Pediatria › Hematologia Pediátrica
Um décimo de mililitro
Doença hemorrágica do recém-nascido e deficiência de vitamina K
Prevenção, recusa da profilaxia e tratamento do lactente que sangra. O décimo de mililitro do título corresponde a 1 mg apenas na concentração de 10 mg/mL: confirme dose, apresentação e via.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria nº 353, de 14 de fevereiro de 2017. Aprova as Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal. Relatório de Recomendação Conitec nº 211. Brasília: Ministério da Saúde, 2017.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. Volume 1 — Cuidados gerais. 2. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. ISBN 978-85-334-1983-4.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção humanizada ao recém-nascido: Método Canguru — manual técnico. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. ISBN 978-85-334-2525-5.
Hand I, Noble L, Abrams SA; American Academy of Pediatrics, Committee on Fetus and Newborn, Section on Breastfeeding, Committee on Nutrition. Vitamin K and the Newborn Infant. Pediatrics. 2022;149(3):e2021056036. doi:10.1542/peds.2021-056036.
Kanakion MM pediátrico (fitomenadiona) 2 mg/0,2 mL e Kanakion MM (fitomenadiona) 10 mg/mL, solução injetável — bula para o profissional de saúde. Rio de Janeiro: Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos, registro MS-1.0100.0037, texto aprovado pela Anvisa em 29/02/2016.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada e Temática. Guia para uso de hemocomponentes. 2. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. ISBN 978-85-334-2161-5.
Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Hepatologia (gestão 2022-2024). Colestase em lactentes: um tema do pediatra. Documento Científico nº 169, 16 de setembro de 2024.
Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-710-3.
Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.232, de 17 de julho de 2019. Estabelece normas éticas para a recusa terapêutica por pacientes e objeção de consciência na relação médico-paciente. Diário Oficial da União, 16 set. 2019, seção I, p. 113-114.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. Volume 4 — Cuidados com o recém-nascido pré-termo. 2. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. ISBN 978-85-334-1984-1.
Fitomenadiona 2 mg/0,2 mL e 10 mg/1 mL, solução injetável com derivado de ácido graxo polietoxilado — bula. Verbenna. Texto servido pelo guia farmacêutico do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo.
Fenocris (fenobarbital sódico) solução injetável 100 mg/mL — bula para o profissional de saúde. Cristália Produtos Químicos Farmacêuticos, registro MS nº 1.0298.0016, histórico de alterações até 30/06/2022.
Canadian Paediatric Society. Guidelines for vitamin K prophylaxis in newborns; reafirmada em 2024. https://cps.ca/en/documents/position/vitamin-k-prophylaxis-in-newborns
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No alojamento conjunto, a prescrição de um recém-nascido de termo com 3.300 g é fitomenadiona 1 mg por via intramuscular. A ampola disponível contém 10 mg/mL. Qual volume a equipe deve aspirar?
O paciente que você vai ver
Quinta-feira, cinco e quarenta da manhã, pronto-socorro infantil de um hospital geral. A enfermeira da classificação de risco não põe a ficha na pilha: entrega na sua mão. Menino de 6 semanas, trazido pela mãe porque amoleceu durante a noite e vomitou três vezes. Chama-se Bernabé, pesou 4.600 g na balança da triagem e está dormindo no colo da mãe de um jeito que não parece sono. Você é o interno do plantão; a preceptora está terminando um atendimento na sala vermelha, a dez metros.
Rebeca, a mãe, conta sem pausa. Ele mamou mal desde ontem à tarde. De madrugada deu um choro agudo, diferente, e depois ficou molinho. Vomitou o leite três vezes, sem febre. Mama só no peito desde que nasceu, e até anteontem mamava de hora em hora. Ela achou que era cólica, deu banho morno, andou com ele no colo e só veio quando percebeu que ele não acordava direito para mamar.
No exame, Bernabé abre os olhos quando você o manipula, geme e volta a fechá-los; não fixa o olhar. Está pálido, com as mucosas descoradas. A fontanela anterior está abaulada e tensa com ele sentado no colo, e não pulsa como você está acostumado a sentir. Frequência cardíaca de 176 bpm, frequência respiratória de 44 irpm, saturação de 97% em ar ambiente, enchimento capilar de 3 segundos, temperatura axilar de 36,7 °C, glicemia capilar de 82 mg/dL. Na face interna da coxa esquerda há uma mancha arroxeada de 3 cm que a mãe diz ter aparecido anteontem, sem pancada que ela tenha visto.
Você pergunta pelo nascimento. Parto normal numa maternidade pública, 39 semanas, 3.280 g, alta com 48 horas. Rebeca responde antes da pergunta seguinte: a família queria tudo natural e não deixou dar a injeção de vitamina K. Na maternidade ofereceram umas gotas pela boca, e ela aceitou. Disseram que era para voltar na semana seguinte para outra dose, mas ninguém marcou dia, o marido estava trabalhando e a volta ficou para depois. E lembra de uma coisa que só agora parece importante: no teste do pezinho, no quinto dia, o furinho do calcanhar ficou sangrando muito tempo, e a moça teve de apertar com algodão até parar.
O quadro se monta sozinho, e é justamente por isso que se deve montá-lo com cuidado. Um lactente de 6 semanas, em aleitamento exclusivo, que recebeu uma dose oral de vitamina K de um esquema de três, com um sangramento prolongado no calcanhar na primeira semana, uma equimose sem trauma e agora palidez, vômitos, sonolência e fontanela abaulada. É o retrato da forma tardia do sangramento por deficiência de vitamina K com sangue dentro do crânio — até prova em contrário. E sangue na cabeça de um lactente sem história de trauma que o explique, com uma mancha roxa na coxa, é também o começo do cenário que o capítulo de violência contra a criança trata com a maior suspeição. As duas hipóteses entram juntas no prontuário.
O que você precisa decidir nos próximos minutos cabe numa lista curta: o que colher antes da vitamina K sem atrasá-la; a via e a dose dela num bebê que já sangra; se o plasma entra agora ou depois do resultado; a tomografia enquanto o tratamento corre; e quem chamar. Ao seu lado, Rebeca pergunta se é grave e se foi a vacina. Ele ainda não tomou as vacinas dos 2 meses.
A preceptora chega, olha a fontanela, olha a coxa e faz as perguntas na ordem em que importam: o que ele tem, o que você colhe e o que faz antes de qualquer resultado. Depois de ouvir, faz a quarta: e se tiver sido pancada? A resposta certa não escolhe uma hipótese. Colhe o coagulograma que separa as duas, dá a vitamina K que não espera e registra o exame físico que o capítulo de violência vai precisar.
Este capítulo é dono desse bebê e dos outros dois momentos em que o interno encontra a mesma doença: a sala de parto, com a injeção de 1 mg — 0,1 mL na concentração de 10 mg/mL — e a família que a recusa; e a primeira semana, com o coto umbilical e o tubo digestivo que sangram. Assume as três formas pela idade, a profilaxia com a dose por peso e o esquema oral, o reconhecimento e a confirmação, o tratamento e a porta da trombocitopenia aloimune do recém-nascido, que não tem dono no nível. Cede, pelo nome, o que é de vizinho: a leitura de cada teste do coagulograma, a hemofilia, a técnica da transfusão, a colestase e a atresia biliar, a sepse neonatal, a primeira hora da sala de parto, o aleitamento, a prematuridade e a violência contra a criança.
Quem adoece disso
O nome antigo, doença hemorrágica do recém-nascido, ficou nas diretrizes brasileiras; o nome atual diz a causa: sangramento por deficiência de vitamina K. A Academia Americana de Pediatria, na declaração de março de 2022, separa três formas pela idade em que o sangramento começa: a precoce, nas primeiras 24 horas; a clássica, do segundo dia ao fim da primeira semana; e a tardia, de uma semana a seis meses, com pico entre 2 e 8 semanas. A Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal, aprovada pela Portaria SAS/MS nº 353 de 2017, descreve as mesmas três, com a tardia começando depois da primeira semana. A fronteira entre elas é de calendário, não de conduta: um bebê de dez dias que sangra não espera a classificação para receber vitamina K.
Cada forma tem o seu doente. A precoce é do filho de mãe que usou, na gestação, medicamento que acelera o metabolismo da vitamina K no fígado do feto: anticonvulsivantes como o fenobarbital e a fenitoína, tuberculostáticos como a rifampicina e a isoniazida, alguns antibióticos e a varfarina. A clássica, na maioria das vezes, não tem causa identificável além da reserva baixa de todo recém-nascido, e é mais frequente no amamentado. A tardia é do lactente em aleitamento exclusivo que não recebeu a profilaxia ou recebeu um esquema oral incompleto, e do lactente com colestase — hepatite neonatal, atresia biliar — ou com má absorção intestinal, que pode sangrar mesmo depois da injeção.
O aleitamento aparece duas vezes nessa lista por uma razão que não diminui o valor dele. O leite humano tem pouca vitamina K e a placenta transfere pouca ao feto; por isso, no lactente em aleitamento exclusivo, o nível plasmático fica abaixo do adulto entre 6 semanas e 6 meses, mesmo com a injeção ao nascer. A resposta a isso é a vitamina K, nunca a fórmula: o aleitamento exclusivo tem dono no nível, o capítulo Aleitamento materno exclusivo até 6 meses: vantagens, técnica e manejo de intercorrências, na apostila de Nutrologia Pediátrica, e nada neste capítulo autoriza desestimulá-lo.
O que a profilaxia faz aparece nos estudos de vigilância reunidos pela diretriz de 2017. Entre 325.000 recém-nascidos que receberam 1 mg por via intramuscular, nenhum caso da forma tardia. Nos países que trocaram a injeção por esquemas orais, a tardia continuou aparecendo: 2,7 casos por 100.000 com três doses de 1 mg na Alemanha, 0,9 com três doses de 2 mg, 2,5 com três doses de 1 mg na Austrália e 4,8 com duas doses de 2 mg de preparação de micelas mistas na Suíça. O único esquema oral que também chegou a zero, na Dinamarca, deu 1 mg ao nascer e depois 1 mg por semana, para 396.000 bebês. A AAP acrescenta que, na Suíça, o esquema de três doses de 2 mg baixou a taxa para 0,87 por 100.000, e que os casos que sobraram eram de recusa de toda profilaxia e de colestase não diagnosticada.
A forma tardia é a que mata e deixa sequela, porque sangra onde não se vê: em 30% a 60% dos casos o sangramento é intracraniano, segundo a AAP. A clássica costuma sangrar no coto umbilical, nos pontos de punção e no tubo digestivo, com o bebê de bom aspecto. A precoce vai de equimose na pele a hemorragia intracraniana, e pode começar durante o parto — antes de qualquer dose.
O esquema oral protege menos também porque depende de a família voltar. Num hospital de Londres, em 1993, com três doses orais prescritas para os amamentados, 99% receberam a primeira, 88% a segunda, com uma semana, e só 39% as doses entre 3 e 6 semanas. A dose que se perde é exatamente a que protege as semanas da forma tardia.
A recusa da injeção aumentou nos últimos anos, e com ela os casos de forma tardia, segundo a AAP. Os fatores associados à recusa, nos estudos reunidos pela AAP, foram aleitamento exclusivo, maior idade gestacional, maior idade materna, parto fora do hospital ou sem médico, recusa da profilaxia ocular e da vacina de hepatite B ao nascer e, mais tarde, recusa de vacinas aos 15 meses. Os documentos brasileiros usados neste capítulo não trazem incidência nacional nem taxa de recusa: o interno não sabe quantos casos o próprio serviço atende, e a raridade é o que faz a doença ser esquecida na porta.
Um dado de elenco muda a conduta fora do hospital. A fitomenadiona, a vitamina K1 injetável, não consta da Rename 2024 em nenhum componente: a ampola da sala de parto vem da padronização da maternidade, e a apresentação pediátrica de micelas mistas tem, pela bula, uso restrito a hospitais. A consequência prática, na leitura desta apostila, é dupla. O esquema oral só se cumpre se a alta sair com a segunda e a terceira doses marcadas num serviço que tenha a ampola; e a unidade básica que recebe um lactente sangrando não deve atrasar o transporte procurando um medicamento que talvez não tenha.
Por que acontece o que acontece
A bioquímica é a mesma em qualquer idade e está ensinada em dois vizinhos: o que cada teste mede, em Coagulograma: o que cada teste mede e quando pedir, na apostila de Interpretação de Exames à Beira do Leito, e o sistema da coagulação com os antagonistas da vitamina K, em Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes, na apostila de Hematologia e Hemoterapia. Aqui fica só o que muda no bebê. A vitamina K1 é o cofator que o fígado usa para terminar a síntese da protrombina e dos fatores VII, IX e X, e também das proteínas C e S. Sem ela, o fígado continua liberando essas moléculas, mas incompletas: estão no sangue e não funcionam.
O recém-nascido começa a vida com pouca vitamina K por dois motivos que nenhuma conduta muda. A vitamina atravessa mal a placenta, e o que o bebê recebe nos primeiros dias vem de um leite que contém pouca. A AAP acrescenta, para o prematuro, a imaturidade do fígado e a colonização intestinal ainda incompleta. Todo recém-nascido está, portanto, a poucos dias de uma reserva que não sustenta a coagulação — e é por isso que a profilaxia é universal, e não reservada a quem tem fator de risco.
Na forma precoce, o problema começa antes do parto. Os anticonvulsivantes, os tuberculostáticos e a varfarina induzem, no fígado do feto, as enzimas do citocromo P450 que aceleram o consumo da vitamina K, e o bebê nasce já sem reserva. O sangramento pode começar no trabalho de parto, quando a cabeça passa pelo canal — e aquilo que sangrou antes do nascimento nenhuma dose dada depois desfaz. A AAP registra que dar vitamina K à gestante eleva o nível no sangue do cordão, mas não mostrou reduzir a forma precoce; a disputa sobre isso está no bloco de divergências.
Na forma tardia, o mecanismo é o de uma entrada que não acompanha a saída. O lactente em aleitamento exclusivo recebe pouca vitamina K pelo leite, e o nível cai ao longo das semanas. Se nada chegou por outra via, a reserva não se renova — e a janela do pico da forma tardia, entre a segunda e a oitava semana, é a dessa reserva que acabou. A colestase agrava tudo, porque a vitamina K é lipossolúvel e sua absorção no intestino delgado depende da bile: sem bile, cai a absorção da vitamina do leite e da dose oral.
A bula da fitomenadiona pediátrica de micelas mistas traz o número que explica por que a via oral não serve na colestase. Em 44 lactentes colestáticos de até 26 semanas, seis horas depois de 1 mg pela veia a vitamina K1 no sangue estava em torno de 139 ng/mL; depois de 2 mg pela boca, em torno de 1,4 ng/mL — cem vezes menos, com o dobro da dose. Só 17% dos que receberam a oral tiveram aumento maior que 10 ng/mL. No lactente com colestase, a vitamina K se dá por via parenteral, na profilaxia e no tratamento.
A diferença entre a injeção no músculo e as outras vias aparece no estudo com prematuros descrito pela AAP: a mesma dose dada na veia produziu níveis mais altos no começo e significativamente mais baixos com duas semanas do que a dada no músculo — por isso a dose venosa não é recomendada para profilaxia. A leitura desse resultado é que o músculo libera a vitamina aos poucos e cobre as semanas seguintes; a via oral depende de absorção irregular e de doses repetidas que a família precisa lembrar. É essa a razão biológica dos números da vigilância: uma injeção de 1 mg ao nascer zera a forma tardia, e os esquemas orais só a reduzem.
O coagulograma segue o mecanismo. Os fatores que faltam são justamente os medidos pelo tempo de protrombina e pelo tempo de tromboplastina parcial ativada; plaquetas e fibrinogênio não dependem da vitamina K e ficam normais. Esse desenho — TP e TTPa alargados com plaquetas e fibrinogênio normais — é a assinatura da doença, e o detalhe de cada teste fica com o capítulo Coagulograma.
O tratamento também segue o mecanismo. A vitamina K devolve ao fígado o que faltava, e o fígado volta a liberar fatores funcionais em horas: uma das bulas descreve a queda do TP em 2 a 4 horas no recém-nascido, e é essa correção que confirma o diagnóstico. Mas horas são tempo demais para quem sangra dentro do crânio. O plasma fresco congelado traz os fatores prontos: a dose inicial de 10 a 20 mL/kg eleva os fatores em 15% a 20%, segundo o guia de hemocomponentes do Ministério da Saúde, e compra o tempo até a vitamina agir. A vitamina K sempre; o plasma quando o sangramento não pode esperar essas horas.

Como se apresenta de verdade
O sangramento por deficiência de vitamina K não tem um quadro; tem três, e a idade do bebê diz qual procurar. O que as três têm em comum é o que engana: o bebê costuma estar bem até sangrar, e o sangramento aparece onde a rotina fura, corta ou aperta — o coto umbilical, o calcanhar do teste do pezinho, o local da vacina, a circuncisão — ou onde não se vê, dentro do crânio.
As seis seções abaixo começam pela pergunta de idade e de história que organiza tudo, descrevem as três formas, separam o que sangra parecido e não é falta de vitamina K e terminam no lactente com sangue na cabeça, em que a hipótese de violência entra junto com a de coagulopatia.
1 · A idade e quatro perguntas
Diante de um recém-nascido ou de um lactente de até 6 meses que sangra — ou que tem sinal neurológico sem explicação —, a primeira coisa a registrar é a idade em horas, dias ou semanas. Nas primeiras 24 horas, pense na forma precoce; do segundo ao sétimo dia, na clássica; de uma semana a seis meses, na tardia. A AAP recomenda considerar a deficiência de vitamina K em todo sangramento dos primeiros seis meses, mesmo no bebê que recebeu a profilaxia, e especialmente no que mama só no peito.
A segunda pergunta é a da profilaxia, e ela tem três partes, porque "tomou vitamina K" não responde nada. Por qual via? Quantas doses, e em que dias? Quem registrou? A injeção de 1 mg no músculo protege a janela da forma tardia; uma dose oral única ao nascer protege a clássica e muito menos a tardia; o esquema oral de três doses protege se as três foram dadas. Procure o registro no resumo de alta da maternidade e pergunte à família com as palavras dela: injeção na perna, gotinhas na boca, nada.
A terceira é a da gestação e do parto: a mãe usou anticonvulsivante, tuberculostático, antibiótico prolongado ou varfarina? O parto foi em casa, no trajeto, sem profissional? O bebê precisou de reanimação ou foi para a unidade neonatal, onde a rotina da sala de parto pode ter ficado para trás?
A quarta é a do fígado e do intestino, e vale sobretudo para a forma tardia: a icterícia passou? De que cor são as fezes e a urina? Há diarreia arrastada, vômitos, ganho de peso ruim? Fezes claras e urina escura num lactente de semanas mudam o caso inteiro, e a pergunta tem de ser feita mesmo quando a icterícia não chama a atenção.
2 · A precoce: o sangramento que começa antes da primeira mamada
A forma precoce é a do filho de mãe em uso de medicamento que consome a vitamina K no fígado do feto: anticonvulsivantes, tuberculostáticos, alguns antibióticos, varfarina. A bula do fenobarbital injetável descreve o quadro no neonato exposto: deficiência dos fatores dependentes de vitamina K, com hemorragia nas primeiras 24 horas e TP ou TTPa alargados.
O espectro, segundo a AAP, vai da equimose na pele à hemorragia intracraniana com risco de vida. Na sala de parto e nas primeiras horas, olhe o que o parto já pode ter feito: um céfalo-hematoma maior do que o esperado para o parto que houve, sangramento no cordão depois do clampeamento, equimoses sem trauma, sangramento prolongado na primeira punção. Uma apneia, uma convulsão ou uma fontanela tensa num recém-nascido exposto são hemorragia intracraniana até prova em contrário.
O que se faz com o exposto que ainda não sangra está no bloco de critérios: a mesma dose de 1 mg nas primeiras horas, que a bula da fitomenadiona pediátrica indica ao recém-nascido de mãe em anticoagulante ou antiepiléptico, exame cuidadoso e vigilância das primeiras 24 horas. O que não se faz também está lá: a dose de 1 a 10 mg pela veia escrita na bula de um anticonvulsivante.
3 · A clássica: o coto, a punção e o tubo digestivo
A forma clássica aparece entre o segundo e o sétimo dia, quase sempre sem causa além da reserva baixa, e mais no amamentado. É o recém-nascido de parto domiciliar não assistido, do nascimento no trajeto, da maternidade em que a dose ficou para depois e ninguém deu — e da família que recusou a injeção e não completou o esquema oral.
A diretriz de 2017 descreve o lugar do sangramento: boca, coto umbilical, reto e circuncisão. Na prática da enfermaria, isso é a gaze do coto que amanhece manchada, o calcanhar do teste do pezinho que não para de sangrar, o ponto da coleta de sangue que forma hematoma, o vômito com sangue escuro e a fralda com fezes pretas. A AAP lembra que, antes da profilaxia universal, o sangramento depois da circuncisão era seis vezes maior entre os meninos que não recebiam vitamina K.
O que distingue a clássica de outros sangramentos da primeira semana é o bebê: ele mama, está corado, ativo, sem febre, e o sangramento não combina com o bom aspecto. O recém-nascido que sangra e está doente — gemente, hipoativo, com má perfusão, com febre ou hipotermia — é outro diagnóstico até prova em contrário, e esse diagnóstico é sepse com coagulação intravascular disseminada, conduzida em Sepse neonatal precoce e tardia: fatores de risco e manejo, na apostila de Neonatologia.
A diarreia com sangue no menor de 2 meses tem uma lista própria no AIDPI neonatal do Ministério da Saúde: doença hemorrágica por deficiência de vitamina K, outros problemas de coagulação como a coagulação intravascular disseminada, enterocolite necrosante, fissura anal e alergia ao leite de vaca. A regra do AIDPI para esse bebê é encaminhar com urgência, mantendo o aleitamento e aplicando 1 mg de vitamina K por via intramuscular antes do transporte.
4 · A tardia: o lactente que para de mamar e fica sonolento
A forma tardia vai de uma semana a seis meses de vida, com pico entre 2 e 8 semanas. É do lactente em aleitamento exclusivo sem profilaxia ou com esquema oral incompleto, e do lactente com colestase ou má absorção — este, mesmo com a injeção ao nascer. É a forma que mata, porque em 30% a 60% dos casos o primeiro sangramento importante é dentro do crânio.
O lactente com sangramento intracraniano não conta cefaleia. Ele para de mamar, vomita, fica irritado e depois sonolento, chora agudo, fica pálido, e a fontanela anterior abaula e fica tensa com ele sentado no colo. Pode convulsionar, ter apneia, alterar as pupilas. Nenhum desses sinais é específico, e todos têm diagnóstico diferencial melhor conhecido — meningite, desidratação, sepse —, o que é exatamente o motivo pelo qual a pergunta sobre a vitamina K precisa ser feita na porta.
Às vezes o crânio não é o primeiro lugar. O caso da cena tinha dois sinais pequenos antes: o calcanhar que sangrou demais no teste do pezinho e a equimose sem trauma na coxa. Nariz que sangra, hematoma grande no local da vacina, sangue nas fezes — cada um é, num lactente de semanas, motivo para perguntar pela profilaxia antes de pensar em explicação banal.
O lactente com colestase merece parágrafo próprio, porque pode ter recebido a injeção e sangrar assim mesmo. A Sociedade Brasileira de Pediatria, no documento científico sobre colestase em lactentes de 2024, registra que em alguns deles as consequências da falta de vitaminas lipossolúveis são o único sinal da colestase, e que a hiperbilirrubinemia pode não ser clinicamente evidente; e põe o sangramento dentro do crânio, por falta de vitamina K, entre os danos de diagnosticar tarde. Por isso a bilirrubina direta entra na investigação de toda forma tardia, e a cor das fezes entra na anamnese de todo lactente que sangra. O reconhecimento da colestase e o prazo da atresia biliar são de Icterícia neonatal: fisiológica versus patológica e curva de Bhutani, na apostila de Neonatologia, que assume reconhecer, dar a vitamina K e encaminhar dentro do prazo; a dose e a via da vitamina K ficam neste capítulo.
O prematuro que passa semanas em nutrição parenteral tem outra entrada para a falta. O volume 4 do guia do recém-nascido do Ministério da Saúde manda suprir a vitamina K por via intramuscular, 0,5 a 1,0 mg por semana, quando a solução de vitaminas da nutrição parenteral não a contiver — a mesma dose de profilaxia ao nascer não cobre esse bebê para sempre. O restante do cuidado do prematuro é de Prematuridade: complicações e classificação por idade gestacional e peso, apneia e retinopatia da prematuridade, na apostila de Neonatologia.
5 · O que sangra parecido e não é falta de vitamina K
Sangue materno deglutido. O recém-nascido de bom aspecto que vomita sangue ou tem fezes escuras nos primeiros dias pode estar devolvendo sangue da mãe — engolido no parto ou mamado de um mamilo com fissura. O que o separa da deficiência de vitamina K é o resto do exame e o coagulograma: o sangue deglutido não faz o coto sangrar nem o calcanhar gotejar, e o coagulograma é normal. Existe teste de laboratório que separa a hemoglobina fetal da adulta no material vomitado; quando o coto ou uma punção também sangram, a pergunta já está respondida sem ele. A fissura mamilar é tratada com a mãe, pelo capítulo Aleitamento materno exclusivo até 6 meses, sem interromper a amamentação.
Hemofilia. O menino com sangramento prolongado depois da circuncisão, com hematoma grande no local da vacina intramuscular ou com céfalo-hematoma desproporcional, e com parente homem que sangra, tem outra hipótese: deficiência hereditária de fator VIII ou IX. O desenho do coagulograma é outro — TTPa alargado com TP normal — e a vitamina K não corrige nada. O diagnóstico e o tratamento são de Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes, na apostila de Hematologia e Hemoterapia.
Trombocitopenia do recém-nascido. Petéquias e púrpura num recém-nascido bem, nas primeiras horas, com coagulograma normal, são plaqueta, não vitamina K. O capítulo Púrpura trombocitopênica imune (PTI) na criança, desta apostila, declara que a plaquetopenia das primeiras semanas de vida tem outro raciocínio e não cabe nele, e nenhum outro capítulo do nível trata dela; este capítulo assume a porta. O guia de hemocomponentes do Ministério da Saúde manda investigar de imediato a trombocitopenia neonatal aloimune quando as plaquetas ao nascer estão abaixo de 50.000/mm³: a mãe se sensibilizou contra um antígeno plaquetário herdado do pai, os anticorpos atravessaram a placenta, a contagem da mãe é normal — o que a separa da trombocitopenia imune materna — e pode acontecer já na primeira gestação. O risco de hemorragia intracraniana entre os gravemente afetados é de 10% a 20%, e de um quarto à metade delas ocorre ainda dentro do útero; a doença é autolimitada em uma a três semanas. A primeira decisão diante dela está no bloco de critérios.
Coagulação intravascular disseminada. O recém-nascido doente com plaquetas e fibrinogênio baixos e os dois tempos alargados está consumindo fatores, não deixando de produzi-los. É o desenho da coagulação intravascular disseminada, a vitamina K não trata o problema, e a conduta, quando a causa é infecção, é de Sepse neonatal precoce e tardia.
Fezes com sangue por outra causa. Estrias de sangue vivo em lactente de bom aspecto podem ser fissura anal ou alergia à proteína do leite de vaca, conduzida em Alergia à proteína do leite de vaca, na apostila de Gastroenterologia Pediátrica. Distensão abdominal, vômitos biliosos e sangue nas fezes num recém-nascido, sobretudo prematuro, são enterocolite necrosante até prova em contrário, em Enterocolite necrosante do recém-nascido, na apostila de Cirurgia Pediátrica.
Fígado que não produz. Coagulopatia grave que não corrige com a vitamina K não é deficiência de vitamina K. O documento da SBP de 2024 inclui a coagulopatia não responsiva à vitamina K na definição de insuficiência hepática aguda do lactente e manda pensar em doença aloimune gestacional quando ela vem com aminotransferases normais. A prova terapêutica está na investigação.
6 · O lactente com sangue na cabeça e a pergunta que fica
O capítulo Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória (ECA), na apostila de Emergências Pediátricas, descreve o traumatismo encefálico por abuso como o que mata, e a combinação de hemorragia subdural com hemorragia retiniana num lactente sem justificativa adequada como o cenário de maior suspeição da pediatria. O mesmo capítulo pede hemograma e coagulograma diante de equimoses, justamente para que uma doença da coagulação não seja tomada por agressão, e inclui o fundo de olho no exame quando há sangue dentro do crânio.
Este capítulo lê a mesma cena pelo outro lado, e as duas leituras não competem. Um coagulograma alargado que corrige com vitamina K explica por que o lactente sangrou sem trauma — mas não prova, sozinho, que não houve trauma: uma criança com coagulopatia também pode ter sido sacudida, e o sangramento de uma pancada pequena fica maior quando falta vitamina K. O que se faz é investigar as duas no mesmo atendimento: coagulograma antes da vitamina K, fundo de olho, exame da pele inteira com registro e medida de cada lesão, e a história contada por quem cuida, anotada com as palavras de quem contou.
Uma história coerente e a coagulopatia responsiva sustentam uma causa médica para o sangramento. Ainda assim, doenças hemorrágicas e trauma podem coexistir, e a ausência de hemorragia retiniana não exclui violência. Registrar os achados e seguir a avaliação multidisciplinar indicada pelo conjunto clínico, conforme o capítulo de violência, sem transformar um exame normal em certificado de exclusão.
A família do lactente com sangramento por deficiência de vitamina K não é tratada como suspeita; também não é poupada da pergunta. Explicar que a equipe investiga todas as causas de sangramento em todo bebê que chega assim protege a família da sensação de acusação e protege o bebê da hipótese que ninguém quis levantar.
Como fechar o diagnóstico
A investigação desta doença tem uma regra de ordem que parece contradição e não é: o sangue se colhe antes da vitamina K, e a vitamina K não espera o resultado. O coagulograma colhido antes é o que permite, horas depois, dizer que a correção confirmou o diagnóstico; a dose dada sem esperar é o que impede o sangramento de crescer enquanto o laboratório trabalha.
As seções seguem a ordem em que as decisões aparecem: o que se colhe, como se lê o desenho, a prova da correção, a imagem do crânio, a colestase escondida da forma tardia e o próximo exame quando a vitamina K não explica o que se vê.
1 · Colher antes, numa punção só
No recém-nascido ou lactente que sangra, peça hemograma com contagem de plaquetas, o tempo de protrombina acompanhado do INR, o tempo de tromboplastina parcial ativada e a dosagem de fibrinogênio. Some a tipagem sanguínea com reserva de hemocomponentes quando houver sangramento importante ou sinal neurológico. Na forma tardia, acrescente bilirrubina total e frações sempre, com ou sem icterícia visível. No bebê doente, com suspeita de infecção, as culturas e o restante da investigação de sepse seguem o capítulo de sepse neonatal.
Colha tudo na mesma punção, feita por quem tem mais experiência no plantão, e comprima o local por tempo longo. Cada punção a mais num bebê com os fatores de coagulação baixos é um lugar novo para sangrar. No hospital, com acesso venoso, nada vai para o músculo enquanto não se conhece o coagulograma — nem a vitamina K de quem já sangra, nem vacina. A exceção é a unidade básica sem acesso venoso, onde o AIDPI manda 1 mg no músculo antes do transporte. A preferência pela veia no bebê que sangra é leitura desta apostila, pelo risco de hematoma no local da injeção, que os documentos usados não discutem.
O coagulograma no recém-nascido se compara com a referência do laboratório para a idade, não com a do adulto. O guia de hemocomponentes do Ministério da Saúde escreve assim o critério de alteração que justifica plasma na criança que sangra: TP ou TTPa de 1,5 vez o valor do controle para a idade. A leitura de cada teste, o que o INR significa fora de quem usa anticoagulante e as armadilhas da coleta — tubo, volume, hematócrito — são do capítulo Coagulograma.
2 · O desenho que responde
Com o resultado na mão, olhe os quatro números juntos, e não cada um por si. TP e TTPa alargados com plaquetas e fibrinogênio normais, num bebê de bom aspecto ou com sangramento sem outra explicação, é deficiência de vitamina K até prova em contrário. Na forma grave, o TP pode vir incoagulável — acima do limite de leitura do aparelho.
Plaquetas baixas com os dois tempos e o fibrinogênio normais apontam para a plaqueta: no recém-nascido de bom aspecto nas primeiras horas, trombocitopenia aloimune; com a mãe plaquetopênica, a trombocitopenia imune materna com anticorpo que atravessou a placenta. Plaquetas e fibrinogênio baixos com os dois tempos alargados num bebê doente é consumo — coagulação intravascular disseminada. TTPa alargado com TP normal, num menino, é hemofilia até prova em contrário. E um coagulograma inteiramente normal num recém-nascido bem que vomitou sangue devolve a hipótese ao sangue materno deglutido.
O desenho não decide sozinho o que fazer nas primeiras horas. Um lactente com sinal neurológico recebe vitamina K antes do resultado; um recém-nascido bem, com um vômito de sangue escuro e mamilo materno fissurado, pode esperar o coagulograma para ser tratado. O que muda entre os dois é o risco de esperar, e não a hipótese.
3 · A prova da correção
A deficiência de vitamina K se confirma pela resposta. Uma das bulas da fitomenadiona descreve a queda do TP em 2 a 4 horas depois da dose no recém-nascido com doença hemorrágica, e diz que a falta de resposta aponta outro diagnóstico ou outro distúrbio da coagulação. Na prática, repita o TP entre 4 e 6 horas depois da vitamina K e de novo em 24 horas. O capítulo Coagulograma, escrito para o adulto, descreve a prova terapêutica com recontrole em 24 horas; no bebê, o recontrole mais cedo responde enquanto a decisão sobre o plasma ainda está em aberto.
Quando houve plasma ou outro concentrado de fatores, a correção do TP fica influenciada pela reposição, inclusive depois das primeiras horas. Não usar o controle de 24 horas como teste capaz de separar sozinho plasma e vitamina K. Interpretar exames pré-tratamento, história, resposta sustentada e pesquisa de causas associadas em conjunto.
O TP que não corrige muda a pergunta. O documento da SBP de 2024 sobre colestase em lactentes inclui a coagulopatia que não responde à vitamina K na definição de insuficiência hepática aguda, com cortes de gravidade — grave com INR acima de 2,0 ou TP acima de 20 segundos, moderada com INR acima de 1,5 ou TP acima de 15 segundos — e manda pensar em doença aloimune gestacional quando a coagulopatia grave não responde e as aminotransferases são normais, com dosagem de alfafetoproteína e ferritina. Coagulação intravascular disseminada e deficiência hereditária de fator também não corrigem; a investigação delas é dos capítulos donos.
4 · A cabeça: imagem com o tratamento correndo
No lactente com qualquer sinal de sangramento intracraniano — vômitos com sonolência, irritabilidade que não cede, choro agudo, fontanela tensa, convulsão, apneia, alteração de pupila — a tomografia de crânio se faz no mesmo atendimento, mas não antes do tratamento: a vitamina K e, quando indicado, o plasma começam enquanto a imagem é providenciada. É a mesma regra que o capítulo de trombocitopenia imune desta apostila usa para a criança com plaquetas muito baixas e sinal neurológico.
A neurocirurgia é avisada no momento em que a hipótese é feita, e não quando a imagem volta. A decisão entre observar e drenar é dela; a correção da coagulação que permite operar, se for preciso, é do pediatra, e começa antes de a neurocirurgia chegar.
Com hemorragia intracraniana no lactente, o fundo de olho entra no exame, como manda o capítulo de violência. Ele não é pedido para acusar ninguém: é parte da investigação de todo lactente com sangue na cabeça, e o resultado vai para o prontuário junto com o coagulograma.
5 · A colestase escondida da forma tardia
Todo lactente com a forma tardia tem bilirrubina direta dosada, porque a SBP, em 2024, registra que a colestase pode se apresentar só pela falta das vitaminas lipossolúveis, sem icterícia que chame a atenção, e manda procurar a coagulopatia em todo lactente com bilirrubina direta alta, com a vitamina K dada na hora. O caminho vale nos dois sentidos: o lactente colestático tem coagulograma, e o lactente que sangra tem bilirrubina direta.
Pergunte e olhe a cor das fezes e da urina. Fezes claras, esbranquiçadas ou cor de massa, com urina escura que mancha a fralda, num lactente de semanas, são colestase até prova em contrário, e a hipótese de atresia biliar tem prazo. O reconhecimento, a classificação e o encaminhamento dentro do prazo são do capítulo Icterícia neonatal: fisiológica versus patológica e curva de Bhutani; a vitamina K desse lactente — dose, via e controle — é deste capítulo, e é sempre parenteral.
A má absorção sem colestase também entra na lista da AAP. Diarreia arrastada, ganho de peso ruim e uso prolongado de antibiótico são perguntas da anamnese do lactente que sangra, e a investigação da diarreia arrastada é de Diarreia persistente e crônica na criança e doença celíaca, na apostila de Gastroenterologia Pediátrica.
6 · Quando não é vitamina K: o próximo exame
TTPa alargado com TP normal: dosagem dos fatores VIII e IX, sem esperar resposta à vitamina K, que não vai acontecer; a hemofilia e a doença de von Willebrand são conduzidas em Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes.
Plaquetas abaixo de 50.000/mm³ num recém-nascido bem: contagem de plaquetas da mãe e investigação imediata da trombocitopenia aloimune, que o guia de hemocomponentes descreve como a demonstração de incompatibilidade entre o plasma da mãe e as plaquetas do pai biológico, com métodos moleculares e sorológicos disponíveis em alguns laboratórios. O sangramento intracraniano, que pode ter começado antes do parto, é procurado no exame neurológico e na imagem desde a primeira avaliação.
A primeira decisão na trombocitopenia aloimune não espera a confirmação, que demora e só alguns laboratórios fazem. Pelo guia de hemocomponentes, a transfusão de plaquetas é terapêutica em qualquer sangramento, independentemente da contagem, e profilática no recém-nascido estável abaixo de 50.000/mm³ e no instável abaixo de 100.000/mm³, pela leitura coerente registrada na nota 4 do bloco de critérios. Usam-se plaquetas antígeno-negativas quando a hemoterapia as tiver e, na falta, plaquetas não testadas, que o guia admite; plaquetas da própria mãe, se usadas, vão com o plasma reduzido ou lavado. A imunoglobulina humana endovenosa, 400 mg/kg/dia por 3 a 5 dias, eleva as plaquetas do recém-nascido em 24 a 48 horas. A seleção, o preparo e a infusão do hemocomponente são de Terapia transfusional e reações transfusionais; a confirmação dos antígenos na família e o cuidado da gestação seguinte ficam com a hematologia e a obstetrícia do serviço.
Plaquetas e fibrinogênio baixos num bebê doente: hemoculturas, a investigação e o tratamento da sepse, com a reposição de hemocomponentes guiada pelo sangramento, em Sepse neonatal precoce e tardia.
Coagulograma normal num recém-nascido bem que vomitou sangue: exame das mamas da mãe, o teste que separa hemoglobina fetal de adulta quando houver dúvida, e observação da próxima mamada. Se aparecer sangramento em outro lugar, repita o coagulograma: a deficiência de vitamina K não se exclui com um único exame colhido cedo demais.

A idade, o desenho do coagulograma e a conta da seringa
Organize três perguntas: há emergência hemorrágica? Qual causa é sugerida pela idade, profilaxia e exames? Qual produto, dose e via são adequados? Na concentração de 10 mg/mL, 1 mg = 0,1 mL; esse volume não é universal. A dose de prevenção do recém-nascido e o tratamento do lactente que já sangra têm finalidades e vias que precisam ser explicitadas.
- 11. Recém-nascido ou lactente de até 6 meses que sangra, ou que tem sinal neurológico sem explicação: pense em deficiência de vitamina K mesmo com profilaxia registrada. Anote a idade e pergunte a via e o número de doses que recebeu.
- 22. Sinal neurológico, sangramento que não para ou instabilidade: colha e dê a vitamina K por via parenteral sem esperar resultado; tomografia de crânio enquanto o tratamento corre; neurocirurgia avisada.
- 33. Colha na mesma punção hemograma com plaquetas, TP com INR, TTPa, fibrinogênio e tipagem; na forma tardia, bilirrubina total e frações.
- 44. TP e TTPa alargados com plaquetas e fibrinogênio normais: deficiência de vitamina K até prova em contrário.
- 55. Sangramento grave com TP ou TTPa de 1,5 vez a referência para a idade: plasma fresco congelado 10 a 20 mL/kg, junto com a vitamina K — nunca no lugar dela.
- 66. Plaquetas baixas com coagulograma normal num bebê bem: não é vitamina K. Mãe com plaquetas normais e contagem abaixo de 50.000/mm³: trombocitopenia aloimune, investigada de imediato.
- 77. Plaquetas e fibrinogênio baixos num bebê doente: coagulação intravascular disseminada — capítulo de sepse neonatal. TTPa alargado com TP normal num menino: hemofilia.
- 88. Coagulograma normal num recém-nascido bem que vomitou sangue e não sangra em outro lugar: sangue materno deglutido.
- 99. Repetir TP conforme resposta e protocolo, inicialmente em 4–6 horas e novamente em 24 horas. A melhora sustenta o diagnóstico no contexto certo; plasma/fatores confundem a interpretação. Falta de correção ou recorrência exige investigar doença hepática, consumo e deficiências hereditárias.
- 1010. Forma tardia: bilirrubina direta sempre e cor das fezes perguntada. Colestase: vitamina K só parenteral e o prazo do capítulo de icterícia neonatal.
- 1111. Hemorragia intracraniana no lactente: integrar história, exame, imagem e avaliação especializada. Coagulopatia e fundo de olho normal não excluem trauma; a decisão sobre investigação de violência depende do conjunto.
As três formas pela idade
| Forma | Quando começa | Em quem | Onde costuma sangrar | O que previne |
|---|---|---|---|---|
| Precoce | Primeiras 24 horas | Filho de mãe em anticonvulsivante, tuberculostático, antibiótico ou varfarina na gestação | Céfalo-hematoma, cordão, pele e crânio; pode começar durante o parto | A dose de 1 mg nas primeiras horas protege dali em diante; o que sangrou no parto nenhuma dose desfaz |
| Clássica | Do 2º ao 7º dia | Quase sempre sem causa além da reserva baixa; mais no amamentado | Coto umbilical, pontos de punção, tubo digestivo, circuncisão | 1 mg por via intramuscular ao nascer, ou as duas primeiras doses do esquema oral |
| Tardia | De 1 semana a 6 meses, com pico entre 2 e 8 semanas | Aleitamento exclusivo sem profilaxia ou com esquema oral incompleto; colestase; má absorção | Crânio em 30% a 60% dos casos; pele, nariz, local de vacina, fezes | 1 mg por via intramuscular ao nascer; no esquema oral, a terceira dose; na colestase, vitamina K parenteral |
O desenho do coagulograma no bebê que sangra
| Bebê | TP | TTPa | Plaquetas | Fibrinogênio | Pense em | Onde está a conduta |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Bom aspecto, ou sangramento sem outra explicação | Alargado | Alargado | Normais | Normal | Deficiência de vitamina K | Este capítulo |
| Bem, com petéquias ou púrpura nas primeiras horas | Normal | Normal | Baixas | Normal | Trombocitopenia aloimune se a mãe tem plaquetas normais; imune materna se a mãe é plaquetopênica | A porta neste capítulo; a transfusão em Terapia transfusional e reações transfusionais |
| Doente: má perfusão, gemência, febre ou hipotermia | Alargado | Alargado | Baixas | Baixo | Coagulação intravascular disseminada | Sepse neonatal precoce e tardia |
| Menino com sangramento na circuncisão, hematoma de vacina ou céfalo-hematoma desproporcional | Normal | Alargado | Normais | Normal | Hemofilia | Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes |
| Bem, vomitou sangue nos primeiros dias e nada mais sangra | Normal | Normal | Normais | Normal | Sangue materno deglutido | Aleitamento materno exclusivo até 6 meses, para a fissura da mãe |
| Coagulopatia que não corrige com a vitamina K, com icterícia ou fígado aumentado | Alargado | Alargado ou normal | Variáveis | Variável | Insuficiência hepática; doença aloimune gestacional | Icterícia neonatal e a hepatologia pediátrica do serviço |
Fitomenadiona: dose, via e volume — as duas ampolas têm 10 mg/mL
| Situação | Dose | Via | Volume | Régua |
|---|---|---|---|---|
| Recém-nascido de termo, sadio | 1 mg, dose única | Intramuscular, depois da primeira hora de contato pele a pele | 0,1 mL na concentração de 10 mg/mL | Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal, 2017 |
| Prematuro com peso ao nascer acima de 1.000 g | 1 mg, dose única | Intramuscular | 0,1 mL na concentração de 10 mg/mL | Manual técnico do Método Canguru, 2017; a bula pediátrica dá 0,4 mg/kg abaixo de 2,5 kg (divergência) |
| Prematuro com peso ao nascer abaixo de 1.000 g | 0,3 a 0,5 mg, dose única | Intramuscular | 0,03 a 0,05 mL na concentração de 10 mg/mL | Manual técnico do Método Canguru, 2017 |
| Prematuro de exatamente 1.000 g | 0,4 mg, dose única | Intramuscular | 0,04 mL na concentração de 10 mg/mL | Leitura desta apostila (nota 2) |
| Recém-nascido de mãe em anticonvulsivante, tuberculostático ou varfarina | 1 mg — nunca os até 10 mg da bula do anticonvulsivante | Intramuscular nas primeiras horas | 0,1 mL na concentração de 10 mg/mL | Bula da fitomenadiona pediátrica (nota 1) |
| Pais recusam a injeção e aceitam a via oral | 2 mg ao nascer; 2 mg entre o 4º e o 7º dia; 2 mg entre 4 e 7 semanas se recebe leite materno | Oral | 0,2 mL por dose (a ampola pediátrica inteira) na concentração de 10 mg/mL | Diretriz de 2017; no aleitamento misto, a bula (nota 3) |
| Tratamento no menor de 1 ano | 1 mg; nova dose guiada pelo TP e pelo quadro; antes da alta, com coagulograma normal, 1 mg por via intramuscular a quem segue na janela da forma tardia (leitura desta apostila) | Venosa lenta na formulação de micelas mistas; subcutânea na formulação cuja bula restringe a veia | 0,1 mL na concentração de 10 mg/mL | Bulas da fitomenadiona |
| Lactente com colestase | 1 mg; nunca por via oral | Parenteral | 0,1 mL na concentração de 10 mg/mL | Bula da fitomenadiona pediátrica; SBP, 2024 |
| Sangramento grave com coagulograma alterado | Plasma fresco congelado 10 a 20 mL/kg | Venosa | Lactente de 4,6 kg: 46 a 92 mL | Guia para uso de hemocomponentes, 2015 |
A família que recusa: o que cada decisão exige
| Decisão da família | O que se faz | O que se registra | O que se marca antes da alta |
|---|---|---|---|
| Aceita a injeção depois da conversa | 1 mg por via intramuscular depois da primeira hora, com o bebê no colo | Dose, via, hora e quem aplicou, no prontuário e no resumo de alta | Nada além da rotina |
| Recusa a injeção e aceita a via oral | 2 mg por via oral antes da alta, explicando que a via oral protege menos a forma tardia | A recusa informada da injeção, os riscos explicados e a dose oral dada | Segunda dose entre o 4º e o 7º dia e terceira entre 4 e 7 semanas, com data e serviço que tenha a ampola |
| Recusa toda vitamina K | Segunda conversa, com o pediatra responsável; nova oferta antes da alta | A recusa, os riscos explicados, as duas conversas e quem participou | Consulta precoce na unidade básica, sinais de alarme por escrito e, se a discordância persistir, a comunicação às autoridades do art. 4º da Resolução CFM nº 2.232/2019, pelo fluxo do capítulo de violência |
| Recusa o tratamento do bebê que já sangra | A recusa não se aceita: é risco relevante à saúde de menor de idade (art. 3º da mesma resolução) | A recusa e a conduta adotada | A comunicação às autoridades, pelo fluxo do capítulo de violência |
Três situações, três planos
| Situação | O que fazer | O que registrar |
|---|---|---|
| Profilaxia ao nascimento | Administrar a dose indicada para peso e contexto por via IM conforme protocolo; conferir concentração e seringa. | Dose em mg, concentração, volume, via, data e hora. |
| Recusa após esclarecimento | Ouvir a preocupação, explicar a proteção da via IM e as limitações da oral; manter a possibilidade de reconsiderar. Se oral aceita, prescrever esquema completo do protocolo adotado. | Conversa, decisão, produto, datas de todas as doses, local de administração e responsável por acompanhar. |
| Sangramento ativo ou sinal neurológico | Estabilizar, colher sem atrasar tratamento e administrar vitamina K parenteral com formulação adequada; repor fatores quando indicado e investigar a causa. | Exames antes do tratamento, horários, hemocomponentes e resposta; não tratar como simples profilaxia atrasada. |
Nota 1 — a dose de 10 mg escrita na bula de um anticonvulsivante. A bula do Fenocris (fenobarbital sódico injetável, Cristália), na versão com histórico de alterações até junho de 2022, diz no item de gravidez que, para prevenir a síndrome hemorrágica do recém-nascido, pode ser dada vitamina K à mãe no último mês de gestação, 10 a 20 mg/dia por via oral, e 'de 1 a 10 mg' pela veia ao recém-nascido desde o parto. A bula da fitomenadiona pediátrica (Roche, 2016) dá 1 mg por via intramuscular ou venosa ao recém-nascido com fator de risco — e a lista inclui a mãe em antiepiléptico — e, ao prematuro abaixo de 2,5 kg, 0,4 mg/kg, dose que manda não exceder. O teto da bula do anticonvulsivante é 10 vezes a dose do recém-nascido de termo — num bebê de 3 kg, 3,3 mg/kg — e, num prematuro de 2 kg, 12,5 vezes os 0,8 mg que a bula da fitomenadiona permite. Pelo primeiro degrau da régua, vence o documento escrito para o fármaco que se prescreve: esta apostila dá 1 mg ao recém-nascido exposto e descarta a faixa de 1 a 10 mg.
Nota 2 — o prematuro de exatamente 1.000 g. O Manual técnico do Método Canguru (Ministério da Saúde, 3ª edição, 2017, módulo 4, p. 184) dá 1 mg 'se o peso ao nascer for superior a 1.000 g' e 0,3 a 0,5 mg 'se for inferior a 1.000 g'. O recém-nascido de 1.000 g exatos não pertence a nenhuma das duas faixas, e elas diferem de 2 a 3,3 vezes (1 mg contra 0,3 a 0,5 mg). Esta apostila põe o bebê de 1.000 g na faixa de baixo, com 0,4 mg (0,04 mL): é uma dose que a faixa inferior do manual já admite, é o teto de 0,4 mg/kg da bula pediátrica e fica dentro dos 0,3 a 0,5 mg/kg da AAP de 2022 — as três réguas concordam nesse peso. A escolha é desta apostila, não de fonte.
Nota 3 — a terceira dose oral e uma frase que não diz de quem fala. A bula do Kanakion MM pediátrico (aprovada pela Anvisa em 29/02/2016) escreve, no esquema oral, que 'em crianças alimentadas exclusivamente com suplementação oral, a terceira dose oral pode ser omitida'. A frase não identifica quem pode dispensar a dose; lida como 'crianças no esquema oral', dispensaria a terceira de todas — justamente a dose que protege o amamentado na janela da forma tardia. A frase seguinte da mesma bula recomenda a injeção ao amamentado que não tiver a terceira dose garantida, e a diretriz de 2017 exige essa dose no aleitamento exclusivo: a leitura coerente é que só o bebê alimentado exclusivamente com fórmula pode dispensá-la. A diretriz fala do aleitamento exclusivo e cala sobre o misto; para o bebê que recebe leite materno e fórmula, esta apostila segue a bula lida desse modo e dá a terceira dose.
Nota 4 — trombocitopenia aloimune: o recém-nascido instável fica sem classe. O Guia para uso de hemocomponentes (Ministério da Saúde, 2ª edição, 2015) indica, na trombocitopenia neonatal aloimune, transfusão profilática de plaquetas 'para o RN estável e com plaquetas < 50.000/mm³ e para o RN instável com plaquetas > 50.000/mm³ e < 100.000/mm³'. Ao pé da letra, o recém-nascido instável com menos de 50.000/mm³ — o mais grave — não cabe em nenhuma das duas classes: instável e com 30.000/mm³, não teria indicação profilática. A nota do Quadro 10 do mesmo capítulo usa 100.000/mm³ como gatilho no prematuro doente e 50.000/mm³ no estável, e o próprio guia manda transfundir em qualquer sangramento, independentemente da contagem. A leitura coerente, que esta apostila adota, é transfundir o instável abaixo de 100.000/mm³ e o estável abaixo de 50.000/mm³.
Nota 5 — a hora da dose, dita de dois jeitos na mesma bula. A bula da fitomenadiona com derivado de ácido graxo polietoxilado servida pelo guia farmacêutico de um hospital de São Paulo diz, no texto, 0,5 a 1 mg por via intramuscular 'dentro de uma hora após o nascimento' e, no resumo de doses, 'após 1 hora do nascimento'. A primeira leitura tira o bebê do contato pele a pele que a diretriz de 2017 manda preservar na primeira hora; a segunda é compatível com ela. Esta apostila adota a segunda: depois da primeira hora e ainda nas primeiras horas de vida, com o limite de 6 horas que a AAP fixou em 2022.
A conduta, hora a hora
A conduta abaixo é a do Bernabé — 6 semanas, 4.600 g, aleitamento exclusivo, uma dose oral de 2 mg de vitamina K ao nascer e nenhuma depois, com sonolência, vômitos, palidez e fontanela abaulada. Ela vai da porta do pronto-socorro à alta; em cada marco estão a prescrição e o registro daquele momento.
A resposta ao tratamento, a história de profilaxia incompleta e o padrão inicial dos exames sustentam deficiência de vitamina K. Como Bernabé recebeu plasma, o coagulograma posterior também reflete fatores transfundidos; nem o controle de 24 horas isola automaticamente a ação da vitamina. A investigação de hemorragia intracraniana integra história, exame, imagem e avaliação da equipe, sem excluir violência por fundo de olho normal ou por coagulopatia presente.
Chegada, 5h45 — antes de qualquer resultado
Bernabé segue no colo da mãe até a maca da sala de emergência ficar pronta. Via aérea pérvia, respiração regular, saturação de 97% em ar ambiente: não precisa de oxigênio, mas precisa de monitor. A glicemia de 82 mg/dL afasta hipoglicemia como causa da sonolência. O acesso venoso é feito por quem tem mais experiência no plantão, numa punção só, e dela sai todo o sangue que o caso precisa. Antes de qualquer medicação, você termina o exame e registra: nível de consciência, pupilas, tônus, fontanela medida com o bebê sentado, a mancha da coxa com 3 cm de diâmetro, a pele inteira do couro cabeludo aos pés, a boca, o coto já caído, o calcanhar. A preceptora pede a tomografia de crânio e avisa a neurocirurgia e a UTI pediátrica pelo telefone, com a hipótese dita em voz alta: sangramento intracraniano por deficiência de vitamina K, forma tardia, sem afastar trauma.
Prescrição- Monitor cardíaco e de saturação; cabeceira da maca mantida sem manipulação desnecessária
- Hemograma completo com plaquetas; tempo de protrombina com INR; TTPa; fibrinogênio
- Tipagem ABO e Rh com reserva de plasma fresco congelado e de concentrado de hemácias
- Bilirrubina total e frações
- Nenhuma injeção intramuscular e nenhuma punção além da necessária; compressão prolongada no local da coleta
- Tomografia de crânio sem contraste, a ser feita assim que a vitamina K estiver correndo
- Registro do exame neurológico, da fontanela e de cada lesão de pele com localização e medida
5h55 — a vitamina K não espera o laboratório
O sangue saiu, e a vitamina K entra agora, sem esperar o coagulograma: o bebê tem sinal neurológico, e cada hora de atraso é hora de sangramento. A farmácia do pronto-socorro tem a ampola pediátrica de micelas mistas, 2 mg em 0,2 mL, cuja bula permite a via venosa no menor de 1 ano e dá como tratamento inicial 1 mg pela veia. Um miligrama são 0,1 mL — metade da ampola —, aspirado numa seringa de 1 mL graduada em centésimos, com dupla checagem do volume por outra pessoa antes de injetar. O resto da ampola vai para o descarte, porque a bula não recomenda fracionar o conteúdo. Se a ampola disponível fosse a outra formulação, com derivado de ácido graxo polietoxilado, cuja bula restringe a veia por reações graves, a mesma dose iria por via subcutânea. No músculo, não: num bebê que já sangra, esta apostila prefere a veia ou o subcutâneo, pelo risco de hematoma no local. E não pela boca, que demora e depende de absorção.
Prescrição- Fitomenadiona 1 mg (0,1 mL da ampola de 2 mg/0,2 mL) por via endovenosa lenta, agora
- Conferir na caixa se a formulação admite a veia; se não admitir, 1 mg por via subcutânea
- Seringa de 1 mL graduada em centésimos; dupla checagem do volume antes de injetar
- Registrar a hora exata da dose, que é a hora zero da prova de correção
6h25 — a tomografia com o tratamento correndo
A tomografia mostra hematoma subdural agudo à direita, com pequena área de hemorragia no parênquima temporal, sem desvio importante da linha média. A neurocirurgia pediátrica chega às 6h35, examina e decide, por ora, observar, com nova imagem se houver piora. A decisão entre observar e drenar é dela; corrigir a coagulação para que qualquer uma das duas seja segura é do pediatra, e já começou. Bernabé é transferido para a UTI pediátrica com a mãe ao lado.
Prescrição- Avaliação neurológica seriada, com fontanela e pupilas, registrada a cada avaliação e a qualquer mudança
- Nova tomografia se houver piora neurológica, convulsão ou aumento da tensão da fontanela
- Jejum enquanto a neurocirurgia não liberar a dieta; hidratação venosa de manutenção
6h40 — o laboratório volta
Hemoglobina de 7,6 g/dL, plaquetas de 312.000/mm³, leucócitos normais. TP incoagulável — acima do limite de leitura do aparelho. TTPa de 142 segundos, mais de três vezes a referência do laboratório para a idade. Fibrinogênio de 262 mg/dL. Bilirrubina total de 0,9 mg/dL, com direta de 0,2 mg/dL. É o desenho da deficiência de vitamina K, sem colestase e sem consumo. Com sangramento intracraniano e os dois tempos muito acima de 1,5 vez a referência, o plasma entra agora, pelo critério do guia de hemocomponentes, porque a vitamina K vai levar horas para corrigir o que a cabeça não pode esperar. A hemoglobina de 7,6 g/dL com sangramento ativo leva ao concentrado de hemácias, no volume pediátrico do mesmo guia. O concentrado de complexo protrombínico, que o guia prefere ao plasma na reversão do anticoagulante oral e que consta da Rename no Componente Estratégico, não tem uso no lactente com deficiência de vitamina K tratado pelos documentos brasileiros deste capítulo: se o serviço o tiver, a escolha é da hemoterapia, não do plantão. A técnica da transfusão, os cuidados de infusão e as reações são de Terapia transfusional e reações transfusionais, na apostila de Hematologia e Hemoterapia.
Prescrição- Plasma fresco congelado 15 mL/kg = 69 mL por via venosa, dentro da faixa de 10 a 20 mL/kg do guia
- Concentrado de hemácias 10 mL/kg = 46 mL depois do plasma, sem passar de 20 a 30 mL/kg/h (92 a 138 mL/h)
- TP, TTPa e hemoglobina 4 horas depois da vitamina K e novamente em 24 horas
- Fundo de olho por oftalmologista ainda nesta manhã
10h50 — cinco horas depois da vitamina K
O TP está em 13,8 segundos, INR 1,1, TTPa na referência e hemoglobina 9,8 g/dL. Bernabé responde melhor e a fontanela está menos tensa. O exame oftalmológico não mostra hemorragia retiniana. Registre a melhora, lembrando que o plasma contribui para corrigir a coagulação. A história e os exames anteriores ao tratamento sustentam deficiência de vitamina K, mas fundo de olho normal e resposta hemostática não excluem violência. A equipe documenta a avaliação integrada e as razões para prosseguir ou não com investigação adicional, conforme os achados do caso.
Prescrição- Hipótese registrada: sangramento por deficiência de vitamina K, forma tardia, com hematoma subdural e hemorragia parenquimatosa; profilaxia oral incompleta
- Registro da avaliação da hipótese de violência: exame da pele, fundo de olho, coagulograma e sua correção, história
- Manter a observação neurológica seriada e o jejum até a liberação pela neurocirurgia
Dia 2, 6h — as primeiras 24 horas
O TP permanece normal em 24 horas, a tomografia de controle não mostra aumento do hematoma e não há novo sangramento. Isso favorece resposta sustentada, sem permitir atribuir o resultado apenas à vitamina K após plasma. A continuação do tratamento depende da evolução, do coagulograma e da causa; não há nova dose automática se os parâmetros permanecem estáveis. O aleitamento retorna quando a equipe libera a alimentação, com apoio à mãe.
Prescrição- Aleitamento materno em livre demanda, com a liberação da neurocirurgia
- TP em 48 horas; nova dose de fitomenadiona 1 mg só se o TP voltar a alargar ou houver novo sangramento
- Perímetro cefálico diário, marcado na curva da caderneta
- Coagulograma normal registrado antes de qualquer injeção intramuscular
Dia 3 — a conversa com a família
Rebeca e Pelágio pedem para falar com a equipe. A pergunta que ela repete desde a madrugada é se foi culpa dela, por não ter deixado dar a injeção. A conversa não absolve nem acusa: explica o que a vitamina K faz, por que o leite materno não tem o suficiente, por que a dose oral única não cobre as semanas seguintes e por que ninguém marcou as outras duas doses. Diz com clareza que continuar amamentando é o certo, e que o próximo filho deles precisa da injeção nas primeiras horas de vida. O pai pergunta se Bernabé vai ficar com sequela; a resposta honesta é que a evolução até aqui é boa e que o desenvolvimento dele será acompanhado de perto, com consultas marcadas. A conversa, as perguntas e as respostas vão para o prontuário.
Prescrição- Registro da conversa com a família: explicação da doença, da profilaxia e do plano de seguimento
- Orientação escrita para a próxima gestação: vitamina K intramuscular ao nascer, e o motivo
Dia 9 — a alta
Bernabé recebe alta mamando bem, com exame neurológico normal para a idade, perímetro cefálico acompanhando a curva e coagulograma normal. O resumo de alta diz o diagnóstico com as palavras inteiras, a profilaxia que ele recebeu ao nascer, a dose de tratamento com data e hora, os hemocomponentes, os achados da tomografia e do fundo de olho. O seguimento neurológico e do desenvolvimento segue os marcos de Marcos do desenvolvimento neuropsicomotor e sinais de alerta por faixa etária, e o perímetro cefálico, Acompanhamento do crescimento: curvas da OMS, peso, estatura e perímetro cefálico, os dois na apostila de Puericultura e Desenvolvimento. O aleitamento é mantido, pelo capítulo Aleitamento materno exclusivo até 6 meses. A unidade básica recebe o resumo antes da primeira consulta.
Prescrição- Fitomenadiona 1 mg (0,1 mL da apresentação de 10 mg/mL) por via intramuscular antes da alta, com coagulograma normal: a dose de tratamento foi venosa e ele segue em aleitamento exclusivo na janela da forma tardia — leitura desta apostila, pelo dado da AAP sobre a via venosa
- Resumo de alta com diagnóstico, profilaxia recebida, doses de tratamento e de alta, hemocomponentes, tomografias e fundo de olho
- Retorno com a neurocirurgia e consulta na unidade básica em até 7 dias, com o resumo em mãos
- Vacinas dos 2 meses programadas com a unidade básica, pelo capítulo Calendário Nacional de Vacinação da criança (PNI) e esquemas por idade, com o coagulograma normal no resumo
- Sinais de alarme por escrito: vômitos, sonolência, choro agudo, fontanela tensa, convulsão, qualquer sangramento
Como saber se está funcionando
Na deficiência de vitamina K, a reavaliação tem um relógio curto e um longo. O curto é o do coagulograma, que responde em horas e confirma ou derruba o diagnóstico; o longo é o da cabeça e do desenvolvimento, que responde em meses, quando houve sangramento intracraniano. Entre os dois fica a pergunta que a forma tardia sempre deixa: havia colestase por trás?
Os sete parâmetros abaixo valem para o recém-nascido e o lactente tratados no hospital. Para o bebê em esquema oral de profilaxia, o que se reavalia é outra coisa — se as doses foram dadas nas datas —, e isso está na conduta da família que recusa, no bloco de critérios.
Esperado: Queda em horas e valor normal em 24 horas, mantido sem nova dose de plasma
Se não melhora: Nova dose de 1 mg por via parenteral se voltar a alargar; se não corrigir, a hipótese muda para insuficiência hepática, consumo ou deficiência hereditária de fator, com o documento da SBP de 2024 e os capítulos donos
Esperado: Nível de consciência voltando ao habitual, fontanela normotensa, pupilas isocóricas, mamada retomada
Se não melhora: Sonolência que aumenta, fontanela mais tensa, convulsão ou alteração de pupila: nova tomografia e neurocirurgia no mesmo momento, com o coagulograma repetido
Esperado: Crescimento acompanhando a curva da caderneta
Se não melhora: Crescimento que cruza linhas da curva ou fontanela que volta a abaular: imagem e retorno à neurocirurgia; a leitura da curva é do capítulo de acompanhamento do crescimento
Esperado: Estável depois da correção, sem nova queda
Se não melhora: Queda sem sangramento visível: procurar sangramento oculto — crânio, abdome, músculo — e repetir o coagulograma
Esperado: Nenhum sangramento novo depois da vitamina K
Se não melhora: Sangramento novo com TP normal não é falta de vitamina K: plaquetas, fibrinogênio e TTPa de novo, e a lista de diagnósticos diferenciais
Esperado: Bilirrubina direta normal, fezes amarelas, urina clara
Se não melhora: Bilirrubina direta alta ou fezes claras: colestase, com vitamina K só parenteral e o prazo da atresia biliar pelo capítulo Icterícia neonatal
Esperado: Normais do começo ao fim
Se não melhora: Queda de plaquetas e de fibrinogênio: consumo — coagulação intravascular disseminada — e investigação de infecção pelo capítulo de sepse neonatal
Onde o erro machuca
O dano: A vitamina K leva horas para corrigir a coagulação, e cada hora de espera é hora de sangramento dentro do crânio. Em 30% a 60% das formas tardias o sangramento é intracraniano, e o que cresceu enquanto se esperava o resultado não volta com a dose dada depois. O coagulograma serve para confirmar e para decidir o plasma, não para autorizar a vitamina.
Como pegar a tempo: Colha o sangue na mesma punção do acesso venoso e dê a vitamina K logo em seguida, com a hora registrada. A tomografia se faz com o tratamento correndo.
O dano: Uma dose oral única ao nascer protege a forma clássica e muito menos a tardia; o esquema oral só protege com as três doses. Bernabé "tinha tomado vitamina K" — uma vez, pela boca — e chegou com hematoma subdural. A resposta vaga tira a doença da lista justamente de quem mais tem risco.
Como pegar a tempo: Pergunte com as palavras da família — injeção na perna, gotinhas na boca — e procure o resumo de alta da maternidade. Registre via, dose, data e número de doses.
O dano: O lactente com colestase pode sangrar mesmo com a injeção, e o sangramento pode ser o primeiro sinal de uma colestase que ninguém viu. Descartar a hipótese atrasa a vitamina K, deixa o crânio sem proteção e atrasa também o diagnóstico de atresia biliar, que tem prazo.
Como pegar a tempo: Siga a AAP: considere a deficiência de vitamina K em todo sangramento dos primeiros seis meses, mesmo com profilaxia. Dose a bilirrubina direta e pergunte a cor das fezes em toda forma tardia.
O dano: Na apresentação de 10 mg/mL, 1 mg corresponde a 0,1 mL; 1 mL contém 10 mg. Conferir concentração, volume, via autorizada e graduação da seringa evita um erro de dez vezes.
Como pegar a tempo: Prescreva em miligramas e em mililitros na mesma linha, use seringa de 1 mL graduada em centésimos e faça dupla checagem do volume antes de injetar. A dose de fitomenadiona vem da bula da fitomenadiona, não da bula de outro remédio.
O dano: Sem bile, a vitamina K oral quase não é absorvida: em lactentes colestáticos, seis horas depois de 2 mg pela boca o nível era cerca de cem vezes menor que seis horas depois de 1 mg pela veia, e só 17% tiveram aumento útil. A família sai com a sensação de que o bebê está protegido, e ele não está.
Como pegar a tempo: No lactente com bilirrubina direta alta ou fezes claras, vitamina K sempre por via parenteral, com controle do TP, e o encaminhamento no prazo do capítulo de icterícia neonatal.
O dano: Aceitar a recusa sem oferecer a via oral, sem marcar a segunda e a terceira doses e sem registrar deixa o bebê sem nenhuma proteção na janela da forma tardia; ameaçar a família com o Conselho Tutelar na primeira frase fecha a conversa e pode transformar uma recusa da injeção em recusa de tudo.
Como pegar a tempo: Explique o risco com números, ofereça a via oral como a diretriz de 2017 manda, marque as doses com data e serviço, registre a recusa informada e faça a segunda conversa com o pediatra responsável. A comunicação às autoridades é para a discordância que persiste depois disso, pelo fluxo do capítulo de violência.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa que mais evita forma tardia não acontece no pronto-socorro: acontece no alojamento conjunto, com uma família que recusou a injeção na sala de parto. As falas abaixo são com Imaculada e Pantaleão, pais de Marina, recém-nascida de termo de 20 horas, em aleitamento exclusivo, que planejaram um parto sem intervenções e disseram não à vitamina K quando a técnica de enfermagem se aproximou com a seringa. A diretriz de 2017 manda que toda intervenção no recém-nascido seja feita com o consentimento dos pais e na presença deles; a conversa é o que transforma esse consentimento em decisão informada, para um lado ou para o outro.
Na recusa, evitar prometer equivalência: a profilaxia oral tem maior risco de falha, depende de doses repetidas e da absorção intestinal. Sangramento, sonolência, vômitos persistentes ou dificuldade para mamar exigem avaliação urgente, mesmo antes da próxima dose agendada. Fezes claras, urina escura e icterícia persistente pedem investigação de colestase.
"A gente não quer injeção. Ela nasceu perfeita, para que furar?" — Pantaleão, de pé ao lado do berço, logo que você se apresenta.
“"Ela nasceu perfeita mesmo, e a ideia é que continue assim. Posso explicar para que serve essa injeção, e aí vocês decidem sabendo o que estão decidindo? Todo bebê nasce com pouca vitamina K, porque ela passa pouco pela placenta e o leite materno, que é o melhor alimento para a Marina, tem pouca. Sem ela, o sangue não coagula direito. A maioria dos bebês não sangra, mas os que sangram costumam sangrar entre a segunda e a oitava semana, e em boa parte das vezes o sangue é dentro da cabeça. É raro, e é grave. Uma injeção de 1 mg na coxa, agora, protege esses meses."”
Não diga: "É obrigatório" ou "é protocolo do hospital" — encerra a conversa sem responder à pergunta e empurra a família para a recusa.
"Eu li que essa injeção dá leucemia." — Imaculada, com o celular na mão.
“"Essa história tem origem, e vale contar. No começo dos anos 1990, um estudo inglês achou uma associação entre a injeção e câncer na infância, e muitos pais passaram a recusar. Depois vieram estudos muito maiores, com milhares de crianças, para ver se era verdade — e eles não encontraram essa ligação, nem com leucemia nem com outros tumores. As diretrizes do Ministério da Saúde e da Academia Americana de Pediatria levaram isso em conta e continuam recomendando a injeção. Posso te mostrar onde está escrito."”
Não diga: "Isso é mentira da internet" — desqualifica a mãe, que leu porque se preocupa, e não dá a ela a informação que responde à dúvida.
"E o conservante? Não quero química no corpo dela." — Imaculada.
“"É uma preocupação que muitas famílias têm. A Academia Americana de Pediatria diz que não há evidência de que a pequena quantidade de conservante de algumas formulações faça mal. E vale olhar a caixa: a ampola pediátrica que alguns hospitais usam não tem conservante artificial, pela bula. Vou confirmar com a farmácia qual é a daqui e te digo exatamente o que tem nela."”
Não diga: Responder sem saber qual produto o hospital tem — a família percebe, e a confiança no resto da conversa vai junto.
"Não dá para dar pela boca?" — Pantaleão, depois de um silêncio.
“"Dá, e a diretriz do Ministério prevê isso para quem não aceita a injeção. Mas preciso ser claro sobre a diferença. Pela boca são três doses: uma agora, antes da alta; outra entre o quarto e o sétimo dia; e outra entre a quarta e a sétima semana, porque a Marina mama no peito. Nos países que usaram a via oral, a forma que sangra na cabeça continuou aparecendo; com a injeção, praticamente desaparece. E a terceira dose é a que as famílias mais esquecem — num estudo, só quatro em cada dez chegaram a ela. Se vocês escolherem a boca, eu saio daqui com as duas datas marcadas com vocês e com o lugar onde a Marina vai tomar."”
Não diga: "Tanto faz, pela boca também serve" — não é verdade para a forma tardia, e a família decide com informação errada.
"E se a gente escolher pela boca e esquecer a terceira?" — Imaculada.
“"Então a Marina fica sem proteção justamente nas semanas de mais risco. Por isso eu não vou deixar só na memória: a data vai escrita no resumo de alta e na caderneta, e a unidade básica de vocês vai saber. E vou dizer os sinais que fazem vocês virem na hora, qualquer que seja a escolha: sangue no coto, no nariz, nas fezes ou no xixi; manchas roxas sem pancada; um furinho que não para de sangrar; e principalmente se ela parar de mamar, vomitar, ficar muito sonolenta, chorar diferente ou a moleira ficar alta e dura. Nesse caso, chegando ao pronto-socorro, digam logo que ela não tomou a injeção de vitamina K."”
Não diga: Listar sinais de alarme só em termos técnicos — "fontanela abaulada", "melena" — que a família não reconhece em casa.
"A gente não quer nem pela boca. Confiamos no corpo dela." — Pantaleão, com Imaculada concordando.
“"Eu respeito que vocês pensem assim, e não vou decidir por vocês agora. Mas vocês precisam saber o que eu sei: sem nenhuma vitamina K, a Marina entra nas semanas de mais risco sem proteção, e o sangramento que mais preocupa não dá aviso. Vou registrar esta conversa no prontuário, com o que expliquei e o que vocês decidiram, e a pediatra responsável pela Marina vai conversar com vocês de novo antes da alta — a oferta continua aberta até o último minuto. Preciso ser transparente com uma coisa: quando pais e médicos não conseguem chegar a um acordo sobre um cuidado importante para a saúde de um bebê, as normas do Conselho Federal de Medicina pedem que o médico comunique a situação a quem protege a criança. Não é castigo; é o que a regra manda para proteger a Marina, e eu prefiro que vocês saibam por mim."”
Não diga: Abrir a conversa com "se não deixar, vou chamar o Conselho Tutelar" — a norma é para a discordância que persiste depois de tudo, não para substituir a explicação.
"O que a gente leva escrito daqui?" — Imaculada, no dia da alta, depois de aceitar a via oral.
“"Três coisas. A primeira: a Marina tomou 2 mg de vitamina K pela boca ontem, às 16h, está anotado no resumo de alta e na caderneta. A segunda: as duas próximas doses, com data e local — a do quinto dia volta aqui na maternidade, porque a ampola é de uso hospitalar, e a da quinta semana também está marcada aqui. A terceira: a folha com os sinais de alarme, com o telefone do pronto-socorro. Se qualquer data não der, liguem antes de faltar, para a gente remarcar dentro do prazo. E se mudarem de ideia sobre a injeção, ela pode ser dada em qualquer uma dessas visitas."”
Não diga: Entregar o resumo sem as datas marcadas e sem dizer onde a dose vai ser dada — é assim que a terceira dose se perde.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
1 mg acima de 1.000 g e 0,3 a 0,5 mg abaixo — Manual técnico do Método Canguru, Ministério da Saúde, 3ª edição, 2017
No módulo sobre a nutrição do pré-termo, o manual manda dar a vitamina K por via intramuscular depois do nascimento, na dose de 1 mg se o peso ao nascer for superior a 1.000 g e entre 0,3 e 0,5 mg se for inferior a 1.000 g. Para um prematuro de 1.200 g, isso são 1 mg, ou 0,83 mg/kg; para um de 1.800 g, 1 mg, ou 0,56 mg/kg.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção humanizada ao recém-nascido: Método Canguru — manual técnico. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2017, módulo 4, p. 184.
0,4 mg/kg, sem exceder, abaixo de 36 semanas e de 2,5 kg — bula do Kanakion MM pediátrico aprovada pela Anvisa em 29/02/2016
A bula da ampola pediátrica de micelas mistas dá 1 mg ao prematuro com 2,5 kg ou mais e, ao prematuro com menos de 36 semanas e menos de 2,5 kg, 0,4 mg/kg por via intramuscular ou venosa, dose que manda não exceder, com tabela de volume por peso; pela conta dela, 0,48 mg num bebê de 1.200 g e 0,72 mg num de 1.800 g. Adverte ainda para o risco de kernicterus com a via parenteral em prematuros abaixo de 2,5 kg. A declaração da Academia Americana de Pediatria de 2022, estrangeira, fica entre as duas: 1 mg acima de 1.500 g e 0,3 a 0,5 mg/kg até 1.500 g, sem dose venosa na profilaxia.
Kanakion MM pediátrico (fitomenadiona) 2 mg/0,2 mL — bula para o profissional de saúde. Produtos Roche Químicos e Farmacêuticos, registro MS-1.0100.0037, aprovada em 29/02/2016; Hand I, Noble L, Abrams SA. Vitamin K and the Newborn Infant. Pediatrics. 2022;149(3):e2021056036.
Primeiro, onde não há disputa: abaixo de 1.000 g as duas réguas brasileiras dão doses próximas, e a partir de 2,5 kg as duas dão 1 mg. A disputa é a faixa entre 1.000 e 2.500 g, em que o manual dá 1 mg e a bula dá 0,4 mg/kg — até 2,5 vezes menos logo acima de 1.000 g. No primeiro degrau, o do escopo, ninguém vence: os dois textos foram escritos para o mesmo prematuro. No segundo, a data decide: o manual é de 2017, mais novo que a bula aprovada em fevereiro de 2016. Esta apostila adota o manual do Método Canguru: 1 mg acima de 1.000 g e 0,3 a 0,5 mg abaixo, sempre por via intramuscular — e, para o bebê de 1.000 g exatos, que o manual deixa sem faixa, 0,4 mg, pela nota 2 do bloco de critérios. A AAP de 2022 concorda com o manual acima de 1.500 g e com a bula abaixo disso. Duas consequências práticas: a prescrição de 1 mg num prematuro de 1.200 g fica acima do teto da bula da ampola pediátrica, e o interno que encontrar no serviço um protocolo com 0,4 mg/kg está diante da régua perdedora, datada, e não de um erro de cálculo.
10 a 20 mg/dia por via oral no último mês de gestação — bula do Fenocris (fenobarbital sódico injetável), versão com histórico até junho de 2022
No item sobre gravidez, a bula associa o fenobarbital usado na gestação à deficiência dos fatores dependentes de vitamina K no neonato, com hemorragia nas primeiras 24 horas, e diz que, para prevenir a síndrome hemorrágica do recém-nascido, pode ser dada vitamina K à mãe no último mês de gestação, de 10 a 20 mg por dia por via oral, e de 1 a 10 mg pela veia ao recém-nascido desde o parto.
Fenocris (fenobarbital sódico) solução injetável 100 mg/mL — bula para o profissional de saúde. Cristália Produtos Químicos Farmacêuticos, registro MS nº 1.0298.0016, histórico de alterações até 30/06/2022, item Gravidez.
Evidência insuficiente para recomendar; a suplementação pré-natal não mostrou reduzir a forma precoce — Academia Americana de Pediatria, março de 2022
A declaração sobre vitamina K e o recém-nascido registra que a suplementação de vitamina K na gestação eleva a concentração no sangue do cordão, mas não demonstrou reduzir a forma precoce, e conclui que não há evidência suficiente para recomendá-la às gestantes que usam anticonvulsivantes, antibióticos, tuberculostáticos ou varfarina. A proteção que recomenda é a do recém-nascido: 1 mg por via intramuscular nas primeiras horas.
Hand I, Noble L, Abrams SA; American Academy of Pediatrics, Committee on Fetus and Newborn, Section on Breastfeeding, Committee on Nutrition. Vitamin K and the Newborn Infant. Pediatrics. 2022;149(3):e2021056036, seção Background.
Os documentos federais usados neste capítulo — a diretriz de 2017 e o guia do recém-nascido de 2014 — não tratam da vitamina K à gestante, e a disputa fica entre uma bula brasileira e uma declaração estrangeira. O primeiro degrau decide: vence o documento escrito para o paciente em questão, e a pergunta aqui é como prevenir a forma precoce do sangramento por deficiência de vitamina K — o assunto inteiro da declaração da AAP e um parágrafo lateral da bula de um anticonvulsivante. O quarto degrau reforça: o mesmo parágrafo da bula dá ao recém-nascido até 10 mg pela veia, dez vezes a dose que a bula da própria fitomenadiona indica, como está na nota 1 do bloco de critérios. Esta apostila adota a AAP: não trata a vitamina K oral à gestante como a medida que previne a forma precoce. O que protege o bebê exposto é receber 1 mg nas primeiras horas, ser examinado com atenção ao que o parto pode ter feito e ser vigiado nas primeiras 24 horas. Se o obstetra decidir suplementar a mãe, a decisão é dele e não muda nada na dose nem na vigilância do bebê.
1 mg por via intramuscular ou subcutânea ao nascimento, na sequência dos cuidados na sala de parto — guia Atenção à saúde do recém-nascido, volume 1, Ministério da Saúde, 2014
Na seção de cuidados de rotina depois da estabilização do recém-nascido na sala de parto, o guia lista os procedimentos a fazer em sequência — laqueadura do cordão, profilaxia ocular, antropometria, prevenção do sangramento por deficiência de vitamina K com 1 mg de vitamina K1 por via intramuscular ou subcutânea ao nascimento, coleta de tipagem e sorologias, identificação — antes de o bebê estável seguir com a mãe para o alojamento conjunto.
Brasil. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. v. 1, Cuidados gerais. 2. ed. atual. Brasília: Ministério da Saúde, 2014, seção 2.8, p. 48.
1 mg por via intramuscular em dose única, sem separar mãe e bebê na primeira hora para procedimento de rotina — Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, Portaria SAS/MS nº 353, 2017
A diretriz recomenda vitamina K a todos os recém-nascidos por via intramuscular, em dose única de 1 mg, como o método de melhor relação de custo-efetividade, e reserva a via oral, em doses repetidas, para os pais que recusam a injeção. Recomenda também estimular o contato pele a pele imediato e evitar a separação entre mãe e filho na primeira hora para procedimentos de rotina, a não ser que a mulher os peça ou que sejam necessários aos cuidados imediatos do bebê.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria nº 353, de 14 de fevereiro de 2017 — Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal, recomendações 204 a 208, 219 e 221.
As duas réguas concordam na dose e no fato de que todo recém-nascido recebe a vitamina. Discordam em duas coisas: a via subcutânea, que só o guia de 2014 admite, e o momento — o guia põe a injeção na sequência da sala de parto, antes do alojamento, e a diretriz tira os procedimentos de rotina da primeira hora. No primeiro degrau, empate: as duas escrevem para o recém-nascido de termo e estável. No segundo, vence a diretriz de 2017. Esta apostila adota: 1 mg por via intramuscular, depois da primeira hora de contato pele a pele, com o bebê no colo da mãe, e ainda nas primeiras horas de vida — a AAP de 2022 fixa em 6 horas o limite. Não é cronologia disfarçada, e sim uma regra mais velha substituída por uma mais nova, porque as duas falam do mesmo bebê no mesmo momento. O bebê que precisou de reanimação ou foi para a unidade neonatal não está sob essa regra: separado da mãe para ser cuidado, recebe a vitamina K junto com os outros procedimentos, e a primeira hora é do capítulo Reanimação neonatal em sala de parto (fluxograma da SBP), na apostila de Neonatologia, e das boas práticas de Assistência ao parto normal e boas práticas (OMS/humanização), na apostila de Parto e assistência ao nascimento.
O raciocínio, em voz alta
Unidade básica de saúde de uma cidade de 18 mil habitantes, segunda-feira, 9h10. Cordélia chega com Viviana, de 3 dias, para a primeira consulta. Viviana nasceu em casa, na madrugada de sexta para sábado: o trabalho de parto foi rápido, a tia amparou o bebê, cortou o cordão com tesoura fervida e amarrou com fio. A família ligou para a unidade no sábado e foi orientada a trazê-la na segunda; ninguém passou por maternidade. Cordélia conta que Viviana vomitou duas vezes hoje uma coisa escura, "cor de borra de café", e que a fralda da manhã veio com fezes pretas e brilhantes. Os mamilos dela estão rachados e sangram quando a menina mama. No exame, Viviana está corada, ativa, suga com força o seu dedo enluvado, sem febre, frequência cardíaca de 138 bpm, pesando 3.050 g. A gaze do coto umbilical está manchada de sangue vivo, e o coto continua minando quando você afasta a gaze.
o que chama a atenção antes de qualquer exame
Três coisas. Viviana tem 3 dias, está na janela da forma clássica, e nasceu em casa sem nenhuma profilaxia — não recebeu a vitamina K, por nenhuma via. O sangue aparece em dois lugares diferentes, o tubo digestivo e o coto umbilical. E o bebê está bem: corado, ativo, mamando, sem febre. Sangramento em mais de um lugar num recém-nascido de bom aspecto, sem vitamina K, é o retrato da forma clássica.
o sangue é dela ou da mãe
A fissura mamilar sangrando explica o vômito escuro e as fezes pretas: um bebê que mama sangue pode devolvê-lo. Por isso o sangue materno deglutido é o primeiro diferencial. Mas ele não explica o coto que sangra na gaze — o sangue que o bebê engoliu não sai pelo umbigo. Existe teste que separa a hemoglobina fetal da adulta no material vomitado, e ele seria útil se o vômito fosse o único sangramento; aqui, o coto já respondeu. A fissura existe e precisa de cuidado, mas não fecha o diagnóstico.
onde Viviana vai ser atendida
No hospital, hoje. A unidade não tem laboratório para coagulograma e, como a fitomenadiona não consta da Rename, pode não ter a ampola. O AIDPI neonatal do Ministério da Saúde manda encaminhar com urgência o menor de 2 meses com sangue nas fezes, mantendo o aleitamento e aplicando 1 mg de vitamina K por via intramuscular antes do transporte. Se a unidade tiver a ampola, a dose vai antes de sair, com hora anotada na guia; se não tiver, o transporte não se atrasa para procurar. Cordélia continua amamentando no caminho, se Viviana quiser.
o que o hospital colhe e o que volta
Na chegada, numa punção só: hemograma com plaquetas, TP com INR, TTPa e fibrinogênio, com compressão prolongada do local. Voltam hemoglobina de 15,2 g/dL, plaquetas de 280.000/mm³, fibrinogênio de 240 mg/dL, e os dois tempos muito alargados — TP de 58 segundos e TTPa de 96 segundos, os dois bem acima da referência do laboratório para a idade. Como a unidade básica não tinha a ampola, Viviana ainda não recebeu vitamina K.
o que o coagulograma diz
É o desenho da deficiência de vitamina K: TP e TTPa alargados com plaquetas e fibrinogênio normais. Não é coagulação intravascular disseminada — as plaquetas e o fibrinogênio estão normais e o bebê está bem. Não é trombocitopenia, pelo mesmo motivo. Não é hemofilia, que alarga o TTPa com TP normal. E não é sangue materno deglutido, que deixaria o coagulograma normal. O diagnóstico de trabalho é sangramento por deficiência de vitamina K, forma clássica, em recém-nascido sem profilaxia.
a dose, a via e a prova
Fitomenadiona 1 mg por via parenteral, agora: 0,1 mL da ampola de 10 mg/mL, pela veia se a formulação do hospital permitir, ou por via subcutânea se a bula restringir a veia — no músculo, não, porque Viviana já sangra. Plasma não entra: o sangramento é pequeno, o bebê está estável, e a vitamina K corrige em horas. O plasma fica para o sangramento que não pode esperar essas horas — o do crânio, o que instabiliza. Repete-se o TP entre 4 e 6 horas e em 24 horas. Às 16h, o TP está em 16 segundos; no dia seguinte, normal, o coto seco e nenhum vômito novo. A correção confirma o diagnóstico.
o que vai no plano
O resumo de alta registra o diagnóstico, a dose de tratamento com data e hora e os exames. Antes da alta, com o coagulograma normal, Viviana recebe 1 mg por via intramuscular — a dose de profilaxia que não teve ao nascer. A dose de tratamento foi pela veia, e a AAP registra, no prematuro, que a dose venosa sustenta o nível nas semanas seguintes menos que a muscular; estender esse dado ao tratamento, para cobrir a janela da forma tardia de um bebê que só mama no peito, é leitura desta apostila. A fissura da mãe é cuidada sem interromper a amamentação, pelo capítulo Aleitamento materno exclusivo até 6 meses. O que o parto em casa deixou para trás entra na mesma consulta: triagens neonatais pelo capítulo Triagens neonatais: teste do pezinho, orelhinha, olhinho, coraçãozinho e linguinha, e as vacinas ao nascer pelo calendário. E Cordélia sai sabendo que, se houver outra gestação, o bebê precisa da vitamina K nas primeiras horas, nasça onde nascer.
Faça você
Ambulatório de pediatria de um hospital de ensino, terça-feira, 14h. Iracema traz Bonifácio, de 8 semanas e 4.300 g, porque a coxa esquerda amanheceu inchada e roxa: ontem ele tomou as vacinas dos 2 meses na unidade básica, e no lugar de uma das injeções há hoje um hematoma endurecido de 6 cm. O resumo de alta da maternidade registra fitomenadiona 1 mg por via intramuscular com 2 horas de vida. Mama só no peito. Iracema acha que ele "ficou amarelinho desde que nasceu e nunca desamarelou direito", e, quando você pergunta, conta que há duas semanas as fezes estão claras, "meio cor de massa de vidraceiro", e que o xixi escuro mancha a fralda. Bonifácio está ativo, mama durante a consulta, sem febre, com icterícia de pele e esclera, fontanela normotensa, exame neurológico normal para a idade, fígado palpável a 3 cm do rebordo costal direito, sem outros sangramentos. Não há caso de sangramento na família.
reconheço o que é
Um lactente de 8 semanas com sangramento desproporcional a uma injeção, icterícia prolongada, fezes claras, urina escura e fígado aumentado, que recebeu a injeção de vitamina K ao nascer. Nomeie as duas hipóteses que precisam entrar no prontuário hoje e diga qual delas a cor das fezes torna mais provável.
decido o que se colhe e onde
Liste os exames que respondem às duas hipóteses e diga se Bonifácio espera o resultado no ambulatório ou vai para outro lugar ainda hoje, e por quê.
decido a vitamina K
Escreva a prescrição da vitamina K para 4.300 g — dose, via e volume na ampola de 10 mg/mL — e explique por que a via oral, que a família talvez prefira, não serve para este bebê.
separo de hemofilia
Um menino com hematoma grande no local da vacina lembra hemofilia. Diga que desenho do coagulograma apontaria para ela e o que você faz se o TP corrigir com a vitamina K e o TTPa continuar alargado.
decido o prazo e o que a família leva
Diga para qual capítulo e com que pressa vai a investigação da colestase, e quais sinais a família precisa reconhecer em casa enquanto isso.
Ver como fecharíamos
As duas hipóteses são sangramento por deficiência de vitamina K, forma tardia, por colestase — e hemofilia. A cor das fezes decide qual vem primeiro. Icterícia que não passou, fezes claras cor de massa, urina escura e fígado aumentado num lactente de 8 semanas são colestase até prova em contrário, e a colestase impede absorver a vitamina K do leite. A injeção ao nascer protegeu as primeiras semanas e não protege mais: a AAP manda considerar a deficiência de vitamina K em todo sangramento dos primeiros seis meses mesmo com profilaxia, e a SBP, em 2024, registra que o sangramento pode ser o primeiro sinal de uma colestase que ninguém viu — e manda investigar a coagulopatia e dar a vitamina K de imediato no lactente com hiperbilirrubinemia direta. A hemofilia fica na lista porque é menino e o sangramento foi numa injeção intramuscular, mas não explica a icterícia nem as fezes claras. Os exames saem hoje, numa punção só e com compressão longa: hemograma com plaquetas, TP com INR, TTPa, fibrinogênio, bilirrubina total e frações. Bonifácio não espera no ambulatório: vai para a emergência pediátrica ou para a internação ainda hoje, porque um lactente com coagulopatia provável e colestase está na janela em que o sangramento pode ir para o crânio, e porque a vitamina K parenteral e o recontrole do TP pedem o hospital. A prescrição é fitomenadiona 1 mg — 0,1 mL da ampola de 10 mg/mL —, logo depois da coleta, pela veia se a formulação do hospital permitir, ou por via subcutânea se a bula restringir a veia. No músculo, não, num bebê que já fez hematoma de 6 cm com uma injeção. Pela boca, também não: na colestase falta a bile de que a vitamina K precisa para ser absorvida. A bula da ampola pediátrica traz o número — em lactentes colestáticos, seis horas depois de 2 mg pela boca o nível no sangue era cerca de cem vezes menor que seis horas depois de 1 mg pela veia, e só 17% dos que receberam a oral tiveram aumento útil — e diz que a via oral não é recomendada na colestase. Repita o TP entre 4 e 6 horas e em 24 horas. O desenho da hemofilia é TTPa alargado com TP normal. Se o coagulograma vier com TP e TTPa alargados e os dois corrigirem com a vitamina K, a coagulopatia era da colestase. Se o TP corrigir e o TTPa continuar alargado, a vitamina K não explica tudo: dosam-se os fatores VIII e IX, e a investigação da hemofilia segue em Distúrbios da coagulação e uso de anticoagulantes, na apostila de Hematologia e Hemoterapia — as duas coisas podem coexistir. A colestase vai hoje mesmo para o caminho de Icterícia neonatal: fisiológica versus patológica e curva de Bhutani, na apostila de Neonatologia, que é dono do reconhecimento da colestase, da suspeita de atresia biliar e do prazo do encaminhamento, e assume dar a vitamina K e encaminhar dentro do prazo; a dose, a via e o controle da vitamina K são deste capítulo. Enquanto isso, a família sai sabendo o que faz voltar na hora: sonolência, vômitos, choro agudo, moleira alta e dura, convulsão, qualquer sangramento novo — nariz, gengiva, fezes, urina, manchas roxas —, e que a vitamina K, neste bebê, é dada por injeção enquanto a colestase durar, pela conduta do serviço que assumir a investigação.
Na concentração de 10 mg/mL, 1 mg está em 0,1 mL. Um volume tão pequeno pede seringa de 1 mL graduada em centésimos e dupla checagem, porque a própria bula da ampola pediátrica avisa que erro de dez vezes é frequente: aspirar 1 mL daria 10 mg. A dose de profilaxia do recém-nascido de termo é fixa, 1 mg, e não se calcula por quilo.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Simule a prescrição de profilaxia de um recém-nascido a termo e a conduta de um lactente que já sangra. Para cada situação, diga dose em mg, concentração, volume, via e monitorização. Explique à família a vantagem da via IM e, se houver recusa persistente, organize o esquema oral completo sem prometer equivalência.
Em 30 dias
Procure no seu serviço cinco resumos de alta de recém-nascidos do último mês e, se houver, um lactente atendido com sangramento nos primeiros seis meses. Nos resumos, confira: a vitamina K está registrada com dose, via, data e hora? Houve recusa? Se houve, a recusa informada está escrita, a via oral foi oferecida e as datas da segunda e da terceira doses saíram marcadas, com o serviço onde seriam dadas? Na farmácia, descubra qual formulação de fitomenadiona o hospital tem e o que a bula dela permite — veia, músculo, subcutâneo, boca — e se o pronto-socorro tem a ampola. No lactente que sangrou, veja se alguém perguntou pela profilaxia, se a bilirrubina direta foi dosada e se a vitamina K veio antes do resultado. Anote o que faltou e quem, no seu plantão, precisaria saber disso.
Agora atenda
Agora atenda: pronto-socorro infantil, madrugada, lactente de 6 semanas em aleitamento materno exclusivo, trazido porque ficou sonolento e vomitou; os pais recusaram a injeção de vitamina K ao nascer e o bebê recebeu uma única dose pela boca. Examine o bebê inteiro, colha o que decide numa punção só, dê a vitamina K pela via e na dose certas sem esperar o laboratório, decida o plasma pelo resultado, peça a imagem com o tratamento correndo e converse com a família sem acusá-la e sem deixar de fazer a pergunta que o capítulo de violência exige.
