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Sangramento depois da menopausa
Câncer de endométrio e hiperplasia endometrial (sangramento pós-menopausa)
A prova não é o ultrassom: é o tecido
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Hiperplasia endometrial. Femina. 2025;53(6):841-7. Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 31, elaborado pela Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Oncológica
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Hiperplasia endometrial e câncer do endométrio. São Paulo: Febrasgo, 2021. Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 9, Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Oncológica
Instituto Nacional de Câncer (Brasil). Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026. 168 p. ISBN 978-65-88517-52-9 (versão eletrônica)
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. TelessaúdeRS-UFRGS. TeleCondutas: Sangramento Uterino Anormal. 2. ed. Porto Alegre: UFRGS, 2024. 34 p.
Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). Diretrizes de tratamentos oncológicos: Endométrio. São Paulo: SBOC, 2025. Comitê de Tumores Ginecológicos, com colaboração do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA)
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Sangramento uterino anormal. Femina. 2026;54(3):227-35. Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 80, Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Endócrina
Instituto Nacional de Câncer (Brasil). Controle do câncer do colo do útero no Brasil: dados e números 2025. Rio de Janeiro: INCA, 2025. 78 p. ISBN 978-65-88517-68-0 (versão eletrônica)
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Mulher de 58 anos, hipertensa, com prole definida e sem contraindicação cirúrgica, investigada por sangramento pós-menopausa. A biópsia endometrial resultou em hiperplasia endometrial atípica, também descrita como neoplasia intraepitelial endometrial. Qual é o tratamento padrão?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, nove e quarenta da manhã, enfermaria de clínica médica. Zilda Nepomuceno tem 63 anos, foi cozinheira de restaurante popular até se aposentar, e está no terceiro dia de internação por pielonefrite. Está afebril desde ontem, jantou tudo, e a previsão é de alta amanhã de manhã. Você é o interno da equipe e o que sobrou para você hoje é o resumo de alta dela.
A anamnese da admissão, feita às três da manhã por quem estava de plantão, tem uma linha que você já viu mil vezes: nega demais queixas. Você senta na beira da cama para refazer a história, não porque desconfie de alguma coisa, mas porque o resumo de alta precisa de antecedentes e a papeleta não tem nenhum. Pergunta o de sempre — pressão, diabetes, cirurgias, remédios de uso contínuo — e depois pergunta desde quando ela não menstrua.
Ela responde que parou aos 51 anos e que foi um alívio. Você anota. E então acrescenta a pergunta que quase não fez, porque a resposta parecia óbvia: e depois disso, alguma vez a senhora voltou a ver sangue? Zilda para. Olha para a porta do quarto para conferir se tem alguém no corredor. E diz que sim, uma vez, faz uns seis meses, uma sujeirinha na calcinha, coisa de nada, que passou no mesmo dia e nunca mais voltou.
Você pergunta se ela contou para alguém. Ela diz que não. Achou que fosse da friagem, achou que pudesse ser hemorroida, achou que era bobagem para ocupar uma consulta, e tinha vergonha de falar disso com o rapaz novo do posto. A filha não sabe. O marido não sabe. Está guardado há seis meses dentro de uma frase de três segundos que só apareceu porque alguém perguntou.
O resto da história ela conta rápido, e é o resto da história que fecha o quadro. Índice de massa corporal de 34. Hipertensão de longa data. Diabetes tipo 2 em uso de metformina. Nunca engravidou — tentou, não veio, e naquela época não se investigava. Nunca usou hormônio para a menopausa. Nunca fez ultrassom transvaginal. O último preventivo foi há uns oito anos e veio normal, e é esse papel que ela guarda na bolsa como prova de que está tudo bem.
Aqui existe uma tentação, e ela é forte porque tem cinco argumentos plausíveis de uma vez. Foi pouco sangue. Foi uma vez só. Foi há seis meses e não repetiu. Ela está internada por outra coisa, e a outra coisa melhorou. E ela vai embora amanhã, o que significa que o problema, se existir, pode ser de outra pessoa. Cada um desses argumentos é verdadeiro. Nenhum deles é motivo para não investigar.
A frase que decide está a uma pergunta de distância e vale a pena ser dita em voz alta: sangramento genital depois de doze meses sem menstruar é neoplasia do endométrio até que se prove o contrário. E é aqui que este capítulo se separa do anterior. Provar o contrário não é conseguir um ultrassom tranquilizador — o ultrassom mede espessura, e espessura não é diagnóstico. A prova é histológica: alguém precisa olhar o tecido no microscópio.
É disso que o capítulo trata, na ordem em que a coisa acontece. O que a imagem responde e o que ela não responde. Como se obtém tecido, e o que fazer quando o material volta insuficiente, que é comum e é o ponto exato em que a maioria dos casos se perde. A diferença entre a hiperplasia que se trata com remédio e a que é lesão precursora. O que o interno precisa saber sobre o câncer em si. E o encaminhamento, que aqui não é um formulário: é um prazo escrito em lei.
Quem adoece disso
São 9.650 os casos novos por ano estimados para o Brasil no triênio de 2026 a 2028, com risco de 8,79 a cada 100 mil mulheres, no câncer do corpo do útero. Entre as mulheres, é o sexto tumor mais incidente, excluída a pele não melanoma. Divididos pelos dias do ano, são cerca de 26 diagnósticos novos por dia no país. A tradução para o ambulatório é direta: não é doença rara, é doença que a maioria dos serviços vê algumas vezes por ano, e o interno que passa seis meses num ambulatório de ginecologia geral tem chance real de estar na consulta em que ela aparece.
A mortalidade dá a outra metade do quadro. Em 2023 foram registrados 2.564 óbitos por câncer do corpo do útero, com risco de 2,36 mortes por 100 mil mulheres. Confrontando os dois números do mesmo instituto, a mortalidade equivale a 26,8% da incidência estimada — pouco mais de uma morte para cada quatro casos novos. É uma razão baixa para um tumor sólido, e ela tem uma explicação que o interno precisa carregar: a maioria é diagnosticada cedo porque sangra cedo. O sintoma aparece antes de a doença sair do útero. Quem transforma esse tumor em doença letal, na maior parte das vezes, é o tempo entre o sintoma e a biópsia.
A distribuição regional escancara que esse tempo não é igual para todas. O risco estimado vai de 3,15 por 100 mil mulheres no Norte a 11,54 no Sudeste — uma diferença de 3,7 vezes entre os extremos, com Centro-oeste em 7,92, Sul em 7,49 e Nordeste em 7,28. Nenhum mecanismo biológico explica um gradiente desse tamanho. Parte dele é diferença real de exposição, com mais obesidade e mais longevidade onde a taxa é maior; parte é diferença de detecção, porque quem não tem ultrassom e histeroscopia por perto não vira caso registrado. Onde o risco medido é o mais baixo do país é justamente onde a suspeita clínica precisa ser a mais alta, porque é lá que o sistema menos ajuda.
O risco individual cresce com a idade de um jeito que muda a leitura da mesma queixa. A régua brasileira da hiperplasia registra que a probabilidade de uma mulher desenvolver câncer de endométrio até os 49 anos é de 1 em 320, e que, considerada a vida inteira, sobe para 1 em 32 — dez vezes mais. O número é de população norte-americana e o próprio protocolo o apresenta assim; serve como ordem de grandeza, não como taxa nacional. E a ordem de grandeza basta para o que interessa: a mesma frase — sangrou uma vez — dita aos 35 e aos 63 anos descreve duas probabilidades pré-teste que não se parecem.
Fecha a conta o dado que explica por que este capítulo existe separado. A hiperplasia endometrial tem incidência estimada em cerca do triplo da do carcinoma, e as características típicas da mulher que tem uma ou outra são as mesmas — obesidade, diabetes, hipertensão e sangramento vaginal depois da menopausa, presentes juntas em cerca de 80% dos casos. Zilda tem as quatro. Isso não a diagnostica; coloca a investigação do endométrio no topo da lista antes de qualquer exame, e não como último recurso depois que tudo o mais der normal.
Por que acontece o que acontece
O endométrio tem um acelerador e um freio. O acelerador é o estrogênio, que é mitogênico para o epitélio glandular e faz o tecido proliferar. O freio é a progesterona, que interrompe a proliferação, transforma as glândulas em secretoras e organiza o estroma. Num ciclo ovulatório, os dois se alternam todo mês por décadas. A doença deste capítulo é o que acontece quando o acelerador fica pressionado sem o freio por anos seguidos: é isso, e só isso, que a expressão estrogênio sem oposição significa. Guardado esse par, a lista de fatores de risco deixa de ser lista e vira uma frase só.
A primeira pergunta é de onde vem o estrogênio numa mulher que já parou de menstruar. O ovário parou, mas a produção não. O tecido adiposo aromatiza androgênios em estrona, e a gordura passa a ser o principal sítio de síntese de estrogênio depois da menopausa. Por isso a obesidade é o fator de risco mais importante, e o efeito é dose-dependente: quem tem sobrepeso multiplica por 2,3 o risco de hiperplasia; quem tem obesidade, por 3,7; quem tem obesidade mórbida, por 13 — do primeiro degrau ao último, um salto de 5,7 vezes. A mesma fonte registra aumento de 1,39 a 1,62 vez a cada cinco unidades de índice de massa corporal, o que dá ao número um sentido clínico: não existe um ponto de corte de peso, existe uma reta.
Guardada a lógica, o resto da lista se deduz em vez de se decorar. A anovulação crônica retira a progesterona sem retirar o estrogênio, e é por isso que a síndrome dos ovários policísticos entra aqui — o mecanismo está desenvolvido no capítulo dela nesta apostila. A menarca precoce e a menopausa tardia somam anos de proliferação. A nuliparidade retira as pausas que a gestação e a lactação impõem. A terapia hormonal com estrogênio sem progestagênio em mulher com útero é a versão farmacológica exata do problema, e a razão de existir a proteção endometrial que o capítulo de terapia hormonal desenvolve. O tumor produtor de estrogênio, raro, é o mesmo mecanismo em versão concentrada. E o contraceptivo oral combinado é o espelho invertido: cinco anos de uso reduzem em 50% a 70% o risco de câncer de endométrio, porque entregam progestagênio todo mês.
O tamoxifeno merece parágrafo próprio porque é o único item da lista que parece contradizê-la. Ele é usado como antiestrogênio no câncer de mama, mas seu efeito depende do tecido: onde antagoniza, trata; no endométrio, comporta-se como agonista e estimula a proliferação. Daí a situação que confunde o interno pela primeira vez — a mesma mulher, tratando um câncer, sob risco aumentado de outro. E daí a consequência prática que aparece adiante: em usuária de tamoxifeno depois da menopausa, o subepitélio fica alterado e a medida da espessura endometrial perde a capacidade de tranquilizar, de modo que qualquer sangramento vai direto para a biópsia, sem passar pelo corte do ultrassom.
Prolongue a proliferação sem freio e o tecido muda de estado. A hiperplasia endometrial é a expressão morfológica dessa exposição: aumento da relação entre glândula e estroma, com multiplicação das glândulas e desorganização da arquitetura. A classificação da Organização Mundial da Saúde adotada em 2014 e mantida na régua brasileira atual reduziu quatro categorias antigas a duas, e essa redução é a informação mais útil deste capítulo. De um lado, hiperplasia sem atipia: tecido que cresceu demais. De outro, hiperplasia atípica, sinônimo de neoplasia intraepitelial endometrial: um clone que já acumulou as alterações genéticas típicas do carcinoma endometrioide — instabilidade de microssatélites, inativação de PAX2 e mutações de PTEN, KRAS e da betacatenina. A perda de expressão do PTEN é considerada o evento que define a lesão. Não é um grau a mais de crescimento: é outra coisa, com outro nome, outro risco e outro tratamento.
Existe uma segunda linhagem, e a nomenclatura brasileira é traiçoeira aqui. O carcinoma intraepitelial endometrial, que soa como o vizinho de porta da neoplasia intraepitelial endometrial, não tem relação com ela: é a lesão precursora do carcinoma seroso, a forma mais agressiva, e vem de outra via de carcinogênese, definida pela mutação do TP53 em vez da perda do PTEN. A imuno-histoquímica para p53 é o exame que separa as duas, porque a proteína está normal numa e alterada na outra. Essa bifurcação molecular é a explicação do que se vê na clínica: o tipo 1, dependente de estrogênio, endometrioide, de bom prognóstico, que é o que a mulher obesa e diabética costuma ter; e o tipo 2, independente de estrogênio, mais frequente na mulher idosa e magra, seroso ou de células claras, que se comporta pior desde o começo.

Falta explicar por que essa doença sangra, e por que sangra pouco. O endométrio proliferado ultrapassa o suporte vascular que o alimenta; áreas isoladas necrosam e descamam fora de qualquer sincronia, cada uma com sua própria hemorragia pequena. O resultado é sangramento escasso, indolor e intermitente — exatamente o que a paciente descreve como sujeirinha. E é o mesmo padrão que produz a causa mais banal da mesma queixa, a atrofia endometrial, em que o epitélio adelgaçado sangra por fragilidade. Duas causas de gravidade oposta, com apresentação indistinguível à beira do leito. Daí a regra que atravessa o capítulo: o volume do sangramento não estratifica risco nenhum, e quem usa a expressão foi pouquinho como argumento de tranquilidade está usando um dado que não tem essa função.
Por fim, o mecanismo do tratamento, que é o mesmo do erro mais caro daqui. O progestagênio age por três caminhos ao mesmo tempo: ativa receptores de progesterona, reduz os receptores de estrogênio e de progesterona, e ativa a hidroxilase que converte estradiol em estrona. O efeito é decidualizar o estroma e afinar o endométrio. Isso explica por que ele é o tratamento da hiperplasia sem atipia e a alternativa conservadora na hiperplasia com atipia. E explica, pela mesma via, por que prescrever progestagênio antes do diagnóstico é perigoso: o sangramento cessa também quando a causa é hiperplasia atípica ou carcinoma. O tratamento de prova funciona, tranquiliza os dois lados da mesa e adia o diagnóstico — e essa é a única frase deste capítulo que vale memorizar literalmente.
Como se apresenta de verdade
Sangramento após a menopausa precisa de causa esclarecida, mesmo pequeno e indolor. Você deve confirmar a origem, avaliar risco endometrial e escolher o próximo exame de forma sequencial. Um endométrio fino pode orientar o primeiro episódio, mas não encerra sangramento persistente ou recorrente.
Uma advertência de vocabulário antes de começar, porque ela decide o que a paciente conta. A mulher raramente diz sangramento. Ela diz que menstruou de novo, que veio uma sujeirinha, que estava marrom no papel, que sujou a calcinha. Perguntar se ela sangrou depois da menopausa devolve não com frequência maior do que a real. Perguntar se ela viu qualquer sinal de sangue na roupa íntima, no papel ou no vaso desde que parou de menstruar devolve outra coisa.
Percurso clínico: Investigar persistência além do corte numérico
Confirme origem do sangramento e avalie risco, ultrassom e necessidade de amostra. Endométrio fino reduz probabilidade em situações apropriadas, mas persistência ou recorrência exige reavaliação. Amostra insuficiente não é diagnóstico benigno. O plano deve dizer como e quando encerrar a investigação.
A definição que carrega a conduta inteira
Sangramento pós-menopausa é o sangramento genital que ocorre a partir de doze meses completos sem menstruar, em mulher que não está em terapia hormonal para sintomas do climatério. Essa definição é da régua brasileira e não é burocrática: é ela que separa uma menstruação atrasada da transição menopausal de um sinal de alarme, e é ela que autoriza tudo o que vem depois.
Duas condições precisam ser conferidas antes de aplicar a definição, e as duas se conferem com perguntas, não com exames. A primeira é a data: doze meses ou mais desde a última menstruação. Onze meses não é a mesma coisa, e a mulher que menstruou há dez meses ainda está no território do capítulo de sangramento uterino anormal desta apostila. A segunda é o uso de hormônio, porque a mulher em terapia hormonal tem régua própria, descrita adiante.
Qualquer quantidade conta. Uma mancha de dois centímetros na roupa íntima, uma vez, há meses, preenche a definição inteira. Um episódio único preenche a definição inteira. Sangue que veio junto com corrimento preenche a definição inteira. A definição não tem piso de volume porque a doença que ela quer capturar não tem piso de volume.
E vale a contrapartida, que economiza consulta e exame: nem todo sangue que aparece na roupa vem do endométrio. Sangue que aparece ao urinar, sangue que aparece ao evacuar, e sangue que aparece só depois da relação sexual têm origens próprias e listas próprias. Perguntar em que momento o sangue aparece custa quinze segundos e reorienta a consulta inteira quando a resposta é inesperada.
A apresentação típica é justamente a que não assusta
A imagem mental que o estudante carrega de neoplasia ginecológica é de hemorragia, dor e emagrecimento. A apresentação real do carcinoma de endométrio e da hiperplasia com atipia é o oposto disso: pouco sangue, sem dor, mulher que se sente bem, exame físico sem nada, sinais vitais normais. É a apresentação que a régua brasileira descreve como clássica, e é a que menos aciona alarme em quem atende.
Some a isso o comportamento da paciente. Ela costuma não procurar o serviço por causa disso. Quando procura, pede desculpas por estar ocupando a consulta. Quando não pede desculpas, menciona o episódio no fim, com a mão na maçaneta, depois que o assunto oficial da consulta já foi resolvido. Boa parte dos diagnósticos deste capítulo começa numa frase dita fora da queixa principal.
Isso tem uma consequência organizacional que não é do médico, é do serviço: se ninguém pergunta, ninguém sabe. A pergunta sobre sangramento depois da menopausa não está no roteiro de nenhuma consulta de rotina de hipertensão, diabetes ou dor no joelho, que são as consultas em que essas mulheres realmente aparecem. Incluí-la na anamnese de toda mulher acima dos 50 anos custa uma frase e é o rastreamento que existe — porque rastreamento de imagem ou de sangue, nesta doença, não existe.
Guarde o corolário para quando a paciente minimizar, porque ela vai minimizar: o episódio único não é mais benigno que o repetido, e o intervalo desde o episódio não reduz o risco. Seis meses de silêncio depois de um sangramento não são seis meses de prova de saúde; são seis meses em que ninguém olhou.
Em terapia hormonal e em uso de tamoxifeno: duas exceções que não são exceção
A mulher em terapia hormonal da menopausa tem sangramento previsto pelo esquema — no regime sequencial, ao fim do ciclo progestacional. Esse sangramento é esperado e não abre investigação. O que abre é o sangramento não programado: o que aparece fora do padrão do esquema, ou depois de um período estabelecido sem sangrar. A régua brasileira é explícita em que essa mulher deve ser investigada, e o capítulo de terapia hormonal desta apostila resolve as indicações, as contraindicações e a proteção endometrial que ficam antes desta porta.
A diferença prática está no corte de espessura, e ela aparece na seção de investigação: em usuária de terapia hormonal, os números que tranquilizam não são os mesmos da mulher que não usa hormônio. Confundir os dois cortes é o erro técnico mais comum na leitura do laudo.
O uso de tamoxifeno cria a situação mais rígida do capítulo. Em mulher menopausada que usa a droga, havendo sangue, colhe-se tecido — a espessura não entra na decisão, e não existe medida de imagem que dispense a coleta. A razão é mecânica: a droga altera o subendométrio de tal maneira que a medida deixa de discriminar. Vale registrar o que a mesma régua diz do outro lado: o rastreamento de rotina em usuária de tamoxifeno assintomática não é recomendado. Sangrou, biopsia; não sangrou, não vira programa de exames.
Na mulher que usa tamoxifeno antes da menopausa, a régua brasileira registra que, a princípio, não há aumento de risco de câncer de endométrio — mas que ela deve ser investigada se apresentar sangramento uterino anormal, pela régua da idade dela.
Antes da menopausa: como a mesma doença se apresenta em quem ainda menstrua
A hiperplasia não espera a menopausa. Na mulher na pré-menopausa e na perimenopausa, a apresentação descrita pela régua brasileira é outra: sangramento intermenstrual, ou menstruação prolongada, quase sempre em quem tem antecedente de ciclos irregulares sugestivos de anovulação. O padrão é o mesmo do estrogênio sem oposição, só que expresso dentro de um calendário que ainda existe.
Aqui a fronteira precisa ficar nítida, porque os dois capítulos se tocam. A investigação do sangramento uterino anormal na idade reprodutiva — os parâmetros, a classificação, a sequência de exames e o tratamento clínico — é do capítulo próprio desta apostila, e não se refaz aqui. O que pertence a este capítulo é uma coisa só: quando aquela investigação precisa incluir avaliação histológica do endométrio.
A resposta é a que a régua da síndrome do sangramento estabelece e que este capítulo assume: espessamento endometrial associado a fator de risco para câncer de endométrio, sangramento persistente com falha do tratamento clínico, ou dúvida diagnóstica. A anovulação prolongada, a obesidade e o diabetes costumam vir juntos na mesma paciente e são o gatilho mais frequente.
A consequência para quem escreve o encaminhamento é concreta. Uma mulher de 43 anos, obesa, diabética e com dez anos de ciclos espaçados não é uma mulher com irregularidade menstrual: é uma mulher com endométrio exposto há dez anos. Escrever quantos anos de anovulação ela tem, e não apenas que os ciclos são irregulares, é o que transforma um pedido genérico numa prioridade legível para quem regula a fila.
O laudo que chega sem sintoma: espessamento em mulher assintomática
Boa parte das suspeitas nasce de um ultrassom pedido por outro motivo. A mulher não sangrou, foi investigar dor lombar ou fazer um exame de rotina, e o laudo diz endométrio espessado. A conduta aqui é diferente da conduta de quem sangrou, e confundir as duas produz procedimento desnecessário de um lado e diagnóstico perdido do outro.
A régua brasileira registra que, em paciente assintomática, endométrio abaixo de 10 mm não precisa necessariamente ser avaliado com biópsia, e que diante de quadro clínico compatível com hiperestrogenismo cabe tratamento clínico com progestagênio e reavaliação. E registra o outro extremo do mesmo espectro: com espessura acima de 11 mm, a incidência de hiperplasia ou câncer descrita na literatura varia de 2% a 67%.
Essa faixa de 2% a 67% merece ser lida com atenção, porque ela é uma amplitude de 33 vezes e não um número. O que ela informa não é a probabilidade da sua paciente: é que a probabilidade depende inteiramente de quem foi medido — idade, peso, uso de hormônio, presença de outros achados. Um intervalo assim significa que a espessura isolada, na mulher assintomática, é um convite a olhar o resto da paciente, e não um gatilho automático de procedimento.
O que muda tudo é a pergunta anterior, e ela é de anamnese: ela sangrou? Assintomática e sangrando são duas populações com réguas diferentes. Um laudo com o mesmo número significa coisas distintas nas duas, e por isso o pedido de ultrassom em mulher menopausada precisa vir com a informação clínica escrita — sem ela, o radiologista mede e ninguém sabe o que fazer com a medida.
Quem chega sem sangrar: a história familiar que o interno deve perseguir
Uma minoria dos casos tem predisposição genética, e a mais importante é a síndrome de Lynch, causada por mutação em um dos genes de reparo do DNA — MLH1, MSH2, MSH6, PMS2 e EPCAM. O risco de câncer de endométrio nessa população varia de 13% a 57% conforme a mutação específica, e os tumores hereditários aparecem de dez a vinte anos mais cedo que os esporádicos.
O dado que reorganiza a suspeita é este: apesar do nome pelo qual a síndrome ficou conhecida, de 40% a 50% das mulheres afetadas desenvolvem carcinoma de endométrio em vez de câncer de intestino. Para muitas delas, o tumor ginecológico é o primeiro. Perguntar por câncer colorretal e de endométrio na família, com as idades em que apareceram, é barato e é o que aciona o aconselhamento genético — indicado a pacientes com menos de 50 anos ou com história familiar significativa.
Quando a síndrome é confirmada, a régua brasileira desenha um seguimento que o interno deve reconhecer: exame ginecológico, ultrassom transvaginal e biópsia de endométrio a partir dos 35 anos, repetidos anualmente, até que se faça a histerectomia total com salpingo-ooforectomia profilática, oferecida aos 40 anos. É uma das poucas situações em que biópsia de endométrio se faz sem sangramento.
Duas outras síndromes menos frequentes aumentam o risco e vale conhecer o nome: a de Cowden, por mutação do PTEN, e a de Peutz-Jeghers, por mutação do STK11. E há duas situações não genéticas em que a régua brasileira manda amostrar o endométrio sem sangramento: a mulher com tumor de células da granulosa do tipo adulto que não foi histerectomizada, porque o tumor produz estrogênio; e a paciente tratada de carcinoma de ovário com preservação da fertilidade, no momento do diagnóstico. Fora dessas, e da obesidade extrema, biópsia em quem não sangra não é conduta.
Como fechar o diagnóstico
O interno erra pouco por não saber que sangramento pós-menopausa é grave. Erra por aceitar como resposta um exame que não responde a pergunta que ele fez. As seis seções abaixo estão na ordem cronológica do atendimento e servem a uma tese só: o ultrassom organiza a investigação, e a biópsia a encerra.
Antes delas, um passo que este capítulo herda do de sangramento uterino anormal e não refaz: confirmar que o sangue é genital e de origem uterina, com exame especular e toque. Vale registrar apenas o que é próprio desta faixa etária — a mucosa atrófica sangra ao contato, e encontrar atrofia ao especular explica o sangue sem excluir doença do endométrio. Achado de vagina não substitui avaliação de cavidade.

O que o ultrassom transvaginal responde, e o que ele não responde
O ultrassom transvaginal é o primeiro exame de escolha nas doenças do endométrio, e o que ele entrega é uma medida: a espessura do eco endometrial. Ele responde bem a três perguntas. A linha está fina ou espessa. Há irregularidade, descontinuidade ou lesão focal aparente. Há líquido em cavidade, mioma ou outra alteração estrutural que explique a queixa ou que dificulte a coleta de material adiante.
Ele não responde a três outras, e é onde o raciocínio se perde. Não diz se o espessamento é hiperplasia, pólipo, coágulo ou carcinoma, porque isso é diferença de arquitetura e de núcleo, e o ultrassom mede milímetros. Não diz se a hiperplasia que existe tem atipia, que é a informação que muda o tratamento inteiro. E não exclui doença quando a medida é pequena, porque valor preditivo negativo alto não é valor preditivo negativo absoluto.
Há ainda um limite técnico que aparece com frequência exatamente nesta população. Obesidade acentuada, útero miomatoso, cirurgia prévia e atrofia acentuada dificultam a medida, e o laudo volta com endométrio não caracterizado, endométrio não mensurável ou eco endometrial mal definido. Nenhuma dessas frases é sinônimo de endométrio fino. São um exame que não respondeu, e a conduta diante de um exame que não respondeu é obter tecido, não repetir o exame na esperança de um laudo mais gentil.
Duas frases de laudo merecem tradução, porque mudam a pressa. Endométrio heterogêneo com áreas de vascularização aumentada, e endométrio com interface irregular com o miométrio, descrevem achado focal suspeito e não pedem discussão sobre corte de espessura: pedem avaliação da cavidade com visão direta, que é a histeroscopia com biópsia dirigida.
O corte que tranquiliza e o corte que obriga
Na mulher que sangra depois da menopausa e não usa hormônio, a régua brasileira da hiperplasia fixa a espessura tolerável em 4 mm: igual ou acima disso, investiga-se com biópsia. E dá o número que conforta quem fica abaixo desse valor: a medida inferior ao corte carrega valor preditivo negativo de 99% para hiperplasia e para carcinoma.
Repare no que 99% quer dizer quando aplicado a uma pessoa e não a uma série. Se cem mulheres com sangramento pós-menopausa e endométrio fino forem dispensadas, a expectativa é de que uma delas tenha a doença que se queria afastar. Num ambulatório que atenda cinco dessas por mês, isso é cerca de uma mulher por ano e meio. O que decide se esse resíduo é aceitável não é a estatística: é se essa mulher vai ser vista de novo. É exatamente aqui que os documentos brasileiros divergem, e a divergência tem bloco próprio neste capítulo, com as duas posições e a conta.
Os cortes mudam quando muda a droga, e são três situações que precisam ser sabidas separadas. Assintomática sob terapia hormonal: o teto aceito para a linha endometrial é de 8 mm. Sob terapia hormonal e com sangramento não programado: a indicação de coleta começa acima de 5 mm. Menopausada sob tamoxifeno: havendo sangue, colhe-se tecido, e nenhuma medida de espessura dispensa isso.
Falta a assimetria que faz esses números funcionarem. O corte de 4 mm é um instrumento para tranquilizar; ele não é um instrumento para diagnosticar. Uma espessura de 12 mm não diz que existe câncer — diz que a próxima etapa é obrigatória. Uma espessura de 3 mm não diz que não existe — diz que a probabilidade caiu para um resíduo. Nenhum número desta seção fecha diagnóstico. Todos eles apenas decidem se você vai buscar tecido agora ou combinar como vai buscar depois.
E há a régua de outro serviço brasileiro, que o interno vai encontrar na prática e precisa reconhecer como legítima: o material de apoio à decisão do TelessaúdeRS-UFRGS recomenda biópsia na mulher com sangramento pós-menopausa e endométrio igual ou maior que 5 mm, sem uso de terapia hormonal, ou com sintomas persistentes. Um milímetro de diferença entre dois documentos nacionais vigentes parece detalhe e não é, porque a faixa entre 4 e 5 mm é justamente onde mora a decisão difícil.
As formas de obter tecido, e o que cada uma decide
A frase que reorganiza este bloco está na régua brasileira e é mais generosa do que o interno espera: o padrão-ouro para o diagnóstico, tanto da hiperplasia quanto do carcinoma, é uma biópsia realizada em tempo adequado, por qualquer método. O adjetivo que carrega peso não é o do instrumento, é o do prazo.
A biópsia endometrial ambulatorial é a primeira opção e se faz na própria consulta, sem anestesia, com cânula de Pipelle, cureta de Novak ou até com uma sonda uretral de calibre 4 ou 6 introduzida pelo canal cervical e aspirada com seringa. Decide a maior parte dos casos: entrega material representativo do endométrio difusamente acometido, que é como a hiperplasia e a maioria dos carcinomas endometrioides se comportam. Custa uma consulta, dói como uma cólica forte por poucos segundos e não exige centro cirúrgico.
A histeroscopia com biópsia decide outra coisa: ela vê. É o método de escolha quando há suspeita de lesão focal, quando o sangramento persiste apesar de amostra negativa, e quando a paciente é de alto risco. A régua brasileira registra que muitos a consideram o padrão-ouro e, na mesma frase, que ela não está prontamente disponível na maioria das instituições. Essas duas informações juntas são a razão de a seção seguinte existir.
A dilatação e curetagem entra quando o colo não é permeável ou quando a paciente não tolera o procedimento ambulatorial — estenose cervical e dor são as duas situações nomeadas pela régua. Exige centro cirúrgico e anestesia, o que a transforma em internação de curta permanência e a coloca numa fila diferente. Decide o mesmo que a biópsia ambulatorial decide, com custo maior e sem visão direta.
Ordenar as três por disponibilidade, e não por elegância, é o que muda desfecho no Brasil. Onde existe histeroscopia com agenda curta, ela resolve num passo. Onde a fila da histeroscopia é de meses, a biópsia ambulatorial feita hoje vale mais do que o exame melhor marcado para depois — e as duas coisas não competem, porque a ambulatorial negativa em paciente que continua sangrando não encerra nada, e a paciente segue na fila da histeroscopia com uma informação a mais.
Quando a amostra volta insuficiente: o ponto exato em que o caso se perde
O laudo diz material escasso, material insuficiente para análise, ou ausência de tecido endometrial representativo. É o desfecho mais comum da coleta ambulatorial na mulher menopausada, justamente porque o endométrio atrófico oferece pouco material. E é aqui que o caso se perde, porque essa frase é lida como se fosse um resultado negativo — e ela não é resultado nenhum.
Fixe a regra em uma linha: amostra insuficiente em mulher que sangrou depois da menopausa não afasta doença; ela apenas informa que a pergunta continua sem resposta. A conduta é escalonar o método — histeroscopia com biópsia dirigida, ou dilatação e curetagem quando a histeroscopia não estiver ao alcance — e não repetir a mesma coleta com a mesma cânula esperando sorte melhor.
Existe uma segunda frase de laudo que confunde e significa o oposto de insuficiência: pelo menos hiperplasia atípica. O patologista a usa quando os fragmentos são pequenos demais para uma definição mais precisa, e a régua brasileira explica o que ela quer dizer — que a lesão carrega elevada chance de ser carcinoma quando a peça de histerectomia for analisada. Não é dúvida a favor da paciente; é dúvida contra.
A mesma lógica governa o resultado francamente negativo em quem continua sangrando. A régua brasileira determina que, na persistência do sangramento, mesmo com ultrassom normal, a investigação deve prosseguir. E vai além, para a situação que a fila cria: no sangramento pós-menopausa recorrente, já devidamente investigado, com biópsia ou biópsias negativas, a histerectomia total pode ser considerada.
Traduzindo o parágrafo anterior em prática de enfermaria e de ambulatório: quem coleta é responsável por olhar o laudo. Biópsia pedida e não conferida é biópsia não feita. O interno que solicita o exame e escreve no prontuário a data prevista do resultado, o telefone da paciente e quem vai buscar aquele resultado está fazendo a parte do trabalho que mais frequentemente falta.
O que não pedir, e o que custa pedir
A primeira ausência é a mais importante e precisa ser dita como afirmação: não há evidência que sustente rastreamento de hiperplasia ou de câncer de endométrio em mulheres assintomáticas da população geral. Nenhum exame de sangue, nenhum marcador tumoral e nenhuma imagem periódica cumprem esse papel. A régua brasileira abre exceção estreita para rastreamento com biópsia em duas situações: obesidade extrema e mutações de alto risco — Lynch, Cowden e Peutz-Jeghers.
A segunda é a que mais atrasa diagnóstico no Brasil, porque parece diligência: colher citologia oncótica em mulher que sangrou depois da menopausa e mandá-la para casa esperando o resultado. O preventivo rastreia lesão de colo em mulher assintomática e tem régua própria, no capítulo de rastreamento do câncer de colo desta apostila. Ele não amostra o endométrio, não responde à pergunta que foi feita, e o resultado normal que volta em algumas semanas funciona como um atestado de tranquilidade que não vale para esta doença.
A terceira é a imagem cara pedida cedo. A régua brasileira reserva tomografia e ressonância para o que elas de fato resolvem — planejar a cirurgia e estadiar, depois de o diagnóstico estar feito — e registra que elas pouco acrescentam na etapa diagnóstica inicial de quem sangra. Pedir ressonância de pelve antes de ter tecido troca semanas de fila por uma informação que não muda o próximo passo — porque o próximo passo é a biópsia de qualquer maneira.
A quarta é a que se corrige com uma pergunta: repetir o ultrassom. Diante de laudo inconclusivo, de endométrio não caracterizado ou de sangramento que persiste, repetir a imagem entrega outro laudo, não outra decisão. O exame seguinte é o que traz tecido.
E a quinta é o tratamento de prova. Prescrever progestagênio para ver se o sangramento para, em mulher que sangrou depois da menopausa, é o erro que este capítulo mais quer impedir, e o motivo está no mecanismo: o sangramento cessa também quando a causa é hiperplasia atípica ou carcinoma. Quando há sangramento pós-menopausa em investigação e é preciso controlar o sintoma, a orientação brasileira é usar anti-inflamatório não esteroidal ou antifibrinolítico — que aliviam sem interferir no endométrio nem no diagnóstico.
O que a rede entrega, e onde a fila vira dado clínico
Do lado do que existe, o inventário é curto e vale ser sabido. Ultrassonografia transvaginal está disponível de forma razoavelmente ampla e é o exame inicial. A biópsia ambulatorial depende de material simples e de alguém treinado, e é por isso que ela é a etapa mais viável de expandir num serviço que queira reduzir o próprio tempo até o diagnóstico. A histeroscopia é o gargalo, e o próprio protocolo nacional reconhece que ela não está prontamente disponível na maioria das instituições.
Do lado dos medicamentos, a lista nacional de medicamentos essenciais tem, no componente básico, acetato de medroxiprogesterona 10 mg comprimido e nas apresentações injetáveis de 150 mg/mL e 50 mg/mL, noretisterona 0,35 mg comprimido e estrogênios conjugados. Como insumo do mesmo componente consta o dispositivo intrauterino de cobre modelo T 380 mm². Duas ausências mudam conduta e aparecem no bloco de tratamento: o sistema intrauterino liberador de levonorgestrel, que é a primeira linha do tratamento conservador da hiperplasia, e o acetato de megestrol, que é uma das duas opções orais do tratamento que preserva o útero.
O número que transforma fila em decisão clínica é o do prazo. A régua brasileira registra que a espera por um diagnóstico em tempo maior do que seis semanas tem impacto negativo no prognóstico. Seis semanas contadas do sintoma, não da consulta: se a mulher demorou dois meses para procurar o serviço, o relógio dela já está adiantado, e isso muda o que se escreve no encaminhamento.
A regra de destino é explícita e economiza discussão no corredor: para a mulher com sangramento uterino pós-menopausa, está sempre indicado o encaminhamento especializado, preferencialmente para oncologia ginecológica e, na falta dela, para ginecologia em serviço que realize histeroscopia. Não é o ambulatório de ginecologia geral, e não é o retorno em três meses na própria unidade.
Por fim, o diferencial não ganha bloco separado porque não é assim que ele acontece. O especular que mostra a vagina atrófica é o mesmo que, ao mostrar lesão de colo, tira a paciente deste capítulo. O ultrassom que mede a linha fina é o mesmo que, ao mostrar imagem focal, manda direto para a histeroscopia. E o tecido que afasta hiperplasia é o mesmo que, ao mostrar atipia, define tratamento e prioridade de fila. Cada exame aqui exclui uma hipótese e confirma outra no mesmo movimento — e uma tabela de diagnósticos diferenciais à parte daria a impressão errada de que essas hipóteses são investigadas depois.
Do laudo à decisão
Quatro tabelas, e cada uma responde a uma pergunta que o interno faz em voz alta diante de um papel na mão. A primeira responde ao laudo do ultrassom: este número obriga alguma coisa? A segunda responde ao laudo da biópsia quando ele diz hiperplasia: qual das duas? A terceira responde à pergunta que vem depois de câncer confirmado: por que duas pacientes com o mesmo nome de doença recebem tratamentos diferentes? E a quarta responde à pergunta da família: em que ponto isso está? Os eixos são de decisão, não de taxonomia — a coluna que importa em todas é a última.
- 11. Ela está há doze meses ou mais sem menstruar? Se não, este não é o fluxo dela: a régua é a do capítulo de sangramento uterino anormal desta apostila.
- 22. Ela está em terapia hormonal da menopausa? Se sim, o sangramento é o previsto pelo esquema ou é não programado? O não programado segue por este fluxo, com os cortes próprios.
- 33. Ela usa tamoxifeno e está menopausada? Se sim, o fluxo salta o corte de espessura e vai direto ao passo 7: biópsia.
- 44. O sangue é genital e vem da cavidade uterina? Exame especular e toque na mesma consulta. Atrofia vaginal ao especular explica o sangue e não exclui doença do endométrio.
- 55. Escreva no prontuário e na requisição a hipótese principal de neoplasia maligna, com a fundamentação clínica. É essa redação que faz correr o prazo legal dos exames de elucidação.
- 66. Ultrassonografia transvaginal com medida do eco endometrial, pedida com a informação clínica escrita. Encaminhamento especializado sai na mesma consulta, em paralelo, sem esperar o laudo.
- 77. O laudo voltou. Espessura acima do corte da tabela 1, irregularidade, imagem focal, líquido em cavidade ou endométrio não caracterizado: obter tecido. Espessura abaixo do corte, sem irregularidade: decisão discutida no bloco de divergências, e ela depende de você garantir o retorno.
- 88. Como obter tecido, na ordem do que estiver disponível: biópsia ambulatorial hoje, histeroscopia com biópsia dirigida se houver suspeita de lesão focal ou se a ambulatorial falhar, dilatação e curetagem quando o colo não for permeável ou a paciente não tolerar.
- 99. Enquanto se investiga, controle o sintoma sem hormônio: anti-inflamatório não esteroidal ou antifibrinolítico. Progestagênio antes do diagnóstico apaga o sintoma e o diagnóstico junto.
- 1010. O laudo veio insuficiente, escasso ou sem tecido representativo? Não é resultado negativo. Escalone o método e mantenha a paciente no fluxo.
- 1111. O laudo veio hiperplasia? Vá à tabela 2 e leia a palavra atipia. Ela separa dois capítulos de tratamento que não se parecem.
- 1212. O laudo veio carcinoma? O tratamento e o estadiamento são cirúrgicos e são do serviço de referência. O que é seu: a data do laudo escrita no prontuário, o acionamento da regulação e o prazo legal de 60 dias para o primeiro tratamento.
- 1313. O laudo veio negativo e ela continua sangrando? A investigação prossegue. Sangramento pós-menopausa recorrente, já devidamente investigado e com biópsias negativas, é uma das situações em que a histerectomia pode ser considerada.
- 1414. Em qualquer desfecho, o fator de risco continua ativo: peso, glicemia, pressão. Tratar a doença e devolver a paciente ao mesmo endométrio exposto é resolver metade.
| Situação da paciente | Corte da espessura | O que o número autoriza | Régua que sustenta |
|---|---|---|---|
| Sangra, sem terapia hormonal | 4 mm | Igual ou acima: biópsia. Abaixo, sem irregularidade: valor preditivo negativo de 99% — e duas condutas defensáveis, no bloco de divergências | Febrasgo, Protocolo nº 31, 2025 |
| Sangra, sem terapia hormonal | 5 mm | Igual ou acima: biópsia. Também biopsia por sintoma persistente, independentemente do número | TelessaúdeRS-UFRGS, TeleCondutas, 2. ed., 2024 |
| Em terapia hormonal, sem sangramento | 8 mm | É o limite superior aceito. Acima dele, avaliar; não é gatilho automático de procedimento | Febrasgo, Protocolo nº 9, 2021 |
| Em terapia hormonal, com sangramento não programado | 5 mm | Acima: biópsia. O corte é mais alto que o da mulher sem hormônio porque o endométrio dela é estimulado por desenho | Febrasgo, Protocolo nº 9, 2021 |
| Menopausada em uso de tamoxifeno, com qualquer sangramento | não há corte | Biópsia sempre. A droga altera o subendométrio e a medida deixa de discriminar | Febrasgo, Protocolo nº 9, 2021 |
| Assintomática, achado incidental | 10 mm | Abaixo disso, biópsia não é obrigatória; cabe tratamento clínico e reavaliação diante de hiperestrogenismo | Febrasgo, Protocolo nº 31, 2025 |
| Assintomática, espessura acima de 11 mm | 11 mm | A incidência descrita de hiperplasia ou câncer vai de 2% a 67% — amplitude de 33 vezes, que obriga a olhar a paciente e não só o laudo | Febrasgo, Protocolo nº 31, 2025 |
| Endométrio não caracterizado ou não mensurável | sem número | Não é sinônimo de endométrio fino: é exame que não respondeu. O passo seguinte é tecido, não repetir a imagem | Leitura do capítulo, a partir dos limites técnicos descritos nas réguas acima |
Tabela 2 — A palavra que muda o capítulo: hiperplasia com e sem atipia
| Pergunta | Sem atipia | Com atipia (neoplasia intraepitelial endometrial) |
|---|---|---|
| O que é, ao microscópio | Aumento da densidade glandular com glândulas dilatadas e epitélio de tipo proliferativo; relação glândula/estroma em torno de 2 para 1 | Glândulas justapostas, relação glândula/estroma maior que 1, arquitetura complexa e atipia celular; alterações genéticas do carcinoma endometrioide já presentes |
| Coexistência com carcinoma na peça de histerectomia | Não é a preocupação: o risco é de progressão, não de doença já instalada | Alta — o mesmo protocolo publica valores de 25% a 33%, cerca de 40%, até 43% e até 46% em passagens diferentes; qualquer um deles diz a mesma coisa clínica |
| Progressão para carcinoma | Baixa — e o número diverge dentro do próprio documento vigente: menor que 1% na tabela e nos destaques, menor que 5% nas recomendações finais | Alta — 29% em estudos retrospectivos com pelo menos um ano entre biópsia e histerectomia; razão de risco de 14 a 45 |
| Tratamento de quem tem prole definida | Progestagênio contínuo, com biópsia de controle; histerectomia se não regredir em 12 meses, se recidivar, se progredir ou se o sangramento persistir | Histerectomia total com salpingo-ooforectomia bilateral, preferencialmente por via minimamente invasiva |
| Tratamento de quem quer preservar o útero | É a conduta habitual: tratar e acompanhar | É a exceção: sistema intrauterino liberador de levonorgestrel como primeira linha, progestagênio oral como segunda, com vigilância rigorosa e biópsias repetidas |
| O que o interno precisa fazer com esse laudo | Tratar, marcar a biópsia de controle e atacar o fator de risco | Encaminhar como lesão precursora, e não como achado benigno — com a palavra atipia escrita no encaminhamento |
Tabela 3 — Por que duas mulheres com o mesmo diagnóstico recebem tratamentos diferentes
| Característica | Tipo 1 | Tipo 2 |
|---|---|---|
| Depende de estrogênio? | Sim — é o desfecho do estrogênio sem oposição | Não — aparece sem exposição estrogênica identificável |
| Histologia mais comum | Carcinoma endometrioide | Carcinoma seroso e de células claras |
| Lesão precursora | Hiperplasia atípica, por perda de expressão do PTEN | Carcinoma intraepitelial endometrial, por mutação do TP53 |
| A quem acomete tipicamente | Mulher com obesidade, diabetes, hipertensão e anovulação prolongada | Mulher mais idosa, sem o perfil metabólico acima |
| Comportamento | Prognóstico mais favorável; a maioria é de baixo grau e doença inicial | Agressivo desde o começo; entra nos grupos de alto risco mesmo em estádio inicial |
| O que muda na prática do interno | Sangrou cedo, tende a ser encontrado cedo — a demora é o inimigo | Pode não seguir a lógica do fator de risco: ausência de obesidade não tranquiliza |
Tabela 4 — Os quatro estádios, e o que cada um significa para quem espera na sala
| Estádio | Até onde o tumor chegou | O que isso muda |
|---|---|---|
| I | Confinado ao corpo do útero | É onde a maioria é diagnosticada: cerca de 80% dos casos, com sobrevida em cinco anos em torno de 95%. O tratamento é cirúrgico e a adjuvância depende do grau, da invasão do miométrio e da invasão linfovascular |
| II | Invade o estroma do colo, sem sair do útero | Ainda é doença uterina, mas a cirurgia muda de extensão e a avaliação linfonodal entra |
| III | Extensão local ou regional: serosa, anexos, vagina, paramétrio, peritônio pélvico ou linfonodos | Sai do útero sem sair da pelve e do retroperitônio. O tratamento passa a combinar cirurgia com quimioterapia e radioterapia |
| IV | Invade mucosa de bexiga ou de intestino, ou metástase a distância | Muda o objetivo: a decisão passa a ser sobre controle da doença e qualidade de vida, com cirurgia reservada a casos selecionados |
| Como se chega ao estádio | Pela peça cirúrgica, não pela imagem | O estadiamento é cirúrgico: a ressonância antes da cirurgia planeja, mas não estadia. Dizer o estádio à família antes da peça é prometer o que ainda não se sabe |
A versão de 2023 do estadiamento incorpora critério molecular, e a sociedade brasileira de oncologia clínica, ao publicá-la, registrou que mantém as indicações terapêuticas ancoradas na versão anterior. A tabela 4 usa os quatro estádios anatômicos porque é isso que o interno precisa saber conversar; a discussão de qual versão usar está no bloco de divergências.
Nenhum número da tabela 1 é diagnóstico. Todos eles decidem apenas se você busca tecido agora ou combina como vai buscar depois.
A conduta, hora a hora
Confirmar origem do sangue com história e exame e integrar ultrassonografia e avaliação endometrial conforme risco e achados. Amostra insuficiente e resultado discordante não equivalem a investigação negativa. Na persistência ou recorrência, ampliar a avaliação mesmo após exame inicialmente tranquilizador. Atipia exige encaminhamento e acompanhamento do acesso.
Existe um segundo relógio, e ele é legal. Quando a hipótese principal registrada é a de neoplasia maligna, com solicitação fundamentada, os exames de elucidação têm prazo de 30 dias; e a partir da data em que o laudo patológico firma o diagnóstico corre o prazo de até 60 dias para o início do primeiro tratamento oncológico. As duas regras vêm da Lei nº 12.732, de 2012, com a alteração da Lei nº 13.896, de 2019, e o mecanismo de acionar esses prazos por escrito está desenvolvido no capítulo de nódulo mamário desta apostila, que é o irmão metodológico deste. O que muda aqui é o que se escreve: a hipótese e a fundamentação são as deste capítulo.
Cada marco abaixo tem um ponto exato em que o percurso costuma se romper. As linhas marcadas como prescrição são o que se escreve — na receita, na requisição, no encaminhamento e no prontuário —, com a fonte que sustenta cada uma.
Marco 1 — a consulta em que a frase aparece
A tarefa desta consulta não é diagnosticar: é converter uma frase dita de passagem em um caso com hipótese, com pedido e com destino. Confirme as duas condições da definição — doze meses ou mais sem menstruar e ausência de terapia hormonal —, revise a receita à procura de tamoxifeno, e faça o exame especular e o toque na mesma consulta. Depois disso, tudo o que resta é escrever. O ponto de ruptura deste marco é a consulta que termina com boa vontade e sem papel: sem hipótese escrita, o pedido entra na fila comum e o prazo legal não começa a correr.
Prescrição- Registrar no prontuário a data do episódio de sangramento, quantos episódios houve, a data da última menstruação e a ausência de terapia hormonal — são as informações que definem o caso e as que ninguém consegue recuperar depois. (leitura do capítulo, a partir da definição de sangramento pós-menopausa da Febrasgo, Protocolo nº 9, 2021)
- Solicitar ultrassonografia transvaginal com medida do eco endometrial, escrevendo na requisição a informação clínica: mulher na pós-menopausa com sangramento genital, sem terapia hormonal. (Febrasgo, Protocolo nº 31, 2025 — o ultrassom é o primeiro exame de escolha nas doenças do endométrio)
- Escrever na solicitação que a principal hipótese diagnóstica é de neoplasia maligna, com a fundamentação clínica — é essa redação que aciona o prazo de 30 dias para os exames de elucidação. (Lei nº 13.896/2019, que alterou a Lei nº 12.732/2012, conforme registrado pelo INCA, dados e números 2025)
- Encaminhar na mesma consulta, em paralelo ao pedido de imagem, para oncologia ginecológica ou, na falta dela, para ginecologia em serviço que realize histeroscopia. (TelessaúdeRS-UFRGS, TeleCondutas: Sangramento Uterino Anormal, 2. ed., 2024)
- Anotar no prontuário um telefone conferido da paciente e o nome de quem vai buscar o resultado. (leitura do capítulo)
Marco 2 — controlar o sintoma sem apagar o diagnóstico (mesmo dia)
Se a paciente ainda sangra, ou se voltar a sangrar durante a investigação, o sintoma se trata — mas não com hormônio. A regra existe por causa do mecanismo: o progestagênio interrompe o sangramento também na hiperplasia atípica e no carcinoma, de modo que a melhora clínica é indistinguível da cura aparente e compra meses de falsa segurança. O ponto de ruptura é a receita bem-intencionada que faz o sintoma sumir antes de o tecido ser olhado.
Prescrição- Ibuprofeno 600 mg, via oral, três vezes ao dia, durante os dias de sangramento, por 4 a 5 dias. (TelessaúdeRS-UFRGS, TeleCondutas, 2. ed., 2024 — anti-inflamatório como opção de controle do quadro agudo no sangramento pós-menopausa em investigação)
- Alternativa quando o anti-inflamatório estiver contraindicado ou for insuficiente: ácido tranexâmico 250 mg, 2 a 3 comprimidos, 3 a 4 vezes ao dia, por 3 a 4 dias. (TeleCondutas, 2. ed., 2024, que remete à bula do produto; a divergência entre as doses recomendadas no Brasil está resolvida no capítulo de sangramento uterino anormal desta apostila)
- Não prescrever progestagênio, estrogênio nem contraceptivo combinado antes do resultado histológico. (Febrasgo, Protocolo nº 31, 2025 — sempre que houver suspeita de hiperplasia ou de câncer do endométrio, a biópsia é imperativa)
- Orientar por escrito o retorno imediato se o sangramento aumentar de volume ou se repetir, sem esperar a data marcada. (leitura do capítulo)
Marco 3 — o laudo do ultrassom volta (dia 7 a 15)
O laudo chega e a única pergunta é se ele autoriza parar. Acima do corte, com irregularidade, com imagem focal ou com endométrio não caracterizado, a resposta é não e o passo seguinte é tecido. Abaixo do corte e sem irregularidade, a resposta é a discussão do bloco de divergências, e ela depende menos do número do que da sua capacidade de garantir que essa mulher volte. O ponto de ruptura é ler endométrio de 3 mm como alta e escrever no prontuário a palavra normal, que fecha o caso para todo mundo que vier depois.
Prescrição- Diante de espessura igual ou superior a 4 mm em mulher que sangrou e não usa hormônio, indicar biópsia endometrial. (Febrasgo, Protocolo nº 31, 2025)
- Diante de imagem focal, irregularidade da linha endometrial ou interface irregular com o miométrio, indicar avaliação com visão direta — histeroscopia com biópsia dirigida. (Febrasgo, Protocolo nº 9, 2021)
- Diante de endométrio não caracterizado ou não mensurável, prosseguir para obtenção de tecido em vez de repetir a imagem, e registrar essa decisão no prontuário. (leitura do capítulo)
- Se a decisão for aguardar, registrar a régua adotada, a data do retorno e a orientação escrita de voltar imediatamente diante de novo sangramento. (leitura do capítulo)
Marco 4 — obter tecido (até 30 dias do pedido, e dentro de 6 semanas do sintoma)
Este é o marco que define o capítulo, e o critério de escolha do método é a disponibilidade, não a elegância. A régua brasileira aceita qualquer método desde que a biópsia seja feita em tempo adequado. Onde há histeroscopia com agenda curta, ela resolve num passo e ainda enxerga a cavidade; onde a fila é de meses, a coleta ambulatorial feita hoje vale mais, e a paciente segue na fila da histeroscopia com uma informação a mais. O ponto de ruptura é a paciente que sai da consulta com uma vaga de histeroscopia para dali a quatro meses e nenhuma coleta feita.
Prescrição- Biópsia endometrial ambulatorial com cânula de Pipelle, cureta de Novak ou cateter com aspiração por seringa, na própria consulta quando houver material e treinamento. (Febrasgo, Protocolo nº 31, 2025)
- Histeroscopia com biópsia quando houver suspeita de lesão focal, quando a paciente for de alto risco, ou quando a coleta ambulatorial não for possível. (Febrasgo, Protocolo nº 9, 2021)
- Dilatação e curetagem quando o colo não estiver permeável ou a paciente não tolerar o procedimento ambulatorial por dor. (Febrasgo, Protocolo nº 31, 2025)
- Registrar no prontuário a data da coleta e a data prevista do laudo, e cobrar formalmente o laboratório se o prazo estourar. (leitura do capítulo)
Marco 5 — o laudo insuficiente (dia 20 a 40)
Volta escrito material escasso, ou material insuficiente para análise. É o desfecho mais comum da coleta ambulatorial nessa faixa etária, porque o endométrio atrófico oferece pouco tecido — e é o ponto exato em que o caso se perde, porque a frase é lida como resultado negativo. Não é. É a pergunta continuando sem resposta. O ponto de ruptura é dar alta com esse laudo na mão. Vale o mesmo raciocínio para o laudo que diz pelo menos hiperplasia atípica, que não é dúvida a favor da paciente: significa que a lesão tem elevada chance de ser carcinoma na peça.
Prescrição- Diante de amostra insuficiente em mulher com sangramento pós-menopausa, escalonar o método — histeroscopia com biópsia dirigida ou dilatação e curetagem — em vez de repetir a mesma coleta. (leitura do capítulo, a partir das indicações de escalonamento da Febrasgo, Protocolo nº 9, 2021)
- Diante de biópsia negativa com sangramento persistente, prosseguir a investigação mesmo com ultrassom normal. (Febrasgo, Protocolo nº 9, 2021)
- Diante de sangramento pós-menopausa recorrente já devidamente investigado, com biópsia ou biópsias negativas, discutir com o serviço de referência a indicação de histerectomia total. (Febrasgo, Protocolo nº 9, 2021)
- Escrever no encaminhamento, com todas as letras, que a amostra foi insuficiente e que a investigação não está concluída — do contrário, o próximo serviço lê o laudo como negativo. (leitura do capítulo)
Marco 6 — o laudo diz hiperplasia sem atipia
Este é o desfecho mais frequente e o mais tranquilizador dos três, e ainda assim exige tratamento e biópsia de controle. O tratamento produz taxa de regressão maior do que a observação isolada, e exige progestagênio contínuo: o esquema cíclico não serve para esta finalidade. Junto com a droga vai a retirada da fonte de estrogênio: suspender medicamento que contenha estrogênio, corrigir a disfunção ovulatória quando houver, e tratar o peso. O ponto de ruptura é a paciente que recebe a receita e não recebe a data da biópsia de controle.
Prescrição- Sistema intrauterino liberador de levonorgestrel como primeira linha, por apresentar maior taxa de regressão com menos efeitos colaterais — registrando que ele não consta da lista nacional de medicamentos essenciais e depende de oferta local. (Febrasgo, Protocolo nº 9, 2021; ausência conferida na Rename 2024)
- Quando o sistema intrauterino não estiver disponível ou não for desejado: acetato de medroxiprogesterona 10 a 20 mg por via oral ao dia, em regime contínuo, ou noretisterona 10 a 15 mg por via oral ao dia, em regime contínuo. Progestagênio cíclico não deve ser usado para esta finalidade. (Febrasgo, Protocolo nº 9, 2021; apresentações de 10 mg e 0,35 mg disponíveis no Componente Básico da Rename 2024)
- Suspender qualquer medicamento com estrogênio sem oposição e registrar a redução de peso como parte do tratamento, incluindo a discussão de cirurgia bariátrica quando indicada. (Febrasgo, Protocolo nº 31, 2025)
- Agendar biópsia de endométrio de controle e definir, com o serviço de referência, o prazo de reavaliação histológica. Indicar histerectomia se não houver regressão após 12 meses de tratamento, se houver recidiva depois do término, se houver progressão para hiperplasia atípica, se o sangramento persistir, ou se a paciente não desejar nem aderir ao seguimento. (Febrasgo, Protocolo nº 9, 2021)
Marco 7 — o laudo diz hiperplasia atípica
Aqui o laudo mudou de categoria e a conduta muda junto: trata-se de lesão precursora com alta chance de carcinoma já presente na peça. O tratamento padrão para quem tem prole definida e condições cirúrgicas é a histerectomia extrafascial — e a decisão de preservar o útero é a exceção, não a alternativa equivalente. Quando ela é tomada, vem com um compromisso explícito de vigilância. O ponto de ruptura é encaminhar esse laudo como achado benigno, sem a palavra atipia escrita no papel, e a paciente cair na fila do ambulatório geral.
Prescrição- Prole definida e sem contraindicação cirúrgica: histerectomia extrafascial com salpingo-ooforectomia bilateral, preferencialmente por cirurgia minimamente invasiva; a pesquisa do linfonodo sentinela concomitante, embora não consensual, é considerada razoável nas pacientes com maior risco de carcinoma concomitante. (Febrasgo, Protocolo nº 31, 2025)
- Desejo de gestar, ausência de condições cirúrgicas ou recusa da cirurgia: sistema intrauterino liberador de levonorgestrel como primeira linha, com progestagênio oral como segunda melhor alternativa — resposta em torno de 78% e resposta completa em 53%. (Febrasgo, Protocolos nº 31, 2025, e nº 9, 2021)
- Progestagênio oral no tratamento que preserva o útero: acetato de medroxiprogesterona 400 a 600 mg por via oral ao dia, ou acetato de megestrol 160 a 320 mg por via oral ao dia. A ressecção histeroscópica antes da terapia com progestagênio pode ser recomendada. (SBOC, Diretrizes de tratamentos oncológicos: Endométrio, 2025)
- Vigilância obrigatória no tratamento conservador: biópsia endometrial a cada três meses, preferencialmente guiada por histeroscopia; duas biópsias com resposta completa em intervalo de três meses liberam a gestação; ausência de resposta em 12 meses indica o tratamento cirúrgico padrão; a histerectomia é recomendada depois da gravidez. (SBOC, 2025; Febrasgo, Protocolo nº 9, 2021)
- Escrever no encaminhamento a palavra atipia, a data do laudo e o desejo reprodutivo da paciente — são as três informações que definem a fila e a conduta do serviço de destino. (leitura do capítulo)
Marco 8 — o laudo diz carcinoma
A partir daqui o tratamento é do serviço de referência, e o interno não conduz cirurgia nem adjuvância. Ele conduz outra coisa, que é o que mais falha no país: a data. O estadiamento é cirúrgico, o que significa que o estádio não existe antes da peça — e prometer estádio à família com base numa ressonância é prometer o que ainda não se sabe. O ponto de ruptura é o encaminhamento que sai sem a data do laudo patológico, porque é dessa data que o prazo legal começa a correr.
Prescrição- Registrar no prontuário a data em que o laudo patológico firmou o diagnóstico, porque é dela que corre o prazo de até 60 dias para o início do primeiro tratamento oncológico. (Lei nº 12.732/2012, conforme registrado pelo INCA, dados e números 2025)
- Fila sem data ou marcação recusada: acionar formalmente a regulação anexando o laudo patológico com a data, e deixar o acionamento registrado. (leitura do capítulo; o mecanismo está desenvolvido no capítulo de nódulo mamário desta apostila)
- Exames de estadiamento que o serviço de referência vai pedir e que valem ser conhecidos: hemograma, função hepática e renal, radiografia de tórax e ressonância magnética de abdome e pelve com contraste; considerar CA-125; tomografia de tórax em tumores avançados, histologias desfavoráveis ou alto risco cirúrgico. (SBOC, 2025)
- Pesquisa de deficiência do sistema de reparo do DNA por imuno-histoquímica em todas as pacientes com câncer de endométrio, independentemente do estádio e da histologia — ela serve, entre outras coisas, para rastrear síndrome de Lynch, o que muda o seguimento da paciente e o da família dela. (SBOC, 2025)
- Colher e registrar a história familiar detalhada de câncer colorretal e de endométrio, com as idades de diagnóstico, e encaminhar para aconselhamento genético diante de diagnóstico abaixo dos 50 anos ou história familiar significativa. (Febrasgo, Protocolo nº 9, 2021; SBOC, 2025)
Como saber se está funcionando
Neste capítulo não se acompanha resposta terapêutica na maior parte do caminho: acompanha-se percurso. O que se mede é se o exame foi feito, se o laudo chegou e se alguém leu — e cada um desses três passos tem um ponto em que a paciente some do radar sem que ninguém perceba, porque ela não piora enquanto some.
Só a partir do sexto parâmetro é que a reavaliação vira o que ela é nos outros capítulos: um tratamento em curso, com um desfecho histológico a conferir num prazo.
Esperado: Laudo em mãos, com o número do eco endometrial, o plano de medida e a descrição da regularidade da linha
Se não melhora: Se o exame não foi marcado, o problema é de regulação e se resolve acionando a regulação com a hipótese escrita, não remarcando na fila comum. Se o laudo veio sem o número, ou com endométrio não caracterizado, não repita a imagem: o passo seguinte é obter tecido. E se o laudo demora mais do que o prazo legal dos exames de elucidação, cobre por escrito e registre a cobrança.
Esperado: Material coletado por qualquer um dos métodos disponíveis, com data registrada no prontuário
Se não melhora: Se a vaga de histeroscopia é de meses, não espere: a régua brasileira aceita qualquer método desde que a biópsia seja feita em tempo adequado, e a coleta ambulatorial de hoje resolve a maioria dos casos. Se a paciente recusou o procedimento, o obstáculo costuma ser dor antecipada ou constrangimento — os dois se resolvem com informação e com um segundo horário, e nenhum dos dois se resolve com o registro de recusa no prontuário.
Esperado: Laudo lido por alguém, com o diagnóstico anotado no prontuário e a paciente comunicada
Se não melhora: Biópsia feita e não conferida é biópsia não feita — este é o ponto de perda mais silencioso do capítulo, porque o procedimento aparece como realizado no sistema. Se o laudo não voltou, cobre o laboratório formalmente. Se voltou insuficiente, escalone o método. E se voltou negativo em quem continua sangrando, a investigação prossegue: sangramento persistente com ultrassom normal não encerra o caso.
Esperado: Controle do sintoma com anti-inflamatório ou antifibrinolítico, sem uso de hormônio
Se não melhora: Sangramento que recorre durante a investigação aumenta a probabilidade pré-teste e deve encurtar prazos, não prolongá-los — inclusive na paciente que ficou abaixo do corte de espessura e estava sendo observada, para quem a recorrência é o gatilho combinado. Se alguém prescreveu progestagênio e o sangramento parou, isso não é resposta terapêutica: é o diagnóstico ficando mais difícil, e a investigação segue igual.
Esperado: Regressão histológica documentada, e não apenas cessação do sangramento
Se não melhora: Ausência de regressão histológica após 12 meses de tratamento é indicação de histerectomia total, e o mesmo vale para recidiva depois do término, para progressão para hiperplasia atípica, para sangramento que persiste e para a paciente que não deseja nem adere ao seguimento. Antes de concluir por falha, confirme duas coisas: se o progestagênio estava em regime contínuo, porque o cíclico não serve para esta finalidade, e se a fonte de estrogênio foi realmente retirada.
Esperado: Resposta completa em até 6 meses; duas biópsias com resposta completa em intervalo de três meses liberam a tentativa de gestação
Se não melhora: Sem resposta completa em 6 meses e sem critérios de progressão, a régua oncológica brasileira admite estender o tratamento por mais 6 meses. Ausência de resposta em 12 meses indica o tratamento cirúrgico padrão. Progressão em qualquer biópsia interrompe a tentativa. E a paciente precisa ter sido informada, desde o primeiro dia, de que a histerectomia é recomendada depois da gravidez — combinar isso no fim é combinar tarde.
Esperado: Peso, glicemia e pressão em acompanhamento; consulta futura agendada com data e não com orientação de procurar a unidade
Se não melhora: Tratar a lesão e devolver a paciente ao mesmo endométrio exposto resolve metade do problema: mudança de estilo de vida e redução de peso, incluindo cirurgia bariátrica quando indicada, estão no plano de cuidados dessas pacientes segundo a régua brasileira. E se ela não voltou, não conclua abandono antes de ligar: a mesma vergonha que segurou o primeiro relato costuma ser o que segura o retorno.
Onde o erro machuca
O dano: O endométrio atrófico oferece pouco material, e é justamente na mulher menopausada que a coleta ambulatorial mais volta com material escasso. Quando essa frase é lida como ausência de doença, a paciente recebe alta com um laudo que nunca respondeu a pergunta, e o caso sai do sistema com aparência de resolvido: existe procedimento realizado, existe laudo arquivado e existe uma consulta de retorno que ninguém marca. A doença segue crescendo com um carimbo de investigada na frente. É o dano mais frequente deste capítulo, e o mais difícil de auditar depois, porque o prontuário parece correto.
Como pegar a tempo: Fixe a frase: amostra insuficiente em mulher que sangrou depois da menopausa não é resultado, é pergunta sem resposta. A conduta é escalonar o método — histeroscopia com biópsia dirigida, ou dilatação e curetagem quando o colo não for permeável —, nunca repetir a mesma coleta esperando sorte melhor. E escreva no encaminhamento, com todas as letras, que o material foi insuficiente e que a investigação não está concluída, porque o serviço seguinte lê o laudo, não a sua intenção.
O dano: Obesidade acentuada, útero miomatoso e atrofia acentuada são comuns exatamente nesta população, e produzem laudos que dizem endométrio não caracterizado, não mensurável ou mal definido. Nenhuma dessas frases informa espessura. Lidas como tranquilizadoras, elas fazem a paciente sair sem biópsia; lidas como problema técnico, produzem um segundo ultrassom que devolve o mesmo laudo semanas depois. Nos dois casos o resultado é o mesmo: passa um mês, passam dois, e o relógio das seis semanas entre sintoma e diagnóstico histológico já estourou antes de alguém encostar num instrumento de coleta.
Como pegar a tempo: Trate o exame que não respondeu como exame que não respondeu. Diante de endométrio não caracterizado em mulher que sangrou depois da menopausa, o próximo passo é tecido, e não imagem. Registre no prontuário a frase exata do laudo e a decisão de escalonar — é isso que impede que o próximo colega recomece a discussão do zero.
O dano: O gesto parece diligente e é automático: mulher, sangramento, consultório de ginecologia, preventivo. Mas o exame rastreia lesão de colo em mulher assintomática e não amostra o endométrio. O dano tem duas camadas. A primeira é o tempo: a paciente é orientada a voltar para buscar um resultado que não responde à pergunta, e volta em três a seis semanas para receber um papel escrito normal. A segunda é pior e é psicológica: esse papel funciona como atestado de saúde ginecológica para ela e para a próxima equipe, e é comum que a mulher o traga na bolsa meses depois como prova de que já investigou.
Como pegar a tempo: Separe a porta pela qual ela entrou. Mulher com sangramento não está em rastreamento: está em investigação diagnóstica, e a régua do rastreamento do colo é do capítulo próprio desta apostila. Se houver lesão suspeita ao especular, o caminho é o encaminhamento com hipótese escrita. Se não houver, o caminho é a linha endometrial e o tecido. O preventivo pode ser colhido no mesmo dia se estiver em atraso — mas nunca no lugar da investigação, e nunca como motivo para adiá-la.
O dano: O laudo traz a palavra atipia e o encaminhamento sai escrito apenas hiperplasia endometrial, sem o adjetivo. Quem regula a fila não examinou a paciente e não vai examinar: lê o papel. Hiperplasia sem qualificação entra na fila do ambulatório de ginecologia geral, com espera de meses. A doença que está no papel, porém, é lesão precursora com alta chance de carcinoma já presente — o mesmo protocolo brasileiro publica valores de 25% a 33%, cerca de 40%, até 43% e até 46% em passagens diferentes, e todos dizem a mesma coisa clínica: entre uma em cada quatro e quase uma em cada duas dessas mulheres já tem câncer na peça que ainda não foi retirada.
Como pegar a tempo: Escreva atipia. Escreva neoplasia intraepitelial endometrial se for esse o termo do laudo, e escreva que são sinônimos, porque nem todo serviço lê os dois do mesmo jeito. Acrescente três informações que definem a conduta do destino: a data do laudo, o desejo reprodutivo da paciente e as comorbidades que pesam na decisão cirúrgica. E não deixe de fora o laudo que diz pelo menos hiperplasia atípica — ele significa fragmento pequeno demais para precisar, com elevada chance de ser carcinoma, e não dúvida a favor da paciente.
O dano: São quatro números para quatro situações, e trocá-los produz erro nos dois sentidos. Usar o limite de 8 mm da mulher assintomática em terapia hormonal para dispensar uma mulher que sangra e não usa hormônio é passar por cima de um corte quatro vezes menor. Usar 4 mm para indicar procedimento numa assintomática em terapia hormonal é gerar biópsia sem indicação. E o pior dos quatro é aplicar qualquer corte à usuária de tamoxifeno: a droga altera o subendométrio, a medida perde a capacidade de discriminar, e uma espessura pequena nessa paciente não significa nada.
Como pegar a tempo: Antes de olhar o número do laudo, responda a três perguntas, sempre na mesma ordem: ela sangrou? ela usa terapia hormonal? ela usa tamoxifeno? Só depois vá à tabela. E escreva as três respostas na requisição do ultrassom, porque o laudo que volta sem informação clínica é um número solto que qualquer um interpreta com o corte que lembrar.
O dano: Este é o erro específico de quem descobre o sangramento numa internação por outro motivo, e é o do caso que abre este capítulo. A informação existe, está escrita, e ainda assim não vira nada: o resumo de alta traz a pielonefrite tratada, a linha sobre o sangramento fica na evolução do quinto dia, e a paciente vai embora sem exame pedido, sem encaminhamento e sem saber que aquilo importava. Seis meses depois, quando o sangramento repetir, ninguém vai ligar um episódio ao outro — e o relógio das seis semanas terá sido reiniciado três vezes.
Como pegar a tempo: Achado colhido durante a internação sai no resumo de alta, não na evolução. O resumo precisa conter quatro coisas: a hipótese escrita de neoplasia maligna com a fundamentação, o pedido de ultrassonografia transvaginal já emitido, o encaminhamento para serviço que faça histeroscopia já emitido, e a data combinada de retorno com telefone conferido. Alta hospitalar é o momento de maior perda de percurso do sistema, e o único antídoto é entregar o encaminhamento na mão da paciente antes de ela sair do prédio.
O que dizer ao paciente e à família
Há uma diferença entre este capítulo e quase todos os outros: a conversa mais difícil não é a do diagnóstico ruim. É a primeira, com uma mulher que não está preocupada, sobre um sintoma que ela já decidiu que não era nada — e que precisa sair da sala disposta a fazer um exame incômodo por causa de uma mancha que ela viu meses atrás.
O erro de tom que mais custa aqui é a cobrança. Perguntar por que ela não veio antes, ou dizer que ela demorou demais, transforma o silêncio dela em culpa e fecha a porta justamente na consulta em que ela finalmente abriu. Quem se sente repreendido não volta para buscar resultado. A urgência precisa recair sobre o que se vai fazer daqui para a frente, nunca sobre o que não foi feito.
A técnica geral de comunicar diagnóstico grave está no capítulo de comunicação de más notícias desta apostila e não se refaz aqui. O que estas falas trazem é o que muda quando a doença é esta: uma investigação de várias etapas, com exames que podem falhar e precisar ser repetidos por outro método, e um intervalo entre a suspeita e a resposta em que não há nada a dizer além da verdade.
Ela conta que sangrou uma vez, seis meses atrás, e não contou para ninguém
“"Fico contente que a senhora tenha me contado agora — isso muda o que eu faço hoje. E quero que a senhora saiba de uma coisa: depois que a menstruação para de vez, qualquer sangue que aparece é sinal de que a gente precisa olhar por dentro do útero, mesmo que tenha sido pouquinho, mesmo que tenha sido uma vez só, mesmo que tenha sido há meses. Não é o tanto de sangue que decide. Na maior parte das vezes a causa é simples. Mas existe uma que precisa ser afastada, e a única forma de afastar é olhando."”
Não diga: Não pergunte por que ela não procurou antes, nem em tom gentil — a pergunta soa como cobrança, e é o tipo de frase que faz a paciente não voltar para buscar resultado. E não use bobagem nem besteira ao repetir o que ela disse, mesmo para acolher: ela vai ouvir que você concordou.
O ultrassom veio com endométrio fino e ela pergunta se já pode ficar tranquila
“"O exame ajudou bastante e é um resultado bom. Mas ele mede a espessura, e espessura não é diagnóstico: ele não consegue dizer que tipo de tecido está ali dentro. Quem diz isso é o microscópio. Por isso eu vou combinar com a senhora o passo seguinte agora, e não daqui a três meses. E, aconteça o que acontecer, existe uma regra que vale a partir de hoje: se voltar a sangrar, a senhora volta aqui sem esperar a consulta marcada."”
Não diga: Não diga que o exame veio normal, porque ela vai repetir essa palavra para a família e para o próximo médico. E não prometa que não é nada antes do resultado do tecido: a frase é impossível de desdizer depois.
Explicar a biópsia ambulatorial antes de fazê-la
“"Vou colher um pedacinho do tecido de dentro do útero. É um exame de consultório, não é cirurgia, não precisa de anestesia e não precisa de internação. Passa um tubinho fino pelo colo do útero e aspira. Dói como uma cólica forte, dura poucos segundos, e algumas mulheres ficam com cólica leve e um pouco de sangramento por um ou dois dias. Se a senhora quiser, tome um analgésico uma hora antes. E se em algum momento ficar insuportável, a gente para — existe outro jeito de fazer."”
Não diga: Não minimize a dor dizendo que é rapidinho e não dói nada: quem sente dor depois de ouvir isso perde a confiança no resto da conversa. E não deixe de dizer que existe alternativa, porque é a informação que faz a paciente aceitar tentar.
O material veio insuficiente e é preciso repetir por outro método
“"O exame não deu errado e a senhora não fez nada de errado: o material que veio foi pouco para o laboratório conseguir examinar. Isso acontece com frequência nessa fase da vida, porque o tecido lá dentro fica bem fininho. O que eu não posso é tratar isso como se fosse um resultado. A gente continua sem a resposta, e por isso vou pedir o exame que olha por dentro com uma câmera e colhe no lugar certo. Não é recomeçar: é subir um degrau."”
Não diga: Não use as palavras exame inconclusivo sem explicar o que elas significam, porque a paciente entende que deu normal. E não deixe o pedido para o próximo retorno — a repetição de método é o momento em que mais gente sai do fluxo.
Hiperplasia com atipia numa mulher que ainda quer engravidar
“"O resultado mostrou uma alteração que é considerada precursora do câncer: ainda não é câncer, e é justamente por isso que a gente encontrou numa hora boa. O tratamento que resolve de vez é retirar o útero. Como a senhora quer engravidar, existe um caminho diferente, com hormônio dentro do útero ou por comprimido, e ele funciona numa boa parte das mulheres. Mas ele vem com um compromisso: biópsia a cada três meses, sem falhar. E preciso que a senhora saiba desde hoje que, depois da gravidez, a recomendação é retirar o útero."”
Não diga: Não apresente o tratamento que preserva o útero como equivalente ao padrão — ele é a exceção, e apresentá-lo como escolha entre iguais é decidir por ela sem que ela saiba. E não deixe a recomendação de histerectomia futura para depois do parto.
Ela tem prole definida e recusa a cirurgia
“"Eu entendo, e a decisão é sua. Preciso que ela seja tomada sabendo de uma coisa: nessa alteração, quando o útero é retirado e examinado, encontra-se câncer já presente numa parcela que vai de um quarto a quase metade das mulheres. Não é uma previsão sobre a senhora, é o tamanho do risco que a gente está aceitando. Se a senhora não quiser operar agora, existe o tratamento com hormônio, e ele exige biópsias repetidas. O que não existe é a opção de não fazer nada e ficar esperando."”
Não diga: Não use o número para pressionar, e não repita a palavra câncer a cada frase. Diga uma vez, com clareza, e depois volte ao que se pode fazer. Recusa informada é decisão da paciente; recusa por medo não conversado é falha de quem informou.
O laudo confirmou carcinoma e a família pergunta em que estágio está
“"O exame confirmou que é um câncer que começa no revestimento interno do útero. Sobre o estágio, eu preciso ser honesto: ele só é definido depois da cirurgia, quando o material é examinado. Os exames de imagem ajudam a planejar, mas não dão essa resposta. O que eu posso dizer hoje é que a maioria desses tumores é descoberta ainda dentro do útero, e que o que mais pesa a favor é não perder tempo daqui para a frente. O próximo passo é a consulta no serviço de referência, e eu vou anotar a data de hoje no prontuário porque é dela que começa a contar o prazo."”
Não diga: Não antecipe estádio a partir da ressonância, nem para tranquilizar. Não prometa prazo que não depende de você, mas diga o prazo que a lei assegura e o que você vai fazer se ele não for cumprido. E não termine a conversa sem combinar quem liga para quem.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
4 mm — o corte da régua da especialidade
O protocolo brasileiro vigente de hiperplasia endometrial fixa em 4 mm a espessura tolerável na mulher na pós-menopausa com sangramento, e determina que acima disso se investigue com biópsia. É o corte que aparece tanto no corpo do texto quanto nas recomendações finais do documento, e é a régua que a especialidade brasileira publica como sua.
Febrasgo. Hiperplasia endometrial. Femina. 2025;53(6):841-7, Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 31
5 mm — o corte do material que orienta a regulação
O material de apoio à decisão do TelessaúdeRS-UFRGS, na segunda edição de 2024, recomenda biópsia de endométrio em paciente com sangramento pós-menopausa e endométrio igual ou maior que 5 mm, sem uso de terapia hormonal da menopausa. É um documento nacional vigente, escrito para quem decide encaminhamento na atenção primária, e portanto é a régua que muitos serviços efetivamente aplicam.
TelessaúdeRS-UFRGS. TeleCondutas: Sangramento Uterino Anormal. 2. ed. Porto Alegre: UFRGS, 2024
Nenhum dos dois: quem manda é o sintoma que persiste
A mesma fonte de 2024 acrescenta um gatilho que não depende de número: indica biópsia também diante de sintomas persistentes. E a régua brasileira de 2021 registra que, na persistência do sangramento, a investigação deve prosseguir mesmo com ultrassom normal. Nessa leitura, a espessura decide apenas quem biopsia já; quem continua sangrando biopsia de qualquer maneira, com qualquer número no laudo.
TelessaúdeRS-UFRGS, TeleCondutas, 2. ed., 2024; e Febrasgo. Hiperplasia endometrial e câncer do endométrio. São Paulo: Febrasgo, 2021, Protocolo nº 9
Comece pela conta, porque ela mostra de que tamanho é a divergência. A faixa em disputa é estreita: são as pacientes cujo laudo cai entre 4,0 e 4,9 mm. Abaixo de 4 mm as duas réguas concordam em não biopsiar de imediato; a partir de 5 mm as duas concordam em biopsiar. Ou seja, um milímetro separa as duas posições, e ele separa também os erros: adotar 4 mm biopsia mais e erra por excesso de procedimento; adotar 5 mm biopsia menos e erra por diagnóstico adiado. O custo dos dois erros não é simétrico — uma biópsia ambulatorial desnecessária custa uma consulta e alguns segundos de cólica; um carcinoma adiado custa o prognóstico, e a própria régua brasileira registra que esperar mais de seis semanas pelo diagnóstico histológico piora o desfecho. Três coisas decidem na paciente à sua frente. Primeira, o perfil de risco: obesidade, diabetes, hipertensão, nuliparidade, anovulação prolongada e história familiar de síndrome de Lynch elevam a probabilidade pré-teste, e diante de dois ou mais desses fatores o corte mais baixo é o que faz sentido, porque a régua estatística deixa de descrever essa mulher. Segunda, o método disponível: onde existe biópsia ambulatorial no próprio serviço, o corte mais baixo custa quase nada e resolve; onde a única via é curetagem sob anestesia, o mesmo corte significa internação, e aí vale investir na garantia de retorno. Terceira, o que ela já contou: sintoma persistente ou recorrente atropela a discussão inteira, porque as duas réguas mandam prosseguir de qualquer maneira. Deixe escrito no prontuário o corte que você usou e a razão dele: quem atender depois vai ler o número do laudo sem ter acesso ao seu raciocínio.
Biopsiar assim mesmo — 99% não desobriga
A seção de diagnóstico do protocolo brasileiro vigente afirma as duas coisas na mesma frase: que a medida abaixo de 4 mm, nessa paciente, carrega valor preditivo negativo de 99%, e que isso não dispensa a coleta de tecido, apontada ali como padrão-ouro para quem sangrou depois da menopausa. O argumento é que a doença em jogo não admite o resíduo de 1%.
Febrasgo. Hiperplasia endometrial. Femina. 2025;53(6):841-7, Protocolo nº 31 — seção de diagnóstico
Aguardar — biopsiar se o sangramento recorrer
A lista de recomendações que fecha o mesmo documento — repetindo a redação que já vinha da edição de 2021 — orienta o contrário: abaixo do corte de 4 mm, com endométrio regular, a coleta passa a ser necessária apenas se o sangramento voltar. O argumento é que um valor preditivo negativo alto tolera um episódio isolado, desde que a reavaliação esteja garantida.
Febrasgo, Protocolo nº 31, 2025 — recomendações finais; e Febrasgo. Hiperplasia endometrial e câncer do endométrio, 2021, Protocolo nº 9
A peculiaridade desta divergência é que as duas posições estão dentro do mesmo documento vigente, com uma página de intervalo entre elas, sem terem sido reconciliadas — de modo que citar o documento não encerra a discussão: ele sustenta as duas condutas. E não é a única passagem do documento em que isso acontece, o que vale saber antes de tratá-lo como oráculo. O mesmo protocolo publica dois valores para a mesma taxa: a progressão da hiperplasia sem atipia para carcinoma aparece como menor que 1% no destaque de abertura e na tabela de classificação, e como menor que 5% nas recomendações finais. A conta é simples e a diferença é grande: em 1.000 mulheres com hiperplasia sem atipia, um teto de 1% projeta menos de 10 casos, e um teto de 5% projeta menos de 50 — quarenta mulheres de diferença na mesma coorte. Comparar com a edição de 2021 explica o que aconteceu: lá, o número de 5% vinha com a janela de tempo colada nele, risco de progressão em 20 anos, medido em pacientes acompanhadas por 20 anos após tratamento conservador. A edição atual manteve o número e perdeu a janela, e assim dois recortes temporais diferentes viraram duas taxas concorrentes. Há ainda uma terceira inconsistência no mesmo documento, e ela é aritmética: o corpo do texto afirma que a hiperplasia sem atipia aumenta em até quatro vezes o risco de câncer do endométrio, enquanto a tabela de classificação atribui a essa mesma categoria uma razão de risco de 1,01 a 1,03. Um excesso de risco de 300% contra um excesso de 3%: a afirmação do texto é cem vezes maior que o teto da própria tabela. Nada disso invalida o protocolo, que continua sendo a melhor régua brasileira do tema; significa apenas que, nestes pontos, quem atende decide. Duas perguntas resolvem quase tudo. A primeira: o retorno está garantido, de modo que o valor preditivo negativo alto tenha uma segunda chance de ser conferido? Esperar pela recorrência pressupõe que alguém vá enxergá-la, com data marcada e telefone que funcione; onde não se agenda seguimento, esperar significa mandar a paciente embora sem rede, e a coleta feita no próprio episódio é a conduta que não depende de ela reaparecer. A segunda: qual é o perfil dela? Aquele 99% saiu de população geral e descreve mal a mulher que soma obesidade, diabetes, hipertensão e nuliparidade — nela, a probabilidade pré-teste é outra. Qualquer que seja a escolha, deixe escrito o critério usado e a data da reavaliação: o que causa dano não é optar pela conduta menos invasiva, é optar por ela sem marcar o retorno.
A versão de 2023, com critério molecular
Em 2023 a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia atualizou o estadiamento do câncer de endométrio, passando a usar também critérios moleculares para definir o estádio, além de subdividir os estádios iniciais por tipo histológico agressivo ou não agressivo e por extensão da invasão linfovascular. A sociedade brasileira de oncologia clínica publica essa versão como o estadiamento atual.
SBOC. Diretrizes de tratamentos oncológicos: Endométrio, 2025, seção de estadiamento
A versão anterior, anatômica, para indicar tratamento
A mesma sociedade brasileira, no mesmo documento, registra que, para fins de indicação terapêutica, optou por manter as indicações baseadas no estadiamento anterior e nas classificações de risco dos consensos europeus — e observa que o comitê norte-americano de estadiamento ainda não modificou seus parâmetros. Na prática, o documento imprime as duas versões lado a lado.
SBOC. Diretrizes de tratamentos oncológicos: Endométrio, 2025, mesma seção
A versão que o protocolo da especialidade ainda imprime
A régua brasileira de ginecologia que trata do câncer do endométrio publica o estadiamento em sua versão puramente anatômica, com quatro estádios definidos por invasão do miométrio, do estroma cervical, da serosa, dos anexos, da vagina, dos paramétrios e dos linfonodos. É a versão que o ginecologista geral tem em mãos, e é a que muitos laudos e encaminhamentos ainda usam.
Febrasgo. Hiperplasia endometrial e câncer do endométrio. São Paulo: Febrasgo, 2021, Protocolo nº 9, quadro de estadiamento
O interno não estadia ninguém, e por isso a pergunta que importa aqui não é qual versão é a melhor: é como não produzir confusão num prontuário que várias pessoas vão ler. A divergência tem uma consequência concreta e contraintuitiva — a mesma paciente, com a mesma peça cirúrgica, pode receber rótulos de estádio diferentes conforme a versão usada, sem que nada tenha mudado nela. Na versão de 2023, um carcinoma endometrioide de baixo grau que envolve endométrio e ovário, cumpridos critérios estritos, é estádio inicial e de bom prognóstico; nas versões anteriores, envolvimento anexial era estádio III. Alguém que compare os dois relatórios sem saber disso vai concluir que a doença regrediu ou progrediu. Três regras práticas resolvem. Primeira: sempre escreva qual versão está sendo citada, ao lado do estádio, em qualquer anotação — estádio sem versão é dado ambíguo. Segunda: não converta estádio de uma versão para outra de cabeça, nem para explicar à família; peça o laudo original ao serviço que estadiou. Terceira: lembre que a decisão terapêutica hoje, na régua brasileira, não sai do estádio isolado, e sim do conjunto que inclui tipo histológico, grau, invasão do miométrio, invasão linfovascular e perfil molecular — e é por isso que a mesma sociedade que adota a versão nova para nomear mantém a anterior para indicar. Para a conversa com a paciente, a tradução honesta é a da tabela de estádios deste capítulo: até onde o tumor chegou, e o que isso muda no que se vai fazer. Nome de versão não pertence a essa conversa.
O raciocínio, em voz alta
Eunice Tavares tem 66 anos, é aposentada, hipertensa, nulípara, com índice de massa corporal de 29. Menstruou pela última vez aos 50 anos e nunca usou terapia hormonal. Vem ao ambulatório da unidade porque manchou a roupa íntima duas vezes em três semanas — pouco, sem dor, sem corrimento. Está corada, sinais vitais normais, e chegou sozinha, de ônibus.
O que penso antes de perguntar qualquer coisa
Dezesseis anos sem menstruar e dois episódios de sangramento genital em três semanas. Isso, sozinho, já preenche a definição e já carrega a conduta. A idade e a nuliparidade somam risco; o índice de massa corporal na faixa de sobrepeso multiplica em 2,3 vezes o risco de hiperplasia. Nada disso faz diagnóstico. Faz com que a investigação do endométrio seja o assunto principal desta consulta, e não uma hipótese a considerar se as outras falharem.
As duas condições que confirmo antes de qualquer exame
Doze meses ou mais desde a última menstruação: sim, dezesseis anos. Ausência de terapia hormonal: nunca usou. Revejo a receita à procura de tamoxifeno, porque ele mudaria o fluxo inteiro: não usa, nunca tratou câncer de mama. As duas condições confirmadas, a régua que se aplica é a da mulher que sangra sem hormônio.
O exame que faço na mesma consulta
Especular: mucosa vaginal atrófica, colo epitelizado, sem lesão vegetante nem ulcerada, sem pólipo exteriorizado, sem sangramento no momento. Toque bimanual: útero pequeno, móvel, indolor, anexos livres. O achado de atrofia é importante e é traiçoeiro — ele oferece uma explicação plausível para o sangue e não exclui nada do que está acima dele. Registro no prontuário que o colo foi visto e estava íntegro.
O que peço, e o que escrevo junto com o pedido
Ultrassonografia transvaginal com medida do eco endometrial, com a informação clínica escrita na requisição: mulher na pós-menopausa, sangramento genital em dois episódios, sem terapia hormonal. Escrevo também que a principal hipótese diagnóstica é de neoplasia maligna, com a fundamentação — é essa redação que faz correr o prazo dos exames de elucidação. E emito o encaminhamento para serviço que faça histeroscopia na mesma consulta, em paralelo, sem esperar o laudo. As duas coisas não competem.
A resposta chega e não resolve
Em onze dias: útero reduzido de volume, sem miomas, com endométrio homogêneo de 9 mm, interface regular e nenhum líquido em cavidade. Nove milímetros em mulher que sangrou depois da menopausa está acima de qualquer um dos cortes brasileiros em disputa. Não há discussão a fazer aqui: a biópsia está indicada. Repare no que o laudo não me deu — ele não diz se esses 9 mm são pólipo, hiperplasia ou carcinoma, porque isso é diferença de arquitetura e ele mede milímetros.
Por que colho hoje em vez de esperar a histeroscopia
A vaga de histeroscopia do serviço de referência está saindo em quatro meses. A régua brasileira diz que o padrão-ouro é uma biópsia feita em tempo adequado, por qualquer método, e que passar de seis semanas entre o começo do sintoma e o laudo do patologista cobra preço no prognóstico. Ela sangrou pela primeira vez há três semanas. Faço a coleta ambulatorial com cânula de Pipelle nesta consulta e mantenho a vaga da histeroscopia — porque, se a coleta não resolver, ela vai precisar.
O laudo volta e é aqui que o caso quase se perde
Duas semanas depois: material escasso, insuficiente para análise conclusiva. É o desfecho mais comum da coleta ambulatorial nessa faixa etária, porque o endométrio atrófico oferece pouco tecido. E é a frase que costuma ser lida como resultado negativo. Não é resultado: é a pergunta continuando sem resposta, numa mulher cujo ultrassom mostrava 9 mm. Se eu arquivar esse laudo, o caso sai do sistema com aparência de investigado.
O que faço com um laudo que não é laudo
Não repito a mesma coleta com o mesmo instrumento. Escalono o método: aciono a vaga de histeroscopia que já estava marcada e peço antecipação por escrito, anexando o laudo do ultrassom com 9 mm e o laudo de material insuficiente. No encaminhamento escrevo, com todas as letras, que a amostra foi insuficiente e que a investigação não está concluída — sem essa frase, o serviço de destino lê insuficiente como negativo, exatamente como eu quase li.
A histeroscopia muda o que eu penso
Em cinco semanas: cavidade com área de espessamento focal na parede posterior, com superfície irregular, sem lesão vegetante. Biópsia dirigida colhida da área. O achado focal explica por que a coleta às cegas não pegou material representativo — ela aspirou de onde não havia doença. É a diferença que a visão direta faz, e é a razão de a histeroscopia existir mesmo com a coleta ambulatorial disponível.
O laudo final e a palavra que muda o encaminhamento
Hiperplasia endometrial atípica, ou neoplasia intraepitelial endometrial. Não é câncer — e não é achado benigno. É lesão precursora, e a coexistência com carcinoma já presente na peça de histerectomia é alta: o protocolo brasileiro publica valores de 25% a 33%, cerca de 40%, até 43% e até 46% em passagens diferentes. Todos dizem a mesma coisa clínica, e é ela que precisa estar no papel: entre uma em cada quatro e quase uma em cada duas dessas mulheres já tem carcinoma.
O que faço agora, e o que escrevo
Eunice tem 66 anos e prole definida. O tratamento padrão é a histerectomia extrafascial com salpingo-ooforectomia bilateral, preferencialmente por cirurgia minimamente invasiva, e a discussão de linfonodo sentinela concomitante é do serviço que vai operar. Meu papel é escrever o encaminhamento de modo que ele funcione: a palavra atipia, a data do laudo, o resultado do ultrassom, o histórico de amostra insuficiente e a segunda coleta, as comorbidades e um telefone conferido. Sem a palavra atipia, esse papel entra na fila do ambulatório geral.
Como vou saber se funcionou
Marco retorno em 30 dias, e o que eu vou conferir nesse retorno não é sintoma: é percurso. A consulta no serviço de referência foi marcada? Tem data? Se não tiver, aciono a regulação por escrito anexando o laudo. Anoto no prontuário a data em que a atipia foi diagnosticada, porque é dela que se conta o tempo daqui para a frente. E deixo escrito o que fica pendente depois da cirurgia, que quase sempre é esquecido: peso, glicemia e pressão continuam sendo os fatores que produziram esse endométrio.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do percurso de Eunice: o sangramento cessa enquanto ela aguarda a consulta de referência pelo achado de atipia. Manter a prioridade e conferir o agendamento. O desaparecimento do sintoma não desfaz a alteração histológica.
Variação do caso — quando mudar o plano
Em uma variante com primeira ultrassonografia mostrando endométrio fino, novo episódio de sangramento muda o plano: reexaminar e indicar investigação adicional conforme o contexto. Não repetir indefinidamente a mesma tranquilização com base no primeiro resultado.
Faça você
Marielza Pontes tem 37 anos, é auxiliar de cozinha, tem síndrome dos ovários policísticos diagnosticada aos 22 anos e índice de massa corporal de 38. Menstrua de forma imprevisível desde a adolescência, com intervalos que ela descreve como de dois a cinco meses, e há um ano vem sangrando também fora da menstruação. Nunca engravidou, tentou por seis anos e parou de tentar; hoje está num relacionamento novo e diz, sem que ninguém pergunte, que ainda quer ter um filho. Veio encaminhada da unidade básica com um ultrassom transvaginal na mão.
Passo 1 — o que penso antes de olhar o exame
Quinze anos de anovulação crônica, obesidade e nuliparidade. Isso é a definição de estrogênio sem oposição por tempo prolongado, e reúne três dos fatores de risco de maior peso. O sangramento intermenstrual associado a menstruação prolongada, em quem tem antecedente de ciclos irregulares sugestivos de anovulação, é exatamente a apresentação que a régua brasileira descreve para hiperplasia antes da menopausa.
Passo 2 — o que o exame diz
Ultrassonografia transvaginal feita na primeira fase do ciclo: útero de volume normal, sem miomas, ovários com múltiplos folículos periféricos, endométrio homogêneo medindo 14 mm. Espessamento endometrial associado a fator de risco, numa mulher com sangramento anormal, é indicação de avaliação histológica — e ela reúne três fatores de risco, não um.
Passo 3 — o tecido
Biópsia endometrial ambulatorial, colhida na própria consulta. O laudo volta em dezoito dias: hiperplasia endometrial atípica, ou neoplasia intraepitelial endometrial. Sem menção a carcinoma, sem menção a material escasso, e sem a expressão pelo menos hiperplasia atípica, que indicaria fragmento pequeno demais para precisar.
Passo 4 — a decisão é sua
Marielza tem 37 anos, uma lesão precursora com alta coexistência com carcinoma, e um desejo reprodutivo declarado. Qual é a sua conduta, e o que exatamente você combina com ela antes de escolher esse caminho? Escreva o tratamento com nome, dose e via, o calendário de vigilância, o que acontece se não houver resposta, e o que você diz sobre o depois da gravidez. Depois compare com a resposta.
Ver como fecharíamos
O tratamento padrão para hiperplasia atípica é a histerectomia, e a primeira frase honesta desta conversa é essa: preservar o útero é a exceção, não a alternativa equivalente. A régua brasileira admite a exceção em três situações — desejo de gravidez, ausência de condições cirúrgicas e recusa da cirurgia —, e Marielza está na primeira. A conduta que este capítulo sustenta é oferecer o tratamento conservador com o compromisso explícito de vigilância, e o compromisso é parte do tratamento, não um adendo. Encaminhamento para centro especializado, porque a régua oncológica brasileira é clara em que essas pacientes vão para lá, e porque o diagnóstico precisa ser confirmado por patologista experiente em patologia ginecológica. A primeira linha é o sistema intrauterino liberador de levonorgestrel, por ter a maior taxa de regressão com menos efeitos colaterais; a ressecção histeroscópica antes da terapia com progestagênio pode ser recomendada. A segunda melhor alternativa é o progestagênio oral, e aqui a aritmética brasileira precisa ser feita em voz alta: a dose descrita para essa finalidade é de acetato de medroxiprogesterona 400 a 600 mg por via oral ao dia, ou acetato de megestrol 160 a 320 mg por via oral ao dia. A lista nacional de medicamentos essenciais não tem megestrol, e a apresentação de medroxiprogesterona que ela tem, no Componente Básico, é o comprimido de 10 mg — o que significaria de 40 a 60 comprimidos por dia para alcançar a faixa recomendada. A conclusão prática não é que o tratamento não existe: é que ele não é uma receita de unidade básica, depende de apresentação e de dispositivo que a rede não distribui pelo componente básico, e a viabilidade precisa ser resolvida pelo centro especializado antes de ser prometida à paciente. O calendário de vigilância também se combina antes, e não depois: biópsia endometrial a cada três meses, preferencialmente guiada por histeroscopia, com ressonância ou ultrassom especializado para reavaliar extensão. Ausência de resposta completa em seis meses, sem critérios de progressão, permite estender por mais seis meses; ausência de resposta em doze meses indica o tratamento cirúrgico padrão; progressão em qualquer biópsia interrompe a tentativa. Duas biópsias com resposta completa, em intervalo de três meses, liberam a tentativa de gestação. E a frase que precisa ser dita hoje, e não depois do parto: a histerectomia é recomendada depois da gravidez, pela alta taxa de recorrência, com a preservação dos ovários a discutir conforme a idade e o risco genético. Falta a metade que não é hormonal e que costuma sair da consulta sem ser mencionada. A retirada da fonte de estrogênio faz parte do tratamento: correção da disfunção ovulatória, redução de peso — que a régua brasileira registra como parte do plano de cuidados, inclusive com a discussão de cirurgia bariátrica quando indicada — e o tratamento da síndrome dos ovários policísticos, cuja régua é do capítulo próprio desta apostila. Sem isso, mesmo a resposta completa devolve Marielza ao mesmo endométrio exposto que produziu a lesão. Por fim, o que se escreve no prontuário hoje: o desejo reprodutivo declarado, a proposta de tratamento conservador com o motivo, a data prevista da primeira biópsia de controle, e a frase de que a paciente foi informada de que este não é o tratamento padrão e de que a histerectomia é recomendada depois da gestação.
A palavra atipia muda a categoria do diagnóstico: trata-se de lesão precursora do carcinoma endometrioide, com coexistência alta de carcinoma já presente na peça — o mesmo protocolo brasileiro publica valores entre um quarto e quase metade dos casos em passagens diferentes, e todos apontam para a mesma conduta. Em mulher com prole definida e sem contraindicação cirúrgica, o tratamento padrão é a retirada do útero com os anexos, preferencialmente por cirurgia minimamente invasiva; a pesquisa de linfonodo sentinela concomitante, embora não consensual, é considerada razoável nas de maior risco de carcinoma associado. O tratamento com progestagênio oral e o dispositivo liberador de levonorgestrel são a conduta da hiperplasia sem atipia, e nesta paciente só entrariam como exceção — desejo de gestar, ausência de condições cirúrgicas ou recusa da cirurgia —, sempre com vigilância rigorosa e biópsias repetidas. A ablação destrói o endométrio e, com ele, a possibilidade de amostrar o tecido que precisa continuar sendo vigiado.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Escreva de memória, sem consultar: (1) as duas condições que definem sangramento pós-menopausa e as duas perguntas que as confirmam; (2) os cinco cortes de espessura da tabela 1, dizendo a que situação cada um pertence, e a única situação em que não existe corte; (3) as três formas de obter tecido, o que cada uma decide, e a frase que diz qual é o padrão-ouro; (4) o que significa material insuficiente e o que significa pelo menos hiperplasia atípica — e por que uma delas parece boa notícia e não é; (5) a diferença de tratamento entre hiperplasia com e sem atipia para quem tem prole definida, com nome, dose e via do progestagênio oral; (6) os dois prazos legais e o prazo clínico de seis semanas, dizendo de que data cada um começa a contar. Confira depois pelas tabelas do capítulo, nunca antes. Feche com uma medida do serviço em que você está: puxe cinco laudos de biópsia endometrial emitidos nos últimos meses e conte em quantos existe registro de que alguém abriu o resultado e falou com a paciente. Aplicação comentada: Sangramento reaparece após exame inicialmente tranquilizador. Não repita apenas a tranquilização: reavalie e considere investigação adicional.
Em 30 dias
Volte ao caso de Eunice e troque um dado por vez, dizendo em voz alta o que muda na conduta: se o endométrio tivesse 3 mm em vez de 9 mm; se ela estivesse em terapia hormonal, com e sem sangramento programado; se ela usasse tamoxifeno por câncer de mama tratado há quatro anos; se o laudo do ultrassom dissesse endométrio não caracterizado; se a biópsia insuficiente tivesse voltado numa mulher que já não sangrava mais; se o laudo final tivesse vindo hiperplasia sem atipia. Depois faça o mesmo com Marielza, mudando um dado: se ela tivesse 52 anos e prole definida; se a biópsia tivesse vindo carcinoma endometrioide grau 1; se ela recusasse tanto a cirurgia quanto o seguimento. Feche com uma tarefa de voz: grave no celular, em até quarenta segundos, o que você diria à mulher de 63 anos que abre este capítulo — a que viu sangue uma vez, guardou seis meses e chama aquilo de nada. Ouça a gravação. Se você precisou de mais de duas frases para chegar ao pedido de exame, o texto ainda está longo demais para uma beira de leito.
Agora atenda
Agora atenda a mulher que sangrou depois da menopausa. O caso é o da porta discreta: pouco sangue, sem dor, mulher que se desculpa por estar ocupando a consulta e que vai minimizar antes de você terminar a primeira frase. Seu trabalho segue a ordem deste capítulo — confirmar as duas condições da definição, revisar a receita à procura de tamoxifeno, olhar o colo antes de pedir imagem, e depois transformar a suspeita em papel: hipótese escrita com fundamentação, ultrassonografia transvaginal com informação clínica, e encaminhamento emitido na mesma consulta, em paralelo. Controle o sintoma sem hormônio e prescreva por extenso, com dose, via, frequência e duração. Três armadilhas esperam por você: aceitar endométrio fino como alta sem combinar retorno; tratar amostra insuficiente como resultado negativo; e deixar a palavra atipia fora do encaminhamento.
