Clínica Médica › Hematologia e Hemoterapia
A contagem e a lâmina
Distúrbios plaquetários e púrpuras (PTI, PTT)
Uma plaquetopenia pode ser erro do tubo, doença que se acompanha no ambulatório ou emergência que mata em horas; o que separa as três é a lâmina, a hemólise e a pergunta certa sobre o sangramento. O capítulo ensina a percorrer as causas antes de chamar de imune, a tratar a trombocitopenia imune pelo PCDT de 2026, a reconhecer a microangiopatia que pede troca plasmática no mesmo dia e a não transfundir a plaqueta que piora o quadro.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 41, de 25 de fevereiro de 2026: aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Trombocitopenia Imune Primária. Diário Oficial da União nº 39, 27 fev. 2026, seção 1, p. 82; retificação no Diário Oficial da União nº 57, 25 mar. 2026, seção 1, p. 166.
Fundação Hemominas. Protocolo de plasmaférese terapêutica para tratamento de doenças raras (PTO-T.AHH.AFE-24). Belo Horizonte: Fundação Hemominas, 2026. Revisão 00.
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Responda antes de ler
Homem de 45 anos, montador de andaimes em obras, assintomático, tem plaquetas de 42.000/µL confirmadas em nova coleta com citrato e na lâmina, sem outra alteração no hemograma, sem esplenomegalia e com HBsAg, anti-HCV e anti-HIV não reagentes. Não usa medicamentos. Pelo PCDT da Trombocitopenia Imune Primária de 2026, qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
São dez e quarenta da noite de uma terça-feira na unidade de pronto atendimento. Joana Wanderley, 31 anos, 58 quilos, vendedora de uma loja de calçados, está sentada na maca com uma bola de gaze apertada contra a narina direita. O nariz sangra desde as sete da noite, parou duas vezes e voltou. De manhã, ao escovar os dentes, a gengiva sangrou mais do que o normal, e há dois dias ela reparou em pontinhos vermelhos nas canelas, que tomou por alergia. Nas coxas há três manchas roxas que ela não sabe de onde vieram.
A pressão é de 112 por 70 mmHg, a frequência cardíaca de 102 batimentos por minuto, e ela conversa sem dificuldade. Não tem febre, não teve dor de cabeça, a menstruação terminou há cinco dias. Na semana passada tomou ibuprofeno por três dias para cólica. Três semanas atrás teve um resfriado que passou sozinho. Não usa outros remédios, não tem doença conhecida e não está grávida — o teste rápido que a enfermagem fez na triagem veio negativo.
O hemograma chega às onze e cinco: hemoglobina de 11,2 g/dL, volume corpuscular médio de 86 fL, leucócitos de 6.800/µL com diferencial normal e plaquetas de 4.000/µL. No rodapé do laudo, a técnica do laboratório escreveu que a contagem foi conferida na lâmina, que há plaquetas grandes, que não há agregados e que não se viram esquizócitos nem células imaturas. Ao exame, as petéquias sobem das canelas até os joelhos, há duas pequenas bolhas escuras na mucosa da bochecha, o baço não é palpável e não há gânglios aumentados.
O médico plantonista passa pelo corredor, espia o laudo na sua mão e decide sem parar de andar: é púrpura, pede duas aféreses de plaqueta ao banco de sangue e começa dexametasona. Ele segue para a sala vermelha, onde chegou um politraumatizado, e deixa com você a folha de prescrição e o telefone do hemocentro.
Você tem a caneta na mão e três dúvidas que o número sozinho não resolve. Quatro mil plaquetas numa mulher que conversa e está corada é emergência ou é doença que se trata sem pressa? A plaqueta transfundida vai ficar no sangue dela ou vai sumir pelo mesmo caminho que levou as dela? E o laudo sem esquizócitos basta para chamar de imune, ou falta percorrer a lista das causas que se parecem com isso — o remédio, o vírus, o fígado, a medula, a gestação, a microangiopatia?
Este capítulo começa pela pergunta que você está fazendo agora e acompanha Joana até o ambulatório. No caminho, trata das outras plaquetopenias que chegam ao mesmo corredor — a do tubo de coleta, a que vem com hemólise e confusão mental e pede troca plasmática antes do amanhecer, a que acompanha a diarreia com sangue — e das plaquetas que sangram em número normal ou sobram no hemograma.
Quem adoece disso
A plaquetopenia é um dos achados mais comuns do hemograma e um dos que mais assustam, porque o número vem sozinho e baixo. Na maioria das vezes ela é parte de outra doença — infecção, fígado, baço grande, remédio, gestação, medula — e o capítulo dessas doenças cuida dela. Sobram três situações em que a plaqueta é a doença: a trombocitopenia imune, as microangiopatias trombóticas e o erro do próprio tubo de coleta. As três chegam ao mesmo corredor e pedem condutas opostas.
A trombocitopenia imune, que o PCDT de 2026 passou a chamar assim mantendo a sigla PTI, tem incidência estimada em adultos de 1,6 a 6,1 casos por 100.000 pessoas por ano e prevalência de 4,0 a 23,6 por 100.000, números de estudos internacionais que o próprio protocolo considera subestimados, porque contam sobretudo quem sangrou ou foi internado. Há predominância feminina dos 18 aos 45 anos. A diferença que mais pesa no plano é a evolução: na criança, a doença desaparece sozinha em cerca de quatro de cada cinco casos, num prazo de meio ano a um ano — e a conduta dela é de Púrpura trombocitopênica imune (PTI) na criança, na apostila de Hematologia Pediátrica; no adulto, cerca de 80% evoluem para a forma crônica e a remissão espontânea acontece em menos de 10% dos que não tratam.
O sangramento aparece em até dois terços dos pacientes, e 30% a 40% dos que têm a forma crônica não sangram nada. O risco de hemorragia grave digestiva ou do sistema nervoso central no início da doença fica abaixo de 1%. Os preditores de sangramento clinicamente importante que o PCDT lista são a própria contagem (abaixo de 20.000/µL na doença persistente ou crônica, abaixo de 30.000/µL na recém-diagnosticada), sangramento menor anterior e idade avançada; no adulto somam-se sexo feminino, doença crônica e uso de anti-inflamatório. Joana, do corredor, tem três: a contagem, o sexo e o ibuprofeno da semana passada.
Na gestação, a trombocitopenia imune ocorre em 1 a 2 de cada 1.000 gestantes e responde por cerca de 5% das plaquetopenias da gravidez; é a principal causa no primeiro e no segundo trimestres, e no terceiro perde para a trombocitopenia gestacional, que costuma ficar acima de 70.000/µL e raramente sangra. A plaquetopenia que chega com hipertensão depois de 20 semanas é outro assunto, e tem capítulo próprio na apostila de Obstetrícia.
A pseudoplaquetopenia, em que as plaquetas se agregam no tubo com EDTA e o contador as deixa de contar, ocorre em até 0,1% da população, pelo protocolo de encaminhamento do TelessaúdeRS. É pouco para cada pessoa e muito para a rede, porque cada contagem falsa que passa sem lâmina pode virar encaminhamento, mielograma ou transfusão de plaqueta para uma doença que não existe.
A púrpura trombocitopênica trombótica é rara e mata depressa. Antes dos esquemas de troca diária, nove em cada dez pacientes morriam; com sessões diárias usando plasma fresco congelado como reposição, a mortalidade caiu para menos de três em dez em alguns estudos, segundo o Guia para uso de hemocomponentes do Ministério da Saúde. A troca plasmática é indicação de primeira linha com o grau mais alto de recomendação na classificação da sociedade americana de aférese que a Fundação Hemominas usa. O relógio é a questão: a diretriz da sociedade internacional de trombose considera ideal o resultado da atividade da ADAMTS13 em menos de 72 horas e aceitável em até 7 dias, e a decisão de começar a troca não pode esperar nem o primeiro prazo.
A síndrome hemolítico-urêmica está na lista de agravos da vigilância sentinela das doenças de transmissão hídrica e alimentar, ao lado do rotavírus e da doença diarreica aguda, na lista vigente da Portaria GM/MS nº 11.211, de maio de 2026 — que a manteve, e não a incluiu. Vigilância sentinela quer dizer unidades selecionadas acompanhando o agravo de perto; o surto de doença transmitida por alimento que produz casos da síndrome segue o fluxo de investigação que o capítulo de diarreia aguda infecciosa, na apostila de Gastroenterologia, descreve.
A régua brasileira é desigual entre essas doenças. A trombocitopenia imune tem PCDT federal, atualizado em 2019 e de novo em fevereiro de 2026, com a lista de medicamentos do Componente Especializado. A lista federal de PCDT de setembro de 2026 não traz a púrpura trombocitopênica trombótica, a síndrome hemolítico-urêmica nem a trombocitemia essencial: para as microangiopatias, o que o SUS tem são protocolos estaduais e hospitalares de plasmaférese, como o da Hemominas, e a diretriz internacional de 2020. A Rename 2024 tem dois inibidores de complemento, o eculizumabe e o ravulizumabe, e vincula os dois apenas ao PCDT de hemoglobinúria paroxística noturna; o caplacizumabe não consta.
Por que acontece o que acontece
A plaqueta é um fragmento de megacariócito, a célula gigante da medula que a trombopoetina, produzida sobretudo no fígado, estimula a amadurecer. Nem toda plaqueta produzida está circulando: o baço guarda uma fração, que o Guia para uso de hemocomponentes estima em cerca de um terço quando calcula a dose de uma transfusão. Baço grande guarda mais — é o hiperesplenismo da hipertensão portal, que baixa a contagem sem destruir plaqueta nenhuma e tem capítulo próprio na apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo.
O trabalho da plaqueta é a hemostasia primária. Quando o endotélio se rompe, ela adere ao colágeno exposto usando o fator de von Willebrand como ponte, muda de forma, libera o conteúdo dos grânulos e agrega com as vizinhas pela glicoproteína IIb/IIIa ligada ao fibrinogênio, formando o tampão que a coagulação depois consolida com fibrina. Por isso a falta ou a falha da plaqueta sangra de um jeito reconhecível: pele e mucosa — petéquia, equimose, gengiva, nariz, menstruação volumosa —, logo depois do trauma e em muitos pontos pequenos. A falta de fator da coagulação sangra fundo e tarde, na articulação e no músculo. Olhar onde o paciente sangra já divide o diagnóstico ao meio.
A pseudoplaquetopenia é um artefato com mecanismo imune, mas fora do corpo. Alguns indivíduos têm anticorpos que só reconhecem a glicoproteína da plaqueta quando o EDTA do tubo altera a sua conformação; as plaquetas então se agregam ou se grudam em volta dos neutrófilos, e o contador automático, que mede partícula por tamanho, lê os grumos como leucócitos ou não os lê. O paciente não sangra, porque dentro dele não há EDTA. O PCDT de 2026 lembra que o fenômeno é menos frequente, mas possível, também com citrato, com heparina e em estados inflamatórios — e é por isso que a lâmina decide, e não só a troca de tubo.
Na trombocitopenia imune, o organismo produz anticorpos contra glicoproteínas da membrana da plaqueta, sobretudo a IIb/IIIa, e as plaquetas marcadas são retiradas da circulação pelos macrófagos, principalmente do baço. O PCDT registra que só 50% a 80% dos pacientes têm esses anticorpos detectáveis, e que o resto do mecanismo passa por linfócitos T citotóxicos e por autoimunidade dirigida ao próprio megacariócito, que produz menos. É a dupla falha — destruição acelerada e produção insuficiente — que explica as plaquetas grandes na lâmina (jovens, recém-saídas da medula) e o fracasso da transfusão: a plaqueta do doador carrega as mesmas glicoproteínas e é retirada pelo mesmo caminho, em horas. Quando o PCDT manda transfundir numa emergência, manda dose três vezes maior que a usual, justamente para vencer esse consumo.
Cada tratamento da trombocitopenia imune age num ponto dessa cadeia. O corticoide reduz a produção de anticorpo e a retirada pelo macrófago, e o PCDT registra um efeito que o aluno costuma não esperar: ele reduz o sangramento independentemente da subida das plaquetas. A imunoglobulina humana satura os receptores do macrófago que reconhecem a plaqueta coberta de anticorpo e, pelo PCDT, também interfere na ligação do complemento e dos imunocomplexos à plaqueta; age mais depressa e dura menos. O rituximabe elimina os linfócitos B que produzem o anticorpo; os agonistas do receptor da trombopoetina, eltrombopague e romiplostim, fazem o megacariócito produzir mais; a esplenectomia retira o principal lugar de destruição.
A púrpura trombocitopênica trombótica é o inverso fisiológico: a plaqueta não some por falta de função, some porque está sendo gasta em trombos. O fator de von Willebrand é secretado pelo endotélio em multímeros enormes, e uma protease do plasma, a ADAMTS13, os corta em tamanhos menores. Sem ela — quase sempre por um autoanticorpo, raramente por deficiência congênita —, os multímeros gigantes ficam no plasma, capturam plaquetas no fluxo rápido das arteríolas e dos capilares, e formam microtrombos ricos em plaqueta no cérebro, no coração, no intestino e no rim. A isquemia explica a confusão mental, o déficit neurológico que vai e volta e a troponina alta; a hemácia que passa pelo capilar parcialmente ocluído se rasga e vira esquizócito. Transfundir plaqueta é oferecer mais matéria-prima para o trombo, e o Guia registra piora clínica e eventos tromboembólicos. A troca plasmática faz as duas coisas que faltam: retira o anticorpo e repõe a ADAMTS13 que está no plasma do doador.
Na síndrome hemolítico-urêmica associada à toxina Shiga, a lesão começa pelo endotélio: a toxina produzida por algumas cepas de Escherichia coli, absorvida no intestino inflamado, lesa sobretudo os capilares do glomérulo, e o resultado é a mesma anemia com esquizócitos e plaquetopenia, com a injúria renal na frente e a ADAMTS13 preservada. Na forma atípica, mediada por complemento, o defeito está na regulação da via alternativa — por alteração genética ou por anticorpo contra o fator H, que o protocolo da Hemominas trata com troca plasmática — e o endotélio é atacado pelo próprio complemento. O inibidor de C5 bloqueia a etapa final desse ataque, e é por isso que ele é a terapia dirigida da forma atípica.
Há ainda a plaqueta em número normal que não funciona e a plaqueta que sobra. O ácido acetilsalicílico inativa de forma irreversível a ciclo-oxigenase da plaqueta, que não tem núcleo para fabricar outra: o efeito dura enquanto aquela plaqueta circular, e só a produção nova o desfaz. A uremia atrapalha a adesão e a agregação, e a doença de von Willebrand tira a ponte da adesão. Na trombocitose, o mecanismo mais comum é reativo — a inflamação, a ferropenia e a perda de sangue aumentam o estímulo à produção, e a retirada do baço tira o lugar onde a plaqueta ficaria guardada —; o menos comum é clonal, uma neoplasia mieloproliferativa que produz plaqueta sem pedido. Contagens muito altas podem, paradoxalmente, sangrar, porque a massa de plaquetas consome os multímeros grandes do fator de von Willebrand.

Como se apresenta de verdade
Neste capítulo, apresentação é a forma como a plaqueta chega ao corredor: um número baixo num exame de rotina, um nariz que não para de sangrar, uma anemia com confusão mental, uma creatinina que sobe depois de uma diarreia com sangue, um sangramento com contagem normal ou um número alto que ninguém pediu. Cada forma tem um primeiro passo diferente, e errar o primeiro passo é o que mata ou o que gera transfusão inútil.
Percurso de aprendizagem
Compare plaquetopenia isolada e plaquetopenia com hemólise ou outras citopenias; procure sinais de urgência no exame.
Acompanhe tratamento e reavaliação do sangramento, conferindo dose, apresentação e intervalo. Use o PLASMIC como apoio à suspeita, com seus limites.
A contagem baixa em quem não sangra: o tubo, a lâmina e a repetição
O exame de rotina que volta com 60.000 ou 90.000 plaquetas por microlitro, numa pessoa sem petéquia, sem equimose e sem história de sangramento, pede primeiro que se descarte o artefato. O protocolo de encaminhamento de hematologia do TelessaúdeRS orienta, na plaquetopenia isolada sem critério de gravidade, repetir a contagem com nova coleta em citrato, ou contar as plaquetas em lâmina ou em câmara de contagem; o PCDT de 2026 prefere o citrato, sempre que disponível, já no hemograma do diagnóstico. Como recolher, em que proporção e como corrigir o resultado da diluição está no capítulo Hemograma: como ler de verdade, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, que é dono dessa leitura.
Confirmada a plaquetopenia, a pessoa sem sangramento entra na lista de causas secundárias antes de qualquer rótulo. O Quadro 1 do TelessaúdeRS dá a lista prática: infecções agudas e crônicas (COVID-19, dengue, chikungunya, rubéola, varicela, parvovírus, Epstein-Barr, citomegalovírus, leptospirose, Helicobacter pylori, hepatites B e C, HIV e tuberculose), doença hepática crônica, doença reumatológica como lúpus e síndrome antifosfolípide, deficiência de vitamina B12 ou de folato — inclusive depois de cirurgia bariátrica e na dieta vegana — e medicamentos, com os betalactâmicos, a sulfametoxazol-trimetoprima, a carbamazepina, a fenitoína, o ácido valproico, o haloperidol, a heparina, os salicilatos e os anti-inflamatórios entre os exemplos. Depois de uma infecção aguda, a contagem se reavalia quatro semanas após a resolução, e não no dia seguinte à alta.
O mesmo protocolo manda para a urgência, no mesmo dia, a plaquetopenia abaixo de 20.000/µL e a que vem com citopenia grave associada (hemoglobina abaixo de 7 g/dL ou neutrófilos abaixo de 500/µL). A que persiste depois de afastado o artefato e as causas secundárias vai para a hematologia com duas contagens separadas por um mês — ou por uma semana, se abaixo de 50.000/µL. A definição de trombocitopenia imune no PCDT começa em 100.000/µL: acima disso, na pessoa sem sangramento, a pergunta é qual doença de base está baixando a contagem, e não qual tratamento começar.
O que sangra, com quantas plaquetas, e o que é emergência
O sangramento de plaqueta começa na pele: petéquias nas áreas de pressão e nas pernas, equimoses sem trauma lembrado. O passo seguinte é a mucosa — gengiva ao escovar, nariz, bolhas escuras na boca, menstruação mais volumosa, sangue na urina ou nas fezes —, e é a mucosa que muda a conduta. Lido em conjunto, o PCDT separa três degraus. O sangramento cutâneo ou mucoso leve (petéquias, púrpura, epistaxe e gengivorragia leves) permite escolher o tratamento sem a pressa da hemorragia. O sangramento mucoso de maior repercussão, com epistaxe ou gengivorragia volumosas ou sangramento digestivo ou urinário, é indicação da imunoglobulina humana, pela resposta mais rápida. E o sangramento crítico é emergência.
O PCDT define sangramento crítico de duas maneiras, e as duas valem: pelo local — intracraniano, intraespinhal, intraocular, retroperitoneal, pericárdico ou muscular com síndrome compartimental — ou pela repercussão, quando o sangramento contínuo leva a instabilidade hemodinâmica ou comprometimento respiratório. O sangramento intracraniano é crítico pelo local, com ou sem pressão baixa: o paciente pode estar conversando. Como ele não se vê, uma cefaleia nova, vômitos ou qualquer sinal neurológico num paciente com contagem muito baixa pedem imagem de crânio antes da discussão sobre a causa da plaquetopenia.
A contagem e o sangramento andam juntos, mas mal. O PCDT registra que a gravidade é maior abaixo de 10.000/µL e que o risco de hemorragia grave é mais provável nessa faixa, e ao mesmo tempo que pacientes com a mesma contagem têm quadros muito diferentes. Por isso o número entra na decisão ao lado do sangramento atual, do sangramento anterior, da idade, do anti-inflamatório e da atividade de risco — e é por isso que Joana, com 4.000/µL, nariz sangrando e bolhas na mucosa, não é igual a outra mulher com 4.000/µL e duas petéquias.
A trombocitopenia imune do adulto: o retrato e o que não cabe nele
O retrato é o de Joana: plaquetopenia isolada, sem anemia que o sangramento não explique e sem alteração dos leucócitos; exame físico normal fora do sangramento, sem gânglios aumentados, sem fígado ou baço palpáveis; lâmina com plaquetas de tamanho normal ou grandes, sem agregados, sem esquizócitos e sem células imaturas. Alguns pacientes contam um evento desencadeante nas semanas anteriores, como uma infecção, e o PCDT registra que fadiga é queixa comum. Não existe exame que confirme a doença: a dosagem de anticorpo antiplaquetário não é recomendada, por baixa acurácia, e o diagnóstico é de exclusão.
O PCDT classifica a doença pelo tempo desde o diagnóstico, e a classificação tem consequência: é recém-diagnosticada nos primeiros 3 meses, persistente entre o 3º e o 12º mês e crônica passado o primeiro ano. A segunda linha de tratamento só se abre depois dos 3 meses, e a esplenectomia só depois dos 12, porque parte dos pacientes melhora nesse intervalo.
O que não cabe no retrato manda procurar outra doença. Linfonodomegalia ou hepatoesplenomegalia sugerem causa de base, pelo próprio PCDT. Febre, perda de peso, suor noturno, outra citopenia ou células imaturas na lâmina apontam para a medula — a plaquetopenia da leucemia está no capítulo de leucemias desta apostila. Anemia com reticulócitos altos e esquizócitos é microangiopatia, e muda tudo. Anemia com Coombs direto positivo ao lado da plaquetopenia é a síndrome de Evans, que o PCDT lista entre as formas secundárias. E sangramento desproporcional a uma contagem só moderadamente baixa faz pensar em doença de von Willebrand do tipo 2B, síndrome de Bernard-Soulier ou outro distúrbio plaquetário hereditário.
A trombocitopenia imune secundária tem o mesmo mecanismo e outra doença por trás: lúpus, síndrome antifosfolípide, imunodeficiência comum variável, doença linfoproliferativa, HIV, hepatite C, hepatite B, Helicobacter pylori e medicamentos. O PCDT de 2026 é escrito para a forma primária e manda tratar a secundária pela doença de base. Por isso a investigação do adulto inclui, sempre, o teste para HIV e para hepatite C: a infecção crônica ainda sem sintoma pode se apresentar pela primeira vez como plaquetopenia.
A plaquetopenia com hemólise: microangiopatia até prova em contrário
Quando a plaquetopenia chega com anemia, a primeira pergunta é se a anemia é de hemólise, e a segunda é se a hemólise é mecânica. Hemólise é reticulócito alto, desidrogenase lática alta, haptoglobina baixa e bilirrubina indireta alta; mecânica é esquizócito na lâmina e Coombs direto negativo. Plaquetopenia com anemia hemolítica microangiopática é microangiopatia trombótica até prova em contrário, e isso muda a urgência de um dia para uma hora.
A púrpura trombocitopênica trombótica é a microangiopatia que mais mata nas primeiras horas. O quadro típico é o de um adulto com petéquias, anemia e sintomas de isquemia que oscilam: confusão que vai e volta, cefaleia, fala enrolada por minutos, dor abdominal, dor no peito com troponina alta, febre. A diretriz da sociedade internacional de trombose descreve a função renal como relativamente preservada — creatinina que sobe pouco. A plaquetopenia costuma ser profunda — os dois escores de probabilidade da mesma diretriz pontuam a contagem abaixo de 30.000/µL —, e é justamente esse paciente, com petéquias e contagem de um dígito de milhar, que é confundido com trombocitopenia imune e recebe plaqueta.
Na síndrome hemolítico-urêmica associada à toxina Shiga, a história é outra: diarreia que começou aquosa, ficou com sangue, e alguns dias depois vieram a palidez, a urina escassa e a creatinina subindo. A suspeita nasce no capítulo de diarreia aguda infecciosa, na apostila de Gastroenterologia, que manda vigiar a síndrome; o que se faz quando ela chega está neste capítulo. A forma atípica, mediada por complemento, aparece sem diarreia e com injúria renal importante, e é diagnóstico de especialista depois que a atividade da ADAMTS13 volta acima de 10%.
Na criança, essa é a forma que mais aparece. A diretriz das sociedades alemãs de nefrologia, de 2026, põe a maior incidência abaixo dos 5 anos, atribui à toxina Shiga cerca de 90% dos casos da infância, com a função renal caindo cerca de 7 a 14 dias depois do início da diarreia, e registra a síndrome como causa frequente de injúria renal aguda com diálise na infância. Sem protocolo brasileiro de manejo, é ela que governa o que segue; a diarreia e a reidratação são de Diarreia aguda e desidratação: planos A, B e C de terapia de reidratação (AIDPI), na apostila de Gastroenterologia Pediátrica. Na infecção por toxina Shiga suspeita ou confirmada, não se dá antibiótico que pode aumentar a liberação da toxina, como betalactâmico, fluoroquinolona e sulfametoxazol-trimetoprim, nem antidiarreico, que aquele capítulo já proíbe na criança; a dor abdominal se trata sem opioide nem anti-inflamatório como o ibuprofeno, que podem piorar o intestino e o rim. Faz-se expansão de volume conforme o estado de partida, com meta de ganho de 3% a 5% sobre o peso normal estimado em 24 a 48 horas, para reduzir a chance de diálise — evidência muito baixa —, com balanço hídrico enquanto houver diurese e pressão e eletrólitos vigiados; e a ADAMTS13 se colhe logo, também na criança, para afastar a PTT. Transfusão não tem número de corte: hemácia pela clínica e pelo ritmo da hemólise, sem mirar hemoglobina normal; plaqueta pelo sangramento e pelo risco antes de procedimento invasivo, não pela contagem isolada. Nessa forma, troca de plasma e plasma não entram, e inibidor de complemento não é rotina. A diálise vem quando potássio, acidose, volume, uremia ou pressão não cedem ao tratamento clínico, e a criança com a síndrome, mesmo antes da injúria renal, é tratada em centro com terapia intensiva e diálise. A pneumocócica, que complica pneumonia ou meningite na criança pequena, e a atípica, descrita acima, só se reconhecem e se encaminham; a síndrome que volta pede outra explicação, porque a forma por toxina Shiga não tem recidiva descrita. A síndrome é agravo da vigilância sentinela pela Portaria GM/MS nº 11.211, e, no surto, o Guia de Vigilância em Saúde de 2024 manda notificar o caso que evolui para ela em ficha individual no Sinan, além da de surto.
Três quadros imitam a microangiopatia e têm dono em outro lugar: a síndrome HELLP, na gestante a partir da segunda metade da gestação, no capítulo Síndrome HELLP: diagnóstico laboratorial e conduta, da apostila de Obstetrícia; a emergência hipertensiva com lesão microangiopática, no capítulo de crise hipertensiva da apostila de Cardiologia; e a coagulação intravascular disseminada da sepse, com tempo de protrombina alargado e fibrinogênio consumido, no capítulo Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes, desta apostila. Câncer ativo e transplante também produzem microangiopatia, e os escores de probabilidade não foram desenhados para eles.
A plaquetopenia que acompanha outra doença
No paciente internado, a plaquetopenia quase nunca é trombocitopenia imune. A queda durante o uso de heparina tem escore, conduta e armadilhas próprias no capítulo Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes, desta apostila, que também é dono da coagulação intravascular disseminada. A sepse consome plaqueta; os antibióticos e anticonvulsivantes da lista do TelessaúdeRS a derrubam; a transfusão maciça a dilui; a dengue a baixa com um calendário próprio, que está no capítulo de dengue, zika e chikungunya da apostila de Infectologia.
Fora do hospital, as causas mais frequentes são o fígado e o baço — a cirrose com hiperesplenismo, cuja conduta está no capítulo de hipertensão portal da apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo —, as infecções crônicas (HIV, na apostila de Infectologia; hepatites B e C, na de Gastroenterologia), o lúpus, na apostila de Reumatologia, e a carência de vitamina B12 ou de folato, no capítulo de anemias macrocíticas desta apostila. Na gestante, a trombocitopenia gestacional do terceiro trimestre raramente desce abaixo de 70.000/µL e raramente sangra, e a plaquetopenia com hipertensão é pré-eclâmpsia ou HELLP até prova em contrário.
O papel deste capítulo, nesses pacientes, é duplo: impedir que se rotule de imune uma plaquetopenia que tem causa, e reconhecer quando a plaquetopenia de base ficou grave o suficiente para mudar a conduta do capítulo dono — contagem que exige transfusão antes de um procedimento, sangramento que exige resposta hoje, esquizócito que aparece no meio de uma internação por outro motivo.
Plaqueta normal que sangra e plaqueta que sobra
O paciente que sangra de pele e mucosa com contagem normal tem plaqueta que não funciona ou fator de von Willebrand que falta. O primeiro suspeito é o remédio: ácido acetilsalicílico, clopidogrel e outros antiagregantes, anti-inflamatórios, às vezes tomados por conta própria e não declarados. O segundo é a uremia, cujo sangramento se trata com diálise e medidas próprias no capítulo Indicações de diálise e manejo da uremia, na apostila de Nefrologia. O terceiro é a doença de von Willebrand, no capítulo Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes, desta apostila. O coagulograma não vê nenhum dos três, como explica o capítulo de coagulograma da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito: sai normal.
O protocolo de distúrbios hemorrágicos do TelessaúdeRS manda para a hematologia a suspeita de coagulopatia hereditária pela história: sangramento excessivo depois de pequenos cortes ou procedimentos, hematomas espontâneos, menstruação volumosa desde a menarca, hemartrose, parente de primeiro grau com distúrbio hemorrágico, ou tempo de protrombina e de tromboplastina parcial alterados depois de afastadas hepatopatia, síndrome nefrótica e anticoagulante. A menstruação volumosa como queixa ginecológica tem capítulo próprio na apostila de Ginecologia.
A trombocitose — contagem acima da faixa de referência — quase sempre é reativa: infecção ou inflamação em curso, ferropenia, esplenectomia ou asplenia, trauma ou cirurgia recente. Anemia microcítica com plaquetas altas é, na maioria das vezes, a mesma perda crônica de sangue, e está no capítulo de anemia ferropriva desta apostila. O protocolo de trombocitose do TelessaúdeRS manda para a urgência a contagem acima de 1.000.000/µL com sangramento ou trombose, e para a hematologia a trombocitose que persiste em duas contagens separadas por 30 dias depois de afastadas as causas secundárias, com velocidade de hemossedimentação, proteína C-reativa, ferritina e saturação de transferrina. A trombocitemia essencial e as outras neoplasias mieloproliferativas têm capítulo — Neoplasias hematológicas crônicas (mieloma múltiplo, mielodisplasia, mieloproliferativas), nesta apostila —; este capítulo fica com a parte que decide no pronto atendimento e no ambulatório — quem vai para a urgência e quem vai para o hematologista —, e o diagnóstico da doença clonal e o tratamento são daquele capítulo.
Como fechar o diagnóstico
Investigar uma plaquetopenia é, na maior parte do tempo, excluir: o artefato, a hemólise mecânica, a medula, o remédio, a infecção crônica e a gestação. A trombocitopenia imune é o que sobra quando tudo isso foi afastado, e a microangiopatia é o que não pode sobrar para o dia seguinte. Por isso a ordem dos exames importa mais do que a quantidade.
Uma regra atravessa as seis seções: a lâmina vem antes do número, e a amostra da ADAMTS13 vem antes do plasma. As duas custam pouco no momento certo e são irrecuperáveis depois — a lâmina de um tubo velho não mostra esquizócito com confiança, e o plasma do doador contamina a dosagem da enzima do paciente.
Antes de pedir mais nada: a lâmina, o citrato e três perguntas
O primeiro exame é pedir que alguém olhe a lâmina, ou olhá-la. O PCDT recomenda o esfregaço de sangue periférico recém-colhido, que mostra agregados (artefato), plaquetas grandes (produção acelerada, a favor de destruição periférica), plaquetas uniformemente pequenas ou sem grânulos (distúrbio hereditário), esquizócitos (microangiopatia) e células imaturas (medula). No paciente sem sangramento com contagem isolada baixa, a nova coleta em citrato ou a contagem na lâmina resolvem a pseudoplaquetopenia; no paciente que sangra, a pergunta do artefato não se aplica.
Três perguntas de beira de leito organizam o resto. Onde sangra: pele e mucosa apontam para a plaqueta; articulação e músculo, para a coagulação. O que toma: remédio de receita, remédio por conta própria, heparina no hospital, anti-inflamatório para cólica, antibiótico recente, anticonvulsivante. O que mais está alterado: anemia e leucócitos no hemograma, baço e gânglios no exame, febre, sintoma neurológico, urina, pressão, e a possibilidade de gestação, que na mulher em idade fértil se confirma ou afasta com teste antes da lista de hipóteses — ela muda a lista inteira.
A hemólise que muda a urgência: o painel e a amostra que não espera
Havendo anemia, ou esquizócito na lâmina, o painel de hemólise sai no mesmo pedido: reticulócitos, desidrogenase lática, haptoglobina, bilirrubina total e frações e Coombs direto. O protocolo de plasmaférese do Hospital das Clínicas da UFMG acrescenta, na suspeita de microangiopatia, urina, tipagem sanguínea, sorologias e troponina quando há sintoma cardíaco. Creatinina, tempo de protrombina com INR, tempo de tromboplastina parcial ativada e fibrinogênio separam a microangiopatia da coagulação intravascular disseminada, em que os tempos alargam e o fibrinogênio cai.
Na suspeita de púrpura trombocitopênica trombótica, a amostra de plasma para a atividade da ADAMTS13 é colhida antes da primeira troca plasmática ou de qualquer hemocomponente — a primeira etapa da recomendação da sociedade internacional de trombose, e a orientação do protocolo da Hemominas. Colhida depois do plasma, a dosagem mede também a enzima do doador e perde o valor diagnóstico. A coleta é feita no tubo que o laboratório de referência indicar e não atrasa a troca: colhe-se e segue-se.
O resultado se lê em três faixas pela mesma diretriz: atividade abaixo de 10 UI/dL (menos de 10% do normal) confirma a púrpura trombocitopênica trombótica; acima de 20 UI/dL a afasta e manda procurar outro diagnóstico; entre 10 e 20 é resultado equívoco, e continuar ou suspender o tratamento vira decisão clínica. Enquanto o resultado não volta, a probabilidade pré-teste é que decide o começo, e o escore PLASMIC é a ferramenta que o protocolo da Hemominas exige documentar (escore de 6 ou mais) para a troca por urgência. O escore e as suas faixas estão no bloco de critérios.
A diretriz lembra o limite do escore: ele foi feito para adultos sem gestação, câncer, sepse ou transplante, e pode falhar nesses pacientes e em crianças. Na diarreia com sangue, a pesquisa da cepa produtora de toxina Shiga nas fezes segue o capítulo de diarreia aguda infecciosa da apostila de Gastroenterologia; no adulto, ela não dispensa a amostra de ADAMTS13 colhida antes de qualquer plasma, porque, pela diretriz da sociedade internacional de trombose, é a atividade da enzima que separa a púrpura trombocitopênica trombótica da síndrome hemolítico-urêmica.
A trombocitopenia imune do adulto: o que se pede antes de tratar
Para começar qualquer tratamento, o PCDT exige anamnese com histórico familiar, exame físico e hemograma completo com contagem de plaquetas, e o Quadro 9 acrescenta para todo adulto as sorologias de hepatite B, hepatite C e HIV. O texto do diagnóstico reforça que anti-HIV e anti-HCV devem ser pedidos de rotina, porque a infecção crônica sem sintoma pode se apresentar pela plaquetopenia. O teste rápido da unidade serve como primeiro passo e segue o fluxo de confirmação dos capítulos donos dessas infecções.
Sempre que possível, o PCDT sugere avaliar as funções hepática e renal e pedir eletroforese de proteínas e dosagem de imunoglobulinas, à procura de doença linfoproliferativa e de imunodeficiência. Sobre o FAN, o documento diz duas coisas: numa frase o sugere na investigação inicial, noutra diz que ele não é necessário sem sintoma reumatológico e pode ser pedido diante de erupção malar, sintoma constitucional, artrite ou mialgia. Esta apostila lê as duas frases juntas e pede o FAN quando há sintoma que aponte para doença autoimune — que é também como o protocolo do TelessaúdeRS orienta.
Tempo de protrombina e de tromboplastina parcial ativada entram na plaquetopenia moderada ou grave, no sangramento clinicamente importante e antes de procedimento invasivo. Função tireoidiana entra quando há sintoma de hipo ou hipertireoidismo e antes de cirurgia, inclusive da esplenectomia. Vitamina B12 e folato entram só quando há achado que aponte para a carência — alteração neurológica, macrocitose, neutrófilos hipersegmentados, dieta restrita, cirurgia bariátrica. A dosagem de anticorpo antiplaquetário não entra.
A punção de medula fica fora do diagnóstico inicial. O PCDT a reserva para a suspeita de neoplasia ou mielodisplasia, a presença de outra citopenia, a displasia no esfregaço, a ausência de resposta ao tratamento ou a suspeita de trombocitopenia amegacariocítica. Pedi-lo em toda plaquetopenia isolada é punção desnecessária num paciente com contagem baixa.
O teste para Helicobacter pylori é o ponto em que dois documentos brasileiros de 2026 falam com força diferente: o PCDT diz que ele pode ser feito, sobretudo na forma crônica ou com sintoma digestivo, e o V Consenso Brasileiro recomenda testar e erradicar em todo adulto com a doença. Esta apostila pede o teste já na investigação inicial, pelo motivo exposto no bloco de divergências. O método e o preparo — inclusive quantos dias sem inibidor de bomba de prótons antes do teste — estão no capítulo de doença ulcerosa péptica da apostila de Gastroenterologia.
Se a doença persistir e o especialista indicar a segunda linha, outros exames entram antes do remédio, pelo Quadro 9: pesquisa de tuberculose ativa e latente antes de rituximabe, azatioprina ou ciclofosfamida; dosagem de imunoglobulinas e triagem de hepatite B antes de rituximabe, que pode reativá-la; transaminases antes de azatioprina e de eltrombopague; teste de gravidez antes de danazol e de vincristina.
Na gestante: o trimestre muda a lista
O diagnóstico de trombocitopenia imune na gestante segue a mesma exclusão, com a lista ordenada pelo trimestre. No primeiro, o PCDT manda considerar trombocitopenia hereditária prévia, síndrome hemolítico-urêmica, púrpura trombocitopênica trombótica e deficiência de folato. Nos seguintes, entram a trombocitopenia gestacional — contagem em geral acima de 70.000/µL, início na segunda metade da gestação e resolução no puerpério — e, depois de 20 semanas, a pré-eclâmpsia e a síndrome HELLP.
Os critérios de pré-eclâmpsia e a conduta na HELLP estão nos capítulos Pré-eclâmpsia: critérios diagnósticos, sinais de gravidade e conduta e Síndrome HELLP: diagnóstico laboratorial e conduta, da apostila de Obstetrícia, e é lá que o aluno deve buscá-los, e não no resumo que o PCDT reproduz na seção de gestação. Uma contagem normal documentada antes da gestação e um hemograma do início do pré-natal ajudam mais que qualquer exame novo, porque separam a doença que já existia da que a gestação trouxe.
No internado: a plaquetopenia que apareceu depois da admissão
A plaquetopenia que surge durante a internação se investiga pela linha do tempo. O primeiro eixo é a heparina — dia de início, dose, lavagem de cateter, contagem basal —, cuja probabilidade pelo escore 4Ts e cuja conduta estão no capítulo Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes, desta apostila. O segundo é a sepse e a coagulação intravascular, com tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada e fibrinogênio. O terceiro são os remédios começados na internação, pela lista do TelessaúdeRS. O quarto é o volume de sangue e de cristaloide recebido.
A lâmina continua obrigatória. Esquizócito que aparece no meio de uma internação por câncer, transplante, quimioterapia ou gestação é microangiopatia até prova em contrário, com os mesmos exames e a mesma amostra de ADAMTS13 — só que com um escore que foi desenhado para outro paciente e pode enganar.
Sangramento com contagem normal e contagem alta
Com plaquetas normais e sangramento de pele e mucosa, a investigação começa pela lista de remédios, perguntando nominalmente por ácido acetilsalicílico, anti-inflamatórios e antiagregantes, e segue com ureia e creatinina. O coagulograma normal não afasta nada. Na suspeita de distúrbio hereditário, o TelessaúdeRS pede para o encaminhamento a descrição do sangramento e do histórico familiar, dois tempos de protrombina e de tromboplastina parcial ativada, hemograma, transaminases, albumina, gama-glutamil transferase, creatinina, exame de urina e ultrassonografia de abdome, quando feita; a dosagem do fator de von Willebrand e a interpretação estão no capítulo de coagulação desta apostila.
Na trombocitose, a primeira investigação é da causa reativa, e a segunda contagem, depois de 30 dias, confirma a persistência. O TelessaúdeRS pede velocidade de hemossedimentação, proteína C-reativa, ferritina e saturação de transferrina, e a descrição de sintomas constitucionais, sangramento, sintoma vasomotor e trombose prévia. Ferritina baixa com trombocitose é ferropenia até a reposição mostrar o contrário; a contagem que continua alta com ferro reposto, sem inflamação e sem esplenectomia é a que vai para o hematologista, a quem cabe a pesquisa da neoplasia mieloproliferativa.
Interpretar plaquetopenia, sangramento e microangiopatia
O núcleo é confirmar a contagem, ler a lâmina e reconhecer o mecanismo e a gravidade. PTI, PTT, coagulação intravascular e pseudoplaquetopenia não compartilham a mesma conduta transfusional nem os mesmos critérios de resposta. Aqui estão os documentos que governam cada decisão do capítulo, a conta de cada dose na apresentação que a Rename 2024 oferece, o escore PLASMIC com as faixas de probabilidade e os limiares de plaquetas para procedimento e para anticoagulação no paciente com trombocitopenia imune. Um cuidado de leitura sobre o escore: a diretriz da sociedade internacional de trombose chama de suspeita alta a probabilidade pré-teste de 90% ou mais, e a faixa mais alta do PLASMIC corresponde a 62% a 82%; o escore sozinho não chega lá, e é o quadro clínico — isquemia que oscila, hemólise franca, ausência de outra explicação — que completa a suspeita. O protocolo da Hemominas usa o escore de 6 ou mais como critério para a troca plasmática por urgência, e as duas réguas levam ao mesmo lugar no paciente típico. As notas do fim registram os defeitos do PCDT de 2026 que mudam o que o aluno faz, com a conta, e a leitura que esta apostila adota em cada um.
- 11. Olhe a lâmina antes de decidir. Agregados, sem sangramento: nova coleta em citrato ou contagem na lâmina. Esquizócitos: passo 3. Células imaturas ou outra citopenia grave (hemoglobina abaixo de 7 g/dL, neutrófilos abaixo de 500/µL): urgência e hematologia no mesmo dia.
- 22. Pergunte onde e quanto sangra. Sangramento crítico — pelo local (intracraniano, intraespinhal, intraocular, retroperitoneal, pericárdico, muscular com síndrome compartimental) ou por instabilidade hemodinâmica ou respiratória — é emergência, com ou sem pressão baixa: passo 8.
- 33. Havendo anemia, peça no mesmo pedido reticulócitos, desidrogenase lática, haptoglobina, bilirrubinas, Coombs direto, creatinina, INR, tempo de tromboplastina parcial ativada e fibrinogênio. Hemólise com Coombs direto negativo e esquizócitos é microangiopatia trombótica.
- 44. Microangiopatia com suspeita de PTT: colher ADAMTS13 antes do plasma se isso não atrasar o tratamento e acionar hematologia/hemoterapia imediatamente. PLASMIC 6–7 reforça indicação de troca plasmática e corticoide com quadro compatível; escore menor não exclui PTT. Evitar plaquetas profiláticas; hemorragia com risco de vida exige decisão excepcional da equipe. Investigar também SHU, HELLP, CIVD, hipertensão grave e outras causas
- 55. Plaquetopenia isolada, sem hemólise: afaste gestação, fármaco, infecção aguda, hepatopatia e baço grande; peça anti-HIV, anti-HCV e HBsAg (ou testes rápidos) em todo adulto, e o teste de Helicobacter pylori.
- 66. Trombocitopenia imune provável: trate se a contagem estiver abaixo de 30.000/µL, ou abaixo de 50.000/µL com sangramento ou fator de risco — coagulopatia, anticoagulante, doença vascular, cirurgia ou procedimento, exposição ocupacional, hipertensão ou epilepsia não controladas (PCDT, seção 4).
- 77. Sangramento leve ou ausente: dexametasona 40 mg/dia por 4 dias ou prednisona 0,5 a 2 mg/kg/dia; imunoglobulina em primeiro lugar no diabético insulinodependente ou descompensado, no transtorno psiquiátrico e na infecção ativa. Sangramento mucoso volumoso (nariz, gengiva, trato digestivo ou urinário): imunoglobulina 1 g/kg associada ao corticoide.
- 88. Sangramento crítico: plaquetas em dose três vezes a usual (3 unidades por 10 kg) com imunoglobulina 0,8 a 1 g/kg e metilprednisolona 1 g/dia por 3 dias; imagem e controle do foco pela equipe do sítio.
- 99. Não transfunda plaqueta profilática na trombocitopenia imune. Decida continuar, repetir ou escalar pela régua de resposta das seções operacionais do PCDT: acima de 30.000/µL, ou acima de 50.000/µL com sangramento ou risco. Corticoide por mais de 8 semanas, ou ciclos repetidos: serviço especializado e segunda linha depois de 3 meses de doença.
- 1010. Plaqueta normal que sangra: remédio, uremia, von Willebrand. Trombocitose: causa reativa e segunda contagem em 30 dias; acima de 1.000.000/µL com sangramento ou trombose, urgência.
| Decisão | Documento que governa no Brasil | Desde | O que decide |
|---|---|---|---|
| Diagnóstico e tratamento da trombocitopenia imune | PCDT da Trombocitopenia Imune Primária, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 41 | Fevereiro de 2026, retificada em março de 2026 | Exclusão, quem tratar, primeira e segunda linhas, emergência, esplenectomia, gestação e monitoramento |
| Transfusão de plaquetas na trombocitopenia imune, na púrpura trombocitopênica trombótica e na plaquetopenia por heparina | Guia para uso de hemocomponentes, Ministério da Saúde, 2ª edição | 2015 | Só no sangramento grave com risco de vida; na púrpura trombótica e na plaquetopenia por heparina, evitar a profilática até para procedimento |
| Dose de plaquetas na emergência da trombocitopenia imune | PCDT de 2026, Quadro 6 | 2026 | Três vezes a dose usual, 3 unidades por 10 kg, com ou sem imunoglobulina |
| Suspeita de púrpura trombocitopênica trombótica: amostra, início e leitura da ADAMTS13 | Diretriz de diagnóstico da sociedade internacional de trombose, mantida na atualização de 2025 | 2020 | Amostra antes do plasma; troca e corticoide sem esperar na suspeita alta; abaixo de 10% confirma, acima de 20% afasta |
| Troca plasmática na púrpura trombótica e na microangiopatia por anti-fator H | Protocolo de plasmaférese para doenças raras da Hemominas (estadual) | 2026 | PLASMIC de 6 ou mais para a urgência; plasma obrigatório; sessões diárias até normalizar plaquetas e desidrogenase lática |
| Encaminhamento da plaquetopenia e da trombocitose a partir da atenção primária | Protocolos de encaminhamento para Hematologia adulto do TelessaúdeRS (estadual) | 2023 | Abaixo de 20.000/µL ou citopenia grave: urgência; acima de 1.000.000/µL com sangramento ou trombose: urgência; demais, duas contagens e hematologia |
| Vacinação antes da esplenectomia | Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª edição | 2023 | Meningocócica ACWY conjugada em 2 doses, pneumocócica conjugada 20-valente em dose única (Nota Técnica nº 52/2026) e Haemophilus influenzae b, ao menos 2 semanas antes (ver divergências) |
| Teste de Helicobacter pylori no adulto com trombocitopenia imune | V Consenso Brasileiro, declaração 13, e PCDT de 2026 | 2026 | Testar e erradicar (ver divergências) |
| Vigilância da síndrome hemolítico-urêmica | Portaria GM/MS nº 11.211 | Maio de 2026 | Agravo da vigilância sentinela das doenças de transmissão hídrica e alimentar |
| O que o SUS fornece | Rename 2024 | 2024 | Corticoides no Componente Básico; imunoglobulina, eltrombopague, rituximabe, azatioprina, ciclofosfamida e danazol no Especializado; sem romiplostim e sem caplacizumabe |
Da dose à apresentação da Rename 2024, nas pacientes deste capítulo
| Situação | Regra de dose e fonte | Conta | Na apresentação da Rename 2024 | Cuidado |
|---|---|---|---|---|
| Dexametasona oral, Joana (58 kg), contagem abaixo de 20.000/µL | 40 mg/dia por 4 dias consecutivos — PCDT, Quadro 7 | Dose fixa: 40 ÷ 4 = 10 comprimidos por dia | 10 comprimidos de 4 mg por dia; 40 comprimidos no ciclo | De 1 a 6 ciclos, a cada 14 a 28 dias |
| Dexametasona venosa, Joana, se não puder engolir | 40 mg/dia — PCDT, Quadro 7 | 40 mg ÷ 4 mg/mL = 10 mL | 10 mL da solução injetável de 4 mg/mL | O número de ampolas depende do volume do frasco dispensado |
| Imunoglobulina humana, Joana, sangramento mucoso volumoso | 1 g/kg em dose única — PCDT, Quadros 6 e 7 (0,5 a 1 g/kg; 0,8 a 1 g/kg na emergência) | 1 × 58 = 58 g | 11 frascos de 5 g + 1 de 2,5 g + 1 de 0,5 g = 58 g | A 10%, 580 mL; a 5%, 1.160 mL |
| Velocidade de infusão da imunoglobulina a 10%, Joana | Começar com 0,01 mL/kg/min e subir a cada 15 a 30 minutos até 0,08 mL/kg/min — PCDT, Quadro 7, nota e | 0,01 × 58 = 0,58 mL/min (cerca de 35 mL/h); 0,08 × 58 = 4,64 mL/min (cerca de 278 mL/h) | Não se aplica | Sinais vitais a cada 20 a 30 minutos; observar 30 a 60 minutos depois do fim |
| Segunda dose de imunoglobulina, Joana, sem resposta no dia seguinte | Repetível até 2 g/kg por ciclo — PCDT, Quadro 7 | 58 g + 58 g = 116 g = 2 g/kg | Mesma composição da primeira dose | O ciclo não passa de 2 g/kg |
| Plaquetas no sangramento crítico, adulta de 58 kg | 3 unidades por 10 kg — PCDT, Quadro 6 | 3 × 58 ÷ 10 = 17,4, arredondado para 18 unidades randômicas | Hemocomponente, fora da Rename | Pelo Guia, 8 a 10 unidades randômicas equivalem à dose mínima de 1 aférese no adulto: 18 unidades são cerca de 2 aféreses |
| Metilprednisolona no sangramento crítico, adulto | 1 g/dia por 3 dias — PCDT, Quadro 6 (ver nota 1) | 1.000 mg ÷ 500 mg = 2 frascos | 2 frascos de 500 mg por dia | Não usar 30 mg/kg sem teto no adulto: 1.740 mg em 58 kg |
| Imunoglobulina em 5 dias, Casemiro (80 kg), diabético descompensado | 400 mg/kg/dia por 5 dias — PCDT, Quadro 7 e casos especiais | 0,4 × 80 = 32 g/dia; 32 × 5 = 160 g = 2 g/kg | 6 frascos de 5 g + 2 de 1 g por dia | Alternativa: 1 g/kg = 80 g = 16 frascos de 5 g, em 1 dia |
| Prednisona, adulta de 58 kg | 0,5 a 2 mg/kg/dia por 2 a 4 semanas, com redução; tempo total de até 8 semanas — PCDT, Quadro 7 | 0,5 × 58 = 29 mg; 1 × 58 = 58 mg; 2 × 58 = 116 mg | Exemplo de aproximadamente 1 mg/kg: 60 mg = 3 comprimidos de 20 mg. A escolha da dose dentro da faixa é clínica; não arredondar automaticamente o extremo de 116 mg para 120 mg | Arredondar para a apresentação; mais de 8 semanas é dependência |
Escore PLASMIC: como somar e como ler, na suspeita de púrpura trombocitopênica trombótica
| Componente ou soma | Soma 1 ponto quando / probabilidade de ADAMTS13 abaixo de 10% | De onde vem no pronto atendimento / o que muda |
|---|---|---|
| Plaquetas | Abaixo de 30.000/µL | Hemograma |
| Hemólise | Reticulócitos acima de 2,5%, haptoglobina indetectável ou bilirrubina indireta acima de 2 mg/dL (basta um) | Reticulócitos, haptoglobina, bilirrubinas |
| Câncer | Nenhum câncer ativo no último ano | História clínica |
| Transplante | Nenhum transplante de órgão sólido ou de células-tronco | História clínica |
| Volume corpuscular médio | Abaixo de 90 fL | Hemograma; a reticulocitose eleva o volume e pode tirar este ponto |
| INR | Abaixo de 1,5 | Tempo de protrombina |
| Creatinina | Abaixo de 2,0 mg/dL | Bioquímica |
| Soma de 0 a 4 | 0% a 4% | Colher a amostra de ADAMTS13 e procurar outro diagnóstico com o hematologista |
| Soma 5 | 5% a 24% | Colher a amostra; começar ou não a troca é decisão clínica, com o hematologista |
| Soma de 6 a 7 | 62% a 82% | Com quadro compatível, troca plasmática e corticoide sem esperar o resultado; na Hemominas, critério da troca por urgência |
Limiares de plaquetas para procedimento e para antitrombótico, no paciente com trombocitopenia imune
| Situação | Contagem mínima | Documento | Leitura desta apostila |
|---|---|---|---|
| Profilaxia odontológica | 20.000 a 30.000/µL | PCDT, Quadro 4 | Sem ressalva |
| Exodontia simples | 30.000/µL | PCDT, Quadro 4 | Sem ressalva |
| Exodontia complexa | 50.000/µL | PCDT, Quadro 4 | Sem ressalva |
| Bloqueio anestésico odontológico | 30.000/µL | PCDT, Quadro 4, escrito como bloqueio regional | Lido como bloqueio odontológico, pela posição no quadro (nota 3) |
| Cirurgia menor | 50.000/µL | PCDT, Quadro 4 | Cirurgia de catarata com laser não tem risco hemorrágico, pela nota do quadro |
| Cirurgia maior | 80.000/µL | PCDT, Quadro 4 | Na eletiva, subir a contagem com tratamento antes |
| Neurocirurgia | 100.000/µL | PCDT, Quadro 4 | Sem ressalva |
| Esplenectomia | Acima de 50.000/µL | PCDT, seção 7.2 | Imunoglobulina ou corticoide no pré-operatório, se preciso; vacinas antes |
| Raquianestesia e peridural | 70.000 a 80.000/µL | PCDT, seção 7.3.1 (gestantes) | Faixa descrita para gestantes com PTI; decisão sobre neuroeixo considera tendência da contagem, etiologia, outros distúrbios da hemostasia e anestesiologia. Não extrapolar como garantia de segurança a qualquer paciente |
| Parto, vaginal ou cesárea | Acima de 50.000/µL, idealmente | PCDT, seção 7.3.1 | A via de parto é decisão obstétrica |
| Punção lombar diagnóstica no adulto | Acima de 30.000/µL | Guia para uso de hemocomponentes, Quadro 4 (régua geral) | Na trombocitopenia imune, subir com tratamento quando houver tempo, e não com plaqueta |
| Anticoagulação em dose terapêutica | 50.000/µL ou mais | PCDT, Quadro 3 | Entre 25.000 e 50.000/µL, reduzir a dose, ou heparina não fracionada se a contagem oscila; abaixo de 25.000/µL, tratar a plaquetopenia antes |
| Antiagregante | Um agente entre 25.000 e 50.000/µL; ácido acetilsalicílico com 50.000/µL ou mais | PCDT, Quadro 3 | Contraindicado abaixo de 25.000/µL e em sangramento ativo de grau 2 ou pior da escala da OMS |
Nota 1 — metilprednisolona por peso, sem teto, no adulto. O Quadro 7 do PCDT de 2026 dá ao adulto metilprednisolona '30 mg/kg/dia ou 1 g/dia' por três dias; o Quadro 6, na emergência do adulto, dá 1 g/dia por três dias (a coluna pediátrica do Quadro 7 limita a 1 g/dia só até 11 anos, e o Quadro 6 pediátrico não tem teto — a criança é de Púrpura trombocitopênica imune (PTI) na criança, na apostila de Hematologia Pediátrica). Num adulto de 58 kg, 30 mg/kg são 1.740 mg/dia; num de 80 kg, 2.400 mg/dia — 1,74 e 2,4 vezes o grama da outra forma. As duas formas só coincidem em 33,3 kg (1.000 ÷ 30). Esta apostila usa 1 g/dia no adulto, que é a dose do mesmo documento na emergência.
Nota 2 — três réguas de resposta no mesmo documento. O Quadro 2 chama de resposta parcial a contagem entre 30.000 e 100.000/µL ou a duplicação da contagem basal, sem sangramento; a seção 7.1.7 define resposta como contagem acima de 30.000/µL, ou acima de 50.000/µL com sangramento ou fator de risco, e a seção 4 usa essa mesma régua para ausência de resposta na indicação dos agonistas da trombopoetina; e o primeiro parágrafo da seção 7.1.7 manda considerar suspender o corticoide com contagem acima de 20.000/µL sem novo sangramento. Joana parte de 4.000/µL: com 19.000/µL ela multiplicou o basal por 4,75 (resposta parcial pelo Quadro 2), está abaixo de 30.000/µL (sem resposta pela seção 7.1.7) e, se passar de 20.000/µL sem sangrar, entraria na suspensão — ainda dentro da indicação de tratar da seção 4. Esta apostila decide continuar, repetir ou escalar pela régua que o documento repete em duas seções operacionais (acima de 30.000/µL, ou de 50.000/µL com sangramento ou risco) e lê o limiar de 20.000/µL como o piso abaixo do qual não se fala em suspender, e não como meta.
Aprofundamento documental — o bloqueio regional de 30.000/µL aparece no contexto odontológico do PCDT e não autoriza raquianestesia ou peridural. A seção de gestantes descreve 70.000–80.000/µL, mas a aplicação em outro contexto exige avaliação da anestesiologia, estabilidade da contagem e ausência de outras alterações hemostáticas; a contagem isolada não garante segurança.
Nota 4 — emergência que exige instabilidade até no crânio. O critério de inclusão 1 e o primeiro parágrafo da seção 7.1.3 definem emergência como a presença de sangramento intracraniano ou mucoso com instabilidade hemodinâmica ou respiratória. Lida ao pé da letra, a frase exige instabilidade também do sangramento intracraniano, e o paciente com hemorragia cerebral que conversa, com pressão normal, ficaria fora da emergência — sem plaquetas, sem imunoglobulina e sem pulso de corticoide. O parágrafo seguinte da mesma seção define sangramento crítico pelo local (intracraniano, intraespinhal, intraocular, retroperitoneal, pericárdico, muscular com síndrome compartimental) ou pela instabilidade. Esta apostila segue a segunda definição.
Nota 5 — limiar de tratamento na introdução. A introdução do PCDT sugere reservar o tratamento às contagens persistentemente abaixo de 20.000/mm³ ou ao sangramento ativo; a seção 4 inclui para a primeira linha qualquer contagem abaixo de 30.000/mm³, e o texto da seção 7 recomenda o tratamento abaixo de 30.000/mm³. Uma contagem de 25.000/µL sem sangramento é observação pela introdução e tratamento pelas seções operacionais; o limiar operacional é 1,5 vez o da introdução (30.000 ÷ 20.000). Esta apostila segue a seção 4, que é o critério de inclusão e de dispensação.
A conduta, hora a hora
A conduta acompanha Joana da noite na unidade de pronto atendimento até a consulta do quarto mês, quando a doença deixa de ser recém-diagnosticada. Os marcos seguem as horas em que uma decisão muda: antes de assinar o pedido de plaquetas, na preparação da imunoglobulina, na contagem da manhã, na alta, e nas três consultas em que o número volta a pedir alguma coisa.
Uma regra organiza todos os marcos: na trombocitopenia imune, trata-se o sangramento e a régua do PCDT, e não o número isolado. A plaqueta transfundida fica reservada ao sangramento crítico, a imunoglobulina ao sangramento mucoso de maior repercussão e à resposta rápida, e o corticoide à doença que precisa de tratamento — sempre pelo menor tempo possível.
Terça, 23h10 — antes de assinar o pedido de plaquetas
O laudo sem esquizócitos e sem células imaturas, a hemoglobina de 11,2 g/dL e os leucócitos normais desenham plaquetopenia isolada, e o exame sem gânglios nem baço completa o retrato da trombocitopenia imune; a lista de exclusão continua, mas não muda a conduta desta noite. A pergunta que muda é a do sangramento. Joana não tem cefaleia, vômitos nem sinal neurológico, não está instável e o sangue não compromete a respiração: não há sangramento crítico pelo local nem pela repercussão. Há sangramento mucoso de maior repercussão — epistaxe há quatro horas que voltou duas vezes e bolhas hemorrágicas na boca —, que o PCDT trata com imunoglobulina e corticoide. A plaqueta transfundida seria retirada pelo mesmo anticorpo em horas, e o Guia a restringe ao sangramento grave com risco de vida. Você liga para o plantonista, que concorda em cancelar o pedido. Joana fica internada pelos critérios que esta apostila adota no bloco de divergências: sangramento de mucosa em curso e contagem abaixo de 10.000/µL, que pede hemograma diário.
Prescrição- Cancelar o pedido de concentrado de plaquetas; registrar o motivo: sangramento mucoso sem critério de sangramento crítico (PCDT, seção 7.1.3; Guia para uso de hemocomponentes).
- Controle local da epistaxe pela equipe, com compressão e, se o sangramento persistir, tamponamento anterior, pela conduta do capítulo de epistaxe da apostila de Otorrinolaringologia.
- Colher agora: HBsAg, anti-HCV e anti-HIV (ou testes rápidos), TGO, TGP, creatinina, tempo de protrombina com INR, tempo de tromboplastina parcial ativada, reticulócitos, desidrogenase lática, bilirrubinas e tipagem sanguínea.
- Suspender o ibuprofeno; não prescrever anti-inflamatório nem ácido acetilsalicílico; nenhuma injeção intramuscular.
- Internação em leito de observação; hemograma diário enquanto houver sangramento ativo (PCDT, monitoramento).
- Orientar a enfermagem a chamar diante de cefaleia, vômitos, alteração neurológica, sangue na urina ou nas fezes, ou epistaxe que não ceda.
Terça, 23h40 — a imunoglobulina na apresentação da farmácia
A dose é de 1 g/kg, dentro da faixa do Quadro 7 e da emergência do Quadro 6: 58 g. A farmácia tem frascos de 5 g, 2,5 g e 0,5 g, e a combinação exata é onze de 5 g, um de 2,5 g e um de 0,5 g. Na solução a 10%, são 580 mL. A velocidade segue a nota do Quadro 7, em mL por quilo por minuto, e começa baixa, como a nota pede sobretudo nas primeiras aplicações, porque é a velocidade que se controla quando aparecem os eventos adversos que o PCDT lista — cefaleia, febre, rubor, alteração da pressão, taquicardia. A imunoglobulina é associada ao corticoide nesta avaliação. Insônia e agitação são efeitos a monitorar, mas não justificam adiar automaticamente uma intervenção indicada por sangramento mucoso relevante. As doses seguintes serão registradas a cada 24 horas, sem repetir o pulso novamente às 8h.
Prescrição- Imunoglobulina humana 58 g IV (1 g/kg): 11 frascos de 5 g + 1 de 2,5 g + 1 de 0,5 g; na solução a 10%, 580 mL.
- Infusão de imunoglobulina conforme bula da marca e concentração efetivamente dispensadas, com validação da farmácia. Para a preparação a 10% cuja bula aceite a sequência citada: iniciar em 0,58 mL/min e titular gradualmente se tolerado; 4,64 mL/min é teto daquele esquema, não velocidade universal. Considerar risco renal, trombótico e de sobrecarga
- Sinais vitais a cada 20 a 30 minutos durante a infusão e observação por 30 a 60 minutos depois do fim.
- Diante de cefaleia intensa, febre, dor torácica, falta de ar ou queda da pressão: parar a infusão e chamar o médico.
- Hemograma às 8h.
- Dexametasona 40 mg VO agora, às 23h40 — primeira de quatro doses diárias; próxima dose apenas no horário programado do dia seguinte. Monitorar glicemia, humor, sono e pressão
Quarta, 8h às 23h40 — sangramento, resposta inicial e segunda dose quando indicada
Às 8h, as plaquetas são 19.000/µL e o nariz não sangra desde a madrugada. Pelo Quadro 2 do PCDT, Joana já teria resposta parcial, porque multiplicou o basal por 4,75; pela régua das seções operacionais, que é a que esta apostila usa, ela está sem resposta, abaixo de 50.000/µL com sangramento recente. A primeira dose de dexametasona foi administrada na noite anterior; não se repete às 8h. Às 10h, ao retirar o tampão, a narina volta a sangrar e para com nova compressão. Um sangramento mucoso que recomeça com 19.000/µL fecha a questão: a segunda dose de imunoglobulina completa os 2 g/kg do ciclo, que é o teto do Quadro 7. A repetição é programada após reavaliar a resposta e no intervalo diário recomendado, em torno de 24 horas da primeira dose; o limite cumulativo de 2 g/kg não autoriza automaticamente infundir as duas doses em uma única manhã. Deterioração ou sangramento crítico exige reavaliação imediata, sem esperar esse horário.
Prescrição- Dexametasona 40 mg VO às 23h40 — dia 2 de 4; não duplicar a dose já administrada na noite anterior
- Se a reavaliação mantiver a indicação, imunoglobulina 58 g IV aproximadamente 24 horas após a primeira dose, conforme protocolo, produto e tolerância; total do ciclo 116 g (2 g/kg)
- Glicemia capilar antes do almoço e do jantar nos dias de dexametasona.
- Novo controle local da epistaxe pela equipe; hemograma amanhã às 8h.
Quinta, 8h — 64.000 e os resultados da investigação
As plaquetas estão em 64.000/µL, sem sangramento novo, e as bolhas da boca secaram. HBsAg, anti-HCV e anti-HIV vieram não reagentes; tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial ativada, transaminases e creatinina normais; reticulócitos, desidrogenase lática e bilirrubinas normais, sem sinal de hemólise. Não há sintoma que peça FAN ou função tireoidiana. O teste para Helicobacter pylori entra agora, e por isso nenhum inibidor de bomba de prótons é prescrito como proteção: ele atrapalharia o teste. O ciclo de imunoglobulina terminou; a dexametasona segue.
Prescrição- Dexametasona 40 mg VO às 23h40 — dia 3 de 4
- Pesquisa de Helicobacter pylori pelo método disponível no serviço, com o preparo do capítulo de doença ulcerosa péptica da apostila de Gastroenterologia; sem inibidor de bomba de prótons.
- Hemograma amanhã às 8h.
Sexta, 14h — a alta com 98.000 e o que Joana leva para casa
Com 98.000/µL, 48 horas sem sangrar, a terceira dose de dexametasona dada na noite anterior e a última marcada para esta noite, Joana pode seguir em casa. O PCDT permite o acompanhamento ambulatorial com visitas no mínimo semanais, e as orientações que ele lista para quem fica em observação servem também para quem trata: o risco de hemorragia grave, os sinais de sangramento, evitar atividade física de contato e evitar remédio com ação antiplaquetária. A consulta de retorno fica marcada antes de ela sair, e o hemograma, colhido na véspera.
Prescrição- Dexametasona 40 mg VO nesta sexta-feira, às 23h40 — dia 4 de 4, última dose do ciclo; entregar horário por escrito e conferir compreensão
- Sem anti-inflamatório e sem ácido acetilsalicílico; para dor ou cólica, paracetamol.
- Evitar esporte de contato e atividade com risco de queda até a próxima contagem.
- Voltar ao pronto atendimento antes da consulta se houver sangramento de nariz ou gengiva que não pare, sangue na urina ou nas fezes, manchas novas, menstruação muito volumosa, dor de cabeça forte ou vômitos.
- Retorno em 7 dias com hemograma e com o resultado do teste de Helicobacter pylori.
Dia 21, ambulatório — a contagem que caiu e o teste que veio positivo
Na primeira semana, as plaquetas estavam em 142.000/µL; hoje, três semanas depois do começo do tratamento, estão em 24.000/µL, com algumas petéquias nas pernas e sem sangramento de mucosa. A recaída depois do corticoide é a regra no adulto, e o PCDT prevê de um a seis ciclos de dexametasona, a cada 14 a 28 dias — hoje é o 21º dia depois do início do primeiro. Com menos de 30.000/µL, há indicação de tratar; sem sangramento de mucosa, o tratamento é ambulatorial. O antígeno fecal do Helicobacter pylori veio positivo, e a erradicação entra junto, pela recomendação do V Consenso Brasileiro, com a expectativa de resposta plaquetária sustentada em 40% a 50% dos que erradicam.
Prescrição- Dexametasona 40 mg VO por 4 dias consecutivos, no café da manhã — segundo ciclo.
- Erradicação do Helicobacter pylori pelo esquema de primeira linha e controle de cura no prazo do capítulo de doença ulcerosa péptica da apostila de Gastroenterologia.
- Hemograma e consulta semanais enquanto a contagem estiver abaixo de 30.000/µL.
- Reforçar os sinais de volta ao pronto atendimento e a proibição de anti-inflamatório.
Semana 7 — a contagem que se sustentou
Depois do segundo ciclo e da erradicação, as plaquetas estão em 88.000/µL, sem sangramento. Pela régua das seções operacionais, há resposta; Joana não está tomando corticoide, porque os ciclos de dexametasona são pulsos, e não há dependência a discutir. O que se programa é a vigilância: a recaída pode vir, e o terceiro mês do diagnóstico é o ponto em que o PCDT separa a doença recém-diagnosticada da persistente e abre a segunda linha.
Prescrição- Sem novo ciclo: contagem acima de 30.000/µL sem sangramento.
- Hemograma em 4 semanas e no terceiro mês do diagnóstico, e antes disso se houver sangramento.
- Teste de controle de cura do Helicobacter pylori no prazo do capítulo de úlcera péptica.
- Manter as orientações: sem anti-inflamatório, sinais de sangramento, retorno imediato se aparecerem.
Mês 4 — a recaída que abre a segunda linha
O controle de cura do Helicobacter pylori foi negativo, e mesmo assim, no quarto mês, as plaquetas voltaram a 22.000/µL, com petéquias. A doença agora é persistente, Joana recebeu ciclos repetidos de corticoide, e o PCDT manda encaminhar esse paciente a serviço especializado, onde ele é elegível à segunda linha — rituximabe, azatioprina ou ciclofosfamida; depois eltrombopague ou romiplostim; depois danazol; e a vincristina por último. Enquanto a vaga não sai, a contagem abaixo de 30.000/µL continua sendo indicação de tratar, e o terceiro ciclo de dexametasona cabe no limite de seis. A conversa sobre gestação vem antes da segunda linha, porque o Quadro 8 do PCDT contraindica ou restringe na gravidez a azatioprina, a ciclofosfamida, o rituximabe e o danazol. A esplenectomia não entra antes dos 12 meses do diagnóstico. A lista do protocolo não é uma sequência automática de medicamentos para o interno prescrever. Recaídas e toxicidade de corticoide devem antecipar discussão especializada, ponderando eficácia, preferência, fertilidade, gestação e acesso; o limite de seis ciclos não obriga esgotá-los antes de conversar sobre outra estratégia.
Prescrição- Dexametasona 40 mg VO por 4 dias consecutivos — terceiro ciclo, enquanto aguarda o serviço especializado.
- Encaminhamento ao serviço especializado em trombocitopenia imune com a data do diagnóstico, as contagens e a resposta a cada ciclo, as sorologias e o resultado da erradicação.
- Antes da segunda linha, triagem dirigida ao fármaco: tuberculose ativa/latente quando indicada, imunoglobulinas e hepatite B com HBsAg, anti-HBc total e anti-HBs; organizar prevenção de reativação antes de rituximabe
- Teste de gravidez e plano de anticoncepção antes de azatioprina, ciclofosfamida ou danazol.
- Registrar no prontuário: esplenectomia só depois de 12 meses do diagnóstico, com as vacinas do Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais antes — a pneumocócica, desde maio de 2026, pela Nota Técnica nº 52/2026.
Como saber se está funcionando
Reavaliar uma plaquetopenia é conferir três coisas em cada contato: se o sangramento parou, se a contagem respondeu dentro do tempo que o tratamento escolhido costuma levar, e se o diagnóstico continua de pé. A terceira é a que se esquece — a trombocitopenia imune que não responde a nada é, antes de ser refratária, uma pergunta sobre a medula, e a microangiopatia que não melhora com a troca é, antes de ser grave, uma pergunta sobre o resultado da ADAMTS13.
Os parâmetros de trombocitopenia imune acompanham controle do sangramento e contagem suficiente para o contexto do paciente. Na PTT, a resposta tem critérios próprios, incluindo normalização das plaquetas, controle da hemólise e recuperação clínica; os limiares operacionais de 30.000–50.000/µL da PTI não definem resposta da microangiopatia.
Esperado: Subida em 1 a 2 dias, às vezes já nas primeiras 8 horas, pelo PCDT; resposta em geral transitória, com volta ao nível anterior em 2 a 4 semanas — por isso a imunoglobulina ganha tempo, e o corticoide ou a erradicação é que sustentam.
Se não melhora: Sem resposta e com sangramento ou risco: repetir a dose até completar 2 g/kg no ciclo. Sangramento crítico: plaquetas 3 unidades por 10 kg, imunoglobulina e metilprednisolona 1 g/dia. Nenhuma resposta a imunoglobulina e corticoide: rever a lâmina e discutir o exame da medula, que o PCDT indica na ausência de resposta.
Esperado: Resposta inicial em 60% a 70% dos adultos, mais rápida com a dexametasona que com a prednisona; recaída frequente nos 6 meses seguintes, que não é falha do tratamento, mas a história natural no adulto.
Se não melhora: Recaída abaixo de 30.000/µL: novo ciclo de dexametasona, de 14 a 28 dias depois do início do anterior, até 6 ciclos. Prednisona por mais de 8 semanas, ou ciclos repetidos: serviço especializado, com a segunda linha aberta depois de 3 meses de doença.
Esperado: Nenhum sangramento de mucosa novo; petéquias que param de surgir e as antigas que clareiam.
Se não melhora: Cefaleia intensa nova, vômitos ou alteração neurológica: avaliação médica e imagem de crânio urgentes, com suporte e tratamento hemostático em paralelo se houver forte suspeita de hemorragia crítica. Não aguardar confirmação radiológica para estabilizar ou acionar hemoterapia. Sangramento mucoso relevante exige reavaliar terapia e controle local; menstruação volumosa também requer abordagem ginecológica
Esperado: Alterações transitórias, restritas aos dias do pulso: insônia, agitação, apetite aumentado, glicemia um pouco mais alta.
Se não melhora: Hiperglicemia importante, descompensação psiquiátrica ou infecção ativa: no próximo tratamento de resgate, a imunoglobulina vem primeiro, como o PCDT orienta para esses pacientes; efeito adverso que impede o corticoide pode contar como contraindicação à primeira linha na hora de indicar a segunda.
Esperado: Contagem subindo e desidrogenase lática caindo; sessões diárias até as plaquetas normalizarem e a desidrogenase lática normalizar ou estabilizar, em geral 5 a 10 sessões ou mais.
Se não melhora: Resultado da ADAMTS13 acima de 20 UI/dL: outro diagnóstico, com o hematologista. Abaixo de 10 UI/dL e sem melhora: hematologista para a imunossupressão adicional, como o rituximabe, que a diretriz internacional recomenda considerar o quanto antes na doença confirmada.
Esperado: Cálcio e magnésio estáveis, exame neurológico igual ou melhor que o da véspera, cateter sem sangramento nem sinal de infecção, sem reação ao plasma.
Se não melhora: Formigamento perioral ou nas mãos durante a sessão: avisar a equipe de hemoterapia, que ajusta a reposição de cálcio. Piora neurológica: hematologista imediatamente. Sangramento no cateter: compressão local, sem transfusão profilática de plaquetas, que o Guia manda evitar na púrpura trombótica.
Esperado: Estabilização da creatinina e retomada da diurese; plaquetas e hemoglobina parando de cair.
Se não melhora: Critério de diálise: pelo capítulo Indicações de diálise e manejo da uremia, na apostila de Nefrologia. Sem diarreia antes, sem cepa produtora de toxina Shiga e com ADAMTS13 acima de 10%: suspeitar da forma mediada por complemento e chamar o especialista.
Onde o erro machuca
O dano: Na púrpura trombocitopênica trombótica, a plaqueta transfundida alimenta os microtrombos que estão causando a confusão mental, a troponina e a injúria renal. O Guia para uso de hemocomponentes registra piora clínica e eventos tromboembólicos com a transfusão profilática, e manda evitá-la mesmo para procedimento invasivo. O pedido ainda atrasa o que salva: a amostra de ADAMTS13, a troca e o corticoide.
Como pegar a tempo: Antes de assinar qualquer pedido de plaqueta num paciente com anemia, olhe a lâmina e o painel de hemólise. Esquizócito com hemólise e Coombs direto negativo cancela o pedido. O cateter da troca é passado por quem tem mais experiência, sem plaqueta; a transfusão fica restrita ao sangramento grave com risco de vida.
O dano: É o pedido do plantonista na cena. A plaqueta do doador é retirada pelo mesmo anticorpo em horas, a contagem da manhã volta ao ponto de partida, e a equipe sai com a falsa sensação de ter tratado. O paciente carrega o risco de reação transfusional e de aloimunização por um benefício que não chega, e o tratamento que funciona fica para depois.
Como pegar a tempo: Gradue o sangramento pelo PCDT: leve ou ausente, corticoide; mucoso de maior repercussão, imunoglobulina com corticoide; crítico pelo local ou pela instabilidade, plaquetas em dose três vezes a usual junto da imunoglobulina e da metilprednisolona. Escreva o motivo no prontuário quando não transfundir.
O dano: Pelos dois lados. A pseudoplaquetopenia vira corticoide, encaminhamento ou mielograma numa pessoa sem doença. E o esquizócito ou a célula imatura que não foram vistos deixam passar a microangiopatia e a leucemia, que não esperam a fila do ambulatório.
Como pegar a tempo: Toda plaquetopenia nova pede esfregaço. Na contagem isolada sem sangramento, nova coleta em citrato ou contagem na lâmina, pela técnica do capítulo de hemograma da apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. Na plaquetopenia com anemia, esquizócito se procura ativamente e se escreve no laudo, presente ou ausente.
O dano: É a troca diária que tira a púrpura trombocitopênica trombótica da faixa de nove mortes em dez, e o resultado da enzima, no melhor cenário da diretriz internacional, leva até 72 horas. Esperá-lo é deixar a doença seguir no tempo em que ela mata. Colher depois do plasma é pior de outro jeito: a dosagem passa a medir a enzima do doador e o diagnóstico se perde para sempre.
Como pegar a tempo: Na microangiopatia, colha a amostra de ADAMTS13 antes de qualquer hemocomponente, calcule o PLASMIC e, com escore alto e quadro compatível, acione hemoterapia e hematologia para troca e corticoide sem esperar o laudo.
O dano: A infecção crônica que se apresentou como plaquetopenia fica sem diagnóstico e sem tratamento, e a trombocitopenia imune secundária a ela pede o tratamento da doença de base, como manda o PCDT, e não o protocolo da forma primária. Se a doença chegar à segunda linha, o rituximabe pode reativar uma hepatite B que ninguém procurou. O remédio que causava a queda continua sendo tomado.
Como pegar a tempo: Em todo adulto, HBsAg, anti-HCV e anti-HIV antes de começar qualquer tratamento, como exige o Quadro 9 do PCDT, e a lista de medicamentos perguntada nome por nome, pela lista do TelessaúdeRS: antibióticos, anticonvulsivantes, haloperidol, heparina, salicilatos e anti-inflamatórios.
O dano: O corticoide reduz o sangramento e sobe a contagem enquanto é tomado, mas o PCDT registra que o tratamento não reduz o risco de a doença cronificar, e os efeitos adversos se acumulam: osteoporose, infecção oportunista, catarata, insuficiência adrenal, hipertensão e hiperglicemia. Seis meses de prednisona numa mulher de 31 anos compram dano permanente para manter um número.
Como pegar a tempo: Prednisona de 2 a 4 semanas com redução, em tempo total de até 8 semanas; dependência além disso, ou ciclos repetidos, é encaminhamento ao serviço especializado e, depois de 3 meses de doença, segunda linha.
O que dizer ao paciente e à família
Estas falas são as que o interno ouve no corredor, com o nariz ainda sangrando ou com o marido de pé ao lado da maca. Plaquetopenia assusta de um jeito próprio: o número baixo parece sentença, e as manchas crescem diante dos olhos do paciente.
O que atravessa todas elas é explicar o mecanismo em uma frase antes de anunciar a decisão. A paciente que entendeu por que a plaqueta de fora some aceita ficar sem ela; a que só ouviu um não volta a pedir ao plantão da manhã, e às vezes recebe.
Joana, às onze e meia da noite, olhando para o laudo: “Quatro mil? Isso é leucemia, doutor?”
“Entendo o medo, e a pergunta é boa. A leucemia costuma mexer nas outras células do sangue, e o seu exame mostra os glóbulos brancos e os vermelhos normais, e ninguém viu células imaturas na lâmina. O que o exame mostra é que só as plaquetas caíram, e o mais provável é que o seu corpo esteja produzindo anticorpos contra elas. Vou confirmar isso afastando outras causas, com exames de sangue que já colhi, e vou começar hoje o tratamento que sobe as plaquetas.”
Não diga: “Não é nada, fica tranquila.” Quatro mil plaquetas com o nariz sangrando pedem internação e tratamento, e dizer que não é nada faz a paciente ir embora na primeira melhora. O oposto também erra: “Pode ser leucemia, vamos investigar” deixa a noite inteira com o pior diagnóstico e nenhum dado a favor dele.
Joana, depois de ouvir que o pedido de plaquetas foi cancelado: “Mas se está tão baixo, por que não me dão plaqueta?”
“Porque no seu caso a plaqueta de fora some pelo mesmo caminho que levou as suas. O anticorpo que está destruindo as suas plaquetas reconhece as do doador também, e em poucas horas o número volta ao que era. A transfusão fica guardada para um sangramento que ameace a vida, e aí ela vai junto dos remédios. O que sobe as suas plaquetas é o soro de anticorpos que vai correr agora na veia e o corticoide de amanhã cedo. Se aparecer dor de cabeça forte, vômito ou sangue na urina, me chame na hora.”
Não diga: “Não tem indicação.” A frase é verdadeira e não explica nada; a paciente entende que o banco de sangue está sem estoque ou que alguém está economizando, e pede de novo à equipe da manhã.
Joana, no 21º dia, com 24.000 plaquetas: “Voltou a cair. O remédio não funcionou?”
“Funcionou: você saiu de quatro mil para mais de cem mil e parou de sangrar. No adulto, é comum a contagem cair de novo depois do corticoide, e o protocolo prevê repetir o mesmo remédio em ciclos, com intervalo de duas a quatro semanas. Hoje começa o segundo ciclo. E o exame da bactéria do estômago veio positivo: tratar essa bactéria faz a contagem subir e se manter em parte dos pacientes. O que eu não vou fazer é deixar você meses tomando corticoide todo dia, porque aí o remédio passa a fazer mais mal do que bem. Se isso começar a ser necessário, você vai para o especialista.”
Não diga: “Vamos aumentar a prednisona e manter até subir.” Corticoide contínuo por meses não muda o curso da doença, pelo próprio PCDT, e acumula osteoporose, catarata e diabetes numa mulher de 31 anos.
Joana, no quarto mês, antes do encaminhamento: “Eu quero engravidar no ano que vem. Com essa doença eu posso?”
“Pode, com planejamento. Muitas mulheres com essa doença engravidam, e o protocolo prevê o acompanhamento com obstetra e hematologista juntos, com contagens mais frequentes no fim da gestação e o objetivo de estar acima de 50.000 no parto. O que precisa ser combinado agora é o momento: alguns remédios da próxima etapa do tratamento não podem ser usados na gravidez. Por isso vou pedir um teste de gravidez, vamos escolher um método para evitar gestação enquanto você estiver nesses remédios, e o especialista vai saber do seu plano desde a primeira consulta.”
Não diga: “Com essa doença não é bom engravidar.” A frase não tem base no protocolo, tira uma decisão da paciente sem motivo e faz a conversa sobre anticoncepção — que é a que importa agora — parecer punição.
O marido de Leontina, na porta da sala de emergência: “Ela está com as plaquetas quase zero e vocês não vão dar plaqueta? E essa troca de sangue, é perigosa?”
“A doença dela é diferente de uma falta de plaquetas comum. Está faltando no sangue uma proteína que impede a formação de pequenos coágulos, e as plaquetas estão sendo gastas justamente nesses coágulos, que chegam ao cérebro e explicam a confusão de hoje. Dar plaqueta agora é dar mais material para esses coágulos. A troca de plasma faz o que ela precisa: tira o anticorpo que está atacando essa proteína e coloca plasma de doador, que tem a proteína. É feita todos os dias por alguns dias, por um cateter numa veia grande. Tem riscos — do cateter, formigamento pelo anticoagulante do aparelho, reação ao plasma —, e a equipe da hemoterapia vai explicar e pedir a assinatura do termo. O risco de não fazer é muito maior.”
Não diga: “É o protocolo da hemoterapia.” Protocolo não responde por que a plaqueta, que parece óbvia, está proibida; a família ouve teimosia burocrática e pode recusar o procedimento que salva.
Casemiro, 52 anos, diabético em insulina, ouvindo que vai receber imunoglobulina: “Por que eu não tomo o comprimido, como a moça do outro leito?”
“Porque o comprimido dela é corticoide em dose alta, e no senhor ele faria a glicose subir muito, com a diabete que já está difícil de controlar. O protocolo manda, para quem usa insulina e está com a glicose descontrolada, começar pela imunoglobulina, que sobe as plaquetas sem mexer no açúcar. O efeito dela costuma durar algumas semanas; por isso vamos contar as plaquetas de perto e planejar o que vem depois antes de o efeito passar.”
Não diga: “O senhor não pode tomar corticoide.” A frase soa como proibição definitiva, e o paciente sai achando que qualquer corticoide, em qualquer dose, está vetado para sempre.
A filha de Adilson, 63 anos, com a diarreia já passando e a urina escassa: “Ele vai ter que fazer hemodiálise para sempre?”
“Ainda não dá para dizer, e eu não vou prometer o que não sei. O rim dele foi atingido pela mesma lesão dos vasos pequenos que baixou as plaquetas e causou a anemia. Se a diálise for necessária nos próximos dias, é para substituir o rim enquanto ele tenta se recuperar — precisar agora não quer dizer precisar para sempre. Vamos medir a urina a cada turno e os exames todos os dias, e a nefrologia vai decidir com esses números. Uma coisa ajuda muito: contar o que ele comeu nos dias antes da diarreia, porque outras pessoas podem ter comido o mesmo.”
Não diga: “Isso é comum, o rim volta.” Promessa de recuperação sem dado vira acusação quando o rim não volta; e esquecer de perguntar pela comida perde a chance de achar outros casos.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Meningocócica do sorogrupo C, ao menos 15 dias antes — PCDT da Trombocitopenia Imune Primária, 2026
Na seção de tratamento cirúrgico, o PCDT recomenda vacinar contra Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae b e Neisseria meningitidis do sorogrupo C pelo menos 15 dias antes da esplenectomia, sem esquema de doses nem reforço.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Trombocitopenia Imune Primária. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 41, de 25 de fevereiro de 2026, seção 7.2.
Meningocócica ACWY conjugada em 2 doses, com reforço a cada 5 anos — Manual dos CRIE, 6ª edição, 2023
O Quadro 10 indica, na asplenia anatômica ou funcional, a vacina meningocócica ACWY conjugada em duas doses com 8 semanas de intervalo e reforço a cada 5 anos; na esplenectomia eletiva, a vacina é aplicada preferencialmente duas semanas antes. Para a pneumocócica, o mesmo manual orientava, a partir dos 5 anos de idade, uma dose de conjugada e uma de polissacarídica 8 semanas depois, com revacinação da polissacarídica em 5 anos; desde 20 de maio de 2026, a Nota Técnica nº 52/2026 substituiu esse esquema, na asplenia e nas demais indicações da rede de imunobiológicos especiais, por dose única de VPC20 a partir dos 5 anos, inclusive no adulto.
Brasil. Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023, Quadros 10 e 13.
Pelo primeiro degrau, o escopo. A pergunta é qual vacina protege o paciente que vai ficar sem baço, e o documento escrito para essa pergunta é o manual dos centros de referência, que regula os imunobiológicos especiais por condição de risco — a asplenia, qualquer que seja a causa; o PCDT cita a vacina de passagem, na seção da cirurgia, sem esquema nem reforço. A data, que favoreceria o PCDT, só decide com o escopo empatado. Esta apostila adota o manual: meningocócica ACWY conjugada em duas doses, a primeira pelo menos duas semanas antes da cirurgia, com reforço a cada 5 anos, junto da pneumocócica — hoje a VPC20 em dose única da Nota Técnica nº 52/2026 — e da vacina contra Haemophilus influenzae b. Como a ACWY contém o sorogrupo C, quem segue o manual cumpre também o que o PCDT pede.
Pode ser pesquisado, sobretudo na forma crônica ou com sintoma digestivo — PCDT, fevereiro de 2026
Na seção de diagnóstico, o PCDT diz que a pesquisa de Helicobacter pylori pode ser realizada para investigar essa infecção crônica, em especial nas formas crônicas da doença ou nos pacientes com sintomas gastrointestinais sugestivos.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Trombocitopenia Imune Primária. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 41, de 25 de fevereiro de 2026, seção 3.1.
Testar e erradicar em todo adulto com a doença — V Consenso Brasileiro sobre Helicobacter pylori, 2026
A declaração 13 recomenda testar e erradicar o Helicobacter pylori no adulto com trombocitopenia imune, com recomendação forte, evidência de alta qualidade e 94% de concordância. A justificativa cita subida sustentada das plaquetas em cerca de 40% a 50% dos infectados que erradicam e estudos brasileiros com benefício em subgrupos.
Coelho LGV, Sanches BSF, Maguilnik I, et al. Vth Brazilian Consensus Conference on Helicobacter pylori infection. Arquivos de Gastroenterologia. 2026;63:e26043, declaração 13.
Antes do desempate, a pergunta da régua: as duas frases colidem? Não ao pé da letra. O PCDT, que é o documento escrito para o paciente com a doença e venceria pelo escopo, não proíbe testar ninguém — permite, com ênfase em dois grupos; o consenso recomenda testar todos. Quem testa todo adulto cumpre as duas; quem só testa o doente crônico cumpre o PCDT e deixa sem tratamento, nos meses em que a doença ainda é recém-diagnosticada, uma causa que responde em 40% a 50% dos infectados. Esta apostila adota o teste em todo adulto já na investigação inicial. A escolha, dentro da permissão do PCDT, é desta apostila, apoiada no consenso — e é a mesma régua que o capítulo de doença ulcerosa péptica e Helicobacter pylori, na apostila de Gastroenterologia, dono do tratamento, já usa.
Internação urgente do adulto com a doença recém-diagnosticada e menos de 30.000/µL — PCDT, introdução, 2026
A introdução indica hospitalização urgente no sangramento grave, para confirmar o diagnóstico, afastar outras causas e iniciar o tratamento, e estende a indicação ao adulto com a doença recém-diagnosticada e contagem abaixo de 30.000/mm³.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Trombocitopenia Imune Primária. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 41, de 25 de fevereiro de 2026, seção 1.
Tratamento ambulatorial, internação na hemorragia clinicamente significativa — PCDT, monitoramento, 2026
A seção de monitoramento diz que a maioria dos pacientes pode ser tratada e acompanhada em ambulatório, com visitas no mínimo semanais, e que as hospitalizações são indicadas nas hemorragias clinicamente significativas; a própria introdução admite tratar em ambulatório a plaquetopenia estável sem sangramento, com monitoramento rigoroso. O mesmo documento pede hemograma diário enquanto houver sangramento ativo ou, a critério médico, com contagem abaixo de 10.000/mm³.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Trombocitopenia Imune Primária. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 41, de 25 de fevereiro de 2026, seções 1 e 8.
Urgência no mesmo dia abaixo de 20.000/µL; acima disso, hematologia ambulatorial — TelessaúdeRS, 2023
O protocolo de encaminhamento manda para urgência ou emergência, preferencialmente com apoio de hematologista, a plaquetopenia abaixo de 20.000/µL e a que vem com hemoglobina abaixo de 7 g/dL ou neutrófilos abaixo de 500/µL; a plaquetopenia persistente sem esses critérios vai para a hematologia com duas contagens, separadas por uma semana quando abaixo de 50.000/µL.
TelessaúdeRS-UFRGS; Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul. Protocolos de encaminhamento para Hematologia adulto. Porto Alegre, 2023, Protocolo 4 — Trombocitopenia.
Primeiro, a cronologia: o protocolo gaúcho governa o primeiro contato, na atenção primária, antes do diagnóstico; o PCDT governa o adulto com a doença diagnosticada. As réguas só colidem na faixa de 20.000 a 29.999/µL, e ali a colisão está dentro do próprio PCDT, que manda internar na introdução e tratar em ambulatório no monitoramento. Pelo quarto degrau, o documento que se contradiz no ponto em disputa perde a precedência de norma, e vale a leitura coerente: as seções operacionais do PCDT somadas ao protocolo de encaminhamento. Esta apostila adota: abaixo de 20.000/µL, ou com citopenia grave, avaliação de urgência no mesmo dia; internação quando há sangramento clinicamente significativo ou de mucosa em curso, contagem abaixo de 10.000/µL, que pede hemograma diário, dúvida diagnóstica — hemólise, célula imatura — ou impossibilidade de garantir contagem e consulta em até uma semana; de 20.000 a 29.999/µL sem sangramento, tratamento pelo critério da seção 4 em ambulatório, com retorno semanal. A última condição de internação, a falta de garantia do retorno, é escolha desta apostila e não de documento nenhum.
O raciocínio, em voz alta
Leontina Pernambuco, 38 anos, 64 quilos, professora, chega à sala de emergência às 16h trazida pelo marido. Há três dias tem dor de cabeça e cansaço; hoje de manhã, ao telefone, trocou palavras por uns vinte minutos e depois voltou ao normal. Notou manchas roxas nas pernas. Pressão de 138 por 86 mmHg, frequência cardíaca de 104 batimentos por minuto, temperatura axilar de 37,8 °C, Glasgow 15 e exame neurológico normal agora. No hemograma, plaquetas de 12.000/µL, esquizócitos abundantes na lâmina, leucócitos de 9.200/µL e hemoglobina de 7,9 g/dL com volume corpuscular médio de 94 fL; reticulócitos de 7,8%, desidrogenase lática de 1.480 U/L, bilirrubina total de 3,4 mg/dL com indireta de 2,9, haptoglobina indetectável, Coombs direto negativo; creatinina de 1,3 mg/dL, INR de 1,1, tempo de tromboplastina parcial ativada e fibrinogênio normais; troponina discretamente elevada; teste de gravidez negativo. Não tem câncer, nunca fez transplante, não começou remédio novo e não teve diarreia. O plantonista pede uma aférese de plaquetas para a passagem do cateter.
o nome da síndrome antes do nome da doença
Plaquetopenia com anemia hemolítica — reticulócitos, desidrogenase lática e bilirrubina indireta altos, haptoglobina indetectável — de mecanismo não imune, com Coombs direto negativo e esquizócitos, é microangiopatia trombótica. A afasia que foi e voltou e a troponina alta são isquemia de microcirculação. A coagulação intravascular fica improvável com INR, tempo de tromboplastina parcial ativada e fibrinogênio normais; a HELLP sai com o teste de gravidez negativo; a pressão não é de emergência hipertensiva; não houve diarreia; e não há câncer, transplante nem fármaco novo.
o escore, item por item
Plaquetas de 12.000/µL, abaixo de 30.000: 1 ponto. Hemólise — aqui os três marcadores servem, e basta um: 1 ponto. Sem câncer ativo: 1 ponto. Sem transplante: 1 ponto. Volume corpuscular médio de 94 fL, acima de 90: nenhum ponto — a reticulocitose da própria hemólise aumenta o volume médio, e o item se perde. INR de 1,1: 1 ponto. Creatinina de 1,3 mg/dL, abaixo de 2,0: 1 ponto. Soma: 6. Pela Tabela 1 da diretriz da sociedade internacional de trombose, a probabilidade de atividade da ADAMTS13 abaixo de 10% nessa faixa é de 62% a 82%. O escore não chega sozinho aos 90% que a diretriz chama de suspeita alta; a isquemia que oscila, a hemólise franca e a ausência de qualquer outra explicação completam o quadro. Leontina é suspeita alta.
o pedido que se cancela
A aférese de plaquetas para o cateter é cancelada. O Guia para uso de hemocomponentes restringe a transfusão de plaquetas na púrpura trombocitopênica trombótica ao sangramento grave com risco de vida e manda evitar a profilática mesmo para procedimento invasivo, pela piora clínica e pelos eventos tromboembólicos descritos. O cateter da troca é passado por quem tem mais experiência, porque o Guia registra que a habilidade de quem faz o procedimento pesa na complicação. Leontina não sangra de mucosa; as petéquias não são indicação de transfundir.
a amostra antes do plasma
Antes de qualquer hemocomponente, colhe-se o plasma para a atividade da ADAMTS13 — a primeira etapa da recomendação da diretriz internacional e a orientação do protocolo da Hemominas. Depois da primeira troca, a dosagem passaria a medir a enzima do doador. A coleta leva minutos e não atrasa nada; a pontuação do escore e o quadro clínico ficam escritos no pedido de troca plasmática, que é o que o protocolo da Hemominas exige para autorizar o procedimento por urgência.
troca e corticoide sem esperar o laudo
Com suspeita alta, a diretriz internacional manda iniciar troca plasmática e corticoide sem esperar o resultado da enzima. A hemoterapia e a hematologia são acionadas às 16h40, e, se o serviço não tiver aférese, a transferência é para onde houver, hoje. O protocolo da Hemominas define o que acontece depois: plasma fresco congelado como reposição obrigatória, de 1 a 1,5 volemia plasmática por sessão, sessões diárias até as plaquetas normalizarem e a desidrogenase lática normalizar ou estabilizar, e corticoide concomitante, com dose decidida pelo hematologista. No seguimento de cada dia entram plaquetas, desidrogenase lática, hemoglobina, reticulócitos, cálcio e magnésio — pelo citrato da máquina —, coagulação e fibrinogênio, e o exame neurológico.
o laudo do quinto dia e o que ele muda
No quinto dia chega a atividade da ADAMTS13: 4%. Abaixo de 10%, o diagnóstico de púrpura trombocitopênica trombótica imune está confirmado. As plaquetas estão em 96.000/µL e a desidrogenase lática caiu para 410 U/L; as trocas seguem até a normalização. A diretriz internacional recomenda considerar o rituximabe o quanto antes na doença confirmada, porque a maioria dos adultos tem o anticorpo; a indicação é do hematologista. O caplacizumabe, que a mesma diretriz discute, não consta da Rename 2024, e a diretriz não o recomenda onde não há acesso razoável à dosagem da enzima. Se o laudo tivesse vindo acima de 20%, a pergunta voltaria para o começo: outra microangiopatia, com a troca reavaliada com o hematologista.
Faça você
Casemiro Junqueira, 52 anos, pesado hoje com 80 quilos, usa insulina NPH e regular há seis anos e veio ao ambulatório de diabetes com glicemia de jejum de 310 mg/dL e hemoglobina glicada de 10,4%. O hemograma de rotina mostrou plaquetas de 18.000/µL, confirmadas na lâmina, com plaquetas grandes, sem agregados, sem esquizócitos e sem células imaturas; hemoglobina e leucócitos normais. Tem petéquias nos tornozelos e nenhum sangramento de mucosa; o exame não mostra baço, fígado nem gânglios. Não usa heparina, anticonvulsivante nem antibiótico; toma metformina e insulina. A creatinina é de 0,9 mg/dL. O hospital-dia tem cadeira para infusão de segunda a sexta, e a farmácia dispensa imunoglobulina humana em frascos de 5 g e de 1 g.
tratar ou observar
Pela seção 4 do PCDT, entra no tratamento de primeira linha quem tem contagem abaixo de 30.000/µL, mesmo sem sangramento. Com 18.000/µL, Casemiro está dentro. Antes do primeiro remédio, o Quadro 9 exige as sorologias de hepatite B, hepatite C e HIV em todo adulto.
com o quê
Na seção de casos especiais, o PCDT recomenda começar pela imunoglobulina no diabético insulinodependente ou com diabetes não controlado, no paciente com transtorno psiquiátrico e no que tem infecção ativa, pelas contraindicações relevantes do corticoide em dose alta. Casemiro tem as duas primeiras condições do diabetes ao mesmo tempo.
a dose, na apresentação da farmácia
O Quadro 7 dá ao adulto duas formas: de 0,5 a 1 g/kg por dia em dose única, repetível até 2 g/kg no ciclo, ou 400 mg/kg por dia durante 5 dias. A agenda do hospital-dia tem cinco manhãs. Faça as duas contas com 80 kg e escreva quantos frascos de 5 g e de 1 g cada forma usa por dia e no ciclo.
onde, com que retorno e o que esperar
O protocolo do TelessaúdeRS manda a plaquetopenia abaixo de 20.000/µL para avaliação de urgência no mesmo dia. Pelo critério que esta apostila adota, Casemiro, sem sangramento, acima de 10.000/µL e sem dúvida diagnóstica, pode tratar sem internar se o retorno for garantido. Pense no tempo de resposta e na duração do efeito da imunoglobulina, que o PCDT descreve, e marque as contagens.
Ver como fecharíamos
Casemiro trata, porque tem menos de 30.000/µL, e trata com imunoglobulina, e não com corticoide em dose alta, pelo caso especial do diabetes insulinodependente e descontrolado. Na forma de cinco dias, 400 mg/kg × 80 kg = 32 g por dia, ou 6 frascos de 5 g e 2 de 1 g, e 160 g no ciclo, que são exatamente 2 g/kg; na forma de dose única, 1 g/kg = 80 g, ou 16 frascos de 5 g, repetível até completar 2 g/kg se não houver resposta. Com a agenda de cinco manhãs, a forma de 400 mg/kg/dia cabe sem internação. Ele passa pela urgência no mesmo dia, colhe HBsAg, anti-HCV e anti-HIV antes da primeira dose e sai com contagem de controle em 24–48 horas do início, reavaliação durante o ciclo e retorno definido pela tendência, sem aguardar cinco dias para a primeira conferência: a imunoglobulina sobe as plaquetas em 1 a 2 dias, mas o efeito costuma durar de 2 a 4 semanas, e o plano do que vem depois — novo ciclo, erradicação do Helicobacter pylori se o teste vier positivo, encaminhamento — precisa estar pronto antes de o efeito passar. A glicemia volta para o capítulo dono do diabetes, que agora tem uma razão a mais para ser controlada: um corticoide futuro.
A seção 4 do PCDT inclui na primeira linha, além de quem tem contagem abaixo de 30.000/µL, quem está abaixo de 50.000/µL com sangramento ou fator de risco para sangramento — e a lista de fatores inclui a exposição ocupacional, ao lado de coagulopatia, anticoagulante, doença vascular, cirurgia e hipertensão ou epilepsia não controladas. Trabalho em altura com risco de queda é o exemplo típico. A medula não é necessária no diagnóstico inicial da plaquetopenia isolada, e a esplenectomia fica para depois de 12 meses e de múltiplas terapias.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Explique por que plaquetas muito baixas não levam sempre à mesma prescrição. Compare pseudoplaquetopenia, PTI com sangramento mucoso e suspeita de PTT.
Em 30 dias
Uma paciente com PTI recidiva após corticoide: avalie sangramento, toxicidade e opções de seguimento. Depois descreva a conduta imediata de outro paciente com esquizócitos e alteração neurológica, sem esperar ADAMTS13.
Agora atenda
Agora atenda: Adilson Granja, 63 anos, 76 quilos, chega à unidade de pronto atendimento com a filha. Há oito dias, depois de um almoço de família com carne malpassada, começou diarreia aquosa, que ficou com sangue no terceiro dia; dois irmãos que estavam no almoço tiveram diarreia também. A diarreia está melhorando, mas desde ontem ele urina pouco e está pálido. Pressão de 150 por 90 mmHg, frequência cardíaca de 96 batimentos por minuto, afebril, Glasgow 15, sem sinal neurológico. Hemoglobina de 8,6 g/dL, plaquetas de 41.000/µL, esquizócitos na lâmina, desidrogenase lática de 1.120 U/L, creatinina de 3,9 mg/dL — era 1,0 há dois meses —, potássio de 5,6 mEq/L, INR de 1,0. O plantonista quer começar ciprofloxacino e loperamida e pedir plaquetas antes de passar o cateter de hemodiálise. Antes de assinar, decida o que colhe antes de qualquer plasma, o que não prescreve, quem chama, a quem avisa sobre os irmãos e em que momento a troca plasmática entra na conversa.
