Pediatria › Hematologia Pediátrica
A púrpura que a plaqueta não explica
Púrpura de Henoch-Schönlein (vasculite por IgA)
Vasculite por IgA na criança: integrar pele, articulações, abdome e rim. Plaquetas normais não excluem leucemia, e o escroto agudo exige avaliação urgente mesmo com fluxo ao Doppler.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Reumatologia (gestão 2019-2021). Vasculite por IgA (púrpura de Henoch-Schönlein) deve ser acompanhada em longo prazo? Documento Científico nº 5, novembro de 2019.
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Menino de 31 kg tem orquiepididimite associada à vasculite por IgA, com torção excluída pelo urologista. Após avaliação especializada, foi prescrito um curso de prednisona de 2 mg/kg/dia, limitado a 60 mg/dia. Qual dose diária e apresentação em comprimidos correspondem a esse esquema?
O paciente que você vai ver
Terça-feira, sete da noite, pronto-atendimento pediátrico de um hospital municipal. Jacinto Itarema, seis anos, 22 quilos e 116 centímetros, entra no colo da mãe, Geralda, com as pernas de fora do short e o corpo dobrado para a frente. A queixa que ela traz escrita no celular, para não esquecer nada, tem três linhas: manchas roxas nas pernas desde anteontem, dor no tornozelo direito há quatro dias, e desde as três da tarde uma dor de barriga que vem e vai, que o faz chorar e encolher as pernas. Vomitou uma vez no ônibus. Duas semanas atrás teve um resfriado com coriza e tosse, que passou sozinho. Não tomou remédio nenhum além de um xarope caseiro de mel e limão.
A mãe não pergunta o que ele tem. Pergunta se é leucemia. O filho de uma vizinha começou com manchas roxas, dor nas pernas e cansaço, e foi assim que descobriram. O interno do quarto ano, que recebe a ficha, anota o que vê: temperatura axilar de 36,8 °C, frequência cardíaca de 104, frequência respiratória de 22, saturação de 98%, criança corada, hidratada, acordada, que responde, reclama da dor e se distrai com o celular da mãe entre uma cólica e outra. Não há rigidez de nuca. A pressão, medida no braço direito com o manguito infantil que cobre o braço do jeito certo, dá 102 por 64 mmHg.
Nas pernas, das coxas aos tornozelos, e nas nádegas, há dezenas de manchas vermelho-arroxeadas de dois a cinco milímetros, algumas agrupadas, várias em relevo quando o dedo passa por cima. A pediatra de plantão, Febronia Ipanema, pega um copo de vidro liso da copa e aperta a lateral dele contra a canela do menino: a pele em volta empalidece e as manchas continuam lá, do mesmo tamanho e da mesma cor. O rosto, o tronco e os braços estão limpos. O tornozelo direito está um pouco inchado, quente, dói para mexer, mas o menino apoia o pé. O abdome é flácido, dói em toda parte à palpação profunda, não tem massa palpável nem defesa. Os testículos estão tópicos e indolores. Não há fígado nem baço aumentados, não há gânglios.
O interno escreve a hipótese que o treino lhe ensinou a escrever diante de mancha roxa em criança: plaquetopenia a esclarecer — púrpura trombocitopênica imune ou leucemia —, e já estende a mão para o telefone da hematologia. A pediatra o interrompe sem pressa. Antes do nome, pede três coisas que custam menos de uma hora: hemograma com leitura da lâmina, urina tipo 1 e creatinina. E lembra que a pressão arterial, a quarta coisa, ele já mediu — e que ela vai ser medida de novo muitas vezes.
Quarenta minutos depois chegam os resultados. Hemoglobina de 12,1 g/dL, leucócitos de 13.800 por mm³ com diferencial normal e nenhuma célula imatura na lâmina, plaquetas de 386.000 por mm³. Na urina, doze hemácias por campo e proteína negativa na fita. Creatinina dentro da referência para a idade. A contagem de plaquetas, sozinha, desmonta as duas hipóteses escritas na ficha: a mancha não é falta de plaqueta.
Às nove da noite a dor muda. As cólicas passam a vir a cada quinze ou vinte minutos, o menino grita, puxa os joelhos contra a barriga, vomita de novo e fica pálido entre uma crise e outra. O interno propõe duas prescrições que parecem óbvias: prednisolona, porque é uma vasculite e vasculite se trata com corticoide, e ibuprofeno para o tornozelo, porque é o que a mãe tem em casa. A pediatra recusa as duas, por enquanto, e explica por quê em três frases. Uma dor abdominal que muda de padrão numa criança com essa doença pode ser uma invaginação intestinal, e o ultrassom vem antes do corticoide. Com hemácia na urina, o anti-inflamatório não entra. E a urina normal ou quase normal desta noite não encerra o assunto do rim, porque a nefrite desta doença costuma aparecer nas semanas seguintes.
A mãe, que ouviu tudo, faz as perguntas que o capítulo inteiro vai responder. Se não é leucemia, o que é? Ele vai ficar internado? E por que falaram do rim, se o problema é na pele e na barriga? Por trás delas estão as perguntas do interno. O que faz desta criança uma vasculite por IgA, e não uma plaquetopenia, uma leucemia, uma doença meningocócica ou uma lesão que alguém provocou? Quem precisa de ultrassom, quem recebe corticoide e quem interna? O que se dá para a dor, e o que não se dá? E por quanto tempo, com que frequência e com que números se vigiam a urina e a pressão de uma criança cuja pele vai estar limpa daqui a um mês?
Quem adoece disso
A vasculite por IgA é a vasculite primária mais frequente da infância. O documento científico da Sociedade Brasileira de Pediatria de novembro de 2019 estima entre 3 e 30 casos por 100.000 crianças e adolescentes por ano, com idade média de início de seis anos, 90% dos casos antes dos dez anos e predomínio discreto dos meninos, na razão de 1,5 para 1. Uma infecção de vias aéreas superiores precede o quadro em 30% a 50% das crianças, e o mesmo documento cita, entre os possíveis desencadeantes, medicamentos (aspirina, penicilinas, cefalosporinas) e alimentos. A consequência para quem está no pronto-atendimento é direta: a criança em idade escolar, sem febre e em bom estado, com púrpura nas pernas e contagem de plaquetas normal, tem esta doença como hipótese mais provável — e é justamente esse perfil tranquilizador que faz o plantonista esquecer o que ela pode fazer nas semanas seguintes.
A pele está em todos os casos, porque é critério obrigatório: petéquia ou púrpura em 100% por definição. As outras frequências, reunidas pela SBP a partir de séries publicadas, desenham o que o interno deve procurar em cada criança. Artrite ou artralgia aparecem em 69% a 79%. Dor abdominal, em 50% a 62%, e dor abdominal intensa, em 17% a 32%. Sangramento gastrintestinal, em 10% a 17%. Orquite ou orquiepididimite, em 9% a 20%. A invaginação intestinal, que o documento chama de complicação aguda mais grave, aparece em 1% a 3% na tabela e em até 3,5% no texto — algo entre uma e três ou quatro crianças em cada cem, número pequeno o bastante para ser esquecido e grande o bastante para que todo pronto-atendimento pediátrico veja uma.
O rim é onde os números mais variam e onde mais pesam. A SBP registra nefrite entre 20% e 80% das crianças, e a largura da faixa diz mais sobre o que cada série contou do que sobre a doença: a hematúria microscópica isolada, que passa sem deixar marca na maioria, entra na conta de umas e fica fora de outras. As formas graves — síndrome nefrótica, síndrome nefrítica, doença renal aguda ou crônica — ficam entre 1% e 5%, em períodos que chegam a vinte anos. O consenso europeu SHARE, de 2019, dá a medida do risco pelo tamanho da alteração: o dano renal permanente fica perto de 1,6% em quem teve só alteração urinária leve e sobe até 19,5% em quem teve síndrome nefrótica ou nefrítica; com mais da metade dos glomérulos em crescente na biópsia, a doença renal crônica atinge de 5% a 20%. A KDIGO de 2025 acrescenta o dado de tempo que organiza o seguimento: a maioria das crianças que vão ter nefrite a manifesta nos três primeiros meses.
O dado brasileiro que sustenta o seguimento prolongado vem de uma coorte citada pela SBP: 296 crianças e adolescentes com vasculite por IgA. Dos 118 que não tiveram nefrite nos três primeiros meses, 33 — 28% — tiveram envolvimento renal durante o seguimento, com proteinúria não nefrótica persistente e/ou hematúria, alguns até quinze anos depois. A conta complementar mostra o perfil da coorte: 178 dos 296 (60%) já tinham nefrite nos três primeiros meses, uma proporção dentro da faixa larga descrita acima. O número não autoriza dizer que uma em cada quatro crianças sem nefrite inicial vai ter doença renal grave — o que a coorte descreve é alteração urinária, na maior parte não nefrótica —, mas autoriza dizer que a urina normal do primeiro mês não encerra a vigilância.
Duas contas simples ajudam a dimensionar o trabalho de quem acompanha. Se a vigilância pede ao menos uma urina e uma pressão por mês durante seis meses, cada criança diagnosticada gera no mínimo sete exames de urina — o do diagnóstico e seis mensais — e sete medidas de pressão no primeiro semestre; um serviço que diagnostica dez crianças por ano terá, em qualquer momento, cerca de cinco crianças em vigilância ativa. É trabalho de atenção primária organizada, com retorno marcado e resultado lido, e não de pronto-atendimento. A criança que sai do hospital sem o calendário da urina anotado é a que vai aparecer, meses depois, com edema ou pressão alta.
Não há protocolo clínico federal da vasculite por IgA, e a Rename 2024 não cita a doença, como já registrou o capítulo Vasculites sistêmicas, da apostila de Reumatologia, para as vasculites do adulto. A régua brasileira da criança é, portanto, um documento de sociedade: o Documento Científico nº 5 da SBP, de novembro de 2019, que é também o único documento brasileiro sobre o tema. Para cada decisão central, este capítulo diz qual régua usa. O diagnóstico segue os critérios de classificação EULAR/PRINTO/PRES, que a SBP reproduz e o SHARE adota. A analgesia, o anti-inflamatório e o corticoide seguem a SBP, com o SHARE registrado onde diverge. A vigilância da urina e o encaminhamento ao nefrologista seguem a KDIGO de 2025, porque a SBP não fixa frequência de exame nem faixa de proteinúria para encaminhar. E o que a rede fornece é o que está na Rename 2024 — o que exclui a ranitidina recomendada pela SBP, proibida no Brasil desde 2020.
Por que acontece o que acontece
O nome mudou em 2012. A Conferência de Consenso de Chapel Hill trocou púrpura de Henoch-Schönlein por vasculite por IgA porque o achado que define a doença é o depósito predominante de IgA1 deficiente em galactose na parede dos vasos acometidos, como resume a SBP. Os vasos são os de pequeno calibre, e os territórios preferidos são quatro: pele, articulações, tubo digestivo e rim. O depósito de imunocomplexos e a inflamação da parede do vaso são os mesmos no adulto e estão descritos no capítulo Vasculites sistêmicas, da apostila de Reumatologia; o que este capítulo guarda do mecanismo é só o que explica por que a criança se apresenta como se apresenta e por que as decisões de tratamento são as que são.
A primeira explicação é a da própria mancha. Na vasculite, a parede do vaso inflamado deixa passar hemácias para a derme, e o infiltrado inflamatório em volta dá volume à lesão — por isso a púrpura desta doença é, com frequência, palpável: o dedo sente o relevo que o olho vê. A histologia, quando é feita, mostra vasculite leucocitoclástica. Nada disso consome plaqueta. É por isso que a SBP pode afirmar que as plaquetas da criança com vasculite por IgA nunca estão diminuídas, e sim normais ou aumentadas, e que plaquetopenia sugere outro diagnóstico. Na púrpura trombocitopênica imune o mecanismo é o oposto: o vaso é íntegro, falta a plaqueta que fecharia as pequenas soluções de continuidade de todo dia, e a lesão é plana. O copo apertado contra a pele diz que há sangue fora do vaso; a contagem diz por qual dos dois caminhos ele saiu.
A distribuição também faz parte do quadro. As lesões predominam nos membros inferiores e nas nádegas, podem aparecer nos braços, no rosto e no couro cabeludo e raramente no tronco; vêm em surtos com intervalo de cerca de uma semana, a doença ativa dura de um a dois meses e as lesões somem sem cicatriz. A SBP recomenda repouso relativo no primeiro mês porque a atividade física pode trazer as lesões de volta. Lesão fora dessa distribuição — no tronco, sem as pernas — não exclui a doença, mas tira do quadro a segurança do diagnóstico clínico e é uma das situações em que a biópsia de pele passa a ter papel.
No tubo digestivo, a vasculite acomete a parede da alça. O SHARE descreve gastrite, duodenite, ulceração e púrpura da mucosa; a parede edemaciada e com sangue explica a dor em cólica, periumbilical ou epigástrica, pior com a alimentação, os vômitos e o sangramento, que costuma ser oculto e às vezes aparece como melena ou fezes com sangue. O mesmo segmento espessado pode servir de ponto de partida para uma invaginação — o capítulo Invaginação/intussuscepção intestinal do lactente, da apostila de Cirurgia Pediátrica, descreve o hematoma da parede como esse ponto de partida e registra que, nesta doença, a invaginação costuma ser ileoileal. Como o intestino pode inflamar antes da pele, a dor abdominal é a primeira manifestação em cerca de 20% das crianças, e a doença pode se apresentar como um abdome agudo sem nenhuma mancha para orientar.
Nas articulações, a inflamação é periarticular e aguda: edema, dor e limitação, de preferência nos joelhos e tornozelos, com caráter migratório e raramente com cinco ou mais articulações. Ela também pode chegar antes da pele e, nesse intervalo, imitar febre reumática ou uma doença maligna, o que dá ao hemograma com lâmina o mesmo peso que ele tem diante da púrpura. No escroto, a vasculite dos vasos do cordão e do testículo produz edema escrotal agudo e doloroso — a orquite ou orquiepididimite da doença —, que tem de ser separado da torção do cordão, porque os dois doem igual e só um deles perde o testículo em horas.
No rim, o depósito de IgA se faz no mesângio glomerular. A lesão resultante é, ao microscópio, indistinguível da nefropatia por IgA restrita ao rim, como afirma a KDIGO de 2025. A proliferação mesangial dá hematúria e proteinúria; quando a inflamação é intensa o bastante para formar crescentes no espaço de Bowman, a apresentação passa a ser de glomerulonefrite rapidamente progressiva. O ponto decisivo para o seguimento é o tempo: a nefrite costuma aparecer nas primeiras semanas a três meses, depois de a pele ter chamado atenção, e pode surgir quando a pele já está limpa. A urina do primeiro dia é um retrato; a doença renal é um filme, e só se vê repetindo o exame.
Esse descompasso explica o resultado que mais surpreende o interno: o corticoide dado cedo não impede a nefrite. A KDIGO de 2025 resume a evidência. Num ensaio com 352 crianças, a prednisolona precoce não reduziu a presença de proteinúria aos doze meses; em outro, com 171 crianças, não evitou o aparecimento da nefrite; e uma meta-análise de cinco ensaios, com 789 crianças tratadas por duas a quatro semanas ao diagnóstico, não mostrou efeito preventivo sobre a nefrite persistente aos seis e aos doze meses. Por isso a diretriz recomenda não usar corticoide sistêmico para prevenir nefrite, com grau 1B, e o SHARE diz o mesmo com nível 1B e força A. O corticoide tem indicação nesta doença — na dor abdominal importante, na orquite, nas formas graves e na nefrite estabelecida —, mas a indicação é tratar o que já está inflamado, não proteger o rim que ainda está normal.
O mecanismo também explica a cautela com o anti-inflamatório não esteroide. Os dois órgãos que a doença inflama além da pele e das juntas são justamente os dois que esse remédio pode ferir: o rim, cuja toxicidade o SHARE registra como a preocupação que limita o uso dessa classe na fase aguda, e o tubo digestivo, onde o próprio SHARE contraindica o fármaco se houver sangramento ativo. A SBP resolve a questão pelo lado mais estreito — anti-inflamatório só na criança com artrite e sem nenhum sinal renal —, e esta apostila adota essa régua pelas razões da seção de divergências. Na prática, é por isso que o paracetamol é o analgésico de partida, e é por isso que a urina tipo 1 precisa estar lida antes de alguém prescrever ibuprofeno para o tornozelo inchado.
Como se apresenta de verdade
Este capítulo é dono da criança com vasculite por IgA: o diagnóstico clínico, a separação dos diferenciais na porta, o tratamento do que precisa ser tratado e a vigilância do rim até a porta do nefrologista pediátrico. A vasculite por IgA do adulto é do capítulo Vasculites sistêmicas, na apostila de Reumatologia, que também descreve o mecanismo comum às duas idades. A doença de Kawasaki, a outra vasculite própria da infância, é do capítulo Doença de Kawasaki: critérios diagnósticos e tratamento, na apostila de Infectologia Pediátrica. Como nenhum capítulo do nível trata a nefrite da vasculite por IgA da criança, este fica com a parte dela que decide o encaminhamento: quem vai ao nefrologista, com que pressa e a partir de qual número.
O que é de vizinho sai remetido pelo nome. A redução da invaginação e a decisão cirúrgica são do capítulo Invaginação/intussuscepção intestinal do lactente, na apostila de Cirurgia Pediátrica. A torção do testículo é do capítulo Escroto agudo (torção testicular x epididimite), na apostila de Urologia. O primeiro atendimento da criança com púrpura — o hemograma que separa a plaquetopenia da púrpura com plaquetas normais — é do capítulo Púrpura trombocitopênica imune (PTI) na criança, desta apostila, que também reconhece e encaminha as plaquetopenias hereditárias; a criança com petéquias chega por essa porta, e é lá que se aprende a lê-la. A púrpura palpável com plaquetas normais é da vasculite por IgA e é deste capítulo, que começa onde aquele termina: plaqueta normal tira a hipótese de trombocitopenia imune, e a urina e a pressão arterial se medem no mesmo dia. A criança com outra citopenia, dor óssea ou fígado e baço aumentados é do capítulo Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, na apostila de Oncologia Pediátrica. A febre com petéquias é dos capítulos Febre sem sinais localizatórios no lactente e abordagem da criança febril, na apostila de Emergências Pediátricas, e Meningites bacterianas e virais na infância, na apostila de Infectologia Pediátrica. A lesão que a história não explica é do capítulo Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória (ECA), na apostila de Emergências Pediátricas. A leitura da pressão por percentil e a nefrite pós-estreptocócica são do capítulo Glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica, e a síndrome nefrótica idiopática, do capítulo Síndrome nefrótica idiopática (lesões mínimas) na infância, os dois na apostila de Nefrologia Pediátrica. A febre reumática é do capítulo Febre reumática e cardiopatia reumática crônica, na apostila de Cardiologia, e a farmacodermia grave, do capítulo Farmacodermias graves: Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica e DRESS, na apostila de Dermatologia.
A pele: púrpura que se palpa e não some sob o vidro
A manifestação que está em todas as crianças é a petéquia ou a púrpura, geralmente palpável, vermelho-arroxeada, que não desaparece à pressão, predominando nos membros inferiores e nas nádegas. As lesões costumam ser indolores e não coçam, aparecem em surtos com cerca de uma semana de intervalo e somem sem cicatriz depois de um a dois meses de doença ativa. Cerca de 30% das crianças têm, junto, edema subcutâneo, em geral doloroso, nas mãos, nos pés e no couro cabeludo — o edema que faz a mãe dizer que o sapato não entra.

Lesões vesiculosas ou bolhosas, habitualmente hemorrágicas, aparecem em até 2% das crianças, podem preceder as lesões típicas e costumam indicar curso mais grave e prolongado, com cicatriz residual. É um achado que muda o diferencial — farmacodermia bolhosa e infecção de pele passam a disputar o nome — e que costuma justificar a biópsia. A lesão na bolsa escrotal é outra armadilha de leitura: a SBP registra que a criança com petéquias ou púrpura apenas na pele do escroto não tem, por isso, orquite.
Para o interno, o exame da pele tem três gestos. Olhar a distribuição, porque o predomínio em pernas e nádegas é o que torna o diagnóstico clínico seguro. Passar o dedo, porque o relevo fala de vaso inflamado. E apertar a lesão com vidro transparente, porque a mancha que some é eritema — urticária, exantema viral, reação a medicamento — e não púrpura. Um quarto gesto é despir a criança inteira: o tronco, o couro cabeludo, a boca e a região genital entram no exame, porque é ali que se acham as lesões que mudam o diferencial.
As articulações: a dor que às vezes chega antes da mancha
O envolvimento articular aparece em 69% a 79% das crianças. É uma artralgia ou artrite aguda, dolorosa e migratória, de grandes articulações — sobretudo joelhos e tornozelos —, que raramente atinge cinco ou mais articulações. A criança manca, recusa-se a andar ou pede colo, e a articulação pode estar edemaciada e quente sem que haja derrame volumoso.
Antes da púrpura, dor articular pode lembrar outras doenças. Dor óssea persistente ou noturna, recusa progressiva para caminhar, palidez, febre, perda de peso ou organomegalias exigem investigar causas como leucemia, integrando história e exame ao hemograma e à lâmina. Um hemograma inicialmente normal não encerra a investigação quando os sinais persistem; retome o capítulo de diagnóstico precoce em Oncologia Pediátrica.
A artrite desta doença não é o que decide internação nem o que mais preocupa, mas é a manifestação que mais leva a prescrever o remédio errado. É na junta inchada que alguém pensa em anti-inflamatório, e é por isso que a urina tipo 1 tem de estar lida antes da receita. Com urina sem hematúria e sem proteinúria, a SBP admite anti-inflamatório por uma a duas semanas; com qualquer sinal renal, o analgésico é o paracetamol.
O abdome: cólica, sangue e a invaginação
A dor abdominal aparece em 50% a 62% das crianças e é intensa em 17% a 32%. É tipicamente periumbilical e em cólica, acompanhada de náusea, vômitos e, às vezes, diarreia com sangue; o SHARE acrescenta que a dor epigástrica ou periumbilical costuma piorar com a alimentação e que o sangramento, na maioria das vezes oculto, pode aparecer como melena. Em cerca de 20% das crianças a manifestação digestiva vem antes da pele, e em até 22% a dor imita apendicite aguda — há criança que chega ao centro cirúrgico antes de a primeira mancha aparecer.
A complicação aguda mais grave é a invaginação intestinal, descrita em até 3,5% das crianças. Nesta doença ela costuma ser ileoileal, com o segmento de parede espessada e hemorrágica fazendo o ponto de partida. O que deve fazer o interno pensar nela é a mudança de padrão: a cólica que passa a vir em crises regulares com palidez e prostração entre elas, o vômito que se repete ou fica bilioso, a massa palpável, o sangue vivo ou em geleia nas fezes, a criança que para de se distrair entre as dores. O SHARE recomenda que toda criança com dor abdominal intensa faça ultrassom com examinador experiente em pediatria para excluir a invaginação, e a SBP chama o ultrassom de exame mais adequado para reconhecê-la cedo e acompanhá-la.
O sangramento digestivo aparece em 10% a 17% das crianças. Na maior parte é pequeno, mas é a manifestação que, somada à dor, faz a SBP indicar corticoide e, nos casos mais graves, pulso de metilprednisolona. A criança com melena ou fezes com sangue, com queda de hemoglobina ou que não consegue manter hidratação por boca é criança de hospital. E é também a criança em que o anti-inflamatório não entra de jeito nenhum: o SHARE o contraindica no sangramento digestivo ativo.
O rim: a manifestação que chega depois
A nefrite é o principal determinante do prognóstico. Na maioria das crianças ela se resume a hematúria e/ou proteinúria transitórias, que duram de um a três meses e somem sem deixar marca; na minoria, a apresentação é de síndrome nefrótica (edema, proteinúria maciça, albumina baixa), de síndrome nefrítica (hematúria com hipertensão, edema ou queda da função) ou de doença renal aguda. A SBP coloca essas formas graves entre 1% e 5% das crianças, em qualquer momento de um período que chega a vinte anos.
O que distingue o rim das outras manifestações é o calendário. A nefrite costuma aparecer nos três primeiros meses, quase sempre depois da pele, e a coorte brasileira citada pela SBP mostrou alteração urinária surgindo meses e anos depois em crianças que não tinham nefrite no início. Por isso a urina e a pressão do dia do diagnóstico são o ponto de partida de uma série, e não um resultado definitivo — e por isso a criança com urina normal na primeira noite, como Jacinto quase teve, sai com retorno marcado para repetir.
Os sinais que a família precisa conhecer são os que a criança não vai relatar sozinha: urina escura, cor de refrigerante de cola ou de água de carne; urina com espuma persistente; inchaço das pálpebras ao acordar ou das pernas no fim do dia; dor de cabeça nova, vômito sem dor abdominal, visão borrada; e diminuição do volume de urina. Qualquer um deles antecipa o retorno para o mesmo dia. A pressão arterial, medida com manguito adequado e comparada à tabela por idade, sexo e estatura, entra em toda consulta da vigilância.
O escroto e as formas graves raras
Orquite ou orquiepididimite pode acompanhar a vasculite, inclusive antes da púrpura. Mas dor escrotal aguda também pode ser torção testicular: a presença de púrpura não resolve o diagnóstico. Acione urologia/cirurgia prontamente. O Doppler auxilia se não atrasar a avaliação; fluxo normal ou aumentado pode ocorrer em torção parcial ou intermitente e não a exclui. A decisão segue o quadro clínico e o capítulo de escroto agudo.
Confirmada a orquite da vasculite, ela é uma das indicações de corticoide que as duas fontes compartilham: o SHARE a lista, ao lado da vasculite cerebral, da hemorragia pulmonar e de outra manifestação grave de órgão ou ameaçadora da vida; a SBP inclui a orquiepididimite, a hemorragia pulmonar e o comprometimento neuropsiquiátrico entre as situações em que o corticoide está sempre indicado.
As formas graves fora do rim e do intestino são raras, mas têm sinal: convulsão, rebaixamento, cefaleia intensa ou déficit focal numa criança com púrpura sugerem vasculite do sistema nervoso central — ou hipertensão grave pela nefrite, que precisa ser medida antes de qualquer outra hipótese —; tosse com sangue, queda de saturação ou infiltrado novo sugerem hemorragia pulmonar. São crianças de terapia intensiva, com pulso de metilprednisolona discutido com o especialista, e o papel do interno é reconhecer e chamar.
O lactente e o adolescente
No lactente, a doença tem uma variante própria, que a SBP descreve como edema hemorrágico agudo: lesões purpúricas, equimoses e hematomas de predomínio na face, sobretudo na região malar, e nos membros, acompanhados de edema indolor das mãos e dos pés. O risco de leitura errada é duplo — tomar por doença meningocócica uma criança que está bem, ou tomar por agressão uma lesão que a doença explica. As duas leituras se resolvem com o mesmo método: o estado geral, a febre, a contagem de plaquetas, e uma história que explique ou não explique cada lesão.
No adolescente, a doença se aproxima da do adulto. A KDIGO de 2025 registra que a vasculite por IgA abaixo de dezesseis anos costuma ser autolimitada, que no adulto ela tende a ser mais grave e recidivante, e que o adolescente depois da puberdade pode, em alguns aspectos, ter curso semelhante ao do adulto — sem que haja dado para tratá-lo como adulto. A consequência prática é olhar com mais rigor a proteinúria e a pressão do adolescente, e não relaxar o seguimento porque ele já é quase adulto.
O adolescente também traz perguntas que a criança pequena não traz: se pode treinar, se pode tomar anti-inflamatório para a cólica menstrual ou para a dor do futebol, e, no caso da menina, o que a doença tem a ver com uma gravidez futura. A SBP recomenda monitoração rigorosa no pré-natal de toda gestante que teve a doença quando criança ou adolescente, mesmo sem nefrite no início ou na evolução. É uma informação que precisa ser dita à própria adolescente, e não só à mãe, com o sigilo e os limites que o Estatuto da Criança e do Adolescente dá a essa conversa.
Como fechar o diagnóstico
O diagnóstico da vasculite por IgA na criança é clínico. A KDIGO de 2025 afirma que, na criança, os critérios internacionais bastam para o diagnóstico, e o SHARE recomenda a biópsia de pele só quando a lesão é atípica ou há outro diagnóstico a excluir. Os exames do primeiro dia servem, portanto, a três perguntas diferentes, e é útil pedi-los pensando nelas: o que exclui os diferenciais que matam ou que mudam o tratamento (a contagem de plaquetas e a lâmina); o que mede o que a doença já fez (a urina, a creatinina, a pressão, a hemoglobina); e o que procura a complicação que está acontecendo agora (o ultrassom do abdome ou do escroto, quando a clínica pede).
O hemograma com lâmina: a primeira pergunta é a plaqueta
A porta de entrada é compartilhada, e tem dono. O primeiro atendimento da criança com petéquias ou púrpura — o hemograma que separa a plaquetopenia da púrpura com plaquetas normais, a leitura do esfregaço e o reconhecimento das plaquetopenias hereditárias — é do capítulo Púrpura trombocitopênica imune (PTI) na criança, desta apostila, e é para lá que vai quem ainda não tem a contagem. Este capítulo usa o resultado. A SBP é categórica: na vasculite por IgA as plaquetas nunca estão diminuídas, e sim normais ou aumentadas; plaquetopenia sugere outro diagnóstico. A criança com púrpura palpável e plaquetas normais entra no caminho deste capítulo; a criança com púrpura e plaquetas baixas volta ao capítulo de PTI, e a que tem outra citopenia, célula imatura na lâmina, dor óssea, linfonodos, fígado ou baço aumentados vai ao capítulo Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce, na apostila de Oncologia Pediátrica.
A leitura da lâmina não é um luxo de laboratório universitário: é o que separa uma contagem de leucócitos alta por inflamação de uma contagem alta por blastos. A SBP descreve na vasculite por IgA leucocitose moderada, de até 20.000 por mm³, e anemia aguda quando há sangramento. Uma hemoglobina que cai entre dois exames numa criança com dor abdominal é sangramento digestivo até prova em contrário, mesmo que as fezes ainda não o tenham mostrado.
As provas de atividade inflamatória — VHS e PCR — vêm normais ou altas nesta doença e não fazem nem desfazem o diagnóstico. Em época de epidemia, a febre com petéquias e plaquetopenia pertence ao capítulo Dengue, Zika e Chikungunya: manejo e sinais de alarme, na apostila de Infectologia, e não a este.
Urina, creatinina e pressão desde o primeiro dia
Toda criança com a doença é investigada para o rim no diagnóstico, mesmo sem nenhuma queixa urinária. O SHARE recomenda três medidas: a pressão arterial, a urina — com pesquisa de hematúria e quantificação da proteinúria ou da albuminúria pela relação com a creatinina, de preferência na primeira urina da manhã — e a função renal pela filtração estimada, calculada pela fórmula de Schwartz a partir da creatinina e da estatura, que corrige para a superfície corporal melhor do que a creatinina isolada. A KDIGO de 2025 acrescenta o calendário: urina no início e depois ao menos mensalmente por no mínimo seis meses.
A urina tipo 1 do pronto-atendimento responde a primeira pergunta — há sangue ou proteína? —, mas não quantifica. A hematúria que conta no critério de classificação é a de mais de cinco hemácias por campo ou a presença de cilindros hemáticos. A fita que marca proteína traço ou uma cruz pede a relação proteína/creatinina numa amostra da manhã seguinte, porque é o número dessa relação, e não a cruz da fita, que decide encaminhamento. A estatura medida no dia vai para o prontuário junto com a creatinina: sem ela, ninguém calcula a filtração da criança depois.
A pressão é a medida mais barata e a mais esquecida. Mede-se com a criança calma, sentada, com o manguito cuja bolsa cobre a circunferência do braço, e o valor se compara à tabela por idade, sexo e percentil de estatura, como ensina o capítulo Glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica, na apostila de Nefrologia Pediátrica — não ao número do adulto. Na criança com vasculite por IgA, pressão alta não é ansiedade do plantão: é sinal de nefrite até prova em contrário, e muda a pressa do encaminhamento.
A proteinúria em três unidades
As fontes deste capítulo falam de proteinúria em unidades diferentes, e o laboratório brasileiro costuma imprimir uma terceira. O SHARE usa mg/mmol, a KDIGO escreve mg/g com mg/mmol entre parênteses, a SBP usa gramas por metro quadrado por dia e o laudo comum traz mg/mg ou mg/g. A conversão que resolve quase tudo é uma só: 1 g de creatinina corresponde a 8,84 mmol, então mg/mmol × 8,84 = mg/g, e 1 mg/mg é o mesmo que 1.000 mg/g, ou cerca de 113 mg/mmol. A KDIGO arredonda a conta para o fator 10 — escreve 1.000 mg/g como 100 mg/mmol —, uma aproximação de pouco mais de 10% que não muda decisão.
A albuminúria do critério de classificação é outra armadilha de unidade. O corte é uma relação albumina/creatinina acima de 30 mg/mmol, cerca de 265 mg/g, ou proteinúria acima de 0,3 g em 24 horas. O Quadro 1 do documento da SBP imprime a unidade invertida, em mmol/mg, e quem lê o número na unidade do laudo brasileiro, mg/g, põe o corte quase nove vezes mais baixo — a conta está nas notas do bloco de critérios.
A urina de 24 horas tem lugar menor na criança do que no adulto, e não só pela dificuldade da coleta. Na criança, a proteinúria de 24 horas se expressa por metro quadrado de superfície corporal, porque a creatinina que ela excreta por dia é menor que a do adulto — a KDIGO de 2025 da síndrome nefrótica da criança define a faixa nefrótica como 1.000 mg/m²/dia ou relação de 2 g/g. Por isso a equivalência de adulto que o SHARE oferece para quem usa outras unidades, de 1 g por dia igual a 100 mg/mmol, não serve à criança pequena: numa criança de 22 kg e 116 cm, como Jacinto, 100 mg/mmol correspondem a cerca de 0,37 g por dia. Na criança, peça e leia a relação proteína/creatinina.
O ultrassom: abdome e escroto
O ultrassom de abdome tem uma indicação precisa nesta doença: a dor abdominal intensa. O SHARE recomenda que ele seja feito por examinador com experiência pediátrica, para excluir invaginação, e a SBP o chama de exame mais adequado para reconhecê-la cedo e para acompanhá-la. Vale a ênfase no acompanhamento: um ultrassom sem invaginação às nove da noite não protege a criança cuja dor muda de padrão às três da manhã, e o exame se repete quando a clínica muda.
O ultrassom pode mostrar alças de delgado com parede espessada e pouco líquido livre, achados que combinam com a vasculite da parede, mas o que ele precisa responder é se há invaginação. Havendo, a condução — redução, cirurgia, observação — é do capítulo Invaginação/intussuscepção intestinal do lactente, na apostila de Cirurgia Pediátrica, com o cirurgião pediátrico chamado na hora; o corticoide não reduz invaginação e não substitui essa decisão.
Na dor escrotal, o Doppler é complemento da avaliação clínica e cirúrgica. Não basta perguntar se há fluxo: comparar os lados e avaliar cordão, testículo, epidídimo e contexto. A presença de fluxo não descarta torção; se a suspeita é relevante, a cirurgia decide a exploração sem aguardar exame ou laudo adicional.
Biópsia: de pele raramente, de rim pelo nefrologista
A biópsia de pele, com imunofluorescência para IgA, não é necessária na criança com a púrpura típica nas pernas e nas nádegas. O SHARE a reserva para a lesão atípica e para excluir outro diagnóstico, e acrescenta que a ausência de IgA na imunofluorescência não exclui a doença. Na prática do interno, a biópsia de pele entra quando a distribuição foge do padrão, quando há bolhas ou necrose, ou quando a criança não tem nenhum dos outros achados que sustentam o critério.
A biópsia renal é decisão do nefrologista pediátrico, e o papel do interno é saber quando ela pode ser necessária, porque é isso que define o encaminhamento. A KDIGO de 2025 manda biopsiar prontamente a criança com proteinúria na faixa nefrótica ou com filtração abaixo de 90 mL/min/1,73 m², e considerar a biópsia na relação proteína/creatinina de 1.000 a 2.000 mg/g mantida por duas a quatro semanas, ou de 200 a 500 mg/g mantida por mais de quatro semanas. Ela lembra ainda que o diagnóstico de nefrite da vasculite por IgA, a rigor, só se faz com biópsia. O SHARE usa cortes próximos em mg/mmol, e a SBP inclui a síndrome nefrítica, a doença renal aguda ou crônica e a hematúria ou proteinúria persistentes por mais de três meses.
As fontes divergem num ponto que chega à mesa do interno: a hematúria isolada que persiste. A SBP a inclui entre as indicações de biópsia quando passa de três meses; a KDIGO de 2025 não a lista, e o SHARE a trata como benigna quando é o único achado renal. Esta apostila segue a KDIGO de 2025, pelos motivos da seção de divergências: a criança com hematúria isolada, relação proteína/creatinina baixa, pressão e filtração normais segue em vigilância mensal, e o que a leva ao nefrologista é o aparecimento de proteinúria, de pressão alta ou de queda da filtração. A KDIGO também tem um vão entre as duas faixas que indicam biópsia, discutido nas notas do bloco de critérios.
O diferencial que se resolve na porta
A primeira separação é a que não pode esperar exame. A criança com vasculite por IgA do quadro típico está em bom estado geral. Febre com petéquias ou púrpura, prostração, extremidades frias, enchimento capilar lento, rigidez de nuca ou alteração de consciência não são vasculite por IgA até que a doença meningocócica esteja fora da mesa: pela regra do capítulo Febre sem sinais localizatórios no lactente e abordagem da criança febril, na apostila de Emergências Pediátricas, a febre com petéquias é doença febril muito grave, com primeira dose de antibiótico e referência urgente, e o reconhecimento da doença meningocócica é do capítulo Meningites bacterianas e virais na infância, na apostila de Infectologia Pediátrica. Errar para o lado do antibiótico custa pouco; errar para o outro lado custa a criança.
A segunda é a lesão que a história não explica. Equimoses de idades diferentes, em lugares que a criança não bate ao cair — orelhas, pescoço, tronco, face interna dos braços —, com marcas de objeto, ou uma história que muda a cada pergunta pedem o capítulo Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória (ECA), na apostila de Emergências Pediátricas. O que ajuda a separar é justamente o conjunto deste capítulo: púrpura pequena, simétrica, em surtos, nas pernas e nas nádegas, com plaquetas normais e com artrite, dor abdominal ou alteração urinária ao lado. A dúvida que persiste não se resolve com o diagnóstico de vasculite; resolve-se com a avaliação que o capítulo vizinho descreve.
A terceira é a farmacodermia. A SBP lista antibióticos como possíveis desencadeantes da própria vasculite, e a criança que tomou amoxicilina para a infecção que precedeu o quadro pode ter uma coisa, a outra ou as duas. Mancha que some ao vidro, lesão em alvo, bolha, descolamento de pele ou mucosa acometida mudam o caminho para o capítulo Farmacodermias graves: Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica e DRESS, na apostila de Dermatologia.
Por fim, os diferenciais que a SBP enumera e que ficam para a investigação especializada quando o quadro não fecha: lúpus eritematoso sistêmico juvenil, doença inflamatória intestinal, poliarterite nodosa, síndrome de Behçet, febre familiar do Mediterrâneo, dengue, mononucleose, citomegalovirose, glomerulonefrites e doença relacionada a IgG4. Diante de hematúria com edema e hipertensão depois de uma faringite ou impetigo, o complemento — que o capítulo Glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica ensina a ler, baixo na pós-estreptocócica e normal na vasculite por IgA — separa os dois caminhos. E a dor abdominal que imita apendicite é avaliada pelo cirurgião pediátrico, com ultrassom, antes de qualquer corticoide.
Critério, números de proteinúria, destinos e doses — na criança à sua frente
Os critérios EULAR/PRINTO/PRES são de classificação, feitos para pesquisa, mas são os que a SBP reproduz, o SHARE adota e a KDIGO de 2025 aceita para o diagnóstico clínico da criança. As quatro tabelas abaixo servem a quatro decisões diferentes: se é a doença, o que um número de proteinúria significa em cada unidade, para onde a criança vai e com que pressa, e quanto de cada remédio cabe em mililitros ou comprimidos para três pesos. Nas notas ficam, com a conta feita, os defeitos de fonte capazes de mudar uma prescrição ou um encaminhamento.
- 1Febre com petéquias ou púrpura, prostração, má perfusão, rigidez de nuca ou alteração de consciência: trate como doença meningocócica e saia deste fluxo.
- 2Aperte a lesão com vidro transparente: se ela some, é eritema e não púrpura.
- 3Hemograma com leitura da lâmina, pela porta do capítulo de PTI desta apostila: plaquetas baixas, outra citopenia ou célula imatura tiram a criança deste capítulo.
- 4Plaquetas normais ou altas, púrpura com predomínio em pernas e nádegas e mais um achado — dor abdominal, artrite ou artralgia, alteração urinária ou histologia com IgA: vasculite por IgA.
- 5No diagnóstico: urina tipo 1, relação proteína/creatinina na urina da manhã, creatinina com a estatura anotada e pressão comparada ao percentil.
- 6Dor abdominal intensa, que muda de padrão ou com sangue: ultrassom com examinador pediátrico antes do corticoide; invaginação vai ao cirurgião.
- 7Escroto doloroso: avaliação urológica/cirúrgica urgente. Doppler apenas se não atrasar a decisão; presença de fluxo não exclui torção.
- 8Dor: paracetamol; anti-inflamatório só com urina sem hematúria e sem proteinúria, filtração normal e nenhum sangramento.
- 9Corticoide: dor abdominal moderada a intensa depois do ultrassom, sangramento digestivo, orquite ou forma grave de órgão — nunca para prevenir nefrite.
- 10Nefrologista pediátrico pela tabela de destinos: proteinúria, pressão e filtração decidem a pressa.
- 11Urina e pressão ao menos mensais por seis meses; por cinco anos ou mais se houve nefrite.
É vasculite por IgA? O critério lido na criança
| Elemento | O que conta | O que engana |
|---|---|---|
| Obrigatório: a pele | Púrpura, em geral palpável, ou petéquia com predomínio nos membros inferiores, sem plaquetopenia | Lesão fora do padrão (tronco ou face sem as pernas) pede biópsia com imunofluorescência; plaquetopenia tira a criança do critério |
| Mais um: dor abdominal | Aguda, difusa, em cólica; inclui invaginação e sangramento digestivo | A dor que chega antes da pele não fecha o diagnóstico até a púrpura aparecer — e pode ser apendicite |
| Mais um: articulação | Artrite ou artralgia aguda, com edema, dor ou limitação | Dor migratória sem púrpura lembra febre reumática e leucemia: hemograma com lâmina antes do nome |
| Mais um: rim | Proteinúria acima de 0,3 g em 24 h ou albumina/creatinina acima de 30 mg/mmol (cerca de 265 mg/g) na urina da manhã; ou mais de 5 hemácias por campo ou cilindros hemáticos | O Quadro 1 da SBP imprime a unidade invertida (mmol/mg); a fita reagente não substitui a relação |
| Mais um: histologia | Vasculite leucocitoclástica ou glomerulonefrite proliferativa com depósito predominante de IgA | Imunofluorescência sem IgA não exclui a doença; a biópsia de pele não é necessária no quadro típico |
A proteinúria nas três unidades e o que cada faixa dispara
| Faixa | Relação proteína/creatinina no laudo | Em mg/mmol | O que dispara e quem diz |
|---|---|---|---|
| Abaixo das faixas de ação | Até 200 mg/g (0,2 mg/mg) | Até cerca de 23 | Segue a urina mensal; se houver hematúria isolada, esta apostila segue a KDIGO 2025 e não biopsia por ela |
| Baixa persistente | 200 a 500 mg/g por mais de 4 semanas | Cerca de 23 a 57 (a KDIGO escreve 20 a 50) | Biópsia a considerar (KDIGO 2025): encaminhar ao nefrologista pediátrico |
| O vão da KDIGO | 500 a 1.000 mg/g por mais de 4 semanas | Cerca de 57 a 113 | Nenhuma faixa escrita; esta apostila encaminha, lendo a faixa baixa como 200 mg/g ou mais |
| Moderada | 1.000 a 2.000 mg/g (1 a 2 mg/mg) | Cerca de 113 a 226 (a KDIGO escreve 100 a 200; o SHARE usa 100 a 250) | Nefrologista pediátrico já (SHARE); biópsia a considerar se durar 2 a 4 semanas (KDIGO 2025) |
| Nefrótica ou grave | Acima de 2.000 mg/g (2 mg/mg) | Acima de cerca de 226 (a KDIGO escreve 200; o SHARE usa 250 por 4 semanas) | Biópsia pronta e corticoide decidido pelo nefrologista (KDIGO 2025); com edema, internação |
| Persistente por mais de 3 meses | Qualquer faixa acima do normal | Qualquer faixa acima do normal | IECA ou BRA considerado pelo nefrologista (SBP, SHARE e KDIGO 2025) |
Para onde vai a criança, e com que pressa
| Achado | Destino | Prazo | Régua |
|---|---|---|---|
| Febre com petéquias ou púrpura e toxemia | Antibiótico e referência urgente como doença meningocócica | Agora | Capítulos de febre sem sinais localizatórios e de meningites da infância |
| Plaquetas baixas, outra citopenia ou blasto | Capítulo de PTI desta apostila, dono do primeiro atendimento da púrpura, ou de leucemia linfoblástica aguda | No mesmo atendimento | SBP: plaquetopenia sugere outro diagnóstico |
| Dor abdominal intensa, padrão que muda, vômitos repetidos ou sangue nas fezes | Internação, ultrassom com examinador pediátrico, cirurgião se houver invaginação | Agora | SHARE (recomendação 7) e SBP |
| Escroto doloroso e edemaciado | Urologista/cirurgião com urgência; Doppler como complemento quando não atrasa a decisão. Fluxo presente não exclui torção. | Agora | SBP; capítulo de escroto agudo |
| Edema com proteinúria nefrótica, hematúria com hipertensão, filtração abaixo de 90 ou creatinina subindo | Nefrologista pediátrico, com internação se houver hipertensão, edema importante ou oligúria | No mesmo dia | KDIGO 2025 (biópsia pronta) e SHARE |
| Relação de 1.000 a 2.000 mg/g, ou de 200 mg/g ou mais mantida por mais de 4 semanas | Nefrologista pediátrico | Ao detectar, para a decisão caber no prazo da diretriz | KDIGO 2025, com o vão lido por esta apostila |
| Hematúria isolada, relação abaixo de 200 mg/g, pressão e filtração normais | Atenção primária, com urina e pressão mensais | Retorno mensal por no mínimo 6 meses | KDIGO 2025 |
| Púrpura que recidiva por meses, lesão bolhosa ou quadro que não fecha | Reumatologista pediátrico | Eletivo | SBP (colchicina, dapsona e imunossupressores são decisão do especialista) |
Doses em mililitro e comprimido, com teto, para três pesos
| Fármaco e uso | Dose e teto | Na Rename 2024 | Criança de 22 kg | Adolescente de 48 kg |
|---|---|---|---|---|
| Paracetamol — dor, primeira escolha | 15 mg/kg por tomada, de 6/6 h; até 75 mg/kg/dia; teto do adulto 1 g por tomada e 4 g/dia | Solução oral 200 mg/mL e comprimido 500 mg, componente básico | 330 mg = 1,65 mL por tomada, medidos em seringa; 4 tomadas = 1.320 mg/dia | 720 mg: 1 comprimido e meio de 500 mg = 750 mg por tomada; 4 tomadas = 3.000 mg/dia |
| Ibuprofeno — artrite sem nenhum sinal renal e sem sangramento | 10 mg/kg por tomada, de 8/8 h (dose analgésica); teto de 400 mg por tomada | Suspensão oral 50 mg/mL; comprimidos 200, 300 e 600 mg, componente básico | 220 mg = 4,4 mL de 8/8 h | 480 mg passa do teto: 400 mg = 2 comprimidos de 200 mg de 8/8 h |
| Naproxeno — o exemplo da SBP | 10 mg/kg/dia de 12/12 h, por 1 a 2 semanas | Comprimidos 250 e 500 mg, só componente especializado | 220 mg/dia = 110 mg por tomada: sem apresentação que se divida na rede | 480 mg/dia = 240 mg por tomada, perto de 1 comprimido de 250 mg, fora da unidade básica |
| Prednisolona — dor abdominal moderada a intensa, sangramento, orquite | 1 a 2 mg/kg/dia em dose única; teto de 60 mg/dia adotado por esta apostila | Fosfato sódico de prednisolona 1 e 3 mg/mL, componente básico | 1 mg/kg = 22 mg = 7,3 mL de 3 mg/mL; 2 mg/kg = 44 mg = 14,7 mL | 1 mg/kg = 48 mg = 16 mL de 3 mg/mL; 2 mg/kg = 96 mg, teto de 60 mg = 20 mL |
| Prednisona — a mesma indicação, em comprimido | Igual à prednisolona, com o mesmo teto | Comprimidos 5 e 20 mg, componentes básico e estratégico | 1 comprimido de 20 mg e meio de 5 mg = 22,5 mg | 2 comprimidos de 20 mg e 1 de 5 mg = 45 mg (0,94 mg/kg); teto = 3 comprimidos de 20 mg |
| Metilprednisolona — pulso nas formas graves, no hospital | 30 mg/kg/dia por 3 dias (SBP; o SHARE admite 10 a 30), teto de 1 g/dia | Pó para solução injetável 500 mg, só componente especializado | 660 mg = 1 frasco de 500 mg e mais 160 mg de um segundo | 1.440 mg passa do teto: 1 g = 2 frascos de 500 mg |
O que um exame normal não encerra
| Resultado | O que permite dizer | O que ainda precisa ser avaliado |
|---|---|---|
| Plaquetas normais | A púrpura não é explicada por trombocitopenia naquele exame. | História, exame, outras séries e evolução; leucemia não é excluída por esse dado isolado. |
| Fluxo ao Doppler escrotal | Há perfusão demonstrável naquele momento. | Torção parcial/intermitente e suspeita clínica; avaliação cirúrgica não pode ser dispensada. |
| Urina e pressão normais no diagnóstico | Não há alteração detectada nesses parâmetros hoje. | Nefrite pode aparecer depois; manter calendário de vigilância. |
| Ultrassom abdominal inicial sem invaginação | O exame não mostrou essa complicação naquele momento. | Repetir avaliação se dor mudar de padrão, houver vômitos persistentes, sangramento ou sinais peritoneais. |
Unidade invertida no critério renal. O Quadro 1 do Documento Científico nº 5 da SBP escreve a relação albumina/creatinina como '>30mmol/mg'. A unidade que faz sentido é mg/mmol: 30 mg de albumina por milimol de creatinina. Como 1 g de creatinina tem 8,84 mmol, 30 mg/mmol × 8,84 = 265 mg/g. O laudo brasileiro costuma trazer mg/g; quem aplica o 30 impresso nessa unidade põe o corte 8,84 vezes mais baixo e chama de nefrite, para o critério, uma relação de 40 mg/g que está abaixo dele. O original de 2010 não abriu, então não se afirma aqui se o erro nasceu nele ou na reprodução; o capítulo usa 30 mg/mmol, que é a unidade do SHARE para a mesma relação.
Dois cortes de filtração no mesmo consenso. O SHARE define filtração reduzida como abaixo de 80 mL/min/1,73 m² nas Tabelas 1 e 2 e, no texto que justifica chamar o nefrologista, como abaixo de 90. A criança com filtração estimada de 85 é normal pela tabela e reduzida pelo texto — encaminhada por um e não pelo outro. A KDIGO de 2025, posterior, usa abaixo de 90 para indicar biópsia pronta na criança. Esta apostila adota 90, pela data e porque é o corte do próprio texto do SHARE.
Conversão de adulto aplicada à criança. A nota da Tabela 2 do SHARE diz que 1 g de proteinúria em 24 h equivale a uma relação proteína/creatinina de 100 mg/mmol. A equivalência pressupõe que o paciente excrete 10 mmol de creatinina por dia (1 g ÷ 100 mg/mmol), cerca de 1,13 g — excreção de adulto. Pela equivalência pediátrica da KDIGO de 2025 de síndrome nefrótica (2 g/g correspondem a 1.000 mg/m²/dia), 100 mg/mmol = 884 mg/g ≈ 442 mg/m²/dia; numa criança de 22 kg e 116 cm (0,84 m²), cerca de 0,37 g/dia. Quem usa a nota classifica como leve (menos de 1 g/dia) a criança de 22 kg com 0,6 g em 24 h, que corresponde a 713 mg/m²/dia ≈ 1.425 mg/g ≈ 161 mg/mmol — faixa moderada, que o próprio SHARE manda ao nefrologista.
Um vão entre as faixas de biópsia da KDIGO. O ponto de prática da criança manda considerar biópsia com relação proteína/creatinina de 1.000 a 2.000 mg/g por 2 a 4 semanas ou de 200 a 500 mg/g por mais de 4 semanas. A relação de 500 a 1.000 mg/g que persiste além de 4 semanas não cabe em nenhuma das duas, embora seja mais proteinúria do que a faixa que já indica biópsia. Uma criança com 700 mg/g na semana 5 e na semana 9 fica, ao pé da letra, sem indicação. Esta apostila lê a faixa baixa como 200 mg/g ou mais por mais de 4 semanas e encaminha essa criança.
Anti-inflamatório liberado por duas regras no mesmo consenso. A recomendação 2 da Tabela 3 do SHARE diz que o anti-inflamatório não está contraindicado se a função renal é normal; o texto que a justifica diz que ele não está contraindicado sem nefrite ou com hematúria microscópica isolada. Uma criança com relação proteína/creatinina de 60 mg/mmol (530 mg/g) e filtração normal está liberada pela tabela e não pelo texto. A SBP, posterior, não libera com nenhum sinal renal. A contradição interna é um dos motivos pelos quais esta apostila segue a SBP nessa decisão.
Corticoide por quilo sem teto. A SBP prescreve prednisona ou prednisolona de 1 a 2 mg/kg/dia e o SHARE, prednisolona de 1 a 2 mg/kg/dia, ambos sem dose máxima. Com 2 mg/kg, uma criança de 31 kg recebe 62 mg/dia, um adolescente de 40 kg recebe 80 mg e um de 50 kg, 100 mg. Nenhuma fonte de vasculite por IgA fixa o teto. Esta apostila adota 60 mg/dia, o teto que a KDIGO de 2025 de síndrome nefrótica da criança fixa para a mesma dose de 2 mg/kg/dia — um empréstimo declarado, escolha desta apostila e não de fonte da doença.
Remédio proibido na régua brasileira. A SBP indica ranitidina, 5 mg/kg/dia de 12/12 h, para toda criança com vasculite por IgA e sintoma gastrintestinal. Nove meses depois, a Resolução-RE da Anvisa nº 3.259, de 26 de agosto de 2020, proibiu em definitivo a comercialização, a fabricação, a importação e a manipulação da ranitidina, e a Portaria SCTIE/MS nº 76, de 29 de dezembro de 2021, a excluiu do SUS; a Rename 2024 não a traz. A recomendação não pode ser cumprida, e nenhuma das fontes do capítulo avaliou substituto nesta doença: esta apostila não prescreve antissecretor de rotina e registra que o antissecretor do elenco é o omeprazol, só em cápsula de 10 e 20 mg.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo é a de Jacinto, 22 kg e 116 cm, da porta do pronto-atendimento ao sexto mês e além. Ela junta as réguas já declaradas: o diagnóstico pelo critério, a analgesia e o corticoide pela SBP, o ultrassom antes do corticoide pelo SHARE, a vigilância do rim e o encaminhamento pela KDIGO de 2025, e o que existe na rede pela Rename 2024. As doses estão por quilo, com teto e com a apresentação que a rede tem, convertidas em mililitros para o peso dele.
Nenhuma das fontes lista critérios de internação, e esta apostila escreve os seus pelo que só o hospital oferece: ultrassom e cirurgião à mão para a dor abdominal intensa ou que muda de padrão; observação das fezes e da hemoglobina quando há sangramento; hidratação venosa quando a criança não bebe; pulso de metilprednisolona nas formas graves; e vigilância de pressão, edema e diurese na síndrome nefrítica ou nefrótica. A criança com púrpura e artralgia, dor abdominal leve controlada com paracetamol, que come e bebe, com pressão normal, urina sem síndrome nefrítica ou nefrótica e família que consegue voltar, trata-se em casa com retorno marcado.
Três coisas não entram na receita de nenhuma criança desta linha do tempo. Corticoide para prevenir nefrite, que as duas diretrizes contraindicam com evidência de ensaios clínicos. Ranitidina, que a SBP recomendou em 2019 e que está proibida no Brasil desde 2020. E ácido acetilsalicílico como analgésico, que o documento da SBP sobre febre não recomenda na criança pelo risco de síndrome de Reye e que o próprio documento de vasculite por IgA cita entre os possíveis desencadeantes da doença.
Minuto 0 — antes do nome, o que mata hoje
A primeira decisão é se esta criança pode seguir a lógica deste capítulo. Febre com petéquias, prostração, extremidades frias, enchimento capilar lento, rigidez de nuca ou alteração de consciência mudam o caminho para a doença meningocócica, com antibiótico e referência urgente, e nada do que vem abaixo se aplica. Jacinto está afebril, corado, responde e se distrai entre as cólicas. O interno completa os sinais vitais com a pressão no manguito infantil que cobre o braço, pesa e mede a criança, despe o menino inteiro para o exame, faz a vitropressão das lesões, examina o abdome à procura de massa ou defesa e o escroto à procura de edema ou dor. Nada disso custa exame, e tudo isso fica escrito, porque a pressão e a estatura desta noite serão comparadas às de daqui a um mês.
Prescrição- Sinais vitais completos, com pressão arterial em manguito infantil adequado e comparada ao percentil de idade, sexo e estatura
- Peso (22 kg) e estatura (116 cm) anotados no prontuário
- Hemograma com leitura da lâmina, urina tipo 1 e creatinina
- Nenhum anti-inflamatório até a urina estar lida
Minuto 40 — a contagem, a lâmina e a urina
Hemograma e lâmina não mostram citopenias ou células suspeitas. Com púrpura palpável em distribuição típica, artralgia e dor abdominal, o conjunto favorece vasculite por IgA. Explique isso à família sem afirmar que plaquetas normais excluem leucemia. Dor óssea persistente ou noturna, sintomas sistêmicos, organomegalias ou evolução discordante exigem reavaliar a hipótese, mesmo com hemograma inicialmente normal. Registre urina, pressão e plano de vigilância renal.
Prescrição- Paracetamol solução oral 200 mg/mL: 15 mg/kg = 330 mg = 1,65 mL por via oral, medidos em seringa dosadora, de 6/6 h se dor — máximo de 75 mg/kg/dia (1.650 mg)
- Relação proteína/creatinina na primeira urina da manhã seguinte
Hora 2 — a dor que muda de padrão pede ultrassom
Às nove da noite a dor vira crises regulares a cada quinze ou vinte minutos, com palidez entre elas e novo vômito. É a mudança de padrão que o capítulo ensinou a temer: invaginação até o ultrassom dizer que não. O SHARE recomenda o exame por examinador com experiência pediátrica, e o pedido precisa dizer o que se procura, para que o exame não volte descrevendo só o fígado e os rins. O cirurgião pediátrico é avisado antes do resultado, e não depois, porque se houver invaginação a decisão — redução, cirurgia ou observação — é dele, pelo capítulo Invaginação/intussuscepção intestinal do lactente. O corticoide não entra agora: ele não reduz invaginação, e dá-lo antes de saber se ela existe só atrasa a decisão que importa. Às nove e meia o ultrassom mostra alças de delgado com parede espessada e nenhuma imagem de invaginação.
Prescrição- Ultrassom de abdome com examinador experiente em pediatria, com o pedido escrito: excluir invaginação intestinal
- Cirurgião pediátrico avisado antes do resultado
- Jejum até o resultado do ultrassom e a avaliação cirúrgica, se indicada
- Acesso venoso se os vômitos impedirem a hidratação por boca
Hora 3 — o corticoide, depois do ultrassom
Sem invaginação, com dor intensa que o paracetamol não controlou e vômitos, Jacinto tem a indicação de corticoide que a SBP escreve para a dor abdominal moderada a intensa, e esta apostila segue a SBP nessa decisão. A dose da SBP vai de 1 a 2 mg/kg/dia; esta apostila começa por 1 mg/kg/dia na criança sem sangramento e reserva 2 mg/kg/dia para o sangramento digestivo, a orquite e as formas mais graves — leitura desta apostila, dentro da faixa da fonte —, sempre com o teto de 60 mg/dia. A mãe ouve o que o remédio faz e o que não faz: deve aliviar a dor da barriga, e não protege o rim. Jacinto interna, pelo critério da dor intensa com vômitos que precisa de reavaliação e de ultrassom à mão. O tornozelo continua doendo, e o ibuprofeno que a mãe tem em casa segue fora da receita, porque há hematúria.
Prescrição- Internação na enfermaria de pediatria
- Fosfato sódico de prednisolona 3 mg/mL: 1 mg/kg/dia = 22 mg = 7,3 mL por via oral, uma vez ao dia pela manhã — teto de 60 mg/dia
- Paracetamol 200 mg/mL: 1,65 mL por via oral de 6/6 h se dor
- Sem ibuprofeno ou outro anti-inflamatório enquanto houver hematúria ou proteinúria
- Sem antissecretor de rotina (a ranitidina da SBP está proibida no Brasil desde 2020)
Noite e dia 1 — internado: dor, fezes, hemoglobina, pressão
A enfermaria vigia o que pode mudar a conduta. A dor espaçou depois da primeira dose de corticoide, e o menino aceitou líquidos de madrugada. As fezes da manhã não têm sangue visível e a hemoglobina se mantém em 12,0 g/dL. A pressão fica abaixo do percentil 90 em todas as medidas. A relação proteína/creatinina da primeira urina da manhã volta em 0,14 mg/mg — 140 mg/g, cerca de 16 mg/mmol —, abaixo das faixas que disparam qualquer ação. Se a dor voltasse a mudar de padrão, o ultrassom seria repetido. Se aparecesse sangramento digestivo com queda de hemoglobina, ou se houvesse invaginação reduzida e doença intestinal grave, a SBP indica pulso de metilprednisolona, que se decide com o especialista e, havendo invaginação, com o cirurgião.
Prescrição- Pressão arterial a cada 6 horas, comparada ao percentil
- Diurese, aspecto das fezes e escala de dor anotados a cada turno
- Hemoglobina na manhã do dia 1
- Novo ultrassom se a dor mudar de padrão, voltar a vomitar ou surgir sangue nas fezes
- Se sangramento digestivo com queda de hemoglobina ou forma intestinal grave: metilprednisolona 30 mg/kg/dia = 660 mg por via venosa, uma vez ao dia por 3 dias (teto de 1 g/dia; frasco de 500 mg), decidida com o especialista
Dia 2 — a alta
Jacinto come, não tem dor há 24 horas, não teve sangramento e a pressão segue normal: sai do hospital. A alta desta doença é uma receita e um calendário. A receita completa sete dias de prednisolona na dose cheia e retira em duas semanas, dentro da faixa da SBP (3 a 7 dias de dose cheia e redução em duas a seis semanas). O repouso relativo do primeiro mês, que a SBP indica porque a atividade física pode trazer as lesões de volta, vira uma frase que a família consegue cumprir: escola sim, educação física e futebol não, por um mês. O ibuprofeno de casa fica guardado. O calendário marca retorno em 7 dias e depois todo mês até o sexto, cada um com urina, relação proteína/creatinina e pressão. E a família sai sabendo quais sinais antecipam o retorno para o mesmo dia.
Prescrição- Fosfato sódico de prednisolona 3 mg/mL: 7,3 mL (22 mg) uma vez ao dia até completar 7 dias; depois 3,7 mL (11 mg) por 7 dias; depois 1,8 mL (5,5 mg) por 7 dias; suspender
- Paracetamol 200 mg/mL: 1,65 mL de 6/6 h se dor, no máximo 4 vezes ao dia
- Não dar ibuprofeno, outro anti-inflamatório nem ácido acetilsalicílico
- Escola liberada; sem educação física ou esporte por 1 mês
- Retorno em 7 dias e depois mensal até o 6º mês: urina tipo 1, relação proteína/creatinina da manhã e pressão arterial
- Voltar no mesmo dia se: dor de barriga forte ou que muda, vômitos repetidos, sangue ou fezes escuras, urina escura ou com espuma, inchaço no rosto ou nas pernas, dor de cabeça nova, dor ou inchaço no saco escrotal, menos urina
Semanas 5 a 9 — a urina que muda
No retorno da quinta semana a pele está limpa, o tornozelo não dói e a mãe acha que acabou. A urina diz outra coisa: 25 hemácias por campo, proteína duas cruzes na fita e relação proteína/creatinina de 0,62 mg/mg — 620 mg/g, cerca de 70 mg/mmol. A pressão está abaixo do percentil 90 e a creatinina, normal. É a nefrite que chega depois, e o valor cai exatamente no vão das faixas de biópsia da KDIGO. Como não se sabe há quanto tempo a proteinúria existe, a relação é repetida em duas e em quatro semanas, com a pressão a cada retorno. Na semana 9, 0,58 mg/mg: proteinúria acima de 200 mg/g mantida por mais de quatro semanas. Pela leitura desta apostila da KDIGO de 2025, Jacinto vai ao nefrologista pediátrico — e vai com a série inteira anotada. A biópsia, o IECA ou o BRA se a proteinúria passar de três meses, e qualquer corticoide para a nefrite são decisões de lá.
Prescrição- Relação proteína/creatinina na primeira urina da manhã repetida em 2 e em 4 semanas
- Pressão arterial em cada retorno, comparada ao percentil
- Creatinina com a estatura do dia, para a filtração estimada
- Encaminhamento ao nefrologista pediátrico na semana 9, com a série de relações proteína/creatinina, pressões e creatininas
- Nenhum anti-inflamatório; paracetamol se dor
Mês 6 e depois — quanto tempo se vigia
Jacinto teve nefrite. Para ele a KDIGO de 2025 fixa urina, filtração estimada e pressão por pelo menos cinco anos depois do episódio, e por toda a vida, de forma individualizada, se a nefrite precisar de tratamento; a SBP pede acompanhamento rigoroso por toda a vida de quem teve alteração urinária, transitória ou persistente. Para a criança sem nenhuma alteração urinária, a KDIGO fixa o piso — urina ao menos mensal por no mínimo seis meses — e não diz o que vem depois, e a SBP pede avaliação periódica da função renal por toda a vida, com reumatologista pediátrico, apoiada na coorte brasileira em que 28% das crianças sem nefrite inicial tiveram alteração urinária mais tarde. Os pisos da KDIGO e a vida inteira da SBP governam momentos diferentes, e esta apostila escreve a cronologia: seis meses de urina e pressão mensais para todas; cinco anos na frequência do nefrologista para quem teve nefrite; e, depois disso ou depois do sexto mês de quem não teve, pressão e urina nas consultas anuais de acompanhamento, com o reumatologista pediátrico conduzindo onde a rede o oferece. A frequência anual é leitura desta apostila, porque a SBP diz periódica sem dizer quanto. Para as meninas, a orientação que a SBP manda levar ao pré-natal entra no resumo escrito.
Prescrição- Com nefrite: urina, creatinina com estatura e pressão arterial por no mínimo 5 anos, na frequência que o nefrologista fixar
- Sem nenhuma alteração urinária em 6 meses: pressão e urina nas consultas anuais de acompanhamento
- Resumo escrito para a família: vasculite por IgA, data do início, se houve nefrite, serviço que acompanha
- Púrpura que volta por meses ou quadro que não fecha: reumatologista pediátrico
Como saber se está funcionando
A vasculite por IgA tem dois relógios, e a reavaliação precisa dos dois. O relógio curto é o das horas e dos dias: a dor abdominal, o sangramento, o escroto, a hidratação — é nele que a criança pode precisar de cirurgião ou de pulso de corticoide. O relógio longo é o das semanas e dos meses: a urina e a pressão — é nele que aparece a nefrite, quando a pele já sumiu e a família já esqueceu.
Reavaliar bem significa comparar com o próprio paciente e com a régua certa. A pressão de hoje se compara ao percentil de idade, sexo e estatura, e não só à medida anterior. A relação proteína/creatinina de hoje se compara às anteriores, na mesma unidade, e com a data de cada uma, porque a duração da proteinúria faz parte do critério de encaminhamento. E a lesão de pele nova, num surto uma semana depois do primeiro, é o esperado da doença e não sinal de falha do tratamento.
Três respostas ruins merecem nome. A dor abdominal que volta ou muda de padrão depois do corticoide não é resistência ao corticoide até o ultrassom excluir invaginação. A hemoglobina que cai sem sangue visível nas fezes é sangramento digestivo até prova em contrário. E a pressão que sobe numa criança que já estava bem, com ou sem edema, é nefrite até a urina e a creatinina dizerem outra coisa.
Esperado: Crises mais espaçadas e menos intensas com a analgesia e, quando indicado, o corticoide; a criança volta a comer e a brincar
Se não melhora: Dor que volta, muda de padrão, com vômitos repetidos, massa ou fezes com sangue: novo ultrassom com examinador pediátrico e cirurgião avisado; sem invaginação e com sangramento ou forma grave, discutir pulso de metilprednisolona com o especialista
Esperado: Fezes sem sangue visível e hemoglobina estável
Se não melhora: Melena, sangue vivo ou queda de hemoglobina: manter internação, nada de anti-inflamatório, ultrassom para invaginação e decisão sobre corticoide em dose maior ou pulso com o especialista
Esperado: Abaixo do percentil 90 para idade, sexo e estatura, medida com manguito adequado
Se não melhora: Pressão no percentil 95 ou acima, confirmada em nova medida: urina, relação proteína/creatinina e creatinina no mesmo dia e nefrologista pediátrico no mesmo dia; com edema, cefaleia, vômitos ou oligúria, internação
Esperado: Hematúria que diminui e some em um a três meses; relação abaixo de 200 mg/g
Se não melhora: Relação de 200 mg/g ou mais mantida por mais de 4 semanas, ou de 1.000 a 2.000 mg/g: nefrologista pediátrico; faixa nefrótica ou edema: nefrologista no mesmo dia
Esperado: Filtração estimada de 90 mL/min/1,73 m² ou mais
Se não melhora: Filtração abaixo de 90 ou creatinina subindo entre dois exames: nefrologista pediátrico no mesmo dia, pela indicação de biópsia pronta da KDIGO 2025
Esperado: Bolsa sem edema nem dor; petéquia só na pele do escroto não é orquite
Se não melhora: Escroto agudo exige avaliação cirúrgica urgente, com Doppler se prontamente disponível. Não aguardar ausência de fluxo para agir; suspeita clínica de torção persiste apesar de fluxo preservado. Tratar orquite da vasculite somente após avaliação apropriada.
Esperado: Surtos com cerca de uma semana de intervalo, que somem sem cicatriz em um a dois meses; artralgia que passa com analgésico
Se não melhora: Púrpura que continua voltando depois de dois meses, lesão bolhosa ou necrótica, ou artrite que persiste: reavaliar o diagnóstico e encaminhar ao reumatologista pediátrico
Onde o erro machuca
O dano: A doença meningocócica também começa com petéquias em membros e pode ter contagem de plaquetas normal nas primeiras horas. Cada hora sem antibiótico numa criança em choque meningocócico é chance de morte ou de amputação, e a vasculite por IgA do quadro típico não produz toxemia.
Como pegar a tempo: Estado geral antes do hemograma: febre com petéquias, prostração, extremidades frias, enchimento lento, rigidez de nuca ou alteração de consciência seguem a regra da doença febril muito grave — antibiótico e referência urgente — e só depois se discute outro nome.
O dano: No primeiro caso, a família passa a noite com a palavra leucemia na cabeça e a criança perde o tempo das decisões que importam — o ultrassom, a urina, a pressão. No segundo, a leucemia que começou por dor óssea e púrpura sai com diagnóstico de vasculite e analgésico.
Como pegar a tempo: Hemograma com leitura da lâmina antes de qualquer nome. Plaquetas normais ou altas sustentam a vasculite; plaquetas baixas, outra citopenia, célula imatura, dor óssea, linfonodos ou visceromegalia tiram a criança deste capítulo.
O dano: A invaginação não se reduz com corticoide. A dor que alivia com o remédio tira a pressa da equipe, o ultrassom fica para o dia seguinte e a alça invaginada segue sem redução até sofrer isquemia e precisar de ressecção.
Como pegar a tempo: Na dor intensa, na dor que muda de padrão, no vômito repetido ou no sangue nas fezes, ultrassom com examinador pediátrico primeiro e cirurgião avisado antes do resultado; o corticoide vem depois de a invaginação estar excluída ou resolvida.
O dano: O anti-inflamatório entra justamente nos dois órgãos que a doença inflama: o rim com nefrite e o intestino que sangra. A criança com nefrite em evolução recebe um fármaco com toxicidade renal, e a que tem sangramento oculto recebe um fármaco contraindicado no sangramento ativo.
Como pegar a tempo: Urina tipo 1 lida antes da receita. Com hematúria, proteinúria, filtração reduzida ou qualquer sangramento digestivo, o analgésico é o paracetamol, e a família sai orientada a não dar o anti-inflamatório que tem em casa.
O dano: O corticoide precoce não reduz a nefrite, e a nefrite desta doença costuma aparecer semanas depois da pele. A criança volta meses depois com edema, hipertensão ou proteinúria maciça, já com dano que a vigilância teria encontrado antes.
Como pegar a tempo: Nenhum corticoide com a finalidade de proteger o rim. Alta com retorno marcado para urina, relação proteína/creatinina e pressão ao menos todo mês por no mínimo seis meses, e com os sinais de alarme ditos à família.
O dano: A torção do cordão espermático dói igual à orquite da vasculite e pode acontecer no mesmo menino. Sem destorção em poucas horas, o testículo é perdido.
Como pegar a tempo: Suspeitar de torção diante de escroto agudo e acionar prontamente urologia/cirurgia. Doppler pode ajudar quando disponível sem atraso, mas fluxo preservado não exclui torção parcial ou intermitente. A suspeita clínica relevante exige decisão cirúrgica sem esperar exames.
O que dizer ao paciente e à família
A família chega com duas palavras na cabeça — sangue e leucemia — e sai, se a conversa for bem feita, com duas outras: urina e calendário. O trabalho da conversa nesta doença é trocar uma coisa pela outra sem mentir para nenhum lado: tirar o medo que o hemograma já desmentiu e colocar no lugar a vigilância que a doença exige. As falas abaixo são as de Jacinto e da mãe, Geralda, e uma de Matilde Zabele, uma adolescente de catorze anos que aparece no caso para completar.
A criança ouve tudo o que se diz perto dela. Jacinto tem seis anos e entende que a barriga vai ser examinada com um aparelho, que o remédio da manhã é para a dor e que vai precisar fazer xixi no potinho algumas vezes; é para ele também que se explica. Com o adolescente, parte da conversa é a sós, com a confidencialidade garantida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e com o limite dito antes: o que puser a vida dele em risco é compartilhado com o responsável, e ele sabe disso antes de contar.
Geralda pergunta se é leucemia, logo depois de o hemograma chegar
““As manchas, a dor nas articulações e o exame de hoje combinam com uma inflamação dos pequenos vasos chamada vasculite por IgA. O hemograma não mostrou alterações que nos levem a suspeitar de leucemia agora, mas ele sozinho não exclui todas as doenças. Vamos acompanhar a evolução e, principalmente, a urina e a pressão. Se aparecerem sinais diferentes ou a recuperação não seguir o esperado, vamos reavaliar.””
Não diga: Dizer que plaquetas normais ou uma lâmina normal descartam leucemia de forma definitiva. Também evitar transformar uma hipótese improvável no centro da conversa quando o quadro é típico e foi adequadamente avaliado.
A mãe quer dar para o tornozelo o ibuprofeno que tem em casa
“Eu sei que o ibuprofeno funciona para dor de junta, e em outra situação eu mesma diria para dar. Agora não. Essa doença pode inflamar o rim, e a urina dele já mostrou um pouco de sangue; o ibuprofeno pode forçar o rim e piorar um sangramento no intestino. Para a dor, é o paracetamol: 1,65 mL na seringa, até quatro vezes por dia. Quando a urina estiver limpa nos próximos exames, a gente conversa de novo sobre isso.”
Não diga: Dizer que anti-inflamatório é proibido nessa doença, o que não é verdade para toda criança, ou simplesmente não falar do assunto — e a mãe dá em casa o que tem no armário.
A pediatra explica por que o ultrassom vem antes do corticoide, com o menino gritando de dor
“Eu vou dar agora o remédio para a dor e vou pedir um ultrassom da barriga antes do corticoide. Nessa doença o intestino inflama, e em algumas crianças um pedaço do intestino entra dentro do outro — é a invaginação. Ela não melhora com corticoide: se existir, quem resolve é o cirurgião, e eu já avisei a equipe dele. Por isso eu preciso olhar primeiro. Se não houver invaginação, eu começo o corticoide logo depois, e ele deve aliviar essa dor.”
Não diga: Dar o corticoide para ver se melhora, que é a frase que atrasa o ultrassom. E falar em cirurgia sem explicar por que se está procurando a invaginação, o que só assusta.
Na alta, a mãe pergunta por que colher urina todo mês se o menino já está bem
“Porque a pele e a barriga avisam, e o rim não. A inflamação do rim, quando vem, costuma aparecer nas semanas depois das manchas, às vezes quando a pele já está limpa, e no começo não dá sintoma nenhum. O jeito de pegar cedo é a urina e a pressão. O combinado é este: volta daqui a sete dias e depois uma vez por mês até completar seis meses, sempre com a primeira urina da manhã. O corticoide que ele está tomando é para a barriga; ele não protege o rim, e por isso a urina continua mesmo depois que o remédio acabar. Se a urina ficar escura ou com espuma, se ele inchar ou tiver dor de cabeça, não espere o dia marcado.”
Não diga: Encerrar com um qualquer coisa volta, sem data e sem exame, e deixar a família acreditar que o corticoide já cuidou do rim.
Semana 9: contar à mãe que a proteína na urina persiste e que Jacinto vai ao nefrologista
“A urina dele mostrou proteína nos três últimos exames, e a quantidade não caiu. Isso quer dizer que a vasculite chegou ao rim — era o que a gente estava vigiando, e foi por vigiar que a gente viu cedo. A pressão e o funcionamento do rim estão normais. O próximo passo é com o nefrologista pediátrico, o médico do rim da criança: ele decide se precisa de biópsia e de remédio. Eu vou mandar junto todos os exames com as datas, porque o tempo que a proteína dura faz parte dessa decisão. Na maior parte das crianças essa alteração passa, mas ela vai ser acompanhada por anos, e é isso que protege o rim dele.”
Não diga: Dizer que ele tem doença renal, rótulo que a família leva como diálise; ou dizer que é só um pouquinho de proteína, e a família não vai à consulta do nefrologista.
A mãe pergunta se é contagioso e quando ele volta à escola
“Não passa para os colegas nem para o irmão. O resfriado que ele teve antes pode ter sido o gatilho, mas a vasculite em si não se transmite. Ele pode voltar para a escola assim que a dor deixar. O que eu peço é um mês sem educação física e sem futebol, porque o esforço pode trazer as manchas de volta. Se a escola pedir, eu escrevo isso num atestado.”
Não diga: Mandar a criança ficar em casa até as manchas sumirem, o que pode significar dois meses fora da escola por uma restrição que a doença não pede.
Matilde, 14 anos, a sós por alguns minutos, pergunta sobre remédio para cólica menstrual e se a doença atrapalha ter filho no futuro
“Pode perguntar à vontade. O que você me contar aqui fica entre nós, a não ser que seja algo que te coloque em risco — aí eu precisaria envolver sua mãe, e eu te avisaria antes. Sobre a cólica: enquanto a sua urina mostrar sangue, os remédios do tipo ibuprofeno ficam de fora, porque podem forçar o rim; o paracetamol é o que você usa, e eu te passo a dose certa para o seu peso. Sobre gravidez: a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é que toda mulher que teve essa doença na infância ou na adolescência conte isso a quem fizer o pré-natal, para que a pressão e a urina sejam olhadas com mais cuidado durante a gestação. Vou escrever isso num resumo para você guardar.”
Não diga: Responder só para a mãe, falando da adolescente na terceira pessoa, ou empurrar a pergunta sobre gravidez para daqui a muitos anos — ela perguntou agora.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
SBP, Documento Científico nº 5, novembro de 2019 — adotada por esta apostila
Anti-inflamatório, como o naproxeno de 10 mg/kg/dia de 12/12 h, por uma a duas semanas, só para a criança com artrite cujo rim está fora da doença — nenhuma hematúria, nenhuma proteinúria, nenhuma doença renal aguda ou crônica. O analgésico das formas cutâneas e da dor abdominal é o paracetamol.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Reumatologia. Vasculite por IgA (púrpura de Henoch-Schönlein) deve ser acompanhada em longo prazo? Documento Científico nº 5, 2019.
SHARE, consenso europeu publicado em março de 2019
Anti-inflamatório e paracetamol não contraindicados sem nefrite ou quando a hematúria microscópica é o único achado renal, que o texto considera benigna; contraindicado no sangramento digestivo ativo, com hidratação adequada durante o uso. A recomendação da Tabela 3 é mais larga que o próprio texto: não contraindica o anti-inflamatório se a função renal é normal.
Ozen S, Marks SD, Brogan P, et al. Rheumatology (Oxford). 2019;58(9):1607-1616.
As duas regras valem para o mesmo paciente e para o mesmo momento — a criança com artrite na fase aguda —, então é divergência de verdade. O escopo é o mesmo nos dois documentos. Pela data, vence a SBP, de novembro de 2019, posterior ao SHARE, publicado em março do mesmo ano. A natureza não desempata (os dois são consensos de especialistas), e a coerência interna reforça o mesmo lado, porque o SHARE libera por dois critérios diferentes na tabela e no texto. Esta apostila adota a SBP. Diante da criança: leia a urina tipo 1 antes da receita. Com qualquer hematúria, proteinúria, filtração abaixo de 90 ou sangramento digestivo, o analgésico é o paracetamol — Jacinto, com 12 hemácias por campo, sai sem ibuprofeno. Com urina sem sangue e sem proteína, filtração normal e artrite que dói, ibuprofeno de 10 mg/kg por tomada de 8/8 h, com teto de 400 mg, por uma a duas semanas, e suspensão se a urina do retorno mostrar hematúria. Quem estuda para prova precisa reconhecer a regra do SHARE; quem prescreve segue a da SBP.
SBP, Documento Científico nº 5, novembro de 2019 — adotada por esta apostila
Corticoide não previne nefrite, mas está sempre indicado nos casos mais graves, especialmente com comprometimento gastrintestinal — dor abdominal moderada a intensa, sangramento e/ou invaginação —, além de nefrite grave, orquiepididimite, hemorragia pulmonar e comprometimento neuropsiquiátrico: prednisona ou prednisolona de 1 a 2 mg/kg/dia por 3 a 7 dias, com redução em duas a seis semanas, e pulso de metilprednisolona de 30 mg/kg/dia (máximo 1 g) por 3 dias nos mais graves.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Reumatologia. Documento Científico nº 5, 2019.
SHARE, consenso europeu publicado em março de 2019
Na dor abdominal intensa e/ou no sangramento retal, com a invaginação excluída, o corticoide pode ser considerado (recomendação 5, opinião de especialistas), com o registro de que os dados são escassos: um ensaio mostrou redução da intensidade e da duração da dor, e outros estudos não mostraram vantagem sobre o tratamento de suporte. Dose oral de 1 a 2 mg/kg/dia; pulso de 10 a 30 mg/kg (máximo 1 g) por 3 dias nos casos graves.
Ozen S, Marks SD, Brogan P, et al. Rheumatology (Oxford). 2019;58(9):1607-1616.
Antes de desempatar, separa-se o que é cronologia. O ultrassom vem antes do corticoide nas duas fontes — o SHARE o exige na dor intensa e a SBP o chama de exame mais adequado para reconhecer a invaginação —, e a invaginação encontrada é do cirurgião, porque o corticoide não a reduz; o pulso que a SBP menciona para a criança com invaginação é decisão tomada com a equipe cirúrgica depois da redução, leitura desta apostila. Resta a divergência real: a força e o limiar da indicação. O escopo é o mesmo; pela data, vence a SBP, posterior ao SHARE; a natureza não desempata. Esta apostila adota a SBP e dá à expressão dor moderada a intensa uma leitura operacional sua: dor que não cede ao paracetamol ou que impede a criança de comer, beber ou brincar. Diante da criança: dor leve controlada com analgésico, sem corticoide; dor moderada a intensa, ultrassom e, sem invaginação, prednisolona de 1 mg/kg/dia, ou 2 mg/kg/dia se houver sangramento, com teto de 60 mg/dia. Quem estuda para prova reconhece o pode ser considerado do SHARE.
KDIGO 2025, diretriz de IgAN e IgAV, outubro de 2025 — adotada por esta apostila
Na criança, biópsia pronta com proteinúria na faixa nefrótica ou filtração abaixo de 90 mL/min/1,73 m²; biópsia a considerar com relação proteína/creatinina de 1.000 a 2.000 mg/g por 2 a 4 semanas ou de 200 a 500 mg/g por mais de 4 semanas; urina ao menos mensal por no mínimo seis meses. A hematúria isolada não está entre as indicações de biópsia, e a diretriz registra que não há dado para tratar com corticoide a criança com micro-hematúria isolada. O SHARE, de 2019, também trata a hematúria microscópica isolada como achado benigno.
KDIGO IgAN and IgAV Work Group. Kidney Int. 2025;108(4S):S1-S71, ponto de prática 1.10.1.2.
SBP, Documento Científico nº 5, novembro de 2019
Indica biópsia renal quando a alteração do rim é grave ou não passa, sobretudo para não deixar escapar a forma com crescentes, em quatro situações: síndrome nefrótica; síndrome nefrítica; doença renal aguda ou crônica; e hematúria e/ou proteinúria acima de 0,1 g/m²/dia que persista além de três meses — o que inclui a hematúria isolada.
Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Reumatologia. Documento Científico nº 5, 2019.
As duas regras governam o mesmo momento — a criança no terceiro mês de vigilância — e dizem coisas opostas para a hematúria isolada. O escopo é o mesmo. Pela data, vence a KDIGO de 2025, seis anos posterior à SBP; a natureza não desempata, e o SHARE está do mesmo lado da KDIGO. Esta apostila adota a KDIGO. A troca não é só de afrouxar: para a proteinúria, a KDIGO é mais rápida que a SBP. Pela equivalência pediátrica da KDIGO de síndrome nefrótica (2 g/g para 1 g/m²/dia), o corte de 0,1 g/m²/dia da SBP corresponde a cerca de 200 mg/g — o mesmo número da faixa baixa da KDIGO —, mas a SBP espera três meses e a KDIGO, quatro semanas. Diante da criança: hematúria isolada com relação abaixo de 200 mg/g, pressão abaixo do percentil 90 e filtração normal segue com urina e pressão mensais na atenção primária até o sexto mês e depois nas consultas anuais; proteinúria de 200 mg/g ou mais por mais de quatro semanas, pressão alta ou filtração abaixo de 90 levam ao nefrologista pediátrico. Quem trabalha num serviço que ainda biopsia pela regra da SBP deve reconhecê-la.
O raciocínio, em voz alta
Graciano Vidal, nove anos, 31 kg e 134 cm, chega ao pronto-atendimento com o pai, Honorio, às onze da manhã. Há cinco dias apareceram manchas vermelho-arroxeadas nas pernas e nas nádegas, e há três dias o joelho esquerdo inchou e dói para dobrar. Desde as oito da manhã sente dor no lado esquerdo do saco escrotal, que está vermelho e inchado; vomitou uma vez de dor. Não tem febre. Está corado, hidratado, responde bem, frequência cardíaca de 98 e pressão de 104 por 66 mmHg, que a tabela por idade, sexo e estatura põe abaixo do percentil 90. As lesões de pele são palpáveis, não somem sob o vidro e poupam o tronco. O joelho esquerdo tem pequeno derrame. O hemiescroto esquerdo está edemaciado, eritematoso e doloroso; o reflexo cremastérico é difícil de avaliar pela dor. O abdome é indolor.
O escroto vem primeiro
A púrpura torna o envolvimento escrotal da vasculite plausível, mas não exclui torção. Aciono urologista/cirurgião imediatamente e organizo Doppler se disponível sem atraso, mantendo analgesia e suporte. Se a avaliação clínica sustentar torção, a decisão cirúrgica não espera exame nem se desfaz apenas pela presença de fluxo.
A contagem enquanto o Doppler é preparado
Hemograma com lâmina: plaquetas de 412.000 por mm³, leucócitos de 11.200 com diferencial normal, hemoglobina de 13,0 g/dL. Sem plaquetopenia e sem célula imatura, a púrpura palpável de predomínio em membros inferiores com artrite sustenta a vasculite por IgA pelo critério. A dúvida que resta é a do escroto, não a do nome.
A urina e a pressão, que decidem o analgésico
Urina tipo 1 sem hemácias e sem proteína na fita; relação proteína/creatinina pedida para a primeira urina da manhã seguinte; creatinina normal, com a estatura de 134 cm anotada para a filtração estimada. A pressão está abaixo do percentil 90. Com urina limpa, a SBP permitiria anti-inflamatório para a artrite — a decisão fica para depois do Doppler, porque ela depende do que for prescrito para o escroto.
O Doppler
O Doppler mostra testículo e epidídimo esquerdos aumentados, hiperemia e espessamento da pele escrotal. O urologista integra esses achados à história e ao exame e considera orquiepididimite da vasculite no caso, sem indicação de exploração naquele momento. A conclusão não decorre apenas de “fluxo presente”; piora ou evolução discordante exige reavaliação imediata.
O corticoide da orquite, com o teto
A orquite é indicação de corticoide no SHARE e na SBP. Esta apostila usa 2 mg/kg/dia na orquite, dentro da faixa da SBP: 2 × 31 = 62 mg, acima do teto de 60 mg/dia. A dose é 60 mg: prednisona 20 mg, 3 comprimidos uma vez ao dia pela manhã (ou fosfato sódico de prednisolona 3 mg/mL, 20 mL), por 7 dias, com redução em duas semanas — 30 mg (1 comprimido e meio) por 7 dias, 15 mg (3 comprimidos de 5 mg) por 7 dias, e suspensão. O pai ouve que o remédio trata a inflamação do testículo e não protege o rim.
O joelho: anti-inflamatório ou paracetamol?
A urina limpa permitiria ibuprofeno de 10 mg/kg (310 mg = 6,2 mL de 50 mg/mL de 8/8 h, abaixo do teto de 400 mg). Com 60 mg de prednisona já prescritos, esta apostila prefere o paracetamol, porque somar anti-inflamatório a corticoide em dose alta acrescenta risco gastrintestinal numa doença que já pode sangrar pelo intestino — leitura desta apostila. Paracetamol 15 mg/kg = 465 mg: 1 comprimido de 500 mg (16 mg/kg) de 6/6 h se dor, até 2.000 mg/dia, abaixo do máximo de 75 mg/kg/dia (2.325 mg).
Casa ou hospital?
Graciano não precisa de nada que só o hospital oferece: a torção está excluída, a dor escrotal cede com analgésico, ele não tem dor abdominal nem sangramento, come e bebe, a pressão é normal e a urina é limpa. Vai para casa com retorno em 48 horas para reavaliar o escroto e o joelho, e com as instruções de voltar no mesmo dia se a dor escrotal piorar, se surgir dor abdominal forte, vômitos, sangue nas fezes, urina escura ou inchaço.
O calendário do rim
A urina limpa de hoje não encerra nada. Retorno em 7 dias com urina tipo 1, relação proteína/creatinina da manhã e pressão; depois uma vez por mês até completar seis meses, pela KDIGO de 2025. Escola liberada assim que a dor deixar, sem educação física e sem futebol por um mês. E, se a urina de algum retorno mostrar hematúria ou proteinúria, o anti-inflamatório sai de vez da lista de possibilidades para a dor do joelho.
Faça você
Matilde Zabele, catorze anos, 48 kg e 158 cm, vem com a mãe ao retorno do quinto mês depois de uma vasculite por IgA com púrpura, dor no joelho e dor abdominal leve, tratada em casa com paracetamol. As urinas dos meses 1, 2 e 3 foram normais. No mês 4 apareceram 8 hemácias por campo, com relação proteína/creatinina de 0,12 mg/mg. Hoje, no mês 5, a urina tem 10 hemácias por campo e a relação é de 0,13 mg/mg; a creatinina é normal e a pressão, 110 por 68 mmHg, fica abaixo do percentil 90 para idade, sexo e estatura. A pele está limpa há quatro meses. A mãe conta que o médico de uma prima disse que sangue na urina por três meses é caso de biópsia, e pergunta se Matilde vai precisar. Com a mãe fora da sala por alguns minutos, Matilde pede um remédio para a cólica menstrual — a amiga usa ibuprofeno — e pergunta se a doença pode atrapalhar uma gravidez no futuro.
1. Matilde tem indicação de nefrologista ou de biópsia hoje? E no mês 7, se a hematúria continuar?
Converta a relação para mg/g, confira duração, pressão e filtração, e diga qual régua segue e por quê.
2. O que prescrever para a cólica, em que dose e apresentação, e o que responder sobre gravidez?
Decida anti-inflamatório ou paracetamol, calcule a dose para 48 kg com o teto e diga o que a conversa a sós precisa conter.
Ver como fecharíamos
1. A relação de 0,13 mg/mg é 130 mg/g, cerca de 15 mg/mmol (130 ÷ 8,84). Está abaixo da faixa baixa da KDIGO de 2025 (200 mg/g ou mais por mais de 4 semanas), a pressão está abaixo do percentil 90 e a filtração é normal. A hematúria é isolada e existe há cerca de um mês. Hoje não há indicação de nefrologista nem de biópsia: Matilde segue com urina, relação proteína/creatinina e pressão no retorno do mês 6, que fecha o piso de seis meses da KDIGO, e depois nas consultas anuais de acompanhamento — frequência que é leitura desta apostila. No mês 7, se a hematúria isolada continuar, a regra da SBP de 2019 indicaria biópsia (hematúria persistente por mais de três meses); esta apostila segue a KDIGO de 2025, mais nova e alinhada ao SHARE, que não lista a hematúria isolada entre as indicações. O que mudaria a conduta é outro dado: relação de 200 mg/g ou mais mantida por mais de 4 semanas, pressão no percentil 95 ou acima, ou filtração abaixo de 90 — qualquer um leva ao nefrologista pediátrico. A mãe ouve que a regra que a prima ouviu existe, que é de 2019, e por que a diretriz mais nova não a segue. 2. Com hematúria na urina, o anti-inflamatório fica de fora, pela régua da SBP adotada por esta apostila — inclusive o ibuprofeno da amiga. O analgésico é o paracetamol: 15 mg/kg = 720 mg; na apresentação da Rename, 1 comprimido e meio de 500 mg = 750 mg (15,6 mg/kg) por tomada, de 6/6 h se dor, até 3.000 mg/dia — abaixo do máximo de 75 mg/kg/dia (3.600 mg) e do teto do adulto de 4 g/dia, e com a tomada abaixo de 1 g. Ácido acetilsalicílico também não. Sobre gravidez, a conversa a sós começa pelo sigilo e pelo seu limite, e diz o que a SBP recomenda: quem teve a doença quando criança ou adolescente conta isso a quem fizer o pré-natal e é acompanhada com rigor na gestação, mesmo sem nefrite. A orientação vai escrita num resumo entregue a ela, e a pergunta é respondida para ela, não para a mãe.
O cálculo pelo peso resulta em 31 × 2 = 62 mg/dia. Como o esquema informado limita a dose a 60 mg/dia, administram-se 60 mg, equivalentes a três comprimidos de 20 mg. A indicação, duração e eventual redução do corticoide dependem da manifestação e da resposta clínica. Protocolos de vasculite por IgA, como o do Royal Children’s Hospital, empregam teto de 60 mg/dia; não é necessário buscar um teto em síndrome nefrótica nem declarar equivocada uma fonte que não explicite dose máxima. Neste exercício, o limite já está definido na prescrição.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare púrpura em três crianças: uma bem, com artralgia e dor abdominal; outra febril e mal perfundida; outra com dor óssea persistente. Explique por que o hemograma não substitui o exame e a evolução. Em um menino com escroto agudo, acione avaliação cirúrgica sem usar fluxo presente como exclusão de torção. Organize analgesia, urina, pressão e destino.
Em 30 dias
Monte o calendário de vigilância renal de um caso e acompanhe os resultados: urina, proteinúria, pressão e função renal. Converta as unidades de proteinúria e justifique quando discutir com nefrologia. Explique à família por que a melhora da púrpura não encerra o seguimento e por que corticoide para dor não previne nefrite. Revise se ela sabe onde voltar em caso de dor intensa, sangramento ou redução da diurese.
Agora atenda
Atenda uma criança com manchas roxas nas pernas, dor no tornozelo e cólica abdominal: decida o que excluir primeiro, que exames pedir, se o corticoide vem antes ou depois do ultrassom e o que dizer à família sobre a urina dos próximos meses.
