Ginecologia e Obstetrícia › Ginecologia
Não é quanto, é desde quando
Hiperandrogenismo e hirsutismo: investigação
A queixa de pelo antes do diagnóstico: o que se olha, o que se dosa, em que dia do ciclo, e a minoria que não é ovário policístico
Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia; Sociedade Brasileira de Dermatologia. Hirsutismo: diagnóstico. Projeto Diretrizes (Associação Médica Brasileira e Conselho Federal de Medicina). Elaboração final: 23 de junho de 2006. Participante: Poli Mara Spritzer. Reproduzida na seção Diretrizes em foco, Rev Assoc Med Bras. 2010;56(1):1-9
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Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hiperplasia Adrenal Congênita. Portaria SAS/MS nº 16, de 15 de janeiro de 2010
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Spritzer PM. Diagnóstico etiológico do hirsutismo e implicações para o tratamento. Rev Bras Ginecol Obstet. 2009;31(1):41-7
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Marcondes JAM, Barcellos CRG, Rocha MP. Dificuldades e armadilhas no diagnóstico da síndrome dos ovários policísticos. Arq Bras Endocrinol Metab. 2011;55(1):6-15
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Acetato de ciproterona 50 mg comprimido — bula profissional de medicamento genérico. Bula atualizada conforme Bula Padrão aprovada pela Anvisa em 26 de maio de 2021
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Mulher de 36 anos, sem comorbidades, comparece à unidade básica para buscar resultado de exame de rotina e, no meio da consulta, relata que passou a raspar o queixo dia sim, dia não. Perguntada, informa que isso começou há cinco meses e que antes disso não tinha pelo nesses lugares. Menstruou pela última vez há quatro meses, depois de uma vida de ciclos regulares. A filha reclama que a voz dela mudou. Ao exame, escore de Ferriman-Gallwey 14, com pelo terminal em queixo, mandíbula, tórax e linha média do abdome. Na mesma manhã foi atendida outra mulher, de 23 anos, com pelo fino e claro abundante em braços e pernas desde a infância, ciclos regulares e escore 1. Qual conduta se aplica à paciente de 36 anos?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, começo da manhã, numa unidade básica de bairro com duas linhas de ônibus e nenhuma farmácia aberta antes das nove. A agenda tem dezesseis nomes. A quarta é Lucinda Trajano, 23 anos, auxiliar de cozinha numa creche municipal, e ela entra com o queixo abaixado de um jeito que você só entende depois.
A queixa que ela traz cabe em quatro palavras: eu tenho pelo demais. Você pergunta onde, e ela levanta o rosto pela primeira vez — braços, pernas, um pouco no buço. Desde sempre. A mãe é assim, as duas irmãs são assim, a avó era assim. Ela faz cera nas pernas a cada três semanas desde os catorze anos e usa creme descolorante no buço. Nunca tirou pelo do queixo, do pescoço, do meio do peito nem da barriga, porque nunca teve pelo nesses lugares. Menstrua todo mês, entre 28 e 30 dias, desde os doze. Nunca usou pílula. Índice de massa corporal 22.
Você examina as nove áreas que o escore de hirsutismo usa, com ela avisada do que está fazendo. Buço com pelo fino e claro. Queixo, pescoço, tórax entre as mamas, dorso, abdome superior, linha média do abdome: nada. Braços e coxas com pelo abundante, fino e claro — e essas duas áreas nem entram no escore, justamente porque pelo ali é comum em mulher sem excesso androgênico nenhum. Escore 1.
Lucinda não tem hirsutismo. Tem pelo — muito pelo, do tipo que não responde a antiandrogênio nenhum, distribuído do jeito que a família dela distribui. O nome disso é hipertricose, e dizer isso a ela em voz alta é, provavelmente, a coisa mais útil que vai acontecer nesta consulta. O que não significa dizer que não é nada: ela chegou com o queixo abaixado, e o que a trouxe até aqui não foi a quantidade de fio, foi o que a quantidade de fio faz com ela.
A décima primeira ficha da manhã é de Ednalva Bulcão, 36 anos, agente de portaria de um condomínio. Vem por outra coisa — quer o resultado de um exame de sangue que a enfermeira pediu. No meio da conversa, procurando o papel na bolsa, ela comenta que precisa passar lâmina no queixo dia sim, dia não, e que isso começou no ano passado. Você pergunta quando exatamente. Ela pensa e responde com precisão de quem tem motivo para lembrar: cinco meses. Antes disso, nada.
Você olha de novo. Pelo grosso e escuro no queixo e na mandíbula mesmo raspado hoje, na linha média do abdome, no tórax entre as mamas. Escore por volta de 14. E mais: ela menstruou pela última vez há quatro meses, depois de uma vida inteira de ciclos regulares, e a voz — que você tinha registrado como voz grave e nada mais — é uma voz que a filha reclama que mudou.
Ednalva tem menos pelo do que Lucinda. Muito menos, em quantidade absoluta de fio no corpo. E é Ednalva que sai daqui com um encaminhamento escrito e uma hipótese que ninguém quer ter razão em levantar. Foi assim que este capítulo aprendeu a pergunta que organiza tudo o que vem depois: não é quanto, é desde quando.
Guarde as duas, porque elas voltam. E guarde a assimetria entre elas, que é a razão de este capítulo existir separado do capítulo da síndrome dos ovários policísticos. Aquele capítulo trata da doença que a maioria tem — e a maioria tem mesmo. Este trata da consulta que acontece antes de qualquer diagnóstico existir: a mulher que chega pelo pelo, e a rotina que separa a queixa estética do sinal de doença, e depois separa a doença comum das quatro que são raras e não podem passar.
Quem adoece disso
Comece pela proporção, porque ela dita a postura. Entre as mulheres que consultam por hirsutismo, a síndrome dos ovários policísticos é diagnosticada em cerca de 80% dos casos, segundo a régua da federação de ginecologia. Metade das pacientes com hirsutismo leve a moderado tem hirsutismo idiopático — hirsutismo isolado, ciclos regulares e ovulatórios, androgênios normais. Nas outras, e na maioria das que têm hirsutismo mais intenso, há aumento de androgênio circulante. Tudo somado: a esmagadora maioria de quem senta na sua frente por causa de pelo tem uma das duas coisas mais comuns, e nenhuma delas mata.
Agora as raras, que é o que a investigação existe para achar. A hiperplasia adrenal congênita de forma não clássica, por deficiência da 21-hidroxilase, é a causa adrenal mais frequente e responde por 2% a 10% das mulheres que consultam por hirsutismo — no sul do Brasil, a frequência observada foi de 7,4%. Os tumores produtores de androgênio são raros: cerca de 0,2% entre mulheres com hiperandrogenemia, uma em quinhentas, e mais da metade deles são malignos. A conta que sai daí é a que calibra a consulta: a hiperplasia adrenal tardia é aproximadamente 37 vezes mais comum que o tumor, e as duas juntas ainda são minoria — mas uma delas tem tratamento simples e implicação para os filhos, e a outra mata se o pelo for tratado com pílula por dois anos.
Falta o número que quase nunca aparece em protocolo e é o que traz a paciente. Acne isolada persistente, como único sinal androgênico, corresponde a síndrome dos ovários policísticos em 20% a 40% dos casos; alopecia isolada, em apenas 10%. Ou seja: os dois sinais que mais angustiam e mais motivam consulta são os que menos apontam para a doença — e é por isso que este capítulo insiste que a queixa da mulher decide o tratamento, e o sinal decide o diagnóstico. São duas decisões, e confundi-las produz os dois erros opostos: tratar quem não tem doença e não tratar quem tem sofrimento.
Por que acontece o que acontece
Todo pelo do corpo é uma de duas coisas. O pelo velus é fino, curto e não pigmentado — é o que cobre quase toda a superfície de qualquer pessoa e é o que ninguém nota. O pelo terminal é mais grosso, mais longo e pigmentado, e pela definição que a régua da federação de ginecologia usa tem mais de 0,5 cm de comprimento. Alguns pelos terminais não dependem de hormônio sexual nenhum: cílios e sobrancelhas são terminais desde a infância. Outros dependem, e é sobre esses que o capítulo inteiro se apoia.
O que o androgênio faz é converter velus em terminal nas regiões que respondem a hormônio sexual — buço, queixo, tórax, linha média do abdome, dorso. Ele aumenta o tamanho do folículo, o diâmetro da fibra e a proporção de tempo que o folículo passa na fase de crescimento. Há uma região que faz o contrário, e essa exceção explica uma coisa que parece contradição: no couro cabeludo, o mesmo androgênio produz involução do folículo. É por isso que a mesma mulher pode ganhar pelo no rosto e perder cabelo na cabeça pelo mesmo motivo.
A conversão não depende só de quanto androgênio circula. Depende também de quanto androgênio ativo o próprio folículo consegue fabricar. Dentro da unidade pilossebácea, a enzima 5-alfa-redutase converte testosterona em di-hidrotestosterona, que é mais potente; a quantidade de receptores androgênicos no folículo decide o resto. Duas mulheres com a mesma testosterona no sangue podem ter escores de hirsutismo completamente diferentes, e é essa dissociação — e não uma falha do exame — que explica por que a gravidade clínica nem sempre acompanha o laboratório.
Essa dissociação tem um nome clínico e é metade deste capítulo. O hirsutismo idiopático é exatamente o caso em que a sensibilidade cutânea está aumentada com androgênios circulantes normais: hirsutismo isolado, ciclos regulares e ovulatórios, fertilidade preservada, exames normais se forem pedidos. Não é diagnóstico de exclusão preguiçoso — é uma entidade com mecanismo próprio, e existe um detalhe que fecha o círculo: concentrações elevadas de androgênio circulante aumentam a atividade da 5-alfa-redutase, de modo que quem tem hiperandrogenemia acumula os dois mecanismos, e quem não tem pode ter só o segundo.
Some o terceiro andar, que é o transporte. A globulina carreadora de esteroides sexuais mantém a testosterona presa e inativa na circulação; o que chega ao folículo é a fração livre. Tudo o que derruba essa proteína — excesso de gordura corporal, hiperinsulinemia, o próprio hiperandrogenismo — aumenta a fração livre sem mudar necessariamente a testosterona total. É a razão de a testosterona total dentro da faixa não afastar hiperandrogenismo, e é a razão pela qual perder peso melhora o pelo por uma via que não passa pelo ovário.

Guarde a consequência de tempo, porque é dela que sai a maior parte das promessas erradas. Todo tratamento sistêmico age reduzindo a fase de crescimento do folículo, o que significa que cada fio precisa entrar nessa fase para que o efeito apareça nele. O fio que já se transformou não desconverte com medicamento nenhum: o que o remédio faz é impedir que os próximos façam a conversão. Daí a régua nacional situar a melhora depois de pelo menos 6 a 12 meses de tratamento, e daí a régua da federação proibir julgar antes de 6 meses. Quem promete resultado em oito semanas está prometendo contra o ciclo do pelo.
Falta explicar por que a velocidade importa mais que a quantidade, que é a frase da abertura. Um mecanismo lento — sensibilidade cutânea aumentada, ou excesso moderado e crônico de androgênio ovariano — produz um escore que sobe ao longo de anos, começando na puberdade, quando o eixo desperta. Um mecanismo novo, capaz de instalar hirsutismo em meses numa mulher que nunca teve nada, precisa de um aumento grande e recente de androgênio; e a lista de coisas capazes de fazer isso é curta: tumor produtor de androgênio, e androgênio administrado de fora. Virilização — clitoromegalia, aumento de massa muscular, engrossamento da voz, calvície de padrão masculino — é o sinal de que a concentração passou muito acima do que o ovário policístico produz. Não é um grau a mais de hirsutismo; é outra categoria de problema.
Como se apresenta de verdade
Hirsutismo deve ser avaliado pelo padrão, velocidade de instalação e impacto para a mulher. Você deve distinguir quadro estável de virilização ou progressão rápida, selecionando exames por suspeita. Intensidade dos pelos não é um medidor isolado de androgênios nem do sofrimento da paciente.
Percurso clínico: Valorizar velocidade e virilização
Caracterize distribuição dos pelos, início, evolução, medicamentos e outros sinais androgênicos. Evolução lenta difere de início rápido com virilização e muda urgência. Interprete hormônios com método e contexto e discuta tratamento segundo incômodo, expectativas e segurança reprodutiva.
Hirsutismo ou hipertricose: a bifurcação que muda a rota inteira
A primeira decisão da consulta não é sobre gravidade, é sobre categoria — e errar aqui não produz um erro de grau, produz um tratamento inteiro que não tem como funcionar. Hirsutismo é presença de pelo terminal na mulher em áreas anatômicas de distribuição masculina: acima do lábio superior, no mento, em torno dos mamilos, no tórax e ao longo da linha média do abdome inferior. É pelo grosso, longo e pigmentado, em lugar onde a mulher em geral não tem pelo assim.
Hipertricose é outra coisa: crescimento uniforme de pelo em todo o corpo, sem padrão androgênico. A régua brasileira dedicada ao tema descreve-a como aumento difuso de pelo de textura fina distribuído por toda a superfície, e é explícita quanto ao mecanismo — não é causada por aumento na produção de androgênio. Pode ser congênita, familiar ou adquirida, e as causas adquiridas formam uma lista que vale saber porque uma delas está na receita da própria paciente: medicamentos, doenças metabólicas como o hipotireoidismo e as porfirias, e doenças nutricionais como anorexia, desnutrição e síndromes de má absorção.
A consequência prática é dura e precisa ser dita à paciente: hipertricose não responde a antiandrogênio. Receitar combinado e antiandrogênio a quem tem os membros fartos de pelo desde criança é comprometê-la a doze meses de medicamento com risco real, controle laboratorial e nenhuma chance de resultado — e, no fim desses doze meses, à conclusão de que o caso dela é grave, quando o problema foi a classificação da primeira consulta.
A pergunta que resolve a bifurcação em trinta segundos não é sobre quantidade. É sobre lugar: você tem pelo grosso e escuro no queixo, no pescoço, entre os seios, nas costas ou no meio da barriga? Se a resposta for não, e o pelo estiver em braços, pernas, antebraços e um pouco no buço, com textura fina, a rota é a da hipertricose, e o que se investiga é a lista de causas dela, começando pela receita e pela tireoide. Se a resposta for sim, a rota é a do hiperandrogenismo, e o resto deste capítulo se aplica.
Existe um caso híbrido que engana e merece nome: a mulher com hipertricose familiar que também desenvolveu hirsutismo. Ela tem pelo abundante em toda parte desde a infância e, além disso, começou a ter pelo terminal no queixo aos vinte e cinco anos. O pelo de sempre não é o dado; o que apareceu depois é. Examinar só as nove áreas do escore, e não o corpo inteiro, é o que impede que a abundância de fundo esconda o sinal.
Como se mede, e por que a medida serve mais para acompanhar do que para diagnosticar
O instrumento existe e tem história. Ferriman e Gallwey avaliaram, em 1961, a presença e a quantidade de pelo numa escala de 0 a 4 em onze áreas do corpo. Observaram que, em mulheres jovens, quantidade significativa de pelo aparecia em braços e pernas, enquanto nas demais áreas era quase nula — e propuseram, a partir dessa observação, um escore construído sobre nove das onze áreas, retirando justamente braço e perna. É essa versão de nove áreas, a escala de Ferriman-Gallwey modificada, que se usa hoje: buço, mento, tórax, dorso superior, dorso inferior, abdome superior, abdome inferior, braço e coxa — com a advertência de que as duas últimas, na formulação de nove áreas que circula nos protocolos brasileiros, ocupam o lugar das áreas descartadas na proposta original, e é por isso que vale conferir qual figura o seu serviço usa antes de comparar escores.
Cada área recebe de 0 a 4 e a soma vai de 0 a 36. O que a soma não faz é decidir sozinha, e há uma razão medida para isso. A variabilidade do escore quando o mesmo paciente é avaliado pelo mesmo observador é menor que 3 pontos; quando o avaliam observadores diferentes, ela chega a 50%, dependendo da área. Refaça a conta numa paciente real: um escore de 12 medido por outra pessoa pode significar qualquer coisa entre 6 e 18 — uma faixa que atravessa todos os cortes em circulação no Brasil. O escore, portanto, é um instrumento de seguimento com o mesmo examinador, e um instrumento fraco para comparar duas pacientes de dois serviços.
O corte é a parte mais divergente deste capítulo, e a divergência tem endereço próprio adiante. Adiante-se aqui só o desenho: a régua brasileira dedicada ao hirsutismo usa 8; a régua da federação de ginecologia usa 6 na maioria das etnias e 4 nas asiáticas orientais; e as duas réguas do Ministério da Saúde que tratam do assunto não trazem escore nenhum — conferido com busca normalizada no texto integral das duas.
A ressalva étnica não é firula, e é o ponto em que os documentos mais se afastam do consultório brasileiro. O número 8 nasceu como percentil 95 daquela casuística de 1961, e a prevalência de hirsutismo é significativamente menor entre mulheres asiáticas; um estudo em mulheres americanas propôs corte de 3 e mostrou que a proporção de mulheres com escore igual ou maior que 3 que se queixavam de excesso de pelo era igual à das mulheres com escores mais altos. Um documento que fixa um número único, sem dizer para qual população, está fixando o percentil de uma população específica e aplicando-o a todas. Vale escrever no prontuário qual corte você usou.
Some a isso o que apaga o achado antes que você entre na sala: quase toda mulher com hirsutismo trata o pelo. Pinça, cera, lâmina, laser, creme descolorante. Quem examina sem perguntar encontra pele lisa e conclui que não há hirsutismo. A pergunta é curta e não humilha ninguém: em que pontos do rosto ou do corpo você remove pelo, usando o quê, e a cada quantos dias? Uma resposta como raspo o queixo dia sim, dia não há cinco meses é um dado clínico completo — diz que há pelo terminal, diz onde, e diz desde quando, que é o dado que mais decide.
O que liga o alarme: velocidade, virilização e idade de início
Três achados tiram a paciente da fila comum, e nenhum dos três é o escore. O primeiro é o início abrupto com evolução rápida, ou a piora repentina de um hirsutismo antigo. O segundo é o início tardio, depois da terceira década de vida, numa mulher que atravessou a puberdade e os vinte sem nada. O terceiro são os sinais de virilização: clitoromegalia, aumento de massa muscular, engrossamento da voz e calvície de padrão masculino.
A razão pela qual esses três valem mais que a quantidade está no mecanismo. O hirsutismo das causas comuns começa no período peripuberal e progride com o tempo, porque o excesso androgênico que o produz é moderado e crônico. Instalar hirsutismo em poucos meses exige concentração muito mais alta e recente, e a lista de coisas capazes de produzir isso é curta. Por isso a frase que organiza a consulta: uma mulher de 22 anos com escore 20 desde a adolescência é um caso comum e grave; uma mulher de 36 anos com escore 12 instalado em cinco meses é um caso incomum e urgente. Quem hierarquiza pelo número inverte as duas.
Vale nomear o que se procura, porque a hipótese escrita é o que faz o encaminhamento andar. Os tumores ovarianos produtores de androgênio incluem os tumores de células de Sertoli-Leydig — também chamados de arrenoblastoma e androblastoma —, os de células da teca e da granulosa, os de células hilares, além de disgerminoma, teratoma, gonadoblastoma, tecoma luteinizado e luteoma. Do lado adrenal, os tumores virilizantes são raros e graves, com quadro de início abrupto e progressão rápida. O interno não precisa saber o histopatológico; precisa saber que essa lista existe e que ela justifica escrever no papel a palavra virilização em vez da palavra hirsutismo.
Uma advertência que evita o encaminhamento vazio: o achado de virilização não é motivo para pedir mais dosagens antes de encaminhar. O documento da atenção básica é direto ao listar o início súbito de amenorreia com virilização e hirsutismo como o padrão que manda encaminhar com urgência por suspeita de neoplasia de ovário ou adrenal, atentando para sinais sistêmicos como perda de peso e aumento de volume abdominal. O que sai da unidade é a paciente com a hipótese escrita e os exames iniciais já pedidos — não a paciente esperando resultado para ser encaminhada.
Fecha a seção a armadilha do tratamento que funciona um pouco. O combinado prescrito para o pelo de uma mulher com tumor produtor de androgênio melhora parcialmente o hirsutismo, porque suprime a produção ovariana normal por cima da produção tumoral. Essa melhora parcial é o pior desfecho possível: ela convence os dois lados de que a conduta está certa e compra meses. É o motivo de o gatilho de alarme ser da anamnese, e não da resposta terapêutica.
A hiperplasia adrenal de manifestação tardia: o diagnóstico que se perde
É a causa adrenal mais frequente de hirsutismo, responde por 2% a 10% das mulheres que consultam por pelo — 7,4% na frequência observada no sul do Brasil — e se perde por um motivo simples: ela se parece exatamente com a doença comum. A apresentação clínica da forma não clássica da hiperplasia adrenal congênita por deficiência da 21-hidroxilase inclui acne, hirsutismo, alopecia androgênica, distúrbio menstrual e anovulação crônica. Não há sinal que a separe no exame físico.
Duas pistas de história ajudam, e nenhuma delas fecha. A primeira é o início: em geral peripuberal, como o da doença comum, mas pode ocorrer mais cedo, na forma de pubarca precoce — pelo pubiano antes da idade, na infância. Essa apresentação pediátrica pertence ao capítulo Puberdade precoce desta apostila, e o que este capítulo faz com ela é outra coisa: perguntar à adulta se ela teve pelo pubiano cedo, porque uma pubarca aos sete anos numa mulher que hoje tem hirsutismo é um dado que muda a probabilidade. A segunda pista é a família — irmãs e primas com o mesmo quadro, ou consanguinidade.
Há ainda a apresentação que engana mais que todas: alguns casos se apresentam como hirsutismo isolado com ciclos regulares, exatamente o retrato do hirsutismo idiopático. Isso significa que a mulher que parece o caso mais benigno possível é justamente a que pode carregar o diagnóstico que ninguém procurou — e é a razão de este capítulo colocar a 17-hidroxiprogesterona na conversa mesmo quando tudo parece simples.
O que muda quando o diagnóstico é feito não é o tratamento do pelo, e é aqui que o interno costuma se perder. Na grande maioria dos casos, o teste com hormônio adrenocorticotrófico mostra reserva adrenal normal de cortisol, e o uso de antiandrogênio é frequentemente suficiente — a resposta terapêutica ao antiandrogênio é semelhante à das pacientes com hirsutismo idiopático. O que muda é outra coisa: é uma doença genética, com implicação para a prole; é a paciente em que a decisão sobre glicocorticoide precisa ser individualizada por quem sabe; e é a paciente que consulta por infertilidade em que o glicocorticoide, se indicado, será usado isolado, sem antiandrogênio associado.
Guarde a assimetria que justifica pedir o exame numa doença cujo tratamento cutâneo é o mesmo. Deixar de nomear a hiperplasia adrenal tardia custa uma família que não é informada e uma mulher que descobre o diagnóstico no ambulatório de infertilidade, dez anos depois. Nomeá-la custa uma dosagem barata, com código na tabela de procedimentos do SUS, e uma instrução de coleta escrita no pedido.
O androgênio que veio de fora, e a lista que está na receita
Existe uma categoria de hiperandrogenismo em que o exame que fecha o diagnóstico é a anamnese, e ela cresceu o suficiente para virar pergunta de rotina em vez de pergunta de exceção. O uso de substâncias androgênicas — esteroides anabolizantes, implantes hormonais, aplicações injetáveis vendidas como estética ou desempenho — produz hirsutismo de instalação rápida, e frequentemente com virilização, exatamente o padrão que faz o serviço inteiro pensar em tumor. A régua da federação de ginecologia lista o uso exógeno ao lado dos tumores secretores, na mesma linha da tabela de diagnóstico diferencial.
A pergunta precisa ser feita sem rodeio e sem juízo, porque a paciente muitas vezes não classifica aquilo como medicamento: você usa, ou usou, alguma aplicação, implante, chip ou injeção para desempenho, disposição, massa muscular ou estética? Alguém aplicou em você algo que não foi prescrito nesta unidade? A resposta muda a investigação inteira, e o quadro costuma regredir com a suspensão — o que é um desfecho barato e rápido em comparação com uma tomografia de suprarrenal.
Some a isso o hirsutismo secundário a medicamento prescrito, que é o oposto do anterior: a paciente entrega a informação sem saber que entregou, e ela está escrita na receita que ela trouxe. A régua brasileira do hirsutismo nomeia fenotiazinas, danazol, metirapona e ciclosporina; a mesma autora, na revisão publicada três anos depois, acrescenta o ácido valproico. Vale ainda separar as duas coisas que os medicamentos fazem: alguns produzem hirsutismo verdadeiro por via androgênica, outros produzem hipertricose difusa sem androgênio nenhum — e a conduta é a mesma, que é contatar quem prescreveu para discutir substituição ou suspensão, nunca suspender por conta.
Uma nota de segurança que atravessa este capítulo e o de contracepção: nunca oriente a paciente a suspender sozinha um psicotrópico, um imunossupressor ou um anticonvulsivante para ver se o pelo melhora. O contato é com quem prescreveu. A alternativa — suspender e ver — troca um problema cosmético reversível por uma crise de rejeição, uma convulsão ou uma recaída psiquiátrica.
Fecham a lista de causas secundárias as endocrinopatias que produzem hirsutismo por via indireta, alterando transporte e metabolismo de androgênio: doenças da tireoide, hiperprolactinemia e acromegalia. Em geral elas se apresentam por outras manifestações mais evidentes que o pelo, e é por isso que aparecem aqui como itens de checagem barata e não como hipóteses principais. A hiperprolactinemia como causa, com sua investigação e sua conduta, é do capítulo Hiperprolactinemia e galactorreia desta apostila; o que este capítulo faz é pedir a prolactina e mandar para lá.
O sofrimento, que é o motivo da consulta e quase nunca é a queixa registrada
Nenhuma mulher marca consulta na unidade básica, espera dias, perde meio turno de trabalho e senta na frente de um desconhecido para falar de fio de cabelo por vaidade. A régua da federação de ginecologia registra a razão em uma frase que vale copiar na cabeça: a queixa da mulher deve ser valorizada na definição da terapêutica, uma vez que o hirsutismo está associado a comprometimento emocional e depressão. Isso não é um comentário humanístico anexado ao fim do capítulo — é um critério de decisão, e ele opera exatamente onde o escore falha.
Repare no desenho do problema. O escore mede fio; ele não mede quantas vezes por semana ela arranca, quanto tempo gasta antes de sair de casa, se deixou de ir à praia, se cobre o queixo com a mão quando fala. Duas mulheres com escore 7 podem estar em situações completamente diferentes, e o que separa as duas não aparece em nenhuma das réguas — aparece na pergunta o quanto isso atrapalha a sua vida.
Daí sai uma regra que evita os dois erros opostos. O sinal decide o diagnóstico e a investigação: é o pelo terminal em área masculina, a velocidade e os sinais de alarme que dizem o que procurar. A queixa decide o tratamento: é o incômodo dela que diz se vale um ano de medicamento com controle laboratorial. Separar as duas decisões permite dizer, na mesma consulta e sem contradição, que ela não tem doença nenhuma e que existe tratamento para o que a incomoda.
Vale ainda desfazer duas frases que o serviço repete e que custam caro. A primeira é isso é normal, dita para encerrar: mesmo quando é verdade, ela comunica que a queixa não foi ouvida, e a mulher não volta — inclusive quando aparecer o sinal que importa. A segunda é é só estética, que transfere para a paciente a responsabilidade de estar preocupada com pouco. O que resolve as duas é uma frase que separa fato de valor: pelo assim não é doença, e o que ele está fazendo com você é problema meu também.
Por fim, o dado que fecha o capítulo pelo lado prático: a régua nacional prevê acompanhamento psicológico de suporte no cuidado dessas mulheres, e a régua da federação recomenda o mesmo para reduzir estresse, ansiedade e depressão em mulheres com baixa autoestima. Não é cortesia nem último recurso — é o que sustenta a adesão a um tratamento que só mostra resultado depois de seis meses e que a paciente vai ser tentada a abandonar no terceiro.
Como fechar o diagnóstico
O interno raramente erra por não saber quais exames existem. Erra por pedir todos, ao mesmo tempo, em qualquer dia do ciclo, e depois não saber o que fazer com um valor limítrofe que ele mesmo produziu. As seis seções abaixo respondem a quatro perguntas em ordem: quem precisa de laboratório, o que se dosa, em que dia se colhe, e o que cada resultado localiza.
Uma advertência atravessa todas. Neste tema, o exame não confirma a suspeita — ele localiza a fonte e afasta o que mata. A decisão de tratar o pelo já foi tomada antes, no exame físico e na conversa; o laboratório serve para dizer se atrás daquele pelo há um ovário, uma adrenal, uma glândula alheia, um frasco ou nada.
Quem precisa de laboratório — e a paciente que pode ser tratada sem ele
Comece pela pergunta que economiza mais exame e mais susto. A régua brasileira dedicada ao hirsutismo é explícita: em pacientes com hirsutismo leve e ciclos regulares, que consultam por hirsutismo isolado, o diagnóstico provável é de hirsutismo idiopático, e é possível iniciar o tratamento sem necessidade de avaliação laboratorial mais elaborada. Leia de novo, porque contraria o reflexo: existe uma paciente hirsuta que se trata sem painel hormonal.
A mesma régua fixa três condições que derrubam essa dispensa e mandam fazer a avaliação hormonal completa: infertilidade associada de causa inexplicada; história dos ciclos que não é clara; e obesidade de distribuição central. Nas duas primeiras, o que se faz antes de tudo é confirmar que existe ovulação — por dosagens seriadas de progesterona, por ultrassonografia transvaginal seriada, ou por biópsia de endométrio. Como se faz cada uma dessas confirmações pertence, nesta apostila, ao capítulo sobre o ciclo menstrual e o eixo hipotálamo-hipófise-ovário, e aqui não se repete.
Do outro lado, o gatilho positivo. Nas pacientes com hirsutismo moderado ou grave, ou naquelas com qualquer grau de hirsutismo que apresentem distúrbio menstrual, dosam-se testosterona, globulina carreadora de esteroides sexuais — para o cálculo do índice de androgênios livres — e a 17-hidroxiprogesterona basal ou após estímulo, para rastrear a hiperplasia adrenal de manifestação tardia. Some as duas listas e você tem a régua inteira: laboratório para quem tem hirsutismo importante, para quem tem ciclo alterado, e para quem tem infertilidade, obesidade central ou história duvidosa.
Reserve uma linha para a exceção que não é opcional. Nenhum grau de hirsutismo dispensa laboratório quando há sinal de alarme — instalação rápida, início depois da terceira década, virilização. Ali o exame não decide se trata; decide para onde a paciente vai, e sai junto com o encaminhamento em vez de antes dele.
Uma nota de honestidade sobre o que este capítulo não pode afirmar. Há um documento internacional de sociedade de endocrinologia que vai além e sugere não avaliar hirsutismo leve, definido por escore abaixo de 15, por considerar pequena a chance de encontrar etiologia que mude a conduta; ele chega aqui pela citação num artigo brasileiro que o discute, não por leitura do original. Registro assim porque a diferença entre não precisar de painel completo, que é o que a régua brasileira diz, e não avaliar, que é o que aquela posição diz, não é semântica — e a divergência está tratada adiante, no lugar próprio.
O que se dosa, e o que cada resultado localiza
A lista curta responde a cinco perguntas, e cada exame tem um endereço. Testosterona total responde a quanto androgênio circula e, sobretudo, procura o valor muito alto que muda o destino da paciente. Globulina carreadora de esteroides sexuais entra ao lado dela porque o que importa biologicamente é a fração livre, e o índice de androgênios livres se calcula a partir das duas — a régua da federação recomenda testosterona total e livre, com a ressalva técnica de que a livre deve ser calculada e não medida diretamente, por limitação de método.
17-hidroxiprogesterona responde pela adrenal, e especificamente pela deficiência de 21-hidroxilase em sua forma não clássica. Prolactina e hormônio tireoestimulante com tiroxina livre respondem pelas duas endocrinopatias que produzem hirsutismo por via indireta e que se resolvem tratando a causa. Sulfato de deidroepiandrosterona é o único da lista que tem indicação restrita e não entra na rotina: a régua nacional o reserva para a suspeita de tumor adrenal.
Sobre o sulfato de deidroepiandrosterona vale a advertência que evita o pedido inútil, porque é o exame que mais aparece em requisição sem motivo. Ele é pouco discriminativo: níveis elevados aparecem em pacientes hirsutas de qualquer etiologia, inclusive na síndrome dos ovários policísticos, e níveis normais podem ser encontrados mesmo nos casos de hiperplasia adrenal não clássica. O que ele acrescenta é uma coisa só, e é grande: níveis circulantes muito elevados sugerem tumor adrenal. Pedir por rotina produz valores intermediários que não localizam nada e assustam todo mundo.
Duas exclusões não são laboratoriais e resolvem-se com uma pergunta cada. A gestação, que precisa ser afastada diante de amenorreia antes de dosar hormônio e antes de assinar receita — e aqui com um motivo extra, porque tudo o que este capítulo prescreve é teratogênico. E o androgênio exógeno, que a anamnese resolve e o laboratório não distingue: uma testosterona altíssima numa mulher que aplicou implante hormonal e uma testosterona altíssima num tumor de células de Sertoli-Leydig são o mesmo número.
Fecha a seção a limitação de método, que é a razão de este capítulo não mandar tratar por número. O coeficiente de variação dos ensaios usuais de testosterona é alto, sobretudo em concentrações baixas, e a mesma amostra pode voltar com valores diferentes de laboratórios diferentes. Some a isso o fato de que manifestação clínica de hiperandrogenismo existe sem hiperandrogenemia demonstrável — presente na maioria dos casos de hirsutismo moderado a grave, mas em apenas metade dos casos leves. Testosterona normal não afasta hirsutismo, e testosterona limítrofe sem sinal clínico não é diagnóstico de nada.
Em que dia colher, e por que o pedido precisa dizer isso
Este é o parágrafo que mais salva exame repetido. A 17-hidroxiprogesterona é dosada de manhã e na fase folicular do ciclo, ou em qualquer momento se houver amenorreia — colhida à tarde ou na segunda metade do ciclo, o número perde sentido e a conduta que sai dele também. O motivo é duplo: o esteroide acompanha o ritmo circadiano do eixo, com pico pela manhã, e ele sobe fisiologicamente na fase lútea, porque o corpo lúteo o produz. Um valor colhido no dia 22 de um ciclo ovulatório pode simular hiperplasia adrenal numa mulher perfeitamente normal.
A régua da federação de ginecologia aperta a janela para todos os exames hormonais do painel, e não só para a 17-hidroxiprogesterona: entre o primeiro e o quinto dia do ciclo, ou em qualquer época nas pacientes com amenorreia. As duas réguas não coincidem — a fase folicular vai do primeiro dia até a ovulação, e a janela de cinco dias é um subconjunto dela. A divergência é real e tem tratamento adiante; a saída prática que satisfaz as duas é colher entre o segundo e o quinto dia, pela manhã.
Escreva a instrução no pedido, e não só na sua cabeça. Um pedido que diz apenas 17-hidroxiprogesterona chega ao laboratório sem hora e sem dia, e a paciente colhe no dia em que conseguiu vaga. O pedido útil diz: colher em jejum, pela manhã, entre o segundo e o quinto dia do ciclo, contando o dia 1 como o primeiro dia de sangramento; se estiver sem menstruar, colher pela manhã em qualquer dia. É uma linha a mais no papel e é a diferença entre um resultado interpretável e três meses perdidos.
Há uma condição que invalida o painel inteiro e que ninguém pergunta: uso de contraceptivo hormonal. O método suprime a produção ovariana de androgênio e eleva a globulina carreadora, de modo que a testosterona volta normal em quem tem hiperandrogenismo — a régua da federação recomenda dosar sempre em mulheres sem uso de contraceptivo, ou preferencialmente três meses depois de interrompê-lo. Isso cria um conflito prático que precisa ser decidido em voz alta com a paciente, e não escondido: suspender o método por três meses significa expô-la a gestação não planejada exatamente enquanto se investiga, e a saída é combinar contracepção não hormonal nesse intervalo, ou adiar a dosagem e tratar primeiro.
Reserve o cuidado final para a prolactina, que é o exame mais fácil de alterar por acidente. Antes de chamar de hiperprolactinemia, revise a receita — há medicamentos de uso comum que elevam prolactina — e considere repetir a coleta se houver dúvida sobre estresse na punção. O que se faz com uma prolactina realmente alta é do capítulo Hiperprolactinemia e galactorreia desta apostila.
O corte que separa a investigação simples da investigação de tumor
Existe um número, e ele é brasileiro. A régua dedicada ao hirsutismo estabelece que, no caso de tumores secretores de androgênio, a testosterona sérica costuma ser superior a 150 ng/dL, e que os exames de imagem serão necessários para localizar a origem adrenal ou ovariana do tumor. Em unidade internacional, 150 ng/dL correspondem a cerca de 5,2 nmol/L — vale saber a conversão porque parte dos laboratórios brasileiros devolve o resultado nessa segunda escala, e quem procura por 150 no laudo não acha.
A régua do SUS diz a mesma coisa de outro jeito, e o outro jeito não fecha uma conta. Diz o protocolo nacional que se encaminhe ao serviço especializado quem tiver hirsutismo grave, sinais de virilização, ou níveis de testosterona acima de dois desvios-padrão do valor de referência da dosagem. É um critério sem número e sem unidade, e a auditoria dele está no bloco seguinte, com a conta feita. O que importa aqui é a consequência: no laudo que chega à sua mesa não há desvio-padrão, há um intervalo de referência — e por isso o gatilho operacional que este capítulo usa é o número da régua dedicada, 150 ng/dL, com o critério do protocolo nacional registrado ao lado.
O gatilho clínico, porém, não depende de nenhum dos dois. Instalação rápida, início após a terceira década e virilização encaminham independentemente do resultado da testosterona, e por uma razão aritmética: tumores pequenos podem produzir concentrações que não atingem o corte, e o corte foi construído para ser específico, não sensível. Um número abaixo de 150 ng/dL numa mulher que virilizou em cinco meses não tranquiliza ninguém — e usá-lo para tranquilizar é o erro que este capítulo mais quer impedir.
O sulfato de deidroepiandrosterona entra aqui como localizador, não como gatilho. Elevado, aponta origem adrenal e é o que faz o pedido de imagem ir para a suprarrenal em vez do ovário. Normal, não afasta nada — nem o tumor ovariano, que é o mais frequente dos dois, nem a hiperplasia adrenal.
Uma última faixa, para a mulher em que a suspeita é de síndrome de Cushing. O rastreamento inicial pode ser feito por cortisol livre urinário de 24 horas, colhido com creatininúria para conferir a adequação da coleta, e/ou por teste de supressão com 1 mg de dexametasona por via oral às 23 horas, com dosagem de cortisol no dia seguinte entre 7 e 8 horas da manhã. Duas advertências: só se rastreia com suspeita clínica — estrias purpúreas, face em lua cheia, obesidade central, diabete, hipertensão —, e a síndrome de Cushing tem capítulo próprio — Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo (HAS secundária), na apostila de Endocrinologia —: este capítulo fica com a suspeita na mulher com hirsutismo e com o encaminhamento, e o rastreio e a investigação são de lá.
Como se rastreia a hiperplasia adrenal de manifestação tardia
O rastreamento tem duas etapas e a primeira é barata. Dosa-se a 17-hidroxiprogesterona basal, pela manhã e na fase folicular. A partir daí, os documentos brasileiros divergem sobre o corte — a régua dedicada ao hirsutismo confirma o diagnóstico clínico com valores acima de 5 ng/mL; o artigo brasileiro de endocrinologia que revisa as armadilhas do tema adota 4,0 ng/mL como o valor de máxima especificidade, se colhido nas condições certas, e registra que, para amostras colhidas fora dessas condições, um limite menor deve ser considerado, de 2,0 ou 3,0 ng/mL. A divergência tem endereço próprio adiante.
O que os documentos não disputam é o outro lado da faixa, e é ele que decide a maioria dos casos: uma concentração basal abaixo de 2,0 ng/mL tem valor preditivo negativo próximo de 100%. Traduzindo para a consulta: na maior parte das pacientes, uma única dosagem bem colhida encerra a pergunta. É por isso que a instrução de coleta escrita no pedido vale mais do que discutir o corte — um exame colhido à tarde não afasta nada, qualquer que seja o número que você adote.
A segunda etapa é o teste de estímulo, e ele não é da atenção básica. Administra-se corticotrofina em solução aquosa, 0,25 mg por via intramuscular ou endovenosa, com início entre sete e nove horas da manhã, dosando 17-hidroxiprogesterona e cortisol nos tempos zero e sessenta minutos quando a administração é intramuscular, ou zero, trinta e sessenta minutos quando é endovenosa. A dose é 0,25 mg — um quarto de miligrama, ou 250 microgramas —, e este capítulo escreve o número por extenso de propósito, porque encontrou uma fonte brasileira que imprime mil vezes essa dose. A auditoria está no bloco seguinte.
O corte pós-estímulo também não é único, e a divergência aqui é brasileira em sentido forte. Valores plasmáticos acima de 10 a 12 ng/mL após o estímulo são classicamente diagnósticos; mas estudos com genotipagem molecular em pacientes brasileiros observaram que a menor concentração pós-estímulo encontrada em pacientes com genótipo definido foi de 17 ng/mL, e a régua brasileira dedicada ao hirsutismo registra, com essas palavras, que o ponto de corte pode ser mais elevado. Entre 10 e 17 há 70% de diferença, e a faixa entre os dois é exatamente onde caem as pacientes duvidosas.
A conduta do interno diante de um basal na faixa intermediária é curta e não constrangedora: encaminhar. O teste de estímulo e a interpretação do resultado, incluindo a decisão sobre genotipagem, pertencem ao endocrinologista. O que sai da unidade é o pedido com a instrução de coleta cumprida, o valor basal com a data e a hora em que foi colhido, e a informação de que os ciclos são regulares ou não — porque é isso que decide, do outro lado, se a paciente entra na rota da fertilidade ou na rota do pelo.
Reserve um parágrafo para o que não se pede. Não se pede painel androgênico amplo em toda hirsuta: androstenediona e sulfato de deidroepiandrosterona têm indicação restrita, e dosar tudo em todo mundo multiplica as chances de aparecer um número na borda — e número na borda, sem achado ao exame, é ruído de ensaio e não excesso de androgênio. Não se pede relação entre hormônio luteinizante e folículo-estimulante para investigar pelo. Não se pede insulina de jejum nem índice calculado de resistência insulínica. E não se pede ultrassonografia transvaginal para diagnosticar hirsutismo — ela tem duas indicações neste capítulo, e as duas são específicas: rastrear neoplasia de ovário quando há suspeita, e compor o critério de imagem quando a pergunta é sobre a síndrome dos ovários policísticos, o que é assunto do capítulo próprio.
O que a investigação devolve, e a arrumação que se escreve no prontuário
Terminada a rodada, os resultados arrumam a paciente em uma de seis prateleiras, e vale escrever no prontuário em qual delas ela ficou. Hirsutismo idiopático: hirsutismo isolado, ciclos regulares e ovulatórios, fertilidade preservada, androgênios normais se solicitados. Síndrome dos ovários policísticos: dois de três critérios com exclusão feita — os critérios, os fenótipos e o manejo são do capítulo próprio desta apostila, e este capítulo entrega a paciente lá com a exclusão pronta.
Hiperplasia adrenal congênita não clássica: 17-hidroxiprogesterona alterada, com ou sem confirmação por estímulo. Causa secundária tratável: tireoide, prolactina, medicamento, androgênio exógeno — e aqui a conduta é da causa, não do pelo. Suspeita de tumor: velocidade, virilização, testosterona muito elevada, com ou sem sulfato de deidroepiandrosterona alto, e encaminhamento com hipótese escrita. E hipertricose, que nem sequer pertencia a esta rota e cuja identificação é o desfecho mais útil de algumas consultas.
Repare que duas prateleiras têm o mesmo tratamento cutâneo e diagnósticos diferentes — o hirsutismo idiopático e a hiperplasia adrenal não clássica que consulta por pelo, cuja resposta ao antiandrogênio é semelhante. Isso não torna a distinção inútil: ela muda o aconselhamento da família, muda o que se faz quando a paciente quiser engravidar e muda quem acompanha. Fazer o diagnóstico e não mudar a receita é uma decisão legítima; não fazer o diagnóstico porque a receita não mudaria não é.
Escreva também o que ficou sem resposta, porque este é um tema em que a próxima consulta costuma ser com outra pessoa. Registre o escore com a data e o nome de quem mediu, o que a paciente faz com o pelo e há quanto tempo, o tempo de instalação em meses, quais exames foram pedidos com qual instrução de coleta, e qual corte de escore você usou. Sem isso, o próximo profissional refaz tudo — e refaz mal, porque um escore medido por outra pessoa não é comparável ao seu.
Uma última arrumação, que é o motivo de este capítulo existir antes do capítulo da síndrome. A investigação do hirsutismo não termina com um nome de doença: termina com uma fonte localizada, um risco afastado e uma decisão de tratamento que é da paciente. Chegar ao fim da rodada com todos os exames normais e a paciente ainda incomodada não é fracasso da investigação — é o resultado mais comum dela, e o começo do tratamento.
Fecha o bloco a declaração de fronteira, porque um capítulo que investiga hiperandrogenismo faz divisa com meia apostila e o leitor precisa saber onde cada assunto mora. Este capítulo assume a queixa de pelo antes de existir diagnóstico: a separação entre hirsutismo e hipertricose, a medida e seus cortes, os sinais de alarme, a investigação que localiza a fonte, o hirsutismo idiopático, a hiperplasia adrenal de manifestação tardia na adulta, o androgênio exógeno, a suspeita da síndrome de Cushing e o tratamento do pelo com o que a rede tem — e assume a hiperplasia adrenal tardia, o androgênio exógeno e o tratamento do pelo por não terem dono em nenhum capítulo deste nível; o rastreio e a investigação do Cushing são de Síndrome de Cushing e hiperaldosteronismo (HAS secundária), na apostila de Endocrinologia. Cede tudo o mais, e cede pelo nome. Pertencem ao capítulo Síndrome dos ovários policísticos os critérios de Roterdã, os quatro fenótipos, o rastreio metabólico, a proteção endometrial e o manejo reprodutivo daquela síndrome. Quem investiga a ausência de menstruação, andar por andar do eixo, é o capítulo Amenorreia: em que andar parou. A fisiologia do eixo, e o mapa de qual exame se colhe em qual dia, têm dono declarado nesta apostila: o capítulo Ciclo menstrual e eixo hipotálamo-hipófise-ovário, usado aqui sem uma linha reescrita. A prolactina alta como causa, com sua investigação e sua conduta, é do capítulo Hiperprolactinemia e galactorreia. A investigação do casal que não engravida é do capítulo Infertilidade conjugal, e o que este capítulo entrega para lá é a fonte do androgênio já localizada. O pelo que aparece cedo demais na criança, antes da idade, é do capítulo Puberdade precoce — a fronteira aqui é a idade, e o que a adulta traz daquele período é só a informação de que teve pubarca precoce. A avaliação de risco de malignidade de uma massa anexial encontrada à imagem é do capítulo A massa que o ultrassom achou; o que fica aqui é o gatilho clínico que manda procurá-la. Os critérios de elegibilidade do estrogênio são do capítulo Contracepção hormonal combinada, e a investigação do sangramento é do capítulo Sangramento uterino anormal.
Classificar, localizar, conferir
Este bloco faz três operações que costumam ser feitas juntas e não deveriam. A primeira é classificar a queixa — hirsutismo, hipertricose ou sinal de alarme —, e ela é do exame físico. A segunda é localizar a fonte, e é do laboratório. A terceira é conferir o que os documentos brasileiros dizem, porque neste tema eles divergem em quase todos os números que importam e, num caso, um deles imprime uma dose mil vezes maior do que deveria. O fluxo mostra a ordem numa consulta real; as tabelas separam classificação, painel, alarme e apresentação farmacêutica; as notas trazem as contas.
- 11. É pelo terminal — grosso, longo, pigmentado, acima de 0,5 cm — em área de distribuição masculina? Se for fino e claro, distribuído por todo o corpo, a rota é a da hipertricose: revise a receita, peça hormônio tireoestimulante e pare.
- 22. Pergunte antes de examinar: você tira pelo de onde, com o quê, com que frequência, há quanto tempo? Sem essa pergunta o exame devolve falso negativo.
- 33. Examine as nove áreas do escore de Ferriman-Gallwey e registre o número, a data e quem mediu. Anote qual corte você adotou.
- 44. Desde quando? Instalação em meses, início depois da terceira década, ou virilização — clitoromegalia, voz, massa muscular, calvície temporal — saem do fluxo comum agora e vão ao passo 11.
- 55. Pergunte diretamente sobre androgênio de fora: aplicação, implante, chip, injeção para desempenho, disposição ou estética. Resposta positiva muda a investigação inteira.
- 66. Quantas vezes ela menstruou nos últimos doze meses? Amenorreia pede teste de gravidez antes de qualquer exame e de qualquer receita.
- 77. Hirsutismo leve, ciclos regulares, hirsutismo isolado, sem infertilidade inexplicada e sem obesidade central: hirsutismo idiopático provável — pode-se tratar sem painel elaborado. Registre por escrito que a decisão foi essa e por quê.
- 88. Hirsutismo moderado ou grave, ou qualquer grau com distúrbio menstrual, infertilidade inexplicada, história de ciclos duvidosa ou obesidade central: peça testosterona total, globulina carreadora de esteroides sexuais, 17-hidroxiprogesterona, prolactina e hormônio tireoestimulante com tiroxina livre.
- 99. Escreva a instrução de coleta no pedido: em jejum, pela manhã, entre o segundo e o quinto dia do ciclo (dia 1 é o primeiro dia de sangramento); em amenorreia, pela manhã, em qualquer dia. Se ela usa contraceptivo hormonal, decida em voz alta com ela entre suspender por três meses com outro método ou adiar a dosagem.
- 1010. 17-hidroxiprogesterona abaixo de 2,0 ng/mL colhida assim: a hiperplasia adrenal tardia está praticamente afastada. Acima do corte adotado, ou na faixa intermediária: encaminhe — o teste de estímulo é do especialista.
- 1111. Alarme presente, ou testosterona acima de 150 ng/dL: acrescente sulfato de deidroepiandrosterona, escreva a palavra virilização no encaminhamento e mande com urgência, sem esperar o restante dos resultados.
- 1212. Suspeita clínica de síndrome de Cushing — estrias purpúreas, face em lua cheia, obesidade central, diabete, hipertensão: cortisol livre urinário de 24 horas com creatininúria e/ou supressão com 1 mg de dexametasona, e encaminhamento.
- 1313. Tireoide, prolactina, medicamento ou androgênio exógeno alterados: a conduta é da causa. Trate ou remeta, e reavalie o pelo depois.
- 1414. Nada disso: a paciente tem hirsutismo idiopático, ou tem a síndrome dos ovários policísticos — e aí os critérios, os fenótipos e o manejo são do capítulo próprio desta apostila, para onde ela vai com a exclusão já feita.
- 1515. Pergunte o quanto o pelo atrapalha a vida dela, com essas palavras, e decida o tratamento por essa resposta — não pelo escore.
- 1616. Se houver tratamento sistêmico: contracepção eficaz garantida antes da primeira dose, medida local desde a primeira consulta, e o prazo dito em voz alta — nada de julgar antes de 6 meses.
| Grupo | O que está alterado | Quem entra aqui | O que decide |
|---|---|---|---|
| Excesso de androgênio de ovário ou adrenal | Produção aumentada de androgênio circulante | Síndrome dos ovários policísticos; hiperplasia adrenal congênita não clássica; síndrome de Cushing; tumor produtor de androgênio ovariano ou adrenal | Padrão menstrual, velocidade de instalação, 17-hidroxiprogesterona e testosterona |
| Sensibilidade cutânea aumentada | Androgênio circulante normal; atividade da 5-alfa-redutase e receptores no folículo | Hirsutismo idiopático — hirsutismo isolado, ciclos regulares e ovulatórios, fertilidade preservada | Ciclos regulares com androgênios normais; é diagnóstico positivo, não sobra de exclusão |
| Alteração secundária de transporte ou metabolismo | Globulina carreadora, eixo alheio ou fármaco | Doenças da tireoide; hiperprolactinemia; acromegalia; fenotiazinas, danazol, metirapona, ciclosporina, ácido valproico | Revisão da receita, hormônio tireoestimulante e prolactina — tratar a causa e reavaliar o pelo |
| Androgênio administrado de fora | Concentração alta por fonte externa | Esteroide anabolizante, implante hormonal, aplicação injetável de estética ou desempenho | Anamnese direta e sem juízo; o laboratório não distingue isto de tumor |
| Nenhum dos anteriores — não é hirsutismo | Pelo velus difuso, sem padrão androgênico | Hipertricose congênita ou familiar; medicamento; hipotireoidismo; porfiria; anorexia, desnutrição, má absorção | Distribuição e textura ao exame — e a informação de que não responde a antiandrogênio |
O painel: o que pedir, quando colher, o que localiza e o que não conclui
| Exame | Quando colher | O que localiza | O que ele não conclui |
|---|---|---|---|
| Testosterona total | Pela manhã, entre o segundo e o quinto dia do ciclo; em amenorreia, qualquer dia. Sem uso de contraceptivo hormonal, ou 3 meses após interrompê-lo | Acima de 150 ng/dL (cerca de 5,2 nmol/L), procura tumor produtor de androgênio e dispara imagem | Valor normal não afasta hirsutismo: em metade dos casos leves não há hiperandrogenemia. Método com variação alta em concentrações baixas |
| Globulina carreadora de esteroides sexuais | Junto com a testosterona total, na mesma coleta | Permite calcular o índice de androgênios livres, que é a fração biologicamente ativa | Não substitui a testosterona total nem se dosa isolada; a testosterona livre medida diretamente tem limitação técnica |
| 17-hidroxiprogesterona basal | Pela manhã e na fase folicular — colhida à tarde ou na fase lútea, o número não vale. Em amenorreia, qualquer momento | Hiperplasia adrenal congênita não clássica por deficiência de 21-hidroxilase. Abaixo de 2,0 ng/mL, valor preditivo negativo próximo de 100% | Valor na faixa intermediária não fecha nem afasta: quem decide o teste de estímulo e o interpreta é o endocrinologista |
| Prolactina | Mesma coleta; repetir se houver dúvida sobre estresse na punção | Hiperprolactinemia como causa secundária — conduta no capítulo Hiperprolactinemia e galactorreia desta apostila | Elevação isolada não explica hirsutismo grave nem dispensa o restante do painel; revise antes a receita |
| Hormônio tireoestimulante com tiroxina livre | Mesma coleta; não depende de fase do ciclo | Doença da tireoide, que produz hirsutismo e hipertricose por vias diferentes | Tratar a tireoide não devolve, sozinho, o pelo já transformado |
| Sulfato de deidroepiandrosterona | Só quando há suspeita de tumor adrenal | Muito elevado, aponta origem adrenal e direciona a imagem para a suprarrenal | Pouco discriminativo: alto em hirsutas de qualquer causa, e normal mesmo em hiperplasia adrenal não clássica |
| Beta-hCG | Diante de amenorreia, antes de qualquer exame hormonal e de qualquer receita | Gestação — que sai deste capítulo inteiro e torna proibido tudo o que ele prescreve | Nada mais; é trava, não é diagnóstico |
Os achados que tiram a paciente da fila comum
| Achado | Por que ele pesa mais que o escore | O que fazer hoje |
|---|---|---|
| Instalação em meses, ou piora repentina de hirsutismo antigo | O excesso androgênico das causas comuns é moderado e crônico e produz escore que sobe em anos; instalar em meses exige concentração alta e recente | Testosterona total e sulfato de deidroepiandrosterona pedidos hoje, e encaminhamento com a hipótese escrita — sem esperar resultado |
| Início depois da terceira década de vida | As causas comuns começam no período peripuberal; uma mulher que atravessou a puberdade e os vinte sem nada mudou alguma coisa depois | Mesma conduta do item anterior, e pergunta ativa sobre androgênio exógeno |
| Virilização: clitoromegalia, engrossamento da voz, aumento de massa muscular, calvície de padrão masculino | Não é um grau a mais de hirsutismo — é sinal de concentração muito acima do que o ovário policístico produz | Encaminhamento com urgência, com a palavra virilização escrita; o documento da atenção básica manda isso expressamente |
| Testosterona total acima de 150 ng/dL | É o corte que a régua brasileira dedicada ao hirsutismo associa a tumor secretor | Imagem e serviço especializado. Sulfato de deidroepiandrosterona ajuda a escolher entre suprarrenal e ovário |
| Estrias purpúreas, face em lua cheia, obesidade central com hipertensão e diabete | É o retrato da síndrome de Cushing, que não se rastreia em todo mundo e não pode ser perdida em quem tem o quadro | Cortisol livre urinário de 24 horas com creatininúria e/ou supressão com 1 mg de dexametasona, e encaminhamento |
| Melhora parcial do pelo com combinado, num quadro que se instalou rápido | É o pior desfecho possível: convence os dois lados de que a conduta está certa e compra meses de crescimento tumoral | Reabra a hipótese de tumor. Falha ou resposta atípica é pergunta diagnóstica, não farmacológica |
Dose, apresentação e comprimidos — recalculado em Python contra a apresentação real, em adulta de 70 kg
| Fármaco e dose citada | Apresentação que existe na rede | Conta | O que isso significa na receita |
|---|---|---|---|
| Espironolactona 50 mg/dia | Comprimido de 25 mg e de 100 mg — Componente Básico | 50 ÷ 25 = 2 comprimidos de 25 mg; ou meio comprimido de 100 mg | Dose fechada nas duas apresentações; prefira 2 × 25 mg para não depender de partir comprimido |
| Espironolactona 100 mg/dia (a dose habitual) | Comprimido de 25 mg e de 100 mg — Componente Básico | 100 ÷ 100 = 1 comprimido; ou 100 ÷ 25 = 4 comprimidos | Dose fechada. É a mais usada das citadas na régua da federação |
| Espironolactona 200 mg/dia (teto citado) | Comprimido de 25 mg e de 100 mg — Componente Básico | 200 ÷ 100 = 2 comprimidos ao dia | Dose fechada, e a que mais produz efeito adverso dependente de dose. Monitorar potássio sérico |
| Finasterida 1 mg/dia (dose citada em fonte brasileira de 2009) | Só o comprimido de 5 mg — Componente Básico, código de urologia | 1 ÷ 5 = 0,20 do comprimido — um quinto, sem sulco que oriente | Dose não reproduzível pela paciente. Não prescreva 1 mg com a apresentação da rede |
| Finasterida 2,5 mg/dia (piso da faixa de 2025) | Só o comprimido de 5 mg | 2,5 ÷ 5 = metade do comprimido | Reproduzível se o comprimido tiver sulco; diga isso à paciente em vez de escrever meio comprimido e supor |
| Finasterida 5 mg/dia | Comprimido de 5 mg | 1 comprimido ao dia | Dose fechada. A faixa entre a menor e a maior dose citada em fonte brasileira é de 5 vezes |
| Dexametasona 0,25 mg/dia (piso do adulto na hiperplasia adrenal) | Comprimido de 4 mg e elixir de 0,1 mg/mL — Componente Básico | 0,25 ÷ 4 = 1/16 do comprimido; 0,25 ÷ 0,1 = 2,5 mL do elixir | Com comprimido é impossível. O elixir é a única forma reproduzível dessa dose na rede |
| Dexametasona 0,75 mg/dia (teto do adulto na hiperplasia adrenal) | Comprimido de 4 mg e elixir de 0,1 mg/mL | 0,75 ÷ 0,1 = 7,5 mL do elixir; meio comprimido entregaria 2 mg | Meio comprimido é 8 vezes o piso e 2,7 vezes o teto — o erro mais provável de quem só tem o comprimido na mão |
| Prednisona 5 mg/dia (piso do adulto na hiperplasia adrenal) | Comprimido de 5 mg e de 20 mg — Componente Básico | 1 comprimido de 5 mg ao dia | Dose fechada, e a razão de a prednisona ser a saída prática quando não há elixir de dexametasona |
| Eflornitina tópica (único fármaco de ação local para pelo facial) | Não consta da Rename 2024, em busca exata sobre texto normalizado | — | Não existe na rede. Citá-la sem dizer isso transfere à paciente um custo que ela não vai conseguir pagar |
Achado central, e ele é sobre a régua e não sobre a doença. O Brasil teve um protocolo do Ministério da Saúde que nomeava o hirsutismo no título — o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos e Hirsutismo, Portaria SAS/MS nº 1.321, de 21 de novembro de 2013. Ele foi revogado pelo artigo 5º da Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 6, de 2 de julho de 2019, que aprovou o protocolo atual. A palavra hirsutismo saiu do título, e saiu também dos critérios de inclusão: o protocolo revogado admitia expressamente o diagnóstico de hirsutismo idiopático com ciclos regulares e ovulatórios, hirsutismo isolado e ausência de ovários policísticos à ultrassonografia; o atual admite apenas pacientes com diagnóstico da síndrome pelos critérios do Consenso de Roterdã. Conferido na página oficial de protocolos do Ministério, letra H, em 5 de setembro de 2026: não existe nenhum protocolo chamado Hirsutismo. Consequência prática, e ela é do balcão da farmácia: a mulher com hirsutismo idiopático não tem porta de entrada em protocolo nacional nenhum.
A contradição que sobrou dentro do protocolo atual, e ela é do próprio texto. A seção 2, de classificação estatística de doenças, lista dois códigos — E28.2 Síndrome dos ovários policísticos e L68.0 Hirsutismo. A seção imediatamente seguinte, de critérios de inclusão, admite apenas quem tem o diagnóstico da síndrome. Ou seja: o protocolo carrega o código do hirsutismo e não admite ninguém por hirsutismo. O código sobreviveu à revogação do documento que o justificava; o critério, não. É a mesma família de erro da frase que existe numa edição e some na seguinte, deixando o parágrafo sem antecedente — só que aqui o que ficou órfão é um código de doença que ainda é usado para pedir medicamento.
Remissão a norma revogada, em documento oficial vigente — e em dois lugares. O protocolo da hiperplasia adrenal congênita — Portaria SAS/MS nº 16, de 15 de janeiro de 2010, que a página oficial do Ministério ainda listava como vigente na consulta de 5 de setembro de 2026 — determina, na seção de casos especiais, que o tratamento de pacientes do sexo feminino com forma não clássica seja seguido conforme o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Hirsutismo; e repete a remissão adiante, ao tratar de contraceptivos orais e antiandrogênicos. O documento apontado foi revogado em 2019, sete anos antes da consulta. Não é erro de digitação: é a norma que trata da doença deste capítulo mandando o leitor a um endereço que não existe mais, e é o gênero de erro mais grave possível numa auditoria — norma revogada citada como vigente.
Erro de unidade por fator 1.000, com prova por segunda fonte. Uma revisão brasileira de endocrinologia publicada em periódico indexado descreve o teste de estímulo da hiperplasia adrenal com ACTH sintético na dose de 250 mg por via endovenosa em bolus. A dose correta é 0,25 mg — 250 microgramas —, e ela está escrita assim, com vírgula, em duas fontes brasileiras independentes: a régua dedicada ao hirsutismo, das sociedades de endocrinologia e dermatologia, e a revisão da mesma autora publicada em revista de ginecologia. A conta: 250 ÷ 0,25 = 1.000 vezes a dose. A ampola brasileira de tetracosactida traz 0,25 mg, de modo que a instrução impressa exigiria 1.000 ampolas por teste. Ressalva de método, porque ela é obrigatória aqui: o texto extraído do arquivo não contém nenhum caractere de micro em dez páginas, o que me deixa sem controle positivo para descartar artefato de extração de glifo — mas dois extratores independentes, um deles sobre um novo download do arquivo original, devolveram a mesma grafia, e a única unidade de massa do artigo inteiro é essa. Seja glifo ou seja erro de origem, a instrução como está impressa é impraticável e o interno precisa saber o número certo.
Corte sem número e sem unidade, e a conta do que ele entrega. O protocolo nacional manda encaminhar a paciente com níveis de testosterona acima de dois desvios-padrão do valor de referência da dosagem. O laudo brasileiro não devolve desvio-padrão: devolve um intervalo de referência, e por convenção o limite superior desse intervalo já é a média mais 2 desvios-padrão, o percentil 97,72. A frase admite portanto duas leituras. Na primeira, dois desvios-padrão acima da média é o próprio limite superior, e a frase não acrescenta nada ao que já está impresso no laudo. Na segunda, é o limite superior mais 2 desvios-padrão, isto é, a média mais 4 — percentil 99,9968, uma mulher em cada 31.574, contra uma em cada 44 da primeira leitura. Traduzindo com o valor de referência de testosterona que o protocolo revogado de 2013 imprimia, até 80 ng/dL: se a média do método for 35 ng/dL, o desvio-padrão é 22,5 e a segunda leitura devolve 125 ng/dL. A mesma frase, portanto, entrega 80 ou 125 ng/dL — 56% de diferença no gatilho de investigação de tumor. É por isso que este capítulo usa o número da régua dedicada, 150 ng/dL, e registra o critério do protocolo ao lado.
Três cortes brasileiros para o mesmo escore, e um valor exato que pertence a duas classes. A régua dedicada ao hirsutismo fixa o corte em 8; a régua da federação de ginecologia, em 6 na maioria das etnias e 4 nas asiáticas orientais; e os dois documentos do Ministério da Saúde que tratam do tema não trazem escore nenhum — conferido com busca normalizada no texto integral do protocolo da síndrome e no dos Protocolos da Atenção Básica, zero ocorrências de Ferriman em ambos, fora tabelas de evidência do apêndice. As contas: 6 é 25% menor que 8, e 4 é exatamente a metade de 8; a faixa de 6 a 7 é hirsutismo por uma régua e não é pela outra, e tem 2 pontos de largura num escore que vai de 0 a 36. E o valor exato: a régua dedicada afirma que apenas 5% das mulheres pré-menopáusicas apresentam escore superior a 8, enquanto o critério que ela mesma adota é de 8 ou mais — de modo que a paciente com escore exatamente 8 está dentro do diagnóstico e fora da estatística que o justifica.
Ressalva étnica ausente num documento e presente no outro. A diretriz brasileira do hirsutismo adota o 8 sem nenhuma ressalva populacional, ainda que anote, páginas antes, ser o hirsutismo significativamente menos prevalente entre asiáticas — as duas frases convivem sem que a segunda modifique a primeira. A régua da federação de ginecologia, ao contrário, traz a ressalva no próprio critério. Registro isto porque o corte de 8 é o percentil 95 de uma amostra britânica de 1961, e aplicá-lo sem ressalva a uma população miscigenada é fixar o percentil de uma população específica para todas.
Janelas de coleta que não coincidem. O protocolo nacional manda colher a 17-hidroxiprogesterona pela manhã e na fase folicular, ou a qualquer momento em amenorreia. A régua da federação de ginecologia manda colher os exames hormonais entre o primeiro e o quinto dia do ciclo, ou a qualquer época em amenorreia. A fase folicular vai do primeiro dia até a ovulação, cerca de catorze dias; a janela de cinco dias é um subconjunto dela. Um exame colhido no dia 10 cumpre a primeira régua e descumpre a segunda. Não é divergência sobre o fato — as duas concordam que a fase lútea invalida a dosagem —, é divergência sobre a margem, e a saída que satisfaz as duas é colher entre o segundo e o quinto dia, pela manhã.
Três cortes para a 17-hidroxiprogesterona basal e dois para o pós-estímulo. Basal: a régua dedicada ao hirsutismo confirma acima de 5 ng/mL; a revisão brasileira de endocrinologia adota 4,0 ng/mL como o valor de máxima especificidade se colhido pela manhã na fase folicular, e manda considerar limite menor, de 2,0 ou 3,0 ng/mL, para amostras colhidas fora dessas condições. As contas: 5 é 25% maior que 4, e 2,5 vezes o corte mais baixo. Em unidade internacional, 2, 4 e 5 ng/mL equivalem a cerca de 6,1, 12,1 e 15,1 nmol/L. Pós-estímulo: acima de 10 a 12 ng/mL é o corte clássico, mas a régua dedicada registra que estudos mais recentes sugerem corte mais alto, de 17,0 ng/mL, valor que vem de genotipagem molecular em pacientes brasileiros — a menor concentração pós-estímulo observada em paciente com genótipo definido. 17 é 70% acima de 10 e 42% acima de 12, e a faixa entre eles é exatamente onde caem as pacientes duvidosas.
Duas colunas de potência na mesma tabela oficial, e uma diferença de 2 vezes na dose que sai delas. A tabela de potências relativas do protocolo da hiperplasia adrenal congênita traz, para cada esteroide, uma coluna de atividade anti-inflamatória e outra de supressão do eixo hipotálamo-hipófise: prednisona 3 e 4, dexametasona 26 e 17. Converter 5 mg de prednisona em dexametasona pela coluna anti-inflamatória dá 5 × 3 ÷ 26 = 0,577 mg; pela coluna de supressão do eixo dá 5 × 4 ÷ 17 = 1,176 mg. A mesma tabela devolve duas doses com razão de 2,04 vezes. O detalhe que decide qual usar é do tema: nesta doença o objetivo é suprimir o eixo e o androgênio, não é anti-inflamatório — de modo que a coluna que o hábito usa é a errada, e usá-la subdosaria pela metade. A conferência que fecha, do outro lado: 2 mg de dexametasona, que é meio comprimido, equivalem a 52 mg de hidrocortisona pela potência anti-inflamatória, contra uma produção fisiológica diária de 10 a 15 mg registrada no rodapé do mesmo protocolo — 4,2 vezes o fisiológico.
Dose de manutenção prescrita por via que ninguém usa cronicamente. Esse mesmo protocolo arrola, na seção de fármacos, uma única forma de hidrocortisona: solução injetável, nas concentrações de 100 e de 500 mg, e no esquema de administração descreve a hidrocortisona como administrada por via intramuscular ou endovenosa, com dose inicial de 12 a 18 mg/m² ao dia em crianças e 20 mg ao dia em adultos. São doses de manutenção diária, e nenhuma família mantém uma criança em corticoide injetável diário. A Rename 2024 confirma o buraco por busca exata: traz succinato sódico de hidrocortisona em pó para solução injetável de 100 e 500 mg, e não traz hidrocortisona oral em comprimido. Ou seja, o glicocorticoide de escolha para a hiperplasia adrenal na infância não existe, em forma oral, na lista nacional — e o protocolo o descreve por uma via incompatível com uso crônico.
O que bateu na conferência, e isto informa tanto quanto o que não bateu. A dose de corticotrofina do teste de estímulo bate entre as duas fontes brasileiras que a trazem — 0,25 mg em ambas —, e o horário de início também, com uma diferença de margem: entre 7 e 9 horas na régua de 2006 e entre 7 e 8 horas na revisão de 2009, da mesma autora. O valor preditivo negativo próximo de 100% para 17-hidroxiprogesterona basal abaixo de 2,0 ng/mL é afirmado sem divergência. As nove áreas do escore, sua origem em onze e a retirada de braço e perna são coerentes entre as três fontes que as descrevem. A ausência de eflornitina e de flutamida na Rename foi conferida por busca exata sobre texto normalizado, e a ausência de escore de Ferriman nos dois documentos do Ministério da Saúde, pelo mesmo método. E a frequência de 7,4% de hiperplasia adrenal não clássica entre hirsutas no sul do Brasil aparece com o mesmo número nas duas fontes brasileiras que a citam.
Uma conferência sobre o documento revogado, registrada porque explica por que ele não voltaria como está. O protocolo de 2013 imprimia a faixa de referência do sulfato de deidroepiandrosterona como 30 a 780 g/dL entre 19 e 30 anos, enquanto as duas linhas seguintes, para outras faixas etárias, traziam mcg/dL — a unidade da primeira linha perdeu o prefixo, e a leitura literal daria um valor um milhão de vezes maior. No mesmo documento, a suspensão da metformina era orientada por depuração de creatinina abaixo de 30 mL/kg/min, unidade que não existe para depuração, que se mede em mL/min. São dois erros de unidade numa norma que valeu seis anos, e servem de advertência sobre o que se perde e o que se ganha quando um protocolo é substituído.
A conduta, hora a hora
Caracterizar início, evolução, ciclos, medicamentos e sinais de virilização; investigar androgênios e causas específicas conforme o conjunto. Escolher tratamento cosmético e farmacológico elegível com metas e prazo realista. Antiandrogênio exige cuidado com possibilidade de gestação e contracepção adequada. Comparar resposta com registro consistente e método de depilação conhecido.
Duas travas antes de qualquer dose, e as duas são de segurança. A primeira é de porta: qualquer estrogênio receitado aqui precisa passar antes pelos critérios de elegibilidade e pela lista de contraindicações que pertencem, nesta apostila, ao capítulo da contracepção hormonal combinada — e que aqui não se discutem de novo. A segunda: todo antiandrogênio deste capítulo inibe a diferenciação sexual de feto masculino, e só pode ser usado com contracepção eficaz garantida. Não é advertência de rodapé; é a condição de existência da receita.
E uma trava de escopo, que evita o capítulo errado: se a investigação encontrou tireoide, prolactina, medicamento, androgênio exógeno, síndrome de Cushing ou tumor, a conduta é da causa e não do pelo. O que segue abaixo vale para a mulher em que a causa é o hirsutismo idiopático, a hiperplasia adrenal não clássica que consulta por pelo, ou a síndrome dos ovários policísticos — e, nesta última, o manejo completo é do capítulo próprio.
Consulta 1, minuto 0 — classificar antes de tratar
Responda por escrito, antes de prescrever coisa alguma, a três perguntas — as três viram a conduta do avesso e nenhuma delas depende de laboratório. É pelo terminal em área de distribuição masculina, ou é pelo velus difuso? Desde quando, em meses? E o que ela faz com o pelo hoje? A primeira separa hirsutismo de hipertricose, e errar aqui compromete a paciente a um ano de medicamento inútil. A segunda separa o comum do urgente. A terceira impede o falso negativo do exame físico. Só depois disso o escore é medido, e ele é medido para ser repetido — anote o número, a data e o seu nome.
Prescrição- Registro no prontuário, em uma linha: pelo terminal em quais áreas, escore de Ferriman-Gallwey com a data e quem mediu, qual corte foi adotado, tempo de instalação em meses, método e frequência de remoção do pelo
- Perguntas que não custam exame e que precisam estar respondidas antes da receita: uso de esteroide anabolizante, implante, chip ou aplicação injetável; medicamentos em uso, com a receita na mão; número de menstruações nos últimos doze meses; e o que mudou no corpo além do pelo — voz, clitóris, massa muscular, cabelo
- Se houver amenorreia: beta-hCG antes de qualquer exame hormonal e antes de qualquer receita — tudo o que este capítulo prescreve é teratogênico
- Hipertricose confirmada: revise a receita, peça hormônio tireoestimulante, explique em voz alta que não responde a antiandrogênio e não prescreva antiandrogênio. Este é o desfecho correto, e não uma consulta perdida
- Fonte: Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e Sociedade Brasileira de Dermatologia, Hirsutismo: diagnóstico, Projeto Diretrizes, 2006, republicada em Rev Assoc Med Bras 2010;56(1):1-9 (definição de hirsutismo e de hipertricose, causas adquiridas de hipertricose, critérios de suspeita das causas raras); Febrasgo, Femina 2025;53(12):1390-7 (definição de pelo terminal e escore com corte por etnia)
Consulta 1, minuto 5 — o alarme, que sai da consulta antes de tudo
Se houver instalação em meses, início depois da terceira década ou qualquer sinal de virilização, o restante desta lista fica em suspenso e a consulta muda de objetivo. A paciente não sai daqui com receita de pelo; sai com pedido, encaminhamento e uma hipótese escrita. O erro comum aqui não é deixar de suspeitar — é suspeitar e, mesmo assim, prescrever combinado enquanto se espera a vaga, porque a melhora parcial que isso produz é o que atrasa o diagnóstico em meses.
Prescrição- Peça hoje, na mesma requisição: testosterona total, sulfato de deidroepiandrosterona, 17-hidroxiprogesterona, prolactina e hormônio tireoestimulante com tiroxina livre — e não segure o encaminhamento esperando os resultados
- Escreva no encaminhamento a palavra que descreve o achado, e não a que descreve a queixa: virilização, e não hirsutismo. Some o tempo em meses e o que mudou além do pelo — voz, clitóris, massa muscular, cabelo
- Some os sinais sistêmicos que o documento da atenção básica manda procurar nessa suspeita: perda de peso e aumento de volume abdominal
- Não prescreva contraceptivo combinado nem antiandrogênio nesta consulta. A melhora parcial que eles produzem é o que atrasa o diagnóstico — e, se o quadro for por androgênio exógeno, a suspensão da fonte é que resolve
- Pergunte, antes de despachar, sobre aplicação, implante, chip ou injeção: uma resposta positiva pode encerrar a investigação hoje, com suspensão e reavaliação em vez de tomografia
- Fonte: Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e Sociedade Brasileira de Dermatologia, Hirsutismo: diagnóstico, 2006, republicada em Rev Assoc Med Bras 2010;56(1):1-9 (critérios de suspeita das causas raras e encaminhamento a serviço terciário com presteza); Brasil, Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016 (início súbito com virilização e hirsutismo, sinais sistêmicos e encaminhamento com urgência); Febrasgo, Femina 2025;53(12):1390-7 (uso exógeno de substâncias androgênicas na mesma linha dos tumores secretores)
Consulta 1, minuto 8 — o que se pede, e com que instrução escrita
O painel é curto e cabe numa requisição, e a instrução de coleta vale mais do que a escolha dos exames. Quem pede sem escrever o dia e a hora recebe de volta um número que não decide nada, e descobre isso três meses depois. Existe também a paciente que não precisa de painel — hirsutismo leve, ciclos regulares, hirsutismo isolado, sem infertilidade inexplicada e sem obesidade central —, e a decisão de não pedir é legítima desde que fique escrita, com o motivo, para que o próximo profissional não peça por reflexo.
Prescrição- Painel para hirsutismo moderado ou grave, ou qualquer grau com distúrbio menstrual, infertilidade inexplicada, história de ciclos duvidosa ou obesidade central: testosterona total; globulina carreadora de esteroides sexuais; 17-hidroxiprogesterona; prolactina; hormônio tireoestimulante com tiroxina livre
- Instrução escrita no pedido, com estas palavras: colher em jejum, pela manhã, entre o segundo e o quinto dia do ciclo — o dia 1 é o primeiro dia de sangramento; em caso de amenorreia, colher pela manhã em qualquer dia
- Em uso de contraceptivo hormonal, decida em voz alta com ela e registre: suspender por três meses com método não hormonal garantido no intervalo, ou adiar a dosagem e tratar primeiro. O que não vale é dosar em uso do método e interpretar o resultado como se valesse
- Sulfato de deidroepiandrosterona só com suspeita de tumor adrenal. Não peça androstenediona de rotina, não peça relação entre hormônio luteinizante e folículo-estimulante, não peça insulina de jejum, e não peça ultrassonografia para diagnosticar hirsutismo
- Todos os exames deste painel têm código na tabela de procedimentos do SUS, listado no protocolo nacional — são pedidos de unidade básica, não de ambulatório de especialidade
- Fonte: Spritzer PM, Rev Bras Ginecol Obstet 2009;31(1):41-7 (quem precisa de laboratório e quem pode ser tratada sem ele; painel e limitações do sulfato de deidroepiandrosterona); Febrasgo, Femina 2025;53(12):1390-7 (janela de coleta e suspensão do contraceptivo antes de dosar); Brasil, Ministério da Saúde, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2020 (códigos de procedimento e condições de coleta da 17-hidroxiprogesterona)
Consulta 1, minuto 15 — o que começa hoje, sem esperar exame nenhum
Duas coisas saem desta consulta em qualquer cenário que não seja o de alarme, e as duas são o que faz a paciente voltar. A primeira é a medida local, que não é vaidade nem consolo: nenhum medicamento apaga o fio terminal que já se transformou, e o método local é o único recurso que atua sobre o pelo que já está lá. A segunda é o prazo dito em voz alta — porque a paciente que não ouve o prazo abandona o tratamento no terceiro mês, quando ele ainda não tinha como ter funcionado, e sai convencida de que o caso dela não tem jeito.
Prescrição- Métodos que removem o fio sem reduzir o crescimento: arrancamento, depilação com cera ou creme, lâmina. Clareamento é alternativa útil, sobretudo em pele mais clara. Nenhum deles piora o hirsutismo, e dizer isso desfaz uma crença muito comum
- Eletrólise: destruição lenta e gradual do folículo; com tratamentos repetidos, obtém-se de 15% a 50% de perda permanente. Deve ser feita por profissional experiente, pelo risco de cicatriz e de discromia
- Depilação a laser: atrofia o pelo escuro por fototermólise, e por isso pelos mais claros não respondem do mesmo jeito; o tratamento leva o folículo a repouso temporário que pode durar até dois anos. É o método com resultado mais rápido e mais duradouro entre os locais
- Eflornitina tópica, inibidora da ornitina descarboxilase, teria indicação no hirsutismo localizado de face — mas não consta da Rename 2024, conferido por busca exata, e sua ação é apenas paliativa: o hirsutismo retorna cerca de dois meses depois de interrompida
- Diga o prazo com números, nesta consulta: a melhora do pelo aparece depois de pelo menos 6 a 12 meses de tratamento, e nada será julgado antes de 6 meses. Enquanto isso, a depilação continua
- Fonte: Spritzer PM, Rev Bras Ginecol Obstet 2009;31(1):41-7 (rendimento da eletrólise, comportamento do laser, eflornitina e prazo de retorno); Benetti-Pinto CL, Femina 2019;47(9):535-45 (laser como método local de resultado mais rápido e duradouro; reavaliação não antes de seis meses); Brasil, Ministério da Saúde, PCDT da Síndrome de Ovários Policísticos, 2020 (melhora após pelo menos 6 a 12 meses); Rename 2024 (ausência de eflornitina na lista nacional)
Consulta 1, minuto 20 — o tratamento sistêmico, e a trava que vem antes dele
O tratamento farmacológico do pelo tem duas camadas, e a ordem entre elas é objeto de desacordo honesto entre autores brasileiros — alguns começam pelo contraceptivo combinado e reavaliam em seis meses, associando antiandrogênio se o resultado não for satisfatório; outros indicam a associação desde o início, por eficácia maior em tempo menor. As duas posições concordam no que importa para a segurança: qualquer antiandrogênio exige contracepção eficaz concomitante, sem exceção. Repare no motivo — a mulher com hirsutismo idiopático ovula normalmente, e é justamente ela que teoricamente poderia usar antiandrogênio isolado e justamente ela que tem a maior chance de engravidar durante o tratamento.
Prescrição- Base do tratamento sistêmico: contraceptivo hormonal combinado, respeitada a elegibilidade do capítulo próprio desta apostila. Ele bloqueia o eixo e reduz a produção ovariana de androgênio, e aumenta a globulina carreadora, derrubando a fração livre — duas ações, e por isso é a escolha inicial
- Antiandrogênio associado nos casos moderados a graves. A espironolactona, disponível no Componente Básico em comprimidos de 25 mg e 100 mg, é citada na faixa de 50 a 200 mg ao dia, geralmente 100 mg ao dia — que é 1 comprimido de 100 mg ou 4 de 25 mg. Monitorar potássio sérico, como determina a régua nacional
- O acetato de ciproterona é o antiandrogênio que a régua nacional elege, dispensado no Componente Especializado com o protocolo da síndrome como documento norteador. As doses e os esquemas, com a divergência entre bula e protocolos, pertencem ao capítulo Síndrome dos ovários policísticos desta apostila e não são reabertos aqui. Antes de prescrevê-lo, pergunte e registre história pessoal de meningioma, que é contraindicação absoluta em bula, e programe o controle de bilirrubinas e transaminases aos 8, 15, 30 e 90 dias
- Finasterida: inibidor da 5-alfa-redutase, também com efeito sobre a alopecia androgenética. Existe na rede apenas em comprimido de 5 mg, com indicação em bula urológica; as doses citadas em fonte brasileira vão de 1 mg a 5 mg ao dia — 1 mg exigiria um quinto do comprimido e não é reproduzível pela paciente. Categoria de risco X, contraindicada a quem pode engravidar
- Flutamida não se prescreve: por hepatotoxicidade, foi proibida no país para o tratamento do hirsutismo, e não consta da Rename 2024
- Análogos do hormônio liberador de gonadotrofina não devem ser usados para hirsutismo, salvo situação excepcional: custo elevado e necessidade de reposição estroprogestativa para prevenir osteoporose e sintomas de hipoestrogenismo
- Prescrever fora da indicação em bula — o que vale para espironolactona e finasterida nesta indicação — é decisão que se registra e se explica à paciente, não que se assume calado
- Fonte: Febrasgo, Femina 2025;53(12):1390-7 (espironolactona 100 a 200 mg ao dia, finasterida 2,5 a 5 mg ao dia, associação nos casos mais intensos); Benetti-Pinto CL, Femina 2019;47(9):535-45 (mecanismo do combinado, dose de finasterida de 5 mg e categoria de risco, proibição da flutamida no país, as duas estratégias de sequência); Spritzer PM, Rev Bras Ginecol Obstet 2009;31(1):41-7 (contracepção obrigatória com antiandrogênio, flutamida fora da primeira linha, posição sobre análogos); bula profissional do acetato de ciproterona 50 mg, Bula Padrão Anvisa de 26 de maio de 2021; Rename 2024 (apresentações e componentes de financiamento)
Consulta 1, minuto 25 — a contracepção, que aqui é segurança e não planejamento
Este marco existe separado dos outros de propósito, porque é o único cuja falha produz dano irreversível em terceiro. Os antiandrogênios inibem a diferenciação sexual de fetos masculinos; a espironolactona e seus metabólitos atravessam a barreira placentária, com estudos insuficientes na gravidez e classificação de risco C; a finasterida é categoria X, contraindicada a mulheres grávidas ou que possam engravidar, podendo causar alteração da genitália externa de feto masculino. Não existe versão desta conduta em que a contracepção seja recomendação. Ela é condição.
Prescrição- Escreva na receita, e não apenas na sua cabeça: este medicamento exige método contraceptivo eficaz durante todo o tratamento. Se a paciente recusar contracepção, o antiandrogênio não é prescrito — e essa é uma decisão clínica, não uma punição
- Quando o combinado é a base do tratamento, ele mesmo cobre a contracepção. Quando há contraindicação ou recusa ao estrogênio, o antiandrogênio continua exigindo método — outro método, mas método
- Diga em voz alta a frase que muda a percepção: você ovula normalmente, e é justamente por isso que a proteção é obrigatória enquanto estivermos com este remédio
- Se a paciente estiver em uso ou vier a usar isotretinoína para acne, a exigência contraceptiva passa a seguir a régua do prescritor daquele medicamento, que é mais rigorosa — as duas exigências convivem e nenhuma delas dispensa a outra
- Desejo de engravidar suspende o tratamento sistêmico, ainda que temporariamente. Combine isso antes, para que ela não descubra sozinha e pare por conta no mês em que decidir tentar
- Fonte: Spritzer PM, Rev Bras Ginecol Obstet 2009;31(1):41-7 (antiandrogênios inibem a diferenciação sexual de fetos masculinos e só podem ser usados na vigência de contracepção, inclusive no hirsutismo idiopático); Benetti-Pinto CL, Femina 2019;47(9):535-45 (espironolactona categoria C e passagem placentária; finasterida categoria X); Brasil, Ministério da Saúde, PCDT da Síndrome de Ovários Policísticos, 2020 (exigência de método concomitante em mulheres sexualmente ativas; desejo de gestar como indicação de suspensão)
Semana 3 a 6 — os exames voltam, e a conduta se bifurca
O que volta do laboratório muda o dono do caso, e é aqui que o interno decide se continua tratando ou se entrega. Repare que, em duas das bifurcações, o tratamento do pelo não muda nada — e isso não torna o diagnóstico inútil: ele muda o aconselhamento da família, o que se faz quando ela quiser engravidar e quem acompanha daqui em diante.
Prescrição- Tudo normal, ciclos regulares, hirsutismo isolado: hirsutismo idiopático. Mantenha o que foi prescrito e diga o nome à paciente — é diagnóstico positivo, e ouvir que o exame não achou nada sem ouvir o nome faz a mulher achar que ninguém entendeu o problema dela
- 17-hidroxiprogesterona alterada: hiperplasia adrenal congênita não clássica provável. Encaminhe ao endocrinologista com o valor, a data e a hora da coleta. Mantenha o tratamento do pelo — a resposta ao antiandrogênio é semelhante à do hirsutismo idiopático —, e informe à paciente que se trata de condição genética com implicação para os filhos
- Hiperplasia adrenal confirmada em mulher que consulta por infertilidade: a decisão é do especialista, e a regra que o interno precisa conhecer é que, nessa situação, o glicocorticoide é usado isolado — não se associa antiandrogênio
- Hormônio tireoestimulante ou prolactina alterados: trate ou encaminhe a causa e reavalie o pelo depois. A hiperprolactinemia tem capítulo próprio nesta apostila
- Testosterona acima de 150 ng/dL, ou acima de dois desvios-padrão do valor de referência do método: encaminhamento com urgência e hipótese escrita, com sulfato de deidroepiandrosterona pedido para orientar a imagem entre suprarrenal e ovário
- Ciclos alterados com hiperandrogenismo e exclusão negativa: o caso passa ao capítulo Síndrome dos ovários policísticos desta apostila, e chega lá com a exclusão pronta — que é exatamente o que aquele capítulo exige antes de somar critérios
- Fonte: Brasil, Ministério da Saúde, PCDT da Síndrome de Ovários Policísticos, 2020 (critérios de encaminhamento a serviço especializado); Spritzer PM, Rev Bras Ginecol Obstet 2009;31(1):41-7 (conduta na hiperplasia adrenal não clássica que consulta por hirsutismo; glicocorticoide isolado na infertilidade); Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e Sociedade Brasileira de Dermatologia, Hirsutismo: diagnóstico, 2006/2010 (corte de testosterona para tumor e necessidade de imagem)
Mês 6 a 12 — julgar, escalonar, ou parar de tratar sozinho
Aos seis meses acontece a única avaliação que vale alguma coisa, e ela precisa ser feita pelo mesmo examinador que mediu o primeiro escore, porque a variabilidade entre observadores diferentes torna a comparação inútil. O tratamento farmacológico costuma ser mantido durante a vida reprodutiva, e o crescimento do pelo pode recorrer se ele for descontinuado — a taxa de recorrência do hirsutismo dentro de 6 meses após a suspensão chega a 80%. Diga esse número na primeira consulta, e não nesta.
Prescrição- Repita você mesmo o escore de Ferriman-Gallwey em 6 meses e compare com o número que você anotou na primeira consulta. Escore medido por outra pessoa não é comparável
- Resposta insatisfatória com adesão confirmada, em hirsutismo moderado ou grave: acrescente antiandrogênio ao combinado, com contracepção já garantida. Antes disso, confira o relógio — julgar antes de 6 meses é julgar cedo
- Falta de resposta em quem estava aderente é pergunta diagnóstica antes de ser farmacológica: reabra a exclusão. Reveja se a 17-hidroxiprogesterona foi colhida na condição certa, se ninguém olhou um valor intermediário, e se apareceu algum sinal de alarme no intervalo
- Piora rápida durante o tratamento, em vez de simples ausência de melhora, é outra pergunta: reavalie tumor produtor de androgênio, independentemente do escore
- Encaminhe a serviço especializado quando o diagnóstico não puder ser firmado, quando houver hirsutismo grave, quando houver sinais de virilização ou quando a testosterona estiver acima de dois desvios-padrão do valor de referência do método
- No papel do encaminhamento devem constar cinco coisas: o escore com a data e quem mediu, o tempo de instalação em meses, quais exames voltaram e com quais valores e condições de coleta, o histórico de tratamento com molécula, dose diária e meses de uso, e o que a paciente diz sobre o incômodo hoje
- Fonte: Brasil, Ministério da Saúde, PCDT da Síndrome de Ovários Policísticos, 2020 (recorrência de 80% em até 6 meses após a suspensão; critérios de encaminhamento); Benetti-Pinto CL, Femina 2019;47(9):535-45 (reavaliação não antes de seis meses; manutenção durante a vida reprodutiva); Marcondes JAM et al., Arq Bras Endocrinol Metab 2011;55(1):6-15 (variabilidade entre observadores de até 50%, que torna o escore comparável apenas consigo mesmo)
Como saber se está funcionando
O que se mede aqui é quase todo produzido pela própria paciente, em casa, sem aparelho — e por isso só existe se alguém tiver combinado com ela que anotasse. O parâmetro que governa este capítulo não sai de laboratório nenhum: é quantas vezes por semana ela ainda precisa tirar pelo. Faltando esse número, o retorno inteiro se resume a um adjetivo — e adjetivo não escolhe dose, não justifica troca de esquema e não sustenta encaminhamento.
Os ritmos são diferentes e misturá-los erra nos dois sentidos. Tolerância se pergunta em 30 dias. Pelo se julga entre 6 e 12 meses, nunca antes. E existe um parâmetro que não tem ritmo nenhum, porque precisa ser reavaliado a qualquer momento: a velocidade. Um hirsutismo que piora depressa durante o tratamento não é falha terapêutica — é hipótese nova.
Antes dos parâmetros, a regra que vale para todos. Falta de resposta em quem estava aderente é pergunta diagnóstica antes de ser farmacológica: reabra a exclusão em vez de aumentar a dose.
Esperado: Redução da frequência de remoção — de todo dia para duas vezes por semana, de duas vezes por semana para quinzenal. É o desfecho que a paciente sente, e o único que ela reconhece como melhora
Se não melhora: Confira primeiro o relógio: antes de 6 meses não há o que julgar, porque o fio já transformado não desconverte e só os novos deixam de converter. Confirmada a adesão e passados 6 meses, escale conforme o marco próprio. E guarde a assimetria que o escore esconde: uma paciente cujo escore caiu de 14 para 10 e que continua raspando o queixo todos os dias antes de sair de casa não teve sucesso terapêutico — teve um número melhor
Esperado: Queda no número de fios, na espessura e na extensão das áreas acometidas — resultado que a régua nacional só espera depois de seis a doze meses de tratamento, no mínimo
Se não melhora: Antes de tirar conclusão, veja de quem é o primeiro número. Entre examinadores distintos a discordância alcança metade do valor em certas áreas: partindo de 12, a leitura de outra pessoa cabe em qualquer ponto entre 6 e 18 — faixa que cruza os três cortes brasileiros de uma vez. Se quem mediu antes não foi você, não há comparação a fazer: reabra a série com o seu número e a data de hoje
Esperado: Estabilidade ou melhora lenta. O que se espera é que nada apareça depressa
Se não melhora: Piora rápida durante o tratamento, ou o surgimento de qualquer sinal de virilização que não existia na primeira consulta, reabre a hipótese de tumor produtor de androgênio, independentemente do escore e independentemente de os exames iniciais terem voltado normais. Um tumor pequeno pode não ter atingido o corte de testosterona na primeira dosagem. Repita a testosterona, acrescente sulfato de deidroepiandrosterona e encaminhe
Esperado: Em uso de combinado, sangramento de privação previsível nas pausas. Em quem não usa método hormonal, manutenção dos ciclos regulares que sustentavam o diagnóstico de hirsutismo idiopático
Se não melhora: Ciclo que passa a espaçar em quem tinha ciclos regulares refaz a conta do capítulo inteiro: a paciente que era hirsutismo idiopático pode ter passado a preencher critério de síndrome dos ovários policísticos, e nesse caso o manejo é do capítulo próprio. Amenorreia nova pede teste de gravidez antes de qualquer outra coisa — e lembre que tudo o que este capítulo prescreve é teratogênico
Esperado: Efeitos adversos toleráveis. Com espironolactona, mastalgia, distúrbio menstrual, cefaleia, poliúria e tontura, geralmente associados a doses altas. Com finasterida, redução da libido
Se não melhora: Em uso de espironolactona, monitore potássio sérico, como determina a régua nacional. Em uso de acetato de ciproterona, o controle de bilirrubinas e transaminases aos 8, 15, 30 e 90 dias é exigência de bula, por hepatotoxicidade, e elevação pede suspensão e reavaliação. As condições que mandam suspender o combinado no mesmo dia pertencem ao capítulo Contracepção hormonal combinada desta apostila, e este capítulo não as reabre
Esperado: Método eficaz em uso, conhecido pela paciente e registrado no prontuário — seja o próprio combinado, seja outro método quando há contraindicação ou recusa ao estrogênio
Se não melhora: Método interrompido, falhado ou nunca iniciado suspende o antiandrogênio, e a suspensão não é negociável nem punitiva: o risco é de distúrbio da diferenciação sexual de feto masculino, é do bebê e é irreversível. Se ela manifestar desejo de engravidar, o tratamento sistêmico é suspenso — ainda que temporariamente — e a conversa passa a ser sobre método local e sobre o que a espera na gestação
Esperado: Redução do tempo gasto, do incômodo e da esquiva — que ela volte a usar roupa que evitava, que pare de cobrir o queixo com a mão, que saia de casa sem o ritual
Se não melhora: De todos os itens deste bloco, é o que mais pesa na decisão e o que menos costuma ser perguntado. Melhora objetiva sem melhora referida é indicação de escalonar ou de encaminhar, e o número melhor não desfaz isso. E vale a recíproca: satisfação dela não encerra a vigilância sobre velocidade e sobre ciclo, porque o desfecho que ela não sente é justamente o que a investigação existe para impedir. Se o sofrimento persistir com o quadro cutâneo controlado, ofereça acompanhamento psicológico de suporte — as duas réguas brasileiras o recomendam, e não como cortesia
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que mais consome tempo de vida da paciente, porque o desfecho só aparece um ano depois. A hipertricose é aumento difuso de pelo velus, sem padrão androgênico, e não é causada por aumento na produção de androgênio — de modo que nenhum antiandrogênio tem onde agir. A mulher recebe combinado e antiandrogênio, aceita o risco de trombose e de hepatotoxicidade, faz os controles laboratoriais, espera os seis meses que lhe pediram, espera mais seis, e chega ao fim convencida de que o caso dela é grave e sem tratamento. Frequentemente a conclusão do serviço é a mesma, e ela é encaminhada — o que transporta o erro de classificação para outro nível de atenção.
Como pegar a tempo: Classifique antes de tratar, e a classificação leva trinta segundos: você tem pelo grosso e escuro no queixo, no pescoço, entre os seios, nas costas ou no meio da barriga? Pelo fino e claro em braços, pernas e antebraços, desde a infância, com mãe e irmãs iguais, é hipertricose. Nesse caso o que se investiga é outra lista — a receita em uso, o hormônio tireoestimulante, e as causas nutricionais — e o que se diz à paciente é que o tratamento hormonal não funcionaria nela. Cuidado com o caso híbrido: pelo abundante de sempre não exclui pelo terminal que apareceu depois, e por isso o exame é das nove áreas, não do corpo em geral.
O dano: É o erro que mata, e ele parece razoável. Quem organiza a fila pelo escore encaminha primeiro a mulher de 22 anos com escore 20 desde a adolescência e agenda para daqui a três meses a mulher de 36 anos com escore 12 instalado em cinco meses. A primeira tem uma doença comum que não mata; a segunda pode ter um tumor produtor de androgênio, dos quais mais da metade são malignos. O excesso androgênico das causas comuns é moderado e crônico e produz escore que sobe ao longo de anos; instalar hirsutismo em meses exige concentração alta e recente, e a lista do que faz isso é curta.
Como pegar a tempo: Pergunte desde quando antes de perguntar quanto, e escreva o tempo em meses no prontuário. Três achados tiram a paciente da fila comum e nenhum deles é o número: instalação em meses, início depois da terceira década de vida, e virilização — clitoromegalia, engrossamento da voz, aumento de massa muscular, calvície de padrão masculino. Diante de qualquer um deles, o encaminhamento sai hoje, com a palavra virilização escrita, sem esperar resultado de exame.
O dano: Os antiandrogênios inibem a diferenciação sexual de fetos masculinos; a espironolactona e seus metabólitos atravessam a placenta, sem estudos suficientes na gravidez; a finasterida é categoria de risco X e pode causar alteração da genitália externa de feto masculino. O dano é do bebê e é irreversível. E existe uma inversão cruel neste capítulo: na síndrome dos ovários policísticos, a mulher ovula pouco e o risco de gestação é menor; no hirsutismo idiopático, que é metade dos casos leves a moderados, os ciclos são regulares e ovulatórios e a fertilidade é preservada. Ou seja, a paciente com o quadro mais benigno é a que corre mais risco — e é justamente a que teoricamente poderia usar antiandrogênio isolado.
Como pegar a tempo: Escreva a exigência na receita, e não apenas na sua cabeça: este medicamento exige método contraceptivo eficaz durante todo o tratamento. Diga a frase que muda a percepção da paciente: você ovula normalmente, e é por isso que a proteção é obrigatória enquanto estivermos com este remédio. Recusa de contracepção suspende o antiandrogênio, e isso se registra. Se ela decidir engravidar, o tratamento sistêmico é suspenso — combine isso na primeira consulta, para que ela não pare por conta e sozinha.
O dano: Custa nada cometê-lo e custa três meses descobri-lo. A 17-hidroxiprogesterona acompanha o ritmo circadiano, com pico pela manhã, e sobe fisiologicamente na fase lútea, porque o corpo lúteo a produz. Um pedido sem instrução chega ao laboratório e a paciente colhe no dia em que conseguiu vaga, à tarde, no dia 22 do ciclo. O resultado pode simular hiperplasia adrenal numa mulher perfeitamente normal, e aí a paciente entra numa fila de endocrinologia por um artefato de coleta; ou pode voltar baixo e tranquilizar sem ter direito, porque um exame colhido fora das condições não afasta nada. Some o outro invalidador que ninguém pergunta: contraceptivo hormonal em uso derruba a testosterona e eleva a globulina carreadora, e o painel inteiro volta normal em quem tem hiperandrogenismo.
Como pegar a tempo: Escreva no pedido, com estas palavras: colher em jejum, pela manhã, entre o segundo e o quinto dia do ciclo, sendo o dia 1 o primeiro dia de sangramento; em caso de amenorreia, colher pela manhã em qualquer dia. Pergunte sobre contraceptivo hormonal antes de imprimir o pedido, e decida em voz alta com a paciente entre suspender por três meses com método não hormonal ou adiar a dosagem e tratar primeiro. E lembre o que a coleta certa entrega de graça: abaixo de 2,0 ng/mL, o valor preditivo negativo é próximo de 100% e a pergunta está encerrada.
O dano: O dano é a paciente que some, e ela some no terceiro mês — antes de qualquer tratamento ter tido chance. Todo tratamento sistêmico age reduzindo a fase de crescimento do folículo, o que significa que cada fio precisa entrar nessa fase para que o efeito apareça nele; o fio já transformado não desconverte com medicamento nenhum. A régua nacional situa a melhora depois de pelo menos 6 a 12 meses, e a régua da federação proíbe reavaliar antes de 6 meses. Uma promessa de oito semanas é uma promessa contra o ciclo do pelo, e o que ela produz é uma mulher que conclui que não tem jeito e não volta — inclusive quando aparecer o sinal que importa.
Como pegar a tempo: Diga os números na primeira consulta e não na terceira: a melhora aparece depois de pelo menos seis meses a um ano; nada será julgado antes disso; o remédio impede que fios novos fiquem assim e não desfaz os que já estão; por isso a depilação continua enquanto o remédio trabalha. Acrescente o número do outro lado, porque ele evita a suspensão por conta própria: a recorrência do hirsutismo em até 6 meses depois de parar chega a 80%. E prescreva a medida local desde a primeira consulta — é a única coisa que age no fio que já existe, e é o que sustenta a paciente durante a espera.
O dano: O dano é duplo e os dois lados são graves. Do lado da relação, a frase comunica que a queixa não foi ouvida, e a mulher não volta — inclusive quando aparecer virilização ou quando o pelo começar a andar depressa. Do lado técnico, ela é falsa: a régua da federação de ginecologia registra que a queixa da mulher deve ser valorizada na definição da terapêutica porque o hirsutismo está associado a comprometimento emocional e depressão. Some os números que desmontam a suposição de que sinal fraco é queixa pequena: acne isolada persistente corresponde a síndrome dos ovários policísticos em 20% a 40% dos casos, e alopecia isolada em apenas 10% — os dois sinais que mais motivam consulta são os que menos apontam para doença, e são exatamente os que costumam ser dispensados como estética.
Como pegar a tempo: Separe as duas decisões e diga as duas em voz alta na mesma consulta. O sinal decide o diagnóstico e a investigação; a queixa decide o tratamento. Isso permite dizer, sem contradição, que ela não tem doença nenhuma e que existe tratamento para o que a incomoda. Use uma frase que separa fato de valor: pelo assim não é doença, e o que ele está fazendo com você é problema meu também. E ofereça acompanhamento psicológico de suporte quando o sofrimento persistir — as duas réguas brasileiras o recomendam, e ele é o que sustenta a adesão a um tratamento que só mostra resultado depois de seis meses.
O que dizer ao paciente e à família
São três conversas diferentes e este capítulo precisa das três. Numa você desfaz um susto sem desfazer a disposição da paciente de procurar ajuda outra vez. Noutra você trata do que incomoda uma mulher que não tem doença nenhuma, sem inventar uma. Na terceira você levanta uma hipótese assustadora sem entregar um diagnóstico que ainda não existe.
As três esbarram no mesmo assunto, e é o assunto que o interno costuma contornar por não saber como entrar nele. Dez anos raspando o queixo dia sim, dia não, cobram alguma coisa de qualquer pessoa — e ninguém oferece esse dado de graça. O que destrava é o tom: perguntar do pelo com a mesma naturalidade técnica com que se pergunta de tosse.
E atravessa as três uma frase que precisa sair da sua boca antes de sair da dela: isso não é falta de cuidado seu, é hormônio. A maioria dessas mulheres passou anos achando que era higiene, ou culpa, ou preguiça.
Perguntar sobre o pelo sem constranger, e descobrir o que ela faz com ele
“"Vem uma pergunta meio incômoda agora, e ela faz parte do exame, então me responde com sinceridade. Em algum ponto do corpo o seu pelo é mais grosso e mais escuro do que o resto — no queixo, no pescoço, no meio do peito, nas costas, na barriga? E desses lugares você chega a remover, seja com pinça, com cera, com lâmina ou com laser? De quanto em quanto tempo, e faz quantos anos? O motivo de eu insistir é simples: aquilo que você já tirou eu não enxergo, e é justamente isso que decide o que eu vou investigar e o que eu vou receitar. Aqui não existe resposta errada."”
Não diga: Não passe a mão no rosto dela sem avisar, e não amenize com diminutivo. Responder um está tudo bem logo depois de ela relatar que raspa o queixo em dias alternados avisa que você não escutou — e ela não vai contar duas vezes.
É hipertricose: dizer que não é doença sem dizer que não é nada
“"Vou te explicar o que eu vi, porque tem uma diferença que muda tudo. Existem dois tipos de pelo demais. Um é pelo grosso e escuro em lugar de homem — queixo, peito, meio da barriga —, e esse costuma ser hormonal e tem remédio. O outro é pelo fino e claro espalhado pelo corpo todo, que é o seu caso, e vem de família: é a mesma coisa que a sua mãe e as suas irmãs têm. Esse não é hormonal, e é por isso que eu não vou te dar remédio de hormônio: ele não teria como funcionar em você, e tem riscos. O que funciona para o seu caso é o que age no fio mesmo — cera, lâmina, descolorante, laser. E eu preciso te dizer mais uma coisa: o fato de não ser doença não quer dizer que não incomode. Se está atrapalhando a sua vida, isso é assunto meu também."”
Não diga: Evite terminar em não é nada. A frase encerra a consulta e faz a paciente não voltar — inclusive no dia em que aparecer pelo grosso no queixo. Diga o nome do que ela tem, explique por que o remédio não serve, e combine retorno.
É hirsutismo idiopático: entregar um diagnóstico que os exames não mostram
“"Os exames vieram todos normais, e eu quero que você entenda o que isso significa, porque não significa que não achamos nada. O que você tem tem nome: os hormônios estão na quantidade certa, mas a pele e o pelo respondem mais forte a eles do que na maioria das pessoas. É uma característica sua, não é uma doença nova que apareceu, e é a causa mais comum quando o pelo é assim e a menstruação vem certinha. O tratamento existe e funciona, só que ele age impedindo que fios novos fiquem grossos — não desfaz os que já estão. Por isso demora de seis meses a um ano para você notar, e por isso a depilação continua enquanto isso."”
Não diga: Evite dizer deu tudo normal e parar aí. A mulher que ouve isso conclui que ninguém entendeu o problema dela, e a próxima coisa que ela faz é procurar outro serviço e refazer os exames.
Ela pergunta por que precisa tomar anticoncepcional se não quer engravidar
“"Duas coisas, e elas são diferentes. A primeira: o anticoncepcional aqui não está sendo dado para evitar filho, está sendo dado porque ele reduz o hormônio masculino e prende o que sobra, e é assim que ele age no pelo. A segunda é a parte que eu não posso deixar de falar: o outro remédio, o que a gente pode precisar juntar depois, atrapalha a formação do bebê se você engravidar tomando ele — em menino, isso é permanente. Você menstrua todo mês, o que quer dizer que você ovula normalmente e pode engravidar. Então, enquanto a gente estiver com esse tratamento, a proteção é obrigatória. Se em algum momento você quiser engravidar, você me avisa antes e a gente para o remédio."”
Não diga: Evite tratar a exigência como burocracia ou como desconfiança. Explique o dano concreto e diga por que ela, especificamente, precisa mais disso do que a mulher que menstrua três vezes por ano.
Levantar a hipótese que assusta, sem entregar diagnóstico que não existe
“"Tem uma coisa no que você me contou que eu não posso deixar para depois, e eu prefiro te falar do que te mandar embora com um papel sem explicação. Não é a quantidade de pelo — é a velocidade. Pelo que apareceu em cinco meses, junto com a menstruação parando e a voz mudando, é diferente de pelo que veio devagar desde a adolescência. Na maioria das vezes isso tem explicação simples, e uma delas é o próprio uso de alguma aplicação ou injeção, que eu já te perguntei. Mas existe uma possibilidade menos comum que precisa ser afastada rápido, e é por isso que eu vou pedir exames hoje e te encaminhar hoje, sem esperar o resultado. Não é para você se assustar — é para a gente não perder tempo. Enquanto isso eu não vou te dar remédio para o pelo, e eu te explico por quê: ele melhoraria um pouco e isso atrapalharia a gente enxergar o que está acontecendo."”
Não diga: Evite as duas pontas: dizer a palavra tumor sem contexto e sem plano, e dizer que é só para descartar de um jeito que faça ela não comparecer. Dê a data, o lugar e o próximo passo concreto.
Perguntar sobre implante, chip ou injeção sem acusar
“"Eu vou fazer uma pergunta que eu faço para todo mundo, e não é acusação nenhuma: você já usou, ou usa, alguma aplicação, implante, chip ou injeção — para disposição, para ganhar massa, para emagrecer, para estética? Pode ter sido em academia, em clínica, com alguém conhecido. Eu pergunto porque algumas dessas coisas têm hormônio masculino, e isso explicaria exatamente o que está acontecendo com você. Se for isso, a notícia é boa: a gente para, e o quadro costuma voltar ao normal. E se você não tiver certeza do que era, tudo bem — me conta o que lembrar."”
Não diga: Evite perguntar apenas se ela usa medicamento — a paciente com frequência não classifica a aplicação como medicamento. Nomeie as coisas com as palavras que circulam fora do consultório, e pergunte sem tom de julgamento, porque o tom decide se ela responde.
A hiperplasia adrenal tardia: explicar um diagnóstico genético que quase não muda a receita
“"O exame mostrou uma alteração numa enzima da glândula que fica em cima do rim. É uma condição que a pessoa nasce com ela, só que a forma que você tem é leve e se manifestou tarde — por isso ninguém tinha percebido. Três coisas mudam com esse resultado. A primeira: o tratamento do pelo continua igual ao que a gente já ia fazer, e responde do mesmo jeito. A segunda: como é genética, vale saber que pode aparecer em irmãs e em filhos, e isso a gente conversa com o especialista. A terceira: se você quiser engravidar em algum momento, o cuidado é diferente, e é por isso que eu vou te encaminhar — não é porque ficou grave, é porque tem uma parte disso que não é comigo."”
Não diga: Evite duas coisas de sentidos opostos: dizer que é grave, porque a forma tardia geralmente não é, e minimizar dizendo que não muda nada, porque muda o aconselhamento familiar e muda a rota da fertilidade.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Escore de 8 ou mais, sem ressalva de população
É o que fixa a única régua brasileira dedicada ao hirsutismo, elaborada pelas sociedades de endocrinologia e metabologia e de dermatologia, com elaboração final em junho de 2006 e republicada em periódico indexado em 2010. Ela sugere a classificação semiquantitativa de Ferriman-Gallwey para avaliação inicial e para acompanhamento evolutivo, soma nove áreas de zero a quatro pontos, e afirma que o ponto de corte para definir hirsutismo é 8 — acrescentando que apenas 5% das mulheres pré-menopáusicas apresentam escore superior a esse valor. O mesmo documento registra, em outro parágrafo, que o hirsutismo é significativamente menos prevalente em mulheres asiáticas, mas não faz essa observação modificar o corte que adota.
Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia; Sociedade Brasileira de Dermatologia. Hirsutismo: diagnóstico. Projeto Diretrizes, elaboração final 23 de junho de 2006; reproduzida em Rev Assoc Med Bras. 2010;56(1):1-9
Escore de 6 ou mais na maioria das etnias, e de 4 ou mais nas asiáticas orientais
É a posição da federação brasileira de ginecologia e obstetrícia em seu protocolo mais recente, que descreve o hirsutismo como avaliado e diagnosticado pelo índice de Ferriman-Gallwey quando o somatório for igual ou maior que 6 na maioria das etnias, com exceção das asiáticas orientais — chinesas, japonesas e coreanas —, em que o valor é igual ou maior que 4. O mesmo documento define o pelo terminal que conta: comprimento maior que 0,5 cm e pigmentado, podendo variar forma e textura. É o corte mais baixo em circulação e o único dos três que traz ressalva étnica dentro do próprio critério.
Febrasgo. Síndrome dos ovários policísticos. Femina. 2025;53(12):1390-7, Protocolo Febrasgo de Ginecologia n. 45, seção de manifestações clínicas
Nenhum escore — o hiperandrogenismo clínico se caracteriza pela presença do achado
É a posição das duas réguas do Ministério da Saúde que tratam do assunto, e ela é por ausência conferida, não por omissão presumida: nem o protocolo clínico da síndrome de ovários policísticos nem os Protocolos da Atenção Básica trazem o índice de Ferriman-Gallwey no texto diagnóstico, verificado por busca normalizada no texto integral dos dois. O protocolo nacional caracteriza o hiperandrogenismo clínico pela presença de um ou mais entre acne, hirsutismo e alopecia de padrão androgênico, sem quantificar nenhum deles; o documento da atenção básica manda suspeitar da síndrome diante de ciclos irregulares com sinais de hiperandrogenismo, e nomeia acne, hirsutismo e alopecia androgenética. É a régua que o serviço público efetivamente aplica, e ela transfere a decisão inteira para o julgamento de quem examina.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2020 (Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 6, de 2 de julho de 2019), item de diagnóstico; e Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016
Comece pelas contas, porque elas mostram o tamanho do desacordo. O corte 6 é 25% menor que o 8; o corte 4 é exatamente a metade dele; e a faixa de 6 a 7 — dois pontos de largura num escore que vai de 0 a 36 — é hirsutismo por uma régua brasileira e não é pela outra. Some a isso o que a medida realmente entrega: a variabilidade entre observadores diferentes chega a 50% em algumas áreas, de modo que um escore de 12 medido por outra pessoa pode significar qualquer coisa entre 6 e 18, faixa que atravessa os três cortes. E note o valor exato que pertence a duas classes: a régua que adota 8 ou mais afirma, na mesma página, que só 5% das mulheres têm escore superior a 8 — a paciente com escore exatamente 8 está dentro do critério e fora da estatística que o sustenta. Daí saem três movimentos para a mulher à sua frente. Primeiro, pergunte se este corte está decidindo alguma coisa: se o motivo da consulta é o pelo e o pelo a incomoda, quem decide o tratamento é a queixa — e o protocolo da federação sustenta isso expressamente, ao mandar que a queixa da mulher seja valorizada na definição da terapêutica. O escore, nesse caso, é para acompanhar, e o corte não muda nada. Segundo, quando o número precisa decidir — porque é ele que caracteriza o critério de hiperandrogenismo clínico numa investigação de síndrome —, considere a origem do 8: é o percentil 95 de uma amostra britânica publicada em 1961, e aplicá-lo sem ressalva a uma população miscigenada é fixar o percentil de uma população para todas. Terceiro, pese a direção do erro, que aqui é assimétrica e favorece o corte mais baixo: adotar 8 numa mulher que tem 6 e sofre com isso deixa sem tratamento alguém com queixa legítima e não impede que ela tome hormônio por conta; adotar 6 numa mulher com 6 e sem incômodo não obriga ninguém a tratar. Em qualquer escolha, escreva no prontuário qual corte você usou e por quê, e anote o escore com a data e o seu nome — porque a série só existe se o próximo profissional souber com que régua o primeiro número foi medido.
Pode-se tratar sem avaliação laboratorial mais elaborada
É a posição da revisão brasileira que sistematiza o diagnóstico etiológico do hirsutismo, publicada na revista da federação de ginecologia por autora que integraria, dez anos depois, o grupo elaborador do protocolo nacional da síndrome. Ela afirma que, em pacientes com hirsutismo leve e ciclos regulares, consultando por hirsutismo isolado, o diagnóstico provável é de hirsutismo idiopático e é possível iniciar o tratamento sem necessidade de avaliação laboratorial mais elaborada. A mesma fonte fixa as três condições que derrubam a dispensa: infertilidade associada de causa inexplicada, história dos ciclos que não seja clara, e obesidade de distribuição central.
Spritzer PM. Diagnóstico etiológico do hirsutismo e implicações para o tratamento. Rev Bras Ginecol Obstet. 2009;31(1):41-7, seções de avaliação diagnóstica e conclusões
Hirsutismo leve não deve sequer ser avaliado
É a posição de uma diretriz internacional de sociedade de endocrinologia, e ela chega aqui pela leitura crítica que uma revisão brasileira lhe faz — registro isso porque não li o documento original e a diferença importa. Segundo aquela leitura, a diretriz sugere que pacientes com hirsutismo de grau leve, definido por escore de Ferriman-Gallwey abaixo de 15, não sejam avaliadas, por considerar pequena a possibilidade de identificar etiologia capaz de modificar a conduta terapêutica; o hirsutismo seria avaliado se de grau moderado ou intenso, ou de qualquer grau quando de início súbito, rapidamente progressivo, ou associado a irregularidade menstrual, infertilidade, obesidade central, acantose nigricante ou clitoromegalia. Repare no corte: 15, num escore que vai a 36 — quase o dobro do mais alto dos cortes brasileiros de diagnóstico.
Posição atribuída a diretriz da Endocrine Society, conforme discutida em Marcondes JAM, Barcellos CRG, Rocha MP. Dificuldades e armadilhas no diagnóstico da síndrome dos ovários policísticos. Arq Bras Endocrinol Metab. 2011;55(1):6-15
A exclusão de outras causas é obrigatória antes de qualquer diagnóstico
É a posição normativa das réguas em vigor no país. O protocolo nacional da síndrome de ovários policísticos exclui do protocolo as pacientes que apresentarem outras doenças causadoras de hiperandrogenismo — tumores produtores de androgênio, hiperprolactinemia, síndrome de Cushing, tireopatias, uso de medicamentos associados a hirsutismo e a hipogonadismo, e hiperplasia adrenal congênita — e imprime um quadro de exames para essa exclusão, com o código de cada um na tabela de procedimentos do SUS. A federação de ginecologia sustenta o mesmo desenho, com tabela de diagnóstico diferencial que nomeia a condição a excluir e o exame que responde por ela. Nenhuma das duas gradua a exigência pela intensidade do hirsutismo.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome de Ovários Policísticos, 2020, critérios de exclusão e Quadro 1; Febrasgo, Femina. 2025;53(12):1390-7, Tabela 1
Repare primeiro no que as três posições não disputam, porque isso resolve metade dos casos: nenhuma delas dispensa avaliação diante de sinal de alarme. Instalação rápida, início depois da terceira década e virilização mandam investigar em qualquer das três, e a terceira posição acrescenta irregularidade menstrual, infertilidade, obesidade central, acantose nigricante e clitoromegalia à mesma lista. A divergência real é estreita e tem endereço: a mulher com hirsutismo leve a moderado, ciclos regulares, sem alarme, sem obesidade central e sem infertilidade. Para ela, três leituras decidem. A primeira é sobre o que se perde ao não dosar: nessa paciente, a causa mais provável é o hirsutismo idiopático, cujo tratamento não muda com o resultado; mas a hiperplasia adrenal não clássica responde por 2% a 10% das mulheres que consultam por hirsutismo — 7,4% no sul do Brasil — e alguns de seus casos se apresentam exatamente assim, como hirsutismo isolado com ciclos regulares. O que se perde não é o tratamento do pelo, que seria o mesmo; é o aconselhamento familiar e a rota da fertilidade. A segunda leitura é sobre o custo real do exame no Brasil: a 17-hidroxiprogesterona tem código na tabela de procedimentos e é pedido de unidade básica, não de ambulatório de especialidade — o que enfraquece consideravelmente o argumento de rendimento diagnóstico baixo que sustenta a segunda posição, construído em outro sistema de saúde. A terceira é sobre o dano de dosar: ele existe e não é zero, e é o valor limítrofe colhido fora das condições certas, que produz fila de endocrinologia por artefato de coleta. A saída que este capítulo sustenta, sem declarar vencedor, é separar as duas decisões: comece o tratamento hoje, pela queixa, sem esperar exame — nisso as três posições permitem —, e peça o exame com a instrução de coleta escrita, porque um único valor abaixo de 2,0 ng/mL colhido pela manhã na fase folicular tem valor preditivo negativo próximo de 100% e encerra a pergunta de vez. E registre no prontuário qual das três posições você adotou, porque a próxima consulta pode ser com alguém que adota outra.
Basal acima de 5 ng/mL confirma; pós-estímulo acima de 10 a 12 ng/mL é diagnóstico
É o que fixa a régua brasileira dedicada ao hirsutismo: o diagnóstico clínico da forma não clássica por deficiência de 21-hidroxilase é confirmado pela medida da 17-hidroxiprogesterona sérica basal com valores acima de 5 ng/mL e/ou após teste de estímulo com corticotrofina em solução aquosa, 0,25 mg por via intramuscular ou endovenosa, iniciando entre sete e nove horas da manhã, com dosagem de 17-hidroxiprogesterona e cortisol nos tempos zero e sessenta minutos se a administração for intramuscular, ou zero, trinta e sessenta se for endovenosa. Valores plasmáticos pós-estímulo acima de 10 a 12 ng/mL são diagnósticos.
Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia; Sociedade Brasileira de Dermatologia. Hirsutismo: diagnóstico. Projeto Diretrizes, 2006; Rev Assoc Med Bras. 2010;56(1):1-9. O mesmo desenho aparece em Spritzer PM, Rev Bras Ginecol Obstet. 2009;31(1):41-7
Basal de 4,0 ng/mL para máxima especificidade, e de 2,0 ou 3,0 ng/mL se a coleta saiu das condições
É a posição que a revisão brasileira de endocrinologia adota ao comparar os consensos, atribuindo-a ao critério mais frequentemente empregado na literatura: uma concentração basal de 4,0 ng/mL tem a máxima especificidade e o máximo valor preditivo positivo para a forma não clássica, se colhida no período da manhã e na fase folicular do ciclo menstrual; para amostras colhidas fora dessas condições, um limite de corte menor deve ser considerado, de 2,0 ou 3,0 ng/mL. A mesma fonte registra que uma concentração basal abaixo de 2,0 ng/mL tem valor preditivo negativo próximo de 100%, e adverte que o corte depende da população estudada, citando limite de 1,7 ng/mL demonstrado para a população espanhola.
Marcondes JAM, Barcellos CRG, Rocha MP. Dificuldades e armadilhas no diagnóstico da síndrome dos ovários policísticos. Arq Bras Endocrinol Metab. 2011;55(1):6-15, seção de diagnóstico diferencial
O corte pós-estímulo brasileiro é mais alto: 17,0 ng/mL, por genotipagem
É a posição que a própria régua dedicada ao hirsutismo registra logo depois de adotar o corte clássico, e ela tem origem nacional: estudos com genotipagem molecular em pacientes brasileiros observaram que a menor concentração de 17-hidroxiprogesterona pós-estímulo obtida em pacientes com a forma não clássica e genótipo definido foi de 17 ng/mL. A revisão de endocrinologia acrescenta o contexto que explica a diferença — o corte clássico acima de 10 ng/mL tem origem num nomograma em que o diagnóstico se baseou em tipagem do sistema HLA, e novos valores foram propostos com o advento da biologia molecular.
Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia; Sociedade Brasileira de Dermatologia. Hirsutismo: diagnóstico, 2006/2010, com atribuição a Bachega e colaboradores; contexto metodológico em Marcondes JAM et al., Arq Bras Endocrinol Metab. 2011;55(1):6-15
As contas primeiro. Entre 4 e 5 ng/mL há 25% de diferença; entre 2 e 5, uma diferença de 2,5 vezes. No pós-estímulo, 17 é 70% acima de 10 e 42% acima de 12 — e a faixa entre eles é exatamente onde caem as pacientes duvidosas, de modo que a escolha do corte decide o diagnóstico de quem está no meio. Em unidade internacional, 2, 4, 5, 10 e 17 ng/mL equivalem a cerca de 6,1, 12,1, 15,1, 30,3 e 51,4 nmol/L, e vale conferir a unidade do seu laudo antes de comparar qualquer coisa. Agora repare no que as três posições concordam, porque é isso que resolve a consulta: todas exigem coleta pela manhã e na fase folicular, e todas aceitam que um basal abaixo de 2,0 ng/mL tem valor preditivo negativo próximo de 100%. Ou seja, a divergência não toca a maioria das pacientes — ela só existe para quem cai na faixa intermediária. Três movimentos para o caso concreto. Primeiro, garanta a condição de coleta antes de discutir corte: um exame colhido à tarde ou na fase lútea não pertence a nenhuma das três réguas, e adotar o corte mais baixo para compensar má coleta é trocar um erro por outro. Segundo, use a faixa e não o ponto: abaixo de 2,0, encerre; acima de 5,0, encaminhe; entre 2,0 e 5,0, encaminhe também, porque quem decide o teste de estímulo e o interpreta é o endocrinologista — e é justamente aí que a terceira posição passa a valer, já que o corte pós-estímulo que se vai aplicar é decisão de quem realiza o teste. Terceiro, guarde a advertência de população que a segunda posição faz explicitamente: os cortes foram calibrados em populações diferentes, e não há um valor validado para a população brasileira. Escreva no encaminhamento o valor, a data, a hora da coleta e o dia do ciclo — sem esses quatro dados, o especialista repete o exame, e a paciente perde outro ciclo.
O raciocínio, em voz alta
Elza Estanislau tem 27 anos, trabalha na lavanderia de um hospital e chegou ao ambulatório da unidade básica trazendo uma queixa única — o pelo do rosto. Tem 1,60 m e 58 kg. Diz que arranca com pinça o queixo e o pescoço todo dia antes do turno, e que faz cera no buço a cada duas semanas. Não trouxe exame nenhum. É a primeira vez que ela procura serviço de saúde por isso, e ela conta que veio porque a supervisora perguntou, na frente das colegas, se ela estava usando alguma coisa.
O que a queixa já define, antes da primeira pergunta
Uma mulher jovem, magra, que vem por pelo em região de padrão masculino. Isso já fixa a rota — a consulta é de hiperandrogenismo — sem fixar diagnóstico nenhum. A lista de causas é curta e tem uma ordem de frequência que eu já conheço: síndrome dos ovários policísticos e hirsutismo idiopático dominam, hiperplasia adrenal de manifestação tardia responde por 2% a 10%, e tumor é raro. Anoto também o que ela me contou sem perceber: nunca procurou serviço por isso, e veio depois de um constrangimento público. Isso me diz que o sofrimento é antigo e que a adesão depende de eu levar a queixa a sério hoje.
Duas perguntas que decidem a rota inteira
Primeira: quantas vezes você menstruou nos últimos doze meses? Ela responde sem contar nos dedos — todo mês, entre 28 e 30 dias, desde os treze anos, e ela sabe porque anota. Nunca usou pílula. Segunda: desde quando você tira pelo desses lugares? Desde os quinze anos, mais ou menos, e foi piorando devagar. Nada mudou depressa em nenhum momento. Com essas duas respostas eu já sei muita coisa: ciclos regulares afastam o critério de disfunção ovulatória, e a instalação lenta desde a puberdade afasta o que mais assusta. Falta uma pergunta que não é sobre o pelo: você já usou alguma aplicação, implante, chip ou injeção para disposição, massa muscular ou estética? Nunca.
O exame que faço na mesma consulta, e o que registro dele
Peço licença e percorro as nove áreas. No buço restam fios terminais mesmo dez dias depois da cera; queixo e mandíbula têm pelo grosso e escuro apesar de arrancados de manhã; o pescoço está acometido; na linha média do abdome há pelo terminal subindo do púbis à cicatriz umbilical; entre as mamas, alguns fios. Dorso livre. Escore 9. Sem clitoromegalia, sem alteração de voz, sem calvície temporal, sem acantose nigricante. Pressão 112 por 74 mmHg, cintura 74 cm, índice de massa corporal 22,7. Escrevo no prontuário o número, a data e o meu nome, e escrevo qual corte adotei — porque o escore 9 é hirsutismo pelas três leituras brasileiras, mas o próximo profissional precisa saber com que régua ele foi medido.
Onde eu estou, e o que ainda não está decidido
Tenho hirsutismo confirmado, moderado, de instalação lenta, em mulher com ciclos regulares e sem alarme nenhum. As duas hipóteses mais prováveis são hirsutismo idiopático e hiperplasia adrenal de manifestação tardia — e elas são clinicamente indistinguíveis, porque a forma tardia pode se apresentar exatamente assim, como hirsutismo isolado com ciclos regulares. Repare no que a régua permite aqui: hirsutismo leve com ciclos regulares poderia ser tratado sem painel elaborado. O dela não é leve, é escore 9 e a incomoda todos os dias — o que a coloca na faixa em que a avaliação hormonal está indicada.
O que peço, com que instrução, e o que deliberadamente não peço
Peço testosterona total, globulina carreadora de esteroides sexuais, 17-hidroxiprogesterona, prolactina e hormônio tireoestimulante com tiroxina livre. Escrevo no pedido, com estas palavras: colher em jejum, pela manhã, entre o segundo e o quinto dia do ciclo, sendo o dia 1 o primeiro dia de sangramento. Não peço sulfato de deidroepiandrosterona, porque não há suspeita de tumor adrenal. Não peço androstenediona, não peço relação entre hormônio luteinizante e folículo-estimulante, não peço insulina de jejum, e não peço ultrassonografia — e escrevo no prontuário por que não pedi imagem: ela não tem critério de disfunção ovulatória, então a morfologia ovariana não decidiria nada.
O que sai da consulta hoje, sem esperar resultado nenhum
Pergunto o quanto isso atrapalha a vida dela, com essas palavras. Ela chora, o que responde a pergunta. Prescrevo contraceptivo hormonal combinado depois de conferir a elegibilidade pela régua do capítulo de contracepção — ela não tem contraindicação —, entrego três cartelas para não esbarrar em receita vencida, e explico que ele age reduzindo a produção de hormônio masculino e prendendo o que sobra. Mantenho a depilação e explico por quê: o remédio impede que fios novos fiquem grossos e não desfaz os que já estão. E digo os números que evitam o abandono: nada será julgado antes de seis meses, a melhora aparece entre seis meses e um ano, e a depilação continua o tempo todo. Marco retorno em 30 dias para tolerância e adesão.
O resultado chega e muda o nome, sem mudar a receita
Testosterona total 62 ng/dL, dentro da faixa do método. Globulina carreadora normal. Prolactina normal. Hormônio tireoestimulante e tiroxina livre normais. E a 17-hidroxiprogesterona basal, colhida às 7h40 do terceiro dia do ciclo: 6,4 ng/mL. Acima do corte de 5 ng/mL da régua brasileira dedicada ao hirsutismo, e bem acima do corte de 4,0 ng/mL de máxima especificidade. A instrução de coleta que eu escrevi é o que torna esse número interpretável — colhido às três da tarde do dia 22, ele não valeria nada.
A armadilha em que eu quase caio
O caminho fácil seria concluir que, como o tratamento do pelo é o mesmo, o resultado não muda nada, e seguir. É verdade que a resposta ao antiandrogênio na forma não clássica é semelhante à do hirsutismo idiopático, e é verdade que eu não vou trocar a receita hoje. Mas três coisas mudam, e nenhuma delas é a receita. É uma doença genética, e as irmãs e as filhas dela entram na conversa. Se ela quiser engravidar, o cuidado é outro — e, nessa situação, se houver indicação de glicocorticoide, ele será usado isolado, sem antiandrogênio associado. E a decisão sobre glicocorticoide é individualizada, com teste de estímulo, e não é minha.
O encaminhamento, e o que precisa estar escrito nele
Encaminho à endocrinologia com quatro dados que o especialista não pode adivinhar: valor de 6,4 ng/mL, data, hora da coleta (7h40) e dia do ciclo (terceiro). Acrescento o escore com a data e o meu nome, o tempo de instalação (doze anos, lento), que os ciclos são regulares, e o que já foi prescrito. Sem esses dados, o exame é repetido e ela perde outro ciclo. Mantenho o combinado — o encaminhamento não suspende o tratamento — e explico a ela o que vai acontecer do outro lado, para que não ouça pela primeira vez na fila: vão pedir um teste com uma injeção, de manhã, para confirmar.
Como vou saber se funcionou
Aos 30 dias eu checo três coisas: se ela tolerou, se está tomando, e se a proteção contraceptiva está de pé — porque, se aos seis meses eu somar antiandrogênio, ela já precisa estar coberta, e ela ovula todo mês, o que a coloca no grupo de maior risco. Aos 6 meses eu mesmo refaço o escore, e faço questão de ser eu: entre examinadores diferentes a discordância chega à metade do valor, então um número de outra pessoa não serve de comparação. Fecho como fecho toda consulta, com o vocabulário dela: e agora, quantas vezes na semana você está precisando arrancar? Um escore que desceu de 9 para 6 numa mulher que segue arrancando antes de cada turno não é vitória — é sinal de que está na hora de escalar.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do retorno de Elza: após poucas semanas os pelos visíveis continuam, mas ela tolera o tratamento. Explicar o tempo do ciclo do pelo e combinar avaliação no prazo adequado, mantendo opções cosméticas. Não aumentar doses apenas porque o efeito ainda não apareceu.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se a evolução acelera ou surgem voz mais grave e outros sinais de virilização, reavaliar com prioridade e investigar fontes de androgênio além das causas comuns. Um resultado antigo normal não explica uma mudança clínica recente. A velocidade muda o percurso, mesmo que o escore ainda seja moderado.
Faça você
Ivanice Cordolino tem 34 anos, é auxiliar de produção numa fábrica de calçados, tem 1,66 m e 79 kg. Foi trazida ao ambulatório da unidade básica pela enfermeira que a acolheu, com uma linha só rabiscada na guia: paciente refere aumento de pelos. Na conversa, ela conta que sempre teve buço e algum pelo na barriga, desde a adolescência, mas que no último ano isso mudou — o queixo passou a exigir lâmina, o que nunca tinha acontecido, e as costas e o abdome ficaram com pelo escuro. Menstruou pela última vez há sete meses; antes disso, os ciclos vinham a cada 32 a 40 dias, o que ela chamava de meio irregular desde sempre. Não usa nem nunca usou método hormonal. Fez uma cirurgia bariátrica há dois anos e perdeu 31 kg; nos últimos oito meses, recuperou 6 kg. Ela conta ainda, quando você pergunta, que uma colega da fábrica indicou uma profissional que aplica um implante para disposição e ânimo, e que ela colocou esse implante há dez meses, na coxa; não sabe o nome, não tem receita, e diz que foi ótimo porque ela ficou mais forte na esteira. A voz dela é grave, e ela diz que a filha reclama disso desde o começo do ano.
Passo 1 — separe o que é antigo do que é novo
Duas histórias sobrepostas, e elas não têm o mesmo peso. Há um pelo de sempre — buço e abdome desde a adolescência, ciclos de 32 a 40 dias desde sempre — e há um pelo do último ano, no queixo, nas costas e no abdome. Escreva na sua cabeça as duas linhas do tempo em separado, porque a que decide é a segunda. E some o que mais mudou no mesmo intervalo: sete meses sem menstruar, e uma voz que a filha diz que mudou.
Passo 2 — as perguntas que faltam, e o que você espera de cada uma
Faltam perguntas de três naturezas. Sobre o implante: quando exatamente, o que ela sentiu depois, alguém disse o que era, houve mais de uma aplicação, ela pretende repetir. Sobre o corpo: mudou alguma coisa no clitóris, na força, na distribuição da musculatura, no cabelo da cabeça? Sobre o antes: nos anos anteriores à cirurgia, com 110 kg, como eram os ciclos e como era o pelo? Cada resposta desloca a chance de uma hipótese distinta, e nenhuma cobra um centavo de laboratório.
Passo 3 — o exame, e o que você precisa procurar de propósito
Ao exame: escore de Ferriman-Gallwey 16, com pelo terminal em buço, queixo, mandíbula, pescoço, tórax entre as mamas, dorso superior e inferior, abdome superior e linha média. Rarefação capilar frontal, que ela atribui à cirurgia. Voz grave. Sem estrias purpúreas, sem face em lua cheia. Pressão 128 por 82 mmHg, cintura 96 cm, índice de massa corporal 28,7. Você examinou o clitóris? Se não examinou, essa é a lacuna do seu exame — e é a que mais muda a leitura do caso.
Passo 4 — a decisão é sua
Some tudo: hirsutismo antigo que piorou no último ano, amenorreia de sete meses, voz alterada, rarefação capilar, um implante de composição desconhecida colocado há dez meses, e um histórico de ciclos longos desde sempre com obesidade prévia. Você trata o pelo hoje? Você pede quais exames, e com que instrução de coleta? Você encaminha, para onde, e com que palavra escrita na guia? O que você diz a ela sobre o implante, e o que você pede que ela faça com ele? E qual é a única coisa que você não pode fazer nesta consulta, mesmo que ela peça? Anote o que faria, em quanto tempo, e o que deixaria escrito — só então leia a resposta.
Ver como fecharíamos
Este caso existe porque ele tem duas doenças plausíveis empilhadas e uma armadilha de conduta, e as três precisam ser separadas. Comece pelo que é alarme, porque ele governa tudo o mais. Há três gatilhos presentes ao mesmo tempo: piora rápida de um hirsutismo antigo no último ano; início da piora depois da terceira década de vida, aos 33; e virilização, com voz alterada e rarefação capilar de padrão frontal. Qualquer um dos três, isolado, já tiraria a paciente da fila comum; os três juntos fazem desta uma consulta de encaminhamento, e não de prescrição. E existe uma lacuna no seu exame que precisa ser fechada nesta mesma consulta: clitoromegalia é o sinal de virilização mais específico e o menos examinado, e a ausência dele no registro não é a mesma coisa que a ausência dele na paciente. Agora as duas hipóteses. A primeira, e a mais provável dado o que ela contou, é androgênio administrado de fora. Um implante de composição desconhecida, colocado há dez meses por alguém sem receita, seguido de aumento de força, é o retrato do implante hormonal com androgênio — e a régua da federação de ginecologia lista o uso de substâncias androgênicas na mesma linha dos tumores secretores, na tabela de diagnóstico diferencial, exatamente porque produzem o mesmo quadro. A boa notícia dessa hipótese é o desfecho: o quadro costuma regredir com a suspensão da fonte. A segunda hipótese é tumor produtor de androgênio, ovariano ou adrenal, e ela não pode ser afastada pelo fato de a primeira ser plausível — porque o laboratório não distingue as duas: uma testosterona altíssima por implante e uma testosterona altíssima por tumor de células de Sertoli-Leydig são o mesmo número. Há ainda uma terceira leitura ao fundo, e ela é a que mais engana: os ciclos longos de sempre, a obesidade prévia e o hirsutismo antigo compõem um quadro compatível com síndrome dos ovários policísticos de longa data, cujos critérios e manejo são do capítulo próprio desta apostila. Ela pode perfeitamente ter isso. O que ela não pode é ter só isso, porque nada na síndrome explica uma voz que muda em um ano. Conduta. Peça hoje, na mesma requisição: testosterona total, sulfato de deidroepiandrosterona — que aqui tem indicação, porque há suspeita de tumor adrenal e é ele que orienta a imagem entre suprarrenal e ovário —, 17-hidroxiprogesterona, prolactina, hormônio tireoestimulante com tiroxina livre e beta-hCG, obrigatório porque há amenorreia. Instrução de coleta: pela manhã, em jejum; como há amenorreia, não há dia de ciclo a esperar, e isso simplifica. Encaminhe hoje, sem aguardar resultado, com a palavra virilização escrita na guia — não hirsutismo —, com o tempo em meses, com o que mudou além do pelo e com a informação do implante. O documento da atenção básica manda exatamente isso diante de amenorreia de início com virilização e hirsutismo, e manda atentar para sinais sistêmicos como perda de peso e aumento de volume abdominal. Sobre o implante: oriente que não seja reaplicado, registre no prontuário tudo o que ela souber dizer sobre ele, e explique que a remoção ou não da fonte é decisão que precisa ser discutida no serviço para onde ela vai — não improvise retirada em unidade básica. E a única coisa que você não pode fazer, mesmo que ela peça, é prescrever contraceptivo combinado ou antiandrogênio para o pelo nesta consulta. O motivo não é burocrático: essa prescrição produz melhora parcial, porque suprime a produção ovariana normal por cima da fonte anormal, e essa melhora parcial convence os dois lados de que a conduta está certa. É o mecanismo pelo qual um tumor cresce durante meses de tratamento aparentemente bem-sucedido. Diga isso a ela em voz alta, porque uma mulher que veio pedir tratamento e sai sem receita precisa entender por que — e a frase que funciona é que o remédio melhoraria um pouco e atrapalharia a gente a enxergar o que está acontecendo. Registre, por fim, o que ficou combinado e o que ficou pendente: o exame do clitóris feito nesta consulta, o escore com a data e o seu nome, o tempo em meses, a data do implante, e o retorno para trazer o resultado, com a orientação explícita de que ela procure antes se algo piorar.
O que decide aqui não é a quantidade de pelo, é a velocidade — e há três gatilhos de alarme simultâneos: instalação em cinco meses, início depois da terceira década de vida e virilização, com alteração da voz. O excesso androgênico das causas comuns é moderado e crônico e produz escore que sobe ao longo de anos; instalar hirsutismo em meses exige concentração alta e recente, e a lista do que produz isso é curta — tumor produtor de androgênio, dos quais mais da metade são malignos, e androgênio administrado de fora. Prescrever combinado enquanto se espera a vaga é a pior conduta possível, porque a melhora parcial que ele produz convence os dois lados de que a conduta está certa e compra meses de crescimento tumoral. Nos Protocolos da Atenção Básica, o Ministério da Saúde manda, com todas as letras, encaminhar com urgência quando amenorreia começa acompanhada de virilização e hirsutismo, sob suspeita de neoplasia ovariana ou adrenal. A comparação com a paciente de 23 anos serve para o contraste: quem tem muito mais pelo é justamente quem não tem doença, porque pelo fino e claro difuso desde a infância é hipertricose.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Escreva de memória, sem consultar: (1) a diferença entre hirsutismo e hipertricose, com a pergunta de trinta segundos que separa as duas e a consequência prática de errar; (2) os três achados que tiram a paciente da fila comum, e por que nenhum deles é o escore; (3) os três cortes brasileiros do índice de Ferriman-Gallwey, com o que cada documento diz sobre etnia, e quanto vale a variabilidade entre observadores diferentes; (4) o painel de exames com a instrução de coleta escrita, dizendo em que dia do ciclo e em que hora, e o que invalida o painel inteiro; (5) o corte de testosterona que dispara investigação de tumor, e por que um valor abaixo dele não tranquiliza quem virilizou em cinco meses; (6) o que muda e o que não muda quando a 17-hidroxiprogesterona confirma hiperplasia adrenal de manifestação tardia. Só depois de escrever tudo é que você abre as tabelas para conferir. Termine auditando o serviço onde você está hoje: separe cinco requisições de 17-hidroxiprogesterona emitidas ali e responda a uma pergunta única — em quantas delas alguém anotou o dia do ciclo e o horário da coleta? Aplicação comentada: Piora rápida com voz engrossada não deve ser tratada apenas como problema cosmético; investigue fonte androgênica relevante.
Em 30 dias
Volte ao caso de Elza. Altere um dado por vez e diga em voz alta como isso reescreve a primeira consulta: e se o pelo tivesse surgido ao longo de quatro meses, e não de doze anos; se ela tivesse 41 anos e nada antes dos 40; se a 17-hidroxiprogesterona tivesse voltado 1,3 ng/mL; se tivesse voltado 3,2 ng/mL; se a testosterona tivesse voltado 180 ng/dL; se ela estivesse em uso de pílula há sete anos no dia da coleta; se ela quisesse engravidar este ano; se o escore fosse 6 em vez de 9. Depois faça o mesmo com Ivanice, mudando um dado por vez: sem o implante na história; com clitoromegalia ao exame; com sulfato de deidroepiandrosterona muito elevado; com testosterona de 95 ng/dL. Encerre escrevendo, em quatro linhas, o que você diria a uma jovem de 23 anos cujo pelo dos membros é fino e claro desde criança, escore 1, que chega pedindo hormônio — e diga que ela não tem doença sem dar a entender que não é nada. Depois repita a explicação em voz alta, cronômetro ligado, até que ela caiba em trinta segundos.
Agora atenda
Atenda agora a primeira consulta deste capítulo. Sentada diante de você há uma queixa de quatro palavras capaz de significar cinco coisas distintas, e nenhum exame trazido. Reproduza a sequência que o capítulo sustenta, nesta ordem: descobrir o que ela faz com o pelo antes de encostar nela; separar pelo terminal de padrão masculino de pelo velus difuso antes de mencionar tratamento; perguntar desde quando, em meses, antes de perguntar quanto; e só então medir as nove áreas e registrar o escore com a data e o seu nome. Pergunte diretamente sobre aplicação, implante, chip ou injeção — com essas palavras, sem tom de julgamento. Se pedir exame, escreva a instrução de coleta no pedido, com o dia do ciclo e a hora. Pergunte o quanto o pelo atrapalha a vida dela, e decida o tratamento por essa resposta e não pelo número. Quatro armadilhas esperam por você: tratar hipertricose com antiandrogênio; hierarquizar a urgência pela quantidade de pelo; prescrever antiandrogênio sem garantir contracepção numa mulher que ovula bem; e encerrar a consulta com a frase é só estética.
