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Ginecologia e ObstetríciaGinecologia

São dois, e a pasta é de um só

Infertilidade conjugal: investigação básica do casal

Metade dos casais que não engravidam tem participação masculina na causa, e o exame que responde por essa metade é o mais barato e o menos invasivo de toda a investigação — mesmo assim, chega ao ambulatório uma mulher com treze exames e um homem com nenhum. A régua nacional manda a ordem contrária da que os serviços seguem, e os valores de referência do espermograma que os documentos brasileiros imprimem são de uma edição revisada em 2021.

Fontes deste capítulo

Lamaita RM, Amaral MC, Cota AM, Ferreira MC. Propedêutica básica da infertilidade conjugal. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo); 2018 (Protocolo Febrasgo – Ginecologia, nº 46/Comissão Nacional Especializada em Reprodução Humana). Impresso em Femina. 2020;48(5):311-5

Belo Horizonte. Prefeitura Municipal. Secretaria Municipal de Saúde. Diretoria de Assistência à Saúde. Protocolo Infertilidade Conjugal. Belo Horizonte, 2022. 29 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 230 p. ISBN 978-85-334-2360-2. Aprovado pela Portaria GM/MS n. 679, de 2 de junho de 2016

World Health Organization. WHO laboratory manual for the examination and processing of human semen. 6th ed. Geneva: WHO; 2021. ISBN 978-92-4-003078-7 (versão eletrônica)

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024

01

Responda antes de ler

Um casal chega ao ambulatório com dois anos e três meses de tentativa de gravidez. A pasta traz cinco exames de imagem, quatro dosagens hormonais e um pedido de histerossalpingografia agendado — todos dela. Ele, de 37 anos, está no corredor e nunca fez exame nenhum, porque "o encaminhamento era dela". Ela tem 34 anos e ciclos regulares de 29 a 30 dias. Qual é o passo que reorganiza esta consulta?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, nove e dez, ambulatório de ginecologia num hospital-escola de cidade média. A agenda de hoje traz a palavra infertilidade no cabeçalho, e a preceptora atravessa a sala com duas pastas, larga as duas em cima do computador e some para a porta ao lado sem parar de falar: uma pasta é grossa, a outra está vazia. A grossa é de Lauriene Tibucheski, 34 anos, auxiliar de laboratório de análises clínicas, e tem cinco exames de imagem, quatro folhas de dosagem hormonal e um pedido de histerossalpingografia agendado para dali a três semanas. A vazia é de Ronildo Sartorelli, 37 anos, motorista de aplicativo, que é o marido dela e que está sentado na cadeira do corredor porque, segundo ele mesmo diz quando você abre a porta, "o encaminhamento era dela".

Eles tentam engravidar há dois anos e três meses. Lauriene menstrua a cada 29 ou 30 dias desde os 13, sem dor que a tire do trabalho, sem sangramento fora de época; nunca engravidou, nunca fez cirurgia no abdome, nunca teve corrimento tratado como infecção pélvica. Tomou pílula combinada dos 20 aos 31 e parou porque decidiram tentar. Pesa 74 quilos para 1,61 metro. Não fuma. Bebe cerveja no fim de semana, com o marido. Nos dois anos, foi a quatro consultas em três serviços diferentes, e sai de cada uma com um pedido novo: a primeira ultrassonografia transvaginal, depois a segunda, depois o painel hormonal do terceiro dia do ciclo, depois o hormônio antimülleriano, que ela pagou do próprio bolso porque o laboratório do convênio do marido não fazia e a unidade não pedia.

Ronildo nunca fez exame nenhum. Ninguém pediu, e ele também não perguntou. Quando você o chama para dentro da sala — e essa é a primeira coisa que este capítulo pede que você faça —, ele senta na ponta da cadeira, com a chave do carro na mão, e diz duas frases antes de qualquer pergunta. A primeira é que ele tem um filho de doze anos de um relacionamento anterior, dito com o tom de quem já apresentou o comprovante. A segunda é que não tem problema nenhum, porque "funciona tudo". Nenhuma das duas é resposta para a pergunta que interessa hoje, e o capítulo inteiro está contido nessa distância: um homem que teve um filho aos 25 não é o mesmo homem aos 37, e um homem que ejacula normalmente não é um homem cujo ejaculado tem espermatozoides.

Há ainda um dado que não estava em nenhuma das duas pastas, e que só aparece quando se pergunta com todas as letras: Ronildo trabalha das seis da tarde às quatro da manhã, seis dias por semana, e dorme enquanto Lauriene está no laboratório. Eles têm relação sexual duas vezes por mês, no domingo, quando o horário dos dois se cruza. Em vinte e sete meses de tentativa, ninguém tinha perguntado isso. Havia treze folhas de exame na mesa e nenhuma linha sobre a única variável que os dois controlam sozinhos.

Este capítulo é sobre o que se faz com um casal assim numa consulta de trinta minutos. Ele tem um eixo, e o eixo não é uma lista de causas: é que a infertilidade se investiga em duas pessoas, com quatro perguntas e um punhado pequeno de exames, e que o erro brasileiro característico não é pedir exame errado — é pedir todos os exames de um dos dois e nenhum do outro. O que segue é a investigação mínima, o que cada peça dela responde, o que ela explicitamente não responde, o que não se pede e por quê, o que se faz antes de qualquer exame, e o que a rede pública oferece quando a investigação termina.

03

Quem adoece disso

A infertilidade conjugal está presente em 15% a 20% dos casais, e é assim que abrem tanto o protocolo da federação brasileira de ginecologia quanto o protocolo municipal de Belo Horizonte que organiza a rede pública de uma capital inteira. A repartição das causas é o número que deveria governar a conduta: fator feminino em 35% dos casais, fator masculino em 30%, fator dos dois parceiros em 20%, e 15% sem causa aparente mesmo depois de toda a propedêutica. Some o fator masculino isolado com o fator compartilhado e você tem metade dos casais em que o homem participa da causa. Metade. E o exame que responde por essa metade é um pote, três dias de espera e um microscópio.

Dentro do fator feminino, a repartição publicada nos mesmos dois documentos é: tubário em 14%, ovulatório em 6%, diminuição da reserva ovariana em 6%, endometriose em 7%, uterino em 1% e causas múltiplas em 13%. Repare no que essa lista faz com o pedido da primeira consulta. O fator tubário, que é o maior de todos, não aparece em nenhuma dosagem hormonal — precisa de um exame de imagem com contraste. O fator uterino, que é o menor, é justamente o que as duas ultrassonografias de Lauriene foram procurar. Pedir ultrassom transvaginal duas vezes e não pedir espermograma nenhum é gastar o dinheiro do casal onde a probabilidade é de 1% e não gastá-lo onde ela é de 50%.

A segunda estatística que muda a consulta é a curva do tempo. Entre os casais que tentam, cerca de 50% engravidam em três meses, 60% em seis meses e 85% em um ano; e, dos que passaram o primeiro ano sem gravidez, 92% conseguem no ano seguinte. Essa curva é a razão de existir do prazo de doze meses: ela diz que a maioria esmagadora do que parece infertilidade aos seis meses é impaciência, e que a maioria do que ainda parece infertilidade aos doze meses ainda vai se resolver sozinha. Ela também é o argumento que o interno usa com o casal de três meses de tentativa que chega pedindo exame — e é, ao mesmo tempo, um conjunto de números que não fecha com a prevalência declarada duas frases antes, o que este capítulo audita com a conta explícita nas notas.

A idade da mulher é o parâmetro isolado mais forte, e os documentos brasileiros o escrevem de um jeito que exige aritmética: a mulher apresenta queda de aproximadamente 11% da sua fertilidade a cada ano depois dos 30. Lido como decaimento composto, isso significa que aos 35 anos restam cerca de 56% da fertilidade dos 30, aos 40 restam 31% e aos 45 restam 17% — números que explicam por que todo documento encurta o prazo com a idade, e por que o encurtamento importa mais do que qualquer exame de reserva ovariana. Lido como queda de 11 pontos percentuais absolutos ao ano, a mesma frase zeraria a fertilidade aos 39 anos, o que é falso; a nota correspondente registra as duas leituras.

Falta a epidemiologia que nenhum dos dois documentos publica em número e que a rede mostra na porta: a da assimetria. O protocolo de Belo Horizonte tem uma seção chamada principais enganos ocorridos nos encaminhamentos à reprodução humana, e o primeiro deles é casais encaminhados pelo centro de saúde sem terem realizado nenhuma propedêutica, nem mesmo o exame ginecológico de rotina. O segundo é o do casal em que a gravidez está contraindicada de forma absoluta e que deveria ter sido acolhido e orientado ainda no centro de saúde. O terceiro é casal mandado do serviço secundário para o terciário sem os tratamentos que o secundário faria. Não é uma lista de erros de diagnóstico: é uma lista de etapas puladas, e é o retrato mais honesto que a literatura pública brasileira tem do que acontece com o casal infértil entre a unidade básica e o serviço de reprodução.

04

Por que acontece o que acontece

Infertilidade é uma doença do sistema reprodutivo masculino ou feminino, e seu reconhecimento não atribui culpa a ninguém. A gestação depende de ovulação, transporte, encontro dos gametas e implantação, com contribuição de ambos os parceiros quando esse é o contexto. Investigue em paralelo: cada exame responde a uma etapa e nenhum descreve sozinho toda a capacidade reprodutiva.

Investigação do casal com dificuldade para engravidar: avaliação de ambos os parceiros
Investigação do casal com dificuldade para engravidar: avaliação de ambos os parceiros. A ausência na consulta não elimina a necessidade de investigação.

Comece pela probabilidade, porque ela explica o prazo. A chance de engravidar num ciclo — a fecundabilidade — é de cerca de 20%, e a chance de chegar a uma gestação a termo naquele ciclo — a fecundidade — é de cerca de 15%; os dois números estão impressos nos documentos brasileiros. Com 20% por ciclo, doze ciclos dariam 93% de chance acumulada; com 15%, dariam 86%. A curva que os mesmos documentos publicam diz 85% em doze meses. Ou seja: o prazo de um ano não é um marco biológico, é o ponto em que a probabilidade acumulada já esgotou quase todo o rendimento da espera, e o casal que não engravidou não é um casal azarado — é um casal em que alguma coisa reduziu a probabilidade por ciclo. A investigação existe para achar o quê.

A segunda peça é a janela fértil, e ela é curta por um motivo assimétrico. O espermatozoide sobrevive no trato genital feminino por até cinco dias; o ovócito, por doze a vinte e quatro horas depois da ovulação. Isso produz uma janela de cerca de seis dias que termina no dia da ovulação, e daí sai a consequência prática mais importante do capítulo: ter relação de dois em dois ou de três em três dias cobre a janela toda sem que ninguém precise adivinhar o dia. Relação a cada quinze dias, como a de Lauriene e Ronildo, cai dentro da janela em menos de metade dos ciclos. A recomendação impressa nos protocolos brasileiros — duas a três vezes por semana — não é conselho genérico: é o que resolve aritmeticamente o problema de não conhecer o dia.

A terceira peça é o relógio da espermatogênese, e ela explica por que o espermograma é uma fotografia de três meses atrás. A produção de um espermatozoide leva cerca de setenta e quatro dias, e o trânsito pelo epidídimo acrescenta dez a quatorze — de oitenta e quatro a oitenta e oito dias, quase três meses. Duas consequências saem daí. A primeira: uma febre alta, uma quimioterapia ou um período de trabalho em calor extremo aparecem no exame semanas depois de terem acontecido, e desaparecem semanas depois de terem cessado. A segunda: repetir um exame alterado depende de qual pergunta se quer responder — em um mês colhe-se de novo o mesmo material que já estava pronto quando o primeiro foi feito; em três meses colhe-se um ciclo inteiramente novo. Os documentos brasileiros dizem coisas diferentes sobre esse intervalo, e a divergência está registrada no bloco próprio.

A quarta peça é a variabilidade, e ela é o motivo pelo qual um exame alterado não fecha diagnóstico nenhum. O mesmo homem, colhendo em duas semanas diferentes, produz resultados que diferem entre si mais do que o leigo imagina, e as fontes de variação começam antes do laboratório: dias de abstinência, perda da primeira fração do ejaculado — que é justamente a rica em espermatozoides —, tempo até a análise, temperatura no transporte. O manual da Organização Mundial da Saúde é explícito ao dizer que a própria recomendação de dois a sete dias de abstinência, baseada em experiência clínica, contribui para a variabilidade e para um limite indistinto entre o normal e o subfértil. Um resultado ruim de uma coleta ruim é um resultado ruim da coleta, não do homem.

A quinta peça é o que os valores de referência do sêmen são, porque quase nenhum documento diz. Eles não são um limiar entre fértil e infértil: são percentis de uma população de referência composta por homens cujas parceiras engravidaram naturalmente em até doze meses. O limite que se imprime é o quinto percentil dessa distribuição — o valor abaixo do qual ficaram 5% daqueles homens comprovadamente férteis. A sexta edição do manual da Organização Mundial da Saúde escreve, em uma seção própria, que esse quinto percentil não representa um limite entre homens férteis e inférteis. Um homem com concentração abaixo do corte pode ter filhos; um homem acima do corte pode não ter. O número serve para ordenar a conversa e a conduta, não para dar um veredito.

A sexta peça é o que a reserva ovariana mede, e é aqui que o interno erra com maior consequência. A contagem de folículos antrais e o hormônio antimülleriano estimam quantos folículos ainda podem ser recrutados — o tamanho do estoque disponível para um estímulo. O protocolo da federação escreve, com todas as letras, que esses testes não se relacionam com a chance de alcançar gravidez naquele ciclo nem durante os ciclos de tratamento, e tampouco com a qualidade oocitária, e que a idade da mulher permanece o parâmetro mais forte. Traduzindo para a consulta: a reserva ovariana prevê como o ovário vai responder a uma injeção de gonadotrofina; ela não prevê se aquele casal vai engravidar sozinho no mês que vem. Usar um antimülleriano baixo para dizer a uma mulher de 32 anos que ela não vai engravidar é usar um número fora da pergunta que ele responde.

A sétima peça é por que a permeabilidade tubária precisa de um exame físico da tuba. Nenhuma dosagem, nenhuma ultrassonografia de rotina e nenhum sintoma informam se o contraste atravessa. E, mesmo o exame que atravessa, informa menos do que parece: o protocolo brasileiro registra que nenhum teste diagnóstico avalia todos os aspectos da função tubária e que uma aparência normal não reflete necessariamente uma função normal — a tuba não é só um cano, é um órgão com epitélio ciliado e transporte. Por isso o fator tubário se investiga com um exame que responde uma pergunta binária e útil, e não com uma bateria que promete responder a função.

A oitava peça é o mecanismo da assimetria, e ele não é biológico: é de organização de serviço. A mulher já está dentro do sistema de saúde por outras portas — o preventivo, o pré-natal anterior, a receita do anticoncepcional —, e cada uma dessas portas gera um encontro em que se pode pedir um exame. O homem, na maior parte da vida adulta, não tem porta nenhuma: não há consulta de rotina que o traga, e a primeira vez que ele entra num consultório de ginecologia é acompanhando alguém. O resultado previsível é que a investigação segue a pessoa que está na sala, e não a probabilidade. E a política que deveria abrir essa porta não a abre para este assunto: a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, de 2009, hoje vigente como anexo da consolidação de 2017, não menciona infertilidade em nenhum ponto do seu texto consolidado, e o que ela traz de planejamento reprodutivo masculino tem metas de vasectomia. A única política nacional dirigida ao homem trata da fertilidade dele apenas pelo lado de interrompê-la. A correção, portanto, não é biológica nem normativa: é chamar o homem para dentro da sala na primeira consulta e entregar a ele um pedido com o nome dele em cima.

05

Como se apresenta de verdade

A investigação da infertilidade começa com as duas pessoas e com os fatores de risco, antes de aplicar um prazo. Você deve definir quando investigar, avaliar ovulação, tuba e fator masculino e evitar exames sem pergunta clínica. Um resultado alterado precisa ser interpretado com variabilidade e contexto.

Percurso clínico: Investigar sem culpa e sem sequência desnecessária

Considere idade, duração da tentativa, história reprodutiva e fatores que justificam avaliação antecipada. Investigue contribuições dos envolvidos em paralelo, com ovulação, fatores anatômicos e espermograma conforme contexto. Cada resultado responde a parte do processo e precisa de interpretação antes de avançar.

O casal de três meses, que veio pedir exame

É a chegada mais comum em unidade básica, e a que mais gera pedido desnecessário. O casal parou o método há dois, três, quatro meses, e a ansiedade chegou antes do prazo. Às vezes ela vem sozinha, com o marido "no trabalho"; às vezes vêm os dois, com uma lista de exames que uma amiga fez. O erro fácil é o de pedir para acalmar, e ele custa duas coisas: o dinheiro e a vaga de quem já passou do prazo, e a instalação da ideia de que existe um problema onde a estatística ainda não permite dizer que existe.

A conversa que resolve essa consulta é curta e é de aritmética. Metade dos casais engravida em três meses e 85% em um ano; o que está acontecendo com eles é o que acontece com a maioria. Mas essa consulta não pode terminar em "volte daqui a nove meses", porque a espera precisa ser uma espera informada: sai daqui a orientação sobre a janela fértil e a frequência, sai o ácido fólico, saem as sorologias que se pedem antes de qualquer gestação, sai a atualização do preventivo e da vacina, e sai a data marcada de retorno. É o que o protocolo do ministério chama de avaliação e orientação preconcepcional na atenção básica, e é a consulta com melhor relação entre custo e efeito de todo este capítulo.

Uma exceção que reorganiza tudo: se, nessa mesma anamnese de três meses, aparecer ciclo irregular, cirurgia pélvica prévia, infecção pélvica tratada, endometriose conhecida, problema masculino conhecido ou idade da mulher acima do corte, o prazo não se aplica. A espera é para quem não tem motivo para não esperar.

O casal que esperou tempo demais porque ninguém contou do relógio

É a chegada oposta e é a que produz dano irreversível. A mulher tem 38 ou 39 anos, tenta há três anos, passou por duas ou três consultas em que ouviu que era ansiedade, que era para relaxar, que ainda era cedo. A cada ano que passou, a fertilidade dela caiu — e a conta composta dos 11% ao ano diz que dos 35 aos 39 se perde cerca de um terço do que restava. O dano aqui não é de diagnóstico errado: é de tempo, e tempo não se recupera com exame nenhum.

O reconhecimento dessa chegada é de calendário e de aritmética, não de exame. Some a idade dela ao tempo de tentativa e pergunte quanto tempo a investigação inteira vai levar: um espermograma tem resultado em duas semanas; uma histerossalpingografia depende de agenda e de fase do ciclo, e em rede pública leva de dois a seis meses; um encaminhamento a serviço de reprodução tem fila. Uma mulher de 39 que começa a investigação hoje chega ao serviço terciário com 40 ou 41 — e há protocolos municipais, como o de Belo Horizonte, em que 40 e 41 anos não pertencem a nenhuma das faixas de prioridade escritas, o que este capítulo audita nas notas.

A consequência prática é uma inversão de ordem: nessa mulher os exames se pedem todos de uma vez, na primeira consulta, e não em série; e o encaminhamento se escreve no mesmo dia, com a data do início da tentativa em cima, para que a fila comece a correr enquanto os exames voltam. É a única situação deste capítulo em que fazer tudo junto é mais certo do que fazer em ordem.

A pasta que só tem exame dela

É a chegada que dá título a este capítulo. O casal já foi investigado — mas metade dele. Há três ultrassonografias, um painel hormonal do terceiro dia, às vezes um antimülleriano pago do próprio bolso, e nenhuma linha sobre o parceiro. Quando você pergunta se ele fez o espermograma, a resposta quase nunca é "deu alterado": é "ninguém pediu".

O que sustenta essa assimetria não é ignorância da probabilidade — é a organização das portas. Ela está no sistema de saúde por outras razões e ele não está; ela é quem marca, quem vai, quem leva o papel. O protocolo do ministério que a atenção básica tem em mãos, ao listar os exames que podem ser solicitados na própria unidade, faz o contrário do que a prática faz: manda pedir o espermograma para o homem e só depois, se ele vier normal, a histerossalpingografia para a parceira. A ordem impressa na régua brasileira é a do exame mais barato e menos invasivo primeiro, e é exatamente a ordem que os serviços não seguem.

O que o interno faz aqui cabe em três atos. Chama o homem para dentro da sala, mesmo que a ficha esteja no nome dela. Entrega um pedido com o nome dele em cima, com as instruções de coleta escritas. E diz, na frente dos dois, a frase que reorganiza a consulta: metade das causas passa por ele, e o exame que responde por essa metade é o mais simples da lista.

O que encurta o prazo, e por que quase ninguém pergunta

Há um conjunto pequeno de achados de anamnese que dispensa a espera, e o protocolo municipal de Belo Horizonte os enumera assim: idade acima de 35 anos; irregularidade do ciclo; antecedente de doença inflamatória pélvica; endometriose diagnosticada ou suspeitada; cirurgia abdominal anterior; e problema masculino já conhecido. Cada item da lista existe porque aponta para uma das fatias da repartição de causas — a idade e o ciclo apontam para o ovário, a infecção e a cirurgia para a tuba, a endometriose para os dois, e o problema masculino para a metade que ninguém investiga.

A cirurgia abdominal prévia é a que mais escapa, porque a pergunta costuma ser feita de forma que ela não apareça. "Já fez cirurgia?" recebe um não de quem operou apêndice aos 19 anos e não considera isso uma cirurgia ginecológica. A pergunta que a faz aparecer é outra: já ficou internada por dor de barriga, já operou apêndice, já teve infecção depois de alguma cirurgia, já usou antibiótico na veia por causa de dor pélvica. Apendicite complicada por peritonite é fator tubário enquanto não se demonstrar o oposto — e quem demonstra o oposto é a histerossalpingografia.

A infecção pélvica prévia tem a mesma armadilha e um dono: a sequela tubária que ela deixa é assunto do capítulo Doença inflamatória pélvica, que descreve a doença, o tratamento e o dano. Este capítulo assume dali para frente — o que se faz com a mulher que teve a doença há oito anos, não engravida, e precisa saber se as tubas ficaram. E vale a advertência que a régua brasileira registra: a sorologia positiva para clamídia se associa a doença tubária, mas exige avaliação de seguimento; e uma sorologia negativa torna improvável achar doença tubária na laparoscopia.

O casal que já tem filho, e o homem que acha que já provou

Infertilidade secundária é aquela em que houve gestação prévia — e os documentos brasileiros a subdividem com uma precisão que a consulta agradece: primária da paciente, quando ela nunca engravidou; primária do casal, quando ela nunca engravidou daquele parceiro; e secundária, quando engravidou uma vez, mesmo que com outro parceiro. As três categorias existem porque a paternidade anterior de um dos dois não transfere nada para o presente.

É o caso de Ronildo, e a frase dele — tenho um filho de doze anos — é a mais eficiente do capítulo em impedir um exame. Ela é lida por todo mundo, inclusive por médicos, como prova de fertilidade atual, e não é: em doze anos houve doze anos de idade, e pode ter havido varicocele, caxumba na vida adulta, hérnia operada, uso de anabolizante, infecção geniturinária, quimioterapia, calor ocupacional. O ciclo de espermatogênese que produziu aquele filho terminou há mais de uma década e não tem nada a dizer sobre o ciclo que terminou há três meses.

A mesma lógica, invertida, vale para ela: gestação anterior prova que houve tuba pérvia e útero receptivo naquele momento — e uma curetagem depois de um aborto, uma infecção puerperal ou uma cesariana complicada podem ter mudado isso desde então. Infertilidade secundária não é uma versão mais branda da primária: é uma investigação com a mesma lista e com uma pergunta a mais, que é o que aconteceu entre uma coisa e outra.

O casal que chega com um espermograma alterado na mão

Chega mais do que se imagina, e chega com o casal já convencido de que o assunto acabou. O papel diz concentração de 9 milhões por mililitro, ou motilidade progressiva de 22%, e alguém — o laboratório, um site, um parente — já traduziu isso como estéril. A conduta errada é aceitar o papel; a conduta certa começa por ler o que está escrito acima do resultado, e não o resultado.

Três perguntas resolvem a maioria desses casos. Quantos dias de abstinência? Menos de dois ou mais de sete tiram o exame da condição em que os valores de referência foram construídos. Onde foi colhido e quanto tempo levou até o laboratório? O manual da Organização Mundial da Saúde manda começar a análise preferencialmente em trinta minutos e no máximo em sessenta, e, quando a coleta é fora, a entrega deve acontecer preferencialmente em trinta e no máximo em cinquenta minutos, com a amostra transportada junto ao corpo, entre 20 e 37 graus. E o ejaculado saiu inteiro no pote? A primeira fração é a rica em espermatozoides, e perder essa é diferente de perder a última.

Se qualquer uma das três respostas estiver fora, o exame não mede o homem: mede a coleta, e a conduta é repetir com instrução escrita. Se as três estiverem certas, o exame vale — e ainda assim um resultado alterado isolado não fecha diagnóstico, porque a régua manda confirmar. A exceção que corre é a azoospermia e a oligozoospermia grave: nelas a repetição não espera três meses, se faz o mais rápido possível, e o encaminhamento à urologia sai junto. O que se faz com o resultado confirmado — varicocele, hormônios masculinos, biópsia testicular — é assunto de urologia, e não existe capítulo dedicado a ele neste nível; este capítulo assume o mínimo, que é pedir, ler e encaminhar, e declara que assumiu.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação básica do casal infértil é curta, e essa é a sua característica mais importante. São quatro perguntas de anamnese, um exame físico, três exames que respondem por quase toda a repartição de causas — a ovulação, a permeabilidade tubária e o sêmen — e uma lista razoavelmente longa do que não se pede. Quem a faz inteira em duas consultas leva o casal mais longe do que quem pede quinze exames em seis meses.

Uma advertência que atravessa as seis seções: o que se pede depende do que se vai fazer com o resultado. Se o serviço não tem para onde encaminhar, o exame que não muda conduta nenhuma é um exame que só produz espera. E se a mulher tem 39 anos, o exame que demora quatro meses para ser marcado precisa ser pedido no mesmo dia que os outros, e não depois deles.

A anamnese que é de dois, e as perguntas que se fazem a sós

Três dados ordenam o prognóstico e vêm antes de tudo, e os documentos brasileiros os nomeiam juntos: a idade da mulher, o tempo de infertilidade, e se ela é primária ou secundária. Depois deles, a anamnese dela: história menstrual, com menarca, duração do ciclo, fluxo, dismenorreia e muco; contracepção prévia e quando parou; história obstétrica, com gestações, abortamentos e curetagens; cirurgias anteriores, sobretudo pélvicas; internações por dor pélvica e doença inflamatória pélvica; comorbidades, com obesidade, hirsutismo, diabetes, doença de tireoide e doenças autoimunes; medicamentos de uso regular; tabagismo, álcool, maconha e cocaína.

E a anamnese dele, que é a parte que costuma faltar inteira: desenvolvimento puberal; disfunção sexual; infecções sexualmente transmissíveis e infecções geniturinárias; caxumba, varicocele, torção testicular, trauma genital; cirurgias, com hernioplastia e vasectomia à frente; uso de anabolizante ou de hormônio masculino em qualquer época da vida, pela associação frequente com alteração seminal; drogas, álcool e tabaco; filhos e a idade do último. São dez perguntas e levam três minutos.

Há uma pergunta que pertence ao casal e não a nenhum dos dois, e é a que mais muda conduta: com que frequência há relação sexual, e há quanto tempo esse é o padrão. Ela se faz com naturalidade, porque a resposta costuma ser constrangida — turnos de trabalho que não se cruzam, brigas, dor na relação, dificuldade de ereção que ninguém contou. A régua brasileira registra que uma frequência média de duas vezes por semana é considerada satisfatória, justamente para afastar o estresse do coito programado; o protocolo municipal escreve o ideal como duas a três vezes por semana.

Duas perguntas se fazem a sós, cada um por vez, e isso se explica ao casal como rotina de toda consulta de infertilidade, não como suspeita: se há relação sexual fora do casal, pelo risco de infecção que muda a investigação; e se há violência, coerção ou algo que a pessoa não diria com o outro na sala. A pergunta sobre dispareunia também rende mais a sós. O exame físico completa: índice de massa corporal dos dois, e o exame pélvico dela, com inspeção da genitália externa e interna à procura de alterações inflamatórias, sinais de virilização, hímen íntegro — que revela disfunção do ato sexual — e sinais de doença inflamatória pélvica.

A ovulação e a reserva: o que o calendário já responde

A pergunta "ela ovula?" tem uma resposta barata e uma resposta cara, e a barata resolve a maioria dos casos: mulher com menstruação regular provavelmente está ovulando. É assim que o protocolo da federação e o protocolo municipal abrem o fator ovulatório, e é a razão de a história menstrual valer mais que qualquer dosagem. Ciclo regular, com duração dentro da faixa que a própria federação considera normal e com fluxo previsível, é ovulação enquanto não se demonstrar o contrário; ciclo irregular, espaçado ou ausente é anovulação até prova em contrário — e aí a investigação sai deste capítulo e entra no da Amenorreia, para a ausência, ou no da Síndrome dos ovários policísticos, para a anovulação com hiperandrogenismo.

Quando é preciso confirmar, o método mais adequado é a progesterona do meio da fase lútea, e aqui há um detalhe de calendário que o interno erra com frequência. A fase lútea dura cerca de quatorze dias e é a parte fixa do ciclo; o meio dela cai sete dias antes da menstruação esperada. No ciclo de 28 dias isso é o dia 21 — que é como o exame ficou conhecido —, mas no ciclo de 35 dias o meio da fase lútea é o dia 28, e a coleta feita no dia 21 desse ciclo pega a mulher antes de ovular e devolve um valor baixo que não significa nada. A régua brasileira registra o valor de corte e a necessidade de medidas seriadas, e registra também que a relação entre custo e benefício desse método não favorece a prática clínica: por isso ele não é rotina.

As dosagens basais de hormônio folículo-estimulante e luteinizante, quando entram, se colhem no terceiro dia do fluxo menstrual, e o protocolo municipal as reserva a toda paciente acima de 35 anos, além da prolactina e do hormônio tireoestimulante em todas. A leitura dessas dosagens — hipogonadismo hipergonadotrófico, hipogonadotrófico, anovulação normogonadotrófica — é a mesma do capítulo Amenorreia, e não se repete aqui: quem chegou a este capítulo por um casal que não engravida e encontrou um eixo alterado deve ler aquele.

A reserva ovariana merece um parágrafo próprio porque é o exame mais pedido fora da pergunta que responde. Ela se estima pelo hormônio antimülleriano, que pode ser dosado em qualquer dia do ciclo, e pela contagem ultrassonográfica de folículos antrais, feita na fase folicular inicial. Os dois preveem resposta a estímulo ovariano — quem vai responder pouco, quem vai responder demais, quem tem risco de hiperestímulo. Nenhum dos dois prevê a chance de gravidez natural naquele ciclo, nenhum prevê qualidade oocitária, e o protocolo municipal escreve que o antimülleriano não deve ser rotineiramente solicitado na atenção primária. A frase que o interno precisa saber dizer é: esse exame diz como o seu ovário responderia a um tratamento, e não diz se você vai engravidar este mês.

O espermograma: metade do resultado está na coleta

É a forma inicial de avaliação da causa masculina e um exame essencial na investigação do casal, e o protocolo municipal registra que ele está disponível e deve ser solicitado como parte da investigação inicial na atenção primária. Não é exame de especialista, não depende de encaminhamento, e é o mais barato dos três exames que decidem.

A coleta tem regras, e elas não são formalidade: são a diferença entre medir o homem e medir o transporte. Abstinência ejaculatória de no mínimo dois e no máximo sete dias. Coleta por masturbação, preferencialmente em sala próxima ao laboratório — coito interrompido não serve pelo risco de perda de fração e contaminação, preservativo comum não serve porque tem espermicida e agentes que interferem na motilidade, lubrificante deve ser evitado. Ejaculado completo no pote, e qualquer perda deve ser relatada, porque a primeira fração é a rica em espermatozoides. Análise iniciada preferencialmente em trinta minutos e no máximo em sessenta; quando a coleta é fora do laboratório, entrega preferencialmente em trinta e no máximo em cinquenta minutos, com o pote junto ao corpo, sob a roupa, e temperatura entre 20 e 37 graus. Nada disso cabe na memória do paciente: cabe num papel, e o papel se entrega junto com o pedido.

Os parâmetros de referência que os documentos brasileiros imprimem são os da Organização Mundial da Saúde, e este capítulo audita qual edição: volume de 1,5 mL, pH de 7,2, concentração acima de 15 milhões por mililitro, total acima de 40 milhões no ejaculado, motilidade progressiva de 32%, vitalidade de 58%, leucócitos abaixo de 1 milhão por mililitro e formas normais acima de 4% pelo critério estrito. A sexta edição do manual, de 2021, revisou quase todos esses números, e a diferença está na tabela deste capítulo. O que importa mais do que o número é o que ele é: o quinto percentil de uma população de homens cujas parceiras engravidaram em até doze meses — e a própria fonte diz que esse percentil não separa férteis de inférteis.

A repetição é regra, não exceção. Se a primeira análise vem anormal, um teste de confirmação deve ser oferecido; a federação e o protocolo municipal dizem idealmente em três meses, para completar o ciclo de formação dos espermatozoides; o protocolo do ministério que a atenção básica usa diz repetir após um mês. A divergência tem bloco próprio neste capítulo. O que os três dizem igual: diante de alteração seminal importante — azoospermia ou oligozoospermia grave —, a repetição é o mais rápido possível, e o encaminhamento ao especialista, urologia ou andrologia, sai junto.

A permeabilidade tubária: um exame, um dia certo, uma pergunta

O fator tubário é a maior fatia do fator feminino, e o exame que o investiga é a histerossalpingografia. Ela se faz na fase folicular do ciclo, do sexto ao décimo primeiro dia, com contraste iodado, e responde uma pergunta quase binária: há oclusão, e se há, é unilateral ou bilateral. A sensibilidade para identificar oclusão tubária é de cerca de 85% a 100%, e a régua registra que empregá-lo em mulher de baixo risco para doença das trompas reduz o número de laparoscopias sem indicação.

A razão do dia é dupla, e a segunda é a que importa mais: a fase folicular é a janela em que a cavidade está livre de coágulo e em que a mulher ainda não ovulou naquele ciclo, o que evita irradiar uma gestação inicial. Essa segunda razão tem um limite aritmético que os documentos não escrevem: a ovulação ocorre cerca de quatorze dias antes da menstruação seguinte, de modo que numa mulher de ciclo com 24 dias — duração que a própria federação classifica como normal — a ovulação sai por volta do dia 10, isto é, dentro da janela de 6 a 11 que o protocolo imprime. Para essa mulher, o exame marcado para o dia 11 pode acontecer depois da ovulação. A leitura é deste capítulo e não do documento; o que ela recomenda é simples e não custa nada: em ciclo curto, marque a histerossalpingografia para os primeiros dias da janela, e oriente contracepção de barreira ou abstinência no ciclo do exame.

O que a histerossalpingografia não responde: se a tuba, pérvia, transporta; se há endometriose peritoneal; se há aderências que não obstruem. A videolaparoscopia responde parte disso e é reservada para quando a histerossalpingografia sugere alteração importante, quando há cirurgia pélvica anterior, quando a infertilidade é sem causa aparente, quando há suspeita clínica de endometriose, ou para avaliar reversão de laqueadura — e é o último inquérito da propedêutica, pela natureza invasiva. A histerossonossalpingografia, que evitaria radiação e contraste iodado, é citada no protocolo brasileiro com uma frase que data o documento: não é um método disponível em nosso meio.

Uma advertência de ordem que o protocolo do ministério escreve e a prática inverte: a histerossalpingografia da parceira se pede depois de o espermograma vir normal. Investigar a tuba antes de saber se há espermatozoide é submeter uma mulher a radiação e contraste para responder uma pergunta que talvez não precisasse ser feita.

O que não se pede — e onde o dinheiro do casal se perde

Esta seção é tão importante quanto as três anteriores, porque o casal infértil é um alvo comercial e porque cada exame inútil atrasa a investigação que resolve. O teste pós-coito, ou teste de Sims-Huhner, é controverso no contexto da propedêutica e não é utilizado; o protocolo municipal registra que não tem sido usado na prática clínica, e a régua brasileira acrescenta que ele não tem valor preditivo do potencial reprodutivo e não deve ser realizado de rotina. A biópsia de endométrio está na mesma frase e pela mesma razão. A curva de temperatura corporal basal não é recomendada, porque cerca de 20% dos ciclos ovulatórios não registram curva bifásica e porque o momento que a curva mostra não corresponde ao pico do hormônio luteinizante. A análise do muco cervical pelo escore de Insler não é recomendada como prática clínica, pela difícil correlação com ciclos ovulatórios.

A pesquisa de anticorpos antiespermatozoides não deve ser oferecida, porque não há evidência de tratamento eficaz que melhore a fertilidade a partir dela. Os testes de fragmentação do DNA espermático têm valores de anormalidade publicados, mas como o teste não modifica o tratamento do casal, o uso rotineiro não está indicado. A histeroscopia, dizem os dois protocolos, fica fora da investigação inicial: ela serve para confirmar o que outro método achou e para tratar a lesão encontrada, e é só para isso. A ressonância magnética entra pelo mesmo critério da laparoscopia: método de altíssimo custo, com indicação criteriosa.

Os testes dinâmicos de reserva folicular — o teste do clomifeno, com 100 mg do citrato nos dias 5 a 9 e dosagens de hormônio folículo-estimulante nos dias 3 e 10, e a inibina basal do dia 3 — recebem no protocolo brasileiro uma frase de três partes: não possuem aplicabilidade clínica, retardam o diagnóstico e o tratamento dos pacientes, e não são rotineiramente utilizados. Ainda aparecem em pedido de consultório.

E há uma última categoria, que é a dos exames que pertencem a outra investigação e migram para esta sem convite: cariótipo do casal, pesquisa de trombofilia hereditária, anticorpos antinucleares, avaliação de células natural killer. Nenhum deles é da investigação da infertilidade; alguns pertencem à investigação da perda gestacional recorrente, que é uma entidade diferente, com propedêutica própria, e que o protocolo municipal trata em seção separada. Um casal que não engravida e um casal que engravida e perde não têm a mesma lista, e confundir as duas é um erro de conceito, não de escolha.

Quando encaminhar, e o que existe do outro lado

A investigação básica termina com uma decisão de destino, e ela depende do que a rede tem. O desenho oficial é o da Política Nacional de Atenção Integral em Reprodução Humana Assistida, instituída em 2005 e hoje vigente como anexo da portaria que consolidou as políticas nacionais em 2017, organizada em três níveis: a atenção básica, que é a porta de entrada e faz a anamnese, o exame clínico-ginecológico e o elenco de exames complementares básicos; a média complexidade, que faz o acompanhamento psicossocial e todos os procedimentos diagnósticos e terapêuticos de reprodução assistida à exceção da fertilização in vitro; e a alta complexidade, que faz a fertilização in vitro e a inseminação artificial. Esse é o texto.

E este é o campo, conferido no arquivo bruto da tabela de procedimentos do SUS, competência de agosto de 2026: em 5.023 procedimentos, não há nenhum de fertilização, inseminação ou reprodução assistida; nas 347 habilitações da tabela, não há nenhuma de reprodução humana assistida; e o serviço de atenção à saúde reprodutiva, na classificação atenção à infertilidade, tem exatamente um procedimento vinculado — a biópsia de endométrio, que é justamente o exame que os dois protocolos deste capítulo mandam não fazer. Há uma novidade de junho de 2026: uma portaria de regulamentação da oferta de serviços especializados estratégicos previu que procedimentos de reprodução humana assistida poderão ser ofertados por componentes de crédito financeiro e de ressarcimento, com valores a serem definidos em ato da secretaria em até sessenta dias — prazo que venceu em agosto de 2026 sem que a tabela mudasse. A porta jurídica está aberta; o preço ainda não foi escrito. Onde há serviço público de alta complexidade, ele costuma existir por arranjo local, como o convênio entre a secretaria municipal e o hospital universitário que o protocolo de Belo Horizonte descreve.

Onde a rede está montada, o critério de encaminhamento é escrito por diagnóstico e por idade. O protocolo municipal de Belo Horizonte, que é o documento público brasileiro mais detalhado sobre isso, manda: fator feminino ou infertilidade sem causa aparente para o ambulatório de infertilidade do nível secundário; espermograma alterado ou parceiro vasectomizado para a urologia; obstrução tubária com idade acima de 35 anos direto para reprodução humana; obstrução tubária com idade igual ou abaixo de 35 anos para videolaparoscopia. Ele também escreve o que não se encaminha enquanto não estiver resolvido, e a lista inclui idade acima de 45 anos, mais de três cesarianas prévias, comorbidade grave descompensada e ausência de condições psicossociais para uma gestação — um conjunto de critérios que decide quem entra e quem não entra numa fila pública, e que este capítulo devolve ao leitor sem declarar vencedor, porque a decisão sobre alguns deles não é técnica.

Antes de encaminhar, três atos que a atenção básica faz e que a lista de enganos do mesmo protocolo mostra que costumam faltar: a propedêutica básica completa dos dois, o tratamento das comorbidades com relatório de quem acompanha liberando gestação, e a orientação sobre janela fértil, peso, tabagismo e álcool. Encaminhar um casal sem exame nenhum não é encaminhar: é transferir a consulta.

07

A investigação mínima: o que se pede, quando, o que responde e o que a rede cobre

Este bloco reúne o que decide na prática. Primeiro a ordem das decisões, da pergunta que dispensa exame até o encaminhamento. Depois a tabela central do capítulo, que é a única que o interno precisa saber de cor: cada exame da investigação básica com o dia em que se colhe, a pergunta que ele responde, a pergunta que ele explicitamente não responde e o que a rede pública oferece. Depois três tabelas de conferência: o prazo para começar a investigar em cinco réguas brasileiras, os valores do espermograma edição por edição, e as conversões refeitas em Python. No fim vêm as notas, e elas trazem cada conferência que este capítulo fez nos documentos oficiais, com a conta à vista: tanto o que bateu quanto o que não bateu, porque o interno precisa saber de quais números pode se servir.

  1. 11. Antes de qualquer exame, a pergunta que decide se há investigação: há quanto tempo tentam, com que frequência, e qual a idade dela? Casal sem fator de risco, com menos de doze meses de tentativa e mulher abaixo do corte de idade: a conduta é orientação preconcepcional e data de retorno, não pedido de exame.
  2. 22. Chame o homem para dentro da sala na primeira consulta, mesmo que a ficha esteja no nome dela. Metade dos casais tem participação masculina na causa — 30% de fator masculino isolado e 20% de fator dos dois. A pasta que só tem exame dela é o erro característico deste tema no Brasil.
  3. 33. O que encurta o prazo e dispensa a espera: idade dela acima de 35 anos; irregularidade do ciclo; antecedente de doença inflamatória pélvica; endometriose diagnosticada ou suspeitada; cirurgia prévia no abdome ou na pelve; problema masculino já conhecido. Um item basta.
  4. 44. Anamnese de dois: idade, tempo de infertilidade, primária ou secundária; ciclo, contracepção prévia, gestações, curetagens, cirurgias, internação por dor pélvica, comorbidades, medicamentos, tabaco, álcool e drogas; e, dele, puberdade, disfunção sexual, infecções, caxumba, varicocele, torção, trauma, hernioplastia, vasectomia, anabolizante, filhos e idade do último.
  5. 55. A pergunta que quase ninguém faz e que muda mais conduta que qualquer exame: com que frequência há relação sexual, e há quanto tempo esse é o padrão. A régua brasileira registra duas vezes por semana como satisfatória, e o protocolo municipal escreve o ideal como duas a três vezes por semana.
  6. 66. Antes de qualquer exame, a intervenção que não custa nada: relação a cada dois ou três dias, sem tentar acertar o dia; ácido fólico iniciado pelo menos trinta dias antes da concepção; peso, tabagismo e álcool; e a suspensão de qualquer método em uso, com avaliação da prática sexual — uso de lubrificante e ducha depois da relação incluídos.
  7. 77. Exame físico dos dois: índice de massa corporal, e o exame pélvico dela com inspeção da genitália externa e interna, à procura de alterações inflamatórias, sinais de virilização, hímen íntegro — que revela disfunção do ato sexual — e sinais de doença inflamatória pélvica.
  8. 88. Pedido da mulher: hormônio folículo-estimulante e luteinizante no terceiro dia do fluxo, prolactina e hormônio tireoestimulante, ultrassonografia transvaginal, e as sorologias pré-concepcionais — toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, sífilis, HIV, hepatite B e C, HTLV. O protocolo municipal reserva as gonadotrofinas a toda paciente acima de 35 anos e pede prolactina e tireoestimulante em todas.
  9. 99. Pedido dele, no mesmo dia e com o nome dele em cima: espermograma, com a folha de instruções de coleta anexada — abstinência de dois a sete dias, coleta por masturbação, ejaculado completo, entrega em até cinquenta minutos, pote junto ao corpo entre 20 e 37 graus.
  10. 1010. Espermograma normal: pedir a histerossalpingografia da parceira, na fase folicular, entre o sexto e o décimo primeiro dia do ciclo. Em ciclo curto, marque nos primeiros dias da janela e oriente barreira ou abstinência naquele ciclo — a ovulação cai cerca de quatorze dias antes da menstruação seguinte, e num ciclo de 24 dias isso é dentro da janela impressa.
  11. 1111. Espermograma alterado: repetir — a régua brasileira diverge entre um mês e três meses, e o bloco de divergências decide — e encaminhar à urologia. Azoospermia ou oligozoospermia grave: repetir o mais rápido possível e encaminhar junto, sem esperar o intervalo.
  12. 1212. Ciclo irregular ou ausente: a investigação não é deste capítulo. Ausência de menstruação vai para o capítulo Amenorreia; anovulação com hiperandrogenismo vai para o capítulo Síndrome dos ovários policísticos; prolactina elevada vai para o capítulo de Hiperprolactinemia e galactorreia. Antes de tratar a anovulação, porém, o protocolo municipal manda uma coisa que este capítulo repete: pesquisar fator masculino e fator tubário primeiro.
  13. 1313. O que não se pede: teste pós-coito, biópsia de endométrio, curva de temperatura basal, escore cervical de Insler, anticorpos antiespermatozoides, fragmentação de DNA espermático de rotina, histeroscopia como investigação inicial, ressonância de rotina, teste do clomifeno e inibina basal. Cariótipo, trombofilia e anticorpos antinucleares pertencem à investigação da perda gestacional recorrente, que é outra entidade.
  14. 1414. Encaminhamento, com a propedêutica completa em mãos: fator feminino ou infertilidade sem causa aparente para o serviço de infertilidade; espermograma alterado ou parceiro vasectomizado para a urologia; obstrução tubária acima dos 35 anos direto para reprodução humana. Encaminhar sem exame nenhum é transferir a consulta, e é o primeiro dos enganos que o protocolo municipal lista.
  15. 1515. Diga ao casal, antes de eles saírem, o que existe e o que não existe do outro lado: a política nacional de reprodução assistida está vigente como anexo da consolidação de 2017, mas não há procedimento de fertilização in vitro nem de inseminação na tabela de procedimentos do SUS, e nenhum medicamento de indução de ovulação consta da relação nacional de medicamentos essenciais. A conversa sobre custo e sobre até onde eles querem ir começa aqui, e não no serviço terciário.
ExameQuando se colhe ou se fazA pergunta que ele respondeO que ele NÃO respondeO que a rede pública oferece
Anamnese de frequência e janela fértilPrimeira consulta, com os dois na salaHá relação sexual dentro da janela de seis dias que termina na ovulação?Nada sobre gameta, tuba ou útero — mas responde antes de todos elesNão é exame: é tempo de consulta, e é a intervenção mais barata do capítulo
EspermogramaAbstinência de 2 a 7 dias; análise iniciada em até 60 minutosHá espermatozoides, em que número, com que motilidade e que formaSe aquele homem é fértil — os valores são percentis de férteis, não um limiarSim; o protocolo municipal registra que deve ser solicitado na atenção primária
Hormônio folículo-estimulante e luteinizante basaisTerceiro dia do fluxo menstrualO eixo está íntegro, e de que tipo é a disfunção quando háSe ela ovulou neste ciclo, e a chance de gravidez naturalSim, na tabela de procedimentos; o protocolo municipal os reserva a partir dos 35 anos
Prolactina e hormônio tireoestimulanteQualquer dia; a prolactina sem estresse na punçãoHá causa tratável de distúrbio menstrual fora do eixoNada sobre tuba, útero ou sêmenSim, os dois; o tratamento da tireoide é do componente básico
Progesterona do meio da fase lúteaSete dias antes da menstruação esperada — dia 21 só no ciclo de 28Houve ovulação neste cicloA qualidade do corpo lúteo e a receptividade do endométrioSim, mas não é rotina: a própria régua diz que o custo-benefício não favorece a prática
Contagem de folículos antrais e hormônio antimüllerianoFase folicular inicial para a contagem; o antimülleriano em qualquer diaComo o ovário responderia a um estímulo com gonadotrofinaA chance de gravidez natural e a qualidade dos ovócitos — está escrito na réguaA contagem sai da ultrassonografia transvaginal; o antimülleriano não é para pedir na atenção primária
Ultrassonografia transvaginalQualquer fase, conforme a perguntaHá mioma, pólipo, malformação suspeita, ovário policístico, endometriomaSe as tubas são pérvias — nenhuma imagem de rotina responde issoSim, na tabela de procedimentos
HisterossalpingografiaFase folicular, do 6º ao 11º dia do cicloHá oclusão tubária, e se é unilateral ou bilateralSe a tuba pérvia transporta; endometriose peritoneal; aderências sem oclusãoSim; no protocolo municipal é solicitada nos níveis secundário e terciário
Videolaparoscopia com cromotubagemÚltimo inquérito da propedêutica, por indicaçãoAderências, endometriose peritoneal e a relação entre útero, tubas e ováriosA função tubária: aparência normal não é função normal, e a régua diz issoSim, por autorização de internação hospitalar cadastrada no centro de saúde
Sorologias pré-concepcionais do casalAntes da gestação, nos doisHá infecção a tratar ou imunização a fazer antes de engravidarNada sobre a causa da infertilidadeSim; e a imunização prévia é para a mulher e para o homem
Ácido fólicoPelo menos 30 dias antes da concepçãoReduz o risco de defeito de fechamento do tubo neuralNão trata infertilidade nem aumenta a chance de engravidarComprimido de 5 mg e solução oral de 0,2 mg/mL, componente básico — não há apresentação de 0,4 mg
Indução de ovulação (clomifeno, letrozol, gonadotrofinas)Depois de afastados fator masculino e fator tubárioFaz ovular quem não ovulaNão corrige tuba ocluída nem sêmen alterado — por isso vem depoisNenhum deles consta da relação nacional de medicamentos essenciais de 2024

Quando começar a investigar: cinco réguas brasileiras sobre o mesmo casal

Documento e anoPrazo geralO que encurta o prazoA idade que muda o prazo, e o que sobra de fora
Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 46 — Propedêutica básica da infertilidade conjugal, 2018, impresso em Femina 2020Um ano de tentativa sem método; o texto registra que alguns autores estendem para dois anos em casais jovens sem outros fatores de riscoOligomenorreia, amenorreia, endometriose em estágio avançado ou qualquer condição que limite a fertilidade — a propedêutica pode ser imediataRecomendação 4: abaixo de 35 anos, um ano; superior a 35 anos, seis meses. A mulher de exatamente 35 anos não pertence a nenhuma das duas classes
Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres — Ministério da Saúde, 2016, Fluxograma 3Depende da idade, em três faixas: menos de 30 anos, mais de dois anos; de 30 a 39, mais de um ano; de 40 a 49, mais de seis mesesFator impeditivo conhecido — obstrução tubária bilateral, amenorreia prolongada, azoospermia — independentemente do tempo de união; e duas ou mais interrupções gestacionaisO degrau é aos 40, não aos 35: a mulher de 36 anos espera doze meses aqui e seis meses pela régua da federação. E não há faixa para 50 anos ou mais
Protocolo Infertilidade Conjugal — Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, 2022Um ano de exposição sexual sem gravidezMais de 35 anos; ciclos irregulares; doença inflamatória pélvica; diagnóstico ou suspeita de endometriose; cirurgias abdominais anteriores; problemas masculinos conhecidosCorte único aos 35 anos para antecipar; a idade volta a decidir no encaminhamento e na fila, com faixas próprias
Protocolo Infertilidade Conjugal — SMSA-BH, 2022, critérios de encaminhamentoNão é prazo: é destino. Obstrução tubária acima de 35 anos vai direto à reprodução humana; igual ou abaixo de 35, à videolaparoscopiaSalpingotripsia bilateral: até 37 anos com espermograma e histerossalpingografia; acima de 37, só com espermogramaNão se encaminha enquanto não resolvido: idade acima de 45 anos, mais de três cesarianas, comorbidade grave descompensada, ausência de condições psicossociais
Protocolo Infertilidade Conjugal — SMSA-BH, 2022, prioridade na fila da reprodução humanaAlta prioridade: 36 anos ou mais e menos de 40. Média: 36 anos ou menos, com fator tubário operado e um ano sem gestação. Baixa: de 42 a 45 anos, ou mais de dois filhos vivosEndometriose grave confirmada por cirurgia é alta prioridade independentemente da idadeA mulher de exatamente 36 anos satisfaz alta e média ao mesmo tempo; as de 40 e 41 anos não satisfazem nenhuma das três

Os valores do espermograma: qual edição cada documento carrega

ParâmetroOMS, 5ª edição, 2010OMS, 6ª edição, 2021 (5º percentil, IC 95%)O que os documentos brasileiros imprimemO que muda para o interno
Volume do ejaculado1,5 mL1,4 mL (1,3 a 1,5)Febrasgo: ≥ 1,5 mL. Belo Horizonte: 1,5 mL, sem sinal de comparaçãoDiferença de 6,7% para baixo; e o documento municipal transformou um limite inferior num valor pontual
pH≥ 7,2Sem limite na tabela de percentis; o manual diz que o interesse clínico é o valor baixoFebrasgo: ≥ 7,2. Belo Horizonte: 7,2, sem sinalO pH saiu da tabela de referência na edição nova; segue impresso como corte nos dois documentos brasileiros
Concentração espermática15 milhões por mL16 milhões por mL (15 a 18)Os dois: acima de 15 milhões por mLDiferença de 6,7% para cima: um homem com 15,5 milhões passa pela régua antiga e não pela nova
Número total no ejaculado39 milhões39 milhões (35 a 40)Os dois: acima de 40 milhõesO 40 impresso não é o valor de nenhuma das duas edições — é um arredondamento próprio, um milhão acima
Motilidade total (progressiva mais não progressiva)40%42% (40 a 43)Não aparece em nenhum dos dois documentos brasileirosO parâmetro que a edição nova destaca é justamente o que os documentos brasileiros não imprimem
Motilidade progressiva32%30% (29 a 31)Os dois, escrito como motilidade progressiva (A + B): 32%O número é o da 5ª edição; o rótulo A + B é a nomenclatura de graus que a 5ª havia abandonado e que a 6ª restabeleceu
Vitalidade58%54% (50 a 56)Os dois: 58%, sem sinal de comparaçãoDiferença de 6,9% para baixo; e a 6ª edição só pede vitalidade quando a motilidade está abaixo de 40%
Formas normais4%4% (3,9 a 4,0)Os dois: acima de 4%, pelo critério estrito de KrugerÉ o único parâmetro em que as duas edições coincidem
O que o valor significa5º percentil de homens cujas parceiras engravidaram em até 12 mesesO mesmo — e a 6ª edição escreve, em seção própria, que esse percentil não representa um limite entre homens férteis e inférteisNenhum dos dois documentos brasileiros diz que são percentis, nem de que populaçãoÉ a informação que falta para conversar com o casal: o número ordena a conduta, não dá veredito

Conversões e contas refeitas em Python sobre as apresentações e os números impressos

O que se converteComo está escrito no documentoA contaO que sai
Ácido fólico pré-concepcional em comprimidos da rede400 microgramas, ou 0,4 mg, por via oral ao dia, pelo menos 30 dias antes da concepção (Ministério da Saúde, 2016)Rename 2024, componente básico: comprimido de 5 mg e solução oral de 0,2 mg/mL. 5 ÷ 0,4 = 12,5; 0,4 ÷ 0,2 = 2O comprimido da rede tem 12,5 vezes a dose recomendada; a solução oral entrega a dose certa com 2 mL por dia. Não há apresentação de 0,4 mg em nenhum componente
Ácido fólico na dose alta, para antecedente de defeito de tubo neural4 mg por dia, iniciados pelo menos 30 dias antes da concepção (Ministério da Saúde, 2016)4 ÷ 5 = 0,8 comprimido; 4 ÷ 0,2 = 20 mL de soluçãoA dose de 4 mg não é atingível com um número inteiro de comprimidos de 5 mg; com a solução, são 20 mL por dia — e é a única apresentação que fecha a conta
Progesterona do meio da fase lútea entre unidadesMedidas maiores que 18 nmol/L (ou maiores que 5 ng/mL) (Febrasgo nº 46)Massa molar da progesterona 314,46 g/mol. 18 × 314,46 ÷ 1000 = 5,66 ng/mL; e 5 × 1000 ÷ 314,46 = 15,9 nmol/LAs duas grandezas do parêntese diferem em 13,2%: 18 nmol/L são 5,66 ng/mL, e 5 ng/mL são 15,9 nmol/L. Não é o mesmo corte escrito duas vezes
O dia da progesterona por tamanho de cicloMedida no meio da fase lútea, em duas amostras em dias alternados (Febrasgo nº 46)Fase lútea de 14 dias: meio da fase lútea = duração do ciclo menos 7Ciclo de 24 dias: dia 17. De 28: dia 21. De 35: dia 28. De 38: dia 31. A progesterona do dia 21 só é meio de fase lútea no ciclo de 28 dias
A janela da histerossalpingografia contra a ovulaçãoDo 6º ao 11º dia do ciclo, na fase folicular (Febrasgo nº 46 e SMSA-BH)Ovulação cerca de 14 dias antes da menstruação seguinte: ciclo de 24 dias ovula no dia 10; de 28, no dia 14; de 38, no dia 24Num ciclo de 24 dias — dentro da faixa que a federação chama de normal — a ovulação cai dentro da janela impressa. Marque nos primeiros dias e oriente barreira naquele ciclo
O intervalo para repetir o espermogramaIdealmente 3 meses (Febrasgo e SMSA-BH); repetir após um mês (Ministério da Saúde, 2016)Espermatogênese cerca de 74 dias mais 10 a 14 de trânsito epididimário = 84 a 88 diasUm mês reexamina material que já estava formado quando o primeiro exame foi feito; três meses amostram um ciclo novo. As duas réguas distam 60 dias
A queda de fertilidade depois dos 30 anosQueda de aproximadamente 11% da fertilidade a cada ano após os 30 (Febrasgo nº 46 e SMSA-BH)Leitura composta: 0,89 elevado ao número de anos desde os 30Aos 35 restam 55,8%; aos 40, 31,2%; aos 45, 17,4% do valor dos 30 anos. Lida como 11 pontos absolutos por ano, a mesma frase zeraria a fertilidade aos 39
A frequência de relação contra a janela fértilFrequência média de duas vezes por semana é satisfatória (Febrasgo); ideal de 2 a 3 vezes por semana (SMSA-BH)Janela de 6 dias: 6 ÷ intervalo entre as relaçõesA cada 2 dias, 3 relações dentro da janela; a cada 3 dias, 2; a cada 7 dias, 0,9; a cada 15 dias, 0,4. É por isso que a orientação de frequência dispensa saber o dia

A prevalência declarada e a curva cumulativa do mesmo documento não descrevem a mesma população, e a conta é direta. Os dois documentos brasileiros dedicados ao tema abrem dizendo que a infertilidade está presente em 15% a 20% dos casais, e poucas linhas depois publicam a curva: 50% engravidam em três meses, 60% em seis, 85% em um ano, e 92% dos que não engravidaram no primeiro ano concebem no segundo. Aos doze meses, 85% grávidas deixam 15% sem gravidez — e esse ponto fecha exatamente com o piso da prevalência declarada, porque a definição de infertilidade também é de doze meses. A leitura de 20%, porém, exigiria 80% de gestações em um ano, e não 85%. E aos vinte e quatro meses a mesma curva dá 0,85 mais 0,92 vezes 0,15, ou seja, 98,8% de gestações, deixando 1,2% de casais sem gravidez — doze vezes e meia menos do que a prevalência de 15% impressa na abertura. A conclusão que o interno leva: o número de prevalência é de doze meses e não de dois anos, e citar 15% a 20% como se fosse a fração de casais permanentemente inférteis é errar por uma ordem de grandeza.

A curva de gestação acumulada, dentro dela mesma, não é compatível com uma probabilidade por ciclo que só possa cair. Convertendo os três pontos publicados em probabilidade média por ciclo em cada trecho: de zero a três meses, os não grávidos caem de 100% para 50%, o que dá 20,6% por ciclo; de três a seis meses, de 50% para 40%, o que dá 7,2% por ciclo; de seis a doze meses, de 40% para 15%, o que dá 15,1% por ciclo. Numa população heterogênea, os casais de maior fecundabilidade engravidam primeiro, de modo que a probabilidade média por ciclo dos que restam só pode diminuir com o tempo. Aqui ela cai de 20,6% para 7,2% e volta a subir para 15,1% — o que é impossível se os três pontos vierem da mesma coorte. Pelo menos um dos três está errado, e o candidato natural é o de seis meses: com 20,6% por ciclo, seis ciclos dariam 74%, e não 60%. Nada disso muda a conduta; muda o que o interno pode afirmar ao casal, que é a curva de doze meses e não a de seis.

A fecundabilidade declarada e a curva não são o mesmo número, e vale saber qual usar. Os documentos escrevem fecundabilidade — probabilidade de gestação num ciclo — como cerca de 20%, e fecundidade — gestação a termo num ciclo — como cerca de 15%. Com 20% por ciclo, doze ciclos acumulariam 93,1%; com 15%, 85,8%. A curva publicada diz 85% em doze meses, isto é, o ponto de doze meses corresponde a uma probabilidade por ciclo de 14,6% — a fecundidade, não a fecundabilidade. O ponto de três meses, por sua vez, corresponde a 20,6% — a fecundabilidade. Os dois extremos da mesma curva estão calibrados por grandezas diferentes. Para a conversa com o casal, o número honesto é o de doze meses: cerca de 15% de chance por mês, e 85% acumulados em um ano.

A repartição das causas femininas fecha com uma condição de leitura que o documento não escreve. As cinco causas nomeadas somam 34% — tubário 14, ovulatório 6, reserva ovariana 6, endometriose 7 e uterino 1 —, contra os 35% de fator feminino declarados na linha anterior: um ponto de diferença, compatível com arredondamento. Mas o documento acrescenta múltiplas causas em 13% das pacientes, e somar esse 13 aos 34 daria 47%, doze pontos acima do fator feminino que ele próprio declarou. A leitura que fecha é a de que os 13% de múltiplas causas são sobreposição entre as cinco fatias, e não uma sexta fatia; escrita como está, na mesma lista e com o mesmo formato, ela convida à leitura errada. A soma geral das quatro grandes categorias, essa sim, fecha exatamente: 35% de fator feminino, 30% masculino, 20% de ambos e 15% sem causa aparente somam 100.

O prazo para começar a investigar tem um valor de idade que não pertence a classe nenhuma. A recomendação 4 do protocolo da federação diz: mulheres abaixo de 35 anos devem realizar a propedêutica se não engravidarem após um ano; mulheres com idade superior a 35 anos devem procurar avaliação após seis meses. Abaixo de 35 exclui o 35; superior a 35 também exclui o 35. A mulher de exatamente 35 anos não tem prazo escrito. Não é uma sutileza de redação: 35 anos é justamente o corte mais citado da medicina reprodutiva, é a idade em que mais gente faz a pergunta, e é a idade em que a resposta muda de doze para seis meses. A conduta deste capítulo é tratar o 35 como parte da classe mais protetora, isto é, seis meses — mas essa escolha é do capítulo, não do documento, e fica registrada como tal.

Duas réguas brasileiras em uso divergem sobre quando a mulher de 36 anos deve ser investigada, e a diferença é de seis meses. O protocolo da federação encurta o prazo para seis meses acima dos 35. O protocolo do ministério que a atenção básica tem em mãos organiza o encaminhamento em três faixas etárias, e o degrau dele é aos 40: menos de 30 anos com mais de dois anos de vida sexual ativa; de 30 a 39 anos com mais de um ano; de 40 a 49 anos com mais de seis meses. Pela federação, a mulher de 36 anos investiga aos seis meses; pelo ministério, ela é do grupo de 30 a 39 e espera um ano. Aplicando a queda de 11% ao ano, seis meses de espera a mais aos 36 custam cerca de 5,6% da fertilidade dela. A régua do ministério tem ainda um vão: não há faixa para mulheres de 50 anos ou mais, e não há critério escrito para casal em que o fator impeditivo é apenas suspeito.

O documento brasileiro que a atenção básica usa manda pedir o exame do homem antes do exame da mulher — e é o contrário do que a prática faz. O Fluxograma 3 dos Protocolos da Atenção Básica lista os exames que podem ser solicitados na própria unidade em duas linhas: para a mulher, dosagens hormonais, tireoestimulante, T4 livre e prolactina; para o homem, espermograma, e então a frase que ordena tudo — se o exame vier normal, solicitar histerossalpingografia para a parceira; se vier anormal, repetir após um mês, e mantido alterado, encaminhar ao especialista, urologia ou andrologia. Ou seja: a régua nacional condiciona a irradiação da parceira ao resultado do exame do parceiro. É a única frase de ordem explícita da propedêutica brasileira sobre este tema, ela está no documento mais distribuído do país, e é justamente a que o ambulatório inverte.

O intervalo para repetir um espermograma alterado diverge entre documentos brasileiros por sessenta dias, e a biologia dá razão a um deles. O protocolo da federação e o protocolo municipal dizem que a repetição deve ser feita idealmente três meses depois, para completar o ciclo de formação dos espermatozoides. O protocolo do ministério diz repetir após um mês. A espermatogênese leva cerca de setenta e quatro dias, e o trânsito epididimário acrescenta dez a quatorze: de oitenta e quatro a oitenta e oito dias no total. Uma repetição feita trinta dias depois amostra espermatozoides que já estavam formados quando a primeira coleta foi feita — ela mede a variabilidade da coleta e do laboratório, o que não é pouco, mas não mede um ciclo novo. Uma repetição feita aos noventa dias mede um ciclo novo e, portanto, o efeito de qualquer coisa que tenha mudado. Os três documentos concordam num ponto: em azoospermia ou oligozoospermia grave, a repetição é o mais rápido possível e não espera intervalo nenhum.

Os valores do espermograma impressos nos documentos brasileiros são os da quinta edição do manual da Organização Mundial da Saúde, de 2010, e a sexta edição, de 2021, revisou quase todos. A comparação, parâmetro a parâmetro: volume de 1,5 para 1,4 mL, uma queda de 6,7%; concentração de 15 para 16 milhões por mililitro, uma alta de 6,7%; motilidade total de 40% para 42%; motilidade progressiva de 32% para 30%, uma queda de 6,2%; vitalidade de 58% para 54%, uma queda de 6,9%; formas normais mantidas em 4%; número total mantido em 39 milhões. Nenhum dos dois documentos brasileiros informa de que edição vieram os números, e nenhum deles é datado por edição no ponto em que os imprime. O efeito prático é pequeno em quase todos os parâmetros e não muda conduta — mas o homem com concentração de 15,5 milhões por mililitro é normal pela régua que os documentos brasileiros usam e está abaixo do quinto percentil pela régua vigente.

Há um número no espermograma brasileiro que não pertence a nenhuma das duas edições. O total de espermatozoides no ejaculado aparece nos dois documentos como acima de 40 milhões. A quinta edição fixou 39 milhões e a sexta manteve 39 milhões, com intervalo de confiança de 35 a 40. O 40 impresso está um milhão acima do valor das duas edições e coincide com o limite superior do intervalo de confiança da edição nova, o que sugere arredondamento e não erro de leitura. A consequência é desprezível para a conduta e é registrada aqui porque a auditoria pede que se reporte também o que é pequeno: um homem com 39,5 milhões é normal pelas duas edições da Organização Mundial da Saúde e anormal pela transcrição brasileira.

O rótulo da motilidade viajou entre edições e ficou desencontrado do número. Os dois documentos brasileiros escrevem motilidade progressiva (A + B): 32%. Os graus a, b, c e d — progressivo rápido, progressivo lento, não progressivo e imóvel — são a nomenclatura clássica; o 32% é o limite inferior da quinta edição, que classificava a motilidade em progressiva, não progressiva e imóvel, sem os graus. A sexta edição restabeleceu os quatro graus, e o seu próprio modelo de laudo traz as linhas de progressivo rápido, progressivo lento, não progressivo, imóvel, total móvel (a+b+c) e todo progressivo (a+b) — mas fixou o limite da motilidade progressiva em 30%, não em 32%. Ou seja: a linha brasileira junta um rótulo que a edição de origem do número não usava com um número que a edição que usa o rótulo já revisou. A leitura de que o par está desencontrado é deste capítulo; o que está nos documentos são as duas metades.

Nenhum dos documentos brasileiros consultados diz o que são os valores de referência do sêmen, e essa omissão é a que mais custa na conversa com o casal. Eles são o quinto percentil da distribuição de resultados de homens em casais que conceberam naturalmente em até doze meses — uma população de referência de cerca de 3.500 homens em doze países na sexta edição. Cinco por cento daqueles homens comprovadamente férteis ficaram abaixo do valor impresso. E a sexta edição do manual dedica uma seção curta a dizer exatamente isso, com a frase de que o quinto percentil dos dados da população de referência não representa um limite entre homens férteis e inférteis; a mesma edição registra que a distribuição de resultados de homens presumidamente férteis não basta para estabelecer limites de decisão clinicamente úteis, e chama de limites de decisão o que ainda precisa ser desenvolvido. O laudo brasileiro imprime o valor sem essa nota, e o casal lê um veredito onde há um percentil.

O protocolo municipal copiou os valores do protocolo da federação e perdeu os sinais de comparação no caminho. Na federação está escrito volume ≥ 1,5 mL e pH ≥ 7,2; no protocolo municipal, volume: 1,5 mL e pH: 7,2, sem operador nenhum. Nos dois documentos, motilidade progressiva: 32% e vitalidade: 58% também aparecem sem sinal. O resultado é que, no documento municipal, quatro dos oito parâmetros são valores pontuais e não limites inferiores — e um valor pontual não classifica resultado nenhum. Quem lê o documento sabe o que significa; quem o lê pela primeira vez, ou quem monta um laudo a partir dele, não tem como saber se 1,4 mL é abaixo do limite ou apenas diferente do exemplo. É a mesma família de erro dos cortes escritos sem unidade, e a correção é de uma tecla.

O par de unidades da progesterona lútea não fecha, e a diferença é de 13,2%. O protocolo da federação escreve que as medidas devem ser maiores que 18 nmol/L (ou maiores que 5 ng/mL). Com massa molar de 314,46 g/mol, 18 nmol/L equivalem a 5,66 ng/mL, e 5 ng/mL equivalem a 15,9 nmol/L. As duas grandezas do parêntese não são o mesmo corte escrito duas vezes: quem usa o laboratório que reporta em nanogramas por mililitro trabalha com um limite 13,2% mais baixo do que quem usa o que reporta em nanomoles por litro. Numa dosagem que a própria régua diz não ter relação custo-benefício favorável e que não é rotina, o efeito prático é pequeno; mas é um erro de conversão dentro de um parêntese que existe justamente para evitar erro de conversão.

As faixas de reserva ovariana do protocolo da federação têm um vão e duas fronteiras duplicadas. Para o hormônio folículo-estimulante estão escritos: ideal abaixo de 8 mUI/mL, ruim entre 10 e 15, mau prognóstico acima de 15. Um resultado de 8, de 9 ou de 9,9 não é ideal, não é ruim e não é mau prognóstico — duas unidades inteiras sem classe, e é justamente a faixa em que o resultado começa a preocupar. Para o hormônio antimülleriano: baixa resposta abaixo de 0,5 a 1,0 ng/mL, valores normais entre 1,0 e 2,8, hiper-resposta acima de 2,8 — o corte da baixa resposta é escrito como intervalo, e o 1,0 fecha uma classe e abre a seguinte ao mesmo tempo. Para a contagem de folículos antrais: baixa resposta abaixo de 4 e risco de hiper-resposta acima de 16, sem que a faixa de 4 a 16 receba rótulo. Nenhuma dessas faixas muda o que o interno faz — ele não induz ovulação —, mas todas mudam o que ele diz ao ler o resultado que a paciente traz.

Os critérios de prioridade da fila pública de reprodução humana do protocolo municipal têm uma idade em duas classes e duas idades em nenhuma. Está escrito: alta prioridade para mulheres com idade igual ou maior que 36 anos e menor que 40; média prioridade para mulheres de 36 anos ou menos com fator tubário operado com sucesso no nível secundário e um ano sem gestação; baixa prioridade para mulheres de 42 a 45 anos ou com mais de dois filhos vivos. A mulher de exatamente 36 anos satisfaz a alta e a média ao mesmo tempo. A mulher de 40 e a de 41 anos não satisfazem nenhuma das três: a alta termina antes dos 40 e a baixa começa aos 42. Para as de 46 anos ou mais não há vão real, porque o mesmo documento manda não encaminhar acima de 45. Sobram, portanto, duas idades inteiras sem prioridade escrita, e são justamente as duas em que a queda de fertilidade é mais rápida — pela conta do próprio documento, aos 40 anos restam 31,2% da fertilidade dos 30.

A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 foi conferida por busca exata sobre o texto normalizado — espaço e hífen removidos —, e o resultado muda a conversa final com o casal. Não constam, em nenhum componente: clomifeno, citrato de clomifeno, letrozol, gonadotrofina, gonadotrofina coriônica, folitropina, menotropina e urofolitropina — zero ocorrências para cada um. Ou seja, nenhum medicamento de indução de ovulação está no elenco público, e a mulher com anovulação tratável não encontra na farmácia da unidade o que o serviço secundário lhe indicaria. Constam, e importam a este capítulo: ácido fólico em comprimido de 5 mg e em solução oral de 0,2 mg/mL, componente básico; levotiroxina, básico; cloridrato de metformina 500 e 850 mg, básico; bromocriptina 2,5 mg e cabergolina 0,5 mg, componente especializado, tendo como documento norteador o protocolo de hiperprolactinemia. Isto é: a rede fornece o que corrige a causa hormonal e não fornece o que induz a ovulação.

O ácido fólico pré-concepcional é o único fármaco que este capítulo prescreve, e a apresentação da rede não corresponde à dose que a própria régua nacional recomenda. O protocolo do ministério manda 400 microgramas — 0,4 mg — por via oral ao dia, pelo menos trinta dias antes da concepção, e 4 mg ao dia para mulheres com história de defeito de fechamento do tubo neural. A Rename 2024 oferece comprimido de 5 mg e solução oral de 0,2 mg/mL, ambos no componente básico, e nenhuma apresentação de 0,4 mg. As contas: o comprimido tem 12,5 vezes a dose recomendada; a solução entrega a dose certa com 2 mL por dia; a dose alta de 4 mg dá 0,8 comprimido, que não é um número inteiro, ou 20 mL de solução. A prática difundida de dar o comprimido de 5 mg a toda mulher que planeja engravidar não é irracional — a margem do ácido fólico é larga —, mas ela não é a dose escrita no protocolo, e o interno deve saber que está prescrevendo acima dela e por quê.

A política nacional de reprodução assistida está vigente, e a forma como ela está vigente costuma ser contada errada. A Portaria GM/MS nº 426, de 22 de março de 2005, instituiu a Política Nacional de Atenção Integral em Reprodução Humana Assistida, com os três componentes que o protocolo municipal de Belo Horizonte reproduz até hoje para nomear os seus níveis de atenção. Ela não foi suspensa: a portaria que se cita para isso, a de nº 1.187, de 13 de julho de 2005, suspende por até trinta dias um conjunto de portarias publicadas entre 4 e 7 de julho de 2005, numeradas na faixa de 1.018 a 1.174, e a de nº 426, de março, não está na lista. E ela também não é mais uma portaria autônoma: foi revogada por consolidação pelo artigo 9º da Portaria de Consolidação GM/MS nº 2, de 28 de setembro de 2017, e o seu conteúdo passou a ser o Anexo XXX da mesma portaria, listado no artigo 7º como Política Nacional de Atenção Integral em Reprodução Humana Assistida, na forma do Anexo XXX. Revogada como norma e vigente como anexo é a mesma situação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, de 2009, que virou o Anexo XII. A conferência foi feita em espelhos institucionais de bases oficiais de legislação, porque o servidor do próprio ministério derrubou a conexão em todas as tentativas.

A política existe no papel e não existe na tabela, e essa é a conferência mais dura deste capítulo. A Tabela de Procedimentos, Medicamentos e OPM do SUS foi baixada do repositório oficial do DATASUS, competência de agosto de 2026, e varrida procedimento a procedimento: em 5.023 procedimentos, as buscas por fertilização, inseminação, reprodução assistida, reprodução humana, intracitoplasmática, embrião, oócito, gameta e infertilidade devolvem zero cada uma. Não há procedimento de reprodução assistida na tabela do SUS. O que existe é o serviço 110, Serviço de Atenção a Saúde Reprodutiva, com a classificação 001, Atenção à infertilidade — e, no arquivo que liga procedimentos a serviços, exatamente um procedimento está vinculado a essa classificação: o código 0201010151, biópsia de endométrio. Ou seja, o único procedimento que a tabela do SUS associa à atenção à infertilidade é justamente o exame que os dois protocolos brasileiros deste capítulo mandam não fazer, por não ter valor preditivo do potencial reprodutivo. Na mesma tabela, o espermograma existe com código próprio, 02.02.09.026-4. E nas 347 habilitações da tabela não há nenhuma de reprodução humana assistida.

Houve uma mudança normativa em junho de 2026 que o interno precisa conhecer, e ela ainda não produziu efeito. A Portaria GM/MS nº 11.523, de 2 de junho de 2026, publicada no Diário Oficial da União de 8 de junho de 2026, edição 104, seção 1, página 272, regulamenta a distribuição da oferta de serviços especializados estratégicos e traz, no seu artigo 3º, inciso III, a frase que abre a porta: poderão ser ofertados procedimentos de reprodução humana assistida no âmbito dos Componentes Crédito Financeiro e Ressarcimento ao SUS, que terão seus valores definidos em ato específico da secretaria de atenção especializada no prazo de até sessenta dias contados da data de publicação. A conta do prazo: 8 de junho mais sessenta dias vence em 7 de agosto de 2026. A tabela de procedimentos consultada é a de competência de agosto de 2026, publicada depois desse vencimento, e ela segue com zero procedimentos de reprodução assistida — o que significa que, até a data deste capítulo, o ato com os valores não se materializou na tabela. O que o interno diz ao casal, portanto, é que a porta jurídica foi aberta e que o preço ainda não foi escrito.

Uma conferência de espelhos que deu certo e que serve de método. O protocolo da federação sobre propedêutica básica da infertilidade conjugal foi baixado de duas origens independentes — a biblioteca virtual em saúde e o repositório institucional de uma universidade federal. Os dois arquivos de texto extraído têm tamanhos diferentes, 29.253 e 29.233 caracteres, e portanto resumos criptográficos diferentes: comparar o SHA-256 do texto bruto daria falso positivo de divergência. Normalizando espaço em branco e hífen — inclusive o hífen de separação silábica que a extração de PDF deixa no meio das palavras —, os dois textos passam a ter 23.772 caracteres cada e são idênticos caractere a caractere, com zero divergências. As vinte diferenças brutas eram todas artefato de extração. É o mesmo teste que serve para o oposto: quando ele acusa divergência depois da normalização, a divergência é real.

O protocolo da federação sobre este tema tem dois números, e este capítulo não conseguiu conferir o segundo. As duas cópias íntegras que foram lidas trazem, na caixa de citação, Protocolo Febrasgo – Ginecologia, nº 46/Comissão Nacional Especializada em Reprodução Humana, com data de 2018, impressas na revista da federação em 2020, volume 48, número 5, páginas 311 a 315. O sítio da própria federação hospeda o mesmo título num arquivo cujo nome começa por n84, e índices de busca descrevem uma edição de 2021 sob o número 84. O arquivo n84 não abriu: o portal devolveu página HTML em vez do PDF, em duas tentativas. Este capítulo, portanto, cita e usa o de nº 46 — que é o que foi lido de ponta a ponta, em duas cópias conferidas entre si — e registra que existe uma versão mais nova possivelmente renumerada, cujo conteúdo não foi verificado e sobre a qual nada se afirma aqui.

A política nacional de saúde do homem não trata de infertilidade masculina, e isso importa para o eixo deste capítulo. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, instituída pela Portaria GM/MS nº 1.944, de 27 de agosto de 2009, está hoje consolidada como o Anexo XII da Portaria de Consolidação GM/MS nº 2, de 2017 — revogada como portaria autônoma pelo mesmo artigo 9º que revogou a política de reprodução assistida. O texto consolidado dos anexos, varrido de ponta a ponta, tem doze ocorrências de infertilidade, fertilização e inseminação, e todas as doze estão na mesma página: a do Anexo XXX, que é o da reprodução assistida. Nenhuma está no Anexo XII. O plano de ação nacional da política de saúde do homem para 2009 a 2011 tem zero ocorrências de infertilidade; o que há no eixo de planejamento reprodutivo é a promoção da ampliação e da qualificação da atenção ao planejamento reprodutivo masculino, com metas de vasectomia. Ou seja: a única política nacional dirigida à saúde do homem trata da fertilidade dele exclusivamente pelo lado de interrompê-la. É a explicação normativa da cadeira vazia do corredor.

O único dinheiro federal identificável para reprodução assistida no SUS foi de parcela única, em dezembro de 2012, e a conta do anexo tem um resíduo. A Portaria GM/MS nº 3.149, de 28 de dezembro de 2012, destinou dez milhões de reais a estabelecimentos que realizam procedimentos de reprodução humana assistida, a serem repassados em parcela única, onerando o programa de trabalho de apoio à implementação da Rede Cegonha. O anexo lista oito estabelecimentos, e a soma dos valores por estabelecimento fecha exatamente: um milhão mais um milhão e meio mais um milhão mais um milhão mais um milhão e meio mais um milhão e meio mais um milhão e meio mais um milhão são dez milhões. Em julho de 2013, a Portaria nº 1.397 acresceu um nono serviço, com um milhão e meio, o que levaria o total a onze milhões e quinhentos mil; no texto compilado, porém, o total geral segue impresso como dez milhões. Esta nota registra a divergência e registra também que o original publicado no Diário Oficial não foi aberto por este capítulo — a leitura foi feita em espelho de base oficial de legislação, e a conferência do total merece ser refeita por quem tiver o Diário Oficial em mãos.

Duas conferências bateram, e elas valem tanto quanto as que falharam. A primeira: o teste do clomifeno, descrito no protocolo da federação com 100 mg do citrato nos dias 5 a 9 do ciclo e dosagens de hormônio folículo-estimulante nos dias 3 e 10, tem cronologia coerente — a primeira dosagem precede a droga em dois dias e a segunda é no dia seguinte à última tomada, que é exatamente o desenho do teste. O documento o descreve e, na mesma seção, o desaconselha, dizendo que os testes dinâmicos não possuem aplicabilidade clínica e retardam o diagnóstico: descrever bem e desaconselhar é uma combinação rara e correta. A segunda: as regras de coleta e transporte do sêmen da sexta edição do manual internacional são internamente consistentes — entrega em até cinquenta minutos quando a coleta é fora, análise iniciada em até sessenta minutos, temperatura entre 20 e 37 graus, e a margem de dez minutos entre o teto da entrega e o teto do início da análise é justamente o tempo de recepção da amostra.

08

A conduta, hora a hora

Registrar tempo de tentativa, idade, frequência de relações e antecedentes de ambos. Se houver fator de risco, antecipar a investigação apropriada; sem ele, orientar e aplicar o prazo correspondente ao contexto. Avaliar fatores em paralelo, com testes dirigidos e encaminhamento proporcional. Não concluir que a causa é feminina porque só uma pessoa tem prontuário aberto.

A linha abaixo acompanha Lauriene Tibucheski e Ronildo Sartorelli, o casal da abertura, do momento em que ele entra na sala até a sexta consulta. Eles são o caso mais comum do ambulatório brasileiro — dois anos de tentativa, treze exames dela e nenhum dele —, e é por isso que a sequência abaixo atravessa todas as decisões deste texto: chamar os dois para dentro, perguntar a frequência, emitir os dois pedidos no mesmo dia, ler um espermograma mal colhido, repetir do jeito certo e conversar sobre até onde eles querem e conseguem ir.

Fármaco quase não aparece nesta sequência, e a ausência é do tema, não uma falha deste texto. O único medicamento que este capítulo prescreve é o ácido fólico; os que induzem ovulação não estão no elenco público e não são de atenção básica; e a maior parte do que muda o desfecho é conversa, orientação e agenda. Todo número aqui vem acompanhado do documento que o sustenta; quando documento brasileiro nenhum fixa o número, a lacuna fica escrita como lacuna.

  1. Consulta 1, minuto 0 — abrir a porta e chamar os dois

    Ronildo está no corredor porque o encaminhamento tem o nome de Lauriene. O primeiro ato clínico da consulta é ir até a porta e chamá-lo, e o segundo é explicar por que, na frente dos dois: a investigação é do casal, metade das causas passa por ele, e o exame que responde por essa metade é o mais simples de todos. Isso muda o registro do prontuário — que passa a ter dois nomes — e muda a consulta, porque metade da anamnese que faltava está sentada na cadeira. A pasta grossa fica fechada por enquanto: os treze exames dela vão ser lidos, mas depois da anamnese, não antes, para que não organizem o raciocínio pela ordem em que foram pedidos.

    Prescrição
    • Registrar a consulta como atendimento de casal, com os dois nomes e as duas datas de nascimento.
    • Anamnese dele: puberdade, disfunção sexual, infecções sexualmente transmissíveis e geniturinárias, caxumba, varicocele, torção testicular, trauma genital, hernioplastia, vasectomia, uso de anabolizante ou hormônio masculino, drogas, álcool, tabaco, filhos e idade do último.
    • Anamnese dela e revisão do que já foi feito: nenhum exame se repete sem que se saiba o que ele respondeu.
  2. Consulta 1, minuto 10 — a pergunta que nenhuma das quatro consultas anteriores fez

    Com que frequência vocês têm relação, e há quanto tempo é assim? A resposta demora a sair e sai constrangida: duas vezes por mês, aos domingos, porque ele dirige das seis da tarde às quatro da manhã seis dias por semana e dorme enquanto ela trabalha. Faça a conta em voz alta, sem culpar ninguém: a janela fértil dura cerca de seis dias e termina no dia da ovulação, e relação a cada quinze dias cai dentro dela em menos da metade dos ciclos. Vinte e sete meses de tentativa com esse padrão não são vinte e sete tentativas: são menos de treze. É a variável com maior efeito de toda a consulta, ela não custa nada, e nenhum exame a substitui.

    Prescrição
    • Orientação escrita e entregue: relação a cada dois ou três dias ao longo do mês, sem tentar acertar o dia da ovulação e sem calendário. A régua brasileira registra duas vezes por semana como satisfatória e o protocolo municipal escreve o ideal como duas a três vezes por semana.
    • Combinar com o casal uma mudança concreta de escala ou de rotina que torne isso possível — a orientação que não cabe na vida deles não é orientação.
    • Suspender lubrificante e ducha vaginal após a relação; a régua manda avaliar explicitamente a prática sexual do casal, e esses dois itens estão na lista.
    • Ácido fólico: solução oral de 0,2 mg/mL, 2 mL por dia, ou o comprimido de 5 mg da rede, com o registro no prontuário de que a dose do comprimido é 12,5 vezes a recomendada e de por que ela foi escolhida.
  3. Consulta 1, minuto 20 — os dois pedidos, no mesmo dia, com instrução por escrito

    Lauriene tem 34 anos e dois anos e três meses de tentativa: passou de qualquer régua brasileira, e não há mais nada a esperar. Os pedidos saem juntos, e não em série, porque a soma das esperas é o que custa. O dela: gonadotrofinas no terceiro dia do fluxo, prolactina, tireoestimulante, e as sorologias pré-concepcionais dos dois. O dele: espermograma, com o nome dele em cima e a folha de instruções grampeada — porque metade do resultado está na coleta, e nenhum paciente memoriza abstinência, tempo e temperatura no meio de uma consulta. A histerossalpingografia ainda não: a régua nacional condiciona o exame dela ao resultado do exame dele, e não há razão para irradiar uma mulher antes de saber se há espermatozoide.

    Prescrição
    • Dela: hormônio folículo-estimulante e luteinizante no 3º dia do fluxo; prolactina; hormônio tireoestimulante; ultrassonografia transvaginal já disponível na pasta, não repetir.
    • Dos dois: sorologias para toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, sífilis, HIV, hepatites B e C e HTLV, conforme o protocolo municipal.
    • Dele: espermograma. Instrução anexa — abstinência de 2 a 7 dias; coleta por masturbação, sem preservativo comum e sem lubrificante; ejaculado completo no pote, avisando se perder qualquer fração; entrega em até 50 minutos, com o pote sob a roupa, junto ao corpo.
    • Retorno marcado para três semanas, com os dois presentes. No pedido dele, escrever o telefone da unidade e a frase de que o exame é parte da investigação do casal — porque o laboratório costuma perguntar por que um homem está pedindo isso sozinho.
  4. Consulta 2, semana 3 — o espermograma volta alterado, e a primeira coisa a ler não é o resultado

    Concentração de 7,4 milhões por mililitro, motilidade progressiva de 19%, volume de 1,1 mL, formas normais de 3%. Ronildo já leu na internet e chega com a conclusão pronta. A primeira coisa a fazer é ler o cabeçalho: abstinência de um dia, coleta em casa, entrega uma hora e quarenta depois, no bolso da jaqueta, num domingo de junho. Três das quatro regras foram quebradas — abstinência abaixo do mínimo de dois dias, entrega muito além dos cinquenta minutos, e temperatura provavelmente abaixo dos 20 graus durante o transporte. Esse exame não mede Ronildo: mede o trajeto. A conduta não é encaminhar nem tranquilizar; é repetir com a coleta certa, e explicar por que, para que a repetição não seja lida como dúvida sobre ele.

    Prescrição
    • Novo espermograma, com coleta na própria sala do laboratório, agendado em horário compatível com a escala dele — a agenda é parte da prescrição.
    • Instrução repetida por escrito e conferida em voz alta: 3 dias de abstinência, coleta no local, ejaculado completo.
    • Nenhum encaminhamento à urologia neste momento, e o motivo registrado no prontuário: o primeiro exame não preenche as condições de coleta da régua internacional.
    • Nenhum tratamento empírico, nenhum suplemento, nenhuma vitamina antioxidante — não há indicação em documento brasileiro consultado, e prescrevê-los aqui é vender esperança.
  5. Consulta 2, minuto 20 — o painel dela, e a leitura do que já estava na pasta

    Gonadotrofinas normais no terceiro dia, prolactina de 12 ng/mL, tireoestimulante de 2,1, ultrassonografia transvaginal sem alterações. O ciclo é regular há vinte anos, o que já dizia que ela provavelmente ovula, e o painel confirma que o eixo está íntegro. O antimülleriano de 1,4 ng/mL que ela pagou do próprio bolso é lido em voz alta pelo que ele é: uma estimativa de como o ovário responderia a um estímulo com gonadotrofina, e não uma previsão da chance de engravidar neste mês — está escrito assim na régua da federação, que registra que os testes de reserva não se relacionam com a chance de gravidez nem com a qualidade oocitária. Nada no painel dela explica dois anos sem gravidez, e essa é uma informação, não uma frustração: sobram o fator tubário, o fator masculino e a frequência, e dois deles já estão sendo endereçados.

    Prescrição
    • Nenhum exame novo dela nesta consulta; nenhuma repetição de ultrassonografia.
    • Registro no prontuário: ciclos regulares, eixo íntegro, sem sinal de anovulação; reserva ovariana estimada, com a anotação de que o valor não é prognóstico de gravidez natural.
    • Explicar por que a histerossalpingografia ainda não foi pedida e em que condição ela será: depois do espermograma bem colhido.
    • Manter a orientação de frequência e conferir se a mudança de escala foi possível.
  6. Mês 3 — a repetição bem colhida, e o que ela decide

    Coleta no laboratório, três dias de abstinência, análise iniciada em vinte e cinco minutos: concentração de 24 milhões por mililitro, motilidade progressiva de 41%, volume de 2,8 mL, formas normais de 5%. O exame está dentro dos valores de referência que os documentos brasileiros imprimem e também dos da edição vigente do manual internacional. Duas coisas precisam ser ditas com cuidado. A primeira: isso não prova que Ronildo é fértil, porque o valor de referência é um percentil de homens férteis e não um limiar — mas afasta o fator masculino como explicação provável, que é o que a consulta precisava. A segunda: a distância entre os dois exames dele é a melhor demonstração possível de por que um resultado alterado isolado não fecha nada, e vale dizer isso ao casal com os dois papéis lado a lado.

    Prescrição
    • Registro comparativo dos dois exames, com as condições de coleta de cada um anotadas ao lado do resultado.
    • Nenhum encaminhamento à urologia; nenhum terceiro espermograma.
    • Pedir agora a histerossalpingografia, com a instrução de agendamento entre o 6º e o 11º dia do ciclo. Como o ciclo dela é de 29 a 30 dias, a janela é segura; a orientação de barreira no ciclo do exame fica registrada assim mesmo.
    • Sorologias já colhidas: conferir e tratar o que houver antes da gestação; conferir situação vacinal dos dois.
  7. Mês 4 — a histerossalpingografia, e a decisão de destino

    O exame mostra cavidade uterina de contorno regular e prova de Cotte negativa à direita, com oclusão da tuba direita na porção ístmica e passagem livre à esquerda. Oclusão unilateral, com a outra tuba pérvia — e isso muda menos do que o casal imagina e mais do que o interno imagina. Menos, porque uma tuba pérvia mantém a possibilidade de gestação espontânea. Mais, porque o achado, somado a dois anos e sete meses de tentativa e à idade dela, define o encaminhamento e o tira do campo do talvez. É o momento de escrever o encaminhamento com tudo o que ele precisa carregar: os dois espermogramas com as condições de coleta, o painel dela, a imagem, o tempo de tentativa contado a partir da data em que pararam o método, e a orientação de frequência já implantada.

    Prescrição
    • Encaminhamento ao serviço de infertilidade, com a propedêutica básica completa em anexo — a ausência dela é o primeiro dos enganos que o protocolo municipal lista.
    • Escrever no encaminhamento a data de início da tentativa, e não a data da consulta: é o que faz a fila contar o tempo certo.
    • Nenhuma videolaparoscopia pedida por este serviço: ela é indicada quando a histerossalpingografia sugere alteração importante ou há suspeita de endometriose, e a decisão pertence ao serviço que vai operar.
    • Manter frequência, ácido fólico e peso; agendar retorno em oito semanas, mesmo com o encaminhamento feito — o casal não pode sumir na fila.
  8. Mês 6 — a conversa sobre até onde, e sobre o que existe do outro lado

    O encaminhamento foi feito e a consulta no serviço de infertilidade tem data para dali a quatro meses. Este marco não tem exame e é o mais difícil da linha, porque é onde o interno precisa dizer a verdade sobre a rede sem tirar a esperança do casal e sem prometer o que não controla. O que se diz: que existe uma política nacional de reprodução humana assistida desde 2005, hoje vigente como anexo da consolidação de 2017, organizada em três níveis; que essa política não corresponde a procedimento na tabela do SUS — a tabela de agosto de 2026 não tem nenhum de fertilização, inseminação ou reprodução assistida —, de modo que os serviços públicos que existem funcionam por arranjo local, como o convênio entre uma secretaria e um hospital universitário; que uma portaria de junho de 2026 abriu a possibilidade de oferta por outra via de financiamento, com valores a serem publicados em sessenta dias, prazo já vencido sem publicação; que nenhum medicamento de indução de ovulação está na relação nacional de medicamentos essenciais, o que significa que essa parte do tratamento, quando indicada, costuma sair do bolso; e que a fila tem critérios de prioridade escritos, que dependem de idade e de diagnóstico. E o que se pergunta: até onde eles querem ir, e o que fariam se a resposta demorasse mais um ano.

    Prescrição
    • Registro da conversa sobre expectativa, custo e tempo, com o que o casal respondeu — inclusive se disseram que não querem seguir.
    • Reforço da contracepção invertida: nada a suspender, mas a lembrança de que gestação espontânea segue possível com uma tuba pérvia, e de que qualquer atraso menstrual pede teste antes de qualquer exame com radiação.
    • Retorno semestral enquanto a fila corre; se houver gestação, pré-natal com a informação de tuba ocluída à direita registrada, pelo risco aumentado de gestação ectópica — que é assunto do capítulo Gravidez ectópica.
    • Nenhuma indução de ovulação prescrita nesta unidade: a régua manda pesquisar fator masculino e tubário antes de induzir, e a indução, quando indicada, é do nível secundário.
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Como saber se está funcionando

A reavaliação neste tema não é de horas nem de dias: cada parâmetro tem o seu relógio, e usar o relógio errado produz números que não significam nada. Um espermograma repetido em quatro semanas mede a coleta; um repetido em três meses mede um ciclo novo. Um ciclo menstrual só se avalia depois de acontecer. Uma orientação de frequência só se avalia depois de dois ou três meses de rotina mudada.

Uma regra atravessa os sete parâmetros abaixo: antes de repetir exame nenhum, liste os resultados possíveis e diga o que cada um deles faria você mudar. Se a lista inteira levar à mesma conduta, o exame não se repete, e aquele casal ganha mais com uma consulta do que com um pedido.

A frequência de relação sexual, e se a mudança combinada coube na vida do casalEm toda consulta, e é a primeira pergunta do retorno

Esperado: Relação a cada dois ou três dias, distribuída ao longo do mês, sem calendário e sem tentativa de acertar o dia. É o parâmetro com maior efeito e o único que o casal controla sozinho.

Se não melhora: Não repita a orientação: descubra o obstáculo. Escala de trabalho que não se cruza, dor à relação, dificuldade de ereção, conflito, cansaço, ou a própria pressão de estar tentando. Cada um desses tem conduta diferente, e nenhum melhora com a frase repetida. A dispareunia é fronteira: se ela for cíclica e profunda, o capítulo é o de Endometriose; se for crônica e sem padrão, o de Dor pélvica crônica.

O espermograma repetido — e as condições de coleta anotadas ao lado do resultadoTrês meses depois, para amostrar um ciclo novo; imediatamente, se o primeiro mostrou azoospermia ou oligozoospermia grave

Esperado: Segundo resultado dentro dos valores de referência quando o primeiro exame tinha coleta ruim; ou confirmação da alteração quando a coleta do primeiro estava correta. Registre sempre as quatro condições — dias de abstinência, local, tempo até a análise e integridade do ejaculado — junto do número.

Se não melhora: Alteração confirmada em duas coletas boas é encaminhamento à urologia, e não motivo para um terceiro exame. Azoospermia confirmada não espera intervalo nenhum. O que se investiga depois — hormônios masculinos, ultrassonografia de bolsa escrotal, varicocele, causas obstrutivas, biópsia — é de urologia, e este capítulo cede pelo nome, registrando que o nível não tem capítulo dedicado ao fator masculino.

O ciclo menstrual, registrado em diário de datasContinuamente; a leitura que decide é a de três ciclos

Esperado: Intervalos regulares e previsíveis, que já indicam ovulação sem nenhuma dosagem. O diário serve a duas coisas ao mesmo tempo: confirmar a ovulação e permitir marcar a histerossalpingografia no dia certo.

Se não melhora: Ciclo que se torna irregular, se espaça ou desaparece durante o seguimento tira o caso da investigação de infertilidade e o devolve à investigação da causa: ausência de menstruação é do capítulo Amenorreia; anovulação com sinais de hiperandrogenismo é do capítulo Síndrome dos ovários policísticos. Trate a causa antes de qualquer outra coisa — e, antes de tratar a anovulação, o protocolo municipal manda pesquisar fator masculino e fator tubário.

Peso, tabagismo e álcool dos doisA cada consulta, nos dois

Esperado: Índice de massa corporal em queda quando havia sobrepeso, cigarro reduzido ou cessado, álcool reduzido. A régua brasileira registra que tabagismo e álcool contribuem para o declínio da fertilidade do casal, e que maconha e cocaína alteram a pulsatilidade hormonal e a espermatogênese.

Se não melhora: Não transforme a orientação em condição para investigar: adiar exame até o casal emagrecer é gastar o tempo que a idade dela não tem. As duas coisas correm em paralelo. Quando houver sinal de transtorno alimentar, dependência ou sofrimento psíquico, o encaminhamento é próprio e não espera a infertilidade se resolver.

O tempo de fila e a data do encaminhamentoA cada consulta, e é obrigação do serviço que encaminhou

Esperado: Encaminhamento com a propedêutica completa, com a data de início da tentativa escrita, e com retorno agendado na própria unidade enquanto a fila corre. O casal não deve sair do acompanhamento porque foi encaminhado.

Se não melhora: Fila que não anda e mulher que envelhece é uma combinação que exige registro escrito e reiteração do encaminhamento, com a idade atualizada — porque os critérios de prioridade dependem dela, e porque há protocolos em que faixas inteiras de idade não têm prioridade escrita. Registre também quando o casal decide parar: essa também é uma conduta, e ela precisa constar.

O atraso menstrual, em qualquer ponto da linhaA cada consulta, e sempre antes de qualquer exame com radiação ou contraste

Esperado: Ausente. Um teste de gravidez negativo de dois meses atrás não vale para hoje, e a histerossalpingografia é o exame deste capítulo que mais depende disso.

Se não melhora: Atraso com teste positivo tira o casal deste capítulo e o entrega ao pré-natal — e, quando há fator tubário conhecido, entrega com uma pergunta escrita: gestação em mulher com tuba ocluída tem risco aumentado de implantação ectópica, e isso é assunto do capítulo Gravidez ectópica. Nenhum exame de imagem com radiação se faz antes do resultado do teste.

O que o casal entende do prognóstico, e o que espera do próximo passoA cada consulta, com uma pergunta direta

Esperado: Que os dois saibam dizer, com as próprias palavras, o que já foi investigado, o que ainda falta, e o que o serviço público tem e não tem para oferecer. Quando um dos dois não sabe, é quase sempre o homem — e é sinal de que ele voltou a ficar no corredor.

Se não melhora: Expectativa desalinhada é o que produz abandono e é o que produz gasto: casal que acha que a fertilização in vitro está garantida, ou que um antimülleriano baixo é sentença, decide com informação errada. Corrija com número: a pergunta que o exame responde, a pergunta que fica sem resposta, e quanto tempo a fila costuma levar naquele serviço. E pergunte, sem rodeio, se eles querem continuar — parar é uma decisão legítima e precisa ser oferecida como tal.

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Onde o erro machuca

Investigar só a mulher — pedir três exames dela antes do primeiro exame dele

O dano: Trinta por cento dos casais têm fator masculino isolado e 20% têm fator dos dois: metade dos casais tem participação masculina na causa. Investigar apenas a mulher gasta o dinheiro e o tempo do casal onde a probabilidade é menor, submete-a a radiação e contraste que talvez não fossem necessários, e atrasa em meses o único exame que responde por metade da repartição. E instala, no casal, a ideia de que o problema é dela — o que tem consequência conjugal, não só clínica.

Como pegar a tempo: Chame o homem para dentro da sala na primeira consulta, mesmo que a ficha esteja no nome dela, e entregue o pedido com o nome dele em cima no mesmo dia dos exames dela. A ordem impressa na régua nacional é essa: espermograma primeiro e histerossalpingografia da parceira depois, se ele vier normal. Se ele não puder vir, mande o pedido e a instrução de coleta por escrito — mas registre no prontuário que ele não foi examinado, para que a próxima consulta saiba.

Aceitar um espermograma alterado sem ler as condições de coleta

O dano: Abstinência fora da faixa de dois a sete dias, coleta em casa, transporte de mais de cinquenta minutos, temperatura abaixo de 20 graus ou perda da primeira fração do ejaculado — que é a rica em espermatozoides — produzem um resultado que mede o trajeto e não o homem. O dano tem duas caras: encaminhamento desnecessário à urologia, com fila e ansiedade, e o oposto, um casal que decide que o caso está resolvido e para de investigar a mulher.

Como pegar a tempo: Leia o cabeçalho antes do resultado, sempre, e pergunte as quatro coisas: quantos dias de abstinência, onde colheu, quanto tempo levou, e se saiu tudo no pote. Com qualquer uma fora, repita com a coleta feita no laboratório e com instrução escrita — a instrução entregue de boca não sobrevive à consulta. E lembre-se de que, mesmo com a coleta perfeita, um exame alterado isolado não fecha diagnóstico: a régua manda confirmar.

Usar a reserva ovariana para dar prognóstico de gravidez natural

O dano: Dizer a uma mulher de 32 anos que um antimülleriano de 0,9 ng/mL significa que ela não vai engravidar é usar o exame fora da pergunta que ele responde. O protocolo da federação escreve que os testes de reserva não se relacionam com a chance de alcançar gestação naquele ciclo nem durante os ciclos de tratamento, e tampouco com a qualidade oocitária, e que a idade da mulher permanece o parâmetro mais forte. O dano é uma decisão reprodutiva tomada com um número que não responde à pergunta — e, às vezes, um tratamento caro comprado por medo.

Como pegar a tempo: Diga em voz alta o que o exame mede: quantos folículos ainda podem ser recrutados por um estímulo, e portanto como o ovário responderia a um tratamento. Depois diga o que ele não mede: a chance de engravidar naturalmente e a qualidade dos ovócitos. E use a variável que de fato prevê: a idade. O protocolo municipal registra que o antimülleriano não deve ser rotineiramente solicitado na atenção primária, e essa é a conduta.

Mandar o casal esperar mais um ano sem perguntar o que encurta o prazo

O dano: O prazo de doze meses vale para o casal sem fator de risco. Mulher acima do corte de idade, ciclo irregular, doença inflamatória pélvica prévia, endometriose conhecida ou suspeita, cirurgia abdominal ou pélvica anterior e problema masculino conhecido tiram o casal da regra. Pela conta composta de 11% ao ano, cada ano de espera custa cerca de 11% da fertilidade que restava; dos 35 aos 39 se perde cerca de um terço. O dano é de tempo, e tempo não volta.

Como pegar a tempo: Faça as seis perguntas da lista antes de decidir esperar, e faça a da cirurgia com palavras que a tragam à tona — já ficou internada por dor de barriga, já operou apêndice, já tomou antibiótico na veia por dor pélvica. E, na mulher acima do corte, peça tudo de uma vez e encaminhe no mesmo dia: a soma das esperas de exames pedidos em série é o que a tira das faixas de prioridade da fila.

Pedir a bateria completa no casal de três meses de tentativa

O dano: Metade dos casais engravida em três meses. Pedir exames a quem ainda está dentro da estatística gasta recurso público, ocupa a vaga de quem já passou do prazo, produz achados incidentais que geram novos exames, e transforma um casal saudável em paciente. E há um dano específico: um antimülleriano no limite inferior, pedido sem indicação em quem engravidaria sozinha, produz uma decisão apressada e cara.

Como pegar a tempo: Faça a consulta preconcepcional inteira, que é o que essa consulta pede: orientação de janela fértil e frequência, ácido fólico, sorologias, preventivo em dia, vacinas, controle de comorbidade, peso, tabaco e álcool. E marque a data em que a investigação começa se não houver gravidez. Espera com data marcada e orientação não é a mesma coisa que mandar voltar depois — e é o que separa a consulta que resolve da consulta que adia.

Encaminhar sem propedêutica, ou encaminhar em vez de investigar

O dano: O protocolo municipal de Belo Horizonte lista, entre os principais enganos nos encaminhamentos à reprodução humana, casais encaminhados sem terem realizado nenhuma propedêutica — nem mesmo o exame ginecológico de rotina —, casais com contraindicação de gravidez que deveriam ter sido orientados na atenção primária, e casais mandados do secundário para o terciário sem os tratamentos que o secundário faria. Cada um deles gasta uma vaga de fila e devolve o casal ao ponto de partida meses depois.

Como pegar a tempo: Encaminhe com o pacote: os dois espermogramas com as condições de coleta anotadas, o painel dela, a imagem tubária, as sorologias, o tempo de tentativa contado a partir do dia em que pararam o método, e o relatório de quem acompanha as comorbidades. Escreva a data de início da tentativa, e não a data da consulta. E mantenha o casal em acompanhamento na sua unidade enquanto a fila corre — encaminhar não é dar alta.

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O que dizer ao paciente e à família

As conversas deste capítulo têm uma dificuldade que não é técnica: quase sempre há duas pessoas na sala com expectativas diferentes, e uma delas costuma estar carregando culpa que o outro não vê. A regra que organiza todas as falas abaixo é dizer o número junto com o significado — porque a probabilidade, dita em voz alta, tira o peso moral de cima de quem o está carregando.

Uma advertência que atravessa o bloco: nunca dê ao casal um prognóstico que os documentos não sustentam. Percentual de sucesso citado sem denominador e sem a idade a que se refere é a moeda falsa deste tema, e o interno que a usa uma vez perde a confiança do casal quando o resultado não vier.

Ele está no corredor porque o encaminhamento é dela, e você vai chamá-lo para dentro

"Seu Ronildo, o senhor pode entrar? A consulta é dos dois, e não é formalidade: em metade dos casais que não engravidam, a causa passa pelo homem — trinta por cento é só dele, vinte por cento é dos dois. E o exame que responde por essa metade é o mais simples de toda a investigação, é feito aqui pelo posto e não precisa de especialista. Não faz sentido a gente ter treze exames da sua esposa e nenhum do senhor."

Não diga: Evite pedir licença por chamá-lo, e evite explicar depois que ele já estiver sentado — a explicação é o convite. Não use a palavra culpa nem a palavra problema nessa frase; use probabilidade e exame. E não pergunte se ele quer fazer: entregue o pedido como parte do plano, do mesmo jeito que se entrega o dela.

Ele diz que já tem um filho, portanto o problema não é dele

"Isso conta, e é bom saber. Mas conta para o senhor de doze anos atrás. O corpo leva quase três meses para produzir cada lote de espermatozoide, e o que a gente vai olhar é o lote que ficou pronto agora — muita coisa pode ter mudado nesse tempo: idade, uma inflamação, uma cirurgia, uma varicocele, um remédio. O exame não vai dizer que o senhor não é pai. Vai dizer como está a produção hoje, que é a pergunta que interessa para essa gravidez."

Não diga: Evite contestar a paternidade anterior ou tratá-la como irrelevante — ela é a prova que ele tem de si mesmo, e desqualificá-la fecha a conversa. E evite prometer que vai dar normal: a frase que funciona é a que separa o passado da pergunta de hoje, não a que garante o resultado.

Ela pergunta se a culpa é dela, porque foi ela quem fez todos os exames até agora

"A pergunta não é de quem é a culpa, é de onde está o obstáculo — e ele pode estar em três lugares, e às vezes em nenhum. Em quinze por cento dos casais a investigação inteira vem normal e a gravidez acontece depois. A senhora fez muitos exames porque foi a senhora que estava na sala, não porque alguém achou que era a senhora. Hoje a gente corrige isso, e a primeira coisa que muda é que os dois vão ter exame."

Não diga: Evite responder com a estatística sozinha, sem a frase sobre por que ela foi a única investigada: é essa a parte que ela está sentindo. E evite dizer que ninguém tem culpa antes de dizer onde o obstáculo pode estar — a tranquilização genérica soa como fuga da pergunta.

O casal tem três meses de tentativa e veio pedir a bateria de exames

"Eu entendo a pressa, e vou explicar por que não vou pedir hoje. De cada dez casais que começam a tentar, cinco engravidam em três meses e oito e meio em um ano. Vocês estão exatamente onde a maioria está. Mas essa consulta não vai terminar em 'esperem': hoje sai o ácido fólico, saem os exames que a gente pede antes de qualquer gravidez, sai a orientação sobre os dias, e sai a data em que a investigação começa se não tiver engravidado. É espera com data marcada, não é espera no vazio."

Não diga: Evite as palavras relaxa e ansiedade — elas são ouvidas como recusa e como julgamento, e são a frase que faz o casal procurar outro serviço. E não termine sem a data escrita: a espera sem data é a que faz o casal voltar em três anos.

Você vai perguntar com que frequência eles têm relação sexual

"Vou fazer uma pergunta que parece simples e que muda mais coisa do que qualquer exame: com que frequência vocês conseguem ter relação, e há quanto tempo é assim? Pergunto porque o óvulo dura menos de um dia e o espermatozoide dura até cinco, então existe uma janela de uns seis dias por mês. Quem tem relação a cada dois ou três dias cai dentro dela sem precisar contar nada. Se a rotina de vocês não permite isso, esse é o primeiro assunto, e não é vergonha nenhuma: é escala de trabalho."

Não diga: Evite perguntar quantas vezes por semana como se houvesse uma resposta certa a ser confessada, e evite recomendar calendário, aplicativo ou teste de ovulação — a régua brasileira registra que o coito programado adiciona estresse, e a orientação de frequência existe justamente para dispensar o calendário.

O primeiro espermograma veio alterado e ele chega convencido de que é estéril

"Antes de olhar o número, deixa eu olhar como o exame foi feito. O senhor colheu em casa, entregou quase duas horas depois, e tinha um dia sem ejacular. As três coisas mudam o resultado, e mudam para pior — o laboratório não mediu o senhor, mediu o caminho até lá. A gente vai repetir do jeito certo, colhendo aqui mesmo. E, mesmo se o segundo vier parecido, um exame alterado não quer dizer estéril: esses valores de referência vieram de homens que tiveram filhos, e cinco em cada cem deles ficaram abaixo desse número."

Não diga: Evite dizer que o exame não vale nada — ele vale, só não vale para o que ele acha. E evite entrar na conversa sobre tratamento, suplemento ou vitamina antes do segundo exame: é o momento em que o casal mais compra o que não precisa.

Eles perguntam se o SUS faz fertilização in vitro, e quanto tempo demora

"Existe uma política nacional de reprodução assistida desde 2005, com três níveis de atenção, e existem serviços públicos que fazem fertilização in vitro — mas eles são poucos, não estão em todo lugar, funcionam por acordos locais e a fila é longa. Vou ser direto com vocês: o procedimento não está na tabela de procedimentos do SUS, e por isso onde ele existe é porque alguém montou o serviço, não porque o sistema o oferece em toda parte. Eu não vou prometer um prazo que não controlo. O que eu posso fazer é encaminhar com tudo pronto, contando o tempo desde que vocês começaram a tentar, e continuar acompanhando aqui. E preciso dizer duas coisas que costumam pegar de surpresa: os remédios que induzem ovulação não estão na lista de medicamentos do SUS, e vale vocês se prepararem para a possibilidade de parte disso sair do bolso."

Não diga: Evite responder que o SUS não faz — é impreciso e fecha uma porta que existe em alguns serviços. E evite o oposto, que é prometer que o SUS faz: não há procedimento na tabela, e a promessa vira frustração no balcão. Evite também dar um prazo ou citar um percentual de sucesso: os números que circulam vêm sem denominador e sem a idade a que se referem, e usá-los aqui é comprar uma decepção com data marcada.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quando o casal passa a ser investigado: doze meses para todos, faixas de idade com prazos diferentes, ou dois anos para casal jovem?

Doze meses, com seis meses acima dos 35 anos — Febrasgo, protocolo nº 46, 2018, impresso em 2020; e Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, 2022

A recomendação 4 do protocolo da federação diz que mulheres abaixo de 35 anos devem realizar a propedêutica se não tiverem alcançado gravidez após um ano de relações sem proteção, e que mulheres com idade superior a 35 anos devem procurar avaliação após seis meses; acrescenta que a investigação pode ser imediata diante de oligomenorreia, amenorreia, endometriose em estágio avançado ou qualquer condição que limite a fertilidade. O protocolo municipal adota um ano e lista seis situações que antecipam: mais de 35 anos, ciclos irregulares, doença inflamatória pélvica, endometriose diagnosticada ou suspeita, cirurgias abdominais anteriores e problemas masculinos conhecidos. É a régua mais usada e a que os serviços de referência esperam encontrar no encaminhamento. A mulher de exatamente 35 anos não pertence a nenhuma das duas classes escritas.

Lamaita RM, Amaral MC, Cota AM, Ferreira MC. Propedêutica básica da infertilidade conjugal. São Paulo: Febrasgo; 2018 (Protocolo Febrasgo – Ginecologia, nº 46), impresso em Femina. 2020;48(5):311-5, recomendação 4; Belo Horizonte. Secretaria Municipal de Saúde. Protocolo Infertilidade Conjugal. Belo Horizonte, 2022, item 1

Prazos escalonados por faixa etária, com o degrau aos 40 anos — Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016

O Fluxograma 3, de abordagem da mulher ou do casal que planeja a gravidez, define quem passa a ser encaminhado ao serviço especializado em quatro situações, e três delas são de tempo por idade: mulher com menos de 30 anos e mais de dois anos de vida sexual ativa sem anticoncepção; mulher de 30 a 39 anos e mais de um ano; mulher de 40 a 49 anos e mais de seis meses. As outras duas são cônjuges com fator impeditivo de concepção — obstrução tubária bilateral, amenorreia prolongada, azoospermia —, independentemente do tempo de união, e ocorrência de duas ou mais interrupções gestacionais subsequentes. É o documento que a atenção básica tem impresso, o degrau dele é aos 40 e não aos 35, e não há faixa escrita para mulheres de 50 anos ou mais.

Brasil. Ministério da Saúde. Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília, 2016, Fluxograma 3

Dois anos para casal jovem sem outros fatores de risco — registrado no texto do próprio protocolo da Febrasgo, 2018

A introdução do protocolo da federação, depois de definir infertilidade como ausência de concepção após um ano de tentativa sem método contraceptivo, registra que alguns autores estendem esse período para dois anos quando se trata de casais jovens, na ausência de outros fatores importantes de risco. O documento não adota nem rejeita essa extensão: apenas a registra, e depois publica a recomendação de doze meses. Quem lê a introdução e quem lê a recomendação final do mesmo documento sai com prazos que diferem em um ano inteiro para o mesmo casal de 26 anos. A curva de gestação acumulada do próprio documento é o argumento a favor dessa posição: dos que não engravidaram no primeiro ano, 92% concebem no segundo.

Lamaita RM, Amaral MC, Cota AM, Ferreira MC. Propedêutica básica da infertilidade conjugal. Femina. 2020;48(5):311-5, introdução e recomendação 4

Como decidir

Decida pelo que a espera custa à mulher que está sentada ali, e não pela régua que o serviço resolveu adotar. O que os três documentos concordam é que qualquer fator de risco cancela o prazo — e a lista é curta o bastante para ser perguntada em dois minutos: idade dela, regularidade do ciclo, infecção pélvica prévia, endometriose, cirurgia abdominal ou pélvica, e problema masculino conhecido. Sem nenhum deles, e com a mulher abaixo de 30 anos, a espera até completar um ano é defensável e a extensão para dois anos é defensável para o casal que a prefere — desde que seja espera com data marcada, com orientação de frequência e com ácido fólico começado. Com a mulher entre 30 e 35 anos, use doze meses. A partir dos 35, inclusive nos 35 exatos, use seis meses: a queda composta de 11% ao ano é o argumento, e o vão de redação do documento não pode custar meio ano a ninguém. Acima dos 40, a espera de seis meses do protocolo do ministério já é longa demais para os critérios de prioridade de fila que os próprios serviços usam — e nessa faixa a conduta deste capítulo é investigar assim que o casal chega e encaminhar no mesmo dia. Deixe escrito no prontuário a régua escolhida e a razão dela; onde o serviço só autoriza exame com doze meses de tentativa, ponha no pedido o fator de risco que antecipa.

Um espermograma alterado se repete em um mês ou em três meses?

Repetir após um mês — Ministério da Saúde, Protocolos da Atenção Básica, 2016

A linha de exames do homem no Fluxograma 3 é escrita como uma sequência com condição: espermograma; se o exame vier normal, solicitar histerossalpingografia para a parceira; se vier anormal, repetir após um mês; mantido o exame alterado, encaminhar ao especialista, urologia ou andrologia. O prazo de um mês está no documento que a unidade básica tem em mãos, é o mais curto dos dois, e tem a vantagem prática de manter a investigação andando: em um mês a segunda coleta já foi feita, e o encaminhamento sai com dois exames.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres. Brasília, 2016, Fluxograma 3, linha de exames do homem

Repetir idealmente em três meses, para completar o ciclo de formação — Febrasgo, protocolo nº 46, 2018; e Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, 2022

Os dois documentos escrevem a mesma frase: se o resultado da primeira análise do sêmen é anormal, um teste de confirmação deve ser oferecido, devendo ser repetido idealmente três meses após o diagnóstico de base para completar o ciclo de formação dos espermatozoides. E acrescentam a exceção que corre: detectada alteração seminal importante, como azoospermia ou oligozoospermia grave, a repetição deve ser realizada o mais rapidamente possível. O argumento é biológico e a conta o sustenta: a espermatogênese leva cerca de setenta e quatro dias e o trânsito epididimário mais dez a quatorze, de modo que só aos noventa dias se amostra um lote inteiramente novo.

Lamaita RM, Amaral MC, Cota AM, Ferreira MC. Propedêutica básica da infertilidade conjugal. Femina. 2020;48(5):311-5, fator masculino; Belo Horizonte. SMSA. Protocolo Infertilidade Conjugal. 2022, item 2.1.5

Como decidir

Decida pela pergunta que a repetição precisa responder, e pela idade da mulher. Se a dúvida é sobre a coleta — abstinência fora da faixa, transporte longo, ejaculado incompleto —, a repetição é imediata e não espera nem um mês: não há ciclo novo a esperar, há uma coleta a refazer, e ela pode ser feita na semana seguinte no próprio laboratório. Se a coleta do primeiro exame estava correta e a dúvida é sobre a variabilidade biológica do homem, três meses é o intervalo que responde, porque um mês reexamina espermatozoides que já estavam formados quando o primeiro exame foi feito. E se a mulher tem 38 anos ou mais, o intervalo de três meses compete com o relógio dela: nesse caso, repita em um mês, encaminhe à urologia com os dois exames e não pare a investigação dela enquanto isso — as duas coisas correm em paralelo. Em azoospermia e oligozoospermia grave não há divergência: repete-se o quanto antes e encaminha-se junto.

A reserva ovariana entra na investigação básica do casal, ou é exame de serviço especializado?

É a melhor medida disponível da reserva ovariana e tem valores de referência publicados — Febrasgo, protocolo nº 46, 2018

O protocolo da federação escreve que a dosagem do hormônio antimülleriano é atualmente a melhor medida disponível da reserva ovariana, aplicável em várias situações clínicas — tratamento de infertilidade, previsão de vida útil reprodutiva, disfunção ovariana e quimioterapia ou cirurgia de ovário —, e que pode ser medida em qualquer dia do ciclo. Publica valores de referência para o hormônio folículo-estimulante, o estradiol, o antimülleriano e a contagem de folículos antrais, e registra que o acesso à reserva ovariana é atualmente preconizado. O mesmo documento adverte que esses testes não se relacionam com a chance de gravidez nem com a qualidade oocitária, e que a idade permanece o parâmetro mais forte.

Lamaita RM, Amaral MC, Cota AM, Ferreira MC. Propedêutica básica da infertilidade conjugal. Femina. 2020;48(5):311-5, fator ovulatório e valores de referência

Não deve ser rotineiramente solicitado na atenção primária — Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, 2022

O protocolo municipal reconhece que o antimülleriano tem produção exclusiva pelo ovário e pode estar entre os marcadores mais precoces de diminuição da função ovariana, em contraste com o hormônio folículo-estimulante, que só sobe de forma expressiva quando os ciclos já estão irregulares; registra que valores iguais ou inferiores a 1,0 ng/mL são altamente preditivos de baixa reserva e de menor resposta à estimulação. E então escreve a frase de conduta: o exame não deve ser rotineiramente solicitado na atenção primária. A propedêutica do nível primário do mesmo documento lista exame ginecológico com citopatológico em dia, espermograma, ultrassonografia transvaginal, gonadotrofinas acima dos 35 anos, prolactina, tireoestimulante e sorologias — e o antimülleriano não está nela.

Belo Horizonte. Secretaria Municipal de Saúde. Protocolo Infertilidade Conjugal. Belo Horizonte, 2022, itens 2.1.2 e 7.1.1

Como decidir

Decida pelo que muda com o resultado no seu serviço. Na unidade básica, o antimülleriano não muda nada: não indica tratamento, não altera o prazo de investigação, não altera o encaminhamento — que, nos protocolos públicos consultados, é escrito por diagnóstico e por idade, e não por reserva — e não responde à pergunta que o casal faz, que é sobre gravidez natural. Nessa situação, não peça. No serviço que vai induzir ovulação ou estimular o ovário, o exame muda a dose e o esquema, e ali ele é indicado — mas é lá que ele se pede, e não aqui. Há uma exceção que vale registrar: a mulher que vai ser submetida a tratamento gonadotóxico, ou que já foi, tem no antimülleriano uma informação sobre a janela reprodutiva dela, e isso é conversa de aconselhamento e não de infertilidade conjugal. Se a paciente chegar com o exame já feito, como Lauriene chegou, leia-o em voz alta pelo que ele é e pelo que ele não é — e não peça o segundo.

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O raciocínio, em voz alta

Vanuzia Trentini tem 29 anos, é auxiliar de cozinha numa escola municipal, e Uilson Portolan tem 31 e trabalha numa oficina de motos. Vieram juntos à unidade básica com uma lista de exames impressa que a irmã dela levou de outro serviço, e a frase de abertura é dela: "a gente quer fazer todos esses, porque já são quatro meses tentando". Vanuzia menstrua a cada 28 dias desde os 12, sem falhar, com dois dias de cólica que ela resolve com um analgésico. Nunca engravidou. Pesa 63 quilos para 1,66 metro. Não fuma. Uilson também não. Os dois pararam o anticoncepcional injetável dela em fevereiro e têm relação, dizem, três ou quatro vezes por semana. O teste de gravidez que ela fez na farmácia há dez dias foi negativo.

  1. O que penso antes de olhar a lista de exames

    Quatro meses de tentativa, mulher de 29 anos, ciclo regular há dezessete anos, frequência de relação adequada. Pela régua brasileira mais usada e pela mais antiga, esse casal ainda não é um casal infértil: metade engravida em três meses, 85% em um ano, e eles estão dentro da estatística. Além disso, ela parou um injetável — e ainda que o injetável trimestral tenha prazos de retorno próprios, o dado precisa ser confirmado antes de qualquer conta de tempo. A conduta que a lista pede é a errada, e a conduta certa não é mandar embora: é fazer a consulta preconcepcional inteira e marcar a data. Mas não decido isso antes da anamnese — porque o prazo de doze meses vale para o casal sem fator de risco, e eu ainda não perguntei se há algum.

  2. A pergunta sobre o método, e o que ela corrige na conta

    Vanuzia usou medroxiprogesterona injetável trimestral por três anos e a última aplicação foi em novembro do ano passado, não em fevereiro — fevereiro foi quando ela percebeu que a menstruação tinha voltado ao ritmo antigo. Isso importa: o retorno da fertilidade depois do injetável trimestral pode demorar, e o tempo de tentativa efetiva não se conta do dia em que se parou o método, e sim do momento em que o ciclo voltou. Com ciclos regulares desde fevereiro, o tempo real de exposição são quatro meses, e não sete. A correção reforça a decisão de não pedir exame — e é uma conta que o casal precisa ouvir, porque ela transforma sete meses de frustração em quatro meses de normalidade.

  3. As seis perguntas que decidem se a regra se aplica

    Faço a lista que cancela o prazo, uma a uma, e faço a de cirurgia com as palavras que a trazem à tona. Idade dela: 29, abaixo do corte. Ciclo: regular. Endometriose diagnosticada ou suspeita: ela nega dor que a tire do trabalho, nega dispareunia profunda, nega alteração intestinal cíclica. Doença inflamatória pélvica: nega corrimento tratado, nega internação por dor pélvica. Problema masculino conhecido: ele diz que não. Cirurgia abdominal: "já ficou internada por dor de barriga, já operou apêndice, já tomou antibiótico na veia?" — e aqui a resposta muda tudo. Vanuzia operou apêndice aos 19 anos, ficou nove dias internada com o que ela chama de "infecção na barriga", e saiu com bolsa de antibiótico. Está no relatório de alta que ela guardou: apendicite aguda supurada com peritonite localizada, laparotomia, sete dias de antibiótico endovenoso.

  4. A segunda coisa que a mesma lista encontra, do outro lado

    Faço a anamnese dele, que não estava na lista de exames e que ninguém tinha feito. Puberdade normal, sem disfunção sexual, sem infecção geniturinária tratada, sem cirurgia de hérnia, sem vasectomia, nunca usou anabolizante. Mas quando pergunto sobre caxumba, ele responde que teve aos 22 anos, "e inchou embaixo" — orquite pós-caxumba na vida adulta, com edema testicular bilateral por cerca de uma semana. Ele nunca contou isso a ninguém porque nunca lhe perguntaram, e nunca associou uma coisa à outra. São dois fatores de risco num casal que veio classificado como "quatro meses tentando": um risco tubário nela e um risco de dano testicular nele.

  5. A decisão, e por que ela é oposta à da primeira impressão

    A regra dos doze meses é para o casal sem fator de risco, e este casal tem dois. Peritonite pélvica é fator tubário até prova em contrário — o fator tubário é a maior fatia do fator feminino, com 14% —, e orquite pós-caxumba na vida adulta é fator masculino potencial. A conduta muda de "esperar com data marcada" para "investigar agora", e a lista de exames que eles trouxeram continua errada — só que agora por excesso e por ausência ao mesmo tempo: tinha antimülleriano e não tinha espermograma.

  6. O que peço, e a ordem em que peço

    Dele: espermograma, com o nome dele em cima e a folha de instruções grampeada — abstinência de dois a sete dias, coleta no laboratório, ejaculado completo, análise em até sessenta minutos. Dela: gonadotrofinas no terceiro dia do fluxo, prolactina e tireoestimulante; e as sorologias pré-concepcionais dos dois. A histerossalpingografia fica escrita no plano, mas não sai hoje: a régua nacional condiciona o exame dela ao resultado do dele, e não há razão para irradiar uma mulher de 29 anos antes de saber se há espermatozoide. Não peço antimülleriano — não muda conduta nenhuma nesta unidade — nem repito a ultrassonografia que ela não tem motivo para ter. E não peço teste pós-coito, temperatura basal nem sorologia de clamídia como triagem isolada.

  7. O que faço na mesma consulta, sem esperar exame nenhum

    Ácido fólico começa hoje: solução oral de 0,2 mg/mL, 2 mL por dia, que é a única apresentação da rede que entrega os 400 microgramas que o protocolo do ministério manda; registro no prontuário a alternativa do comprimido de 5 mg e a razão de não a ter escolhido. Confirmo o preventivo em dia e a situação vacinal dos dois. Confiro a frequência de relação, que já está adequada, e reforço a orientação de não tentar acertar o dia — três ou quatro vezes por semana cobre a janela sem calendário. E digo a eles, com todas as letras, por que a conduta mudou no meio da consulta: não foi um exame, foi uma pergunta sobre uma cirurgia de dez anos atrás e outra sobre uma caxumba.

  8. O que teria acontecido em cada um dos dois erros possíveis

    Se eu tivesse pedido a lista que eles trouxeram, teria gastado dinheiro público num antimülleriano que não muda conduta e numa segunda ultrassonografia, e ainda assim não teria pedido o espermograma — porque ele não estava na lista. Se eu tivesse aplicado a régua dos doze meses sem fazer as seis perguntas, teria mandado embora um casal com peritonite pélvica prévia e orquite pós-caxumba, e eles voltariam em oito meses com os mesmos dois fatores e oito meses a menos. Os dois erros vêm da mesma origem: decidir pelo tempo de tentativa antes de perguntar o que cancela o tempo.

  9. O que fica registrado, em uma linha por decisão

    Casal em investigação de infertilidade: ela 29 anos, ciclos regulares, retorno de fertilidade após injetável trimestral em fevereiro, tempo efetivo de exposição de quatro meses; antecedente de apendicite supurada com peritonite localizada aos 19 anos, com laparotomia — fator tubário potencial. Ele 31 anos, orquite pós-caxumba aos 22 anos, com edema bilateral — fator masculino potencial. Prazo de doze meses não aplicável por fator de risco em ambos. Solicitados espermograma, gonadotrofinas do terceiro dia, prolactina, tireoestimulante e sorologias do casal; histerossalpingografia condicionada ao resultado do espermograma. Ácido fólico iniciado. Frequência de relação adequada, orientação reforçada. Retorno em quatro semanas com os dois presentes.

  10. A lição que só o caso entrega

    O prazo de doze meses é a regra mais fácil de decorar deste capítulo e a mais fácil de aplicar errado, porque ele é uma regra sobre casais sem fator de risco e quase ninguém pergunta se há fator de risco antes de aplicá-lo. As seis perguntas custam dois minutos. E duas delas — a da cirurgia abdominal e a da caxumba — só produzem resposta se forem feitas com as palavras certas: "já fez cirurgia?" recebe um não de quem operou apêndice, e "o senhor teve alguma doença?" nunca traz uma caxumba de nove anos atrás. A investigação do casal começa na boca de quem pergunta, não no papel do pedido.

  11. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação da consulta de Vanuzia e Uilson: ao revisar a história, surge antecedente masculino relevante que não estava no encaminhamento. Esse dado pode justificar investigação antes do prazo inicialmente considerado. Explicar ao casal por que o plano mudou e quais perguntas o primeiro exame responderá.

  12. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se o espermograma vem alterado, conferir coleta, condições recentes e necessidade de confirmação e avaliação especializada conforme a gravidade. Não adiar todo o cuidado feminino até fechar o masculino, nem prometer diagnóstico definitivo por uma única amostra. A síntese deve integrar os achados dos dois.

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Faça você

Ilzete Frigeri tem 38 anos, é técnica em enfermagem, e Edinaldo Bastianello tem 40 e é operador de empilhadeira. Tentam engravidar há dezesseis meses. Ilzete menstrua a cada 27 a 29 dias, sempre menstruou, sem dismenorreia incapacitante e sem dispareunia; nunca engravidou, nunca fez cirurgia abdominal, nunca teve corrimento tratado como infecção pélvica. Pesa 68 quilos para 1,63 metro, não fuma, não bebe. Edinaldo tem uma filha de quinze anos de um relacionamento anterior, fuma meio maço por dia desde os vinte, teve uma hernioplastia inguinal direita aos 33 anos e nunca fez exame nenhum. Têm relação duas a três vezes por semana. Chegaram à unidade básica com um único papel na mão: uma ultrassonografia transvaginal de seis meses atrás, sem alterações. Ilzete diz, ao sentar, que uma colega falou que aos 38 já não adianta mais.

  1. Passo 1 — decidir se investiga hoje, e dizer por qual régua

    Diga, antes de qualquer pedido, se este casal deve ser investigado agora e qual das réguas brasileiras você está usando — e o que cada uma delas diria para uma mulher de 38 anos com dezesseis meses de tentativa. Depois diga qual é a frase, com número, que você usa para responder à colega que disse que aos 38 já não adianta.

  2. Passo 2 — o pedido da primeira consulta, dos dois, e o que fica de fora

    Escreva o pedido desta consulta linha por linha, dos dois, e diga o que precisa estar escrito no papel dele para que o exame sirva. Diga também quais exames você não pede hoje e por quê — inclusive o que a colega dela vai sugerir que ela peça. E diga o que você faz nesta mesma consulta que não depende de exame nenhum.

  3. Passo 3 — os resultados, e os dois números que exigem cuidado

    Voltam: espermograma dele, colhido no laboratório com três dias de abstinência e analisado em trinta minutos — volume 3,1 mL, concentração 11 milhões por mililitro, motilidade progressiva 28%, formas normais 3%. Dela: hormônio folículo-estimulante de 9,2 mUI/mL no terceiro dia, luteinizante de 5,8, prolactina de 15 ng/mL, tireoestimulante de 2,4. Ela trouxe também, por conta própria, um hormônio antimülleriano de 0,7 ng/mL que pagou. Diga o que cada um desses números localiza; o que entra no prontuário hoje; a frase que ainda não pode ser escrita; e qual é o pedido seguinte, com prazo e razão. Diga também o que responde à faixa em que o 9,2 cai na régua da federação.

  4. Passo 4 — a conversa, e onde este capítulo entrega o caso

    Escreva as quatro coisas que este casal precisa ouvir hoje, na ordem, incluindo a que ninguém costuma dizer sobre o que a rede pública oferece. Depois diga em que ponto exato o caso deixa de ser deste capítulo, e para quais capítulos ou serviços cada parte dele vai.

Ver como fecharíamos

Passo 1. Investiga hoje, e por qualquer uma das réguas. Pela do protocolo da federação, mulher com idade superior a 35 anos investiga após seis meses — ela tem dezesseis. Pela do protocolo municipal de Belo Horizonte, o corte de mais de 35 anos antecipa o prazo, e ele já passou. Pela do Ministério da Saúde, mulher de 30 a 39 anos com mais de um ano de vida sexual ativa sem anticoncepção é encaminhamento, e ela também já passou. As três coincidem, o que é raro neste capítulo, e a coincidência é útil de dizer em voz alta. A frase para a colega que disse que aos 38 não adianta é de número e de correção: a fertilidade cai cerca de 11% ao ano depois dos 30, o que aos 38 deixa cerca de 39% do que havia aos 30 — é menos, é bem menos, e não é zero; e a queda é justamente o motivo de não esperar mais, não o motivo de desistir. Passo 2. Os dois pedidos saem no mesmo dia, e não em série, porque aos 38 anos a soma das esperas é o que custa. Dele: espermograma, com o nome dele em cima e a instrução de coleta grampeada — abstinência de dois a sete dias, coleta por masturbação no laboratório, sem preservativo comum e sem lubrificante, ejaculado completo com aviso de qualquer perda, análise iniciada em até sessenta minutos e, se colher fora, entrega em até cinquenta minutos com o pote junto ao corpo entre 20 e 37 graus. Dela: hormônio folículo-estimulante e luteinizante no terceiro dia do fluxo, prolactina e tireoestimulante. Dos dois: sorologias para toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, sífilis, HIV, hepatites B e C e HTLV. Não pedimos hoje a histerossalpingografia, porque a régua nacional a condiciona ao espermograma normal — mas escrevemos no plano que ela é o próximo passo, com a janela do sexto ao décimo primeiro dia. Não pedimos o hormônio antimülleriano, que o protocolo municipal diz não solicitar rotineiramente na atenção primária e que é o exame que a colega dela vai sugerir. Não pedimos teste pós-coito, temperatura basal, escore de Insler, anticorpos antiespermatozoides, fragmentação de DNA, histeroscopia, cariótipo nem trombofilia. E não repetimos a ultrassonografia de seis meses atrás. Sem depender de exame: ácido fólico iniciado hoje — 2 mL por dia da solução de 0,2 mg/mL, ou o comprimido de 5 mg com o registro de que ele tem 12,5 vezes a dose recomendada; orientação de frequência mantida, que já está adequada; cessação do tabagismo dele, com oferta de apoio, porque o tabaco entra na lista de contribuintes para o declínio da fertilidade do casal; peso, álcool, preventivo e vacinas. Passo 3. O espermograma dele está alterado em três parâmetros e a coleta está correta: concentração de 11 milhões por mililitro contra o limite de 15 que os documentos brasileiros imprimem e de 16 da edição vigente do manual internacional; motilidade progressiva de 28% contra 32% dos documentos brasileiros e 30% da edição vigente; formas normais de 3% contra 4% das duas edições. É oligozoospermia com astenozoospermia e teratozoospermia, e não é azoospermia nem oligozoospermia grave — portanto a exceção que manda repetir imediatamente não se aplica. O que se escreve hoje: espermograma alterado em coleta adequada, aguardando confirmação. O que ainda não se escreve: fator masculino, porque a régua manda confirmar e porque o valor de referência é o quinto percentil de uma população de homens férteis, e não um limiar entre fértil e infértil. Pede-se a repetição — e aqui a divergência entre um mês e três meses precisa ser decidida para ela e não em abstrato: com 38 anos e dezesseis meses de tentativa, repete-se em um mês, como manda o protocolo do ministério, e encaminha-se à urologia com os dois exames, sem parar a investigação dela. Os números dela: gonadotrofinas e prolactina normais, tireoestimulante normal, ciclo regular há décadas — o eixo está íntegro e ela provavelmente ovula, e nada aí explica dezesseis meses. O 9,2 mUI/mL de folículo-estimulante cai exatamente no vão da tabela de reserva do protocolo da federação, que chama de ideal abaixo de 8 e de ruim entre 10 e 15: 9,2 não é nem um nem outro, e a conduta não muda com isso, o que é a melhor prova de que a faixa não decide nada aqui. O antimülleriano de 0,7 ng/mL se lê em voz alta pelo que ele é — uma estimativa de resposta a estímulo ovariano, que o protocolo municipal considera altamente preditiva de baixa reserva abaixo de 1,0 — e pelo que ele não é: previsão de gravidez natural ou de qualidade oocitária, coisa que o próprio protocolo da federação nega. Ele não muda o pedido de hoje; ele muda a urgência do encaminhamento, porque soma à idade. Passo 4. Primeiro, o que os exames dizem e não dizem: há uma alteração no exame dele que precisa de confirmação, e nada nos exames dela explica o tempo de tentativa — o que significa que a investigação continua, e não que ela acabou. Segundo, a correção da frase da colega: aos 38 anos a fertilidade caiu, e é por isso que a partir de hoje nada mais espera; a idade é o argumento para acelerar, não para desistir. Terceiro, a informação sobre o cigarro, que é a única variável modificável que apareceu hoje e que pertence a ele: meio maço por dia entra na lista de fatores que os documentos brasileiros associam ao declínio da fertilidade do casal, e parar é a única prescrição desta consulta que pode mudar o próximo espermograma. Quarto, o que a rede oferece, dito antes que eles descubram sozinhos: existe uma política nacional de reprodução humana assistida desde 2005, hoje vigente como anexo da consolidação de 2017 e organizada em três níveis; não há procedimento de fertilização in vitro nem de inseminação na tabela de procedimentos do SUS, de modo que os serviços públicos que existem funcionam por arranjo local e a fila é longa; uma portaria de junho de 2026 abriu a oferta por outra via de financiamento, com valores que deveriam ter sido publicados em até sessenta dias e ainda não foram; e nenhum medicamento de indução de ovulação consta da relação nacional de medicamentos essenciais — o que muda o que eles precisam planejar. A fronteira: o fator masculino confirmado sai deste capítulo e vai para a urologia, e este nível não tem capítulo dedicado a ele — o que se investiga depois, com varicocele, hormônios masculinos e causas obstrutivas, é de lá. A permeabilidade tubária, quando a histerossalpingografia for feita, continua aqui até o resultado, e a decisão sobre laparoscopia é do serviço que opera. E a decisão sobre técnicas de reprodução assistida é do serviço terciário, que este capítulo alcança apenas pelo encaminhamento bem feito: os dois espermogramas com as condições de coleta anotadas, o painel dela, a imagem, as sorologias e a data em que eles começaram a tentar.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A repartição das causas nos documentos brasileiros é de 35% de fator feminino, 30% de fator masculino, 20% de fator dos dois parceiros e 15% sem causa aparente: somando o isolado ao compartilhado, metade dos casais tem participação masculina. O exame que responde por essa metade é o mais barato e o menos invasivo da investigação, e o protocolo do Ministério da Saúde que a atenção básica usa chega a condicionar a histerossalpingografia da parceira ao resultado do espermograma do parceiro — irradiar a mulher antes de saber se há espermatozoide inverte a ordem impressa na régua nacional. A reserva ovariana não responde à pergunta do casal: ela estima a resposta a um estímulo, e não a chance de gravidez natural, o que está escrito no próprio protocolo da federação. E não se pode falar em infertilidade sem causa aparente com metade do casal por investigar — a categoria exige propedêutica completa dos dois, e encaminhar sem ela é o primeiro dos enganos que o protocolo municipal de Belo Horizonte lista.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Sete dias depois, sem consultar nada, escreva as respostas de: (1) qual a repartição das quatro grandes causas de infertilidade conjugal, e qual fração dos casais tem participação masculina na causa; (2) quais são as seis situações que cancelam o prazo de doze meses, e qual delas só aparece se a pergunta for feita com as palavras certas; (3) as quatro condições de coleta que precisam ser conferidas antes de ler qualquer espermograma; (4) o que a reserva ovariana responde e o que ela explicitamente não responde, e onde isso está escrito; (5) em que dia do ciclo se faz a histerossalpingografia e por que, e o que muda num ciclo de 24 dias. Depois confira, e marque o que saiu errado: é isso que retorna no trigésimo dia. Aplicação comentada: Esperar concluir toda investigação feminina para solicitar avaliação masculina pode atrasar o cuidado; organize etapas concomitantes quando aplicáveis.

Em 30 dias

Trinta dias depois, retome Lauriene e Ronildo e substitua uma informação por vez, verbalizando a cada substituição qual decisão passa a ser outra: ela tem 39 anos em vez de 34; ele tem azoospermia no primeiro exame, bem colhido; ela menstrua a cada 45 a 70 dias; ela operou apêndice com peritonite aos 18; o espermograma dele veio normal e a histerossalpingografia mostrou oclusão bilateral; eles têm três meses de tentativa e não dois anos. Para cada uma delas, diga o que você pede, o que deixa de pedir, o que escreve no encaminhamento e a partir de que ponto o caso passa a ser de qual vizinho. Depois refaça três contas: quantas relações caem dentro da janela fértil com frequência quinzenal e com frequência de dois em dois dias; quanto resta da fertilidade dos 30 anos aos 35, aos 38 e aos 40 pela queda de 11% ao ano; e em que dia do ciclo cai o meio da fase lútea numa mulher de ciclo de 35 dias.

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Agora atenda

Agora atenda. O casal chega com dois anos de tentativa e uma pasta que só tem exame de um dos dois. Treine três coisas nesta estação: chamar o parceiro para dentro da sala e dizer por quê, com o número na frase; perguntar a frequência de relação sem constranger e fazer a conta da janela fértil em voz alta; e ler um espermograma pelo cabeçalho antes de ler o resultado, dizendo o que o valor de referência é e o que ele não é.

Infertilidade conjugal – São dois, e a pasta é de um só — Internato | OsceLabs