Clínica Médica › Hematologia e Hemoterapia
O que cresce sem pressa
Neoplasias hematológicas crônicas (mieloma múltiplo, mielodisplasia, mieloproliferativas)
Mieloma e gamopatia monoclonal, síndrome mielodisplásica e neoplasias mieloproliferativas: separar o clone da reação, achar a urgência dentro da doença lenta e saber por qual porta do SUS cada paciente passa
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 27, de 5 de dezembro de 2023 — aprova as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Mieloma Múltiplo. Diário Oficial da União, 11 dez. 2023
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Portaria Conjunta nº 22, de 3 de novembro de 2022 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome Mielodisplásica de Baixo Risco
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 38, de 21 de janeiro de 2026 — aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Sobrecarga de Ferro
Tavares RS, Nonino A, Pagnano KBB, et al. Guideline on myeloproliferative neoplasms: Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular — Project guidelines: Associação Médica Brasileira, 2019. Hematology, Transfusion and Cell Therapy 2019;41(Suppl 1):1-73. doi:10.1016/j.htct.2019.03.001
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, TelessaúdeRS-UFRGS; Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Protocolos de encaminhamento para Hematologia adulto. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; versão digital 2023
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. ISBN 978-65-5993-501-7
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024 (Portaria GM/MS nº 6.324/2024). ISBN 978-65-5993-710-3
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas — PCDT, lista por ordem alfabética. Portal gov.br, páginas das letras M, N, P, S e T, consultadas em 13 de setembro de 2026
National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Suspected cancer: recognition and referral. NICE guideline NG12, publicada em 2015, atualizada em 2026
Walsh J, Gittoes N, Selby P; Society for Endocrinology Clinical Committee. Society for Endocrinology Endocrine Emergency Guidance: Emergency management of acute hypercalcaemia in adult patients. Endocrine Connections 2016;5(5):G9
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Endocrine Society. Treatment of Hypercalcemia of Malignancy in Adults, 2022/2023. https://www.endocrine.org/clinical-practice-guidelines/hypercalcemia
Dimopoulos MA et al. IMWG recommendations on myeloma-related renal impairment, 2023. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37414019/
Novartis. Exjade, comprimido para suspensão: bula profissional brasileira disponibilizada em 2026. https://www.pro.novartis.com/br-pt/sites/pro_novartis_com_br/files/2026-01/Bula-EXJADE-Comprimido-para-Suspensao-Medico.pdf
Responda antes de ler
Homem de 69 anos com mieloma múltiplo recém-diagnosticado aguarda transferência para hospital habilitado. A proteína M sérica é de 6,2 g/dL. Desde ontem, refere cefaleia e visão borrada; cálcio e glicemia estão normais, e o exame neurológico não mostra déficit focal. O laboratório do hospital não dosa viscosidade sérica. Segundo as diretrizes nacionais do mieloma, o próximo passo na investigação é:
O paciente que você vai ver
Terça-feira, sete e cinco da noite. O hospital geral da cidade tem cento e quarenta leitos, e a clínica médica ocupa o terceiro andar inteiro. Tem nefrologista de sobreaviso, tomógrafo e laboratório vinte e quatro horas; não tem hematologista, e o serviço de oncologia habilitado mais próximo fica na capital, a três horas de estrada. A maca que acabou de subir da unidade de pronto atendimento traz Ildefonso Arantes, 72 anos, 66 quilos, marceneiro aposentado, hipertenso há quinze anos. A filha veio junto, com uma sacola de exames e a receita do posto dobrada em quatro.
A história que ela conta começa com as costas. Há nove semanas o pai sente uma dor lombar que não tem hora para vir, piora de madrugada e quando ele vira na cama. Não caiu, não carregou peso. Como a dor não passava, ele comprou ibuprofeno de 600 mg na farmácia do bairro e toma três comprimidos por dia há cinco semanas, junto com o enalapril de 10 mg de doze em doze horas e a hidroclorotiazida de 25 mg de manhã. Nos últimos quatro dias mudou: dorme à tarde, troca o nome dos netos, não evacua, bebe água a noite toda e urina “de hora em hora”. Emagreceu cinco quilos em três meses.
Os exames da unidade, colhidos na véspera, estão grampeados na ficha de transferência: hemoglobina de 8,9 g/dL com volume corpuscular médio de 92 fL, leucócitos de 5.100/µL, plaquetas de 168.000/µL; creatinina de 3,1 mg/dL, ureia de 98 mg/dL, sódio de 134 mEq/L e potássio de 4,9 mEq/L; cálcio total de 12,6 mg/dL com albumina de 3,4 g/dL; proteínas totais de 9,8 g/dL. A radiografia da coluna lombar mostra redução da altura do corpo vertebral de L3. Na receita do posto, oito meses atrás, a creatinina era de 1,0 mg/dL e a hemoglobina, de 13,2 g/dL.
A prescrição que veio da unidade tem cinco itens: cetoprofeno 100 mg por via intravenosa de doze em doze horas, soro fisiológico 1.000 mL em 24 horas, enalapril e hidroclorotiazida “conforme uso domiciliar” e, anotado à caneta no rodapé, “tomografia de abdome com contraste agendada para quarta às 8 h — investigar emagrecimento”. O diagnóstico escrito é “lombalgia + insuficiência renal a esclarecer + anemia”.
Na admissão, a pressão é de 128/76 mmHg, a frequência cardíaca de 96 bpm, a saturação de 96% em ar ambiente, a temperatura de 36,6 °C. As mucosas estão secas. Ildefonso abre os olhos quando você fala, responde devagar, sabe onde está e não sabe o dia da semana. A dor à percussão da coluna lombar é franca. A filha pergunta o que você pergunta para si mesmo desde que leu a ficha: “Doutor, é tudo por causa da coluna?”.
Não é. Anemia normocítica que apareceu em oito meses, creatinina que triplicou, cálcio alto, osso que cedeu sem trauma e uma diferença de 6,4 g/dL entre proteínas totais e albumina formam um desenho que tem nome, e o nome não é lombalgia. Nenhum desses achados, sozinho, fecharia a hipótese; juntos, num homem de 72 anos, obrigam a escrever mieloma múltiplo na primeira linha da evolução, antes de qualquer outro exame.
O que o seu plantão decide não é o tratamento do mieloma — esse será de um hematologista, num hospital que ainda não tem nome na ficha. O que o plantão decide é o que Ildefonso chega a ter para tratar: um rim que ainda pode voltar, uma medula espinhal que ainda não foi comprimida, um diagnóstico que não se perde num corticoide dado para a dor. Três itens daquela prescrição trabalham contra isso, e um exame agendado para amanhã de manhã também. É por eles que a noite começa.
Quem adoece disso
As três doenças deste capítulo têm em comum a idade e a lentidão, e quase nada mais. O mieloma múltiplo é uma neoplasia dos plasmócitos; a síndrome mielodisplásica, uma falência da medula que produz células defeituosas; as neoplasias mieloproliferativas, uma medula que produz demais. O que as reúne num capítulo é o lugar em que o interno as encontra: no hemograma de rotina do idoso, na eletroforese pedida por outro motivo, na enfermaria onde uma complicação chega antes do diagnóstico.
No Brasil, segundo os dados do Observatório de Oncologia citados pelas Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Mieloma Múltiplo de 2023, a mediana de idade de quem tem mieloma é de 63 anos, com casos de 18 a 100. A mesma diretriz registra risco maior entre parentes de primeiro grau e lista três condições que antecedem a doença ativa: a gamopatia monoclonal de significado indeterminado, o plasmocitoma solitário e o mieloma latente. Todas se acompanham; nenhuma, isoladamente, se trata como mieloma.
A diretriz descreve a apresentação em números que valem como lista de busca. Cerca de 73% dos pacientes têm anemia ao diagnóstico, e em 32% ela já causa fadiga; 58% têm dor óssea, 28% perderam peso, 5% têm parestesia e 0,7% têm febre. A insuficiência renal afeta de 20% a 30% no momento do diagnóstico e chega a 50% ao longo da doença, e a diretriz a trata como emergência médica e fator de mau prognóstico. Ildefonso tem quatro desses achados; o que ele não tem é o diagnóstico escrito.
A síndrome mielodisplásica é doença de gente ainda mais velha. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome Mielodisplásica de Baixo Risco, de 2022, dá mediana de idade de 75,7 anos ao diagnóstico e predomínio masculino de cerca de dois para um, e, para a incidência, cita a do Reino Unido, de 3,72 casos por 100.000 habitantes ao ano. O que o protocolo traz do Brasil é o peso no sistema: de 2019 a 2021, os sistemas de informação do SUS registraram 7.648 internações e 42.994 procedimentos ambulatoriais por síndrome mielodisplásica — em média, 2.549 internações e 14.331 procedimentos por ano.
O número que explica a rotina desses pacientes está no protocolo de sobrecarga de ferro, de 2026: de 60% a 80% dos pacientes com síndrome mielodisplásica têm sintomas de anemia, e de 40% a 50% ficam dependentes de transfusão. A dependência transfusional, diz o protocolo da doença, se associa a menor sobrevida, a menor tempo livre de evolução para leucemia mieloide aguda e a pior qualidade de vida. E cada bolsa traz ferro que o corpo não sabe eliminar: pelo protocolo de sobrecarga, quem vive de transfusão acumula ferro cerca de 0,4 mg/kg por dia, e os sinais de toxicidade costumam começar quando o acúmulo chega a 12 a 24 g.
A única terapia curativa da síndrome mielodisplásica é o transplante alogênico de células-tronco hematopoéticas, e o protocolo o reserva preferencialmente para quem tem menos de 75 anos. Com mediana de idade de 75,7 anos, mais da metade dos pacientes está fora da faixa preferencial, e o objetivo do cuidado muda: melhorar as citopenias, reduzir transfusões, evitar infecção e sangramento. É um objetivo que se cumpre também fora do hemocentro, na unidade básica e na enfermaria.
As neoplasias mieloproliferativas sem cromossomo Philadelphia — policitemia vera, trombocitemia essencial e mielofibrose primária — não aparecem na lista federal de protocolos clínicos consultada em setembro de 2026: não há documento do Ministério da Saúde para nenhuma das três. A régua brasileira é de sociedade: a diretriz da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular com a Associação Médica Brasileira, de 2019, que adota os critérios diagnósticos da Organização Mundial da Saúde de 2016. Para o caminho da atenção primária até o hematologista, o documento mais detalhado em uso é o protocolo de encaminhamento em hematologia do TelessaúdeRS, na versão de 2023.
O acesso aos medicamentos passa por portas diferentes, e confundi-las atrasa o paciente. Bortezomibe e melfalana não constam da Rename 2024, e a diretriz do mieloma diz onde estão: o antineoplásico é fornecido pelo hospital habilitado em oncologia, que o padroniza, compra e registra no procedimento de quimioterapia; o bortezomibe foi incorporado ao SUS em 2020, e a lenalidomida e o daratumumabe tiveram a incorporação recusada em 2022. A talidomida de 100 mg está na Rename no Componente Estratégico, e a lista federal tem um protocolo de uso da talidomida no mieloma múltiplo e na doença do enxerto contra o hospedeiro. Alfaepoetina de 10.000 UI, filgrastim de 300 mcg e os três quelantes de ferro estão no Componente Especializado. O ácido acetilsalicílico de 100 mg está no Básico. A hidroxiureia está no Especializado, mas o único documento norteador que a Rename lhe atribui é o protocolo da doença falciforme; ruxolitinibe e anagrelida não constam.
Por que acontece o que acontece
As três doenças começam do mesmo jeito: uma célula da medula escapa do controle e seus descendentes, todos iguais, ocupam aos poucos o lugar das células normais. O que muda é o que esse clone fabrica. No mieloma, fabrica uma proteína; na síndrome mielodisplásica, fabrica células defeituosas que morrem antes de sair da medula; nas neoplasias mieloproliferativas, fabrica células que funcionam, mas em quantidade que ninguém pediu. Cada uma dessas três maneiras de adoecer produz um tipo diferente de urgência, e é por elas que o interno aprende a olhar o hemograma e a bioquímica.
O plasmócito normal produz anticorpos variados, cada um contra um alvo. O plasmócito do mieloma produz um único anticorpo, ou só um pedaço dele, em quantidade enorme: a proteína monoclonal, ou proteína M. Ela aparece no laboratório de dois modos. Na bioquímica, como uma distância grande entre as proteínas totais e a albumina — em Ildefonso, 9,8 menos 3,4, ou 6,4 g/dL de globulinas. Na eletroforese, como um pico estreito numa região em que o normal é uma elevação larga. A diretriz nacional descreve a doença pela sigla inglesa CRAB, que resume as lesões de órgão: cálcio alto, rim, anemia e osso.
O osso do mieloma não é destruído pelo tumor que cresce, e sim por uma conversa química. Pela diretriz, as células tumorais e as não tumorais da medula produzem fatores que ativam os osteoclastos, e a reabsorção passa a vencer a formação. O resultado são lesões líticas, fraturas com trauma mínimo — a vértebra de Ildefonso — e cálcio que sai do esqueleto para o sangue. É também por isso que a diretriz recomenda bisfosfonato, que inibe a osteólise, para todos os pacientes com mieloma: o alvo é o osteoclasto, não o plasmócito.
O rim sofre por três caminhos que se somam. As cadeias leves livres, pequenas, passam pelo glomérulo e chegam ao túbulo, onde se juntam a outras proteínas e formam cilindros que entopem o néfron. A diretriz registra que essa formação é favorecida quando a concentração de cloreto de sódio na alça de Henle passa de 80 mmol/L, o que fundamenta uma hipótese de vantagem de soluções hipotônicas no documento. Essa explicação não determina, sozinha, a solução de reposição: volemia, sódio, função renal e resposta clínica orientam a escolha, inicialmente isotônica neste caso. O cálcio alto provoca poliúria, desidratação e vasoconstrição renal, e a água que falta concentra ainda mais as cadeias leves. Por fim, o que se dá ao paciente pesa: a diretriz lista anti-inflamatórios não esteroidais, aminoglicosídeos, inibidores da enzima conversora de angiotensina, anfotericina B, diuréticos de alça, bisfosfonatos e contraste iodado venoso entre os fármacos a usar com critério. Ildefonso vinha recebendo dois deles, e o terceiro estava agendado para a manhã seguinte.
A medula ocupada por plasmócitos produz menos hemácias, e a anemia normocítica é o achado mais frequente do mieloma. A mesma ocupação desorganiza os linfócitos B, e a diretriz associa essa disfunção às infecções de repetição — o anticorpo produzido em excesso é um só, e todos os outros faltam. Quando a proteína M é muita, o sangue fica espesso: a síndrome de hiperviscosidade reduz o fluxo cerebral e produz tontura, confusão mental e sintomas de acidente vascular cerebral, além de eventos tromboembólicos. A confusão de Ildefonso tem, portanto, dois candidatos, o cálcio e a viscosidade, e o plantão precisa separar um do outro.
Entre a primeira célula alterada e o mieloma com lesão de órgão há um contínuo, e a diretriz dá nome a cada trecho. A gamopatia monoclonal de significado indeterminado tem proteína M sérica abaixo de 3 g/dL, menos de 10% de plasmócitos clonais na medula e nenhuma lesão de órgão. O mieloma latente tem proteína M de 3 g/dL ou mais, ou proteína M urinária de 500 mg em 24 horas ou mais, ou 10% a 60% de plasmócitos clonais, ainda sem evento definidor de mieloma. Os critérios do International Myeloma Working Group de 2014, que a diretriz adota, acrescentaram às lesões CRAB três biomarcadores que permitem tratar antes do dano — entre eles, a razão entre a cadeia leve envolvida e a não envolvida de 100 ou mais, com a envolvida em pelo menos 100 mg/L, e mais de uma lesão focal de 5 mm ou mais à ressonância.
A síndrome mielodisplásica é o avesso: a medula costuma estar cheia, e o sangue, vazio. O clone produz precursores com defeito de forma e de função — a displasia — que morrem ainda na medula, e o resultado é citopenia com medula celular, muitas vezes com macrocitose. O protocolo nacional exige, além da citopenia persistente sem outra explicação, displasia em 10% ou mais das células de pelo menos uma linhagem, ou mieloblastos de 5% a menos de 20%, ou uma anormalidade citogenética característica. O mesmo protocolo adverte que displasia não é exclusiva da doença: aparece depois de tóxicos, em condições reativas, em outras anemias e até em pessoas saudáveis. O risco de cada paciente sobe com a proporção de blastos, com a citogenética desfavorável e com a profundidade das citopenias — as cinco variáveis do escore IPSS-R. E o ferro de cada transfusão se deposita no fígado e no coração, entre outros órgãos; o protocolo de sobrecarga aponta o comprometimento cardíaco como importante na morbimortalidade da mielodisplasia.
Nas neoplasias mieloproliferativas, o defeito está numa via de sinalização que fica ligada sem estímulo. A mutação JAK2 V617F, ou a do éxon 12, é critério maior da policitemia vera nos critérios de 2016 que a diretriz brasileira adota; JAK2, CALR ou MPL entram no critério da trombocitemia essencial. A consequência que o interno usa à beira do leito é esta: o clone produz hemácias sem precisar de eritropoetina, e por isso a eritropoetina sérica abaixo do normal é critério menor de policitemia vera — enquanto a eritrocitose secundária, da hipóxia do tabagismo, da DPOC ou da apneia, de doenças renais, de tumores produtores de eritropoetina ou do uso de andrógenos, é empurrada pelo hormônio. O sangue com hematócrito alto trombosa: na diretriz, manter o hematócrito abaixo de 45% se associou a menos morte cardiovascular e trombose do que mantê-lo entre 45% e 50%. Na trombocitemia, o excesso extremo de plaquetas pode fazer o contrário, com doença de von Willebrand adquirida e sangramento. Na mielofibrose, a medula vira fibrose, e a hematopoese migra para o baço, que cresce.

Como se apresenta de verdade
Até este capítulo existir, mieloma, mielodisplasia, policitemia vera, trombocitemia essencial e mielofibrose apareciam no nível só como diferencial ou achado: na dor óssea do idoso, na macrocitose, na trombose de sítio incomum, na trombocitose que persiste. Este capítulo assume as três famílias como doenças — o mieloma múltiplo e as gamopatias monoclonais; as síndromes mielodisplásicas; e as neoplasias mieloproliferativas sem cromossomo Philadelphia, que Trombofilias e tromboembolismo venoso listou entre as causas adquiridas de trombose — do reconhecimento ao encaminhamento, e o que o interno faz enquanto a vaga não vem. Assume também duas partes que nenhum capítulo do nível ensinava: o rim do mieloma, que Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal não aborda, e o critério de quelação do ferro na mielodisplasia dependente de transfusão, cuja decisão Terapia transfusional e reações transfusionais deixa para o hematologista.
E cede, pelo nome, o que tem dono. O painel de suspeita de mieloma na atenção primária e o encaminhamento por suspeita são de Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS, da apostila de Oncologia; este capítulo começa no resultado daquele painel. A compressão medular é de Compressão medular não traumática: metástase, abscesso epidural e cauda equina. A abordagem geral da hipercalcemia é de Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia), e o tratamento específico da hipercalcemia da malignidade, com o bisfosfonato e o caminho dele no SUS, de Câncer de pulmão (não-pequenas células, estadiamento, ressecabilidade). O volume e a diálise da lesão renal ficam em Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal; as carências vitamínicas, em Anemias macrocíticas: carência de vitamina B12 e de folato, doença crônica e hemólise; a transfusão, em Terapia transfusional e reações transfusionais. A leucemia mieloide crônica é neoplasia mieloproliferativa, mas é leucemia e fica em Leucemias agudas e crônicas: reconhecimento e triagem, com a evolução da mielodisplasia para leucemia aguda. A triagem da trombocitose no pronto atendimento e no ambulatório — quem vai para a urgência e quem vai para o hematologista — é de Distúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT); este capítulo fica com a pesquisa da neoplasia mieloproliferativa e o tratamento. A trombose em sítio incomum é de Trombofilias e tromboembolismo venoso, e a anticoagulação, de Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes.
Percurso de aprendizagem
Relacione proteína monoclonal e alterações da medula a anemia, rim, osso e trombose, distinguindo achado clonal e doença que exige tratamento.
Siga o suporte inicial e os contatos com as equipes; use escores e cálculos de tratamento crônico como consulta guiada, com avaliação de benefício e segurança.
A dor que não passa com anti-inflamatório
O mieloma raramente se apresenta como mieloma. Apresenta-se como dor lombar de idoso, anemia sem explicação, creatinina que sobe, cálcio que ninguém pediu, infecção que volta. A diretriz nacional lista, no fluxo de diagnóstico, os sinais que devem acender a suspeita: fadiga, perda de peso, infecções recorrentes, dispneia, náusea, vômito, sangramento e compressão medular; dor óssea, lesão osteolítica e fratura patológica; e alterações de laboratório — hipercalcemia, falência renal, proteínas totais elevadas.
A dor óssea do mieloma tem um perfil que se aprende a ouvir: é persistente, piora à noite e com o movimento, e não tem trauma que a explique. O osso cede com esforço mínimo — tossir, virar na cama, levantar uma sacola. Ildefonso tem nove semanas de dor, uma vértebra com altura reduzida e nenhuma queda. O anti-inflamatório que ele comprou para aliviar a dor é, ao mesmo tempo, um dos fármacos que a diretriz manda evitar no rim do mieloma.
O exame físico é pobre e, justamente por isso, precisa ser feito inteiro. A diretriz orienta procurar palidez e taquicardia da anemia; alterações musculoesqueléticas, dificuldade de marcha e sinais de fratura; hepatomegalia, esplenomegalia e linfonodomegalia; e, sobretudo, fazer o exame neurológico, porque a lesão vertebral pode comprometer raiz, medula ou cauda equina. Na história, pergunte por infecções prévias, doença crônica, exposição a solventes, herbicidas, inseticidas e radiação, imunossupressão e mieloma na família.
Os sintomas do cálcio alto são os que mais se confundem com velhice: sonolência, confusão, constipação, sede, poliúria. Na filha de Ildefonso, a frase foi “troca o nome dos netos”. Confusão mental nova num idoso com anemia e creatinina alta pede cálcio no mesmo pedido de exame, não depois de a tomografia de crânio vir normal.
A banda que ninguém procurava
Muitas gamopatias monoclonais aparecem sem que ninguém as procurasse. Surgem na eletroforese pedida na investigação de osteoporose — Osteoporose e metabolismo ósseo incluiu o exame na investigação da paciente que usava prednisona —, na pesquisa de gamopatia que Cardiomiopatias: hipertrófica, dilatada e restritiva manda fazer antes da cintilografia na suspeita de amiloidose, ou num check-up de convênio. O laudo diz “pico monoclonal na região gama”, e o paciente, que se sentia bem, passa a ter uma pergunta.
A primeira resposta do interno não é tranquilizar nem assustar: é conferir a lesão de órgão. Hemoglobina, cálcio, creatinina e a pergunta sobre dor óssea decidem se a banda pode ser apenas uma gamopatia monoclonal de significado indeterminado ou se já é parte de uma doença que lesa. O protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS descreve como quadro sugestivo de gamopatia monoclonal a anemia, a hipercalcemia, a perda de função renal, as fraturas patológicas e a alteração monoclonal identificada na eletroforese, e manda esse quadro para a Oncologia Hematologia.
Duas outras perguntas separam a banda indeterminada da banda que tem significado. A diretriz lista, entre os diagnósticos diferenciais das doenças de plasmócitos, a amiloidose de cadeia leve e a síndrome POEMS — polineuropatia, organomegalia, endocrinopatia, proteína M e alterações de pele. Formigamento em bota, insuficiência cardíaca de parede espessa ou síndrome nefrótica num paciente com banda monoclonal não se anotam como coincidência: fazem pensar que a banda tem significado, e o encaminhamento precisa dizer isso.
O idoso com anemia que não é carência
A síndrome mielodisplásica pode chegar sem sintoma nenhum, num hemograma pedido para outra coisa, ou pelo que cada citopenia faz: cansaço e fraqueza da anemia, infecções de repetição da neutropenia, sangramento de pele e mucosa da plaquetopenia. O protocolo nacional manda considerar a doença em todo paciente com citopenia inexplicada e persistente, e usa a definição da Organização Mundial da Saúde: hemoglobina abaixo de 10 g/dL, neutrófilos abaixo de 1.800/µL ou plaquetas abaixo de 100.000/µL.
Um quadro frequente no ambulatório é o de um idoso com anemia macrocítica que não responde, ou não deveria responder, à reposição. Anemias macrocíticas: carência de vitamina B12 e de folato, doença crônica e hemólise já coloca a mielodisplasia entre as causas que sobram quando o volume corpuscular médio passa de 110 fL e a carência não se confirma, e entre as alternativas quando a vitamina B12 não corrige a anemia. Este capítulo começa ali: a macrocitose que a carência não explica, sobretudo quando vem com uma segunda linhagem baixa.
Algumas pistas de história pesam e costumam ficar fora da anamnese. O protocolo pede, na investigação, o consumo de álcool, a exposição prévia a quimioterapia ou radioterapia, a história familiar de mielodisplasia, leucemia, plaquetopenia ou neoplasia, e a exposição nutricional, ambiental ou ocupacional a benzeno e chumbo. O frentista, o pintor, o trabalhador de indústria química que chega com pancitopenia precisam dessa pergunta registrada no prontuário.
O protocolo de encaminhamento em hematologia do TelessaúdeRS dá os sinais que, junto com a citopenia, sugerem neoplasia hematológica e mudam o ritmo: sintomas B, sangramentos, fadiga generalizada, infecções recorrentes, dor óssea, prurido, esplenomegalia ou linfonodomegalia sem infecção aguda que as explique. Com eles, hemoglobina abaixo de 7 g/dL, neutrófilos abaixo de 500/µL, plaquetas abaixo de 50.000/µL ou blastos no sangue periférico levam o paciente à urgência, de preferência com apoio de hematologista.
O sangue grosso e o prurido depois do banho
O protocolo do TelessaúdeRS define policitemia como hemoglobina acima de 16,5 g/dL ou hematócrito acima de 49% no homem, e hemoglobina acima de 16,0 g/dL ou hematócrito acima de 48% na mulher — os mesmos cortes do primeiro critério maior de policitemia vera na diretriz brasileira. O número abre a investigação; não decide qual doença é. Boa parte das eritrocitoses que o interno vê é resposta a outra coisa, e o erro que custa caro é o oposto: deixar de reconhecer a que é clone.
Os sintomas que apontam para policitemia vera estão listados no mesmo protocolo e valem ser perguntados um a um: prurido depois do banho, eritromelalgia — dor em queimação nas mãos e nos pés, com vermelhidão —, gota, trombose venosa ou arterial prévia, sangramento, esplenomegalia e perda de peso, além de febre sem explicação e sudorese. O mesmo protocolo manda perguntar por fadiga, tontura, parestesias e cefaleia, sintomas sugestivos de hiperviscosidade.
A eritrocitose secundária tem uma lista curta que se percorre na própria unidade básica. Hemoconcentração por diurético, vômito ou diarreia; tabagismo; hipóxia crônica da DPOC, da apneia do sono e da obesidade; cardiopatia com shunt da direita para a esquerda; doenças renais — estenose de artéria renal, cistos, hidronefrose — e o pós-transplante renal; tumores que produzem eritropoetina, como o carcinoma hepatocelular e o de células renais; e medicamentos, com eritropoetina, testosterona e corticoide à frente. O homem que usa testosterona comprada em academia raramente conta sem ser perguntado.
O ponto que o interno precisa guardar é que as duas listas não se excluem. Fumar não protege ninguém de ter policitemia vera, e o protocolo gaúcho manda para a hematologia tanto a policitemia que persiste depois de afastadas as causas secundárias quanto a policitemia com sintoma sugestivo de policitemia vera, sem exigir a espera da primeira condição para a segunda. A DPOC com policitemia e hipoxemia, por sua vez, tem conduta própria, com oxigênio, em DPOC estável e exacerbação.
Plaquetas demais que não vão embora
A trombocitose que persiste em duas contagens, com ferro reposto, sem inflamação e sem esplenectomia, chega ao hematologista pelo caminho descrito em Distúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT). O que este capítulo acrescenta é o que acontece do outro lado da porta: a pesquisa do clone e a decisão de tratar.
A trombocitemia essencial tem sintomas que parecem pouco, os vasomotores — como a dor em queimação com vermelhidão nas extremidades —, e a diretriz brasileira registra que os antiagregantes os controlam. O que ela tem de grave é a trombose, arterial ou venosa, e, no extremo oposto, o sangramento: com plaquetas acima de 1.000.000/µL, a diretriz registra aumento de sangramento maior em quem usa antiagregante, e a doença de von Willebrand adquirida entra entre as indicações de citorredução.
A mielofibrose é a que mais transforma a medula. Os critérios menores da diretriz dizem o que procurar: anemia sem outra causa, leucocitose de 11.000/µL ou mais, baço palpável, desidrogenase láctica acima do limite e leucoeritroblastose — precursores vermelhos e brancos imaturos no sangue periférico. Uma forma inicial, pré-fibrótica, imita a trombocitemia essencial, e só a biópsia de medula as separa; a diferença importa porque o prognóstico da forma pré-fibrótica é pior.
Quando a doença lenta vira urgência
No mieloma, a diretriz trata a insuficiência renal como emergência médica, e é a urgência que mais depende do plantão: o rim que recebe hidratação, deixa de receber nefrotóxico e chega ao tratamento específico cedo tem chance de voltar. O cálcio alto soma sonolência, arritmia e desidratação; Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia) manda tratar de imediato o cálcio acima de 3,5 mmol/L, ou 14 mg/dL, e o de 3,0 a 3,5 mmol/L com sintoma.
A compressão medular é a urgência de horas. Dor que muda de padrão, fraqueza nas pernas, dormência em faixa, retenção urinária ou incontinência mudam o paciente de enfermaria para o protocolo de Compressão medular não traumática: metástase, abscesso epidural e cauda equina — e aquele capítulo registra o cuidado específico desta doença: na suspeita de mieloma sem déficit neurológico, o corticoide se discute com a hematologia antes de ser dado, porque pode reduzir a chance de a biópsia ser positiva.
A hiperviscosidade é rara e fácil de esquecer. A diretriz manda dosar a viscosidade sérica quando a proteína M passa de 5 g/dL ou quando há sintomas sugestivos, e, se a dosagem não estiver disponível, examinar o fundo de olho, que mostra hemorragias retinianas, papiledema e veias dilatadas em forma de salsicha quando a viscosidade já repercute. A infecção, por fim, é das principais causas de morbimortalidade no mieloma, pela imunossupressão da doença e do tratamento.
Na mielodisplasia, as urgências são as das citopenias graves — a neutropenia febril tem conduta própria em Síndrome da veia cava superior e neutropenia febril — e a transformação em leucemia aguda, anunciada por blastos no sangue periférico. Nas mieloproliferativas, a urgência é a trombose, muitas vezes no território incomum que leva a Trombofilias e tromboembolismo venoso, e a trombocitose acima de 1.000.000/µL com sangramento ou trombose, que o protocolo gaúcho manda para a urgência.
Como fechar o diagnóstico
Investigar estas doenças é, antes de tudo, separar o clone da reação: a banda monoclonal da inflamação, a citopenia da mielodisplasia da carência, a eritrocitose da policitemia vera da hipóxia. No mieloma há uma segunda exigência, que é do plantão: investigar sem piorar o rim. Os exames que confirmam as três doenças são do hematologista; os que decidem se o paciente precisa dele hoje, e o que não se pode fazer enquanto isso, estão ao alcance do interno.
Antes da eletroforese: as lesões de órgão que já estão no prontuário
A diretriz nacional adota os critérios de 2014 do International Myeloma Working Group, e as lesões de órgão têm cortes que o interno confere sem pedir nada novo. Cálcio: 1 mg/dL ou mais acima do limite superior, ou acima de 11 mg/dL. Rim: depuração de creatinina abaixo de 40 mL/min ou creatinina acima de 2 mg/dL. Anemia: hemoglobina 2 g/dL ou mais abaixo do limite inferior, ou abaixo de 10 g/dL. Osso: uma ou mais lesões osteolíticas em radiografia, tomografia ou PET-CT.
Em Ildefonso, a conta fecha nos quatro. O cálcio total de 12,6 mg/dL, com albumina de 3,4 g/dL, corrige para 12,6 + 0,8 × (4,0 − 3,4) = 13,1 mg/dL, ou 3,26 mmol/L; onde houver cálcio iônico, ele resolve a dúvida da correção. A depuração estimada por Cockcroft-Gault é (140 − 72) × 66 ÷ (72 × 3,1) = 20 mL/min. A hemoglobina é de 8,9 g/dL. E a vértebra L3 perdeu altura sem trauma. Qualquer uma delas, atribuída a uma doença de plasmócitos, já afasta a gamopatia de significado indeterminado, que por definição não tem lesão de órgão; as quatro juntas mudam o ritmo da noite.
Um número da bioquímica comum costuma passar sem leitura: a diferença entre proteínas totais e albumina. Acima do habitual, ela é a pegada de uma imunoglobulina produzida em excesso — policlonal na inflamação crônica, monoclonal no mieloma —, e só a eletroforese separa uma da outra. Em quem tem dor óssea e anemia, uma diferença de 6,4 g/dL é pedido de eletroforese no mesmo dia.
A diretriz, pensando na atenção primária, fixa como painel mínimo para referenciar com rapidez o hemograma e a eletroforese de proteínas. É um piso, não um teto: o painel completo da suspeita na atenção primária, com cálcio, creatinina, hemossedimentação e cadeias leves, é conduta de Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS, e o interno de enfermaria pede o que está na seção seguinte.
A proteína: eletroforese, imunofixação e cadeias leves
A triagem inicial que a diretriz descreve para quem tem suspeita de mieloma reúne hemograma com esfregaço, ureia e creatinina, cálcio, eletroforese e imunofixação de proteínas séricas e urinárias, dosagem de imunoglobulinas IgA, IgM, IgG e IgE, dosagem de cadeias leves livres kappa e lambda, albumina e desidrogenase láctica. Na enfermaria, o interno colhe o que o laboratório do hospital faz e registra o que ficou por fazer, para que o serviço de destino não recomece do zero.
Cada exame responde uma pergunta diferente. A eletroforese mostra que há uma proteína monoclonal e mede quanto dela existe. A imunofixação diz qual é — IgG, IgA, IgM, kappa, lambda — e confirma a monoclonalidade quando o pico é pequeno. As cadeias leves livres acham a doença que produz só cadeia leve: a própria diretriz descreve uma gamopatia de cadeias leves em que a imunofixação não mostra cadeia pesada nenhuma. Eletroforese sérica sem pico, por isso, não afasta gamopatia em quem tem lesão de órgão; o passo seguinte é cadeias leves livres ou, onde não houver, eletroforese e imunofixação na urina de 24 horas.
Se a triagem sustentar a suspeita, a diretriz acrescenta beta-2 microglobulina, proteína C reativa, hemossedimentação, eletroforese e imunofixação na urina de 24 horas se ainda não feitas, proteinúria de 24 horas, mielograma, biópsia de medula óssea e imunofenotipagem, com citogenética — de preferência por hibridização in situ fluorescente —, que a diretriz considera obrigatória para o diagnóstico. No fluxo, lista ainda coagulograma com fibrinogênio e D-dímero, bilirrubinas, fosfatase alcalina, aminotransferases, gama-glutamil transferase, ácido úrico e glicemia.
A viscosidade não entra na rotina. A diretriz a pede quando a proteína M passa de 5 g/dL ou quando há sintomas sugestivos de hiperviscosidade; se o laboratório não a faz, o fundo de olho substitui, porque hemorragias retinianas, papiledema e veias dilatadas aparecem quando a viscosidade já tem repercussão. Em Ildefonso, a proteína M ainda não tem valor, mas a confusão é sintoma: o fundo de olho entra na noite da admissão.
O osso e o que decide o estadiamento
A radiografia simples conta para o critério de lesão óssea, e a de coluna de Ildefonso já mostrou o que precisava. O estadiamento, porém, pede mais: pela diretriz, a avaliação esquelética é obrigatória ao diagnóstico e deve incluir ressonância magnética ou tomografia computadorizada de baixa dose de corpo inteiro, com tórax, coluna, pelve e as áreas em que o paciente tem sintoma; se a tomografia de corpo inteiro vier negativa, a ressonância de corpo inteiro passa a ser obrigatória.
O que o interno protege, aqui, é a ordem das coisas. Tomografia com contraste iodado venoso para “investigar o emagrecimento” de um paciente com depuração de 20 mL/min e suspeita de mieloma troca uma informação que o hematologista vai obter sem contraste por um rim que talvez não volte — e a diretriz põe o contraste venoso na mesma lista dos anti-inflamatórios. O exame agendado se cancela, e o motivo se escreve na evolução.
O prognóstico é calculado no serviço de hematologia pelo sistema de estadiamento internacional revisado, que combina beta-2 microglobulina, desidrogenase láctica e alterações citogenéticas. No estágio III desse sistema, a beta-2 microglobulina está em 5,5 mg/L ou mais, com alteração citogenética de alto risco — t(4;14), t(14;16) ou deleção de 17p — ou desidrogenase láctica acima do limite. Não é conta que o interno faz na enfermaria, mas é o motivo de a beta-2 microglobulina colhida antes da transferência poupar tempo.
A citopenia do idoso: o que se exclui antes da medula
A mielodisplasia é diagnóstico de exclusão antes de ser diagnóstico de medula. O protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS pede, para a citopenia sem critério de gravidade, que a atenção primária afaste as causas secundárias comuns antes de encaminhar, e lista o mínimo que o pedido deve trazer: testes rápidos para hepatite B, hepatite C e HIV, aminotransferases, creatinina, albumina, gama-glutamil transferase, tempo de protrombina, TSH, vitamina B12, ácido fólico e desidrogenase láctica, com ecografia de abdome.
O protocolo federal da doença amplia a lista para o serviço de hematologia: hemograma com análise do esfregaço e contagem de reticulócitos; vitamina B12, folato, ferritina, ferro sérico e saturação de transferrina; enzimas hepáticas e canaliculares, coagulograma, bilirrubinas e eletroforese de proteínas; ureia, creatinina, eletrólitos e urina; sorologias para HIV, hepatites B e C e citomegalovírus; TSH e T4 livre; fator antinuclear e fator reumatoide; radiografia de tórax e ultrassonografia de abdome. A carência encontrada se trata em Anemias macrocíticas: carência de vitamina B12 e de folato, doença crônica e hemólise, e a citopenia que persiste depois de corrigida volta para cá.
O diagnóstico se faz na medula, no serviço de hematologia: análise do aspirado com contagem de 500 células para celularidade, displasias e blastos; coloração do ferro com quantificação de sideroblastos em anel; biópsia com coloração para reticulina; citogenética convencional e molecular; e imunofenotipagem. Com esses resultados, o protocolo manda calcular o prognóstico de todo paciente pelo IPSS-R e também pelo IPSS original.
O IPSS-R soma pontos de cinco variáveis — risco citogenético, blastos na medula, hemoglobina, plaquetas e neutrófilos — e divide os pacientes em muito baixo, baixo, intermediário, alto e muito alto risco. O protocolo brasileiro chama de baixo risco quem é IPSS baixo ou intermediário-1, ou IPSS-R muito baixo, baixo ou intermediário até 3,5 pontos, e é para esse grupo que ele existe. A linha da hemoglobina da tabela do protocolo tem um erro de unidade que muda a pontuação, registrado no bloco de critérios; a conta deste capítulo usa g/dL.
Eritrocitose: repetir, medir o oxigênio e perguntar o que se usa
O primeiro exame da eritrocitose é o segundo hemograma. O protocolo do TelessaúdeRS pede dois resultados com intervalo de um mês antes de chamar a policitemia de persistente, e manda olhar as outras linhagens no mesmo hemograma: leucocitose e trombocitose junto com a eritrocitose apontam para o clone. Desidrogenase láctica e ácido úrico entram na mesma investigação.
Para as causas secundárias, a lista da atenção primária é curta e barata. Oximetria de pulso e radiografia de tórax para a hipóxia crônica, com espirometria ou polissonografia quando a história sugerir DPOC ou apneia; anamnese e exame físico para cardiopatia com shunt, e ecocardiograma na suspeita; ecografia de abdome total e função renal para doença renal e tumores produtores de eritropoetina; e a lista de medicamentos, com testosterona, eritropoetina e corticoide perguntados pelo nome. O encaminhamento, pelo protocolo, leva a dosagem de eritropoetina sérica e a gasometria arterial, se disponíveis.
No serviço de hematologia, a policitemia vera se confirma pelos critérios de 2016 adotados na diretriz brasileira: o critério de hemoglobina ou hematócrito, a biópsia de medula com proliferação das três linhagens e a mutação JAK2 V617F ou do éxon 12, com a eritropoetina sérica abaixo do normal como critério menor. O diagnóstico exige os três critérios maiores, ou os dois primeiros com o menor. A biópsia pode ser dispensada na eritrocitose sustentada acima de 18,5 g/dL de hemoglobina ou 55% de hematócrito no homem, ou acima de 16,5 g/dL ou 49,5% na mulher.
A diretriz orienta pesquisar a mutação do éxon 12, que é rara, sobretudo em quem tem suspeita clínica de policitemia vera, JAK2 V617F negativo e eritropoetina baixa. A eritropoetina alta ou normal alta, por sua vez, é o que se espera da eritrocitose empurrada pela hipóxia ou por um tumor — e é a hipótese que a investigação da atenção primária já deveria ter explorado.
Trombocitose persistente e fibrose: o que o hematologista procura
A primeira investigação da trombocitose — a causa reativa, com hemossedimentação, proteína C reativa, ferritina e saturação de transferrina, e a segunda contagem depois de 30 dias — está em Distúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT). O que continua alto, sem causa reativa, é o que chega ao hematologista.
Pelos critérios adotados na diretriz brasileira, a trombocitemia essencial exige plaquetas de 450.000/µL ou mais; biópsia com proliferação de megacariócitos grandes e maduros, sem aumento importante da série granulocítica nem da eritroide; ausência de critérios de leucemia mieloide crônica com BCR-ABL1, de policitemia vera, de mielofibrose, de mielodisplasia ou de outra neoplasia mieloide; e mutação de JAK2, CALR ou MPL. Na falta da mutação, um outro marcador clonal ou a ausência de causa reativa ocupam o lugar do critério menor.
A pesquisa de BCR-ABL1 não é detalhe: trombocitose isolada pode ser a apresentação de uma leucemia mieloide crônica, que tem tratamento completamente diferente e está em Leucemias agudas e crônicas: reconhecimento e triagem. Por isso o hemograma completo, com diferencial e leitura do esfregaço, acompanha toda contagem de plaquetas que se encaminha.
Na mielofibrose, a biópsia mostra proliferação atípica de megacariócitos com fibrose reticulínica ou colagênica, e os critérios menores são os que o interno enxerga fora da lâmina: anemia sem outra causa, leucocitose de 11.000/µL ou mais, baço palpável, desidrogenase láctica acima do limite e leucoeritroblastose. A forma pré-fibrótica tem fibrose mínima e é a que mais se confunde com a trombocitemia essencial.
Reconhecer doenças clonais e tratar a lesão de órgão
Aprenda a suspeitar de mieloma, mielodisplasia e neoplasias mieloproliferativas pelos problemas clínicos que produzem. O diagnóstico especializado e o tratamento da neoplasia caminham junto do cuidado imediato da lesão renal, hipercalcemia, dor e trombose. Três documentos federais cobrem partes destas doenças: as Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Mieloma Múltiplo, de dezembro de 2023; o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome Mielodisplásica de Baixo Risco, de novembro de 2022; e o de Sobrecarga de Ferro, de janeiro de 2026. Nenhum documento federal cobre a policitemia vera, a trombocitemia essencial, a mielofibrose, a mielodisplasia de alto risco ou o seguimento da gamopatia monoclonal de significado indeterminado — ali, valem a diretriz de 2019 da sociedade brasileira de hematologia com a Associação Médica Brasileira e, para o encaminhamento, os protocolos gaúchos de hematologia na versão de 2023. Dois dos documentos federais têm erros que mudam a conduta, registrados nas notas com a conta.
- 11. Idoso com anemia, creatinina que sobe, cálcio alto ou osso que cede sem trauma: confira os quatro critérios de lesão de órgão no prontuário e escreva a hipótese de mieloma múltiplo na primeira linha da evolução.
- 22. Antes de pedir qualquer exame, retire da prescrição o que a diretriz lista como agressão ao rim do mieloma — anti-inflamatório, inibidor da enzima conversora, aminoglicosídeo, diurético de alça, contraste iodado venoso, bisfosfonato sem indicação discutida — e, pelo capítulo de distúrbios do cálcio, o tiazídico, o cálcio e a vitamina D.
- 33. Exame neurológico completo e registrado. Com déficit, protocolo de Compressão medular não traumática. Sem déficit, o corticoide só depois de discutido com a hematologia.
- 44. Hipercalcemia sintomática: avaliar gravidade, volemia, ECG e função renal; iniciar hidratação isotônica individualizada, vigiar congestão e discutir tratamento específico. Não impor 4–6 L/dia a um idoso com disfunção renal nem misturar soluções hipotônicas automaticamente pela hipótese de mieloma.
- 55. Triagem da proteína: eletroforese e imunofixação sérica e urinária, cadeias leves livres, imunoglobulinas, albumina, desidrogenase láctica e beta-2 microglobulina. Proteína M acima de 5 g/dL ou sintoma de hiperviscosidade: viscosidade sérica ou fundo de olho.
- 66. Acionar hematologia e nefrologia precocemente e regular transferência para o serviço habilitado; lesão renal e hipercalcemia sintomática exigem medidas imediatas e discussão de tratamento dirigido, sem esperar 48 horas.
- 77. Banda monoclonal sem lesão de órgão: encaminhamento à Oncologia Hematologia, com hemoglobina, cálcio, creatinina e a resposta sobre neuropatia, insuficiência cardíaca e proteinúria.
- 88. Citopenia persistente sem explicação no idoso — hemoglobina abaixo de 10 g/dL, neutrófilos abaixo de 1.800/µL ou plaquetas abaixo de 100.000/µL: causas secundárias afastadas na atenção primária. Hemoglobina abaixo de 7 g/dL, neutrófilos abaixo de 500/µL, plaquetas abaixo de 50.000/µL ou blastos, com sinais de neoplasia: urgência.
- 99. Mielodisplasia de baixo risco (IPSS-R até 3,5 pontos) com anemia sintomática e hemoglobina de 10 g/dL ou menos: alfaepoetina pelo protocolo, dispensada pelo Componente Especializado; a transfusão segue o capítulo de terapia transfusional.
- 1010. Transfusão regular com ferritina acima de 1.000 µg/L: avaliação de quelação pelo protocolo de sobrecarga de ferro. Deferasirox 20 mg/kg/dia, não com depuração abaixo de 40 mL/min nem na mielodisplasia de alto risco.
- 1111. Hemoglobina acima de 16,5 g/dL ou hematócrito acima de 49% no homem, acima de 16,0 g/dL ou 48% na mulher: segundo hemograma em um mês, oximetria, radiografia, função renal, ecografia e lista de medicamentos. Sintoma sugestivo de policitemia vera: hematologia sem esperar a repetição.
- 1212. Policitemia vera confirmada: hematócrito abaixo de 45% e ácido acetilsalicílico 100 mg/dia para todos sem contraindicação; citorredução para quem não tolera a sangria ou tem doença de alto risco, decidida pelo hematologista.
- 1313. Trombocitemia essencial: ácido acetilsalicílico 81 a 100 mg/dia na prevenção primária a partir de 60 anos e, abaixo disso, em quem tem mutação JAK2 V617F; citorredução com trombose prévia, idade acima de 60 anos ou doença de von Willebrand adquirida; cautela com antiagregante acima de 1.000.000 plaquetas/µL.
Cada decisão, a régua que o Brasil usa e o que ela não fecha
| Decisão | Documento em uso | Desde | O que não fecha |
|---|---|---|---|
| Diagnóstico, estadiamento e tratamento do mieloma | Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Mieloma Múltiplo, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 27 | Dezembro de 2023; revogou a Portaria nº 708, de agosto de 2015 | Não fixa intervalo de seguimento da gamopatia indeterminada; a Consulta Pública Conitec nº 18/2024 propôs convertê-la em protocolo clínico, sem portaria final encontrada até setembro de 2026 |
| Painel de suspeita de mieloma na atenção primária | Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS, sobre a diretriz inglesa NG12 e o protocolo gaúcho | Emenda de 2025 da NG12 | É conduta daquele capítulo; a diretriz nacional só fixa o mínimo — hemograma e eletroforese |
| Encaminhamento da banda monoclonal, da policitemia e da citopenia | Protocolo de encaminhamento em hematologia do TelessaúdeRS-UFRGS | Versão digital de 2023 | É documento estadual; vigência só por ausência de substituto |
| Mielodisplasia de baixo risco: alfaepoetina, filgrastim, talidomida | Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Síndrome Mielodisplásica de Baixo Risco, Portaria Conjunta nº 22 | Novembro de 2022 | Alto risco sem documento federal; hemoglobina escrita em g/L onde o valor é g/dL (nota 1) |
| Quelação do ferro transfusional | Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Sobrecarga de Ferro, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 38 | Janeiro de 2026; revogou a Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 7, de 2018 | Número de transfusões escrito como intervalo (nota 3) |
| Policitemia vera, trombocitemia essencial e mielofibrose | Diretriz da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular e da Associação Médica Brasileira, com os critérios da OMS de 2016 | 2019; edição mais nova não encontrada | Nenhum documento federal; a hidroxiureia da Rename tem como único documento norteador a doença falciforme |
| Vacinas do paciente com mieloma | Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª edição | 2023 | A diretriz do mieloma reproduz o quadro de 2019 (divergência); a pneumocócica segue a Nota Técnica nº 52/2026 desde maio de 2026 |
| Hidratação no rim do mieloma | Diretriz do mieloma, na solução; capítulo de distúrbios do cálcio, no volume | 2023 | A diretriz não fixa volume nem meta de diurese (divergência) |
A banda monoclonal: onde ela cai e o que o interno faz
| Achado | Gamopatia de significado indeterminado, não IgM | Mieloma latente | Mieloma ativo |
|---|---|---|---|
| Proteína M | Sérica abaixo de 3 g/dL | Sérica de 3 g/dL ou mais, ou urinária de 500 mg em 24 horas ou mais | Qualquer valor |
| Plasmócitos clonais na medula | Menos de 10% | De 10% a 60% | Qualquer proporção com lesão de órgão — com menos de 10%, a diretriz exige duas lesões ósseas —; 60% ou mais basta sozinho, como biomarcador |
| Lesão de órgão: cálcio, rim, anemia, osso | Ausente | Ausente | Presente, atribuída à doença |
| Outros eventos definidores | Ausentes | Ausentes | Razão de cadeias leves envolvida/não envolvida de 100 ou mais, com a envolvida em 100 mg/L ou mais; mais de uma lesão focal de 5 mm ou mais à ressonância |
| O que o interno faz | Confere lesão de órgão, pergunta por neuropatia, insuficiência cardíaca e proteinúria e encaminha à Oncologia Hematologia | Encaminha; o acompanhamento é do hematologista | Protege o rim, examina a medula espinhal, hidrata e transfere para hospital habilitado em oncologia |
Eritrocitose e trombocitose: o que aponta para o clone
| Pergunta | Aponta para neoplasia mieloproliferativa | Aponta para causa secundária ou reativa | Onde se responde |
|---|---|---|---|
| As outras linhagens | Leucocitose e trombocitose junto com a eritrocitose | Eritrocitose isolada | Hemograma completo, na atenção primária |
| Os sintomas | Prurido depois do banho, eritromelalgia, gota, trombose prévia, esplenomegalia, perda de peso | Sintomas de DPOC ou de apneia do sono, tabagismo, vômito, diarreia ou diurético | Anamnese dirigida |
| O oxigênio | Saturação normal | Hipoxemia em vigília ou durante o sono | Oximetria, gasometria, espirometria, polissonografia |
| Os medicamentos | Não explicam | Testosterona, eritropoetina, corticoide | Lista de medicamentos perguntada pelo nome |
| A eritropoetina sérica | Abaixo do normal, critério menor de policitemia vera | Normal ou alta | Serviço de hematologia |
| A mutação | JAK2 V617F ou éxon 12 na policitemia vera; JAK2, CALR ou MPL na trombocitemia | Ausente | Serviço de hematologia |
| A plaqueta que não desce | Persiste com ferro reposto, sem inflamação e sem esplenectomia | Ferropenia, infecção, inflamação, asplenia, trauma ou cirurgia recente | Distúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT), depois hematologia |
Contas do capítulo, conferidas contra as apresentações da Rename 2024
| Item | Apresentação e componente | Conta | Resultado |
|---|---|---|---|
| Hidratação inicial de Ildefonso, 66 kg | Cloreto de sódio 0,9%, solução isotônica | Reposição cautelosa e vazão revista pelo exame, diurese e perdas | Exemplo inicial após avaliação: 100–150 mL/h, com reavaliação precoce; reduzir ou suspender conforme euvolemia/congestão |
| Conferência de composição da solução | Cloreto de sódio 0,9% | 154 mEq de sódio por litro | A carga total depende do volume efetivamente necessário; fazer a conta não transforma 4 L em meta terapêutica |
| Cálcio corrigido de Ildefonso | Não se aplica | 12,6 + 0,8 × (4,0 − 3,4) | 13,1 mg/dL, ou 3,26 mmol/L |
| Depuração de creatinina de Ildefonso | Não se aplica | (140 − 72) × 66 ÷ (72 × 3,1) | 20 mL/min: abaixo de 40, lesão de órgão do mieloma; abaixo de 30, a diretriz não usa bisfosfonato |
| Paracetamol | 500 mg comprimido, Básico | 1 g de 8 em 8 horas | 2 comprimidos por dose, 6 por dia, 3 g/dia; o protocolo de dor crônica fixa o teto em 4 g |
| Ácido acetilsalicílico na policitemia vera | 100 mg comprimido, Básico | 100 mg por dia | 1 comprimido por dia |
| Alfaepoetina de Luzia, 58 kg | 10.000 UI solução injetável ou pó, Especializado | 40.000 UI por semana por 8 semanas; sem resposta, 60.000 UI por semana | 4 e depois 6 unidades de 10.000 UI por semana; a equivalência por peso do protocolo daria 26.100 UI (450 UI/kg) e 60.900 UI (1.050 UI/kg) |
| Depuração de creatinina de Luzia | Não se aplica | (140 − 79) × 58 × 0,85 ÷ (72 × 0,9) | 46 mL/min: acima do limite absoluto de 40 mL/min da bula brasileira, mas na faixa de cautela; avaliar benefício, risco, tendência renal e capacidade de monitorização |
| Deferasirox de Luzia | Comprimido para suspensão de 125, 250 e 500 mg, Especializado | 20 mg/kg × 58 kg = 1.160 mg; teto de 40 mg/kg = 2.320 mg | A conta de 20 mg/kg aproxima-se de 1.125 mg na formulação dispersível; é exercício de apresentação, não liberação automática dessa dose para Luzia. Hematologia define indicação e dose após avaliação renal e clínica |
Nota 1 — Protocolo da síndrome mielodisplásica de baixo risco (Portaria Conjunta nº 22/2022): a hemoglobina está em g/L onde o valor é de g/dL, em todos os cortes clínicos. A citopenia da Organização Mundial da Saúde vem como “abaixo de 10 g/L”; a inclusão para alfaepoetina, “Hb menor ou igual a 10 g/L”; o limiar transfusional usual, “8 g/L”; a resposta completa, “acima de 11,5 g/L”, e a parcial, “incremento acima de 2 g/L”. No mesmo documento, o critério de suspensão da alfaepoetina está certo: “superior a 12 g/dL”. Conta: 10 g/L são 1,0 g/dL — lido ao pé da letra, nenhum paciente vivo entra no critério da alfaepoetina. Na tabela do IPSS-R, a linha da hemoglobina tem cabeçalho em g/L e células “≥10”, “8 a <10” e “<80”. Um paciente com hemoglobina de 9,0 g/dL (90 g/L), citogenética intermediária (2 pontos), 3% de blastos (1 ponto), plaquetas de 120.000/µL e neutrófilos de 1.500/µL soma 4,0 pontos pela régua original, que dá 1 ponto a 8 a menos de 10 g/dL — acima de 3,5, fora do protocolo de baixo risco. Lido em g/L, 90 é maior que 10 e vale 0 ponto: 3,0 pontos, dentro do protocolo e elegível à alfaepoetina. Lido em g/dL, 9,0 cabe em duas classes, “8 a <10” e “<80”. Este capítulo usa g/dL em todos os cortes.
Nota 2 — Mesmo protocolo, esquema da alfaepoetina: a dose máxima vem como “60.000 UI (cerca de 1.050 UI/kg) por semana”, e o texto seguinte diz que doses maiores que 60.000 UI por semana não são toleradas. As duas formas brigam a partir de 57,1 kg (60.000 ÷ 1.050). Conta: Luzia, com 58 kg, receberia 60.900 UI pela conta por peso; um paciente de 70 kg, 73.500 UI — 22,5% acima do teto que o próprio protocolo declara. A dose inicial, “30.000 a 40.000 UI (ou 450 UI/kg)”, corresponde a pacientes de 67 a 89 kg. Este capítulo usa as doses em unidades totais, que respeitam o teto.
Nota 3 — Protocolo de sobrecarga de ferro (Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 38/2026): o critério de inclusão pede condição que exija “transfusões sanguíneas regulares (10 a 20 procedimentos)” e ferritina acima de 1.000 µg/L, ou ferro hepático acima de 3,2 mg/g de peso seco à biópsia, ou sobrecarga cardíaca ou hepática à ressonância T2*. Conta: Luzia recebeu 26 concentrados de hemácias e tem ferritina de 2.450 µg/L; lido como intervalo, 26 é maior que 20 e ela ficaria de fora — justamente a paciente que acumulou mais ferro. Esta apostila lê “10 a 20” como piso: transfusões regulares, a partir de 10 procedimentos. É leitura desta apostila, e não do protocolo.
Nota 4 — Diretrizes do mieloma (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 27/2023), Quadro 5 de vacinas: o quadro declara seguir as recomendações do manual dos CRIE, mas a fonte registrada é “adaptado de Brasil, 2019”, e a edição em vigor do manual é a 6ª, de 2023 — cujo esquema pneumocócico a Nota Técnica nº 52/2026 substituiu em 20 de maio de 2026. Conta, para um paciente de 63 anos com mieloma em atividade: pela diretriz, “conjugada 13-valente ou polissacarídica 23-valente” se cumpre com uma dose de qualquer das duas — quem recebe só a 23-valente fica sem conjugada; pela nota técnica, é uma dose única de conjugada 20-valente, sem 23-valente depois, e quem já tomou uma das antigas completa pela transição da nota; o Quadro 13 do manual de 2023, que valeu até a nota, pedia três doses em cinco anos: conjugada, 23-valente oito semanas depois e 23-valente cinco anos após. O quadro da diretriz também não tem a vacina contra Haemophilus influenzae tipo b, que o Quadro 3 do manual de 2023 inclui para o paciente oncológico, e limita o HPV a 26 anos, contra 45 no manual. Este capítulo segue o manual de 2023 e, na pneumocócica, a Nota Técnica nº 52/2026.
A conduta, hora a hora
Ildefonso passa três dias numa enfermaria sem hematologista, e nenhuma das decisões desses dias é o tratamento do mieloma. São decisões menores e mais urgentes: o que sai da prescrição, o que o exame neurológico permite, qual solução corre na veia, que exame se colhe antes de a vaga aparecer e com que palavras se pede essa vaga. Cada uma delas tem dono e régua, e as que pertencem a outros capítulos estão indicadas pelo nome.
A sequência abaixo destaca decisões possíveis no hospital de origem, sob supervisão. Hidratação é titulada à resposta; hipercalcemia sintomática e provável nefropatia por cadeias leves exigem contato precoce com as equipes, enquanto confirmação diagnóstica e transferência são organizadas.
Terça, 19h10 — o que sai antes do que entra
A primeira prescrição do plantão é de suspensões. O cetoprofeno e o ibuprofeno de casa são anti-inflamatórios, que a diretriz do mieloma inclui na lista de fármacos a usar com critério para prevenir a insuficiência renal da doença; o enalapril, inibidor da enzima conversora, está na mesma lista; a hidroclorotiazida sai pela regra do capítulo de distúrbios do cálcio. A pressão de 128/76 mmHg permite suspender os dois anti-hipertensivos e reavaliar. A tomografia com contraste iodado venoso agendada para as 8 horas se cancela: o contraste também está na lista, e o emagrecimento que ela investigaria já tem hipótese. A dor continua sendo tratada, sem anti-inflamatório. Cada suspensão se escreve com o motivo, porque o plantonista seguinte vai estranhar um hipertenso sem anti-hipertensivo.
Prescrição- Suspender cetoprofeno 100 mg IV de 12/12 h — anti-inflamatório em suspeita de mieloma com depuração estimada de 20 mL/min
- Suspender enalapril 10 mg de 12/12 h e hidroclorotiazida 25 mg/dia — pressão de 128/76 mmHg; aferir de 6/6 h
- Cancelar tomografia de abdome com contraste iodado venoso de quarta às 8 h — motivo registrado na evolução e comunicado ao setor de imagem
- Paracetamol 500 mg, 2 comprimidos VO de 8/8 h (3 g/dia); escalonar pela escada analgésica, sem anti-inflamatório
- Orientar a filha a não trazer ibuprofeno ou outro anti-inflamatório de casa
Terça, 19h40 — o exame que decide o corticoide
Vértebra que cedeu, dor que acorda e suspeita de neoplasia pedem exame neurológico completo antes de qualquer outra decisão. Força grau 5 nos quatro membros, reflexos patelares e aquileus simétricos, sensibilidade tátil e dolorosa preservadas sem nível, tônus anal normal ao toque retal e resíduo pós-miccional de 60 mL. Não há déficit. Por Compressão medular não traumática: metástase, abscesso epidural e cauda equina, a suspeita de mieloma sem déficit neurológico exige discutir com a hematologia antes do corticoide, porque ele pode reduzir a chance de a biópsia ser positiva; se o déficit aparecer, o paciente passa ao protocolo daquele capítulo, com o supervisor acionado na hora. A enfermagem precisa saber exatamente o que procurar. Há, porém, outra urgência além da coluna: possível nefropatia por cilindros de cadeias leves. Acionar hematologia e nefrologia precocemente, ainda na origem, para decidir tratamento dirigido e obtenção rápida das amostras. A recomendação IMWG prevê corticoide e tratamento do mieloma na lesão renal atribuída à doença; não usar a ausência de déficit neurológico como motivo para aguardar dias sem discutir essa intervenção.
Prescrição- Exame neurológico sumário de 4/4 h pela enfermagem nas primeiras 24 h: força para levantar as pernas do leito, dormência em faixa no tronco ou nas pernas, retenção ou perda de urina
- Qualquer mudança no exame neurológico: chamar o médico imediatamente
- Não dar corticoide inespecífico apenas para dor. Discutir imediatamente com hematologia a suspeita de mieloma com lesão renal e o momento de tratamento dirigido; déficit neurológico exige protocolo de compressão medular em paralelo
Terça, 20h — o volume e a solução
Ildefonso tem cálcio corrigido de 13,1 mg/dL, confusão, poliúria e constipação, com lesão renal relevante. A reposição volêmica começa nesta noite, acompanhada de eletrocardiograma e investigação etiológica. A menção da diretriz do mieloma a possível vantagem de solução hipotônica não constitui obrigação de misturar soro e glicose: neste idoso com sódio de 134 mEq/L, escolhe-se inicialmente cristalóide isotônico, com volume ajustado à perfusão, diurese e congestão. Não se impõe um mínimo de quatro litros. O cálcio, a consciência e o balanço determinam cada ajuste. A equipe discute já tratamento específico da hipercalcemia e da provável doença hematológica; função renal reduzida muda escolha, dose e monitorização, mas não justifica deixar o problema sem plano até a vaga. O ECG mostra ritmo sinusal a 94 bpm, sem arritmia.
Prescrição- Cloreto de sódio 0,9% IV; se houver hipovolemia sem congestão, iniciar reposição cautelosa em alíquotas e reexaminar. Após a avaliação inicial, considerar infusão de 100–150 mL/h, revista nas primeiras 1–2 horas e conforme resposta. A vazão é um ponto de partida supervisionado, sem volume mínimo obrigatório de 4 L/dia
- Eletrocardiograma de 12 derivações agora
- Diurese e balanço acompanhados desde o início; reavaliar perfusão, ausculta, saturação e tolerância após cada reposição inicial e em 1–2 horas. Peso diário e registro do balanço por turno após estabilização
- Sódio, potássio, cálcio, fósforo e creatinina seriados, inicialmente em 6–12 horas conforme gravidade; glicemia conforme condição clínica, sem infusão de glicose de rotina
- Colher PTH e exames etiológicos assim que possível, sem atrasar tratamento da hipercalcemia sintomática
- Não prescrever furosemida antes de o volume estar reposto
Terça, 21h — os exames que a unidade não pediu e o fundo de olho
O pedido segue a triagem da diretriz, limitado ao que o laboratório do hospital faz ou envia: eletroforese e imunofixação no soro, urina de 24 horas com eletroforese e imunofixação, imunoglobulinas, beta-2 microglobulina, desidrogenase láctica, ácido úrico e coagulograma. O laboratório de apoio não dosa cadeias leves livres, e isso se registra como pendência para o serviço de destino. A confusão tem dois candidatos, e a proteína M ainda não tem valor; o fundo de olho, que a diretriz aceita quando a viscosidade não pode ser dosada, é feito à beira do leito: sem hemorragias, sem papiledema, veias de calibre normal. A hipercalcemia é uma explicação provável da confusão, mas delirium pode ter mais de uma causa. Hiperviscosidade volta à avaliação diante de sintomas compatíveis, mesmo sem proteína M acima de 5 g/dL; fundo de olho normal não encerra sozinho a investigação.
Prescrição- Eletroforese de proteínas séricas com imunofixação
- Urina de 24 horas: proteinúria, eletroforese e imunofixação — início da coleta às 22 h
- IgA, IgG e IgM; beta-2 microglobulina; desidrogenase láctica; ácido úrico; fósforo e magnésio
- Hemograma com leitura do esfregaço; tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada e fibrinogênio; bilirrubinas, fosfatase alcalina, aminotransferases e gama-glutamil transferase
- Pendência registrada: cadeias leves livres kappa e lambda não disponíveis no laboratório de apoio
Quarta, 7h30 — a vaga pedida com as palavras certas
Pela diretriz, o mieloma se trata em hospital habilitado em oncologia, com a estrutura de hemoterapia, terapia intensiva e laboratório que o tratamento exige. O protocolo gaúcho descreve o quadro de Ildefonso — anemia, hipercalcemia, perda de função renal e fratura patológica — como sugestivo de gamopatia monoclonal, com destino na Oncologia Hematologia; mas o protocolo é de agenda ambulatorial, e Ildefonso tem uma lesão renal que a diretriz chama de emergência. O pedido vai à central de regulação como transferência de urgência, com os números. A creatinina das 6 horas é de 2,9 mg/dL; o cálcio total, de 11,4 mg/dL com albumina de 3,3 g/dL, corrige para 12,0 mg/dL; o sódio é de 137 mEq/L. Ildefonso diz o dia da semana certo.
Prescrição- Solicitação à central de regulação: transferência para hematologia de hospital habilitado em oncologia, prioridade de urgência
- Texto do pedido: hipótese de mieloma múltiplo com lesão renal aguda (creatinina de 3,1 mg/dL na segunda, 1,0 mg/dL oito meses antes; depuração estimada de 20 mL/min), hipercalcemia sintomática (cálcio corrigido de 13,1 mg/dL), anemia (hemoglobina de 8,9 g/dL) e fratura de L3 sem trauma
- No pedido: exame neurológico e horários; medicações suspensas com motivo; volume administrado, balanço e resposta; investigação monoclonal disponível e pendências; horário e orientação do contato urgente com hematologia/nefrologia, incluindo tratamento dirigido e hipercalcemia
- Informar à filha o pedido, o motivo da urgência e o que se sabe até agora
Quarta, 14h — a eletroforese chega
O laudo mostra pico monoclonal na região gama de 4,1 g/dL; a imunofixação sai em cinco dias úteis. A proteína M abaixo de 5 g/dL, a melhora da confusão com a queda do cálcio e o fundo de olho normal tornam a hiperviscosidade improvável. Em 18 horas, a diurese foi de 2.600 mL; a glicemia capilar variou de 118 a 146 mg/dL; não há crepitação nova, e a saturação segue em 96%. O pedido de regulação é atualizado com o pico. A filha pergunta pelo remédio para o osso que leu na internet: o bisfosfonato é recomendado pela diretriz para todo paciente com mieloma, mas a mesma diretriz não o usa com depuração abaixo de 30 mL/min, e o tratamento da hipercalcemia da malignidade com ele, com o caminho do medicamento no SUS, é decidido pela equipe que receber o paciente, pela régua de Câncer de pulmão (não-pequenas células, estadiamento, ressecabilidade). A avaliação especializada deve ocorrer desde a origem. As restrições da prevenção óssea crônica e o tratamento da hipercalcemia aguda não são idênticos: a decisão envolve risco e benefício, hidratação, bisfosfonato ou denosumabe conforme indicação e acesso, além de monitorização de cálcio, fósforo e magnésio. Não se espera passivamente a transferência para iniciar essa discussão.
Prescrição- Atualizar a solicitação de regulação: pico monoclonal de 4,1 g/dL na região gama; imunofixação pendente
- Reavaliar necessidade de manter cloreto de sódio 0,9% IV e ajustar vazão às perdas, ingestão oral, diurese e exame; reduzir ou suspender quando a euvolemia estiver restabelecida
- Registrar decisão conjunta sobre terapia da hipercalcemia: ponderar antirreabsortivo, formulação, função renal e risco de hipocalcemia; não copiar automaticamente a dose da prevenção óssea crônica para uma urgência metabólica
Quinta, 19h — as 48 horas do rim
Quarenta e oito horas depois de retirados os nefrotóxicos e iniciada a hidratação, a creatinina é de 2,7 mg/dL: caiu, mas não voltou. A disfunção persistente reforça o cuidado conjunto já acionado com nefrologia e hematologia; o marco de 48 horas não é uma espera obrigatória para chamá-las. A decisão sobre diálise considera complicações e resposta, como discutido em Injúria renal aguda: pré-renal, renal e pós-renal. A urina de 24 horas mostra proteinúria de 3,4 g, e a imunofixação urinária identifica cadeia leve kappa monoclonal. O cálcio total é de 10,6 mg/dL, corrigido para 11,2 mg/dL; o sódio, de 136 mEq/L. O peso subiu 1,2 kg desde a admissão, com diurese de 3.400 mL nas últimas 24 horas e pulmões limpos: o volume já está reposto, e o ritmo da hidratação desce. A vaga ainda não saiu.
Prescrição- Reavaliar com nefrologia, acionada precocemente: lesão renal por provável mieloma com melhora incompleta; verificar indicação de terapia renal substitutiva pelas complicações e pelo conjunto clínico
- Rever ou suspender hidratação IV conforme ingestão e perdas; peso +1,2 kg exige reavaliar balanço. Não manter 3 L/dia como nova obrigação apenas porque o volume anterior era maior
- Reforçar a solicitação na central de regulação com a imunofixação urinária e a creatinina de 48 horas
Sexta, 15h — a vaga e o que vai junto
A central libera a vaga no hospital habilitado da capital. A creatinina da manhã é de 2,5 mg/dL, com depuração estimada de 25 mL/min; o cálcio corrigido, de 10,6 mg/dL. O relatório de transferência é o último ato clínico do plantão e o primeiro do serviço de destino: precisa permitir que ninguém repita um exame nem reintroduza um fármaco suspenso. A vacinação entra como pendência a combinar com o Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais, pelo manual de 2023 e, na pneumocócica, pela Nota Técnica nº 52/2026, e a data dela diante do início do tratamento é decisão da hematologia.
Prescrição- Relatório de transferência com a hipótese, a cronologia dos exames com data e hora e cada medicamento suspenso com o motivo
- Alerta no relatório: sem anti-inflamatório e sem contraste iodado venoso; depuração estimada de 25 mL/min na sexta; sem corticoide até aqui; exame neurológico normal em todas as avaliações
- Pendências: imunofixação sérica, cadeias leves livres, avaliação esquelética de corpo inteiro, mielograma e biópsia de medula com citogenética
- Vacinação a planejar com o CRIE: pneumocócica conjugada 20-valente em dose única, sem polissacarídica depois (Nota Técnica nº 52/2026), e influenza inativada
- Hidratação no transporte conforme última avaliação, com solução, vazão e critérios de interrupção explicitados; não transportar uma prescrição fixa de mistura hipotônica
Como saber se está funcionando
Numa doença que o interno não trata, reavaliar é vigiar o que o plantão pôs em movimento e o que a doença ainda pode fazer antes da vaga. A hidratação corrige o cálcio e protege o rim, e cobra seu preço em sódio, glicose e volume; a coluna que cedeu pode comprimir a medula a qualquer hora; a imunidade desorganizada pelo clone transforma uma febre em urgência.
Os sete parâmetros abaixo são os de Ildefonso, mas servem a qualquer paciente com mieloma internado à espera de transferência. O número que decide cada um está escrito, e o que fazer quando ele não vem também — incluindo o capítulo dono da conduta seguinte.
Esperado: Cálcio corrigido em queda desde 13,1 mg/dL e confusão que melhora junto — Ildefonso volta a dizer o dia da semana com 12,0 mg/dL
Se não melhora: Confusão persistente exige buscar causas associadas, como infecção, fármacos, distúrbios de sódio/glicose e hiperviscosidade conforme sintomas. Hipercalcemia sem resposta ou grave exige intensificar o tratamento dirigido com a equipe; a função renal orienta a escolha do antirreabsortivo e a monitorização
Esperado: Diurese e creatinina em tendência favorável, sem impor recuperação completa em 48 horas; persistência de disfunção exige reavaliar etiologia, volume e tratamento da doença de base
Se não melhora: Nefrologia e hematologia devem participar precocemente, sobretudo se oligúria, distúrbio eletrolítico, congestão ou suspeita de nefropatia por cilindros. Não esperar 48 horas para chamar se há gravidade. Decidir diálise pelas complicações e pelo conjunto clínico
Esperado: Balanço positivo que para de crescer quando a desidratação se corrige; pulmões limpos; saturação mantida em 96%
Se não melhora: Crepitação nova, queda da saturação ou ganho de peso com diurese baixa: reduzir o ritmo da hidratação e reavaliar com o preceptor. O diurético de alça, pelo capítulo de distúrbios do cálcio, entra quando há sobrecarga de volume e nunca antes da reidratação — e está na lista de fármacos que a diretriz do mieloma manda usar com critério.
Esperado: Sódio estável dentro da faixa de referência do laboratório — Ildefonso vai de 134 para 136 a 137 mEq/L — e glicemia sem hiperglicemia que exija insulina
Se não melhora: Queda do sódio, alteração de potássio ou hiperglicemia exige rever doença de base, medicamentos, solução e volume administrados; corrigir com plano e monitorização proporcionais à gravidade
Esperado: Força, sensibilidade e controle esfincteriano inalterados em todas as avaliações
Se não melhora: Fraqueza nas pernas, dormência em faixa, retenção ou perda de urina: protocolo de Compressão medular não traumática: metástase, abscesso epidural e cauda equina, com o supervisor acionado na hora. Aí o déficit muda a decisão sobre o corticoide, que deixa de esperar a hematologia.
Esperado: Dor que permite mudar de decúbito, sentar e dormir, sem anti-inflamatório
Se não melhora: Escalonar pela escada de Analgesia na prática: escada, opioide, rodízio e efeitos adversos, com a dose ajustada à depuração de creatinina. Dor que muda de padrão — em faixa, irradiada, que piora deitado — pede novo exame neurológico antes de nova dose.
Esperado: Afebril; hemoglobina estável em torno de 8,9 g/dL, sem sangramento
Se não melhora: Febre num paciente com mieloma é suspeita de infecção grave até prova em contrário — a diretriz aponta a infecção como importante causa de morbimortalidade na doença: culturas e antibiótico no mesmo turno; com neutrófilos abaixo de 500/µL, Síndrome da veia cava superior e neutropenia febril. Hemoglobina em queda ou sintomas de anemia: indicação de transfusão pela régua de Terapia transfusional e reações transfusionais.
Onde o erro machuca
O dano: Anti-inflamatório e contraste iodado venoso estão na lista de fármacos que a diretriz do mieloma manda usar com critério para prevenir a insuficiência renal da doença — que ela trata como emergência médica e fator de mau prognóstico. O rim que ainda podia voltar recebe duas agressões enquanto o diagnóstico espera, e o paciente chega ao hematologista com menos rim para tratar.
Como pegar a tempo: Antes de prescrever o analgésico, confira no prontuário hemoglobina, cálcio corrigido, creatinina com depuração estimada e a imagem da coluna. Dois ou mais desses achados alterados num idoso escrevem mieloma na hipótese: anti-inflamatório fora, contraste cancelado, hidratação iniciada e eletroforese pedida na mesma noite.
O dano: Compressão medular não traumática: metástase, abscesso epidural e cauda equina registra que, na suspeita radiológica de linfoma ou de mieloma sem sintoma nem sinal neurológico, o corticoide pode reduzir a chance de a biópsia ser positiva. O paciente fica com uma lesão tratada às cegas e sem classificação, o que compromete o tratamento seguinte.
Como pegar a tempo: Faça e registre o exame neurológico completo. Sem déficit, o corticoide se discute com a hematologia antes de ser dado, e a dor se trata pela escada analgésica. Com déficit, o paciente passa ao protocolo daquele capítulo, e a urgência neurológica vem primeiro.
O dano: A gamopatia de significado indeterminado, pela diretriz, não tem lesão de órgão; uma banda com anemia, cálcio alto, perda de função renal ou lesão óssea já é outra doença. E o protocolo gaúcho manda o quadro sugestivo de gamopatia monoclonal para a Oncologia Hematologia: “benigna” escrito na unidade básica tira o paciente da fila que existe para ele.
Como pegar a tempo: Confira as quatro lesões de órgão, pergunte por formigamento nos pés, cansaço aos esforços, inchaço e urina espumosa — amiloidose e síndrome POEMS estão entre os diferenciais da diretriz — e encaminhe com os números. Diga ao paciente o que se sabe: há uma proteína produzida em excesso, e quem decide o significado dela é o hematologista.
O dano: A reposição às cegas não corrige a citopenia de uma síndrome mielodisplásica e adia o diagnóstico. O protocolo nacional manda iniciar a alfaepoetina depois do diagnóstico e antes da dependência transfusional estabelecida; o paciente que chega ao hematologista já vivendo de transfusão perdeu a janela que o protocolo fixa para começar e já acumula ferro.
Como pegar a tempo: Dose vitamina B12, folato e ferritina antes de repor. Macrocitose que a carência não explica, ou que não responde à reposição, com neutrófilos ou plaquetas baixos, segue a lista de exclusão do protocolo gaúcho e vai para a hematologia; com hemoglobina abaixo de 7 g/dL, neutrófilos abaixo de 500/µL, plaquetas abaixo de 50.000/µL ou blastos, vai para a urgência.
O dano: No primeiro caso, o paciente com policitemia vera fica sem hematócrito controlado e sem antiagregante, exposto à trombose que a diretriz associa ao hematócrito acima de 45%. No segundo, aplica-se a quem tem hipóxia uma meta que a diretriz brasileira estabeleceu para a policitemia vera; para a eritrocitose relativa ou secundária, o protocolo gaúcho manda tratar a causa — cessar o tabagismo, investigar a hipóxia, rever o medicamento.
Como pegar a tempo: Pergunte pelos sintomas de policitemia vera um a um e olhe as outras linhagens no mesmo hemograma. Sintoma sugestivo encaminha à hematologia sem esperar a repetição; eritrocitose isolada, sem sintoma, pede segundo hemograma em um mês, oximetria, radiografia, função renal, ecografia e a lista de medicamentos.
O dano: A diretriz brasileira registra aumento de sangramento maior com plaquetas acima de 1.000.000/µL em quem usa antiagregante, e põe a doença de von Willebrand adquirida entre as indicações de citorredução. O antiagregante que protegeria da trombose passa a provocar o sangramento que a trombocitose extrema já favorecia.
Como pegar a tempo: Com sangramento ou trombose, a contagem acima de 1.000.000/µL vai para a urgência, pela triagem de Distúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT). Sem eles, o ácido acetilsalicílico da trombocitemia essencial é decisão tomada depois do diagnóstico, pesando idade, mutação JAK2, trombose prévia e o risco de sangramento da contagem extrema.
O que dizer ao paciente e à família
No mieloma, o que se diz ao paciente corre dois riscos opostos. O primeiro é dizer cedo demais uma palavra que a medula ainda não confirmou e deixar a família com um diagnóstico que pode mudar. O segundo é o silêncio defensivo — “só o especialista pode falar” —, que deixa a família três dias sem entender por que o remédio da pressão sumiu, por que o corticoide não veio e por que o pai vai para outra cidade.
O caminho entre os dois é dizer o que os exames mostram, o que ainda falta e o que se está fazendo agora, com palavras que a filha de Ildefonso possa repetir ao irmão por telefone. As falas abaixo acompanham a internação, da admissão à transferência.
Terça, 19h15. A filha, ainda de pé ao lado da maca, pergunta se é tudo por causa da coluna.
““Não é só a coluna. Os exames que vieram da unidade mostram quatro coisas ao mesmo tempo: anemia, rim funcionando pior do que há oito meses, cálcio alto no sangue e uma vértebra que afundou sem queda. Quando essas quatro coisas aparecem juntas numa pessoa da idade do seu pai, a gente precisa investigar uma doença da medula óssea chamada mieloma. Ainda não é diagnóstico: faltam exames, e alguns só o hematologista faz. Esta noite, a prioridade é proteger o rim e baixar o cálcio, que é o que está deixando ele confuso.””
Não diga: “É só uma lombalgia forte” ou “Pode ser câncer”. A primeira promete o que os exames já desmentem; a segunda entrega uma palavra solta, sem o que falta confirmar e sem o que se vai fazer.
Terça, 19h25. Ildefonso, mais desperto, reclama que tiraram o remédio da pressão e o da dor.
““O senhor tem razão de estranhar. O rim do senhor está trabalhando com mais ou menos um quinto da força, e dois desses remédios — o ibuprofeno e o enalapril — cansam ainda mais um rim que já está sofrendo. A pressão está boa agora, 12 por 7, e a enfermagem vai medir de seis em seis horas. A dor não vai ficar sem remédio: o senhor vai tomar um analgésico que não pesa no rim, e se não for suficiente a gente sobe a dose ou troca.””
Não diga: “É protocolo” ou “Esses remédios fazem mal”. Nenhuma das duas explica ao paciente por que o tratamento de quinze anos foi suspenso numa noite, e ele volta a tomar o ibuprofeno que ficou na bolsa.
Terça, 19h50. A filha conta que o médico da unidade tinha falado num corticoide que “tira a dor na hora” e pergunta por que ele não foi dado.
““Esse remédio realmente alivia, mas pode atrapalhar o diagnóstico. Se a lesão da coluna for do tipo que a gente suspeita, o corticoide pode fazer a biópsia sair sem resposta, e aí o tratamento começa às cegas. Acabei de examinar a força e a sensibilidade das pernas dele, e estão normais; por isso dá para conversar com o hematologista antes. Se ele sentir fraqueza nas pernas, dormência na barriga ou nas coxas, ou não conseguir urinar, chame a enfermagem na hora: aí a conduta muda, e o corticoide pode entrar.””
Não diga: “Corticoide é perigoso” ou dar a dose para encerrar a conversa. A primeira frase assusta sem explicar; a segunda troca a dor de uma noite pelo diagnóstico de meses.
Quarta, 7h45. A filha soube que foi pedida transferência para a capital e pergunta se o pai está tão grave assim.
““Ele está melhor do que ontem: o cálcio baixou e ele já sabe o dia da semana. O pedido é urgente por causa do rim. O tratamento dessa doença, se ela se confirmar, é feito num hospital com hematologia e oncologia, e, quando o rim está afetado, a orientação do Ministério é começar o mais cedo possível. O pedido já foi para a central de regulação com os exames dele. Eu não sei dizer quando sai a vaga; sei que, enquanto ela não sai, ele continua aqui recebendo o soro, os exames e o cuidado com a coluna.””
Não diga: “Aqui não tem recurso para ele” ou “Amanhã ele vai”. A primeira soa como abandono; a segunda é uma data que ninguém no plantão pode garantir.
Quarta, 14h30. Ildefonso pergunta diretamente se o exame que chegou mostra câncer.
““O exame mostrou uma proteína que um grupo de células da sua medula está fabricando em excesso. Junto com a anemia, o rim e a vértebra, isso é o desenho do mieloma múltiplo, que é um tipo de câncer das células do sangue. A confirmação vem de um exame da medula que será feito no hospital para onde o senhor vai. Existe tratamento para essa doença no SUS, e a equipe de lá vai explicar qual é o seu caso. O que eu posso fazer agora é deixar o seu rim o melhor possível para esse tratamento.””
Não diga: “Não posso falar nada, só o especialista” ou “O senhor tem mieloma, é incurável”. Uma esconde o que o paciente perguntou com todas as letras; a outra dá como certo o que a medula ainda vai dizer e fecha a conversa na pior frase.
Quinta, 19h15. A filha leu na internet que a doença não tem cura e pergunta se é verdade.
““A diretriz do Ministério da Saúde descreve o mieloma como uma doença que ainda não tem cura, mas que tem tratamento: o objetivo é controlar a doença e manter a qualidade de vida pelo maior tempo possível. Quanto tempo e de que jeito depende de exames que ainda não saíram e da resposta do seu pai. A equipe da capital vai conversar com vocês com esses dados na mão. Hoje, o rim melhorou um pouco, mas não o suficiente, e por isso chamei o nefrologista.””
Não diga: “Não, não tem cura” dito sozinho, ou “Tem cura, fica tranquila”. A primeira é verdade sem o resto da verdade; a segunda é falsa e desmonta a confiança quando a hematologia falar.
Sexta, 15h. A ambulância chegou. A filha pergunta o que precisa levar e o que precisa dizer lá.
““O relatório vai com ele, com todos os exames e o horário de cada um. Guarde na memória três coisas para dizer a quem receber: ele não pode tomar anti-inflamatório nem fazer exame com contraste na veia sem o médico de lá decidir; os remédios da pressão estão suspensos desde terça por causa do rim; e ele ainda não tomou corticoide nenhum. As vacinas vão ser combinadas pela equipe de lá com o centro de imunobiológicos. E, quando ele voltar para casa, nada do que foi suspenso volta sem um médico mandar.””
Não diga: “Está tudo no relatório.” O relatório pode ficar num envelope fechado; a filha é quem estará ao lado do pai quando alguém, na capital, pensar em prescrever um anti-inflamatório para a dor.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Solução salina hipotônica — Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Mieloma Múltiplo, Ministério da Saúde, dezembro de 2023
A hidratação adequada é essencial e deve ser assegurada em todo paciente com mieloma e insuficiência renal. Soluções salinas hipotônicas podem ser mais vantajosas que as soluções fisiológicas, porque a formação de cilindros na alça de Henle é favorecida quando a concentração de cloreto de sódio passa de 80 mmol/L. A diretriz não fixa volume nem meta de diurese.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 27, de 5 de dezembro de 2023 — Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Mieloma Múltiplo, item 6.2.6
Soro fisiológico 0,9%, 4 a 6 litros em 24 horas — orientação de emergência da Society for Endocrinology (Reino Unido), 2016, adotada em Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia)
Na hipercalcemia acima de 3,5 mmol/L, ou de 3,0 a 3,5 mmol/L com sintoma, a reidratação começa com soro fisiológico, de 4 a 6 litros em 24 horas, no ritmo que coração e rim suportam, com eletrocardiograma e paratormônio colhido.
Walsh J, Gittoes N, Selby P; Society for Endocrinology Clinical Committee. Emergency management of acute hypercalcaemia in adult patients. Endocrine Connections 2016;5(5):G9 — conforme adotada no capítulo Distúrbios do cálcio, magnésio e fósforo (hipercalcemia/hipocalcemia), da apostila de Medicina Intensiva e Emergências
O texto brasileiro admite uma possível vantagem da solução hipotônica, sem torná-la obrigatória. Para este paciente com hipercalcemia sintomática, sódio baixo e disfunção renal, a reposição inicial isotônica, ajustada à avaliação clínica, evita transformar uma hipótese fisiopatológica em receita universal. Os volumes de 4–6 L das orientações de emergência pressupõem tolerância; não são piso para o idoso com rim comprometido. Reexaminar cedo, monitorar eletrólitos e discutir o tratamento específico com hematologia/nefrologia. A escolha deve registrar a situação do paciente e a resposta, além do documento consultado.
Quadro 5 das Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Mieloma Múltiplo, dezembro de 2023, adaptado da edição de 2019 do manual dos CRIE
Para pacientes com mieloma, cuidadores e familiares, antes e durante o tratamento: dT ou dTpa, poliomielite inativada, hepatite B, influenza inativada, hepatite A, meningocócica C conjugada, HPV de 9 a 26 anos e “pneumocócica 13-valente conjugada ou 23-valente polissacarídica”; tríplice viral, varicela e febre amarela só antes do tratamento e sem doença que contraindique vacina viva. Vacinar pelo menos 14 dias antes do início do tratamento.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 27, de 5 de dezembro de 2023 — Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Mieloma Múltiplo, item 6.2.8 e Quadro 5
Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª edição, Ministério da Saúde, 2023, com a pneumocócica pela Nota Técnica nº 52/2026
O Quadro 3, para pacientes oncológicos em quimioterapia, radioterapia ou outros imunossupressores, acrescenta a vacina contra Haemophilus influenzae tipo b, estende o HPV até 45 anos e indica as pneumocócicas de acordo com a idade. Para a pneumocócica, o Quadro 13 detalhava, para o paciente oncológico com doença em atividade ou até a alta médica, uma dose de conjugada 13-valente, uma de polissacarídica 23-valente oito semanas depois e uma revacinação com a 23-valente após cinco anos; desde 20 de maio de 2026, a Nota Técnica nº 52/2026 substituiu esse esquema, nas indicações da rede de imunobiológicos especiais — o paciente oncológico entre elas —, por dose única de conjugada 20-valente, sem 23-valente depois. Antígenos não vivos, pelo menos duas semanas antes da imunossupressão programada.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023 — Quadros 3 e 13; e Nota Técnica nº 52/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS, de 20 de maio de 2026, que substituiu o esquema pneumocócico do Quadro 13
Não é cronologia: as duas tabelas falam do mesmo paciente, antes do mesmo tratamento. O escopo não desempata, porque o quadro da diretriz declara seguir as recomendações do manual dos CRIE; a data empata no ano; a natureza favoreceria a portaria. O que decide é o quarto degrau, a coerência interna: a diretriz manda seguir o manual e reproduz a edição de 2019, já superada — defeito registrado com a conta nas notas do bloco de critérios. Esta apostila adota o manual de 2023, com Haemophilus influenzae tipo b e o restante do Quadro 3, pedidos ao CRIE. Na pneumocócica, o Quadro 13 do manual — conjugada 13-valente, polissacarídica 23-valente oito semanas depois e revacinação em cinco anos — foi substituído em 20 de maio de 2026 pela Nota Técnica nº 52/2026; entre manual e nota é cronologia, e contra a diretriz a data decide: vale a conjugada 20-valente em dose única, sem 23-valente depois — a mesma escolha de Linfomas Hodgkin e não Hodgkin, nesta apostila. Quando a urgência do tratamento não deixa duas semanas, como no rim de Ildefonso, a data da vacina é combinada com a hematologia e não adia o tratamento; essa última frase é leitura desta apostila.
O raciocínio, em voz alta
Ubaldo Quaresma, 61 anos, 84 quilos, motorista de ônibus intermunicipal, fuma vinte cigarros por dia há quarenta anos e trata hipertensão com anlodipino. Marca consulta na unidade básica por uma coceira “que não deixa tomar banho quente” há seis meses e por episódios de ardência nos pés, que ficam vermelhos e melhoram quando ele os põe no chão frio. O hemograma pedido pela empresa mostra hemoglobina de 18,4 g/dL, hematócrito de 55%, leucócitos de 12.800/µL e plaquetas de 612.000/µL. A pressão é de 138/84 mmHg, a saturação de 96% em ar ambiente, e o baço é palpável a 3 cm do rebordo costal esquerdo. Ele não usa testosterona nem outro hormônio. Ronca, mas a esposa nega pausas respiratórias. O colega que atendeu antes anotou: “policitemia do tabagista — orientado a parar de fumar, repetir hemograma em 3 meses”.
É policitemia pela definição que o Brasil usa?
Sim. O protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS define policitemia no homem como hemoglobina acima de 16,5 g/dL ou hematócrito acima de 49%, os mesmos cortes do primeiro critério maior de policitemia vera na diretriz brasileira de 2019. Ubaldo tem 18,4 g/dL e 55%. O número abre a investigação; não diz se a causa é o cigarro ou um clone.
O cigarro fecha o caso?
Não. O tabagismo está na lista de causas de policitemia relativa e de hipóxia crônica do protocolo, e Ubaldo fuma muito. Mas a mesma lista põe entre os sinais sugestivos de policitemia vera o prurido depois do banho, a eritromelalgia — a ardência com vermelhidão nos pés — e a esplenomegalia, e manda olhar as outras linhagens do hemograma: leucocitose e trombocitose junto com a eritrocitose apontam para neoplasia mieloproliferativa. Ubaldo tem os três sinais e as duas linhagens. A saturação de 96% em vigília também não sugere hipóxia importante. Fumar não protege ninguém de ter policitemia vera.
Ele espera três meses pelo hemograma de controle?
Não. O protocolo gaúcho tem dois caminhos independentes para a hematologia: a policitemia que persiste em dois hemogramas com um mês de intervalo depois de afastadas as causas secundárias, e a policitemia em quem tem sintoma sugestivo de policitemia vera. Ubaldo está no segundo, que não exige a espera. O texto do protocolo ainda dá preferência na fila à policitemia persistente com alto risco de eventos tromboembólicos. A anotação do colega troca um encaminhamento de hoje por uma espera que o protocolo não pede.
O que a unidade básica faz enquanto a consulta não vem
O encaminhamento leva o que o protocolo pede: sintomas, carga tabágica de 40 anos-maço, comorbidades, medicamentos em uso, o hemograma com data, e — se disponíveis — eritropoetina sérica e gasometria arterial. A unidade pede radiografia de tórax, função renal e ecografia de abdome, que confirma o baço e olha os rins, e registra a oximetria. A cessação do tabagismo começa na mesma consulta. Ubaldo e a esposa saem sabendo que dor e inchaço numa perna, falta de ar súbita, dor no peito, perda de força ou de fala são motivo de ir à emergência no mesmo dia. O ácido acetilsalicílico e a meta de hematócrito que a diretriz fixa são para a policitemia vera confirmada; se a consulta demorar, o caso se discute por teleconsultoria, e o número dela vai no encaminhamento.
O que o hematologista pede — e por que a biópsia entra
Pelos critérios da OMS de 2016, que a diretriz brasileira adota, a policitemia vera exige os três critérios maiores — hemoglobina ou hematócrito, biópsia de medula com proliferação das três linhagens e mutação JAK2 V617F ou do éxon 12 — ou os dois primeiros com o critério menor, a eritropoetina sérica abaixo do normal. A biópsia pode ser dispensada na eritrocitose sustentada acima de 18,5 g/dL ou 55% no homem. Ubaldo tem 18,4 g/dL e 55%: um décimo abaixo do corte da hemoglobina e exatamente no do hematócrito, não está acima de nenhum dos dois, e a biópsia entra.
O diagnóstico
Cinco semanas depois, a mutação JAK2 V617F vem positiva, a eritropoetina sérica está abaixo do limite inferior, e a biópsia mostra medula hipercelular para a idade, com proliferação eritroide, granulocítica e megacariocítica. Três critérios maiores e o menor: policitemia vera. A leucocitose e a trombocitose, o prurido e o baço tinham contado a mesma história desde a primeira consulta.
O tratamento que a diretriz brasileira fixa
Hematócrito abaixo de 45% para todos os pacientes com policitemia vera — a diretriz associou essa meta a menos morte cardiovascular e trombose do que a faixa de 45% a 50% — e ácido acetilsalicílico 100 mg por dia para todos sem contraindicação, com clopidogrel na alergia. O comprimido de 100 mg está na Rename, no Componente Básico: um por dia. A diretriz aponta idade avançada, trombose prévia e leucocitose como fatores de risco de trombose e de morte, sem fixar um escore único, e reserva a citorredução para quem não tolera a sangria ou tem doença de alto risco. Com 61 anos e leucócitos de 12.800/µL, a decisão da hidroxiureia é do hematologista. Na Rename, a hidroxiureia do Componente Especializado tem como documento norteador só o protocolo da doença falciforme, e o caminho do medicamento para a policitemia vera se combina com o serviço de hematologia.
O que volta para a unidade básica
Ubaldo é paciente da hematologia e continua paciente da unidade. Ela fica com o que só ela faz bem: a cessação do tabagismo, a pressão arterial, a confirmação de que o ácido acetilsalicílico está sendo tomado todos os dias, os hemogramas no intervalo que o hematologista definir e a lembrança dos sinais de trombose e de sangramento que levam à emergência. O prontuário corrige a anotação da primeira consulta: “policitemia vera, JAK2 V617F positivo, em acompanhamento na hematologia; meta de hematócrito abaixo de 45%”.
Faça você
Luzia Rosado, 79 anos, 58 quilos, costureira aposentada, tem síndrome mielodisplásica diagnosticada há dois anos no hemocentro regional. Ao diagnóstico: hemoglobina de 8,6 g/dL com anemia sintomática, plaquetas de 132.000/µL, neutrófilos de 1.100/µL, 2% de blastos na medula e cariótipo normal. Recebeu alfaepoetina 40.000 UI por semana por oito semanas, 60.000 UI por semana por mais oito e, depois, filgrastim associado por oito semanas, sem resposta eritroide. Há 18 meses vive de transfusão: 26 concentrados de hemácias até hoje. Na unidade básica, para a consulta de rotina, ela traz ferritina de 2.450 µg/L, creatinina de 0,9 mg/dL e aminotransferases normais. A filha pergunta se “esse ferro alto” é um problema, se tem remédio e por que ninguém falou disso antes.
O risco de Luzia pelo IPSS-R
Some os pontos com a tabela da investigação, em g/dL: cariótipo normal, 2% de blastos, hemoglobina de 8,6 g/dL, plaquetas de 132.000/µL e neutrófilos de 1.100/µL. Diga a categoria e se ela está dentro do protocolo federal de baixo risco. Depois, refaça a conta lendo a linha da hemoglobina como o cabeçalho da tabela do protocolo manda, em g/L, e diga o que muda.
A alfaepoetina falhou pelo protocolo?
Confira o tempo de tratamento contra o esquema do protocolo e diga o que ele ainda oferece a quem não respondeu à alfaepoetina com anemia refratária, e com que condições.
O ferro entra no critério de quelação?
Aplique o critério de inclusão do protocolo de sobrecarga de ferro de 2026 aos números de Luzia — número de transfusões e ferritina — e diga como a leitura literal do intervalo de procedimentos a afetaria. Diga se o deferasirox é permitido para ela, calculando a depuração de creatinina por Cockcroft-Gault, e qual seria a dose inicial em comprimidos das apresentações da Rename.
Quem faz o quê a partir de hoje
Separe o que é do hematologista, o que é da unidade básica e o que é da transfusão, e responda à filha em duas frases.
Ver como fecharíamos
O risco: cariótipo normal vale 1 ponto (categoria boa), blastos de 2% valem 0, hemoglobina de 8,6 g/dL vale 1 (faixa de 8 a menos de 10), plaquetas de 132.000/µL valem 0 e neutrófilos de 1.100/µL valem 0 — 2,0 pontos, risco baixo pelo IPSS-R, dentro do protocolo de baixo risco, que vai até 3,5. Lida em g/L, a hemoglobina vira 86, que é maior que 10 e vale 0: 1,0 ponto, risco muito baixo — a paciente continua no protocolo, mas muda de categoria por um erro de unidade. A alfaepoetina: o protocolo manda 8 semanas na dose inicial, 8 na dose mais alta e, sem resposta em 16 semanas, filgrastim associado por mais 8 antes de considerar falha; Luzia cumpriu as 24 semanas, e a falha está caracterizada. Para quem não respondeu, com anemia refratária classificada como D46.0, D46.1 ou D46.4, o protocolo prevê talidomida 100 mg/dia, com consentimento, termo de responsabilidade e sem neuropatia periférica de grau II ou maior — decisão do hematologista. O ferro: o protocolo de sobrecarga inclui quem recebe transfusões regulares e tem ferritina acima de 1.000 µg/L; Luzia tem 26 concentrados e 2.450 µg/L. Lido como intervalo, “10 a 20 procedimentos” a excluiria por ter recebido 26 — esta apostila lê o número como piso. A depuração é (140 − 79) × 58 × 0,85 ÷ (72 × 0,9) = 46 mL/min, acima dos 40 mL/min abaixo dos quais o deferasirox é contraindicado, e a mielodisplasia dela é de baixo risco, o que também o permite. A bula brasileira exige cautela na faixa de 40–60 mL/min. Antes de prescrever, avaliar carga transfusional, tendência da ferritina, comorbidades, expectativa de benefício e possibilidade de monitorar; o limiar de 40 não torna a paciente de baixo risco renal. Como exercício de cálculo, 20 mg/kg dá 1.160 mg; com comprimidos para suspensão de 125, 250 e 500 mg, a combinação mais próxima é 1.125 mg — dois de 500 mg e um de 125 mg, ou 19,4 mg/kg. Com o quelante, a creatinina é semanal nas primeiras semanas e a função hepática é acompanhada durante todo o tratamento. Quem faz o quê: a indicação da quelação, a prescrição pelo Componente Especializado e a decisão sobre talidomida são do hematologista; a indicação e a técnica de cada transfusão seguem Terapia transfusional e reações transfusionais; a unidade básica encaminha hoje a ferritina com o pedido explícito de avaliação de quelação, colhe os exames de controle no ritmo combinado e trata febre com neutrófilos baixos como urgência. À filha: “O ferro de cada bolsa de sangue fica no corpo e, em excesso, pode lesar o fígado e o coração. Existe remédio para retirar esse ferro pelo SUS, e o hematologista vai avaliar se é a hora de começar.”
A diretriz do mieloma pede a viscosidade sérica quando a proteína M passa de 5 g/dL ou há sintomas de hiperviscosidade. Quando a dosagem não está disponível, orienta o exame do fundo de olho, sensível para a hiperviscosidade com repercussão: hemorragias retinianas, papiledema e veias dilatadas em forma de salsicha. O paciente tem proteína M de 6,2 g/dL e sintomas, e o exame está ao alcance do plantão. Acionar hematologia em paralelo: suspeita clínica relevante de hiperviscosidade exige abordagem urgente, e a falta de dosagem de viscosidade não deve atrasar tratamento especializado. O valor de proteína M não é requisito absoluto se os sintomas forem sugestivos.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Explique por que anemia, dor óssea, hipercalcemia e alteração renal pedem investigação de mieloma e quais medidas devem começar antes da confirmação completa.
Em 30 dias
Compare um paciente com provável mieloma e lesão renal com uma pessoa com mielodisplasia dependente de transfusão. Organize prioridades, exames e seguimento, incluindo a avaliação individual de sobrecarga de ferro.
Agora atenda
Agora atenda: Anselmo Farias, 67 anos, 78 quilos, eletricista aposentado, chega à unidade básica com a eletroforese de proteínas que a ortopedia pediu depois de uma fratura de punho numa queda da própria altura: pico monoclonal de 1,4 g/dL na região gama. Ele se sente bem e quer saber se “é coisa de câncer”. Ainda não há hemograma, cálcio nem creatinina no prontuário. Decida o que conferir antes de responder, o que dizer a ele hoje e para onde o pedido vai.
