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Doença falciforme: a crise, a febre e as síndromes que matam

Anemia falciforme e traço falciforme: crises e manejo

É a doença genética mais comum do país e o SUS a diagnostica na primeira semana de vida. Mesmo assim essas crianças morrem de infecção não tratada a tempo e passam noites com dor que ninguém acreditou. Este capítulo traz a prescrição por extenso, o relógio da febre e as cinco síndromes que o plantonista precisa procurar antes de dar alta.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Especializada à Saúde; Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º de novembro de 2024. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme. Diário Oficial da União, 22 nov. 2024.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Manual de eventos agudos em doença falciforme. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2009. 50 p. (Série A. Normas e Manuais Técnicos). ISBN 978-85-334-1621-5.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Imunizações e Doenças Imunopreveníveis. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. 178 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SAPS/SECTICS nº 1, de 22 de agosto de 2024. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica.

Instituto de Estudos para Políticas de Saúde; Instituto Çarê. Boletim Çarê-IEPS nº 5: Saúde da população negra — internações e mortalidade por doença falciforme segundo raça/cor (2012-2023). São Paulo: IEPS, 2024.

01

Responda antes de ler

Criança de 3 anos com doença falciforme HbSS, em uso regular de penicilina V, chega ao pronto-socorro com temperatura axilar de 38,6 °C iniciada há duas horas. Está corada, hidratada, brincando na sala de espera, sem foco identificável ao exame. A mãe pergunta se pode dar dipirona em casa e voltar de manhã se não melhorar. Qual conduta você adota?

02

O paciente que você vai ver

Onze e quarenta da noite, pronto-socorro infantil. Kauã tem 8 anos, 25 quilos, e está sentado na maca com as duas pernas esticadas, muito quieto. Não chora. Responde ao que se pergunta com uma palavra. A mãe fala por ele: começou de tarde nas coxas, piorou depois do banho, ele não quis jantar, e ela deu dipirona em casa às sete. Ela diz, sem que ninguém pergunte, a frase que aprendeu a dizer antes que perguntem: "Ele tem anemia falciforme, doutor. Quando é assim, só passa com morfina."

A técnica já anotou os sinais: temperatura axilar 37,4 °C, frequência cardíaca 118, frequência respiratória 24, saturação 97% em ar ambiente, pressão 100 por 60. O cartão do hemocentro está na bolsa, amassado, com a última consulta há sete meses. Na triagem, a classificação saiu verde. Na coluna da queixa, alguém escreveu "dor em membros inferiores — paciente falciforme, uso crônico de opioide".

É uma criança de 8 anos, e o prontuário já a descreve como usuária crônica de opioide. Ela pede o remédio pelo nome porque é o remédio que funciona, e porque a mãe já viu de perto o que acontece quando ninguém acredita: as três horas de espera da última vez, o soro correndo depressa demais, a noite em que o irmão mais velho começou a tossir na enfermaria e foi para a UTI no dia seguinte. Kauã está quieto não porque a dor é pequena, mas porque aprendeu que gritar não adianta e que reclamar demais o transforma em problema de comportamento.

Perguntado direto, com a escala na mão, ele aponta o rosto que chora: 9 de 10. Diz que o pior foi por volta das nove, quando não conseguia nem mudar de posição, e que agora está "igual". A perna esquerda dói mais que a direita. Não há calor, não há vermelhidão, não há trauma. Ele urinou pouco desde a tarde. Bebeu meio copo de água na sala de espera.

O que este menino tem à sua frente é uma noite que pode terminar de três maneiras. Pode ir para casa às três da manhã com a dor controlada, uma receita de analgésico e o retorno marcado no hemocentro. Pode passar a noite gemendo enquanto a prescrição diz "dipirona se dor", porque ninguém somou o que ele já tomou nem contou o tempo entre uma dose e outra. Ou pode estar na UTI depois de amanhã com síndrome torácica aguda, porque o soro correu rápido demais, a dor não deixou que ele respirasse fundo e a febre de 38,3 °C que apareceu às cinco da manhã foi anotada como "pico isolado, sem repercussão".

As três possibilidades dependem menos do conhecimento sobre a mutação da hemoglobina do que de quatro decisões concretas: quanto tempo até o primeiro analgésico eficaz, qual dose e com que intervalo, quanto volume por hora, e o que fazer se a temperatura subir. Esse é o assunto daqui em diante.

03

Quem adoece disso

A doença falciforme é a doença genética mais comum do Brasil. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de 2024 estima que 4% da população brasileira carrega o traço falciforme, com distribuição desigual: nas regiões Norte e Nordeste a prevalência estimada do traço vai de 6% a 10%. Traduzido para o consultório, isso significa que numa sala de espera de cinquenta pessoas em Salvador, três a cinco carregam o gene — e que a pergunta "tem alguém na família com anemia falciforme?" não é pergunta de doença rara.

Quem tem a doença, e não o traço, é minoria dentro dessa conta, mas não é raridade. O Relatório Anual de Dados do Programa Nacional de Triagem Neonatal registra 5.428 recém-nascidos diagnosticados com doença falciforme entre 2014 e 2018 — mais de mil por ano, portanto, e todos identificados por um exame de rotina, feito por punção no calcanhar, disponível em todo o território nacional. O PCDT reconhece que estimativas de prevalência total no país são antigas: a última citada é de 2007, entre 25 mil e 50 mil pessoas com anemia falciforme ou com formas heterozigóticas compostas.

O número que interessa ao plantão é outro, e é ruim. As internações por doença falciforme cresceram 47% entre 2012 e 2023, chegando a 14.946 internações em 2023, o ponto mais alto da série histórica, segundo o boletim do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde em parceria com o Instituto Çarê, construído a partir do Sistema de Informações Hospitalares. Os óbitos subiram junto: 447 em 2012, 410 em 2013, 537 em 2022 e 588 em 2023, somando 5.632 mortes no período. Uma doença com diagnóstico neonatal universal, tratamento padronizado e medicamento gratuito não deveria estar internando e matando mais a cada ano.

A distribuição desses óbitos diz o resto. Entre as internações com raça/cor registrada, 74,7% são de pessoas negras, e a mortalidade média mensal na população negra é 4,8 vezes maior que na branca. O próprio PCDT escreve, no texto oficial, que a doença "foi negligenciada e ficou invisibilizada durante muito tempo por falta de interesse decorrente do racismo estrutural e institucional". Isso não é comentário sociológico anexado ao protocolo: é a explicação de por que uma criança com dor 9 de 10 recebe classificação verde na triagem, e de por que o pedido de morfina pelo nome vira suspeita em vez de informação clínica.

Duas faixas etárias concentram a mortalidade evitável. Abaixo dos 5 anos, morre-se de infecção fulminante por bactéria encapsulada e de sequestro esplênico; o risco de meningite pneumocócica é 600 vezes maior que na população geral e a frequência de bacteremia, 300 vezes maior, com 90% dos casos nos três primeiros anos de vida. Na adolescência e na vida adulta, morre-se de síndrome torácica aguda, que o Manual de eventos agudos do Ministério da Saúde nomeia como a principal causa de morte em qualquer faixa etária. Nenhuma dessas quatro coisas é sutil. Todas são reconhecíveis por quem sabe o que procurar.

04

Por que acontece o que acontece

Uma única troca de aminoácido explica quase tudo o que se prescreve daqui em diante. Na sexta posição da cadeia beta da globina, o ácido glutâmico dá lugar à valina. A hemoglobina resultante, a HbS, funciona normalmente enquanto está oxigenada. Quando perde oxigênio — e ela perde em todo capilar, o tempo todo —, as moléculas se encaixam umas nas outras e polimerizam. O polímero é rígido, alonga a hemácia e a transforma em foice.

O primeiro ponto que muda conduta é que a polimerização é reversível e depende de tempo. A hemácia falcizada volta ao normal se reoxigenada rápido; se ficar tempo demais desoxigenada, a membrana se lesa de forma permanente e ela passa a ser uma hemácia rígida para sempre. É por isso que hipóxia, acidose, febre, desidratação e frio precipitam crise: todos aumentam a fração de hemoglobina desoxigenada ou o tempo de trânsito capilar. E é por isso que a analgesia precoce não é conforto — a dor causa imobilidade, respiração superficial e vasoconstrição, que alimentam de volta a mesma alça.

O segundo ponto é que a vaso-oclusão não é um entupimento mecânico simples. A hemácia falciforme expressa mais moléculas de adesão, gruda no endotélio e recruta leucócitos e plaquetas; o endotélio, cronicamente agredido, prolifera e fica pró-trombótico. Some-se a isso a hemólise intravascular, que despeja hemoglobina livre no plasma — e hemoglobina livre consome óxido nítrico, o vasodilatador local. O resultado é um vaso pequeno, inflamado, aderente e mal dilatado. Isso explica por que a crise dói tanto tempo depois de começar, por que ela não cede com um bolus de volume e por que anti-inflamatório tem papel real ao lado do opioide.

O terceiro ponto é o baço, e ele é o que decide a conduta na febre. O baço filtra bactérias encapsuladas por opsonização; é o órgão que impede que um pneumococo na corrente sanguínea vire sepse em horas. Na doença falciforme, o baço sofre infartos repetidos desde os primeiros meses de vida, pode aumentar, fibrosar e atrofiar — a autoesplenectomia, cuja evolução varia com genótipo e tratamento. O Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais registra que a asplenia funcional se torna permanente por volta dos 6 a 8 anos de idade. Mas ela começa muito antes de o baço desaparecer ao exame: a criança de dois anos com baço palpável já pode ser funcionalmente asplênica. Daí a regra que atravessa o capítulo — não se afere a função esplênica pelo exame físico, e toda criança com doença falciforme é tratada como asplênica desde o diagnóstico.

O quarto ponto é o pulmão, e ele explica por que o excesso de soro é perigoso. A circulação arterial pulmonar tem baixa tensão de oxigênio e baixo fluxo — duas condições que facilitam a falcização, como registra o PCDT. Quando um segmento pulmonar falciza, aparece infiltrado; se há dor torácica, o paciente respira superficialmente, faz atelectasia, e a atelectasia produz mais hipóxia local, que produz mais falcização. Sobre esse pulmão já em risco, uma hidratação generosa acrescenta água no interstício e fecha o círculo. A síndrome torácica aguda é, em boa parte dos casos, uma complicação iatrogênica de crise álgica mal manejada: dor não tratada mais soro demais.

O quinto ponto é o rim, e ele explica por que estas crianças desidratam com facilidade. A medula renal é o ambiente mais hostil do corpo para a HbS: pH baixo, pressão de oxigênio baixa, osmolaridade alta. A falcização ali destrói a capacidade de concentrar urina — a hipostenúria. A criança urina volume normal ou alto mesmo sem beber, e por isso desidrata rápido em qualquer episódio de vômito, febre ou calor. Uma urina clara e abundante nesse paciente não é sinal de que ele está bem hidratado.

O sexto ponto é a hemoglobina fetal, e ele é o mecanismo do tratamento. A HbF não entra no polímero da HbS: cada molécula de HbF dentro da hemácia é uma peça que não encaixa e atrapalha a formação da cadeia. É por isso que o recém-nascido com doença falciforme é assintomático nos primeiros meses — ele ainda está cheio de HbF — e é por isso que a hidroxiureia funciona. Ela inibe a ribonucleotídeo redutase, aumenta a produção de HbF, hidrata a hemácia, eleva a hemoglobina total e reduz a expressão de moléculas de adesão. O PCDT resume o efeito clínico em uma frase que vale a consulta inteira: o uso de hidroxiureia reduz em 40% o risco de óbito, e reduz em cerca de 50% a necessidade de transfusão e o número de episódios de síndrome torácica aguda.

O sétimo ponto é o que separa doença de traço, e vale fixar agora porque é a origem de um dano específico. No heterozigoto, HbAS, mais de 60% da hemoglobina é HbA normal. A concentração intracelular de HbS fica abaixo do limiar de polimerização em condições fisiológicas — e a gravidade da doença falciforme se relaciona justamente com a concentração intracelular de HbS. Por isso o traço não é uma forma leve da doença: é uma condição de portador, sem hemólise, sem anemia, sem vaso-oclusão e sem asplenia. A única exceção fisiológica é a medula renal, o ambiente extremo já descrito, onde mesmo a concentração baixa de HbS pode falcizar e produzir hematúria macroscópica indolor.

Vaso com fluxo livre, falcização e adesão celular, seguido de recuperação do fluxo.
Nas fases reversíveis, a reoxigenação pode favorecer a recuperação da forma celular, mas lesões repetidas podem produzir células irreversivelmente falcizadas. A alça central representa fatores que perpetuam a crise; o último painel não promete reversão imediata de toda obstrução.
05

Como se apresenta de verdade

A doença falciforme não tem uma apresentação, tem um calendário. O que chega pela porta depende quase inteiramente da idade, porque o baço, a hemoglobina fetal e o leito vascular mudam ao longo da vida em uma ordem previsível. Quem conhece esse calendário acerta o diagnóstico diferencial antes de pedir o primeiro exame.

Vale um aviso de calibração: a mesma criança pode ter dez crises por ano e um irmão com o mesmo genótipo pode ter uma a cada três anos. O PCDT registra que a heterogeneidade mutacional, outros traços genéticos e fatores ambientais e sociais produzem um espectro amplo, e que a gravidade se relaciona, entre outros fatores, com a concentração intracelular de HbS. Isso significa que a frequência de crises de um paciente não mede a gravidade da doença dele nem a veracidade da dor dele.

A crise álgica — o que realmente entra pela porta

É a manifestação mais comum e a que o interno vai ver dezenas de vezes. A dor é óssea, profunda, contínua, tipicamente em membros, coluna e abdome, e o PCDT registra duração de 4 a 6 dias, podendo persistir por semanas. Não há febre alta, não há sinal inflamatório local, não há trauma. Os desencadeantes que o Manual de eventos agudos lista são frio, trauma, esforço físico, desidratação, infecção e hipóxia — e o paciente costuma saber qual foi o seu.

O que confunde o plantonista é a discrepância entre o relato e o exame. O paciente está afebril, com sinais vitais quase normais, andando, conversando, sem nada visível no membro que dói — e diz 9 de 10. Essa discrepância não é sinal de exagero: é a assinatura da doença, porque a dor da vaso-oclusão é isquêmica, acontece dentro do osso e não produz achado externo. O comportamento confunde na mesma direção: a criança que convive com dor há anos não chora como a criança com fratura, fica quieta e imóvel, e essa quietude vira "tranquilo, deambulando, sem fácies de dor" na evolução. Em crianças pequenas use a escala de faces ou a FLACC; acima de 7 ou 8 anos, a numérica. Registre o número, a hora e o que já foi tomado em casa — o número anotado é o que vai autorizar a dose seguinte.

A dor abdominal merece parágrafo próprio porque simula abdome agudo cirúrgico. O Manual de eventos agudos orienta tratá-la com analgesia e hidratação como qualquer outro episódio doloroso e manter observação contínua com propedêutica adequada de abdome agudo — não é uma escolha entre analgesiar e investigar, são as duas coisas ao mesmo tempo. Colelitíase é comum na hemólise crônica, e o aumento de icterícia à custa de bilirrubina direta aponta para obstrução de vias biliares, não para crise.

Dactilite — a primeira crise, e a que abre a indicação de hidroxiureia

Entre os 6 meses e os 2 anos, quando a hemoglobina fetal cai, a primeira manifestação costuma ser a síndrome mão-pé: edema doloroso e simétrico do dorso das mãos e dos pés, às vezes com febre baixa, numa criança que até então era saudável. É vaso-oclusão nos ossos pequenos, em que o periósteo é fino e o edema aparece.

O erro comum é chamar de celulite ou de artrite e prescrever antibiótico tópico e repouso. O erro caro é anotar "edema de extremidades" sem registrar a palavra dactilite no prontuário — porque nos casos especiais do PCDT, dactilite no primeiro ano de vida é um dos três critérios que autorizam iniciar hidroxiureia a partir dos 9 meses em criança com HbSC, HbSD ou HbSbeta-talassemia menor de 2 anos. Os outros dois são hemoglobina abaixo de 7 g/dL e leucócitos acima de 20.000/mm³, ambos em média de três valores fora de evento agudo. O registro dessa palavra muda o acesso a um medicamento.

Febre — a apresentação mais perigosa e a que menos parece grave

Uma criança com doença falciforme e febre pode estar a poucas horas de uma sepse pneumocócica fulminante. O PCDT lista os sinais e sintomas de infecção nesse paciente — febre, prostração, toxemia, hipóxia, vômitos, desidratação, sintomas respiratórios, dor — e afirma que a presença de febre deve ser encarada como situação de urgência, com temperatura acima de 38,2 °C em menores de 3 anos sugerindo bacteremia-sepse. O Manual de eventos agudos é mais explícito quanto ao ritmo: crianças abaixo de 3 anos são particularmente propensas a septicemia, com mortalidade em torno de 20%, e o quadro pode ser fulminante e levar à morte em menos de 24 horas.

A parte difícil é que a apresentação inicial é banal. Febre, um pouco de prostração, talvez uma otite. A criança está corada, hidratada, brincando na sala de espera. Não há nada no exame que distinga esse quadro da virose que está circulando na creche — e é exatamente por isso que a régua não pode depender do exame físico. Em doença falciforme, febre é diagnóstico de trabalho de bacteremia até prova em contrário, e a prova em contrário leva 48 horas para ficar pronta.

Febre com dor torácica, tosse ou queda de saturação é outra coisa e será tratada como tal: é síndrome torácica aguda até que o raio X diga o contrário — e às vezes o raio X das primeiras horas ainda está normal.

As síndromes que matam — o que cada uma faz para se anunciar

São cinco, e o interno precisa reconhecê-las pela apresentação, antes de qualquer exame. A síndrome torácica aguda se anuncia por dor torácica, tosse, taquipneia, febre ou queda de saturação, e o PCDT a define pela presença de infiltrado pulmonar recente, não atelectásico, associado a um ou mais desses sintomas; ela costuma nascer 24 a 72 horas depois do início de uma crise álgica já internada. O sequestro esplênico se anuncia por palidez que piora rápido, prostração, dor abdominal e aumento súbito do baço, podendo chegar ao choque hipovolêmico: ocorre em até 30% das crianças pequenas, é o sintoma de apresentação em até 20% dos pacientes e é a segunda causa de morte abaixo dos 5 anos. Na HbSS ele é menos frequente após a primeira infância, conforme a perda de função e de tecido esplênico, mas a idade não o exclui; nas formas HbSC e S-talassemia, em que a esplenomegalia persiste, pode aparecer mais tarde.

A crise aplástica se anuncia por palidez e fraqueza progressivas com febre variável, tipicamente entre 4 e 10 anos, por parvovírus B19, e o que a separa do sequestro é o baço, que não cresce, e o reticulócito, que despenca em vez de subir. O acidente vascular cerebral se anuncia por déficit focal, convulsão, afasia, alteração de consciência ou cefaleia de grande intensidade ou duração — isquêmico principalmente no HbSS, a partir dos 3 a 4 anos, com incidência de 11% até os 18 anos; hemorrágico mais comum no adulto, cerca de 5% dos casos e com mais morbimortalidade. O priapismo se anuncia sozinho e quase nunca é contado: ereção involuntária, prolongada e dolorosa por vaso-oclusão nos corpos cavernosos, que o protocolo registra como frequentemente subdiagnosticada, com três formas descritas — a repetitiva, com detumescência em poucas horas; a aguda prolongada, que dura dias e é seguida de impotência parcial ou completa; e a persistente, com enduração indolor que dura semanas a anos. O que se faz e o que não se faz em cada uma está na tabela do bloco seguinte.

Cinco quadros relacionam complicações falciformes ao contexto etário.
A idade organiza hipóteses, mas não exclui complicações. Dactilite e sequestro esplênico chamam atenção na criança pequena; persistência do baço permite sequestro mais tardio. Síndrome torácica aguda e sinais neurológicos exigem atenção também na infância. O desenho não representa incidências nem janelas exclusivas.

O que muda no adolescente e no adulto jovem

A partir da segunda década, o perfil vira. A persistência de tecido esplênico varia com genótipo e tratamento; sequestro ainda é possível quando o baço persiste. Em compensação, aparecem as complicações do dano vascular acumulado: úlceras de perna, tipicamente nos maléolos medial e lateral, frequentemente bilaterais, que o PCDT descreve como surgindo em geral depois dos 10 anos; osteonecrose, sobretudo de cabeça femoral; retinopatia proliferativa, mais comum no HbSC do que nos outros genótipos, com pico entre 20 e 39 anos; nefropatia, que começa na primeira década com hiperfiltração e proteinúria e pode evoluir para doença renal crônica; e hipertensão pulmonar.

A dor também muda de natureza. O PCDT registra que a dor crônica na doença falciforme difere da dor crônica de outros contextos por ser tipicamente intercalada com dor aguda episódica e crescente, com componente maior de dor neuropática, sensibilização periférica e central e hiperalgesia com opioides. Traduzindo: o adulto jovem com dor diária de base e crises sobrepostas não é um paciente que "quer opioide"; é um paciente com um quadro doloroso misto que o modelo de crise isolada não descreve.

E a gravidez muda tudo de novo. O PCDT lista disfunção placentária, mais infecções urinárias e respiratórias na primeira metade da gestação, mais prematuridade, restrição de crescimento, pré-eclâmpsia, tromboembolismo e aumento da mortalidade perinatal. Crises de dor são mais frequentes no fim da gestação e se tratam do mesmo modo que fora dela. Duas travas práticas: hidroxiureia, quelantes de ferro e inibidores da ECA saem antes da concepção — a hidroxiureia cerca de três meses antes —, e anti-inflamatório não esteroide, se usado, tem janela restrita, com a literatura apoiando o uso entre 18 e 30 semanas e evitando-o depois das 30 pelo risco de fechamento precoce do canal arterial.

O traço falciforme não é doença — e o rótulo mal explicado faz dano

O traço falciforme, HbAS, é a condição de quem herdou um gene da HbS e um gene normal. No Quadro 2 do PCDT, a linha do HbAS diz o essencial em oito palavras: traço falciforme, geralmente assintomático, não caracteriza anemia. Mais de 60% da hemoglobina é HbA, e a concentração intracelular de HbS fica abaixo do que seria necessário para polimerizar em condições fisiológicas.

O que isso significa na prática: a pessoa com traço não tem anemia crônica, não tem hemólise, não tem crise vaso-oclusiva, não tem asplenia, não tem risco aumentado de sepse, não precisa de penicilina profilática, não precisa de hidroxiureia, não precisa de acompanhamento em centro de referência, não tem restrição de esporte escolar, não tem restrição de trabalho e não tem expectativa de vida reduzida por essa condição. Uma hemoglobina de 9 g/dL numa pessoa com traço falciforme tem outra causa, e essa outra causa precisa ser investigada como se investiga qualquer anemia — o que remete ao capítulo de anemia ferropriva e investigação de anemias microcíticas.

O que muda de fato é uma coisa só, e é genética: se o parceiro também tiver traço, cada gestação do casal tem 25% de chance de gerar uma criança com doença falciforme. Por isso o PCDT determina que a unidade básica, ao receber do serviço de triagem neonatal o resultado de traço, atualize o prontuário, comunique e oriente a família, e conduza a orientação e informação genética ainda na infância, com os pais presentes. O protocolo dispensa o encaminhamento ao centro de referência e recomenda apenas avaliações esporádicas ao longo da vida por hematologistas, pediatras ou clínicos treinados.

A única manifestação clínica com respaldo fisiológico direto é a hematúria macroscópica indolor de origem na medula renal — o ambiente de pH baixo, oxigênio baixo e osmolaridade alta em que mesmo a HbS diluída pode falcizar. Hematúria em pessoa com traço falciforme não dispensa a investigação urológica de rotina; ela apenas não é surpresa.

O rótulo mal explicado produz dano concreto: restrição escolar indevida, angústia familiar por anos e, no futuro, uma anemia real atribuída ao traço e nunca investigada. Cinco minutos de conversa desfazem tudo isso, e esses cinco minutos são atribuição de quem entrega o resultado.

Quem chega sem diagnóstico

A detecção pela triagem neonatal é assunto do capítulo de triagens neonatais, e é lá que estão a janela de coleta, o painel e o fluxo do resultado alterado. O que sobra para o plantão é o outro caso: o adolescente que nunca fez o teste do pezinho, o adulto que veio de onde a cobertura não chegou, a criança que fez e cujo resultado alterado nunca foi comunicado à família.

Três padrões devem levantar a hipótese em quem não tem diagnóstico. Primeiro, anemia normocítica ou levemente macrocítica com reticulócitos altos, entre 4% e 10%, com icterícia e bilirrubina indireta elevada — o padrão da hemólise crônica. Segundo, crises de dor óssea recorrentes desde a infância, especialmente com histórico de "reumatismo" mal explicado ou de internações por dor. Terceiro, complicação sentinela em pessoa jovem: úlcera maleolar crônica, necrose asséptica de cabeça femoral, priapismo, colelitíase antes dos 20 anos, AVC sem fator de risco.

No esfregaço podem aparecer hemácias em foice, codócitos, hipocromia, microcitose, policromasia, corpos de Howell-Jolly e corpos de Heinz. O PCDT é claro sobre o peso desses achados: eles ajudam a levantar a suspeita para o diagnóstico tardio, mas não confirmam a doença. Confirmação tem método próprio, e ele está no bloco seguinte.

06

Como fechar o diagnóstico

Na doença falciforme o interno raramente erra por não conhecer a doença. Erra por pedir exame no lugar de prescrever analgesia, por segurar antibiótico esperando cultura, e por interpretar um hemograma isolado sem saber qual é a hemoglobina basal daquele paciente. A investigação aqui tem uma ordem, e a primeira posição dela não é um exame.

A ordem é: trate a dor, colha o pacote da situação, e só então interprete. A analgesia não atrapalha nenhum dos diagnósticos em jogo — não mascara abdome agudo a ponto de impedir a propedêutica, não altera o hemograma, não muda o raio X. O que a espera atrapalha é o desfecho.

1 · O primeiro exame é a hemoglobina basal do paciente — e ela não sai de nenhum tubo

O hemograma de um paciente com doença falciforme não se lê contra o valor de referência do laboratório. Lê-se contra o valor dele. O PCDT registra que a hemoglobina basal varia de 6 a 9 g/dL nas formas HbSS e HbSbeta0, e pode ser mais alta nas formas menos graves, HbSC e HbSbeta+. Uma hemoglobina de 7,2 g/dL num paciente cuja basal é 7,5 é um exame normal. A mesma hemoglobina de 7,2 num paciente cuja basal é 9,5 é uma queda de 2,3 g/dL, e o Manual de eventos agudos coloca queda de 2 g/dL ou mais com repercussão hemodinâmica como indicação de transfusão.

Por isso a primeira pergunta da anamnese, depois da dor, é qual é a hemoglobina de costume dele e quantos gramas ele tinha na última consulta. A resposta costuma estar no cartão do hemocentro, na caderneta ou na memória da mãe, que quase sempre sabe. Quando não houver resposta, o valor de hoje passa a ser a nova basal e fica escrito no prontuário com essa palavra, para o plantonista de amanhã.

O segundo número do mesmo tubo é o reticulócito, e ele separa duas emergências que se parecem. Palidez aguda com reticulócitos altos é hemólise ou sequestro — a medula está respondendo. Palidez aguda com reticulócitos baixos é aplasia — a medula parou. O mesmo hemograma que traz a hemoglobina traz essa bifurcação, desde que se peça a contagem de reticulócitos junto. Pedir hemograma sem reticulócitos neste paciente é jogar fora metade da informação por descuido de formulário.

O terceiro é o baço, e ele se mede com a mão, não com aparelho. O PCDT ensina uma técnica de baixa tecnologia e alto rendimento: com o abaixador de língua apoiado tendo o gradil costal como eixo e apontado para a região umbilical, marca-se no abaixador o tamanho do baço e entrega-se o abaixador à mãe, que passa a ter a medida inicial em casa. É assim que a família reconhece um sequestro esplênico no primeiro dia e não no terceiro.

2 · Febre — o pacote de admissão, e o antibiótico que não espera a cultura

O PCDT define o que se colhe na admissão do paciente com sinais de infecção: hemograma com reticulócitos, urina tipo I, proteína C reativa, hemocultura, urocultura e raio X de tórax. Líquor entra nos casos de toxemia ou suspeita de infecção do sistema nervoso central. O Manual de eventos agudos acrescenta a atenção ao desvio à esquerda no leucograma, à queda da hemoglobina e à radiografia de seios da face quando a clínica sugerir. A regra que organiza tudo isso é uma só: a coleta não segura o antibiótico. Hemocultura antes, sim, se estiver ao alcance de minutos; se o acesso é difícil, o antibiótico entra e a cultura vem depois.

Sobre o prazo, o PCDT afirma que a febre é situação de urgência e que o paciente atendido na atenção primária deve ser transportado ao serviço de urgência, sem estipular um número de minutos. A régua adotada aqui é a mesma da sepse: antibiótico na primeira hora a contar da chegada, e idealmente nos primeiros 30 minutos em quem tem qualquer sinal de gravidade. A justificativa é a assimetria de custos — a dose de ceftriaxona dada a mais numa virose é um efeito adverso pequeno e reversível; a dose dada tarde numa bacteremia pneumocócica é irreversível, com mortalidade em torno de 20% nas septicemias abaixo dos 3 anos e evolução possível para óbito em menos de 24 horas. O reconhecimento de sepse instalada e os pacotes iniciais estão em Choque na criança: hipovolêmico, séptico e distributivo, na apostila de Emergências Pediátricas.

Sobre o corte de temperatura, o PCDT nomeia 38,2 °C em menores de 3 anos como valor que pode sugerir bacteremia-sepse. A régua operacional adotada aqui é mais baixa e mais simples: temperatura axilar de 38 °C ou mais, em qualquer idade, aciona o pacote completo — um número único, memorizável e sem exceções erra menos, às três da manhã, que uma tabela por faixa etária. A proteína C reativa não decide nada nessa hora: ela sobe na crise vaso-oclusiva sem infecção, um valor baixo não autoriza suspender antibiótico em quem tem febre e um valor alto não confirma bactéria. Serve para acompanhar a curva depois que a decisão já foi tomada.

3 · O tórax — o exame que se repete, não o que se pede uma vez

O raio X de tórax é o exame que define a síndrome torácica aguda, e a definição do PCDT exige infiltrado pulmonar recente e não atelectásico. Duas consequências práticas saem daí. A primeira é que um raio X normal nas primeiras horas de dor torácica não exclui: a síndrome se instala ao longo de um a três dias, e o infiltrado aparece depois do sintoma — por isso o protocolo recomenda repetir a cada 24 horas em paciente com dor torácica ou crise severa cujo primeiro exame veio normal. A segunda é que a oximetria de pulso vale mais que a ausculta na triagem inicial: saturação abaixo de 93% sinaliza necessidade de terapia intensiva, e o oxigênio suplementar é usado para manter a saturação igual ou acima de 93%, ou dentro de 3% da saturação de base. Registre a saturação basal ambulatorial no prontuário sempre que a conhecer — sem ela, os 3% não podem ser aplicados.

Onde a síndrome torácica aguda mais se confunde é com pneumonia da comunidade, e a distinção não é acadêmica: a régua de tratamento é diferente. Na pneumonia adquirida na comunidade da criança sem doença falciforme, o eixo é antibiótico e observação, com a classificação de gravidade e a etiologia por idade tratadas no capítulo específico. Na síndrome torácica aguda, o antibiótico é apenas uma das quatro frentes — as outras três são oxigênio com alvo definido, controle rigoroso do volume e transfusão quando a hemoglobina cai. Diante de infiltrado novo em paciente com doença falciforme, a hipótese que comanda a conduta é a síndrome torácica aguda, mesmo que uma pneumonia bacteriana esteja embaixo dela.

4 · O que confirma o diagnóstico, e o momento certo de colher

Para quem chega sem diagnóstico, o método recomendado pelo PCDT é a eletroforese de hemoglobina por focalização isoelétrica ou a cromatografia líquida de alta resolução. Ambos quantificam as frações e permitem separar HbSS de HbSC, de HbSbeta-talassemia e do traço. O protocolo registra que, feito por essas técnicas, o diagnóstico é preciso e normalmente dispensa nova eletroforese; a eletroforese convencional em gel de agarose ou acetato de celulose serve para adultos, e um resultado inconclusivo em uma técnica pode ser reavaliado na outra.

Existe uma janela em que esse exame mente, e ela é frequente no pronto-socorro: depois de transfusão. As hemácias do doador carregam HbA e diluem a amostra, e o resultado pode sair compatível com traço, ou até normal, em quem tem a doença. O mesmo problema é conhecido na triagem neonatal e está descrito no capítulo de triagens. A regra que resolve é colher antes de transfundir sempre que houver qualquer margem de tempo; quando não houver, transfunda e anote no pedido a data da transfusão, para que o laboratório saiba o que está lendo.

Colhida a confirmação, o PCDT determina que todos os pacientes sejam fenotipados para ABO, Rh e Kell ao diagnóstico, e que as hemácias transfundidas sejam compatíveis para os sistemas Rh e K. Sem essa fenotipagem, a aloimunização ocorre em cerca de 30% dos indivíduos transfundidos ao menos intermitentemente — e o paciente aloimunizado fica com menos sangue compatível disponível justamente nas emergências futuras. Os testes de confirmação devem ser feitos a partir de seis meses de idade e antes da primeira transfusão de hemácias. A técnica transfusional, os tipos de reação e o manejo delas são assunto do capítulo de terapia transfusional.

A biologia molecular entra depois, e não é obrigatória. O PCDT registra que a detecção molecular de mutação em hemoglobinopatias é necessária apenas quando as metodologias tradicionais não fecham o diagnóstico, e que a análise molecular ajuda a elucidar genótipo, polimorfismos e prognóstico.

5 · O que NÃO pedir, e o preço de pedir

Ferro sérico, ferritina e saturação de transferrina não entram no pacote da crise, e ferro oral não se prescreve empiricamente. O PCDT é direto: a anemia na doença falciforme não decorre de deficiência de ferro, a deficiência é relativamente incomum nessa população, a suplementação não é preconizada a todos e deve ser guiada por ferritina, ferro e transferrina, pelo período suficiente apenas para corrigir o problema. A separação entre anemia hemolítica e anemia ferropriva, com os índices que as distinguem, está no capítulo de anemia ferropriva e investigação de anemias microcíticas.

Ácido fólico também deixou de ser automático. O PCDT restringe a indicação de suplementação a situações de baixa dosagem sérica e a condições específicas, como a gravidez, em que a dose recomendada é 5 mg/dia. Quando a dosagem sérica não estiver disponível, o protocolo aceita orientação alimentar mais meio comprimido de 5 mg — ou seja, 2,5 mg — três vezes por semana até 1 ano de idade ou 10 kg, e um comprimido inteiro de 5 mg três vezes por semana acima disso. O motivo do recuo está escrito: níveis séricos de ácido fólico acima de 17 ng/mL foram associados a aumento de citocinas inflamatórias e queda de linfócitos natural killer, e a recomendação é manter abaixo desse valor.

Tomografia de crânio não é exame de triagem para AVC nesse paciente, e ela também não exclui. O Manual de eventos agudos orienta tomografia sem contraste no episódio agudo, e, se ela vier normal em quem tem déficit, repeti-la em 2 a 4 dias; ressonância se disponível; e arteriografia se a segunda tomografia continuar normal. O ponto para o interno é que o déficit neurológico agudo é diagnóstico clínico, e a conduta de redução da HbS não espera a imagem confirmar. A referência à repetição em 2–4 dias não autoriza aguardar: déficit persistente exige investigação neurológica urgente, incluindo ressonância quando disponível e indicada, em paralelo ao tratamento.

Não se pede eletroforese de hemoglobina para "acompanhar" quem já tem diagnóstico e está em hidroxiureia. O Quadro 5 do PCDT lista a eletroforese como exame da avaliação inicial e marca o monitoramento como não recomendado. O que se acompanha é a hemoglobina fetal, a cada 8 a 12 semanas até atingir a dose de manutenção e a cada 6 meses depois, e o hemograma com plaquetas, reticulócitos e VCM, a cada 2 semanas até a dose de manutenção e a cada 12 semanas depois.

E não se pede exame nenhum antes de tratar a dor. Um paciente com dor 9 de 10 esperando duas horas por um hemograma que não vai mudar a conduta analgésica é um dano que o serviço produziu.

6 · O diferencial — o exame que confirma um é o que exclui o outro

Dor abdominal em crise: o exame que separa a crise vaso-oclusiva abdominal da colecistite aguda é a ultrassonografia, e o dado clínico que a indica é a icterícia à custa de bilirrubina direta com dor em quadrante superior direito. O Manual de eventos agudos define a colecistite pela ultrassonografia e reforça que dores abdominais atribuídas à calculose podem, na verdade, ser vaso-oclusão abdominal — e vice-versa. O que resolve não é escolher uma hipótese, é analgesiar, hidratar e reexaminar em intervalos curtos, com propedêutica de abdome agudo conduzida em paralelo, como discutido no capítulo de dor abdominal no pronto-socorro.

Palidez aguda: o exame que separa sequestro esplênico de crise aplástica é o par baço mais reticulócitos. Baço aumentando com reticulócitos altos é sequestro; baço inalterado com reticulócitos baixos e queda de 2 a 3 g/dL é aplasia por parvovírus B19. As duas dão palidez e prostração e as duas exigem transfusão, mas o volume e a velocidade são diferentes, e o sequestro tem risco adicional de hiperviscosidade quando o baço devolve o sangue represado.

Dor óssea localizada com febre e edema: o que separa crise vaso-oclusiva de osteomielite é a persistência e a topografia. O Manual orienta que dor óssea com edema localizado, restrição de movimento e febre requer avaliação ortopédica, raio X, hemograma, hemocultura e dosagem de proteína C reativa para investigar osteomielite. Quando ela se confirma, o tratamento muda de escala: o PCDT prescreve hidratação, analgesia e antibiótico intravenoso por 4 a 6 semanas, com cobertura para Staphylococcus aureus e Salmonella sp. Salmonella nessa topografia é praticamente uma assinatura da doença falciforme.

Febre com sinal respiratório: o que separa síndrome torácica aguda de pneumonia é o raio X, e a resposta é frequentemente as duas ao mesmo tempo — a conduta segue a régua da síndrome torácica, que é mais exigente. Em criança sem doença falciforme, a abordagem da febre isolada tem outro caminho, descrito no capítulo de febre sem sinais localizatórios no lactente. Cefaleia intensa ou alteração de comportamento têm meningite como diferencial obrigatório, e o exame é o líquor: o PCDT indica a coleta na toxemia ou na suspeita de infecção do sistema nervoso central, e o Manual reforça a punção lombar particularmente abaixo de 1 ano. Quando a hipótese é AVC, o caminho está no bloco de conduta, e a régua do AVC isquêmico do adulto — janela, trombólise, trombectomia — está no capítulo próprio e não se aplica sem adaptação a esta criança.

7 · O que existe no SUS

A eletroforese de hemoglobina consta na tabela de procedimentos do SUS sob o código 02.02.02.035-5 e abrange isofocalização, gel de agarose, acetato de celulose e HPLC. A detecção molecular de mutação em hemoglobinopatias consta sob o código 02.02.11.002-8, e o próprio protocolo registra que ela não é de realização obrigatória. Os testes imuno-hematológicos complementares são realizados pelos hemocentros públicos.

O doppler transcraniano é o exame de prevenção primária de AVC: recomendação anual, dos 2 aos 16 anos de idade. Velocidade aumentada nas artérias cerebrais indica regime crônico de transfusões fenotipadas para reduzir a proporção de HbS. Ao lado dele, a angiorressonância magnética cerebral, código 02.07.01.001-3, faz a triagem seletiva do risco cerebrovascular e detecta o AVC silencioso — lesão de pelo menos 3 mm visível em dois planos ponderados em T2, sem achado no exame neurológico e ainda assim associada a déficits neurocognitivos. Para o interno de ambulatório, perguntar quando foi o último doppler transcraniano e escrever o pedido é uma prevenção de AVC feita em trinta segundos.

O calendário de exames periódicos do PCDT é curto e cabe numa folha: dosagem de vitamina D anual ou semestral, densidade óssea aos 12 anos e a cada três anos depois; exame oftalmológico anual a partir dos 10 anos; creatinina e urina com pesquisa de proteinúria e albuminúria a partir dos 3 a 5 anos de idade, e 4 a 6 vezes ao ano na vida adulta; ecodoppler cardíaco com medida da velocidade de regurgitação tricúspide no fim da adolescência ou na vida adulta, e teste de caminhada de 6 minutos; estudo de HLA dos irmãos a partir dos 5 anos nos pacientes HbSS e HbSbeta0, para identificar quem poderá ser candidato a transplante. Nenhum desses exames é caro, e todos existem na rede.

Fluxo de avaliação imediata, febre, dor e reavaliação.
Investigar e tratar em paralelo. Colher hemocultura antes do antibiótico quando isso não causar atraso; iniciar tratamento indicado prontamente. Iniciar analgesia sem aguardar exames e investigar complicações simultaneamente. Febre e dor podem coexistir, e ambos exigem reavaliação.
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Os quatro relógios e as contas que cabem numa página

Quatro números organizam quase tudo o que se decide numa noite de doença falciforme: o tempo até o primeiro analgésico eficaz, a temperatura que dispara o antibiótico, o volume por hora que se pode infundir sem provocar dano, e o alvo de saturação. O fluxo abaixo é a sequência; os cartões são os quatro números; as tabelas trazem as doses por peso já convertidas em mililitro, as cinco síndromes graves lado a lado, o esquema de hidroxiureia na apresentação que existe e a lista do que esta criança precisa ter em dia. As notas ao final registram três incoerências aritméticas encontradas nos documentos oficiais e a régua adotada em cada uma.

  1. 11 · Meça a dor com escala (faces ou FLACC no pequeno, numérica acima de 7 anos) e anote o número, a hora e o que já foi tomado em casa — sem número anotado não há como titular depois
  2. 22 · Registrar temperatura, saturação e respiração; obter valor em ar ambiente se isso for seguro. Não retirar nem atrasar oxigênio necessário apenas para produzir uma medida basal.
  3. 33 · Dor 7 a 10: morfina agora, sem subir degrau por degrau. Dor 4 a 6: dipirona fixa mais anti-inflamatório, reavaliando em 60 min. Dor 1 a 3: dipirona fixa e hidratação oral
  4. 44 · Temperatura ≥ 38 °C: colha hemocultura, urina, hemograma com reticulócitos, PCR e raio X de tórax — e administre o antibiótico na primeira hora, sem esperar resultado
  5. 55 · Prescreva a analgesia com DOSE FIXA de horário mais RESGATE de 1/6 da diária, com intervalo mínimo escrito, e o laxante na mesma receita
  6. 66 · Individualizar líquidos pelo estado volêmico, ingestão, perdas, função renal e respiração. Na criança euvolêmica incapaz de beber, não ultrapassar manutenção como rotina; descontar a ingestão oral. Bolus não trata dor e fica reservado à indicação de ressuscitação.
  7. 77 · Reavaliar após analgesia, conforme via e protocolo: dor, função, sedação e ventilação. Resposta insuficiente exige rever dose, administração e complicações; não aumentar automaticamente por uma variação menor que dois pontos.
  8. 88 · Somar doses e resgates e discutir ajuste com a equipe, considerando resposta e efeitos adversos. A soma serve ao raciocínio de titulação, não autoriza aumento automático sem reavaliar a criança.
  9. 99 · Antes da alta, percorra a lista das cinco: tórax, baço, reticulócitos, neurológico e priapismo. E confira profilaxia, vacinas, hidroxiureia e doppler transcraniano

A dor referida é a medida

Não existe exame que meça dor de vaso-oclusão. O número que o paciente diz é o dado, e ele é o único. Exame físico normal, sinais vitais normais e paciente conversando são a descrição de uma crise álgica típica, não a prova de que a dor é pequena. O tempo até o primeiro analgésico eficaz é o indicador de qualidade da porta: alvo de 30 minutos da chegada até a primeira dose, e reavaliação com a mesma escala em 15 minutos se endovenosa. Quem prescreve 'dipirona se dor' num paciente com 9 de 10 não subtratou por engano de dose — não iniciou tratamento.

38 °C aciona o relógio de 1 hora

Temperatura axilar de 38 °C ou mais em pessoa com doença falciforme é emergência infecciosa até prova em contrário, em qualquer idade. Colhe-se hemocultura e o antibiótico entra na primeira hora — nos primeiros 30 minutos se houver prostração, toxemia, hipotensão, taquipneia ou queda de saturação. Cultura não segura antibiótico e proteína C reativa não autoriza esperar: ela sobe na crise sem infecção. O risco de meningite pneumocócica é 600 vezes o da população geral e a bacteremia, 300 vezes, com 90% dos casos nos três primeiros anos de vida.

Volume: manutenção, não expansão

A hidratação da crise é de manutenção — pela regra de Holliday-Segar, 100 mL/kg/dia até 10 kg, mais 50 mL/kg/dia entre 10 e 20 kg, mais 20 mL/kg/dia acima de 20 kg — e o teto prático é 1,5 vez esse valor, apenas quando há desidratação documentada. O PCDT determina, na síndrome torácica aguda, manter a volemia normal, evitando hidratação excessiva e bolus intravenoso de rotina pelo risco de induzir edema pulmonar; o Manual de eventos agudos contraindica a hiper-hidratação pelo risco de congestão. Bolus existe para choque e para desidratação, não para dor. O soro que corre depressa na madrugada é o que devolve o paciente na UTI depois de amanhã.

Oxigênio tem alvo, não é conforto

Oxigênio é prescrito por necessidade clínica e com alvo definido. Registrar saturação basal quando seguro, mas acompanhar também frequência respiratória, dor torácica, febre, ausculta e demanda de suporte. A queda da saturação é um alerta, não o único sinal de síndrome torácica. Quem precisa de oxigênio não deve ficar sem ele para que o monitor “mostre” a doença.

Peso e idadeDipirona endovenosa (500 mg/mL) de 6/6 hMorfina endovenosa de 4/4 h — diluir 1 mL da ampola de 10 mg/mL em 9 mL de SF 0,9% (1 mg/mL)Resgate (1/6 da diária), intervalo mínimo de 1 hDiária de morfina e conta do dia seguinte
9 kg — lactente de 10 meses20 mg/kg = 180 mg = 0,4 mL0,1 mg/kg = 0,9 mg = 0,9 mL da solução diluída0,9 mg = 0,9 mL0,9 × 6 = 5,4 mg/dia. Com 3 resgates: 5,4 + 2,7 = 8,1 mg/dia → 1,35 mg (1,35 mL) de 4/4 h
15 kg — pré-escolar de 4 anos20 mg/kg = 300 mg = 0,6 mL0,1 mg/kg = 1,5 mg = 1,5 mL da solução diluída1,5 mg = 1,5 mL1,5 × 6 = 9 mg/dia. Com 3 resgates: 9 + 4,5 = 13,5 mg/dia → 2,25 mg (2,25 mL) de 4/4 h
25 kg — escolar de 8 anos20 mg/kg = 500 mg = 1,0 mL0,1 mg/kg = 2,5 mg = 2,5 mL da solução diluída2,5 mg = 2,5 mL2,5 × 6 = 15 mg/dia. Com 3 resgates: 15 + 7,5 = 22,5 mg/dia → 3,75 mg (3,75 mL) de 4/4 h
55 kg — adolescente de 15 anosteto de 1 g por dose = 2,0 mL0,1 mg/kg = 5,5 mg = 5,5 mL da solução diluída (ou 0,55 mL da ampola pura)5,5 mg = 5,5 mL5,5 × 6 = 33 mg/dia. Com 3 resgates: 33 + 16,5 = 49,5 mg/dia → 8,25 mg (8,25 mL) de 4/4 h
Troca para via oral (solução de morfina 10 mg/mL)dipirona VO 20 mg/kg de 6/6 h — solução de 500 mg/mL, 1 gota = 25 mgmultiplique a dose endovenosa por 3: 0,3 mg/kg por dose, de 4/4 hresgate oral igual à dose fixa oral, intervalo mínimo de 1 hExemplo em 25 kg: 2,5 mg EV → 7,5 mg VO = 0,75 mL da solução de 10 mg/mL

As cinco que matam — o que levanta, o que se faz agora, o que NÃO se faz

SíndromeO que levanta a hipóteseO que se faz agoraO que NÃO se faz
Síndrome torácica agudaDor torácica, tosse, taquipneia, febre ou queda de saturação, com infiltrado pulmonar recente e não atelectásico ao raio X. Costuma surgir 24 a 72 h depois do início de uma crise álgica internada, e o raio X das primeiras horas pode estar normalInternação. Oxigênio para manter saturação ≥ 93% ou dentro de 3% da basal; abaixo de 93%, terapia intensiva. Antibiótico com macrolídeo associado (claritromicina ou azitromicina). Espirometria de incentivo com 10 respirações máximas a cada 2 h enquanto acordado. Broncodilatador e fisioterapia respiratória. Transfusão simples se a hemoglobina cair 1,5 g/dL ou mais da basal; transfusão de troca ou simples de urgência se houver progressão rápidaNão faça bolus de rotina nem hidratação generosa — o PCDT manda manter a volemia normal pelo risco de edema pulmonar. Não transfunda por reflexo quem está com hemoglobina ≥ 9 g/dL e estável. Não trate como pneumonia comum e mande para casa
Sequestro esplênico agudoPalidez que piora em horas, prostração, dor abdominal, baço que cresce rápido, queda intensa da hemoglobina com reticulócitos altos, evoluindo para choque hipovolêmico. Até 30% das crianças pequenas; segunda causa de morte abaixo dos 5 anosEmergência. Acesso venoso imediato e comunicação ao centro de referência. Expansor plasmático 10 a 15 mL/kg, ou cristaloide em alíquotas reavaliadas a cada bolus enquanto o sangue não chega. Transfusão de 10 mL/kg de concentrado de hemácias com alvo de hemoglobina de 6 a 7 g/dL. Repouso absoluto, oxigênio por máscara, elevação dos membros inferioresNão persiga hemoglobina normal: quando o baço devolve o sangue represado, a hemoglobina sobe sozinha e o risco passa a ser hiperviscosidade. Não mande a família para casa sem ensinar a palpar o baço com a marca do abaixador de língua
Crise aplásticaPalidez e fraqueza progressivas com febre variável, tipicamente entre 4 e 10 anos, geralmente por parvovírus B19. Queda de 2 a 3 g/dL da hemoglobina basal com reticulócitos BAIXOS e baço inalteradoInternação e suporte. Transfusão de concentrado de hemácias, 10 mL/kg, com monitorização até a subida dos reticulócitos, que marca a recuperação medular. Evento transitório: o suporte segura o paciente até a medula voltarNão confunda com sequestro — aqui o baço não cresce e o reticulócito despenca. Não repita transfusões depois que os reticulócitos começaram a subir
Acidente vascular cerebralDéficit focal, convulsão, afasia, paresia, confusão ou cefaleia de grande intensidade ou duração. Isquêmico principalmente no HbSS, a partir dos 3 a 4 anos, com incidência de 11% até os 18 anos; hemorrágico mais comum no adulto, cerca de 5% dos casosAvaliação neurológica imediata e tomografia de crânio sem contraste. Exsanguineotransfusão parcial iniciada logo após a estabilização, com alvo de HbS abaixo de 30%; se ela não estiver disponível, transfusão simples. Se a tomografia vier normal com déficit presente, repetir em 2 a 4 dias A referência à repetição em 2–4 dias não autoriza aguardar: déficit persistente exige investigação neurológica urgente, incluindo ressonância quando disponível e indicada, em paralelo ao tratamento.Não aplique a régua do AVC do adulto: trombólise e trombectomia não são a conduta desta criança, e a redução da HbS não espera a imagem confirmar. Não deixe de rastrear o resto da família com doppler transcraniano depois
PriapismoEreção involuntária, prolongada e dolorosa, sem relação com atividade sexual. Frequentemente subdiagnosticado porque o paciente não conta — pergunte diretamente ao adolescente e ao adultoNas primeiras 2 h: hidratação, banhos mornos, caminhada, esvaziamento da bexiga, compressas mornas e analgesia. Acima de 2 a 4 h é emergência: hospitalização, sondagem vesical, hidratação e analgesia intravenosa potente, avaliação urológica e contato com o centro de referência. Se o procedimento urológico não produzir detumescência, transfusão de trocaNão deixe o paciente sem analgesia esperando o parecer urológico ou o resultado de exame. Não trate como constrangimento a ser contornado: cada hora a mais aumenta a chance de necrose, fibrose e disfunção erétil definitiva

Febre — o que o PCDT traz, e o que vai na prescrição

SituaçãoEsquema do Quadro 4 do PCDTO que vai na prescrição, com a contaObservação que muda o resultado
Febre sem foco definido, criança menor de 5 anosAmoxicilina 50 a 100 mg/kg/dia, de 8/8 hCeftriaxona 75 mg/kg/dia de 12/12 h: 9 kg = 675 mg/dia (338 mg por dose); 15 kg = 1.125 mg/dia (562 mg por dose)O Quadro 4 escreve a via endovenosa para a amoxicilina, mas a lista de medicamentos do próprio protocolo traz amoxicilina apenas em cápsula, comprimido e suspensão oral. A ceftriaxona existe em pó para solução injetável de 250 mg, 500 mg e 1 g, cobre pneumococo com resistência intermediária e cabe em duas tomadas
Febre sem foco definido, criança maior de 5 anosPenicilina G cristalina 100.000 a 250.000 U/kg/dia, de 6/6 hCeftriaxona 75 mg/kg/dia de 12/12 h, teto de 4 g/dia: 25 kg = 1.875 mg/dia (938 mg por dose); 55 kg = 4.125 mg/dia, aplicado o teto, 4 g/dia (2 g por dose)A penicilina cristalina é aceitável onde há rotina estabelecida de infusão de 6/6 h. A ceftriaxona é preferida na porta por cobrir cepas com sensibilidade reduzida à penicilina e por permitir a primeira dose enquanto o acesso ainda está sendo garantido
Febre com sinal respiratório ou infiltrado (síndrome torácica aguda)Associar macrolídeo — claritromicina ou azitromicinaCeftriaxona 75 mg/kg/dia de 12/12 h mais azitromicina 10 mg/kg/dia em dose única diária, teto de 500 mg/diaA cobertura de germe atípico não é opcional aqui: Mycoplasma e Chlamydia estão entre os agentes recorrentes da síndrome torácica aguda
Suspeita de meningiteCeftriaxona com penetração no sistema nervoso central, 100 mg/kg/dia, por no mínimo 10 diasCeftriaxona 100 mg/kg/dia de 12/12 h: 9 kg = 900 mg/dia; 15 kg = 1.500 mg/dia; 25 kg = 2.500 mg/diaA punção lombar não atrasa a primeira dose. Toxemia ou qualquer sinal neurológico já indica a coleta de líquor
OsteomieliteHidratação, analgesia e antibiótico intravenoso por 4 a 6 semanas, cobrindo Staphylococcus aureus e Salmonella sp.Cobertura antiestafilocócica associada à ceftriaxona; duração de 4 a 6 semanas, definida com a ortopedia e a infectologiaSalmonella em osso é praticamente assinatura da doença falciforme — a cobertura empírica que ignora esse agente falha justamente aqui
Alergia à penicilina, profilaxia diáriaEstolato de eritromicina 20 mg/kg duas vezes ao dia (40 mg/kg/dia)Suspensão oral de 25 mg/mL ou 50 mg/mL: 9 kg = 180 mg por dose = 7,2 mL da suspensão de 25 mg/mL, de 12/12 hA troca por alergia relatada e nunca confirmada tira do paciente o antibiótico de melhor perfil — vale investigar a alergia com calma no ambulatório, não na crise

Hidroxiureia — a dose por peso na apresentação que existe

PesoDose inicial de 15 mg/kg/diaO que vai na receitaTeto de 35 mg/kg/dia
9 kg (a partir de 9 meses, nos genótipos HbSS, HbSbeta0, HbSbeta+ grave e HbSD Punjab)135 mg/diaComprimido revestido de 100 mg, partível em duas metades de 50 mg: 1 comprimido e meio = 150 mg/dia (16,7 mg/kg), em tomada única, desintegrado em pouca água imediatamente antes do uso315 mg/dia — cerca de 3 comprimidos
15 kg225 mg/dia2 comprimidos de 100 mg = 200 mg/dia (13,3 mg/kg). Subir para 250 mg (2 comprimidos e meio) no primeiro incremento525 mg/dia — 5 comprimidos e meio
25 kg (limite superior da apresentação de 100 mg)375 mg/dia4 comprimidos de 100 mg = 400 mg/dia (16 mg/kg); ou 3 comprimidos e meio = 350 mg (14 mg/kg) em quem tolera pior875 mg/dia — quase 9 comprimidos, o momento de migrar para a cápsula dissolvida
55 kg (acima de 25 kg: cápsula de 500 mg dissolvida em 10 mL de água — 50 mg/mL)825 mg/diaDissolver 2 cápsulas de 500 mg em 20 mL de água filtrada ou destilada e aspirar 16,5 mL com seringa descartável = 825 mg (15 mg/kg)1.925 mg/dia = 38,5 mL da solução de 50 mg/mL
Escalonamento e travas, em qualquer pesoSubir 5 mg/kg/dia a cada 4 semanasSuspender na toxicidade e reiniciar com 5 mg/kg/dia a menos que a dose em uso; se a toxicidade repetir duas vezes na mesma dose, ela passa a ser a dose máxima tolerada daquele pacienteToxicidade: neutrófilos < 1.500/mm³ (< 1.000 abaixo de 1 ano), plaquetas < 80.000/mm³, hemoglobina < 4,5 g/dL, reticulócitos < 80.000/mm³. Depuração de creatinina de 10 a 50 mL/min: 50% da dose; abaixo de 10: 20%

O que esta criança precisa ter em dia — a lista que se confere na alta

ItemRéguaFonte e detalhe que costuma faltar
Penicilina V oral, diáriaDo diagnóstico até os 5 anos. Abaixo de 3 anos ou até 15 kg: 125 mg (200.000 UI, ou 2,5 mL do pó reconstituído a 80.000 UI/mL) de 12/12 h. Acima de 3 anos ou entre 15 e 25 kg: 250 mg (400.000 UI, ou 5 mL) de 12/12 hPCDT, Quadro 3. Alcança pico sérico em 30 minutos em jejum. Na impossibilidade da via oral, benzilpenicilina benzatina intramuscular a cada 4 semanas: 300.000 UI até 10 kg, 600.000 UI entre 10 e 20 kg, 1.200.000 UI acima de 20 kg — e a dose de 300.000 UI exige fracionar o frasco de 600.000 UI, o que precisa estar escrito na prescrição
VPC20 (pneumocócica conjugada 20-valente)A asplenia anatômica ou funcional é indicação da rede de imunobiológicos especiais, portanto VPC20 desde os 2 meses: 3 doses aos 0/2/4 meses mais reforço entre 12 e 15 meses quando iniciada até os 6 meses; 2 doses mais reforço de 7 a 11 meses; 2 doses de 12 a 59 meses. A partir dos 5 anos, 1 doseNota Técnica nº 52/2026, Quadros 1 a 3, que substituiu em maio de 2026 a VPC13 dos Quadros 11.1 e 13 do Manual dos CRIE. Sem o encaminhamento ao CRIE, a criança com doença falciforme fica com o esquema de rotina, de 2 doses e reforço, e não com as 3 doses e reforço da rede especial; quem começou com VPC10 ou VPC13 completa com VPC20 pela transição da nota
VPP23 (pneumocócica polissacarídica 23-valente)Não entra em quem recebeu VPC20. Na caderneta de quem começou antes da nota: duas doses contam como vacinado; com uma dose, a VPC20 pode vir ao menos 1 ano depois dela e 8 semanas depois da última conjugadaNota Técnica nº 52/2026, item 5.3. Até maio de 2026, o Manual dos CRIE (Quadros 11.1 e 13) dava a VPP23 a partir dos 2 anos, 6 a 8 semanas depois da última VPC13, com segunda dose 5 anos depois, uma única vez
MenACWY (meningocócica conjugada ACWY)Asplenia anatômica e funcional, doença falciforme e talassemias: 2 doses com intervalo de 8 semanas, mais 1 dose de reforço a cada 5 anos, por toda a vidaManual dos CRIE, 6ª ed., Quadro 10 — a linha nomeia a doença falciforme por extenso. O reforço quinquenal é a parte que mais se perde na transição do cuidado pediátrico para o adulto
Haemophilus influenzae tipo b, varicela, hepatite A e influenza inativadaAlém das vacinas de rotina, o CRIE indica varicela, hepatite A, influenza inativada anual e as vacinas contra germes capsulados a este grupo. O PCDT reforça influenza anual em todas as idades e a vacina contra covid-19 sem restriçãoManual dos CRIE, 6ª ed., seção 5.1; PCDT, seção 7.1. Em esplenectomia eletiva, vacinar pelo menos 14 dias antes da cirurgia. O calendário de rotina que sustenta tudo isso está no capítulo de vacinação
HidroxiureiaHbSS, HbSbeta0, HbSbeta+ grave e HbSD Punjab a partir de 9 meses; HbSC, HbSD e HbSbeta-talassemia a partir de 2 anos — e a partir de 9 meses nestes últimos quando houver dactilite no primeiro ano, Hb < 7 g/dL ou leucócitos > 20.000/mm³PCDT, critérios de inclusão e casos especiais. Reduz em 40% o risco de óbito. Cerca de 25% dos pacientes não respondem, o que pode motivar suspensão após 2 anos de uso, a critério médico
Doppler transcranianoAnual, dos 2 aos 16 anos de idade. Velocidade aumentada indica programa crônico de transfusão fenotipadaPCDT, seção 7.2.1. É a intervenção de prevenção de AVC mais barata do acompanhamento e a mais esquecida na alta hospitalar
Fenotipagem eritrocitária e estudo de HLAFenotipagem para ABO, Rh e Kell ao diagnóstico, a partir de 6 meses e antes da primeira transfusão. Estudo de HLA dos irmãos a partir dos 5 anos nos HbSS e HbSbeta0PCDT, seções 7.2.1 e 7.2.2. Sem fenotipagem Rh e K, cerca de 30% dos transfundidos se aloimunizam — e passam a ter menos sangue compatível nas emergências seguintes

Percursos que começam em paralelo à analgesia

ApresentaçãoProcurar imediatamenteConduta que não deve esperar
FebreEstado geral, perfusão, foco e história de profilaxia; culturas quando prontamente obtidasAntimicrobiano e avaliação urgente conforme protocolo; bom estado geral não elimina risco.
Dor torácica ou alteração respiratóriaSaturação, trabalho respiratório, ausculta e imagem; comparar com basalInvestigar síndrome torácica, oferecer suporte e comunicar hematologia; radiografia inicial normal não encerra vigilância.
Palidez aguda e baço maiorPerfusão, hemoglobina basal/atual e reticulócitosTratar suspeita de sequestro como emergência; discutir transfusão com cuidado para hiperviscosidade.
Déficit neurológico, convulsão ou alteração de consciênciaGlicemia e exame neurológico com horário de inícioAcionar equipe de AVC/hematologia e organizar imagem e suporte transfusional urgente.
Dor sem sinais de complicaçãoRelato, escala apropriada, plano individual e tratamento prévioAnalgesia rápida, reavaliação e líquidos individualizados; ouvir o paciente.
Priapismo persistente/dolorosoDuração, episódios prévios e sinais de isquemiaAvaliação urológica urgente; não esperar até a alta da crise álgica.

Alta conectada ao cuidado preventivo

ConferirRegistrar uma ação
Plano domiciliar de dor e sinais de alertaDoses e duração compreendidas; serviço para procurar em febre, dor refratária, palidez, dispneia ou alteração neurológica.
Profilaxia e vacinasConferir indicação, doses e pendências na caderneta e encaminhar à rede responsável.
HidroxiureiaRevisar adesão, monitorização e acompanhamento com o centro de referência, sem ajuste autônomo por uma crise isolada.
Doppler transcraniano quando indicadoVerificar última realização e quem agendará o próximo exame.
Escola, rotina e transiçãoOuvir dificuldades de acesso e pactuar retorno com equipe e família.

Aritmética conferida, primeira incoerência. O Quadro 4 do PCDT prescreve, para criança acima de 5 anos, penicilina G cristalina de 100.000 a 250.000 U/kg/dia, e para adultos, 1.000.000 a 5.000.000 UI/dia, com dose máxima de 24.000.000 UI/dia. Uma criança de 20 kg no topo da sua faixa recebe 5.000.000 UI/dia — exatamente o teto da faixa do adulto; uma de 25 kg recebe 6.250.000 UI/dia, 1,25 vez o teto do adulto; e um adulto de 70 kg, pela fórmula pediátrica, receberia de 7 a 17,5 milhões de UI/dia. Além disso, o teto declarado de 24 milhões é 4,8 vezes o topo da própria faixa. Os números só ficam coerentes se a faixa de 1 a 5 milhões de UI for lida como dose, e não como total diário: quatro tomadas de até 6 milhões chegam aos 24 milhões do teto. A régua adotada aqui é a ceftriaxona por peso, com as contas na tabela acima.

Aritmética conferida, segunda incoerência. O Quadro 1 do Manual de eventos agudos de 2009 registra tramadol de 100 a 400 mg por dose, com intervalo de 3 a 4 horas. A 400 mg por dose de 3/3 h chega-se a 3.200 mg/dia, e de 4/4 h a 2.400 mg/dia — de 6 a 8 vezes a dose diária máxima de 400 mg. A linha é lida com segurança apenas como dose diária total, e o tramadol não é o opioide desta indicação: na crise intensa vai morfina, e a comparação de potências está no capítulo de cuidados paliativos.

Aritmética conferida, terceira incoerência. O mesmo manual, na síndrome torácica aguda, prescreve ampicilina para criança de 100 a 200 mg/kg/dia em 4 doses, e para adulto 500 mg em 4 doses — 2 g/dia. Uma criança de 20 kg recebe de 2 a 4 g/dia pela mesma tabela, ou seja, o adulto ficaria abaixo da criança. Na mesma passagem, a cefuroxima infantil aparece com 75 a 150 mg/kg/dia e teto de 1 g/dia, mas 75 mg/kg já ultrapassa 1 g em qualquer criança acima de 13,4 kg: o teto contradiz a própria faixa. As doses de antibiótico adotadas aqui seguem a tabela de febre acima, não essas linhas.

Faixa etária sem linha. O Quadro 3 do PCDT é intitulado como tratamento profilático para crianças de 3 meses a 5 anos, enquanto o texto da seção 7.1 recomenda profilaxia desde o diagnóstico até os 5 anos — e o diagnóstico, pela triagem neonatal, chega nas primeiras semanas de vida. O intervalo entre o resultado do teste do pezinho e os 3 meses não tem linha na tabela. Dentro da tabela sobra outra lacuna: as faixas cobrem até 25 kg, e a criança de 4 anos com mais de 25 kg fica sem linha. A régua adotada aqui é iniciar a penicilina V assim que o diagnóstico chega, na dose de 125 mg de 12/12 h, e manter os 250 mg de 12/12 h acima de 15 kg, sem novo degrau acima de 25 kg.

Divergência entre documentos do próprio Ministério. A seção 7.1 do PCDT recomenda VPP23 e VPC13 após os 2 anos de idade, com reforço após 3 a 5 anos. O Manual dos CRIE, 6ª edição, colocava a asplenia nas indicações de 1 a 8, que recebiam VPC13 desde os 2 meses de idade, com a segunda dose de VPP23 cinco anos após a primeira, uma única vez. Desde 20 de maio de 2026, a Nota Técnica nº 52/2026 substituiu esse esquema, na rede de imunobiológicos especiais, pela VPC20 desde os 2 meses — três doses e reforço quando iniciada até os 6 meses — e sem VPP23 depois. Onde o protocolo e a rede discordam, a régua adotada aqui segue a rede, hoje pela nota: é o documento do programa que dispensa o imunobiológico, é o mais específico sobre esquema e intervalo, é o mais novo, e a diferença tem consequência — a criança que espera os 2 anos para receber a conjugada da rede especial atravessa justamente o período em que 90% das bacteremias acontecem.

Volume no sequestro esplênico. O PCDT recomenda expansor plasmático de 10 a 15 mL/kg e, na ausência dele, 40 a 100 mL/kg de soro fisiológico em 2 horas em etapa rápida. O extremo superior dessa alternativa é 6,7 vezes o volume do expansor — em uma criança de 15 kg, 1.500 mL em duas horas, contra os 1.250 mL que ela receberia em 24 horas de manutenção. Numa doença em que o excesso de volume precipita síndrome torácica aguda, a régua adotada aqui é infundir cristaloide em alíquotas de 10 a 20 mL/kg com reavaliação a cada bolus, tratando os 40 a 100 mL/kg como o volume acumulado possível na ressuscitação de um choque estabelecido, e não como uma prescrição fixa. O sangue, quando chega, resolve o que o cristaloide só empurra.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo acompanha Kauã, 8 anos, 25 kg, HbSS, chegando às 23h40 com dor 9 de 10 em membros inferiores, afebril, saturação 97% em ar ambiente. As doses estão calculadas para o peso dele e convertidas em mililitro da apresentação que existe no hospital público; as contas de conversão para 9, 15 e 55 kg estão na tabela do bloco anterior. Onde a conduta muda por causa de uma das cinco síndromes graves, há um marco próprio.

Registre horário, dose, resposta e efeitos adversos. A necessidade de resgates orienta a revisão da analgesia junto do exame e da tolerância; o plano pode usar doses intermitentes ou analgesia controlada pelo paciente conforme idade, recursos e equipe. Os cálculos do caso não substituem um protocolo de administração e monitorização de opioides.

  1. Minuto 0 a 30 — a porta

    Antes de qualquer exame, três medidas: a dor com escala, a temperatura axilar e a saturação em ar ambiente. Kauã aponta 9 de 10; a mãe deu dipirona às 19h, quatro horas e meia atrás. Dor intensa em crise vaso-oclusiva vai direto ao opioide forte — o PCDT autoriza opioide forte quando não há resposta a analgésicos, anti-inflamatórios e opioides fracos, e ele já não respondeu ao analgésico comum em casa. Não se sobe degrau por degrau numa dor 9 de 10, e essa régua está detalhada no capítulo de cuidados paliativos, que traz a aritmética completa de titulação, resgate e conversão de opioide. A dose de morfina é 0,1 mg/kg endovenosa; para conseguir medir volumes desta ordem, dilua uma ampola de 1 mL (10 mg) em 9 mL de soro fisiológico, obtendo 1 mg/mL. O anti-inflamatório entra junto porque a vaso-oclusão é um evento inflamatório e ele poupa opioide, desde que não haja desidratação instalada nem disfunção renal conhecida — e, se houver, o capítulo de injúria renal aguda explica por que o anti-inflamatório é exatamente a droga que não se dá.

    Prescrição
    • AGORA: morfina 2,5 mg endovenosa lenta, em 5 minutos — 2,5 mL da solução diluída a 1 mg/mL (1 mL da ampola de 10 mg/mL em 9 mL de SF 0,9%)
    • Reavaliar a dor em 15 minutos. Se ainda ≥ 4/10, repetir 1,25 mg (1,25 mL), até três doses de titulação, com frequência respiratória e nível de consciência anotados a cada dose
    • Dipirona 500 mg endovenosa (1,0 mL da solução de 500 mg/mL) de 6/6 h de HORÁRIO — não 'se dor'. A dose anterior foi às 19h, então a próxima é às 1h
    • Ibuprofeno 250 mg via oral (5 mL da suspensão de 50 mg/mL) de 6/6 h de horário, se estiver aceitando via oral, sem sinal de desidratação e com diurese presente
    • Acesso venoso periférico calibroso, e a coleta de sangue aproveitando a punção — nunca uma punção só para exame antes da analgesia
    • Calor local nos membros doloridos, cobertor, ambiente sem ar-condicionado direto: o frio é fator desencadeante e mantenedor documentado
  2. Minuto 0 a 60 — o ramo da febre, quando existe

    Kauã está com 37,4 °C, então este marco não se aplica a ele nesta hora. Aplica-se à criança ao lado, com 38,6 °C, e é o marco em que o interno tem menos margem de erro. Febre de 38 °C ou mais em doença falciforme aciona o pacote completo, e o antibiótico entra na primeira hora — nos primeiros 30 minutos se houver prostração, toxemia, hipotensão, taquipneia ou queda de saturação. O PCDT define o que se colhe; o que o protocolo não diz, e a régua adotada aqui decide, é que nada disso segura a primeira dose.

    Prescrição
    • Hemocultura (dois frascos, sítios distintos quando possível), urocultura e urina tipo I, hemograma com contagem de reticulócitos, proteína C reativa e raio X de tórax em PA e perfil
    • Ceftriaxona 75 mg/kg/dia endovenosa de 12/12 h — em 25 kg, 1.875 mg/dia, ou seja 938 mg por dose, arredondados para 900 mg de 12/12 h; teto de 4 g/dia
    • Se houver dor torácica, tosse, taquipneia ou queda de saturação: associar azitromicina 10 mg/kg uma vez ao dia, teto de 500 mg/dia — em 25 kg, 250 mg/dia
    • Se houver suspeita de meningite ou sepse, iniciar imediatamente tratamento e suporte conforme protocolo, com doses apropriadas ao foco. Punção lombar apenas quando indicada e segura, após avaliar estabilidade e contraindicações; rebaixamento, convulsão ou instabilidade não autorizam punção automática nem espera pelo líquor.
    • Manter a analgesia do marco anterior — febre não substitui analgesia, e dor não tratada piora a evolução respiratória
    • Comunicar o centro de referência do paciente ainda no plantão, não na alta
  3. Hora 1 a 6 — a fixa de horário, o resgate e o volume

    Titulada a dor até 3 de 10 com três doses somando 5 mg, a prescrição deixa de ser condicional e passa a ser de horário. A morfina de liberação imediata tem pico em minutos por via endovenosa e efeito de cerca de quatro horas: a dose fixa é de 4/4 h e o resgate é um sexto da diária, com intervalo mínimo escrito. É aqui também que o volume é decidido, e é o ponto do plantão em que mais dano se produz sem perceber. Kauã pesa 25 kg: a manutenção pela regra de Holliday-Segar é 1.000 mL pelos primeiros 10 kg, mais 500 mL pelos 10 seguintes, mais 20 mL/kg pelos 5 restantes — 1.600 mL em 24 horas, cerca de 67 mL/h. Ele bebeu e urinou pouco, o que autoriza corrigir o déficit; não autoriza correr 200 mL/h a noite inteira.

    Prescrição
    • Morfina 2,5 mg endovenosa (2,5 mL da solução diluída a 1 mg/mL) de 4/4 h de HORÁRIO, começando às 4h — diária de 15 mg
    • Resgate do caso: morfina 2,5 mg EV conforme protocolo, com intervalo mínimo de uma hora e reavaliação antes e depois da dose. Registrar total administrado; resgates repetidos, sedação ou alteração respiratória exigem revisão médica imediata, sem ordem aberta de doses ilimitadas.
    • Manter dipirona 500 mg endovenosa de 6/6 h e ibuprofeno 250 mg via oral de 6/6 h
    • Líquidos: estimativa basal para 25 kg = 1.600 mL/24 h, cerca de 67 mL/h, somando todas as vias. Ajustar à ingestão e à avaliação clínica; prescrever solução e eletrólitos conforme protocolo pediátrico do serviço. Não usar mistura hipotônica fixa ou 1,5 vez a manutenção automaticamente. Se houver déficit, corrigi-lo de modo individualizado, com reavaliação frequente de perfusão, peso, diurese e pulmões.
    • Estimular ingestão oral livre e descontar do volume endovenoso o que ele beber
    • Espirometria de incentivo: 10 respirações máximas a cada 2 horas enquanto acordado, começando agora — reduziu a incidência de síndrome torácica aguda de 42% para 5% em crianças internadas por dor vaso-oclusiva
    • Laxante desde a primeira receita, pela régua do capítulo de cuidados paliativos: a constipação por opioide não desenvolve tolerância e dura o tratamento inteiro. Lactulose por via oral, titulada a partir de 1 mL/kg/dia (25 mL/dia em 25 kg) até uma evacuação amolecida ao dia
    • Náusea ou vômito: avaliar causa e necessidade de antiemético, escolhendo agente pediátrico conforme protocolo e interações. Não prescrever metoclopramida de rotina a toda criança que recebe opioide; revisar a indicação e o risco de reações extrapiramidais.
    • Com saturação de 97% em ar ambiente e sem desconforto, não há indicação de oxigênio apenas pela dor. Se surgir hipoxemia ou necessidade clínica, oferecer suporte e monitorizar resposta; nunca suspender oxigênio necessário para observar uma possível queda da saturação.
  4. Hora 6 a 12 — a reavaliação que decide se a dose está certa

    Reavalie dor, capacidade de respirar profundamente e se movimentar, sedação, frequência e esforço respiratórios e saturação após as doses. Dor persistente pode refletir analgesia insuficiente, dificuldade de administração ou complicação nova. Discuta ajuste de dose, intervalo ou modalidade conforme protocolo, exposição prévia e resposta. Sedação crescente ou ventilação inadequada impedem escalada automática, mesmo que a criança ainda refira dor.

    Prescrição
    • Registrar assim, com hora: 'dor 9/10 às 23h50; morfina 2,5 mg EV às 23h55 e 1,25 mg às 0h10 e 0h25; dor 3/10 à 0h40; FR 20; acordado, orientado'
    • Resgates repetidamente insuficientes: rever a administração e procurar complicação, discutir titulação ou outra modalidade com a equipe de dor/hematologia; não aumentar apenas por uma regra numérica.
    • Sedação excessiva, dificuldade de despertar ou ventilação reduzida são sinais de alerta para toxicidade. Não é necessário esperar miose, sedação e bradipneia simultâneas; sonolência nova ou progressiva precisa ser avaliada.
    • Na depressão respiratória: interromper opioide, acionar ajuda e sustentar via aérea e ventilação; administrar naloxona titulada quando indicada conforme protocolo. Não esperar deterioração extrema. Manter vigilância porque o efeito do antagonista pode terminar antes do opioide.
    • Reavaliar tórax, saturação e necessidade de oxigênio regularmente e diante de qualquer mudança. Se recebe oxigênio, registrar dispositivo e fluxo; medir em ar ambiente somente quando clinicamente seguro.
  5. Dia 1 — somar os resgates e recalcular

    Vinte e quatro horas depois, faz-se a única conta que importa: dose fixa mais todos os resgates é a dose diária real que controlou, ou não controlou, a dor. Kauã recebeu 15 mg fixos e quatro resgates de 2,5 mg, total de 25 mg. Quatro resgates está acima da régua de três, então a fixa sobe. Divide-se a nova diária por seis e arredonda-se para o que a seringa consegue medir. A régua completa de titulação, incluindo o que fazer quando a via oral se perde e como converter entre vias e drogas, está no capítulo de cuidados paliativos e não se reescreve aqui.

    Prescrição
    • Conta: 15 mg fixos + 4 resgates × 2,5 mg = 25 mg/dia → 25 ÷ 6 = 4,2 mg por dose → arredondar para 4 mg
    • Morfina 4 mg endovenosa (4 mL da solução diluída a 1 mg/mL) de 4/4 h → 24 mg/dia
    • Resgate: morfina 4 mg endovenosa se dor ≥ 4/10, intervalo mínimo de 1 hora
    • Reavaliar frequência respiratória e nível de consciência a cada 4 h nas primeiras 24 h depois de cada aumento
    • Hemograma com reticulócitos de controle e comparação com a basal do paciente (a dele é 8,1 g/dL, registrada no cartão do hemocentro)
    • Se a náusea cedeu, revisar e suspender o antiemético que não é mais necessário.
  6. Dia 2 a 3 — a janela em que a síndrome torácica aparece

    É neste intervalo que a crise álgica internada vira síndrome torácica aguda, e a transição costuma ser discreta: um pouco mais de taquipneia, uma tosse seca nova, a saturação que caiu de 97% para 93% e ninguém comparou porque a medida anterior foi feita com cateter de oxigênio. Diante de qualquer um desses achados, o raio X é repetido mesmo que o de ontem estivesse normal, porque o infiltrado aparece depois do sintoma. Se ele surgir, a conduta passa a ser de quatro frentes simultâneas: oxigênio com alvo, antibiótico com macrolídeo, volume contido e transfusão pela queda de hemoglobina.

    Prescrição
    • Raio X de tórax a cada 24 h enquanto houver dor torácica ou crise severa, ainda que o anterior tenha vindo normal
    • Confirmada a síndrome torácica aguda: oxigênio suplementar titulado para saturação ≥ 93% ou dentro de 3% da basal; abaixo de 93% em ar ambiente, acionar a terapia intensiva
    • Ceftriaxona 75 mg/kg/dia endovenosa de 12/12 h mais azitromicina 10 mg/kg/dia (250 mg/dia em 25 kg), uma vez ao dia
    • Reduzir a hidratação endovenosa para o estritamente necessário à manutenção e suspender qualquer bolus de rotina — o risco aqui é edema pulmonar
    • Transfusão simples de concentrado de hemácias, 10 mL/kg (250 mL em 25 kg), se a hemoglobina cair 1,5 g/dL ou mais da basal. Transfusão pode não ser necessária com hemoglobina ≥ 9 g/dL; em progressão rápida com piora respiratória, considerar transfusão de troca ou simples em caráter de urgência
    • Manter a espirometria de incentivo e a fisioterapia respiratória; broncodilatador inalatório se houver broncoespasmo
    • Manter a analgesia: dor torácica não tratada produz respiração superficial, que produz atelectasia, que piora a própria síndrome
    • Programar transfusão de troca por no mínimo 6 meses após a recuperação do episódio, com o centro de referência — indicação e técnica no capítulo de terapia transfusional
  7. Dia 3 — a volta à via oral e o desmame

    Quando a dor está estável em 3/10 ou menos por 24 horas e a criança está aceitando líquidos, converte-se a morfina endovenosa em oral multiplicando a dose por três, e depois se reduz. O Manual de eventos agudos dá as duas regras do desmame: a analgesia regular é mantida por pelo menos 24 a 48 horas após a remissão completa da dor, e um opioide usado por até uma semana pode ser suspenso de forma abrupta. Acima de 7 a 10 dias de uso, o desmame é escalonado — 50% da dose nos dois primeiros dias, 25% nos dois seguintes, e assim por diante.

    Prescrição
    • Conversão de via: 4 mg endovenosos × 3 = 12 mg por via oral. Morfina solução oral 10 mg/mL — 12 mg (1,2 mL) de 4/4 h, mantendo o resgate de 12 mg com intervalo mínimo de 1 h
    • Manter dipirona 500 mg via oral (20 gotas da solução de 500 mg/mL) de 6/6 h e ibuprofeno 250 mg de 6/6 h por mais 48 h
    • Reduzir a morfina em 25% a cada 24 h enquanto a dor permanecer ≤ 3/10, e suspender quando chegar ao equivalente a 0,6 mg/kg/dia — a referência de equivalência analgésica que o próprio Manual usa em crianças
    • Manter o laxante enquanto houver opioide e por 48 h depois
    • Meperidina não entra em nenhum momento: o Manual recomenda expressamente evitá-la, pela baixa potência analgésica, pela frequência de efeitos colaterais e pelo risco de dependência
  8. A alta — a consulta que impede a próxima internação

    A alta da crise álgica é o momento de maior rendimento clínico do internamento inteiro, e é o mais desperdiçado. Antes de assinar, percorra a lista das cinco síndromes com exame dirigido, e depois a lista do que este paciente precisa ter em dia. Nada disso exige exame novo nem parecer: exige cinco minutos e a caderneta.

    Prescrição
    • Exame de alta dirigido: ausculta e saturação em ar ambiente; palpação do baço comparada à marca do abaixador de língua; hemoglobina e reticulócitos comparados à basal; exame neurológico sumário; e a pergunta direta sobre priapismo ao adolescente e ao adulto
    • Receita de casa: dipirona 500 mg via oral de 6/6 h de horário por 48 h, depois se necessário; ibuprofeno 250 mg de 8/8 h por 48 h; morfina solução oral apenas se a alta for com dor residual, com esquema escrito e data de término
    • Penicilina V oral 250 mg (5 mL do pó reconstituído a 80.000 UI/mL) de 12/12 h — conferir se está em uso, e reintroduzir se não estiver; manter até os 5 anos de idade
    • Hidroxiureia 400 mg/dia em tomada única (4 comprimidos revestidos de 100 mg) — conferir se está prescrita, se está sendo tomada e quando foi o último hemograma de controle; a cada 12 semanas na dose de manutenção
    • Conferir e completar a VPC20 no esquema da idade — ou pela transição da Nota Técnica nº 52/2026, se a caderneta já tiver VPC10, VPC13 ou VPP23 —, MenACWY com reforço a cada 5 anos, Hib, varicela, hepatite A e influenza anual, encaminhando ao Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais quando faltar alguma
    • Doppler transcraniano: verificar a data do último e emitir o pedido na alta se completou 12 meses — dos 2 aos 16 anos, anualmente
    • Agendar retorno no centro de referência em até 30 dias e comunicar a unidade básica que acompanha a família
    • Orientar por escrito os sinais de retorno imediato: febre de 38 °C, dor que não cede com a receita, palidez que piora, baço maior que a marca, tosse ou falta de ar, ereção prolongada, fraqueza ou fala arrastada, vômitos e recusa de líquidos
  9. Ambulatório — o que muda a história natural

    As internações que não acontecem se decidem fora do hospital. Três medidas concentram quase todo o ganho: a hidroxiureia, que reduz em 40% o risco de óbito e em cerca de 50% as transfusões e os episódios de síndrome torácica aguda; a profilaxia com penicilina até os 5 anos com o calendário especial do CRIE; e o doppler transcraniano anual, que identifica quem vai ter AVC antes de ele acontecer. Nenhuma das três é cara e nenhuma das três é difícil de prescrever. Todas as três dependem de alguém perguntar.

    Prescrição
    • Hidroxiureia, dose inicial de 15 mg/kg/dia em tomada única, subindo 5 mg/kg/dia a cada 4 semanas até a dose máxima tolerada, com teto de 35 mg/kg/dia — em 25 kg, começar com 400 mg (4 comprimidos de 100 mg) e caminhar até 875 mg/dia se tolerar
    • Monitoramento da hidroxiureia: hemograma com plaquetas, reticulócitos e VCM a cada 2 semanas até a dose de manutenção, depois a cada 12 semanas; dosagem de hemoglobina fetal a cada 8 a 12 semanas até a manutenção, depois a cada 6 meses
    • Suspender a hidroxiureia na toxicidade e reintroduzir 5 mg/kg/dia abaixo da dose em uso; se a toxicidade repetir na mesma dose, ela vira a dose máxima tolerada daquele paciente
    • Adolescente do sexo feminino em hidroxiureia: contracepção obrigatória, e suspensão do medicamento cerca de 3 meses antes de uma concepção planejada. Método de escolha no SUS, pelo menor risco trombótico, é o progestágeno isolado — acetato de medroxiprogesterona 150 mg intramuscular a cada 3 meses, com densitometria óssea antes e a cada dois anos
    • Ácido fólico apenas com dosagem sérica baixa ou em gestação (5 mg/dia). Sem acesso à dosagem: 2,5 mg três vezes por semana até 1 ano ou 10 kg; 5 mg três vezes por semana acima disso
    • Ferro NÃO se prescreve empiricamente: a anemia desta doença não é ferropriva, e a suplementação só entra com ferritina, ferro sérico e saturação de transferrina baixos, pelo tempo necessário para corrigir
    • Rastreios periódicos conforme o calendário do PCDT detalhado no bloco de investigação — oftalmologia, função renal, vitamina D, densitometria, ecocardiograma e estudo de HLA dos irmãos
    • Ajuste de dose por função renal, quando a filtração cair: depuração de creatinina entre 10 e 50 mL/min, 50% da dose de hidroxiureia; abaixo de 10 mL/min, 20%; em hemodiálise, administrar após o procedimento. O raciocínio geral de ajuste está no capítulo de ajuste de dose na disfunção renal e hepática
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Como saber se está funcionando

Numa crise álgica bem conduzida, a prescrição do primeiro dia quase nunca é a do segundo. Saber se está funcionando não é uma impressão geral do plantão: são oito parâmetros com prazo, valor de meta e conduta definida para quando o valor não chega. Sete deles cabem na visita de enfermagem e nenhum depende de exame caro. O erro mais comum não é medir errado, é medir sem comparar — saturação sem a basal do paciente, hemoglobina sem a basal do paciente e baço sem a medida anterior são três números que não decidem nada.

Intensidade da dor, sempre na mesma escala15 minutos após dose endovenosa, 60 minutos após dose oral, e em toda passagem de plantão

Esperado: Queda de pelo menos 2 pontos após cada resgate, e dor de repouso mantida em 3/10 ou menos nas 24 h que antecedem a alta

Se não melhora: Rever dose, horário, administração, exposição prévia e possíveis complicações. Procurar síndrome torácica, infecção óssea, sequestro ou outro evento conforme o exame. Ajustar analgesia com avaliação simultânea de sedação e ventilação, sem automatismo baseado em dois pontos da escala.

Número de resgates nas últimas 24 horasSomado uma vez por dia, na visita da manhã, com as horas anotadas

Esperado: Dois resgates ou menos em 24 h indica dose fixa adequada. A tendência deve ser decrescente do segundo dia em diante

Se não melhora: Resgates frequentes indicam necessidade de revisão do plano pela equipe. Considerar o total recebido, benefício, efeitos adversos e função renal. Necessidade crescente ou mudança do padrão da dor exige procurar complicação e outros mecanismos de dor.

Saturação em ar ambiente e frequência respiratóriaA cada 6 horas durante a internação por dor, e em toda piora de dor torácica ou tosse

Esperado: Saturação igual ou acima de 93% em ar ambiente, ou dentro de 3% da saturação basal registrada do paciente; frequência respiratória dentro do esperado para a idade

Se não melhora: Queda da saturação, aumento da necessidade de oxigênio, taquipneia, febre ou dor torácica pedem investigação de síndrome torácica e suporte adequado, mesmo com radiografia inicial normal. Ventilação reduzida ou sedação excessiva também exigem avaliar toxicidade por opioide, sem esperar miose.

Temperatura axilarA cada 4 a 6 horas, e sempre que houver piora clínica sem explicação

Esperado: Abaixo de 38 °C. Se já em antibiótico, defervescência em 48 a 72 h

Se não melhora: Qualquer pico de 38 °C durante a internação por dor reabre o pacote inteiro — hemocultura, urina, raio X — e inicia antibiótico na primeira hora, ainda que o paciente já esteja internado. Febre que persiste depois de 72 h de antibiótico adequado pede revisão do foco (osteomielite, abscesso, cateter) antes de troca de esquema; a lógica completa está no capítulo de febre no paciente internado.

Hemoglobina e reticulócitos, contra a basal do pacienteNa admissão e a cada 24 h enquanto houver instabilidade; depois, conforme a evolução

Esperado: Variação de menos de 1 g/dL da basal, com reticulócitos altos, que é o padrão da hemólise compensada

Se não melhora: Queda de 1,5 g/dL ou mais com quadro respiratório indica transfusão simples na síndrome torácica aguda. Queda de 2 g/dL ou mais com repercussão hemodinâmica é indicação de transfusão. Reticulócitos que despencam com hemoglobina caindo é crise aplástica, e não sequestro — e o tratamento é suporte transfusional até a medula responder, com a subida dos reticulócitos servindo de marcador de recuperação.

Tamanho do baçoUma vez por plantão em toda criança internada, comparado à medida anterior — e em casa, pela família, com a marca do abaixador de língua

Esperado: Estável em relação à medida anterior

Se não melhora: Baço crescendo com palidez e prostração é sequestro esplênico e é emergência: acesso, expansão em alíquotas reavaliadas, transfusão de 10 mL/kg com alvo de hemoglobina de 6 a 7 g/dL e comunicação ao centro de referência. Depois que o quadro é controlado, o parâmetro inverte de sentido: o baço devolve o sangue represado, a hemoglobina sobe sozinha e o risco passa a ser hiperviscosidade. Recorrência acontece em até 50% de quem teve o primeiro episódio, e a esplenectomia entra em discussão após duas crises ou após um primeiro episódio grave.

Diurese, balanço hídrico e pesoDiurese a cada turno, balanço fechado a cada 24 h, peso diário na criança internada

Esperado: Diurese presente e adequada, balanço próximo do neutro depois da correção inicial do déficit

Se não melhora: Balanço positivo acumulado com ganho de peso em paciente com dor é o caminho conhecido para a síndrome torácica aguda: reduza a infusão para manutenção estrita. Diurese baixa com creatinina subindo pede a abordagem do capítulo de injúria renal aguda e a suspensão do anti-inflamatório. Lembre que a hipostenúria faz este paciente urinar volume normal mesmo desidratado — diurese boa não é prova de volemia adequada.

Hábito intestinal e nível de consciênciaPerguntado e registrado todos os dias enquanto houver opioide

Esperado: Uma evacuação amolecida ao dia; paciente desperto, orientado e capaz de fazer a espirometria de incentivo

Se não melhora: Sem evacuação em 48 h, suba o laxante em vez de esperar — a constipação por opioide não desenvolve tolerância e o fecaloma acrescenta um segundo problema doloroso. Sonolência isolada nas primeiras 48 h é esperada; sonolência que impede a espirometria de incentivo é dose alta demais e, ao tirar a expansão pulmonar, aumenta o risco da própria complicação que a analgesia deveria prevenir.

No ambulatório: hemograma, reticulócitos, VCM e hemoglobina fetal em quem usa hidroxiureiaHemograma a cada 2 semanas até a dose de manutenção, depois a cada 12 semanas; hemoglobina fetal a cada 8 a 12 semanas até a manutenção, depois a cada 6 meses

Esperado: Subida do VCM e da hemoglobina fetal, queda dos episódios álgicos e das internações, com neutrófilos acima de 2.000/mm³, plaquetas acima de 85.000/mm³, hemoglobina acima de 5,3 g/dL e reticulócitos acima de 95.000/mm³

Se não melhora: Sem resposta, revise primeiro a adesão: o próprio PCDT orienta rever e otimizar a administração antes de qualquer outra conclusão, e um VCM que não subiu é o marcador mais honesto de comprimido não tomado. Cerca de 25% dos pacientes não respondem de fato, o que pode motivar a suspensão após 2 anos de uso, a critério médico. Diante de toxicidade, suspenda até a recuperação hematológica e reintroduza 5 mg/kg/dia abaixo da dose anterior.

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Onde o erro machuca

Ler a discrepância entre a dor referida e o exame físico como exagero — e transformar isso em subprescrição

O dano: A dor da vaso-oclusão é isquêmica e intraóssea: ela não produz calor, rubor, edema nem alteração de sinais vitais. Um paciente com 9 de 10 e exame normal é a descrição literal de uma crise típica. Quando o plantonista trata a discrepância como prova de exagero, ele prescreve dipirona condicional para uma dor de opioide, e a dor não tratada gera imobilidade, respiração superficial e mais falcização — a própria alça que leva à síndrome torácica aguda. O dano não é só o sofrimento da noite; é uma internação em terapia intensiva 48 horas depois.

Como pegar a tempo: Adote a régua de que a dor referida é a medida e o exame físico não a corrige. Anote o número, a hora e o tempo até a primeira dose. Se o serviço mede tempo-porta-analgesia como indicador, o problema aparece sozinho no painel; se não mede, ele fica invisível por anos.

Confundir pedir opioide pelo nome com comportamento de dependência

O dano: O paciente que diz 'só passa com morfina' está entregando informação clínica: ele já testou o degrau anterior dezenas de vezes e sabe o que funciona no corpo dele. Rotulado como usuário crônico ou como quem 'já vem sabendo o que quer', ele recebe menos analgesia, espera mais e sai com a certeza de que buscar ajuda piora a situação. O efeito de longo prazo é o paciente que só volta quando já está com síndrome torácica instalada — porque aprendeu que a porta do pronto-socorro custa caro demais.

Como pegar a tempo: Separe as duas perguntas. A primeira é 'esta dor é real e qual a intensidade?', e a resposta é o relato. A segunda é 'existe um problema de uso de substância?', e essa se responde no ambulatório, com o centro de referência, nunca às três da manhã em cima de um paciente com dor. Reconheça também que a dor crônica dessa doença tem componente neuropático e hiperalgesia com opioides, e que o paciente com dor diária de base precisa de plano longitudinal, não de suspeita.

Tratar febre como sintoma a observar

O dano: A asplenia funcional se instala nos primeiros anos e não dá sinal ao exame físico. O risco de bacteremia é 300 vezes o da população geral, o de meningite pneumocócica é 600 vezes, e a septicemia abaixo dos 3 anos tem mortalidade em torno de 20%, podendo matar em menos de 24 horas. Uma criança com 38,5 °C, corada e brincando, é indistinguível de uma virose — e é exatamente esse o problema. Cada hora de antibiótico adiada nesse cenário é irrecuperável.

Como pegar a tempo: Régua fixa: 38 °C em doença falciforme aciona o pacote e o antibiótico na primeira hora, independente do aspecto geral, da idade e da proteína C reativa. Colha hemocultura se der; não colha se isso atrasar. Escreva no prontuário a hora da chegada e a hora da primeira dose, porque é a distância entre as duas que define a qualidade do atendimento.

Correr soro depressa 'para diluir o sangue' e desfazer a crise

O dano: A ideia de que hidratação generosa reverte a falcização não sobrevive à fisiologia: a vaso-oclusão é adesiva e inflamatória, não um problema de viscosidade que se resolve com água. O excesso de volume vai para o interstício pulmonar de um pulmão que já está mal ventilado por dor torácica e respiração superficial, e produz a complicação mais letal da doença. O PCDT determina manter a volemia normal na síndrome torácica aguda, evitando hidratação excessiva e bolus de rotina pelo risco de edema pulmonar; o Manual de eventos agudos contraindica a hiper-hidratação.

Como pegar a tempo: Calcule a manutenção por Holliday-Segar e prescreva em mL/h, por escrito. Trate desidratação documentada com reposição calculada, não com 'soro aberto'. Bolus só existe para choque. Faça balanço hídrico e pese a criança todo dia: ganho de peso durante uma crise álgica é água, e água nesse paciente é risco.

Ligar oxigênio em quem não está hipoxêmico

O dano: Oxigênio sem indicação não trata a dor vaso-oclusiva. Porém, monitorizar não significa retirar suporte necessário: avaliar saturação junto do fluxo de oxigênio, respiração, exame e evolução. Uma necessidade crescente de oxigênio também alerta para piora; a ausência de uma medida em ar ambiente não impede reconhecer síndrome torácica.

Como pegar a tempo: Registre saturação, respiração e eventual dispositivo e fluxo de oxigênio. Obtenha medida em ar ambiente apenas se seguro, sem suspender suporte necessário. Use alvo explícito, interprete a saturação basal e registre qualquer aumento da necessidade de oxigênio.

Prescrever ferro por reflexo diante de uma hemoglobina de 7 g/dL

O dano: A anemia dessa doença é hemolítica, não carencial — o PCDT afirma que ela não decorre de deficiência de ferro e que a deficiência é relativamente incomum nessa população. Quem transfunde recebe cerca de 200 mg de ferro por concentrado de hemácias e não tem via de excreção: a sobrecarga transfusional é uma complicação que o próprio protocolo manda monitorar por ferritina e tratar com quelante. Somar ferro oral adiciona a um estoque que já é o problema, e ainda constipa quem está em opioide.

Como pegar a tempo: Diante de anemia nesse paciente, a pergunta é 'está diferente da basal dele?', não 'está abaixo do valor de referência?'. Ferro só entra com ferritina, ferro sérico e saturação de transferrina baixos, e pelo tempo necessário para corrigir. A separação entre anemia hemolítica e anemia ferropriva, com os índices que as distinguem, está no capítulo de anemia ferropriva e investigação de anemias microcíticas.

Chamar o traço falciforme de 'anemia falciforme leve'

O dano: O rótulo errado produz uma cascata de restrições sem base: criança dispensada de educação física, adolescente convencido de que tem doença hematológica, adulto que esconde o resultado num exame admissional. Pior: quando essa pessoa tiver uma anemia de verdade, ela e o médico vão atribuí-la ao traço e não investigar a causa. O PCDT registra em uma linha que o traço é geralmente assintomático e não caracteriza anemia.

Como pegar a tempo: Use sempre as duas palavras corretas — 'traço' é portador, 'doença' é doente. Explique o que muda de fato: o risco reprodutivo, com 25% de chance de doença em cada gestação se o parceiro também tiver o traço. Ofereça a orientação genética ainda na infância, como o protocolo determina, e escreva o resultado no prontuário e na caderneta com o termo correto.

Dar alta sem procurar as cinco síndromes e sem conferir a lista de manutenção

O dano: A alta é o momento em que a síndrome torácica aguda ainda incipiente vira retorno em 48 horas na terapia intensiva, e em que a criança sem penicilina, sem a VPC20 da rede especial e sem doppler transcraniano volta para casa com o risco intacto. As internações por doença falciforme cresceram 47% em uma década e os óbitos subiram junto: o que falha não é a existência do tratamento, é a passagem do paciente pelo serviço sem que ninguém olhe a lista.

Como pegar a tempo: Cinco minutos antes de assinar: ausculta e saturação em ar ambiente, baço comparado à marca anterior, hemoglobina e reticulócitos contra a basal, exame neurológico sumário e a pergunta direta sobre priapismo. Depois, a lista: penicilina, vacinas do CRIE, hidroxiureia, doppler, retorno agendado e sinais de alarme por escrito, entregues à família.

Aplicar ao AVC da criança falciforme a régua do AVC do adulto

O dano: A conduta que salva neurônio aqui é a redução rápida da HbS para menos de 30% por exsanguineotransfusão parcial, e ela tem prazo escrito: até 2 horas do reconhecimento do déficit, em recomendação forte apoiada em certeza alta. Se a troca não chegar dentro dessas 2 horas e a hemoglobina for igual ou menor que 8,5 g/dL, faz-se a transfusão simples para não atrasar — não a via de trombólise e trombectomia do AVC aterotrombótico do adulto. Uma equipe que gasta a primeira hora discutindo janela e critério de trombólise perde a hora em que a troca resolveria, e o déficit se consolida.

Como pegar a tempo: Diante de déficit focal, convulsão ou alteração de consciência em paciente com doença falciforme: avaliação neurológica imediata, tomografia sem contraste, e acionamento do hemocentro para transfusão de troca em paralelo, sem esperar a imagem confirmar. Tomografia normal com déficit presente não exclui — repete-se em 2 a 4 dias. A conduta do AVC isquêmico do adulto está no capítulo próprio e serve de contraste, não de modelo — com uma ressalva que a prova explora: no adulto com doença falciforme a diretriz não proíbe a alteplase, admite considerá-la pelos critérios habituais, desde que ela não atrase a transfusão. O que não se faz, em nenhuma idade, é gastar a janela discutindo trombólise. A referência à repetição em 2–4 dias não autoriza aguardar: déficit persistente exige investigação neurológica urgente, incluindo ressonância quando disponível e indicada, em paralelo ao tratamento.

Não perguntar sobre priapismo

O dano: O PCDT registra que o priapismo é frequentemente subdiagnosticado, e o motivo é simples: adolescentes e homens adultos não contam espontaneamente para um profissional que não perguntou. Cada hora acima de duas a quatro aumenta a chance de necrose tecidual, fibrose e disfunção erétil permanente. O paciente que sai da emergência com dor controlada e priapismo não relatado volta semanas depois com uma sequela definitiva.

Como pegar a tempo: Pergunte, com privacidade e naturalidade, a todo paciente do sexo masculino a partir da adolescência: 'já teve ereção que não passa e dói?'. Ensine a conduta domiciliar do episódio leve — hidratação, banho morno, caminhada, esvaziar a bexiga, analgesia — e o gatilho de procurar a emergência: duas horas sem resolver.

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O que dizer ao paciente e à família

Boa parte do sofrimento desta doença é produzida na conversa, não na prescrição. A família chega já defendida, porque aprendeu que precisa provar a dor antes de recebê-la tratada, e o profissional chega já desconfiado, porque aprendeu que quem pede opioide pelo nome é problema. As frases abaixo servem para quebrar esse ciclo no primeiro minuto, que é onde ele se decide — e a regra que sustenta todas elas é acreditar em voz alta, o que não é gentileza e sim conduta: é o que permite ao paciente parar de argumentar e começar a colaborar com a avaliação.

"Doutor, ele tem falciforme. Quando é assim, só passa com morfina" — a mãe, na primeira frase, antes de qualquer pergunta

"A senhora está certa, e obrigado por já me dizer. Numa crise forte é morfina mesmo, e eu vou prescrever agora. Só preciso de dois minutos: quanto ele está de dor de zero a dez, que horas começou, e o que ele já tomou em casa. Enquanto a senhora me conta, a enfermagem já vai pegar o acesso."

Não diga: "Calma, vamos ver primeiro os exames" — o exame não vai mudar a decisão analgésica, e a frase confirma à família que ela vai ter de brigar. Evite também "vamos começar com uma coisa mais fraca e ver como ele responde": isso descreve um teste de credibilidade, não um plano de tratamento.

Falando com a criança de 8 anos que está quieta e imóvel na maca

"Kauã, eu sei que dói. Você não precisa chorar pra eu acreditar. Me mostra nesse desenho qual carinha é a sua agora. Vou colocar um remédio pela veia que tira a dor rápido; em quinze minutos eu volto pra perguntar de novo, e se ainda estiver doendo eu coloco mais. Você não vai ficar com dor esperando a manhã."

Não diga: "É rapidinho" e "não dói nada" — a criança com doença falciforme já foi puncionada muitas vezes e sabe que dói. Prometer o que não se cumpre custa a colaboração de todas as próximas vezes.

Orientando a família na alta sobre febre

"Tem uma coisa que eu preciso que a senhora leve daqui decorada. Se ele tiver 38 graus, em qualquer hora, mesmo que esteja brincando, a senhora traz na mesma hora e diz na recepção: 'ele tem doença falciforme e está com febre'. Não é para esperar a manhã e não é para dar só antitérmico em casa. O baço dele não filtra mais as bactérias, e uma infecção pode ficar grave em poucas horas. Vou escrever isso aqui no papel, com o número, para a senhora mostrar a quem atender."

Não diga: "Se piorar, procure atendimento." A frase transfere para a família uma decisão técnica que ela não tem como tomar — nesta doença a criança pode não parecer pior e mesmo assim estar em bacteremia. Dê o gatilho numérico e escreva.

Entregando à família o resultado de TRAÇO falciforme

"O exame mostrou traço falciforme. Isso quer dizer que ele é portador: herdou um gene de um dos pais e o gene normal do outro. Traço não é doença, e ele não vai ter as crises de dor, nem anemia por causa disso, nem precisa de remédio, nem de acompanhamento em hematologia. Pode correr, jogar bola, fazer educação física, tudo. A única coisa que muda é no futuro dele: se um dia ele tiver filhos com alguém que também tenha o traço, existe uma chance de essa criança ter a doença. Por isso vale ele saber disso quando crescer, e vale a gente conversar com a família de vocês agora."

Não diga: "É uma forma leve da doença" e "é uma anemia fraquinha". As duas frases produzem restrição indevida e fazem com que, no futuro, uma anemia real seja atribuída ao traço e deixe de ser investigada. Evite também entregar o resultado por telefone sem espaço para pergunta.

"Isso é quimioterapia? Não vai dar câncer nele?" — sobre a hidroxiureia

"A hidroxiureia é um remédio que também se usa em outras doenças, e entendo o susto. Aqui ele não é quimioterapia: a dose é pequena, é um comprimido por dia, e o que ele faz é aumentar a hemoglobina de bebê, que é a que não deixa a hemácia virar foice. O efeito que se conhece é grande: reduz as crises, reduz as internações por problema no pulmão e reduz em quarenta por cento o risco de morrer por essa doença. Existe risco, e é o de baixar as células do sangue — por isso a gente colhe hemograma de quinze em quinze dias no começo e de três em três meses depois. Se baixar, a gente para e volta com dose menor."

Não diga: "Não tem efeito colateral nenhum." A família descobre a bula e perde a confiança. Evite também minimizar a pergunta com "isso é conversa de internet": o receio é razoável e responder de frente é o que sustenta a adesão por anos.

Diante do colega que escreveu "paciente falciforme, uso crônico de opioide" na triagem

"Ele usa opioide porque a doença dele dói de verdade, e ele sabe qual dose funciona porque já testou as outras. Se a gente ler isso como dependência, ele sai daqui com dor e volta na semana que vem com síndrome torácica. Vamos tratar a dor agora e, se você achar que tem uso problemático por trás, a gente escreve no encaminhamento para o hemocentro avaliar no ambulatório — isso não se decide às três da manhã."

Não diga: Discutir isso na frente da família ou do paciente, e usar as palavras "dependente" ou "manipulador" no prontuário. O prontuário acompanha esse paciente por décadas e cada rótulo escrito nele encurta o atendimento da próxima vez.

Quando não se sabe se a dor de hoje é crise ou é outra coisa

"Vou ser honesto com você: essa dor pode ser a crise, como as outras, mas também pode ser alguma coisa nova no abdome, e por enquanto eu não sei dizer qual das duas é. O que a gente faz nas duas situações é igual: tirar a dor e olhar de novo em uma hora. Se for a crise, ela vai melhorar e você vai para casa. Se for outra coisa, ela vai se mostrar nesse tempo e a gente muda o plano. Eu volto aqui em uma hora, sem falta."

Não diga: "Provavelmente é a sua crise de sempre." A frase fecha a investigação antes da hora e é exatamente como colecistite, apendicite e osteomielite passam despercebidas nesses pacientes. Comunicação de incerteza e de más notícias tem técnica própria, tratada no capítulo de comunicação de más notícias.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quando começa a vacina pneumocócica conjugada na criança com doença falciforme

A partir dos 2 anos, com reforço em 3 a 5 anos

A seção 7.1 do protocolo da doença falciforme recomenda, além do calendário de rotina, a vacina pneumocócica polissacarídica 23-valente e a conjugada 13-valente após os 2 anos de idade, com reforço após 3 a 5 anos. Nessa leitura, a proteção da primeira infância vem do calendário básico com a conjugada 10-valente e da profilaxia diária com penicilina, e as vacinas especiais entram quando a resposta imune amadurece.

PCDT da Doença Falciforme, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º/11/2024, seção 7.1

Conjugada 20-valente desde os 2 meses, pela Nota Técnica nº 52/2026

A Nota Técnica nº 52/2026 dá às indicações da rede de imunobiológicos especiais — entre elas a asplenia anatômica ou funcional e as doenças relacionadas, grupo em que o Manual dos CRIE põe as hemoglobinopatias — a vacina pneumocócica conjugada 20-valente já a partir dos 2 meses: três doses aos 0, 2 e 4 meses e reforço entre 12 e 15 meses quando o esquema começa até os 6 meses; duas doses e reforço de 7 a 11 meses; duas doses de 12 a 59 meses; dose única a partir dos 5 anos. Quem recebeu a VPC20 não recebe mais a polissacarídica 23-valente. Até maio de 2026, o Manual dos CRIE dava a conjugada 13-valente no mesmo desenho e acrescentava a 23-valente a partir dos 2 anos, com segunda dose cinco anos depois.

Nota Técnica nº 52/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS, de 20/05/2026, itens 4 a 6 e Quadros 1 a 3; Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª ed., 2023, seção 5.1 e Quadros 11.1 e 13, estes substituídos pela nota

Como decidir

A diferença não é retórica: 90% das bacteremias dessa população acontecem nos três primeiros anos de vida, exatamente o período que a primeira leitura deixa coberto apenas pela conjugada de rotina. Decida pelo documento do programa que dispensa o imunobiológico e detalha esquema e intervalo, que desde maio de 2026 é a nota técnica — na prática, encaminhe ao CRIE assim que o diagnóstico chegar, para a criança receber a 20-valente no esquema da rede especial desde os 2 meses. Onde o CRIE for inacessível a tempo, não pare a rotina esperando: a conjugada do calendário protege enquanto o encaminhamento anda, e quem começou com a 10-valente ou a 13-valente completa com a 20-valente pela transição da mesma nota. Em nenhum dos cenários a vacina substitui a penicilina profilática diária.

Qual antibiótico empírico na febre sem foco definido

Beta-lactâmico de espectro estreito — penicilina ou amoxicilina

O protocolo estabelece, nos quadros febris sem foco infeccioso definido, a cobertura para germes encapsulados com penicilina ou amoxicilina e clavulanato, e o esquema básico do Quadro 4 traz amoxicilina para menores de 5 anos e penicilina G cristalina para maiores de 5 anos e adultos. O argumento é a ecologia: o pneumococo brasileiro mantém boa sensibilidade à penicilina, e usar cefalosporina de terceira geração em toda febre de doença falciforme pressiona a seleção de resistência numa população que vai precisar de antibiótico muitas vezes ao longo da vida.

PCDT da Doença Falciforme, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º/11/2024, seção 7.3.2 e Quadro 4, esquema básico

Ceftriaxona como escolha inicial

O mesmo Quadro 4 traz a ceftriaxona como esquema alternativo, 50 a 75 mg/kg/dia de 12/12 h na criança e 1 a 2 g por dose no adulto, com teto de 4 g/dia. O argumento a favor de usá-la já na primeira dose é operacional e clínico: cobre pneumococo com sensibilidade reduzida à penicilina e Haemophilus, permite duas tomadas ao dia, e uma dose única pode ser administrada enquanto o acesso ainda está sendo garantido — o que encurta o tempo até o antibiótico, que é a variável que muda mortalidade nessa doença.

PCDT da Doença Falciforme, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º/11/2024, Quadro 4, esquema alternativo

Como decidir

Decida por gravidade e por logística, não por preferência. Criança com toxemia, prostração, hipotensão, taquipneia, queda de saturação, suspeita de meningite ou infiltrado ao raio X: ceftriaxona, sem discussão, e na primeira hora. Criança com bom estado geral, com acesso venoso pronto, rotina estabelecida de infusão de 6/6 h e observação garantida no serviço: a penicilina cristalina cumpre o papel com menos pressão seletiva. Onde a infusão de 6/6 h não é confiável, ou onde o paciente pode ter de ser reavaliado ambulatorialmente, a ceftriaxona é a escolha que não depende de logística. A régua adotada aqui usa ceftriaxona como padrão na porta pelo mesmo motivo pelo qual adota 38 °C como corte: numa doença em que o erro por atraso é irreversível e o erro por excesso é reversível, a régua se calibra para o lado que perdoa.

Até quando manter a profilaxia diária com penicilina

Até os 5 anos, e ponto

O protocolo recomenda profilaxia antimicrobiana desde o diagnóstico até os 5 anos de idade e, no critério de inclusão para penicilina V, estabelece que o paciente deve ter até 5 anos de idade. A justificativa é epidemiológica: a incidência de doença pneumocócica invasiva cai fortemente depois dessa idade, e a vacinação conjugada mudou o cenário. Manter antibiótico diário além disso expõe a efeito adverso e resistência sem benefício demonstrado na maioria.

PCDT da Doença Falciforme, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º/11/2024, seção 7.1 e critérios de inclusão para penicilina V

Além dos 5 anos nos grupos de alto risco

O mesmo documento, na seção 7.1, define grupos de alto risco que incluem crianças com asplenia ou hipoesplenismo até os 16 anos, adultos acima de 50 anos, imunocomprometidos e pessoas com histórico de sepse por bactéria encapsulada, e diz que o fornecimento de profilaxia diária deve ser priorizado a esses pacientes. Prevê ainda flexibilização da idade em quem teve muitos episódios de infecção até os 5 anos e afirma que a tomada de decisão individualizada é recomendada nos pacientes sem características de alto risco.

PCDT da Doença Falciforme, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 1º/11/2024, seção 7.1, parágrafos sobre grupos de alto risco

Como decidir

Decida caso a caso, com quatro perguntas concretas. Houve infecção invasiva prévia por germe encapsulado, ou esplenectomia? Se sim, o risco continua e a profilaxia segue. O calendário especial do CRIE está completo — 20-valente no esquema da idade, ou a transição da nota técnica para quem começou com 13-valente e 23-valente, ACWY com reforço quinquenal, Hib? Se falta alguma peça, não é hora de retirar a proteção antibiótica. Qual é o genótipo? HbSS e HbSbeta0 têm asplenia funcional mais precoce e mais completa que HbSC e HbSbeta+. E, por último, a pergunta que decide na vida real: quanto tempo essa família leva para chegar a um serviço com antibiótico endovenoso às três da manhã? Onde a resposta é 'muito', a suspensão aos 5 anos exige combinar antes, com a família e com o centro de referência, o plano de febre — porque a profilaxia que se retira precisa ser substituída por acesso, e não por sorte.

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O raciocínio, em voz alta

Enfermaria de pediatria, 14h. Denis, 15 anos, 55 kg, HbSS, está internado há dois dias por crise álgica em coluna lombar e coxas. Chegou com 9 de 10, foi titulado com morfina e está em 5,5 mg endovenosos de 4/4 h, com dipirona de 6/6 h. Ontem usou dois resgates; hoje já usou quatro, e o último não fez efeito. Na visita da tarde ele diz que a dor mudou de lugar: agora é no peito, do lado esquerdo, e piora quando respira fundo. Está com 37,9 °C. A saturação no monitor marca 94%, com cateter nasal a 2 L/min que a enfermagem instalou de manhã porque ele estava 'cansado'. O raio X da admissão estava normal.

  1. o que me chama a atenção antes de qualquer exame

    Três coisas mudaram, e nenhuma delas é a dor em si. Primeiro, o padrão da dor migrou de lombar e coxas para torácica pleurítica — dor nova de localização nova em paciente internado não é a mesma crise, é evento novo até prova em contrário. Segundo, o consumo de resgates dobrou em 24 horas com dose fixa estável, e isso quase nunca significa tolerância em dois dias; significa que apareceu outra coisa doendo. Terceiro, e é o que mais me incomoda: alguém ligou oxigênio e ninguém registrou a saturação em ar ambiente antes. Perdi o dado mais útil que eu tinha.

  2. o que eu peço, e por que nessa ordem

    Primeiro desligo o cateter e meço a saturação em ar ambiente, com o paciente sentado, esperando dois a três minutos. É um exame que custa nada e vale mais que o próximo que eu vou pedir, porque só ele me diz se 94% no monitor é o teto dele ou o piso. Depois raio X de tórax, mesmo com o da admissão normal: na síndrome torácica aguda o infiltrado aparece um a três dias depois do sintoma, e é justamente esta a janela. Junto: hemograma com reticulócitos para comparar com a basal dele, que está registrada em 8,4 g/dL, e hemocultura, porque a temperatura de 37,9 °C num paciente com dor e opioide pode estar mascarada. E não deixo a dor esperando o resultado de nada.

  3. como a resposta muda o que eu penso

    Em ar ambiente, ele cai para 91% em três minutos e a frequência respiratória é 28. Isso, sozinho, já muda o diagnóstico de trabalho antes de o raio X ficar pronto: saturação abaixo de 93% em ar ambiente é o critério que o protocolo usa para sinalizar terapia intensiva. O raio X volta com infiltrado novo em base esquerda, não atelectásico. Hemoglobina 6,7 g/dL — queda de 1,7 g/dL da basal dele. Está fechado: síndrome torácica aguda, que é a principal causa de morte nessa doença em qualquer faixa etária e que costuma nascer exatamente assim, dentro de uma internação por dor.

  4. o que eu prescrevo agora, e o que eu tiro da prescrição

    Quatro frentes ao mesmo tempo, e uma subtração. Oxigênio agora com alvo escrito — titulado para manter saturação igual ou acima de 93%, ou dentro de 3% da basal ambulatorial dele — e acionamento da terapia intensiva, porque ele partiu de 91% em ar ambiente. Antibiótico com cobertura de atípico: ceftriaxona 2 g endovenosa de 12/12 h, respeitando o teto de 4 g/dia, mais azitromicina 500 mg uma vez ao dia. Transfusão simples de concentrado de hemácias, porque a queda de 1,7 g/dL passa do gatilho de 1,5 g/dL — 10 mL/kg seriam 550 mL, mas o teto por transfusão é 300 mL, então transfundo uma bolsa e reavalio. E espirometria de incentivo com dez respirações máximas a cada duas horas enquanto acordado, que é a medida mais barata da lista e a que mais previne piora. A subtração é o soro: reduzo a hidratação endovenosa para manutenção estrita e suspendo qualquer previsão de bolus, porque a partir de agora volume é a substância que pode matá-lo.

  5. o que eu faço com a dor, que continua lá

    Mantenho analgesia eficaz, porque dor e respiração superficial contribuem para atelectasia. Ao mesmo tempo, reavalio sedação e ventilação para ajustar com segurança o opioide. Hipoxemia não determina por si só suspender toda analgesia, mas também não justifica manter automaticamente a mesma dose. Se houver dificuldade para despertar, hipoventilação ou sedação excessiva, interrompo a escalada, ofereço suporte e discuto ajuste imediato. A ausência de miose não exclui toxicidade.

  6. o que eu deixo combinado para depois

    Duas coisas ficam escritas na evolução para o plantão da noite e para a alta. Primeira: raio X a cada 24 horas enquanto persistir dor torácica, e saturação sempre aferida em ar ambiente, com o valor de ar ambiente registrado ao lado do valor com oxigênio. Segunda: após a recuperação, este paciente entra em programa de transfusão de troca por no mínimo seis meses, o que precisa ser pactuado com o hemocentro antes da alta e não depois — e é também o momento de revisar se a hidroxiureia dele está na dose máxima tolerada, porque um episódio de síndrome torácica aguda é justamente o desfecho que ela reduz pela metade.

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Faça você

Pronto-socorro infantil, 6h da manhã. Alice, 4 anos, 15 kg, doença falciforme HbSS diagnosticada na triagem neonatal, em uso de penicilina V. Chegou há 40 minutos trazida pela avó, que diz que ela ficou 'molinha' desde a madrugada e não quis mamadeira. Temperatura axilar 38,6 °C. Está pálida, mais do que o habitual segundo a avó, taquicárdica a 160, com tempo de enchimento capilar de 3 segundos e pressão 84 por 48. Saturação 96% em ar ambiente, sem esforço respiratório. O abdome está distendido e doloroso à palpação do quadrante superior esquerdo, onde se palpa uma massa que a avó diz que 'nunca foi desse tamanho' — o abaixador de língua marcado do hemocentro, que ela carrega na bolsa, mede metade do que se palpa agora. O hemograma colhido na entrada acabou de voltar: hemoglobina 4,1 g/dL (basal 8,2), reticulócitos 14%, plaquetas 96.000.

  1. reconheço o padrão

    Baço crescendo depressa, palidez aguda, hipotensão com enchimento capilar lento e hemoglobina despencando com reticulócitos ALTOS. Reticulócito alto quer dizer medula funcionando: não é aplasia. O sangue não desapareceu, foi represado — é sequestro esplênico agudo, com choque hipovolêmico instalado, na faixa etária e no genótipo em que ele é a segunda causa de morte.

  2. reconheço que há dois problemas, não um

    Junto com o sequestro há febre de 38,6 °C numa criança asplênica de 4 anos. Infecção viral precede a maioria dos episódios de sequestro, e bacteremia pneumocócica é a causa que mata em menos de 24 horas. As duas coisas correm em paralelo desde o primeiro minuto: nenhuma espera a outra.

  3. sei o que NÃO fazer

    Não vou prescrever 40 a 100 mL/kg de soro fisiológico em duas horas porque a alternativa está escrita assim no protocolo — em 15 kg isso seria de 600 a 1.500 mL, e o extremo superior é mais volume em duas horas do que a manutenção dela em um dia inteiro, numa doença em que o excesso precipita síndrome torácica aguda. Também não vou perseguir hemoglobina normal com transfusão: quando o baço libera o sangue represado, a hemoglobina sobe sozinha, e o risco vira hiperviscosidade. E não vou esperar o resultado da hemocultura para o antibiótico.

  4. o que eu escrevo na prescrição agora — complete

    Duas vias, o volume inicial e a forma de reavaliá-lo, o hemocomponente com o volume em mililitros e o alvo de hemoglobina, o antibiótico com dose em miligramas e intervalo, as medidas de suporte, o destino da paciente e as duas coisas que precisam estar combinadas antes de qualquer alta futura. Escreva a prescrição inteira antes de ler a resposta.

Ver como fecharíamos

Dois acessos venosos periféricos calibrosos, com sangue colhido na punção para hemocultura, tipagem e prova cruzada — e o hemocentro acionado na mesma ligação. Expansão com cristaloide em alíquota de 10 a 20 mL/kg, ou seja, 150 a 300 mL de soro fisiológico 0,9% em bolus, reavaliando enchimento capilar, frequência cardíaca e pressão ao fim de cada alíquota, sem prescrever de saída um volume total fixo: o cristaloide aqui é ponte até o sangue, não tratamento. Expansor plasmático 10 a 15 mL/kg (150 a 225 mL) onde ele estiver disponível, que é a primeira escolha do protocolo. Transfusão de concentrado de hemácias 10 mL/kg = 150 mL, com alvo de hemoglobina entre 6 e 7 g/dL, e não mais que isso — porque a soma do que se transfunde com o que o baço vai devolver é o que produz hiperviscosidade. Antibiótico na primeira hora, sem esperar cultura: ceftriaxona 75 mg/kg/dia endovenosa de 12/12 h, ou seja 562 mg por dose, arredondados para 550 mg de 12/12 h. Suporte: repouso absoluto, oxigênio por máscara, elevação dos membros inferiores, monitorização contínua, jejum até estabilizar. Coleta do restante do pacote de febre — urina tipo I e urocultura, proteína C reativa, raio X de tórax — sem que nada disso atrase antibiótico ou sangue. Destino: terapia intensiva pediátrica, pela hipotensão e pela velocidade com que o quadro pode reincidir nas primeiras horas. E duas combinações antes de qualquer alta futura: a avó sai com um novo abaixador de língua marcado no tamanho atual do baço, com a orientação de retornar imediatamente se ele passar da marca; e a discussão de esplenectomia com o centro de referência fica registrada, porque a recorrência chega a 50% depois do primeiro episódio e este já foi grave.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Febre de 38,6 °C em criança com HbSS exige avaliação imediata pelo risco de infecção invasiva, mesmo que esteja brincando e use penicilina. Colher hemocultura, hemograma com diferencial e reticulócitos e iniciar prontamente antibiótico parenteral apropriado, sem esperar resultados. Pesquisar infecção urinária quando houver suspeita e solicitar radiografia diante de sintomas ou sinais respiratórios, hipoxemia ou outra indicação; não são exames obrigatórios em toda febre isolada. Vacinação e profilaxia reduzem, mas não eliminam o risco. Observação, internação ou eventual seguimento ambulatorial dependem da avaliação de risco e da possibilidade de retorno, não apenas da aparência inicial ou PCR.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Simule o primeiro atendimento de dor intensa: acolha o relato, confira o plano individual, prescreva com supervisão e reavalie dor, função, sedação e ventilação. Em seguida, acrescente febre, aumento do baço ou queda da saturação ao mesmo caso e explique como o destino muda sem retirar a analgesia do plano.

Em 30 dias

Revise uma internação real ou simulada do início à alta: doses e respostas, balanço de líquidos, investigação das complicações e transição para tratamento domiciliar. Verifique se o retorno ao centro de referência, a prevenção de infecções e os exames de vigilância ficaram com responsáveis e datas. Discuta com a equipe um obstáculo de acesso relatado pela família.

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Agora atenda

Agora atenda: onze e quarenta da noite, pronto-socorro infantil. Menino de 8 anos com anemia falciforme, dor em membros inferiores desde a tarde, classificado como verde na triagem. A mãe abre a conversa dizendo que só passa com morfina e que a última vez esperaram três horas. Ele está quieto, afebril, saturando 97% em ar ambiente. Meça a dor, decida a primeira dose e o intervalo, calcule o volume por hora, e diga à mãe o que vai acontecer nas próximas duas horas.

Anemia falciforme e traço falciforme – Doença falciforme: a crise, a febre e as síndromes que matam — Internato | OsceLabs