rastreia quem nunca teve atividade sexual. Não se rastreia quem fez histerectomia total por doença benigna, sem história de lesão de alto grau e com exames prévios normais. E não se rastreia quem já encerrou pela idade com a condição cumprida.
O contrário também é desobediência, e é a mais letal das duas: parar de colher em quem ainda precisa. As mulheres que fazem o exame pela primeira vez tardiamente mantêm prevalência de lesão precursora pelo menos três vezes maior nas idades avançadas do que as que já rastreavam. Uma mulher de 58 anos que nunca colheu não é uma mulher que 'já passou da idade' — é prioridade. E a proporção de exames de primeira vez em mulheres com 65 anos ou mais, no Brasil, é maior do que na faixa de 50 a 64 anos, o que o próprio INCA lê como falha de captação durante o período em que elas estavam na faixa-alvo.
A coleta: o que faz um exame prestar
A técnica é simples e a diferença entre um exame que responde e um exame que não responde está em poucos detalhes. O material deve conter amostra do canal cervical, coletada preferencialmente com escova apropriada, e da ectocérvice, coletada com espátula de ponta longa, do tipo Ayre. Uma metanálise mostrou que o uso da espátula de Ayre somada à escova de canal aumenta em cerca de três vezes a chance de obter células endocervicais, e um estudo brasileiro mostrou detecção de NIC cerca de dez vezes maior no grupo em que as células da junção escamocolunar estavam representadas. Não é preciosismo técnico: é a diferença entre olhar e não olhar para o lugar certo.
Cuidados que evitam amostra insatisfatória: evitar o período de sangramento menstrual mais ativo; nada de creme vaginal nas 24 horas anteriores; sem relação sexual nos três dias anteriores. Para o teste molecular isolado esses cuidados não são impeditivos — mas, como a mesma amostra pode ser usada para a citologia reflexa, idealmente se observam do mesmo jeito. Havendo atrofia genital ao exame especular, faz-se estrogenização prévia.
O limite de qualidade é conhecido e monitorado: o percentual de exames insatisfatórios não deve passar de 5%, e ele reflete diretamente a qualidade da coleta. Em 2023, todas as Unidades da Federação ficaram abaixo desse limite, mas cerca de 6% dos municípios com registro no sistema tinham insatisfatoriedade acima de 5%, e 51 municípios acima de 10%. Amostra insatisfatória significa nova coleta em 6 a 12 semanas, corrigindo, quando possível, o problema que a motivou — e significa uma mulher que precisa voltar, o que é a coisa mais cara deste capítulo.
A autocoleta merece um parágrafo próprio porque é a novidade operacional mais útil. A sensibilidade e a especificidade do teste de DNA-HPV em amostra vaginal autocoletada são semelhantes às da amostra cervical coletada por profissional. O processo é descrito pelas mulheres como discreto, indolor e rápido, e há evidência de que oferecer o dispositivo em visita domiciliar aumenta em até quatro vezes a adesão em comparação a apenas orientar que a mulher vá à unidade. A recomendação nacional a posiciona como estratégia para superar barreiras — falta de insumo ou de profissional capacitado, ausência de espaço adequado, área remota, dificuldade de deslocamento, deficiência, história de violência ou trauma sexual, vulnerabilidade — e não como método padrão para toda a população, porque os modelos de custo-efetividade que embasaram a incorporação não a consideraram.
O que não pedir, e o custo de pedir
Não peça citologia junto com o teste de DNA-HPV. A realização simultânea, conhecida como coteste, tem recomendação forte contra, baseada em evidência de certeza alta. O ganho de sensibilidade em relação à citologia isolada vem quase todo do componente molecular; a taxa de detecção de NIC 2, 3 ou mais grave não difere entre coteste e teste molecular isolado; e o coteste custa mais e gera mais colposcopia. Num estudo americano com 99.549 pacientes, o teste primário isolado reduziu em quase 20% a necessidade de colposcopias, e o custo do coteste ficou em torno de 170 mil dólares por cada caso adicional de NIC 3 ou mais grave identificado.
Não peça teste de DNA-HPV para reavaliar uma indicação de colposcopia que a citologia já deu. Não peça teste antes dos 25 anos. Não peça citologia para diagnosticar corrimento: o exame citopatológico não deve ser utilizado para diagnóstico de processos inflamatórios ou infecciosos vaginais, e a mulher com queixa de corrimento é conduzida pela diretriz própria de corrimento genital e infecções sexualmente transmissíveis, com capítulo próprio nesta apostila.
Não repita a citologia por causa de achado inflamatório. Esta é a linha mais desobedecida do capítulo inteiro, e ela é literal na diretriz de 2016: na ausência de queixa ou de evidência clínica de colpite, não há necessidade de encaminhamento para exame ginecológico, nem de tratamento, nem de repetição do exame citopatológico. Um laudo que diz 'inflamação sem identificação de agente' e 'dentro dos limites da normalidade no material examinado' é um laudo normal: a mulher segue a rotina de rastreamento. Repetir esse exame em três meses, como se faz rotineiramente, gasta uma vaga, atrasa a fila de quem tem alteração de verdade e não muda desfecho nenhum.
E não peça preventivo para a mulher com sangramento pós-coito, colo suspeito ou massa palpável achando que está investigando: nesse cenário o exame de rastreamento não é diagnóstico, e a demora dele é o dano.
O que existe no SUS, e o que isso muda na conduta
A citologia oncótica existe em todo lugar, e em volume: 9,4 milhões de exames em 2023, a maior produção dos últimos cinco anos. O teste de DNA-HPV está incorporado desde março de 2024 e a implantação é gradual e desigual — existir na tabela de procedimentos não é o mesmo que existir na unidade em que se trabalha. O interno precisa saber qual dos dois o seu serviço oferece, e isso se descobre perguntando, não deduzindo.
O gargalo real está depois. Os parâmetros nacionais estimam a necessidade de 1.900 colposcopias e 280 biópsias por ano para cada 100 mil mulheres rastreadas de 25 a 64 anos, num cenário de cobertura de 100%. Com a cobertura atual, bem menor que isso, a produção de colposcopia e biópsia registrada em 2023 ainda seria insuficiente em vários estados — e a produção de colposcopia de 2023 estava 11% abaixo da de 2019.
Pior que o volume é a fragmentação. Em 2023, 1.382 serviços registraram colposcopia, biópsia ou excisão tipos 1 e 2 no país, mas apenas 188 deles — 13,6% — registraram os três procedimentos no mesmo estabelecimento. Ou seja: na maioria dos lugares, a mulher com laudo alterado precisa de uma vaga para colposcopia, outra para biópsia e outra para tratamento, frequentemente em endereços diferentes e por filas diferentes. Cada transferência dessas é um ponto de perda, e é por isso que o encaminhamento bem escrito e o acompanhamento ativo, que parecem burocracia, são atos clínicos aqui.
O tempo do laudo também entra na conta: em 2023, cerca de 61% dos laudos anatomopatológicos do colo do útero foram liberados em até 30 dias, com variação brutal entre estados — de 90,5% no Mato Grosso do Sul a 1,7% no Acre. Quem acompanha uma mulher com biópsia pendente precisa saber que, dependendo de onde está, o laudo pode demorar mais que o prazo legal, e que a única defesa contra isso é cobrar com data anotada.
Por fim, os dois prazos que a lei dá e que quase ninguém usa como instrumento. Quando a principal hipótese diagnóstica for neoplasia maligna, os exames necessários à elucidação devem ser realizados em até 30 dias, mediante solicitação fundamentada do médico responsável — a fundamentação escrita é o que aciona o prazo. E o primeiro tratamento deve começar em até 60 dias contados do dia em que o diagnóstico for firmado em laudo patológico, considerando-se efetivamente iniciado com cirurgia, radioterapia ou quimioterapia. A data do laudo patológico é, portanto, uma data que se anota no prontuário — dela corre o relógio. O funcionamento geral da regulação e do encaminhamento no SUS é assunto do capítulo de princípios e diretrizes do SUS; aqui interessa apenas que esses dois prazos existem e são exigíveis.
Fluxos e tabelas
A tabela principal é a que decide: resultado citopatológico, conduta e prazo. Ela vale onde o rastreamento ainda é por citologia, que é a maior parte do país, e vale também para as mulheres que já foram identificadas pela citologia antes da transição. A segunda tabela é a mesma coisa para o teste de DNA-HPV. As demais respondem quem rastrear, o que muda em cada situação especial, o que fazer com amostra que não presta e o que escrever no encaminhamento.
- 1Mulher assintomática, 25 a 64 anos, com atividade sexual prévia: é população-alvo. Antes de qualquer coisa, confira se ela tem sintoma — sangramento anormal, sangramento pós-coito, corrimento fétido ou sanguinolento persistente, dor pélvica. Se tiver, ela saiu do rastreamento: encaminhe ao serviço especializado com hipótese escrita de neoplasia do colo do útero.
- 2Descubra qual método o seu serviço oferece hoje: teste de DNA-HPV ou citologia. Isso muda a idade de repetição, o intervalo e a tabela que você vai usar. Onde o teste molecular foi implantado, a citologia de rastreamento é interrompida; onde ele ainda não chegou, mantém-se a citologia.
- 3Faça o exame especular e olhe o colo antes de colher. Lesão vegetante, ulcerada ou endurecida muda tudo e não espera laudo.
- 4Colha com espátula de ponta longa na ectocérvice e escova no canal. Havendo atrofia genital, faça estrogenização antes: creme de estriol 1 g com aplicador vaginal, à noite, por 14 noites consecutivas, e colha 5 a 7 dias após suspender.
- 5Registre no prontuário, na mesma consulta: a data da coleta, o método usado, e a data em que você vai conferir o resultado. Pendência sem data de conferência é pendência perdida.
- 6Resultado disponível: leia o laudo na ordem — tipo de amostra, avaliação pré-analítica, adequabilidade, epitélios representados, diagnóstico descritivo, microbiologia. Amostra rejeitada ou insatisfatória não é resultado: é recoleta.
- 7Aplique a tabela do método correspondente. Alteração que manda para a colposcopia: escreva o encaminhamento com os seis campos e marque a prioridade. Alteração que manda repetir: agende a repetição na hora, com data, e não deixe para 'quando ela voltar'.
- 8Comunique o resultado à mulher — o normal também. A recomendação nacional é explícita: quem tem HPV detectado deve ser comunicada e orientada sobre as próximas etapas, e quem tem teste negativo também deve ser informada e avisada de que será convidada de novo em cinco anos.
- 9Encaminhamento emitido não é encaminhamento cumprido. Anote a data de emissão, marque no prontuário uma data de conferência e cheque se o agendamento saiu. Em quem tem hipótese principal de neoplasia maligna, o prazo legal para os exames de elucidação é de 30 dias, mediante solicitação fundamentada.
- 10Mulher volta da atenção especializada com diagnóstico ou tratamento feito: registre o resultado, entenda qual é o seguimento indicado e assuma-o. Boa parte do seguimento citológico pós-tratamento acontece na atenção básica, e é ali que a mulher se perde de novo.
- 11Diagnóstico de câncer firmado em laudo patológico: anote a data desse laudo no prontuário. É dela que corre o prazo de 60 dias para o início do primeiro tratamento.
| Resultado citopatológico | Faixa etária ou situação | Conduta | Prazo |
|---|---|---|---|
| Dentro dos limites da normalidade no material examinado | Qualquer | Seguir a rotina de rastreamento | Próxima rodada (3 anos, após dois exames anuais negativos) |
| Alterações celulares benignas (inflamação sem agente, metaplasia escamosa imatura, reparação, atrofia com inflamação) | Sem queixa nem colpite ao exame | Seguir a rotina de rastreamento. Não repetir por causa da inflamação, não encaminhar e não tratar | Próxima rodada |
| Alterações celulares benignas | Com queixa de corrimento ou conteúdo vaginal anormal | Conduzir pela diretriz de corrimento genital e IST; a rotina de rastreamento segue igual à da mulher normal | Tratamento da queixa; rastreamento na próxima rodada |
| Amostra insatisfatória para avaliação | Qualquer | Repetir a coleta, corrigindo quando possível o que a motivou | 6 a 12 semanas |
| Esfregaço normal apenas com células escamosas, em mulher com colo presente | Qualquer | Repetir o exame; com dois exames anuais normais consecutivos, volta ao intervalo de 3 anos | 12 meses |
| ASC-US (células escamosas atípicas de significado indeterminado, possivelmente não neoplásicas) | Menos de 25 anos | Repetir a citologia. Se mantiver a atipia, manter seguimento trienal; se normalizar, reiniciar o rastreamento aos 25 anos; se piorar, colposcopia | 3 anos |
| ASC-US | 25 a 29 anos | Repetir a citologia. Dois exames consecutivos negativos devolvem à rotina trienal; qualquer repetição igual ou pior manda para colposcopia | 12 meses |
| ASC-US | 30 anos ou mais | Repetir a citologia, tratando antes processo infeccioso e atrofia. Dois consecutivos negativos devolvem à rotina trienal; qualquer repetição igual ou pior manda para colposcopia | 6 meses |
| ASC-US | Imunossuprimida ou vivendo com HIV | Colposcopia já no primeiro exame alterado | Encaminhamento com prioridade |
| ASC-H (não podendo excluir lesão de alto grau) | Qualquer, inclusive até 24 anos, gestante e imunossuprimida | Colposcopia. Na gestante, biópsia apenas se houver suspeita de invasão, com reavaliação 90 dias após o parto | Encaminhamento com prioridade |
| AGC (células glandulares atípicas), possivelmente não neoplásicas ou não podendo excluir lesão de alto grau | Qualquer | Colposcopia com nova coleta atenta ao canal. Avaliação endometrial com ultrassonografia transvaginal acima de 35 anos e, abaixo disso, se houver sangramento uterino anormal ou citologia sugerindo origem endometrial | Encaminhamento com prioridade |
| Células atípicas de origem indefinida | Qualquer | Encaminhar à unidade secundária para investigação, com avaliação por imagem dos demais órgãos pélvicos; endométrio acima de 35 anos, ou abaixo se houver sangramento anormal | Encaminhamento com prioridade |
| LSIL (lesão intraepitelial escamosa de baixo grau) | Menos de 25 anos | Repetir a citologia. Mantida a atipia, seguimento trienal até os 25 anos; normalizando, reiniciar aos 25; alteração mais grave a qualquer momento manda para colposcopia. Métodos excisionais não estão indicados antes dos 25 anos | 3 anos |
| LSIL | 25 anos ou mais | Repetir a citologia, tratando antes processo infeccioso e atrofia. Dois consecutivos negativos devolvem à rotina trienal; citologia positiva no período de um ano manda para colposcopia; LSIL que persiste por 24 meses é reencaminhada | 6 meses |
| HSIL (lesão intraepitelial escamosa de alto grau) | Qualquer | Colposcopia. Repetir a citologia é conduta inicial inaceitável | Encaminhamento com prioridade |
| HSIL não podendo excluir microinvasão | Qualquer | Colposcopia em unidade secundária, com hipótese de neoplasia maligna escrita por extenso | Prioridade; vale o prazo legal de 30 dias com solicitação fundamentada |
| Carcinoma epidermoide invasor | Qualquer | Colposcopia em unidade secundária, com hipótese de neoplasia maligna escrita por extenso | Prioridade; vale o prazo legal de 30 dias com solicitação fundamentada |
| Adenocarcinoma in situ ou adenocarcinoma invasor | Qualquer | Colposcopia em unidade secundária, com hipótese de neoplasia maligna escrita por extenso | Prioridade; vale o prazo legal de 30 dias com solicitação fundamentada |
| Suspeita clínica de câncer ao exame do colo, com qualquer citologia | Qualquer | Encaminhar ao serviço especializado. Citologia normal não afasta e não adia o encaminhamento | Prioridade; vale o prazo legal de 30 dias com solicitação fundamentada |
Resultado do teste de DNA-HPV oncogênico: conduta e prazo (mulher de risco-padrão, 25 a 64 anos)
| Resultado | Conduta | Prazo |
|---|---|---|
| DNA-HPV oncogênico não detectado | Repetir o teste. Comunicar o resultado e avisar que ela será convidada de novo | 5 anos |
| Detectado: tipos 16 e/ou 18 | Colposcopia, independentemente do resultado da citologia | Encaminhamento com prioridade |
| Detectado: outros tipos oncogênicos (HPV-outros) com citologia reflexa negativa | Repetir o teste de DNA-HPV | 12 meses |
| Detectado: outros tipos oncogênicos com citologia reflexa alterada (ASC-US ou mais grave) ou insatisfatória | Colposcopia | Encaminhamento com prioridade |
| Detectado: outros tipos oncogênicos em amostra autocoletada | Nova coleta por médico ou profissional de enfermagem, em visita adicional, para poder fazer a citologia reflexa | Agendar na comunicação do resultado |
| Inválido, insatisfatório ou inconclusivo para todos os tipos virais | Nova coleta por profissional de saúde e repetição do teste | Assim que possível |
| Após triagem negativa (colposcopia negativa em 16/18, ou citologia reflexa negativa em outros tipos) | Repetir o teste de DNA-HPV contado da data daquele resultado | 12 meses |
| Repetição em 12 meses negativa | Retornar ao rastreamento de rotina | 5 anos |
| Repetição em 12 meses positiva para 16 ou 18 | Colposcopia | Encaminhamento com prioridade |
| Repetição em 12 meses positiva para outros tipos, com citologia reflexa ainda negativa | Repetir o teste mais uma vez | 12 meses |
| DNA-HPV oncogênico ainda detectável aos 24 meses, qualquer tipo | Colposcopia, independentemente do resultado da citologia reflexa | Encaminhamento com prioridade |
Quem rastrear, quando começar e quando parar
| Situação | Começa | Método e intervalo | Encerra |
|---|---|---|---|
| Mulher de risco-padrão, com atividade sexual prévia | 25 anos | Teste de DNA-HPV a cada 5 anos após resultado negativo | Com teste negativo acima dos 60 anos (a faixa-alvo vai até 64) |
| Mesma mulher, onde o teste molecular ainda não está disponível | 25 anos | Citologia: os dois primeiros exames com intervalo anual e, ambos negativos, a cada 3 anos | 64 anos, desde que tenha pelo menos dois exames negativos consecutivos nos últimos cinco anos |
| Mulher com mais de 60 anos que nunca fez o teste molecular | Ao ser identificada | Um teste de DNA-HPV. Positivo é manejado como risco-padrão | Encerra se o teste for negativo |
| Mulher com mais de 64 anos que nunca fez citologia | Ao ser identificada | Dois exames citopatológicos com intervalo de um a três anos | Dispensada de exames adicionais se ambos forem negativos |
| Mulher com mais de 60 anos e tratamento prévio de NIC 2, NIC 3 ou AIS | Já rastreando | Mantém o rastreamento enquanto for possível e aceitável | Até 25 anos após o tratamento |
| Mulher vivendo com HIV, imunodeprimida ou imunossuprimida | Após o início da atividade sexual | Teste de DNA-HPV a cada 3 anos após resultado negativo; qualquer tipo oncogênico detectado vai à colposcopia | Não encerra |
| Menos de 25 anos | Não rastrear | — | — |
| Sem história de atividade sexual | Não rastrear | — | — |
| Histerectomia total por lesão benigna, sem história de lesão de alto grau e com exames anteriores normais | Não rastrear | — | — |
| Histerectomia total por lesão precursora ou câncer do colo | Mantém | Rastreamento com coleta vaginal | Por pelo menos 25 anos, ou indefinidamente |
| Histerectomia de causa que a mulher não sabe informar | Mantém | Segue a régua de risco-padrão | Como risco-padrão |
Situações especiais: o que muda e o que não muda
| Situação | O que muda | O que NÃO muda |
|---|---|---|
| Gestante | O momento: o teste pode ser feito no pré-natal se ela precisa regularizar, mas é seguro deixá-lo para a revisão puerperal. Diante de alteração, biópsia só se houver suspeita de invasão, e procedimento excisional só 90 dias após o parto | A faixa etária, o intervalo e a conduta por resultado. A avaliação clínica do colo é obrigatória no pré-natal |
| Pós-menopausa | Preparo com estriol quando há atrofia, antes da coleta e antes da colposcopia. Se a citologia reflexa vier insatisfatória por atrofia, encaminha-se à colposcopia com estrogenização prévia | Tudo o mais: mesma régua de risco-padrão |
| Vivendo com HIV ou imunossuprimida | Início após a primeira relação sexual; intervalo de 3 anos; colposcopia com qualquer tipo oncogênico detectado; rastreamento não encerra. Em citologia, ASC-US já manda para colposcopia no primeiro exame alterado | O laudo e seu vocabulário; a técnica de coleta |
| Vacinada contra HPV | Nada, por enquanto: o rastreamento não depende do status vacinal | Idade de início, método e intervalo |
| Homem trans ou pessoa não binária com colo do útero | Considerar autocoleta quando a coleta por profissional for barreira; preparo estrogênico como na pós-menopausa quando houver atrofia; atenção à menor sensibilidade sob hormonização | As recomendações de risco-padrão |
| Em situação de rua, privada de liberdade, migrante, refugiada, em área remota, com deficiência ou com história de violência sexual | A oferta de autocoleta como estratégia de acesso, e a integração com outras ações de saúde | A régua de idade, método, intervalo e conduta |
Encaminhamento à colposcopia: o que escrever, campo a campo
| Campo | O que escrever | Por que muda a fila |
|---|---|---|
| 1. Identificação e contato | Nome, idade, telefone atualizado e um segundo contato | O agendamento se perde por telefone errado mais do que por falta de vaga |
| 2. Resultado que motiva o encaminhamento | A categoria por extenso, sem sigla solta, com a data do exame e o laboratório | ASC-US e ASC-H são condutas opostas separadas por uma letra |
| 3. Exames anteriores | Resultados e datas dos citopatológicos ou testes moleculares prévios, e se houve tratamento anterior de lesão cervical | Citologia alterada repetida e lesão previamente tratada mudam a prioridade |
| 4. Exame do colo | O que se viu ao exame especular: colo de aspecto normal, ou lesão vegetante, ulcerada, friável, sangrante ao toque, com tamanho estimado | Lesão visível transforma o caso em suspeita de câncer e muda o destino do encaminhamento |
| 5. Situação clínica que muda a conduta | Gestação e idade gestacional, HIV ou outra imunossupressão, menopausa com atrofia, histerectomia prévia e sua causa | Cada uma dessas tem protocolo diferente do lado de lá |
| 6. Hipótese e fundamentação | A hipótese diagnóstica por extenso e, quando a principal hipótese for neoplasia maligna, a menção expressa ao prazo de 30 dias do art. 2º, § 3º, da Lei nº 12.732/2012 | A fundamentação escrita é o que aciona o prazo legal; escrever apenas 'solicito colposcopia' não aciona nada |
Amostra que não presta: como reconhecer e o que fazer
| O que o laudo diz | O que significa | Conduta |
|---|---|---|
| Amostra rejeitada | O exame não chegou a ser lido: identificação ausente ou divergente, lâmina danificada ou ausente | Nova coleta. Conferir o preenchimento da requisição e a identificação do frasco antes de repetir |
| Insatisfatória: material acelular ou hipocelular (menos de 10% do esfregaço) | A coleta não trouxe células suficientes | Nova coleta em 6 a 12 semanas, corrigindo o que for corrigível |
| Insatisfatória: leitura prejudicada em mais de 75% por sangue, piócitos, dessecamento, contaminantes ou superposição | Problema técnico da coleta, do transporte ou do momento escolhido | Nova coleta em 6 a 12 semanas: fora do sangramento, tratando colpite se houver, sem creme vaginal nas 24 h anteriores |
| Satisfatória, epitélios representados: apenas escamoso, em mulher com colo presente, exame normal | A coleta pode não ter alcançado a junção escamocolunar, que é onde nasce quase todo câncer do colo | Repetir em 12 meses; com dois exames anuais normais consecutivos, volta ao intervalo de 3 anos |
| Teste de DNA-HPV inválido, insatisfatório ou inconclusivo | Falha de amostra, armazenamento, transporte ou processamento | Nova coleta por profissional de saúde e repetição do teste. Se a primeira foi autocoletada, a nova tem de ser feita por profissional |
As tabelas de conduta por resultado citopatológico vêm da 2.ª edição das Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero (INCA, 2016), que continua sendo a referência da citologia; as de conduta por resultado de teste molecular vêm da 3.ª edição, volume 1 (INCA, 2025), que é a edição vigente e que remete expressamente à de 2016 nos cenários de transição.
As condutas a partir da colposcopia com doença presente não estão no volume 1 de 2025: o próprio documento as remete a um volume 2, sobre como avaliar, tratar e seguir as mulheres identificadas no rastreamento. Este capítulo termina, portanto, no encaminhamento — que é onde termina a responsabilidade da atenção primária e onde começa a de acompanhar.
Taxa bruta e taxa ajustada por idade não são o mesmo número. O mesmo total de óbitos por câncer do colo do útero aparece na literatura oficial brasileira com valores diferentes por 100 mil mulheres conforme se apresente a taxa bruta ou a ajustada pela população mundial. Ao comparar dois documentos, confira qual das duas está lendo antes de concluir que houve mudança.
A proporção de casos atribuída aos tipos 16 e 18 varia entre documentos oficiais conforme a revisão de referência: as diretrizes de 2025 trazem 77%, com base em revisão sistemática da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, e material do Programa Nacional de Imunizações de 2024 traz cerca de 71%. A ordem de grandeza e a consequência clínica são as mesmas — esses dois tipos concentram a maior parte do risco e por isso vão direto à colposcopia.
A conduta, hora a hora
Primeiro excluir queixa ou lesão que demande investigação diagnóstica. No rastreamento, seguir o fluxo brasileiro do teste de DNA-HPV quando implantado; onde a transição mantém citologia, usar o algoritmo citológico. Não misturar os intervalos dos dois métodos. Registrar resultado, providência, prazo e responsável pela busca ativa até retorno à rotina ou tratamento.
Duas datas organizam tudo e devem estar no prontuário de qualquer mulher deste capítulo: a data do exame e a data em que alguém vai conferir o que aconteceu com ele. A segunda é a que não existe na maioria dos prontuários, e é a que faltou para Dona Marlene.
Antes de colher — a consulta em que se decide se o exame vale a pena
O exame começa na decisão de oferecê-lo, e essa decisão erra nos dois sentidos com a mesma frequência. Confirme a idade, a existência de atividade sexual prévia, a data e o resultado do último exame, se houve histerectomia e por quê, e se há imunossupressão. Pergunte por sintoma antes de pensar em rastreamento. E, no exame especular, olhe o colo antes de colher.
Prescrição- Confirmar faixa etária: 25 a 64 anos. Abaixo de 25, não colher — nem citologia nem teste molecular.
- Confirmar o último exame e a data. Dentro do intervalo recomendado e sem alteração pendente, não repetir: explicar por que não é preciso e registrar a próxima data.
- Rastrear sintoma antes de oferecer o exame: sangramento anormal, sangramento pós-coito, corrimento fétido ou sanguinolento persistente, dor pélvica. Havendo qualquer um, o caminho é encaminhamento, não coleta.
- Exame especular com inspeção do colo em toda coleta, descrevendo o que se viu.
- Atrofia genital ao exame: estrogenização prévia — creme vaginal de estriol, 1 g com aplicador vaginal, à noite, por 14 noites consecutivas; coletar entre 5 e 7 dias após suspender o uso (Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, INCA, 2025; o estriol creme vaginal consta da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais). Em mulher com história de câncer de mama ou outra contraindicação, avaliar individualmente.
- Aconselhamento prévio ao teste molecular: dizer, antes de colher, que é exame de rastreio e que um resultado positivo não significa necessariamente lesão nem câncer.
A coleta
Dez minutos, com privacidade garantida, procedimento explicado antes de começar e a mulher informada de que pode interromper. A técnica tem um objetivo único: trazer células da junção escamocolunar.
Prescrição- Coletar a ectocérvice com espátula de ponta longa, tipo Ayre, e o canal cervical com escova apropriada. Os dois sítios, sempre — a combinação triplica a chance de obter células endocervicais.
- Evitar o período de sangramento menstrual mais ativo; sem creme vaginal nas 24 horas anteriores; sem relação sexual nos três dias anteriores.
- Tratar processo infeccioso e corrigir atrofia antes da recoleta, quando o exame anterior foi insatisfatório por essas causas.
- Preencher a requisição por inteiro: data da última menstruação, uso de hormônio, história de tratamento prévio de lesão cervical, e a informação de que se trata de exame de seguimento, quando for o caso. O laboratório lê isso.
- Conferir a identificação da lâmina ou do frasco contra o formulário antes de despachar. Amostra rejeitada por identificação é exame perdido e mulher que precisa voltar.
- Registrar no prontuário: data da coleta, método, achado do exame especular e a data de conferência do resultado.
Quando o laudo chega — a etapa que ninguém marca na agenda
Este é o marco que falha no Brasil. O laudo volta ao serviço e alguém precisa lê-lo, classificá-lo e agir. Não é tarefa da mulher descobrir que o resultado chegou.
Prescrição- Ler o laudo na ordem: tipo de amostra, avaliação pré-analítica, adequabilidade, epitélios representados, diagnóstico descritivo, microbiologia.
- Classificar em uma de quatro caixas: (a) refazer o exame; (b) rotina, sem nada a fazer; (c) repetir em prazo definido; (d) encaminhar à colposcopia.
- Anexar o laudo ao prontuário e escrever, na evolução, a conduta decidida com a data-alvo. Laudo anexado sem conduta escrita é laudo que não foi lido.
- Comunicar o resultado à mulher — inclusive o normal. A recomendação nacional manda comunicar tanto quem tem HPV detectado, com orientação sobre as próximas etapas, quanto quem tem teste negativo, avisando que será convidada novamente.
- Registrar como o contato foi feito e se deu certo. Duas tentativas sem sucesso viram busca ativa, não arquivamento.
Resultado normal ou com alterações benignas
A conduta é uma frase, e o erro é fazer mais do que ela diz. Alteração inflamatória sem queixa não é motivo para repetir, encaminhar ou tratar.
Prescrição- Informar o resultado, dizer a data da próxima rodada e registrar essa data.
- Alterações celulares benignas sem queixa nem colpite: seguir a rotina, sem repetir e sem encaminhar.
- Havendo queixa de corrimento, tratar pela diretriz de corrimento genital e IST — sem usar a citologia como exame diagnóstico de vaginite —, e manter a rotina de rastreamento inalterada.
- Esfregaço normal apenas com células escamosas em mulher com colo presente: repetir em 12 meses e, com dois anuais normais, voltar ao intervalo de 3 anos.
Resultado alterado que repete — e a repetição que precisa acontecer
ASC-US e LSIL são as categorias mais comuns e as de conduta mais contraintuitiva: a maioria não vai à colposcopia, vai repetir. Isso só funciona se a repetição acontecer na data, e é aqui que o programa perde mais gente do que em qualquer outra etapa.
Prescrição- ASC-US aos 30 anos ou mais: repetir a citologia em 6 meses. Entre 25 e 29 anos: repetir em 12 meses. Abaixo de 25 anos: repetir em 3 anos.
- LSIL aos 25 anos ou mais: repetir a citologia em 6 meses. Abaixo de 25 anos: repetir em 3 anos.
- Antes da segunda coleta, tratar processo infeccioso e corrigir o trofismo genital, com estrogenização quando indicada.
- Dois exames consecutivos negativos devolvem a mulher à rotina trienal. Qualquer repetição que venha igual ou pior manda para a colposcopia.
- LSIL que persiste por 24 meses é reencaminhada para colposcopia mesmo sem piorar.
- Mulher imunossuprimida ou vivendo com HIV com ASC-US: colposcopia já no primeiro exame alterado, sem repetir.
- Agendar a repetição na hora, com data marcada, e registrar essa data como pendência do serviço — não como recomendação verbal.
Resultado alterado que encaminha — e o encaminhamento que consegue a vaga
ASC-H, atipias glandulares, atipias de origem indefinida, HSIL e tudo acima vão para a colposcopia sem repetição intermediária. O que decide se essa colposcopia acontece em três semanas ou em oito meses é o texto que você escreve.
Prescrição- Preencher os seis campos da tabela de encaminhamento: contato, resultado por extenso com data, exames anteriores, achado do exame especular, situação clínica que muda conduta, e hipótese com fundamentação.
- Escrever a categoria por extenso, nunca a sigla isolada: 'células escamosas atípicas de significado indeterminado, não podendo excluir lesão intraepitelial de alto grau' e não 'ASC-H'.
- Quando a principal hipótese diagnóstica for neoplasia maligna, fundamentar o pedido e mencionar expressamente o prazo de até 30 dias do art. 2º, § 3º, da Lei nº 12.732/2012.
- Diante de lesão visível no colo, encaminhar ao serviço especializado com hipótese de câncer, independentemente do resultado da citologia — e não esperar exame nenhum.
- Gestante com indicação de colposcopia: encaminhar do mesmo jeito, registrando a idade gestacional. Biópsia apenas na suspeita de invasão; procedimento excisional, só 90 dias após o parto.
- Não pedir teste de DNA-HPV para reavaliar indicação de colposcopia já dada pela citologia.
- Registrar no prontuário a data de emissão do encaminhamento e uma data de conferência do agendamento.
7 a 15 dias depois de emitir o encaminhamento
Encaminhamento emitido não é consulta marcada. Nesta janela, alguém do serviço confere se o pedido entrou na regulação e se a mulher foi contatada. É a checagem mais barata de todo o capítulo.
Prescrição- Conferir se o encaminhamento entrou no sistema de regulação e se há agendamento.
- Se não houver, reemitir com a fundamentação completa e registrar a segunda emissão.
- Contatar a mulher para confirmar que ela recebeu a informação e sabe aonde ir, quando e o que levar.
- Registrar a pendência em toda evolução seguinte, até que a consulta aconteça.
Até 30 dias — o prazo legal dos exames de elucidação
Quando a principal hipótese diagnóstica é neoplasia maligna, a lei dá 30 dias para os exames necessários à elucidação, condicionados a solicitação fundamentada do médico responsável. É um instrumento de trabalho, não uma curiosidade jurídica.
Prescrição- Contar os 30 dias a partir da solicitação fundamentada e anotar a data-limite no prontuário.
- Estourado o prazo sem agendamento, acionar a regulação por escrito e registrar o contato, com data e com quem se falou.
- Manter a mulher informada do que está acontecendo com o pedido dela. Silêncio é o que faz mulher desistir de fila.
6 e 12 meses — as repetições que devolvem à rotina
O seguimento por repetição só termina de dois jeitos: dois exames negativos consecutivos, que devolvem a mulher ao intervalo de rotina, ou uma alteração que manda para a colposcopia. O terceiro jeito, que é o real, é a mulher sumir — e evitá-lo é trabalho de serviço, não de sorte.
Prescrição- Manter uma lista nominal das mulheres em seguimento por repetição, com a data-alvo de cada uma.
- Buscar ativamente quem não compareceu na data, antes que o prazo dobre.
- Dois exames consecutivos negativos: registrar a alta do seguimento e a data da próxima rodada de rotina.
- No rastreamento com teste molecular, a repetição após triagem negativa é em 12 meses contados da data do resultado da triagem, e não da data da coleta inicial.
- Persistência de DNA-HPV oncogênico aos 24 meses: colposcopia, independentemente da citologia reflexa.
Quando a mulher volta da atenção especializada
A maior parte do seguimento pós-diagnóstico e pós-tratamento acontece na atenção básica, e a transição de volta é outro ponto de perda. A diretriz nacional pede que a atenção secundária faça o reencaminhamento formal, com resumo da história, diagnóstico, tratamentos realizados e orientação de seguimento — mas quem garante que isso vire conduta é quem recebe.
Prescrição- Ler e registrar o que foi feito: colposcopia, biópsia, tipo de excisão, resultado histopatológico, margens.
- Perguntar e anotar qual seguimento foi indicado e em que prazo, e assumir esse cronograma como pendência do serviço.
- Informar no pedido dos exames de seguimento que se trata de amostra para acompanhamento de resultado anterior alterado, ou de mulher tratada — a informação muda a leitura no laboratório.
- Mulher tratada de NIC 2, NIC 3 ou adenocarcinoma in situ com mais de 60 anos mantém o rastreamento até 25 anos após o tratamento; mulher histerectomizada por lesão precursora ou câncer segue com coleta vaginal por pelo menos 25 anos ou indefinidamente.
Diagnóstico de câncer firmado em laudo patológico — o relógio dos 60 dias
A partir daqui o capítulo muda de assunto, mas o papel de quem acompanha não acaba. A data do laudo patológico é a data que faz correr o prazo legal, e ela precisa estar escrita.
Prescrição- Anotar no prontuário a data em que o diagnóstico foi firmado em laudo patológico.
- Encaminhar a estabelecimento habilitado em alta complexidade em oncologia, lembrando que o tratamento do câncer do colo do útero frequentemente exige radioterapia e braquiterapia, que não existem em toda unidade habilitada.
- Acompanhar o intervalo até o início do tratamento — cirurgia, radioterapia ou quimioterapia — com o teto legal de 60 dias contados do laudo.
- A comunicação do diagnóstico e a conversa sobre doença avançada têm capítulos próprios: comunicação de más notícias e cuidados paliativos.
A prevenção primária, que se faz na mesma consulta
A vacina contra o HPV mudou o problema, mas não substitui o rastreamento — nem para quem tomou. A oportunidade de vacinar quem está na faixa aparece justamente nas consultas em que se discute rastreamento, e o esquema é curto o bastante para ser sabido de cor.
Prescrição- Vacina HPV quadrivalente (tipos 6, 11, 16 e 18): dose única para meninas e meninos de 9 a 14 anos.
- Três doses (0, 2 e 6 meses) para pessoas imunodeprimidas, para vítimas de violência sexual de 15 a 45 anos, para pessoas com papilomatose respiratória recorrente a partir de 2 anos e para usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV de 15 a 45 anos.
- Duas doses (0 e 6 meses) para vítimas de violência sexual de 9 a 14 anos.
- Verificar situação vacinal de adolescentes não vacinados até 19 anos e encaminhar à sala de vacina — a estratégia nacional de resgate existe para eles.
- Não usar a vacinação para alterar a régua de rastreamento: a recomendação nacional é explícita de que o rastreamento não depende do status vacinal neste momento. O calendário completo é assunto do capítulo de Calendário Nacional de Vacinação.
Como saber se está funcionando
Não existe, neste capítulo, um parâmetro fisiológico para acompanhar em 48 horas. O que se reavalia é o ciclo: o exame chegou, alguém leu, a mulher soube, o encaminhamento virou consulta, a repetição aconteceu. Cada uma dessas etapas tem um prazo esperado e uma conduta quando falha, e é isso que a tabela abaixo traz.
A pergunta que estrutura a reavaliação é uma só, e vale a pena fazê-la em voz alta: quem, neste serviço, sabe o nome das mulheres com exame alterado pendente de resolução? Se a resposta for ninguém, o programa está produzindo exames, e não prevenindo câncer.
Esperado: Laudo disponível e anexado ao prontuário. O intervalo entre coleta e recebimento pelo laboratório, na maior parte do país, é de até 10 dias
Se não melhora: Cobrar o laboratório com a data da coleta e o número da requisição. Atraso repetido é problema logístico do serviço, não da mulher: leve ao gestor da unidade com os casos nominados
Esperado: Conduta escrita na evolução, com data-alvo, para todo laudo recebido
Se não melhora: Instituir uma rotina fixa de conferência dos laudos pendentes — dia da semana, responsável nomeado, lista impressa ou em tela. Laudo que depende de a mulher voltar por acaso é laudo que não será lido
Esperado: Mulher informada do resultado, do que ele significa e do que vem a seguir — inclusive quando o resultado é normal
Se não melhora: Duas tentativas de contato sem sucesso acionam busca ativa pela equipe de saúde da família. Conferir telefone e endereço no cadastro e atualizar. Não arquivar
Esperado: Percentual de exames insatisfatórios abaixo de 5%
Se não melhora: Acima de 5%, o problema é de coleta e se resolve com treinamento: sítios corretos, dois instrumentos, momento do ciclo, tratamento prévio de colpite e estrogenização na atrofia
Esperado: Presença de células metaplásicas ou endocervicais na maior parte dos exames satisfatórios
Se não melhora: Baixa representatividade significa que a coleta não está alcançando a junção escamocolunar — e derruba junto o índice de positividade. Revisar o uso da escova de canal
Esperado: Encaminhamento na regulação, com data marcada e mulher avisada
Se não melhora: Reemitir com fundamentação completa, acionar a regulação por escrito e registrar. Quando a hipótese principal é neoplasia maligna, o prazo legal para os exames de elucidação é de 30 dias mediante solicitação fundamentada
Esperado: Mulher atendida e contrarreferência recebida
Se não melhora: Faltou: contatar e reagendar, e perguntar o motivo real da falta — transporte, trabalho, filho pequeno, medo, vergonha. A maioria das faltas tem causa concreta e resolvível, e nenhuma delas se resolve com uma segunda carta
Esperado: Exame colhido dentro de 30 dias da data-alvo
Se não melhora: Buscar ativamente antes que o atraso dobre o intervalo. Não recomeçar a contagem: dois exames negativos consecutivos continuam sendo o critério de alta do seguimento
Esperado: Teste realizado; se negativo, retorno ao intervalo de 5 anos
Se não melhora: Positivo para 16 ou 18 manda para colposcopia. Positivo para outros tipos com citologia reflexa negativa repete em mais 12 meses — e, persistindo aos 24 meses, colposcopia, independentemente da citologia
Esperado: Laudo liberado — no Brasil, cerca de 61% dos laudos anatomopatológicos do colo saem nesse prazo, com variação enorme entre estados
Se não melhora: Cobrar nominalmente, registrar a data da cobrança e, quando a hipótese é neoplasia maligna, invocar o prazo legal. Mulher com biópsia feita e laudo perdido é a versão silenciosa do mesmo problema
Esperado: Cirurgia, radioterapia ou quimioterapia iniciada dentro do prazo legal
Se não melhora: No Brasil, pouco mais de metade dos casos cumpre esse prazo, e na Região Norte a média foi de 32%. Acompanhar ativamente, registrar as datas e acionar a regulação são atos clínicos aqui — a data do laudo é a prova
Esperado: Proporção crescente de mulheres de 25 a 64 anos rastreadas dentro do intervalo, com prioridade para quem nunca fez ou está atrasada há mais de 36 meses
Se não melhora: Se o número de exames sobe e a cobertura não, o serviço está repetindo exame em quem já alcança. A correção é nominal: listar quem nunca fez e convidar, em vez de recolher quem sempre vem
Onde o erro machuca
O dano: É o erro deste capítulo. Uma lesão de alto grau tem cura praticamente garantida com um procedimento ambulatorial, e nenhum sintoma que denuncie o atraso. Meses de espera transformam lesão precursora em carcinoma invasor, e o tratamento passa de uma alça de eletrocirurgia para cirurgia de grande porte ou radioterapia com quimioterapia.
Como pegar a tempo: Toda coleta gera duas datas no prontuário: a da coleta e a da conferência do resultado. Toda leitura de laudo gera uma linha de evolução com a conduta e a data-alvo. E o serviço mantém uma lista nominal de exames alterados pendentes, revisada em dia fixo da semana.
O dano: Consome vaga de coleta, vaga de laboratório e uma consulta, e não muda desfecho nenhum. Multiplicado pela escala do país, é parte dos mais de três milhões de exames excedentes de um triênio — vagas subtraídas de quem nunca colheu.
Como pegar a tempo: Decorar a frase da diretriz: na ausência de queixa ou de evidência clínica de colpite, não há necessidade de encaminhamento, tratamento ou repetição do exame citopatológico. O exame citopatológico não é exame diagnóstico de vaginite.
O dano: São condutas opostas separadas por uma letra: ASC-US aos 30 anos ou mais repete em 6 meses; ASC-H vai à colposcopia. Ler ASC-H como ASC-US adia em meses a investigação de uma categoria em que a lesão de alto grau aparece com frequência muito superior. Ler ASC-US como ASC-H gera colposcopia desnecessária.
Como pegar a tempo: Ler o diagnóstico por extenso, que é como a nomenclatura brasileira manda que ele seja escrito, e reescrevê-lo por extenso no encaminhamento. Se o laudo trouxer apenas a sigla, procurar a frase completa antes de decidir.
O dano: O exame de rastreamento não foi desenhado para tumor invasor: material necrótico e hemorrágico produz amostra insatisfatória ou resultado falsamente tranquilizador. Enquanto se espera o laudo, o tumor cresce — e o estádio ao diagnóstico já é avançado em metade dos casos brasileiros.
Como pegar a tempo: Perguntar por sintoma antes de oferecer rastreamento, e olhar o colo em toda coleta. Sintoma ou lesão visível saem da via do rastreamento e entram na via do encaminhamento com hipótese de câncer escrita por extenso.
O dano: Duplo. Encontra-se infecção transitória e lesão de baixo grau que iria regredir, e a investigação leva a excisão da zona de transformação numa mulher com prole indefinida — com risco relativo de 1,78 para parto antes de 37 semanas e de 2,54 para parto entre 28 e 30 semanas. Foram 1,9 milhão de exames nessa faixa em três anos no Brasil.
Como pegar a tempo: Não colher antes dos 25 anos, nem citologia nem teste molecular. Se o teste molecular tiver sido feito por engano, a recomendação nacional é não considerar o resultado e orientar a mulher sobre a história natural da infecção e sobre iniciar o rastreamento aos 25 anos.
O dano: O encerramento pela citologia exige pelo menos dois exames negativos consecutivos nos últimos cinco anos; sem eles, a idade não encerra nada. E a mulher que nunca rastreou mantém prevalência de lesão precursora pelo menos três vezes maior nas idades avançadas do que a que já rastreava. É essa mulher que chega em estádio III.
Como pegar a tempo: Antes de dar alta por idade, olhar os dois últimos resultados e suas datas. Mulher que nunca colheu é prioridade de convocação, não caso encerrado: acima de 64 anos, dois exames com intervalo de um a três anos; com o teste molecular, um teste acima dos 60 anos.
O dano: O exame não aconteceu. A mulher sai da consulta achando que está protegida, e o serviço a conta como rastreada. É a forma mais silenciosa de falso negativo que existe, porque não há nem exame para revisar.
Como pegar a tempo: Ler a linha da adequabilidade antes da linha do diagnóstico. Insatisfatória: nova coleta em 6 a 12 semanas, corrigindo a causa. Rejeitada: nova coleta, conferindo identificação e preenchimento. Nos dois casos, agendar antes de a mulher sair.
O dano: Um teste molecular negativo não revoga a indicação, mas cria a ilusão de que revogou — e a mulher some da fila com uma lesão de alto grau já identificada. A recomendação nacional de transição é expressa em proibir isso.
Como pegar a tempo: Indicação de colposcopia dada pela citologia é irreversível por outro exame: prioriza-se a colposcopia. Quando o teste molecular chega ao serviço, ele substitui a citologia na próxima data de rastreio de quem está em dia, não em quem tem pendência.
O dano: Custo maior sem ganho de detecção de NIC 2 ou 3, e mais colposcopias por perda de especificidade. Cada colposcopia gerada sem indicação ocupa uma vaga num sistema em que a produção do procedimento está abaixo do necessário e abaixo do patamar de 2019.
Como pegar a tempo: No SUS o rastreamento é com teste molecular isolado, e a citologia entra apenas como exame reflexo, na mesma amostra, quando o resultado é positivo para tipos diferentes de 16 ou 18. A recomendação contra o coteste é forte e baseada em evidência de certeza alta.
O dano: Ensina a mulher que silêncio significa normalidade — que foi exatamente a conclusão de Dona Marlene. Uma vez aprendida essa regra, o dia em que o serviço falhar em avisar sobre um resultado alterado será indistinguível de um resultado normal.
Como pegar a tempo: Comunicar todo mundo. A recomendação nacional manda informar e orientar quem tem HPV detectado e também quem tem teste negativo, avisando que será convidada novamente no prazo. Dizer a data da próxima rodada é parte do resultado.
O dano: Se a histerectomia foi por lesão precursora ou câncer do colo, ela precisa de rastreamento com coleta vaginal por pelo menos 25 anos. Num estudo com mulheres com neoplasia intraepitelial vaginal de alto grau e câncer de vagina, cerca de metade tinha histerectomia prévia — e quatro em cada cinco dessas por lesão precursora ou câncer do colo.
Como pegar a tempo: Perguntar a causa da histerectomia e procurar o registro. Sem certeza de que foi por doença benigna e sem certeza da ausência de lesão prévia, o rastreamento se mantém.
O dano: A imunodepressão aumenta persistência, progressão e recorrência. Manter intervalo de risco-padrão nessa mulher é usar um cronograma calibrado para outra biologia, e as lesões aparecem entre uma rodada e outra.
Como pegar a tempo: Diagnóstico de HIV ou de outra imunossupressão muda o cronograma na mesma consulta: início após a primeira relação sexual, intervalo de três anos após teste negativo, colposcopia com qualquer tipo oncogênico detectado, e rastreamento que não encerra. O manejo da infecção em si é do capítulo de HIV/aids.
O dano: O único achado deste capítulo que não depende de laboratório, de fila e de prazo é uma lesão vegetante ou ulcerada vista ao exame especular. Perdê-la significa esperar o laudo de um exame que pode vir normal e adiar o encaminhamento por semanas.
Como pegar a tempo: Inspeção do colo em toda coleta, com descrição no prontuário — 'colo de aspecto normal' escrito por quem olhou vale muito mais do que campo em branco. Na gestante, a avaliação clínica do colo é rotina do pré-natal.
O que dizer ao paciente e à família
Este é um exame invasivo, feito em uma parte do corpo carregada de significado, quase sempre por alguém que a mulher não conhece, e cujo resultado pode envolver a palavra câncer e a palavra sexualmente transmissível na mesma frase. Não há como a conversa ser detalhe. Entre as brasileiras de 25 a 64 anos que nunca fizeram o exame preventivo, o principal motivo declarado foi não achar necessário (45,1%), seguido de não ter sido orientada a fazer (14,8%) e de vergonha (13,1%). Os dois primeiros são falha de comunicação; o terceiro é falha de acolhimento. Nenhum dos três se resolve com mais vagas.
As falas abaixo são para dizer, não para parafrasear. Elas foram escritas para um tempo de consulta real e evitam três armadilhas: prometer o que não se controla, usar o vocabulário do laudo com quem não o tem, e transformar um resultado de rastreamento em diagnóstico.
Oferecer o exame a quem nunca fez e diz que não precisa
“A senhora está se sentindo bem, e é exatamente por isso que este exame funciona. Ele não serve para descobrir por que a gente se sente mal: ele procura uma alteração que ainda não dá sintoma nenhum e que, encontrada agora, se resolve com um procedimento simples. Quando começa a dar sintoma, já é outra doença e outro tratamento. São dez minutos, e eu explico cada passo antes de fazer.”
Não diga: Dizer que 'toda mulher tem que fazer todo ano'. Além de errado, a frase ensina uma periodicidade que não existe e desvaloriza o exame quando a mulher descobre que o intervalo é maior.
A mulher tem vergonha ou medo do exame
“Eu entendo, e é muito comum. A senhora manda no ritmo: eu explico o que vou fazer antes de cada passo, a senhora pode pedir para parar a qualquer momento, e a porta fica fechada com a sala só nossa. Se quiser, pode vir alguém de sua confiança junto. Se hoje não for o dia, a gente marca outro — mas eu não quero que a senhora vá embora sem a gente ter combinado uma data.”
Não diga: Insistir na mesma consulta como se recusar fosse desobediência, e minimizar com 'não dói nada'. Doer não é a questão principal; exposição e controle são.
Explicar por que não se colhe antes dos 25 anos
“Antes dos 25 anos, esse exame faz mais mal do que bem, e não é por economia. Nessa idade, o vírus aparece com muita frequência e vai embora sozinho na maioria das vezes. Se a gente procura, encontra alterações que sumiriam, e o tratamento dessas alterações tira um pedacinho do colo do útero — o que aumenta a chance de um parto prematuro no futuro. A gente começa aos 25 porque é aí que encontrar passa a valer mais do que procurar.”
Não diga: Dizer apenas 'o protocolo não permite'. Sem o motivo, a recusa parece falta de acesso, e a mulher vai buscar o exame em outro lugar.
Explicar o teste de HPV antes de colher
“Este exame procura o vírus que pode causar o câncer do colo do útero. Ele é muito bom em dizer quando não tem nada — por isso, se der negativo, a senhora fica cinco anos tranquila. Mas se der positivo, isso não quer dizer que a senhora tem lesão nem câncer: quer dizer que o vírus está aí, o que é comum, e que a gente vai olhar melhor. A maioria das mulheres com o vírus não tem doença nenhuma.”
Não diga: Deixar para explicar isso depois do resultado positivo. O aconselhamento prévio é recomendação nacional exatamente porque o susto do resultado é pior do que o risco que ele representa.
Entregar um resultado normal
“Deu tudo certo, sem alteração. Anota aí a data: o próximo é em [prazo]. Antes disso a senhora não precisa repetir, e repetir antes não deixa mais segura. Se aparecer sangramento fora da menstruação, sangramento depois da relação ou corrimento com cheiro ruim que não passa, aí a senhora volta antes, porque isso não espera exame de rotina.”
Não diga: Encerrar com 'está tudo bem, pode ir'. Sem a data da próxima rodada e sem os sinais de alarme, a mulher sai sem as duas informações que ela realmente precisa carregar.
Entregar um resultado de HPV positivo, com pergunta sobre traição
“Eu vou responder direto: esse resultado não diz quando a senhora pegou o vírus e não diz de quem. Ele pode estar aí há muitos anos, sem dar nenhum sinal, e é assim na maioria das vezes. Não dá para usar esse exame como prova de nada, em nenhuma direção. O que ele diz é que a gente precisa olhar melhor o colo do útero — e é disso que eu quero falar com a senhora agora.”
Não diga: Responder de forma evasiva ou fazer piada. A pergunta é sempre feita, ainda que em silêncio, e uma resposta vaga aqui vira conflito em casa e mulher que não volta.
Entregar um resultado alterado que só exige repetição em seis meses
“O exame veio com uma alteração pequena, do tipo que na maioria das vezes some sozinha. Por isso a conduta não é investigar agora: é repetir daqui a seis meses. Não é descaso e não é fila — é o que faz melhor pela senhora, porque investigar tudo levaria a tratamentos desnecessários. Mas essa repetição é obrigatória, e eu já vou deixar marcada. Se nesses seis meses aparecer sangramento fora de hora, a senhora volta antes.”
Não diga: Dizer 'não é nada, depois a senhora repete'. A mulher que ouve 'não é nada' não volta em seis meses, e o seguimento por repetição só funciona se a repetição acontecer.
Entregar um resultado de lesão de alto grau
“O exame mostrou uma alteração que precisa ser investigada logo. Eu quero ser clara em duas coisas. Primeira: isso não é câncer, é uma alteração que vem antes e que, tratada agora, cura em praticamente todos os casos. Segunda: não dá para esperar, porque é justamente esperar que transforma uma coisa na outra. Vou encaminhar a senhora para um exame chamado colposcopia, que olha o colo do útero com um aparelho de aumento. Eu vou anotar aqui a data em que vou conferir se a senhora conseguiu marcar, e se não tiver conseguido eu quero saber.”
Não diga: Usar a palavra câncer sem qualificar, e prometer prazo de agendamento que não depende de você. Prometa o que você controla: a checagem.
A mulher descobre que o resultado dela estava parado há meses
“A senhora fez a sua parte, e a falha foi nossa: esse resultado chegou e ninguém entrou em contato. Eu sinto muito. O que eu posso fazer é o que vem agora, e vou fazer hoje: encaminhar com prioridade, explicar exatamente o que está escrito aqui, e marcar a data em que eu vou conferir se a senhora conseguiu a consulta.”
Não diga: Explicar a falha do serviço em detalhes, culpar a equipe anterior ou defender-se. Reconhecer, pedir desculpa e mostrar a ação imediata resolve mais que qualquer explicação.
A mulher pede o exame antes do prazo, porque acha que é anual
“Entendo, e é assim mesmo que muita gente aprendeu. Mas o que protege não é fazer com frequência: é fazer no intervalo certo, do jeito certo, e ir atrás quando dá alterado. Repetir antes não encontra nada a mais e ocupa a vaga de uma mulher que nunca fez nenhum. O seu está em dia — vou anotar aqui a data do próximo e, se a senhora conhecer alguém que nunca fez, traga.”
Não diga: Ceder por ser mais rápido que explicar. Cada exame excedente sai de uma fila em que alguém está esperando o primeiro exame da vida.
A mulher está vacinada e pergunta se ainda precisa do exame
“Precisa, e a vacina continua valendo a pena. Ela protege contra os tipos de vírus mais perigosos, mas não contra todos, e por isso o exame continua. O que a vacina faz é diminuir muito a chance de a senhora ter uma alteração — o exame é o que confirma que não teve.”
Não diga: Dizer que 'a vacina não serve para nada se você tem que fazer o exame do mesmo jeito'. Uma frase dessas derruba adesão vacinal em toda a família.
A mulher fez a autocoleta e o resultado exige que ela volte para nova coleta
“O resultado mostrou o vírus, de um tipo que pede um segundo exame para saber se existe alteração nas células. Esse segundo exame não dá para fazer com a amostra que a senhora colheu sozinha — precisa ser aquela coleta com o espéculo, feita aqui. Eu já vou marcar. Não mudou nada de ruim: é a etapa seguinte, e ela é rápida.”
Não diga: Apresentar isso como se a autocoleta tivesse dado errado. Ela funcionou: trouxe a mulher para dentro do fluxo, que era o objetivo.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Começar aos 25 anos
A recomendação brasileira é iniciar aos 25 anos, classificada como condicional e baseada em evidência de certeza baixa entre 25 e 29 anos, e forte, baseada em evidência de certeza moderada, a partir dos 30. Pesaram: um estudo de modelagem com dados nacionais em que o início aos 25 anos se mostrou a melhor estratégia; o resultado do programa organizado de Indaiatuba, onde a proporção de NIC 2 ou 3 detectada entre 25 e 29 anos não diferiu significativamente da faixa de 30 a 39 anos; e a dificuldade operacional de conviver com dois métodos primários em faixas etárias diferentes.
Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, 3. ed., volume 1 (INCA, 2025)
Começar aos 30 anos
A diretriz da Organização Mundial da Saúde recomenda iniciar o rastreamento regular da população geral aos 30 anos, com nível de certeza da evidência classificado como moderado. O argumento é o balanço entre risco e benefício: entre 25 e 29 anos a incidência de câncer é baixa, a prevalência de infecção transitória é alta, a regressão espontânea de NIC 2 chega a 70% em 36 meses em mulheres com menos de 30 anos, e o excesso de colposcopias e excisões aumenta prematuridade. Postergar melhoraria a custo-efetividade e reduziria o impacto orçamentário.
Organização Mundial da Saúde, diretriz de rastreamento e tratamento de lesões precursoras (2021), citada e discutida nas Diretrizes Brasileiras de 2025
Para a mulher à sua frente, a régua é a nacional: aos 25 anos se inicia. O que a divergência muda é o peso da conversa entre 25 e 29 anos — nessa faixa você está diante de uma recomendação que o próprio documento classifica como condicional e de evidência baixa, e cujo monitoramento foi expressamente pedido. Isso significa explicar melhor o significado de um resultado positivo, ser mais cauteloso na indicação de procedimentos excisionais em mulher com prole indefinida, e não confundir infecção com doença. Abaixo dos 25 anos, porém, não há divergência: as duas posições recusam o rastreamento.
Cinco anos
É a recomendação vigente no Brasil, forte e baseada em evidência de certeza alta. O modelo de custo-efetividade que sustentou a incorporação comparou periodicidade anual com quinquenal e mostrou maior efetividade, maior eficiência e menor custo com a quinquenal. Os ensaios clínicos disponíveis apoiam a extensão do intervalo até pelo menos cinco anos, e no seguimento de 14 anos de uma coorte holandesa a incidência cumulativa de NIC 3 ou mais grave foi muito menor no grupo com teste molecular negativo do que no de citologia negativa.
Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, 3. ed., volume 1 (INCA, 2025)
Dez anos
A principal controvérsia na literatura é justamente ampliar o intervalo de cinco para dez anos, apoiada em evidência de certeza alta sobre a duração da proteção conferida por um teste negativo, e no menor número de partos prematuros decorrentes de sobrediagnóstico. Uma modelagem da OMS comparou as duas periodicidades: com dez anos, haveria 11 partos prematuros a menos, mas 192 casos e 146 mortes a mais por câncer do colo do útero no cenário com triagem por genotipagem parcial.
Modelagem da Organização Mundial da Saúde (2021), apresentada e discutida nas Diretrizes Brasileiras de 2025
O intervalo não é decisão de consultório: é parâmetro de programa, e você aplica o nacional. O que essa divergência ensina é a ler o próprio raciocínio da diretriz — os prejuízos em números absolutos superam a vantagem, e uma morte por câncer pesa mais que um parto prematuro. Na consulta, isso vira uma frase útil para quem acha cinco anos tempo demais: o intervalo maior é consequência da sensibilidade do teste, não de economia, e um teste negativo dá mais segurança para cinco anos do que uma citologia negativa dava para três.
Repetir em 12 meses
O Brasil optou pela postura mais conservadora e recomenda repetir o teste de DNA-HPV em 12 meses a partir da data do resultado da triagem negativa, seja colposcopia negativa após detecção de 16 e/ou 18, seja citologia reflexa negativa após detecção de outros tipos. É recomendação condicional, baseada em opinião de especialistas, e o documento justifica a escolha pelo baixo nível de evidência disponível.
Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, 3. ed., volume 1 (INCA, 2025)
Repetir em 24 meses
O grupo de desenvolvimento da diretriz da OMS optou por recomendar a repetição em 24 meses. Os modelos mostraram benefícios semelhantes entre repetir em 12 ou em 24 meses após genotipagem ou colposcopia, mas a repetição em 24 meses levaria a menos cânceres tratados e menos custos associados; repetir nos dois momentos, em 12 e em 24 meses, resultou em mais danos por excesso de tratamento.
Organização Mundial da Saúde, diretriz de rastreamento e tratamento de lesões precursoras (2021), citada nas Diretrizes Brasileiras de 2025
Aplique os 12 meses, que é a régua nacional, e conte-os da data do resultado da triagem, não da coleta. Onde essa divergência importa de verdade é na leitura de uma falta: se a mulher aparece com 20 meses em vez de 12, você está dentro do intervalo que a OMS considera aceitável, e a conduta é colher agora e recompor o cronograma — não recomeçar do zero nem tratar como perda. E o gatilho dos 24 meses continua valendo: DNA-HPV oncogênico ainda detectável nesse ponto manda para a colposcopia, independentemente da citologia.
Não fazer coteste
A recomendação brasileira é forte, baseada em evidência de certeza alta, contra realizar a citologia simultaneamente ao teste de DNA-HPV. A taxa de detecção de NIC 2, 3 ou mais grave não difere entre coteste e teste molecular isolado, o que indica que o ganho de sensibilidade sobre a citologia vem quase todo do componente molecular; e o teste primário isolado reduziu em quase 20% a necessidade de colposcopias num estudo com 99.549 pacientes, com custo estimado de cerca de 170 mil dólares por caso adicional de NIC 3 ou mais grave detectado pelo coteste.
Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, 3. ed., volume 1 (INCA, 2025)
Coteste como opção aceitável
A American Cancer Society, em 2020, passou a recomendar como preferencial o teste de DNA-HPV isolado a cada cinco anos, mas manteve o coteste e a citologia isolada como opções aceitáveis. O próprio documento brasileiro registra que o coteste vem sendo largamente utilizado nos Estados Unidos e que seu uso é crescente na saúde suplementar brasileira, e por isso analisa a questão mesmo sem ela ter entrado na avaliação da Conitec.
American Cancer Society (2020), posição descrita e discutida nas Diretrizes Brasileiras de 2025
No SUS não há escolha: o rastreamento é com teste molecular isolado, e a citologia entra apenas como exame reflexo. A situação em que essa divergência aparece de verdade é a mulher que chega ao ambulatório com um coteste feito no convênio. Não repita nada: leia os dois resultados com a régua nacional — se há 16 ou 18, colposcopia; se há outros tipos e a citologia veio alterada, colposcopia; se há outros tipos e a citologia veio negativa, repetição em 12 meses; se o teste molecular foi negativo, o intervalo é de cinco anos, ainda que a citologia tenha vindo com achado inflamatório. O erro a evitar é deixar a citologia do coteste comandar uma conduta que o teste molecular já respondeu.
Mesmo protocolo para genotipagem parcial e estendida
A recomendação brasileira é forte, baseada em aceitabilidade e viabilidade: neste momento não se adotam protocolos distintos de encaminhamento à colposcopia entre mulheres rastreadas com genotipagem parcial ou estendida. O papel dominante dos tipos 16 e 18 permanece indiscutível — eles causaram 77% dos casos numa revisão sistemática da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer — e adotar duas condutas diferentes conforme o teste disponível criaria desigualdade de manejo dentro do mesmo programa.
Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, 3. ed., volume 1 (INCA, 2025)
Estratificar mais, usando os tipos de risco intermediário
Estudos com evidência de certeza moderada demonstram benefício da genotipagem estendida no aperfeiçoamento da estratificação de risco, com atenção especial aos tipos 31, 33, 45, 52 e 58, que parecem representar risco intermediário para NIC 2 ou mais grave; em alguns levantamentos, o risco atribuído a esse grupo poderia, em populações específicas, igualar ou superar o habitualmente atribuído ao HPV 18. As próprias diretrizes registram a necessidade de ampliar estudos epidemiológicos e de custo-efetividade na população brasileira.
Estudos de estratificação por genotipagem estendida (evidência de certeza moderada a baixa), descritos nas Diretrizes Brasileiras de 2025
Hoje, decida pela régua única: o que muda a conduta é ser 16 ou 18 contra ser outro tipo oncogênico, e nada mais. Se o laudo do seu serviço traz genotipagem estendida e nomeia, por exemplo, o tipo 31, resista à tentação de tratá-lo como se fosse 16: a conduta continua sendo citologia reflexa. O valor prático de conhecer essa divergência é outro — é saber que essa regra tem prazo de validade e que uma futura atualização provavelmente vai separar esses tipos intermediários. Enquanto isso não acontece, dois protocolos diferentes dentro do mesmo programa produziriam mais confusão do que benefício.
O raciocínio, em voz alta
Rosângela, 34 anos, auxiliar de limpeza, chega ao ambulatório de atenção primária com um envelope na mão. Dentro dele, o resultado do preventivo que ela colheu na própria unidade há dois meses. Ela veio porque a agente comunitária disse que o resultado tinha chegado. Não tem queixa nenhuma que ela mencione espontaneamente.
O que penso antes de abrir o envelope
Três perguntas antes do laudo, porque elas mudam a leitura dele. Ela está na faixa-alvo? Trinta e quatro anos: sim. Tem sintoma? Vou perguntar diretamente por sangramento fora da menstruação, sangramento pós-coito, corrimento persistente e dor — porque, se tiver, o caminho deixa de ser rastreamento. E existe imunossupressão? HIV, transplante, corticoide crônico, tratamento oncológico. Se houver, a régua inteira muda, inclusive a conduta diante de uma alteração pequena.
O que ela responde
Nega sangramento anormal e nega sangramento após relação. Refere corrimento com odor desagradável há algumas semanas, que vem e vai. Nega doença crônica, nega uso de medicação contínua, nega transplante; fez teste rápido de HIV no pré-natal do último filho, há quatro anos, negativo. Guardo duas informações: existe uma queixa de corrimento — que é problema clínico próprio, não achado de laudo — e não há imunossupressão conhecida.
Abro o laudo e leio na ordem, não pela última linha
Tipo de amostra: citologia convencional. Avaliação pré-analítica: sem rejeição. Adequabilidade: satisfatória. Epitélios representados na amostra: escamoso e glandular — ou seja, a coleta alcançou a junção escamocolunar, e este é um exame que posso interpretar. Diagnóstico descritivo: células escamosas atípicas de significado indeterminado, possivelmente não neoplásicas. Microbiologia: bacilos supracitoplasmáticos, sugestivos de Gardnerella ou Mobiluncus.
Como o laudo muda o que eu penso
Duas coisas separadas chegaram no mesmo papel, e a maior parte dos erros aqui vem de tratá-las como uma. A primeira é a atipia: ASC-US, possivelmente não neoplásica, a alteração mais comum de todas — no Brasil, mais de 40% das alterações identificadas no rastreamento. A segunda é a microbiologia, que é informação, não diagnóstico, e que por si não muda nada na conduta do rastreamento. Se ela não tivesse queixa, eu não trataria nada por causa dessa linha.
A conduta pela categoria e pela idade
ASC-US em mulher de 30 anos ou mais: repetir a citologia em seis meses. Não é colposcopia, e essa é a parte contraintuitiva — a categoria mais frequente do rastreamento tem a conduta mais conservadora, porque a prevalência de lesão de alto grau nela é baixa e a reprodutibilidade do diagnóstico entre observadores é limitada. Se ela tivesse entre 25 e 29 anos, seria repetição em doze meses. Se fosse imunossuprimida, seria colposcopia já agora. Se fosse ASC-H, com um H no lugar do US, seria colposcopia.
O que faço antes da segunda coleta
A recomendação diz que a segunda coleta deve ser precedida, quando necessário, do tratamento de processos infecciosos e da melhora do trofismo genital. Ela tem queixa de corrimento com odor: trato pelo protocolo próprio de corrimento genital, que tem capítulo à parte, e isso melhora a qualidade da amostra seguinte. O que eu não faço é usar a citologia como exame diagnóstico do corrimento, nem repetir o exame por causa da linha de microbiologia.
O que registro antes de ela sair da sala
Na evolução: o resultado por extenso, a conduta decidida e a data-alvo da repetição — daqui a seis meses, com dia marcado, e não 'em seis meses volte'. No cartão dela, a mesma data. E o nome dela numa lista de seguimento do serviço, porque a repetição que depende de a paciente lembrar é a repetição que não acontece. Explico em palavras dela: alteração pequena, que na maioria das vezes some sozinha, mas cuja repetição é obrigatória.
Seis meses depois
Ela volta na data — porque foi buscada por telefone quinze dias antes. Novo exame colhido. O laudo vem: amostra satisfatória, epitélios escamoso e metaplásico, lesão intraepitelial escamosa de alto grau. A conduta muda inteiramente: HSIL vai para a colposcopia, e a repetição da citologia é conduta inicial explicitamente inaceitável. Não existe 'repetir para confirmar'.
Como escrevo o encaminhamento
Não escrevo 'solicito colposcopia — HSIL'. Escrevo: mulher de 34 anos, assintomática, com telefone e um segundo contato anotados; exame citopatológico de [data], laboratório [nome], com lesão intraepitelial escamosa de alto grau, escrito por extenso; citopatológico anterior de [data] com células escamosas atípicas de significado indeterminado possivelmente não neoplásicas; exame especular com colo de aspecto normal, sem lesão visível; sem gestação, sem imunossupressão conhecida, sem histerectomia; hipótese de lesão precursora de alto grau do colo do útero, com indicação de colposcopia. Marco a prioridade.
O que eu ainda não terminei
O encaminhamento saiu; a consulta não aconteceu. Anoto no prontuário a data de emissão e uma data de conferência em quinze dias. Nessa data, confiro se entrou na regulação e se há agendamento; se não houver, reemito e aciono por escrito. Ligo para ela para confirmar que sabe aonde ir e quando. O caso só se encerra do meu lado quando a contrarreferência chegar — e, quando chegar, o seguimento que vier indicado passa a ser minha pendência, não a dela.
O que teria acontecido no caminho mais provável
No caminho mais provável, o primeiro laudo teria sido lido de baixo para cima, a linha da microbiologia teria virado uma receita de metronidazol e um pedido de repetir o preventivo em três meses, e o ASC-US teria passado despercebido. A repetição em três meses não teria sido agendada. Rosângela voltaria quando lembrasse, dois ou três anos depois — e o HSIL que apareceu aos seis meses teria tido esse tempo todo. A diferença entre os dois desfechos foi ler o laudo na ordem certa e marcar uma data.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do percurso de Rosângela: a unidade confirma que o laudo foi entregue, mas ela não conseguiu agendar a colposcopia indicada. O cuidado permanece pendente. Conferir encaminhamento e prioridade, acionar a rede e combinar contato; entregar o papel não equivale a concluir a investigação.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se durante a espera ela relata sangramento após a relação, reavaliar clinicamente e examinar o colo. O sintoma pode exigir um percurso diagnóstico mesmo que o último exame de rastreamento tivesse baixo risco. Não aguardar mecanicamente o intervalo previsto para uma mulher assintomática.
Faça você
Dona Neusa, 61 anos, vive com HIV há nove anos, em uso regular de terapia antirretroviral, com carga viral indetectável e CD4 em torno de 700 células/mm³ no último exame. Vem ao ambulatório com o resultado do primeiro teste de DNA-HPV da vida dela, colhido na unidade há três semanas, no primeiro mês em que o município passou a oferecer o exame. Está assintomática: nega sangramento anormal, sangramento pós-coito, corrimento e dor. Ao exame especular, colo de aspecto normal, com atrofia genital evidente. O laudo diz: DNA-HPV oncogênico DETECTADO — outros tipos oncogênicos, que não 16 e não 18. Citologia reflexa processada na mesma amostra: negativa para lesão intraepitelial e para malignidade; amostra satisfatória, epitélios escamoso e metaplásico representados.
Passo 1 — classifico a mulher antes de classificar o laudo
Ela é assintomática, o que a mantém dentro do rastreamento. Ela tem 61 anos, idade em que um teste negativo encerraria o rastreamento na mulher de risco-padrão. E ela vive com HIV, o que significa que ela não é de risco-padrão: existe uma régua própria, com idade de início, intervalo, gatilho de colposcopia e regra de encerramento diferentes.
Passo 2 — leio o laudo do teste molecular
Detectado, tipos diferentes de 16 e 18, com citologia reflexa negativa e amostra satisfatória. Numa mulher de risco-padrão, essa combinação teria uma conduta bem definida e conservadora, sustentada por um risco de NIC 3 ou mais grave estimado em torno de 5,5%. O que eu preciso decidir é se essa conduta se aplica a ela.
Passo 3 — decida você
Escreva três coisas antes de ler a resposta. Primeira: qual é a conduta agora, e por quê. Segunda: qual seria o intervalo de rastreamento dela se este teste tivesse vindo negativo. Terceira: aos 61 anos, com teste negativo, ela receberia alta do rastreamento? E acrescente um quarto item, técnico: com atrofia genital ao exame, o que precisa ser feito antes de qualquer nova coleta ou da colposcopia, com dose e duração.
Ver como fecharíamos
Conduta: colposcopia, agora. Em mulher vivendo com HIV ou em outra situação de imunodepressão ou imunossupressão, a recomendação nacional é encaminhar para colposcopia após qualquer tipo oncogênico detectado, independentemente do resultado da citologia reflexa — e não repetir o teste em 12 meses, que é a conduta de risco-padrão nessa mesma combinação de resultados. O encaminhamento sai com prioridade, escrito por extenso, registrando o resultado com data, a condição de imunossupressão, a atrofia genital e um telefone atualizado, com data de conferência do agendamento anotada no prontuário. Intervalo se o teste tivesse vindo negativo: três anos, e não cinco. Alta aos 61 anos: não. Não é recomendado encerrar o rastreamento com testes de DNA-HPV em mulheres vivendo com HIV ou em outras situações de imunodepressão ou imunossupressão — a regra de encerramento por teste negativo acima dos 60 anos vale para risco-padrão e não se aplica a ela. Preparo pela atrofia: creme vaginal de estriol, 1 g com aplicador vaginal, à noite, por 14 noites consecutivas, com a coleta feita entre 5 e 7 dias após suspender o uso; o mesmo preparo é indicado antes da colposcopia quando há atrofia. O manejo da infecção pelo HIV em si segue no capítulo próprio.
Células escamosas atípicas de significado indeterminado possivelmente não neoplásicas (ASC-US) em mulher de 30 anos ou mais têm conduta de repetição da citologia em seis meses; dois exames consecutivos negativos devolvem a mulher à rotina trienal, e qualquer repetição igual ou mais grave manda para a colposcopia. Entre 25 e 29 anos o intervalo de repetição é de doze meses, e não abaixo de 35. A linha de microbiologia é informação e não altera a conduta do rastreamento: sem queixa nem colpite ao exame, não se repete o citopatológico por causa dela; havendo queixa de corrimento, trata-se pela diretriz própria, sem que isso mude o cronograma do rastreamento. E ASC-US não é achado sem significado: é a categoria mais frequente do rastreamento brasileiro e a repetição programada é obrigatória.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Escreva de memória, sem consultar: (1) a idade de início e a de encerramento do rastreamento, e a condição que o encerramento exige; (2) a conduta e o prazo para ASC-US aos 30 anos ou mais, para ASC-US entre 25 e 29 anos, para ASC-H, para LSIL aos 25 anos ou mais e para HSIL; (3) a conduta e o prazo para cada um dos quatro resultados possíveis do teste de DNA-HPV — não detectado, 16 e/ou 18, outros tipos com citologia reflexa negativa, outros tipos com citologia reflexa alterada; (4) o que muda na mulher vivendo com HIV, em quatro itens. Depois confira nas tabelas. Em seguida, faça o exercício de serviço: pegue cinco prontuários de mulheres da sua unidade com exame citopatológico anexado nos últimos doze meses e verifique uma coisa só — existe conduta escrita na evolução para aquele laudo, com data? Aplicação comentada: HPV positivo equivale a câncer? Não. O resultado orienta triagem e seguimento segundo genótipo e protocolo, não diagnóstico de invasão.
Em 30 dias
Refaça o caso de Rosângela mudando um dado por vez e diga em voz alta o que muda: se ela tivesse 27 anos em vez de 34; se o laudo dissesse ASC-H em vez de ASC-US; se ela vivesse com HIV; se ela estivesse grávida de 22 semanas; se ela tivesse feito histerectomia total por mioma há seis anos; se o laudo dissesse apenas 'amostra insatisfatória por material hipocelular'; se o exame especular tivesse mostrado uma lesão vegetante no colo. Depois escreva, sem modelo, o encaminhamento à colposcopia de uma mulher com HSIL, com os seis campos — identificação e contato, resultado por extenso com data, exames anteriores, achado do exame especular, situação clínica que muda conduta, hipótese e fundamentação — e confira quais você esqueceu. Por fim, revise a lista dos três números que valem para o resto da vida profissional: 30 dias para os exames de elucidação quando a hipótese principal é neoplasia maligna, mediante solicitação fundamentada; 60 dias para o início do primeiro tratamento, contados do laudo patológico; e 24 meses de persistência de DNA-HPV oncogênico como gatilho de colposcopia independentemente da citologia.
Agora atenda
Agora atenda a mulher que já fez a parte dela. Ela vem por outro motivo — receita vencida, dor nas costas, atestado — e traz, no prontuário ou na bolsa, um exame de rastreamento cujo resultado nunca foi conversado com ninguém. Seu trabalho é o do capítulo: perguntar por sintoma antes de falar em rastreamento, ler o laudo na ordem em vez de pular para a última linha, decidir entre refazer, nada fazer, repetir com data ou encaminhar com prioridade, e explicar o resultado em palavras que ela leve para casa. Preste atenção em três armadilhas: a de repetir o exame por causa de uma linha de microbiologia; a de tratar uma sigla de quatro letras sem ler qual delas é; e a de encerrar a consulta com um encaminhamento emitido, sem marcar a data em que você vai conferir se ele virou consulta.
