Ginecologia e Obstetrícia › Ginecologia
Terapia hormonal da menopausa
Um ensaio lido pela metade mudou a prática do mundo por vinte anos, e o que decide hoje é quando se começa
Oliveira GMM, Almeida MCC, Arcelus CMA, Espíndola LN, Rivera MAM, Silva-Filho AL, et al. Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa – 2024. Arquivos Brasileiros de Cardiologia. 2024;121(7):e20240478
Nahas EAP, Nahas-Neto J. Terapêutica hormonal: benefícios, riscos e regimes terapêuticos. Femina. 2019;47(7):443-8. Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 54, da Comissão Nacional Especializada em Climatério
Baccaro LFC. Quais as reais contraindicações à terapia hormonal no climatério? Femina. 2025;53(2):134-7. DOI 10.61622/0100-7254532202505
Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Síndrome geniturinária da menopausa. Femina. 2022;50(3):164-70. Febrasgo Position Statement nº 3, março de 2022, da Comissão Nacional Especializada em Climatério
Writing Group for the Women's Health Initiative Investigators (Rossouw JE, Anderson GL, Prentice RL, LaCroix AZ, Kooperberg C, Stefanick ML, et al.). Risks and Benefits of Estrogen Plus Progestin in Healthy Postmenopausal Women: Principal Results From the Women's Health Initiative Randomized Controlled Trial. JAMA. 2002;288(3):321-33
Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer. Type and timing of menopausal hormone therapy and breast cancer risk: individual participant meta-analysis of the worldwide epidemiological evidence. Lancet. 2019;394(10204):1159-68
Pompei LM, Fernandes CE. Hormone Therapy, Breast Cancer Risk and the Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer Article. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia. 2020;42(5):233-4
São Paulo (Município). Secretaria Municipal da Saúde. Área Técnica de Saúde da Mulher. Protocolo de Terapia Hormonal em Mulheres na Pós-Menopausa e/ou Climatério. São Paulo, 2025
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3
Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). Guia da SBOC em terapia hormonal e anticoncepção nas mulheres com e sem histórico de câncer. Versão 2. São Paulo: SBOC, 2026
United States Food and Drug Administration. HHS Advances Women's Health, Removes Misleading FDA Warnings on Hormone Replacement Therapy. Comunicado oficial de 10 de novembro de 2025
Pedro AO, Pinto-Neto AM, Costa-Paiva LHS, Osis MJD, Hardy EE. Síndrome do climatério: inquérito populacional domiciliar em Campinas, SP. Revista de Saúde Pública. 2003;37(6):735-42
Machado RB, Pompei LM, Costa-Paiva LH, Melo NR, Osório MC, Fernandes WC. Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal do Climatério da Sobrac. 3. ed. Barueri: Alef Editora; 2024
The 2022 Hormone Therapy Position Statement of The North American Menopause Society Advisory Panel. The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause. 2022;29(7):767-94
Medsafe. Avoid using CYP2D6 inhibitors with tamoxifen. 2019.
Responda antes de ler
Mulher de 62 anos, menopausa aos 49 anos, procura a unidade básica porque as ondas de calor voltaram há um ano: seis a sete por dia e dois despertares por noite. Nunca usou terapia hormonal. É hipertensa com pressão controlada e não tem antecedente de câncer, trombose, doença coronariana, acidente vascular cerebral ou doença hepática. Qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
Marli Sarmento tem 52 anos, é cozinheira de escola municipal e não dorme uma noite inteira desde o inverno passado. Menstruou pela última vez há dois anos e dois meses. O calor chega sem aviso, começa no peito e sobe até o couro cabeludo, deixa a blusa molhada nas costas, e acontece umas dez, doze vezes por dia. À noite acorda encharcada três, quatro vezes; troca a camiseta, abre a janela, senta na beirada da cama esperando passar. Chega ao trabalho às cinco da manhã. Há três meses trocou uma panela de arroz de lugar e queimou o antebraço porque estava, nas palavras dela, dormindo em pé.
Ela já foi à unidade quatro vezes com essa queixa. Saiu com fluoxetina, com um pedido de tireoide, com um encaminhamento para a psicologia e, na última, com a frase que fez ela parar de voltar: que isso passa, que é da idade, que todo mundo passa por isso. Nenhuma das quatro consultas mediu a pressão dela para decidir alguma coisa, e nenhuma perguntou quantas vezes por dia o calor vem.
Hoje ela veio porque a filha insistiu. Senta, conta a história em dois minutos e termina com a pergunta que traz de casa pronta: se existe aquele remédio de hormônio, e se é verdade que hormônio dá câncer. Ela ouviu isso da cunhada, ouviu de novo num vídeo, e ouviu — isso é o que mais pesa — de um médico, uns anos atrás, numa consulta em que nem estava falando disso.
Marli é o retrato de um dano que a medicina se fez sozinha. Ela tem a indicação mais bem estabelecida que existe para um tratamento eficaz, tem 52 anos, está a dois anos da menopausa, não tem doença nenhuma, e não recebeu esse tratamento porque um estudo publicado em 2002 foi lido pela manchete e não pelo texto. O que a manchete dizia era que a terapia hormonal aumentava o risco de câncer de mama e de infarto. O que o estudo media era outra coisa, numa população que não era a dela, e o número absoluto do dano cabia numa linha que quase ninguém leu.
Do outro lado do corredor, na mesma manhã, está Adelina, 67 anos. Ela não vem falar de calor — o calor passou faz tempo. Vem pela terceira infecção urinária do ano. Se alguém perguntasse, ela contaria que arde para urinar mesmo sem infecção, que a relação com o marido virou uma coisa que ela evita, e que uma vez tentou dizer isso a uma médica e a resposta foi que na idade dela é normal. Adelina tem síndrome geniturinária da menopausa, que tem tratamento local barato, eficaz e praticamente sem risco sistêmico, disponível na farmácia da unidade em que ela está sentada. Ninguém nunca lhe ofereceu.
As duas consultas erram por motivos opostos e resultado igual. Numa, o medo de um risco mal dimensionado impediu um tratamento indicado. Na outra, o mesmo medo, espalhado sobre um tratamento que quase não tem risco, produziu silêncio. Este capítulo é sobre desfazer as duas coisas, e o instrumento para desfazer é o mesmo: parar de discutir risco em porcentagem e passar a discutir risco em número de mulheres.
Quem adoece disso
A menopausa não é um evento raro que se atende de vez em quando: é uma faixa etária inteira da agenda. Num estudo de base populacional com 1.500 brasileiras de 45 a 65 anos, citado pela diretriz cardiovascular de 2024, a mediana da idade de menopausa foi de 48 anos, com faixa de 45 a 51 e sem diferença entre classes econômicas, e sintomas relacionados à menopausa estavam presentes em 87,9% das que se encontravam na transição. A mesma diretriz estima que 40% do tempo de vida de uma mulher transcorre depois da menopausa. Traduzindo para a consulta: a mulher de 48 anos que senta na sua frente tem quase quarenta anos de vida pela frente, e a chance de ela ter sintoma é de quase nove em dez. Não perguntar é escolher não saber.
O sintoma que define a indicação tem número brasileiro antigo e número brasileiro recente, e os dois dizem a mesma coisa. No inquérito domiciliar de Campinas, com 456 mulheres de 45 a 60 anos sorteadas na cidade, 70% relataram fogachos e 59% relataram sudorese. Num estudo transversal em sete países, com 12.268 mulheres de 40 a 65 anos, a prevalência de sintomas vasomotores moderados a graves foi de 15,6% no conjunto — e de 36,2% no Brasil, a mais alta da amostra, contra 11,6% na Europa nórdica. Guarde a segunda estatística, porque ela é a que muda decisão: o recorte não é quantas têm calor, é quantas têm calor que atrapalha a vida. Uma em cada três brasileiras nessa faixa está na categoria em que a indicação de tratamento existe.
A prescrição não acompanha nada disso. A mesma diretriz estima que a terapia hormonal alcança hoje entre 4% e 6% das mulheres nessa fase. Compare com o inquérito de Campinas, feito em 1997, em que 19,3% das mulheres da amostra estavam em uso e por isso foram excluídas da análise de sintomas: eram quase uma em cada cinco antes de 2002, e são hoje cerca de uma em vinte. A queda não veio de evidência nova de dano; veio da leitura de um único ensaio, e o capítulo inteiro existe para desfazer esse nó. O efeito prático é uma mulher como a Marli, que preenche a indicação, é elegível, e sai da consulta com um antidepressivo que não foi escolhido por ela.
O segundo bloco de sintomas é ainda mais subtratado, e por um motivo diferente: ele não é contado. A síndrome geniturinária da menopausa acomete entre 20% e 45% das mulheres na pós-menopausa segundo o texto de 2025 da revista da Febrasgo, e a atrofia vulvovaginal aparece em 36% a quase 90% na peri e pós-menopausa segundo o documento de posição de 2022 da mesma comissão, que registra ainda 19% de prevalência já entre 40 e 45 anos. O número que fecha a conta é este: mais de 70% das mulheres sintomáticas não se queixam nem relatam esses sintomas ao médico, e os profissionais nem sempre perguntam. Quarenta e quatro por cento das brasileiras consideram que os sintomas vaginais comprometem sua autoestima. Isso significa que a prevalência que você vê no seu consultório é a prevalência das que conseguiram falar — e que a pergunta ativa é, aqui, um instrumento diagnóstico.
Há uma diferença de história natural entre os dois grupos de sintomas, e ela orienta o seguimento. Os sintomas vasomotores tendem a diminuir com o tempo; a síndrome geniturinária, não tratada, tende a piorar com a idade e com o tempo de hipoestrogenismo. Quem espera passar espera em vão no segundo caso. É por isso que a mulher de 67 anos com ardência e infecção urinária de repetição não está fora da conversa por ter passado da janela do tratamento sistêmico: a janela que ela perdeu é outra, e o tratamento de que ela precisa não depende dela.
Uma última moldura, para não transformar risco em pânico. Doença cardiovascular é a principal causa de morte de mulheres no Brasil, e um terço da mortalidade feminina atual decorre de doença isquêmica do coração e de doença cerebrovascular. Quer dizer que a mulher de 55 anos que está preocupada com câncer de mama por causa de um comprimido tem, na mesma década de vida, um risco cardiovascular muito maior competindo pela atenção dela — e que a consulta de menopausa é uma das poucas oportunidades de medir pressão, olhar peso, perguntar por cigarro e conversar sobre isso com alguém que está ali por vontade própria.
Por que acontece o que acontece
A menopausa é uma falência de estoque. O ovário nasce com um número finito de folículos, gasta-os ao longo da vida reprodutiva, e quando o estoque acaba cessa a produção ovariana de estradiol. Não há doença nova: há a retirada de um hormônio que estava presente havia quarenta anos, e o que se chama de síndrome do climatério é o conjunto de reações dos tecidos que dependiam dele. Isso já explica duas coisas que o consultório confunde. A primeira é que o diagnóstico é clínico, e não laboratorial — o quadro é a retirada, e a retirada se manifesta em sintoma, não em dosagem. A segunda é que a lógica do tratamento não é corrigir um exame: é repor o suficiente para desfazer o sintoma que incomoda.
O sintoma vasomotor nasce no centro termorregulador. Com a queda do estrogênio, a faixa de temperatura corporal que o hipotálamo tolera sem acionar mecanismos de resfriamento estreita-se, e uma variação mínima que antes passava despercebida passa a disparar a resposta inteira: vasodilatação cutânea súbita, com onda de calor que sobe pelo tórax, pescoço e face, sudorese e, às vezes, palpitação. É por isso que o fogacho é episódico, tem começo abrupto e termina sozinho, e é por isso que ele acorda a mulher à noite: a resposta é disparada por variação térmica, não por hora do dia. E é por isso, sobretudo, que a reposição de estrogênio funciona tão bem — ela não sedou o sintoma, ela devolveu a largura da faixa. Numa revisão sistemática de 24 ensaios clínicos, a estrogenoterapia reduziu em 75% a ocorrência e em 87% a intensidade dos fogachos em relação ao placebo, e a magnitude desse efeito não é alcançada por nenhuma alternativa não hormonal.
O segundo território é local e tem receptor próprio. Existem receptores de estrogênio, alfa e beta, na vagina, na vulva, na musculatura do assoalho pélvico, na fáscia endopélvica, na uretra e no trígono vesical. Retirado o estímulo, o epitélio afina, a elasticidade cai, o pH vaginal sobe e a flora se altera — e daí saem, no mesmo pacote, secura, ardência, dispareunia, urgência, noctúria e infecção urinária de repetição. A síndrome geniturinária é a soma disso, e o nome importa porque descreve a bexiga e a uretra junto com a vagina; quem só pensa em secura deixa metade dos sintomas sem explicação. Como o alvo é um tecido acessível, a via vaginal em baixa dose entrega estrogênio onde ele falta com absorção sistêmica desprezível — os níveis séricos alcançados com estradiol ou estriol vaginais ficam na ordem de poucos picogramas por mililitro. Esse é o motivo mecanístico de a via vaginal não exigir progestagênio associado, mesmo em mulher com útero, e de ela não carregar o risco trombótico do tratamento sistêmico.
O terceiro território é o osso. A perda de massa óssea acelera em torno da transição menopáusica e é mais abrupta na mulher do que a perda relacionada apenas à idade que se observa no homem, o que faz da menopausa um marcador de risco de fratura por si. A terapia hormonal atua sobre a causa dessa aceleração, e o efeito é mensurável em desfecho duro: redução de 27% nas fraturas não vertebrais e de 33% nas vertebrais. Guarde esse dado, porque ele volta duas vezes no capítulo — uma como benefício que entra na balança de quem já tem indicação por sintoma, e outra como indicação isolada, que é uma decisão bem diferente e bem mais restrita.
Agora o dano, que também tem um endereço anatômico. O estrogênio administrado por boca é absorvido no trato digestório e chega ao fígado pela veia porta antes de alcançar a circulação sistêmica — é a primeira passagem hepática. As proteínas da coagulação são fabricadas ali, e o resultado dessa passagem é um deslocamento do equilíbrio hemostático para o lado pró-trombótico. Isso não acontece com o estrogênio que entra pela pele ou pela mucosa, que chega direto à circulação e alcança nível hepático muito menor. Daí sai a diferença que decide a via na consulta: no estudo caso-controle ESTHER, o risco relativo de trombose venosa foi de 4,2 com o estrogênio oral e de 0,9 com o transdérmico, isto é, ausente na via não oral. O mecanismo é o mesmo em quem já tem terreno preparado — obesidade, trombofilia, imobilização —, e por isso essas condições não mudam apenas a decisão de tratar: mudam a decisão de por onde.
O quarto território é o endométrio, e ele explica a única regra estrutural deste capítulo. O estrogênio é mitogênico para o epitélio endometrial: administrado sem oposição em mulher com útero, ele produz proliferação sustentada, e proliferação sustentada é a via pela qual se chega à hiperplasia e ao carcinoma de endométrio. O progestagênio faz o contrário — induz transformação secretora e interrompe o ciclo proliferativo. É isso, e só isso, que significa proteção endometrial: não é um acessório da fórmula, é o antídoto de um efeito conhecido. Duas consequências práticas caem direto daqui. A primeira: mulher com útero que recebe estrogênio sistêmico recebe progestagênio, sempre, e a dose e a duração do progestagênio importam tanto quanto a presença dele — em regime sequencial, o mínimo é de 12 a 14 dias por mês. A segunda: mulher histerectomizada não tem endométrio a proteger, e receber progestagênio nela é somar risco sem benefício, porque boa parte do excesso de câncer de mama medido nos ensaios é do braço combinado, não do estrogênio isolado.
Falta a peça que reconcilia resultados que parecem contraditórios, e ela é temporal. O efeito do estrogênio sobre a artéria depende do estado da artéria no momento em que ele chega. Num leito arterial ainda íntegro, o estrogênio atua sobre função endotelial, perfil lipídico e metabolismo da glicose de modo favorável, e ensaios em mulheres com menos de dez anos de pós-menopausa mostraram redução ou ausência de efeito sobre a progressão de aterosclerose subclínica e de calcificação coronariana. Num leito que já tem placa estabelecida, o mesmo estímulo encontra outro substrato, e o efeito favorável desaparece ou se inverte. É essa dependência do terreno que produz a janela de oportunidade: iniciar nos primeiros dez anos após a menopausa e/ou antes dos 60 anos é a régua adotada pela diretriz brasileira de 2024, e a mesma diretriz registra que iniciar depois dos 60 anos ou mais de dez anos após a menopausa pode elevar o risco absoluto de doença coronariana, tromboembolismo venoso e acidente vascular cerebral. Repare no que isso significa logicamente: não existe a pergunta a terapia hormonal faz bem ou faz mal. Existe a pergunta a terapia hormonal faz bem ou faz mal em quem, e quando.
Falta então explicar por que o mundo demorou vinte anos a entender isso, e a explicação está na população que foi estudada. O ensaio que interrompeu tudo em 2002 randomizou 16.608 mulheres de 50 a 79 anos com útero para estrogênios equinos conjugados 0,625 mg por dia com acetato de medroxiprogesterona 2,5 mg por dia ou placebo, e a idade média das participantes era de 63,2 anos: apenas 33,4% tinham entre 50 e 59 anos, e dois terços tinham 60 anos ou mais. Era um ensaio de prevenção primária de doença crônica em mulheres majoritariamente idosas e majoritariamente assintomáticas, não um ensaio de tratamento de sintoma em mulher recém-menopausada. Quando os subgrupos foram analisados por tempo desde a menopausa, o aumento de risco cardiovascular com significância estatística apareceu apenas em quem iniciou com mais de vinte anos de menopausa. O ensaio respondeu bem à pergunta que fez. O erro foi aplicar a resposta a uma pergunta que ele não tinha feito — e a mulher que pagou por esse erro foi exatamente a que mais teria a ganhar.

Como se apresenta de verdade
A terapia hormonal é uma decisão sobre sintomas, riscos individuais e preferências. Você deve identificar indicação, contraindicações, presença de útero e via adequada, deixando explícito como avaliar benefício e efeitos adversos. História familiar de câncer não equivale automaticamente à história pessoal, e a avaliação precisa distinguir as duas.
Percurso clínico: Escolher tratamento local ou sistêmico
Defina o sintoma-alvo, presença de útero, contraindicações e preferências. Sintomas geniturinários isolados e vasomotores importantes não exigem necessariamente o mesmo percurso. Quando houver terapia sistêmica e útero, avalie proteção endometrial apropriada. Registre benefício esperado e revisão de resposta e tolerabilidade.
Os quatro pedidos, e o erro típico de cada um
O primeiro é a queixa direta: calor, suor noturno, noite mal dormida, irritabilidade que a própria mulher já atribui à menopausa. É o pedido mais fácil e o mais frequentemente devolvido vazio. O erro típico é tratar a queixa como um dado biográfico em vez de um sintoma com gravidade mensurável: quantos episódios por dia, quantos despertares por noite, o que deixou de ser feito por causa disso. Sem essa medida, não há como saber se a mulher está no grupo dos sintomas moderados a graves, que é o grupo em que a indicação existe.
O segundo é o pedido negado antes de ser feito. A mulher já ouviu de alguém que não pode, e vem pedir outra coisa — um calmante, um exame, um encaminhamento. Aqui o erro é aceitar a formulação dela. Vale a pergunta explícita, uma vez, em toda consulta de mulher nessa faixa: a senhora tem calor, suor, dificuldade de dormir? A resposta muda a consulta em metade dos casos.
O terceiro é o pedido carregado de medo, que é o assunto do bloco de conversa deste capítulo. Ela quer, mas ouviu que hormônio dá câncer, e não vai aceitar receita antes de resolver isso. O erro típico é responder com autoridade em vez de com número: dizer que é seguro sem dizer quanto, o que não desmonta um medo que também foi construído sem número.
O quarto não chega como pedido nenhum. É a mulher que vem pela terceira infecção urinária, pela ardência que ela chama de irritação, pela relação sexual que virou motivo de evitação — e não menciona nada disso porque não sabe que é assunto médico, ou porque já tentou e ouviu que na idade dela é assim. O erro típico é atender o motivo declarado e não perguntar o resto. Mais de 70% das mulheres com sintomas geniturinários não os relatam espontaneamente; se a pergunta não for feita, o diagnóstico não aparece.
Quando a menopausa chega cedo, a balança inteira vira
Menopausa antes dos 40 anos, por insuficiência ovariana prematura, e menopausa induzida por ooforectomia bilateral ou por tratamento oncológico não são o mesmo problema com data diferente. Nessas mulheres, a terapia hormonal deixa de ser uma adição de hormônio a um organismo que já se ajustou à ausência e passa a ser a reposição do que estaria presente em qualquer mulher da mesma idade.
Isso muda a conversa em três pontos. O primeiro é a indicação: o hipoestrogenismo que ocorre antes dos 40 anos aparece nas diretrizes nacionais e internacionais como indicação de terapia hormonal por si, ao lado dos fogachos e da síndrome geniturinária. O segundo é a duração: a referência de duração deixa de ser o tempo de tratamento e passa a ser a idade — mantém-se ao menos até a idade média em que a menopausa aconteceria. O terceiro é o tom: dizer a uma mulher de 34 anos que ela vai usar hormônio por quinze anos assusta, se ela não entender que a alternativa não é ficar sem hormônio, e sim ficar sem o hormônio que todas as mulheres da idade dela têm.
A régua de risco também é outra, e vale dizê-lo explicitamente para não importar medo da população errada. Os números de excesso de risco que este capítulo apresenta foram medidos em mulheres na pós-menopausa depois dos 50 anos, comparadas a mulheres da mesma idade sem tratamento. Aplicá-los a uma mulher de 35 anos em reposição é comparar a pessoa errada com a pessoa errada.
O que parece menopausa e não é
Nem todo calor é fogacho. Hipertireoidismo, ansiedade, febre de causa infecciosa, uso de tamoxifeno e de inibidores de aromatase, e alguns antidepressivos produzem sensação de calor e sudorese, e o padrão que distingue o fogacho é o episódio de começo súbito, duração de minutos, com rubor ascendente e resolução espontânea, repetido muitas vezes ao dia. Quando o relato não tem esse desenho, ou quando há perda de peso, tremor, taquicardia sustentada ou febre, a hipótese muda antes de a receita ser escrita.
E há um achado que não é sintoma de menopausa, ainda que apareça na mesma mulher e na mesma idade: sangramento genital depois da menopausa. Ele não entra na conversa sobre terapia hormonal como efeito a tolerar nem como sintoma a tratar — ele abre uma investigação própria, cuja régua tem capítulo separado nesta apostila, o de sangramento uterino anormal. O que este capítulo precisa fixar é a ordem: sangramento inexplicado se investiga antes de qualquer prescrição, e hiperplasia atípica se trata antes, porque começar hormônio sobre um sangramento não esclarecido faz o sangramento parar sem que o diagnóstico tenha sido feito.
A mesma ordem vale depois de a terapia começar. Sangramento fora do previsto pelo esquema, em quem já usa, também não é efeito colateral a observar por três meses: é achado que se investiga. E qualquer sangramento em mulher menopausada que use tamoxifeno segue régua própria, também do capítulo de sangramento.
Começar e continuar não são a mesma decisão
A janela de oportunidade governa o início. Ela responde à pergunta sobre em que momento da vida se coloca o primeiro comprimido, e o critério é idade abaixo de 60 anos e/ou menos de dez anos desde a menopausa. Ela não é, porém, um prazo de validade do tratamento já iniciado, e confundir as duas coisas produz a suspensão automática que este capítulo desaconselha.
Nenhuma das principais diretrizes sobre o tema estabelece duração máxima obrigatória nem idade em que o tratamento deva ser interrompido, e a diretriz brasileira de 2024 registra isso de forma explícita: a decisão é refeita a cada consulta de seguimento, com base na avaliação individualizada da relação entre risco e benefício. Uma mulher que começou aos 51 anos e chega aos 62 sem contraindicação nova, com sintomas que retornam sempre que ela tenta parar, não tem indicação automática de suspensão por ter feito aniversário.
O que muda com o tempo não é o calendário, é o terreno. Aparecimento de hipertensão de difícil controle, de evento tromboembólico, de doença coronariana, de câncer de mama — cada um desses reclassifica a mulher, e é por isso que a consulta anual existe. A pergunta a fazer todo ano não é há quantos anos ela usa; é o que mudou nela desde a última vez.
Como fechar o diagnóstico
A pergunta deste bloco quase sempre chega torta. Ela costuma vir como uma lista de exames a solicitar antes da receita, quando o que importa é outra coisa: o que eu preciso saber para decidir três pontos — se trata, por qual via e com qual esquema — e de onde vem cada uma dessas informações. Trocada assim, a resposta encurta, e quase tudo vem da conversa.
Vale fixar a primeira frase antes de qualquer lista: o diagnóstico da síndrome do climatério é clínico. Em mulher acima dos 45 anos com o quadro típico, nenhuma dosagem hormonal confirma nem afasta, e nenhuma decide. O que os exames decidem, quando decidem, é outra coisa: por onde administrar e se há alguma condição que feche a porta.
O que decide, e de onde vem
A anamnese responde quase toda a consulta, e tem seis blocos. Primeiro, o sintoma com medida: número de fogachos por dia, número de despertares por noite, o que deixou de ser feito. Segundo, a data — quando foi a última menstruação, porque é dela que sai o tempo desde a menopausa, que é metade da régua da janela. Terceiro, o útero: presente ou não, porque essa única informação define se haverá progestagênio. Quarto, a lista de condições que fecham ou restringem a porta: câncer de mama atual ou prévio e lesão precursora, câncer de endométrio, sangramento vaginal sem causa esclarecida, tromboembolismo venoso ou trombofilia, doença arterial coronariana e acidente vascular cerebral, doença hepática ativa ou cirrose. Quinto, o que empurra a escolha da via: peso, tabagismo, história familiar de trombose, comorbidade metabólica. Sexto, o que a mulher quer e o que ela teme, com as palavras dela.
O exame físico contribui com duas medidas que mudam decisão. A pressão arterial, porque hipertensão não controlada — com valores iguais ou superiores a 180 por 110 mmHg — é contraindicação de início pelo risco de acidente vascular cerebral, enquanto hipertensão controlada não é, e porque a própria terapia eleva a pressão sistólica em torno de 1 a 1,5 mmHg, magnitude que é irrelevante em quem está controlado e não é margem para quem não está. E o peso com o índice de massa corporal, porque obesidade é fator de risco para tromboembolismo e, somada ao estrogênio oral, tem efeito aditivo: no ensaio de 2002, mulheres com sobrepeso randomizadas para terapia sistêmica tiveram risco de tromboembolismo cerca de quatro vezes maior que as em placebo, e as obesas, cerca de seis vezes.
Do laboratório, o que a diretriz brasileira de 2024 atribui função é estreito e específico: colesterol total e frações, triglicerídeos e glicemia de jejum ajudam a escolher a melhor via de administração, e não a decidir se trata. O raciocínio é direto — dislipidemia, diabetes, obesidade e síndrome metabólica empurram para a via transdérmica, que evita a passagem hepática. Um exame que muda a via é um exame que decide. Um exame que só produz um número para o prontuário, não.
Sobre mamografia, a mesma diretriz registra duas coisas que convém não misturar. A primeira é que toda mulher na peri e pós-menopausa, inclusive a que usa terapia hormonal, deve fazer mamografia de rastreamento periódico conforme as diretrizes de rastreamento vigentes — e essa régua, com as idades e os intervalos, é assunto do capítulo de rastreamento do câncer de mama desta apostila, não deste. A segunda é que a Febrasgo sugere que a mamografia seja realizada antes da prescrição. São afirmações diferentes: uma é sobre rastrear, a outra é sobre o momento de rastrear em quem vai começar um tratamento. Onde as duas divergem na prática está no bloco de divergências.
O que não decide, e quanto custa pedir
Dosagem de hormônio folículo-estimulante, de estradiol e de hormônio antimülleriano não decide a prescrição na mulher acima dos 45 anos com quadro típico: o diagnóstico já está feito pela clínica, e um valor no meio da faixa não desfaz um fogacho nem cria uma contraindicação. Ultrassonografia transvaginal de rotina, em mulher sem sangramento, também não: ela não é condição para iniciar, e o achado incidental que produz gera uma segunda investigação que não estava indicada.
Um protocolo municipal de atenção primária que este capítulo leu exige, antes de iniciar, colpocitologia oncótica, mamografia, densitometria óssea se houver fatores de risco, colesterol e triglicerídeos, glicemia de jejum, transaminases e hormônio estimulante da tireoide. Cada um desses exames tem indicação legítima em alguma situação. Reunidos como condição de partida, eles produzem um efeito que não está escrito em lugar nenhum: transformam uma consulta em três, e três em nenhuma.
O custo de pedir é o que se costuma ignorar. Cada exame exigido antes da receita significa uma coleta, um resultado a esperar, mais uma vaga na agenda e mais uma oportunidade de perder a paciente pelo caminho — e, enquanto isso, ela segue com dez fogachos por dia e três despertares por noite, que era o motivo pelo qual procurou ajuda. Numa população em que uma em cada três brasileiras nessa faixa tem sintoma moderado a grave e apenas 4% a 6% recebem tratamento, a fila de exames não é neutra: ela é um dos mecanismos pelos quais o tratamento não chega.
Há um caso em que a régua se inverte, e ele é o único: sangramento genital não esclarecido. Aí o exame vem antes, não porque a receita exija, mas porque a hipótese que ele afasta não admite espera — e essa investigação tem régua e capítulo próprios.
O diferencial, dentro da mesma consulta
O diferencial do fogacho se resolve pelo padrão e por duas ou três perguntas, não por painel de exames. Hipertireoidismo entra quando há perda de peso, tremor, taquicardia sustentada ou intolerância ao calor contínua, e não episódica — e aí a dosagem de hormônio estimulante da tireoide passa a ser exame que decide, pela clínica que a indicou, e não por rotina. Ansiedade e transtorno do pânico produzem calor com palpitação e sensação de falta de ar, geralmente com gatilho identificável e sem o rubor ascendente característico. Uso de tamoxifeno e de inibidor de aromatase produz sintoma vasomotor idêntico ao da menopausa, e a diferença aqui não é diagnóstica, é terapêutica: muda tudo o que se pode oferecer.
O diferencial da síndrome geniturinária se resolve pelo exame ginecológico e pela resposta ao tratamento. Vaginose, candidíase e tricomoníase têm corrimento com características próprias e capítulo próprio nesta apostila; a atrofia dá mucosa pálida, adelgaçada, com perda de rugosidade e friabilidade, sem corrimento patológico. Quando o tratamento estrogênico local é feito corretamente e o sintoma não cede, o documento de posição de 2022 orienta procurar outra explicação — vulvodínia, disfunção do assoalho pélvico, síndrome da bexiga dolorosa — em vez de aumentar a dose.
E existe o diferencial que não é de doença, é de causa do sofrimento. Insônia da menopausa, insônia de apneia do sono e insônia de depressão coexistem com frequência na mesma mulher. O sinal que orienta é a sequência: quando o despertar é precedido de onda de calor e sudorese e cessa quando o fogacho é tratado, era vasomotor. Quando não cessa, o problema era outro, ou era mais de um.
O que a rede oferece, e como isso reescreve a receita
Receitar o que a farmácia da unidade não dispensa equivale a não receitar. No componente básico da relação nacional de 2024 constam estrogênios conjugados em comprimidos de 0,3 mg e de 0,625 mg e em creme vaginal de 0,625 mg/g, estriol em creme vaginal de 1 mg/g, acetato de medroxiprogesterona em comprimido de 10 mg e noretisterona em comprimido de 0,35 mg. No componente especializado consta o cloridrato de raloxifeno de 60 mg, que não é terapia hormonal e responde a outra indicação.
Três consequências práticas saem dessa lista. A primeira é boa: o tratamento da síndrome geniturinária, que é o mais subtratado e o de menor risco, está inteiro disponível — creme vaginal de estriol e de estrogênios conjugados. A segunda é limitante: o estrogênio sistêmico da lista é oral, e a via transdérmica, que é a preferida em obesidade, dislipidemia, diabetes e síndrome metabólica, não consta dela. A terceira é operacional: com estrogênio conjugado oral e medroxiprogesterona oral dá para montar tanto o esquema combinado contínuo quanto o sequencial, e é com essas duas caixas que a maior parte das prescrições do país precisa ser feita.
Redes locais completam a lista por conta própria, e isso muda o que se pode escrever conforme o município. O protocolo municipal lido oferece, além do que está na lista nacional, valerato de estradiol e 17-beta-estradiol orais, progesterona micronizada e sistema intrauterino de levonorgestrel. Antes de prescrever, vale saber o que a sua unidade dispensa — e a pergunta que responde isso é para a farmácia da unidade, não para o livro.
Fluxos e tabelas
A primeira tabela é a que este capítulo existe para entregar: o mesmo dano dito nas duas linguagens, com a conta que liga uma à outra. As três seguintes respondem as perguntas que sobram na consulta — quem pode e quem não pode, qual esquema decorre da anatomia e do sintoma, e quanto o câncer de mama muda de verdade em números de mulheres. Todos os números têm a fonte anotada nas notas ao pé, com a população em que foram medidos.
- 1Meça o sintoma antes de qualquer outra coisa: quantos fogachos por dia, quantos despertares por noite, o que a mulher deixou de fazer. Sintoma leve que não atrapalha a vida não é indicação de terapia sistêmica; sintoma moderado a grave é.
- 2Separe o que é sistêmico do que é local. Se a queixa é só secura, ardência, dor na relação, urgência ou infecção urinária de repetição, o caminho é a via vaginal em baixa dose, e o resto desta lista praticamente não se aplica: quase nenhuma das contraindicações do tratamento sistêmico vale para ela.
- 3Pergunte a data da última menstruação e calcule o tempo desde a menopausa. Menos de dez anos e/ou idade abaixo de 60 anos: dentro da janela. Mais de dez anos ou 60 anos ou mais: fora dela, e a conversa passa a ser sobre alternativas não hormonais para o sintoma sistêmico — sem que isso feche a porta do tratamento vaginal.
- 4Pergunte se o útero está presente. Presente: haverá progestagênio, em dose e duração adequadas. Ausente: estrogênio isolado, sem progestagênio.
- 5Percorra a lista de contraindicações, uma a uma, em voz alta com a paciente. Câncer de mama atual ou prévio, câncer de endométrio de alto risco, sangramento vaginal não esclarecido, tromboembolismo venoso ou trombofilia, doença coronariana, doença arterial periférica, acidente vascular cerebral prévio, doença hepática ativa ou cirrose, hipertensão não controlada.
- 6Se houver sangramento genital não esclarecido, pare aqui. A investigação vem antes da prescrição, e a régua dela está no capítulo de sangramento uterino anormal.
- 7Meça a pressão e calcule o índice de massa corporal. Pressão igual ou maior que 180 por 110 mmHg contraindica iniciar. Obesidade não contraindica: ela decide a via.
- 8Escolha a via. Sem comorbidade metabólica, obesidade, dislipidemia ou diabetes, a via oral é adequada. Com qualquer uma delas, a via transdérmica é a preferida — e, quando ela não estiver disponível na sua rede, isso entra na conversa como limitação real, não como se não existisse.
- 9Escolha o esquema pela anatomia e pelo tempo de menopausa: estrogênio isolado sem útero; combinado sequencial na transição e nos primeiros anos; combinado contínuo na pós-menopausa estabelecida, quando o objetivo é não sangrar.
- 10Escreva a menor dose que resolve o sintoma e diga isso à mulher: a dose se ajusta na reavaliação, para cima ou para baixo, conforme a resposta.
- 11Diga os números do risco antes de ela perguntar, nas duas linguagens, e diga em que população foram medidos. Uma mulher informada com número absoluto adere melhor e volta.
- 12Marque a reavaliação: primeiro contato entre 6 e 12 semanas para ajuste de dose e efeitos, e depois seguimento com intervalo de 6 a 12 meses, refazendo a lista de contraindicações a cada vez.
- 13Registre no prontuário o que decidiu e por quê: data da última menstruação, útero presente ou não, pressão medida, índice de massa corporal, contraindicações pesquisadas, via escolhida com o motivo, e o que foi combinado sobre duração. É esse registro que protege a paciente na próxima consulta, com outro médico.
| Desfecho | Razão de risco (IC 95%) | Casos por 10 mil mulheres-ano: com tratamento / sem tratamento | Diferença absoluta por 10 mil mulheres-ano | Traduzido em mulheres tratadas durante um ano |
|---|---|---|---|---|
| Doença coronariana | 1,29 (1,02–1,63) | 37 / 30 | +7 | 1 evento a mais a cada 1.429 |
| Acidente vascular cerebral | 1,41 (1,07–1,85) | 29 / 21 | +8 | 1 a mais a cada 1.250 |
| Embolia pulmonar | 2,13 (1,39–3,25) | 16 / 8 | +8 | 1 a mais a cada 1.250 |
| Tromboembolismo venoso, total | 2,11 (1,58–2,82) | 34 / 16 | +18 | 1 a mais a cada 556 |
| Câncer de mama invasivo | 1,26 (1,00–1,59) | 38 / 30 | +8 | 1 a mais a cada 1.250 |
| Câncer colorretal | 0,63 (0,43–0,92) | 10 / 16 | −6 | 1 evitado a cada 1.667 |
| Fratura de quadril | 0,66 (0,45–0,98) | 10 / 15 | −5 | 1 evitada a cada 2.000 |
| Morte por qualquer causa | 0,98 (0,82–1,18) | 52 / 53 | −1 | sem diferença detectada |
| Índice global de risco e benefício | 1,15 (1,03–1,28) | 170 / 151 | +19 | 1 a mais a cada 526 |
Quem não pode, quem pode com escolha de via, e o que virou mito
| Condição | Onde ela entra | O que fazer na consulta |
|---|---|---|
| Câncer de mama atual ou prévio, ou lesão precursora | Contraindicação à terapia sistêmica | Não prescrever sistêmica. Tratar fogacho com medida não hormonal; síndrome geniturinária começa por hidratante e lubrificante |
| Câncer de endométrio de alto grau, tipo II ou avançado; sarcoma do estroma endometrial; leiomiossarcoma | Contraindicação | Não prescrever. No endometrioide de baixo grau e estádio inicial já operado há abertura condicionada, com o oncologista na decisão |
| Sangramento vaginal de causa não esclarecida | Impedimento temporário | Investigar primeiro, tratar hiperplasia atípica se houver, e só então decidir sobre hormônio |
| Tromboembolismo venoso prévio, trombofilia hereditária ou adquirida | Contraindicação à sistêmica oral | Não prescrever oral. Se o evento foi provocado por imobilização ou trauma, e não por estrogênio ou gravidez, a via transdérmica pode ser considerada |
| Doença arterial coronariana, incluindo infarto e doença arterial periférica | Contraindicação | Não prescrever. Tratar o sintoma por via não hormonal |
| Acidente vascular cerebral isquêmico prévio | Contraindicação | Não prescrever, ainda que o risco absoluto do evento sob tratamento seja baixo, abaixo de 10 por 10 mil ao ano |
| Doença hepática ativa ou cirrose | Contraindicação por qualquer via | Não prescrever |
| Hipertensão não controlada, com pressão igual ou superior a 180 por 110 mmHg | Contraindicação de início | Controlar a pressão primeiro; depois a decisão volta a ser possível |
| Hipertensão controlada | Não é contraindicação | Pode usar por qualquer via, com preferência transdérmica se houver obesidade, dislipidemia, diabetes ou síndrome metabólica |
| Diabetes tipo 2 controlado | Não é contraindicação | Pode usar; a preferência é transdérmica com progesterona micronizada em quem tem útero |
| Obesidade | Não é contraindicação; decide a via | Prescrever por via transdérmica. O risco de tromboembolismo sob terapia sistêmica foi cerca de quatro vezes maior no sobrepeso e seis vezes na obesidade |
| Hepatite C, neoplasia hematológica prévia, câncer de colo de células escamosas, de vagina, de vulva, colorretal, de pulmão, de tireoide, hepático, renal ou gástrico | Não são contraindicação | Podem usar. A lista existe porque essas condições são recusadas na prática sem base |
| Porfiria e meningioma | Contraindicação de tradição, não de consenso atual | Individualizar. Não constam das atualizações recentes das sociedades brasileira e norte-americana de menopausa |
| Enxaqueca com aura frequente | Aparece como contraindicação relativa em protocolo municipal, e não figura na revisão das contraindicações reais | Decidir caso a caso. A régua do anticoncepcional combinado, que é outro estrogênio em outra dose e outra idade, não se transporta para cá automaticamente |
O esquema sai de duas perguntas: onde dói e se há útero
| Situação | Esquema | Por que assim | O que a lista nacional oferece |
|---|---|---|---|
| Só sintoma geniturinário, com ou sem útero | Estrogênio vaginal em baixa dose, sem progestagênio associado | Absorção sistêmica desprezível, com níveis séricos na ordem de poucos picogramas por mililitro; não há endométrio estimulado a proteger | Estriol creme vaginal 1 mg/g e estrogênios conjugados creme vaginal 0,625 mg/g |
| Sintoma vasomotor, sem útero | Estrogênio isolado, oral ou transdérmico | Sem endométrio, o progestagênio só somaria risco: o excesso de câncer de mama medido é maior no braço combinado | Estrogênios conjugados comprimido de 0,3 mg ou 0,625 mg |
| Sintoma vasomotor, com útero, na transição ou nos primeiros anos de pós-menopausa | Combinado sequencial: estrogênio contínuo e progestagênio por 12 a 14 dias consecutivos a cada mês | É o esquema que acompanha um endométrio ainda responsivo; produz sangramento previsível ao fim do ciclo progestacional, em cerca de 70% das usuárias nas doses convencionais | Estrogênios conjugados 0,625 mg por dia com acetato de medroxiprogesterona 10 mg por dia durante 12 a 14 dias por mês |
| Sintoma vasomotor, com útero, na pós-menopausa estabelecida | Combinado contínuo: estrogênio e progestagênio todos os dias | O objetivo aqui é não sangrar; a chance de sangramento é menor, mas quando ocorre é imprevisível | A dose contínua de medroxiprogesterona da tabela das sociedades é de 2,5 mg por dia, e a apresentação da lista nacional é o comprimido de 10 mg — ver a nota sobre esse vão |
| Com útero, quando se quer evitar o progestagênio sistêmico | Estrogênio sistêmico com sistema intrauterino de levonorgestrel | O progestagênio age no endométrio sem a exposição sistêmica; uso descrito como fora de bula para essa finalidade | Não consta da lista nacional para esta indicação; existe em redes locais |
| Menopausa antes dos 40 anos, ou induzida por cirurgia ou tratamento | Reposição, com esquema conforme a presença de útero | Não é adição de hormônio a quem não tem: é devolver o que a idade dela ainda teria; mantém-se ao menos até a idade média da menopausa | Mesmas apresentações; a diferença está na duração e na conversa |
| Contraindicação à terapia sistêmica, com fogacho que atrapalha a vida | Alternativa não hormonal, e tratamento vaginal se houver sintoma local | O fechamento da porta sistêmica não fecha a porta local nem a não hormonal | Antidepressivo para fogacho e gabapentina constam de protocolo municipal; a via vaginal permanece disponível |
Câncer de mama em números de mulheres: risco em 20 anos, dos 50 aos 69 anos
| Situação | Risco relativo no uso atual | Risco absoluto em 20 anos | Excesso por 100 mulheres | Uma a mais a cada |
|---|---|---|---|---|
| Nunca usou | referência | 6,3 por 100 | — | — |
| Estrogênio isolado, 5 anos a partir dos 50 | 1,33 (1,28–1,37) | 6,8 por 100 | +0,5 | 200 usuárias |
| Estrogênio com progestagênio intermitente, 5 anos | 1,93 (1,84–2,01) | 7,7 por 100 | +1,4 | 70 usuárias |
| Estrogênio com progestagênio diário, 5 anos | 2,30 (2,21–2,40) | 8,3 por 100 | +2,0 | 50 usuárias |
| Dez anos de uso, qualquer esquema | — | excesso cerca do dobro do de cinco anos | +4,0 no esquema diário | 25 usuárias no esquema diário |
| Estrogênio vaginal | 1,09 (0,97–1,23) | sem excesso demonstrado | — | — |
A tabela principal reproduz o braço estroprogestativo do ensaio de 2002: estrogênios equinos conjugados 0,625 mg por dia com acetato de medroxiprogesterona 2,5 mg por dia, em 16.608 mulheres de 50 a 79 anos com útero, seguidas por média de 5,2 anos. As razões de risco são as publicadas; as taxas por 10 mil mulheres-ano foram convertidas a partir das taxas anualizadas em porcentagem do artigo, e a coluna de tradução é a diferença absoluta invertida, isto é, o número de mulheres que precisariam ser tratadas por um ano para que um evento a mais aconteça.
A população daquele ensaio é a chave para ler a tabela. A idade média era de 63,2 anos, e apenas 33,4% das participantes tinham entre 50 e 59 anos. Nenhum desses números foi medido na mulher de 52 anos com dois anos de menopausa e fogacho diário, que é a paciente de quem este capítulo trata — e quando os subgrupos foram analisados por tempo desde a menopausa, o aumento de risco cardiovascular com significância apareceu apenas em quem começou com mais de vinte anos de menopausa.
Repare no que a linha do índice global mostra e a manchete de 2002 escondeu: a diferença total entre tratar e não tratar, somando o que piora e o que melhora, foi de 19 eventos por 10 mil mulheres-ano — menos de dois eventos por mil mulheres tratadas durante um ano. E a mortalidade por qualquer causa não diferiu.
A tabela de contraindicações combina a lista da revisão publicada em 2025 na revista da Febrasgo, o quadro de contraindicações do protocolo de número 54 da mesma federação, as recomendações da diretriz cardiovascular de 2024 e a lista adotada por um protocolo municipal de atenção primária. Onde as fontes divergem, isso está dito na própria linha.
A tabela de esquemas usa as apresentações que constam da relação nacional de medicamentos essenciais de 2024, primeira edição, e as doses de proteção endometrial dos quadros de progestagênios do protocolo de número 54 da Febrasgo e do guia da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, este declaradamente adaptado do consenso brasileiro de 2024.
O vão da medroxiprogesterona, com a conta escrita. A tabela de progestagênios adaptada do consenso brasileiro dá, para o esquema combinado contínuo, 2,5 mg por dia de acetato de medroxiprogesterona. A apresentação da lista nacional é o comprimido de 10 mg. Chegar a 2,5 mg a partir dele exige quartear o comprimido, o que não é forma confiável de dose. O esquema que essa apresentação sustenta bem é o sequencial, com 10 mg por dia durante 12 a 14 dias por mês — dose que consta do quadro de progestagênios da Febrasgo, que lista 1,5, 2,5, 5,0 e 10 mg por dia como doses orais empregadas. Onde a rede tiver progesterona micronizada, o esquema contínuo se resolve com 100 a 200 mg por dia.
Há uma diferença de número entre duas fontes brasileiras na dose de noretisterona, e ela merece registro. O quadro do protocolo da Febrasgo lista 0,35, 0,5 e 1,0 mg por dia entre as doses orais empregadas para proteção endometrial; a tabela adaptada do consenso brasileiro de 2024 dá 0,5 mg por dia no esquema contínuo e 1 mg por dia no sequencial. A apresentação da lista nacional é o comprimido de 0,35 mg, que é o piso da primeira e fica abaixo do valor da segunda. Quem usa essa apresentação para proteção endometrial está no limite inferior de uma das réguas e fora da outra, e isso muda o rigor do seguimento: sangramento não programado nesse esquema pede investigação mais cedo, não observação.
A tabela de câncer de mama vem da meta-análise de dados individuais publicada em 2019, que reuniu 58 estudos observacionais. Os riscos relativos são os do uso atual por 5 a 14 anos; os riscos absolutos foram calculados pelos autores para mulheres de peso médio em país desenvolvido, com risco de 6,3 por 100 em 20 anos entre quem nunca usou. Nenhum ensaio randomizado entrou nessa reanálise, e o editorial brasileiro de 2020 aponta que a mediana do ano de diagnóstico dos casos era 2002, ou seja, exposição a esquemas anteriores à prática atual. No ensaio randomizado, o risco relativo de câncer de mama invasivo com estrogênio isolado foi de 0,80, sem aumento.
A conduta, hora a hora
Definir o sintoma-alvo e revisar riscos antes de prescrever. Com útero presente, assegurar proteção endometrial quando houver estrogênio sistêmico; escolher via e regime conforme perfil clínico. Combinar retorno para tolerância e resposta e reavaliar periodicamente a continuidade. Sangramento novo precisa ser interpretado pelo tempo e regime, sem ser atribuído automaticamente ao tratamento.
Todas as doses que seguem vêm dos quadros de estrogênios e de progestagênios do protocolo de número 54 da Febrasgo, da tabela de doses do guia da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica declaradamente adaptada do consenso brasileiro de 2024, e das apresentações da relação nacional de medicamentos essenciais de 2024 e do protocolo municipal lido. A fonte de cada linha está indicada nela.
Antes da receita — os dez minutos que decidem tudo
Estes minutos são a única oportunidade real de impedir o dano deste capítulo, e nenhum deles custa exame. A tarefa é sair daqui com cinco respostas: qual é a gravidade do sintoma, quanto tempo faz a menopausa, se há útero, se há alguma condição que feche a porta, e qual via a comorbidade dela recomenda. Nenhuma delas depende de laboratório. Se o sintoma for só geniturinário, a maior parte desta lista deixa de importar, e o caminho é outro — vá ao marco correspondente.
Prescrição- Medir o sintoma: número de fogachos por dia, número de despertares por noite, e uma frase sobre o que ela deixou de fazer por causa disso. Registre os três no prontuário — são o parâmetro que a reavaliação vai comparar
- Datar a última menstruação e calcular o tempo desde a menopausa; conferir a idade. Dentro de dez anos e/ou abaixo dos 60: janela aberta (diretriz cardiovascular brasileira de 2024)
- Perguntar por útero e por cirurgias ginecológicas prévias — essa resposta define sozinha se haverá progestagênio
- Percorrer a lista de contraindicações em voz alta, uma a uma, e registrar que foi percorrida (revisão da Femina de 2025; quadro de contraindicações do protocolo de número 54)
- Medir a pressão arterial e calcular o índice de massa corporal. Pressão igual ou superior a 180 por 110 mmHg contraindica iniciar (diretriz de 2024)
- Solicitar colesterol total e frações, triglicerídeos e glicemia de jejum quando eles forem mudar a escolha da via — e não como condição para prescrever (diretriz de 2024)
Dia 0 — a receita da terapia sistêmica, escrita por extenso
Escolhida a via e o esquema, a receita sai completa: princípio, dose, via, frequência e o que fazer quando acabar a caixa. A regra transversal é começar pela menor dose que resolve, e dizer isso à paciente — a dose será ajustada na reavaliação, e isso é parte do plano, não sinal de que deu errado. Mulher com útero recebe progestagênio na mesma receita, nunca depois.
Prescrição- Sem útero, via oral: estrogênios conjugados 0,3 mg por via oral, um comprimido ao dia, uso contínuo; subir para 0,625 mg ao dia se o sintoma não ceder (apresentações da relação nacional de 2024; doses do quadro de estrogênios do protocolo de número 54)
- Sem útero, via oral, alternativa disponível em redes locais: valerato de estradiol 1 mg ou 17-beta-estradiol 1 mg por via oral, um comprimido ao dia, uso contínuo (protocolo municipal lido)
- Sem útero, via transdérmica, preferida em obesidade, dislipidemia, diabetes ou síndrome metabólica: estradiol transdérmico em adesivo, 25 microgramas ao dia como dose baixa e 50 microgramas ao dia como dose convencional, trocado conforme a apresentação; ou gel de estradiol a 0,1%, dois acionamentos ao dia equivalendo a 1 mg como dose baixa e três acionamentos equivalendo a 1,5 mg como dose convencional (tabela de estrogênios do guia da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica; preferência de via na diretriz de 2024)
- Com útero, esquema sequencial, com o que a rede pública tem: estrogênios conjugados 0,625 mg por via oral ao dia, de forma contínua, associados a acetato de medroxiprogesterona 10 mg por via oral ao dia durante 12 a 14 dias consecutivos a cada mês (apresentações da relação nacional de 2024; dose oral de medroxiprogesterona no quadro do protocolo de número 54; duração mínima de 12 a 14 dias por mês no guia da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica)
- Com útero, esquema sequencial, onde houver progesterona micronizada: estrogênio na dose escolhida, de forma contínua, com progesterona micronizada 200 mg por via oral ou vaginal ao dia durante 12 a 14 dias consecutivos a cada mês (200 a 300 mg por dia no esquema sequencial, conforme a tabela adaptada do consenso brasileiro de 2024)
- Com útero, esquema contínuo, onde houver progesterona micronizada: estrogênio na dose escolhida com progesterona micronizada 100 mg por via oral ou vaginal ao dia, todos os dias (100 a 200 mg por dia no esquema contínuo, mesma tabela)
- Com útero, esquema contínuo com o que a lista nacional tem: noretisterona 0,35 mg por via oral ao dia, todos os dias, associada ao estrogênio — dose que é o piso do quadro do protocolo de número 54 e fica abaixo dos 0,5 mg por dia da tabela adaptada do consenso brasileiro, o que exige seguimento mais rigoroso do padrão de sangramento
- Entregar receita suficiente para chegar até o retorno combinado, e não uma caixa por vez
Dia 0 — a receita da síndrome geniturinária, que é outra consulta dentro da mesma
Este é o tratamento mais subtratado do capítulo e o de melhor relação entre benefício e risco. Ele não depende da janela de oportunidade, não depende de a mulher ter 55 ou 75 anos, não pede progestagênio associado mesmo com útero, e a lista de contraindicações do tratamento sistêmico praticamente não se aplica a ele. Sintoma leve começa por hidratante e lubrificante; sintoma moderado a grave começa por estrogênio vaginal, que é o tratamento-padrão mais eficaz.
Prescrição- Sintoma leve: hidratante vaginal de uso regular, duas a cinco vezes por semana, e lubrificante nas relações (documento de posição da Febrasgo de março de 2022; guia da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica)
- Sintoma moderado a grave, com o que a rede pública tem: estriol creme vaginal 1 mg/g, uma medida por via vaginal à noite, diariamente por 15 dias, mantendo depois duas vezes por semana enquanto durarem os sintomas (apresentação da relação nacional de 2024; esquema do protocolo municipal lido)
- Alternativa da mesma lista: estrogênios conjugados creme vaginal 0,625 mg/g, com dose diária de ataque seguida de manutenção duas a três vezes por semana, na menor dose que mantenha o trofismo (apresentação da relação nacional de 2024; esquema descrito no protocolo de número 54)
- Não associar progestagênio nem solicitar monitoração endometrial de rotina por causa do estrogênio vaginal de baixa dose (protocolo de número 54; guia da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica)
- Avisar que a melhora começa em algumas semanas e pode levar até 12 semanas para o efeito máximo — e que interromper devolve os sintomas, porque o tratamento não cura a causa (protocolo de número 54)
- Não iniciar diante de sangramento vaginal não esclarecido: investigar primeiro (protocolo municipal lido)
Ainda no dia 0 — o que se diz antes de a mulher sair da sala
Metade do abandono do tratamento é produzido nesta parte da consulta, e não custa nada além de tempo. A mulher precisa sair sabendo três coisas: quando o efeito começa, o que vai acontecer com o sangramento, e o que a faz voltar antes da data marcada. A terceira é a que evita susto e a que evita atraso.
Prescrição- Dizer o prazo do efeito: o sintoma vasomotor costuma responder em semanas, e a dose se ajusta na reavaliação
- Dizer o que esperar do sangramento: no esquema sequencial há sangramento previsível ao fim do ciclo de progestagênio, em cerca de 70% das usuárias nas doses convencionais; no contínuo, o esperado é não sangrar (protocolo de número 54)
- Dizer o que faz voltar antes: qualquer sangramento fora do previsto pelo esquema, dor ou inchaço em uma perna, dor torácica, falta de ar, cefaleia diferente da habitual, ou nódulo na mama
- Dizer os números do risco antes de ela perguntar, nas duas linguagens, e dizer em que idade eles foram medidos
- Combinar a data do retorno em voz alta e escrevê-la na receita
Semanas 2 a 4 — o que é esperado e não muda conduta
Nesse intervalo aparecem os efeitos que fazem a mulher parar sozinha se ninguém tiver avisado: mastalgia, sensação de inchaço, náusea, cefaleia leve, e sangramento de escape no começo do esquema contínuo. Nenhum deles é motivo automático para suspender, e a maior parte cede. O que não cede se resolve mudando dose ou via, não abandonando o tratamento — e essa é exatamente a diferença entre uma mulher tratada e uma mulher que tentou.
Prescrição- Manter o esquema e reforçar por telefone ou por contato da equipe que o retorno está marcado
- Mastalgia persistente: reduzir a dose de estrogênio para a faixa imediatamente inferior na reavaliação
- Náusea com a via oral: considerar troca para a via transdérmica, quando disponível
- Sangramento fora do previsto que persiste além do início do esquema: investigar, não observar — a régua está no capítulo de sangramento uterino anormal
Semanas 6 a 12 — a primeira reavaliação, que é de dose
Esta consulta responde uma pergunta só: a dose está certa? Compare com os três números registrados no dia 0 — fogachos por dia, despertares por noite, e o que ela voltou a fazer. Se o sintoma cedeu e não há efeito adverso incômodo, mantenha e espace. Se cedeu parcialmente, suba um degrau de dose. Se não cedeu nada com dose adequada, reveja o diagnóstico antes de subir de novo.
Prescrição- Refazer as três medidas do dia 0 e comparar, por escrito
- Resposta parcial: subir um degrau de dose do estrogênio, mantendo o progestagênio proporcional ao esquema
- Resposta completa com efeito adverso: descer um degrau, e reavaliar em 6 a 8 semanas
- Ausência de resposta com dose convencional: revisar o diagnóstico do sintoma antes de aumentar — hipertireoidismo, ansiedade, medicação em uso
- Aferir a pressão arterial nesta consulta e registrar
A cada 6 a 12 meses — o seguimento em que a régua é refeita
O acompanhamento regular recomendado pelo protocolo municipal lido tem intervalo de 6 a 12 meses, e a tarefa dele não é renovar receita: é refazer a régua. A pergunta central da consulta anual não é há quanto tempo ela usa, e sim o que mudou nela desde a última vez — porque a elegibilidade não é uma propriedade permanente, e as condições que fecham a porta aparecem com a idade.
Prescrição- Refazer a lista de contraindicações inteira, com atenção às que surgem no intervalo: evento tromboembólico, doença coronariana, acidente vascular cerebral, câncer de mama, hipertensão que saiu de controle
- Aferir pressão arterial e peso, e reavaliar a via à luz do que mudou
- Perguntar ativamente por sintoma geniturinário, que costuma aparecer depois e não é relatado espontaneamente por mais de 70% das mulheres (documento de posição da Febrasgo de março de 2022)
- Manter a mamografia de rastreamento no calendário próprio dela, conforme a régua do capítulo de rastreamento do câncer de mama (diretriz cardiovascular de 2024)
- Reavaliar dose: sintoma que sumiu há tempo permite tentar um degrau abaixo
- Registrar a decisão de continuar, com o motivo — é isso que substitui a data automática de parada
Quando parar, e como — sem data automática
Não existe duração máxima obrigatória nem idade em que o tratamento deva ser interrompido: a diretriz brasileira de 2024 registra que a decisão é refeita a cada consulta, com base na avaliação individualizada de risco e benefício. Isso não é permissão para nunca revisitar; é o contrário — obriga a decidir de novo, todo ano, em vez de decidir uma vez pelo calendário. Quando a decisão for parar, a forma importa: a suspensão abrupta devolve o sintoma de uma vez e é o que produz o retorno em pânico.
Prescrição- Parar quando ela quiser parar, quando surgir contraindicação, quando houver efeito adverso grave, ou quando não houver melhora após período adequado (protocolo municipal lido)
- Suspender de forma gradual, para evitar o retorno abrupto dos sintomas (protocolo municipal lido)
- Combinar antes o que fazer se o sintoma voltar: reavaliar, e não recomeçar sozinha com sobra de caixa
- Manter o tratamento vaginal se houver sintoma geniturinário — parar a terapia sistêmica não implica parar o local
- Quando a via sistêmica está fechada por contraindicação: fluoxetina 20 mg por via oral ao dia, com faixa de 20 a 80 mg ao dia, sem associar fluoxetina nem paroxetina a tamoxifeno, pois ambas inibem fortemente CYP2D6; nessa situação escolher alternativa compatível, como venlafaxina ou escitalopram, após avaliação individual e alinhamento com a equipe oncológica; e, entre as alternativas listadas, isoflavonas de soja com no mínimo 50 mg de isoflavonas totais, dois a três comprimidos ao dia (protocolo municipal lido) Segurança da interação: Medsafe, Reminder: Avoid using CYP2D6 inhibitors with tamoxifen, 2019. A lista de opções não implica equivalência de eficácia ou indicação para sobreviventes de câncer de mama; não extrapolar fitoterápicos para esse grupo sem avaliação específica.
- Registrar a suspensão e o motivo, para que a próxima consulta não recomece a discussão do zero
Como saber se está funcionando
O desfecho que este tratamento persegue é subjetivo, e isso costuma virar desculpa para não medir. É o contrário: como o desfecho é subjetivo, ele precisa de número anotado antes, senão a reavaliação vira uma conversa em que a mulher diz que está mais ou menos e o médico decide pelo que lembra. Os três números do dia zero — fogachos por dia, despertares por noite, e o que ela deixou de fazer — são o instrumento de medida deste capítulo.
A segunda regra do seguimento é que ele tem duas naturezas. Nas primeiras semanas, o que se avalia é dose. Depois do primeiro ano, o que se avalia é elegibilidade, porque o que muda com o tempo não é o efeito do remédio: é a mulher.
Esperado: Queda substancial em relação aos três números registrados no dia zero, com o sintoma deixando de interferir no sono e no trabalho. A magnitude a esperar é grande: na revisão de 24 ensaios, a estrogenoterapia reduziu a ocorrência em 75% e a intensidade em 87% em relação ao placebo
Se não melhora: Antes de subir a dose, cheque três coisas nesta ordem. Ela está usando como foi prescrito? A dose está na faixa convencional ou ainda na baixa? E o sintoma é mesmo vasomotor — há perda de peso, tremor, taquicardia sustentada, ou uso de tamoxifeno, inibidor de aromatase ou antidepressivo que produza o mesmo relato? Resposta parcial pede um degrau de dose. Ausência completa de resposta com dose convencional pede revisão do diagnóstico, não um segundo degrau
Esperado: No esquema sequencial, sangramento previsível ao fim do ciclo de progestagênio, que ocorre em cerca de 70% das usuárias nas doses convencionais. No esquema contínuo, o esperado é ausência de sangramento, com escape possível nos primeiros meses
Se não melhora: Sangramento fora do padrão previsto pelo esquema não é efeito colateral a observar por três meses: é achado a investigar, e a régua da investigação está no capítulo de sangramento uterino anormal desta apostila. Duas situações merecem pressa própria: sangramento em quem usa noretisterona 0,35 mg como progestagênio contínuo, dose que fica no piso de uma das réguas brasileiras e abaixo da outra; e qualquer sangramento em mulher menopausada que use tamoxifeno
Esperado: Manutenção do controle prévio. A terapia hormonal eleva a pressão sistólica em torno de 1 a 1,5 mmHg, magnitude sem repercussão em quem está controlado
Se não melhora: Se a pressão saiu de controle, o problema a tratar é a hipertensão, e não necessariamente o hormônio: o tratamento da pressão vem primeiro. Enquanto ela estiver não controlada, com valores iguais ou superiores a 180 por 110 mmHg, não se inicia — e em quem já usa, a via transdérmica associada a progesterona micronizada é a combinação sugerida pela diretriz de 2024 nos casos de controle difícil com sintoma moderado a grave
Esperado: Melhora começando em algumas semanas, com efeito máximo em até 12 semanas. Redução de secura, ardência, dispareunia e também de urgência, frequência, noctúria e incontinência
Se não melhora: Confirme primeiro o uso correto: a aplicação diária de ataque foi feita, e a manutenção duas a três vezes por semana está sendo mantida? Confirmado o uso, a orientação da posição de 2022 é procurar outra explicação — vulvodínia, disfunção do assoalho pélvico, síndrome da bexiga dolorosa — em vez de aumentar a dose. Lembre também que o sintoma volta quando o tratamento para, porque ele não corrige a causa
Esperado: Nenhuma condição nova entre as que fecham a porta, pressão controlada, peso estável, mamografia em dia pelo calendário de rastreamento dela
Se não melhora: Se apareceu evento tromboembólico, doença coronariana, acidente vascular cerebral ou câncer de mama, o tratamento sistêmico para, e a conversa passa a ser sobre o que substitui. Se o que apareceu foi ganho de peso, dislipidemia ou diabetes, o que muda é a via, não a decisão de tratar. E se o que mudou foi a idade dela ter passado dos 60 sem nada mais ter mudado, isso por si não é motivo de suspensão: nenhuma das principais diretrizes fixa idade de parada obrigatória
Onde o erro machuca
O dano: É o erro central deste capítulo, e o dano é longo e silencioso. A mulher passa anos com dez fogachos por dia e três despertares por noite, com privação crônica de sono, queda de desempenho no trabalho, risco de acidente e piora de humor — e recebe, no lugar do tratamento indicado, antidepressivo, ansiolítico ou nada. O dano tem tamanho de população: uma em cada três brasileiras nessa faixa etária tem sintoma moderado a grave, e apenas 4% a 6% recebem tratamento hormonal. E há um segundo dano, mais difícil de reverter: a mulher para de trazer a queixa.
Como pegar a tempo: Pergunte pelo sintoma com número, em toda consulta de mulher entre 45 e 60 anos, mesmo quando ela veio por outra coisa. E, quando o medo aparecer, responda com risco absoluto e não com autoridade: no ensaio que produziu a manchete, o excesso de câncer de mama foi de 8 casos por 10 mil mulheres-ano, o que é um caso a mais a cada 1.250 mulheres tratadas durante um ano, medido em mulheres com idade média de 63,2 anos, que não é a idade da sua paciente.
O dano: O estrogênio sem oposição é mitogênico para o endométrio, e a proliferação sustentada é a via para a hiperplasia e para o carcinoma. Esse é o único dano deste capítulo que decorre de um erro puramente técnico, sem nenhuma zona cinzenta: não há discussão sobre isso em nenhuma diretriz. O erro costuma nascer de duas situações banais — a receita que se copia de outra paciente, e a segunda receita em que o progestagênio simplesmente não foi transcrito.
Como pegar a tempo: Transforme a pergunta sobre o útero em item obrigatório do dia zero, e escreva na mesma receita, no mesmo papel, o estrogênio e o progestagênio, com a duração do progestagênio explícita quando o esquema for sequencial. Ao renovar, confira se as duas linhas continuam lá. E lembre da exceção que não é exceção: o estrogênio vaginal de baixa dose não exige progestagênio associado, porque a absorção sistêmica é desprezível.
O dano: O progestagênio faz o sangramento parar, e é justamente por funcionar que ele é perigoso aqui: cessa o sintoma na hiperplasia e no carcinoma também, e tranquiliza médico e paciente enquanto o diagnóstico é adiado. O mesmo vale para o sangramento não programado que aparece em quem já está em terapia hormonal, e que costuma ser lido como efeito colateral do esquema.
Como pegar a tempo: Fixe a ordem: sangramento não esclarecido se investiga antes de qualquer prescrição, e hiperplasia atípica se trata antes de iniciar. Em quem já usa, sangramento fora do padrão previsto pelo esquema abre investigação, não observação. A régua completa está no capítulo de sangramento uterino anormal desta apostila, e não neste — o que este capítulo garante é que ela seja acionada.
O dano: É o erro que mais produz sofrimento por unidade de risco evitado, porque o risco evitado é próximo de zero. A síndrome geniturinária, ao contrário do fogacho, piora com o tempo se não for tratada, e produz dispareunia, evitação sexual, urgência, noctúria e infecção urinária de repetição em mulheres que muitas vezes atravessam décadas assim. A absorção sistêmica das preparações vaginais de baixa dose é desprezível, e a própria meta-análise que mais assustou o mundo sobre câncer de mama encontrou, para estrogênios vaginais, risco relativo de 1,09 com intervalo de confiança que inclui a ausência de efeito.
Como pegar a tempo: Separe as duas decisões na sua cabeça e na conversa: uma coisa é terapia sistêmica, outra é tratamento local. Contraindicação à primeira não é, por si, contraindicação à segunda. E pergunte ativamente pelos sintomas, porque mais de 70% das mulheres não os trazem — a lista é curta: secura, ardência, dor na relação, urgência, levantar à noite para urinar, infecção urinária repetida.
O dano: A suspensão automática devolve o sintoma de uma vez, e a mulher volta em semanas pedindo para recomeçar, ou recomeça sozinha com sobra de caixa e sem seguimento. A regra do calendário também confunde duas coisas diferentes: a janela de oportunidade rege o momento de iniciar, não o prazo de validade do que já foi iniciado. Nenhuma das principais diretrizes estabelece duração máxima obrigatória nem idade em que o tratamento deva ser interrompido.
Como pegar a tempo: Troque a data por uma decisão anual registrada. Em cada consulta de seguimento, refaça a lista de contraindicações, meça pressão e peso, reavalie a via, tente um degrau abaixo na dose quando o sintoma estiver há muito tempo controlado, e escreva no prontuário por que se decidiu continuar. Quando a decisão for parar, suspenda de forma gradual e combine antes o que fazer se o sintoma voltar.
O que dizer ao paciente e à família
Aqui a conversa não é acessório do tratamento: ela é a intervenção. A mulher que chega dizendo que ouviu que hormônio dá câncer não está pedindo informação — ela está pedindo permissão para deixar de ter medo, e permissão não se dá com autoridade. Dá-se com número, e com o número na linguagem certa.
A linguagem certa tem nome e é a de frequência natural: em vez de dizer que o risco aumenta 26%, diga quantas mulheres em mil. As duas frases descrevem o mesmo dado, e produzem decisões opostas. Quem só ouve a porcentagem imagina uma em cada quatro; quem ouve o número absoluto entende que se trata de uma mulher a mais entre mil e duzentas e cinquenta, num estudo feito em mulheres bem mais velhas do que ela. É por isso que este capítulo insiste em dar sempre os dois: dar só o risco absoluto esconde a direção do efeito, e dar só o relativo esconde o tamanho dele.

Ela abre com a frase que trouxe de casa: hormônio dá câncer
“A senhora ouviu isso e tem razão de ter ouvido — foi o que se disse ao mundo inteiro em 2002, e é o que ficou. Vou te contar o que aquele estudo mediu de verdade, com os números, e depois a senhora decide. Ele acompanhou dezesseis mil mulheres, com idade média de sessenta e três anos, quase todas sem sintoma. Nas que tomaram hormônio, apareceram trinta e oito casos de câncer de mama por ano a cada dez mil mulheres; nas que tomaram placebo, trinta. A diferença é de oito em dez mil, por ano. Dito de outro jeito: uma mulher a mais, entre mil duzentas e cinquenta que tomam durante um ano. A senhora tem cinquenta e dois, com dois anos de menopausa. Aquele estudo não mediu mulheres como a senhora.”
Não diga: Responder que é seguro, ou que é bobagem de internet. O medo dela veio de um número; um medo que veio de número não se desfaz com uma afirmação, e a mulher sai concordando por educação e não toma o remédio.
Ela pergunta se então o hormônio protege o coração, ou se serve para a memória
“Não. E isso é importante que fique claro, porque já se disse que sim. Hormônio para tratar o calor e o suor que atrapalham a sua vida: isso está bem estabelecido. Hormônio para prevenir infarto, para prevenir derrame, para prevenir demência ou para rejuvenescer: isso não. Se a senhora não tiver sintoma que atrapalhe, não é para tomar. É um remédio para um sintoma, e o dia em que o sintoma não estiver mais atrapalhando, a gente conversa de novo.”
Não diga: Vender benefício cardiovascular ou cognitivo para convencer quem está hesitante. Além de não ser verdadeiro, cria uma promessa que vai ser cobrada — e a diretriz brasileira de 2024 é explícita ao recomendar contra iniciar terapia hormonal com objetivo de prevenção cardiovascular primária.
Ela tem 62 anos, menopausa aos 49, e quer começar agora
“A senhora está com treze anos de menopausa, e aí a conta muda. O mesmo remédio que ajuda quem começa nos primeiros anos passa a somar risco quando o começo é tardio — não porque o remédio seja outro, mas porque a artéria é outra. Começar agora, para a senhora, aumenta risco de trombose, de infarto e de derrame sem a contrapartida que existiria dez anos atrás. Eu não vou prescrever, e vou te explicar o que a gente pode fazer pelo calor de outro jeito. E tem uma coisa que a senhora pode usar sem essa preocupação: se houver ressecamento, ardência ou dor na relação, o creme vaginal é outro assunto e não tem esse risco.”
Não diga: Dizer apenas que passou da idade. A frase é lida como recusa e produz busca por prescrição fora do sistema — que é exatamente onde ela vai encontrar implante manipulado sem dose declarada.
Ela viu um implante de hormônio na internet e quer saber por que você não prescreve
“Existem hormônios idênticos aos do corpo, sim — estradiol, estriol e progesterona — e eles são fabricados pela indústria há muitos anos, com dose escrita na caixa e bula. O que a senhora viu é outra coisa: implante manipulado, feito em farmácia, com regra menos rígida, sem bula obrigatória, sem dose preestabelecida e sem descrição de efeitos adversos. E, uma vez colocado, é difícil tirar se fizer mal. O que eu posso te oferecer tem a dose escrita, tem estudo de segurança e a senhora para no dia em que quiser.”
Não diga: Ridicularizar a busca. A mulher que procura implante quase sempre é a que não foi tratada por medo alheio, e a frase que funciona é a que oferece uma alternativa concreta na mesma consulta.
Ela teve câncer de mama há sete anos e pergunta se pode
“Para o hormônio de tomar, que age no corpo todo, a resposta é não — e vou ser direta com a senhora sobre o motivo: nos estudos com mulheres que tiveram câncer de mama, quem usou teve mais chance de a doença voltar. Isso não é uma precaução genérica, é um dado. Agora, se a queixa for ressecamento, ardência ou dor na relação, aí a conversa é outra e não termina em não: a gente começa por hidratante e lubrificante, que funcionam para a maioria, e se não resolver eu converso com o seu oncologista sobre a possibilidade do creme de dose baixa. Essa decisão é dos dois, não é minha sozinha.”
Não diga: Encerrar com um não único que cobre as duas perguntas. É esse não indiferenciado que deixa mulheres com dor na relação por anos, e ele confunde um risco documentado com um risco que os documentos tratam de forma diferente.
Ela tem 67 anos, veio pela terceira infecção urinária, e nunca falou do resto
“Antes de a senhora ir, três perguntas rápidas. A senhora sente ardência ou ressecamento aí embaixo, mesmo sem infecção? Dói na relação? Levanta muitas vezes à noite para urinar? Isso tudo tem nome, tem causa e tem tratamento — é a falta do hormônio no tecido, e o tratamento é um creme que age só ali, não é comprimido. Ele quase não é absorvido, e não tem os riscos daquele hormônio de que a senhora ouviu falar. A melhora começa em algumas semanas.”
Não diga: Aceitar o motivo declarado da consulta e não perguntar. Mais de setenta em cada cem mulheres com esses sintomas não os contam por conta própria — se a pergunta não for feita, o diagnóstico simplesmente não existe.
Ela usa há quatro anos, está bem, e pergunta quando vai ter que parar
“Não existe uma data. Não há um prazo obrigatório nem uma idade em que se tenha de parar — o que existe é uma decisão que a gente refaz todo ano, junto. A cada consulta eu meço sua pressão, seu peso, refaço a lista das coisas que impediriam, e a gente vê se ainda vale a pena. Se em algum ano os sintomas já estiverem controlados há muito tempo, a gente tenta uma dose menor e vê o que acontece. E se a senhora quiser parar, a gente para devagar, para o calor não voltar todo de uma vez.”
Não diga: Dar um prazo redondo para encerrar a conversa. O prazo inventado vira suspensão automática anos depois, com outro profissional, sem reavaliação — e a mulher recomeça sozinha, com sobra de caixa e sem seguimento.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Bateria completa antes de iniciar
Um protocolo municipal de atenção primária lista, na avaliação prévia à terapia hormonal, colpocitologia oncótica, mamografia, densitometria óssea quando houver fatores de risco para osteoporose, colesterol e triglicerídeos, glicemia de jejum, transaminases e hormônio estimulante da tireoide, além de exame de mamas e exame pélvico. O argumento é o de uma rede que atende volume grande, com seguimento incerto, e que usa o momento da prescrição como oportunidade de avaliação integral da mulher.
Protocolo de Terapia Hormonal em Mulheres na Pós-Menopausa e/ou Climatério, Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo, 2025, item de avaliação pré-terapia hormonal
Mamografia antes da prescrição, e laboratório para escolher a via
A diretriz cardiovascular de 2024 registra que a Febrasgo sugere que a mamografia seja realizada antes da prescrição da terapia hormonal, e atribui ao colesterol total e frações, aos triglicerídeos e à glicemia de jejum a função específica de auxiliar na escolha da melhor via de administração. O argumento é que dois exames com função declarada valem mais do que uma bateria: um afasta doença mamária antes de introduzir estímulo hormonal, e os outros três decidem entre a via oral e a transdérmica.
Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa – 2024, seção sobre prescrição em diferentes cenários de risco cardiovascular
O calendário é o do rastreamento, não o da receita
O mesmo documento de 2024 afirma, na frase imediatamente anterior, que todas as mulheres na peri e pós-menopausa, incluindo as que usam terapia hormonal, devem realizar mamografia de rastreamento periódico de acordo com as diretrizes atuais de rastreamento. Lido assim, o exame pertence ao calendário de rastreamento da mulher, com idade e intervalo próprios, e não à data em que ela pediu ajuda para o fogacho. O argumento é que amarrar rastreamento a prescrição atrasa o tratamento de quem está fora do intervalo do rastreamento e não antecipa nada de quem está dentro.
Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa – 2024, mesma seção; a régua de idades e intervalos do rastreamento mamográfico está no capítulo próprio desta apostila
Decida pelo custo do atraso na sua realidade. A pergunta prática é: se você pedir esses exames hoje, quando essa mulher volta com eles, e qual a chance de ela voltar? Numa unidade em que a mamografia sai em três semanas e a paciente tem vínculo, exigir o exame antes custa pouco e resolve uma dúvida a menos. Numa unidade em que a mamografia demora meses e a mulher veio do trabalho, exigir a bateria significa, na prática, não tratar — e não tratar tem dano documentado, enquanto a espera não tem benefício demonstrado. O caminho que resolve os dois lados existe e é o mais usado: prescrever hoje o que está indicado e solicitar, na mesma consulta, o rastreamento que ela deve mesmo a esta altura da vida, com retorno marcado. O que não se faz em nenhum cenário é iniciar sobre sangramento não esclarecido ou sobre alteração mamária palpável.
Evitar, e admitir só em caso particularizado
O documento de posição da comissão de climatério da Febrasgo, de março de 2022, estabelece que, em mulheres após câncer de mama com síndrome geniturinária, o tratamento de primeira escolha são os lubrificantes e hidratantes, e que a prescrição de terapia estrogênica vaginal deve ser evitada; se indicada em casos particularizados, deve considerar a gravidade dos sintomas e a concordância do oncologista. O argumento é de prudência diante de uma população em que o dano do erro é a recidiva de uma doença grave.
Febrasgo Position Statement nº 3, março de 2022, Síndrome geniturinária da menopausa, bloco de recomendações
Considerar quando o não hormonal falha, separando o que a mulher usa
O guia da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica registra que estrogênios vaginais de baixa dose têm absorção sistêmica mínima e podem ser seguros em pacientes em uso de tamoxifeno, sem aumento significativo dos níveis séricos de estradiol nem risco de recidiva, enquanto em mulheres tratadas com inibidores da aromatase as evidências são escassas e inconsistentes. Diretrizes internacionais citadas por ele recomendam o uso quando falham as medidas não hormonais, especialmente sob tamoxifeno, e com cautela sob inibidor de aromatase, após avaliação multidisciplinar. O argumento é que uma recusa indiferenciada trata dois cenários muito diferentes como se fossem o mesmo.
Guia da SBOC em terapia hormonal e anticoncepção nas mulheres com e sem histórico de câncer, versão 2, seção sobre sobreviventes de câncer de mama
Três variáveis decidem, e nenhuma delas é a sua opinião sobre risco. A primeira é o que ela está usando: sob tamoxifeno, a evidência de segurança é bem mais consistente do que sob inibidor de aromatase, cujo mecanismo depende de manter o estrogênio circulante baixo. A segunda é se as medidas não hormonais foram realmente tentadas — hidratante vaginal duas a cinco vezes por semana e lubrificante nas relações, por tempo suficiente e com uso correto —, porque as duas fontes concordam que elas vêm primeiro. A terceira é a gravidade do que ela está vivendo: dispareunia que impede a vida sexual e infecção urinária de repetição não são queixas menores, e a reversibilidade do erro aqui é alta, porque se interrompe o creme. O que as duas posições exigem em comum, e que não é negociável, é que a decisão seja tomada com o oncologista dela e registrada.
Limitar o esquema com progestagênio a três a cinco anos
O protocolo de número 54 da Febrasgo registra a posição da sociedade norte-americana de menopausa, segundo a qual o uso da terapia estroprogestativa é limitado pelo aumento do risco de câncer de mama em três a cinco anos, enquanto a terapia estrogênica isolada teria maior período de uso com segurança. O argumento é dose cumulativa: o excesso de câncer de mama cresce com a duração, e cresce mais no esquema combinado que no estrogênio isolado.
Nahas EAP, Nahas-Neto J, Femina 2019;47(7):443-8, Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 54, seção de riscos, reproduzindo a posição da sociedade norte-americana
Sem duração máxima obrigatória, com revisão a cada consulta
O mesmo protocolo registra que a sociedade internacional de menopausa não vê motivo para impor limites de duração, e que a Associação Brasileira de Climatério considera que não há duração máxima obrigatória, devendo a terapia ser suspensa quando os benefícios não forem mais necessários ou quando a relação entre risco e benefício se tornar desfavorável. A diretriz brasileira de 2024 acrescenta que nenhuma das principais diretrizes estabelece duração máxima nem idade de interrupção, e que a decisão é refeita a cada consulta de seguimento. O argumento é que um prazo fixo aplica a mesma régua a mulheres com riscos muito diferentes, e produz suspensão automática sem reavaliação.
Mesmo protocolo nº 54, posições da sociedade internacional de menopausa e da Associação Brasileira de Climatério; e Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa – 2024, seção sobre duração
Decida pelo esquema e pela reversibilidade, não pelo calendário. Se a mulher está em esquema combinado, a preocupação com duração tem base numérica e vale colocá-la na mesa a partir do terceiro ano, testando um degrau de dose abaixo e, quando possível, medindo o que acontece com o sintoma. Se ela é histerectomizada e usa estrogênio isolado, o dado que sustenta o prazo é bem mais fraco: no ensaio randomizado, o risco relativo de câncer de mama invasivo com estrogênio isolado foi de 0,80, sem aumento. Em qualquer dos dois, o teste que decide é prático e reversível: reduza um degrau e observe. Se o sintoma não volta, você tinha uma dose maior do que a necessária. Se volta com força e devolve a noite de sono, você tem a resposta sobre o benefício em curso, e ela vale mais que um número redondo de anos.
O raciocínio, em voz alta
Rejane Bezerril tem 51 anos, é auxiliar de secretaria numa escola e chega à unidade básica com uma pergunta e uma dúvida. A pergunta: existe tratamento para o calor? A dúvida: a mãe dela teve câncer de mama aos 70 anos, e ela acha que por isso não pode. Última menstruação há dois anos e três meses. Nunca operou nada. Não fuma. Não tem doença conhecida. Índice de massa corporal de 26. Está com sono ruim há um ano e meio.
O que penso antes de perguntar qualquer coisa
Duas informações já estão na mesa e as duas mudam a consulta. Cinquenta e um anos com dois anos e três meses de menopausa é o centro da janela de oportunidade, o cenário em que o balanço é mais favorável. E a frase sobre a mãe é a peça que vai decidir se ela aceita ou não qualquer coisa que eu prescreva, porque história familiar de câncer de mama é a razão mais frequente de recusa antecipada que aparece nessa consulta. Vou tratar a segunda como assunto clínico, e não como ansiedade a acalmar.
O que pergunto primeiro, e por quê
Peço o sintoma com número, porque é ele que define se existe indicação. Quantas ondas de calor por dia, quantas vezes acorda por noite, e o que deixou de fazer. Ela responde: umas oito por dia, acorda duas ou três vezes encharcada, e parou de ir ao coral da igreja porque tem vergonha de suar no meio das pessoas. Isso é sintoma moderado a grave, e é a indicação mais bem estabelecida que existe para terapia hormonal sistêmica.
O que a resposta muda
Muda o eixo da consulta. Eu não estou mais decidindo se há motivo para tratar: há. Estou decidindo se existe algo que impeça, e por qual via. As três perguntas seguintes são as que fecham porta: útero, sangramento e a lista de condições.
As três perguntas que fecham porta
Útero presente — nunca operou. Isso já define que haverá progestagênio, e é a única regra estrutural deste capítulo. Sangramento depois da menopausa: nenhum, nem uma vez. E a lista: trombose própria ou na família, infarto, derrame, doença do fígado, câncer de mama ou de endométrio, pressão alta. Nada. Ela não tem nenhuma das condições que contraindicam.
A história familiar, enfrentada de frente
História de câncer de mama em parente de primeiro grau aos 70 anos não aparece entre as contraindicações à terapia hormonal nas revisões brasileiras recentes: o que consta é antecedente pessoal de câncer de mama ou de lesão precursora. Isso não significa que a preocupação dela seja infundada, e eu não vou tratá-la assim. Significa que o dado dela não fecha a porta, e que a decisão passa a depender do número de risco, que eu vou dar.
O que meço, e o que não peço
Meço pressão: 118 por 76 mmHg. Calculo o índice de massa corporal: 26, sem obesidade. Não peço dosagem hormonal, porque em mulher de 51 anos com dois anos de amenorreia e quadro típico o diagnóstico já está feito pela clínica. Não peço ultrassom de rotina, porque ela não sangra. Peço colesterol, triglicerídeos e glicemia, e digo a ela para que servem: para eu escolher entre o comprimido e o adesivo, não para decidir se trato.
O número que eu dou antes de ela pedir
Digo os dois lados. O estudo que assustou o mundo encontrou trinta e oito casos de câncer de mama por ano em cada dez mil mulheres tratadas, contra trinta em cada dez mil sem tratamento: oito a mais em dez mil, ou uma mulher a mais entre mil duzentas e cinquenta tratadas por um ano. E digo a idade em que isso foi medido: média de sessenta e três anos, dois terços com sessenta ou mais. Depois digo o outro lado, que também é número: redução de setenta e cinco por cento na frequência das ondas de calor.
A escolha do esquema, que sai da anatomia
Útero presente, dois anos de menopausa, sem comorbidade metabólica. Via oral é adequada. Esquema: como ela já está na pós-menopausa e o objetivo é não voltar a sangrar, o combinado contínuo seria o desejável — mas o progestagênio disponível na unidade é medroxiprogesterona em comprimido de 10 mg, e a dose contínua de referência é 2,5 mg por dia, que esse comprimido não entrega. Então prescrevo o esquema que a apresentação sustenta: estrogênios conjugados 0,625 mg por via oral ao dia, de forma contínua, com acetato de medroxiprogesterona 10 mg por via oral ao dia durante 12 dias a cada mês. E aviso o que isso significa na prática dela: vai haver sangramento previsível ao fim desses doze dias, e isso é esperado, não é problema.
O que combino antes de ela sair
Retorno em 8 semanas para ajustar dose, com os mesmos três números anotados para comparar. O que a faz voltar antes: sangramento fora do previsto, dor ou inchaço numa perna, dor no peito, falta de ar, dor de cabeça diferente, nódulo na mama. Pergunto se há ressecamento ou dor na relação — ela diz que sim, um pouco — e acrescento estriol creme vaginal, uma medida à noite por 15 dias e depois duas vezes por semana. Explico que esse é outro tratamento, local, e que não tem os riscos do primeiro.
O que registro, e por que isso importa
Escrevo no prontuário: data da última menstruação, útero presente, três medidas do sintoma, pressão aferida, índice de massa corporal, lista de contraindicações percorrida e negativa, história familiar registrada com a idade do diagnóstico da mãe, via escolhida com o motivo, e o que foi combinado sobre duração — reavaliação anual, sem data de parada. Daqui a três anos, quem atender essa mulher vai encontrar por que se decidiu assim, e não vai recomeçar a discussão do zero nem suspender por calendário.
Variação do caso — resposta e reavaliação
Variação do retorno de Rejane: os fogachos diminuíram, mas há efeito adverso que a faz pular doses. Conferir como toma cada componente e discutir ajuste de dose, via ou alternativa. Uma prescrição eficaz no papel pode deixar o endométrio sem proteção se o uso real for diferente.
Variação do caso — quando mudar o plano
Se desenvolve uma nova contraindicação ou sintoma sugestivo de evento tromboembólico, reavaliar imediatamente a segurança e conduzir a investigação indicada. A decisão inicial favorável não autoriza renovação indefinida. Explicar o motivo da mudança e oferecer cuidado para os sintomas que permanecem.
Faça você
Creuza Fontenele tem 58 anos, é diarista, e menstruou pela última vez aos 49 anos. Voltou a ter ondas de calor fortes há oito meses, depois de um período em que quase não tinha: conta seis a sete por dia e acorda duas vezes por noite. Índice de massa corporal de 33. Hipertensa em uso de losartana, com pressão hoje de 132 por 84 mmHg e registros anteriores semelhantes. Útero presente, sem sangramento desde os 49 anos. Nunca teve trombose, infarto ou derrame, e não tem câncer na história. Não fuma. Traz os exames que a enfermeira pediu no mês passado: colesterol total 232 mg/dL, triglicerídeos 210 mg/dL, glicemia de jejum 104 mg/dL.
Passo 1 — decido se ela está dentro da janela, com a conta na mão
Menopausa aos 49 anos, ela tem 58 hoje: são nove anos desde a menopausa, e a idade está abaixo de 60. A régua da diretriz brasileira de 2024 é iniciar nos primeiros dez anos após a menopausa e/ou antes dos 60 anos. Ela cumpre os dois critérios, por pouco em um deles. Está dentro da janela, e essa é a diferença entre a conversa dela e a de uma mulher de 62 anos com treze anos de menopausa.
Passo 2 — percorro a lista de contraindicações, item por item
Câncer de mama atual ou prévio ou lesão precursora: não. Câncer de endométrio: não. Sangramento vaginal não esclarecido: não, nenhum episódio em nove anos. Tromboembolismo venoso prévio ou trombofilia: não. Doença arterial coronariana ou periférica: não. Acidente vascular cerebral: não. Doença hepática ativa ou cirrose: não. Hipertensão não controlada com valores iguais ou superiores a 180 por 110 mmHg: não — ela está controlada, e hipertensão controlada não é contraindicação. Nenhuma porta fechada.
Passo 3 — leio o que os três exames vieram decidir
Os exames que ela trouxe não foram pedidos para decidir se trato: foram pedidos para decidir por onde. Índice de massa corporal de 33 é obesidade, e obesidade é fator de risco para tromboembolismo com efeito aditivo ao do estrogênio oral — no ensaio de 2002, mulheres obesas em terapia sistêmica tiveram risco de tromboembolismo cerca de seis vezes maior que as em placebo. Colesterol e triglicerídeos elevados e glicemia de jejum alterada somam-se a isso. A diretriz de 2024 é explícita: na presença de obesidade, dislipidemia, diabetes e síndrome metabólica, a via transdérmica é a preferida.
Ver como fecharíamos
Escreva agora o passo 4: qual esquema você prescreve para a Creuza, com princípio, dose, via, frequência e duração, e o que você faz quando descobre que a unidade não dispensa estrogênio transdérmico. A resposta que este capítulo sustenta tem três camadas, e nenhuma delas é adiar. Primeira camada, o esquema desejável: estradiol por via transdérmica, começando pela dose baixa — adesivo de 25 microgramas ao dia ou gel a 0,1% em dois acionamentos diários, equivalentes a 1 mg —, associado a progesterona micronizada 100 mg por via oral ou vaginal todos os dias, no esquema combinado contínuo, porque ela tem útero e está na pós-menopausa estabelecida, em que o objetivo é não voltar a sangrar; a progesterona micronizada é, entre os progestagênios, o de perfil mais favorável quanto a tromboembolismo, pressão arterial e câncer de mama, o que importa justamente nela. Segunda camada, o que fazer diante da rede: nem o estradiol transdérmico nem a progesterona micronizada constam da relação nacional de medicamentos essenciais de 2024, e o que a lista oferece é estrogênio conjugado oral com medroxiprogesterona ou noretisterona. A pergunta a fazer é para a farmácia da sua unidade e para a regulação do seu município, porque redes locais completam a lista — o protocolo municipal lido oferece valerato de estradiol, progesterona micronizada e sistema intrauterino de levonorgestrel além do que há na lista nacional. Terceira camada, e é a que separa uma consulta honesta de uma consulta que empurra: se depois disso só houver a via oral, isso não é motivo automático para não tratar, e sim para colocar o dado na mesa com ela — o excesso de tromboembolismo do estrogênio oral em mulher obesa é maior, e a decisão de aceitá-lo é dela, informada, com dose baixa, com o sinal de alarme ensinado e com retorno curto marcado. Diga também o que você anota no prontuário para que a próxima consulta saiba por que a via foi essa.
Iniciar terapia hormonal após os 60 anos ou mais de dez anos após a menopausa tem relação benefício-risco menos favorável, principalmente pelo maior risco absoluto cardiovascular e trombótico. Isso não é, isoladamente, contraindicação absoluta em todas as mulheres. Avaliar intensidade dos sintomas, causas alternativas para sua recorrência, risco individual, preferências e opções não hormonais; decisão sobre terapia sistêmica deve ser compartilhada e reavaliada. Via transdérmica e menor dose podem influenciar riscos, mas não dispensam essa avaliação. Se houver útero, estrogênio sistêmico em geral exige proteção endometrial. FSH e estradiol não são necessários para confirmar a menopausa já estabelecida. Exames preventivos orientados não garantem risco zero. Estrogênio vaginal de baixa dose pode tratar sintomas geniturinários selecionados, mas não trata os fogachos.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Escreva de memória, sem consultar: (1) os dois critérios da janela de oportunidade, com o número de anos e a idade, e o que muda quando a mulher está fora dela; (2) a única pergunta anatômica que define sozinha se haverá progestagênio, e por que ela define; (3) os três números que você anota no dia zero e vai comparar na reavaliação; (4) o excesso absoluto de câncer de mama, de acidente vascular cerebral e de tromboembolismo venoso no ensaio de 2002, em casos por 10 mil mulheres-ano, e a idade média das participantes; (5) o que a via transdérmica evita e em quais quatro condições ela é a preferida; (6) três condições que parecem contraindicação e não são. Só então abra as tabelas para corrigir. Termine escrevendo, com dose, via e frequência, o esquema que você prescreveria para uma mulher com útero usando apenas o que consta da relação nacional de medicamentos essenciais. Aplicação comentada: A paciente quer tratar apenas secura vaginal. Antes de prescrever terapia sistêmica, discuta opções dirigidas ao sintoma e elegibilidade.
Em 30 dias
Retome o caso da Rejane e altere um dado de cada vez, dizendo em voz alta o que a alteração faz com a conduta: se a menopausa dela tivesse sido aos 38 anos; se ela fosse histerectomizada; se o índice de massa corporal fosse 34; se a mãe tivesse tido câncer de mama aos 41 e não aos 70; se ela tivesse tido trombose de perna aos 40, depois de uma cirurgia com imobilização; se essa mesma trombose tivesse acontecido durante uma gestação. Depois faça a auditoria que vale mais que a revisão: recupere cinco prontuários de mulheres entre 48 e 58 anos atendidas por você no último mês e conte em quantos existe registro de pergunta sobre fogacho, sobre sono e sobre sintoma geniturinário. O número que sair é a medida real do que este capítulo mudou.
Agora atenda
Agora atenda a consulta que este capítulo inteiro descreve: a mulher de cinquenta e poucos anos que chega com calor, noite mal dormida e a frase de que hormônio dá câncer. Ela não quer uma aula sobre risco relativo — ela quer saber se pode, e quanto custa. Meça o sintoma com número, feche as portas uma a uma, escolha a via pela comorbidade dela, e diga o risco nas duas linguagens antes que ela pergunte.
