Clínica Médica › Hematologia e Hemoterapia
Quem sobreviveu à infância
Anemia falciforme e hemoglobinopatias
O adulto com doença falciforme chega ao pronto-socorro com dor e sai do hospital com o que ninguém ofereceu: a analgesia se dá na primeira hora, a síndrome torácica se procura todos os dias da internação, a febre é urgência pela vida inteira e, desde 2024, a hidroxiureia se oferece pelo genótipo.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de novembro de 2024 (revoga a Portaria Conjunta SAS/SCTIE nº 5/2018). Relatório de Recomendação Conitec nº 924, agosto de 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. ISBN 978-65-5993-501-7.
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DeBaun MR, Jordan LC, King AA, Schatz J, Vichinsky E, Fox CK, et al. American Society of Hematology 2020 guidelines for sickle cell disease: prevention, diagnosis, and treatment of cerebrovascular disease in children and adults. Blood Advances. 2020;4(8):1554-1588. doi:10.1182/bloodadvances.2019001142.
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolos de Suporte Avançado de Vida — SAMU 192. Protocolo AC37: Manejo da Dor (elaboração agosto de 2014, revisão março de 2015). Brasília: Ministério da Saúde.
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Responda antes de ler
Mulher de 28 anos, 60 kg, com doença falciforme SS, usa hidroxiureia há cinco meses e teve a dose aumentada para 1.500 mg/dia há quatro semanas. Usa implante contraceptivo. O hemograma de controle mostra neutrófilos de 1.300, plaquetas de 190.000, hemoglobina de 8,8 g/dL e reticulócitos de 120.000 por mm³. Está sem febre e sem queixas. Qual é a conduta?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, duas e dez da madrugada, pronto-socorro de um hospital geral com trinta leitos de observação e nenhum hematologista de plantão. Você é o interno da noite. Na ficha de triagem do box 4, a enfermeira escreveu: “paciente conhecido do setor, 11 atendimentos neste ano, refere dor em lombar e coxas, solicita morfina, diz ter alergia a tramadol”. A classificação veio amarela. A hora de chegada impressa na pulseira é 1h20.
No box está Juvêncio Fiúza, 24 anos, 58 quilos, auxiliar de almoxarifado num frigorífico. Tem doença falciforme do genótipo SS, descoberta no teste do pezinho, e foi acompanhado no hemocentro até os 18 anos. Depois que saiu do ambulatório infantil, não voltou: marcaram uma consulta no ambulatório de adultos para dali a sete meses, ele perdeu o dia porque não conseguiu folga, e ninguém ligou. A dor começou às oito da noite, depois de um turno inteiro entrando e saindo da câmara fria. Tomou dipirona 1 g às nove e à meia-noite, sem efeito.
Ele está encolhido de lado, suado, com a mão espalmada na coxa direita. Pressão de 128 por 76, frequência cardíaca de 112, frequência respiratória de 20, temperatura axilar de 37,4 °C, saturação de 96% em ar ambiente. Escleras amareladas, mucosas descoradas. Não tem dor torácica, tosse, falta de ar, dor abdominal, priapismo nem fraqueza de um lado do corpo. Pede para você a nota da dor antes que você pergunte: nove.
Da carteira ele tira um cartão plastificado do hemocentro, de seis anos atrás, com a letra da hematologista pediátrica: hemoglobina basal de 8,2 g/dL, fenotipagem eritrocitária feita, síndrome torácica aguda aos 15 anos com passagem pela terapia intensiva, e uma linha escrita “na crise: morfina venosa, dose que funciona para ele anotada no prontuário do hemocentro”. Diz também que nunca tomou hidroxiureia: “falaram que eu não precisava, porque não tinha tanta crise”.
O plantonista, entrando na sala de emergência com um politraumatizado, deixa a orientação no corredor: “Faz dipirona, pede um hemograma e observa. Se a hemoglobina estiver no basal dele, ele vai embora de manhã. Esse aí vem toda semana.” São duas e quinze. Juvêncio está no serviço há 55 minutos e ainda não recebeu nada.
Este capítulo é sobre esse adulto — o que sobreviveu à infância e agora chega pela porta da clínica médica. Três perguntas organizam o que vem a seguir. Primeiro, qual é o relógio da analgesia, e o que a desconfiança da equipe faz com ele. Segundo, o que pode aparecer nas próximas 72 horas e matar alguém que entrou só com dor: a síndrome torácica aguda, a febre do asplênico, o déficit neurológico. Terceiro, o que este homem precisa levar na alta e que nunca lhe foi oferecido: hidroxiureia pela regra de 2024, vacinas de quem não tem baço funcionante e um lugar para ser seguido.
Quem adoece disso
O protocolo nacional da doença falciforme, de novembro de 2024, calcula em 4% a parcela de brasileiros portadores do traço falciforme — número que esconde a geografia: no Norte e no Nordeste, a estimativa sobe para algo entre 6% e 10%. A consequência prática é que, num pronto-socorro de Salvador ou de São Luís, de cada dez a dezesseis adultos atendidos num turno, um carrega o gene — e a eletroforese de hemoglobina de um casal deixa de ser curiosidade para virar informação genética que o próprio protocolo manda oferecer.
Pelo relatório do Programa Nacional de Triagem Neonatal citado no protocolo, 5.428 recém-nascidos receberam o diagnóstico de doença falciforme entre 2014 e 2018, perto de 1.100 por ano. Cada uma dessas crianças triadas é um adulto que vai chegar à clínica médica dali a duas décadas. O mesmo documento reconhece que não há contagem recente de quantas pessoas vivem com a doença no país: a última estimativa que ele traz é de 2007, entre 25.000 e 50.000 pessoas com anemia falciforme ou com a doença na forma de heterozigoto composto. O Brasil planeja o cuidado do adulto sem saber quantos adultos existem.
A doença se concentra na população negra — pretos e pardos —, com maior prevalência no Norte e no Nordeste, e o protocolo escreve com todas as letras que ela foi negligenciada e invisibilizada por muito tempo por racismo estrutural e institucional. No relatório da Conitec anexado ao mesmo documento aparece a outra face disso, que é a do pronto-socorro: por a doença ser pouco compreendida, é comum o atendimento hospitalar inadequado e o estigma em torno de quem busca alívio da dor na crise. O rótulo de “poliqueixoso” escrito na triagem de Juvêncio não é detalhe de cena; é o dano mais comum da doença no adulto, e ele atrasa a analgesia exatamente de quem mais precisa dela.
A sobrevida mudou de patamar e mudou o problema. O protocolo registra que a sobrevida das pessoas com doença falciforme no Brasil chega a quase 80% até os 18 anos — e, logo em seguida, que a mortalidade aumenta dos 18 aos 30 anos, na fase em que o jovem sai do tratamento pediátrico, com piora da gravidade e mais uso de atendimento de emergência. O documento acrescenta que atualmente não existem, no país, programas oficiais estruturados de transição de cuidados para a doença falciforme. É por isso que o adulto do plantão costuma chegar como Juvêncio: sem retorno marcado, sem hidroxiureia e com o cartão da pediatria na carteira.
Os genótipos não pesam igual. O genótipo SS é o mais comum e o mais grave; segundo o quadro de síndromes do protocolo, entre 25% e 30% das pessoas de origem africana com a doença têm o genótipo SC, que costuma ter hemoglobina basal mais alta. Isso importa para o adulto porque a hemoglobina “quase normal” de quem é SC tranquiliza a equipe, enquanto a retinopatia proliferativa, que o protocolo descreve como mais comum justamente no SC, segue sem rastreamento.
No adulto, a doença cobra no rim, no pulmão, no cérebro e no olho. A falência renal é causa frequente de óbito acima dos 40 anos, e o protocolo manda monitorar a função renal quatro a seis vezes ao ano na idade adulta. A faixa etária mais acometida pela retinopatia está entre 20 e 39 anos. Sobre o cérebro, não há número brasileiro para o adulto: a diretriz cerebrovascular da Sociedade Americana de Hematologia, de 2020, cita uma coorte americana anterior a 1990 em que, aos 40 anos, cerca de 20% das pessoas SS e 10% das SC já tinham tido um acidente vascular cerebral. É dado estrangeiro e antigo, e é usado aqui só para dimensionar: um em cada cinco adultos SS, sem prevenção, chega aos 40 com um evento cerebral.
A medida de maior impacto também tem número. Segundo o protocolo, a hidroxiureia corta em 40% o risco de morrer, diminui bastante as crises de dor e derruba aproximadamente à metade tanto as transfusões quanto os episódios de síndrome torácica aguda. Quando o adulto que chega pela quinta vez no ano nunca foi apresentado ao medicamento, o que está faltando não é mais uma dose de dipirona: é a conduta que muda a curva.
Por que acontece o que acontece
Tudo começa numa troca de um aminoácido na cadeia beta da globina, que produz a hemoglobina S. Oxigenada, ela se comporta quase como a normal. Quando perde o oxigênio, as moléculas se juntam em polímeros longos, a hemácia fica rígida e se deforma em foice. O protocolo nacional resume a consequência que interessa ao clínico: a gravidade da doença acompanha, entre outros fatores, a concentração de hemoglobina S dentro da hemácia. Por isso o que dilui a hemoglobina S protege. A hemoglobina A do portador do traço, acima de 60% no laudo, impede a polimerização em condições comuns, e é por isso que o traço não caracteriza anemia nem doença. A hemoglobina fetal não entra no polímero, e é nela que a hidroxiureia vai mexer.
A mesma hemácia doente produz dois quadros ao mesmo tempo. O primeiro é a anemia hemolítica crônica: a célula falcizada vive pouco, a hemoglobina basal do adulto SS ou S-beta zero fica tipicamente entre 6 e 9 g/dL, os reticulócitos ficam aumentados, entre 4% e 10%, e a bilirrubina indireta mantém as escleras amareladas — o que explica o olho de Juvêncio num dia sem crise nenhuma. O segundo é a vaso-oclusão: hemácias rígidas e aderentes param na microcirculação, o tecido a jusante fica em hipóxia regional, e a isquemia dispara inflamação. Anemia e oclusão não andam juntas em intensidade: hemoglobina mais alta não quer dizer doença mais branda, e o próprio protocolo alerta para hiperviscosidade quando a hemoglobina sobe de repente depois de uma transfusão.
A crise tem gatilhos que o protocolo lista e que se reconhecem na anamnese: frio ou mudança brusca de temperatura, infecção e febre, desidratação, menstruação, gravidez e fatores psicológicos. A desidratação é fácil de acontecer por um motivo renal. A medula do rim tem pH baixo e pouco oxigênio — o ambiente ideal para a falcização —, e as oclusões repetidas destroem a capacidade de concentrar a urina. Por isso esse adulto enche a bexiga de urina diluída o dia inteiro, perde água sem perceber, e a água que falta é o gatilho da próxima crise. O turno na câmara fria, sem água, fechou esse circuito para Juvêncio.
A dor da crise é isquêmica e dura, segundo o protocolo, de quatro a seis dias, podendo se estender por semanas. Com os anos, soma-se outra dor. O mesmo documento descreve a dor crônica da doença falciforme como diferente da dor oncológica: intercalada com crises agudas, com componente neuropático, sensibilização periférica e central e hiperalgesia induzida por opioide. Na prática, isso significa que o adulto que vive com dor quase todos os dias sente mais dor com o mesmo estímulo, e que escalar opioide sem plano pode piorar o quadro que se quer tratar. Não significa que a dor dele seja menos real — significa que ela tem mecanismo, e que o tratamento precisa de plano, não de desconfiança.
O pulmão é o órgão mais perigoso da crise. No leito arterial do pulmão o sangue corre devagar e com pouco oxigênio — justamente as duas condições em que a hemácia falciza. A síndrome torácica aguda se alimenta de um ciclo: infarto ou infecção num segmento pulmonar reduz a oxigenação, a hipoxemia falciza mais hemácias, a oclusão amplia a área doente. Três coisas da própria internação por crise empurram esse ciclo: a respiração superficial de quem tem dor no tórax, na coluna ou no abdome; a sedação do opioide; e o excesso de líquido, que o protocolo cita como risco de edema pulmonar. É por isso que a espirometria de incentivo, que o protocolo recomenda a quem é internado por dor, não é detalhe de fisioterapia: em crianças internadas por crise, a síndrome torácica apareceu em 5% das que fizeram dez inspirações máximas a cada duas horas acordadas, contra 42% das que não fizeram.
O baço sofre oclusões desde a infância, fibrosa e atrofia. O manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais descreve a asplenia funcional como permanente por volta dos seis a oito anos, somada a defeitos de opsonização. O adulto com doença falciforme, portanto, não tem baço funcionante, e as infecções graves por germes capsulados — pneumococo, Haemophilus influenzae tipo b e meningococo — o acompanham pela vida. O protocolo atribui ao pneumococo 70% das infecções nessa população. Nos genótipos SC e S-beta talassemia o baço pode continuar aumentado na idade adulta, e aí a crise de sequestro esplênico, que se imagina como coisa de criança pequena, continua possível.
O dano crônico vem da vasculopatia somada à hemólise. No rim, a hiperfiltração glomerular vem antes da proteinúria e da perda de função; como a filtração está aumentada nessa fase, a creatinina tende a ficar baixa, e um valor “normal” para a população já pode ser perda para esse paciente. Na pele do tornozelo, a disfunção endotelial, a trombose e a inflamação produzem a úlcera de perna. Nos corpos cavernosos, a oclusão produz o priapismo. Na cabeça do fêmur, a isquemia produz a osteonecrose. Na retina, a oclusão e a neovascularização produzem a retinopatia proliferativa. Nas artérias cerebrais, o estreitamento produz o acidente vascular cerebral isquêmico. Cada uma dessas lesões tem uma pergunta de rastreamento que o adulto precisa ouvir no ambulatório, e que Juvêncio deixou de ouvir aos 18 anos.
A hidroxiureia inibe a ribonucleotídeo redutase, e o efeito que interessa é o aumento da hemoglobina fetal. Segundo o protocolo, ela também aumenta a hidratação da hemácia, a hemoglobina total e a produção de óxido nítrico, e reduz a hemólise e as moléculas de adesão. A mielossupressão é a toxicidade previsível e limitante, e por isso a dose sobe aos poucos, com hemograma. A macrocitose que ela produz é esperada e pode mascarar deficiência de folato. As talassemias seguem outra lógica: a hemoglobina é normal, mas uma das cadeias de globina é produzida em quantidade reduzida, e a hemácia sai pequena. Sozinhas, no portador, dão microcitose com pouca anemia; combinadas com o gene S, na S-beta zero, eliminam a hemoglobina A e deixam o quadro tão grave quanto o SS.

Como se apresenta de verdade
O adulto com doença falciforme chega ao hospital por seis portas, e cada uma tem uma pergunta que decide o destino. A crise vaso-oclusiva é a mais comum e a que mais esconde as outras. A síndrome torácica aguda nasce muitas vezes dentro da própria internação por dor. A febre é urgência pela vida inteira. O déficit neurológico é emergência transfusional com relógio de duas horas. As complicações crônicas — priapismo, úlcera de perna, osteonecrose, rim, pulmão, retina — aparecem aos poucos e se descobrem em quem é perguntado. E, fora da doença, estão o traço falciforme e as talassemias, que chegam como laudo de eletroforese e precisam ser separados de doença.
A criança com doença falciforme é do capítulo Anemia falciforme e traço falciforme: crises e manejo, na apostila de Hematologia Pediátrica. Este capítulo assume o adulto: a partir dos 18 anos, é aqui que estão a crise, a síndrome torácica, a febre, o déficit neurológico, as complicações crônicas, a hidroxiureia e o traço.
Percurso de aprendizagem
Relacione hemólise, vaso-oclusão e disfunção esplênica às manifestações e aos riscos do adulto.
Acompanhe dor, sedação, oxigenação e hemoglobina ao longo do caso; identifique os momentos de chamar hemoterapia, terapia intensiva ou urologia.
A crise vaso-oclusiva do adulto: como chega e o que não é crise
A dor da crise costuma estar na coluna lombar, nas coxas, nos braços, no tórax ou no abdome, às vezes em mais de um lugar ao mesmo tempo, e o protocolo nacional descreve duração típica de quatro a seis dias, podendo chegar a semanas. O adulto conhece a própria crise. Ele diz que “é igual às outras” e diz, com a mesma segurança, quando “essa está diferente” — e a segunda frase é sinal de alarme, não de exagero. A taquicardia de Juvêncio é de dor e de anemia; a saturação normal e a ausência de dor torácica, nesta hora, não garantem nada sobre amanhã.
Pedir um opioide pelo nome, dizer que tramadol não funciona, saber a dose que resolvia no hemocentro: tudo isso costuma ser lido na triagem como busca de droga. É o contrário. A diretriz de dor da Sociedade Americana de Hematologia, de 2020, recomenda justamente que a dose de opioide na crise seja individualizada pela terapia que funcionou antes e pelo uso basal, com um plano escrito para cada paciente. O adulto que traz a própria dose está entregando a informação que a diretriz manda procurar. O problema de verdade, que o protocolo registra no relatório anexo, é o estigma que atrasa o alívio.
O trabalho do interno é aliviar a dor e, ao mesmo tempo, procurar o que não é crise. Febre muda o eixo para infecção. Dor torácica, tosse, respiração curta ou saturação caindo mudam para síndrome torácica aguda. Dor abdominal com defesa ou distensão pede o raciocínio do capítulo Dor abdominal no pronto-socorro: quem opera, quem investiga, quem vai para casa, e a hemólise crônica deixa a colecistite calculosa na lista. Baço que cresce com hemoglobina que despenca, no adulto SC ou S-beta talassemia, é sequestro. Fraqueza de um lado, fala enrolada ou cefaleia súbita e intensa são emergência neurológica. Ereção dolorosa é priapismo. Dor óssea localizada que não cede, com edema e febre, pede o capítulo Osteomielite: hematogênica aguda na criança, crônica no adulto e a do pé diabético. E a dor de quadril que persiste entre as crises é osteonecrose até prova em contrário.
A analgesia não espera esse raciocínio terminar. O protocolo é explícito, a propósito do priapismo, em que a analgesia adequada não se suspende enquanto se aguarda avaliação do especialista, exame de imagem ou laboratório — e a regra vale para qualquer dor da doença. A farmacologia do opioide, a conversão entre vias e o manejo dos efeitos adversos estão no capítulo Analgesia na prática: escada, opioide, rodízio e efeitos adversos, que cede a este capítulo o manejo da crise da doença falciforme; aqui ficam o prazo, a dose inicial da crise, o que se soma ao opioide e o que não se faz.
Síndrome torácica aguda: a complicação que nasce dentro da internação
O protocolo define a síndrome torácica aguda pela presença de infiltrado pulmonar recente, não atelectásico, na radiografia de tórax, num quadro que pode incluir dor torácica intensa, tosse, febre, sintomas respiratórios e hipoxemia. Ela exige internação de urgência, e o mesmo parágrafo diz que saturação abaixo de 93% sinaliza necessidade de terapia intensiva, porque o quadro pode levar a óbito.
No adulto, ela aparece de dois jeitos. O primeiro é na porta: febre, tosse e dor torácica num paciente que parece ter pneumonia comum. O segundo, mais traiçoeiro, é dentro da enfermaria, no segundo ou terceiro dia de uma internação que começou por dor nas pernas: a febre sobe, a dor passa a ser no tórax, a frequência respiratória aumenta, a saturação cai alguns pontos. A radiografia da admissão estava limpa, e é por isso que o protocolo manda repeti-la a cada 24 horas no paciente com dor torácica ou crise grave cuja primeira imagem veio normal.
Os achados de exame são pobres no começo. A ausculta pode ser normal com infiltrado já presente, e a queda da saturação em relação à basal do próprio paciente costuma vir antes de qualquer estertor. Por isso a saturação de quem está internado por crise é sinal vital de horário, e não número de admissão. Quem já teve um episódio, como Juvêncio aos 15 anos, tem motivo a mais para vigilância: o protocolo indica programa de transfusão de troca por pelo menos seis meses depois da síndrome torácica, e a hidroxiureia reduz esses episódios em cerca de metade.
A causa é mista — infecção, infarto pulmonar por oclusão, hipoventilação —, e na prática não se separa na primeira hora. O protocolo cita a infecção por Mycoplasma pneumoniae e manda associar macrolídeo ao tratamento. A pneumonia comunitária do adulto sem doença falciforme, com o escore de gravidade e o destino, é do capítulo Pneumonia adquirida na comunidade (CURB-65 / gravidade); no paciente com doença falciforme, o infiltrado novo não se classifica por escore de pneumonia: é síndrome torácica aguda e interna.
Febre: urgência para a vida inteira
O adulto com doença falciforme não tem baço funcionante desde a infância, e o protocolo manda encarar a presença de febre como situação de urgência. Os sinais que ele lista são os de infecção em quem não tem margem: febre, prostração, toxemia, hipóxia, vômitos, desidratação, sintomas respiratórios e dor. O corte de 38,2 °C que aparece no documento é para criança abaixo de três anos. Para o adulto o protocolo não fixa temperatura, e esta apostila adota 38 °C, o mesmo corte usado no capítulo pediátrico, tratando como urgência qualquer febre acompanhada de calafrio, prostração, dor torácica ou queda da saturação.
Os focos que pesam no adulto são o pulmão, que se confunde com a síndrome torácica, a meninge, o sangue sem foco aparente, o osso e a pele da úlcera de perna. O protocolo lembra que a osteomielite nessa população precisa de cobertura para Staphylococcus aureus e Salmonella, e que a úlcera se superinfecta por Staphylococcus aureus, Pseudomonas, estreptococos e bacteroides, raramente com infecção sistêmica. Também registra que a covid-19 cursa com mais complicações bacterianas nesses pacientes e que mesmo o quadro leve pode evoluir para doença grave.
A febre no adulto SC ou S-beta talassemia tem uma armadilha própria: o baço pode estar aumentado e funcionar mal ao mesmo tempo. Febre com palidez intensa, baço crescendo e hemoglobina caindo abaixo da basal sugere sequestro esplênico, que evolui para choque hipovolêmico e pede transferência imediata e contato com o centro de referência.
Quando a febre vem com hipotensão, lactato alto ou disfunção orgânica, o paciente entra na trilha do capítulo Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais, que é dono do pacote da primeira hora. A febre sem foco no adulto sem doença falciforme é do capítulo Febre sem foco no adulto, que já coloca o asplênico entre os que não têm margem. O que é deste capítulo é o que muda por causa da doença: a coleta que o protocolo pede, o antibiótico que cobre germe capsulado e o que fazer com a hemoglobina e com o pulmão desse paciente.
Déficit neurológico agudo: emergência transfusional com relógio de duas horas
O adulto com doença falciforme tem acidente vascular cerebral isquêmico por vasculopatia das grandes artérias e também pelos mesmos motivos da população geral, que chegam com a idade: hipertensão, diabetes, fibrilação atrial, dislipidemia. Fraqueza súbita, desvio de rima, alteração de fala, perda visual ou ataque isquêmico transitório já resolvido, num paciente com o genótipo SS ou S-beta zero, abrem ao mesmo tempo duas trilhas.
A primeira é a trilha de qualquer adulto com déficit agudo: horário do último momento sem sintomas, glicemia, tomografia, e a decisão sobre trombólise e trombectomia, que são do capítulo Déficit neurológico focal agudo: a janela e o relógio e do capítulo AVC isquêmico: janela terapêutica, trombólise e trombectomia. A segunda trilha é a da doença falciforme, e ela não tem dono no protocolo federal do AVC isquêmico agudo, que não menciona a doença. Quem a escreve é a diretriz cerebrovascular da Sociedade Americana de Hematologia, de 2020, e o protocolo nacional da doença falciforme concorda no essencial, ao listar o evento cerebral agudo, instalado ou transitório, como motivo de troca, com a simples reservada para quando não há como trocar.
A diretriz americana recomenda, com evidência de certeza alta, transfusão imediata diante de déficit neurológico agudo, inclusive ataque isquêmico transitório, sem passar de duas horas da chegada. Prefere a troca à transfusão simples; quando a troca não está disponível em duas horas e a hemoglobina está em 8,5 g/dL ou menos, a transfusão simples é feita para não atrasar enquanto a troca é organizada. A técnica da troca, o volume e a escolha da bolsa são do capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais, desta apostila.
A trombólise, no adulto, não é proibida pela doença. A diretriz sugere decisão compartilhada: o trombolítico não pode atrasar a transfusão; ele pode ser considerado pelos critérios habituais; idade mais alta, fibrilação atrial, diabetes, hipertensão e dislipidemia sugerem que o evento é de mecanismo comum e que há benefício; no adulto jovem sem esses fatores, a ênfase é a transfusão precoce. Abaixo de 18 anos a trombólise não é recomendada. Existe ainda o infarto silencioso — lesão de pelo menos 3 mm em dois planos da ressonância sem achado no exame neurológico, na definição do protocolo —, que se associa a déficit cognitivo, e a diretriz sugere ressonância ao menos uma vez no adulto SS ou S-beta zero para procurá-lo. Queixa de memória, de atenção ou de rendimento no trabalho, nesse adulto, é pergunta de ambulatório.
O que o adulto acumula: priapismo, úlcera, osso, rim, pulmão e retina
Aquilino Serra, 29 anos, SS, conta no fim de uma consulta, olhando para o chão, que tem ereções dolorosas de madrugada “desde os 15”, que duram uma ou duas horas e passam com banho morno, e que dessa vez durou cinco horas. O protocolo descreve o priapismo como ereção involuntária, prolongada e dolorosa, sem relação com atividade sexual, muitas vezes subdiagnosticado e às vezes o primeiro sinal de outras complicações. Nas primeiras duas horas cabem hidratação, banho morno, caminhada, esvaziar a bexiga, compressa morna e analgesia. Passadas duas a quatro horas, é emergência: hospitalização, esvaziamento da bexiga por sonda, hidratação, analgesia venosa, avaliação do urologista e contato com o centro de referência. Episódios prolongados deixam necrose, fibrose e disfunção erétil. Mais de um episódio de priapismo está entre os critérios do protocolo para transplante de células-tronco, o que diz o tamanho do problema.
A úlcera de perna aparece em geral depois dos dez anos, espontânea ou depois de um trauma pequeno, nos maléolos medial e lateral, muitas vezes nos dois lados. Dói, incapacita e isola, e o exame mostra os estigmas de doença venosa: hemossiderose, dermatoesclerose, veias superficiais proeminentes. Ferida que estaciona por seis semanas ou mais, mesmo bem cuidada, já é crônica pelo protocolo. A úlcera de perna do diabético e da insuficiência venosa é do capítulo Pé diabético e úlceras de membros inferiores; a da doença falciforme fica aqui, porque o que a faz fechar é tratar a doença, e não só o curativo.
A osteonecrose se apresenta como dor de quadril ou de ombro que não acompanha as crises: começa aos poucos, persiste entre elas e piora com o apoio. O protocolo a separa da dor vaso-oclusiva justamente para dizer que a dor ortopédica por necrose avascular pode ter tratamento cirúrgico e não deve ser tratada indefinidamente com opioide. Osteonecrose em mais de uma articulação é outro dos critérios para transplante.
O rim avisa cedo e baixo. A hipostenúria faz o adulto urinar muito, de dia e de noite; depois vêm a proteinúria e a albuminúria, e a insuficiência renal é causa frequente de óbito acima dos 40 anos. A anemia que piora sem hemólise nova, num paciente SS com rim doente, pode ser falta de eritropoetina, e o protocolo prevê alfaepoetina para o adulto SS ou S-beta zero em uso de hidroxiureia que perde hemoglobina ou precisa de transfusões frequentes. O estadiamento e o manejo geral da doença renal crônica são do capítulo Doença renal crônica: estadiamento e manejo.
O pulmão e o coração cobram em silêncio. O protocolo descreve a hipertensão pulmonar como frequente e de sintomas inespecíficos — dispneia crônica, dor torácica, pré-síncope, menos tolerância ao exercício ou só redução das atividades do dia —, e acrescenta a disfunção diastólica, a fibrose miocárdica e o risco de arritmia. Não há capítulo de hipertensão pulmonar neste nível, e o rastreamento do adulto com doença falciforme fica com este capítulo.
A retina é a lesão do genótipo que parece brando. A retinopatia proliferativa é mais comum no SC do que nos outros genótipos, e a faixa mais acometida vai dos 20 aos 39 anos. Os capítulos de retina deste nível tratam da retinopatia diabética e da hipertensiva; o exame anual da retina do adulto com doença falciforme, que o protocolo manda manter desde os dez anos, é assumido aqui. A hemólise crônica também produz cálculo biliar, e a colecistite do adulto segue o capítulo Colecistite aguda e colelitíase (critérios de Tóquio).
Traço falciforme e talassemias: o que é portador e o que é doença
O traço falciforme é o genótipo AS. No laudo, a hemoglobina A passa de 60%, e o protocolo diz, no quadro de síndromes, que o traço é geralmente assintomático e não caracteriza anemia. O cuidado com o portador, pelo mesmo documento, é registrar no prontuário, orientar e oferecer informação genética; não há necessidade de encaminhamento ao centro de referência, mas recomenda-se avaliação esporádica ao longo da vida por clínicos treinados. Na prática do adulto, isso significa duas coisas: o traço não explica anemia nenhuma, e uma hemoglobina baixa num portador tem outra causa, a investigar como qualquer anemia; e o traço importa para quem vai ter filhos.
A mulher grávida portadora e a eletroforese do parceiro são do capítulo Anemia na gestação e diagnóstico diferencial, na apostila de Obstetrícia, que assumiu esse passo. Fora da gestação, o adulto portador que pergunta o que o traço significa para os filhos é deste capítulo: dois portadores AS têm, a cada gestação, a chance de ter um filho SS, e a conversa com o casal é a orientação genética que o protocolo manda oferecer.
Nem toda eletroforese com hemoglobina S é traço. O quadro de síndromes falciformes do protocolo separa os genótipos por aquilo que o laudo mostra: no SS e no S-beta zero não há hemoglobina A, e a gravidade é a mesma; no S-beta mais a hemoglobina A aparece entre 1% e 30%, e o quadro vai do leve ao grave; no SC aparece a hemoglobina C; no S com persistência hereditária de hemoglobina fetal o quadro costuma ser assintomático; e a associação do SS com alfa-talassemia tende a ter curso mais leve. O laudo que mostra S sem A não é traço, ainda que o paciente tenha chegado aos 30 anos sem diagnóstico.
As talassemias chegam ao adulto como microcitose. A talassemia beta menor dá microcitose intensa com anemia leve, e o capítulo Anemia ferropriva e investigação de anemias microcíticas, desta apostila, é dono do diferencial laboratorial com a ferropenia e com a anemia de doença crônica — inclusive da armadilha de dosar a hemoglobina A2 com o ferro baixo. Aquele capítulo remete as talassemias a capítulo próprio, e este as assume no que vem depois do laudo: o portador não recebe ferro sem deficiência de ferro demonstrada, recebe informação genética como o portador do traço falciforme, e o adulto com talassemia que depende de transfusão vai para o hematologista, com a sobrecarga de ferro seguindo o capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais.
Como fechar o diagnóstico
Não existe exame que confirme crise vaso-oclusiva, e nenhum exame autoriza atrasar a analgesia. A investigação do adulto com doença falciforme serve a outras perguntas: quanto a hemoglobina se afastou da basal dele, se há hemólise nova ou medula parada, se o pulmão, o sangue, a meninge ou o cérebro estão envolvidos, e se o paciente vai precisar de sangue nas próximas horas. A regra do plantonista — hemoglobina no basal, alta de manhã — confunde essas perguntas com a da dor.
Na porta da crise: o que pedir, com o que comparar e o que não esperar
O hemograma com reticulócitos só tem sentido comparado com a basal do próprio paciente. Juvêncio traz 8,2 g/dL no cartão. Uma hemoglobina de 7,9 g/dL, amanhã, é o esperado; uma de 6,4 g/dL é queda de 1,8 g/dL, e o protocolo usa a queda de 1,5 g/dL em relação à basal como um dos gatilhos de transfusão. Reticulócitos altos confirmam que a medula está respondendo. Hemoglobina caindo com reticulócitos baixos — contra os 4% a 10% habituais — sugere crise aplástica, que o protocolo lista entre as manifestações agudas e que é emergência hematológica, porque a anemia não tem freio.
Bilirrubina indireta e desidrogenase láctica estão altas todos os dias nesse paciente; o que interessa é a mudança. Creatinina e exame de urina entram por dois motivos: a proteinúria e a hipostenúria dizem como está o rim, e a decisão de somar anti-inflamatório ao opioide depende disso. Uma creatinina de 1,0 mg/dL num adulto jovem com doença falciforme, que tende a filtrar acima do normal, não é tranquilizadora como seria em outra pessoa.
Na mesma coleta, peça tipagem ABO e RhD e ligue para o hemocentro pedindo o registro de fenotipagem e de anticorpos. O protocolo manda transfundir esse paciente com hemácias compatíveis pelo menos para Rh e K, desleucocitadas e sem hemoglobina S; a síndrome torácica que aparece no segundo dia não vai esperar o hemocentro abrir na segunda-feira. As regras da bolsa são do capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais; o telefonema às três da manhã é deste.
Oximetria de pulso com a pergunta “qual é a sua saturação de costume?” e radiografia de tórax quando houver dor torácica, tosse, febre, falta de ar ou queda da saturação. Juvêncio, sem nenhum desses achados, não precisa de radiografia na admissão — mas a saturação dele entra na prescrição como sinal vital de horário, porque a síndrome torácica da internação se anuncia por ali.
Quando a hipótese é síndrome torácica aguda
O exame que define é a radiografia de tórax com infiltrado novo, não atelectásico. Na suspeita, o protocolo manda internar e monitorar hemograma, reticulócitos, hemocultura, saturação e radiografia, e repetir a radiografia a cada 24 horas se a primeira vier normal no paciente com dor torácica ou crise grave. A queda da saturação abaixo da basal costuma anteceder a imagem; um paciente que saturava 97% e passa a 92% com a mesma frequência respiratória está dizendo algo, ainda que o pulmão pareça limpo.
Quando o oxímetro é pouco confiável ou o esforço respiratório aumenta, a gasometria arterial mede a hipoxemia de verdade. O hemograma decide a transfusão pela queda em relação à basal e pelo valor absoluto: o protocolo registra que a transfusão pode não ser necessária com hemoglobina de 9 g/dL ou mais, e que a progressão rápida pede troca ou transfusão simples de urgência.
O diferencial que muda conduta é o tromboembolismo pulmonar, que o protocolo inclui entre as complicações pulmonares da doença: dor pleurítica com hipoxemia desproporcional à imagem, em quem está imóvel no leito, pede a investigação habitual de embolia. A pneumonia comum não entra como diferencial excludente: infiltrado novo em quem tem doença falciforme recebe o tratamento da síndrome torácica, que já inclui a cobertura da pneumonia.
Febre: a coleta que o protocolo pede, sem atrasar o antibiótico
Na admissão do adulto febril, o protocolo manda colher hemograma com reticulócitos, exame de urina tipo I, proteína C reativa, hemocultura e urocultura, e radiografia de tórax; o líquor, só nos casos de toxemia ou de suspeita de infecção do sistema nervoso central. A ordem do pronto-socorro é: acesso, hemoculturas, antibiótico, e a radiografia a caminho. A punção lombar não atrasa o antibiótico de quem tem suspeita de meningite.
O exame físico procura o que a doença esconde. Palpe o baço de todo adulto SC ou S-beta talassemia febril, e compare a hemoglobina com a basal: baço crescendo com hemoglobina caindo é sequestro. Olhe os tornozelos: úlcera com secreção, bordas quentes e dor nova é foco. Procure dor óssea localizada e edema, que levam ao capítulo de osteomielite, onde a cobertura precisa incluir Staphylococcus aureus e Salmonella, como o protocolo lembra.
Pressão arterial, frequência respiratória, nível de consciência e lactato decidem se a febre já é sepse. O rastreamento e o pacote da primeira hora seguem o capítulo Sepse e choque séptico: identificação precoce e pacotes iniciais; este capítulo não repete o pacote, só lembra que o paciente asplênico chega a ele mais cedo e com menos aviso.
Déficit neurológico: a imagem da trilha comum e os números da trilha falciforme
A tomografia de crânio, a glicemia, a hora do último momento sem sintomas e a decisão sobre reperfusão seguem os capítulos de déficit neurológico focal agudo e de AVC isquêmico. Em paralelo, e na mesma coleta, este paciente precisa de hemoglobina, tipagem com o registro de fenotipagem e contato imediato com a agência transfusional, porque a transfusão tem prazo de duas horas pela diretriz cerebrovascular da Sociedade Americana de Hematologia.
Dois dados do prontuário decidem o caminho. O primeiro é a hemoglobina: se a troca não pode começar em duas horas e a hemoglobina está em 8,5 g/dL ou menos, a diretriz manda fazer transfusão simples para não atrasar, enquanto a troca é organizada; acima disso, a transfusão simples sobe a hemoglobina a ponto de arriscar hiperviscosidade — risco que o protocolo nacional também registra —, e o caminho é organizar a troca com o centro de referência o mais rápido possível. O segundo é o perfil de risco vascular — fibrilação atrial no eletrocardiograma, diabetes, hipertensão, dislipidemia, idade —, que a diretriz usa para dizer quem tende a se beneficiar da trombólise e em quem a ênfase deve ser a transfusão.
O ambulatório do adulto: o rastreamento que precisa ser repetido
O protocolo diz que pessoas de qualquer idade com doença falciforme devem ser acompanhadas em centro de referência com hematologista e acesso a radiologia, cardiologia, pneumologia, ortopedia, urologia e ginecologia e obstetrícia. Na enfermaria, o papel do interno é deixar esse rastreamento pedido e escrito na alta, porque o paciente que ficou seis anos fora do hemocentro não fez nenhum deles.
Rim: creatinina e pesquisa de proteinúria e albuminúria, que o protocolo manda repetir quatro a seis vezes ao ano no adulto. Coração e pulmão: ecocardiograma transtorácico com a velocidade do jato de regurgitação tricúspide, a partir do fim da adolescência, complementado pelo teste de caminhada de seis minutos; pressão sistólica da artéria pulmonar estimada acima de 30 mmHg é hipertensão pulmonar possível, e o diagnóstico definitivo exige cateterismo direito. Retina: exame oftalmológico anual. Osso: dosagem de vitamina D anual e densitometria a cada três anos, e investigação de osteonecrose quando a dor de quadril ou de ombro persistir fora das crises. Boca: avaliação periódica pela equipe de saúde bucal.
Cérebro: ressonância magnética ao menos uma vez no adulto SS ou S-beta zero, pela diretriz cerebrovascular americana, para procurar infarto silencioso, e atenção para queixa cognitiva. Ferro: ferritina, ferro sérico e saturação da transferrina antes de qualquer suplementação, porque o protocolo diz que a anemia da doença falciforme não é ferropriva e só indica ferro quando esses marcadores mostram deficiência; no adulto transfundido, a mesma ferritina serve à pergunta oposta, a da sobrecarga. Folato: dosagem sérica, que o protocolo coloca como condição para suplementar.
O laudo de eletroforese: quem é doente, quem é portador e o que pedir quando não fecha
O hemograma levanta a suspeita e não confirma. O protocolo descreve volume corpuscular médio e concentração de hemoglobina corpuscular média reduzidos, leucócitos e reticulócitos aumentados, e, no esfregaço, hemácias em foice, codócitos, hipocromia, microcitose, policromasia e corpos de Howell-Jolly — este último, a assinatura microscópica de quem não tem baço funcionante. A confirmação é a eletroforese por focalização isoelétrica ou por cromatografia líquida de alta eficiência; no adulto, o método convencional em gel de agarose ou acetato de celulose também serve, e resultado inconclusivo numa técnica é reavaliado na outra. O teste molecular fica para quando os métodos habituais não fecham o diagnóstico. Os dois exames constam da tabela do SUS.
O diagnóstico no adulto não é raro. O Programa Nacional de Triagem Neonatal nasceu em 2001, e o protocolo reconhece o diagnóstico tardio em crianças e adultos que não tiveram acesso à triagem. O adulto de 35 anos com anemia hemolítica desde sempre, icterícia, úlcera de tornozelo ou retinopatia sem diabetes pode nunca ter feito uma eletroforese. Diante do diagnóstico, o protocolo recomenda quantificar hemoglobina A2 e fetal e estudar pai, mãe e irmãos.
Lendo o laudo: sem hemoglobina A e com S predominante, é SS ou S-beta zero, doença grave; com S e A entre 1% e 30%, é S-beta mais; com S e C, é SC; com A acima de 60% e S, é traço. A talassemia beta menor não aparece como hemoglobina anormal: aparece como hemoglobina A2 aumentada, e a quantificação só vale com o ferro corrigido, como detalha o capítulo de anemias microcíticas. A tabela de genótipos do bloco de critério resume o que cada padrão muda na conduta do adulto.
Tratar a crise falciforme e vigiar complicações
O objetivo é oferecer analgesia precoce, reconhecer complicações que mudam o destino e organizar prevenção e continuidade do cuidado. Compare os achados com o basal individual e evite usar a hemoglobina como medida da dor. O protocolo nacional de 2024 é a régua do adulto com doença falciforme, e ele deixa perguntas sem resposta que a enfermaria não pode deixar: o prazo da analgesia, a dose da crise, a trombólise, o que fazer entre dois cortes. A primeira tabela mostra, decisão por decisão, qual documento governa, o que ele deixa em aberto e a régua usada aqui. A segunda converte as doses do capítulo em ampola e comprimido num adulto de 58 quilos, com as apresentações da Rename. A terceira organiza os cortes da hidroxiureia, inclusive a faixa que o protocolo não classifica. A quarta traduz o laudo de eletroforese em conduta. Nas notas estão, com a aritmética explícita, os defeitos do protocolo que alteram uma prescrição.
- 11. Adulto com doença falciforme e dor: avaliar intensidade, sinais de complicação e plano analgésico prévio. Dor intensa exige analgesia rápida, frequentemente opioide parenteral na primeira hora, com titulação e reavaliação. Uma pontuação intermediária não obriga passar por opioide fraco quando a exposição prévia e a resposta indicam outra estratégia.
- 22. Enquanto a dose corre, procure o que não é crise: febre, dor torácica ou saturação caindo, dor abdominal com defesa, baço crescendo com hemoglobina caindo, déficit neurológico, ereção dolorosa, dor óssea localizada com edema.
- 33. Febre de 38 °C ou mais, ou qualquer febre com calafrio, prostração, dor torácica ou queda da saturação: hemograma com reticulócitos, urina tipo I, proteína C reativa, hemocultura, urocultura e radiografia de tórax; ceftriaxona sem esperar a radiografia; com hipotensão ou disfunção orgânica, pacote de sepse.
- 44. Infiltrado pulmonar novo com febre e/ou sintomas respiratórios sugere síndrome torácica aguda. Internar, iniciar oxigênio com meta individual relacionada à basal, ceftriaxona com macrolídeo conforme protocolo, analgesia e espirometria de incentivo; evitar excesso de volume. Hipoxemia persistente, necessidade crescente de oxigênio, esforço respiratório ou deterioração clínica exigem terapia intensiva, sem depender de um único corte de saturação.
- 55. Hemoglobina 1,5 g/dL ou mais abaixo da basal, ou progressão rápida da síndrome torácica: chame a agência transfusional e o centro de referência — transfusão simples ou troca pelo capítulo de terapia transfusional.
- 66. Déficit neurológico agudo, inclusive transitório: trilha do AVC e transfusão em até duas horas; sem troca disponível e com hemoglobina de 8,5 g/dL ou menos, transfusão simples enquanto a troca é organizada. A trombólise segue os critérios habituais e não atrasa a transfusão.
- 77. Ereção dolorosa persistente: tratar dor e contatar urologia precocemente, particularmente a partir de duas horas; quatro horas caracteriza emergência por provável priapismo isquêmico. Hidratar conforme necessidade, sem hiper-hidratação ou sondagem vesical de rotina. A avaliação e a descompressão urológica não devem esperar transfusão.
- 88. Antes da alta: plano de dor escrito, hidroxiureia pela regra de genótipo de 2024, vacinas do asplênico conferidas, rastreamento de rim, coração, retina e osso pedido, e retorno marcado no centro de referência.
Quem governa cada decisão no adulto, e o que fica em aberto
| Decisão | Documento brasileiro que governa | O que ele deixa sem resposta | Régua usada neste capítulo |
|---|---|---|---|
| Prazo e primeira dose na crise | PCDT da Doença Falciforme, nov/2024, item 7.3.5: dose fixa, escolha do analgésico pela intensidade medida em escala, analgesia mantida enquanto se aguarda exame | Não fixa prazo em minutos nem dose da crise; remete os analgésicos ao protocolo de dor crônica | ASH 2020, dor, recomendação 1A: analgesia em até 1 hora da chegada e reavaliação a cada 30 a 60 minutos; SAMU 192 AC37 (2015): faixa 8 a 10 recebe opioide forte, morfina venosa de 2 a 10 mg por 70 kg |
| O que se soma ao opioide | PCDT 2024: cita anti-inflamatório na dor ligada ao ciclo menstrual e restringe o uso na gestação | Não diz se o anti-inflamatório entra na crise comum, nem fala de corticoide ou cetamina | ASH 2020, recomendações 2A a 2C: anti-inflamatório por 5 a 7 dias com o opioide; sem corticoide para a dor; cetamina subanestésica no internado refratário (ver divergência) |
| Síndrome torácica aguda | PCDT 2024, itens 7.4.4, 7.3.2 e 7.2.5: definição, internação, oxigênio, volemia, transfusão, macrolídeo, espirometria de incentivo | Não dá a dose do macrolídeo no adulto e usa dois cortes de saturação que se sobrepõem | Ceftriaxona do Quadro 4 com azitromicina na dose do capítulo de pneumonia comunitária; saturação abaixo de 93% com oxigênio é terapia intensiva (nota) |
| Febre | PCDT 2024, item 7.3.2 e Quadro 4: febre é urgência, coleta, cobertura de germe capsulado | Não fixa temperatura para o adulto; a linha da penicilina do adulto não fecha a conta | 38 °C, por escolha desta apostila; ceftriaxona 1 a 2 g de 12/12 h na porta (divergência e nota) |
| Déficit neurológico agudo | PCDT 2024: acidente vascular e ataque isquêmico transitório indicam troca, e simples se a troca não estiver disponível. PCDT do AVC isquêmico agudo, 2023: não menciona a doença | Prazo da transfusão e trombólise no adulto com doença falciforme | ASH 2020, cerebrovascular: transfusão em até 2 horas (4.1); simples se a troca não estiver disponível em 2 horas e a hemoglobina for de 8,5 g/dL ou menos (4.2); trombólise pelos critérios habituais, sem atrasar a transfusão (7) |
| Hidroxiureia | PCDT 2024, seções 4, 5, 7.3.8 e 8.1: inclusão por genótipo e idade, exclusão, dose, monitoramento e toxicidade | Não diz o que fazer quando o hemograma cai entre a coluna aceitável e a tóxica | Terceira tabela: na faixa intermediária, manter a dose sem aumentar e repetir o hemograma em 2 semanas (nota) |
| Vacinação do asplênico | Manual dos CRIE, 6ª ed., 2023, citado pelo PCDT 2024; na pneumocócica, Nota Técnica nº 52/2026 | O PCDT resume a revacinação pneumocócica como 3 a 5 anos, num esquema de VPP23 e VPC13 anterior à nota de 2026 | Nota Técnica nº 52/2026: VPC20 em dose única, sem VPP23 depois, com transição para quem já tomou VPC13 ou VPP23; Manual dos CRIE: meningococo, Haemophilus tipo b, influenza anual, hepatite A e varicela; febre amarela em uso de hidroxiureia só com neutrófilos acima de 1.500 |
| Folato | PCDT 2024, itens 7.3.3 e 7.3.8 | Os dois itens parecem discordar, mas descrevem uma sequência | Dosar o folato; suplementar se baixo ou na gestação (5 mg/dia); sem dosagem disponível, 5 mg três vezes por semana, mantendo o folato sérico abaixo de 17 ng/mL |
| Saída da pediatria | PCDT 2024, seção de transição de cuidados | O próprio protocolo registra que não existem programas oficiais estruturados de transição no país | Nenhuma alta de adulto jovem sem retorno marcado, por escrito, no centro de referência |
Da dose ao frasco: adulto de 58 quilos, apresentações da Rename 2024
| Fármaco e apresentação | Dose adotada | Na mão | Observação |
|---|---|---|---|
| Sulfato de morfina, solução injetável 10 mg/mL, ampola de 1 mL (componente especializado) | 4 mg por via intravenosa lenta; faixa do SAMU para 58 kg: 1,7 a 8,3 mg | 1 ampola diluída em 9 mL de soro fisiológico = 1 mg/mL; aspirar 4 mL | Reavaliar em 15 minutos durante a titulação e repetir 2 a 4 mg se a dor seguir em 4/10 ou mais sem sedação, pela regra do capítulo Analgesia na prática |
| Dipirona, solução injetável 500 mg/mL (componente básico) | 1 g por via intravenosa de 6/6 h | 2 mL por dose | 4.000 mg/dia, que é o teto; não somar a dipirona que o paciente tomou em casa nas últimas 6 horas |
| Cloridrato de naloxona, solução injetável 0,4 mg/mL (componente básico) | 0,04 mg por via intravenosa, repetindo, só na depressão respiratória | 1 ampola em 9 mL de soro fisiológico = 0,04 mg/mL; 1 mL por dose | Titular até a frequência respiratória, sem reverter a analgesia inteira: a dor da crise volta junto |
| Ibuprofeno, comprimido de 600 mg (componente básico) | 600 mg por via oral de 8/8 h por 5 a 7 dias, somado ao opioide | 1 comprimido por dose = 1.800 mg/dia | Só com creatinina e urina sem sinal de nefropatia e fora da gestação acima de 30 semanas; teto de 2.400 mg/dia do capítulo de analgesia |
| Ceftriaxona, pó para solução injetável de 1 g (componente básico) | 1 g por via intravenosa de 12/12 h; 2 g de 12/12 h na suspeita de meningite | 1 frasco por dose; 2 frascos por dose na meningite | Teto do Quadro 4: 4 g/dia. Os 100 mg/kg/dia da meningite dariam 5,8 g/dia em 58 kg (nota) |
| Benzilpenicilina potássica, pó para solução injetável de 5.000.000 UI (componente básico e estratégico) | Se escolhida: 1 a 5 milhões UI por dose, de 6/6 h — 4 a 20 milhões UI/dia | Até 1 frasco por dose | Lida por dia, como está impressa, a faixa daria 1 frasco dividido em quatro doses de até 1,25 milhão UI (nota) |
| Azitromicina, comprimido de 500 mg | 500 mg por via oral uma vez ao dia, na síndrome torácica aguda | 1 comprimido | A Rename não tem macrolídeo injetável — a claritromicina também é só oral; paciente que não engole depende do macrolídeo venoso do estoque do hospital |
| Hidroxiureia, cápsula de 500 mg e comprimido de 100 mg (componente especializado) | 15 mg/kg/dia por via oral em dose única = 870 mg, arredondados para 900 mg | 1 cápsula de 500 mg + 4 comprimidos de 100 mg | Subir 5 mg/kg/dia (cerca de 300 mg) a cada 4 semanas: 1.200, 1.500, 1.800 e 2.000 mg; teto de 35 mg/kg/dia = 2.030 mg |
| Ácido fólico, comprimido de 5 mg (componente básico) | 5 mg três vezes por semana se não houver dosagem sérica; 5 mg/dia na gestação | 1 comprimido por tomada | Com dosagem disponível, só suplementar se o folato estiver baixo |
| Cetamina (não consta da Rename) | 0,1 a 0,3 mg/kg/h em infusão contínua, máximo de 1 mg/kg/h, no internado com dor refratária ao opioide | 5,8 a 17,4 mg/h; máximo de 58 mg/h | Só em unidade com experiência na infusão; item de estoque hospitalar, fora do elenco nacional |
Hidroxiureia: os cortes que impedem o início, os que suspendem e a faixa sem nome
| Parâmetro | Não inicia no paciente virgem | Aceitável: segue e pode subir | Tóxico: suspende | Entre as duas colunas: conduta desta apostila |
|---|---|---|---|---|
| Neutrófilos (por mm³) | Abaixo de 1.500 | Acima de 2.000 | Abaixo de 1.500 | De 1.500 a 2.000: mantém a dose, não sobe, repete hemograma em 2 semanas |
| Plaquetas (por mm³) | Abaixo de 80.000 | Acima de 85.000 | Abaixo de 80.000 | De 80.000 a 85.000: mantém a dose, não sobe, repete em 2 semanas |
| Hemoglobina (g/dL) | Abaixo de 4,5 | Acima de 5,3 | Abaixo de 4,5 | De 4,5 a 5,3: mantém a dose, não sobe, repete em 2 semanas e procura crise aplástica ou hemólise nova |
| Reticulócitos (por mm³) | Abaixo de 80.000, se hemoglobina abaixo de 8 g/dL | Acima de 95.000, conferidos até a hemoglobina passar de 9 g/dL | Abaixo de 80.000 | De 80.000 a 95.000: mantém a dose; em quem já usa, queda de reticulócitos é resposta esperada e não suspende sozinha |
| Depois da toxicidade | — | Recuperados os valores aceitáveis, reinicia com 5 mg/kg/dia a menos | Suspende até a recuperação | Toxicidade duas vezes na mesma dose: essa dose vira a máxima tolerada e não se usa mais |
Do laudo de eletroforese à conduta do adulto
| O que o laudo mostra | Genótipo | O que esperar no adulto | O que muda na conduta |
|---|---|---|---|
| S, F e A2, sem hemoglobina A | SS ou S-beta zero | Hemoglobina basal de 6 a 9 g/dL, crises, síndrome torácica, lesão de órgão | Hidroxiureia incluída; centro de referência; ressonância ao menos uma vez; troca por 6 meses depois de síndrome torácica |
| S, F e A2, com hemoglobina A de 1% a 30% | S-beta mais | Do leve ao grave, em geral menos que o SS | Hidroxiureia incluída a partir de 2 anos, e já aos 9 meses quando grave; mesma vigilância de órgão |
| S, C, F e A2 | SC | Hemoglobina basal mais alta; retinopatia proliferativa mais comum; baço pode continuar aumentado | Hidroxiureia incluída a partir de 2 anos; exame de retina anual sem falta; palpar o baço na febre |
| S, D, F e A2 | SD — o tipo Punjab é o mais comum e mais grave | Pode ser clinicamente grave | Hidroxiureia incluída; no SD Punjab, desde os 9 meses |
| S, F e A2 com hemoglobina fetal alta | S com persistência hereditária de hemoglobina fetal | Geralmente assintomático | Distinguir do SS pela quantificação, pelo estudo da família e, se preciso, pelo teste molecular |
| A acima de 60%, com S | AS — traço falciforme | Assintomático; não caracteriza anemia | Nenhum tratamento; registrar, orientar e oferecer informação genética; anemia no portador tem outra causa |
| A2 aumentada, sem hemoglobina anormal, com ferro corrigido | Talassemia beta menor (portador) | Microcitose intensa com anemia leve | Sem ferro sem deficiência demonstrada; informação genética; diferencial no capítulo de anemias microcíticas |
Penicilina do adulto, Quadro 4 do PCDT de 2024. A linha do esquema básico diz: penicilina G cristalina de 1.000.000 a 5.000.000 UI/dia, de 6/6 h, com dose máxima de 24.000.000 UI/dia. Lida como está, dá de 250.000 a 1.250.000 UI por dose. O topo da faixa, 5 milhões por dia, fica 4,8 vezes abaixo do teto declarado na mesma linha, que nunca seria alcançado. A linha pediátrica do mesmo quadro, de 100.000 a 250.000 U/kg/dia, dá de 3 a 7,5 milhões por dia a uma criança de 30 kg — mais do que ao adulto. Lida por dose, a faixa de 1 a 5 milhões de 6/6 h dá de 4 a 20 milhões por dia, dentro do teto, e 5 milhões é exatamente o frasco da Rename. O texto é idêntico nas duas cópias do documento em cache. O capítulo pediátrico registrou a mesma incoerência. Por esse defeito, o esquema coerente do mesmo quadro, a ceftriaxona, vence na porta; quem usar penicilina cristalina no adulto lê a faixa por dose.
Ceftriaxona na meningite, PCDT de 2024. Logo depois do Quadro 4, o protocolo dá 100 mg/kg/dia por via venosa, por no mínimo 10 dias, sem teto, enquanto o próprio quadro limita a ceftriaxona a 4 g/dia. Acima de 40 kg a dose por peso passa o teto: num adulto de 58 kg são 5,8 g/dia, 1,45 vez o limite; em 70 kg, 7 g/dia. No adulto com suspeita de meningite, a dose deste capítulo é a do teto, 2 g de 12/12 h.
Toxicidade da hidroxiureia, Quadro 6 do PCDT de 2024. As colunas de valor aceitável e de valor tóxico deixam faixas que não pertencem a nenhuma das duas: neutrófilos de 1.500 a 2.000 por mm³, plaquetas de 80.000 a 85.000, hemoglobina de 4,5 a 5,3 g/dL e reticulócitos de 80.000 a 95.000. O documento não diz o que fazer ali. A nota de rodapé ainda diz que pessoas mais jovens com contagem basal baixa toleram neutrófilos até 1.250 — abaixo dos 1.500 que a mesma tabela chama de tóxicos. Um adulto com 1.300 neutrófilos, pela tabela, suspende; pela nota, poderia seguir. Esta apostila adota a tabela para o adulto — abaixo de 1.500, suspende — e, na faixa intermediária, mantém a dose sem aumentar e repete o hemograma em duas semanas. A conduta da faixa intermediária é escolha desta apostila, não do protocolo.
O PCDT de 2024 menciona saturação de 93% e variação em relação ao basal, mas esses limites não devem ser usados isoladamente para encerrar a avaliação. Neste caso com basal de 97%, titular oxigênio buscando pelo menos 94% e aproximação do basal, com avaliação contínua. Necessidade crescente de oxigênio, esforço respiratório e deterioração justificam terapia intensiva mesmo antes de cruzar um valor fixo. Ventilação não invasiva é uma opção selecionada da equipe, sem atrasar intubação quando indicada.
Limpeza da úlcera de perna, item 7.2.9 do PCDT de 2024. O protocolo manda limpar as lesões com cloreto de sódio a 4% aquecido entre 36 e 37 °C. A Rename 2024 só tem cloreto de sódio a 0,9% e a 20%, e o protocolo não inclui a solução no seu elenco de medicamentos: a concentração impressa não é dispensável pelo SUS. O texto é o mesmo nas duas cópias em cache, e o manual de úlceras do Ministério não foi conferido. Esta apostila adota o soro fisiológico a 0,9% aquecido, no jato ou na gaze como o protocolo descreve, e registra que a concentração de 4% não tem fonte que a sustente no elenco nacional.
Hemoglobina basal, item 3.1 do PCDT de 2024. O protocolo escreve que a hemoglobina basal varia de 6 a 9 mg/dL nos genótipos SS e S-beta zero. A unidade está errada por um fator de 1.000: são 6 a 9 g/dL. O erro cai justamente no número que ancora a regra de transfusão por queda de 1,5 g/dL em relação à basal.
Amoxicilina com clavulanato, item 7.3.7 do PCDT de 2024. O elenco do protocolo lista a associação em cápsula de 50 mg e comprimido de 50 mg. A Rename 2024 tem comprimido de 500 mg + 125 mg e suspensão de 50 mg/mL + 12,5 mg/mL, e nenhuma cápsula: a apresentação impressa está errada por um fator de 10. Quem escolher a associação oral, que o item 7.3.2 oferece para a febre sem foco, prescreve pelo comprimido de 500 mg + 125 mg.
Esquema pneumocócico. O PCDT de 2024 resume o esquema como VPP23 e VPC13 depois dos 2 anos, com reforço após 3 a 5 anos, e remete ao manual dos CRIE; o manual, 6ª edição, fixava para o adolescente e o adulto com asplenia VPC13, VPP23 oito semanas depois e uma única revacinação com VPP23 cinco anos depois da primeira. Esse esquema valeu até maio de 2026: a Nota Técnica nº 52/2026, assinada em 20 de maio de 2026, substituiu-o, nas indicações da rede de imunobiológicos especiais — entre elas a asplenia anatômica ou funcional —, por dose única de VPC20 a partir dos 5 anos, inclusive no adulto, e quem recebe a VPC20 não recebe mais a VPP23. A conta, num adulto sem vacinação prévia acompanhado por cinco anos: três doses pelo manual, uma pela nota. Pelo escopo — manual e nota são os documentos escritos para o esquema vacinal, e o próprio protocolo remete à rede que os aplica — e pela data, esta apostila adota a nota. A VPC20 começa quando a sala esgota os estoques de VPC13 e VPP23, e quem começou pelo esquema antigo segue a transição da nota: duas doses de VPP23 contam como vacinado; VPC13 sem VPP23 leva uma VPC20 ao menos oito semanas depois; com uma única VPP23, a VPC20 pode vir ao menos um ano depois dela e oito semanas depois da última conjugada.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo é a de Juvêncio, da madrugada de quinta à alta da quarta seguinte. Ela tem três partes. As primeiras três marcas tratam a dor com prazo e deixam a internação armada para o que pode vir. As duas do meio mostram a síndrome torácica aguda nascendo dentro da enfermaria e acelerando à noite, como costuma acontecer. As três últimas fazem o que as onze passagens anteriores pelo pronto-socorro não fizeram: hidroxiureia, vacinas, rastreamento e um retorno com data.
Cada dose tem a fonte entre colchetes. Onde a decisão é desta apostila e não de um documento, o texto diz. A técnica transfusional, a farmacologia do opioide e a pneumonia comunitária têm donos, citados no ponto em que a trilha passa por eles.
Quinta, 2h15 — 55 minutos desde a chegada: a primeira dose antes do hemograma
O relógio começou às 1h20, na pulseira, e não quando o interno chegou ao box. A diretriz de dor da Sociedade Americana de Hematologia recomenda avaliação e analgesia em até uma hora da chegada; restam cinco minutos. A nota 9 põe Juvêncio na faixa de dor intensa do protocolo de manejo da dor do SAMU, que recebe opioide forte, e o protocolo nacional da doença diz que a escolha do analgésico se baseia na intensidade medida em escala. A orientação do corredor — dipirona e observar — não serve por dois motivos: é a faixa errada, e ele já tomou 2 g de dipirona em três horas, às 21h e à meia-noite. O interno faz a dose, pede o acesso e colhe os exames na mesma punção, avisa o plantonista com uma frase e deixa a naloxona preparada ao lado. A saturação basal que Juvêncio refere, 97%, vai para a folha.
Prescrição- AGORA: sulfato de morfina 4 mg por via intravenosa lenta — 1 ampola de 10 mg/mL diluída em 9 mL de soro fisiológico (1 mg/mL), aspirar 4 mL [SAMU 192 AC37: 2 a 10 mg por 70 kg = 1,7 a 8,3 mg em 58 kg]
- Sem acesso venoso em 10 minutos: a mesma dose por via subcutânea, sem esperar a punção [ASH 2020, recomendação 1A: vias não venosas aceleram a analgesia]
- Reavaliar dor, sedação e frequência respiratória em 15 minutos; repetir morfina 2 a 4 mg por via intravenosa se a dor seguir em 4/10 ou mais sem sedação [titulação do capítulo Analgesia na prática]
- Dipirona: próxima dose só às 6h, contando as de casa; depois, 1 g por via intravenosa de 6/6 h de horário [SAMU 192 AC37: 1 g; teto de 4.000 mg/dia]
- Naloxona à beira do leito: 1 ampola de 0,4 mg/mL em 9 mL de soro fisiológico (0,04 mg/mL); 1 mL por via intravenosa se frequência respiratória abaixo de 10 ou sedação profunda, repetindo
- Colher agora: hemograma com reticulócitos, bilirrubinas, desidrogenase láctica, creatinina, sódio e potássio, urina tipo I, tipagem ABO e RhD
- Oximetria contínua; saturação basal referida de 97% anotada na folha de sinais vitais
Quinta, 3h00 — hora 1h40: dor em 5/10, hemoglobina no basal e a pergunta do destino
Juvêncio recebeu 4 mg, depois 2 mg aos 15 minutos e mais 2 mg aos 30: dor em 5/10 em repouso, desperto, frequência respiratória de 16, saturação de 96%. Os exames chegam: hemoglobina de 7,9 g/dL contra basal de 8,2, reticulócitos de 9%, leucócitos de 13.800, bilirrubina indireta de 3,1 mg/dL, desidrogenase láctica de 620 U/L, creatinina de 0,5 mg/dL, urina com densidade de 1.008 e sem proteína. O plantonista lê a hemoglobina e sugere alta de manhã. O interno lê outra coisa: a hemoglobina próxima da basal não mede a intensidade da crise dolorosa e, isoladamente, não exclui uma complicação em evolução; a tendência do hemograma, os reticulócitos e o exame continuam necessários; quem precisou de três doses venosas de morfina na primeira hora não vai para casa com comprimido de dipirona. A decisão de internar para esquema de horário e para vigiar o tórax nas próximas 72 horas é desta apostila e segue a lógica do próprio capítulo: a síndrome torácica aguda nasce na internação por crise, e quem vai embora de madrugada não é observado. Com creatinina e urina sem sinal de nefropatia, entra o anti-inflamatório somado ao opioide. Não entra corticoide. A hidratação é pela boca, com soro só se ele não aceitar — sem bolus de rotina, extensão desta apostila para a crise da regra que o protocolo escreve para a síndrome torácica.
Prescrição- Morfina 4 mg por via subcutânea de 4/4 h como esquema inicial supervisionado, ajustado à resposta e à exposição prévia; usar concentração e volume por sítio validados pela farmácia, sem transportar automaticamente os 4 mL da diluição venosa para uma única aplicação subcutânea. Total programado inicial: 24 mg/dia parenterais
- Resgate inicialmente de 4 mg SC, conforme plano individual e protocolo do serviço; reavaliar dor, consciência, frequência respiratória, saturação e doses acumuladas antes de repetir. Intervalo mínimo de 30 minutos não autoriza repetições indefinidas: resgates sucessivos exigem avaliação médica e ajuste do esquema/nível de monitorização
- Ibuprofeno 600 mg por via oral de 8/8 h, com alimento, por 5 a 7 dias [ASH 2020, recomendação 2A]; suspender se a creatinina subir ou aparecer proteinúria
- Sem corticoide para a dor [ASH 2020, recomendação 2B]
- Espirometria de incentivo: 10 inspirações máximas a cada 2 horas enquanto acordado, começando agora [PCDT 2024, item 7.2.5]
- Água por via oral livre; soro de manutenção só se não aceitar a via oral; nenhum bolus de rotina
- Sinais vitais com saturação de 4/4 h e escala de sedação antes de cada dose de opioide; laxativo desde hoje, pelo capítulo Analgesia na prática
Quinta, 9h00 — a enfermaria e o telefonema que traz o plano
Juvêncio sobe para a enfermaria com dor de 3/10 em repouso e 6/10 para se levantar. O interno liga para o hemocentro. O prontuário de lá tem o plano de dor individual — a dose venosa inicial e a titulação que funcionavam —, a fenotipagem, nenhum anticorpo irregular e a última transfusão, aos 15 anos, na síndrome torácica. É o que a diretriz americana chama de dose individualizada pela terapia que funcionou antes: o plano entra na prescrição e na evolução, e deixa de depender da memória do paciente. O hemocentro informa também que o retorno perdido aos 18 anos nunca foi remarcado. Na mesma manhã, Juvêncio conta que trabalha seis horas por dia entrando na câmara fria e que nunca teve atestado de crise porque sempre saía do pronto-socorro às sete. O protocolo manda reconhecer determinantes sociais e questões laborais; aqui, o gatilho da crise tem nome e endereço.
Prescrição- Manter morfina 4 mg por via subcutânea de 4/4 h e o resgate; resgate programado 30 minutos antes do banho e da fisioterapia
- Registrar no prontuário: plano de dor do hemocentro, fenotipagem, ausência de anticorpos, síndrome torácica aos 15 anos, saturação basal de 97%, hemoglobina basal de 8,2 g/dL
- Solicitar avaliação da hematologia e vaga no centro de referência antes da alta, com data
- Serviço social: atestado desde quinta e relatório para a medicina do trabalho sobre a exposição ao frio
Sexta, 14h00 — dia 2: febre de 38,6 °C, dor no tórax à direita e saturação de 92%
A técnica chama porque a saturação caiu. Juvêncio está com frequência respiratória de 26, frequência cardíaca de 118, temperatura de 38,6 °C e dor pleurítica na base direita; a ausculta é quase normal. A radiografia mostra infiltrado novo na base direita, que não estava na admissão e não tem aspecto de atelectasia: é síndrome torácica aguda. A hemoglobina está em 6,4 g/dL — 1,8 abaixo da basal —, reticulócitos de 8%, leucócitos de 19.000. O interno faz na ordem: oxigênio, hemoculturas, antibiótico, telefonema à agência transfusional e ao centro de referência. Ceftriaxona pelo esquema coerente do Quadro 4 do protocolo, com o macrolídeo que o protocolo manda associar. Transfusão simples, porque a hemoglobina caiu 1,5 g/dL ou mais em relação à basal, com as hemácias que o registro do hemocentro exige. O soro de manutenção sai. A analgesia fica: a dor pleurítica que impede a inspiração profunda piora o pulmão tanto quanto a sedação — o ajuste é na vigilância, não na suspensão. A terapia intensiva é avisada agora, com o gatilho escrito.
Prescrição- Oxigênio por cateter nasal inicialmente a 2 L/min, com titulação e oximetria contínua. Neste paciente, buscar pelo menos 94% e recuperação em direção à basal de 97%, respeitando a meta individual e o protocolo: não escolher 93% como suficiente apenas porque aparece como limite inferior no PCDT. Necessidade crescente de oxigênio ou esforço respiratório impõe avaliação imediata
- Hemoculturas e, em seguida, ceftriaxona 1 g por via intravenosa de 12/12 h [PCDT 2024, Quadro 4, esquema alternativo do adulto] mais azitromicina 500 mg por via oral uma vez ao dia [macrolídeo do item 7.3.2; dose do capítulo de pneumonia comunitária]
- Transfusão simples de concentrado de hemácias compatível para Rh e K, desleucocitado e sem hemoglobina S, pela queda de 1,8 g/dL em relação à basal [PCDT 2024]; volume e escolha da bolsa pelo capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais
- Suspender o soro de manutenção; nenhum bolus de rotina [PCDT 2024, item 7.4.4]
- Espirometria de incentivo mantida; radiografia de tórax e hemograma com reticulócitos diários; oximetria contínua
- Solicitar avaliação de terapia intensiva diante de hipoxemia persistente, necessidade crescente de oxigênio, esforço respiratório ou deterioração; não esperar um único corte de saturação para acionar a equipe
Sexta, 23h40 — a noite em que a síndrome acelera
Nove horas depois, com a bolsa já transfundida e hemoglobina de 8,1 g/dL, a frequência respiratória está em 34, a saturação em 89% com máscara a 6 L/min, e a radiografia mostra infiltrado nas duas bases. É a progressão rápida que o protocolo descreve, com necessidade crescente de oxigênio. Duas decisões mudam. A primeira é o lugar: terapia intensiva, com avaliação imediata do suporte respiratório. A ventilação não invasiva pode ser tentada em paciente selecionado, cooperativo e sem contraindicação, com reavaliação contínua; falha de oxigenação, exaustão ou alteração da consciência exige considerar intubação sem prolongar uma tentativa malsucedida. A segunda é o sangue: diante da progressão rápida, o protocolo manda considerar transfusão de troca ou simples em caráter de urgência, e com a hemoglobina já em 8,1 g/dL a escolha é a troca — outra transfusão simples subiria a hemoglobina sem baixar a hemoglobina S na medida necessária e arriscaria a hiperviscosidade que o próprio protocolo registra. A troca é conduzida com o centro de referência e a agência transfusional, e o cálculo do volume segue o capítulo de terapia transfusional, que registrou o erro da fórmula impressa no protocolo.
Prescrição- Transferência para a terapia intensiva
- Suporte respiratório definido pela terapia intensiva: considerar ventilação não invasiva se apropriada e monitorizada; preparar ventilação invasiva se houver falha, exaustão ou incapacidade de proteger a via aérea
- Transfusão de troca de urgência, com centro de referência e agência transfusional; técnica e volume pelo capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais
- Manter ceftriaxona e azitromicina; manter a analgesia com monitorização contínua de sedação e frequência respiratória
Segunda, 10h00 — dia 5: ar ambiente e os próximos seis meses
Depois da troca, a febre cedeu em 36 horas. Juvêncio volta à enfermaria na segunda sem oxigênio, saturando 95% em ar ambiente, com dor de 3/10 e comendo. O antibiótico completa o tempo e a transição para a via oral do capítulo de pneumonia comunitária. A morfina parenteral é convertida para a via oral pela tabela do capítulo Analgesia na prática, com redução gradual. E aqui entra a primeira decisão de longo prazo: o protocolo manda manter programa de transfusão de troca por no mínimo seis meses depois da síndrome torácica. Juvêncio já teve dois episódios, aos 15 e aos 24 anos. A recomendação do PCDT citada é levada ao hematologista como plano a avaliar, especialmente após dois episódios e esta apresentação grave. A prescrição de um programa crônico, sua modalidade e sua duração exigem ponderar recorrência, hidroxiureia, aloimunização, sobrecarga de ferro e viabilidade; o interno não agenda trocas sucessivas por conta própria.
Prescrição- Suspender o oxigênio; manter espirometria de incentivo até a alta
- Completar o antibiótico e trocar para a via oral pelo capítulo Pneumonia adquirida na comunidade (CURB-65 / gravidade)
- Converter a morfina parenteral para a via oral pela tabela do capítulo Analgesia na prática, com redução gradual e laxativo
- Retorno já agendado no centro de referência para definir prevenção secundária após síndrome torácica grave e recorrente; discutir a recomendação de programa transfusional por pelo menos seis meses do PCDT 2024, com modalidade, duração e vigilância de complicações registradas pelo hematologista
Terça, 11h00 — dia 6: hidroxiureia, vacinas e o que ele nunca ouviu
Juvêncio ouviu aos 18 anos que não precisava de hidroxiureia porque não tinha crises suficientes. Qualquer que fosse a régua usada naquele ambulatório, a de hoje é outra: o protocolo de 2024, que revogou o de 2018, inclui para hidroxiureia quem tem genótipo SS, S-beta zero, S-beta mais grave ou SD Punjab a partir dos nove meses, e SC, SD ou S-beta talassemia a partir dos dois anos, sem exigir número de crises. Ele é SS e tem 24 anos: está incluído. A triagem de exclusão do paciente virgem de tratamento está limpa — neutrófilos de 6.200, plaquetas de 410.000, hemoglobina de 8,4 g/dL e reticulócitos de 310.000 por mm³, sem hepatite ativa. O protocolo prevê que o centro de referência com farmacêutico dispense a hidroxiureia pelo Componente Especializado; o papel da enfermaria é pedir os exames de base, escrever a indicação e a dose calculada na alta e garantir a data. Na mesma conversa entram as vacinas de quem não tem baço funcionante — pelo manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais e, na pneumocócica, pela Nota Técnica nº 52/2026 —, e o folato, que o protocolo manda dosar antes de suplementar. Profilaxia diária com penicilina não entra: o protocolo a prioriza no adulto de alto risco — acima de 50 anos, imunocomprometido ou com sepse prévia por germe capsulado.
Prescrição- Exames de base da hidroxiureia: hemograma com plaquetas, reticulócitos e volume corpuscular médio; hemoglobina fetal; creatinina, AST e ALT; sorologias para hepatite B, hepatite C e HIV [PCDT 2024, Quadro 5]
- Indicação escrita no resumo de alta: hidroxiureia 15 mg/kg/dia = 870 mg, arredondados para 900 mg por via oral uma vez ao dia (1 cápsula de 500 mg + 4 comprimidos de 100 mg), a iniciar no centro de referência, com aumento de 5 mg/kg/dia a cada 4 semanas até 35 mg/kg/dia ou toxicidade [PCDT 2024, item 7.3.8]
- Monitoramento combinado com o centro de referência: hemograma com reticulócitos a cada 2 semanas até a dose de manutenção e depois a cada 12 semanas; creatinina, AST e ALT a cada 4 semanas e depois a cada 12; hemoglobina fetal a cada 8 a 12 semanas [PCDT 2024, Quadro 5]
- Encaminhar ao centro de imunobiológicos especiais: VPC20 em dose única, sem VPP23 depois — se o cartão já tiver VPC13 ou VPP23, a regra de transição da nota [Nota Técnica nº 52/2026]; meningocócica, Haemophilus influenzae tipo b, hepatite A e varicela conforme o cartão; influenza todos os anos [Manual dos CRIE, 6ª ed., item 5.1]
- Dosar folato sérico; se a dosagem não estiver disponível, ácido fólico 5 mg por via oral três vezes por semana [PCDT 2024, item 7.3.8]
- Pedir para o primeiro retorno: creatinina com pesquisa de albuminúria, ecocardiograma com velocidade do jato tricúspide, exame de retina e vitamina D [PCDT 2024, itens 7.4.1, 7.4.2, 7.2.7 e 7.2.4]
Quarta, 15h00 — dia 7: a alta que não é igual às onze anteriores
Juvêncio sai com dor controlada pela via oral, sem febre há mais de 48 horas, saturando o basal em ar ambiente, comendo e andando pelo corredor. Os critérios de alta são desta apostila, e o documento que importa é o resumo. Ele leva o plano de dor individual — a dose inicial e a titulação que funcionaram —, porque a próxima crise vai começar em outro pronto-socorro, às duas da manhã, com outra triagem. Leva a data do retorno no centro de referência, a do programa de troca e a indicação de hidroxiureia com a dose. Leva o encaminhamento ao centro de imunobiológicos especiais. E leva, escritos com as palavras dele, os sinais que o fazem voltar na hora. O interno registra o mesmo plano no sistema do pronto-socorro, para que a próxima ficha de triagem comece por ele e não por “poliqueixoso”.
Prescrição- Analgesia oral pela conversão feita no dia 5, com redução gradual, e ibuprofeno até completar 7 dias; laxativo enquanto usar opioide
- Resumo de alta com: plano de dor individual, genótipo SS, hemoglobina basal de 8,2 g/dL, saturação basal de 97%, fenotipagem no hemocentro, dois episódios de síndrome torácica, programa de troca, indicação de hidroxiureia e vacinas pendentes
- Retorno no centro de referência com data escrita; se a data não sair antes da alta, o telefonema é do interno, não do paciente
- Voltar imediatamente se: febre de 38 °C ou mais; dor no peito ou falta de ar; fraqueza de um lado, fala enrolada ou dor de cabeça súbita e forte; ereção dolorosa por mais de 2 horas; dor que não cede com o esquema de casa
- Atestado do período de internação e relatório para a medicina do trabalho
Como saber se está funcionando
Reavaliar o adulto com doença falciforme é acompanhar três relógios de velocidades diferentes. O da dor anda em minutos e se mede na escala, junto com a sedação. O do pulmão e do sangue anda em horas e dias de internação, e é por ele que a síndrome torácica e a queda da hemoglobina aparecem antes de ficarem óbvias. O da hidroxiureia anda em semanas, no hemograma do ambulatório.
A coluna do que fazer quando não melhora é a que justifica o bloco: o interno sabe prescrever a morfina e trava quando a dor não cede, quando a saturação cai três pontos com a radiografia limpa ou quando o hemograma da hidroxiureia volta com neutrófilos de 1.700.
Esperado: Abaixo de 4/10 em repouso nas primeiras horas, com o paciente conseguindo respirar fundo e mudar de posição
Se não melhora: Conferir se o plano individual está sendo seguido e se o resgate está sendo liberado; rever o diagnóstico — dor que migra para o tórax, abdome com defesa, dor óssea localizada com edema, ereção, quadril; no internado com dor refratária ao opioide, a diretriz americana sugere cetamina em dose subanestésica, 0,1 a 0,3 mg/kg/h, só em unidade com experiência; chamar a hematologia.
Esperado: Desperto ou facilmente despertável, frequência respiratória de 10 ou mais
Se não melhora: Suspender a próxima dose, estimular, oxigênio e naloxona 0,04 mg por via intravenosa repetida até a frequência respiratória voltar — sem reverter toda a analgesia; depois, reduzir a dose de horário e procurar piora da imagem pulmonar, porque hipoventilação empurra a síndrome torácica.
Esperado: Saturação próxima à basal; na síndrome torácica descrita, titular oxigênio buscando pelo menos 94% e melhora respiratória, conforme avaliação individual e protocolo.
Se não melhora: Queda em relação à basal, hipoxemia ou novo sintoma torácico exige exame, imagem e investigação imediata. Aumento da necessidade de oxigênio, esforço ou instabilidade pede terapia intensiva e discussão transfusional. Ventilação não invasiva só em contexto selecionado, sem atrasar via aérea invasiva quando necessária.
Esperado: Abaixo de 38 °C
Se não melhora: Febre de 38 °C ou mais: hemocultura, urocultura, urina tipo I, proteína C reativa, hemograma e radiografia de tórax, com ceftriaxona sem esperar a imagem; líquor se toxemia ou sinal neurológico; hipotensão ou disfunção orgânica levam ao pacote de sepse. Febre que persiste com antibiótico: rever o foco — osso, úlcera de perna, acesso venoso, meninge.
Esperado: Hemoglobina a menos de 1,5 g/dL da basal, com reticulócitos altos
Se não melhora: Queda de 1,5 g/dL ou mais: transfusão pelo capítulo de terapia transfusional; queda com reticulócitos baixos: crise aplástica; queda com baço crescendo no SC ou no S-beta talassemia: sequestro; queda dias depois de uma transfusão, com hemólise, abaixo do valor pré-transfusional: reação hemolítica tardia ou hiper-hemólise, pelo mesmo capítulo.
Esperado: Sem infiltrado novo; ou, na síndrome torácica, infiltrado estável e depois regredindo
Se não melhora: Infiltrado que cresce ou passa para o outro pulmão com frequência respiratória subindo é progressão rápida: troca ou transfusão simples de urgência e terapia intensiva; hipoxemia desproporcional à imagem, em paciente imóvel, pede investigação de tromboembolismo pulmonar.
Esperado: Neutrófilos acima de 2.000, plaquetas acima de 85.000, hemoglobina acima de 5,3 g/dL e reticulócitos acima de 95.000 por mm³, com hemoglobina fetal subindo e menos crises
Se não melhora: Abaixo dos cortes tóxicos: suspender até recuperar e reiniciar com 5 mg/kg/dia a menos; entre as colunas: manter a dose sem subir e repetir em 2 semanas; clearance de creatinina de 10 a 50 mL/min: metade da dose, abaixo de 10: 20% da dose; sem resposta, rever a adesão antes de concluir falha — cerca de 25% dos pacientes não respondem, e a suspensão pode ser discutida depois de dois anos de uso.
Onde o erro machuca
O dano: A dor da crise é isquêmica e não tem exame que a confirme; a hemoglobina perto do basal não exclui hemólise nova e não mede a intensidade da dor. Cada hora sem analgesia é hora de respiração curta por dor lombar e torácica, e reforça o estigma que o protocolo registra: o paciente aprende que precisa chegar pior, e chega.
Como pegar a tempo: Conte o relógio a partir da pulseira: nota na escala e opioide forte na faixa de 8 a 10 dentro da primeira hora, colhendo os exames na mesma punção. Se desconfia de outro diagnóstico, investigue com a dor tratada.
O dano: A síndrome torácica aguda nasce na internação por crise. O paciente que sai às sete com dipirona volta à noite com infiltrado e saturação baixa — ou não volta a tempo. Juvêncio já tinha tido uma aos 15 anos e teve a segunda no segundo dia.
Como pegar a tempo: Depois de doses parenterais repetidas, manter analgesia e vigilância de consciência, respiração e saturação conforme gravidade, antecipando reavaliação após cada ajuste. Incentivar inspiração profunda e espirometria de incentivo quando viável. Dor torácica, tosse, febre ou queda de saturação pedem imagem; repetir se persistir suspeita ou houver evolução, sem aguardar obrigatoriamente 24 horas diante de piora.
O dano: O protocolo manda manter a volemia normal e evitar bolus de rotina porque o excesso de líquido induz edema pulmonar, e o pulmão congesto é terreno da síndrome torácica. O ganho imaginado na dor não compensa o risco no pulmão.
Como pegar a tempo: Hidrate pela boca; soro só se o paciente não aceita a via oral ou está clinicamente desidratado; nenhum bolus sem indicação hemodinâmica; balanço e saturação conferidos a cada turno.
O dano: O adulto não tem baço funcionante, e a infecção por germe capsulado evolui para choque em horas. A faixa da penicilina do adulto lida por dia dá no máximo 1,25 milhão de unidades por dose, menos do que a mesma tabela dá a uma criança de 30 kg.
Como pegar a tempo: Febre de 38 °C ou mais é urgência: coleta do protocolo, hemocultura e ceftriaxona 1 a 2 g de 12/12 h na primeira hora; se a escolha for penicilina cristalina, leia a faixa por dose.
O dano: Na doença falciforme a hemoglobina baixa vem da hemólise, não da falta de ferro, e o protocolo reserva o ferro para quem tem ferritina, ferro e saturação da transferrina baixos; no adulto transfundido, o comprimido se soma à sobrecarga. No portador de talassemia beta menor, o ferro não corrige a microcitose e atrasa a informação genética.
Como pegar a tempo: Antes de qualquer ferro, dose ferritina, ferro sérico e saturação da transferrina. Microcitose com ferro normal pede eletroforese com quantificação de hemoglobina A2.
O dano: Pelo protocolo, a hidroxiureia reduz o risco de óbito em 40% e em cerca de metade a síndrome torácica e a transfusão, e desde 2024 a inclusão é por genótipo e idade. Suspender por macrocitose ou pela queda de reticulócitos, que o protocolo descreve como resposta esperada em quem já usa, tira o benefício sem motivo.
Como pegar a tempo: Todo adulto SS, S-beta zero, S-beta mais, SC ou SD sem critério de exclusão sai com a indicação escrita. Toxicidade se julga pela tabela de cortes, não pelo volume corpuscular médio.
O que dizer ao paciente e à família
As frases abaixo aparecem em todo plantão e em todo ambulatório de adulto com doença falciforme. Duas delas são da equipe, não do paciente — e é a equipe que decide se a próxima crise começa com analgesia ou com desconfiança.
A regra de fundo é explicar cada decisão numa frase e devolver ao paciente a informação que ele vai carregar para o próximo serviço: a dose que funciona, a saturação de costume, o sinal que o faz voltar na hora.
O colega no corredor: “Esse aí vem toda semana, é poliqueixoso. Faz dipirona e observa.”
““Ele está na faixa de dor intensa e já tomou dipirona duas vezes em casa. Vou fazer a morfina agora, colher tudo na mesma punção e reavaliar em 15 minutos. Se os exames mostrarem outra coisa, a gente muda a conduta — com a dor tratada.””
Não diga: “Você que decide, mas eu acho que ele sente dor, sim.” — transforma a conduta em opinião e deixa a analgesia esperando a hierarquia.
O paciente: “Eu sei a dose que funciona pra mim. Tramadol não adianta.”
““Obrigado por me dizer, é exatamente a informação que eu preciso. Vou começar pela morfina na veia e ligar para o hemocentro de manhã para confirmar o seu plano. Qual é a sua nota de dor agora, de zero a dez?””
Não diga: “Quem decide o remédio aqui sou eu.” — o paciente que conhece a própria dose está entregando o plano individual que a diretriz manda procurar.
“Doutor, eu vou ficar viciado nessa morfina?”
““A morfina está tratando uma dor que tem causa: o sangue parado dentro do osso. Ela vai sair aos poucos, junto com a crise, e eu vou te acompanhar nisso. O que diminui as próximas crises é outro remédio, a hidroxiureia, que eu quero te explicar antes da alta.””
Não diga: “Não tem risco nenhum.” — os efeitos adversos existem, e prometer o que não é verdade tira a credibilidade de tudo o que vem depois.
Na enfermaria, sexta à tarde, enquanto o oxigênio é colocado: “Eu entrei com dor na perna. Por que agora é o pulmão?”
““A crise às vezes chega ao pulmão, e era por isso que a gente olhava a sua saturação de quatro em quatro horas. Apareceu uma mancha nova na radiografia: é a síndrome torácica, a mesma que você teve aos 15 anos. Vamos dar oxigênio, antibiótico e sangue agora, e a equipe da terapia intensiva vem te ver para ficar por perto se precisar.””
Não diga: “Você pegou uma pneumonia aqui no hospital.” — erra o diagnóstico e esconde do paciente a complicação que ele precisa aprender a reconhecer.
“Hidroxiureia não é remédio de câncer? Vou ficar careca? Vou poder ter filho?”
““É um remédio que também se usa em câncer, e aqui ele faz o seu corpo fabricar mais hemoglobina fetal, que não deixa a hemácia entortar. Ele reduz crise, síndrome torácica, transfusão e risco de morte. Pode mexer em pele, unha e cabelo em algumas pessoas, e a gente vigia o hemograma a cada duas semanas no começo. Sobre filhos: a queda do espermatozoide pode acontecer pela própria doença, e os dados que existem sugerem que o remédio não piora isso — vale conversar com a hematologista antes de planejar.””
Não diga: “Isso é só um remédio para anemia.” — o paciente lê a bula na primeira noite, e a omissão acaba com a adesão.
Mulher de 26 anos, com a eletroforese na mão: “Deu traço falciforme. Eu tenho a doença?”
““Não. Traço quer dizer que você tem um gene da hemoglobina S e um da normal, e a normal é a maioria no seu sangue. Traço não dá anemia nem crise. Ele importa para os filhos: se o seu parceiro também tiver o traço, cada gravidez tem uma chance em quatro de o bebê ter a doença. Vale ele fazer o exame.””
Não diga: “É uma forma leve da doença.” — cria um doente que não existe e esconde a única informação que muda alguma coisa, a do casal.
Aquilino, baixando a voz no fim da consulta: “Tem uma coisa que eu nunca contei. De madrugada fica duro e dói, às vezes por duas horas.”
““Obrigado por contar. Isso tem nome, priapismo, e é da doença, não é culpa sua. Nas primeiras duas horas, beba água, urine, tome banho morno e caminhe. Se passar de duas horas, venha para o pronto-socorro na hora, sem esperar amanhecer: depois disso o tecido pode ficar lesado para sempre.””
Não diga: “Isso deve ser ansiedade, depois passa.” — o subdiagnóstico que o protocolo descreve começa exatamente nessa frase.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Escolha pela intensidade, na primeira hora — PCDT da Doença Falciforme (2024), SAMU 192 AC37 (2015) e ASH (2020)
O protocolo nacional diz que, nas crises vaso-oclusivas, a escolha do analgésico deve se basear na intensidade da dor avaliada por escala, com dose fixa em intervalos definidos. O protocolo de manejo da dor do SAMU põe a faixa de 8 a 10 no opioide forte, sem exigir falha do degrau anterior. A diretriz americana de dor na doença falciforme manda avaliar e aliviar em até uma hora da chegada, reavaliando a cada 30 a 60 minutos.
PCDT da Doença Falciforme, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16/2024, item 7.3.5; Protocolos SAMU 192 de Suporte Avançado de Vida, AC37, revisão de março de 2015; Brandow et al., Blood Advances 2020, recomendação 1A
Opioide forte só depois de analgésico, anti-inflamatório e opioide fraco — PCDT da Doença Falciforme (2024), mesmo item
Dois períodos adiante, o mesmo item diz que pacientes com doença falciforme podem receber opioides fortes quando não responderem a analgésicos, anti-inflamatórios e opioides fracos, e que devem seguir o protocolo de dor crônica vigente. Lida isoladamente, a frase manda percorrer os degraus antes do opioide forte, inclusive na crise.
PCDT da Doença Falciforme, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16/2024, item 7.3.5
As duas frases estão no mesmo documento e na mesma data, e decide o escopo. A escolha pela intensidade é escrita para a crise vaso-oclusiva; a falha dos degraus remete ao protocolo de dor crônica e descreve o opioide de uso continuado, o da dor presente na maioria dos dias. São dois momentos do mesmo paciente, e não duas regras rivais para o mesmo momento. Esta apostila adota, na crise com dor de 8 a 10, opioide forte venoso ou subcutâneo dentro da primeira hora, sem exigir falha prévia; fora da crise, no adulto que passa a precisar de opioide todos os dias, a sequência de degraus e o protocolo de dor crônica, pelo capítulo Analgesia na prática: escada, opioide, rodízio e efeitos adversos. Crise com dor de 5 a 7 fica no opioide fraco pela própria escala.
Anti-inflamatório por 5 a 7 dias junto do opioide — ASH (2020)
A diretriz de dor da Sociedade Americana de Hematologia sugere curso curto, de 5 a 7 dias, de anti-inflamatório não esteroide somado ao opioide na dor aguda da doença falciforme, com avaliação individual dos riscos renal, vascular e gastrointestinal, porque faltam dados de segurança de longo prazo nessa população.
Brandow AM et al. American Society of Hematology 2020 guidelines for sickle cell disease: management of acute and chronic pain. Blood Advances 2020;4(12):2656-2701, recomendação 2A, condicional, certeza muito baixa
Anti-inflamatório só na dor leve — SAMU 192 AC37 (2014, revisão 2015)
O protocolo de manejo da dor do SAMU distribui os fármacos por faixa da escala: analgésico simples em todas, anti-inflamatório na dor leve de 1 a 4, opioide fraco na moderada de 5 a 7 e opioide forte na intensa de 8 a 10, sem anti-inflamatório nas duas faixas mais altas.
Ministério da Saúde, Protocolos de Suporte Avançado de Vida SAMU 192, protocolo AC37 — Manejo da Dor, elaborado em agosto de 2014 e revisado em março de 2015
Os documentos não têm o mesmo escopo: o do SAMU organiza qualquer dor aguda no atendimento pré-hospitalar; a diretriz americana é escrita para a dor da doença falciforme. Pelo primeiro degrau da régua vence o documento feito para o paciente à frente, e o protocolo nacional da doença não diz o contrário — cita anti-inflamatório na crise ligada ao ciclo menstrual e, na gestação, restringe o uso na crise, admite entre 18 e 30 semanas e manda evitar depois de 30. Esta apostila adota anti-inflamatório por 5 a 7 dias junto do opioide na crise do adulto, desde que creatinina e urina não mostrem nefropatia, sem sangramento e fora da gestação acima de 30 semanas. No adulto com albuminúria ou creatinina subindo — justamente o de maior risco renal —, o anti-inflamatório fica de fora e a analgesia se apoia no opioide e no analgésico simples.
Penicilina G cristalina como esquema básico do adulto — PCDT da Doença Falciforme (2024), Quadro 4
O quadro de antibioticoterapia do protocolo traz a penicilina G cristalina como esquema básico do adulto, e o item de tratamento de infecções manda cobrir pneumococo e Haemophilus influenzae com penicilina ou amoxicilina com clavulanato na febre sem foco definido.
PCDT da Doença Falciforme, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16/2024, item 7.3.2 e Quadro 4
Ceftriaxona de 1 a 2 g de 12/12 h como esquema alternativo — PCDT da Doença Falciforme (2024), mesmo quadro
O mesmo quadro traz a ceftriaxona como alternativa, de 1 a 2 g por dose de 12/12 h no adulto, com teto de 4 g/dia, e o item de infecções a indica nos casos de meningite, por penetrar no sistema nervoso central.
PCDT da Doença Falciforme, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16/2024, Quadro 4 e item 7.3.2
Mesmo documento, mesma data, mesma natureza — decide a coerência interna. A linha da penicilina do adulto tem defeito demonstrável: a faixa impressa por dia não alcança o teto declarado na própria linha e dá ao adulto menos do que a tabela dá a uma criança de 30 kg, como mostra a nota do critério. A linha da ceftriaxona fecha a conta. Esta apostila adota ceftriaxona 1 g de 12/12 h na porta do adulto febril, 2 g de 12/12 h na suspeita de meningite, com azitromicina quando há infiltrado novo. A penicilina cristalina segue aceitável no serviço com rotina firme de infusão de 6/6 h, desde que lida por dose, de 1 a 5 milhões de unidades. O capítulo pediátrico fez a mesma escolha, e o adulto e a criança saem do mesmo pronto-socorro com a mesma régua.
O raciocínio, em voz alta
Eleutério Inácio, 41 anos, 72 quilos, motorista de aplicativo, tem doença falciforme SS e não vai ao hemocentro há três anos. Chega ao ambulatório de clínica médica encaminhado depois da quarta ida ao pronto-socorro no semestre e pergunta, com o celular na mão, se pode tomar “o remédio que diminui as crises”. Toma ácido fólico 5 mg por dia “desde sempre”. Há cinco meses sente dor na virilha esquerda que não passa entre as crises e piora no fim do dia ao volante. Exames da semana: hemoglobina de 7,6 g/dL, neutrófilos de 4.100, plaquetas de 280.000 e reticulócitos de 190.000 por mm³, creatinina de 1,6 mg/dL com clearance estimado de 48 mL/min, albuminúria aumentada, AST e ALT normais, sorologias para hepatites B e C e para HIV negativas.
Ele tem indicação de hidroxiureia?
Tem. O protocolo de 2024 inclui o genótipo SS a partir dos nove meses, sem exigir número de crises. Na triagem de exclusão do paciente virgem de tratamento, nada o impede: neutrófilos acima de 1.500, hemoglobina acima de 4,5 g/dL, reticulócitos acima de 80.000, plaquetas acima de 80.000, sem hepatopatia ativa. A contracepção, critério para a mulher, não se aplica, mas o planejamento de filhos entra na conversa.
Qual dose, com o rim que ele tem?
A dose de início é 15 mg/kg/dia: 1.080 mg em 72 kg. O clearance de 48 mL/min cai na faixa de 10 a 50, em que o protocolo manda dar metade da dose — 540 mg —, e recomenda avaliação conjunta com nefrologista. Arredondando para a apresentação e para o lado seguro, 500 mg por dia, uma cápsula. As subidas seguem a mesma lógica pela metade: cerca de 180 mg a cada 4 semanas, na prática 2 comprimidos de 100 mg, com teto de metade de 35 mg/kg/dia, 1.260 mg.
O que se pede antes da primeira cápsula
Pelo quadro de monitoramento do protocolo: eletroforese, que ele já tem; hemoglobina fetal; hemograma com plaquetas, reticulócitos e volume corpuscular médio; sorologias para hepatites B e C e HIV, já feitas; creatinina, AST e ALT. Depois, hemograma com reticulócitos a cada 2 semanas até a dose de manutenção, creatinina e transaminases a cada 4 semanas, hemoglobina fetal a cada 8 a 12 semanas.
E o rim?
Albuminúria com creatinina de 1,6 mg/dL num SS de 41 anos é nefropatia da doença falciforme, e a falência renal é causa frequente de óbito acima dos 40. O protocolo manda usar inibidor da enzima conversora precocemente, dizendo que ele pode reverter a evolução junto com a hidroxiureia, e monitorar a função renal quatro a seis vezes ao ano. O estadiamento e a titulação seguem o capítulo Doença renal crônica: estadiamento e manejo. E este paciente sai com um aviso na folha de problemas: sem anti-inflamatório na próxima crise.
O ácido fólico de vinte anos
O protocolo de 2024 restringe a suplementação ao folato sérico baixo e à gestação, e manda manter o folato abaixo de 17 ng/mL. A hidroxiureia vai produzir macrocitose, que pode mascarar deficiência de folato — então a decisão se toma com a dosagem, não com o volume corpuscular médio. Folato normal: suspende o comprimido diário. Folato baixo: suplementa. Sem dosagem disponível: 5 mg três vezes por semana, e não todo dia.
A dor na virilha
Dor de quadril que persiste entre as crises e piora com o uso não é crise: é osteonecrose da cabeça do fêmur até prova em contrário. O protocolo separa essa dor da vaso-oclusiva justamente para lembrar que ela pode ter tratamento cirúrgico e que o opioide de uso crônico não é a terapia certa. O caminho é imagem do quadril e ortopedista. Vale perguntar pelo ombro: osteonecrose em mais de uma articulação é um dos critérios do protocolo para discutir transplante de células-tronco.
O resto do ambulatório do adulto
Ecocardiograma com velocidade do jato tricúspide, exame de retina, vitamina D e densitometria, avaliação bucal, ressonância de crânio ao menos uma vez pela diretriz cerebrovascular americana, e o cartão de vacinas conferido no centro de imunobiológicos especiais: VPC20 em dose única — ou, se o cartão já tiver VPC13 ou VPP23, a transição da Nota Técnica nº 52/2026 —, meningococo, Haemophilus tipo b, hepatite A e influenza anual.
A decisão
Hidroxiureia 500 mg por dia, pela metade da dose por causa do rim, com o centro de referência e a nefrologia; inibidor da enzima conversora; folato dosado antes de mexer no comprimido; investigação de osteonecrose; rastreamento cardiopulmonar, de retina e osso pedido; vacinas encaminhadas; e a indicação escrita de não usar anti-inflamatório nas crises. Eleutério volta ao hemocentro com data.
Faça você
Conrado Romero, 36 anos, 64 quilos, eletricista, tem doença falciforme SS e não tem hipertensão, diabetes, dislipidemia nem arritmia conhecidas. A esposa o traz às 10h40 com fraqueza no braço e na perna direitos e fala arrastada que começaram às 9h50. Pressão de 138 por 82, glicemia capilar de 104 mg/dL, saturação de 95%, ritmo sinusal no eletrocardiograma. A tomografia de crânio sem contraste, às 11h05, não mostra sangramento. Hemoglobina de 7,6 g/dL. O hospital faz trombólise, mas a agência transfusional informa que a troca manual só consegue começar às 15h, e o centro de referência fica a duas horas de estrada.
Os dois relógios
O da trombólise conta a partir das 9h50, o último momento sem sintomas, e fecha às 14h20. O da transfusão conta a partir da chegada ao serviço, às 10h40, e pela diretriz cerebrovascular americana fecha às 12h40.
O que a hemoglobina de 7,6 g/dL permite
Complete: a troca só começa às 15h, fora do prazo de duas horas. Qual transfusão se faz agora, por qual critério, e com que hemácias?
A trombólise
Complete: a doença falciforme contraindica o trombolítico em Conrado? O que o perfil dele — 36 anos, sem fator de risco vascular — faz a diretriz priorizar, e que condição a trombólise precisa respeitar em qualquer caso?
Quem é dono de cada parte
Complete: onde estão a dose, o preparo e a vigilância do trombolítico e a decisão de trombectomia; e onde estão a técnica da troca e a escolha da bolsa.
Ver como fecharíamos
Transfusão simples agora, com hemácias compatíveis para Rh e K, desleucocitadas e sem hemoglobina S, porque a troca não começa dentro de duas horas e a hemoglobina está em 8,5 g/dL ou menos (ASH 2020, recomendação 4.2); a troca é organizada em seguida com o centro de referência, e o protocolo nacional também prevê a simples quando a troca não está disponível. A doença não contraindica a trombólise: Conrado pode ser avaliado pelos critérios habituais, com início há menos de 4,5 horas e tomografia sem sangramento; mas, jovem e sem fatores de risco vascular, é o perfil em que a diretriz manda dar ênfase à transfusão precoce, e em nenhum caso o trombolítico pode atrasar o sangue (recomendação 7). A decisão é compartilhada com ele e com a esposa. Dose, preparo, vigilância das 24 horas e trombectomia seguem os capítulos Déficit neurológico focal agudo: a janela e o relógio e AVC isquêmico: janela terapêutica, trombólise e trombectomia; técnica da troca e bolsa, o capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais. O seguimento para prevenção secundária é do centro de referência.
Neutrófilos abaixo de 1.500 por mm³ estão na coluna tóxica do quadro de monitoramento do protocolo, e a regra é suspender até a recuperação hematológica e reiniciar com 5 mg/kg/dia a menos que a dose em uso na intoxicação — de 25 para 20 mg/kg/dia, 1.200 mg em 60 kg —, voltando a subir a cada 4 semanas. Se a toxicidade se repetir na mesma dose, essa passa a ser a dose máxima tolerada. A nota de rodapé que fala em 1.250 contradiz a própria tabela, e esta apostila segue a tabela no adulto. Neutropenia não contraindica o medicamento para sempre, e reduzir sem suspender não segue o protocolo.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Descreva a primeira hora de uma crise dolorosa intensa, incluindo analgesia, monitorização e busca de complicações. Explique quais sinais fazem suspeitar de síndrome torácica aguda.
Em 30 dias
Reavalie um paciente cuja dor melhorou, mas que desenvolveu febre e necessidade crescente de oxigênio. Organize tratamento e escalonamento, e depois construa um plano de alta com prevenção, vacinação e seguimento especializado.
Agora atenda
Agora atenda: Ardelina Guerreiro, 22 anos, 51 quilos, estudante de enfermagem com doença falciforme SC, chega ao pronto-socorro às 23h com dor lombar e nos dois joelhos de nota 8, febre de 38,3 °C e calafrio há três horas. Menstruou ontem. A hemoglobina basal do cartão é de 10,8 g/dL; a de hoje, 9,0 g/dL. Saturação de 96%, baço palpável a 3 cm do rebordo costal. Ela pede para não tomar ibuprofeno porque o último exame de urina “deu proteína”. Decida a analgesia da primeira hora, a coleta, o antibiótico e a dose, o que o baço e a hemoglobina obrigam a vigiar e o que precisa estar escrito antes de ela subir para a enfermaria.
