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Ginecologia e ObstetríciaGinecologia

Lesões precursoras do colo e câncer invasor

Lesões precursoras cervicais (NIC) e câncer de colo uterino invasor

O exame alterou: daqui em diante o trabalho não é diagnóstico, é não perder a mulher de vista

Fontes deste capítulo

Instituto Nacional de Câncer. Diretrizes Brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero: volume 1: rastreamento organizado com teste molecular para detecção de DNA-HPV oncogênico. 3. ed. rev. atual. e ampl. Rio de Janeiro: INCA, 2025. 96 p. ISBN 978-65-88517-55-0 (versão eletrônica)

Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS n.º 13, de 29 de julho de 2025 — aprova as Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer de Colo do Útero: Parte I — rastreamento organizado utilizando testes moleculares para detecção de DNA-HPV oncogênico, e respectivo anexo

Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero. 2. ed. rev. atual. Rio de Janeiro: INCA, 2016. 114 p. ISBN 978-85-7318-296-5 (versão eletrônica)

Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Nomenclatura brasileira para laudos citopatológicos cervicais. 3. ed. Rio de Janeiro: INCA, 2012. ISBN 978-85-7318-208-8 (versão eletrônica)

Instituto Nacional de Câncer. Controle do câncer do colo do útero no Brasil: dados e números 2025. Rio de Janeiro: INCA, 2025. 78 p. ISBN 978-65-88517-68-0 (versão eletrônica)

01

Responda antes de ler

Mulher de 31 anos, sem queixas, com citologia de lesão intraepitelial escamosa de alto grau. À colposcopia, as paredes vaginais estão sem alterações, o colo não apresenta acetobranqueamento nem padrão vascular anormal, e a junção escamocolunar não é visível mesmo após manobras de exposição — zona de transformação tipo 3. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, dez e meia da manhã, ambulatório de patologia do trato genital inferior de um hospital de ensino. É o dia da semana em que a colposcopia funciona, e a agenda tem dezoito nomes. O sétimo é Vanilda Prado Correia, 38 anos, auxiliar de cozinha de uma escola municipal, três filhos, encaminhada pela unidade básica do bairro dela.

Ela entra com um envelope pardo amassado na mão e senta na ponta da cadeira. Antes de você perguntar qualquer coisa, ela diz: "doutor, eu queria saber se é câncer". Você abre o envelope. Dentro há uma guia de encaminhamento preenchida à caneta, com a letra apertada, e um laudo de citologia. Nele, a amostra consta como satisfatória, escamoso e glandular figuram entre os epitélios representados, e o diagnóstico descritivo é lesão intraepitelial escamosa de alto grau. Na guia, no campo do motivo, alguém escreveu apenas a sigla e a palavra colposcopia.

O laudo tem data. Foi assinado há quatorze meses.

Você olha de novo para conferir, porque o número não faz sentido com a mulher que está na sua frente — ela não parece doente, não tem queixa nenhuma, veio de ônibus sozinha e vai voltar para o trabalho depois. Ela percebe você olhando a data e explica, sem que você pergunte, com a naturalidade de quem conta uma coisa banal: colheu o preventivo numa campanha de outubro, ninguém a chamou, ela achou que não ter notícia era boa notícia. Em julho voltou à unidade para renovar a receita de anticoncepcional, a técnica viu o resultado parado no sistema e disse que ela precisava de um exame no hospital. Ela esperou a vaga sete meses.

Nesses quatorze meses, nada aconteceu com ela. Nada, também, aconteceu por ela. É provável — não certo, provável — que a lesão que gerou aquele laudo ainda esteja lá, do mesmo tamanho, e que a consulta de hoje resolva o problema inteiro com um procedimento de vinte minutos e anestesia local. Também é possível que não. A diferença entre esses dois futuros não foi decidida por nenhum médico: foi decidida por uma fila.

Guarde a cena, porque ela é o capítulo. O câncer do colo do útero é, entre todos os cânceres que o Brasil enfrenta, aquele em que o país mais sabe o que fazer e menos consegue fazer chegar. A doença tem causa única e conhecida, tem lesão precursora que dura anos, tem exame de rastreamento barato, tem tratamento ambulatorial curativo e tem vacina. E continua matando mais de sete mil mulheres por ano. O que falha quase nunca é o raciocínio diagnóstico. O que falha é o intervalo entre uma etapa e a seguinte — e é sobre esse intervalo que você vai ter poder no internato, muito mais do que sobre o diagnóstico.

Nas próximas horas você vai fazer a colposcopia da Vanilda, decidir se biopsia ou se já trata, explicar a ela o que significa aquela sigla que ela leu no Google como câncer, e — a parte que ninguém ensina — combinar com ela e com o serviço como ela volta. Este capítulo é sobre isso: o que fazer quando o exame já alterou.

03

Quem adoece disso

A estimativa do Instituto Nacional de Câncer para o triênio que vai de 2026 a 2028 é de 19.310 casos novos anuais, risco de 17,59 por 100 mil mulheres. Na lista dos tipos mais incidentes, descontada a pele não melanoma, isso põe a doença em sexto lugar no conjunto da população e em terceiro lugar entre mulheres. A distribuição é o dado que muda a sua suspeita: é o segundo mais incidente no Norte, com 22,79 por 100 mil, e no Nordeste, com 20,76, e cai para quinto no Sudeste, com 14,06. Se você faz internato em Belém ou em Teresina, a mulher de 45 anos com sangramento pós-coito tem uma probabilidade pré-teste diferente da que ela teria em Campinas — e a fila de colposcopia da sua região também é outra.

A mortalidade é o número que dói: foram 7.209 óbitos em 2023, risco de 6,65 por 100 mil mulheres. Posto ao lado da incidência estimada, dá uma razão de cerca de 37 óbitos para cada 100 casos novos — as duas medidas são de anos diferentes e de fontes diferentes, e a conta não é sobrevida, mas serve para o que interessa: numa doença cuja lesão precursora é curável em consultório, essa razão só existe porque uma parte grande dos casos chega tarde. Nos registros hospitalares do quinquênio encerrado em 2020, o estádio I respondeu por apenas 19,1% dos casos, enquanto os estádios avançados, III e IV somados, responderam por 49,9%. Nordeste e Sul passam desse patamar; o Sudeste é a única região acima da média nacional em diagnóstico inicial, com 23,9%.

Agora a parte que é a sua rotina. Em 2023, cerca de 6,6 milhões de mulheres de 25 a 64 anos foram rastreadas no Sistema Único de Saúde, e 3,1% delas tiveram alteração no exame citopatológico. São aproximadamente 205 mil resultados alterados por ano, só na faixa etária alvo. Cada um desses laudos é uma mulher que precisa de alguma coisa depois — repetição programada, colposcopia, biópsia, tratamento ou apenas uma conversa. É esse o volume que a rede tem de absorver, e é dentro dele que você trabalha.

A rede não absorve. Em 2023 o SUS registrou 320.890 colposcopias, contra 360.896 em 2019 — 11% a menos do que antes da pandemia, quando a demanda não diminuiu. As biópsias de colo subiram no mesmo período, de 56.774 para 63.260. Os parâmetros técnicos do próprio INCA fixam a necessidade em 1.900 colposcopias e 280 biópsias anuais por 100 mil rastreadas na faixa de 25 a 64 anos, num cenário de cobertura plena; aplicada aos 6,6 milhões efetivamente rastreados em 2023, isso daria cerca de 125 mil colposcopias — número que a produção nacional cobre com folga no agregado, e que continua não chegando na ponta porque a oferta é desigual entre estados e porque boa parte das colposcopias registradas não é de mulher encaminhada pelo rastreamento. O gargalo não é aritmético; é geográfico e organizacional. Doze estados ainda produziam menos colposcopia em 2023 do que em 2019.

E a oferta é fragmentada de um jeito que fabrica abandono. O INCA analisou os estabelecimentos que registram colposcopia, biópsia de colo e excisão da zona de transformação, e encontrou 1.187 fazendo colposcopia, 848 fazendo biópsia e apenas 239 fazendo excisão. Só 188 serviços em todo o país registram os três procedimentos no mesmo lugar. A mesma publicação, aliás, dá dois números incompatíveis para essa contagem: o texto corrido fala em 1.382 serviços registrando pelo menos um dos três procedimentos, o que põe os 188 em 13,6%; a tabela fecha o total em 1.099, o que põe os mesmos 188 em 17,1%. O total da tabela não fecha — 1.099 é menor que os 1.187 estabelecimentos que a própria tabela conta fazendo colposcopia, e um conjunto não cabe dentro de uma de suas partes. Guarde o episódio: até a estatística oficial da linha de cuidado tem costura à mostra, e o número que você repete precisa ser o que sobrevive à conta. Em Roraima e em Alagoas, nenhum. Em Rondônia, na Paraíba e no Espírito Santo, um. Isso quer dizer que, para a maioria das mulheres brasileiras, a colposcopia é num endereço, a biópsia é outra vaga e o tratamento é uma terceira fila — três oportunidades de desaparecer, em vez de uma consulta que resolve.

O tempo confirma. Em 2023, cerca de 61% dos laudos histopatológicos de colo saíram em até 30 dias, que é o prazo que a lei dá aos exames de elucidação diante de suspeita de neoplasia maligna; no Acre foram 1,7%, no Tocantins 11,2% e no Amazonas 19,2%, contra 90,5% no Mato Grosso do Sul. E, entre 2019 e 2023, pouco mais da metade das mulheres com câncer do colo do útero começou o primeiro tratamento dentro dos 60 dias previstos em lei — no Norte, 32%. Nenhum desses números é sobre conhecimento médico. Todos são sobre seguimento.

04

Por que acontece o que acontece

O colo do útero tem dois epitélios diferentes que se encontram numa linha, e é nessa linha que a doença acontece. A ectocérvice é revestida por epitélio escamoso estratificado, o mesmo tipo de revestimento da vagina, resistente ao atrito e ao pH ácido. O canal endocervical é revestido por epitélio colunar simples, produtor de muco, frágil. A fronteira entre os dois é a junção escamocolunar, e ela não fica parada: na infância está dentro do canal, na menarca e na gestação é empurrada para fora pela ação estrogênica, e depois da menopausa recua para dentro outra vez.

Quando o epitélio colunar é exposto ao ambiente ácido da vagina, ele não sobrevive como colunar. Células de reserva subjacentes proliferam e se diferenciam em epitélio escamoso, num processo fisiológico chamado metaplasia escamosa. A faixa de tecido onde isso aconteceu — entre a junção escamocolunar original e a atual — é a zona de transformação. Ela é normal, está presente em praticamente toda mulher em idade reprodutiva, e é onde nascem quase todas as neoplasias do colo. O motivo é simples e vale decorar: célula que está se dividindo e se diferenciando ativamente é célula vulnerável a um vírus que precisa da maquinaria de replicação da célula hospedeira.

Esse vírus é o papilomavírus humano. Ele infecta as células basais do epitélio através de microabrasões, e a infecção é banal: a maioria absoluta das pessoas sexualmente ativas se infecta em algum momento, e a maioria absoluta elimina o vírus sozinha. É importante você internalizar isso antes de qualquer conduta, porque a mulher à sua frente não vai internalizar sozinha: encontrar HPV não é encontrar doença, é encontrar exposição. O que produz câncer não é a infecção — é a persistência dela por anos, e só de alguns tipos.

Os tipos oncogênicos são cerca de doze, com 16 e 18 respondendo pela maior parte dos casos diagnosticados. O que os diferencia dos tipos de baixo risco são duas proteínas virais, E6 e E7. A E6 marca a proteína p53 para degradação, e com isso desliga a via que mandaria a célula com dano de DNA parar ou morrer. A E7 sequestra a proteína do retinoblastoma, liberando a célula para entrar em fase de síntese quando não deveria. O resultado é uma célula que se replica com dano acumulado e sem freio — e que, quando o genoma viral se integra ao genoma celular, passa a expressar E6 e E7 de forma desregulada e contínua. Cada peça disso tem consequência clínica: a p16, marcador que o patologista usa para separar lesão de alto grau verdadeira de mimetismo, é justamente a proteína que se acumula quando a via do retinoblastoma foi sequestrada.

A lesão que essa infecção produz tem graus, e o grau é definido por quanto da espessura do epitélio está ocupada por células indiferenciadas. Quando o terço inferior está alterado, é NIC 1; até dois terços, NIC 2; a espessura toda, NIC 3, que inclui o antigo carcinoma in situ. A tradução clínica é o que importa: NIC 1 é a expressão histológica de uma infecção produtiva por HPV, transitória na maioria das vezes, e as diretrizes brasileiras deixaram de considerá-la lesão precursora. Precursoras de verdade são a NIC 2, a NIC 3 e o adenocarcinoma in situ. É por isso que existe uma classificação de dois níveis, baixo e alto grau, mais honesta com a biologia do que a de três: de um lado, infecção; do outro, lesão que precisa ser tratada.

A história natural é lenta e assimétrica, e é o dado que mais muda conduta neste capítulo. Uma metanálise de estudos citada nas diretrizes brasileiras estimou que 47,4% das lesões de baixo grau regridem em 24 meses e que apenas 0,2% das mulheres com esse diagnóstico citológico evoluem para carcinoma invasor. Em mulheres jovens é ainda mais favorável: a regressão da lesão de baixo grau chega a 60% em doze meses e a 92% em três anos, e cerca de 90% das infecções por HPV na adolescência deixam de ser detectáveis em até dois anos. No outro extremo, entre 30% e 70% das mulheres com NIC 3 ou adenocarcinoma in situ não tratadas podem chegar a carcinoma invasor num período de vinte anos. Vinte anos é muito tempo — é o tempo que dá para achar, e é o tempo que se perde quando ninguém chama a mulher de volta.

Essa assimetria é o que torna o tratamento precoce demais um dano, e não uma precaução. Tirar um cone do colo de uma mulher de 22 anos com uma lesão que ia regredir sozinha não previne câncer nenhum e cobra um preço obstétrico real: o procedimento excisional aumenta parto prematuro, morbidade neonatal e mortalidade perinatal, com evidência de certeza alta segundo as diretrizes de 2025 — e quanto mais fundo e mais repetido o cone, maior o efeito. As diretrizes brasileiras calculam, para o rastreamento antes dos 25 anos, que evitar um único carcinoma invasor exigiria tratar entre 300 e 900 mulheres com NIC. Trezentas a novecentas cirurgias de colo para uma vida salva é a definição operacional de sobretratamento.

Quando a progressão de fato acontece, as células neoplásicas rompem a membrana basal e invadem o estroma subjacente. Aí a doença muda de natureza e de vocabulário: deixa de ser intraepitelial, passa a ter profundidade medida em milímetros, passa a poder alcançar vasos e linfáticos, e passa a se comportar clinicamente — o colo endurece, cresce, ulcera e sangra ao toque, porque neovasos frágeis se rompem ao contato. A dor pélvica, o corrimento fétido e a insuficiência renal por compressão ureteral são de doença já avançada. É essa cadeia — vírus persistente, zona de transformação, displasia progressiva, ruptura da basal — que faz o colo ser o único órgão em que conseguimos interromper um câncer olhando para ele com uma lente e uma solução de ácido acético.

Diagrama conceitual dos tipos de zona de transformação: tipo 1 ectocervical e visível; tipo 2 com componente endocervical totalmente visível; tipo 3 não totalmente visível.
Diagrama conceitual dos tipos de zona de transformação: tipo 1 ectocervical e visível; tipo 2 com componente endocervical totalmente visível; tipo 3 não totalmente visível.
05

Como se apresenta de verdade

Aprenda a distinguir rastreamento alterado, lesão precursora confirmada e suspeita de invasão. Cada etapa responde a uma pergunta e exige encaminhamento e seguimento próprios. Idade, gestação, desejo reprodutivo e possibilidade de acompanhar influenciam a decisão, sem apagar o risco indicado pela lesão.

Percurso clínico: Separar triagem, diagnóstico e tratamento

Recupere resultado que motivou colposcopia, anatomia da zona de transformação e histologia. Decisões sobre observação, excisão e seguimento dependem da lesão e do contexto, não apenas de HPV positivo. Registre peça, margens e plano pós-tratamento e harmonize com a estratégia de rastreamento.

A mulher assintomática que traz um laudo — e o que ela acha que ele diz

É a apresentação padrão e a mais frequente: mulher entre 25 e 64 anos, sem queixa ginecológica nenhuma, que colheu o exame numa consulta de rotina ou numa campanha e recebeu um papel. Ela não está doente. Ela está assustada, o que é uma condição clínica diferente e que também precisa de conduta.

O que ela leu antes de chegar em você importa. As palavras do laudo citopatológico — lesão, atipia, neoplasia intraepitelial — foram construídas por patologistas para patologistas, e no buscador da internet todas elas caem em páginas sobre câncer. Uma mulher com lesão intraepitelial de baixo grau, cuja conduta é repetir um exame daqui a seis meses, chega ao ambulatório tendo passado quatro noites achando que vai morrer. Um interno que abre a consulta pelo procedimento e não pela pergunta dela desperdiça a única coisa que aquela consulta tinha de urgente.

Há também a mulher no polo oposto, e ela é mais perigosa: a que não leu nada, não entendeu e não voltou. O laudo alterado que fica no sistema sem que ninguém o leia é o modo mais comum de a doença progredir no Brasil. Ela não some por rebeldia; some porque ninguém combinou com ela uma data, um telefone e um motivo.

As siglas que decidem a conduta — e as duas que todo mundo troca

A linha do laudo que muda o seu dia é a do diagnóstico descritivo, e o vocabulário dela é o da nomenclatura brasileira para laudos citopatológicos cervicais. Aprenda as categorias pelo que elas pedem, não pela ordem em que aparecem no livro.

ASC-US é a atipia escamosa possivelmente não neoplásica: o citopatologista viu células estranhas, mas de significado indeterminado. É a categoria mais comum do rastreamento brasileiro — em 2023 respondeu por mais de 40% de todas as alterações em todas as faixas etárias. O risco de haver NIC 2 ou 3 por trás dela é de 6,4% a 11,9%, e de câncer, de 0,1% a 0,2%. É, portanto, um achado de baixo risco com reprodutibilidade ruim: a concordância entre citopatologistas diferentes fica entre 35% e 45%. Conduta conservadora, com repetição programada.

ASC-H é a atipia escamosa em que não se pode excluir lesão de alto grau. Duas letras a mais e outro mundo: a frequência de lesão de alto grau varia de 12,2% a 68% nos estudos, e a de câncer, de 1,3% a 3%; no único estudo brasileiro em usuárias do SUS, 19,29% tinham NIC 2 ou 3. Não se repete ASC-H. Encaminha-se. Trocar uma sigla pela outra na leitura do laudo ou na transcrição do encaminhamento é o erro de escrita mais caro deste capítulo.

AGC é a atipia em células glandulares, e é a categoria de maior risco absoluto entre as indeterminadas: 15% a 56% de NIC 2 ou 3 ou câncer, com as neoplasias invasoras concentrando-se acima dos 40 anos. Ela não fala só do colo — pode vir de endométrio, e célula endometrial atípica é anormal em qualquer idade e em qualquer momento do ciclo. Toda AGC vai para colposcopia, e a maioria também vai precisar de avaliação do endométrio.

A quarta é a atipia de origem indefinida, quando nem a linhagem da célula se consegue definir. É rara, e a conduta é a mesma da glandular: investigar, e deixar que o resultado de um novo exame defina a origem e a rota. Vale saber que essa categoria já foi eliminada internacionalmente e persiste apenas na nomenclatura brasileira.

Depois vêm as lesões nomeadas. LSIL, lesão intraepitelial escamosa de baixo grau, é a assinatura citológica da infecção por HPV e a segunda categoria mais frequente entre as mulheres jovens rastreadas. HSIL, lesão de alto grau, é o achado que confirma doença em 70% a 75% das mulheres e revela carcinoma invasor em 1% a 2%. E há duas linhas que significam pressa: lesão de alto grau não podendo excluir microinvasão, e carcinoma escamoso invasor ou adenocarcinoma in situ e invasor. Juntas, essas duas somaram 1,4% das alterações no levantamento nacional de 2013 — raras no papel, decisivas na agenda.

O laudo de histologia, que fala outra língua e vale mais

Citologia é células soltas; histologia é arquitetura. Elas não usam as mesmas palavras de propósito, e confundir uma com a outra produz condutas absurdas — do tipo tratar uma mulher por causa de uma sigla de citologia, ou tranquilizar outra porque a biópsia veio negativa quando o problema estava no canal.

O laudo histológico gradua por espessura acometida: NIC 1, NIC 2, NIC 3. O que você faz com cada um é radicalmente diferente. NIC 1 não é lesão precursora e, na esmagadora maioria das vezes, é para acompanhar; NIC 2 e NIC 3 são precursoras e, fora de exceções etárias bem delimitadas, são para tratar. Quando o patologista dispõe de imuno-histoquímica, a p16 difusa e em bloco é o que separa uma NIC 2 verdadeira de uma alteração reativa que se parece com ela — e essa distinção muda a decisão de operar o colo de uma mulher jovem.

Há uma armadilha frequente: o laudo que diz apenas alterações compatíveis com infecção por HPV, ou coilocitose, sem graduar. Isso é NIC 1 por outro nome, e a conduta é a de NIC 1 — não é laudo negativo e não é indicação de excisão. E há a armadilha inversa: biópsia negativa em mulher com citologia de alto grau não encerra o caso. Encerra a hipótese de que a lesão estava onde a pinça foi.

A gestante com laudo alterado — a que assusta mais e muda menos

É a apresentação que mais gera telefonema para o preceptor, e a resposta quase sempre decepciona por ser tranquila. O câncer do colo na gestação é raro, com um a quinze casos para cada dez mil gestações, e a incidência não é maior do que fora da gravidez. A lesão de alto grau detectada na gestação tem risco mínimo de progredir até o parto e algum potencial de regredir depois dele.

A gestação, por outro lado, torna o exame mais difícil de interpretar. O estímulo hormonal everte a zona de transformação e a torna extensa, a metaplasia fica exuberante, e a deciduose do estroma cervical produz áreas que ao ácido acético se parecem com lesão. O resultado é uma tendência sistemática a classificar achados como maiores do que são. Quem não faz colposcopia em gestante com frequência superestima.

O que muda, então, é só o limite do que se faz agora: colposcopia pode ser feita em qualquer época da gestação, e a biópsia se reserva à suspeita de lesão invasora. O que não se faz é procedimento excisional, salvo suspeita de câncer invasor — a excisão na gestação aumenta abortamento, prematuridade e sangramento. A conduta definitiva é adiada, com data marcada: as diretrizes brasileiras mandam reavaliar 90 dias depois do parto, e o protocolo da Febrasgo fala em doze semanas de puerpério, que é a mesma janela. E não há contraindicação ao parto vaginal por causa disso.

As três mulheres cuja régua é outra: a jovem, a imunossuprimida e a que já menopausou

Abaixo de 25 anos, a biologia trabalha contra a intervenção. A infecção por HPV é altíssima e transitória, a NIC 2 se comporta como lesão de baixo grau — com regressão em torno de 60% em doze meses e até 75% em três anos —, o carcinoma invasor é raríssimo, e o colo que você opera é o colo que vai carregar uma gestação futura. Nessa faixa, as diretrizes empurram tudo para trás: repetição em três anos diante de ASC-US ou LSIL, conduta expectante preferencial diante de NIC 2 comprovada, e proibição explícita de método excisional. Mesmo diante de NIC 3, o seguimento é aceitável até os 25 anos, e recomendado até os 20.

A mulher imunossuprimida é o espelho. Na infecção pelo HIV, sobretudo com carga viral alta ou linfócitos CD4 abaixo de 350 células por microlitro, a infecção por HPV persiste mais, as lesões são mais frequentes, aparecem mais cedo e recidivam mais depois de tratadas. A consequência prática é curta: diante de ASC-US, ela vai para colposcopia já no primeiro exame alterado, sem repetição; e, depois de tratada uma NIC 2 ou 3, o seguimento citológico dela é anual por toda a vida, não por cinco anos.

Depois da menopausa, o problema é o oposto do da jovem: o epitélio atrófico produz alterações nucleares que imitam atipia, a junção escamocolunar recua para dentro do canal e a amostra fica pobre em células. Uma parte relevante dos ASC-US e ASC-H nessa faixa é atrofia mal interpretada. Por isso a conduta em si não muda, mas o preparo muda: estrogênio tópico antes de repetir a citologia e antes da colposcopia, prescrito ainda na unidade básica, para que o exame que você vai fazer tenha alguma chance de significar alguma coisa.

A que não é rastreamento: o colo que já se vê

Esta é a única apresentação sintomática do capítulo, e ela obedece a regras diferentes de todas as anteriores. A mulher chega com sangramento vaginal anormal — e o sintoma que mais aponta para o colo é a sinusorragia, o sangramento que ocorre logo depois da relação sexual, tanto antes quanto depois da menopausa. Pode haver corrimento aquoso ou fétido, que costuma indicar necrose tumoral. Dor pélvica, dispareunia e insuficiência renal por compressão ureteral são de doença avançada.

O exame é o que decide, e ele é de espéculo e de dedo. O colo pode aparecer como lesão exofítica em couve-flor, como úlcera de bordas endurecidas, como colo barrel-shaped aumentado e duro, ou — a forma que mais engana — como um colo de aspecto quase normal que sangra ao simples toque da espátula. O toque vaginal avalia volume do colo, fundos de saco e paredes vaginais; o toque retal avalia os paramétrios, e é o exame que separa um estádio I de um estádio II sem nenhuma tecnologia.

A regra que sai daqui e que você vai repetir a vida inteira: colo suspeito não se investiga com citologia. A citologia é um teste de rastreamento desenhado para epitélio íntegro em mulher sem sintoma; sobre tumor necrótico, ela devolve material inflamatório e falso negativo com frequência inaceitável. Diante de lesão visível, a conduta é biópsia dirigida da lesão, no mesmo dia se possível. As próprias diretrizes de rastreamento dizem, na primeira página do escopo, que mulher com sintomas de câncer avançado está fora do documento e deve ser encaminhada ao serviço especializado independentemente de qualquer regra de rastreio.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação aqui tem uma peculiaridade: o primeiro exame já foi feito por outra pessoa, em outro lugar, meses atrás. Você entra na cadeia no meio dela. Isso muda a pergunta inicial — não é qual exame pedir, é qual etapa desta cadeia está faltando e quem vai garantir que ela aconteça. As seções abaixo seguem essa ordem: quem sai do rastreamento antes de tudo; o que cada laudo obriga você a fazer hoje; o que a colposcopia responde; o que a biópsia decide; o que fazer quando os exames discordam entre si; e o que não pedir.

Antes de qualquer conduta: esta mulher ainda está no rastreamento?

Rastreamento é uma operação sobre gente sem sintoma. No instante em que aparece sintoma atribuível ao colo, a mulher sai desse trilho e entra em investigação diagnóstica — e as regras de periodicidade, de faixa etária e de repetição programada deixam de valer para ela. Isso não é um detalhe burocrático: é o que separa uma mulher que espera seis meses por uma repetição de exame de uma mulher que precisa de biópsia esta semana.

A pergunta que faz esse corte cabe em trinta segundos de anamnese e num espéculo: há sangramento fora do ciclo, sangramento após a relação, sangramento depois da menopausa, corrimento aquoso ou fétido persistente? E, ao exame, há lesão visível, colo endurecido, ou sangramento ao toque do instrumento? Se a resposta for sim a qualquer uma delas, o caminho é biópsia dirigida e encaminhamento, e não citologia.

O segundo corte é o inverso: mulher que nunca teve relação sexual não está exposta ao fator necessário da doença e não se beneficia de rastreamento. E mulher histerectomizada por doença benigna, sem colo e sem história de lesão de alto grau, saiu do alvo. Nas duas situações, o exame que se colhe gera resultado que vai gerar conduta que vai gerar dano sem gerar benefício.

O terceiro corte é etário e vale para o resultado que você já tem na mão. Se a mulher tem menos de 25 anos, ela não deveria ter sido rastreada — mas o exame existe, o resultado alterou, e alguém precisa conduzir. A resposta das diretrizes brasileiras é não deixar o erro inicial gerar um segundo erro: diante de ASC-US ou de lesão de baixo grau nessa idade, repete-se em três anos, mantendo seguimento trienal se a atipia persistir, e reinicia-se o rastreamento aos 25 anos se um exame vier normal. Atipia mais grave, essa sim, vai para a colposcopia em qualquer idade.

O que cada laudo obriga você a fazer hoje

Existem exatamente quatro coisas que um laudo alterado pode exigir de você na consulta de hoje, e vale organizar a memória por elas em vez de por sigla. Primeira: registrar uma repetição com data. Segunda: emitir um encaminhamento para colposcopia. Terceira: emitir o encaminhamento e ainda pedir um exame paralelo. Quarta: tratar hoje, no mesmo ato. Nenhum laudo alterado permite a quinta opção, que é arquivar.

Repetição com data é o destino de duas categorias, e são justamente as duas mais frequentes. Em ASC-US, a mulher de 30 anos ou mais repete a citologia em seis meses; a de 25 a 29 anos repete em doze. A diferença não é arbitrária: a infecção por HPV persiste mais com a idade, e a probabilidade de que aquela atipia signifique lesão real sobe junto. Em lesão intraepitelial de baixo grau, a mulher de 25 anos ou mais repete em seis meses. Nos dois casos, dois exames consecutivos negativos devolvem a mulher à rotina, e qualquer resultado igual ou mais grave numa repetição a manda para a colposcopia. Há um prazo de validade para essa paciência: lesão de baixo grau que persiste por 24 meses vai para colposcopia, mesmo sem piorar.

Antes de repetir, trate o que atrapalha a leitura. Processo infeccioso ativo e atrofia genital pioram a amostra e produzem atipia que não existe. Na mulher pós-menopáusica, o preparo recomendado nas diretrizes brasileiras de 2025 é creme vaginal de estriol, 1 grama com aplicador, à noite, por 14 noites consecutivas, com a nova coleta 5 a 7 dias depois de terminar — o estriol creme vaginal está na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, o que quer dizer que a unidade básica pode prescrever e a farmácia pode entregar.

Encaminhamento hoje é o destino de todo o resto: ASC-H, atipias glandulares, atipias de origem indefinida, lesão de alto grau, lesão de alto grau não podendo excluir microinvasão, carcinoma escamoso invasor e adenocarcinoma in situ ou invasor. Diante de lesão de alto grau, repetir a citologia é conduta explicitamente inaceitável nas diretrizes brasileiras — a repetição só adia, e adiar é o problema.

O exame paralelo é a marca das atipias glandulares. Além da colposcopia, elas exigem avaliação do endométrio com ultrassonografia transvaginal acima dos 35 anos, e abaixo dessa idade quando há sangramento uterino anormal ou quando a citologia sugere origem endometrial. Se a citologia mencionou origem endometrial, a investigação da cavidade tem prioridade sobre a do canal e da ectocérvice — é a única situação deste capítulo em que o colo deixa de ser o alvo principal. E se, terminada a investigação de colo e corpo, a atipia glandular persistir sem doença encontrada, procura-se doença extrauterina, em qualquer idade.

Tratar hoje é a quarta possibilidade, e ela pertence à seção da biópsia, porque só existe sob condições estritas. Guarde por ora que ela existe e que ela é a resposta certa para uma parte das mulheres com lesão de alto grau — porque cada retorno agendado é uma chance de perder a paciente.

A colposcopia: três perguntas, não uma opinião

A colposcopia não é um exame que diagnostica câncer. É um exame que orienta a pinça. Um microscópio de baixo aumento com fonte de luz, aplicado ao colo depois de reagentes, responde a três perguntas objetivas — e o laudo que não responde às três é um laudo incompleto.

A primeira pergunta é onde está a lesão. O ácido acético a 3% ou 5% coagula reversivelmente proteínas nucleares e citoplasmáticas; onde há mais material nuclear — isto é, onde há mais células indiferenciadas — o epitélio fica branco e opaco. Quanto mais denso, mais rápido a aparecer e mais demorado a sumir o acetobranqueamento, maior a gravidade provável. Somam-se a isso os padrões vasculares: mosaico e pontilhado finos sugerem alteração menor, grosseiros sugerem maior, e vasos atípicos sugerem invasão. O lugol do teste de Schiller cora de marrom o epitélio escamoso maduro rico em glicogênio; área que não cora é iodo-negativa, o que ajuda a delimitar a lesão para a excisão. A terminologia colposcópica em uso no Brasil é a da Federação Internacional de Patologia Cervical e Colposcopia adotada no Rio de Janeiro em 2011, que separa achados anormais menores de achados anormais maiores — e são essas duas palavras, maior e menor, que comandam a conduta.

A segunda pergunta é onde termina a zona de transformação, e é a que a maioria dos internos esquece. Se a junção escamocolunar está inteiramente visível na ectocérvice, a zona de transformação é do tipo 1; se ela é visível mas se estende até o primeiro centímetro do canal, tipo 2; se não é visível, tipo 3. Essa classificação não é acadêmica: ela define quanto tecido precisa sair para que a lesão saia inteira. Excisão tipo 1 retira a zona de transformação ectocervical, com até um centímetro de canal; a tipo 2 retira entre 1,5 e 2,0 centímetros; a excisão tipo 3 retira entre 2,0 e 2,5 centímetros. Como 99% das NIC 3 se situam no primeiro centímetro do canal, uma excisão adequada ao tipo de zona de transformação é o que separa margem livre de margem comprometida.

Quando a junção não aparece, antes de assumir zona tipo 3 e cortar fundo, esgote as manobras: abrir mais o espéculo, fazer pressão com pinça na transição entre colo e vagina, retirar ou deslocar o muco com swab embebido em ácido acético, usar espéculo endocervical de Kogan ou de Mencken. Persistindo, o preparo estrogênico ajuda — estradiol 1 ou 2 mg ou estrogênios conjugados 0,625 mg por via oral por até dez dias, ou estrogênios conjugados 0,625 mg por via vaginal de cinco a quatorze dias antes de repetir a colposcopia. O que não se usa para isso é laminária nem misoprostol, oral ou tópico: as diretrizes desaconselham expressamente.

A terceira pergunta é se há sinal de invasão: superfície irregular, ulceração, friabilidade, necrose, vasos atípicos. Aqui a colposcopia deixa de ser triagem e vira alarme, e a resposta é biópsia dirigida da área suspeita — em gestante inclusive, que é a única indicação de biopsiar durante a gravidez.

E há o que a colposcopia não responde. Ela não vê o que está dentro do canal, e por isso não exclui doença endocervical. Ela não distingue com segurança NIC 2 de NIC 3. E ela é o exame mais dependente de examinador de todo este capítulo — o mesmo colo produz laudos diferentes em mãos diferentes, o que é exatamente a razão de a biópsia existir.

A biópsia: o que ela decide, quando se dispensa e quando dispensá-la é erro

A biópsia responde à única pergunta que autoriza destruir tecido do colo de uma mulher: existe lesão de alto grau? Ela é dirigida pela colposcopia, sai da área de maior anormalidade, e o resultado dela — não o da citologia, não a impressão colposcópica — é o que decide tratamento.

Há uma situação em que a biópsia é dispensada de propósito, e ela tem nome: ver e tratar. Diante de citologia de lesão de alto grau, colposcopia com achados anormais maiores, junção escamocolunar visível com zona de transformação tipo 1 ou 2, lesão restrita ao colo e sem suspeita de invasão nem de doença glandular, faz-se a excisão diretamente, na mesma consulta. A peça inteira vai para o patologista, de modo que o diagnóstico não se perde — apenas deixa de exigir um segundo agendamento. A justificativa é o motivo deste capítulo existir: encurtar o caminho reduz a perda de seguimento.

O preço do ver e tratar é o sobretratamento, e ele é mensurável. Com os critérios de seleção respeitados, séries brasileira e holandesa relatam histologia negativa ou NIC 1 em torno de 2% a 5%; sem eles, o número sobe para perto de 20%. Ou seja: o ver e tratar é seguro quando a citologia do serviço é boa e o colposcopista é experiente, e vira mutilação desnecessária quando não é. Nos serviços em que essa qualidade não está garantida, biopsiar antes é conduta aceitável e prudente.

Há três situações em que pular a biópsia é erro explícito. Em citologia de ASC-US, tratar com base apenas no aspecto colposcópico é inaceitável — o risco de doença é baixo demais para justificar cirurgia. Em lesão de baixo grau, também: um ensaio clínico mostrou que tratar de imediato com excisão produziu 60% de peças com NIC 1 ou sem lesão nenhuma. E em mulher de até 24 anos, o ver e tratar é inaceitável em qualquer cenário, pela combinação de alta regressão espontânea com dano obstétrico futuro.

Do outro lado, existe a biópsia que confirma pouco. Biópsia negativa ou com NIC 1 em mulher cuja citologia dizia alto grau não encerra o caso: obriga a repetir citologia e colposcopia em seis meses, a garantir que não há lesão vaginal e, se a junção não for visível, a investigar o canal. E biópsia que sugere microinvasão nunca é a palavra final: microinvasão só se diagnostica em peça de excisão, porque só ela permite medir profundidade e avaliar margem.

Quando citologia, colposcopia e histologia discordam

Três exames com desempenhos diferentes olhando para o mesmo colo vão discordar com frequência. A regra que organiza isso é curta e o interno precisa sair sabendo: discordância obriga a revisar, não a escolher o resultado mais conveniente. E há uma assimetria — o resultado mais grave manda até que seja explicado, porque o custo de subestimar é câncer e o custo de superestimar é uma consulta a mais.

A primeira ferramenta é a revisão de lâmina, de preferência por outro citopatologista. Diante de citologia de alto grau com colposcopia sem achados anormais, as diretrizes brasileiras recomendam pedir a revisão, e o novo resultado substitui o anterior para efeito de conduta. Boa parte das discordâncias morre aí, porque a reprodutibilidade da citologia é limitada por natureza.

A segunda é a avaliação do canal endocervical, indicada sempre que a junção não é completamente visível e a citologia é de alto risco. Entre escovado endocervical e curetagem, a preferência brasileira é pelo escovado: desempenho equivalente, menor proporção de material inadequado e muito menos dor. A técnica importa — introduzir todas as cerdas da escova e girar de três a cinco voltas por toda a extensão do canal — e o pedido de exame precisa dizer que se trata de material endocervical, para que o citopatologista não classifique como insatisfatória uma amostra sem epitélio escamoso. Em gestante, a curetagem endocervical se evita.

A terceira é a excisão diagnóstica. Quando a citologia insiste em alto grau, a junção não aparece, a lesão vaginal foi afastada e a investigação do canal mantém a suspeita ou repete o mesmo resultado, a resposta é excisão tipo 3 — desta vez para saber, não para tratar. Nessa situação a técnica precisa produzir peça íntegra, com margens avaliáveis: conização a frio é preferível quando há suspeita de microinvasão, e é inaceitável usar técnica que devolva o material em vários fragmentos, porque profundidade de invasão não se mede em pedaços.

E há a discordância que se resolve investigando outro órgão. Atipia glandular que persiste com colo e corpo uterinos normais manda procurar tuba, ovário e doenças extrauterinas, e manter seguimento com citologia e colposcopia a cada seis meses até que doença pré-invasiva e invasiva estejam afastadas.

O que não pedir, e o que o SUS entrega de fato

Não peça citologia para investigar colo suspeito. É o erro de área mais caro deste capítulo: sobre lesão macroscópica, a citologia colhe necrose e inflamação, devolve laudo sem atipia com frequência incômoda, e esse papel negativo acalma o serviço enquanto a mulher tem um tumor. Colo suspeito pede biópsia.

Não use o teste de DNA-HPV como segunda opinião sobre um encaminhamento que a citologia já determinou. O teste tem sensibilidade alta e especificidade baixa; em mulheres com lesão de baixo grau, a positividade chega a 76,9%, de modo que ele encaminharia quase todas de volta ao mesmo destino, com atraso e custo. Ele também não serve como coteste no SUS: as diretrizes de 2025 recusam expressamente a combinação simultânea de citologia e teste molecular como estratégia de rastreamento.

Não peça imagem para lesão precursora. Ultrassonografia, tomografia e ressonância não enxergam NIC, e pedi-las gera espera e ansiedade sem informação. Imagem entra quando há carcinoma invasor confirmado, e aí entra com força: ressonância de pelve para avaliar tamanho, profundidade e extensão parametrial, e tomografia com emissão de pósitrons para avaliação linfonodal nos estádios mais avançados. A exceção é a ultrassonografia transvaginal nas atipias glandulares, e ali o alvo é o endométrio, não o colo.

Sobre o que existe: o SUS tem, com código próprio na tabela de procedimentos, colposcopia, biópsia de colo e as excisões dos tipos 1, 2 e 3 — a excisão tipo 3 corresponde ao que antes se chamava conização. Tem também os prazos escritos em lei: trinta dias para os exames que elucidam a suspeita de neoplasia maligna, e sessenta para o começo do primeiro tratamento, contados da data em que o laudo patológico firma o diagnóstico. O que o SUS não tem distribuído é a integração: como os três procedimentos raramente ficam no mesmo endereço, a conduta que você escolhe precisa levar em conta quantas vagas ela vai exigir. Entre duas condutas clinicamente aceitáveis, a que resolve em menos consultas é, no Brasil, a mais segura.

Por fim, o que ainda não existe como norma. A régua nacional para o que fazer depois do resultado alterado continua sendo a segunda edição das diretrizes brasileiras, de 2016. A Parte II das diretrizes, que trata de como avaliar, tratar e seguir as mulheres identificadas no rastreamento, passou por consulta pública em 2026 e ainda não foi aprovada por portaria. Enquanto isso, a Parte I — a que já vale — encerra explicitamente o seu próprio escopo na porta da colposcopia: identificado que há doença, ela remete a conduta ao volume seguinte. É bom você saber disso antes de procurar no documento errado.

07

Fluxos e tabelas

As quatro tabelas abaixo estão organizadas pelo que você faz, e não pelo nome do achado. É de propósito: a lista por sigla existe nos documentos oficiais e é ótima para consultar, mas na consulta o pensamento anda no sentido inverso — você lê um papel e precisa decidir qual das poucas ações possíveis executa hoje. O fluxo que abre a seção percorre a trajetória inteira, do laudo alterado até a alta do seguimento.

  1. 1Laudo alterado chega ao serviço — alguém lê, classifica e registra a conduta no prontuário com data
  2. 2Há sintoma de colo ou lesão visível? Se sim, sai do rastreamento: biópsia dirigida e encaminhamento imediato
  3. 3Se não: a conduta é repetição com data marcada (ASC-US e baixo grau) ou encaminhamento para colposcopia (todo o resto)
  4. 4A mulher é chamada e a data é conferida — encaminhamento emitido não é consulta marcada
  5. 5Colposcopia: onde está a lesão, até onde vai a zona de transformação, há sinal de invasão
  6. 6Achado anormal maior com junção visível e citologia de alto grau: excisão no mesmo ato (ver e tratar)
  7. 7Nos demais cenários: biópsia dirigida, e avaliação do canal se a junção não aparece
  8. 8Histologia decide — NIC 1 acompanha, NIC 2 e NIC 3 tratam, invasão vai para a alta complexidade
  9. 9Laudo da peça: leitura da margem define o calendário do seguimento
  10. 10Seguimento por cinco anos e retorno à rotina — ou seguimento anual vitalício, se imunossuprimida
O que você faz hojeLaudos que caem aquiPor que esta ação e não outraO que faz mudar de linha
Marcar repetição da citologia em 6 mesesASC-US em mulher de 30 anos ou mais; lesão intraepitelial de baixo grau em mulher de 25 anos ou maisRisco de NIC 2 ou 3 abaixo de 12% e reprodutibilidade baixa do diagnóstico; a maioria regride sem intervençãoQualquer repetição igual ou mais grave; ou baixo grau que persiste por 24 meses
Marcar repetição da citologia em 12 mesesASC-US em mulher de 25 a 29 anosNessa faixa a infecção por HPV ainda é predominantemente transitória; esperar mais reduz colposcopia inútilRepetição igual ou mais grave manda para colposcopia
Devolver à rotina de rastreamentoDois exames de repetição consecutivos negativos, no intervalo previstoDuas leituras negativas seguidas tornam improvável a lesão que gerou a atipia inicialNovo exame alterado a qualquer momento reinicia a régua pelo resultado novo
Repetir em 3 anos, sem encaminharASC-US ou lesão de baixo grau em mulher de até 24 anosRegressão espontânea acima de 60% em um ano e dano obstétrico do tratamento precoceAtipia mais grave que essas duas, em qualquer idade, vai para colposcopia
Emitir encaminhamento para colposcopia hojeASC-H; atipia glandular; atipia de origem indefinida; lesão de alto grau; lesão de alto grau não podendo excluir microinvasão; carcinoma invasor; adenocarcinoma in situ ou invasorPrevalência de NIC 2 ou mais que vai de cerca de 15% a mais de 70% conforme a categoria; repetir citologia aqui é conduta inaceitávelNada muda a linha: repetição não substitui colposcopia em nenhuma dessas categorias
Encaminhar e ainda pedir avaliação endometrialAtipia em células glandulares acima de 35 anos; ou abaixo disso com sangramento uterino anormal ou citologia sugerindo origem endometrialA célula glandular atípica pode vir do endométrio, e a doença endometrial é mais prevalente que a cervical nessa categoria acima dos 35 anosMenção de origem endometrial no laudo inverte a prioridade: a cavidade vem antes do colo
Encaminhar já no primeiro exame alterado, sem repetirQualquer atipia, inclusive ASC-US, em mulher vivendo com HIV ou sob imunossupressãoPersistência viral maior, lesão mais precoce e mais grave, e recidiva mais frequente após tratamentoO seguimento pós-tratamento também muda: passa a ser anual por toda a vida
Biopsiar hoje, sem passar pela citologiaLesão cervical visível, colo endurecido, colo que sangra ao toque, sinusorragia, corrimento fétido persistenteA citologia foi desenhada para epitélio íntegro em mulher sem sintoma e devolve falso negativo sobre tumor necróticoNada. Sintoma de colo tira a mulher do rastreamento até que a biópsia responda
Preparar antes de repetir ou de examinarAtrofia genital ou processo infeccioso ativo em qualquer das linhas acimaAtrofia e inflamação produzem atipia que não existe e amostra que não prestaPersistindo a atipia depois do preparo, segue a linha correspondente ao novo laudo

Da histologia à decisão: o que se trata, o que se acompanha e com o quê

Diagnóstico histológicoTratar agora?Se tratar, o quêSeguimento
Negativo ou alterações compatíveis com infecção por HPVNãoNenhum procedimentoCitologia semestral ou anual conforme o laudo que gerou a investigação, até dois exames negativos
NIC 1Não — acompanharNenhum; se persistir 24 meses, tratamento e seguimento são igualmente aceitáveis, decididos com a mulherCitologia semestral acima de 30 anos, anual abaixo; retorno à rotina após dois negativos
NIC 2 ou NIC 3, mulher de 25 anos ou maisSimExcisão tipo 1 ou 2 se zona de transformação tipo 1 ou 2; excisão tipo 3 se tipo 3Citologia e colposcopia conforme a margem da peça (tabela seguinte), por cinco anos
NIC 2 em mulher de até 24 anosPreferência pela conduta expectante por 24 mesesTratar apenas se o seguimento não puder ser assegurado, ou se persistir após 24 mesesCitologia e colposcopia semestrais por dois anos
NIC 3 em mulher de até 24 anosDepende da idade dentro da faixaAté 20 anos, seguimento; de 21 a 24 anos, excisão ou método destrutivo, com seguimento também aceitávelCitologia e colposcopia semestrais por dois anos ou até completar 25 anos
Adenocarcinoma in situSim, e com peça íntegraExcisão tipo 3, com técnica que preserve a avaliação de margens; lesão multifocal e endocervical altaSeguimento em serviço especializado; margem comprometida não se acompanha
Carcinoma microinvasor IA1, margens livres, sem invasão do espaço linfovascularJá foi tratada pela própria excisão, se houver desejo de gestarConização é suficiente; histerectomia extrafascial é opção com prole definidaCitologia e colposcopia semestrais por dois anos, depois citologia anual até cinco anos
Carcinoma invasor, ou IA1 com invasão do espaço linfovascular, ou IA2 ou maisSim, fora do ambulatórioEncaminhamento à alta complexidade em oncologiaRelógio legal de 60 dias para o primeiro tratamento, contados do laudo patológico

A peça voltou: como ler margem, discordância e recidiva

SituaçãoO que significaConduta
Margens livres, ou comprometidas apenas por NIC 1Excisão provavelmente completa da lesão de alto grauCitologia aos 6 e aos 12 meses; colposcopia a critério do serviço; depois citologia anual até completar cinco anos
Qualquer margem comprometida por NIC 2 ou NIC 3Principal fator de risco para doença residual — mas a maioria dessas mulheres não terá lesão residualNão reoperar por regra: citologia e colposcopia semestrais nos dois primeiros anos, depois citologia anual até cinco anos
Margem comprometida por NIC 2 ou 3 e seguimento inviávelO risco só é aceitável porque será vigiado; sem vigilância, deixa de ser aceitávelNovo procedimento excisional, ecto ou endocervical conforme a margem
Lesão residual ou recorrente comprovadaFalha do tratamento anterior, mais provável acima de 50 anos, em tabagistas e em imunossuprimidasConduzir como se fosse a lesão inicial, com nova avaliação do tipo de zona de transformação
Citologia de alto grau, colposcopia sem achados, junção visívelDiscordância — provável erro de leitura citológica ou lesão fora do coloRevisão de lâmina por outro profissional; o novo resultado substitui o anterior; garantir que a vagina está limpa
Citologia de alto grau, colposcopia sem achados, junção não visívelDiscordância com canal inacessível — a lesão pode estar acima do campo de visãoEscovado endocervical; se mantiver suspeita ou repetir o mesmo resultado, excisão tipo 3 para diagnóstico
Biópsia sugere microinvasãoFragmento não permite medir profundidade nem avaliar margemExcisão tipo 3, preferindo conização a frio; é inaceitável técnica que produza mais de um fragmento
Atipia glandular persistente com colo e corpo normaisOrigem possivelmente extrauterina, em qualquer idadeInvestigar órgãos pélvicos e manter citologia e colposcopia semestrais até afastar doença pré-invasiva e invasiva

Estadiamento do carcinoma invasor: a versão vigente, e por que a do documento brasileiro de 2016 já não serve

EstádioDefinição vigente (FIGO, revisão de 2018)O que muda na conduta
IA1Invasão do estroma de até 3,0 mm de profundidade, diagnosticada apenas ao microscópio; sem critério de extensão lateralConização com margens livres trata, se houver desejo de gestar e não houver invasão do espaço linfovascular
IA2Invasão maior que 3,0 mm e de até 5,0 mm de profundidadeRisco de doença extracervical: avaliação linfonodal e cirurgia mais extensa
IB1 / IB2 / IB3Invasão maior que 5,0 mm, lesão limitada ao colo, medida pelo maior diâmetro: até 2 cm, de 2 a 4 cm, e acima de 4 cmLesão clinicamente visível é IB por definição, qualquer que seja o tamanho; ressonância orienta preservação de fertilidade
IIEstende-se além do colo sem atingir o terço inferior da vagina nem a parede pélvica; IIB é o acometimento parametrialParamétrio comprometido ao toque retal já muda o tratamento — e o toque retal não custa nada
IIITerço inferior da vagina, parede pélvica, hidronefrose ou rim não funcionante, ou linfonodos pélvicos ou para-aórticos (IIIC)Quimiorradiação concomitante com cisplatina, seguida de braquiterapia
IVMucosa da bexiga ou do reto com biópsia confirmando (IVA) ou metástase a distância (IVB)Edema bolhoso da bexiga não basta para classificar como IV
O que mudou em 2018A extensão lateral do tumor deixou de contar, o estádio IB foi subdividido em três, e o comprometimento linfonodal passou a ter estádio próprio, com as anotações r para imagem e p para patologiaAs diretrizes brasileiras de 2016 ainda descrevem IA1 e IA2 com o critério de extensão de até 7 mm; aplicar aquele texto hoje superestima o estádio de algumas mulheres

As condutas por resultado citopatológico vêm da segunda edição das diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero, de 2016, que continua sendo a régua publicada para o que fazer depois do resultado alterado. A primeira parte das diretrizes de 2025 trata do rastreamento e encerra o próprio escopo na porta da colposcopia; a segunda parte, dedicada à avaliação, ao tratamento e ao seguimento, passou por consulta pública em 2026 e ainda não foi aprovada por portaria.

Onde o teste molecular de DNA-HPV já substituiu a citologia como método primário, o gatilho de colposcopia muda, mas o que vem depois dela não: detectados os tipos 16 ou 18, ou havendo citologia reflexa alterada, ou persistindo tipos oncogênicos por 24 meses, a mulher vai à colposcopia — e da colposcopia em diante as tabelas acima valem igual, porque são de histologia e de tratamento.

O estadiamento da tabela final é o da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia na revisão de 2018, conforme reproduzido no protocolo de câncer do colo do útero da Febrasgo de 2025. Quem consultar o texto brasileiro de 2016 vai encontrar a versão anterior, com critério de extensão lateral de até 7 mm em IA1 e IA2 — critério abandonado.

Método destrutivo, como eletrocauterização, criocauterização ou laser, só é alternativa aceitável quando a lesão está restrita à ectocérvice, com junção escamocolunar visível e zona de transformação tipo 1, sem suspeita de invasão nem de doença glandular. A desvantagem é estrutural: ele não devolve peça para o patologista, de modo que uma invasão não suspeitada não é diagnosticada.

08

A conduta, hora a hora

Integrar citologia, colposcopia e histologia segundo o fluxo indicado para o achado. Suspeita de invasão exige confirmação e referência apropriadas, sem tratar como lesão precursora comum. Após tratamento de alto grau, registrar procedimento, laudo e calendário de vigilância específico; o cuidado não termina com a cicatrização do colo.

As doses vêm das diretrizes brasileiras de rastreamento — a de 2025 para o preparo antes da nova coleta, a de 2016 para o preparo antes da colposcopia — e do protocolo de infecção pelo papilomavírus humano na gravidez da Febrasgo, de 2025, no que toca à gestante.

  1. Dia 0 — alguém lê o laudo alterado e escreve uma conduta

    Este é o marco que mais falha no Brasil e o único que depende inteiramente de organização, não de conhecimento. O laudo volta ao serviço, alguém precisa abri-lo, classificá-lo numa das linhas da tabela e registrar no prontuário três coisas: o que o resultado é, o que vai ser feito, e em que data. Sem a data escrita, não existe conduta — existe intenção. Registre também o telefone atual da mulher e um segundo contato, porque a busca ativa que vem depois vive disso. Se houver atrofia ou processo infeccioso interferindo na leitura, é aqui que se prescreve o preparo, antes de repetir qualquer coisa.

    Prescrição
    • Estriol creme vaginal 1 mg/g — aplicar 1 g com aplicador, via vaginal, à noite, por 14 noites consecutivas; nova coleta 5 a 7 dias após a última aplicação (diretrizes brasileiras, INCA, 2025; o creme vaginal de estriol é item da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais)
    • Tratar processo infeccioso ativo pela diretriz específica antes de recoletar — o tratamento do corrimento não altera o cronograma do seguimento do laudo alterado
  2. Dias 1 a 15 — o encaminhamento sai, e alguém confere se virou consulta

    Encaminhamento emitido não é consulta marcada, e essa frase é a diferença entre a trajetória de duas mulheres com o mesmo laudo. O papel precisa dizer, em texto e não em sigla, qual foi o resultado citopatológico completo, a data da coleta, a idade, se há sintoma, se há imunossupressão, se está grávida e qual a idade gestacional. Sigla solta no campo do motivo é o que faz uma mulher com atipia escamosa em que não se pode excluir lesão de alto grau ser regulada como se fosse atipia possivelmente não neoplásica — duas letras de diferença, meses de fila de diferença. Entre sete e quinze dias depois de emitir, alguém do serviço confere se a vaga saiu e liga para a mulher com a data. Havendo neoplasia maligna como hipótese principal, a lei dá trinta dias para os exames que elucidam a suspeita, desde que o pedido venha fundamentado — e escrever essa fundamentação é trabalho de quem encaminha.

  3. A consulta de colposcopia — vinte minutos que decidem o resto

    Espéculo, inspeção da vagina inteira, ácido acético, lugol, e as três perguntas: onde está a lesão, até onde vai a zona de transformação, há sinal de invasão. Se a junção escamocolunar não aparece, esgote as manobras antes de assumir zona tipo 3 — abrir mais o espéculo, pressionar com pinça na transição colo-vagina, deslocar o muco com swab embebido em ácido acético, usar espéculo endocervical de Kogan ou de Mencken. Persistindo, prescreva preparo estrogênico e remarque, em vez de cortar dois centímetros e meio de canal às cegas. Registre no laudo o tipo de zona de transformação: sem ele, o cirurgião do próximo passo não sabe que profundidade planejar.

    Prescrição
    • Ácido acético 3% a 5% e solução de lugol para o teste de Schiller, aplicação tópica no ato do exame
    • Estrogênios conjugados creme vaginal 0,625 mg — 1 aplicação por via vaginal ao dia, de 5 a 14 dias antes de repetir a colposcopia, quando a junção escamocolunar não se expõe (diretrizes brasileiras, INCA, 2016)
    • Alternativa oral: estradiol 1 a 2 mg por via oral, uma vez ao dia, por até 10 dias; ou estrogênios conjugados 0,625 mg por via oral, uma vez ao dia, por até 10 dias (mesma fonte)
    • Não usar laminária nem misoprostol, oral ou tópico, para dilatar o canal — desaconselhados expressamente pelas diretrizes brasileiras
  4. No mesmo ato, quando os critérios fecham — a excisão que trata

    Citologia de alto grau, achados anormais maiores, junção visível com zona de transformação tipo 1 ou 2, lesão restrita ao colo, sem suspeita de invasão nem de doença glandular: excisão agora, sob visão colposcópica e anestesia local, sem biópsia prévia. A peça inteira vai para o patologista. Nessa configuração, a biópsia prévia não é apenas dispensável — ela é desaconselhada, porque adia sem acrescentar. Se a zona é do tipo 3, a excisão precisa ser tipo 3, e a decisão de fazê-la no mesmo ato depende do serviço. E se a mulher tem até 24 anos, o ver e tratar não se aplica em nenhuma hipótese.

    Prescrição
    • Excisão tipo 1 — zona de transformação tipo 1: retirada da zona ectocervical com até 1 cm de canal endocervical (diretrizes brasileiras, INCA, 2016)
    • Excisão tipo 2 — zona de transformação tipo 2: profundidade habitual de 1,5 a 2,0 cm de canal, o suficiente para ultrapassar a junção (mesma fonte)
    • Excisão tipo 3 — zona de transformação tipo 3: profundidade de 2,0 a 2,5 cm de canal (mesma fonte)
    • Peça única, íntegra e orientada; é inaceitável técnica excisional que produza mais de um fragmento quando há suspeita de invasão
    • Conização a frio preferencial quando houver suspeita de microinvasão, pelo artefato térmico da eletrocirurgia sobre a medida de profundidade
  5. Da excisão até 30 dias — a peça, o laudo e a leitura da margem

    O procedimento não termina no centro cirúrgico: termina quando alguém lê o laudo da peça e decide o calendário. Duas informações comandam: o grau da lesão e o estado das margens. Margem livre, ou comprometida apenas por NIC 1, aponta para o calendário curto. Margem comprometida por NIC 2 ou NIC 3 é o principal fator de risco de doença residual — mas a maioria dessas mulheres não terá lesão residual, e reoperar por regra é sobretratamento. A resposta certa é vigiar mais de perto, e só reoperar quando a vigilância não for possível. Se a peça mostrar invasão, muda o capítulo: profundidade, invasão do espaço linfovascular e margem passam a decidir. Cobre o laudo — 61% dos exames histopatológicos de colo saíram em até 30 dias no país em 2023, o que significa que em quatro de cada dez casos alguém precisa perguntar.

  6. 6 e 12 meses — o primeiro ano depois do tratamento

    Com margens livres, a mulher faz citologia aos 6 e aos 12 meses; a colposcopia é opcional, a critério do serviço. Com qualquer margem comprometida por NIC 2 ou 3, o par citologia mais colposcopia é semestral nos dois primeiros anos. A razão de ser mais apertado no começo é factual: quando há lesão residual, ela é diagnosticada na maioria das vezes dentro dos dois primeiros anos. A taxa de doença residual ou recorrente em até dois anos após tratamento de lesão de alto grau fica entre 4% e 18%, com média de cerca de 8%, e é maior acima dos 50 anos. Toda requisição precisa dizer que se trata de seguimento de lesão tratada — sem essa frase, o citopatologista lê a lâmina como rastreamento.

  7. 2 a 5 anos — o seguimento longo, que é onde a paciente se perde

    Depois dos dois primeiros anos, o seguimento passa a citologia anual até completar cinco anos do tratamento, e volta para a unidade básica. É o trecho mais frágil da trajetória inteira, porque a mulher está bem, não tem sintoma, já operou e já foi tranquilizada. E é justamente aqui que o risco continua: mulheres tratadas por NIC 2 ou 3 permanecem sob risco de câncer cervical maior que o da população geral por pelo menos dez anos, e talvez até vinte. Completados os cinco anos sem lesão, ela retorna à rotina de rastreamento, e a história de doença intraepitelial tratada deve constar de todos os pedidos futuros. Se ela vive com HIV ou está sob imunossupressão, não há alta: o seguimento citológico passa a ser anual por toda a vida. O reencaminhamento da atenção especializada para a básica precisa vir por escrito, com resumo do que foi feito e do que falta — sem isso, a equipe que recebe não sabe que aquela mulher tem um calendário.

  8. Quando o laudo diz invasor — o relógio de 60 dias começa a correr

    A partir do laudo patológico que firma o diagnóstico de neoplasia maligna, a lei dá 60 dias para o início do primeiro tratamento no SUS, e considera iniciado o tratamento com cirurgia, radioterapia ou quimioterapia. Anote a data do laudo no prontuário: ela é o marco zero legal, e é a data que alguém vai precisar para cobrar a vaga. Carcinoma microinvasor IA1 com margens livres e sem invasão do espaço linfovascular pode ser considerado tratado pela própria conização em mulher com prole incompleta, desde que o seguimento esteja assegurado; havendo invasão do espaço linfovascular, margem comprometida, prole completa, impossibilidade de seguimento ou estádio IA2 ou mais, o caminho é a alta complexidade em oncologia. Nos estádios localmente avançados, o tratamento privilegiado é a quimiorradiação concomitante com cisplatina, seguida de braquiterapia — e o estadiamento por imagem não pode atrasar o início, porque atraso é fator prognóstico independente. Entre 2019 e 2023, pouco mais da metade das brasileiras com este diagnóstico começou o tratamento dentro do prazo; no Norte, 32%.

    Prescrição
    • Encaminhamento formal a estabelecimento habilitado em alta complexidade em oncologia, com cópia do laudo patológico e a data em que ele foi firmado
    • Quimiorradiação concomitante com cisplatina seguida de braquiterapia nos estádios localmente avançados, conduzida pelo serviço de oncologia (protocolo Febrasgo de câncer do colo do útero, 2025)
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Como saber se está funcionando

Numa doença sem sintoma, não existe melhora para observar. O que se acompanha aqui é outra coisa: se o conjunto de exames faz sentido entre si, se o tratamento pegou a lesão inteira, e se a mulher continua aparecendo. Os sete parâmetros abaixo são os que efetivamente mudam alguma decisão — e quase todos falham em silêncio, o que é a razão de estarem escritos.

Concordância entre citologia, colposcopia e histologiaNa consulta em que o laudo da biópsia chega

Esperado: Os três apontando para a mesma gravidade, ou a diferença explicada — por exemplo, citologia de alto grau com biópsia de NIC 3.

Se não melhora: Discordância não se resolve escolhendo o resultado mais confortável. Peça revisão da lâmina de citologia por outro profissional; o novo resultado substitui o anterior. Garanta que não há lesão vaginal. Se a junção escamocolunar não é visível, faça escovado endocervical; mantida a suspeita ou repetido o mesmo resultado, a resposta é excisão tipo 3 para diagnóstico.

Proporção de peças de excisão que voltam sem lesão ou com NIC 1Revisão periódica das peças do serviço, não caso a caso

Esperado: Em torno de 2% a 5% quando os critérios de ver e tratar são respeitados — citologia de alto grau, achado anormal maior, junção visível, lesão restrita ao colo.

Se não melhora: Percentuais próximos de 20% indicam que a seleção está frouxa ou que a citologia ou a colposcopia do serviço não têm o desempenho que o ver e tratar pressupõe. A correção não é individual: é voltar a biopsiar antes de tratar enquanto a qualidade não estiver assegurada. Cada peça desnecessária é um colo encurtado numa mulher que talvez engravide.

Estado das margens na peça de excisãoAo ler o laudo histopatológico, até 30 dias após o procedimento

Esperado: Margens livres, ou comprometidas apenas por NIC 1 — situação em que o calendário de seguimento é o curto.

Se não melhora: Margem comprometida por NIC 2 ou 3 não indica reoperação automática: a maioria dessas mulheres não terá lesão residual. Passa-se ao seguimento apertado, com citologia e colposcopia semestrais por dois anos. Novo procedimento excisional só quando o seguimento não for possível por questões técnicas ou da própria mulher.

Citologia de seguimento aos 6 e aos 12 meses após o tratamentoNas datas marcadas, contadas do dia do procedimento

Esperado: Negativa nas duas coletas, com o pedido informando que se trata de seguimento de lesão tratada

Se não melhora: Citologia alterada no seguimento é conduzida como lesão inicial, com nova avaliação do tipo de zona de transformação — que pode ter mudado depois da excisão. Não repita a excisão sem repetir a colposcopia: o colo operado não é o colo de antes.

Colposcopia semestral nos dois primeiros anos quando a margem estava comprometidaA cada 6 meses, por 24 meses

Esperado: Colo sem achados anormais nas quatro avaliações

Se não melhora: É neste intervalo que a doença residual aparece na maioria das vezes. Lesão residual ou recorrente comprovada volta ao início do fluxo. Fatores que aumentam o risco e justificam vigilância maior: idade acima de 50 anos, tabagismo, imunossupressão, multiparidade e lesão fora da zona de transformação.

Persistência de lesão de baixo grau ou de NIC 1 sob acompanhamentoA cada 6 ou 12 meses conforme a idade, com prazo de decisão em 24 meses

Esperado: Regressão a exames negativos — o desfecho da maioria, sobretudo abaixo dos 30 anos

Se não melhora: Lesão de baixo grau que persiste por 24 meses volta para colposcopia. NIC 1 que persiste por 24 meses admite tanto manter o seguimento quanto tratar, e a escolha é individualizada com a mulher, considerando idade, paridade e preferência. Se a decisão for tratar com zona de transformação tipo 2 ou 3, o risco obstétrico da excisão profunda precisa ser pesado explicitamente.

Sintoma novo em qualquer ponto do seguimentoA qualquer momento, fora do calendário

Esperado: Ausência de sangramento pós-coito, sangramento fora do ciclo ou corrimento fétido persistente

Se não melhora: Sintoma tira a mulher do calendário de seguimento e a devolve à investigação diagnóstica, independentemente de quando é a próxima consulta marcada e de quão recente foi o último exame normal. Espéculo no mesmo dia; havendo lesão visível ou colo que sangra ao toque, biópsia dirigida — nunca citologia.

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Onde o erro machuca

Tratar com excisão uma mulher cuja citologia era de baixo grau ou atipia possivelmente não neoplásica.

O dano: É a forma mais comum de causar dano nesta doença, e ela não parece dano na hora: parece zelo. O procedimento excisional aumenta parto prematuro, morbidade neonatal e mortalidade perinatal, com evidência de certeza alta, e o efeito cresce com a profundidade e com a repetição. Num ensaio clínico, tratar de imediato mulheres com esses laudos devolveu 60% de peças com NIC 1 ou sem lesão nenhuma. Nas diretrizes brasileiras, tratar com base apenas no aspecto colposcópico nessas categorias é conduta classificada como inaceitável.

Como pegar a tempo: Exija histologia antes de qualquer excisão fora do ver e tratar, e lembre que o ver e tratar exige citologia de alto grau — não colposcopia impressionante. Diante de baixo grau, o instrumento é a agenda, não o eletrodo.

Aplicar a régua da mulher adulta à mulher de até 24 anos com NIC 2.

O dano: Nessa faixa, a NIC 2 se comporta como lesão de baixo grau: regride em torno de 60% em doze meses e em até 75% em três anos, e o carcinoma invasor é raríssimo. Operar significa encurtar um colo que provavelmente vai carregar uma gestação, para tratar uma lesão que provavelmente sumiria. As diretrizes calculam que rastrear e tratar antes dos 25 anos exigiria tratar entre 300 e 900 mulheres com NIC para evitar um único carcinoma invasor.

Como pegar a tempo: Confira a idade antes de olhar o laudo. Até 24 anos, a conduta preferencial diante de NIC 2 comprovada é expectante por 24 meses, com citologia e colposcopia semestrais; método excisional não está indicado; e o ver e tratar é inaceitável. Tratar só quando o seguimento não puder ser assegurado — e isso é uma decisão sobre a rede, que deve ser dita com essas palavras à paciente.

Tratar a biópsia negativa como resposta final numa mulher com citologia de alto grau.

O dano: A pinça alcança o que a lente vê, e a lente não vê o canal. Quando a junção escamocolunar não é visível, a lesão pode estar acima do campo. Em séries de mulheres nessa exata situação submetidas a conização, 3% a 4,6% tinham câncer e cerca de um terço tinha NIC 2 ou 3. Encerrar o caso com um laudo negativo devolve à unidade básica uma mulher que carrega uma lesão de alto grau com um papel dizendo que está tudo bem.

Como pegar a tempo: Biópsia negativa com citologia de alto grau obriga a três coisas: afastar lesão vaginal, pedir revisão da lâmina e, se a junção não é visível, investigar o canal com escovado endocervical. Mantida a suspeita, excisão tipo 3 para diagnóstico. E registre no prontuário que o caso não está encerrado.

Fazer uma excisão rasa numa zona de transformação que subia pelo canal, ou devolver a peça em pedaços.

O dano: A profundidade da excisão não é escolha de estilo: ela é ditada pelo tipo de zona de transformação, porque a lesão precisa sair inteira. Excisão insuficiente produz margem comprometida, que é o principal fator de risco de doença residual e recorrente, e compromete de quebra o diagnóstico — em peça fragmentada não se mede profundidade de invasão nem se avalia margem, de modo que uma microinvasão pode ficar sem estádio.

Como pegar a tempo: Classifique a zona de transformação antes de ligar o aparelho e case a excisão com ela: até 1 cm de canal no tipo 1, de 1,5 a 2,0 cm no tipo 2, de 2,0 a 2,5 cm no tipo 3. Peça única e orientada. Havendo suspeita de microinvasão, prefira a conização a frio, porque o artefato térmico atrapalha a medida.

Reoperar automaticamente porque a margem veio comprometida.

O dano: É o erro simétrico do anterior, e vem do mesmo impulso de resolver. A margem comprometida por NIC 2 ou 3 aumenta o risco de doença residual, mas a maioria dessas mulheres não terá lesão residual — e uma segunda excisão soma profundidade à primeira, multiplicando o risco obstétrico sem benefício demonstrado na maior parte dos casos.

Como pegar a tempo: Trate a margem comprometida como indicação de vigilância mais apertada, não de nova cirurgia: citologia e colposcopia semestrais nos dois primeiros anos. Reserve o novo procedimento para quando o seguimento não for viável. Diga isso à mulher, porque ela vai perguntar por que não se tira o resto.

Dar alta depois do tratamento sem deixar o calendário escrito — e tratar a imunossuprimida como as demais.

O dano: Mulheres tratadas por NIC 2 ou 3 permanecem sob risco de câncer cervical superior ao da população geral por pelo menos dez anos, e possivelmente por vinte. O risco de recidiva diminui com os anos, mas o risco de câncer é progressivo e persiste por décadas — discrepância que os próprios documentos brasileiros atribuem à má adesão ao seguimento. Na mulher vivendo com HIV, a recidiva após tratamento é mais frequente mesmo em uso de terapia antirretroviral, e a alta em cinco anos é simplesmente errada.

Como pegar a tempo: Escreva o calendário completo no reencaminhamento à unidade básica, com resumo da história, do diagnóstico e do tratamento, e informe a história de doença intraepitelial tratada em todos os pedidos futuros. Para a mulher imunossuprimida, escreva a palavra anual e a palavra vitalício — não existe alta de seguimento nesse grupo.

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O que dizer ao paciente e à família

A técnica de comunicar má notícia tem capítulo próprio nesta coleção. O que segue são as palavras que são desta doença — e elas têm uma dificuldade específica: quase todo o vocabulário do laudo aparece, num buscador de internet, ao lado da palavra câncer. Lesão, neoplasia, atipia, alto grau. A mulher já leu antes de chegar. Comece por aí.

Duas regras atravessam todas as falas. A primeira é dizer o desfecho antes da explicação, porque ninguém escuta explicação com medo. A segunda é terminar sempre com a próxima data — em doença cujo dano vem do abandono, a frase final da consulta não é um resumo, é um compromisso.

Ela abre a consulta perguntando se é câncer, com um laudo de lesão de alto grau na mão

"Não é câncer. O que esse exame mostrou é uma alteração nas células do colo do útero que, se ficar anos sem tratar, pode um dia virar câncer — e o motivo de a senhora estar aqui hoje é justamente para isso não acontecer. Essa alteração tem tratamento, é feito aqui mesmo, com anestesia local, e resolve na grande maioria das vezes. Eu vou examinar a senhora agora com um aparelho que aumenta a imagem, e ao fim eu te digo exatamente o que vamos fazer."

Não diga: Evite começar pela fisiopatologia ou pela palavra pré-maligno, que ela vai ouvir como maligno. E não diga apenas que não é câncer e mude de assunto: a frase precisa vir com o que é, e com o que se faz.

Ela pergunta por que fazer uma cirurgia se não sente absolutamente nada

"É exatamente por isso que a gente faz. Essa alteração não dói e não sangra — quando começa a dar sintoma, já não é mais essa fase, é outra bem mais difícil de tratar. O procedimento que eu estou propondo tira a área alterada e manda para o laboratório, então ele trata e confirma ao mesmo tempo. Leva uns vinte minutos, a senhora vai para casa depois, e vai sangrar um pouco e ter um corrimento por algumas semanas."

Não diga: Evite prometer que resolve tudo de uma vez. Uma parte das mulheres vai precisar de seguimento apertado por margem comprometida, e prometer alta agora torna essa conversa impossível depois.

Mulher de 22 anos com NIC 2 comprovada, e a conduta é não tratar

"Eu sei que soa estranho ouvir que tem uma alteração e que a gente não vai operar. Na sua idade, a maior parte dessas alterações desaparece sozinha — mais da metade em um ano. E operar o colo agora aumenta o risco de o bebê nascer antes da hora numa gravidez futura. Então o plano é vigiar de perto: exame e colposcopia a cada seis meses, por dois anos. Se não sumir nesse tempo, aí a gente trata. O que eu preciso da senhora é que não falte a nenhuma dessas quatro consultas — a vigilância só é segura se ela acontecer."

Não diga: Evite dizer que não é nada. Não é nada agora; pode ser alguma coisa em dois anos, e é essa honestidade que sustenta o comparecimento.

Consentir a excisão, incluindo o que ela precisa saber sobre gestações futuras

"Antes de a senhora concordar, três coisas. Primeira: eu vou tirar um pedaço em formato de cone do colo, e o tamanho depende de até onde a alteração sobe pelo canal — eu vejo isso no exame de hoje. Segunda: isso pode aumentar um pouco o risco de parto prematuro numa gravidez futura; é um risco real, e é menor do que o de deixar uma lesão de alto grau sem tratar. Terceira: o material vai para o laboratório, e é o resultado dele que vai dizer se a senhora precisa de acompanhamento de seis em seis meses ou uma vez por ano. Alguma dessas três a senhora quer que eu explique melhor?"

Não diga: Não omita o risco obstétrico por medo de assustar. A mulher que descobre depois, numa gestação, perde a confiança no serviço inteiro — e a informação muda a decisão de quem ainda quer engravidar.

A margem veio comprometida, e a conduta é não reoperar

"O exame do material mostrou que a alteração chegou até a borda do que eu tirei. Isso não quer dizer que ficou doença: na maioria das mulheres nessa situação, não fica. Quer dizer que a gente precisa olhar mais de perto. Em vez de operar de novo — o que traria risco sem benefício para a maior parte das pessoas —, a senhora vai fazer exame e colposcopia a cada seis meses nos próximos dois anos. Se aparecer alguma coisa, a gente trata na hora. Vou deixar as quatro datas escritas aqui."

Não diga: Evite a palavra sobrou. E não trate como um detalhe técnico: para ela, borda comprometida soa como cirurgia mal feita, e vale dizer que não foi.

Ela sumiu por mais de um ano e voltou com o laudo antigo na mão

"A senhora está aqui, e é isso que importa agora. Esse exame é de catorze meses atrás e continua valendo como motivo para investigar — não como resultado. Hoje eu vou examinar a senhora e, dependendo do que eu vir, posso já tratar na mesma consulta. Antes de a senhora ir embora, a gente marca o retorno e eu confiro seu telefone, porque o que não pode acontecer de novo é ficar um ano sem notícia."

Não diga: Não pergunte por que ela não voltou, e nunca em tom de cobrança. A falha, na maioria esmagadora das vezes, foi do serviço — e a culpa que você planta hoje é o motivo de ela não voltar da próxima vez.

A biópsia mostrou carcinoma invasor

"Dona Vanilda, o exame do material mostrou que dessa vez é um câncer do colo do útero. Eu sei que é o que a senhora temia ouvir. Vou dizer o que sei e o que ainda não sei: o que a gente sabe é que existe tratamento e que ele começa por uma avaliação num serviço especializado; o que a gente ainda não sabe é o tamanho exato, e isso vai mudar qual tratamento é o melhor. A lei garante que o tratamento comece em até sessenta dias contados da data desse laudo — que é o dia doze. Eu vou anotar essa data aqui, e a senhora vai levar uma cópia. A senhora quer chamar alguém para ficar aqui, agora?"

Não diga: Não prometa estádio, prognóstico ou tipo de tratamento antes do estadiamento. E não termine sem a data e sem o nome de quem, no serviço, vai acompanhar o encaminhamento.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Citologia de alto grau com colposcopia compatível: tratar na mesma consulta ou biopsiar antes?

Posição do acesso — tratar no mesmo ato

Quem defende essa posição parte de um dado brasileiro incômodo: cada retorno agendado é uma chance de perder a paciente, e a fragmentação da rede multiplica essas chances. Tratar na primeira consulta, quando a citologia é de alto grau, a colposcopia mostra achado anormal maior, a junção é visível com zona de transformação tipo 1 ou 2, a lesão está restrita ao colo e não há suspeita de invasão nem de doença glandular, encurta o caminho de três consultas para uma e não sacrifica o diagnóstico, porque a peça inteira vai ao patologista. Com esses critérios respeitados, um estudo brasileiro encontrou 2% de histologia negativa e menos de 10% de NIC 1, e uma grande série holandesa, 4,5% de NIC 1 ou histologia negativa em 1.677 mulheres.

Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero, INCA, 2016 — recomendação de grau A; séries de Monteiro e de Bosgraaf citadas no documento

Posição da confirmação — biopsiar primeiro

Quem defende essa posição observa que os números favoráveis vêm de serviços em que a citologia tem bom desempenho e o colposcopista é experiente, e que fora dessas condições a proporção de peças sem doença sobe muito: uma série obtida com os mesmos critérios de seleção encontrou 8% de histologia negativa e 20% de NIC 1, e outro estudo brasileiro que desconsiderava o achado colposcópico chegou também a cerca de 20%. Uma em cada cinco mulheres operada sem lesão de alto grau é um preço obstétrico que a biópsia prévia evitaria. As próprias diretrizes brasileiras acolhem essa posição: onde a qualidade da citologia não estiver garantida, ou quando o colposcopista não se sentir seguro quanto à relevância dos achados, a biópsia é aceitável.

Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero, INCA, 2016 — recomendação de grau B para a biópsia aceitável; séries de Sadan e brasileira citadas no documento

Como decidir

Decida por três leituras concretas. Primeira, o seu serviço: você sabe qual é a proporção de peças que voltam sem lesão? Se ninguém sabe, é sinal de que a segurança do ver e tratar não está demonstrada ali, e biopsiar antes é a escolha prudente. Segunda, esta mulher: nuliparidade e desejo de gestar deslocam o peso para a confirmação prévia, porque o custo de uma excisão desnecessária é maior nela. Terceira, a probabilidade de ela voltar: mulher que veio de outro município, que faltou a consultas anteriores ou que só consegue vir com acompanhante desloca o peso para resolver hoje. E note a assimetria: o erro do ver e tratar é uma cirurgia a mais numa mulher que ficará bem; o erro de biopsiar antes é uma mulher que some com uma lesão de alto grau. Nenhum dos dois é pequeno, e é por isso que a resposta muda de serviço para serviço.

NIC 2 comprovada em mulher de 21 a 24 anos: vigiar por dois anos ou tratar agora?

Posição da história natural — vigiar

Nessa faixa, a NIC 2 se comporta como lesão de baixo grau: a regressão em doze meses de seguimento gira em torno de 60% e chega a cerca de 75% em três anos, e o carcinoma invasor é raríssimo. Do outro lado da balança está um dano com evidência de certeza alta: o procedimento excisional aumenta parto prematuro, morbidade neonatal e mortalidade perinatal, num grupo em que a grande maioria ainda não tem prole definida. As diretrizes brasileiras dão preferência explícita à conduta expectante por 24 meses, com citologia e colposcopia semestrais, e consideram o método excisional não indicado antes dos 25 anos.

Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero, INCA, 2016 — preferência pela conduta expectante, grau B; método excisional não indicado antes dos 25 anos, grau D

Posição da exequibilidade — tratar

Vigiar não é não fazer nada: é fazer quatro consultas com colposcopia em dois anos, o que pressupõe uma rede que devolva a mulher quatro vezes. Onde a colposcopia é uma vaga por mês para toda a região, essa premissa é falsa, e a conduta expectante vira, na prática, abandono com nome técnico. As próprias diretrizes brasileiras reconhecem isso ao considerar o tratamento aceitável quando o seguimento não puder ser assegurado — e é uma decisão sobre a rede disfarçada de decisão clínica.

Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero, INCA, 2016 — tratamento aceitável caso não se possa assegurar o seguimento, grau B

Como decidir

A pergunta que decide não é qual conduta é melhor em tese, e sim quantas das quatro consultas o seu serviço consegue entregar. Faça essa conta antes de conversar com a mulher, e faça a conversa com ela sabendo a resposta. Se a vigilância é factível, ela é claramente superior, e a paridade ainda não definida pesa a favor. Se não é, diga isso com estas palavras — que o tratamento está sendo oferecido porque o acompanhamento não pode ser garantido, não porque a lesão exige. Considere ainda a reversibilidade: uma lesão que progride em dois anos ainda será tratável; um colo encurtado não volta. E lembre que, aos 25 anos, ela passa a ser conduzida como as demais — a idade que muda a régua está perto.

Com o que seguir a mulher tratada por NIC 2 ou 3: citologia, citologia com colposcopia, ou teste de DNA-HPV?

Posição brasileira vigente — citologia, com colposcopia conforme a margem

É a régua escrita: margem livre ou comprometida por NIC 1 seguem com citologia aos 6 e aos 12 meses, colposcopia a critério do serviço, e depois citologia anual até completar cinco anos; margem comprometida por NIC 2 ou 3 segue com citologia e colposcopia semestrais nos dois primeiros anos. O argumento é de razoabilidade operacional: a citologia isolada encaminha menos mulheres à colposcopia, o que melhora a relação entre custo e benefício numa rede escassa, e o valor preditivo negativo dela é muito próximo do teste molecular — quando qualquer um dos dois é negativo, nova lesão é improvável.

Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero, INCA, 2016 — recomendações de grau A para os dois calendários

Posição da sensibilidade — teste de DNA-HPV no seguimento

Quem sustenta essa posição parte de que o teste molecular tem sensibilidade maior que a citologia para detectar lesão residual ou recorrente, e de que a persistência do HPV oncogênico depois do tratamento é justamente um dos fatores associados à recorrência. Uma revisão sistemática com quinze estudos encontrou doença residual ou recorrente em até dois anos após tratamento de lesão de alto grau variando de 4% a 18%, com média de 8%, e risco maior acima dos 50 anos, consistente com o aumento da persistência viral com a idade. Um estudo brasileiro encontrou teste negativo em 74,75% das mulheres seis meses após excisão por lesão de alto grau, o que sugere um filtro eficiente para liberar quem não precisa de vigilância apertada.

Revisão de Arbyn e colaboradores e demais estudos citados nas Diretrizes brasileiras, INCA, 2016; incorporação do teste de DNA-HPV ao SUS pela Portaria SECTICS/MS n.º 3/2024

Posição da colposcopia associada — olhar o colo, não só a lâmina

Aqui o argumento é o do falso negativo: acrescentar a colposcopia ao seguimento aumenta a identificação de doença residual e reduz a taxa de falsos negativos da citologia, sobretudo num colo já operado, cuja anatomia mudou e cuja coleta é tecnicamente pior. O acompanhamento ideal para detectar doença residual ou recorrente, segundo os documentos brasileiros, parece ser a citologia associada à colposcopia — e um pequeno ensaio comparando citologia isolada com a combinação de citologia e teste molecular encontrou diferença significativa apenas na especificidade, maior na estratégia combinada.

Diretrizes brasileiras para o rastreamento do câncer do colo do útero, INCA, 2016 — estudos de Mergui e colaboradores citados no documento

Como decidir

Enquanto a régua brasileira do pós-tratamento não é atualizada, o calendário por margem é o que você deve escrever no prontuário — ele é defensável, é o que a rede reconhece e é o que a unidade básica sabe executar. Onde o teste molecular já está disponível, use-o para o que ele faz melhor: identificar quem tem risco residual maior e merece vigilância mais apertada, sem que isso substitua a colposcopia de quem tinha margem comprometida. E deixe que o caso desloque a escolha: acima de 50 anos, em tabagista, em imunossuprimida ou quando a lesão original estava fora da zona de transformação, o risco de recorrência é maior e a estratégia mais sensível compensa. Em qualquer das três posições, o que decide o desfecho continua sendo se a mulher comparece — um seguimento medíocre executado vale mais que um seguimento ideal escrito.

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O raciocínio, em voz alta

Elisângela Bastos, 26 anos, nuligesta, professora de educação infantil, sem comorbidades e sem queixas. Colheu citologia numa consulta de rotina na unidade básica; o laudo diz amostra satisfatória, epitélios escamoso e glandular representados, lesão intraepitelial escamosa de alto grau. Foi encaminhada ao ambulatório de colposcopia e chegou em cinco semanas.

  1. O que penso antes de tocar nela

    Lesão de alto grau na citologia confirma doença desse grau em 70% a 75% das mulheres e revela carcinoma invasor em 1% a 2%. Isso me dá duas certezas: repetir a citologia aqui seria conduta inaceitável, e a chance de eu encontrar alguma coisa hoje é alta. Também anoto duas coisas sobre ela e não sobre o laudo: tem 26 anos, o que a coloca fora das regras conservadoras dos até 24, e é nuligesta, o que faz do risco obstétrico de uma excisão profunda um dado a ser conversado.

  2. O que faço, e o que encontro

    Espéculo, inspeção das paredes vaginais, ácido acético a 5%, lugol. A vagina está limpa. No colo, não há acetobranqueamento, não há mosaico nem pontilhado, não há vaso atípico — e a junção escamocolunar não aparece em nenhum ponto, mesmo depois de eu abrir mais o espéculo, deslocar o muco com swab embebido em ácido acético e usar o espéculo endocervical. Zona de transformação tipo 3, colposcopia sem achados anormais.

  3. Como a resposta muda o que eu penso

    Isto é discordância, e discordância não se resolve escolhendo. Tenho três explicações possíveis, e nenhuma delas é a de que está tudo bem: a lâmina de citologia pode ter sido lida errado; a lesão pode estar na vagina, o que eu já afastei; ou a lesão está dentro do canal, fora do meu campo de visão. A terceira é a mais provável justamente porque a junção não aparece — e é a mais perigosa, porque nessa exata situação séries de mulheres conizadas mostraram de 3% a 4,6% de câncer e cerca de um terço com NIC 2 ou 3.

  4. O que peço agora

    Duas coisas ao mesmo tempo. Solicito revisão da lâmina de citologia, de preferência por outro citopatologista, sabendo que se o novo laudo for diferente é ele que passa a valer. E colho escovado endocervical, introduzindo todas as cerdas e girando cinco voltas por toda a extensão do canal, escrevendo no pedido que é material endocervical de investigação de lesão de alto grau — sem essa frase o citopatologista pode devolver a amostra como insatisfatória por ausência de epitélio escamoso. Marco retorno em três semanas e anoto o telefone dela.

  5. As respostas chegam

    A revisão de lâmina mantém lesão intraepitelial escamosa de alto grau. O escovado endocervical também mostra células compatíveis com lesão de alto grau. Agora não há mais discordância: há uma lesão de alto grau que está no canal. A conduta indicada é excisão tipo 3 — não porque eu queira tratar às cegas, mas porque é o único procedimento que alcança e ao mesmo tempo diagnostica o que está a dois centímetros de profundidade.

  6. A conversa antes do procedimento

    Explico que vou retirar um cone de cerca de dois centímetros do canal, que o material vai ao laboratório e que é ele quem dará o diagnóstico definitivo. Digo, sem rodeio, que esse tipo de excisão aumenta o risco de parto prematuro numa gravidez futura, e que esse risco é menor que o de deixar uma lesão de alto grau dentro do canal. Ela pergunta se dá para esperar. Respondo que esperar seria razoável se a lesão fosse de baixo grau ou se ela tivesse menos de 25 anos, e que não é o caso — a alternativa real não é esperar, é fazer agora ou fazer maior depois.

  7. A peça volta

    Laudo em 22 dias: NIC 3, sem invasão, margem endocervical comprometida por NIC 3, margem ectocervical livre. Não reopero. A margem comprometida é o principal fator de risco de doença residual, mas a maioria das mulheres nessa situação não terá lesão residual, e uma segunda excisão somaria profundidade num colo de nuligesta. Programo citologia e colposcopia semestrais pelos próximos dois anos — quatro consultas —, depois citologia anual até completar cinco anos.

  8. O que eu escrevo antes de ela sair

    As quatro datas, num papel que fica com ela e num campo do prontuário que a equipe consulta. O reencaminhamento formal à unidade básica com resumo da história, do diagnóstico, do procedimento e do calendário. A frase seguimento de lesão de alto grau tratada, para constar de todos os pedidos futuros. E o telefone dela conferido em voz alta, mais um segundo contato. Este último parágrafo parece o menos médico dos oito e é, estatisticamente, o que mais muda o desfecho dela.

  9. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do seguimento de Elisângela: ela recebe um exame de controle favorável e entende que está definitivamente liberada. Explicar o que o resultado permite decidir agora e quais controles continuam necessários. Entregar o calendário vinculado ao histórico de alto grau tratado.

  10. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se não comparece ao controle, localizar a barreira e reorganizar o seguimento, preservando a informação sobre a lesão anterior. Se surge sangramento ou lesão suspeita ao exame, investigar clinicamente sem esperar a próxima data do calendário. Vigilância programada não substitui avaliação de sintomas.

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Faça você

Marizete Coelho, 44 anos, dois partos normais, hipertensa em uso de losartana, chega ao ambulatório de colposcopia com uma citologia colhida dois meses antes na unidade básica. Amostra registrada como satisfatória, escamoso e glandular entre os epitélios representados, e no diagnóstico descritivo: células glandulares atípicas de significado indeterminado, possivelmente não neoplásicas, sem outras especificações quanto à origem. Ela não tem queixa ginecológica, menstrua regularmente e não teve sangramento fora do ciclo. Traz também, dobrado no mesmo envelope, um pedido de ultrassonografia transvaginal que a enfermeira da unidade solicitou por conta própria, ainda não realizado.

  1. Passo 1 — o que essa categoria significa

    Atipia em células glandulares é a categoria de maior risco entre as indeterminadas: associa-se a NIC 2 ou 3 ou a câncer em 15% a 56% dos casos, com as neoplasias invasoras concentrando-se acima dos 40 anos. Não se repete citologia aqui, e a divisão entre possivelmente não neoplásica e não se podendo excluir alto grau não muda a conduta inicial. Ela vai à colposcopia — e é o que já aconteceu.

  2. Passo 2 — o que se faz além do colo

    Célula glandular pode vir do endométrio, e nesta idade a doença endometrial entra na conta. Acima dos 35 anos, a avaliação endometrial com ultrassonografia transvaginal é recomendada junto com a colposcopia — de modo que o pedido que a enfermeira fez, embora fora de rito, coincide com o que a diretriz manda. Se a citologia tivesse mencionado origem endometrial, a cavidade teria prioridade sobre o colo; como não mencionou, as duas investigações correm juntas.

  3. Passo 3 — a colposcopia

    À colposcopia, a junção escamocolunar é parcialmente visível e não há achados anormais no colo nem na vagina. Nova coleta é feita no mesmo ato, com atenção especial ao canal cervical, conforme manda a conduta para esta categoria. A ultrassonografia transvaginal realizada na semana seguinte mostra endométrio de 6 mm, homogêneo, sem imagem focal, e ovários sem alterações.

  4. Passo 4 — os resultados que voltam

    A citologia colhida no momento da colposcopia é negativa para lesão intraepitelial e para malignidade. O endométrio, pela ultrassonografia, é normal para a idade e para o momento do ciclo. Nenhuma biópsia foi feita, porque não havia achado colposcópico anormal para dirigir a pinça.

  5. Passo 5 — decida você

    Marizete está sentada na sua frente, aliviada, dizendo que já entendeu que não é nada e perguntando se pode voltar ao preventivo de sempre. Qual é a conduta, com que exame, em que intervalo, por quanto tempo, e em que serviço? E o que teria de mudar nesse plano se a nova citologia tivesse mantido a atipia glandular?

Ver como fecharíamos

Ela não volta à rotina, e este é o ponto do caso. Quando a citologia colhida no momento da colposcopia é negativa e a investigação não encontrou doença, a mulher com atipia glandular é seguida com citologia semestral na unidade secundária — não na básica — e só depois de dois anos com exames semestrais normais retorna ao rastreamento trienal. São quatro coletas, no serviço especializado, antes da alta. A razão é o risco basal da categoria: um exame negativo não cancela uma probabilidade de 15% a 56% de doença de alto grau ou invasora; apenas informa que a primeira busca não achou. E a busca tem pontos cegos conhecidos — a lesão glandular pode ser multifocal, o acesso ao canal é difícil, e o epitélio glandular pode não produzir achado colposcópico anormal nenhum. Se a nova citologia tivesse mantido a atipia glandular, o plano mudaria em duas direções ao mesmo tempo. Primeira: com colo e corpo uterinos investigados e sem doença encontrada, passa-se a procurar doença extrauterina, em qualquer idade, porque a célula pode vir de tuba, de ovário ou de derivações mullerianas. Segunda: o seguimento deixa de ser só citológico e passa a ser citológico e colposcópico semestral, mantido até que doença pré-invasiva e invasiva estejam afastadas. Se em algum momento a indicação de excisão tipo 3 aparecer, a técnica precisa produzir espécime íntegro e adequado para avaliação histopatológica. Duas armadilhas do caso, para fechar. A primeira é a que a Marizete oferece de bandeja: a sensação de alívio dela é verdadeira e é epidemiologicamente perigosa, porque ela está prestes a sair do serviço achando que acabou. A frase que resolve isso é curta e precisa ser dita antes de ela levantar — o exame de hoje não achou nada, e é por isso que a gente vai olhar de novo daqui a seis meses, quatro vezes. A segunda é que uma atipia glandular em mulher com sangramento uterino anormal teria mandado investigar o endométrio com prioridade, e isso vale mesmo abaixo dos 35 anos: não foi a idade que indicou a ultrassonografia aqui, foi a idade na ausência de sintoma.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Citologia de alto grau com colposcopia sem achados é discordância, e discordância obriga a revisar, não a escolher o resultado mais tranquilizador. Três explicações competem: leitura citológica equivocada, lesão vaginal — já afastada aqui — e lesão dentro do canal, a mais provável justamente porque a junção escamocolunar não aparece. Por isso se pede revisão da lâmina, cujo novo resultado substitui o anterior, e se investiga o canal com escovado endocervical; mantida a suspeita ou repetido o mesmo resultado, a excisão tipo 3 é feita para diagnóstico. Repetir a citologia é conduta inaceitável diante de lesão de alto grau, e encerrar o caso com retorno à rotina devolveria à unidade básica uma mulher que pode carregar NIC 2 ou 3 — em séries de mulheres nessa exata situação submetidas a conização, 3% a 4,6% tinham câncer. A excisão tipo 1 alcançaria apenas o primeiro centímetro do canal, deixando para trás a região suspeita. E o teste de DNA-HPV não reavalia uma indicação que a citologia já deu: sua baixa especificidade não retira ninguém da fila da investigação.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sete dias. Feche os olhos e responda em voz alta, sem consultar: quais laudos citopatológicos mandam repetir com data e quais mandam encaminhar hoje? Diga o intervalo de repetição da atipia escamosa possivelmente não neoplásica nas duas faixas etárias que a separam, e o que muda se a mulher vive com HIV. Depois: quais são as três perguntas que a colposcopia responde, e como o tipo de zona de transformação define a profundidade da excisão em centímetros. Por fim, complete a frase — quando citologia, colposcopia e histologia discordam entre si, o que se faz é ___. Se você respondeu escolher a mais confiável, volte à seção da discordância: a resposta é revisar, e a assimetria é que o resultado mais grave manda até ser explicado. Um exercício de dois minutos que vale por meia hora de leitura: pegue o último encaminhamento para colposcopia que você viu e leia o campo do motivo. Está escrito por extenso o resultado citopatológico completo, a data da coleta, a idade, se há sintoma, se há imunossupressão? Ou está escrito só a sigla? Se estiver só a sigla, você acabou de encontrar o ponto exato em que uma mulher com atipia em que não se pode excluir alto grau é regulada como se tivesse atipia possivelmente não neoplásica. Aplicação comentada: Margem comprometida equivale automaticamente a câncer invasivo? Não. Interprete histologia e contexto e defina o próximo passo especializado.

Em 30 dias

Trinta dias. Reconstrua a trajetória inteira de memória, do laudo alterado à alta, e cheque-se nos pontos em que este capítulo disse que a rede quebra: quem lê o laudo que volta, quem confere se o encaminhamento virou consulta, quem cobra o resultado da peça, e quem escreve o calendário de cinco anos no reencaminhamento à unidade básica. Depois, treine os quatro julgamentos que este capítulo pede e que não têm resposta automática. Primeiro: diante de citologia de alto grau com colposcopia compatível, o seu serviço tem condições de tratar no mesmo ato, ou é mais seguro biopsiar antes? Segundo: NIC 2 em mulher de 22 anos — a sua rede devolve essa mulher quatro vezes em dois anos? Terceiro: margem endocervical comprometida por NIC 3 — o que justificaria reoperar, e por que a resposta habitual é vigiar? Quarto: a mulher que some é falha dela ou do serviço, e o que na sua próxima consulta muda por causa dessa resposta? Por fim, guarde os quatro números que orientam a suspeita e a pressa: 19.310 casos novos estimados por ano no triênio de 2026 a 2028; cerca de 205 mil resultados alterados por ano no SUS na faixa de 25 a 64 anos; metade dos casos de câncer diagnosticados já em estádio III ou IV; e pouco mais da metade das mulheres começando o tratamento dentro dos 60 dias que a lei garante. E os dois limiares que evitam dano no sentido oposto: 25 anos, abaixo dos quais não se opera o colo; e 24 meses, o prazo em que a persistência deixa de ser espera e passa a ser indicação.

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Agora atenda

Agora atenda. Você está no ambulatório de patologia do trato genital inferior e a mulher que senta na sua frente traz um laudo alterado e uma pergunta que ela já fez ao buscador da internet antes de fazer a você. Antes de qualquer procedimento, descubra o que ela entendeu, o que ela teme e há quanto tempo aquele papel está com ela. Depois classifique o laudo, decida entre repetir com data e investigar hoje, e — a parte que o paciente-IA vai cobrar de você — combine a próxima etapa de um jeito que ela consiga cumprir: dia, lugar, o que levar e quem liga se ela não aparecer.