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Ginecologia e ObstetríciaGinecologia

Endometriose

O atraso é a doença: são anos entre a primeira cólica e o nome, e quem encurta esse intervalo é quem pergunta o que a dor impede

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose. Aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SAPS/SCTIE nº 54, de 2 de junho de 2026

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose — relatório preliminar submetido à Consulta Pública nº 65. Brasília: Ministério da Saúde, julho de 2025. 59 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Dispositivo intrauterino liberador de levonorgestrel para pacientes com endometriose com contraindicação ou não adesão aos contraceptivos orais combinados. Relatório de Recomendação nº 1002. Brasília: Ministério da Saúde, maio de 2025. 78 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Progestágenos orais para o tratamento de endometriose. Relatório de Recomendação nº 1003. Brasília: Ministério da Saúde, maio de 2025. 123 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3

01

Responda antes de ler

Qual dado da história pesa mais a favor de dismenorreia secundária, e não primária, em uma mulher de 26 anos?

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O paciente que você vai ver

São dez e vinte de uma quinta-feira, e a sexta ficha da manhã é a dela. Daniela Vasconcelos tem 29 anos, é auxiliar de produção numa fábrica de embalagens, e entra sozinha, sem papel na mão. Senta, e a primeira frase que diz é um pedido de desculpas: "eu sei que não é nada, mas eu queria ver se tem alguma coisa mais forte pra cólica".

Você pergunta desde quando. Ela pensa e diz que desde sempre — desde os catorze anos, mais ou menos. Piorou nos últimos cinco. Toma quatro comprimidos de um analgésico que compra na farmácia, começa no primeiro dia da menstruação e às vezes já no dia anterior, e mesmo assim tem mês em que não consegue levantar. Você pergunta se isso a atrapalha em alguma coisa. Ela responde depressa que não, que dá pra levar. Você fica em silêncio dois segundos, e ela completa: "só que eu faltei três dias esse mês. E no mês passado dois. O encarregado já falou comigo".

Três dias por mês, doze meses por ano. É a primeira informação da consulta que tem tamanho.

Você continua. A dor é só na cólica? Ela hesita. Diz que tem uns dias antes da menstruação em que dói também, e que faz uns dois anos que dói na relação — não na entrada, mas "lá no fundo", e por isso ela e o marido praticamente pararam. Isso ela conta olhando para o chão, e acrescenta que achou que fosse psicológico, porque uma médica já disse que podia ser. Nos dias de fluxo mais forte, doer para evacuar é regra, e ela evita comer nesses dias para não precisar ir ao banheiro.

Ela nunca engravidou. Não usa nada há três anos e diz que "não veio". Quando você pergunta se procurou alguém por causa disso, ela diz que não, que ainda é cedo, que tem tempo. Depois corrige: "a gente até queria".

O prontuário eletrônico mostra o histórico. Sete registros nos últimos seis anos com queixa de dor abdominal ou pélvica. Três exames de urina, todos normais. Um ultrassom transvaginal, há quatro anos, com laudo de útero e ovários sem alterações. Duas prescrições de escopolamina, uma de anti-inflamatório e uma de ansiolítico. E, num dos registros, escrita à mão pela colega que atendeu, uma frase que resume o problema deste capítulo inteiro: "cólica menstrual — orientada, cólica forte é comum".

No exame, o abdome é flácido e indolor. No toque, o útero é de tamanho normal, mas mal se move, e quando você desloca o colo para trás ela recua no divã e pede para parar. No fundo de saco posterior você sente uma irregularidade dura, do tamanho de um caroço de azeitona, que dói ao ser tocada. É o primeiro achado positivo em seis anos de prontuário, e levou noventa segundos.

Nada disso é raro, e nada disso é difícil. O que aconteceu com Daniela é o que acontece com a maioria: ela contou pedaços da história para pessoas diferentes, cada uma resolveu o pedaço que ouviu, e ninguém juntou. Enquanto isso, o intervalo entre o primeiro sintoma e o nome da doença foi correndo — e é esse intervalo, mais do que qualquer lesão, que este capítulo tenta encurtar.

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Quem adoece disso

A epidemiologia da endometriose tem uma peculiaridade que muda como se lê qualquer número: o denominador depende de quem foi diagnosticada, e o diagnóstico depende de quem foi ouvida. Por isso a prevalência publicada varia de 0,05% a 37,1% conforme o desenho do estudo. A estimativa combinada dos estudos clínicos é de 6,82%, e no Brasil o protocolo nacional registra 6,4% entre mulheres em idade reprodutiva, chegando a 34,2% entre as sintomáticas, em levantamento conduzido entre 2017 e 2021 num ambulatório público. A régua brasileira de sociedade trabalha com uma faixa próxima, de 5% a 10% em idade reprodutiva. Para o interno, o que essas duas faixas dizem juntas é simples: numa agenda de vinte mulheres em idade reprodutiva, uma ou duas têm a doença — e entre as que vieram por dor, uma em cada três.

O número que define a doença não é de prevalência: é de atraso. O protocolo nacional fixa a lacuna entre o início dos sintomas e o diagnóstico acurado em 8 a 12 anos; a sociedade brasileira trabalha com uma média de sete anos. Qualquer que seja a cifra, ela não descreve uma doença silenciosa — descreve uma doença sintomática desde o começo, cujos sintomas foram ouvidos e devolvidos como normais. É o único número deste capítulo que o interno pode mudar sozinho, numa consulta, sem exame e sem gasto.

O pico de incidência está entre 25 e 34 anos, e o crescimento do tecido é dependente de estrogênio — por isso mulheres na pós-menopausa respondem por apenas 2% a 4% dos casos operados por suspeita. A idade importa por um motivo prático: é exatamente a faixa em que a mulher está construindo vida profissional e decidindo sobre filhos, e é a faixa em que a dor é mais frequentemente atribuída a estresse, a ansiedade ou a "coisa da idade". Entre adolescentes com dor pélvica crônica, a endometriose aparece em 25% a 38%, e em 47% das que chegam a ser submetidas a laparoscopia por essa queixa — ou seja, a doença já está lá muito antes da faixa em que costuma ser nomeada.

A infertilidade é a outra porta. Entre 25% e 50% das mulheres investigadas por infertilidade têm endometriose, e 30% a 50% das mulheres com endometriose têm infertilidade; o protocolo nacional estima que a infertilidade pode acometer até 6,5 vezes mais mulheres com o diagnóstico. A consequência clínica é direta e vale para as duas portas: quem chega por dor precisa ser perguntada sobre gravidez, e quem chega por dificuldade de engravidar precisa ser perguntada sobre dor — porque metade das vezes a segunda queixa está lá e não foi contada.

Por fim, a dimensão que dá escala ao problema no serviço público. O relatório que sustentou a incorporação do dispositivo intrauterino ao Sistema Único de Saúde estimou 516.339 pacientes elegíveis em 2026 apenas para aquela indicação restrita — mulheres com endometriose e contraindicação ou não adesão ao contraceptivo combinado. Não é doença de ambulatório de referência: é doença de unidade básica, que chega à atenção especializada só depois de anos de consultas resolvidas com analgésico.

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Por que acontece o que acontece

A definição é literal e explica quase tudo o que vem depois: endometriose é o desenvolvimento de tecido semelhante ao endométrio, glândula ou estroma, fora da cavidade uterina, com reação inflamatória crônica em volta. Os lugares mais comuns são os órgãos pélvicos — ovários, tubas, ligamentos uterinos —, mas a lista do protocolo nacional segue por peritônio da parede lateral, ligamentos uterossacros, bexiga, ureter, intestino, sigmoide, apêndice, ligamentos redondos e reto. Guarde a lista, porque ela é o mapa dos sintomas: cada sintoma que parece "não ginecológico" está nessa relação.

A teoria mais antiga e ainda a mais útil na cabeceira é a da menstruação retrógrada, de Sampson: parte do fluxo sobe pelas tubas e alcança a cavidade peritoneal, onde as células se implantam, estabelecem vascularização e inflamam. O que faz dela uma teoria incompleta é justamente o que a torna clinicamente interessante: cerca de 90% das mulheres têm líquido livre na pelve no período menstrual, e só 10% têm a doença. Refluxo, portanto, quase todo mundo tem; o que separa quem adoece é o ambiente hormonal favorável e a falha imunológica em depurar essas células do lugar errado. Duas outras teorias completam o quadro — a metaplasia celômica, em que células indiferenciadas do peritônio se diferenciam em tecido endometrial, e o transplante direto, que explica os focos em cicatriz de cesariana e de episiotomia. A disseminação por via vascular e linfática explica os focos fora da pelve.

Do ponto de vista do sintoma, o que importa é que esse tecido responde ao ciclo. Ele prolifera sob estrogênio e sangra, e sangra dentro de um espaço fechado, sem drenagem para fora. É por isso que a dor é cíclica antes de ser constante, e é por isso que o sangramento local não aparece em nenhum absorvente. Um foco no ligamento uterossacro sangra e inflama a poucos milímetros de plexos nervosos, e a paciente sente isso como dor profunda à penetração. Um foco na parede anterior do reto faz o mesmo, e ela sente como dor ao evacuar nos dias de fluxo. Um foco no diafragma dá dor no ombro; um foco na pleura dá dor torácica cíclica, e, raramente, pneumotórax catamenial. Nenhum desses sintomas é bizarro: todos são o mesmo mecanismo, em endereços diferentes.

A inflamação repetida produz o segundo mecanismo, que é o que faz a doença durar: fibrose e aderência. O ciclo de sangramento e reparo cola alças, cola ovário em fossa ovárica, encurta ligamentos uterossacros e fixa o útero em retroversão. Isso tem três consequências que o interno vê. A primeira é o achado do toque — útero pouco móvel, nódulo doloroso em fundo de saco. A segunda é a mudança do padrão da dor: o que era cíclico vira diário, porque tração de aderência não espera a menstruação. A terceira é a infertilidade por distorção anatômica, com tuba cicatrizada e relação entre tuba e ovário desfeita, à qual se somam inflamação das estruturas pélvicas, alteração do ambiente hormonal do óvulo e prejuízo da implantação.

Duas consequências terapêuticas fecham o raciocínio, e as duas se deduzem do que veio acima. Como o tecido é estrogênio-dependente, tudo o que funciona funciona pelo mesmo caminho: produzir anovulação e um ambiente hormonal pobre em estrogênio, seja com contraceptivo combinado, seja com progestágeno isolado, seja bloqueando a hipófise com análogo do hormônio liberador de gonadotrofina. É por isso que a menopausa alivia a doença e a gravidez também, e é por isso que a supressão hormonal e o desejo de engravidar são objetivos que não cabem no mesmo mês. E como a inflamação e a fibrose já instaladas não são hormônio-dependentes, o remédio controla a dor sem desfazer aderência — o que explica por que a melhora costuma ser parcial, por que ela volta quando se para, e por que existe cirurgia.

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Como se apresenta de verdade

Endometriose exige reconhecer um padrão de dor, seu impacto e o objetivo reprodutivo, mesmo com imagem habitual normal. Você deve explicar os limites do ultrassom e construir uma tentativa terapêutica com prazo e metas. Dor persistente também pode envolver assoalho pélvico, intestino, bexiga e mecanismos de sensibilização.

Somar é a habilidade deste bloco. As seis apresentações abaixo não são seis doenças diferentes: são seis maneiras de a mesma paciente entrar, e a suspeita nasce quando duas delas aparecem na mesma história.

Percurso clínico: Construir diagnóstico e plano de dor

Relacione padrão cíclico, dispareunia, sintomas intestinais ou urinários e impacto funcional. Imagem ajuda a caracterizar doença, mas exame normal não exclui endometriose. Discuta tratamento inicial e critérios de referência, integrando fertilidade e outras fontes de dor. Resposta terapêutica precisa ser acompanhada.

A dismenorreia que não é a normal

Cólica menstrual é comum de verdade: a prevalência de dismenorreia em idade reprodutiva vai de 45% a 93%, e a maior parte dos casos, sobretudo na adolescência, é dismenorreia primária — dor sem doença pélvica por trás, produzida por prostaglandinas e leucotrienos que contraem o miométrio e reduzem seu fluxo sanguíneo. Isso significa que dizer "cólica é normal" acerta na maioria das vezes. É exatamente por isso que a frase é perigosa: ela é uma aposta com boa taxa de acerto e um custo altíssimo quando erra.

A régua de sociedade separa as duas com critérios que cabem numa consulta. A dismenorreia primária começa 6 a 12 meses depois da menarca, quando os ciclos passam a ser ovulatórios; a dor aparece no início do fluxo ou 1 a 2 dias antes, dura de 8 a 72 horas, é leve a moderada e não progride ao longo dos anos. A dismenorreia secundária costuma aparecer mais de 12 meses depois da menarca, é grave ou piora progressivamente, vem acompanhada de dor fora do período menstrual, de fluxo intenso ou frequente, de dispareunia, e — o critério mais operacional de todos — não responde ao tratamento da dismenorreia primária. A endometriose é a primeira causa da lista de dismenorreia secundária.

O critério da resposta ao tratamento merece ser entendido, e não decorado, porque ele é a peneira mais barata que o interno tem. A dor da dismenorreia primária é mediada por prostaglandinas; anti-inflamatório inibe a ciclo-oxigenase e bloqueia a produção delas, e por isso funciona — desde que iniciado no começo do fluxo, ou 1 a 2 dias antes em quem já dói antes, e mantido por 3 a 5 dias. A dor da endometriose tem outro gerador: focos que sangram em espaço fechado, inflamação crônica, fibrose que traciona e, com o tempo, nervo sensibilizado. Anti-inflamatório não alcança esse gerador, e a régua brasileira de sociedade é direta ao registrar que não há evidência científica para o uso de anti-inflamatório na endometriose. É por isso que a falha da medicação não é insucesso do tratamento: é informação diagnóstica.

Duas armadilhas nesse critério. A primeira é a dose e o momento: muita paciente "não responde" porque tomou meio comprimido no terceiro dia, quando a dor já estava instalada; antes de chamar de falha, confira o esquema. A segunda é a arquitetura da consulta: quem pergunta "melhora com remédio?" recebe "mais ou menos", que não é resposta. Pergunte com número — quantos comprimidos, de qual, começando quando, e depois de tomar você conseguiu fazer o quê.

E vale a inversão, que salva tempo: uma mulher que já usa contraceptivo hormonal e continua com cólica incapacitante é uma mulher que falhou às duas linhas de tratamento da dismenorreia primária. Nessa, a hipótese de dismenorreia secundária não é uma possibilidade — é o diagnóstico mais provável até prova em contrário.

A pergunta que ninguém faz

A escala de dor de zero a dez não funciona nesta doença, e o motivo é humano: a mulher que convive com dor desde os catorze anos recalibrou a própria escala. Ela dá seis para o que a colega daria nove, porque a referência dela de dez é a pior cólica que já teve, não a pior dor imaginável. Perguntar a intensidade a uma pessoa cuja régua foi deformada pela própria doença mede a régua, não a dor.

A pergunta que mede é outra, e é de função: sua cólica te impede de fazer alguma coisa? Depois vem o detalhamento, sempre em unidades contáveis. Quantos dias de trabalho ou de aula você faltou nos últimos três meses? Você já saiu de algum lugar mais cedo por causa disso? Tem alguma coisa que você deixou de marcar em dia de menstruação? Precisa se deitar? A régua de sociedade para adolescentes usa exatamente esse eixo, ao instruir que a anamnese registre o grau de comprometimento das atividades diárias e os dias de falta escolar — e ao registrar que 15% das adolescentes descrevem a dor como grave, com absenteísmo.

Essa pergunta faz três coisas ao mesmo tempo, e nenhuma delas é substituível por exame. Ela produz um número objetivo, que entra no prontuário e vira linha de base para medir tratamento. Ela reclassifica a queixa: três dias de falta por mês não é sintoma, é incapacidade, e incapacidade muda a urgência de investigar. E ela faz um trabalho que a paciente não consegue fazer sozinha — dá permissão. Quem foi informada durante dez anos de que aquilo era normal aprendeu a minimizar; ninguém volta atrás dessa aprendizagem sem que alguém pergunte de um jeito que admita a resposta.

Repare no que aconteceu com Daniela na cena de abertura. Perguntada se a dor a atrapalhava, ela disse que não. Só depois de dois segundos de silêncio veio a informação que reorganizou a consulta inteira: três dias de falta neste mês, dois no anterior, e uma conversa com o encarregado. O "não" inicial não era mentira — era a resposta treinada de quem já tentou contar antes.

Os sintomas que não estão no útero

Modelo de focos pélvicos de endometriose e endometrioma
Modelo de focos pélvicos de endometriose e endometrioma. Localização pode orientar sintomas; ultrassonografia especializada e ressonância também podem avaliar doença profunda.

O útero não dói na endometriose porque a doença está fora dele. Os sintomas seguem o endereço do foco, e é essa correspondência que transforma uma lista decorada num raciocínio. Vale a pena percorrê-la nessa lógica.

Dispareunia de profundidade é o sintoma mais específico e o menos contado. A paciente descreve dor "lá dentro", não na entrada, e essa localização é o que separa a queixa de causas de entrada, como vulvodinia e vaginite; sem a pergunta explícita sobre profundidade, a distinção não chega ao prontuário. O gerador costuma ser foco em fundo de saco posterior, ligamento uterossacro ou retrocervical, com tração e inflamação a cada penetração profunda. Duas coisas a saber: essa queixa quase nunca é oferecida espontaneamente, e muita paciente já ouviu que era psicológico — o que fecha o assunto para sempre. E o roteiro que a torna contável é o de sempre: pergunte se dói na relação, e, se sim, se dói na entrada ou no fundo.

Disquezia é dor ao evacuar, e o que a torna suspeita é o calendário: dói nos dias de fluxo e não dói no resto do mês. O foco fica na parede anterior do reto ou no septo retovaginal. O protocolo nacional lista ainda sangramento retal doloroso, distensão abdominal, constipação, diarreia e náusea. A confusão com síndrome do intestino irritável é frequente e compreensível — os sintomas se sobrepõem quase inteiramente. O que separa é o ciclo: intestino irritável não conhece o calendário menstrual.

Disúria cíclica e hematúria apontam bexiga ou ureter. O detalhe que muda a conduta é o exame de urina: ele volta normal, e a paciente é devolvida à fila com o rótulo de infecção urinária de repetição "sem confirmação". Três exames de urina normais em uma mulher com disúria que só aparece perto da menstruação não descartam nada — ao contrário, reforçam a hipótese.

A lista segue para fora da pelve, e vale conhecer porque é onde o diagnóstico costuma demorar mais. Dor no ombro por foco diafragmático. Pneumotórax e hemoptise catameniais, tosse ou dor torácica cíclica. Dor na região sacral, ovulação dolorosa, dor pré-menstrual crescente, cefaleias e, raramente, convulsões. E lesão em cicatriz de cesariana ou de episiotomia que incha, dói e sangra na menstruação — uma apresentação de mecanismo transparente, porque o tecido foi implantado ali pela própria cirurgia. Nenhuma dessas queixas parece ginecológica, e todas se organizam em torno da mesma pergunta: isso piora perto da menstruação?

A fadiga fecha a lista e costuma ser descartada por ser inespecífica. Ela está no rol de sintomas do protocolo nacional, e o motivo de mencioná-la aqui é prático: numa mulher que já tem dismenorreia progressiva e dispareunia profunda, cansaço não é achado a explorar — é mais um item que confirma o padrão.

A infertilidade como porta de entrada

Uma parte importante das pacientes não chega por dor. Chega porque não engravida — e, nessa consulta, a dor precisa ser perguntada, porque ela não vem de graça. A associação é forte nas duas direções: 25% a 50% das mulheres investigadas por infertilidade têm endometriose, e 30% a 50% das mulheres com a doença têm infertilidade.

Os mecanismos foram descritos no bloco anterior e importam aqui porque explicam por que essa porta é traiçoeira. Nem toda infertilidade associada à endometriose vem de anatomia distorcida: há inflamação das estruturas pélvicas, alteração do ambiente hormonal do óvulo, prejuízo da implantação e alteração da qualidade oocitária. Isso significa que uma pelve que parece razoável na imagem não exclui a doença como fator — e que o endometrioma, quando existe, é achado, não explicação completa.

Há um detalhe cronológico que reorganiza a consulta e é fácil de perder. O protocolo nacional registra que a infertilidade frequentemente permanece inexplicada por causa do atraso diagnóstico: a mulher passou anos com dor sem nome, e chega à investigação de infertilidade já com a doença avançada. Ou seja, as duas portas não são independentes — a segunda muitas vezes é o preço da primeira ter sido fechada.

A consequência prática é uma regra que o interno pode aplicar hoje. Em toda mulher que consulta por dificuldade de engravidar, pergunte sobre dismenorreia progressiva, dispareunia profunda e sintomas cíclicos intestinais ou urinários. E em toda mulher com endometriose provável, pergunte se ela quer engravidar, e quando — porque essa resposta, e não a gravidade da dor, é o que separa dois caminhos de tratamento inteiramente diferentes.

Quando a dor deixa de ter calendário

Existe um ponto de virada na história natural que muda tudo o que vem depois, e ele é reconhecível na anamnese sem exame nenhum: a dor que era cíclica passa a ser diária. A paciente conta que "antes era só na menstruação, agora é quase todo dia, e na menstruação piora". Esse é o momento em que a doença deixou de ser apenas um foco que sangra e passou a incluir fibrose que traciona e nervo sensibilizado.

Reconhecer isso tem três consequências. A primeira é de expectativa: bloqueio hormonal atua sobre o componente cíclico, e o componente contínuo responde menos e mais devagar. Prometer a essa paciente o alívio que a de dor cíclica pura obtém é preparar uma decepção que costuma custar a adesão. A segunda é de raciocínio diferencial, e a régua de sociedade a explicita ao listar o que confunde: síndrome do intestino irritável, cistite intersticial e alterações miofasciais do assoalho pélvico. Essas três não são rivais da endometriose — são frequentemente companheiras, e não desaparecem quando o hormônio entra. A terceira é uma regra de segurança que o mesmo documento registra: em mulher já diagnosticada que volta com sintoma recorrente ou que não responde, é obrigatório reavaliar outras causas de dor, em vez de escalonar o tratamento hormonal por reflexo.

Vale marcar aqui o que este capítulo não cobre. Dor pélvica crônica é um território maior do que a endometriose, e a mulher que chega com dor há meses pode ter aderências pós-operatórias ou sequela de doença inflamatória pélvica, causa urinária, causa intestinal ou dor miofascial de parede abdominal — a lista que o capítulo de miomatose usa para impedir que um útero seja retirado por engano vale integralmente aqui, em sentido inverso. O que muda a probabilidade a favor da endometriose é o calendário: sintoma que respeita o ciclo, ou que respeitava até a fase em que virou diário.

Os dois extremos: a adolescente e a mulher sem sintoma

Na adolescência a doença já existe e quase nunca é nomeada. Entre adolescentes com dor pélvica crônica, a endometriose aparece em 25% a 38%; entre as que chegam a ser laparoscopadas por essa queixa, em 47%. Os fatores que aumentam a suspeita nessa faixa são específicos e fáceis de perguntar: história familiar de endometriose, menarca precoce, ciclos frequentes, e — porque aumentam o refluxo menstrual — anomalias obstrutivas do trato genital, como hímen imperfurado, septo vaginal transverso e agenesia vaginal.

O que impede o diagnóstico nessa idade é uma combinação de duas coisas verdadeiras: a dismenorreia primária é de fato a causa mais comum de cólica em adolescentes, e o exame ginecológico completo muitas vezes não é possível nem apropriado. A saída não é operar mais cedo — é usar o mesmo critério de sempre, que não exige exame: falta de resposta a anti-inflamatório bem prescrito somada a falta de resposta a contraceptivo hormonal levanta dismenorreia secundária, e endometriose é a primeira da lista. Uma adolescente que perde três dias de aula por mês há dois anos, apesar de tratamento, não precisa de mais um analgésico.

O outro extremo é a mulher assintomática, e ela existe: o protocolo nacional registra que nem todas as pessoas com endometriose têm sintomas. Costuma aparecer como achado de imagem pedida por outro motivo, ou como endometrioma encontrado em ultrassom de rotina. Aqui a regra é a inversa da de todo o capítulo, e vale escrevê-la com todas as letras: achado de imagem sem sintoma e sem infertilidade não é indicação de tratar. O objetivo do tratamento, no protocolo, é a remissão dos sintomas dolorosos e a preservação ou restauração da fertilidade. Quem não tem dor e não busca gravidez não tem alvo a tratar — e ganha, com o hormônio prescrito por reflexo, apenas os eventos adversos.

Fica de pé, nessa paciente, uma tarefa que não é medicamentosa: registrar o achado, explicar o que ele significa, dizer quais sintomas devem trazê-la de volta, e perguntar sobre gravidez — porque quem tem endometrioma e planeja engravidar precisa de conversa sobre reserva ovariana antes de qualquer decisão cirúrgica, e não depois.

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Como fechar o diagnóstico

Este é o bloco em que o capítulo se decide, porque é aqui que estão os dois erros que custam os anos. O primeiro é pedir exame para confirmar uma doença que o exame não confirma. O segundo é, diante do exame normal que voltou, dizer que não há nada — quando o exame normal era o esperado.

A régua a fixar antes de qualquer pedido: nesta doença, a investigação por imagem não decide se a paciente tem endometriose. Ela decide o que se faz com a paciente que já se sabe ter. Quem decide o diagnóstico é a história.

Primeiro exame: a anamnese — e ela é o critério, não o preâmbulo

A laparoscopia com inspeção direta e visualização dos implantes já foi tratada como padrão-ouro. O protocolo nacional em vigor mudou o eixo por um motivo explicitamente pragmático: diante da dificuldade de acesso ao procedimento e do atraso diagnóstico que ele produz, discute-se iniciar o tratamento com base em história clínica e exame físico. E o argumento que fecha a decisão é o que o interno precisa carregar: não há benefício em atrasar o tratamento à espera de um achado confirmatório cirúrgico.

Isso é mais do que uma permissão. O protocolo nacional transformou a suspeita clínica em critério formal de acesso ao tratamento, e vale conhecer o texto, porque é ele que autoriza a receita na unidade básica. Para tratamento empírico com contraceptivo combinado, com progestágenos ou com dispositivo intrauterino, entra a paciente com dispareunia ou dismenorreia progressivas por mais de seis meses, em idade reprodutiva, sem causa orgânica aparente e sem resposta à analgesia usual com anti-inflamatório. Ou — e é uma alternativa, não um requisito somado — a paciente com dor pélvica crônica como manifestação a ser tratada, com exame de imagem ou exame físico compatíveis, ou tendo-se excluído outras doenças que causem dor pélvica crônica.

Leia de novo a primeira via de entrada e repare no que ela não pede: não pede imagem, não pede laparoscopia, não pede marcador. Pede duração, progressão, e falha da analgesia. Uma mulher de 29 anos com dismenorreia que piorou ao longo de cinco anos, dispareunia profunda há dois e falha de anti-inflamatório bem prescrito preenche o critério inteiro dentro do consultório. É isso que separa este protocolo dos que vieram antes, e é isso que o interno mais frequentemente não sabe.

A lista de sintomas que o protocolo manda considerar na suspeita é longa de propósito, e cada item já foi explicado pelo mecanismo: dismenorreia, dispareunia profunda, disúria, disquezia, sangramento retal doloroso, hematúria, dor na ponta dos ombros, pneumotórax catamenial, tosse ou hemoptise ou dor torácica cíclicas, inchaço e dor cíclica de cicatriz, fadiga e infertilidade. História familiar de endometriose e dificuldade para engravidar entram como reforço da suspeita.

Uma última instrução do mesmo documento merece linha própria, porque é a que faz a conversa acontecer: ao considerar um diagnóstico presuntivo, a opção entre buscar confirmação adicional e iniciar tratamento empírico deve ser discutida entre médico e paciente, já que não há evidência de superioridade entre as duas abordagens. Ou seja, a escolha não é técnica — é compartilhada. Há mulher que quer o nome antes de tomar qualquer coisa, e há mulher que quer parar de faltar ao trabalho no mês que vem. As duas estão certas, e as duas precisam saber que a decisão é delas.

O exame físico: pouco sensível, e mesmo assim indispensável

Duas afirmações do protocolo nacional emolduram este exame e precisam ser ditas juntas, porque separadas cada uma produz um erro. A primeira: na maior parte das pessoas acometidas, o exame físico apresenta achados discretos, e não há alteração patognomônica. A segunda, na régua de sociedade: a ausência de alterações ao exame físico não afasta a doença.

O que o exame pode achar é uma lista curta e vale procurar item por item. Dor à palpação de fundo de saco posterior e de ligamentos uterossacros. Nódulos palpáveis nesses mesmos pontos, geralmente dolorosos, que sugerem lesão retrocervical, de uterossacro, de fundo de saco vaginal posterior ou intestinal. Massa anexial, que levanta endometrioma. Útero ou anexos fixos, em retroversão — mobilidade reduzida é sinal de aderência pélvica. Ao exame especular, nódulos ou rugosidades enegrecidas em fundo de saco posterior sugerem a doença.

Duas informações práticas aumentam o rendimento sem custar nada. A primeira: a régua de sociedade registra que realizar o exame durante o período menstrual melhora a performance diagnóstica — os focos estão ingurgitados e a dor é mais facilmente reproduzida. É uma orientação contraintuitiva para quem aprendeu a evitar examinar menstruada, e é ela que muda o resultado. A segunda: o toque bimanual desta doença procura outra coisa que o toque da miomatose. Lá se procura volume e contorno; aqui se procura mobilidade, ponto doloroso específico e nódulo em fundo de saco. Útero de tamanho normal, pouco móvel, com fundo de saco doloroso é um achado inteiramente diferente de útero aumentado, móvel e de contornos irregulares — e os dois se obtêm na mesma manobra.

O motivo de o exame continuar valendo a pena, apesar da baixa sensibilidade, é aritmético: ele nunca descarta, mas quando é positivo ele encurta. Um nódulo doloroso em fundo de saco numa mulher com a história certa fecha a suspeita ali, sem nenhum exame, e permite entrar no critério de tratamento pela segunda via. Cada consulta em que o toque não foi feito é uma consulta em que essa chance foi descartada de graça.

E há a leitura que precisa ser dita à paciente na hora, porque ela é o oposto do que a experiência dela ensinou: exame normal, aqui, não significa "não é nada". Cerca de 70% dos casos são peritoneais ou superficiais, e esses focos não produzem nódulo palpável nem massa. Quem tem exame normal continua com a mesma probabilidade que a história lhe deu.

A imagem responde ao cirurgião, não à pergunta diagnóstica

O protocolo nacional é explícito sobre a função da imagem: ultrassom transvaginal com preparo intestinal e ressonância magnética podem ser usados para confirmação diagnóstica ou para planejamento cirúrgico, mas não são capazes de excluir o diagnóstico. O motivo é anatômico e já apareceu acima — cerca de 70% dos casos são endometriose peritoneal ou superficial, e essas lesões nem sempre são visualizadas.

Traduzido para a decisão: a imagem é ótima para responder "tem endometrioma? tem nódulo profundo? o intestino está acometido? o ureter está dilatado?" e péssima para responder "ela tem a doença?". A primeira pergunta muda a cirurgia, a lista de riscos do consentimento e a equipe que precisa estar na sala. A segunda já foi respondida na anamnese.

Quando a imagem é pedida, ela precisa ser a imagem certa, e isso depende mais do laudo do que do aparelho. A régua de sociedade lista os compartimentos que o laudo tem de contemplar, e vale pedir por escrito: compartimento anterior, com bexiga e ligamentos redondos; compartimento posterior, com região retrocervical e fórnice vaginal posterior; ligamentos uterossacros; região paracervical; ureteres; retossigmoide; apêndice; íleo e possivelmente ceco; diafragma; e útero, ovários e tubas. Um laudo que diz apenas "útero e anexos sem alterações" não respondeu a nenhuma dessas perguntas — e é exatamente esse laudo que costuma estar no prontuário das pacientes que esperaram dez anos.

Dois qualificadores fecham a seção. O primeiro: os exames devem ser realizados por profissionais habilitados na detecção da doença, e o preparo intestinal não é detalhe — é o que permite ver o retossigmoide. Ultrassom transvaginal de rotina, sem preparo e sem mapeamento, é outro exame, com outra pergunta. O segundo, mais importante para o interno: os exames especializados evidenciam lesões profundas e endometriomas, mas não é possível visualizar as lesões superficiais. Repita isso para a paciente antes de pedir, porque ela vai receber o resultado antes de te reencontrar, e a diferença entre "o exame não mostrou" e "o exame não mostra" é a diferença entre esperança e abandono do tratamento.

O que não pedir — e o que custa pedir

CA-125. As duas réguas convergem, e sem meio-termo: o protocolo nacional afirma que as evidências demonstram que o uso de marcadores séricos como o CA-125 deve ser abandonado, e a régua de sociedade registra que não há indicação para a dosagem. O motivo de o exame atrapalhar, e não apenas ser inútil, é o comportamento dele nas duas direções. Ele sobe em endometriose, mas também em qualquer inflamação peritoneal, em doença inflamatória pélvica, em miomatose, em adenomiose, na menstruação e em gestação — de modo que um valor alto não confirma nada e transforma a consulta seguinte numa investigação de câncer de ovário que ninguém pretendia abrir. E ele é normal na maioria das doenças iniciais e superficiais — de modo que um valor normal, na mão de quem não sabe disso, encerra a investigação de uma mulher que tem a doença. Um exame que não confirma quando positivo e afasta indevidamente quando negativo não é um exame ruim: é um exame que piora a decisão.

Biópsia para comprovação histológica. O protocolo nacional dispensa, e o argumento é bom: a correlação entre achados laparoscópicos e histológicos é de 97% a 99%, de modo que a comprovação por biópsia onera desnecessariamente a investigação; e a biópsia negativa não exclui a doença. Só se pode descartar o diagnóstico quando o peritônio é visualmente normal.

Laparoscopia com finalidade diagnóstica. Não se pede. A régua de sociedade descreve o papel dela hoje com precisão: é indicada em casos individualizados de mulheres que apresentam exames normais e falha do tratamento clínico — ou seja, depois de tudo, não antes. O protocolo de adolescência diz o mesmo com outras palavras: a laparoscopia deve ser considerada como último recurso, após esgotadas as opções de tratamento. O custo de inverter essa ordem é grande e específico: você submete a anestesia geral e a risco cirúrgico uma mulher para obter uma informação que não muda o primeiro tratamento — porque o primeiro tratamento é o mesmo com ou sem confirmação.

Aqui aparece a incoerência do protocolo nacional que o interno vai encontrar na prática, e é melhor encontrá-la sabendo. O mesmo documento que dispensa a biópsia por onerar a investigação exige, para liberar o tratamento de segunda linha — danazol e análogos do hormônio liberador de gonadotrofina —, diagnóstico confirmado de endometriose por achados laparoscópicos e histológicos; e o quadro de monitoramento repete a exigência, listando laparoscopia com biópsia e laudo histopatológico como avaliação obrigatória antes do início desses medicamentos. Não é ambiguidade de leitura: é a mesma exigência escrita duas vezes, num documento que, dez páginas antes, desaconselhou o procedimento que a produz. A consequência prática é conhecida de qualquer farmácia de componente especializado — o processo volta sem o laudo. E a consequência clínica é que o acesso à segunda linha, no papel, passa por uma cirurgia que o próprio protocolo não recomenda para diagnosticar.

Vale registrar de onde veio essa exigência, porque o rastro está disponível: a versão que foi à consulta pública pedia apenas "diagnóstico confirmado de endometriose" para o mesmo grupo de medicamentos. As palavras "por achados laparoscópicos e histológicos" entraram entre a proposta e o texto aprovado.

O diferencial se resolve aqui dentro

Separar o diferencial em bloco próprio mentiria sobre como se raciocina: o mesmo dado que confirma um diagnóstico é o que afasta o outro, e ele aparece na mesma consulta. Quatro eixos resolvem quase tudo.

O primeiro é o calendário. Sintoma que aparece ou piora nos dias perimenstruais aponta doença hormônio-responsiva — endometriose e adenomiose. Sintoma indiferente ao ciclo aponta síndrome do intestino irritável, cistite intersticial, causa urinária ou dor miofascial de parede abdominal. É o eixo mais barato e o mais frequentemente não perguntado: basta pedir à paciente que marque num calendário, por dois ciclos, os dias em que doeu.

O segundo é o padrão do sangramento, e ele reparte o território com o capítulo do sangramento uterino anormal. Sangramento aumentado com ciclos regulares, em útero difusamente aumentado e amolecido, com dismenorreia intensa, aponta adenomiose. Sangramento aumentado em útero de contornos irregulares aponta mioma. Endometriose típica não é, em si, doença de sangramento aumentado — o protocolo lista menstruação irregular abundante entre os sintomas possíveis, mas a queixa que a define é dor. Quando o sangramento domina o quadro, a investigação que manda é a daquele capítulo, e a endometriose entra como acompanhante.

O terceiro é o exame físico dirigido, já detalhado: útero aumentado, móvel, de contornos irregulares aponta mioma; útero de tamanho normal, fixo, com nódulo doloroso em fundo de saco aponta endometriose profunda; dor à mobilização do colo com dor anexial, em quadro agudo com corrimento e febre, aponta doença inflamatória pélvica, cujo manejo é de outro capítulo e de outra urgência.

O quarto é a coexistência, e é o que evita o erro mais elegante desta lista. Síndrome do intestino irritável, cistite intersticial e disfunção miofascial do assoalho pélvico não são rivais da endometriose: convivem com ela com frequência, e explicam por que a dor não some quando o hormônio entra. Encontrar uma delas não exclui a outra, e tratar apenas a endometriose numa paciente que tem as duas produz a queixa de "não melhorou" que costuma ser lida como falha do hormônio.

O que existe no Sistema Único de Saúde — e o que ainda não chegou

Exame que não se consegue não é conduta, e nesta doença o descompasso entre o que o protocolo autoriza e o que a rede entrega é grande o suficiente para mudar o plano.

O que está disponível em qualquer unidade básica é a parte que mais decide: anamnese, exame físico e receita da primeira linha. O protocolo nacional determina que pessoas com endometriose sejam atendidas e acompanhadas na atenção primária, e só encaminhadas ao serviço especializado em casos específicos. Isso não é descentralização retórica — é o desenho que torna possível começar o tratamento sem fila.

O gargalo é a imagem especializada. Ultrassom transvaginal com preparo intestinal e mapeamento, e ressonância de pelve, dependem de profissional habilitado na detecção da doença, e a distribuição desses profissionais no país é desigual. Aqui a consequência prática é boa notícia, e vale explicitá-la para não paralisar o interno: como a imagem não decide o diagnóstico e sim o planejamento cirúrgico, esperar por ela não é motivo para adiar o tratamento da dor. Pede-se a imagem e trata-se em paralelo.

Na farmácia, a lista dos medicamentos com o protocolo da endometriose como documento norteador na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais é: gosserrelina em implante de 3,6 mg e 10,8 mg, leuprorrelina de 3,75 mg e 11,25 mg, triptorrelina de 3,75 mg e embonato de triptorrelina de 11,25 mg, e danazol em cápsulas de 100 mg e 200 mg — todos no Componente Especializado, que exige processo, laudo e renovação. No Componente Básico, sem processo, estão o contraceptivo combinado de etinilestradiol 0,03 mg com levonorgestrel 0,15 mg, o acetato de medroxiprogesterona, o ibuprofeno e o paracetamol.

Falta dessa lista, e é o ponto que o interno precisa antecipar, exatamente a primeira linha nova: desogestrel e o dispositivo intrauterino de levonorgestrel de 52 mg não constam da edição vigente da Relação Nacional, porque foram incorporados em maio de 2025, depois de ela fechar. A incorporação é real e tem portaria — o dispositivo pela Portaria SECTICS/MS nº 41, de 27 de maio de 2025, e o desogestrel pela Portaria SECTICS/MS nº 43, de 30 de maio de 2025 —, e a lista é revista a cada dois anos. Mas entre a portaria e a caixa na prateleira há um intervalo real, e a paciente que sai do consultório com uma receita de algo que a unidade ainda não recebeu volta pior do que saiu. A conduta que resolve é a mesma de sempre: confira a disponibilidade local antes de escolher, e escolha dentro do que a farmácia tem hoje, deixando registrada a preferência para quando chegar.

07

Da suspeita à receita, sem passar pela sala de cirurgia

O fluxo desta doença é curto porque a etapa cara foi retirada dele. Ele começa na anamnese, passa pelo objetivo do tratamento — dor ou gravidez, que são caminhos distintos — e chega à prescrição sem depender de imagem e sem depender de confirmação cirúrgica. A imagem entra em paralelo, para responder à pergunta do cirurgião. As três tabelas abaixo cobrem, na ordem, o que separa a cólica comum da cólica que é doença, o que cada exame de fato responde, e o que existe na farmácia do Sistema Único de Saúde com o esquema por extenso.

  1. 11. A queixa é dor que acompanha o ciclo? Se sim, a hipótese entra na lista. Se não há nenhuma relação com o calendário menstrual, ela continua possível, mas cai de probabilidade e a investigação segue outro trilho.
  2. 22. Quantifique a incapacidade antes de qualquer exame: dias de falta ao trabalho ou à escola nos últimos três meses, atividades abandonadas, necessidade de se deitar. Esse número é o diagnóstico funcional e é a linha de base do tratamento.
  3. 33. A dismenorreia é primária ou secundária? Use os quatro eixos da primeira tabela — tempo desde a menarca, progressão ao longo dos anos, sintomas fora do período menstrual e resposta ao anti-inflamatório bem prescrito.
  4. 44. Some os sintomas de endereço: dispareunia profunda, disquezia, disúria ou hematúria cíclicas, dor cíclica fora da pelve. Dois ou mais itens numa mesma história fecham a suspeita.
  5. 55. Faça o exame físico, de preferência durante o período menstrual: mobilidade uterina, ponto doloroso e nódulo em fundo de saco posterior, massa anexial, inspeção do fundo de saco ao especular. Positivo, encurta o caminho. Negativo, não muda nada.
  6. 66. Pergunte agora, e não depois, se ela quer engravidar — e em quanto tempo. A resposta bifurca o tratamento inteiro e não pode ser descoberta na segunda consulta.
  7. 77. Se ela não busca gravidez agora: a paciente preenche o critério nacional de tratamento empírico? Duas vias alternativas — dispareunia ou dismenorreia progressivas por mais de seis meses sem resposta ao anti-inflamatório; ou dor pélvica crônica com exame físico ou de imagem compatíveis, ou com as outras causas excluídas.
  8. 88. Preenchendo, prescreva a primeira linha hoje: contraceptivo combinado ou progestágeno isolado, escolhidos pela contraindicação e pela disponibilidade local. Não espere imagem para começar.
  9. 99. Se ela busca gravidez agora: não prescreva supressão ovariana — ela não melhora a fertilidade e consome o tempo que a paciente não tem. O caminho é a avaliação da infertilidade do casal e o encaminhamento ao serviço que a conduz.
  10. 1010. Peça imagem em paralelo quando houver suspeita de doença profunda, endometrioma, acometimento intestinal ou urinário, ou quando a cirurgia estiver no horizonte. Peça por escrito o mapeamento dos compartimentos, e não um transvaginal de rotina.
  11. 1111. Reavalie em três meses, com o mesmo número que você mediu no passo 2. Sem melhora, revise adesão, revise dose, revise se há outra causa de dor associada — e só então troque de classe.
  12. 1212. Falha das duas primeiras linhas com sintoma persistente, ou uma das indicações cirúrgicas objetivas — endometrioma em crescimento ou maior que 4 cm, distorção anatômica, suboclusão intestinal, lesão ureteral com dilatação, infertilidade associada —, encaminha ao serviço especializado.
  13. 1313. Depois da cirurgia conservadora, o bloqueio hormonal recomeça: seis meses de análogo do hormônio liberador de gonadotrofina e, em seguida, contraceptivo combinado ou progestágeno por prazo indefinido, até que haja desejo de gestação.
EixoAponta dismenorreia primáriaAponta dismenorreia secundária
Tempo desde a menarcaComeça 6 a 12 meses depois, com os primeiros ciclos ovulatóriosComeça mais de 12 meses depois, às vezes anos
Momento e duração da dorNo início do fluxo ou 1 a 2 dias antes; dura de 8 a 72 horasUltrapassa o período menstrual, ou existe também fora dele
Evolução ao longo dos anosEstável, ou melhora com a idade e após gestaçãoPiora progressiva, com aumento de intensidade e de dias
Intensidade e funçãoLeve a moderada; não impede as atividades do diaGrave; produz falta ao trabalho ou à escola
Sintomas acompanhantesNáusea, vômito, cefaleia e edema, todos no período da dorDispareunia profunda, disquezia, disúria cíclica, sangramento intenso ou irregular
Resposta ao anti-inflamatório bem prescritoBoa, quando iniciado no começo do fluxo e mantido 3 a 5 diasInsuficiente ou ausente, mesmo com esquema e dose corretos
Resposta ao contraceptivo hormonalCostuma acrescentar alívioFalha das duas classes juntas é o critério que mais aponta a doença

O que cada exame responde — e o que ele não responde

ExameRespondeNão respondeQuando pedir
Anamnese dirigida com quantificação de incapacidadeSe a paciente preenche o critério nacional de tratamento empíricoOnde estão os focos e o que a cirurgia vai encontrarSempre, e antes de qualquer outra coisa
Exame físico com toque bimanual e especularSe há nódulo em fundo de saco, útero fixo ou massa anexial — achados que encurtamNada, quando é normal: cerca de 70% dos casos são superficiais e não se palpamSempre; de preferência durante o período menstrual
Ultrassom transvaginal com preparo intestinal e mapeamentoEndometrioma, nódulo profundo, acometimento do retossigmoide, dos ureteres e da bexigaLesão peritoneal superficial — e, portanto, a existência da doençaSuspeita de doença profunda, endometrioma, sintoma intestinal ou urinário, cirurgia no horizonte
Ressonância magnética de pelveAs mesmas perguntas do anterior, com melhor mapa para planejar a cirurgiaTambém não exclui o diagnósticoPlanejamento cirúrgico, ou quando o ultrassom com preparo não está disponível ou foi inconclusivo
Ultrassom transvaginal de rotina, sem preparoMassa anexial grosseira e patologia uterinaPraticamente tudo o que interessa nesta doençaNão serve a esta investigação; um laudo normal aqui não afasta nada
CA-125Nada que mude a condutaNem confirma quando alto, nem afasta quando normalNão pedir — a régua nacional manda abandonar o marcador
Laparoscopia diagnósticaA visualização direta dos implantesUma pergunta que mude o primeiro tratamento, que é o mesmo com ou sem elaÚltimo recurso: exame de imagem normal somado a falha do tratamento clínico
Exame de urinaInfecção urinária, quando existeA hipótese de foco vesical: nesta doença ele volta normal e isso é esperadoNa disúria, uma vez — não em série, e o resultado normal reforça a suspeita cíclica

O que existe na farmácia do Sistema Único de Saúde, com o esquema por extenso

LinhaMedicamento e apresentaçãoEsquemaOnde se retira e o que exige
PrimeiraEtinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg, comprimidoUm comprimido por via oral, uma vez ao dia, no mesmo horário, por 21 dias, com intervalo de 7 dias antes da cartela seguinte; quem não usou contraceptivo no mês anterior começa no primeiro dia de sangramentoComponente Básico, na própria unidade, sem processo
PrimeiraAcetato de medroxiprogesterona, comprimido de 10 mgUm comprimido de 10 mg por via oral, três vezes ao dia — 30 mg ao dia, ou 90 comprimidos por mês. Uso contínuo, sem intervalosComponente Básico
PrimeiraAcetato de medroxiprogesterona, suspensão injetável de 50 mg/mL ou 150 mg/mL150 mg por via intramuscular — 1 mL da apresentação de 150 mg/mL ou 3 mL da de 50 mg/mL. Primeira injeção até o 5º dia do ciclo; as seguintes a cada 12 a 13 semanas, com intervalo máximo de 91 diasComponente Básico; aplicação na unidade
PrimeiraDesogestrel, comprimido de 0,075 mgUm comprimido por via oral, uma vez ao dia, de preferência no mesmo horário, por 28 dias consecutivos; a cartela seguinte começa logo após a anterior, sem intervaloIncorporado em maio de 2025 e ainda ausente da edição vigente da Relação Nacional — confira a disponibilidade local antes de prescrever
PrimeiraDispositivo intrauterino de levonorgestrel, 52 mgUma unidade inserida na cavidade uterina. O quadro de doses do protocolo nacional fixa cinco anos por inserçãoExige contraindicação ou não adesão ao contraceptivo combinado. Ultrassom prévio não é obrigatório; indica-se apenas na suspeita de alteração anatômica
SegundaGosserrelina, implante subcutâneo de 3,6 mg ou 10,8 mg3,6 mg por via subcutânea, mensalmente; ou 10,8 mg a cada 3 meses. Tratamento limitado a seis mesesComponente Especializado: processo, laudo médico e renovação
SegundaLeuprorrelina 3,75 mg ou 11,25 mg; triptorrelina 3,75 mg ou embonato de triptorrelina 11,25 mg3,75 mg por via intramuscular, mensalmente; ou 11,25 mg a cada 3 meses. Tratamento limitado a seis mesesComponente Especializado. O protocolo exige, para esta linha, laudo de laparoscopia com histopatológico
SegundaDanazol, cápsulas de 100 mg e 200 mg400 mg ao dia por via oral, divididos em duas tomadas — uma cápsula de 200 mg de 12 em 12 horas —, podendo ir a 800 mg ao dia, ou duas cápsulas de 200 mg de 12 em 12 horasComponente Especializado. Reservado à falha das demais opções, pelos efeitos masculinizantes por vezes irreversíveis
AnalgesiaIbuprofeno, comprimido de 200 mg, 300 mg ou 600 mg600 mg por via oral, três a quatro vezes ao dia, sem ultrapassar 3.200 mg em 24 horas; com alimento se houver sintoma gastrintestinal. Na dismenorreia, iniciar no começo do fluxo ou 1 a 2 dias antes e manter 3 a 5 diasComponente Básico. O uso de analgésicos segue o protocolo nacional de dor crônica

A primeira tabela não é um teste diagnóstico: é uma tabela de probabilidade. Nenhum eixo isolado decide, e o eixo que mais pesa é o último — falha do anti-inflamatório bem prescrito somada à falha do contraceptivo hormonal.

O critério nacional de tratamento empírico tem duas vias alternativas, e confundi-las trava o acesso de metade das pacientes. A primeira via não exige exame nenhum. A segunda, que serve a quem tem dor pélvica crônica, é a que pede exame compatível ou exclusão de outras causas.

Repare no que a coluna de esquema do contraceptivo combinado diz: 21 dias com intervalo de 7. É o regime contraceptivo clássico, com pausa e sangramento de privação. Nesta doença o objetivo é suprimir o ciclo, e o regime estendido é o que a prática usa — a régua de sociedade registra que não há consenso entre contínuo e cíclico, e a de adolescência recomenda o estendido. O quadro nacional não fecha a questão, e ela reaparece no bloco das divergências.

Danazol continua na lista por ser eficaz, e continua no fim dela pelo motivo certo: os efeitos masculinizantes — crescimento de pelos, engrossamento da voz, alopecia — podem ser irreversíveis. Quem prescreve precisa dizer isso antes, e não depois.

O teto de seis meses dos análogos do hormônio liberador de gonadotrofina não é burocracia: eles produzem hipogonadismo hipogonadotrófico, com sintomas de menopausa e perda acelerada de massa óssea. Quem segue sintomática depois desse período vai ao serviço especializado para avaliação de retratamento, com laudo descrevendo a ausência de resposta.

A terapia de adição hormonal — estrogênio, progestágeno ou ambos junto ao análogo — é recomendada para todas as pacientes nessa linha, e não apenas para quem já apresentou efeito adverso. Ela reduz fogachos e secura vaginal, preserva massa óssea e melhora a tolerabilidade e a qualidade de vida.

Anemia ferropriva associada a sangramento aumentado e a inflamação crônica é tratada pelo protocolo nacional específico, e não neste. O mesmo vale para a analgesia, que segue o protocolo de dor crônica, e para a avaliação de densidade mineral óssea, que segue o de osteoporose.

08

A conduta, hora a hora

Suspeita clínica: avaliar sinais de gravidade, desejo reprodutivo e tratamentos já tentados. Para dor, discutir terapia hormonal elegível e analgesia, com seguimento funcional; imagem especializada e encaminhamento dependem de achados, refratariedade e suspeita de comprometimento orgânico. Falha a um esquema não prova que toda a classe hormonal seja inútil. Registrar o regime e a adesão antes de mudar.

Antes de qualquer prescrição, uma bifurcação organiza tudo o que vem depois, e ela é uma pergunta, não um exame: a paciente quer engravidar agora? O objetivo do tratamento, no protocolo nacional, é a remissão dos sintomas dolorosos com melhora da qualidade de vida e, quando desejado, a preservação ou restauração da fertilidade. São dois objetivos, e o caminho de um atravessa o outro: tudo o que alivia a dor funciona produzindo anovulação. Quem tenta servir aos dois no mesmo mês não serve a nenhum.

A escolha dentro de cada caminho considera gravidade dos sintomas, extensão e localização da doença, desejo de gravidez, idade, eventos adversos, taxas de complicação cirúrgica e custo. Nenhum desses fatores é a imagem.

  1. Consulta 0 — a conversa que fecha dez anos

    Antes da receita vem a frase que a paciente esperou uma década para ouvir, e ela precisa ser dita explicitamente: isso que a senhora tem tem nome, é uma doença, e não é frescura nem baixa tolerância a dor. Diga em seguida o que a doença é, em uma linha — tecido parecido com o que reveste o útero cresceu fora dele, sangra junto com a menstruação e inflama a região —, e diga o que se pretende: controlar a dor e devolver os dias que ela vem perdendo. Feche a consulta com três registros no prontuário, porque eles são a linha de base do tratamento: os dias de incapacidade nos últimos três meses, o padrão da dor por sintoma e por momento do ciclo, e a resposta à pergunta sobre desejo de gravidez, com prazo. Registre também o que já foi tentado e falhou — isso é o que preenche o critério nacional de tratamento empírico e é o que vai justificar a segunda linha depois. Nenhum exame precisa voltar para que esta consulta termine com um plano.

    Prescrição
    • Registro em prontuário do número de dias de incapacidade nos últimos 3 meses — é o desfecho que será medido
    • Registro do desejo de gravidez e do prazo pretendido
    • Registro do que já foi usado, em que dose e com que resultado
    • Se o critério nacional está preenchido, a primeira linha começa hoje — não se espera imagem
  2. Consulta 0 — escolher a primeira linha em três perguntas

    As duas classes de primeira linha do protocolo nacional são o contraceptivo combinado e os progestágenos isolados, e as evidências disponíveis sugerem que os tratamentos hormonais são igualmente efetivos quando comparados entre si. Isso libera o interno de procurar o melhor: não há melhor, há o adequado a esta paciente. Três perguntas decidem. Primeira: há contraindicação ao estrogênio? A lista completa dos critérios de elegibilidade do combinado pertence ao capítulo de contracepção hormonal combinada e não se repete aqui; o que basta guardar é o gatilho — tromboembolismo prévio ou atual, trombofilia, doença vascular cerebral ou coronariana, enxaqueca com aura, hipertensão não controlada, tabagismo acima dos 35 anos, amamentação. Havendo qualquer um, vai-se ao progestágeno isolado, que não contém estrogênio e por isso é indicado também em obesidade, tabagismo, hipertensão e histórico de trombose. Segunda: ela precisa de contracepção? Todas as opções desta linha contracepcionam, mas a resposta muda a escolha entre oral diário, injetável trimestral e dispositivo intrauterino. Terceira: o que a unidade tem hoje? Uma receita de algo que a farmácia não dispensa é uma consulta perdida e uma paciente que não volta.

    Prescrição
    • Sem contraindicação ao estrogênio: etinilestradiol 0,03 mg + levonorgestrel 0,15 mg, um comprimido por via oral ao dia — ver a nota do bloco de fluxos sobre regime estendido
    • Com contraindicação ao estrogênio, via oral diária: desogestrel 0,075 mg, um comprimido por via oral ao dia, 28 dias por cartela, sem intervalo entre cartelas
    • Com contraindicação ao estrogênio, via injetável: acetato de medroxiprogesterona 150 mg por via intramuscular, primeira dose até o 5º dia do ciclo, repetição a cada 12 a 13 semanas, intervalo máximo de 91 dias
    • Alternativa oral disponível no Básico: acetato de medroxiprogesterona 10 mg por via oral de 8 em 8 horas, uso contínuo
    • Dispositivo intrauterino de levonorgestrel 52 mg, quando há contraindicação ou não adesão ao combinado — uma inserção
  3. Consulta 0 — o dispositivo intrauterino, e um número que o protocolo escreve de dois jeitos

    O dispositivo entrou no Sistema Único de Saúde para esta doença em maio de 2025, com uma indicação estreita: paciente com endometriose e contraindicação ou não adesão ao contraceptivo combinado. Ele é a única opção da primeira linha que não age produzindo anovulação — o efeito é predominantemente local, sobre o endométrio —, e é a de melhor adesão, porque não depende de lembrar todo dia. O ultrassom prévio não é obrigatório: indica-se apenas quando há suspeita de alteração anatômica, como malformação uterina, mioma submucoso ou sinéquia, ou dúvida sobre tamanho e posição do útero. E, quando pedido, esse ultrassom serve à segurança da inserção, não ao diagnóstico da endometriose. Agora o número, porque ele vai aparecer na sua frente. O protocolo nacional em vigor diz, no corpo do texto, que o dispositivo mantém a efetividade a longo prazo por oito anos; e diz, no quadro de esquemas de administração do mesmo documento, que cada inserção tem eficácia por cinco anos. As duas frases estão a poucas páginas uma da outra e não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Três verificações independentes resolvem a favor dos cinco anos. A primeira: a versão que foi à consulta pública escrevia cinco anos nos dois lugares — o oito entrou depois, no texto final, e o quadro de doses não foi atualizado junto. A segunda: o relatório que sustentou a incorporação constrói todo o modelo econômico sobre um horizonte de cinco anos, declara explicitamente que a eficácia é mantida por cinco anos e que o dispositivo deve ser removido ao fim desse período, e registra o custo de tratamento como R$ 828,90 em cinco anos, ou R$ 165,78 ao ano — divisão que só fecha com cinco: 828,90 dividido por 5 dá exatamente 165,78, enquanto por 8 daria 103,61. A terceira: a extensão para oito anos foi aprovada em bula apenas para a indicação contraceptiva, e uma nota técnica municipal de julho de 2025 separa isso por escrito, registrando que para sangramento uterino anormal, adenomiose e endometriose a duração oficial continua sendo de cinco anos. O reservatório não é o limite — a 15 microgramas por dia, os cinco anos consomem cerca de 27 mg dos 52 mg do dispositivo, pouco mais da metade. O limite é a evidência: a taxa de liberação cai de 20 microgramas por dia no início para cerca de 10 aos cinco anos, e não há dado terapêutico depois disso. Na dúvida entre duas frases do mesmo documento oficial, siga a que o quadro de doses fixa e a que o relatório de incorporação pagou: cinco anos.

    Prescrição
    • Dispositivo intrauterino de levonorgestrel 52 mg, uma unidade inserida na cavidade uterina
    • Troca em 5 anos quando a indicação é o tratamento da endometriose — o prazo de 8 anos vale para a indicação contraceptiva
    • Ultrassom transvaginal antes da inserção apenas na suspeita de alteração anatômica
    • Contraindicações a checar antes: gravidez, doença inflamatória pélvica atual ou recorrente, infecção do trato genital inferior, cervicite, displasia ou neoplasia cervical ou uterina, sangramento uterino anormal não esclarecido, malformação que deforme a cavidade
  4. Semanas 1 a 4 — o período em que o tratamento é abandonado

    É aqui que se perde a paciente, e quase sempre por um motivo previsível e evitável: o sangramento irregular do início. Progestágeno isolado e dispositivo intrauterino produzem escape nas primeiras semanas a meses, e quem não foi avisada interpreta isso como piora, como "o remédio desregulou tudo" ou como sinal de que o médico errou. A instrução que resolve custa trinta segundos na consulta zero: avise que vai haver sangramento fora de hora, diga por quanto tempo, e diga que isso não é falha. Avise também os demais eventos adversos comuns dos progestágenos — cefaleia, náusea, acne, alteração de humor, ganho de peso — e o que fazer com cada um. A dor não melhora nesse período, e isso também precisa ser dito antes. O tratamento hormonal age por supressão do estímulo cíclico, e o efeito se instala ao longo de ciclos, não de dias. Prometer alívio em duas semanas é preparar uma decepção que custa a adesão. O que a paciente pode usar enquanto isso é o anti-inflamatório, com o esquema certo — no começo do fluxo, mantido de 3 a 5 dias, e não em dose de resgate quando a dor já está instalada. Vale registrar que essa analgesia é sintomática e não trata a doença: a régua brasileira de sociedade é explícita ao dizer que não há evidência científica para anti-inflamatório na endometriose. Ele serve para atravessar os primeiros ciclos, e não para substituir o bloqueio hormonal.

    Prescrição
    • Ibuprofeno 600 mg por via oral de 8 em 8 horas, iniciando no primeiro dia do fluxo ou 1 a 2 dias antes, mantido por 3 a 5 dias, com alimento; não ultrapassar 3.200 mg em 24 horas
    • Aviso explícito, dado antes de a paciente sair: sangramento irregular nas primeiras semanas é esperado e não é falha do tratamento
    • Aviso explícito: a dor melhora ao longo de ciclos, não de dias
    • Retorno agendado na saída, não deixado a critério — sem consulta marcada, o abandono acontece nesta janela
  5. Mês 3 — a primeira medida que vale

    Três ciclos é o prazo mínimo para julgar. A avaliação se faz com o mesmo número medido na consulta zero: quantos dias de trabalho ou de aula a dor custou nestes três meses, e o que ela voltou a fazer. Nada de perguntar apenas se melhorou — a resposta a essa pergunta é sempre "mais ou menos". Havendo resposta, mantenha e escreva por quanto tempo. Esta é uma doença crônica que merece acompanhamento durante toda a vida reprodutiva, e o tratamento hormonal não cura nem reduz as lesões: controla o quadro enquanto durar. A paciente precisa saber disso, porque quem interrompe assim que melhora volta ao ponto de partida em poucos ciclos, e costuma voltar acreditando que o tratamento não funcionou. Não havendo resposta, a sequência é fixa e a ordem importa. Confirme adesão real, com pergunta concreta sobre esquecimentos e sobre cartelas emendadas. Confirme dose e regime, inclusive se o intervalo de sete dias do combinado está devolvendo a dor todo mês. Reveja se há outra causa de dor associada — intestino irritável, cistite intersticial, disfunção miofascial do assoalho pélvico —, porque tratar só a endometriose numa paciente que tem duas fontes de dor produz a falha aparente mais comum deste capítulo. Só depois disso troque de classe, dentro da mesma primeira linha: de combinado para progestágeno, ou de oral para injetável ou dispositivo.

    Prescrição
    • Reavaliação formal ao fim de 3 ciclos, com o número de dias de incapacidade recontado
    • Com resposta: manter o esquema por prazo indefinido, com a paciente informada de que a suspensão traz os sintomas de volta
    • Sem resposta: checar adesão, checar regime, procurar segunda fonte de dor — e só então trocar de classe dentro da primeira linha
    • Nunca escalonar para a segunda linha sem ter cumprido os três meses de primeira linha, porque é esse tempo que o critério de acesso exige
  6. A qualquer momento — quando ela quer engravidar

    Este marco não tem lugar fixo na linha do tempo porque ele depende da paciente, e é o que mais frequentemente é conduzido errado. A regra é dura e as duas réguas brasileiras concordam: em mulher com endometriose e infertilidade, não se prescreve supressão ovariana para melhorar a fertilidade. Não há evidência de benefício, e o tratamento hormonal impede a gravidez pelo tempo em que dura — de modo que o dano não é apenas ausência de efeito, é consumo do tempo reprodutivo de alguém que já tem menos tempo do que gostaria. O caminho é outro. Investiga-se a infertilidade do casal por inteiro, e não apenas o achado ginecológico: idade materna, permeabilidade tubária, presença de dor associada e qualidade do sêmen do parceiro entram na conta. Encaminha-se ao serviço que conduz essa investigação. Quando a infertilidade é secundária a endometriose em estágios iniciais, a exérese cirúrgica dos focos mostrou-se eficaz em melhorar a gestação espontânea; na doença avançada, a cirurgia é opção a considerar, sem consenso. Depois da exérese, o tratamento da infertilidade continua — sem hormônio que suprima a ovulação. Há uma conversa própria para quem tem endometrioma e planeja engravidar, e ela precisa acontecer antes da cirurgia, não depois: retirar a cápsula do cisto pode lesar o parênquima ovariano e reduzir a reserva. Por isso a preservação de fertilidade — inclusive congelamento de oócitos — deve ser discutida antes, sobretudo em endometriomas bilaterais não operados e em recorrência contralateral de quem já perdeu tecido de um lado.

    Prescrição
    • Suspender ou não iniciar supressão hormonal em quem busca gravidez agora
    • Investigação da infertilidade do casal, incluindo avaliação do parceiro, e encaminhamento ao serviço que a conduz
    • Discussão sobre preservação de fertilidade antes de qualquer cirurgia sobre endometrioma
    • Analgesia sintomática mantida enquanto se investiga — a dor não deixa de ser tratada por causa do projeto de gravidez
  7. Mês 6 em diante — a segunda linha e o que ela cobra

    Os análogos do hormônio liberador de gonadotrofina são a segunda linha, e o critério de acesso do protocolo nacional é explícito: seis meses de tratamento prévio com contraceptivo combinado ou progestágeno sem resposta, ou recidiva da dor depois deles. O mecanismo explica tanto o efeito quanto o preço: eles ocupam os receptores hipofisários do hormônio endógeno, suprimem a função ovariana, derrubam estrogênio e progesterona e produzem hipogonadismo hipogonadotrófico com amenorreia e anovulação reversíveis. Ou seja, produzem uma menopausa temporária — com fogachos, secura vaginal, alteração de libido e perda acelerada de massa óssea. É por isso que o tratamento é limitado a seis meses, e é por isso que a terapia de adição hormonal entra junto, e não como resgate: o protocolo a recomenda para todas as pacientes desta linha, independentemente de já terem apresentado eventos adversos, porque previne a perda de massa óssea. Quem segue sintomática ao fim dos seis meses vai ao serviço especializado para avaliação de retratamento, com laudo médico descrevendo a sintomatologia e atestando a ausência de resposta. Dois avisos de acesso, que economizam meses de fila. O primeiro: esses medicamentos estão no Componente Especializado, o que significa processo, laudo e renovação — comece a documentação junto com a decisão, não depois da negativa. O segundo é a incoerência já descrita no bloco da investigação: o protocolo exige, para esta linha, diagnóstico confirmado por achados laparoscópicos e histológicos, no mesmo documento em que desaconselha a biópsia. Saber disso antes muda o que você escreve no laudo e evita mandar a paciente a uma farmácia que vai devolver o processo.

    Prescrição
    • Gosserrelina 3,6 mg por via subcutânea mensalmente, ou 10,8 mg por via subcutânea a cada 3 meses
    • Leuprorrelina 3,75 mg por via intramuscular mensalmente, ou 11,25 mg a cada 3 meses
    • Triptorrelina 3,75 mg por via intramuscular mensalmente, ou 11,25 mg a cada 3 meses
    • Terapia de adição hormonal associada desde o início, com progestágeno, estrógeno ou ambos
    • Duração máxima de 6 meses; seguir sintomática exige encaminhamento e laudo, não simples renovação
    • Danazol 400 mg ao dia por via oral em duas tomadas, podendo ir a 800 mg ao dia, reservado à falha das demais opções e com aviso prévio sobre efeitos masculinizantes por vezes irreversíveis
  8. Cirurgia — a pergunta que a indica, e o que vem depois dela

    A cirurgia não se indica por gravidade da dor isolada nem por tamanho da lesão: indica-se por uma pergunta objetiva, e a lista do protocolo nacional é curta. Ausência de resposta ao tratamento empírico com combinado ou progestágeno. Endometrioma em crescimento ou maior que 4 cm. Distorção da anatomia das estruturas pélvicas. Sinais de suboclusão ou obstrução intestinal, sobretudo em intestino delgado. Lesão ureteral com dilatação. Infertilidade associada à endometriose. A régua de sociedade acrescenta as situações em que o tratamento clínico não deve sequer ser tentado: uropatia obstrutiva, estenose intestinal sintomática, massa anexial duvidosa, lesão de íleo terminal e válvula ileocecal, e a mulher que não deseja usar medicação por anos ou tem contraindicação ao tratamento hormonal. A cirurgia conservadora remove todos os focos e restaura a anatomia; o consenso é que não basta cauterizar, é preciso excisar. A cirurgia definitiva — histerectomia com ou sem ooforectomia — é reservada a doença grave, sintomas incapacitantes persistentes após terapia medicamentosa ou cirurgia conservadora, e prole definida. E aqui entra o número que precisa ser dito no consentimento, porque muda a decisão de muita paciente: a doença recidiva, e a cirurgia não é ponto final. Se os ovários forem removidos antes dos 45 anos, é preciso considerar as consequências do hipoestrogenismo de longo prazo, e a reposição hormonal está indicada até a idade esperada da menopausa natural. O ponto que fecha este marco é o que mais protege contra a reoperação, e é medicamentoso. O protocolo nacional recomenda, depois da cirurgia conservadora, bloqueio do eixo hipotálamo-hipófise-ovário por seis meses com análogo do hormônio liberador de gonadotrofina e, em seguida, manutenção com combinado ou progestágeno por prazo indefinido, até que haja desejo de gestação. As evidências que sustentam isso são consistentes: o tratamento hormonal pós-operatório reduz a chance de recidiva em comparação a placebo ou conduta expectante, e seis meses de análogo reduziram a recorrência, enquanto três meses não fizeram diferença. Já a supressão hormonal antes da cirurgia diminui o tamanho dos implantes, mas não existe evidência de que reduza a extensão da dissecção, prolongue o tempo sem dor, aumente a fertilidade ou reduza a recorrência.

    Prescrição
    • Encaminhamento cirúrgico por indicação objetiva, e não por intensidade da dor isolada
    • Consentimento com a informação de que a doença recidiva e de que nova cirurgia é possível
    • Pós-operatório de cirurgia conservadora: análogo do hormônio liberador de gonadotrofina por 6 meses
    • Em seguida: manutenção com contraceptivo combinado ou progestágeno por prazo indefinido, até desejo de gestação
    • Ooforectomia antes dos 45 anos: reposição hormonal indicada até a idade esperada da menopausa natural
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Como saber se está funcionando

Nesta doença não existe exame que diga se o tratamento está funcionando. Não há marcador que caia, não há lesão que encolha de forma mensurável, e a imagem de controle não responde à pergunta — repetir ultrassom para saber se o hormônio está dando certo mede o aparelho e o operador, não a paciente. O desfecho é sintoma e função, e por isso ele precisa ter sido medido antes de o tratamento começar.

O protocolo nacional recomenda acompanhamento regular da evolução dos sintomas e da qualidade de vida, e menciona um instrumento validado para o português — mas ressalva, com todas as letras, que a avaliação é complementar e que a paciente deve ter acesso ao tratamento adequado mesmo que o questionário não seja aplicado. Na prática do internato, o instrumento é a pergunta de função da consulta zero, feita de novo com as mesmas palavras.

Uma advertência de segurança governa todo este bloco, e vem da régua de sociedade: em mulher já diagnosticada que volta com sintoma recorrente ou que não responde ao tratamento, é obrigatório reavaliar outras causas de dor. Não melhorar não autoriza escalonar por reflexo.

Dias de incapacidade — faltas ao trabalho ou à escola, atividades abandonadas, necessidade de se deitarMedido na consulta zero; recontado ao fim de 3 ciclos e depois a cada 6 meses

Esperado: Queda clara e contável no número de dias perdidos, com retomada de pelo menos parte do que ela havia abandonado. Não se persegue dor zero: persegue-se a devolução da vida que a dor estava consumindo

Se não melhora: Na ordem, e sem pular etapa: confirme adesão com pergunta concreta sobre esquecimentos e sobre cartelas emendadas; confirme regime, inclusive se o intervalo de sete dias do combinado devolve a dor todo mês; procure uma segunda fonte de dor — intestino irritável, cistite intersticial, disfunção miofascial do assoalho pélvico —, que é a causa mais comum de falha aparente; e só então troque de classe dentro da primeira linha. Escalonar para a segunda linha antes de completar seis meses de primeira não é apenas prematuro: é o que faz o processo do componente especializado voltar

Cada sintoma separadamente — dismenorreia, dispareunia profunda, disquezia e sintomas urinários cíclicosA cada retorno, item por item, a partir do terceiro ciclo

Esperado: Resposta desigual é a regra, e não sinal de falha: a dismenorreia costuma ceder primeiro, e a dispareunia e a dor de fundo, ligadas a foco profundo e a fibrose, cedem depois e menos. Melhora parcial em um eixo com manutenção em outro é resultado, não fracasso

Se não melhora: Se o que não cedeu foi a dispareunia, verifique se ela é de profundidade ou de entrada — dor à penetração superficial tem outros donos, e nenhum deles responde a bloqueio hormonal. Se persistem apenas os sintomas intestinais, considere que a segunda fonte de dor já estava lá antes e continua. E pergunte o item que quase ninguém repergunta: a paciente voltou a ter relações? Muita melhora de dispareunia não aparece porque a atividade sexual não foi retomada, e isso não é dado a inferir

Padrão de sangramento e escapeSemanas 1 a 12 com progestágeno ou dispositivo; reavaliação formal aos 6 meses

Esperado: O escape — sangramento irregular nas primeiras semanas a meses — é esperado e tende a reduzir, com evolução para fluxo escasso ou amenorreia. Amenorreia, aqui, é o efeito desejado, e precisa ter sido apresentada como tal — não como problema

Se não melhora: Escape persistente além de seis meses merece dois passos: excluir causa estrutural ou infecciosa, com a investigação que pertence ao capítulo do sangramento uterino anormal, e reavaliar adesão, porque esquecimento de progestágeno oral produz exatamente esse padrão. Antes de trocar o método por causa do escape, pergunte quanto ele de fato incomoda: essa é a queixa que mais leva ao abandono e a que mais some quando é explicada

Adesão real e tolerabilidadeRetorno de 4 semanas, e depois a cada consulta

Esperado: Uso contínuo, sem interrupções por conta própria, e eventos adversos toleráveis. Cefaleia, náusea, acne e alteração de humor são os mais comuns dos progestágenos e costumam atenuar

Se não melhora: Alteração de humor merece atenção própria e não deve ser tratada como efeito menor: é motivo legítimo de troca de classe, e é o efeito que a paciente menos costuma relatar espontaneamente. Ganho de peso é a queixa que mais leva à suspensão silenciosa. E há uma pergunta que resolve muita falha antes de qualquer troca — a paciente conseguiu retirar a medicação todos os meses na farmácia? Falta de estoque é causa de interrupção com a mesma frequência que efeito adverso

Segurança da segunda linha — massa óssea, e provas laboratoriais no danazolDensitometria óssea apenas se necessário, conforme avaliação clínica, após 12 meses de análogo do hormônio liberador de gonadotrofina, de acetato de medroxiprogesterona ou de desogestrel. No danazol, plaquetas, transaminases e creatinina a cada 4 meses

Esperado: Ausência de alteração relevante. O uso de progestágenos reduz o estrógeno sérico na pré-menopausa e associa-se a alteração transitória da densidade mineral óssea; nos análogos, a perda é mais acelerada, e é por isso que a terapia de adição hormonal entra desde o início e o tratamento é limitado a seis meses

Se não melhora: Alteração importante nas provas do danazol manda suspender o medicamento. Perda óssea documentada leva o acompanhamento ao protocolo nacional de osteoporose, e não a este. Vale registrar uma incoerência do próprio protocolo, para não hesitar diante dela: o texto fala em monitorar o danazol a cada 4 a 6 meses e o quadro de monitoramento fixa 4 meses — entre as duas, adote o intervalo menor, porque é o que o quadro operacional determina e o que a farmácia vai cobrar na renovação

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Onde o erro machuca

Aceitar o "não, não atrapalha" e encerrar a consulta ali

O dano: É o erro que produz o número que define esta doença. A mulher que convive com dor desde a adolescência recalibrou a própria escala e aprendeu, em consultas anteriores, que a resposta esperada é minimizar. O "não" que ela dá não é informação: é o resultado de uma pergunta mal feita. Enquanto isso, o intervalo entre o primeiro sintoma e o diagnóstico segue correndo — 8 a 12 anos pela régua nacional, sete pela de sociedade —, e nesse intervalo a doença progride de dor cíclica para dor diária, acumula fibrose e aderência, e chega à investigação de infertilidade já avançada. O dano não é diagnóstico atrasado: é doença mais difícil de tratar e fertilidade perdida.

Como pegar a tempo: Não pergunte intensidade. Pergunte função, com unidades contáveis: quantos dias de trabalho ou de aula você faltou nos últimos três meses? Você já saiu mais cedo de algum lugar por causa disso? Tem coisa que você deixou de marcar em dia de menstruação? Precisa se deitar? E deixe o silêncio depois da primeira resposta — a informação que reorganiza a consulta costuma vir dois segundos depois do "não". Escreva o número no prontuário: ele é o diagnóstico funcional e é a linha de base do tratamento.

Ler o ultrassom normal como ausência de doença

O dano: É o segundo momento em que a paciente é devolvida à fila, e é mais destrutivo que o primeiro, porque agora ela tem um papel que parece prová-lo. Cerca de 70% dos casos são endometriose peritoneal ou superficial, e essas lesões nem sempre aparecem em qualquer exame de imagem — o protocolo nacional afirma explicitamente que a imagem não é capaz de excluir o diagnóstico. Pior: o exame que costuma estar no prontuário é um transvaginal de rotina, sem preparo intestinal e sem mapeamento, que não foi feito para responder a essa pergunta. A frase "o exame não mostrou nada" é ouvida como "não tem nada", e a paciente que a ouve raramente volta para insistir.

Como pegar a tempo: Diga o que o exame responde antes de pedi-lo, e repita ao entregar o resultado: ele procura endometrioma e lesão profunda, e não enxerga lesão superficial. Se a história preenche o critério nacional de tratamento empírico, trate — a imagem corre em paralelo e serve ao planejamento cirúrgico. E quando pedir, peça o exame certo, com preparo intestinal e mapeamento por compartimentos, por escrito no pedido; laudo de "útero e anexos sem alterações" não respondeu a nenhuma das perguntas que interessam.

Prescrever bloqueio hormonal a quem está tentando engravidar

O dano: Parece cuidado e é subtração. Todo o tratamento hormonal de primeira e de segunda linha funciona produzindo anovulação, de modo que prescrevê-lo a quem busca gravidez impede exatamente o desfecho procurado, pelo tempo em que durar. E o dano não é apenas ausência de benefício: as duas réguas brasileiras registram que a supressão ovariana não melhora a fertilidade nessas pacientes, e o tempo consumido é o de alguém cuja janela reprodutiva já está reduzida pela própria doença. Seis meses de bloqueio numa mulher de 36 anos que já tentava há dois é um custo que não se recupera.

Como pegar a tempo: Pergunte sobre desejo de gravidez na consulta zero, com prazo, e escreva a resposta no prontuário — antes de escolher a droga, e não depois. Quem quer engravidar agora entra na investigação da infertilidade do casal, com avaliação do parceiro, e segue para o serviço que a conduz; a analgesia sintomática continua. Quem tem endometrioma e planeja gestação precisa da conversa sobre reserva ovariana e preservação de fertilidade antes de qualquer proposta cirúrgica.

Indicar cirurgia por dor sem ter tratado clinicamente e sem procurar a segunda fonte de dor

O dano: É o erro de fim de trajetória, e ele custa caro nas duas direções. Numa paciente cuja dor tem componente miofascial, de intestino irritável ou de cistite intersticial associado, a exérese dos focos remove o que estava visível e deixa intacta a fonte que estava produzindo boa parte do sintoma: ela acorda do procedimento com as mesmas queixas, agora convencida de que nada mais pode ser feito. Em quem sequer completou três meses de primeira linha, a cirurgia antecipa risco anestésico e cirúrgico para obter algo que o comprimido obteria. E há o dado que precisa constar do consentimento em qualquer cenário: a doença recidiva, e a cirurgia não é ponto final.

Como pegar a tempo: Antes de encaminhar, cheque três coisas. Primeira: houve tratamento clínico adequado, em dose e tempo, com adesão real? Segunda: existe indicação objetiva na lista — endometrioma em crescimento ou maior que 4 cm, distorção anatômica, suboclusão intestinal, lesão ureteral com dilatação, infertilidade associada, ou uma das situações em que a régua de sociedade diz que o tratamento clínico não deve ser usado? Terceira: foi procurada uma segunda fonte de dor? Se a resposta à segunda pergunta for sim, encaminhe sem hesitar, porque essas indicações não esperam. Se for não, o caminho ainda é clínico. E, quando a cirurgia acontecer, garanta o que mais protege contra a reoperação: bloqueio hormonal por seis meses com análogo e manutenção depois.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa desta doença tem uma dificuldade que nenhuma outra deste caderno tem: a pessoa à sua frente já foi descrita, por colegas seus, como exagerada. Ela chega com a expectativa de não ser levada a sério, e essa expectativa é baseada em evidência — a evidência dos sete a doze anos que ela viveu. Isso muda a ordem das coisas. Antes de explicar a doença, é preciso desfazer a explicação anterior, e isso não se faz criticando quem atendeu antes: faz-se validando o que ela sentiu.

Há uma segunda dificuldade, e é a das promessas. O tratamento controla o quadro sem curar, a melhora costuma ser parcial e desigual entre os sintomas, e a doença recidiva depois da cirurgia. Um capítulo que ensinasse a prometer alívio produziria abandono no terceiro mês. As falas abaixo tentam o contrário: dizer a verdade de um jeito que sustente o tratamento.

A frase de abertura, depois de você ter ouvido a história inteira

"Eu quero começar dizendo uma coisa: o que a senhora tem tem nome. Chama endometriose, é uma doença, e não é frescura nem baixa tolerância a dor. O que acontece é que um tecido parecido com o que reveste o útero por dentro cresceu fora dele — na parte de trás do útero, perto do intestino — e ele sangra junto com a menstruação. Só que ali não tem para onde escoar, então inflama e dói. Isso explica a cólica que piorou com os anos, explica a dor no fundo na relação e explica a dor para evacuar nos dias de menstruação. É tudo a mesma coisa, em lugares diferentes."

Não diga: Evite começar pela fisiopatologia ou pela estatística. E evite, sobretudo, abrir com "provavelmente é endometriose, mas precisaríamos confirmar" — a palavra "provavelmente" na primeira frase reabre a dúvida que ela veio combater, e o protocolo nacional autoriza tratar pela suspeita clínica justamente para não fazer isso.

Ela pergunta, entre indignada e desconfiada: "então por que ninguém descobriu antes?"

"Porque essa doença não aparece em exame de rotina e os sintomas dela se parecem com coisas comuns. Cólica é comum, dor de intestino é comum, e cada consulta resolveu o pedaço que ouviu. O que quase nunca acontece é alguém juntar os pedaços na mesma conversa — e é isso que a gente fez hoje. Não foi a senhora que demorou a contar; foi a pergunta que não foi feita. A senhora está falando disso desde os catorze anos."

Não diga: Evite defender os colegas anteriores e evite atacá-los. Defender soa a corporativismo e a paciente sente que você está do outro lado; atacar transfere para ela a tarefa de administrar a raiva no meio de uma consulta em que ela precisa decidir um tratamento. A saída é a terceira: explicar o mecanismo do erro sem culpar ninguém, e devolver a ela a informação de que ela contou certo.

Ela pede o exame que confirme: "não dá para fazer uma cirurgia e ver?"

"Dá, mas hoje não se faz mais para descobrir — só para tratar, quando é preciso. E tem um motivo prático: o tratamento que eu vou começar agora é exatamente o mesmo com ou sem a cirurgia. Se eu mandar a senhora para a fila da laparoscopia primeiro, a senhora vai esperar meses, com anestesia geral e risco no meio, para chegar ao mesmo remédio. A recomendação nacional é começar pela história e pelo exame, como a gente fez, porque não há benefício em atrasar o tratamento esperando confirmação. Se em alguns meses o remédio não resolver, aí sim a gente reavalia — inclusive a cirurgia."

Não diga: Evite dizer que a cirurgia "não serve" ou que "não é indicada" — ela é, em situações específicas, e a paciente que ouvir a versão simplificada vai desconfiar de você quando outra colega indicar. Evite também prometer a laparoscopia como plano B automático: a indicação depende de critérios objetivos, e não da vontade de confirmar.

O ultrassom voltou normal e ela chega desanimada com o papel na mão

"Esse exame normal era o resultado que eu esperava, e eu vou explicar por quê. Ele enxerga bem cisto de ovário e nódulo mais profundo. O que ele não enxerga é a forma mais comum da doença, que são lesões finas na superfície — a maior parte dos casos é assim. Então esse papel não diz que a senhora não tem; ele diz que não tem cisto nem nódulo grande, o que é uma boa notícia para a cirurgia e não muda nada no diagnóstico. O que sustenta o diagnóstico é a sua história e o que eu encontrei no exame de toque, e isso continua igual."

Não diga: Evite a frase "não deu nada", mesmo em tom tranquilizador — é exatamente a frase que ela ouviu nos últimos dez anos, e ela vai ouvir de novo o mesmo significado. E evite pedir outro exame só para ocupar o lugar da frustração: repetir imagem normal não muda a conduta e ensina que a resposta está no papel.

Antes de ela sair com a primeira receita — o aviso que segura a adesão

"Três coisas para a senhora já sair sabendo, porque elas vão acontecer. A primeira: nas primeiras semanas pode aparecer sangramento fora de hora, às vezes por alguns meses. Isso é esperado e não é o remédio dando errado. A segunda: a dor não some em duas semanas. Ela melhora ao longo de dois, três ciclos, e é por isso que a nossa conversa de verdade é daqui a três meses. Até lá, para os dias de cólica, o anti-inflamatório começando no primeiro dia e mantido por três a cinco dias — não espere a dor ficar forte para tomar. E a terceira: se a menstruação diminuir muito ou parar, isso não é problema. É o efeito que a gente quer."

Não diga: Evite deixar esses avisos para o retorno. O abandono acontece nas primeiras quatro semanas e a causa mais comum é o escape não avisado. E evite dizer "pode ter alguns efeitos colaterais" em bloco: o aviso genérico não protege ninguém — o que protege é nomear o que vai acontecer e dizer por quanto tempo.

Ela pergunta o que mais importa para ela: "e eu vou conseguir engravidar?"

"Eu não sei, e não quero inventar uma resposta. O que eu sei é o seguinte: essa doença dificulta em parte das mulheres e não impede em muitas outras, e a única maneira de saber onde a senhora está é investigando — não é esperando. Então eu vou fazer duas coisas hoje. Vou tratar a sua dor, porque isso a senhora precisa de qualquer jeito. E vou encaminhar a investigação de gravidez, que inclui o seu marido também, porque metade das causas está do outro lado e ninguém investigou. O que eu não vou fazer é te dar um remédio que impeça a gravidez enquanto a senhora está tentando — e é isso que a maioria dos tratamentos para a dor faz. Por isso essa pergunta que a senhora acabou de fazer muda o meu plano inteiro."

Não diga: Evite tranquilizar com "vai dar tudo certo" e evite o extremo oposto, "com endometriose é difícil". As duas frases são chutes, e as duas fecham a conversa: a primeira faz a paciente adiar a investigação, a segunda a faz desistir dela. Evite também tratar a infertilidade como assunto de outra consulta — a resposta a essa pergunta decide a receita de hoje.

A cirurgia entrou no horizonte e é preciso falar de recidiva

"A cirurgia vale a pena no seu caso, e eu vou explicar o que ela faz e o que ela não faz. Ela retira os focos e desfaz as aderências, e isso costuma melhorar bastante a dor. O que ela não faz é acabar com a doença de vez: os focos podem voltar, e existe a possibilidade de precisar de outra cirurgia lá na frente. É por isso que, depois de operar, a gente não para — a senhora vai fazer um bloqueio hormonal por seis meses e depois seguir com um comprimido por tempo indeterminado. Não é insistência minha: é o que mais reduz a chance de tudo voltar. Se a senhora quiser engravidar em algum momento, a gente para o bloqueio e conversa nessa hora."

Não diga: Evite apresentar a cirurgia como solução definitiva, mesmo para animar — a paciente que opera acreditando em cura e tem recidiva em dois anos perde a confiança no tratamento inteiro, inclusive no clínico. E evite deixar o tratamento pós-operatório para o cirurgião: é a conversa de quem acompanha, e se ela não for feita antes, a paciente sai do centro cirúrgico achando que terminou.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O contraceptivo combinado deve ser usado com pausa mensal ou de forma contínua?

O quadro nacional escreve o regime clássico, com 21 dias e pausa de 7

O esquema de administração do protocolo em vigor descreve, para o etinilestradiol com levonorgestrel, um comprimido por dia por 21 dias, com intervalo de sete dias antes da cartela seguinte. É o regime contraceptivo padrão, com sangramento de privação a cada mês. Quem segue o quadro ao pé da letra prescreve assim, e tem a favor um argumento de acesso: é o regime que a bula descreve, o que a cartela do Componente Básico traz e o que a paciente vai encontrar explicado na caixa.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SAPS/SCTIE nº 54, de 2 de junho de 2026 — Quadro 1

Não há consenso, e a escolha entre contínuo e cíclico é individual

A régua brasileira de sociedade registra que nenhuma combinação se mostrou superior à outra no tratamento clínico da endometriose e que ainda não há consenso sobre se a administração deve ser contínua ou cíclica, nem sobre a forma de apresentação. A mesma comissão afirma que os progestágenos usados de forma contínua produzem bloqueio ovulatório e são efetivos no controle da dor, o que dá ao regime sem pausa um racional de mecanismo — mas ela não converte esse racional em recomendação para o combinado.

Febrasgo. Endometriose. Femina. 2025;53(6):853-8 — Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 27

Na adolescência, o regime estendido é o recomendado

O protocolo brasileiro dedicado à dismenorreia e à endometriose na adolescência é o único dos três a fechar a questão, e fecha a favor do contínuo: recomenda, para adolescentes, regime estendido, com o objetivo explícito de reduzir a sintomatologia. O argumento é o do mecanismo levado às últimas consequências — se a dor acompanha o ciclo e o tecido responde ao estrogênio, cada pausa é uma janela em que o estímulo volta.

Febrasgo. Dismenorreia e endometriose na adolescência. Femina. 2025;53(12):1398-402 — Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 76

Como decidir

A divergência é de grau, e o dado que a resolve para a paciente à sua frente vem da própria história dela: onde, no mês, a dor está? Se a dor se concentra nos dias de sangramento e reaparece pontualmente na semana de pausa, o regime estendido responde diretamente ao que ela descreve, e o risco de errar é baixo e reversível — se não melhorar em dois ou três ciclos, volta-se ao cíclico. Se a dor é diária e sem relação clara com o calendário, o regime importa menos do que investigar a segunda fonte de dor, e mudar de esquema só adiciona ruído. Dois fatores práticos entram na decisão e costumam pesar mais que a teoria: o escape, que é mais frequente no regime sem pausa e é a principal causa de abandono, e a preferência da paciente — há quem se tranquilize com a menstruação mensal e há quem queira exatamente não menstruar. Pergunte, porque a resposta muda a adesão, que é o que de fato decide o resultado. E registre a escolha, com o motivo, para que o próximo profissional não a desfaça sem saber por quê.

Qual progestágeno oral usar: o que a sociedade prescreve, ou o que o Sistema Único de Saúde paga?

A régua de sociedade lista noretindrona, dienogeste e gestrinona como as orais de uso contínuo

O protocolo da comissão nacional especializada nomeia, entre as medicações orais que podem ser utilizadas de forma contínua, o acetato de noretindrona na dose de 2,5 a 10 mg ao dia, o dienogeste na dose de 2 mg ao dia e a gestrinona na dose de 2,5 a 5 mg ao dia, reafirmando que o uso é por via oral porque outras vias são off-label até o momento. É o que consta na literatura brasileira de especialidade e o que o interno vai ver prescrito no ambulatório de referência e na rede privada.

Febrasgo. Endometriose. Femina. 2025;53(6):853-8 — Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 27

A avaliação nacional de tecnologias recusou dois desses e incorporou um terceiro

O relatório que avaliou os progestágenos orais para endometriose comparou dienogeste, noretisterona e desogestrel, e a decisão foi por unanimidade em cada item: incorporar o desogestrel, não incorporar o acetato de noretisterona de 10 mg e não incorporar o dienogeste. A recusa não se deu por falta de eficácia — a mesma análise encontrou o dienogeste superior ao combinado na dismenorreia e na recorrência, e o considerou custo-efetivo, com razão de custo-utilidade incremental de R$ 11.227 contra um limiar de R$ 40.000. O que decidiu foi a comparação relativa: o desogestrel também reduziu escores de dor pélvica, dismenorreia e dispareunia frente ao combinado, sem diferença de qualidade de vida e de segurança entre as tecnologias, e o cenário com desogestrel foi dominante, com redução de custo. A noretisterona ficou de fora por outro motivo, esse sim econômico: razão incremental de R$ 121.855, três vezes acima do limiar.

Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Progestágenos orais para o tratamento de endometriose. Relatório de Recomendação nº 1003, maio de 2025, e Portaria SECTICS/MS nº 43, de 30 de maio de 2025

Como decidir

Não há aqui divergência sobre o que funciona: as duas posições concordam que os progestágenos orais aliviam a dor e que se equivalem entre si. A divergência é sobre qual deles a rede pública sustenta, e ela se decide pela paciente que está na sua frente, não pela preferência da literatura. Na unidade básica, prescrever dienogeste é prescrever o que a paciente vai comprar — 2 mg ao dia, todos os dias, indefinidamente, numa doença crônica — e a maioria não compra, ou compra por três meses e para. Um progestágeno que a paciente toma vale mais do que um que ela não toma, e o desogestrel é o que ela retira sem processo. Reserve a discussão de dienogeste para quem tem condição de arcar, para quem já falhou ao desogestrel com adesão comprovada, ou para quando você estiver escrevendo um laudo de exceção com justificativa clínica — e, nesse caso, escreva a justificativa em termos de falha documentada, não de preferência. E antecipe o descompasso administrativo: o desogestrel foi incorporado em maio de 2025 e ainda não consta da edição vigente da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais, de modo que confirmar a disponibilidade local antes de prescrever não é zelo excessivo — é o que evita a receita que volta.

O anti-inflamatório é filtro diagnóstico, tratamento sem evidência, ou primeira linha da dor?

É filtro: a falha dele é critério formal de acesso ao tratamento

O protocolo nacional em vigor coloca o anti-inflamatório dentro do critério de inclusão. Para tratamento empírico com combinado, progestágenos ou dispositivo intrauterino, a paciente precisa ter dispareunia ou dismenorreia progressivas por mais de seis meses, sem causa orgânica aparente e — a condição que interessa aqui — sem resposta ao uso de analgesia usual com anti-inflamatórios não esteroides. Ou seja: no desenho nacional, a tentativa com anti-inflamatório não é opcional nem é apenas conforto; é o passo que autoriza o passo seguinte.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Endometriose, aprovado pela Portaria Conjunta SAES/SAPS/SCTIE nº 54, de 2 de junho de 2026 — critérios de inclusão

Não há evidência para o anti-inflamatório nesta doença

A régua brasileira de sociedade é explícita e classifica a afirmação no nível mais baixo de evidência: os anti-inflamatórios não hormonais são frequentemente utilizados na dismenorreia primária, porém não existe evidência científica para o uso nas pacientes com endometriose. A leitura que decorre disso é que a droga alivia o componente prostaglandínico que qualquer menstruação tem, e não o gerador da dor da doença — inflamação crônica, fibrose e nervo sensibilizado.

Febrasgo. Endometriose. Femina. 2025;53(6):853-8 — Protocolo Febrasgo de Ginecologia nº 27

É primeira escolha na dismenorreia, e é a falha dele que levanta a suspeita

O protocolo de adolescência trata o anti-inflamatório como medicamento de primeira escolha na dismenorreia primária, com instrução operacional detalhada: iniciar imediatamente após o começo do fluxo, ou 1 a 2 dias antes em quem dói antes, tomar com as refeições e manter por 3 a 5 dias; na falta de resposta a uma classe, trocar de classe ou associar tratamento hormonal. E fecha o raciocínio no mesmo sentido do protocolo nacional: se a dor não melhora com anti-inflamatório e contraceptivo hormonal, o diagnóstico de dismenorreia secundária, particularmente endometriose, deve ser considerado.

Febrasgo. Dismenorreia e endometriose na adolescência. Femina. 2025;53(12):1398-402 — Protocolo Febrasgo de Obstetrícia nº 76

Como decidir

As três posições são compatíveis se você separar duas perguntas que costumam vir grudadas: o anti-inflamatório trata a endometriose, e o anti-inflamatório serve para alguma coisa nesta paciente? A primeira resposta é não, e a régua de sociedade está certa ao dizer isso — quem espera que o anti-inflamatório resolva a doença vai prescrevê-lo por anos, e é exatamente essa a prescrição que aparece nos prontuários das mulheres que esperaram uma década. A segunda resposta é sim, por dois motivos que nada têm a ver com tratar a doença: ele produz a informação diagnóstica que o critério nacional exige, e alivia a dismenorreia enquanto o bloqueio hormonal ainda não fez efeito, nos dois ou três primeiros ciclos. Decida assim: prescreva o anti-inflamatório com esquema correto e prazo definido, registre o resultado no prontuário porque ele é o dado que abre o acesso ao tratamento, e não o deixe correndo sozinho por mais de um ou dois ciclos numa paciente com história típica. E confira a dose contra a apresentação real antes de escrever — o quadro de anti-inflamatórios do protocolo de adolescência traz uma linha de paracetamol de 325 a 1.000 mg a cada 4 ou 6 horas, sem teto diário: no extremo superior, 1.000 mg de 4 em 4 horas dá 6.000 mg por dia, contra o máximo de 4.000 mg em 24 horas que a bula profissional fixa, com dose única de até 1.000 mg. São 2.000 mg de excesso, 50% acima do teto — e o paracetamol, além disso, não é anti-inflamatório.

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O raciocínio, em voz alta

Marilene Sampaio tem 33 anos, é auxiliar de cozinha numa escola municipal e vem à unidade básica por cólica. A dor começou aos quinze e piorou nos últimos seis anos. Usa contraceptivo combinado há quatro anos, tomado certinho, e ainda assim tem dois ou três dias por mês em que não vai trabalhar. Nos dias de fluxo, dói para evacuar. Não tem filhos, não usa outro método, e diz que "não pensa nisso agora". Trouxe um ultrassom transvaginal de rotina do ano passado, com laudo de útero e ovários sem alterações. Ao exame: abdome indolor; ao toque, útero de tamanho normal, com mobilidade reduzida, e dor à palpação do fundo de saco posterior, sem massa palpável.

  1. Passo 1 — o que penso antes de qualquer exame

    Três dados fecham a hipótese sem que eu precise pedir nada. O primeiro é a progressão: dor que existe desde a adolescência e piorou ao longo de seis anos não é o padrão da dismenorreia primária, que é estável ou melhora com a idade. O segundo é a falha das duas linhas do tratamento da dismenorreia primária — ela usa contraceptivo combinado, com adesão, e continua perdendo dois a três dias por mês. Esse é o critério que mais aponta dismenorreia secundária, e a endometriose é a primeira causa dessa lista. O terceiro é a disquezia com calendário: dor para evacuar que só aparece nos dias de fluxo tem endereço provável, que é a parede anterior do reto ou o septo retovaginal. Somados, dois de três já bastariam.

  2. Passo 2 — o que faço com o exame que ela trouxe

    O ultrassom normal não muda nada, e é importante que eu diga isso a ela nesta consulta, não na próxima. Ele é um transvaginal de rotina, sem preparo intestinal e sem mapeamento por compartimentos, e mesmo o exame certo não excluiria a doença: cerca de 70% dos casos são peritoneais ou superficiais, e essas lesões não aparecem. O que o exame dela informa é que não há endometrioma grande nem massa anexial — informação útil e limitada. Se eu tratar esse laudo como prova de ausência, repito o erro que já está no prontuário dela.

  3. Passo 3 — o toque, e o que ele acrescenta

    O exame físico aqui foi positivo, e isso encurta o caminho. Útero de tamanho normal com mobilidade reduzida sugere aderência pélvica; dor à palpação do fundo de saco posterior é um dos achados que o protocolo nacional lista. Nenhum dos dois é patognomônico, e um exame normal não teria afastado nada — mas, tendo vindo positivo, ele preenche o segundo critério de inclusão do tratamento empírico, o que exige exame físico compatível. Ela já preenchia o primeiro, por dismenorreia progressiva com falha da analgesia. Não preciso de mais nada para prescrever.

  4. Passo 4 — a pergunta que decide a receita

    Antes de escolher a droga, pergunto sobre gravidez com prazo, e não me contento com "não penso nisso agora". Marilene responde que gostaria em uns dois anos, e que já tentou por alguns meses no ano passado sem sucesso. Isso muda duas coisas. Primeira: não sou eu quem trata a infertilidade, mas sou eu quem a identifica — mulher com endometriose provável e tentativa sem sucesso entra em investigação do casal, com avaliação do parceiro, e não em espera. Segunda: como ela não busca gravidez neste momento, o bloqueio hormonal está indicado agora, e a conversa sobre quando pará-lo fica agendada.

  5. Passo 5 — o que prescrevo, e o que meço

    Ela manteve dor incapacitante no esquema combinado usado com adesão. Isso justifica rever regime e outras causas de dor; não exclui toda a classe, pois o uso contínuo pode ser discutido se elegível. Neste caso, opto com ela por um progestágeno isolado, escolhendo pela disponibilidade da unidade e pela preferência dela: desogestrel 0,075 mg, um comprimido por via oral ao dia, sem intervalo entre cartelas, se houver na farmácia; se não houver, acetato de medroxiprogesterona injetável 150 mg por via intramuscular, com repetição a cada 12 a 13 semanas. Aviso o escape das primeiras semanas e aviso que a dor melhora ao longo de ciclos. Para os dias de cólica, ibuprofeno 600 mg de 8 em 8 horas, começando no primeiro dia do fluxo e mantido por 3 a 5 dias. E registro o número que vou recontar em três meses: dois a três dias de falta por mês.

  6. Variação do caso — resposta e reavaliação

    Variação do retorno de Marilene: a cólica melhora, mas a dor na relação persiste. Caracterizar o sintoma residual e avaliar assoalho pélvico e outras causas, mantendo abordagem da endometriose. A resposta parcial ajuda a escolher o próximo componente do cuidado.

  7. Variação do caso — quando mudar o plano

    Se continua faltando ao trabalho apesar do uso adequado, rever regime, tolerância e objetivo reprodutivo e encaminhar para avaliação especializada. Dor aguda nova ou sinais de obstrução exigem outra urgência. Não prolongar indefinidamente a mesma receita nem atribuir toda dor nova à doença conhecida.

O diagnóstico foi feito na consulta, sem exame novo, e o tratamento começou no mesmo dia. O que fechou não foi um achado: foi a soma de progressão, falha das duas linhas da dismenorreia primária, sintoma de endereço com calendário e um toque positivo — e cada um desses dados esteve disponível em todas as consultas anteriores dela. Repare no que não foi pedido: nenhum CA-125, nenhuma laparoscopia, nenhum ultrassom de repetição. E repare no que quase foi perdido: a pergunta sobre gravidez veio depois da hipótese e antes da receita, que é o único lugar em que ela cabe. Se tivesse vindo depois, Marilene teria saído com seis meses de bloqueio hormonal e uma investigação de infertilidade adiada por seis meses que ela não tem.

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Faça você

Sueli Trindade tem 41 anos, dois filhos, prole definida, e é operadora de telemarketing. Tem endometriose diagnosticada há oito anos. Foi operada há três, por laparoscopia, com exérese de focos e de um endometrioma à esquerda. Saiu do hospital sem prescrição hormonal — ninguém falou nisso, e ela também não perguntou. Ficou um ano e meio quase sem dor. Há um ano a cólica voltou, e nos últimos seis meses passou a doer quase todo dia, com piora na menstruação. Usou contraceptivo combinado por quatro meses, sem melhora, e parou por conta própria. Refere também distensão abdominal, alternância entre constipação e diarreia sem relação com o ciclo, e urgência miccional. Ao exame, o abdome é doloroso à palpação superficial da parede, e a dor aumenta quando ela contrai a musculatura abdominal. Ao toque, útero pouco móvel e dor difusa. Traz ultrassom com preparo intestinal, feito há dois meses, que descreve pequeno nódulo retrocervical de 8 mm, sem acometimento intestinal e sem endometrioma.

  1. Passo 1 — as duas leituras que este caso permite

    Dois elementos organizam este caso e puxam em direções opostas. O primeiro é a recidiva, que era esperada: ela operou e não recebeu bloqueio hormonal depois, e é exatamente essa a omissão que mais se associa a retorno dos sintomas. O segundo é que a dor mudou de natureza — era cíclica, hoje é quase diária —, e dor diária num quadro assim raramente tem uma fonte só.

  2. Passo 2 — o que os sintomas novos me dizem

    Distensão abdominal com alternância de hábito intestinal sem relação com o ciclo não é o padrão da endometriose intestinal, que respeita o calendário. Urgência miccional sem disúria cíclica também não é. E o achado de parede — dor à palpação superficial que aumenta com a contração da musculatura abdominal — aponta um gerador que nenhum hormônio alcança. Nenhuma dessas três coisas exclui a endometriose; todas indicam que ela não está sozinha.

  3. Passo 3 — o que o exame de imagem responde e o que ele não responde

    O ultrassom com preparo é o exame certo e foi feito. Ele mostra um nódulo retrocervical de 8 mm e afasta acometimento intestinal e endometrioma — isto é, afasta as indicações cirúrgicas objetivas de suboclusão, de endometrioma maior que 4 cm e de lesão ureteral com dilatação. O que ele não faz é medir a dor: um nódulo de 8 mm não explica, sozinho, dor diária, e reoperar por causa dele seria decidir pelo achado e não pela pergunta.

  4. Passo 4 — o ponto em que a decisão fica com você

    Sueli quer uma solução e chega pedindo nova cirurgia, ou histerectomia, porque "já tenho meus filhos". Ela usou combinado por quatro meses sem melhora e parou sozinha. Não há indicação cirúrgica objetiva na imagem. Existem três sinais de segunda fonte de dor. Qual é a conduta, e o que você diz a ela?

Ver como fecharíamos

A próxima etapa é reavaliar o mecanismo da dor e os tratamentos já usados antes de decidir nova cirurgia ou mudança hormonal. Comece pelo que a régua manda fazer diante de sintoma recorrente ou refratário: reavaliar outras causas de dor. Os três sinais de parede, intestino e bexiga têm donos próprios, e pelo menos o componente miofascial de parede abdominal é tratável por fisioterapia do assoalho pélvico e por abordagem da dor, sem hormônio e sem bisturi. Em paralelo, reponha o que faltou depois da cirurgia: ela nunca fez o bloqueio pós-operatório, e o combinado que usou por quatro meses foi interrompido por conta própria — antes de chamar isso de falha, é preciso um curso adequado, e a troca para progestágeno isolado contínuo é razoável tanto pela falha aparente quanto pela idade. Se, depois de três meses de tratamento com adesão comprovada e de manejo da segunda fonte, a dor persistir, aí se discute a segunda linha, que é o análogo do hormônio liberador de gonadotrofina por até seis meses com terapia de adição hormonal — e é essa falha documentada, e não o pedido, que abre a porta da reoperação. À paciente, diga o que ela precisa ouvir e ninguém disse na alta: parte da dor de hoje veio de um tratamento que foi interrompido antes de existir, e parte não é endometriose — e essa parte não some com cirurgia nenhuma. Histerectomia numa mulher cuja dor tem componente de parede e de intestino entrega útero perdido e a mesma dor no pós-operatório.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A falha das duas linhas do tratamento da dismenorreia primária é o critério de maior peso, e o motivo é mecanístico. A dor da dismenorreia primária é mediada por prostaglandinas: o anti-inflamatório inibe a produção delas e, tomado no esquema certo, funciona; o contraceptivo hormonal acrescenta alívio por reduzir o estímulo cíclico. Quando as duas classes falham em conjunto, o gerador da dor é outro — inflamação crônica, fibrose e nervo sensibilizado —, e a régua brasileira de sociedade lista a endometriose como a primeira causa de dismenorreia secundária. Os demais dados descrevem a dismenorreia primária: início no começo do fluxo, duração entre 8 e 72 horas, sintomas sistêmicos por prostaglandinas, aparecimento 6 a 12 meses após a menarca e irradiação para coxas e região lombar. Nenhum deles distingue as duas condições, porque todos são compatíveis com a mais comum.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Escreva de memória, sem consultar: (1) a pergunta que substitui a escala de dor nesta doença, e as três perguntas de detalhamento que vêm depois dela; (2) os quatro eixos que separam dismenorreia primária de secundária, e qual deles pesa mais; (3) as duas vias alternativas do critério nacional de tratamento empírico — e qual delas não exige exame nenhum; (4) o que a imagem responde e o que ela não responde, com o número que explica por quê; (5) os três exames que não se pede, e o custo de pedir cada um; (6) a pergunta que bifurca o tratamento inteiro. Depois confira, e marque só o que faltou. Aplicação comentada: Dor persiste apesar de melhora do sangramento. Reavalie adesão, hipótese, componente muscular e outras causas; não presuma que aumentar supressão resolverá tudo.

Em 30 dias

Volte ao caso de Marilene. Altere um único elemento da história e diga, em voz alta, qual passo do plano se desloca. Se ela respondesse que quer engravidar nos próximos meses, o que sai da receita e o que entra no encaminhamento? Se o toque tivesse sido inteiramente normal, ela ainda preencheria algum critério de tratamento empírico — e por qual via? Se ela nunca tivesse usado contraceptivo hormonal, qual seria a primeira linha e por quê? Se tivesse enxaqueca com aura, o que isso subtrai da lista? Se o ultrassom com preparo mostrasse endometrioma de 5 cm em crescimento, o que muda no encaminhamento? E se, três meses depois, ela voltasse dizendo que a cólica melhorou mas a dor na relação continua igual — isso é falha do tratamento, e o que você faz antes de trocar de classe? Em seguida, refaça o mesmo exercício com Sueli, mudando um dado: se o ultrassom com preparo mostrasse acometimento do retossigmoide com suboclusão, a conduta ainda seria clínica?

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Agora atenda

Agora atenda a mulher que chega pedindo um remédio mais forte para cólica. Ela não traz laudo, não traz encaminhamento e vai começar dizendo que não é nada. Sua tarefa nesta estação não é pedir exame: é fazer a pergunta que ela não espera, somar os sintomas que ela vai contar em pedaços, examinar procurando mobilidade e ponto doloroso, decidir se ela preenche o critério de tratamento empírico e sair da sala com um plano — inclusive tendo perguntado, com prazo, o que ela pretende sobre gravidez.

Endometriose — Internato | OsceLabs