PediatriaHematologia Pediátrica

O que está escrito no vidro não é a dose

Anemia ferropriva na infância: rastreio, diagnóstico e tratamento

A dose deve estar escrita em ferro elementar. Aprenda a interpretar os exames, converter a dose pela concentração do produto, verificar a resposta e repor os estoques sem duplicar a profilaxia.

Fontes deste capítulo

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Nutrologia; Departamento Científico de Hematologia e Hemoterapia. Recomendações para o tratamento e prevenção da deficiência de ferro e anemia ferropriva em lactentes – Atualização 2026. Diretrizes da SBP nº 32, 17 de março de 2026. Rio de Janeiro: SBP, 2026. 18 f. ISBN 978-85-88520-69-1.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Promoção da Saúde. Caderno dos programas nacionais de suplementação de micronutrientes. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. 52 p. ISBN 978-65-5993-779-0.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 252 p. ISBN 978-65-5993-710-3.

Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 604, de 10 de fevereiro de 2022. Dispõe sobre o enriquecimento obrigatório do sal com iodo e das farinhas de trigo e de milho com ferro e ácido fólico destinados ao consumo humano. Diário Oficial da União nº 33, 16 fev. 2022, Seção 1.

Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Gerência-Geral de Alimentos. Enriquecimento de farinhas de trigo e de milho com ferro e ácido fólico: perguntas e respostas. 2. ed. Brasília: Anvisa, 13 de novembro de 2018. 35 perguntas.

01

Responda antes de ler

Criança de 14 meses em tratamento de anemia ferropriva há dois meses. A hemoglobina inicial era 8,8 g/dL e hoje é 11,6 g/dL. A mãe pergunta se pode parar o remédio. Qual é a conduta e a sua razão?

02

O paciente que você vai ver

São 8h40 de uma terça-feira, e a sala 2 do posto tem a janela aberta para uma rua que só ganhou asfalto até a esquina. É dia de puericultura e a agenda tem dezessete nomes, quase todos de menos de dois anos. A médica da equipe está na sala ao lado com uma reunião de matriciamento que vai consumir a manhã inteira, e a preceptora Otávia passou aqui às oito para dizer que você fica com a fila e chama quando precisar. Na mesa há uma balança pediátrica que alguém já tarou, um estadiômetro de parede e uma pilha de cadernetas.

A quarta ficha é de Heloá Dolabela, 11 meses. Ela entra no colo da mãe, Marivânia, que senta e faz três coisas em sequência: coloca a caderneta na mesa, tira do bolso um papel dobrado em quatro, e diz que veio porque a menina está fraca. Não é a queixa que a ficha traz. A ficha traz consulta de rotina.

O papel dobrado é um hemograma de dez dias atrás, feito na unidade de pronto atendimento numa noite de febre e vômito. Hemoglobina 9,4 g/dL, volume corpuscular médio 68 fL, hemoglobina corpuscular média 22 pg, amplitude de distribuição dos eritrócitos 17,4%, plaquetas 466 mil. Ninguém explicou o exame: o plantonista tratou a gastroenterite, orientou sinais de alarme e mandou procurar a unidade básica. É o que a mãe está fazendo.

Heloá pesa 9,2 quilos e está no canal em que sempre esteve. Sorri, engatinha na maca, pega o estetoscópio e leva à boca. Não parece doente, e esse é o primeiro fato do capítulo: a criança com deficiência de ferro quase nunca parece doente. A palidez que a mãe percebeu está na conjuntiva e na palma, e você só a enxerga porque ela avisou.

A caderneta responde três perguntas antes de você fazer qualquer uma. O peso ao nascer foi 3.180 g, a termo. O aleitamento foi exclusivo até quatro meses e meio, quando a mãe voltou a trabalhar. E a seção de registro da suplementação de vitamina A, ferro ou outros micronutrientes está em branco: nenhum sulfato ferroso foi entregue nesta unidade nos últimos cinco meses, embora Heloá tenha vindo às consultas.

A quinta ficha da manhã é de um menino de 3 anos que a mãe trouxe porque está comendo terra do vaso da varanda. A sexta é de um lactente de 8 meses que nasceu com 1.780 g e teve alta da unidade neonatal com uma receita que ninguém renovou. Os três casos são a mesma doença e três condutas diferentes, e a diferença não está no diagnóstico: está na dose, no tempo e em quem precisava de exame antes.

Nenhum dos três é difícil de diagnosticar. O que é difícil é escrever a receita certa, e é aí que este capítulo vai insistir. Existem três apresentações de sulfato ferroso na rede pública, com concentrações que diferem por um fator de cinco entre si; existem conta-gotas diferentes para a mesma concentração; e existe um rótulo que declara a massa do sal onde o prescritor precisa da massa do ferro. Uma dose errada aqui não produz evento adverso agudo nem alarme: produz três meses de remédio que não funciona, uma família que perde a confiança e um prontuário que registra falha terapêutica onde houve erro de conta.

Antes de chamar a Heloá para a maca, você faz o que a manhã inteira vai depender: pergunta o que ela bebe, quantas vezes por dia, e o que come no almoço. A mãe responde sem hesitar — mamadeira de leite de vaca cinco ou seis vezes ao dia, papa de legumes uma vez, carne raramente, porque a menina cospe. É a história inteira em duas frases, e ela vale mais que qualquer parte do exame físico que você vai fazer em seguida.

03

Quem adoece disso

O inquérito que mede isso no Brasil é o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil, o ENANI-2019, amostra domiciliar probabilística de crianças menores de 5 anos em 123 municípios de todas as unidades da federação, com coleta entre fevereiro de 2019 e março de 2020. A prevalência de anemia entre 6 e 59 meses foi de 10,1%. Entre 6 e 23 meses foi de 19,0%; entre 24 e 59 meses, de 5,6%. A idade, sozinha, mais que triplica o risco.

O mapa importa tanto quanto a idade. Entre menores de 2 anos, a prevalência de anemia foi de 30,3% na Região Norte, 19,2% no Centro-Oeste, 18,8% no Nordeste, 17,6% no Sudeste e 13,8% no Sul. E o gradiente econômico é limpo: crianças no primeiro quinto do Indicador Econômico Nacional tiveram 13,1% de anemia contra 5,0% no quinto superior. Uma criança do Norte, de família no quinto inferior, com 11 meses, não está no mesmo problema que uma criança de 4 anos do Sul.

Só uma parte dessa anemia é ferropriva. O ENANI-2019 mediu ferritina junto com hemoglobina e proteína C reativa e chegou a 3,5% de anemia ferropriva entre 6 e 59 meses, e 7,9% entre 6 e 23 meses. Ou seja: entre os lactentes anêmicos, menos da metade tinha o padrão de ferro deficiente pelos critérios adotados. Essa distância entre anemia e anemia ferropriva é o motivo pelo qual este capítulo insiste em quem precisa de ferritina antes de ferro.

Essa distância tem consequência de conduta, e é a razão de este capítulo insistir em ferritina. Se em cada dez lactentes anêmicos menos da metade tem o padrão de ferro deficiente, tratar todos com ferro significa tratar mais da metade sem indicação — e, pior, deixar de procurar o que causa a anemia dos outros. A distribuição geográfica da ferropriva acompanha a da anemia sem coincidir com ela: 6,5% na Região Norte contra 3,5% no país entre 6 e 59 meses. Onde a prevalência é alta, o valor preditivo de presumir ferropenia sobe; onde é baixa, presumir custa caro.

O país melhorou, e vale saber quanto. O Ministério da Saúde registra que a prevalência de anemia entre menores de 5 anos recuou de 20,9% em 2006 para cerca de 10% em 2019 — praticamente metade em treze anos. O mesmo movimento aparece na deficiência de vitamina A, que caiu de 17,4% para 6,0% no mesmo período. É uma queda grande o bastante para mudar a lógica dos programas: o próprio Ministério declara que, para algumas ações, passa a ser possível redirecionar o público-alvo do universal para o focalizado. E há um pedaço que não caiu junto — entre gestantes brasileiras, doze estudos reunidos entre 2008 e 2019 estimam anemia em 17,3%, número que pertence ao capítulo de anemia na gestação, em Obstetrícia, e que aparece aqui só porque a reserva de ferro do bebê começa a ser construída ali.

Duas políticas nacionais tentam mudar esses números por caminhos diferentes. A primeira é passiva e atinge todo mundo: desde 2002 o Brasil obriga o enriquecimento das farinhas de trigo e de milho com ferro e ácido fólico, hoje pela RDC nº 604/2022, que fixa de 4 a 9 mg de ferro por 100 g de farinha e admite quatro compostos — sulfato ferroso, sulfato ferroso encapsulado, fumarato ferroso e fumarato ferroso encapsulado. O ferro eletrolítico e o ferro reduzido, permitidos pela norma de 2002, foram excluídos por baixa biodisponibilidade, e a própria Anvisa registra que o uso desses compostos explica em parte o baixo impacto que a estratégia teve sobre a prevalência de anemia nos seus primeiros quinze anos.

A segunda política é ativa e atinge quem vai à consulta. O Programa Nacional de Suplementação de Ferro entrega sulfato ferroso na unidade básica para crianças de 6 a 23 meses, gestantes, puérperas e mulheres no pós-aborto. Ao lado dele existe o NutriSUS, que entrega sachês com quinze vitaminas e minerais, entre eles 10 mg de ferro, para a mesma faixa de 6 a 23 meses — e os dois não podem ser associados: a criança recebe um ou outro. Quem decide qual, na prática, é a gestão municipal, e o interno precisa saber que existem os dois para não somar sem perceber.

As duas explicam por que a prevalência caiu e por que ela parou de cair onde parou. A farinha entrega pouco e entrega a quem come farinha — 30 g por dia, no teto da faixa legal, são 2,7 mg de ferro não heme, dos quais uma fração pequena é absorvida, e o lactente de 9 meses não come 30 g de farinha. A suplementação entrega o suficiente, mas só chega a quem comparece e recebe, e o esquema em ciclos cobre seis meses dentro de uma janela de dezoito. A caderneta em branco da Heloá é o ponto exato em que a política nacional deixou de funcionar, e é um ponto que o interno consegue consertar em quatro minutos de consulta.

04

Por que acontece o que acontece

Não existe, no organismo, uma torneira de saída para o ferro. Perde-se ferro por descamação de pele e de mucosa intestinal e por sangramento, e essas perdas não são ajustáveis. Tudo o que regula o estoque acontece na porta de entrada: o quanto se absorve no duodeno e no jejuno proximal. Essa assimetria explica por que a deficiência de ferro é a carência nutricional mais fácil de instalar numa fase de crescimento rápido, e por que o tratamento é lento — repor um estoque pela absorção intestinal leva meses, não semanas.

O ferro da dieta chega em duas formas com destinos diferentes. O ferro heme, de carne bovina, suína, aves e peixes, é minoria na dieta e maioria no que se absorve: entra no enterócito como complexo heme e é liberado lá dentro pela heme-oxigenase. O ferro não heme, de vegetais e de farinha fortificada, é a maior parte do que se come e chega na forma férrica, precisando ser reduzido a ferrosa por redutases da borda em escova para então atravessar pelo transportador de metais divalentes. Cada passo a mais é um passo que a dieta pode atrapalhar.

Atrapalham a absorção os fitatos dos cereais e leguminosas, os polifenóis do chá e do café, o excesso de cálcio, as fibras, os fosfatos e as proteínas do leite e da soja. Favorecem o ferro heme, o ácido ascórbico das frutas cítricas e a acidez gástrica preservada. É por isso que a mesma quantidade de ferro no prato rende diferente conforme o que está no prato junto: o feijão com laranja não é folclore, é química de borda em escova.

Dentro do enterócito o ferro tem dois destinos: virar ferritina e ficar, ou sair para o plasma pela ferroportina da membrana basolateral. Quem decide é a hepcidina. Produzido no fígado, esse hormônio acopla-se à ferroportina e manda internalizá-la e destruí-la. Com hepcidina alta, a porta de saída se fecha: menos ferro absorvido, menos ferro mobilizado do estoque. Hepcidina baixa abre. É um único interruptor governando entrada e mobilização ao mesmo tempo.

A inflamação eleva a hepcidina. Esse é o ponto em que a fisiologia vira problema de exame: a mesma infecção que trouxe a criança ao pronto-socorro sequestra o ferro dentro do macrófago e do enterócito, produzindo uma deficiência funcional com estoque cheio. Como a ferritina é também uma proteína de fase aguda, ela sobe pela inflamação enquanto o ferro disponível para a medula cai. Estando a ferritina entre os reagentes de fase aguda, ela acompanha a inflamação para cima. Não mente sobre o estoque; ela mente sobre a disponibilidade, e é a disponibilidade que faz hemoglobina.

A reserva com que a criança nasce foi construída no terceiro trimestre e acrescida pelo sangue que a placenta ainda transfere depois do nascimento — daí o peso do clampeamento do cordão após o primeiro minuto de vida. Essa reserva, num recém-nascido a termo de peso adequado, sustenta o crescimento até por volta dos seis meses. Prematuridade e baixo peso encurtam o prazo por dois motivos somados: a reserva acumulada é menor e a velocidade de crescimento pós-natal é maior. Por isso o relógio da profilaxia desse grupo começa aos 30 dias, e não aos seis meses.

A deficiência se instala em três estágios, e o hemograma só enxerga o terceiro. Primeiro esvazia o estoque, e apenas a ferritina cai. Depois o ferro circulante fica insuficiente para a eritropoiese: ferro sérico cai, capacidade total de ligação sobe, saturação da transferrina cai — e a hemoglobina ainda está normal. Só então aparecem microcitose, hipocromia e anemia. Uma criança com hemoglobina normal pode já ter meses de carência atrás de si, e é essa criança que perde neurodesenvolvimento sem aparecer em nenhum exame de rotina.

O ferro é cofator da mielinização, da síntese de neurotransmissores e do metabolismo energético neuronal. A deficiência nesse período aparece como menos atenção, irritabilidade, menos iniciativa para explorar o ambiente e desempenho inferior em linguagem, memória e funções executivas. Parte desse prejuízo pode persistir depois que os parâmetros hematológicos voltam ao normal — o hemograma corrigido não é prova de que tudo foi corrigido. A leitura fina do desenvolvimento e dos marcos que se espera em cada idade pertence ao capítulo de Puericultura; aqui basta saber que o desfecho que justifica tratar não é o número da hemoglobina.

Dois conta-gotas com gotas diferentes sobre recipientes laboratoriais.
Comparação visual sem escala quantitativa: conta-gotas diferentes podem produzir gotas de tamanhos diferentes. Os recipientes são laboratoriais, não utensílios de administração. Conferir concentração de ferro elementar e equivalência de gotas do produto; não aplicar conversão universal nem medir medicamentos em colher doméstica.
05

Como se apresenta de verdade

Não há apresentação clássica. A deficiência de ferro se apresenta como uma criança que veio por outra coisa, e as seis situações abaixo cobrem quase tudo o que entra na porta de uma unidade básica e de um pronto-socorro infantil.

O que muda entre elas não é o diagnóstico — é a pressa, a necessidade de exame antes de tratar e o destino depois da consulta.

1 · A criança de puericultura que não parece doente

Esta é a versão mais frequente do problema, e a que mais escapa, porque a consulta tem outro roteiro. A criança cresce na curva, brinca, está com o calendário vacinal em dia, e a única pista é uma frase da mãe: está mais parada, dorme mais, ficou branquinha. Palidez cutaneomucosa, fadiga, apatia, irritabilidade e menor tolerância ao esforço são os sinais que a literatura lista, e todos eles são sinais que um cuidador percebe antes do médico, porque o cuidador tem uma linha de base e você não.

O exame físico ajuda pouco, e o quanto ele ajuda depende de onde você olha. Conjuntiva palpebral inferior, leito ungueal e palma da mão dizem mais que a face, que varia com fototipo, temperatura e iluminação da sala. Palidez detectável a olho nu costuma significar anemia já estabelecida — a ausência dela não exclui nada, e é por isso que a decisão de investigar se apoia em fator de risco, e não em impressão de cor.

Nesse cenário a pergunta que muda a conduta não é sobre o sintoma: é sobre três exposições. O que essa criança bebe, o que ela come de fonte animal, e se ela recebeu ferro. Leite de vaca no lugar da amamentação no primeiro ano, alimentação complementar pobre em ferro biodisponível e ausência de suplementação profilática são os três fatores que reaparecem em quase toda criança que termina com ferritina baixa.

Há uma armadilha de linguagem nessa consulta. A mãe que diz que a criança come de tudo quase sempre quer dizer que a criança aceita tudo o que é oferecido, e o que é oferecido pode não ter ferro nenhum. Pergunte pelo alimento, não pela categoria: quantas vezes por semana entra carne, frango, peixe ou fígado no prato dela. Feijão, beterraba e espinafre aparecem sempre na resposta e rendem pouco — 100 g de feijão cozido trazem 0,88 mg de ferro com absorção estimada em 5%, contra 2,80 mg e 20% em 100 g de carne bovina. Para absorver o mesmo ferro de um bife de cem gramas seriam necessárias cerca de treze porções de feijão.

2 · O lactente que tomou leite de vaca no lugar do peito

O leite de vaca integral no primeiro ano de vida é fator de risco por três mecanismos somados, e vale saber os três porque eles ancoram a conversa com a família. O teor de ferro é ínfimo e a biodisponibilidade é baixa: 100 mL trazem cerca de 0,03 mg de ferro, com absorção estimada em 10%, contra 2,80 mg e 20% em 100 g de carne bovina cozida. Para absorver o que se absorve de um bife de cem gramas seriam necessários cerca de 187 copinhos de 100 mL de leite de vaca.

O segundo mecanismo é a interferência: cálcio e proteínas do leite competem com o ferro não heme na mesma refeição, de modo que o leite não só traz pouco como reduz o aproveitamento do que veio junto. O terceiro é a perda: o leite de vaca no lactente está associado a microssangramento intestinal, que subtrai ferro pelo outro lado da conta. Pouco, atrapalha e faz perder — três vezes na mesma direção.

Clinicamente esse é o lactente que mama mamadeira o dia inteiro, come pouco no almoço porque já está cheio, e chega aos 12 meses com hemoglobina de 8 e um exame físico normal. Quando a amamentação não é possível, as fórmulas infantis reduzem esse risco e podem ser usadas até por volta dos 12 meses. O manejo alimentar propriamente dito — técnica de amamentação, introdução alimentar, o que oferecer em cada faixa — é do capítulo Aleitamento materno exclusivo até 6 meses, em Nutrologia Pediátrica. Aqui entra só o que muda a prescrição de ferro.

3 · O prematuro e o recém-nascido de baixo peso

Esse grupo tem calendário próprio e é o que mais some do seguimento. A reserva construída no terceiro trimestre foi interrompida, e a velocidade de ganho de peso depois da alta é maior que a do bebê a termo: o denominador cresce mais rápido que o numerador. A profilaxia começa aos 30 dias de vida, não aos seis meses, e a dose é por peso — 2 a 4 mg/kg/dia de ferro elementar conforme o peso ao nascer, mantida durante o primeiro ano.

Na prática, a criança que sai da unidade neonatal com receita de ferro precisa de alguém que renove a receita e refaça a conta conforme o peso muda. É um cálculo que se refaz a cada consulta: uma dose de 2 mg/kg/dia acertada com 2,1 kg fica 40% abaixo do alvo quando a criança chega a 3,5 kg. A consulta de puericultura do primeiro semestre é exatamente onde essa conta se perde.

Vale um alerta de dose no outro sentido. Quando a criança recebe fórmula infantil, a oferta dietética de ferro entra no cálculo do que ainda precisa ser suplementado. Somar o suplemento cheio a uma fórmula fortificada é a forma mais comum de exceder nessa faixa, e o excesso tem custo: sintoma gastrintestinal, abandono do tratamento e, nas condições de sobrecarga de ferro, risco real.

Repare que esse grupo tem dois esquemas em sequência, e a transição entre eles é onde a receita costuma congelar. Do 30º dia ao fim do primeiro ano vale a dose por peso ao nascer — 2 mg/kg/dia entre 1.500 g e 2.500 g, 3 mg/kg/dia entre 1.000 g e 1.500 g, 4 mg/kg/dia abaixo de 1.000 g. Dos 12 aos 24 meses a recomendação passa a 1 mg/kg/dia, contínua, calculada pelo peso atual. Quem não sabe da mudança mantém a dose do primeiro ano por mais doze meses e entrega o dobro ou o triplo do necessário; quem para no primeiro aniversário deixa a criança sem profilaxia justamente na faixa de maior prevalência.

4 · A criança que come terra, gelo ou parede

A pica é um sinal que a família traz espontaneamente porque assusta, e costuma ser interpretada como manha ou como problema de comportamento. Comer terra, areia, gelo, giz ou reboco em criança pequena merece hemograma e ferritina antes de qualquer outra explicação, e essa é uma das poucas situações em que o sintoma isolado já justifica o exame.

A pergunta imediata seguinte é o que a criança está comendo do chão, porque geofagia em área de saneamento precário aproxima duas coisas ao mesmo tempo: a carência que a fez comer terra e a parasitose que a terra pode trazer. A verminose como entidade é de Esquistossomose e geo-helmintíases (parasitoses intestinais no adulto), na apostila de Infectologia, e a da criança, de Parasitoses intestinais na infância: ascaridíase, giardíase, enterobíase e ancilostomíase, na apostila de Infectologia Pediátrica; este capítulo assume o pedaço que muda a conduta aqui — em criança com deficiência de ferro que não responde ao tratamento, ou que vive em área de saneamento precário, a perda sanguínea intestinal por helmintos entra no diferencial e se procura com exame parasitológico de fezes.

Vale a mesma lógica para qualquer sangramento crônico. Sangue vivo nas fezes, fezes escuras, epistaxe de repetição e, na adolescente, fluxo menstrual volumoso mudam o problema de carência de oferta para perda — e nesse caso repor ferro sem achar a fonte corrige o número e deixa a doença. A abordagem do sangramento digestivo alto propriamente dito é do capítulo Hemorragia digestiva alta, em Cirurgia do Aparelho Digestivo.

5 · A criança do pronto-socorro cujo hemograma veio junto

É a apresentação da Heloá e talvez a mais frequente na prática: o hemograma foi pedido por outra razão — febre, vômito, dor abdominal, pré-operatório — e voltou com anemia microcítica. O reflexo comum é prescrever ferro na hora, e há dois problemas com ele. O primeiro é que a criança está inflamada agora, e a inflamação desloca tanto a ferritina quanto a própria hemoglobina. O segundo é que a alta do pronto-socorro raramente garante quem vai reavaliar.

O que o pronto-socorro resolve bem é excluir o que é urgente: anemia grave com repercussão hemodinâmica, sangramento ativo, hemólise. Fora disso, a anemia ferropriva não é doença de pronto-socorro — é doença de seguimento, e o que ela precisa da porta é um encaminhamento nominal, uma data e o exame guardado no papel que a família leva. Prescrever ferro e não marcar retorno resolve a consciência de quem prescreveu e nada mais.

A leitura sistemática do hemograma como exame — o que cada índice significa, como ler série branca e plaquetas, como reconhecer as outras morfologias — é do capítulo Hemograma, em Interpretação de Exames à Beira do Leito. Aqui interessa um recorte pequeno: volume corpuscular médio e hemoglobina corpuscular média baixos com amplitude de distribuição dos eritrócitos alta desenham o padrão da carência, e essa combinação basta para levantar a hipótese e escolher o próximo passo.

Há ainda um detalhe que o pronto-socorro produz com frequência e que muda a leitura: a hemoglobina medida durante desidratação vem falsamente alta, e a mesma criança reidratada mostra um valor menor sem que nada tenha piorado. Um hemograma colhido na chegada de uma gastroenterite, portanto, subestima a anemia. Quando o número já está baixo apesar da desidratação, como no caso da vinheta, a anemia real é pelo menos aquela — e possivelmente maior.

6 · A criança em que não é ferro — e o que isso muda

Microcitose com hipocromia tem outros donos, e quase todos mudam o encaminhamento. O traço beta-talassêmico é o mais comum: microcitose desproporcional à anemia, com contagem de hemácias normal ou alta e amplitude de distribuição tipicamente pouco alterada. Confirma-se por eletroforese de hemoglobina, preferencialmente depois do sexto mês de vida. O traço alfa-talassêmico pode ter sido identificado na triagem neonatal pela hemoglobina Bart's; quando não foi, o diagnóstico depende de biologia molecular, buscando as deleções conhecidas.

A anemia da inflamação é o segundo grande diferencial e o mais traiçoeiro, porque compartilha a microcitose e inverte o significado da ferritina. Nas doenças crônicas sistêmicas, nas infecções de repetição e na obesidade, a hepcidina alta produz ferro indisponível com ferritina normal ou alta. Somam-se a esses a deficiência de cobre, a anemia sideroblástica e a anemia ferropriva refratária ao ferro, a IRIDA, que não responde ao ferro oral por defeito da própria regulação.

A doença falciforme e as demais hemoglobinopatias estruturais são do capítulo Doença falciforme: a crise, a febre e as síndromes que matam, o primeiro desta apostila; a triagem neonatal que as identifica é do capítulo As cinco triagens neonatais, em Puericultura e Desenvolvimento. O que interessa aqui é a consequência prática de elas existirem: em criança com triagem neonatal desconhecida, ou com anemia que não responde ao ferro, o diagnóstico de ferropriva não pode ser presumido.

Há um sinal de leitura rápida que separa bem as duas hipóteses mais frequentes. Na ferropriva, a microcitose acompanha a anemia e a amplitude de distribuição dos eritrócitos sobe, porque convivem hemácias de tamanhos diferentes. No traço beta-talassêmico, a microcitose é desproporcional — volume corpuscular muito baixo para uma anemia discreta —, a contagem de hemácias costuma estar normal ou alta e a amplitude de distribuição fica pouco alterada. Não é um critério diagnóstico, e sim uma pista que decide se a eletroforese de hemoglobina entra no primeiro pedido ou no segundo.

O traço dá anemia leve; a talassemia maior adoece, e cedo. Pelas Orientações para o diagnóstico e tratamento das talassemias beta, do Ministério da Saúde (2016), a talassemia beta maior se manifesta no primeiro ano de vida, com anemia grave — hemoglobina em geral entre 3 e 7 g/dL —, microcitose intensa, icterícia, hepatoesplenomegalia progressiva e alterações ósseas pela hiperplasia da medula; os pais costumam contar palidez, cansaço e demora para engatinhar ou andar. A intermediária é mais tardia e mais branda: o manual dá como mais provável a forma maior antes dos 2 anos e com hemoglobina abaixo de 7 g/dL, e a intermediária depois dos 2 anos, entre 8 e 10 g/dL. A ferritina que este capítulo já pede dá a primeira pista, porque no perfil descrito pelo manual ela vem alta, com ferro sérico e saturação da transferrina — o avesso da carência —, e a bilirrubina indireta e a desidrogenase láctica denunciam hemólise. Na eletroforese, a hemoglobina fetal ocupa de 60% a 90% do total na forma maior. E vale perguntar pela triagem neonatal: o Consenso da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (2024) registra que o recém-nascido com a forma dependente de transfusão tem só hemoglobina fetal na triagem, que o perfil com hemoglobina A muito baixa no nascido a termo pede confirmação molecular, e que o traço beta não aparece nela. Com a suspeita, a criança vai para o serviço de referência, onde se decidem a transfusão regular e a quelação do ferro — esta, no SUS, pelo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Sobrecarga de Ferro, de 2026. O que o interno não faz é repetir o ferro de prova: a anemia crônica já aumenta a absorção intestinal de ferro nessas crianças, e cada ciclo sem resposta atrasa o diagnóstico e soma ferro a quem vai precisar tirá-lo. Os pais, que na forma maior costumam ser os dois portadores, recebem a orientação ao portador que está em Anemia falciforme e hemoglobinopatias, na apostila de Hematologia e Hemoterapia.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação tem duas decisões, e a primeira é mais difícil que a segunda: em quem pedir exame. A segunda — o que pedir e como ler — cabe em três tubos.

As diretrizes da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2026 recortam o rastreio por risco, e não por idade universal. É essa a régua que esta apostila adota, e decide a data: a diretriz é de março de 2026, e o rastreio universal ao primeiro ano se apoia nas prevalências de um inquérito de 2019 e numa tradição de serviço, expostas mais adiante, no bloco de divergências.

1 · Quem se rastreia — e por que não é todo mundo

A régua brasileira de 2026 é explícita nos dois sentidos. Lactentes saudáveis, com crescimento adequado e alimentação apropriada para a idade, não precisam de investigação laboratorial de rotina para ferropenia ou anemia ferropriva. Em contrapartida, cinco situações indicam exame: prematuridade, baixo peso ao nascer, falha na suplementação profilática, alimentação deficiente em fonte de ferro de boa biodisponibilidade e crescimento inadequado — deficiente ou excessivo.

O momento sugerido é entre nove e 12 meses de vida, ou quando o profissional considerar pertinente diante dos fatores de risco e da história clínica. A janela não é arbitrária: é depois do esgotamento previsível da reserva neonatal e antes do primeiro aniversário, quando a alimentação complementar já deveria estar diversificada e o efeito de uma carência prolongada sobre o desenvolvimento já começou a acontecer.

A criança da vinheta tem alimentação insuficiente em ferro e profilaxia não registrada, além de sintomas: isso justifica investigação. Na criança saudável, sem sintomas ou riscos e com profilaxia adequada à idade, o capítulo adota seguimento sem exame rotineiro. Palidez e mudança de atividade não devem ser ignoradas; avalie-as mesmo quando a caderneta parece completa.

Registre na evolução qual dos critérios você usou. Isso não é burocracia: quem lê a evolução seis meses depois precisa saber se aquele hemograma foi rastreio de risco ou investigação de sintoma, porque a leitura do resultado muda conforme a pergunta que o gerou.

Vale dizer o que o critério de falha na profilaxia significa na prática, porque ele é o mais frequente dos cinco e o mais fácil de verificar. Não é a família que informa: é a caderneta. A entrega do sulfato ferroso deve ser anotada na seção de registros da suplementação de vitamina A, ferro ou outros micronutrientes, e também na seção da consulta de puericultura. Seção em branco numa criança que compareceu às consultas é falha documentada, e documentada do lado do serviço — não do lado da família. Isso muda o tom da conversa e muda a conduta: não se cobra adesão de quem nunca recebeu o frasco.

2 · Os três exames, e por que são exatamente três

A investigação da deficiência de ferro se apoia em eritrograma (hemograma), ferritina sérica e proteína C reativa. Não são três exames porque três é bonito: cada um responde a uma pergunta que os outros dois não respondem. O hemograma diz se já existe anemia e que forma ela tem. A ferritina diz quanto estoque existe. A proteína C reativa diz se a ferritina pode ser lida.

Pedir ferritina sem proteína C reativa custa quase nada na hora e cobra caro algumas semanas depois. Uma ferritina de 40 mcg/L numa criança com infecção em curso não afasta deficiência, e sem a proteína C reativa não há como saber se aquilo é estoque cheio ou estoque vazio mascarado. Os dois tubos saem na mesma punção e o custo marginal do segundo é próximo de zero.

Ferro sérico, capacidade total de ligação do ferro e índice de saturação da transferrina complementam a avaliação, e são úteis quando a ferritina é ambígua ou quando a resposta ao tratamento falha. O índice de saturação se calcula dividindo o ferro sérico pela capacidade total de ligação e multiplicando por 100. Não são exames de primeira linha para a criança da unidade básica: são o segundo movimento.

Há um marcador precoce que vale conhecer porque aparece em laudos de analisador automatizado: o conteúdo de hemoglobina dos reticulócitos, que reflete a disponibilidade de ferro para a medula e cai antes de a anemia se instalar. O volume reticulocitário médio também está diminuído na ferropriva, por produção inadequada de hemoglobina e atraso de maturação. Quando o laboratório os oferece, antecipam o diagnóstico; quando não oferece, a conduta não muda.

3 · A ferritina que mente, e o corte que a corrige

A ferritina sérica é o melhor marcador isolado dos estoques corporais de ferro — na ausência de inflamação. Como é também uma proteína de fase aguda, infecção e inflamação a elevam independentemente do estoque, e é por isso que a Organização Mundial da Saúde adota dois conjuntos de pontos de corte, separados pela proteína C reativa.

Sem inflamação, considera-se deficiência de ferro a ferritina abaixo de 12 mcg/L em crianças menores de cinco anos e abaixo de 15 mcg/L a partir dos cinco anos e na adolescência. Com infecção ou inflamação, os cortes sobem para 30 mcg/L abaixo de cinco anos e 70 mcg/L a partir dos cinco anos. Repare na escala do ajuste: no escolar inflamado o corte fica quase cinco vezes maior que o do mesmo escolar sem inflamação.

A unidade merece atenção porque há um erro de impressão em circulação sobre exatamente este ponto. O quadro de cortes das diretrizes de 2026 traz o cabeçalho em microgramas por decilitro, enquanto o texto corrido do mesmo documento escreve os mesmos números em microgramas por litro. Como um micrograma por decilitro equivale a dez microgramas por litro, seguir o cabeçalho deslocaria todos os cortes por um fator de dez. A unidade correta é micrograma por litro — a mesma em que o laboratório brasileiro libera o exame —, e a conferência está anotada nas notas de critério deste capítulo.

A consequência prática é dura de engolir na primeira vez. Uma criança de 2 anos com proteína C reativa elevada e ferritina de 26 mcg/L tem deficiência de ferro pelo critério que se aplica a ela, embora esse mesmo 26 fosse tranquilizador se ela estivesse bem. Ler ferritina sem olhar a proteína C reativa ao lado é ler metade do exame.

Duas ressalvas honestas. Ferritina normal ou alta com inflamação intensa continua ambígua mesmo com o corte corrigido, e nesses casos o caminho é tratar a inflamação e repetir depois, ou apoiar-se na saturação de transferrina e na resposta terapêutica. E a deficiência de vitamina A pode coexistir com ferritina elevada em contexto inflamatório: a mesma criança pode ter dois problemas e um exame que esconde os dois.

4 · O corte de hemoglobina mudou, e a prevalência não

As diretrizes de 2026 transcrevem os pontos de corte de hemoglobina que a Organização Mundial da Saúde atualizou em 2024. Entre 6 e 23 meses, anemia é hemoglobina abaixo de 10,5 g/dL. Entre 24 e 59 meses, abaixo de 11,0. Entre 5 e 11 anos, abaixo de 11,5. Dos 12 aos 14 anos, abaixo de 12,0, tanto para meninas não grávidas quanto para meninos.

Há uma incoerência interna nas mesmas diretrizes que vale conhecer, porque ela aparece quando se tenta usar o documento inteiro de uma vez. Um quadro traz valores de referência hematológicos por faixa etária, com média e limite inferior; outro quadro traz os cortes da Organização Mundial da Saúde. Para a criança de 2 a 6 anos, o primeiro dá limite inferior de 11,5 g/dL e o segundo, para 24 a 59 meses, dá 11,0. Uma criança de 3 anos com hemoglobina de 11,2 g/dL é anêmica por um quadro e não é pelo outro. A régua que se usa para dizer se há anemia é a segunda — a dos cortes —, e o primeiro quadro serve para descrever a distribuição normal, não para classificar.

Quem aprendeu a régua antiga fixou 11,0 g/dL para toda a faixa de 6 a 59 meses. A mudança rebaixou o corte do lactente em meio grama por decilitro e manteve o do pré-escolar, o que produz uma consequência contraintuitiva: um bebê de 10 meses com hemoglobina de 10,8 g/dL não é anêmico pela régua de 2024, e a mesma criança, um ano e dois meses depois, com exatamente a mesma hemoglobina, passa a ser.

O número de prevalência que todo mundo cita foi medido com a régua velha. O ENANI-2019 declara no seu quadro de métodos que usou hemoglobina abaixo de 11 g/dL, referência da Organização Mundial da Saúde de 2001. Os 19,0% entre 6 e 23 meses estão contados com um corte mais alto do que o corte com que se diagnostica hoje: a mesma população, recontada pela régua de 2024, teria prevalência menor nessa faixa, em magnitude que nenhum documento brasileiro publicou.

Isso não é preciosismo acadêmico. Se você comparar o percentual de anemia da sua unidade, medido hoje, com os 19,0% do inquérito nacional, estará comparando duas coisas diferentes e concluindo que o seu território melhorou. A régua da medida e a régua do diagnóstico deixaram de ser a mesma, e ninguém recalculou a primeira.

5 · Tratar antes de confirmar, ou confirmar antes de tratar

Há um atalho popular: diante de um lactente com anemia microcítica e história alimentar típica, prescrever ferro e repetir o hemograma em 30 dias, usando a resposta como diagnóstico. O atalho tem lógica — o ganho esperado de hemoglobina em 30 a 45 dias é de 1,0 g/dL ou mais, e uma resposta assim é bastante específica.

O atalho tem três custos. Perde-se a ferritina basal, que é a única forma de saber, ao final, se o estoque foi reposto ou se apenas a hemoglobina foi corrigida. Perde-se a chance de identificar de saída o traço talassêmico, que responde pouco e gera meses de ferro inútil. E perde-se o registro que autoriza parar: sem ferritina inicial, a decisão de suspender vira impressão.

Esta apostila adota confirmar antes de tratar — hemograma, ferritina e proteína C reativa juntos —, e não precisa de degrau de desempate: os dois lados citam a mesma diretriz de 2026, e ela mesma escolhe, porque manda iniciar o ferro terapêutico com o diagnóstico confirmado e usa o ganho de 30 a 45 dias para monitorar a resposta, não para fazer o diagnóstico. O atalho fica no bloco de divergências, com nome e data, e só é defensável onde a ferritina não existe — com uma regra de segurança: quem trata sem confirmar assume o compromisso de reavaliar em 30 a 45 dias com data marcada, e quem não consegue garantir a reavaliação não usa o atalho.

Vale dizer o que não se pede. Mielograma não entra na investigação de anemia carencial da criança. Ferro sérico isolado, sem capacidade de ligação, não decide nada. E repetir hemograma em 15 dias por ansiedade só produz um número que ainda não teve tempo de mudar.

6 · Quando não responde: o que checar antes de trocar o sal

Ausência de resposta é motivo para reavaliar, começando pela dose que a criança realmente recebeu e por barreiras de acesso, administração e tolerância. Pergunte sem acusação: houve falta do produto, vômito, recusa, dificuldade com a seringa ou orientação contraditória? Um frasco cheio não distingue essas causas sozinho.

A segunda é dose inadequada, e este é o ponto em que o capítulo toca no seu próprio tema: a maior parte das doses inadequadas nasce de confundir a massa do sal com a massa do ferro elementar, ou de prescrever em gotas sem saber quantas gotas o frasco daquela família tem por mililitro.

A terceira é persistência do fator causal — o leite de vaca que não saiu, a perda sanguínea que ninguém procurou. A quarta é diagnóstico incorreto: talassemia, anemia da inflamação, deficiência de cobre, anemia sideroblástica, IRIDA. A quinta é inflamação ativa, que mantém a hepcidina alta e a absorção fechada por mais que se prescreva por via oral.

Ferro intravenoso pode ser considerado com especialista em situações selecionadas, como intolerância relevante, má absorção ou necessidade clínica específica; verificar aprovação por idade e protocolo da formulação disponível. Eritropoietina não é um passo habitual da ferropriva nutricional. Transfusão depende de instabilidade, repercussão e gravidade, e não de ter completado todas as etapas de investigação da não resposta.

Trocar o produto não corrige automaticamente dose insuficiente ou dificuldade de administração. Uma formulação oral alternativa pode ajudar quando há intolerância persistente; confirme a via e a concentração, porque ferripolimaltose oral não é ferro intravenoso. Concilie prescrição, disponibilidade e protocolo local, sempre refazendo a conta em ferro elementar.

E um lembrete de conversão que vale para toda troca: cada sal tem um percentual de ferro elementar diferente. Sulfato ferroso tem cerca de 20%, fumarato ferroso cerca de 33%, gluconato ferroso cerca de 12%, bisglicinato ferroso cerca de 20% no quelato comercial, proteinossuccinilato de ferro cerca de 5% e ferro carbonila cerca de 98%. Trocar de sal sem refazer a conta troca também a dose, e num dos sentidos o erro é grande: 100 mg de fumarato entregam cerca de 33 mg de ferro, enquanto 100 mg de proteinossuccinilato entregam cerca de 5 mg.

Ferro a 25 mg/mL e 5 mg/mL, com seringas orais marcando 1,2 e 6 mL.
Exemplo fictício de dose já definida: 10 kg × 3 mg/kg/dia = 30 mg/dia de ferro elementar. Com 25 mg/mL, o volume é 1,2 mL; com 5 mg/mL, 6 mL. Graduações esquemáticas conferidas, com zero junto à ponta. Verificar prescrição individual e apresentação real.
07

A conta que decide a prescrição, e as três tabelas que a sustentam

Todo este capítulo cabe em uma frase e uma conta. A frase: a dose de ferro se prescreve em ferro elementar, e o número impresso no rótulo quase nunca é ferro elementar. A conta: o sulfato ferroso heptaidratado tem 20,1% de ferro em massa e o dessecado tem 32,9%, de modo que 200 mg de um e 122 mg do outro entregam os mesmos 40 mg de ferro. Quem prescreve pelo número do rótulo erra por um fator que depende da apresentação que a família comprar. As tabelas abaixo trazem o cálculo pronto. Nas notas está a conferência feita sobre as fontes oficiais deste capítulo, item a item — as contas que fecharam e as que não fecharam.

  1. 11. A criança tem fator de risco (prematuridade, baixo peso, falha na profilaxia, alimentação pobre em ferro, crescimento inadequado) ou sintoma que obriga (pica, palidez referida, sangramento)? Se não tem nenhum dos dois e cresce bem, não peça exame — prescreva a profilaxia que faltar e siga a puericultura.
  2. 22. Tem: peça os três juntos — hemograma, ferritina sérica e proteína C reativa. Um pedido só, uma punção só.
  3. 33. Leia a proteína C reativa primeiro. Ela decide qual corte de ferritina se aplica: sem inflamação, 12 mcg/L abaixo de cinco anos; com inflamação, 30 mcg/L.
  4. 44. Leia a hemoglobina pelo corte da idade: abaixo de 10,5 g/dL entre 6 e 23 meses, abaixo de 11,0 entre 24 e 59 meses, abaixo de 11,5 entre 5 e 11 anos.
  5. 55. Ferritina baixa com hemoglobina normal é deficiência sem anemia: trata-se, e a indicação de tratar não depende de a hemoglobina ter caído.
  6. 66. Microcitose desproporcional à anemia, com contagem de hemácias normal ou alta e amplitude de distribuição pouco alterada, com ferritina normal: pense em traço talassêmico e peça eletroforese de hemoglobina depois do sexto mês.
  7. 77. Confirmada a ferropriva, calcule a dose em ferro elementar — 3 a 6 mg/kg/dia — e só depois escolha a apresentação. Converta pela tabela, escreva a dose em miligramas de ferro elementar E em mililitros, e confira o conta-gotas do frasco daquela família.
  8. 88. Programar hemograma em 30–45 dias no quadro leve e estável; anemia importante ou sintomas exigem retorno mais precoce, podendo ser na primeira semana. Avaliar tolerância, adesão e resposta antes desse prazo se houver preocupação.
  9. 99. Ao normalizar a hemoglobina, não pare: mantenha até completar três a seis meses de tratamento e até a ferritina indicar estoque reposto. Corrigir a hemoglobina e suspender é o desfecho que produz a recidiva de seis meses depois.
  10. 1010. Em paralelo e desde o primeiro dia: tire o leite de vaca do primeiro ano, ponha carne no prato, ofereça fruta cítrica junto e afaste chá, café e leite da hora do remédio.
  11. 1111. Antes de escrever qualquer coisa, pergunte se a criança já recebe sachê de micronutrientes em pó ou sulfato ferroso do programa. Suplemento profilático não se soma a dose terapêutica, e sachê de micronutrientes não convive com sulfato ferroso.
  12. 1212. Sem resposta, revisar dose realmente recebida, administração, tolerância, perdas, inflamação e diagnóstico. Ferro intravenoso exige indicação e formulação apropriadas. Transfusão é decisão pela gravidade; instabilidade não espera a revisão de adesão. Eritropoietina não é tratamento habitual da anemia ferropriva nutricional.

A regra de escrita que evita o erro deste capítulo

Escreva a prescrição em duas linhas que se conferem. Primeira linha, a dose clínica: sulfato ferroso, 28 mg de ferro elementar por dia, via oral, uma vez ao dia. Segunda linha, a operação: solução oral de 25 mg de ferro elementar por mL, 1,1 mL por dia, o que corresponde a 28 gotas no frasco de 25 gotas por mL. Quem receber essa receita — a família, o farmacêutico, o colega do retorno — consegue refazer a conta e achar o erro. Uma receita que diz apenas '30 gotas por dia' não é conferível por ninguém, e é assim que a mesma criança recebe 21 mg num mês e 37 mg no outro, sem que nada tenha sido mudado de propósito.

Do rótulo à dose: sal, ferro elementar e o que sai do frasco

ApresentaçãoO que o rótulo declaraFerro elementarA contaO que isso significa
Solução oral (gotas), FURP124,45 mg/mL de sulfato ferroso heptaidratado; 25 gotas por mL25 mg/mL; 1,00 mg por gota124,45 x 20,1% = 25,0 mg — fechaA única das três em que 'x gotas' é igual a 'x mg de ferro'
Solução oral (gotas), apresentação de 20 gotas/mL125 mg/mL de sulfato ferroso heptaidratado; 20 gotas por mL25 mg/mL; 1,25 mg por gota25 dividido por 20 = 1,25 mg por gota10 gotas aqui valem 12,5 mg, e não 10 mg
Solução oral (gotas), apresentação de 35 gotas/mL125 mg/mL de sulfato ferroso heptaidratado; cerca de 35 gotas/mL25 mg/mL; cerca de 0,71 mg por gota25 dividido por 35 = 0,71 mg por gota10 gotas aqui valem 7,1 mg — 1,76 vez menos que no frasco de 20 gotas
XaropeRename: equivalente a 5 mg/mL de ferro elementar5 mg/mLCinco vezes menos concentrado que a solução oralConfundir xarope com gotas erra a dose por 5 vezes
Comprimido revestido, FURP121,72 mg de sulfato ferroso dessecado40 mg por comprimido121,72 x 32,9% = 40,0 mg — fechaO rótulo nomeia o hidrato, e por isso a conta é verificável
Comprimido revestido, apresentação de 124 mg124 mg de 'sulfato ferroso', sem nomear o hidrato40 mg por comprimido (declarado)124 x 32,9% = 40,8 mg (dessecado); 124 x 20,1% = 24,9 mg (heptaidratado)Só fecha se for dessecado; lido como heptaidratado, erra por 1,6 vez
Comprimido clássico de 200 mg200 mg de sulfato ferroso heptaidratado40 mg por comprimido200 x 20,1% = 40,2 mg — fecha200 mg e 122 mg de 'sulfato ferroso' entregam o mesmo ferro

Quem se rastreia, com quê, e como se lê

SituaçãoPedirCorte que se aplicaSe alterado
Lactente saudável, crescendo bem, alimentação adequada, profilaxia registradaNenhum exame de rotinaMantenha a profilaxia e a puericultura
Prematuro ou baixo peso ao nascerHemograma, ferritina e proteína C reativa entre 9 e 12 mesesHb abaixo de 10,5 g/dL (6-23 m); ferritina abaixo de 12 mcg/L sem inflamaçãoTrate em dose terapêutica e reveja a profilaxia por peso
Falha na profilaxia (caderneta sem registro)Hemograma, ferritina e proteína C reativa entre 9 e 12 mesesOs mesmos cortes por idadeTrate se confirmado; se normal, inicie a profilaxia que faltou
Leite de vaca no primeiro ano ou dieta pobre em ferro hemeHemograma, ferritina e proteína C reativaOs mesmos cortes por idadeTrate e corrija a dieta — sem a segunda parte, recidiva
Pica, sangramento crônico, menorragia na adolescenteHemograma, ferritina e proteína C reativa; parasitológico de fezes se houver exposiçãoFerritina abaixo de 15 mcg/L a partir dos 5 anos, sem inflamaçãoTrate e procure a fonte da perda antes de dar alta do problema
Criança com infecção em curso e hemograma alteradoOs três, com a leitura ajustada pela proteína C reativaFerritina abaixo de 30 mcg/L (menores de 5 anos) com inflamaçãoConsidere repetir fora do quadro agudo antes de concluir

Profilaxia e tratamento: dose, tempo e a conta pronta

GrupoDose em ferro elementarQuando e por quanto tempoEm gotas de 1 mg (25 gotas/mL)
Criança a termo, peso adequado (PNSF e SBP 2026)10 a 12,5 mg/dia, dose fixa, independente do pesoDois ciclos de 3 meses de uso diário separados por 3 meses de pausa, preferencialmente aos 6 e aos 12 meses0,4 a 0,5 mL/dia na solução de 25 mg/mL; escolher a dose do programa. Não prescrever meia gota.
Prematuro ou peso ao nascer entre 1.500 g e 2.500 g2 mg/kg/diaA partir dos 30 dias de vida, durante o primeiro ano2 gotas por quilo por dia
Prematuro ou peso ao nascer entre 1.000 g e 1.500 g3 mg/kg/diaA partir dos 30 dias de vida, durante o primeiro ano3 gotas por quilo por dia
Prematuro ou peso ao nascer abaixo de 1.000 g4 mg/kg/diaA partir dos 30 dias de vida, durante o primeiro ano4 gotas por quilo por dia
Prematuro ou baixo peso, dos 12 aos 24 meses1 mg/kg/dia, pelo peso atualContínua, sem interrupções1 gota por quilo por dia
Tratamento da anemia ferropriva confirmada3 a 6 mg/kg/dia, dose única ou fracionada3 a 6 meses, até normalizar a hemoglobina e repor o estoqueNuma criança de 9,2 kg: 28 a 55 gotas/dia
Desnutrição graveIniciar com 3 mg/kg/diaNa fase de reabilitação, ajustando conforme a evolução clínicaNuma criança de 9,2 kg: 28 gotas/dia

Mesma dose, duas concentrações — exemplo de 10 kg

EtapaSolução de 25 mg/mL de ferro elementarXarope de 5 mg/mL de ferro elementar
Dose escolhida no exemplo3 mg/kg/dia × 10 kg = 30 mg/diaA mesma: 30 mg/dia
Conversão30 ÷ 25 = 1,2 mL/dia30 ÷ 5 = 6 mL/dia
O que escrever30 mg de ferro elementar, equivalentes a 1,2 mL desta solução, por via oral uma vez ao dia30 mg de ferro elementar, equivalentes a 6 mL deste xarope, por via oral uma vez ao dia
Conferência com a famíliaMostrar 1,2 mL na seringa oral adequadaMostrar 6 mL na seringa oral adequada
Ao trocar o frascoNão manter o volume anterior sem conferir a concentração6 mL da solução de 25 mg/mL seriam 150 mg: cinco vezes a dose do exemplo.

Sem resposta: uma pergunta e uma ação por hipótese

HipótesePerguntar ou verificarPróxima ação
Dose insuficientemg de ferro elementar, peso atual, mL e gotas/mL do frasco realRefazer a conta e a demonstração com seringa.
Administração ou acessoFaltou produto? Cuspiu? Vomitou? Misturou no leite?Ajustar rotina e tolerância; garantir dispensação antes de concluir falha farmacológica.
Perda persistenteSangramento digestivo, exposição a parasitas, fluxo menstrualInvestigar a fonte conforme história e exame.
Inflamação ou má absorçãoDoença inflamatória, sintomas digestivos, crescimento, PCRRever interpretação da ferritina e investigar causa dirigida.
Outro diagnósticoMicrocitose desproporcional, outras citopenias, história familiarReavaliar talassemia e demais causas com a equipe.
Gravidade clínicaDispneia, taquicardia persistente, síncope, má perfusãoAvaliação urgente; não aguardar 30–45 dias.

Conferência que fecha, e é a base de tudo: a fração de ferro em massa do sulfato ferroso heptaidratado é 55,845 dividido por 278,006, ou 20,088%; a do dessecado (mono-hidratado) é 55,845 dividido por 169,916, ou 32,866%. Aplicando: 124,45 mg de heptaidratado dão 25,00 mg de ferro, exatamente o que a bula da FURP declara; e 121,72 mg de dessecado dão 40,00 mg, exatamente o que a mesma bula declara para o comprimido. As duas contas fecham na terceira casa.

Erro real numa bula em circulação. Uma apresentação comercial declara, na mesma bula, 'sulfato ferroso heptaidratado 125 mg' para a solução oral e 'sulfato ferroso 124 mg, equivalente a 40 mg de ferro elementar' para o comprimido, sem nomear o hidrato no segundo caso. A conta: 124 x 32,866% = 40,75 mg, o que só é compatível com o sal dessecado; se o leitor aplicar ao comprimido o mesmo heptaidratado que a bula nomeou duas linhas acima, obtém 124 x 20,088% = 24,91 mg, e conclui que o comprimido tem 25 mg de ferro. A diferença entre as duas leituras é de 1,61 vez, e ela existe porque o documento usa a mesma expressão 'sulfato ferroso' para dois sais com conteúdos de ferro diferentes.

Três conta-gotas para a mesma concentração. As três soluções orais conferidas declaram 25 mg de ferro elementar por mL e conta-gotas distintos: 25 gotas por mL (1,00 mg por gota), 20 gotas por mL (1,25 mg por gota) e cerca de 35 gotas por mL (0,71 mg por gota). A razão entre a maior e a menor é de 1,76 vez. Uma prescrição de 10 gotas por dia entrega 12,5 mg, 10,0 mg ou 7,1 mg de ferro conforme o frasco — e a receita não muda de aparência.

Divergência entre bula e programa nacional, no sentido do subtratamento. A tabela de dose profilática diária da bula profissional da FURP indica, para a faixa de 7 a 12 meses (6 a 10 kg), de 4 a 6 gotas por dia, ou seja, 4 a 6 mg de ferro elementar. O Programa Nacional de Suplementação de Ferro e as diretrizes da SBP de 2026 prescrevem 10 a 12,5 mg por dia na mesma faixa etária. A dose da bula é de 1,67 a 3,12 vezes menor que a da régua nacional. A mesma bula indica de 7 a 10 gotas para 1 a 3 anos — ainda abaixo do piso nacional no trecho em que as faixas se sobrepõem.

Divergência na dose terapêutica, na mesma direção. A tabela de dose terapêutica dessa bula indica, para 7 a 12 meses (6 a 10 kg), de 10 a 30 gotas por dia. Convertendo pelo peso da própria faixa, isso vai de 1,00 a 5,00 mg/kg/dia, enquanto a faixa terapêutica das diretrizes de 2026 é de 3 a 6 mg/kg/dia. O limite inferior da bula é um terço do limite inferior da diretriz; um prescritor que siga a borda de baixo da bula trata com um terço da dose recomendada. Para 1 a 3 anos a bula vai de 1,43 a 4,00 mg/kg/dia, e o teto dela já é menor que o teto da diretriz.

Posologia invertida em relação ao risco, em outra bula. Uma apresentação comercial indica, para crianças de 6 a 18 meses, 1 mL (25 mg de ferro elementar) uma vez por SEMANA, e para crianças de 18 meses a 6 anos, 1 mL uma vez por DIA. Em média diária, isso dá 3,57 mg/dia para o lactente e 25,00 mg/dia para o pré-escolar: a faixa de maior prevalência de anemia no país recebe 7,0 vezes menos que a faixa de menor prevalência, na mesma bula e na mesma tabela.

Contradição entre dois quadros das mesmas diretrizes de 2026. O quadro de valores de referência hematológicos traz, para a faixa de 2 a 6 anos, limite inferior de hemoglobina (média menos dois desvios-padrão) de 11,5 g/dL; o quadro dos cortes da OMS traz, para 24 a 59 meses, anemia abaixo de 11,0 g/dL. Uma criança de 3 anos com hemoglobina de 11,2 g/dL é anêmica por um quadro e não é anêmica pelo outro, dentro do mesmo documento. O mesmo acontece nas bordas de idade: aos 24 meses exatos, o primeiro quadro (faixa de 6 a 24 meses) dá limite de 10,5 e o segundo (faixa de 24 a 59 meses) dá 11,0; e aos 6 meses exatos, o primeiro quadro põe a criança em duas faixas com limites de 9,5 e de 10,5 — 1,0 g/dL de diferença para a mesma criança no mesmo dia.

Erro de unidade no cabeçalho de um quadro. O quadro dos pontos de corte de ferritina dessas mesmas diretrizes traz o cabeçalho 'Ferritina sérica (mcg/dL)', com os valores 12, 30, 15 e 70. O texto corrido do mesmo documento, duas páginas antes, escreve os mesmos números em mcg/L: 'ferritina menor que 12 mcg/L', 'menor que 30 mcg/L'. Como 1 mcg/dL equivale a 10 mcg/L, ler o cabeçalho ao pé da letra deslocaria todos os cortes por um fator de 10 — uma ferritina de 100 mcg/L passaria a 'deficiente'. A unidade correta é a do texto; o cabeçalho está errado.

Conferência que fecha, sobre os percentuais de ferro elementar. As mesmas diretrizes trazem um quadro com o percentual de ferro de cada sal. Sulfato ferroso ~20% confere com o heptaidratado (20,1%); fumarato ferroso ~33% confere com a fórmula do fumarato (32,9%); gluconato ferroso ~12% confere (12,5% no anidro, menos no hidratado); ferro carbonila ~98% confere com o metal em pó. O único valor do quadro que não é dedutível da estequiometria é o bisglicinato ferroso a ~20%: a molécula pura tem 27,4% de ferro, e os 20% correspondem ao teor declarado do quelato comercial, não ao composto puro.

Duas políticas com a mesma exposição total de ferro, e a conta é instrutiva. O PNSF entrega 10 a 12,5 mg/dia por 90 dias, dois ciclos: 1.800 a 2.250 mg de ferro elementar ao longo do programa. O NutriSUS entrega sachês com 10 mg de ferro, um por dia, 60 sachês por ciclo, três ciclos: 1.800 mg. As duas estratégias entregam praticamente o mesmo ferro por caminhos diferentes, e o Caderno do Ministério da Saúde declara que elas não podem ser associadas — a criança recebe uma ou outra.

O que a fortificação da farinha entrega, em números. A RDC nº 604/2022 exige de 4 a 9 mg de ferro por 100 g de farinha de trigo e de milho. Um consumo de 30 g de farinha por dia entrega, portanto, de 1,2 a 2,7 mg de ferro não heme por dia — e o teto dessa faixa é 3,7 vezes menor que os 10 mg/dia da profilaxia medicamentosa. Como o ferro não heme dessas farinhas é absorvido em fração pequena, e como o lactente de 9 meses não come 30 g de farinha por dia, a fortificação é uma política populacional que não substitui a suplementação individual em nenhuma faixa etária deste capítulo.

Norma revogada ainda em uso como referência. O documento de perguntas e respostas da Anvisa sobre enriquecimento de farinhas, 2ª edição de 13 de novembro de 2018, é o material que explica a regra na prática e se apoia vinte vezes na RDC nº 150/2017. Essa resolução foi revogada pelo art. 14 da RDC nº 604, de 10 de fevereiro de 2022, que entrou em vigor em 2 de março de 2022. O conteúdo técnico sobreviveu inteiro à troca — faixas de 4 a 9 mg de ferro e de 140 a 220 microgramas de ácido fólico por 100 g, os quatro compostos admitidos e as farinhas dispensadas são idênticos nas duas normas —, mas quem citar 'RDC 150/2017' hoje está citando norma revogada.

Datas que não batem dentro do mesmo documento oficial. O Caderno dos programas nacionais de suplementação de micronutrientes traz na capa e na ficha catalográfica '2. ed., Brasília, 2025' e, três linhas abaixo da ficha, a linha de copyright '2022 Ministério da Saúde'. No mesmo Caderno, a tabela que lista o que a Rename oferece traz 'Fonte: Ministério da Saúde, 2020' — uma edição de 2025 citando a relação de medicamentos de cinco anos antes, embora a Rename 2024 já existisse.

A omissão que produz o erro mais caro deste capítulo. A tabela do Caderno do Ministério da Saúde que lista os insumos disponíveis pela Rename escreve 'Sulfato ferroso — 5 mg/mL xarope; 25 mg/mL solução oral; 40 mg comprimido', sem a expressão 'equivalente a ... de ferro elementar'. A Rename 2024, que é a fonte dessa tabela, escreve exatamente 'Equivalente a 5 mg/mL de ferro elementar', 'Equivalente a 25 mg/mL de ferro elementar' e 'Equivalente a 40 mg de ferro elementar'. Quem ler a tabela do Caderno como massa do sal — leitura natural, porque é assim que a maioria das concentrações é escrita — dividirá a dose por cinco.

Diferença de um décimo entre a fonte e quem a cita. O Caderno do Ministério da Saúde registra o recuo da prevalência de anemia em menores de 5 anos de 20,9% em 2006 para 10,0% em 2019, atribuindo o segundo número ao ENANI-2019. O relatório do próprio ENANI-2019 escreve, no corpo do texto, que a prevalência de anemia foi de 10,1% no Brasil. A diferença não muda conduta nenhuma e provavelmente é arredondamento, mas o valor publicado pela fonte primária é 10,1%, e é esse que este capítulo usa.

Dois programas universais para a mesma criança, sem regra de desempate. O NutriSUS é descrito como programa universal para crianças de 6 a 23 meses acompanhadas na Atenção Primária; o Programa Nacional de Suplementação de Ferro tem como público prioritário crianças de 6 a 23 meses. O mesmo documento declara que os dois não podem ser associados. Ou seja: toda criança dessa faixa é elegível aos dois e só pode receber um, e o documento não estabelece o critério de escolha — remete à autonomia da gestão municipal. Para o interno, a consequência prática é uma pergunta obrigatória na anamnese: a criança recebe sachê de micronutrientes em pó?

Uma faixa etária que a bula cobre e as réguas nacionais não. A tabela de dose profilática da bula profissional da FURP abre com a faixa de 0 a 6 meses (2 a 6 kg), indicando de 1 a 3 gotas por dia. Nem o Programa Nacional de Suplementação de Ferro nem as diretrizes de 2026 recomendam profilaxia medicamentosa nessa faixa para o recém-nascido a termo com peso adequado, cuja reserva e cujo leite materno bastam até por volta dos seis meses. E para o grupo que de fato recebe ferro antes dos seis meses — prematuros e baixo peso, a partir dos 30 dias — a dose recomendada é de 2 a 4 mg/kg/dia, o que num bebê de 2 kg dá de 4 a 8 gotas por dia, acima do teto de 3 gotas da bula. A bula, portanto, oferece dose a quem não precisa e oferece dose insuficiente a quem precisa.

A cobertura real do programa não é a faixa etária que ele anuncia. O Programa Nacional de Suplementação de Ferro é descrito como destinado a crianças de 6 a 23 meses, mas o esquema que ele determina são dois ciclos de três meses de uso diário, preferencialmente iniciados aos 6 e aos 12 meses. Somando: seis meses de suplementação dentro de uma janela de dezoito meses de elegibilidade. Entre os 9 e os 12 meses a criança está em pausa programada, e depois dos 15 meses o programa terminou. Isso não é falha de execução — é o desenho —, mas quem lê 'de 6 a 23 meses' e imagina dezoito meses de ferro está imaginando outra coisa.

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A conduta, hora a hora

A conduta abaixo é a da Heloá — 11 meses, 9,2 kg, hemoglobina de 9,4 g/dL, volume corpuscular médio de 68 fL, amplitude de distribuição dos eritrócitos de 17,4%, caderneta sem registro de sulfato ferroso. Os marcos são de consulta e de semanas, não de minutos: esta é uma doença cujo relógio é lento e cujo maior inimigo é o abandono.

Todas as doses estão escritas em ferro elementar, e a conversão para o frasco vem escrita ao lado — é a regra de escrita deste capítulo.

  1. Consulta 0 — os primeiros cinco minutos, antes de qualquer receita

    Feche a história alimentar com três perguntas fechadas: o que ela bebe e quantas vezes por dia; quantas vezes por semana come carne, frango, peixe ou fígado; e o que ela come no almoço. Abra a caderneta na seção de suplementação e confirme com os olhos que não há registro. Confira peso e comprimento na curva e olhe conjuntiva, palma e leito ungueal. A anemia de 9,4 g/dL com esse padrão de índices e essa história não precisa de mais exame para começar a ser tratada, mas precisa de ferritina colhida ANTES da primeira dose se você quiser saber, no fim, se repôs o estoque.

    Prescrição
    • Hemograma completo, ferritina sérica e proteína C reativa — pedido único, coleta hoje ou na próxima manhã de coleta da unidade
    • Não repetir hemograma antes de 30 dias
    • Anotar na evolução qual critério de risco motivou o exame: falha na profilaxia e alimentação pobre em ferro heme
  2. Consulta 0 — a prescrição, escrita para ser conferível

    Dose terapêutica de 3 a 6 mg/kg/dia de ferro elementar. Em 9,2 kg isso são 28 a 55 mg/dia. Comece pela borda de baixo em criança que nunca tomou ferro: 28 mg/dia tolera melhor e sustenta adesão, e adesão é o que decide o desfecho. Escreva a dose em miligramas de ferro elementar e a operação em mililitros, e só então em gotas — depois de perguntar qual frasco a farmácia da unidade entrega e quantas gotas por mililitro ele tem. A dose terapêutica de 3 a 6 mg/kg/dia é de ferro elementar, e nenhuma das três apresentações brasileiras declara ferro elementar no nome comercial: as duas soluções orais declaram 125 mg/mL de sulfato ferroso heptaidratado, que são 25 mg/mL de ferro, e o comprimido declara 121,72 mg ou 124 mg de sulfato ferroso, que são 40 mg de ferro. Escrever a dose pela massa impressa no rótulo erra por um fator de três a cinco, sempre para menos.

    Prescrição
    • Sulfato ferroso solução oral (25 mg de ferro elementar por mL) — 28 mg de ferro elementar por dia, via oral, uma vez ao dia
    • Com 25 mg de ferro elementar/mL, 28 mg correspondem a 1,12 mL; o serviço pode arredondar para volume mensurável, como 1,1 mL (27,5 mg). Se utilizar gotas, 28 gotas equivalem a 28 mg apenas no conta-gotas de 25 gotas/mL. Escolher uma medida e conferi-la com a família.
    • Oferecer conforme tolerância, evitando leite, chá e café junto da dose. Uma fruta apropriada à idade pode acompanhar a alimentação; não é necessário introduzir suco no lactente para administrar ferro.
    • Escrever na receita o nome da apresentação e o número de gotas por mililitro do frasco entregue
    • Frasco de 30 mL a 1,1 mL/dia dura 27 dias — programe a segunda dispensação antes do retorno
  3. Consulta 0 — o que se retira, que vale tanto quanto o que se dá

    Ferro sem mudança de dieta trata o episódio e devolve a criança ao mesmo lugar. As três medidas com maior efeito por minuto de consulta são: reduzir o leite de vaca, oferecer carne com regularidade e separar o remédio das refeições lácteas. A orientação alimentar completa é do capítulo de Nutrologia Pediátrica; o que cabe aqui é o recorte que muda a absorção do que você acabou de prescrever.

    Prescrição
    • Retirar o leite de vaca integral como bebida principal do primeiro ano; se não houver amamentação, discutir fórmula infantil até por volta dos 12 meses
    • Carne bovina, suína, frango, peixe ou fígado em pelo menos uma refeição por dia
    • Fruta cítrica junto do almoço e do jantar
    • Não oferecer chá, café ou leite na hora do sulfato ferroso
  4. Consulta 0 — a conversa que impede o abandono

    Três efeitos previsíveis derrubam o tratamento na primeira semana se ninguém avisar: fezes escuras, dor de barriga e recusa pelo gosto metálico. Avise os três antes que aconteçam, com essas palavras, e diga o que fazer com cada um. Diga também quanto tempo vai durar — pais que ouvem 'três a seis meses' no primeiro dia não abandonam no segundo mês achando que já acabou.

    Prescrição
    • Explicar que as fezes vão ficar escuras e que isso não é sangramento
    • Se houver desconforto abdominal, oferecer com um pouco de comida em vez de suspender; se persistir, fracionar a dose em duas tomadas
    • Combinar por escrito a data do retorno em 30 a 45 dias, com hemograma no dia
    • Registrar o telefone e verificar quem, na casa, vai dar o remédio todo dia
  5. Consulta 0 — a profilaxia que ficou para trás, e o cuidado de não somar

    A caderneta em branco identifica uma falha do programa que a consulta pode corrigir hoje. Mas atenção à ordem: a criança com anemia diagnosticada sai da lógica profilática e entra na terapêutica. Não se soma o sulfato ferroso do Programa Nacional de Suplementação de Ferro à dose de tratamento, nem se mantém sachê de micronutriente em pó junto do tratamento — o próprio Ministério da Saúde declara que a criança do NutriSUS não deve receber outro suplemento de ferro.

    Prescrição
    • Registrar na Caderneta da Criança, na seção de suplementação, o que está sendo prescrito e por quê
    • Suspender sachê de micronutrientes em pó, se estiver em uso, durante o tratamento
    • Registrar o procedimento de dispensação de suplemento de ferro apenas quando a entrega for profilática, não terapêutica
    • Deixar anotado que a profilaxia do programa se retoma depois de encerrado o tratamento, se a idade ainda permitir
  6. Semana 4 a 6 — a reavaliação que confirma ou desmonta o diagnóstico

    Hemograma no dia do retorno. O ganho esperado é de 1,0 g/dL ou mais em 30 a 45 dias. Se veio, o diagnóstico está confirmado pela resposta e o tratamento segue na mesma dose. Se não veio, percorra as cinco causas na ordem — adesão, dose, fator causal persistente, diagnóstico incorreto, inflamação ativa — antes de trocar de sal ou de pensar em via parenteral. A primeira pergunta é sempre quantos frascos foram comprados, e não como o remédio foi tomado. E há uma armadilha de leitura no hemograma dessa consulta: a amplitude de distribuição dos eritrócitos costuma subir antes de cair, porque a nova população de hemácias normais passa a conviver com a população microcítica antiga. Um valor que foi de 17,4% para 19% não é piora — é a primeira evidência de que a medula respondeu.

    Prescrição
    • Hemograma completo no dia do retorno
    • Perguntar quantos frascos acabaram desde a última consulta e pedir que tragam o frasco em uso
    • Conferir o conta-gotas do frasco que a família tem em casa contra o número de gotas prescrito
    • Se o ganho foi menor que 1,0 g/dL com adesão confirmada, revisar a dose em mg/kg/dia com o peso atual
  7. Mês 3 — a decisão que quase todo mundo erra

    A hemoglobina normalizou. Este é o ponto em que o tratamento costuma ser suspenso, e é o ponto em que ele não deve ser. Normalizar hemoglobina significa que a medula voltou a produzir; não significa que o estoque foi reposto. A recomendação é manter por três a seis meses, ou até a normalização da hemoglobina E a reposição adequada dos estoques — e a segunda condição chega depois da primeira. A avaliação final considera hemoglobina, índices hematimétricos e ferritina sérica ao término. Uma ressalva de leitura: a recomendação usa a conjunção ou — três a seis meses, ou até a normalização da hemoglobina e a reposição adequada dos estoques —, e alguém pode ler isso como permissão para parar assim que a hemoglobina normalizar. As duas condições que vêm depois do ou estão ligadas por e: normalizar a hemoglobina não basta sozinho, porque a reposição do estoque é a outra metade da mesma cláusula. Esta é uma leitura de texto, e o texto comporta a outra — vale saber que a ambiguidade existe.

    Prescrição
    • Manter a mesma dose de ferro elementar, recalculada pelo peso atual da criança
    • Não suspender apenas porque a hemoglobina normalizou
    • Programar hemograma e ferritina sérica ao final do período de tratamento
    • Se a criança ganhou peso, refazer a conta: 3 a 6 mg/kg/dia com 10,5 kg são 32 a 63 mg/dia
  8. Mês 4 a 6 — encerrar bem, e devolver a criança à puericultura

    Encerra-se o tratamento com hemoglobina normal, índices hematimétricos normalizados e ferritina que indique estoque reposto. Encerrado o tratamento, a criança volta à lógica preventiva: se ainda estiver dentro da faixa de elegibilidade do programa, retoma a profilaxia; se não, mantém o acompanhamento alimentar e a vigilância nas consultas de puericultura. Deixe escrito, na caderneta e no prontuário, o que foi tratado, com que dose e por quanto tempo — quem atender essa criança daqui a um ano vai precisar disso.

    Prescrição
    • Hemograma e ferritina sérica de encerramento
    • Registrar na caderneta a data de início, a dose em ferro elementar e a data de término
    • Retomar a suplementação profilática se a idade ainda permitir
    • Manter a orientação alimentar e reavaliar em consulta de puericultura de rotina
    • Ao devolver à puericultura, conciliar o plano com o capítulo 19 de prevenção de carências: registrar quando termina a dose terapêutica e se/quando retoma profilaxia. Não somar sulfato ferroso, sachês e outros suplementos sem conferir a composição.
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Como saber se está funcionando

O tratamento da anemia ferropriva é longo e silencioso: a criança melhora antes que o exame mostre, e o exame melhora antes que o estoque encha. Sete parâmetros dizem se o caminho está certo, e quatro deles não são laboratoriais.

Vale fixar a ordem em que as coisas voltam ao normal, porque ela explica por que se trata por meses e não por semanas. Primeiro melhora o comportamento — disposição, apetite, iniciativa —, e isso costuma vir antes de qualquer exame mudar. Depois sobe a hemoglobina, que é o que se mede em 30 a 45 dias. Depois normalizam o volume corpuscular médio e a hemoglobina corpuscular média, com a amplitude de distribuição subindo antes de cair. Por último, e só por último, enche o estoque, que é o que a ferritina mede. Quem para no segundo passo trata um terço do problema.

HemoglobinaEntre 30 e 45 dias do início, e ao encerrar o tratamento

Esperado: Ganho de 1,0 g/dL ou mais em 30 a 45 dias; ao final, valor acima do corte da idade — 10,5 g/dL entre 6 e 23 meses, 11,0 entre 24 e 59 meses

Se não melhora: Percorra as cinco causas na ordem: adesão, dose, fator causal persistente, diagnóstico incorreto, inflamação ativa. Não troque de sal antes de excluir as duas primeiras, que respondem pela maioria dos casos.

Consumo real do frascoEm todo retorno, com o frasco na mesa

Esperado: Um frasco de 30 mL a 1,1 mL/dia acaba em 27 dias. Se a família não comprou o segundo frasco, a criança não tomou o primeiro inteiro

Se não melhora: É o dado mais honesto da consulta e o mais barato de obter. Antes de aumentar dose ou mudar de medicamento, conte frascos — a maior parte da falha terapêutica é medicamento que ficou na sacola.

Número de gotas por mililitro do frasco que a família temNa primeira consulta e sempre que a apresentação mudar

Esperado: Que o conta-gotas do frasco em uso seja o mesmo em que a prescrição foi calculada

Se não melhora: Se o frasco entregue tem 35 gotas por mL e a receita foi calculada em 25, a criança está recebendo 71% da dose. Reescreva a receita em mililitros e recalcule as gotas para aquele frasco.

Índices hematimétricos: volume corpuscular médio, hemoglobina corpuscular média e amplitude de distribuiçãoNo hemograma de 30 a 45 dias e no de encerramento

Esperado: Amplitude de distribuição sobe antes de cair, porque a nova população de hemácias normais convive com a antiga; volume e hemoglobina corpuscular média sobem depois da hemoglobina

Se não melhora: Microcitose persistente com hemoglobina corrigida e ferritina normal levanta traço talassêmico. Peça eletroforese de hemoglobina depois do sexto mês de vida.

Ferritina sérica, lida com a proteína C reativa ao ladoAntes da primeira dose e ao encerrar o tratamento

Esperado: Ao final, valor que indique estoque reposto — acima dos cortes de 12 mcg/L abaixo de cinco anos e 15 mcg/L a partir dos cinco, na ausência de inflamação

Se não melhora: Ferritina ainda baixa com hemoglobina normal significa estoque não reposto: o tratamento não terminou. Ferritina alta com proteína C reativa alta não é prova de reposição — repita fora do quadro agudo.

O que a criança bebe e comeEm todo retorno, com as mesmas três perguntas fechadas

Esperado: Leite de vaca fora do primeiro ano como bebida principal, carne em pelo menos uma refeição por dia, fruta cítrica junto

Se não melhora: Ferro que corrige o exame sem mudar a dieta compra seis meses. Se a dieta não mudou, planeje a recidiva e envolva a equipe: agente comunitário, nutricionista da equipe multiprofissional, a rede que existir.

Ritmo, atenção e disposição, pela descrição de quem conviveEm todo retorno

Esperado: Volta da iniciativa para explorar, menos irritabilidade, melhora do apetite — costuma vir antes da correção do hemograma

Se não melhora: É o parâmetro que sustenta a adesão da família quando o exame ainda não mudou. A avaliação formal de marcos do desenvolvimento é do capítulo de Puericultura; aqui basta perguntar e anotar o que a família descreve.

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Onde o erro machuca

Prescrever a dose lida no rótulo como se fosse ferro elementar — ou, o inverso, prescrever ferro elementar e a farmácia dispensar pela massa do sal.

O dano: O sulfato ferroso heptaidratado tem 20,1% de ferro; o dessecado tem 32,9%. Uma prescrição de 'sulfato ferroso 40 mg' entendida como massa do sal entrega cerca de 8 mg de ferro elementar em vez de 40 — um quinto da dose. A criança toma remédio por três meses, engole o efeito adverso inteiro e não corrige a hemoglobina, e o caso é rotulado como falha terapêutica.

Como pegar a tempo: Escreva sempre a expressão 'de ferro elementar' na dose e acrescente a operação em mililitros. Se a receita não tem essas duas coisas, ela não é conferível por quem vai dispensar. E desconfie de qualquer tabela que liste 'sulfato ferroso 40 mg comprimido' ou 'sulfato ferroso 25 mg/mL solução oral' sem a palavra equivalente: a Rename escreve 'equivalente a 40 mg de ferro elementar', e o material de apoio que copia a Rename às vezes perde essa expressão pelo caminho.

Prescrever em gotas sem saber quantas gotas por mililitro tem o frasco que aquela família vai levar para casa.

O dano: As três soluções orais conferidas neste capítulo trazem os mesmos 25 mg de ferro elementar por mL e conta-gotas de 20, 25 e cerca de 35 gotas por mL. A mesma receita de 10 gotas por dia entrega 12,5 mg, 10,0 mg ou 7,1 mg de ferro. A diferença entre os extremos é de 1,76 vez, e ela aparece sem que ninguém tenha mudado nada na conduta.

Como pegar a tempo: Prescreva em mililitros e traduza para gotas só depois de saber qual apresentação será dispensada. Peça o frasco na mesa no retorno e confira o rótulo com a família. Sempre que a dose ultrapassar meio mililitro, entregue seringa dosadora em vez de contar gotas: além de eliminar a variável do conta-gotas, contar quarenta ou sessenta gotas com uma criança no colo não acontece na vida real, e o que não acontece na vida real não é prescrição.

Suspender o ferro quando a hemoglobina normaliza.

O dano: Hemoglobina normal significa que a medula voltou a produzir, não que o estoque encheu. Interromper aí devolve a criança à mesma carência em poucos meses, com a diferença de que agora a família acredita que já tratou. É a causa mais comum de recidiva e a mais fácil de evitar.

Como pegar a tempo: Combine a duração no primeiro dia: três a seis meses, com hemograma e ferritina de encerramento. Escreva a data prevista de término na caderneta, para que quem atender no meio do caminho não interrompa. E diga a frase inteira à família na primeira consulta, não na terceira: o remédio vai durar de três a seis meses, o exame vai melhorar bem antes disso, e melhorar não é motivo para parar. Quem ouve isso no dia um não abandona no dia sessenta.

Pedir ferritina sem proteína C reativa, ou ler a ferritina sem olhar a proteína C reativa ao lado.

O dano: Inflamação empurra a ferritina para cima, porque ela é reagente de fase aguda. Uma criança de 2 anos com infecção e ferritina de 26 mcg/L tem deficiência de ferro pelo corte que se aplica a ela — 30 mcg/L com inflamação —, mas será considerada normal por quem usar o corte de 12. O resultado é uma criança carente devolvida sem tratamento e com um exame que parece tranquilizador no prontuário.

Como pegar a tempo: Peça os dois no mesmo pedido e leia a proteína C reativa primeiro: sem ela não há como saber em qual das duas colunas de corte aquele resultado deve ser lido.

Usar o corte antigo de 11,0 g/dL de hemoglobina para toda a faixa de 6 a 59 meses.

O dano: A régua que as diretrizes de 2026 transcrevem separa a faixa: abaixo de 10,5 g/dL entre 6 e 23 meses, abaixo de 11,0 entre 24 e 59 meses. Usar 11,0 no lactente rotula como anêmica uma criança que não é, e gera tratamento, exame e ansiedade sem indicação. Usar 10,5 no pré-escolar faz o contrário e deixa passar.

Como pegar a tempo: Tenha o corte por idade na mesa e leia a idade antes de ler o número. E lembre que a prevalência nacional que você conhece foi medida com o corte antigo — os dois números não são comparáveis.

Tratar a anemia e não tocar na causa — o leite de vaca que ficou, a carne que não entrou, a perda sanguínea que ninguém procurou.

O dano: O tratamento corrige o exame e a criança volta ao mesmo consumo. Seis meses depois ela está no mesmo lugar, e agora com uma família que já tentou e desacredita do remédio. Nos casos em que havia perda — parasitose, sangramento digestivo, menorragia na adolescente —, repor ferro sem achar a fonte adia o diagnóstico da doença que sangra.

Como pegar a tempo: Na mesma consulta em que prescreve, faça as três perguntas alimentares e uma pergunta sobre perdas. Em criança que não responde ao tratamento, ou que vive em área de saneamento precário, inclua parasitológico de fezes. E trate a mudança alimentar como prescrição, com a mesma concretude: em vez de orientar alimentação saudável, combine quantas vezes por semana entra carne, o que substitui a mamadeira das dez da manhã e qual fruta vai junto do almoço. Orientação genérica não muda compra de supermercado.

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O que dizer ao paciente e à família

Sete frases que aparecem em quase toda consulta de ferro na infância, com o que dizer e o que não dizer. O objetivo de todas é o mesmo: manter o frasco em uso por três a seis meses numa casa em que ninguém vê a criança melhorar de um dia para o outro.

"O cocô ficou preto, doutor. Achei que era sangue e parei." — a mãe, no retorno, com o frasco quase cheio.

"A senhora fez certo em vir contar. E fico aliviado, porque preto assim é justamente o que a gente espera: é o próprio ferro saindo, a parte que o corpo não absorveu. Não é sangue e não faz mal. Sangue nas fezes é outra coisa — vermelho vivo, ou preto e com cheiro muito forte, junto com a criança abatida. Se aparecer assim, aí sim me procure. Vamos recomeçar hoje, e eu vou escrever isso no papel para a senhora não ficar na dúvida de novo."

Não diga: "É normal, pode continuar" e passar para o assunto seguinte. A família suspendeu porque teve medo, e medo não some com a palavra normal — some quando ela sabe distinguir o esperado do que exige voltar.

"Mas ela já está bem. Precisa mesmo tomar mais três meses?" — no retorno em que a hemoglobina normalizou.

"Precisa, e vou te explicar por quê, porque essa é a parte que mais gente para no meio. O exame de sangue mostra o que está circulando agora. O que a gente ainda não recompôs é o estoque, a reserva que o corpo guarda para os meses seguintes. Se a gente parar hoje, ela gasta o que circula e volta ao mesmo ponto antes do fim do ano. Vamos manter até completar o tempo e repetir os exames no fim — aí eu te mostro no papel que a reserva encheu."

Não diga: "O protocolo manda" ou "é assim que se faz". Quem não entende por que continua, para quando o frasco acaba num fim de semana.

"Ela não toma de jeito nenhum. Cospe, chora, vira a cara."

“Se o ferro incomodar, vamos rever a forma de dar e a dose realmente recebida. Podemos ajustar o horário ou oferecer com um pouco de alimento adequado à idade, quando necessário para tolerar. Evite misturar com leite ou chá. Não precisa começar a dar suco ao bebê para o remédio funcionar. Traga o frasco e a seringa no retorno; se ele vomitar tudo ou não conseguir tomar, fale conosco antes.”

Não diga: Aumentar a dose para compensar o que é cuspido. Sem saber quanto ficou, aumentar é chutar — e a dose maior costuma piorar a recusa.

"A moça da farmácia disse que esse é diferente do que eu pegava antes." — a avó, com dois frascos na mão.

"Deixa eu ver os dois. Olha aqui: os dois têm a mesma quantidade de ferro em cada mililitro, mas o conta-gotas é diferente — num deles cabem vinte gotas em um mililitro, no outro cabem trinta e cinco. Se a senhora contar o mesmo tanto de gotas nos dois, a menina recebe quantidades diferentes. Por isso eu vou escrever a receita em mililitros também, e a senhora usa a seringa. Assim não depende de qual frasco a farmácia tiver."

Não diga: "É a mesma coisa, pode usar igual." Não é a mesma coisa, e essa frase é literalmente a origem do erro que este capítulo existe para evitar.

"Ele come terra do vaso. Já bati, já expliquei, e ele continua." — o pai de um menino de 3 anos.

"Isso não é teimosia, é sintoma. Tem uma vontade de comer coisas que não são comida que aparece justamente quando falta ferro no corpo, e ela some quando a gente repõe. Então em vez de brigar, vamos colher um exame de sangue e tratar. Ao mesmo tempo eu vou pedir um exame de fezes, porque quem come terra pode pegar verme, e o verme faz perder ferro pelo intestino — seria os dois problemas ao mesmo tempo."

Não diga: Tratar a pica como questão de disciplina, ou pedir só o exame de sangue. A geofagia liga carência e parasitose, e vale procurar as duas.

"Ele já toma vitamina daquela do postinho, do saquinho." — no meio de uma prescrição de tratamento.

"Que bom que a senhora falou, porque agora a gente muda. Aquele sachê é para prevenir, para quem ainda não tem o problema. Ele tem ferro dentro, e como agora vamos dar uma dose de tratamento, os dois juntos seriam demais. Então a gente guarda o sachê, faz o tratamento certo, e quando terminar eu digo se volta ou não. Vou escrever isso na caderneta para a equipe toda saber."

Não diga: Prescrever o tratamento por cima do que já está em uso. Somar suplemento profilático com dose terapêutica é excesso desnecessário e piora a tolerância bem no começo, quando a adesão é mais frágil.

"Então ela vai ficar burra por causa disso?" — a mãe, depois de ouvir sobre desenvolvimento.

"Não é assim. O que a gente sabe é que a falta de ferro nessa idade atrapalha atenção, humor e a vontade de explorar, e que quanto antes se corrige, melhor. É exatamente por isso que a gente trata e trata pelo tempo todo, em vez de só até o exame melhorar. A senhora trouxe ela agora, com onze meses, e isso conta a favor. O que eu preciso da senhora é o frasco em uso todo dia e a volta aqui na data."

Não diga: Nem minimizar ("não vai dar em nada") nem amplificar ("pode comprometer o futuro dela"). O primeiro derruba a adesão; o segundo produz culpa numa mãe que fez o que pôde.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Rastrear hemoglobina em toda criança por volta dos 12 meses, ou só nas de risco

Só quem tem fator de risco, entre nove e 12 meses

Lactentes saudáveis, com crescimento adequado e alimentação apropriada à idade, não precisam de investigação laboratorial de rotina. O exame se indica diante de prematuridade, baixo peso ao nascer, falha na suplementação profilática, alimentação deficiente em ferro de boa biodisponibilidade ou crescimento inadequado. O argumento é que a profilaxia universal já protege a criança de baixo risco, e que testar quem não tem risco gera resultado ambíguo, repetição e tratamento sem indicação.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Diretrizes nº 32, 17 de março de 2026, seções de diagnóstico e de recomendações práticas.

Todas as crianças, uma dosagem de hemoglobina por volta do primeiro ano

A tradição pediátrica de rastreio universal ao redor dos 12 meses se apoia na alta prevalência na faixa — 19,0% entre 6 e 23 meses no inquérito nacional, chegando a 30,3% na Região Norte —, na baixa acurácia do exame físico para detectar anemia leve e na cobertura incompleta da profilaxia, que a própria caderneta em branco de tantas crianças documenta. Onde a profilaxia não chega, a triagem por risco depende de uma história alimentar confiável que nem sempre existe.

ENANI-2019, Relatório 3, prevalências por faixa etária e macrorregião; e a prática de rastreio universal ao primeiro ano consolidada nas pediatrias de serviço.

Como decidir

Esta apostila adota a régua de 2026 — exame só com fator de risco —, e decide pela data: a diretriz é de março de 2026, e o rastreio universal se apoia nas prevalências de um inquérito de 2019 e numa tradição de serviço, não numa recomendação escrita mais nova. A régua cobre boa parte da preocupação do outro lado, porque caderneta em branco é falha na suplementação profilática e dieta sem fonte de ferro de boa biodisponibilidade é alimentação deficiente — os dois estão na lista de fatores de risco da própria diretriz, e essa criança sai com hemograma, ferritina e proteína C reativa. Se a caderneta mostra os dois ciclos de profilaxia entregues, a alimentação tem carne e a criança cresce bem, não peça. O rastreio universal fica registrado como a posição de quem atende em território de alta prevalência, onde a criança pode não voltar. Registre na evolução o fator de risco que motivou o exame — isso permite que o próximo médico entenda o exame que encontrar.

Iniciar ferro empiricamente pelo hemograma, ou confirmar com ferritina antes

Confirmar antes: hemograma, ferritina e proteína C reativa juntos

A investigação se apoia nos três exames, e o encerramento do tratamento considera hemoglobina, índices hematimétricos e ferritina sérica. Sem ferritina basal não há como saber, ao final, se o estoque foi reposto ou apenas a hemoglobina foi corrigida; e o traço talassêmico, que responde pouco ao ferro, é identificado cedo em vez de depois de três meses de tratamento inútil.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Diretrizes nº 32, 2026, seções de diagnóstico laboratorial e de monitoramento da resposta.

Tratar e usar a resposta em 30 a 45 dias como o teste diagnóstico

O ganho esperado de hemoglobina de 1,0 g/dL ou mais em 30 a 45 dias é, ele próprio, um critério de resposta reconhecido, e a ausência de resposta é o gatilho explícito para investigar diagnóstico incorreto. Em serviço sem acesso confiável a ferritina, ou quando a coleta atrasaria o início em semanas, começar o tratamento e reavaliar transforma o tempo de espera em tempo de tratamento.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Diretrizes nº 32, 2026, seção de tratamento (resposta esperada de 1,0 g/dL em 30 a 45 dias e a lista de causas de não resposta).

Como decidir

Esta apostila adota confirmar antes: hemograma, ferritina e proteína C reativa juntos, e o ferro terapêutico começa com o diagnóstico confirmado. Não é preciso degrau de desempate — os dois lados citam a mesma diretriz de 2026, e a recomendação dela é essa; o ganho de hemoglobina em 30 a 45 dias é como ela monitora a resposta, não como diagnostica. O atalho de tratar e usar a resposta como teste fica registrado, e só é defensável onde a ferritina não está disponível e a reavaliação está garantida: data marcada, hemograma agendado e alguém responsável por buscar quem faltar. Sem esse arranjo — pronto-socorro sem seguimento, família que mora longe, unidade sem agenda de retorno —, o atalho é o que faz a criança sumir com um diagnóstico presumido. E, havendo ferritina, colha antes da primeira dose: depois de iniciado o ferro, o valor basal está perdido para sempre.

Dose profilática fixa com pausas, ou dose diária por quilo, contínua

Dose fixa de 10 a 12,5 mg/dia em dois ciclos de três meses, com pausa de três meses

É a régua do Programa Nacional de Suplementação de Ferro desde 2022, incorporada pelas diretrizes brasileiras de 2026. Os argumentos declarados são operacionais e clínicos: dose fixa dispensa cálculo por peso e reduz erro de prescrição, especialmente entre profissionais em formação; a intermitência reduz efeito adverso gastrintestinal e melhora adesão; e os ciclos se encaixam no calendário de consultas de puericultura.

Ministério da Saúde, Caderno dos programas nacionais de suplementação de micronutrientes, 2. ed., 2025 (conduta do PNSF); e SBP, Diretrizes nº 32, 2026.

1 mg de ferro elementar por quilo por dia, contínuo, dos 6 aos 24 meses

É a recomendação do Consenso da Sociedade Brasileira de Pediatria publicado em 2018 e atualizado em 2021, que orientou uma geração inteira de pediatras e ainda circula em protocolos de serviço. O argumento é a cobertura: a dose por peso acompanha o crescimento e não deixa nenhuma janela sem suplemento, enquanto o esquema em ciclos entrega seis meses de ferro numa faixa de dezoito meses de elegibilidade e deixa a criança sem suplemento entre os 9 e os 12 meses.

Sociedade Brasileira de Pediatria, Consenso sobre anemia ferropriva, 2018, atualizado em 2021, citado nas diretrizes de 2026.

Como decidir

Confira primeiro o que a criança de fato vai receber, e não o que o esquema promete. Numa unidade com dispensação regular e puericultura funcionando, o esquema em ciclos chega inteiro e é mais simples de prescrever certo. Numa criança que aparece pouco, o risco de a janela de elegibilidade fechar sem que os dois ciclos aconteçam é real, e a dose por peso enquanto ela está na sua frente pode ser o que efetivamente protege. Em qualquer caso, registre na caderneta o que foi entregue e quando: é esse registro, e não o esquema escolhido, que permite ao próximo profissional saber se a criança está coberta.

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O raciocínio, em voz alta

Ambulatório de pediatria de um hospital de ensino, quinta-feira de manhã. Josuel Itaboraí tem 3 anos e 2 meses, 14,1 kg, e vem encaminhado pela unidade básica com uma frase no papel: "anemia que não melhora com ferro". Está em tratamento há quatro meses. A primeira hemoglobina, em janeiro, foi 10,2 g/dL, com volume corpuscular médio de 64 fL, hemoglobina corpuscular média de 20 pg e amplitude de distribuição dos eritrócitos de 13,1%. A hemoglobina de hoje é 10,4 g/dL, com volume corpuscular médio de 63 fL e amplitude de 13,4%. Não há ferritina em lugar nenhum do prontuário. A mãe trouxe a receita: sulfato ferroso solução oral, 15 gotas ao dia. E trouxe o frasco.

  1. o que chama a atenção antes de qualquer exame novo

    Três coisas, e nenhuma delas é a hemoglobina. Primeira: a microcitose é desproporcional à anemia. Um volume corpuscular médio de 63 fL com hemoglobina de 10,4 g/dL é muita microcitose para pouca anemia — na ferropriva, os dois costumam cair juntos. Segunda: a amplitude de distribuição dos eritrócitos está praticamente normal, em 13,4%. Na ferropriva ela sobe, porque convivem hemácias de tamanhos diferentes. Terceira: quatro meses de ferro moveram a hemoglobina em 0,2 g/dL, quando o esperado eram 1,0 g/dL em 30 a 45 dias.

  2. pego o frasco antes de pedir exame

    O frasco é de 30 mL, está pela metade, e o rótulo diz 125 mg/mL de sulfato ferroso heptaidratado, equivalente a 25 mg/mL de ferro elementar, cerca de 35 gotas por mL. Faço a conta na frente da mãe: cada gota tem 25 dividido por 35, ou 0,71 mg de ferro. Quinze gotas por dia são 10,7 mg de ferro elementar. Para 14,1 kg, a dose terapêutica seria de 42 a 85 mg por dia. Josuel está recebendo cerca de um quarto do piso — e isso antes de discutir se ele toma todos os dias.

  3. a conta de adesão, que é gratuita

    Meio frasco de 30 mL em quantos dias? A 15 gotas por dia, num conta-gotas de 35 gotas por mL, são 0,43 mL por dia: 15 mL durariam 35 dias. A mãe diz que esse frasco é o terceiro em quatro meses. A conta bate razoavelmente com o uso quase diário. Ou seja: a adesão não é o problema aqui. Isso muda o diagnóstico diferencial, porque tira da mesa a explicação mais comum e deixa as outras.

  4. o que peço agora, e por quê

    Hemograma completo, ferritina sérica, proteína C reativa e eletroforese de hemoglobina, no mesmo pedido. A ferritina e a proteína C reativa respondem se ainda falta ferro — e nunca foram colhidas, nem antes nem durante. A eletroforese responde a hipótese que os índices sugerem desde o primeiro hemograma: traço beta-talassêmico, que dá microcitose desproporcional com amplitude de distribuição pouco alterada e não responde a ferro. Josuel tem 3 anos, bem depois do sexto mês de vida, então a eletroforese é interpretável.

  5. o que faço com a dose enquanto os exames não voltam

    Corrijo a prescrição, porque a dose atual está errada em qualquer cenário. Escrevo em duas linhas: sulfato ferroso, 45 mg de ferro elementar por dia, via oral; solução oral de 25 mg de ferro elementar por mL, 1,8 mL por dia — o que corresponde a 63 gotas no frasco de 35 gotas por mL, ou 45 gotas num frasco de 25 gotas por mL. E entrego uma seringa dosadora de 1 mL com a receita, porque contar 63 gotas em criança de 3 anos não acontece na vida real.

  6. o que NÃO faço, e por quê

    Não troco o sulfato ferroso por outro sal, não indico ferro parenteral e não peço mielograma. Trocar de sal seria tratar como intolerância um problema que é de dose: as evidências não mostram superioridade consistente entre as formulações orais, e o único caminho de troca previsto no elenco nacional — a ferripolimaltose — está amarrado à intolerância ao sulfato ferroso, que Josuel não tem. Ferro parenteral entra depois de excluídas adesão, dose, fator causal, diagnóstico incorreto e inflamação, e aqui duas dessas cinco ainda estão abertas. Mielograma não pertence à investigação de anemia carencial da criança.

  7. o que digo à mãe, em uma frase

    "A senhora e o Josuel fizeram a parte de vocês: o remédio foi dado. O problema é que a dose escrita era muito menor do que ele precisava, por causa do tipo de conta-gotas desse frasco. Corrigi hoje. E pedi mais dois exames, porque existe uma outra causa de sangue assim que não melhora com ferro, e eu preciso descartar antes de a gente continuar mais quatro meses."

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Faça você

Unidade básica de saúde, segunda-feira de manhã, consulta de puericultura. Manoela Sarraf tem 8 meses de idade cronológica e nasceu com 34 semanas e 1.720 g. Hoje pesa 6,8 kg. Teve alta da unidade neonatal aos 29 dias, com uma receita de sulfato ferroso que a mãe guardou na pasta e nunca renovou — a farmácia da unidade pediu receita nova no segundo mês e ninguém tinha consulta marcada. Manoela mama no peito e come papa uma vez por dia, sem carne. Está ativa, sorri, senta sem apoio. A conjuntiva está descorada. Não há nenhum exame no prontuário. A preceptora está em outra sala e você tem doze minutos.

  1. reconheço o padrão

    Prematura de 34 semanas, baixo peso ao nascer, profilaxia de ferro interrompida no primeiro mês, alimentação complementar sem fonte de ferro heme, palidez de conjuntiva aos 8 meses. São três dos cinco critérios de risco ao mesmo tempo, e o quarto — crescimento — precisa ser checado na curva.

  2. decido o que pedir

    Hemograma completo, ferritina sérica e proteína C reativa, no mesmo pedido. A janela recomendada para essa criança é entre nove e 12 meses, e ela está em oito — mas a régua diz "ou no momento em que o profissional considerar pertinente", e três critérios somados com palidez tornam esse momento agora.

  3. decido a dose antes do resultado

    Duas doses estão em jogo e é preciso escolher deliberadamente entre elas. A profilaxia que ela deveria estar recebendo, pelo peso ao nascer entre 1.500 g e 2.500 g, é de 2 mg/kg/dia até o fim do primeiro ano — 13,6 mg/dia nos 6,8 kg de hoje. A dose terapêutica, se a anemia se confirmar, é de 3 a 6 mg/kg/dia — 20 a 41 mg/dia. A decisão é qual delas começar hoje, antes de o exame voltar.

  4. penso no que mais essa história esconde

    Duas coisas. A primeira é que o problema que trouxe Manoela aqui não foi clínico: foi uma receita que venceu e uma agenda que não existia. Resolver o caso sem resolver isso garante a repetição. A segunda é a soma: se em algum momento ela entrar no NutriSUS ou receber sachê de micronutrientes, ele não pode conviver com o sulfato ferroso — e se ela passar a receber fórmula infantil, a oferta de ferro da fórmula entra no cálculo do que ainda precisa ser suplementado.

  5. escrevo a receita para ser conferível

    Escreva a dose em miligramas de ferro elementar, a operação em mililitros e a tradução em gotas com o número de gotas por mililitro do frasco que a farmácia da unidade dispensa. E escreva a data do retorno.

Ver como fecharíamos

Comece hoje a profilaxia que ficou para trás, e não a dose terapêutica: 2 mg/kg/dia pelo peso ao nascer entre 1.500 g e 2.500 g, o que dá 13,6 mg de ferro elementar por dia nos 6,8 kg atuais — arredonde para 14 mg/dia. Na solução oral de 25 mg de ferro elementar por mL isso é 0,56 mL/dia; escreva 0,6 mL/dia com seringa dosadora, e traduza em gotas apenas depois de conferir o frasco (14 gotas num frasco de 25 gotas/mL, 11 gotas num de 20 gotas/mL, 20 gotas num de 35 gotas/mL). A escolha da dose profilática, e não da terapêutica, tem uma razão: a anemia ainda não está confirmada, a criança não tem repercussão nenhuma, e a diferença de quatro ou cinco dias até o resultado não muda desfecho — enquanto começar direto com dose de tratamento numa criança que talvez não a precise piora a tolerância logo no início, que é quando a adesão é mais frágil. Colha os três exames antes da primeira dose: sem a ferritina basal, você não terá como saber, daqui a seis meses, se repôs o estoque ou apenas corrigiu o número. Marque o retorno em 30 dias com o resultado na mão — se a ferritina vier baixa e a hemoglobina abaixo de 10,5 g/dL, você sobe para 3 a 6 mg/kg/dia e conta os três a seis meses a partir dali. E resolva hoje o problema administrativo que criou o caso: deixe a receita renovada com validade suficiente e anote na Caderneta da Criança, na seção de suplementação, que a profilaxia foi reiniciada — foi a receita vencida, e não a doença, que produziu esta consulta.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Normalizar a hemoglobina significa que a medula voltou a produzir; não significa que o estoque corporal de ferro foi reposto. A recomendação é manter o tratamento por três a seis meses, ou até a normalização da hemoglobina e a reposição adequada dos estoques, e a avaliação final considera hemoglobina, índices hematimétricos e ferritina sérica ao término. Suspender assim que o número normaliza é a causa mais comum de recidiva, e tem o agravante de deixar a família convencida de que já tratou. Reduzir a dose pela metade não corresponde a nenhuma recomendação: a dose de reposição de estoque é a mesma dose terapêutica, recalculada pelo peso atual.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Prescreva a mesma dose de ferro elementar para os dois frascos da tabela: calcule mg, converta em mL e demonstre a medida. Interprete um hemograma com ferritina baixa e outro com inflamação; explique o que cada exame permite concluir e quando reavaliar mais cedo.

Em 30 dias

Pegue três receitas de ferro escritas no seu serviço no último mês — as suas ou as de quem trabalha com você. Para cada uma, refaça a conta: a dose está escrita em ferro elementar ou em massa do sal? Há a operação em mililitros ao lado do número de gotas? O conta-gotas do frasco dispensado bate com o número de gotas prescrito? Depois abra as três cadernetas correspondentes e veja se há data de reavaliação marcada. Anote quantas das três passariam numa conferência feita por outra pessoa.

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Agora atenda

Agora atenda: consulta de puericultura numa unidade básica, lactente de 11 meses trazido pela mãe com um hemograma feito no pronto-socorro há dez dias e a queixa de que a criança está fraca. Colha a história alimentar, decida o que pedir, escreva a prescrição em ferro elementar com a conversão ao lado e combine a reavaliação.

Anemia ferropriva na infância – O que está escrito no vidro não é a dose — Internato | OsceLabs