Clínica Médica › Hematologia e Hemoterapia
O que fica depois da bolsa
Terapia transfusional e reações transfusionais
Cada hemocomponente tem indicação, dose e um rendimento que se mede na primeira hora. E cada bolsa deixa no paciente o que a prescrição não mostra: um registro que alguém precisa ler na próxima vez, um anticorpo que pode sumir do exame sem sumir do sangue e duzentos miligramas de ferro que ficam.
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.685, de 2 de julho de 2026, que altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 5, de 28 de setembro de 2017, para redefinir o conjunto de regulamentos técnicos da área de sangue e de procedimentos hemoterápicos — Anexo IV-B, Regulamento Técnico de Procedimentos Hemoterápicos. Diário Oficial da União, Seção 1, Edição Extra nº 123-D, 3 de julho de 2026
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Guia para uso de hemocomponentes. 2ª edição, 1ª reimpressão. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. 136 p. ISBN 978-85-334-2161-5
Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 34, de 11 de junho de 2014. Dispõe sobre as Boas Práticas no Ciclo do Sangue
Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Manual para o Sistema Nacional de Hemovigilância no Brasil (revisão do Marco Conceitual e Operacional da Hemovigilância: guia para a hemovigilância no Brasil). Brasília: Anvisa, 2022. 147 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de novembro de 2024
Brasil. Ministério da Saúde. Portaria de Consolidação GM/MS nº 5, de 28 de setembro de 2017, Anexo IV — Regulamento Técnico de Procedimentos Hemoterápicos (origem: Portaria MS/GM nº 158/2016)
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024
Anvisa. Ministério da Saúde atualiza procedimentos hemoterápicos e Anvisa orienta período de transição, 16/07/2026. https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/ministerio-da-saude-atualiza-procedimentos-hemoterapicos-e-anvisa-orienta-periodo-de-transicao
Responda antes de ler
Mulher de 50 kg com doença falciforme entra em programa de transfusão de troca manual. Hematócrito inicial de 20%, meta de 30%, concentrado de hemácias com hematócrito de 70% e volemia estimada em 60 mL/kg, como no protocolo nacional. Qual é o volume de troca pela forma linear que usa a média dos hematócritos no denominador? Considere um exercício de balanço de hematócrito com as hipóteses informadas, não uma prescrição completa de troca manual.
O paciente que você vai ver
Segunda-feira, sete e cinco da manhã, enfermaria de clínica médica de vinte leitos num hospital geral que não tem hemocentro, só uma agência transfusional no subsolo. A técnica de enfermagem avisa que o impresso de requisição de transfusão do leito 12 precisa descer até as oito, porque é quando a agência recolhe os pedidos da manhã. Você é o interno da equipe e pega a prancheta. A prescrição da madrugada, feita pelo plantonista do pronto-atendimento, tem duas linhas escritas à mão: concentrado de hemácias, duas unidades; plaquetas por aférese, uma unidade; correr hoje.
No leito 12 está Otília Prata, 67 anos, 58 quilos, costureira aposentada, que mora com a filha. Chegou ontem à noite com um cansaço que vinha piorando havia uma semana, falta de ar para ir da cama ao banheiro e tontura ao se levantar. Agora está sentada, pálida, com a conjuntiva quase branca, com frequência cardíaca de 106 batimentos por minuto, pressão de 118 por 64, saturação de 95% em ar ambiente e sem febre. Não sangra pela gengiva, não tem manchas roxas nas pernas, não viu sangue na urina nem nas fezes. O hemograma da entrada mostra hemoglobina de 6,3 g/dL, volume corpuscular médio de 104 fL, leucócitos de 2.300 com 900 neutrófilos e plaquetas de 9.000.
O diagnóstico não é novo. Há dois anos e quatro meses o hemocentro regional fechou síndrome mielodisplásica, e desde então ela vive de transfusão: trinta e quatro concentrados de hemácias em vinte e dois meses, o último há dezenove dias. A dosagem de ferritina de um mês atrás, anotada num papel dobrado dentro da pasta de exames que a filha trouxe, é de 3.120 µg/L. É a primeira internação dela neste hospital, e a ficha de receptor da agência transfusional lá embaixo está em branco.
A requisição que o plantonista começou está preenchida pela metade. No campo do diagnóstico, uma palavra: anemia. No componente solicitado, “CH 2U” e, na linha de baixo, “aférese 1U”. A modalidade marcada é urgência. O número do CPF, o peso e o campo de antecedentes transfusionais, gestacionais e de reações estão em branco. Ninguém perguntou — era madrugada, a paciente estava cansada, e a filha tinha ido buscar roupa em casa.
A filha chega às sete e quinze com uma bolsa de mão e, antes de dar bom-dia, pergunta se a mãe vai tomar sangue de novo, porque no hemocentro eles sempre pedem para ver o cartão. Ela abre a carteira da mãe e tira um cartão plastificado, amarelado nas bordas, com o timbre do hemocentro: portadora de anticorpo anti-Jk(a), identificado há cinco meses; transfundir somente hemácias Jk(a) negativas, fenotipadas e desleucocitadas. A filha acrescenta, sem que ninguém pergunte, que no ano passado a mãe teve febre e tremedeira no meio de uma bolsa, e que desde então o hemocentro manda sangue “filtrado”.
Faltam quarenta e cinco minutos para a requisição descer. Tudo o que este capítulo ensina cabe nesse intervalo e nos dias que vêm depois dele: qual das bolsas prescritas a paciente precisa e qual não precisa, que tipo de bolsa pedir, o que a agência vai fazer com o tubo de sangue que você mandar, o que significa um resultado que volta dizendo inconclusivo, e o que acontece no oitavo dia se o cartão amarelado continuar dentro da carteira.
Quem adoece disso
A transfusão costuma ser contada pelo que acontece durante a bolsa, e é por isso que a maior parte do que ela deixa fica fora da conta. A norma brasileira separa as reações em dois tempos: imediata é a que acontece até vinte e quatro horas depois de iniciada a transfusão, e tardia é a que aparece depois disso. A primeira tem capítulo próprio, Reação transfusional: reconhecer e interromper, na apostila de Síndromes do Paciente Internado. Este capítulo fica com o que vem antes da bolsa — a indicação, o componente, o pedido — e com a cauda longa que vem depois dela, que é onde moram os números que o interno raramente vê.
O primeiro desses números é ferro. Cada unidade de sangue transfundida carrega de 200 a 250 mg de ferro, segundo o manual nacional de hemovigilância da Anvisa, e o mesmo manual compara o que entra no organismo de quem vive de transfusão, de 8 a 16 mg por dia, com o que o intestino absorve em quem não é transfundido, de 1 a 2 mg por dia. A conta de Otília é curta: trinta e quatro unidades somam de 6,8 a 8,5 g de ferro, o equivalente ao que o intestino absorveria em algo entre nove e vinte e três anos. Nenhuma dessas bolsas deu reação, e todas deixaram alguma coisa.
O segundo número é anticorpo. A população em que o protocolo nacional mede o problema é a das pessoas com doença falciforme, para quem a transfusão é, nas palavras do documento, o esteio da terapia. O protocolo nacional de 2024 registra que, sem compatibilidade prévia para os antígenos Rh e K, cerca de 30% dos pacientes transfundidos pelo menos de forma intermitente desenvolvem aloanticorpo; que a reação hemolítica tardia aparece em 5% a 10% dos transfundidos; e que perto de metade delas não é diagnosticada. Autoanticorpos aparecem em 7% a 47% desses pacientes. Anticorpo que não se procura não entra em estatística nenhuma — e continua no sangue.
O antígeno RhD tem o seu número próprio, e ele vem da plaqueta, que ninguém associa a hemácia. O guia do Ministério da Saúde descreve aloimunização anti-D em aproximadamente 10% dos pacientes RhD negativo que recebem concentrado de plaquetas RhD positivo, pela pequena contaminação de hemácias que toda bolsa de plaquetas carrega — menos frequente nos pacientes onco-hematológicos, nas crianças e em quem recebe plaquetas de aférese, que trazem menos hemácias. O mesmo guia estima que plaquetas ABO incompatíveis rendem cerca de 20% menos incremento na contagem.
O terceiro número é leucócito. Uma unidade de sangue total contém de 2 a 3 bilhões de leucócitos. O componente desleucocitado precisa ficar abaixo de 5 milhões, o que corresponde a remover mais de 99%; a extração da camada leucoplaquetária na produção das plaquetas remove cerca de 90%, que é bem menos. É dessa diferença que dependem a prevenção da reação febril não hemolítica, da aloimunização contra antígenos leucocitários, da refratariedade plaquetária e da transmissão do citomegalovírus — as quatro finalidades que o regulamento técnico de 2026 atribui aos componentes desleucocitados.
Há complicações raras cujo peso não está na frequência. A doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão é descrita pelo guia como usualmente fatal e, pelo manual de hemovigilância, como resistente à maioria das terapias — de modo que a única medida que funciona é a que se toma antes da bolsa, pedindo componente irradiado para quem está na lista. O número que interessa aqui não é a incidência, é o fato de que a prevenção depende de alguém ter lido o diagnóstico e os remédios do paciente ao preencher a requisição.
E há o lado oposto, o do benefício que só aparece quando a indicação é certa. Na púrpura trombocitopênica trombótica, a troca plasmática diária com plasma fresco congelado levou a mortalidade de 90% para menos de 30% em alguns estudos, segundo o guia — entre os exemplos que o documento traz, é o de maior efeito sobre o desfecho. No mesmo documento, o uso de plasma para corrigir exame alterado em quem não sangra aparece entre as contraindicações, e o uso inadequado aparece descrito como exposição desnecessária aos riscos transfusionais, sem ganho mensurável.
Por fim, um número de processo que vale para quem começa o internato agora: o regulamento técnico de procedimentos hemoterápicos foi reescrito. A Portaria GM/MS nº 11.685, publicada no Diário Oficial de 3 de julho de 2026, prevê, a partir de sua entrada em vigor, a substituição do Anexo IV da Portaria de Consolidação nº 5 e colocou no lugar o Anexo IV-B, com entrada em vigor comunicada pela Anvisa para 30 de setembro de 2026. Impresso de requisição e procedimento operacional escritos pela regra anterior não se reescrevem sozinhos no dia em que a norma muda, e o interno de 2026 e 2027 pode encontrá-los ainda em uso. As diferenças que chegam a quem prescreve estão marcadas ao longo do capítulo.
Por que acontece o que acontece
Concentrado de hemácias serve para tratar ou prevenir oferta insuficiente de oxigênio aos tecidos — e anemia não é sinônimo disso. Diante da hemoglobina que cai, o organismo aumenta o débito cardíaco e reduz a afinidade da hemoglobina pelo oxigênio, que passa a soltá-lo com mais facilidade na periferia; o guia do Ministério da Saúde lembra que esses mecanismos muitas vezes bastam para conter a hipóxia tecidual. Eles precisam de tempo para se instalar, e é por isso que a anemia de instalação crônica é tolerada muito melhor que a aguda. Otília chega com 6,3 g/dL depois de semanas de queda lenta: o número é o de quem precisa de sangue, mas o que decide é a taquicardia e a falta de ar para ir ao banheiro, que dizem que a compensação acabou.
O rendimento de uma bolsa de hemácias segue a matemática do volume. No adulto de estatura média, cada unidade acrescenta perto de 1 g/dL à hemoglobina e 3 pontos ao hematócrito, segundo o guia. O regulamento técnico de 2026 exige que o concentrado de hemácias desleucocitado tenha pelo menos 40 g de hemoglobina por unidade; espalhados na volemia de uma mulher de 58 quilos, de pouco mais de 4 litros a 70 mL/kg, esses 40 g já dão cerca de 1 g/dL, e bolsas mais ricas dão mais. Quanto menor o paciente, maior o salto por bolsa — e é essa conta que torna a segunda unidade automática um excesso em quem pesa pouco.
Plaqueta rende menos do que se imagina, porque um terço vai para o baço. Uma unidade obtida de sangue total traz cerca de 5,5 × 10¹⁰ plaquetas em 50 a 60 mL de plasma; uma unidade de aférese traz pelo menos 3,0 × 10¹¹ em 200 a 300 mL, o equivalente a seis a oito unidades de sangue total. O guia corrige a dose pelo sequestro esplênico com um fator de 0,67, e a conta resulta em que uma unidade para cada 10 quilos, num adulto de 70 quilos, deve elevar a contagem em cerca de 50.000/µL. Quando a destruição é imune — púrpura trombocitopênica imune, trombocitopenia da dengue — a plaqueta transfundida some pelo mesmo mecanismo que consumiu a do paciente, e o guia reserva a transfusão para o sangramento grave. Na púrpura trombocitopênica trombótica e na trombocitopenia induzida por heparina a restrição é ainda mais dura, porque a transfusão profilática se associa a piora e a trombose.
Plasma fresco congelado é uma solução de fatores de coagulação que perde potência no ritmo da meia-vida de cada um. A dose de 10 a 20 mL/kg eleva os fatores em 20% a 30%, o que costuma bastar para a hemostasia. Só que o fator VII, o de meia-vida mais curta entre os que o tempo de protrombina mede, dura cerca de seis horas, contra doze a vinte e quatro do fator V e cem a cento e cinquenta horas do fibrinogênio, na tabela do guia: plasma dado na véspera de um procedimento chega ao procedimento com boa parte do efeito sobre o tempo de protrombina desfeito. E a dose tem volume — num adulto de 70 quilos, 10 a 20 mL/kg são de 700 a 1.400 mL, carga que importa em quem tem risco de sobrecarga circulatória.
Crioprecipitado é o que sobra no fundo da bolsa de plasma descongelada lentamente a frio: fibrinogênio, fator VIII, fator de von Willebrand, fator XIII e fibronectina, concentrados em 10 a 15 mL. Cada bolsa precisa conter no mínimo 150 mg de fibrinogênio e 80 UI de fator VIII, e o guia descreve de 150 a 250 mg de fibrinogênio por bolsa, com aumento de 5 a 10 mg/dL por unidade num adulto médio — desde que não haja consumo. No sangramento com consumo, o mesmo guia registra que só metade do fibrinogênio infundido fica na circulação. Por isso a dose de crioprecipitado se confirma com nova dosagem de fibrinogênio, e não com a conta que a gerou.
Os leucócitos do doador não servem a receptor nenhum e causam quatro problemas diferentes. Liberam e induzem citocinas que dão febre; carregam antígenos HLA que sensibilizam o receptor e, com o tempo, fazem as plaquetas transfundidas serem destruídas mal chegam, que é a refratariedade; transportam citomegalovírus; e, se forem linfócitos capazes de se multiplicar num receptor que não consegue rejeitá-los, atacam o receptor, que é a doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão. Os três primeiros problemas se previnem retirando leucócitos no serviço de hemoterapia, e o regulamento de 2026 é expresso em que filtro de desleucocitação instalado à beira do leito não é eficaz para essa finalidade. O quarto se previne com irradiação gama de pelo menos 25 Gy no plano médio da bolsa, que impede a proliferação do linfócito — e a norma lista separadamente quem precisa de cada coisa, sem atribuir ao filtro a prevenção da doença do enxerto.
O receptor que não rejeita o linfócito do doador pode ser o imunodeprimido grave, o que recebe análogo de purina ou globulina antitimocítica, o transplantado de medula — ou o perfeitamente imunocompetente que recebe sangue de um parente. Parentes de primeiro grau podem compartilhar metade dos antígenos HLA, e o linfócito do filho que doa para a mãe pode passar despercebido pelo sistema imune dela e, a partir daí, reconhecê-la como estranha. É por isso que a doação dirigida da família, que parece o gesto mais seguro, entra na lista de componentes que precisam ser irradiados, junto com as plaquetas selecionadas por compatibilidade HLA.
O anticorpo contra antígenos da hemácia nasce de exposição — transfusão ou gestação — e não fica necessariamente detectável para sempre. Com o tempo o título pode cair abaixo do que a pesquisa de anticorpos irregulares enxerga, e a amostra de hoje sai negativa. Se o paciente recebe de novo hemácias com aquele antígeno, a memória imunológica responde em dias, e as hemácias transfundidas passam a ser destruídas entre vinte e quatro horas e vinte e oito dias depois, que é a janela que o manual de hemovigilância fixa para a reação hemolítica tardia: teste direto da antiglobulina positivo, anticorpo novamente identificado, hemoglobina que não sobe ou que cai, esferócitos que aparecem sem explicação. É esse mecanismo que obriga o regulamento a considerar o histórico de anticorpos mesmo quando a amostra atual não os detecta, e é ele que torna o cartão amarelado de Otília mais importante que o resultado negativo que a agência vai obter hoje. O ferro segue lógica mais simples e mais lenta: guardado primeiro como ferritina nos macrófagos, passa depois ao fígado, ao miocárdio, às glândulas endócrinas e à pele, e é aí que vira doença.

Como se apresenta de verdade
Neste capítulo, apresentação é a forma como a necessidade de cada hemocomponente se mostra na enfermaria — e a forma como a bolsa volta a aparecer dias ou meses depois. As fronteiras ficam declaradas antes: o reconhecimento e a interrupção da reação que acontece durante a bolsa ou nas vinte e quatro horas seguintes são do capítulo Reação transfusional: reconhecer e interromper, na apostila de Síndromes do Paciente Internado; a reposição no sangramento maciço é de Choque hemorrágico no trauma, na apostila de Trauma; a hemorragia pós-parto e a síndrome HELLP são das apostilas de Parto e de Obstetrícia; o gatilho transfusional do operado é de Diferenciar os tipos de choque e conduzir cada um, na apostila de Pré e Pós-operatório; e a leitura do coagulograma e as doses de reversão de anticoagulante são de Coagulograma: o que cada teste mede e quando pedir, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito. Este capítulo assume a indicação de cada hemocomponente fora dessas situações, os componentes modificados, o pedido, e as reações tardias com a hemovigilância que as acompanha.
Percurso de aprendizagem
Relacione cada hemocomponente ao problema que ele pode corrigir, às alternativas e à necessidade de reavaliar após administrar.
Siga o caso desde a identificação até a monitorização. Diante de reação, priorize interrupção, avaliação e comunicação à hemoterapia.
A anemia que pede hemácia e a anemia que pede outra coisa
No sangramento agudo a indicação é clínica, e o hematócrito não ajuda: ele leva de uma a duas horas para baixar depois que a perda começou. O guia do Ministério da Saúde manda transfundir de imediato quem sangra e apresenta frequência cardíaca acima de 100 a 120, hipotensão, queda do débito urinário, frequência respiratória aumentada, enchimento capilar acima de dois segundos ou alteração do nível de consciência, e recomenda concentrado de hemácias depois de perda superior a 25% a 30% da volemia. O manejo desse paciente pertence aos capítulos de hemorragia citados acima; o que interessa aqui é a regra de leitura, que vale para qualquer enfermaria: no sangramento, o número vem atrasado.
Na anemia sem sangramento, com volemia preservada, a régua é a mesma que o capítulo Diferenciar os tipos de choque e conduzir cada um usa para o operado, e este capítulo não a reescreve: hemoglobina abaixo de 7 g/dL como regra; 8 g/dL no pós-operatório estável e no cardiopata operado; 9 g/dL no paciente acima de 65 anos com sintomas; e, na doença cardíaca aguda, gatilho entre 8 e 10 g/dL com meta de 10, que é a linha do Quadro 23 do guia. Acima de 10 g/dL a anemia raramente pede sangue; entre 7 e 10 decide o estado clínico. A discussão entre essas réguas no operado está naquele capítulo.
A anemia crônica tem uma pergunta anterior a qualquer gatilho: existe tratamento para a causa? O guia só admite transfundir a anemia crônica para aliviar sintomas quando reposição de ferro, ácido fólico, vitamina B12 ou eritropoetina não bastaram ou não cabem. Quem tem ferropenia ou carência de cobalamina e está estável recebe o que falta, e não sangue — a condução está em Anemia ferropriva e em O dano que não volta, nesta mesma apostila. Otília é o caso oposto: a medula doente não responde a nenhuma reposição, e a transfusão é o tratamento de suporte.
E há quatro motivos que o guia exclui de forma expressa, porque aparecem nas prescrições: transfundir para aumentar a sensação de bem-estar, para ajudar a cicatrização de ferida, de forma profilática, ou para expandir volume em quem tem capacidade de transporte de oxigênio adequada. Nenhum deles aparece escrito assim no prontuário; aparecem como “Hb 7,8, transfundir antes da alta”.
A plaqueta baixa: aplasia que passa, medula que não volta, destruição e procedimento
A mesma contagem de plaquetas pede condutas opostas conforme o motivo. Na plaquetopenia de tempo determinado — quimioterapia, radioterapia, transplante de células progenitoras —, o guia indica transfusão profilática abaixo de 10.000/µL sem fator de risco, e abaixo de 20.000/µL quando há febre acima de 38 °C, pequenos sangramentos como petéquias, equimoses e gengivorragia, doença do enxerto contra o hospedeiro, esplenomegalia, medicamento que encurta a sobrevida da plaqueta, leucócitos acima de 30.000/mm³, outra alteração da hemostasia, como na leucemia promielocítica aguda, ou queda rápida da contagem. No adulto com tumor sólido sob tratamento, com necrose tumoral, o corte também é 20.000/µL. No transplante autólogo, o guia considera seguro não transfundir abaixo de 10.000/µL sem sangramento, desde que haja vigilância rigorosa e sangue disponível na hora.
Na falência medular crônica — anemia aplástica grave, síndrome mielodisplásica — a orientação muda de sinal: observar sem transfundir, e só fazer profilaxia abaixo de 5.000/µL, ou abaixo de 10.000/µL quando há manifestação hemorrágica. É exatamente a situação de Otília: 9.000/µL, nenhum sangramento, doença que não vai passar. A aférese prescrita na madrugada não tem indicação, e cada bolsa desnecessária num paciente que vai precisar de plaquetas por anos é mais uma oportunidade de aloimunização e de refratariedade.
Na destruição periférica a plaqueta transfundida tem o mesmo destino da do paciente. Na púrpura trombocitopênica imune, o guia restringe a transfusão ao sangramento grave com risco de vida, e sempre junto do tratamento específico; na trombocitopenia da dengue, que se comporta como a imune, não há transfusão profilática em nenhuma contagem, regra que o guia estende à leptospirose e às riquetsioses. Na trombocitopenia induzida por heparina e na púrpura trombocitopênica trombótica, a transfusão fica restrita ao sangramento grave, e a profilática deve ser evitada até para procedimento. Na coagulação intravascular disseminada sem sangramento, não se repõe nada; com sangramento, repõem-se fatores e plaquetas buscando contagem acima de 20.000/µL.
Antes de procedimento invasivo, o guia registra consenso de que acima de 50.000/µL basta para a maioria, exceto em neurocirurgia e cirurgia oftalmológica, em que se busca acima de 80.000 a 100.000/µL. Os cortes de referência que ele traz para procedimentos específicos vão de 20.000/µL, para aspirado e biópsia de medula óssea, a 30.000/µL para punção lombar no adulto e 50.000/µL para biópsia hepática e para endoscopia ou broncoscopia com biópsia; sem biópsia, esses dois exames ficam entre 20.000 e 40.000/µL. O próprio guia acrescenta que a habilidade de quem executa pesa na complicação. Nas disfunções plaquetárias congênitas, a plaqueta entra antes de procedimento e no sangramento que não cedeu a antifibrinolítico e desmopressina; na cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea longa e sangramento difuso, entra mesmo com contagem acima de 50.000/µL.
O coagulograma alterado em quem não sangra
É o pedido de plasma que o guia descarta com mais clareza. O guia lista como contraindicações usar plasma como expansor de volume, em sangramento sem coagulopatia, para corrigir teste de coagulação alterado na ausência de sangramento e em estados de perda proteica ou imunodeficiência. No hepatopata, registra que o tempo de protrombina alargado não se correlaciona com risco de sangramento, que não há evidência de benefício de plasma antes de procedimento invasivo e que técnica cuidadosa por profissional experiente parece ser o principal fator de prevenção. O cirrótico com relação normatizada internacional de 2,3 que vai fazer uma punção não se apresenta como indicação de plasma; apresenta-se como indicação de um operador experiente.
As indicações que sobram são poucas e todas giram em torno de sangramento ou de deficiência que não tem produto mais seguro: sangramento ou risco concreto de sangramento por deficiência de múltiplos fatores — hepatopata que sangra, coagulação intravascular disseminada que sangra —; sangramento grave por antagonista da vitamina K quando o complexo protrombínico, que o guia considera preferível, não está disponível; coagulopatia na transfusão maciça; deficiência isolada de fator sem concentrado disponível, como a de fator V e, no Brasil, a de fator XI; e a púrpura trombocitopênica trombótica, em que o plasma é líquido de reposição da troca plasmática. As doses da reversão de anticoagulante e a escolha entre concentrado e plasma estão no capítulo Coagulograma, que é dono desse manejo.
O crioprecipitado se apresenta como fibrinogênio baixo. O guia o indica na hipofibrinogenemia congênita ou adquirida abaixo de 100 mg/dL — depois de trombolítico, na transfusão maciça, na coagulação intravascular disseminada —, na disfibrinogenemia e na deficiência de fator XIII, e na reposição de fator de von Willebrand só para quem não responde a desmopressina e não tem concentrado disponível. Na hemofilia A e na doença de von Willebrand com concentrado disponível ele é contraindicado. O concentrado de fibrinogênio industrial, que o guia prefere quando existe, consta da Rename no Componente Estratégico em frasco de 1 g.
A bolsa que não rende
Toda transfusão tem um rendimento esperado, e o paciente que não o atinge está dizendo alguma coisa. A hemoglobina deve subir perto de 1 g/dL por unidade no adulto médio, medida uma a duas horas depois; em paciente ambulatorial, a medida trinta minutos depois do término dá resultado comparável. Subida menor, ou queda nos dias seguintes, tem quatro explicações a separar: sangramento que continua, hemólise imune por anticorpo, hemólise não imune e sequestro. Nenhuma delas se resolve com a segunda bolsa antes da resposta.
Na plaqueta, o guia define transfusão eficaz por recuperação acima de 30% na primeira hora e acima de 20% entre vinte e vinte e quatro horas, ou por incremento corrigido da contagem acima de 7,5 na primeira hora e de 4,5 a 5,0 entre vinte e vinte e quatro horas — e chama de refratariedade o que fica abaixo disso de forma repetida. Febre, infecção, esplenomegalia, coagulação intravascular disseminada e alguns antibióticos e antifúngicos encurtam a vida da plaqueta sem nenhum anticorpo; aloanticorpos contra antígenos HLA ou plaquetários a destroem mal ela chega. A leitura que este capítulo propõe, e que é raciocínio e não regra do guia, é olhar os dois tempos: incremento que não aparece nem na primeira hora aponta destruição imediata, e incremento que aparece e some até o dia seguinte aponta consumo.
Plasma e crioprecipitado também têm rendimento. O tempo de protrombina e o de tromboplastina parcial ativada que não se corrigem depois da dose sugerem consumo ou indicação equivocada; o fibrinogênio que não sobe o esperado depois do crioprecipitado sugere consumo. O guia manda parar a reposição de plasma quando os testes se normalizam ou o sangramento cessa, e não por volume infundido.
O que aparece dias depois da alta
A reação hemolítica tardia se apresenta entre vinte e quatro horas e vinte e oito dias depois da transfusão, com cansaço que volta, urina escura, icterícia e hemoglobina que não subiu como devia ou que caiu. Costuma chegar ao pronto-socorro como hemólise nova de causa a esclarecer, e a pergunta que a desmonta é uma só: transfundiu nas últimas quatro semanas? Na pessoa com doença falciforme, pode vir disfarçada de crise de dor, e a forma mais grave, a hiper-hemólise, derruba a hemoglobina para baixo do nível que havia antes da transfusão, porque destrói as hemácias transfundidas e as do próprio paciente.
A aloimunização sem hemólise não tem sintoma nenhum. Ela aparece como pesquisa de anticorpos irregulares positiva na amostra da próxima transfusão — e como atraso, porque hemácia sem o antígeno correspondente precisa ser encontrada. O manual de hemovigilância a classifica como gravidade moderada justamente porque obriga a transfundir hemácia fenotipada dali em diante.
A púrpura pós-transfusional é uma queda das plaquetas para menos de 20% da contagem pré-transfusional entre cinco e doze dias depois da bolsa, com anticorpo antiplaquetário no receptor. Pode ser assintomática ou dar sangramento cutâneo, mucoso, digestivo, urinário e até do sistema nervoso central, e é mais frequente em mulheres multíparas. O manual adverte para o erro inverso: quem já tinha púrpura imune ou outra plaquetopenia pode cair depois de uma transfusão por conta da doença de base.
A doença do enxerto contra o hospedeiro pós-transfusional aparece de dois dias a seis semanas depois da bolsa, com febre, diarreia, eritema com erupção maculopapular que começa no centro do corpo, vai para as extremidades e pode chegar a eritrodermia com bolhas, hepatomegalia, alteração das enzimas hepáticas, pancitopenia e aplasia de medula. Em quem recebeu irradiado não deveria acontecer; em quem estava na lista e não recebeu, é a hipótese que não pode ser a última.
A sobrecarga de ferro chega devagar e pelos órgãos em que o ferro se deposita — pele, fígado, coração e glândulas endócrinas —, e o manual só a define como reação quando há ferritina de 1.000 µg/L ou mais, no contexto de transfusões repetidas de concentrado de hemácias, com disfunção de órgão relacionada ao depósito. A transmissão de infecção pela transfusão pode aparecer meses depois como hepatite ou outra infecção sem fonte alternativa, e é reação sentinela.
Doença falciforme: quando a bolsa é de troca
As crises são da criança no capítulo Anemia falciforme e traço falciforme: crises e manejo, na apostila de Hematologia Pediátrica, e do adulto no capítulo Anemia falciforme e hemoglobinopatias, nesta apostila; os dois cedem a este capítulo a indicação e a técnica da transfusão de troca, junto com a técnica transfusional e as reações. O protocolo nacional de 2024 separa duas estratégias. A transfusão simples usa concentrado de hemácias para restaurar volume e capacidade de transporte de oxigênio, e está indicada na crise aplástica, na infecção aguda progressiva com queda de 1,5 g/dL da hemoglobina basal ou hemoglobina abaixo de 7 g/dL, no sequestro esplênico ou hepático agudo, na gestação, no acidente vascular cerebral agudo quando a troca não está disponível e na síndrome torácica aguda com necessidade crescente de oxigênio para manter saturação acima de 95%. O mesmo protocolo adverte que ela traz risco de sobrecarga de volume, de sobrecarga de ferro e de aumento da viscosidade do sangue.
A transfusão de troca retira hemácias falciformes e põe hemácias normais no lugar, de forma automatizada, por eritrocitaférese, ou manual, por flebotomia seguida de transfusão. O protocolo a indica na queda da hemoglobina basal com anemia sintomática ou queda aguda sem reticulocitose, na síndrome torácica aguda — com programa de pelo menos seis meses depois do episódio —, nas crises de dor frequentes e intensas, no acidente vascular cerebral ou infarto cerebral agudo, no ataque isquêmico transitório, na falência de múltiplos órgãos, no priapismo que não cede com procedimento urológico, no Doppler transcraniano alterado e no preparo de cirurgia de grande porte ou em órgão vital. Num paciente com hemoglobina basal já alta, a troca é o que permite retirar hemoglobina S sem empurrar a viscosidade para cima, que é o risco da transfusão simples.
A apresentação que muda a conduta é a do paciente que piora depois de transfundido: dor nova, urina escura e hemoglobina abaixo da que tinha antes da bolsa. Transfundir de novo, por reflexo, é o erro. O protocolo trata a hiper-hemólise com hidratação e imunossupressão iniciada de imediato — glicocorticoide, imunoglobulina intravenosa ou os dois —, com o hematologista, e insiste nela sobretudo em quem ainda vai precisar de nova transfusão.
Como fechar o diagnóstico
Na terapia transfusional, quem prescreve não faz os testes, mas decide com eles. A investigação tem por isso duas metades. A primeira é a que só o médico do paciente consegue fazer: juntar a indicação com a história transfusional e mandar ao serviço de hemoterapia um pedido e um tubo que permitam escolher a bolsa certa. A segunda começa quando a bolsa acaba: medir se ela rendeu o que devia e, nos dias seguintes, reconhecer e investigar o que ela deixou.
Referência temporal desta revisão: 14/09/2026. A Portaria GM/MS 11.685/2026 foi publicada, mas sua entrada em vigor foi anunciada pela Anvisa para 30/09/2026. Até então, não aplicar antecipadamente novas permissões do Anexo IV-B; seguir a norma vigente e o protocolo validado pela agência transfusional. As novidades são apresentadas como preparação para a transição.
Antes de pedir: a história que o impresso pergunta e ninguém responde
A requisição é o primeiro exame. O regulamento exige que ela seja feita só por médico, em formulário próprio, com no mínimo: nome completo sem abreviatura, data de nascimento, nome da mãe, sexo, número do prontuário, número do CPF, diagnóstico, componente com volume ou quantidade, modalidade da transfusão, resultados laboratoriais que justificam a indicação, data, nome, assinatura e registro no conselho do médico, peso quando indicado e antecedentes transfusionais, gestacionais e de reações relatados pelo paciente. O CPF é exigência nova — não constava do anexo anterior. O serviço de hemoterapia não aceita requisição incompleta, ilegível ou rasurada, salvo em situação clinicamente justificável prevista no protocolo dele, com os dados completados depois; e o médico do serviço pode suspender ou modificar a transfusão que considerar desnecessária, registrando o motivo no prontuário.
O campo que muda a bolsa é o dos antecedentes. Transfusão ou gestação nos últimos três meses encurta a validade da amostra; anticorpo já identificado, mesmo que não apareça hoje, obriga a escolher hemácias sem o antígeno correspondente; reação febril anterior pede componente desleucocitado; alergia grave anterior não evitada com medicação pede componente lavado; e o doador que é parente de primeiro grau exige irradiação. Nenhuma dessas informações está no hemograma. Estão na memória do paciente, na carteira dele ou no serviço que o transfundiu antes — e o registro de receptor que cada serviço de hemoterapia é obrigado a manter só vale para as transfusões feitas ali. Para Otília, isso significa ligar para o hemocentro regional antes de a requisição descer.
A modalidade também é informação clínica, e o regulamento define quatro: programada para dia e hora; de rotina, a realizar em até vinte e quatro horas; de urgência, em até três horas; e de emergência, quando o atraso põe a vida em risco. Transfusão, diz a norma, deve ser feita preferencialmente de dia. Marcar urgência em tudo tira do serviço a capacidade de distinguir o que pode esperar a hemácia fenotipada do que não pode.
A emergência tem regra própria. O sangue pode ser liberado antes do fim dos testes quando o atraso ameaça a vida, se houver procedimento escrito no serviço e termo de responsabilidade assinado pelo médico do paciente, e os testes continuam até o fim mesmo com a bolsa já infundida. Sem tempo para tipagem, recomenda-se hemácia O RhD negativo em mulher com menos de cinquenta anos e O RhD positivo em mulher mais velha e em homem, e plasma AB ou A com baixo título de anti-B, exceto em criança; e a amostra deve ser colhida antes da primeira bolsa, porque o sangue transfundido embaralha os testes. O protocolo de emergência é do comitê transfusional da instituição, e a condução do sangramento maciço é do capítulo Choque hemorrágico no trauma.
O tubo que você manda: identificação e validade da amostra
A amostra só é colhida depois da identificação positiva do paciente, pelo nome completo e pela data de nascimento, ou por dois profissionais quando ele está inconsciente ou incapaz, com conferência da pulseira. O tubo é rotulado no momento da coleta, ao lado do paciente, com nome completo sem abreviatura, número de identificação, identificação de quem colheu e data. Tubo mal identificado é descartado pelo serviço, e dado divergente entre tubo e requisição também faz a amostra ser descartada e colhida de novo. Etiqueta impressa ou código de barras é o recomendado, e rotular o tubo longe do paciente, depois, é abrir a porta para trocar as amostras de dois leitos.
Na data desta revisão, manter a validade de até 72 horas da amostra conforme a norma vigente e a agência transfusional. A ampliação para até sete dias, em situações selecionadas sem transfusão/gestação recente nem antecedente relevante de anticorpos, pertence ao Anexo IV-B com vigência prevista para 30/09/2026; não autoriza usar hoje uma amostra de quatro dias. Após a transição, confirmar os critérios e a implantação com a agência. Em transfusão ou gestação nos últimos três meses e em história incerta, a janela permanece curta. Identificar data e hora da coleta de modo inequívoco; prazo de validade da amostra antes da transfusão é diferente de prazo de guarda após o procedimento.
Duas situações pedem amostra nova independentemente do prazo: suspeita ou confirmação de reação hemolítica na última transfusão e liberação anterior de hemácias não compatíveis. A redação do regulamento sobre a validade da amostra tem uma remissão interna errada, auditada nas notas do bloco de critério, e é por isso que a conduta prática é perguntar à agência qual faixa ela aplica — e colher amostra nova sempre que houver dúvida sobre a história. Otília recebeu hemácias há dezenove dias: amostra de setenta e duas horas, sem discussão.
O que a agência faz com o tubo: tipagem, anticorpos, prova cruzada e o resultado que volta
Para hemácias, o regulamento manda tipar o receptor para ABO, com prova direta e reversa, e para RhD; pesquisar anticorpos antieritrocitários irregulares no soro ou plasma com fase a 37 °C e antiglobulina humana; retipar a bolsa; e fazer a prova de compatibilidade maior, entre hemácias do segmento da bolsa e soro ou plasma do receptor. Nenhuma tipagem ABO é concluída enquanto houver discrepância entre a prova direta e a reversa. Quando a pesquisa de anticorpos é negativa e não há antecedente transfusional nem gestacional, a fase da antiglobulina da prova de compatibilidade pode ser omitida. Para plaquetas, plasma e crioprecipitado, basta a tipagem ABO e RhD do receptor; plasma e crioprecipitado não pedem prova de compatibilidade.
Pesquisa de anticorpos positiva obriga a identificar a especificidade, no próprio serviço ou num serviço de imuno-hematologia de referência, para escolher hemácias fenotipadas sem o antígeno correspondente. O paciente em quem se identifica anticorpo clinicamente significativo deve sair orientado sobre qual é o anticorpo e qual é o seu fenótipo — o cartão de Otília é essa orientação em forma de papel. Quando não há hemácia compatível, o serviço comunica o médico solicitante e os dois avaliam o paciente juntos; transfundir hemácia incompatível exige justificativa escrita, assinada pelo hemoterapeuta ou pelo médico assistente e, quando possível, pelo paciente.
O Anexo IV-B publicado para vigência em 30/09/2026 explicita categorias de compatibilidade, incluindo resultado inconclusivo. Durante a transição, usar a nomenclatura e o fluxo da agência sob a norma vigente. O princípio clínico já é essencial: anticorpo clinicamente significativo no histórico deve ser respeitado mesmo com pesquisa atual negativa; selecionar hemácias sem o antígeno correspondente. Pendência de identificação ou fenotipagem precisa ser esclarecida quando o quadro permite esperar. Na emergência em que a espera ameaça a vida, médico assistente e hemoterapeuta avaliam a melhor unidade disponível, benefícios e riscos, documentam a decisão e monitoram. Pré-medicação não neutraliza incompatibilidade nem torna uma unidade segura.
A escolha da bolsa segue regras que o prescritor precisa conhecer para entender a demora. Hemácias são sempre ABO compatíveis; o receptor RhD negativo recebe RhD negativo, exceto em circunstância justificada e sem sensibilização prévia. O plasma contido nas plaquetas deve ser ABO compatível com as hemácias do receptor e, quando não for possível, pesam o volume de plasma, os títulos de anti-A e anti-B e o peso de quem recebe. O guia de 2015 olha para o outro lado da mesma bolsa — o antígeno ABO na superfície da plaqueta — e prefere plaquetas ABO compatíveis porque as incompatíveis rendem cerca de 20% menos e aloimunizam mais; as incompatíveis ficam para quem não vai precisar de suporte crônico.
Plaquetas: a contagem da primeira hora e a conta do incremento corrigido
A resposta à transfusão de plaquetas se mede com nova contagem uma hora depois do término; em paciente ambulatorial, a contagem dez minutos depois dá resultado comparável. A resposta clínica, sangramento que para ou não, entra na mesma avaliação. Para transformar a contagem em rendimento, o guia propõe dois indicadores. O incremento corrigido da contagem é o aumento em ×10⁹/L multiplicado pela superfície corporal em metros quadrados e dividido pela dose em ×10¹¹ plaquetas; a recuperação é o aumento multiplicado pela volemia em litros e por cem, dividido pela dose em ×10⁹.
Um exemplo com números redondos mostra a leitura. Adulto com 1,8 m² recebe uma unidade de aférese; a contagem vai de 8.000/µL para 30.000/µL em uma hora, um aumento de 22 × 10⁹/L. Se a bolsa tiver o mínimo exigido, 3,0 × 10¹¹, o incremento corrigido é 22 × 1,8 ÷ 3,0 = 13,2, acima do corte de 7,5 da primeira hora: a transfusão foi eficaz. No dia seguinte, a contagem de 12.000/µL dá aumento de 4 × 10⁹/L e incremento corrigido de 2,4, abaixo do corte de 4,5 a 5,0 das vinte a vinte e quatro horas. O detalhe que muda a conta é a dose: se a bolsa tiver 4,0 × 10¹¹, o mesmo aumento dá 9,9 na primeira hora. Usar o mínimo nominal quando a bolsa tem mais superestima o rendimento, e o valor que vale é o que o serviço informar.
Rendimento baixo repetido é refratariedade, e a investigação começa pelas causas sem anticorpo — febre, infecção, esplenomegalia, coagulação intravascular disseminada, medicamentos — e pela checagem de que a plaqueta era fresca e ABO compatível. Persistindo, o serviço de hemoterapia investiga anticorpos contra antígenos HLA e plaquetários: o regulamento obriga cada serviço a ter protocolo para pacientes aloimunizados contra esses antígenos. Se a solução for plaqueta selecionada por compatibilidade HLA, ela precisa ser irradiada, porque componente HLA compatível está na lista de indicações de irradiação do regulamento.
Plasma e crioprecipitado: o exame que manda antes e depois
O guia não vê correlação direta entre tempo de protrombina ou tempo de tromboplastina parcial ativada e risco de sangramento, mas pede que a reposição de plasma na deficiência de múltiplos fatores seja monitorada em laboratório. Aceita como parâmetro para repor, conforme o quadro, o tempo de protrombina acima de 1,5 vez o ponto médio da faixa normal e o tempo de tromboplastina parcial ativada acima de 1,5 vez o limite superior. A reposição para quando os testes se normalizam ou quando o sangramento para. De quanto em quanto tempo repetir a dose é questão de meia-vida: horas para o fator VII, dias para o fibrinogênio. A leitura de cada teste e o que ele mede estão no capítulo Coagulograma.
O crioprecipitado se pede com fibrinogênio medido e se confirma com fibrinogênio medido de novo. O guia fixa a indicação abaixo de 100 mg/dL e descreve o nível hemostático entre 70 e 100 mg/dL. A dose, por conta ou por peso, é uma estimativa que pressupõe bolsa rica e recuperação completa, e as notas do bloco de critério mostram o quanto ela pode errar para menos quando há consumo; na reposição calculada por peso, o guia propõe reavaliar a cada três a quatro dias, intervalo menor que a meia-vida de quatro a seis dias do fibrinogênio.
O tempo também é parte do exame. Plasma descongelado é transfundido o mais cedo possível e não passa de vinte e quatro horas quando mantido a 4 ± 2 °C; não se recongela. Crioprecipitado descongelado fica a 22 ± 2 °C e é transfundido em até seis horas. O guia recomenda que a unidade de plasma corra em até uma hora, dentro do teto de quatro horas que o regulamento fixa para qualquer componente.
A investigação da reação que chega depois
A suspeita de reação hemolítica tardia se investiga com hemoglobina, reticulócitos, desidrogenase láctica, bilirrubina indireta e haptoglobina, que confirmam hemólise, e com o que diz de onde ela vem: teste direto da antiglobulina, eluato e nova pesquisa de anticorpos com identificação. A definição de caso do manual nacional exige teste direto positivo, eluato positivo ou aloanticorpo recém-identificado, e hemoglobina que não subiu, caiu rápido ou esferócitos sem explicação, entre vinte e quatro horas e vinte e oito dias. A correlação é confirmada quando há anticorpo novo e nenhuma outra explicação, e possível quando há hemólise sem anticorpo detectado ou sem pesquisa feita. Hiper-hemólise com relação temporal com a transfusão é notificada como reação hemolítica tardia confirmada.
A retenção de amostras para investigação retrospectiva segue a norma vigente e o protocolo do serviço. Em 14/09/2026, o parâmetro vigente de pelo menos 72 horas deve ser distinguido da ampliação para sete dias prevista para as situações descritas no Anexo IV-B a partir de 30/09/2026. Conferir identificação, condições de conservação e rastreabilidade com a hemoterapia; um serviço pode manter prazo interno maior sem que a norma futura esteja em vigor.
As outras reações tardias têm exame próprio. A aloimunização se prova com anticorpo antieritrocitário novo, clinicamente significativo, sem sinal de hemólise, e se notifica quando é encontrada, seja num teste pós-transfusional, seja no pré-transfusional da vez seguinte; só não se notifica quando o paciente nunca foi transfundido. A púrpura pós-transfusional pede contagem de plaquetas comparada com a pré-transfusional e pesquisa de anticorpo antiplaquetário. A doença do enxerto contra o hospedeiro se confirma por biópsia de pele ou de outro órgão, ou pela demonstração de quimerismo leucocitário. A hemossiderose é confirmada quando a disfunção de órgão está comprovada por exame e a ferritina passa de 1.000 µg/L em quem recebe transfusões repetidas, e é provável com ferritina de 6.000 µg/L ou mais sem disfunção comprovada.
A suspeita de infecção transmitida pela transfusão — infecção nova, sem evidência anterior, sem outra fonte, com doador ou co-componente portador do mesmo agente — é reação sentinela. O serviço onde a transfusão aconteceu comunica o serviço produtor e a vigilância sanitária em até setenta e duas horas; o produtor reconvoca e retesta os doadores envolvidos e comunica ao médico do paciente a eventual soroconversão de um deles. O médico que atende o paciente meses depois raramente pensa na transfusão, e é esse o elo que a retrovigilância depende de alguém fechar.
Indicar hemocomponentes e reconhecer reações transfusionais
Aprenda a definir a necessidade clínica de transfusão, escolher o hemocomponente e acompanhar benefício e eventos adversos. Normas de identificação e compatibilidade sustentam a segurança; diferenças entre versões são material de consulta, com a data de vigência explicitada. Aqui estão as réguas e as contas de cada bolsa. Na primeira tabela, cada passo da transfusão aparece com o documento brasileiro que o governa, a data dele e o que ele deixa sem resposta; a segunda converte dose em bolsa num adulto de 70 quilos; a terceira separa quem precisa de componente modificado pela norma de 2026 e o que só o guia de 2015 acrescenta; a quarta organiza as reações tardias pela janela, pela definição de caso e pelo prazo de notificação. As notas registram os erros de fonte que mudam o que se prescreve, com a conta feita.
- 11. Há sangramento ativo? Se há, a indicação é clínica e não espera o número, e a condução é dos capítulos de hemorragia. Se não há, siga.
- 22. Separe a prescrição por componente. Hemácia, plaqueta, plasma e crioprecipitado não se pedem em pacote: cada bolsa precisa da sua indicação escrita na evolução.
- 33. Hemácias: hemoglobina abaixo do gatilho daquele paciente — 7 g/dL como regra, 8 no pós-operatório estável e no cardiopata operado, 9 no paciente acima de 65 anos com sintomas, 8 a 10 com meta de 10 na doença cardíaca aguda — e sintoma que não tem outra explicação. Se a causa tem tratamento próprio (ferro, cobalamina, folato), a resposta é o tratamento. Uma unidade por vez.
- 44. Plaquetas: aplasia de tempo determinado, profilaxia abaixo de 10.000/µL ou de 20.000/µL com fator de risco; falência medular crônica, abaixo de 5.000/µL ou de 10.000/µL com sangramento; púrpura imune, dengue, púrpura trombocitopênica trombótica e trombocitopenia por heparina, só sangramento grave; procedimento, acima de 50.000/µL para a maioria e de 80.000 a 100.000/µL em neurocirurgia e cirurgia oftalmológica.
- 55. Plasma: sangramento ou risco concreto por deficiência de múltiplos fatores, deficiência isolada sem concentrado disponível, troca plasmática na púrpura trombocitopênica trombótica. Exame alterado sem sangramento não é indicação.
- 66. Crioprecipitado: fibrinogênio abaixo de 100 mg/dL, disfibrinogenemia ou deficiência de fator XIII, quando não houver concentrado industrial.
- 77. Leia os antecedentes e decida a modificação da bolsa: irradiada, desleucocitada, lavada, fenotipada, com sorologia negativa para citomegalovírus — pela terceira tabela.
- 88. Preencha a requisição inteira (com CPF, peso, modalidade e antecedentes), converse e colha o consentimento, e mande amostra colhida com identificação positiva e dentro da validade: 72 horas para quem foi transfundido ou gestou nos últimos três meses.
- 99. Resultado pendente, inconclusivo ou incompatível: esclarecer com a agência e aguardar quando clinicamente possível. Se a demora ameaçar a vida, discutir imediatamente com hemoterapia a estratégia mais segura, documentar a decisão e acompanhar; pré-medicação não elimina o risco de hemólise.
- 1010. Registre início, término, sinais vitais antes e depois e a identificação da bolsa. Meça o rendimento no prazo de cada componente, e só depois decida a bolsa seguinte.
- 1111. Até 28 dias depois: hemólise, púrpura, febre com erupção e diarreia, anticorpo novo, ferritina em alta — investigue como reação tardia e notifique, inclusive quando a correlação ficar só possível.
| Decisão | Documento brasileiro que governa | Desde quando | O que ele não resolve |
|---|---|---|---|
| Indicação clínica de hemácias, plaquetas, plasma e crioprecipitado, com dose e rendimento | Guia para uso de hemocomponentes, Ministério da Saúde | 2ª edição de 2014, reimpressa em 2015, sem edição posterior | Três passagens erram dose ou leitura (notas abaixo); a comparação do gatilho do operado com diretriz mais nova está no capítulo Diferenciar os tipos de choque e conduzir cada um |
| Requisição, modalidade, amostra, testes pré-transfusionais, resultado da prova, consentimento, registro, componentes modificados | Regulamento técnico de procedimentos hemoterápicos: Anexo IV-B da Portaria de Consolidação nº 5, na redação da Portaria GM/MS nº 11.685 | Publicada em 03/07/2026, com vigência prevista para 30/09/2026; em 14/09/2026 ainda está em período de transição. | Não trata de gatilho clínico; duas remissões internas erradas, sobre validade de amostra e prova cruzada (nota abaixo) |
| Comitê transfusional, investigação e notificação do evento adverso pelo serviço onde a transfusão aconteceu | RDC Anvisa nº 34 | 11 de junho de 2014; em vigor e em atualização pela Anvisa em 2026 | Em 14/09/2026, distinguir a guarda vigente de pelo menos 72 horas das exigências do Anexo IV-B com início em 30/09/2026, que ampliam para sete dias as situações nele descritas. O serviço pode adotar prazo interno maior; conferir norma vigente e protocolo de hemoterapia. |
| Definição de caso, gravidade, correlação e prazo de notificação das reações, inclusive as tardias | Manual para o Sistema Nacional de Hemovigilância no Brasil, Anvisa | 2022; sem edição posterior localizada, de modo que a vigência se apoia na falta de substituto | Remete ao Anexo IV; avaliar a adaptação após a entrada prevista do Anexo IV-B em 30/09/2026, sem tratá-la como fato já ocorrido nesta revisão. |
| Transfusão simples e de troca na doença falciforme, fenotipagem e componentes | Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme | Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de novembro de 2024 | Não fixa teto numérico de hemoglobina depois da transfusão simples; a fórmula da troca está impressa errada (nota abaixo) |
| Imunoglobulina anti-D depois de plaquetas RhD positivas em receptora RhD negativo com menos de 50 anos | Anexo IV-B, art. 206, que a recomenda em até 72 horas | 30 de setembro de 2026 | A imunoglobulina anti-D não consta da Rename 2024: o acesso precisa ser combinado com o serviço de hemoterapia antes de aceitar a plaqueta RhD positiva |
| Quelação da sobrecarga de ferro transfusional | Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Sobrecarga de Ferro, ao qual o manual de hemovigilância remete | Critérios de início definidos nesse protocolo, aplicados pelo hematologista | Deferasirox, desferroxamina e deferiprona constam da Rename 2024 no Componente Especializado; a decisão de quelar não é do plantão |
Da dose à bolsa, num adulto de 70 quilos
| Componente | Regra de dose | Em 70 kg | Rendimento esperado | Como conferir |
|---|---|---|---|---|
| Concentrado de hemácias | Uma unidade por vez fora do sangramento | 1 unidade de 220 a 280 mL, em 60 a 120 minutos, nunca além de 4 horas | Cerca de 1 g/dL de hemoglobina e 3% de hematócrito por unidade | Hemoglobina 1 a 2 horas depois (30 minutos em ambulatório) e o sintoma que motivou a bolsa |
| Plaquetas de sangue total | 1 unidade para cada 7 a 10 kg | 7 a 10 unidades: 3,85 a 5,5 × 10¹¹ plaquetas em 350 a 600 mL, em cerca de 30 minutos | Aumento de cerca de 53.000 a 75.000/µL pela fórmula do guia (volemia de 4,9 L, fator de 0,67) | Contagem 1 hora depois (10 minutos em ambulatório); incremento corrigido acima de 7,5 em 1 hora e de 4,5 a 5,0 em 20 a 24 horas |
| Plaquetas por aférese | 1 unidade, que equivale a 6 a 8 de sangue total | No mínimo 3,0 × 10¹¹ plaquetas em 200 a 300 mL | Cerca de 41.000/µL com o conteúdo mínimo — mais se a bolsa for mais rica | Igual à linha anterior, usando a dose informada pelo serviço |
| Plasma fresco congelado | 10 a 20 mL/kg | 700 a 1.400 mL; cada bolsa tem mais de 180 mL, e com bolsas de 200 a 250 mL são de 3 a 7; até 1 hora por unidade | Fatores de coagulação 20% a 30% mais altos | Tempo de protrombina e de tromboplastina parcial ativada depois da dose, ou o sangramento que parou; o fator VII dura cerca de 6 horas |
| Crioprecipitado | 1 a 1,5 bolsa para cada 10 kg | 7 a 11 bolsas de 10 a 15 mL, cada uma com pelo menos 150 mg de fibrinogênio | 5 a 10 mg/dL de fibrinogênio por bolsa, sem consumo; nível hemostático de 70 a 100 mg/dL | Fibrinogênio medido depois da infusão — com consumo, a conta erra para menos |
| Ferro que entra com as hemácias | 200 a 250 mg por unidade | 20 unidades somam de 4 a 5 g de ferro | Ferritina que sobe a cada série de transfusões | Ferritina seriada e avaliação do hematologista; hemossiderose é ferritina de 1.000 µg/L ou mais com disfunção de órgão |
Quem precisa de componente modificado — a norma de 2026 e o que só o guia de 2015 acrescenta
| Modificação | Serve para | Quando pedir pelo Anexo IV-B | O que o guia de 2015 acrescenta |
|---|---|---|---|
| Irradiado (no mínimo 25 Gy no plano médio; hemácia irradiada vale no máximo 28 dias depois da irradiação) | Prevenir a doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão | Transfusão intrauterina; recém-nascido com menos de 1.200 g ou de 28 semanas; imunodeficiência congênita grave; terapia imunossupressora com análogo de purina, globulina antitimocítica ou transplante de medula; componente HLA compatível; doador parente de primeiro grau. Fora disso, protocolo do serviço | Linfoma, leucemia mieloide aguda e anemia aplástica em quimioterapia ou imunossupressão atual ou recente; transplante de célula progenitora; transplante de órgão sólido com imunossupressor; parentesco em qualquer grau; exsanguineotransfusão depois de transfusão intrauterina |
| Desleucocitado (menos de 5 × 10⁶ leucócitos, feito no serviço de hemoterapia; filtro à beira do leito não serve) | Prevenir reação febril não hemolítica, aloimunização leucocitária, refratariedade plaquetária e transmissão de citomegalovírus | Sobretudo transfusão crônica, como talassemia e doença falciforme; pode substituir componente com sorologia negativa para citomegalovírus. A hemácia com camada leucoplaquetária removida só previne febre e não serve para o resto | Hemoglobinopatias e anemias hemolíticas hereditárias; duas ou mais reações febris; imunodeficiência congênita; candidato a transplante de medula; anemia aplástica; leucemia mieloide aguda; doença onco-hematológica grave até o diagnóstico; doença plaquetária com transfusão frequente; HIV positivo com sorologia negativa para citomegalovírus; gestante com sorologia negativa ou desconhecida |
| Lavado (proteína residual abaixo de 0,5 g por unidade) | Retirar o plasma | Profilaxia de reação alérgica, deficiência de proteína específica como IgA, retirada de solução aditiva | Alergia grave que a medicação não evitou; deficiência de IgA, haptoglobina ou transferrina com anafilaxia prévia |
| Fenotipado | Evitar hemólise por anticorpo e evitar anticorpo novo | Com anticorpo atual ou histórico: hemácia sem o antígeno. Transfusão crônica sem anticorpo: compatível para C, c, E, e e K. Depois do primeiro anticorpo: profilaxia contra outros antígenos | Mulher em idade fértil com pesquisa de anticorpos negativa: hemácia K negativa. Transfusão crônica: compatibilidade para Rh, Kell, Duffy, Kidd e MNS |
| Com sorologia negativa para citomegalovírus | Reduzir transmissão do citomegalovírus | Transplante de célula progenitora ou de órgão com sorologia negativa; recém-nascido com menos de 1.200 g de mãe negativa ou desconhecida; transfusão intrauterina — o desleucocitado pode substituir | Coberto pela desleucocitação nas situações listadas na linha do desleucocitado |
| Plaqueta RhD negativo, ou anti-D depois de plaqueta RhD positiva | Evitar aloimunização anti-D pela hemácia que contamina a bolsa de plaquetas | Mulher RhD negativo com menos de 50 anos: preferir plaqueta RhD negativo; se receber RhD positiva de sangue total, pesquisa de anticorpos antes e imunoglobulina anti-D em até 72 horas, repetida a cada nova transfusão sem anti-D detectado | Aloimunização em cerca de 10% dos RhD negativo que recebem plaqueta RhD positiva, evitável com imunoprofilaxia, sem recorte de sexo ou idade |
Reação tardia: quando aparece, o que define o caso e como se notifica
| Reação | Quando aparece | O que define o caso no manual nacional | Notificação |
|---|---|---|---|
| Aloimunização | A partir de 24 horas; costuma ser achada na amostra da transfusão seguinte | Anticorpo antieritrocitário novo, clinicamente significativo, sem sinal clínico ou laboratorial de hemólise | Até o 15º dia útil do mês seguinte ao da identificação; não se notifica se o paciente nunca foi transfundido |
| Reação hemolítica tardia | De 24 horas a 28 dias | Sinais de hemólise com teste direto da antiglobulina positivo, eluato positivo ou anticorpo recém-identificado, e hemoglobina que não sobe, que cai rápido ou esferócitos sem explicação | Até o 15º dia útil do mês seguinte; em até 72 horas se houver óbito. Hiper-hemólise com relação temporal entra aqui |
| Púrpura pós-transfusional | De 5 a 12 dias | Plaquetas abaixo de 20% da contagem pré-transfusional e anticorpo antiplaquetário no receptor, sem outra causa | Até o 15º dia útil do mês seguinte; em até 72 horas se houver óbito |
| Doença do enxerto contra o hospedeiro pós-transfusional | De 2 dias a 6 semanas | Febre, diarreia, eritema do tronco para as extremidades, hepatomegalia, alteração hepática, pancitopenia e aplasia, com biópsia compatível ou quimerismo leucocitário | Até o 15º dia útil do mês seguinte; em até 72 horas se houver óbito |
| Hemossiderose com comprometimento de órgão | Sem janela fixa: acompanha o número de unidades recebidas | Ferritina de 1.000 µg/L ou mais, com transfusões repetidas de hemácias, e disfunção de órgão por depósito de ferro | Até o 15º dia útil do mês seguinte |
| Transmissão de doença infecciosa | Sem janela fixa | Infecção nova, sem evidência anterior nem fonte alternativa, com doador ou co-componente portador do mesmo agente | Reação sentinela: serviço produtor e vigilância sanitária em até 72 horas |
O guia do Ministério da Saúde, na seção de indicações do concentrado de hemácias, escreve que tem sido aceita, com alto grau de evidência, a transfusão com hemoglobina abaixo de 7 g/dL somente se o paciente não apresentar sinais clínicos de hipóxia tecidual ou sintomas como dor precordial e taquicardia que não responde a volume. Lida ao pé da letra, a frase autoriza transfundir o assintomático abaixo de 7 e nega sangue justamente a quem mostra hipóxia — o contrário do parágrafo imediatamente anterior do mesmo guia, que diz que abaixo de 7 g/dL há grande risco de hipóxia e o paciente se beneficia da transfusão. A leitura coerente, adotada aqui e no capítulo Diferenciar os tipos de choque e conduzir cada um, é que 7 g/dL basta como gatilho para quem não tem sinal de hipóxia, e que dor precordial ou taquicardia refratária podem justificar sangue acima desse número.
Na dose de plaquetas, o guia fixa para a transfusão terapêutica do adulto acima de 55 kg a dose mínima de 6,0 × 10¹¹ plaquetas e escreve, entre parênteses, que ela corresponde a 8 a 10 unidades de sangue total ou a 1 unidade de aférese. Com o conteúdo que o mesmo guia atribui a cada bolsa — 5,5 × 10¹⁰ na de sangue total e pelo menos 3,0 × 10¹¹ na de aférese —, 8 unidades somam 4,4 × 10¹¹ (73% da dose mínima), 10 unidades somam 5,5 × 10¹¹ (92%) e 1 aférese no conteúdo mínimo entrega 50%. Chegar aos 6,0 × 10¹¹ exige 11 unidades de sangue total ou 2 de aférese. Na profilática, o mínimo de 4,0 × 10¹¹ fica em 82% com 6 unidades e em 75% com uma aférese. Prescrever pela equivalência entre parênteses pode dar ao paciente que sangra metade da dose que o próprio guia chama de mínima; por isso a dose se escreve em unidades por peso e se julga pela contagem de uma hora.
A conta do número de bolsas de crioprecipitado no guia divide os miligramas de fibrinogênio necessários por 250 mg por bolsa e pressupõe que 100% fique na circulação, enquanto o mesmo documento garante só 150 mg por bolsa e registra que metade do fibrinogênio infundido se perde no paciente com consumo. Num adulto de 70 kg, hematócrito de 30% e volume plasmático de 3.430 mL pela regra de 70 mL/kg do guia, levar o fibrinogênio de 80 a 150 mg/dL exige 2.401 mg: a conta do guia dá 10 bolsas. Com bolsas de 150 mg são 16; com recuperação de 50%, 32. As 10 bolsas calculadas, com bolsa mínima e consumo, elevam o fibrinogênio em cerca de 22 mg/dL, e não em 70. No sangramento com consumo a dose de crioprecipitado não se confirma pela conta, e sim pelo fibrinogênio medido depois.
Duas remissões internas do Anexo IV-B apontam para o artigo errado, e as duas mudam a leitura. O art. 178 dá à amostra pré-transfusional validade de até setenta e duas horas “exceto nas situações previstas no art. 183” — mas o art. 183 trata do protocolo de hemorragia grave e não fala de amostra; a exceção de sete dias para quem não foi transfundido nem gestou nos últimos três meses está no art. 181, § 3º. Ao pé da letra, o art. 178 recusa a amostra de 96 horas que o art. 181, § 3º aceita (sete dias são 168 horas, 2,33 vezes o prazo geral). O art. 180, inciso I, alínea c, exige a prova de compatibilidade maior “nos casos especificados no art. 183”, quando os casos estão no art. 182, que a exige antes de todo concentrado de hemácias — e ao qual o art. 228 e o inciso II do próprio art. 180 remetem corretamente. Ao pé da letra, a prova cruzada só seria exigida no sangramento grave. A leitura adotada aqui é a sistemática: prova cruzada antes de toda hemácia, sete dias só na situação do art. 181, § 3º, e setenta e duas horas em qualquer dúvida sobre a história.
O protocolo nacional da doença falciforme de 2024 imprime a fórmula do volume da transfusão de troca com o denominador “hematócrito do concentrado menos (hematócrito inicial mais hematócrito desejado)”, sem dividir a soma por dois, como mostra a própria página do documento publicado pela Conitec. Na troca isovolêmica, o sangue que sai tem o hematócrito do paciente ao longo do procedimento, que vai do inicial ao desejado, e a forma linear correta usa a média dos dois. Com a volemia de 60 mL/kg e o concentrado a 70% que o próprio protocolo adota, numa paciente de 60 kg levada de 25% a 30%, a fórmula impressa dá 1.200 mL e a correta, 424 mL — igual à solução exata da equação da troca. De 30% a 33%, são 1.543 mL contra 281 mL, 5,5 vezes mais. Trocar os 1.543 mL levaria o hematócrito a cerca de 44%, a hiperviscosidade que a troca existe para evitar; e com hematócrito inicial e desejado somando 70% ou mais, o denominador impresso zera ou fica negativo. Este capítulo usa a forma com a média.
A conduta, hora a hora
A conduta acompanha Otília da prancheta das sete da manhã até a alta. Cada marco separa o que se decide do que se escreve, porque em transfusão o que não está escrito não chega à agência, ao hemocentro nem ao próximo plantão.
O que acontece durante a bolsa, se ela reagir, é do capítulo Reação transfusional: reconhecer e interromper, na apostila de Síndromes do Paciente Internado — inclusive o procedimento para quem tem risco de sobrecarga circulatória, que uma senhora de 67 anos e 58 quilos tem.
Segunda, 7h10 — antes de assinar: a história que o impresso pede
A requisição da madrugada tem tudo o que não muda a bolsa e nada do que muda. A conversa com Otília e com a filha leva seis minutos e preenche o que falta: trinta e quatro concentrados de hemácias em vinte e dois meses, todos no hemocentro regional, o último há dezenove dias; nunca recebeu plaquetas; febre com calafrio no meio de uma bolsa no ano passado, e desde então sangue desleucocitado; três gestações, a última há trinta e oito anos; e o cartão com o anti-Jk(a) identificado há cinco meses. A agência transfusional deste hospital não sabe nada disso, porque o registro de receptor é de cada serviço. O telefonema ao hemocentro confirma o grupo O RhD positivo, o anticorpo, o fenótipo já determinado e os requisitos em vigor. A partir deste marco, a informação está na requisição, no prontuário e na cabeça de quem vai decidir — e não mais só na carteira da paciente.
Prescrição- Registrar na requisição e na evolução: 34 concentrados de hemácias em 22 meses no hemocentro regional, o último há 19 dias; anti-Jk(a) identificado há 5 meses; reação febril não hemolítica no ano passado; três gestações, a última há 38 anos; nunca recebeu plaquetas
- Telefonar ao hemocentro regional e pedir o registro imuno-hematológico — tipagem, fenótipo, anticorpos identificados e requisitos transfusionais —, anotando o nome de quem informou e o horário
- Anexar cópia do cartão de anticorpo ao prontuário e devolver o original à paciente
- Completar na requisição o CPF, o nome da mãe e o peso de 58 kg
7h30 — uma indicação para cada bolsa
As duas linhas da prescrição da madrugada são duas decisões diferentes. A hemácia tem indicação: hemoglobina de 6,3 g/dL, abaixo do gatilho de 7, com taquicardia de repouso, dispneia aos mínimos esforços e tontura, numa medula doente que não tem reposição a oferecer. A dose é uma unidade, e não duas: numa mulher de 58 quilos, uma bolsa deve render pelo menos 1 g/dL, e a segunda se decide depois de medir a primeira. A plaqueta não tem indicação. A contagem de 9.000/µL assusta, mas a doença é falência medular crônica, não há petéquia, equimose, gengivorragia nem sangramento em lugar nenhum, e para essa situação o guia manda observar e só transfundir abaixo de 5.000/µL, ou abaixo de 10.000/µL com sangramento. Uma aférese hoje é uma exposição a mais a antígenos HLA numa paciente que vai precisar de plaquetas funcionando no dia em que sangrar de verdade. Não há indicação de plasma nem de crioprecipitado.
Prescrição- Concentrado de hemácias: 1 unidade agora; a segunda só depois da hemoglobina de controle e da reavaliação clínica
- Discutir a necessidade de plaquetas com hematologia: em falência medular crônica estável, sem sangramento, não aplicar automaticamente a profilaxia da quimioterapia aguda. Considerar tendência, febre, procedimentos, medicamentos, possibilidade de observação e plano habitual; a contagem de 9.000/µL isolada não substitui essa avaliação.
- Registrar na evolução a justificativa das duas decisões, com hemoglobina, sintomas, contagem de plaquetas e o exame de pele e mucosas
- Reexaminar pele, mucosas e queixas de sangramento a cada turno: petéquia nova, gengivorragia, sangramento em qualquer sítio ou cefaleia nova reabrem a indicação de plaquetas
7h50 — a bolsa certa: fenotipada, desleucocitada, e por que não irradiada
O anticorpo histórico decide a primeira exigência: hemácia sem o antígeno Jk(a), mesmo que a pesquisa de hoje venha negativa. Por estar em transfusão crônica, Otília recebe também hemácias compatíveis para C, c, E, e e K, que é a regra do Anexo IV-B para quem vive de transfusão, e o regulamento recomenda, depois do primeiro anticorpo, profilaxia contra outros antígenos — decisão que o serviço toma com o fenótipo que o hemocentro já tem. A desleucocitação vem da transfusão crônica e da reação febril do ano passado, e precisa ser feita no serviço de hemoterapia, não com filtro no leito. A irradiação não se aplica: síndrome mielodisplásica sem análogo de purina, sem globulina antitimocítica, sem transplante, sem componente HLA compatível e sem doador parente não está na lista do regulamento nem na do guia. Se o hematologista indicar tratamento imunossupressor, essa resposta muda, e é por isso que o diagnóstico e os tratamentos vão por extenso na requisição. A modalidade é urgência, com a observação de que a paciente está estável.
Prescrição- Requisição: concentrado de hemácias desleucocitado, fenotipado, Jk(a) negativo e compatível para C, c, E, e e K — 1 unidade
- Diagnóstico por extenso: síndrome mielodisplásica dependente de transfusão; anti-Jk(a) identificado no hemocentro regional; hemoglobina de 6,3 g/dL com taquicardia e dispneia aos mínimos esforços
- Modalidade: urgência; paciente hemodinamicamente estável, que tolera aguardar a unidade com os requisitos
- Componente irradiado: não indicado nesta data — rever se houver indicação de análogo de purina, globulina antitimocítica, transplante, plaquetas HLA compatíveis ou doação de parente
8h00 — a conversa, a assinatura e o tubo
O regulamento exige que o paciente assine o consentimento depois de orientação médica sobre riscos e benefícios, alternativas e consequências da transfusão, e deixa a cada serviço a política de quando aplicá-lo; Otília assinou muitos no hemocentro, mas nenhum aqui. A conversa tem quatro partes: o benefício é tirar o cansaço e a taquicardia nas próximas horas; os riscos incluem febre como a do ano passado e a hemólise por anticorpo, que é o motivo de esperar por uma bolsa específica; não há alternativa que corrija essa anemia no mesmo prazo; e cada bolsa soma ferro e pode somar anticorpo, que é o que o hematologista acompanha. Ela pode recusar e pode retirar o consentimento a qualquer momento. O tubo é colhido depois da identificação positiva e rotulado ali, ao lado do leito. Como houve transfusão de hemácias nos últimos três meses, a amostra vale setenta e duas horas: até quinta-feira às oito, o que cobre uma eventual segunda unidade amanhã.
Prescrição- Explicar benefício, riscos, alternativas e consequências; registrar a conversa e colher a assinatura do termo de consentimento conforme a política do serviço
- Colher a amostra pré-transfusional após identificação positiva — nome completo e data de nascimento ditos pela paciente e conferência da pulseira
- Rotular o tubo ao lado do leito com nome completo sem abreviatura, registro, data, hora e identificação de quem colheu
- Anotar a validade da amostra: 72 horas, até quinta-feira às 8h, por transfusão de hemácias nos últimos três meses
11h40 — o telefone da agência: inconclusivo
A agência liga. Grupo O RhD positivo, pesquisa de anticorpos negativa na amostra de hoje, prova de compatibilidade sem reação com a única unidade O RhD positivo compatível para C, c, E, e e K do estoque — e resultado inconclusivo, porque há histórico de anti-Jk(a) e aquela bolsa não foi fenotipada para Jk(a). É exatamente a definição do regulamento. A unidade Jk(a) negativa vem do hemocentro e chega às cinco da tarde; a técnica pergunta se o médico quer autorizar a disponível. A pesquisa negativa de hoje não absolve a bolsa: o anticorpo pode ter caído abaixo do que o teste enxerga e voltar em dias, destruindo a hemácia transfundida entre vinte e quatro horas e vinte e oito dias depois. Transfundir com resultado inconclusivo é permitido na urgência em que o quadro não deixa esperar. Otília, reavaliada agora, tem frequência de 102, pressão de 120 por 66, saturação de 95% e nenhuma dor: o quadro deixa esperar cinco horas.
Prescrição- Não autorizar a unidade com resultado inconclusivo: paciente estável, quadro que permite aguardar a unidade Jk(a) negativa prevista para as 17h
- Reavaliar sinais vitais e sintomas a cada 2 horas até a chegada da bolsa
- Registrar na evolução o resultado inconclusivo, o motivo, a previsão de chegada e o que mudaria a decisão: dor torácica, hipotensão, dessaturação, confusão ou taquicardia crescente
- Se houver deterioração relevante, reavaliar imediatamente a causa e discutir com supervisor e hemoterapeuta se o risco de esperar supera o risco da unidade disponível. Liberação excepcional exige decisão documentada e monitorização; não é consequência automática de qualquer taquicardia ou dispneia. Antitérmico, anti-histamínico ou corticoide não previnem a hemólise de uma incompatibilidade clinicamente significativa.
17h10 — a bolsa chega: o que se confere e o que fica escrito
A unidade Jk(a) negativa, desleucocitada e compatível chega com a etiqueta de transfusão: nome completo, leito, tipagem da paciente e da bolsa, número da bolsa, conclusão da prova e responsável pela liberação. A conferência final é à beira do leito, com o nome e a data de nascimento ditos pela própria Otília contra a etiqueta; qualquer discrepância suspende a transfusão até esclarecer. A hemácia não pode ficar mais de trinta minutos em temperatura ambiente antes de começar, corre em equipo com filtro, em acesso sem nenhum medicamento na linha, e não passa de quatro horas. O guia descreve de uma a duas horas por unidade no adulto; numa senhora pequena e idosa, a velocidade mais lenta cabe dentro desse teto. Os sinais vitais precisam ter sido registrados até sessenta minutos antes do início, e a enfermagem fica ao lado da paciente nos primeiros dez minutos. O que se registra não é formalidade: início, término, sinais vitais antes e depois, identificação e origem da bolsa e intercorrências são o que permite investigar uma reação tardia daqui a dez dias.
Prescrição- Conferir à beira do leito nome completo e data de nascimento ditos pela paciente contra a etiqueta da bolsa, a tipagem, o número da bolsa e a conclusão da prova
- Sinais vitais registrados até 60 minutos antes do início; enfermagem ao lado da paciente nos primeiros 10 minutos
- Infundir em acesso exclusivo, com equipo com filtro e sem medicamento na linha, em cerca de 2 horas e nunca além de 4 horas
- Orientar paciente e filha a avisar de imediato febre, calafrio, falta de ar, dor lombar, coceira ou urina escura
- Registrar horário de início e de término, sinais vitais antes e depois, número e origem da bolsa e intercorrências
- Hemoglobina de controle 1 a 2 horas depois do término
Terça, 7h — o rendimento e a segunda bolsa
A hemoglobina de controle, colhida às nove da noite, foi de 7,5 g/dL: subida de 1,2 g/dL com uma unidade, rendimento esperado para o peso dela. A frequência caiu para 90, a tontura sumiu, mas levantar para o banho ainda deixa Otília sem fôlego. É anemia crônica sintomática com uma bolsa de resposta documentada, e a segunda unidade agora tem indicação clínica escrita, não herdada da madrugada. Os requisitos são os mesmos, e a amostra de segunda-feira ainda vale. As plaquetas estão em 8.000/µL, sem sangramento: segue sem transfusão. Resta a conta que ninguém fez: com as duas bolsas desta internação são trinta e seis unidades, ou de 7,2 a 9,0 g de ferro, e ferritina de 3.120 µg/L. A hemossiderose, pela definição nacional, exige disfunção de órgão comprovada; procurá-la e decidir quelação é do hematologista, e o manual de hemovigilância lista entre os incidentes do procedimento transfusional o paciente em regime crônico sem monitoramento da sobrecarga de ferro.
Prescrição- Registrar o rendimento da primeira unidade: hemoglobina de 6,3 para 7,5 g/dL
- Antes da segunda unidade, reavaliar a dispneia: congestão, hipóxia, doença cardíaca ou pulmonar e outras causas podem coexistir. Se os sintomas continuarem atribuíveis à anemia e o benefício superar o risco de sobrecarga, indicar uma unidade com os mesmos requisitos e nova reavaliação. Registrar a justificativa; dispneia residual não torna a segunda bolsa automática.
- Plaquetas 8.000/µL: manter o plano acordado com hematologia se continuar estável, sem sangramento e com observação assegurada; qualquer novo fator de risco exige reavaliação, sem transformar o limiar de 5.000/µL em regra universal de espera.
- Registrar o total transfundido (36 unidades) e a estimativa de ferro recebido: 7,2 a 9,0 g
- Pedir enzimas hepáticas e glicemia de jejum e comunicar ao hematologista do hemocentro a ferritina de 3.120 µg/L para avaliação de sobrecarga de ferro e de quelação
Quarta, alta — o que sai escrito e o que vigiar até o 28º dia
A hemoglobina depois da segunda unidade é de 8,6 g/dL e Otília sobe a escada da enfermaria sem parar. A alta é o momento em que o conhecimento acumulado nesta internação se perde ou se transfere. O resumo segue para o hemocentro com as duas bolsas, os requisitos e o episódio do resultado inconclusivo; a agência deste hospital registra o anticorpo e os requisitos na ficha de receptor dela, para que a próxima internação não comece com o impresso em branco; e o cartão volta para a carteira. A orientação que falta em quase toda alta de transfusão é a da reação tardia: nas próximas quatro semanas, urina escura, olhos amarelos, cansaço que volta ou febre são motivo de retorno — e de dizer, logo na porta, que recebeu sangue. Se um anticorpo novo aparecer no próximo teste pré-transfusional, ele é notificado como aloimunização; se vier hemólise, como reação hemolítica tardia.
Prescrição- Resumo de alta ao hemocentro: número e data das duas bolsas, requisitos transfusionais, resultado inconclusivo de segunda-feira, ausência de reação, hemoglobinas de 6,3, 7,5 e 8,6 g/dL e ferritina de 3.120 µg/L
- Confirmar com a agência transfusional o registro do anti-Jk(a) e dos requisitos na ficha de receptor da paciente neste hospital
- Devolver o cartão de anticorpo e orientar paciente e filha a mostrá-lo em qualquer serviço, antes de qualquer transfusão
- Orientar retorno imediato, dizendo que recebeu sangue, se nas próximas 4 semanas surgirem urina escura, olhos amarelos, cansaço que volta ou febre
- Hemoglobina, bilirrubina indireta e desidrogenase láctica entre o 5º e o 14º dia no hemocentro, a mesma janela usada no capítulo Reação transfusional: reconhecer e interromper
Como saber se está funcionando
Reavaliar uma transfusão é medir o rendimento esperado de cada componente no prazo certo, e só então decidir a bolsa seguinte. Os quatro primeiros parâmetros servem a essa decisão, e cada hemocomponente tem o seu relógio: uma a duas horas para a hemácia, uma hora para a plaqueta, logo depois da dose para plasma e crioprecipitado.
Os três últimos acompanham o que a bolsa deixou. É a parte que costuma sair do hospital junto com o paciente e não voltar, e por isso ela precisa estar escrita no resumo de alta e combinada com o serviço que vai seguir o doente.
Esperado: Menos dispneia, menos taquicardia, tontura ausente; o paciente com anemia crônica volta ao nível de atividade que tinha
Se não melhora: Sintoma que não melhora com hemoglobina que subiu tem outra explicação — infecção, isquemia, insuficiência cardíaca — e ela vem antes de outra bolsa. Sintoma que piora durante a infusão é assunto do capítulo Reação transfusional: reconhecer e interromper
Esperado: Cerca de 1 g/dL por unidade no adulto médio, mais em quem pesa pouco
Se não melhora: Subida menor que a esperada: sangramento, hemólise imune ou não imune, sequestro. Pedir reticulócitos, desidrogenase láctica, bilirrubina indireta, haptoglobina e teste direto da antiglobulina, e avisar a agência antes de pedir a próxima unidade
Esperado: Incremento corrigido acima de 7,5 na primeira hora e de 4,5 a 5,0 no dia seguinte, ou recuperação acima de 30% e de 20%; sangramento que parou
Se não melhora: Rendimento baixo repetido é refratariedade: afastar febre, infecção, esplenomegalia, coagulação intravascular disseminada e medicamentos; pedir plaqueta ABO compatível e fresca; persistindo, investigação de anticorpo HLA ou plaquetário pelo serviço de hemoterapia e, se indicada plaqueta HLA compatível, irradiada
Esperado: Tempo de protrombina e de tromboplastina parcial ativada abaixo de 1,5 vez a referência, ou sangramento controlado; fibrinogênio no nível hemostático de 70 a 100 mg/dL
Se não melhora: Consumo, dose insuficiente ou indicação errada. Com consumo, a dose seguinte se guia pelo exame e não pela conta. O fator VII dura cerca de seis horas: plasma dado horas antes do procedimento pode ter perdido o efeito na hora que importa
Esperado: Hemoglobina estável, ou em queda lenta compatível com a doença de base, sem marcadores de hemólise
Se não melhora: Queda com bilirrubina indireta e desidrogenase láctica em alta é reação hemolítica tardia até prova em contrário: teste direto da antiglobulina, eluato e pesquisa de anticorpos com identificação, contato com o serviço que transfundiu e notificação, mesmo que a correlação fique só possível
Esperado: Negativa, ou apenas com os anticorpos já conhecidos
Se não melhora: Anticorpo novo: identificar a especificidade, passar a transfundir hemácias sem o antígeno, atualizar o cartão do paciente e o registro de receptor, e notificar como aloimunização
Esperado: Ferritina estável e nenhuma disfunção de fígado, coração, glândulas endócrinas ou pele
Se não melhora: Ferritina em alta: avaliação de quelação pelo protocolo nacional de sobrecarga de ferro, com deferasirox, desferroxamina ou deferiprona do Componente Especializado. Ferritina de 1.000 µg/L ou mais com disfunção de órgão comprovada é hemossiderose, e se notifica
Onde o erro machuca
O dano: É a aférese da madrugada de Otília. Na anemia aplástica grave e na síndrome mielodisplásica, o guia manda observar e só fazer profilaxia abaixo de 5.000/µL, ou abaixo de 10.000/µL com sangramento. Cada bolsa sem indicação expõe o paciente a antígenos HLA e aproxima a refratariedade, e quem vai depender de plaquetas por anos chega ao sangramento de verdade com plaquetas que não rendem.
Como pegar a tempo: Antes de pedir plaqueta, escreva por que a contagem está baixa — aplasia que passa, medula que não volta, destruição, consumo — e qual corte do guia se aplica. Sem sangramento e sem procedimento, falência crônica não se transfunde acima de 5.000/µL.
O dano: O guia lista como contraindicação usar plasma para corrigir teste alterado sem sangramento e registra que, no hepatopata, o tempo de protrombina não prediz sangramento e não há evidência de benefício antes de procedimento invasivo. O paciente recebe de 700 a 1.400 mL, com os riscos de sobrecarga circulatória, lesão pulmonar e reação alérgica que o próprio guia associa ao plasma, sem ganho demonstrado.
Como pegar a tempo: Pergunte qual sangramento ou qual deficiência o plasma vai tratar; se a resposta for um número, não é plasma. Antes de procedimento em hepatopata, o fator que o guia valoriza é a técnica de quem executa. A reversão de anticoagulante tem doses próprias no capítulo Coagulograma.
O dano: O anticorpo que não aparece na pesquisa de hoje é o que produz a reação hemolítica tardia do oitavo dia. Sem a história, a gestação ou a transfusão recente não encurtam a validade da amostra, o anticorpo antigo não entra na escolha da bolsa e o doador parente não é irradiado. O manual de hemovigilância lista como incidente do procedimento transfusional deixar de fenotipar o receptor com aloanticorpo.
Como pegar a tempo: Pergunte e escreva sempre: transfusões anteriores e onde, reações, gestações, anticorpos conhecidos, cartão. Paciente vindo de outro serviço: telefone para quem o transfundiu antes de a requisição descer.
O dano: No adulto médio cada unidade rende cerca de 1 g/dL, e em quem pesa pouco rende mais. A segunda bolsa pedida junto dobra a exposição a antígenos, o volume e o ferro sem que ninguém tenha medido se a primeira bastou — e, no idoso pequeno, soma risco de sobrecarga circulatória.
Como pegar a tempo: Fora do sangramento, uma unidade por vez, hemoglobina uma a duas horas depois e reavaliação do sintoma. A segunda unidade é uma prescrição nova, com justificativa nova na evolução.
O dano: A desleucocitação previne febre, aloimunização leucocitária, refratariedade e citomegalovírus; o regulamento não lhe atribui a prevenção da doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão, que o guia descreve como usualmente fatal e que só se previne com irradiação. O paciente em uso de análogo de purina, o transplantado de medula e quem recebe sangue doado pelo filho ficam desprotegidos quando se acha que bolsa “filtrada” resolve.
Como pegar a tempo: Escreva diagnóstico e tratamentos por extenso na requisição e confira as seis situações do Anexo IV-B: transfusão intrauterina, recém-nascido abaixo de 1.200 g ou de 28 semanas, imunodeficiência congênita grave, imunossupressão com análogo de purina, globulina antitimocítica ou transplante de medula, componente HLA compatível e doador parente de primeiro grau.
O dano: A reação tardia chega a outro plantão, às vezes a outro hospital, e ninguém a liga à bolsa: na doença falciforme, o protocolo nacional estima que perto de metade das reações hemolíticas tardias passa sem diagnóstico. Sem comunicação e sem notificação, o serviço que transfundiu não atualiza o registro de receptor, o anticorpo não entra na ficha e a próxima bolsa repete o erro.
Como pegar a tempo: Diante de hemólise, púrpura ou febre com erupção e diarreia nas semanas seguintes a uma transfusão, investigue como reação tardia, comunique o serviço que transfundiu e notifique nos prazos do manual nacional — inclusive quando a correlação ficar só provável ou possível.
O que dizer ao paciente e à família
As perguntas abaixo aparecem quase sempre com as mesmas palavras, na enfermaria e no ambulatório do hemocentro. Três delas são armadilhas de comunicação: desautorizar a prescrição do colega sem explicar, jogar a espera por uma bolsa específica nas costas do banco de sangue e prometer que sangue testado não transmite nada.
A regra de fundo é que toda decisão transfusional tem um motivo que cabe numa frase simples, e o paciente que sai sabendo o motivo passa a carregar a informação que os serviços não trocam entre si — o cartão, a data da última bolsa, o sinal que o faz voltar.
“Doutor, o outro médico mandou dar plaquetas. Por que o senhor tirou?”
“A senhora está com as plaquetas baixas, e isso assusta mesmo. Mas a sua medula faz poucas plaquetas há bastante tempo, e para quem está assim e não está sangrando, dar plaquetas agora não protege — gasta. Cada bolsa de plaquetas ensina o seu corpo a reconhecer sangue de outras pessoas, e no dia em que a senhora sangrar de verdade eu quero que a plaqueta funcione. Então vamos olhar sua pele e sua boca todos os dias, e se aparecer mancha roxa, sangue na gengiva ou uma dor de cabeça diferente, a senhora chama na hora.”
Não diga: “Não precisa, está tudo bem.” Não está tudo bem com 9.000 plaquetas, e a paciente sabe disso; a frase desautoriza o colega e não diz o que vigiar.
“Por que não dão logo o sangue que tem lá embaixo? Eu estou cansada.”
“O sangue que tem aqui não foi testado para o anticorpo que está no seu cartão. Se ele tiver aquilo que o seu corpo ataca, a senhora melhora hoje e daqui a uma semana volta amarela, com a urina escura e com menos sangue do que agora. O sangue certo chega às cinco. Até lá, a enfermagem vai medir sua pressão e seu coração a cada duas horas, e se a senhora sentir dor no peito ou piorar da falta de ar, a gente reavalia na hora — existe um jeito de usar o sangue que tem, com cuidado, se for preciso.”
Não diga: “É norma do banco de sangue.” Joga a decisão para fora da equipe, soa como burocracia e tira da paciente o motivo, que é dela.
“Esse cartão serve para quê? Eu achei que era só coisa do hemocentro.”
“Esse cartão é a coisa mais importante da sua carteira. O seu sangue fez um anticorpo contra um tipo de sangue, e esse anticorpo às vezes some do exame, mas não some do corpo. Qualquer hospital em que a senhora for internada vai colher sangue, fazer o teste e pode não achar nada. Só o cartão avisa. Mostre antes de qualquer transfusão, em qualquer lugar, mesmo que ninguém peça.”
Não diga: “É só um anticorpo, não se preocupe.” Sem o motivo, o cartão vai para a gaveta; o paciente precisa sair sabendo que é ele quem leva essa informação de um serviço para outro.
“Eu posso doar sangue para a minha mãe? Sangue da família é mais seguro.”
“A intenção é a melhor possível, e é por isso que eu preciso explicar o contrário. Sangue de filha para mãe tem mais chance de causar uma complicação rara e muito grave, porque as defesas dela podem não perceber que as células do seu sangue são de outra pessoa. Por isso, quando o doador é parente próximo, a bolsa precisa ser irradiada no banco de sangue antes de ser usada. E a sua mãe precisa de sangue sem um tipo específico, que o hemocentro procura entre muitos doadores. O que ajuda de verdade é doar no hemocentro, para o estoque de todos.”
Não diga: “Não pode, é proibido.” A frase encerra a conversa sem explicar o risco, e o que o regulamento prevê para o doador parente de primeiro grau é a irradiação da bolsa, não uma proibição.
“Esse sangue pode me passar alguma doença?”
“Todo sangue doado passa por testes para as infecções que se transmitem pelo sangue, e o risco que sobra é pequeno, mas não é zero. É por isso que a gente só dá sangue quando ele faz diferença, como agora. E se, nos próximos meses, algum médico descobrir uma infecção nova na senhora, avise que recebeu transfusão: existe um sistema que volta atrás, procura o doador e protege outras pessoas.”
Não diga: “Hoje em dia não passa mais nada.” É uma promessa que nenhum serviço pode fazer; se um dia houver transmissão, a paciente descobre que a informação estava errada e perde a confiança no resto.
“Por que o meu ferro está alto, se eu tenho anemia?”
“Porque esse ferro não veio da comida, veio das bolsas. Cada bolsa de sangue traz ferro, e a senhora já recebeu mais de trinta. O corpo não usa tudo, e o que sobra vai se guardando no fígado, no coração e em outros órgãos. Existem remédios que tiram esse excesso, e o hematologista do hemocentro vai avaliar se é hora de começar. Enquanto isso, não tome remédio nem vitamina com ferro por conta própria.”
Não diga: “É normal em quem toma sangue.” É esperado, não é inofensivo; a frase desliga a paciente de um acompanhamento de que ela precisa.
“E se um dia eu não quiser mais tomar sangue?”
“A senhora tem esse direito, hoje e em qualquer momento, até depois de ter assinado. Se um dia pensar nisso, converse com a gente e com o hematologista antes, para entender o que acontece com a anemia sem transfusão e o que dá para fazer para a senhora ficar bem. E, se quiser, essa vontade pode ficar escrita, para valer mesmo num dia em que a senhora não consiga falar.”
Não diga: “Sem sangue a senhora morre.” Pressão não é consentimento; o regulamento assegura a recusa, a retirada do consentimento e o respeito às diretivas antecipadas, e a conversa precisa abrir essa porta, não fechá-la.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Lista ampla, com linfoma, leucemia mieloide aguda e anemia aplástica em tratamento, transplantado de órgão sólido e parentesco em qualquer grau — guia do Ministério da Saúde, 2015
O guia para uso de hemocomponentes indica irradiação, além da transfusão intrauterina, do prematuro de muito baixo peso e do imunodeficiente congênito grave, depois de transplante de medula óssea autólogo ou alogênico e de célula progenitora de cordão ou placenta, em quem usa análogos da purina, no receptor de transplante de órgão sólido em uso de imunossupressor, nos portadores de linfoma, leucemia mieloide aguda e anemia aplástica em quimioterapia ou imunossupressão atual ou recente — usualmente nos últimos seis meses —, no receptor de plaquetas HLA compatíveis e sempre que o receptor tiver qualquer grau de parentesco com o doador. Descreve a doença do enxerto contra o hospedeiro associada à transfusão como usualmente fatal.
Guia para uso de hemocomponentes, Ministério da Saúde, 2ª edição, 1ª reimpressão, 2015 — seção 5.2, Irradiação
Seis situações e o restante para o protocolo do serviço — regulamento técnico, Anexo IV-B, com vigência prevista para 30 de setembro de 2026
O Anexo IV-B lista como indicação de componente celular irradiado a transfusão intrauterina, o recém-nascido com menos de 1.200 g ou de 28 semanas, a imunodeficiência congênita grave, a terapia imunossupressora com análogos de purina, globulina antitimocítica e no transplante de medula óssea, o componente HLA compatível e o receptor parente de primeiro grau do doador. Nas demais situações clínicas, a decisão de irradiar fica sujeita à avaliação e aos protocolos de cada serviço de hemoterapia. A lista do anexo anterior não trazia análogos de purina nem globulina antitimocítica.
Anexo IV-B da Portaria de Consolidação GM/MS nº 5, redação da Portaria GM/MS nº 11.685/2026, art. 117, §§ 11 e 12
O escopo empata — qualquer receptor de componente celular — e a data decide pelo regulamento de 2026, que também é norma. Só que o vencedor não proíbe o que o guia acrescenta: fixa as situações em que a irradiação está indicada por norma e devolve o resto ao protocolo do serviço. Esta apostila adota as seis situações do Anexo IV-B como indicação que o prescritor não discute. Para o paciente que está só na lista do guia — linfoma em quimioterapia, leucemia mieloide aguda, anemia aplástica em imunossupressão, transplantado de órgão sólido, doador parente de segundo grau —, escreva a condição por extenso na requisição e peça a decisão ao serviço, pelo protocolo dele. Onde o serviço não tiver protocolo escrito, a escolha desta apostila, e não de fonte nenhuma, é seguir a lista do guia: o custo de irradiar é encurtar a validade da hemácia para no máximo 28 dias depois da irradiação, e o custo de não irradiar quem precisava é uma doença que o próprio guia chama de usualmente fatal.
Rh, Kell, Duffy, Kidd e MNS desde o início — guia do Ministério da Saúde, 2015
O guia recomenda, para pacientes sem anticorpos irregulares que estão ou poderão entrar em esquema de transfusão crônica, concentrados de hemácias fenotipados compatíveis principalmente para os sistemas mais imunogênicos: Rh, Kell, Duffy, Kidd e MNS. Para a mulher em idade fértil com pesquisa de anticorpos negativa, recomenda hemácia negativa para o antígeno K.
Guia para uso de hemocomponentes, Ministério da Saúde, 2015 — seção 5.4, Fenotipagem de antígenos eritrocitários
Rh e K como regra, fenótipo estendido do receptor para investigar e compatibilidade estendida quando possível — Anexo IV-B, 2026, e protocolo da doença falciforme, 2024
O Anexo IV-B recomenda fenotipar o receptor em transfusão crônica também para Kell, Duffy, Kidd e MNS, com o objetivo declarado de ajudar a identificar anticorpos, e transfundir fenótipo compatível quando possível; no artigo da escolha da bolsa, a recomendação para quem não tem anticorpo é hemácia compatível para Rh e K — C, c, E, e e K —, com profilaxia contra outros antígenos depois do primeiro anticorpo. O protocolo nacional da doença falciforme fenotipa ABO, Rh e K ao diagnóstico, transfunde hemácias compatíveis para Rh e K e estende a fenotipagem se surgirem anticorpos.
Anexo IV-B, art. 181, §§ 14 e 15, e art. 185, §§ 4º e 5º (Portaria GM/MS nº 11.685/2026); Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16/2024, seção 7.2.1
Primeiro o escopo. Na doença falciforme governa o protocolo da doença: Rh e K desde a primeira bolsa, fenotipagem estendida depois do primeiro anticorpo. Nas demais transfusões crônicas — síndrome mielodisplásica, talassemia, anemia aplástica — o escopo empata e a data decide pelo Anexo IV-B, que também é norma. Lido inteiro, ele não manda compatibilizar os cinco sistemas desde o início: recomenda Rh e K, pede o fenótipo estendido do receptor para que o anticorpo futuro seja identificado depressa e deixa a compatibilidade estendida para quando o serviço puder oferecê-la. Esta apostila adota essa leitura: Rh e K sempre; fenótipo estendido do receptor registrado antes da primeira bolsa; compatibilidade estendida quando houver estoque; e, depois do primeiro anticorpo, bolsa sem o antígeno correspondente e profilaxia contra os demais, que é o caso de Otília. A recomendação do guia de hemácia K negativa para a mulher em idade fértil não tem equivalente no regulamento, não conflita com ele e continua valendo.
Imunoprofilaxia anti-D para o receptor RhD negativo, sem recorte de sexo ou idade — guia do Ministério da Saúde, 2015
O guia descreve aloimunização contra o antígeno RhD em aproximadamente 10% dos pacientes RhD negativo transfundidos com plaquetas RhD positivo, menos frequente em pacientes onco-hematológicos, em crianças e em quem recebe plaquetas de aférese, e afirma que ela pode ser evitada com imunoprofilaxia anti-D. A recomendação não tem recorte de sexo nem de idade.
Guia para uso de hemocomponentes, Ministério da Saúde, 2015 — seção 3.2.1, compatibilidade ABO e RhD das plaquetas
Plaqueta RhD negativo de preferência e anti-D em até 72 horas só para a mulher RhD negativo com menos de 50 anos — Anexo IV-B, 2026
O Anexo IV-B manda preferir plaquetas RhD negativo para a receptora RhD negativo, do sexo feminino, com menos de cinquenta anos, que recebe plaquetas obtidas de sangue total. Se as plaquetas forem RhD positivas, faz-se pesquisa de anticorpos antes e, sem anti-D presente, recomenda-se imunoglobulina anti-D por via parenteral em até setenta e duas horas depois da transfusão, repetindo pesquisa e dose a cada nova transfusão de plaquetas RhD positivas. Para homens e para mulheres a partir dos cinquenta anos, o regulamento não prevê imunoprofilaxia.
Anexo IV-B, art. 206, §§ 1º a 3º (Portaria GM/MS nº 11.685/2026)
A Portaria GM/MS nº 11.685/2026 tem início de vigência anunciado para 30/09/2026; em 14/09, sua data de publicação não antecipa a obrigação. Descrever separadamente o fluxo vigente, o protocolo local e a mudança programada. Na urgência, a seleção de RhD e de componentes e a liberação excepcional dependem da equipe de hemoterapia e do risco de esperar, com cuidado particular em pessoas com potencial reprodutivo e documentação apropriada. A norma futura não deve ser ensinada como já vigente.
O raciocínio, em voz alta
Fidêncio Arcanjo, 63 anos, 81 quilos, eletricista, chega ao pronto-socorro numa sexta-feira com cansaço, urina escura há dois dias e olhos amarelos que a esposa notou hoje de manhã. Onze dias atrás recebeu duas unidades de concentrado de hemácias em outro hospital da cidade, onde ficou internado por hemorragia digestiva alta por úlcera, tratada por endoscopia; teve alta com hemoglobina de 9,4 g/dL. Desde a alta as fezes são marrons. Está com pressão de 126 por 78, frequência de 98, sem dor abdominal. Exames de hoje: hemoglobina de 7,1 g/dL, reticulócitos de 6%, desidrogenase láctica de 1.180 U/L, bilirrubina total de 3,6 mg/dL com indireta de 3,0, haptoglobina indetectável, creatinina de 1,1 mg/dL. O plantonista anotou: ressangramento? — pedir duas unidades de concentrado de hemácias e nova endoscopia.
o que a hipótese do plantonista explica e o que ela deixa de fora
Ressangramento explica a hemoglobina que caiu de 9,4 para 7,1. Não explica bilirrubina indireta de 3,0, desidrogenase láctica de 1.180, haptoglobina indetectável e urina escura, que juntas descrevem destruição de hemácias, nem as fezes marrons de onze dias. E há o dado que muda a ordem das hipóteses: transfusão há onze dias, dentro da janela de vinte e quatro horas a vinte e oito dias da reação hemolítica tardia. Antes da endoscopia e antes de qualquer bolsa, a pergunta é se o sangue que ele recebeu está sendo destruído — porque, se estiver, duas unidades pedidas às cegas podem ter o mesmo antígeno das anteriores.
a pergunta que ninguém fez no outro hospital
Perguntado se já tinha recebido sangue alguma vez antes dessa internação, Fidêncio lembra, depois de uma pausa, da cirurgia do fêmur, vinte anos atrás, depois de uma queda de moto: “tomei sangue, sim, duas ou três bolsas”. A requisição do outro hospital, que a esposa tem no celular, marca “sem antecedentes”. O mecanismo fecha: a transfusão de vinte anos atrás o sensibilizou, o anticorpo caiu abaixo do que a pesquisa detecta, a amostra pré-transfusional de onze dias atrás saiu negativa, as bolsas tinham o antígeno e a memória imunológica respondeu em dias. É exatamente o paciente que o campo de antecedentes da requisição existe para proteger.
os exames que dizem de onde vem a hemólise
A amostra vai para a agência transfusional com a história escrita na requisição: transfusão onze dias atrás em outro serviço e vinte anos atrás. O teste direto da antiglobulina vem positivo para IgG, o eluato mostra anti-E e a pesquisa de anticorpos no plasma, agora positiva, identifica anti-E; a fenotipagem de Fidêncio é E negativo. O esfregaço mostra esferócitos. É a definição de caso do manual nacional de hemovigilância — sinais de hemólise, teste direto positivo, anticorpo recém-identificado, hemoglobina em queda — com correlação confirmada, porque há anticorpo novo e nenhuma outra explicação. A endoscopia deixa de ser urgente: nada no quadro aponta para sangramento.
o que se faz hoje, e o que não se faz
Com hemoglobina de 7,1 g/dL, estável, sem dor torácica e sem doença cardíaca conhecida, Fidêncio está logo acima do gatilho de 7: não há indicação de transfundir agora, e a vigilância é clínica e laboratorial. Hemoglobina, bilirrubina e desidrogenase láctica a cada doze a vinte e quatro horas, diurese e creatinina acompanhadas, porque hemólise pode comprometer o rim. Se a transfusão se tornar necessária, a agência libera hemácias E negativas com resultado compatível na prova, e o registro de receptor deste hospital passa a trazer o anti-E. As duas bolsas pedidas pelo plantão são canceladas, e a justificativa vai escrita na evolução.
a quem avisar e quem notifica
A RDC 34 da Anvisa atribui a investigação e a notificação do evento adverso ao serviço onde a transfusão aconteceu. Isso não dispensa este pronto-socorro de nada: o médico que fez o diagnóstico comunica o hospital que transfundiu — por telefone, com registro de horário e de quem recebeu, e por escrito —, para que aquele serviço investigue, registre o anticorpo na ficha de receptor, notifique ao sistema nacional como reação hemolítica tardia até o 15º dia útil do mês seguinte e articule com o serviço de hemoterapia fornecedor. A comunicação fica registrada no prontuário daqui. Sem esse telefonema, o anti-E fica num prontuário que o outro hospital nunca vai abrir.
o que Fidêncio leva para casa
Fidêncio sai com hemoglobina de 7,6 g/dL em recuperação, bilirrubina em queda e um cartão com o anti-E, a data da identificação e a orientação de mostrá-lo antes de qualquer transfusão, em qualquer serviço — é a orientação que o regulamento manda dar ao paciente com anticorpo clinicamente significativo. O resumo de alta registra as duas transfusões e a de vinte anos atrás. Se um dia precisar de cirurgia eletiva, a agência deve ser avisada com antecedência, porque o estudo imuno-hematológico de quem tem anticorpo leva mais tempo que o de rotina. A esposa pergunta se ele pode voltar a doar sangue, como fazia; a resposta sobre doação fica com o hemocentro, na triagem.
Faça você
Serafina Pinho, 24 anos, 52 quilos, estudante de enfermagem, tem doença falciforme do genótipo SS e teve síndrome torácica aguda há três semanas, com passagem pela terapia intensiva. Recuperada, volta ao hemocentro, e a hematologista a inclui em programa de transfusão de troca, que o protocolo nacional indica por pelo menos seis meses depois do episódio, com a meta de levar o hematócrito de 22% a 30% em cada sessão, por troca manual — o serviço não tem eritrocitaférese. O residente abre o protocolo, aplica a fórmula da troca exatamente como está impressa e anota no plano: volume de troca de 1.387 mL. A fenotipagem de Serafina, feita ao diagnóstico, está no registro; ela nunca teve anticorpo. A última ferritina é de 1.450 µg/L.
a conta do residente, refeita passo a passo
Volemia pela regra do protocolo: 52 × 60 = 3.120 mL. Numerador: (0,30 − 0,22) × 3.120 = 249,6. Denominador como está impresso: 0,70 − (0,22 + 0,30) = 0,18. Resultado: 1.387 mL. Complete: se esse volume de sangue for de fato trocado por concentrado de hemácias a 70%, onde termina o hematócrito de Serafina?
o denominador que falta
Na troca isovolêmica, o sangue que sai tem o hematócrito da paciente naquele momento, que começa em 22% e termina em 30%. Complete a conta usando a média dos dois no denominador, e confira com a solução exata da troca: volemia × ln[(0,70 − 0,22) ÷ (0,70 − 0,30)].
a bolsa que ela deve receber
O protocolo nacional e o regulamento técnico definem os requisitos das hemácias para uma pessoa com doença falciforme em programa crônico. Complete: para quais antígenos compatibilizar, que modificação pedir, que restrição existe sobre o sangue do doador e em que situação ela precisaria de componente irradiado.
o que o programa precisa vigiar
Serafina vai receber hemácias a cada sessão por meses. Complete: quais são os três riscos que o seguimento tem de medir, com que exame, e por que a troca é preferida à transfusão simples para um deles.
Ver como fecharíamos
Trocar 1.387 mL numa volemia de 3.120 mL, com concentrado a 70%, levaria o hematócrito a cerca de 39% — nove pontos acima da meta, com hemoglobina S ainda circulando, que é a hiperviscosidade que a troca existe para evitar. Com a média no denominador: 249,6 ÷ [0,70 − (0,22 + 0,30) ÷ 2] = 249,6 ÷ 0,44 = 567 mL; a solução exata, 3.120 × ln(0,48 ÷ 0,40), dá 569 mL. O volume certo é de cerca de 570 mL, e a fórmula impressa erra 2,4 vezes para mais neste caso — erro auditado nas notas do bloco de critério. As hemácias devem ser compatíveis para Rh e K, desleucocitadas e de doador sem hemoglobina S nem traço falciforme; irradiado só se ela for potencialmente elegível a transplante de células-tronco hematopoéticas. O seguimento mede três riscos: aloimunização, com pesquisa de anticorpos em cada amostra e fenotipagem estendida se aparecer anticorpo; reação hemolítica tardia e hiper-hemólise, lembrando que dor nova com hemoglobina abaixo da pré-transfusional depois de uma sessão não se trata com outra bolsa; e sobrecarga de ferro, com ferritina seriada. É para esta última que o protocolo prefere a troca à transfusão simples, porque a troca retira hemácias ao mesmo tempo em que repõe. Aplicação clínica: esta comparação de fórmulas é uma conferência matemática, não prescrição suficiente de troca manual. O procedimento exige plano do centro de referência, meta de HbS e hematócrito, volume retirado e infundido em cada etapa, balanço e monitorização. Não executar uma troca apenas pelo volume total calculado no exercício.
A volemia é 50 × 60 = 3.000 mL, e o numerador, (0,30 − 0,20) × 3.000 = 300. Na troca isovolêmica o sangue retirado tem o hematócrito da paciente ao longo do procedimento, que vai de 20% a 30%, e a forma linear usa a média, 25%: 300 ÷ (0,70 − 0,25) = 667 mL, praticamente igual à solução exata, 3.000 × ln(0,50 ÷ 0,40) = 669 mL. O protocolo nacional de 2024 imprime o denominador sem dividir a soma por dois, o que dá 1.500 mL e levaria o hematócrito a cerca de 40%, com risco de hiperviscosidade. A conta de 430 mL é a da transfusão simples. O resultado depende das hipóteses matemáticas de mistura e reposição; não define sozinho procedimento, metas de HbS, sequência de retirada/reposição ou segurança hemodinâmica. A troca é planejada e monitorada pela equipe de hemoterapia.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Justifique a escolha entre hemácias, plaquetas, plasma e nenhuma transfusão em quatro situações clínicas. Descreva a conferência à beira do leito e como avaliar o efeito obtido.
Em 30 dias
Uma pessoa apresenta dispneia durante ou após transfusão. Organize as primeiras medidas e compare sobrecarga circulatória, lesão pulmonar e outras reações. Explique por que uma segunda bolsa exige nova avaliação.
Agora atenda
Agora atenda: Domiciano Pessoa, 70 anos, 66 quilos, com leucemia linfocítica crônica tratada com fludarabina até quatro meses atrás, chega ao pronto-atendimento com cansaço, falta de ar ao caminhar e febre de 38,4 °C. Hemoglobina de 6,8 g/dL, plaquetas de 7.000/µL, nenhum sangramento. O plantonista já escreveu duas unidades de concentrado de hemácias e seis unidades de plaquetas, e o filho, na sala de espera, se oferece para doar sangue para o pai. Antes de assinar a requisição, decida quantas bolsas, de quê, com que modificação e com que história escrita.
