Clínica Médica › Imunologia
A placa que some e o inchaço que não coça
Urticária e angioedema
O adulto e o adolescente com urticária e angioedema na unidade básica e no pronto-atendimento: separar da anafilaxia na porta, tratar por via oral com o anti-histamínico que o SUS entrega, não pedir o exame que não muda conduta, reconhecer a urticária crônica e subir a escada até onde a atenção primária vai, e identificar o angioedema da bradicinina, que não responde a adrenalina, anti-histamínico nem corticoide.
Dias GAC, Agondi RC, Brandão LS, Mansour E, Santos PFAM, Campinhos FL et al. Atualização do Guia Prático da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia para o Diagnóstico e Tratamento da Urticária baseado na diretriz internacional. Arq Asma Alerg Imunol. 2024;8(2):91-115. doi:10.5935/2526-5393.20230082
Alcântara CT, Raeder DFT, Campinhos FL, Brandão LS, Campos RA, França AT et al. Guia prático de urticária aguda. Arq Asma Alerg Imunol. 2022;6(2):214-24. doi:10.5935/2526-5393.20220022
Campos RA, Serpa FS, Mansour E, Alonso MLO, Arruda LK, Aun MV et al. Diretrizes brasileiras do angioedema hereditário 2022 – Parte 1: definição, classificação e diagnóstico. Arq Asma Alerg Imunol. 2022;6(2):151-69. doi:10.5935/2526-5393.20220019
Campos RA, Serpa FS, Mansour E, Alonso MLO, Arruda LK, Aun MV et al. Diretrizes brasileiras de angioedema hereditário 2022 – Parte 2: terapêutica. Arq Asma Alerg Imunol. 2022;6(2):170-96. doi:10.5935/2526-5393.20220020
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria nº 880, de 12 de julho de 2016. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Angioedema associado à deficiência de C1 esterase (C1-INH)
Brasil. Ministério da Saúde. Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Angioedema Hereditário associado à deficiência de inibidor de C1-esterase. Relatório de Recomendação, versão preliminar submetida à Consulta Pública SECTICS/MS nº 50/2024. Brasília: Ministério da Saúde; agosto de 2024
Zuberbier T, Abdul Hameed Ansari Z, Abdul Latiff AH et al. The International Guideline for the Definition, Classification, Diagnosis and Management of Urticaria. Allergy. 2026. doi:10.1111/all.70210
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Mulher de 26 anos chega à unidade de pronto-atendimento com placas elevadas, de centro pálido e halo avermelhado, que coçam e mudam de lugar pelo tronco e pelos braços há seis horas. Está com coriza e dor de garganta há três dias e tomou ibuprofeno 600 mg duas vezes hoje. As pálpebras estão discretamente inchadas. A voz é normal, engole sem esforço, não tem falta de ar, chiado, vômito, cólica nem tontura. Pressão arterial de 116 por 72 mmHg, saturação de 98%, língua e úvula normais. Uma foto mostra uma placa, hoje ausente, fotografada quatro horas antes. Qual é a conduta mais adequada?
O paciente que você vai ver
Sexta-feira, 3 de julho, 22h10, unidade de pronto-atendimento de um bairro grande. Na sala de medicação, a técnica de enfermagem já deixou separadas duas seringas numa bandeja: prometazina para o músculo e hidrocortisona para a veia. “É o de sempre para alergia, doutor, só falta a prescrição.” A paciente da bandeja é Anadir Gurgel, 27 anos, diarista, que espera sentada na maca com os braços cruzados sobre o peito e as unhas marcando a pele de tanto coçar.
A história cabe em poucas linhas. Há três dias Anadir tem coriza e dor de garganta. Hoje, às 13h e às 19h, tomou um comprimido de ibuprofeno de 600 mg que sobrou de uma receita antiga do marido. Por volta das 16h apareceram as primeiras placas no pescoço; às 20h já estavam nas costas, na barriga e nos dois braços, e as pálpebras começaram a inchar. Ela conta, com uma precisão que ajuda muito, que as placas “mudam de lugar”: somem de um braço e aparecem no outro. Mostra no celular a foto de uma placa grande no antebraço esquerdo, tirada às 17h. Você olha o antebraço: a pele ali está normal, sem mancha, sem marca.
Antes de escrever qualquer coisa, você faz as perguntas que decidem a noite, e nenhuma delas é sobre a pele. A voz está normal, sem rouquidão; ela engole a saliva sem esforço; não sente aperto na garganta nem falta de ar; não tem chiado, tosse, vômito, cólica ou diarreia; não teve tontura nem desmaio. Pressão arterial de 122 por 76 mmHg, frequência cardíaca de 94 batimentos por minuto, frequência respiratória de 16, saturação de 98% em ar ambiente, temperatura axilar de 37,6 °C. A ausculta pulmonar é limpa. A língua, o assoalho da boca e a úvula estão normais.
O exame da pele confirma o que a foto sugeria. São placas elevadas, espalhadas pelo tronco e pelos braços, de tamanhos variados, algumas do tamanho de uma moeda e outras do tamanho da palma da mão, com o centro mais pálido e um halo avermelhado em volta, que empalidecem sob a pressão do dedo. Não há bolha, não há área escura ou arroxeada, não há lesão em alvo. As pálpebras estão discretamente inchadas dos dois lados, sem vermelhidão intensa e sem dor; lábios e língua não incharam. A garganta está hiperemiada, sem placas, e há coriza clara.
Anadir está com medo, e o medo tem motivo: a prima dela “fechou a garganta” com camarão e passou a noite internada. Ela pergunta se vai acontecer o mesmo, se é alergia a ibuprofeno para sempre, se pode continuar trabalhando com os produtos de limpeza e se a injeção vai resolver de uma vez. Ela quer a injeção. Diz que da última vez que teve “uma alergia”, anos atrás, tomou uma no posto e dormiu até o dia seguinte.
A técnica de enfermagem espera a prescrição, e o que está na bandeja não é absurdo: é o que muita gente aprendeu a fazer. Mas as duas seringas respondem a uma pergunta que ninguém fez direito. A primeira decisão desta paciente não é que remédio dar para a coceira. É se há alguma coisa além da pele — voz, respiração, pressão, intestino — que transforme a noite numa anafilaxia e mude tudo, a começar pela adrenalina. Não há. A segunda decisão é se estas placas se comportam como urticária de verdade, que some em 24 horas ou menos sem deixar marca, ou como outra doença que se veste de urticária. Comportam-se como urticária.
Resolvidas as duas, sobram as perguntas que este capítulo ensina a responder: qual anti-histamínico, por qual via, em que dose e por quanto tempo; se o ibuprofeno causou, piorou ou só coincidiu com a infecção; que exame pedir, e a resposta curta é nenhum; o que dizer sobre o rótulo de alergia; e o que fazer se, daqui a seis semanas, as placas ainda estiverem voltando toda noite. No mesmo plantão, pode entrar pela porta outra pessoa com o rosto inchado e sem nenhuma placa na pele — e para ela a lógica é outra, porque o inchaço que não coça e não responde a adrenalina tem outro mediador.
Quem adoece disso
A urticária aguda é comum. O guia brasileiro de urticária aguda, de 2022, calcula que uma em cada cinco pessoas tem pelo menos um episódio na vida, e a atualização do guia da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), de 2024, repete a mesma ordem de grandeza, cerca de 20%. O episódio dura em média uma semana. É uma doença de plantão, e o que o plantão faz com ela — a injeção, o exame, o rótulo de alergia — acompanha a pessoa muito depois de as placas sumirem.
A causa fica sem nome em boa parte dos casos: entre 30% e 50% das urticárias agudas não têm desencadeante identificável, segundo o guia de 2022. Quando há causa, ela muda com a idade. Na criança, mais de 40% dos episódios acompanham infecção viral leve das vias aéreas superiores, e o papel do alimento e do remédio costuma ser superestimado. No conjunto, os medicamentos respondem por 9% a 27% dos casos — antibióticos, anti-inflamatórios não esteroides e inibidores da enzima conversora de angiotensina à frente —, são a principal causa identificada no adulto, e no idoso o anti-inflamatório é o mais implicado. Às vezes são as duas coisas juntas, como em Anadir: uma infecção viral e um anti-inflamatório tomado para a dor que ela causou. A reação a aditivo alimentar, tão lembrada pelos pacientes, tem prevalência estimada abaixo de 1% no adulto.
A maior parte das urticárias agudas acaba. A taxa de progressão para a forma crônica varia de 5% a 39% entre os estudos citados pelo guia de 2024, e a faixa larga é informação útil: não dá para prometer a ninguém, na primeira consulta, que não vai virar crônica. A urticária crônica — urticas, angioedema ou os dois por mais de seis semanas — tem prevalência entre 0,1% e 1,0% da população, e um estudo brasileiro recente encontrou 0,41% de urticária crônica diagnosticada. Dura em média de um a quatro anos, e cerca de 45% dos pacientes entram em remissão espontânea em cinco anos. Nos centros brasileiros de referência a doença chega mais antiga: num deles, o paciente tinha em média 24 meses de doença quando o diagnóstico foi feito; noutro, o tempo médio de doença dos pacientes em acompanhamento era de 10,2 anos.
O peso da urticária crônica aparece no sono, no trabalho, na escola e na vida sexual, e o guia de 2024 manda avaliar esse impacto a cada visita, junto com a atividade e o controle da doença. Em cerca de um terço dos pacientes com urticária crônica espontânea, os medicamentos pioram as crises, e o anti-inflamatório não esteroide é o mais comum; em outro terço, o estresse faz o mesmo. As comorbidades mais comuns são a urticária crônica induzida associada, a doença autoimune da tireoide e a atopia; depressão, ansiedade e distúrbio do sono também são frequentes.
A conta do tratamento explica por que a atenção primária precisa conhecer a escada inteira. Segundo o guia de 2024, 61% dos pacientes com urticária crônica espontânea não respondem à dose de bula do anti-histamínico de segunda geração, e 63% desses também não respondem à dose aumentada. Multiplicando, cerca de 38% de todos os pacientes precisam de algo além do anti-histamínico. No SUS, esse algo mora longe da unidade básica: a Rename 2024 põe no Componente Básico um único anti-histamínico de segunda geração, a loratadina, e vincula o omalizumabe apenas ao protocolo de asma. O que a atenção primária faz bem com o que tem define quantos pacientes precisam de fato do especialista.
O angioedema entra na conta de outro jeito. O tipo mais frequente de angioedema recorrente é o histaminérgico, o mesmo mecanismo da urticária, e cerca de 90% desses pacientes têm urticas junto. O angioedema sem urtica é outra população: a diretriz brasileira de angioedema hereditário, de 2022, estima que um terço dos pacientes com angioedema recorrente sem urticas tenha angioedema hereditário. A doença é rara — prevalência de cerca de 1 em 67 mil pessoas na forma por deficiência do inibidor de C1 e de 1 em 400 mil na forma com inibidor normal —, mas o risco de morte do angioedema mediado por bradicinina é 45 vezes o do histaminérgico, e a laringe é o motivo: metade dos pacientes com a forma hereditária tem pelo menos um episódio de edema de vias aéreas superiores ao longo da vida.
O angioedema da bradicinina que o interno mais vai encontrar, porém, não é hereditário. A mesma diretriz registra angioedema recorrente em até 0,7% dos usuários de inibidor da enzima conversora, com risco maior em afrodescendentes, fumantes, idosos e mulheres. A conta mostra a diferença de escala: 0,7% de cada 10 mil usuários são até 70 pessoas, enquanto a forma hereditária aparece em cerca de 1,5 a cada 100 mil habitantes. Como o enalapril e o captopril estão no Componente Básico da Rename 2024, a leitura desta apostila é que o paciente com a língua inchada e uma receita de enalapril no bolso é o caso típico, não o raro.
Os dois tipos de angioedema da bradicinina custam caro quando não são reconhecidos. Na forma hereditária, a crise abdominal é confundida com abdome agudo cirúrgico e leva a apendicectomias e laparotomias desnecessárias em até um terço dos pacientes; na criança, o diagnóstico atrasa em média de quatro a oito anos, e só 3% dos diagnósticos são feitos por pediatras, segundo a diretriz de 2022. No induzido por inibidor da enzima conversora, o sintoma começa no primeiro mês de uso em um quarto dos casos, mas pode aparecer depois de anos — o tempo médio até o primeiro episódio é de 1,8 ano, e há casos dez anos depois do início. É por isso que a pergunta “o senhor toma remédio para pressão?” não pode depender de o remédio ser novo.
Por que acontece o que acontece
A urticária é uma doença do mastócito. Quando o mastócito da pele é ativado, libera histamina e outros mediadores que fazem três coisas ao mesmo tempo, e cada uma aparece no exame: ativam terminações nervosas sensoriais, e a pele coça; dilatam os vasos, e surge o halo vermelho; aumentam a permeabilidade das vênulas pós-capilares, e o plasma extravasa para a derme superior e média, formando a placa elevada. Essa é a urtica, e a histologia descrita pelo guia brasileiro de 2024 é exatamente essa: edema da derme superior e média com vênulas dilatadas. Como o edema é superficial e o líquido é reabsorvido, cada urtica dura 24 horas ou menos e não deixa marca — a foto de Anadir às 17h e o antebraço normal às 22h são a fisiopatologia vista a olho nu.
O angioedema é o mesmo extravasamento em outro andar. O edema acontece na derme inferior, no subcutâneo ou na submucosa, onde há menos terminações que produzem coceira e mais espaço frouxo para o líquido se acumular. Por isso o inchaço é mais pronunciado, deforma a região, costuma arder ou doer mais do que coçar e demora mais para sumir: até 72 horas, segundo o mesmo guia. A localização explica o risco. Pálpebra e lábio incomodam; língua, assoalho da boca, úvula e laringe podem fechar a passagem do ar; a parede do intestino edemaciada produz cólica, vômito e líquido livre na cavidade.
O que ativa o mastócito muda de paciente para paciente, e isso importa para o que se pergunta na consulta. Na urticária aguda predomina a hipersensibilidade do tipo I: uma IgE específica, já fixada no mastócito, reconhece o alérgeno — de medicamento, alimento ou veneno de himenóptero — e dispara a desgranulação. O anti-inflamatório não esteroide age por outro caminho, sem IgE: a reação está ligada à inibição da ciclo-oxigenase, e o guia de urticária aguda de 2022 resume a consequência prática — quanto mais potente a inibição da enzima, maior o risco, qualquer que seja o grupo químico. A reação pode vir até 24 horas depois da dose, e os inibidores fracos da enzima, como o paracetamol, e os seletivos ou preferenciais da ciclo-oxigenase 2 costumam ser tolerados. Há ainda receptores do mastócito que respondem a moléculas pequenas de alimentos e a neuropeptídeos liberados no estresse, o que explica por que certos alimentos e o estresse modulam a atividade da doença sem que isso seja alergia.
Na urticária crônica espontânea, o gatilho não vem de fora. Mais da metade dos pacientes tem um de dois mecanismos autoimunes descritos pelas diretrizes. No primeiro, chamado autoimune do tipo IIb, o paciente produz IgG contra o receptor de alta afinidade da IgE ou contra a própria IgE, e os mastócitos são ativados por autoanticorpo; esses pacientes tendem a ter IgE total baixa, IgG anti-tireoperoxidase alta, eosinófilos e basófilos baixos e proteína C-reativa elevada. No segundo, chamado autoalérgico ou do tipo I, o paciente produz IgE contra antígenos do próprio corpo, como a tireoperoxidase e a interleucina 24. A distinção não muda o que a unidade básica prescreve, mas explica a resposta ao especialista: o omalizumabe, que sequestra a IgE livre e reduz a expressão do receptor nos mastócitos e basófilos, tende a agir rápido no tipo autoalérgico e devagar no tipo IIb, em que a redução dos receptores nos mastócitos leva cerca de 70 dias; e a falta de resposta não se declara antes de seis meses de tratamento.
O anti-histamínico H1 bloqueia a ação da histamina no seu receptor e controla a coceira e a urtica, mas não o resto dos mediadores, e é por isso que ele não trata anafilaxia. Os de segunda geração atravessam pouco a barreira hematoencefálica, têm meia-vida mais longa e algum efeito anti-inflamatório, por inibirem a liberação de citocinas de mastócitos e basófilos. Os de primeira geração — dexclorfeniramina, prometazina, difenidramina, hidroxizina — entram no sistema nervoso central, causam sedação, efeito anticolinérgico e prejuízo do sono REM e do desempenho, e interagem com álcool, analgésicos e hipnóticos. O guia de 2024 acrescenta um detalhe que desmonta a ideia de “tomar só à noite para dormir”: a meia-vida desses fármacos no sistema nervoso central é maior que no sangue, e por isso a sonolência e o prejuízo da manhã seguinte sobrevivem ao alívio da coceira. Quando a dose padrão não controla, subir a dose do mesmo anti-histamínico funciona melhor que associar dois diferentes.
O angioedema sem urtica pode ser histaminérgico — o do anti-inflamatório é o exemplo clássico —, mas é nele que entra em cena outro mediador, a bradicinina, um peptídeo produzido no sistema de contato: o fator XII se autoativa junto à parede do vaso, ativa a pré-calicreína em calicreína, e a calicreína cliva o cininogênio de alto peso molecular e libera a bradicinina. Ela se liga ao receptor B2 do endotélio, afrouxa as junções entre as células e aumenta a permeabilidade, com vasodilatação mediada por óxido nítrico. O freio desse sistema é o inibidor de C1 esterase, que bloqueia a autoativação do fator XII, a formação de calicreína e a clivagem do cininogênio. Quando ele falta ou não funciona, como no angioedema hereditário, sobra bradicinina; e o complexo C1 do complemento, também sem freio, consome o C4 — por isso o C4 baixo é o exame de triagem. A própria calicreína ainda converte plasminogênio em plasmina, que ativa mais fator XII — é nesse circuito que age o ácido tranexâmico, que inibe a ativação do plasminogênio e tem efeito preventivo menor que o do danazol.
A bradicinina tem meia-vida curtíssima porque é degradada por peptidases, e a mais importante delas é a própria enzima conversora da angiotensina; a dipeptidil peptidase IV e a aminopeptidase P completam o trabalho. Bloquear a enzima conversora é bloquear a principal via de degradação: o enalapril baixa a pressão pelo lado da angiotensina e, pelo lado da bradicinina, produz a tosse que o capítulo de hipertensão arterial explica e, em até 0,7% dos usuários, angioedema. As gliptinas, que inibem a dipeptidil peptidase IV, reduzem a degradação da bradicinina e podem desencadear crises; o sacubitril, inibidor da neprilisina, pode causar angioedema, sobretudo em combinação com inibidor do sistema renina-angiotensina; os bloqueadores do receptor da angiotensina também foram associados, com risco menor. O estrogênio estimula o sistema de contato, e por isso anticoncepcional oral com estrogênio, reposição hormonal, gestação e menstruação podem desencadear crises em quem tem a forma hereditária.
Daí vem a regra que organiza a segunda metade deste capítulo. Anti-histamínico bloqueia histamina, corticoide é anti-inflamatório e imunossupressor, adrenalina reverte a anafilaxia — e nenhum dos três desliga o receptor B2. As diretrizes brasileiras registram a ausência de resposta aos três no angioedema hereditário e o guia de 2024 usa essa ausência como pista de mecanismo bradicinérgico. O que funciona age na bradicinina: o icatibanto bloqueia o receptor B2; o concentrado de inibidor de C1 repõe o freio; o danazol, andrógeno atenuado, aumenta a síntese hepática do inibidor e serve para prevenir, não para tratar a crise; o plasma fresco repõe o inibidor mas entrega junto os substratos da cascata e pode piorar o quadro. No outro extremo, a placa fixa por dias, que ao sumir deixa mancha escura, sugere dano do próprio vaso — a vasculite urticariforme —, e a lesão que incha e avermelha quando é esfregada, o sinal de Darier, aponta para infiltração de mastócitos, a mastocitose: nos dois casos a lesão parece urticária, mas o mecanismo é outro e o caminho passa pela biópsia.

Como se apresenta de verdade
Quase ninguém chega dizendo que tem urticária. Chega com “alergia”, com “empolado”, com “vergão que coça”, com “o olho inchado” ou com “a boca estranha”. O trabalho da apresentação é traduzir a queixa em uma de três situações, porque cada uma tem conduta própria: urtica, com ou sem angioedema, há até seis semanas; urtica, com ou sem angioedema, há mais de seis semanas; e angioedema sem nenhuma urtica. Em cima das três paira a pergunta que vem antes de todas, e que a seção sobre a porta responde: há alguma coisa além da pele?
A fronteira vem primeiro. Cabem a este capítulo a urticária aguda e a crônica e o angioedema fora da anafilaxia, inclusive o angioedema da bradicinina — o induzido por inibidor da enzima conversora, o hereditário e o adquirido. A urticária com critério de anafilaxia sai daqui para Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro, da apostila de Medicina de Emergência, que é dono da adrenalina, do choque e da observação; o que resta de urticária depois que a anafilaxia se resolve volta para cá. A urticária da reação transfusional é de Reação transfusional: reconhecer e interromper; a do acidente por animal peçonhento, de Acidentes por animais peçonhentos; a pele que forma bolha, descola ou erode mucosa não é urticária e sai para Farmacodermias graves: Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica e DRESS; a dermatite atópica é de Psoríase e dermatite atópica. A investigação formal de alergia a medicamento — testes, provocação, dessensibilização — pertence ao capítulo Reações de hipersensibilidade a drogas, nesta apostila; este capítulo fica com o que decide no plantão: suspender, registrar como suspeita, orientar a alternativa e encaminhar. Pelo mesmo motivo, fica com a urticária aguda da criança, cujo tema pediátrico próprio também não existe ainda no nível.
Percurso de aprendizagem
A primeira pergunta é se há ameaça à via aérea ou circulação. Depois observe duração da lesão, prurido, marcas residuais e presença de angioedema para distinguir urticária, vasculite e outras causas.
No quadro crônico, acompanhe sintomas e função, usando anti-histamínico de segunda geração com ajuste individual e avaliação especializada quando necessário. No edema sem urtica, reveja IECA, crises abdominais e família; exames não substituem o plano para uma crise.
Use os casos para explicar decisões e consequências. As doses e os horários da narrativa são exemplos contextualizados; confirme sua adequação ao paciente e ao protocolo assistencial. Consulte as divergências e regras de acesso quando elas mudarem uma decisão concreta.
A placa que migra: reconhecer a urtica
A urtica é uma lesão edemaciada, de tamanho variável, quase sempre cercada de eritema, que coça e é fugaz: dura 24 horas ou menos e não deixa lesão residual. As três características que valem mais que qualquer exame são a coceira, a migração e a ausência de marca. O paciente descreve as três sem saber: “sai num lugar e aparece no outro”, “some sozinho”, “coça muito à noite”. Muitas vezes a consulta acontece num momento sem lesão, e o diagnóstico sai da história e da foto no celular, que o guia brasileiro de 2024 manda revisar como parte do exame físico.
A pergunta que separa urtica de quase tudo que se parece com ela é a que a diretriz internacional de 2026 recomenda fazer com essas palavras: quanto tempo dura cada placa? Não o episódio, que pode durar semanas, e sim cada lesão individual. Placa que fica no mesmo lugar por mais de 24 horas não se comporta como urtica e abre o diferencial da última seção.
O angioedema que acompanha a urticária é um edema súbito e pronunciado da derme inferior, do subcutâneo ou da mucosa, com dor, ardor ou coceira no local, e resolve mais devagar, em até 72 horas. Quando ele vem junto com urticas, como nas pálpebras de Anadir, o mecanismo é o do mastócito e a conduta é a da urticária; o angioedema sem urtica é outra conversa e tem seção própria.
O exame confirma e procura o que não pertence à urticária. Olhe a pele inteira, com o paciente despido, à procura de lesão em alvo, bolha, púrpura, área escura residual ou pele dolorosa. Olhe a boca: língua, assoalho, úvula. Ouça a voz. E, se o paciente relata vergões lineares depois de coçar, faça o teste mais simples do capítulo: pressione a pele com um objeto sem corte, como uma espátula ou a tampa romba de uma caneta; o aparecimento de uma urtica linear que coça em até dez minutos é o dermografismo, a forma mais comum de urticária induzida.
Urticária aguda: quem chega e o que a desencadeou
A urticária é aguda quando as urticas, o angioedema ou os dois duram até seis semanas. O guia brasileiro de urticária aguda, de 2022, organiza as causas em seis grupos: infecções virais, bacterianas e parasitárias; alimentos; medicamentos, com anti-inflamatórios, antibióticos e inibidores da enzima conversora à frente; estímulos físicos; veneno de himenópteros; e a urticária sem causa identificável, que responde por 30% a 50% dos casos. A história procura, nas horas e nos dias anteriores, qual desses grupos aparece — e aceita que muitas vezes nenhum aparece.
A infecção é a causa mais frequente na criança e aparece também no adulto. Mais de 40% das urticárias agudas da criança acompanham infecção viral leve das vias aéreas superiores; os herpesvírus, sobretudo citomegalovírus, Epstein-Barr, herpes-vírus 6 e herpes simples, além de adenovírus, rotavírus, parvovírus B19 e vírus sincicial respiratório, aparecem nos relatos. No adulto, entre as infecções, os vírus das hepatites A, B e C são os mais encontrados, e a covid-19 mostrou que urticária e febre podem ser a primeira manifestação de uma infecção viral. Estreptococo, Mycoplasma pneumoniae e Chlamydia pneumoniae completam a lista bacteriana.
O anti-inflamatório não esteroide merece atenção especial por três motivos que o guia de 2022 detalha. Ele causa urticária por mecanismo que não depende de IgE, ligado à inibição da ciclo-oxigenase, e por isso qualquer anti-inflamatório potente pode repetir a reação, seja qual for o grupo químico. A reação pode surgir até 24 horas depois da dose, o que faz o paciente não associar as duas coisas. E, com frequência, ela vem só como angioedema, sem urticas — o lábio inchado depois do anti-inflamatório tomado para dor de dente costuma ser histaminérgico, e não da bradicinina. Durante a urticária aguda, o guia recomenda evitar a classe, sobretudo os inibidores potentes, e aponta o paracetamol, na dose de 500 mg ou equivalente pediátrica, como analgésico que em geral pode ser usado com segurança.
Alimento, medicamento e veneno de inseto causam urticária mediada por IgE, e é só nessa suspeita, fortemente sugerida pela história, que teste cutâneo ou IgE específica passam a ser considerados. Na criança pequena, leite de vaca, ovo, amendoim, soja e trigo são os alimentos mais implicados. O cuidado que o guia de 2024 pede para o medicamento vale para todos: não rotular o paciente como alérgico a um fármaco sem investigação adequada. Anadir tomou ibuprofeno durante uma infecção viral; o prontuário dela deve dizer isso, e não “alergia a anti-inflamatório” como fato consumado.
Na porta: é anafilaxia?
A urticária aguda é uma doença da pele, e continua sendo enquanto nada fora da pele aparecer. O guia de 2022 define a fronteira pelos órgãos: se, junto com a urticária, surgem sinais respiratórios — falta de ar, chiado, tosse —, gastrointestinais — vômito, diarreia —, neurológicos — tontura, perda de consciência — ou cardiovasculares — mudança de pressão, de frequência cardíaca, choque —, o quadro é anafilaxia, e a adrenalina, que o guia restringe a essa situação, entra antes de qualquer outra coisa. Os sinais de via aérea alta — rouquidão, estridor, dificuldade para engolir a saliva — pedem a mesma pressa.
Nesse momento o paciente sai deste capítulo. A dose e a via da adrenalina, a posição, o volume, a observação e a alta da anafilaxia são de Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro, e é lá que o interno deve estudá-las. O que este capítulo acrescenta são duas regras de borda. A primeira: urticária extensa, mesmo com angioedema de pálpebras ou de lábios, sem nenhum outro sistema acometido, não é anafilaxia e se trata por via oral. A segunda: a anafilaxia pode vir sem urticária, e o capítulo de anafilaxia dedica uma seção inteira a isso — a ausência de placas não tranquiliza ninguém que está com pressão baixa ou chiando.
Há ainda o paciente com a língua ou a garganta inchada e nenhuma urtica. A dúvida entre anafilaxia e angioedema da bradicinina é real na porta, e a regra do capítulo de anafilaxia vale aqui sem mudança: na dúvida, aplica-se a adrenalina, porque deixar uma anafilaxia sem ela custa mais do que aplicá-la num edema que não vai responder. O que este capítulo ensina é o passo seguinte — o edema que não responde à adrenalina muda a hipótese, e a partir daí a conduta é a da última metade deste capítulo, com a via aérea vigiada de perto.
Descartada a anafilaxia, a urticária aguda tratada na porta não precisa de injeção. Os anti-histamínicos disponíveis para uso injetável no Brasil são de primeira geração — prometazina, difenidramina —, e o guia de 2022 recomenda evitá-los e tratar a urticária aguda, de preferência, por via oral. A seringa de prometazina na bandeja de Anadir sedaria uma paciente que precisa voltar para casa andando, sem acrescentar nada à coceira que a loratadina por boca não resolva.
Urticária crônica: espontânea ou induzida
Passadas seis semanas com urticas, angioedema ou os dois, a urticária é crônica, e os sintomas podem ser diários ou quase diários ou vir em surtos intermitentes. A primeira separação é entre a urticária crônica espontânea, que aparece sem gatilho específico, e a urticária crônica induzida, que só aparece diante de um estímulo reconhecível: pressão ou atrito (dermografismo sintomático), pressão sustentada (urticária de pressão tardia), frio, calor, luz solar, vibração, água, aumento da temperatura corporal (urticária colinérgica) ou contato. As duas podem coexistir no mesmo paciente, e o dermografismo, presente em 2% a 5% da população, é frequentemente associado à forma espontânea.
A forma induzida denuncia-se pelo tempo. Na maioria dos subtipos, segundo a diretriz internacional de 2026, as lesões aparecem em cerca de dez minutos de exposição e somem em uma a três horas depois que o estímulo cessa. A exceção que confunde é a urticária de pressão tardia: as urticas ou o angioedema surgem de quatro a seis horas depois de uma pressão sustentada — a alça da bolsa, o cinto, a sola do pé depois de caminhar — e podem durar até 72 horas. A urticária colinérgica, de urticas puntiformes com exercício, calor, estresse, comida apimentada ou bebida quente, tem um diferencial que importa: a anafilaxia induzida pelo exercício.
Na forma espontânea, a história procura o que modula a doença, e não uma alergia escondida. Anti-inflamatórios pioram um terço dos pacientes e devem ser evitados quando indicado, com paracetamol e inibidores seletivos ou preferenciais da ciclo-oxigenase 2 como opções mais seguras; o estresse piora outro terço; infecções virais agudas e bacterianas crônicas também podem piorar. Alimentos podem agir como pseudoalérgenos, mas dieta de exclusão só se justifica diante de suspeita concreta, e por três a quatro semanas: dieta longa e sem critério piora uma qualidade de vida que já está comprometida.
Duas informações da apresentação mudam o prognóstico e merecem registro na primeira consulta. A presença de angioedema, a urticária induzida associada e a atividade alta da doença, com proteína C-reativa elevada, indicam, segundo o guia de 2024, doença mais longa e pior resposta ao anti-histamínico. E as consequências — sono, trabalho, escola, vida sexual, humor — fazem parte do quadro clínico, não são um apêndice: o mesmo guia manda procurá-las, junto com a doença autoimune da tireoide e a urticária induzida associada, em todo paciente com a forma espontânea.
Angioedema sem urtica: pensar em bradicinina
O angioedema recorrente sem nenhuma urtica tem três explicações possíveis, e a apresentação sugere qual. Pode ser histaminérgico sem placas, como o do anti-inflamatório, e então tem gatilho do mastócito e responde ao anti-histamínico. Pode ser mediado por bradicinina, e então costuma não coçar, instalar-se ao longo de horas, durar dias e não responder a anti-histamínico, corticoide nem adrenalina. Ou pode ficar sem mecanismo definido depois da investigação, o angioedema idiopático. O guia de 2024 dá os sinais de alerta para a bradicinina numa frase: ausência de resposta a anti-histamínico, corticoide e adrenalina, quadros parecidos na família e doença linfoproliferativa ou colagenose associada — e manda sempre considerar os medicamentos.
O angioedema por inibidor da enzima conversora acomete, com mais frequência, face, língua, orofaringe e laringe; episódios abdominais existem, mas são esporádicos. Pode começar no primeiro mês de uso, como em um quarto dos casos, ou anos depois — o paciente do caso resolvido deste capítulo usava enalapril havia três anos, não pensava no remédio e já tinha recebido, em dois episódios anteriores, anti-histamínico e corticoide, voltando para casa com o enalapril na sacola. Gliptinas, sacubitril e, com risco menor, bloqueadores do receptor da angiotensina completam a lista de fármacos a perguntar pelo nome.
O angioedema hereditário tem outra biografia. Começa na infância ou na adolescência — em 75% dos pacientes com a forma por deficiência do inibidor de C1, até os 15 anos — e piora na puberdade. Acomete o subcutâneo em 95% dos pacientes, sobretudo extremidades, genitais e face, e o abdome em até 93%, com dor em cólica intensa, vômitos, diarreia e líquido livre que imitam abdome agudo; várias regiões podem inchar ao mesmo tempo, o que distingue o hereditário das outras causas de angioedema sem urtica. O edema instala-se lentamente, em cerca de oito horas, atinge o pico entre 12 e 24 horas e regride em dois a cinco dias. Os gatilhos são estresse, trauma mecânico mesmo leve, com o inchaço começando no local, procedimentos odontológicos e cirúrgicos, que desencadeiam crise de 4 a 36 horas depois, infecções e estrogênio. Um terço dos pacientes tem, horas antes da crise, um eritema serpiginoso que não coça, o eritema marginado, frequentemente confundido com urticária.
A diretriz brasileira de 2022 resume os sinais de alerta num acrônimo: hereditariedade, angioedema recorrente de início precoce, dor abdominal recorrente, ausência de urticas, ausência de resposta a anti-histamínico e associação com estrogênio. A forma adquirida, por consumo ou por anticorpo contra o inibidor de C1, é ainda mais rara, começa mais tarde, não tem história familiar e se associa a doença linfoproliferativa ou autoimune. Na prática da unidade básica, a pergunta que puxa as três formas é a mesma: esse inchaço já aconteceu antes, alguém da família tem, veio junto com dor na barriga, e que remédios a pessoa usa?
Quando parece urticária e é outra doença
A vasculite urticariforme é o diferencial que mais importa, porque é inflamação do próprio vaso e pode ser sistêmica. As lesões parecem urticas, mas são mais endurecidas, escurecidas ou arroxeadas, em geral persistem além de um dia inteiro no mesmo lugar e deixam hiperpigmentação ou púrpura residual. Ardem ou doem mais do que coçam — o guia de 2022 registra prurido em só 40% —, raramente vêm com angioedema e podem ser acompanhadas de febre, artralgia, artrite, mal-estar, perda de peso, linfadenopatia e acometimento renal ou hepático. O caminho é a biópsia de pele e a pesquisa de complemento e de doença autoimune, infecciosa ou linfoproliferativa associada; da unidade básica, o que se faz é reconhecer e encaminhar com a descrição e as fotos da evolução de cada lesão.
A mastocitose é a infiltração da pele, e às vezes de outros órgãos, por mastócitos. A lesão cutânea incha e avermelha quando é esfregada, o sinal de Darier, e a confirmação é por biópsia e por exame molecular feitos pelo especialista. Anafilaxia por picada de himenóptero com triptase basal elevada levanta a suspeita da forma sistêmica, e é o capítulo de anafilaxia que trata dessa investigação.
As síndromes autoinflamatórias produzem erupção urticariforme persistente, que vem junto com febre que se repete, dores nas articulações e emagrecimento, e a biópsia mostra urticária neutrofílica. No adulto, a diretriz internacional de 2026 manda pesquisar paraproteinemia, porque a síndrome de Schnitzler entra nesse grupo; na criança, as síndromes hereditárias periódicas. O sinal na consulta é a combinação de placas persistentes com febre sem infecção.
Completam o diferencial lesões que o olho treinado separa em segundos: o eritema multiforme, com lesão em alvo de centro escurecido, ligado a herpes simples, Mycoplasma e medicamentos; o penfigoide bolhoso, com bolhas tensas sobre base urticariforme; a dermatite urticariforme, com placas que duram mais de 24 horas; e a erupção polimórfica da gravidez, de pápulas e placas que começam nas estrias e se espalham pela região periumbilical. Para o angioedema, o guia de 2024 lembra os edemas que não são angioedema: celulite, síndrome de Melkersson-Rosenthal, dermatite de contato, doença da tireoide e dermatomiosite.
Como fechar o diagnóstico
A investigação da urticária e do angioedema responde a seis perguntas, nesta ordem: a urticária aguda precisa de exame; o que se pergunta e se registra em todo paciente; qual é o mínimo da urticária crônica espontânea; como medir a doença para decidir o degrau do tratamento; o que o C4 diz e o que não diz no angioedema sem urtica; e o que olhar na crise e nos sinais de outra doença, sabendo o que o especialista vai pedir.
Uma premissa atravessa as seis. Na urticária, a história e a foto fazem o diagnóstico, e o exame só entra quando muda a conduta — as diretrizes não indicam investigação laboratorial extensa. No angioedema sem urtica, a ordem se inverte em um ponto só: quando a história sugere a forma hereditária, o C4 está amplamente disponível nos laboratórios de análises clínicas do país, segundo a diretriz de 2022 — e a mesma diretriz registra que o diagnóstico da forma hereditária no Brasil demora de 14 a 18 anos.
1. Urticária aguda: nenhum exame
O guia brasileiro de 2024 é explícito: a urticária aguda não precisa de exame de rotina nem de programa estendido, a menos que a história sugira fortemente uma alergia mediada por IgE. Hemograma, proteína C-reativa, IgE total e painéis de IgE específica pedidos “para ver se é alergia” não mudam o que se prescreve a Anadir, nem identificam a causa de uma urticária que acompanha infecção viral. A resposta curta à família que pede exame é que o exame desta doença é a evolução.
A exceção é a suspeita dirigida. Placas que surgem logo depois de um alimento específico, de uma picada de abelha ou de um antibiótico, repetidas a cada exposição, justificam teste cutâneo de leitura imediata ou IgE específica para aquele agente, e não para uma lista. Mesmo aí, o exame complementa a história, não a substitui.
Suspeita de reação a anti-inflamatório tem uma regra de tempo dada pelo guia de 2022: a investigação do mecanismo só se faz depois da resolução completa da urticária, porque o anti-histamínico e o corticoide usados no tratamento interferem diretamente nos testes. Na porta, o que se faz é suspender, registrar a suspeita com o nome do fármaco, a dose, o horário e o tempo até a reação, e orientar o analgésico alternativo. A investigação formal fica para o especialista, depois que tudo passar.
Infecção que aparece na história é investigada como infecção, pelo quadro dela, e não pela urticária. A dor de garganta com febre de Anadir é tratada pelo que é; não se pedem sorologias de hepatite em toda urticária aguda, mas a urticária com icterícia, colúria ou elevação de transaminases já conhecida é, antes de tudo, uma hepatite a esclarecer.
2. O que perguntar e registrar em todo paciente
A anamnese da urticária é curta e cheia de perguntas fechadas, e o prontuário deve guardar as respostas, porque são elas que permitirão, semanas depois, dizer se a doença é aguda ou crônica, espontânea ou induzida, histaminérgica ou não. Data de início e padrão — diário, em surtos, só depois de um estímulo. Duração de cada placa, com a pergunta exata sobre cada lesão individual. Coceira, ardor ou dor. Marca residual. Angioedema e onde. Foto datada.
A lista de medicamentos se pergunta pelo nome, e não pela pergunta “toma algum remédio?”, que o paciente responde pensando em remédio novo. Anti-inflamatórios, inclusive os que ele não considera remédio; antibióticos; inibidores da enzima conversora — enalapril, captopril —, bloqueadores do receptor da angiotensina, gliptinas e sacubitril; anticoncepcional ou reposição hormonal com estrogênio. Depois, alimentos e infecção nos dias anteriores, estímulos físicos, estresse e, para o angioedema, trauma e procedimento dentário nos dias anteriores.
Três perguntas mudam o caminho e não podem faltar. Alguém da família tem inchaços parecidos? Houve febre, dor articular, perda de peso ou mal-estar junto com as placas? O que foi feito nas crises anteriores e qual foi a resposta — sobretudo, se houve adrenalina, anti-histamínico ou corticoide e nada mudou?
Na urticária crônica espontânea, o guia de 2024 organiza a avaliação em sete objetivos que funcionam como roteiro de consulta: confirmar o diagnóstico e excluir os diferenciais; procurar indícios dos mecanismos autoimunes; identificar cofatores que pioram; checar comorbidades, como urticária induzida associada, autoimunidade e saúde mental; identificar consequências no sono, nas atividades, na vida sexual e no desempenho social; acompanhar atividade, controle e impacto; e registrar os marcadores que predizem resposta ao tratamento. A unidade básica cumpre quase todos com a conversa, o exame físico, o programa básico de exames e os questionários.
3. Urticária crônica espontânea: o mínimo, e só ele
O programa básico é hemograma com contagem diferencial e proteína C-reativa ou velocidade de hemossedimentação, em todo paciente. A diretriz internacional de 2026 explica para que servem: afastar doença sistêmica grave, apontar doença parasitária pelo eosinófilo e sugerir doença autoimune, como o lúpus. A proteína C-reativa elevada ainda se associa a urticária mais grave.
IgE total e IgG anti-tireoperoxidase são o ponto em que as réguas disputam lugar. O texto do guia brasileiro de 2024 manda dosá-las em todos os pacientes; a tabela de exames do mesmo guia e a diretriz internacional de 2026 as colocam no atendimento especializado. Esta apostila adota a segunda leitura para a unidade básica, pelas razões detalhadas nas divergências: os dois exames servem para caracterizar o mecanismo autoimune e prever resposta ao omalizumabe e à ciclosporina, decisões que são do especialista e que não mudam nenhum degrau que a atenção primária sobe.
Tudo o mais depende da história. Sintomas de tireoide pedem função e anticorpos tireoidianos; suspeita de infecção crônica pede a investigação daquela infecção; teste alérgico ou dieta de exclusão só diante de suspeita concreta, e a dieta por três a quatro semanas. O guia de 2024 não recomenda a busca de rotina por hepatite viral crônica, porque ela não modula a atividade da urticária, e deixa a pesquisa de Helicobacter pylori para quando a história a indicar, já que o efeito da erradicação sobre a urticária é controverso.
Na urticária crônica induzida, o diagnóstico é a reprodução da lesão pelo estímulo. Os testes padronizados — dermografômetro, provocação com frio e calor em aparelho validado, luz, vibração, água, ergometria — são do especialista, mas dois cabem na unidade: a pressão com objeto sem corte para o dermografismo, positiva se surgir urtica que coça em até dez minutos, e o teste do cubo de gelo para a urticária ao frio, com o gelo envolto em plástico sobre o antebraço por cinco minutos e leitura dez minutos depois. Na urticária ao frio, o guia acrescenta hemograma, velocidade de hemossedimentação e proteína C-reativa, pelo diferencial com doenças infecciosas.
4. Medir para decidir: UAS7 e UCT
Nenhum exame de sangue, sozinho, mede a atividade da urticária crônica — o guia de 2024 registra que faltam dados para usar biomarcador isolado —, e por isso as diretrizes usam instrumentos respondidos pelo paciente. O primeiro é o UAS7, o escore de atividade da urticária em sete dias. Todo dia, durante uma semana, o paciente anota duas notas de 0 a 3: para as urticas, 0 é nenhuma, 1 é menos de 20 em 24 horas, 2 é de 20 a 50 e 3 é mais de 50 ou áreas confluentes grandes; para a coceira, 0 é nenhuma, 1 é presente sem incomodar, 2 incomoda sem atrapalhar as atividades nem o sono e 3 atrapalha as atividades ou o sono. A soma dos sete dias vai de 0 a 42.
O guia de 2024 lê o UAS7 assim: 0 é sem sintomas; de 1 a 6, bem controlada; de 7 a 15, leve; de 16 a 27, moderada; de 28 a 42, grave. O alvo é 6 ou menos, de preferência zero. O instrumento tem três limites que o próprio guia aponta: não mede angioedema, não serve para a urticária induzida e não mede controle, além de depender de o paciente anotar todos os dias.
O segundo é o UCT, o teste de controle da urticária, que cobre o que o UAS7 deixa de fora. É um questionário curto, respondido na própria consulta, sobre as quatro semanas anteriores, com escore de 0 a 16, que considera o angioedema e vale para as formas espontânea e induzida. Abaixo de 12 a doença não está controlada; de 12 a 15 está bem controlada; 16 é controle completo. O guia de 2024 define como sob controle, na prática, o paciente com UCT de 12 ou mais e UAS7 de 6 ou menos, e manda aplicar os instrumentos a cada visita.
Para o angioedema há instrumentos próprios: o escore de atividade do angioedema, preenchido todo dia por pelo menos 28 dias, de 0 a 15 por dia, e o teste de controle do angioedema, de 0 a 16, com bom controle a partir de 10 e validação brasileira ainda em curso. Na unidade básica, o arranjo que funciona é o UCT em toda consulta, o diário do UAS7 na semana anterior ao retorno e as fotos datadas. Sem esses números, “melhorou um pouco” decide o degrau do tratamento — e decide mal.
5. Angioedema sem urtica: o que o C4 diz e o que não diz
O angioedema por inibidor da enzima conversora não tem exame que o confirme. O diagnóstico é clínico: angioedema sem urtica em quem usa o fármaco, com C4, C1q e inibidor de C1 normais quando dosados, e remissão depois da suspensão — que, segundo a diretriz internacional de 2026, costuma vir em poucos dias e raramente demora até seis meses. Suspender definitivamente o IECA é o primeiro passo. Recorrência, história familiar, crises abdominais ou padrão atípico também justificam investigação, sem esperar meses para iniciá-la.
Quando a história sugere angioedema hereditário, combinar C4, quantidade e função do C1-INH. C4 isolado pode estar normal e não deve impedir a dosagem do inibidor. Se esses exames não estiverem acessíveis, articular referência; confirmar resultados alterados ou discordantes, sem adiar o plano de emergência. Início tardio pode justificar C1q e procura de causas adquiridas.
O C4 normal não encerra a investigação. A forma hereditária com inibidor normal tem C4 e inibidor normais e depende de estudo genético e de história familiar, e o angioedema histaminérgico sem urtica também tem C4 normal. Para separar este último, a diretriz de 2022 propõe um teste terapêutico: anti-histamínico de segunda geração em até quatro vezes a dose padrão por cerca de seis semanas. O C4 baixo em quem não tem história familiar e começou a inchar tarde, já adulto, puxa para a forma adquirida, em que o C1q está baixo em cerca de 70% dos casos e em que se procura doença linfoproliferativa ou autoimune.
Duas ressalvas de uso. Na criança, o C4 tem acurácia menor como triagem, o que a diretriz lista entre as causas do atraso diagnóstico. E o diagnóstico confirmado de forma hereditária abre uma investigação que não é do paciente só: todos os parentes de primeiro grau, mesmo sem sintomas, devem ser investigados.
6. Na crise e nos sinais de outra doença
Na crise de angioedema de face, língua ou garganta, a investigação é o exame da via aérea, repetido: a voz abafada ou rouca, a dificuldade de engolir a saliva, a baba, o estridor, o uso de musculatura acessória, a posição que o paciente escolhe, a língua, o assoalho da boca e a úvula. A oximetria engana: a diretriz de 2022 lembra que, na fase inicial da obstrução das vias respiratórias, a saturação não cai. Nenhum exame de laboratório decide a conduta na hora; se a suspeita é de forma hereditária e ninguém dosou o C4, a crise é uma boa oportunidade de colher, sem atrasar nada.
Na crise abdominal da forma hereditária, a ultrassonografia costuma mostrar líquido livre na cavidade, e o edema da parede intestinal documentado por tomografia ou ressonância é critério de apoio ao diagnóstico. Hemoconcentração, hipotensão e até choque hipovolêmico podem acompanhar a perda de líquido para a parede e a cavidade. O paciente com angioedema sem urtica recorrente e dor abdominal intensa, sem febre nem peritonite clara, precisa que alguém pergunte sobre a família antes de o cirurgião decidir a laparotomia.
Nos sinais de outra doença, a unidade básica investiga pouco e encaminha bem. Na suspeita de vasculite urticariforme, o especialista pede biópsia de pele — que mostra vasculite leucocitoclástica —, marcadores inflamatórios, complemento e triagem de doença autoimune, infecciosa e linfoproliferativa; o que a unidade adianta é o programa básico, as fotos datadas de cada lesão e a descrição de quanto tempo cada uma durou. Na suspeita de mastocitose, biópsia com infiltrado de mastócitos e exame molecular. Na suspeita de síndrome autoinflamatória, marcadores inflamatórios, pesquisa de paraproteína no adulto e avaliação genética na criança.
O encaminhamento que chega útil ao especialista é o que evita repetir o que já se sabe. Para urticária crônica: tempo de doença, UAS7 e UCT datados, todos os esquemas usados com dose, duração e resposta, cursos de corticoide no último ano, programa básico, fotos e a lista de fármacos com anti-inflamatórios e inibidores da enzima conversora destacados. Para angioedema sem urtica: número e locais das crises, crises de via aérea, resposta às drogas usadas, história familiar, fármacos e o C4, com a data e a informação de se foi colhido dentro ou fora de uma crise.
Separar urticária, anafilaxia e angioedema por bradicinina
Objetivo no internato: compreender a apresentação, justificar as hipóteses e propor cuidado e reavaliação sob supervisão. A primeira pergunta é se há ameaça à via aérea ou circulação. Depois observe duração da lesão, prurido, marcas residuais e presença de angioedema para distinguir urticária, vasculite e outras causas. Aprenda a reconhecer urticas fugazes, separar anafilaxia e angioedema sem urtica, escolher investigação limitada e ajustar tratamento pelo controle e pela tolerância. Os documentos citados oferecem faixas e contextos distintos; a decisão clínica considera gravidade, mecanismo provável, comorbidades e acesso. Regras de dispensação não substituem atendimento imediato da via aérea nem transformam doses e prazos de um exemplo em obrigação para todo paciente.
- 1Há algo além da pele? Falta de ar, chiado, tosse, rouquidão, estridor, dificuldade de engolir a saliva, vômito, diarreia, tontura, desmaio ou pressão baixa fazem o quadro ser anafilaxia: adrenalina e o capítulo Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro. Com a língua ou a garganta inchadas e dúvida, a adrenalina entra do mesmo jeito.
- 2Há urticas? Com urticas, o angioedema que vem junto é do mastócito e segue a conduta da urticária. Sem nenhuma urtica, siga para o angioedema da bradicinina, mais abaixo.
- 3Cada placa some em até 24 horas, sem marca? Placa que dura mais, dói ou arde mais do que coça, deixa púrpura ou mancha, ou vem com febre, artralgia ou perda de peso não se comporta como urticária: foto datada, programa básico e encaminhamento para biópsia.
- 4Há quanto tempo? Até seis semanas é urticária aguda: nenhum exame, anti-histamínico de segunda geração por via oral, suspeito suspenso e registrado como suspeita, sem injeção de anti-histamínico. Mais de seis semanas é urticária crônica.
- 5A crônica é induzida? Placas que só aparecem com pressão, atrito, frio, calor, sol, água, vibração ou suor, em minutos, e somem em poucas horas: urticária crônica induzida, com teste simples na unidade quando couber. Sem gatilho: urticária crônica espontânea, com hemograma com diferencial, PCR ou VHS, UAS7 e UCT.
- 6A escada: dose padrão todos os dias; sem controle depois de 2 a 4 semanas, subir até quatro vezes a mesma droga; UCT abaixo de 12 depois de 2 a 4 semanas na dose quádrupla, encaminhar para omalizumabe. Exacerbação: curso curto de prednisona, nunca depósito, nunca cursos repetidos. Controle completo por 3 a 6 meses: descer.
- 7Angioedema sem urtica em quem usa inibidor da enzima conversora, gliptina, sacubitril ou bloqueador do receptor da angiotensina: via aérea vigiada, inibidor da enzima conversora suspenso para sempre e registrado, sem esperar resposta de anti-histamínico, corticoide ou adrenalina.
- 8Suspeita de angioedema hereditário: solicitar C4 e quantidade e função do C1-INH em conjunto quando disponíveis, ou articular coleta na referência. C4 normal isolado não exclui. Confirmar resultados e discutir investigação dos familiares após caracterização.
- 9Início tardio sem história familiar: considerar deficiência adquirida de C1-INH, pedir quantidade/função, C4 e C1q conforme acesso e avaliação especializada. Investigar doenças associadas sem atribuir o diagnóstico apenas ao C4 baixo.
- 10Crise de angioedema da bradicinina com via aérea em risco: decisão sobre a via aérea cedo, sem esperar a saturação cair. No hereditário tipos I e II, no hospital, icatibanto ou inibidor de C1 derivado de plasma; plasma fresco congelado só na falta dos dois.
Do mastócito ou da bradicinina: o que separa no pronto-atendimento
| Na avaliação | Urticária e angioedema do mastócito | Angioedema da bradicinina |
|---|---|---|
| Urticas | Presentes em cerca de 90% dos angioedemas histaminérgicos; o do anti-inflamatório vem muitas vezes sem elas | Ausentes |
| Sintoma no local | Coceira na urtica; no angioedema, dor, ardor ou coceira | Não coça; pode doer |
| Evolução | A urtica some em até 24 horas; o angioedema, em até 72 horas | Na forma hereditária, instala-se em cerca de 8 horas, tem pico em 12 a 24 horas e regride em 2 a 5 dias |
| Gatilhos a perguntar pelo nome | Infecção, anti-inflamatório, antibiótico, alimento, veneno de himenóptero, estímulo físico; muitas vezes nenhum | Inibidor da enzima conversora, gliptina, sacubitril, bloqueador do receptor da angiotensina; no hereditário, estresse, trauma, procedimento dentário, infecção e estrogênio |
| Anti-histamínico, corticoide e adrenalina | Respondem | Não respondem, e a falta de resposta é pista de bradicinina |
| C4 | Normal | Baixo na deficiência hereditária e na adquirida do inibidor de C1; normal no induzido por fármaco e no hereditário com inibidor normal |
| O que fazer primeiro | Afastar anafilaxia; anti-histamínico de segunda geração por via oral; suspender o suspeito | Via aérea; suspender o fármaco; no hereditário tipos I e II, icatibanto ou inibidor de C1 no hospital |
A escada da urticária crônica espontânea e o que o SUS entrega em cada degrau
| Degrau | O que fazer | Quando mudar | No SUS |
|---|---|---|---|
| 1. Dose padrão | Anti-histamínico de segunda geração todos os dias, e não só quando coça | Sem controle depois de 2 a 4 semanas, ou antes se os sintomas forem insuportáveis | Loratadina 10 mg comprimido ou 1 mg/mL xarope, Componente Básico — o único de segunda geração da Rename 2024 |
| 2. Dose aumentada | Dobrar e, se preciso, quadruplicar o mesmo anti-histamínico; não associar dois diferentes nem passar de quatro vezes | UCT abaixo de 12 depois de 2 a 4 semanas na dose quádrupla | Aumento até quatro vezes é uso fora de bula, individualizado; para loratadina há menos evidência específica que para outros agentes. Rever tolerância, riscos e alternativas; não criar monitorização hepática obrigatória sem indicação. |
| 3. Omalizumabe | Somar ao anti-histamínico, sob especialista, 300 mg subcutâneos a cada 4 semanas; a diretriz internacional de 2026 acrescenta dupilumabe e remibrutinibe a este degrau | Falta de resposta só se declara depois de 6 meses | Componente Especializado só para asma: a Rename 2024 o vincula ao PCDT de Asma |
| 4. Ciclosporina | Somar ao anti-histamínico, sob especialista, 3 a 5 mg/kg por dia, com pressão arterial e exames mensais | Por tempo curto; só para quem não responde ao omalizumabe | Componente Especializado, vinculada a protocolos de outras doenças |
| Resgate | Curso curto de corticoide oral na exacerbação, somado ao anti-histamínico | Nunca por longo prazo, nunca de depósito, sem cursos repetidos; corticoide tópico não serve | Prednisona 5 e 20 mg comprimido; prednisolona 1 e 3 mg/mL solução oral |
| Descer | Reduzir a dose ou espaçar as tomadas, uma etapa por vez | Depois de 3 a 6 meses sem sintomas | O mesmo esquema, em dose menor |
Tabela de conversão: da dose ao comprimido, num adulto de 64 kg e numa criança de 20 kg
| Prescrição | Apresentação | Quanto dá | Observação |
|---|---|---|---|
| Loratadina 10 mg por dia, adulto | Comprimido de 10 mg (Básico) | 1 comprimido por dia; 30 em 30 dias | Todos os dias, mesmo sem placa |
| Loratadina 20 mg por dia, adulto | Comprimido de 10 mg (Básico) | 2 comprimidos por dia; 60 em 30 dias | Dobrar antes de quadruplicar |
| Loratadina 40 mg por dia, adulto | Comprimido de 10 mg (Básico) | 4 comprimidos por dia; 120 em 30 dias | Teto: acima de quatro vezes a dose padrão, a diretriz internacional recomenda contra |
| Loratadina, criança de 2 a 12 anos com 20 kg | Xarope de 1 mg/mL (Básico) | 5 mg = 5 mL uma vez ao dia | Acima de 30 kg, 10 mL; a tabela do guia de 2024 começa a loratadina aos 2 anos |
| Prednisona 40 mg por dia, curso curto, adulto | Comprimido de 20 mg (Básico) | 2 comprimidos em dose única diária; 14 em 7 dias | Cabe em todas as faixas que não se contradizem; 1 mg/kg daria 64 mg |
| Prednisolona 0,5 a 1 mg/kg por dia, criança de 20 kg | Solução oral de 3 mg/mL ou de 1 mg/mL (Básico) | 10 a 20 mg = 3,3 a 6,7 mL da de 3 mg/mL, ou 10 a 20 mL da de 1 mg/mL | Na criança, só em curso curto e restrito |
| Paracetamol 500 mg, dor ou febre durante a urticária | Comprimido de 500 mg ou solução oral de 200 mg/mL (Básico) | 1 comprimido, ou 2,5 mL da solução | Analgésico que o guia de 2022 considera, em geral, seguro |
| Icatibanto 30 mg, crise de angioedema hereditário no adulto | Seringa de 3 mL com 10 mg/mL; incorporado para uso hospitalar, fora da Rename 2024 | A seringa inteira, 3 mL, subcutânea no abdome | Repetível a cada 6 horas, até 3 doses (90 mg) em 24 horas |
Encaminhamento: a situação, o destino e o que vai junto
| Situação | Para onde | O que levar |
|---|---|---|
| Urticária crônica espontânea com UCT abaixo de 12 depois de 2 a 4 semanas na dose quádrupla, ou antes, se os sintomas forem insuportáveis | Alergia e imunologia ou dermatologia | UAS7/UCT quando úteis, dose, duração, resposta e efeitos adversos; hemograma e PCR ou VHS na investigação básica da forma crônica, com outros exames conforme achados. |
| Urticária que só se controla com cursos repetidos de corticoide | Alergia e imunologia ou dermatologia | Datas, doses e duração de cada curso, e o anti-histamínico em uso em cada um |
| Placa que dura mais de 24 horas, dói, deixa púrpura ou mancha, ou vem com febre, artralgia ou perda de peso | Especialista para biópsia de pele e investigação sistêmica | Fotos datadas de cada lesão, quanto tempo cada uma durou, sintomas sistêmicos, programa básico |
| Angioedema sem urtica recorrente sem fármaco que o explique, ou com família, crise abdominal ou início precoce | Alergia e imunologia | C4 com data e se foi colhido em crise, número e locais das crises, crises de via aérea, resposta às drogas usadas, heredograma |
| Angioedema que continua recorrendo meses depois de suspenso o inibidor da enzima conversora | Alergia e imunologia | Data da suspensão, crises depois dela, fármacos atuais, C4 |
| Angioedema hereditário confirmado | Serviço de referência, com a família | Laudo com diagnóstico, medicamentos a evitar e plano de crise por escrito; parentes de primeiro grau para investigação |
| Gestante com urticária crônica sem controle na dose padrão de loratadina | Alergia e imunologia, junto com o pré-natal | UCT, esquema usado, idade gestacional |
O guia brasileiro de urticária de 2024 dá duas doses para o mesmo curso curto de corticoide. Na seção de anti-histamínicos, prednisona ou prednisolona 1 mg/kg por dia por 7 a 10 dias; na de corticosteroides, 0,5 a 1 mg/kg por dia por 7 a 10 dias, “20 a 60 mg em adultos”. A conta: num adulto de 70 kg, a primeira regra dá 70 mg, acima do teto de 60 mg da segunda; num de 80 kg, a faixa por peso vai de 40 a 80 mg e o parêntese, de 20 a 60 mg; e a faixa de 20 a 60 mg não corresponde a peso nenhum, porque o piso é 0,5 mg/kg de quem pesa 40 kg e o teto é 1 mg/kg de quem pesa 60 kg. O guia de urticária aguda de 2022 dá prednisona de 30 a 60 mg por dia, por 7 dias ou menos, e a diretriz internacional de 2026, de 20 a 50 mg por dia, por no máximo 10 dias. Esta apostila usa 40 mg por dia, dose que cabe nas três faixas que não se contradizem, e não adota a regra de 1 mg/kg (ver divergências).
No mesmo guia de 2024, o texto manda dosar IgE total e IgG anti-tireoperoxidase “em todos os pacientes” com urticária crônica espontânea, e a Tabela 2 restringe os dois exames, em nota, a “pacientes em atendimento especializado”. A conta pelo sistema: a unidade básica que segue o texto pede quatro exames a cada paciente — hemograma, PCR ou VHS, IgE total e anti-tireoperoxidase —, e a que segue a tabela pede dois. A diretriz internacional de 2026 fica com a tabela, e esta apostila também, para a atenção primária.
O protocolo federal do angioedema associado à deficiência de C1 esterase (Portaria SAS/MS nº 880/2016), que em setembro de 2026 continua sendo o texto servido pela página oficial de PCDT do Ministério da Saúde, afirma que o icatibanto “não está indicado neste Protocolo”, com base na recomendação da Conitec de 2015, e deixa para a crise com risco de asfixia só o plasma fresco. O acetato de icatibanto entrou no SUS pela Portaria SECTICS/MS nº 68/2023, e o inibidor de C1 esterase derivado de plasma humano pela nº 69/2023, ambos para crises de angioedema hereditário tipos I e II, com uso restrito hospitalar; a versão nova do protocolo foi à Consulta Pública SECTICS/MS nº 50/2024. A diretriz brasileira de 2022, anterior às portarias, também diz que as duas drogas não estão disponíveis no SUS, e nenhuma delas consta da Rename 2024. Quem lê só o protocolo ou só a diretriz conclui que o SUS não trata a crise com droga específica; por portaria, trata, no hospital (ver divergências).
A conduta, hora a hora
A conduta da urticária se mede em semanas, e o defeito típico dela é tratar cada noite como uma alergia nova: injeção, corticoide, alta sem retorno e, na semana seguinte, outra injeção em outra unidade. A linha do tempo abaixo segue Anadir do pronto-atendimento, numa sexta-feira de julho, até o fim de março do ano seguinte, e mostra a mesma paciente atravessando a urticária aguda, virando crônica, subindo a escada, passando pelo especialista e começando a descer.
O tratamento inicial usa anti-histamínico de segunda geração em dose padrão. Se houver controle insuficiente, confirmar adesão, diagnóstico e cofatores e discutir aumento de dose com o supervisor. A elevação até quatro vezes é uso fora da bula em muitos produtos e tem evidência diferente entre as moléculas; preferir opções estudadas quando acessíveis. A loratadina em dose elevada neste caso é decisão individual e não um esquema automático para todo adulto, criança ou gestante. Pedir transaminases só porque um medicamento é metabolizado no fígado não demonstra necessidade de monitorização seriada: avaliar doença hepática, interações e sinais de toxicidade. Barreira de acesso deve motivar apoio e referência, sem transferir à paciente a obrigação de comprar um tratamento.
Sexta-feira, 3 de julho, 22h20: o que não vai na seringa
Terminadas as perguntas sobre voz, respiração, pressão e intestino, você escreve o diagnóstico antes da prescrição: urticária aguda com angioedema discreto de pálpebras, sem critério de anafilaxia. Depois conversa com a técnica de enfermagem, porque a bandeja precisa voltar ao armário com explicação e não com desautorização. A prometazina é anti-histamínico de primeira geração: sedaria uma paciente que precisa ir para casa sozinha, e o guia de urticária aguda de 2022 manda evitar os injetáveis e tratar pela boca. A hidrocortisona não tem indicação numa urticária que não é grave e não tem angioedema proeminente; o guia de 2024 registra, ainda, que o corticoide sistêmico na urticária aguda carece de evidência robusta de eficácia. O ibuprofeno sai hoje, e a dor de garganta fica com o paracetamol.
Prescrição- Loratadina 10 mg, 1 comprimido por via oral agora
- Não aplicar prometazina nem hidrocortisona: urticária aguda sem anafilaxia se trata por via oral
- Suspender ibuprofeno; paracetamol 500 mg, 1 comprimido por via oral, se dor ou febre
- Reavaliar voz, deglutição, respiração, pressão arterial e placas antes da alta
Mesma noite, 23h40: a alta, o nome certo no prontuário e os sinais para voltar
As placas estão menores e mais pálidas, a coceira caiu, as pálpebras estão iguais, a voz e a pressão também. Anadir vai para casa, e três coisas saem com ela. A receita diz que a loratadina é todos os dias, e não quando coçar, por três semanas — o tempo que o guia de 2024 recomenda na urticária aguda. O prontuário diz o que aconteceu, e não um rótulo: urticária aguda durante infecção viral, depois de duas doses de ibuprofeno, com a reação ao anti-inflamatório registrada como suspeita a investigar depois da resolução. E ela sabe, por escrito, o que a faz voltar na hora, sem esperar a consulta.
Prescrição- Loratadina 10 mg VO uma vez ao dia durante a fase sintomática, com retorno para rever necessidade e duração. Um curso de duas a três semanas pode ser planejado, mas não é obrigatório manter 21 dias após resolução completa em toda urticária aguda.
- Paracetamol 500 mg, 1 comprimido por via oral se dor ou febre; evitar anti-inflamatórios enquanto houver urticária
- Registrar: urticária aguda com angioedema palpebral, sem critério de anafilaxia; ibuprofeno 600 mg às 13h e às 19h; placas desde as 16h; infecção viral de vias aéreas em curso; reação a anti-inflamatório como suspeita, sem rótulo de alergia (a investigação e o rótulo seguem Reações de hipersensibilidade a drogas, nesta apostila)
- Voltar imediatamente se houver falta de ar, rouquidão, sensação de garganta fechando, língua inchada, vômitos ou desmaio
- Consulta na unidade básica em 7 a 10 dias, com fotos datadas das placas
Terça-feira, 14 de julho, unidade básica: as placas voltam toda noite
Persistência de urticas e sono prejudicado pede reavaliação de adesão, duração das lesões, medicamentos e sinais de outro diagnóstico. Discutir com o supervisor a opção de aumento do anti-histamínico e explicar que a dose acima da bula é individualizada. Disponibilidade, perfil de sedação, comorbidades e interações participam da escolha; não usar transaminases normais como certificado de segurança da dose. Um diário curto ajuda a comparar resposta e função sem transformar toda noite em obrigação de fotografar.
Prescrição- Loratadina 10 mg, 1 comprimido por via oral de 12 em 12 horas, todos os dias (60 comprimidos para 30 dias)
- Avaliar história de doença hepática, interações e efeitos adversos; solicitar função hepática se houver indicação clínica, não como requisito automático antes de todo aumento de dose.
- Diário de UAS7: nota diária de 0 a 3 para urticas e de 0 a 3 para coceira, com foto no dia de placa grande
- Retorno em 3 semanas, com o diário
Terça-feira, 4 de agosto: melhor, mas não bem
O diário da última semana soma 12 — urticária leve pela leitura do guia de 2024 — e o UCT da consulta dá 9, abaixo de 12: a doença não está controlada. As placas aparecem quatro noites por semana; TGO e TGP vieram normais. São quatro semanas e meia de doença, ainda urticária aguda pela definição, mas é hora de dizer à paciente, sem alarme, que uma parte das urticárias agudas se torna crônica e que os próximos dias vão mostrar qual é o caso dela. Três semanas na dose dobrada sem controle pedem o degrau seguinte: quatro comprimidos, o teto. Acima disso, a diretriz internacional de 2026 recomenda contra, e associar outro anti-histamínico é pior que subir o mesmo.
Prescrição- Loratadina 10 mg, 2 comprimidos por via oral de 12 em 12 horas, todos os dias (120 comprimidos para 30 dias)
- Não associar outro anti-histamínico, nem de primeira geração à noite
- Rever tolerância, sedação, interações e benefício da dose elevada. Exames de segurança conforme medicamento, comorbidades e sintomas; não impor transaminases mensais a todos.
- Manter o diário de UAS7; UCT no retorno; retorno em 3 semanas
Terça-feira, 25 de agosto: urticária crônica espontânea e o encaminhamento
São sete semanas e meia de placas quase diárias: a urticária é crônica. Não há gatilho físico — a pressão com a tampa romba de uma caneta não produz urtica linear em dez minutos, o frio e o suor não mudam nada — e ela é espontânea. Na dose quádrupla há três semanas, o UAS7 caiu para 10 e o UCT subiu para 10, ainda abaixo de 12: controle inadequado depois de duas a quatro semanas na dose máxima, que é o ponto em que o algoritmo do guia de 2024 põe o especialista. Você pede o programa básico e mais nada, pergunta pelos sintomas de tireoide, que ela não tem, conversa sobre o que é a doença e faz o encaminhamento com os números. A loratadina continua em quatro comprimidos enquanto ela espera.
Prescrição- Registrar: urticária crônica espontânea desde 3 de julho; UAS7 10 e UCT 10 após 3 semanas de loratadina 40 mg por dia; sem urticária induzida; sem sinais de vasculite
- Hemograma com diferencial e proteína C-reativa ou VHS para avaliação básica da urticária crônica; exames adicionais conforme história, exame e tratamento.
- Não pedir IgE total, anti-tireoperoxidase, painel alérgico nem sorologias de rotina
- Encaminhamento para alergia e imunologia com diário, UCT, esquemas com doses e datas, exames e fotos
- Manter loratadina 10 mg, 2 comprimidos de 12 em 12 horas; evitar anti-inflamatórios; paracetamol se dor
Terça-feira, 6 de outubro: a exacerbação, sem anafilaxia
A exacerbação com placas e edema labial exige novamente avaliar língua, voz, deglutição, respiração e circulação. Sem anafilaxia ou ameaça de via aérea, manter anti-histamínico e revisar cofatores. Corticoide oral curto pode ser considerado em exacerbação importante, com benefício e riscos discutidos; edema labial isolado não obriga corticoide. Evitar cursos repetidos e encaminhar para melhor controle de base. Se prescrito, usar o menor tempo necessário, sem transformar sete dias em piso universal.
Prescrição- Se a equipe julgar a exacerbação suficientemente intensa para resgate, prednisona 40 mg/dia é exemplo de curso curto em adulto; individualizar duração, geralmente poucos dias e no máximo dez conforme diretriz. Não prescrever automaticamente a todo angioedema labial nem repetir sem rever o tratamento de base.
- Manter loratadina 10 mg, 2 comprimidos de 12 em 12 horas
- Não aplicar corticoide de depósito nem anti-histamínico injetável
- Registrar o curso de corticoide com data, dose e duração
- Voltar imediatamente se o inchaço passar para a língua ou a garganta, ou se houver rouquidão, falta de ar ou vômitos
Terça-feira, 10 de novembro: a contrarreferência
A carta do alergista chega com Anadir. Ele confirmou urticária crônica espontânea, pediu IgE total e anti-tireoperoxidase — a IgE veio em 210 UI/mL e o anticorpo, negativo — e encontrou um UCT de 13 na consulta, já bem controlado na dose quádrupla. Manteve a loratadina, reforçou evitar anti-inflamatórios e escreveu o plano: se o UCT voltar a ficar abaixo de 12, ela retorna para avaliação de omalizumabe, e a paciente já sabe que, para urticária, o SUS não o dispensa pelo Componente Especializado. A unidade básica fica com o que é dela: a avaliação de controle e tolerância e o momento de reduzir a dose; exames de segurança têm indicação individual.
Prescrição- Manter loratadina 10 mg, 2 comprimidos de 12 em 12 horas
- UCT a cada consulta mensal; diário de UAS7 na semana anterior
- Retorno ao alergista se UCT abaixo de 12 ou se houver necessidade de novo curso de corticoide
- Descer a dose só depois de 3 meses seguidos de controle completo
Terça-feira, 30 de março de 2027: começar a descer
Desde dezembro, as três consultas mensais deram UCT de 16 e diário zerado: são três meses de controle completo, o piso que o guia de 2024 põe para começar a descer. A redução é um degrau por vez, e o intervalo entre as etapas é escolha desta apostila — o guia define quando começar, não o ritmo. Anadir entende a regra que evita a frustração: se as placas voltarem numa etapa, ela volta à menor dose que controlava e fica nela por mais tempo, sem que isso seja fracasso. Cerca de 45% dos pacientes entram em remissão em cinco anos; a descida é o jeito de descobrir se ela é um deles sem deixá-la meses sem dormir.
Prescrição- Loratadina 10 mg, 3 comprimidos por dia (2 pela manhã e 1 à noite) por 4 semanas
- Se UCT continuar 16: 2 comprimidos por dia por 4 semanas; depois 1 comprimido por dia; depois suspender
- Se as placas voltarem numa etapa: voltar à menor dose que controlava
- Diário curto antes do retorno e revisão de efeitos adversos. Função hepática quando clinicamente indicada, não como requisito para cada etapa de redução.
Como saber se está funcionando
Na urticária, o retorno começa pelo que o paciente de fato fez, e o degrau só muda depois disso. Tomou todos os dias ou só quando coçou? Tomou anti-inflamatório para dor de cabeça? Há estresse novo, infecção, gatilho físico? A resposta a essas perguntas explica boa parte das falhas, e o número — UCT na consulta, UAS7 do diário — substitui o “melhorou um pouco”, que não decide nada. Cada dose ganha de duas a quatro semanas antes de ser julgada, a menos que os sintomas sejam insuportáveis.
No angioedema da bradicinina, reavaliar é outra coisa, em dois tempos. Nas horas da crise, é a via aérea, olhada e ouvida de novo e de novo, sem confiar na oximetria. Nos meses seguintes à suspensão do inibidor da enzima conversora, é a recorrência: a diretriz internacional de 2026 diz que a remissão costuma vir em poucos dias e raramente demora até seis meses, e o paciente precisa saber disso para não concluir, na primeira recaída, que o problema é o remédio novo — nem para deixar passar a recaída que continua depois desse prazo.
Esperado: Voz, deglutição, respiração, pressão arterial e intestino normais do começo ao fim
Se não melhora: Qualquer sinal respiratório, gastrointestinal, neurológico ou cardiovascular transforma o quadro em anafilaxia: adrenalina e a conduta do capítulo de anafilaxia, sem esperar o anti-histamínico agir
Esperado: Sono preservado, placas cada vez mais raras e regressão completa dentro das 2 a 3 semanas de tratamento
Se não melhora: Conferir uso diário e anti-inflamatório escondido; dobrar a dose; placa que dura mais de 24 horas, dói ou deixa marca muda o diagnóstico e pede foto e encaminhamento
Esperado: UCT de 12 ou mais e UAS7 de 6 ou menos; o alvo é UCT 16 e UAS7 zero
Se não melhora: Conferir adesão, anti-inflamatórios, estresse, infecção e urticária induzida associada; subir o degrau depois de 2 a 4 semanas na dose; UCT abaixo de 12 depois de 2 a 4 semanas na dose quádrupla é encaminhamento para o especialista
Esperado: Melhora do controle sem sedação incapacitante ou outros efeitos adversos; segurança não é definida apenas por transaminases normais.
Se não melhora: Reduzir ou trocar se intolerância e rever interações e diagnóstico. Alteração hepática, quando identificada, pede investigação própria. Considerar anti-histamínico com evidência de aumento de dose e discutir referência se controle insuficiente.
Esperado: Curso único, de até 7 dias, sem piora ao terminar, com o anti-histamínico mantido
Se não melhora: Piora ao parar não se trata com curso novo emendado; a necessidade de cursos repetidos é critério de encaminhamento, e corticoide de depósito ou de uso prolongado não entra em nenhuma hipótese
Esperado: Voz, deglutição e respiração estáveis ou melhorando; língua e assoalho da boca sem progressão
Se não melhora: Voz mais abafada, baba, estridor ou esforço respiratório pedem decisão sobre a via aérea já, com a pessoa mais experiente do serviço, sem esperar a saturação cair; no hereditário tipos I e II, icatibanto ou inibidor de C1 no hospital, e plasma fresco só na falta dos dois
Esperado: Episódios cada vez mais raros até pararem, em geral em dias, raramente em até seis meses; pressão controlada com o substituto
Se não melhora: Recorrência após suspender IECA merece revisão clínica precoce. Frequência, crises abdominais, história familiar e padrão atípico podem antecipar C4, quantidade/função do C1-INH e referência; não exigir seis meses de espera. Rever também gliptinas, sacubitril e outros medicamentos.
Onde o erro machuca
O dano: A prometazina é anti-histamínico de primeira geração: seda, tem efeito anticolinérgico, interage com álcool, analgésicos e hipnóticos e, pelo guia de 2024, deixa efeito adverso por mais tempo que o efeito anti-histamínico. O corticoide venoso de rotina não tem evidência robusta na urticária aguda. E o paciente aprende que alergia se trata com injeção, e volta a pedi-la a cada crise.
Como pegar a tempo: Afaste anafilaxia pelos órgãos acometidos e, sem ela, trate pela boca com anti-histamínico de segunda geração, como mandam os guias de 2022 e 2024. Reserve o corticoide oral curto para o quadro grave, com angioedema proeminente, ou para o que não responde ao anti-histamínico, e explique à equipe o motivo da bandeja voltar ao armário.
O dano: Nenhuma das drogas age na bradicinina, o fármaco que causa o angioedema continua sendo tomado e a próxima crise pode acometer a laringe. O paciente sai com a impressão de que o tratamento funcionou, porque o edema regride sozinho em dias.
Como pegar a tempo: Pergunte pelos remédios de pressão pelo nome em todo angioedema sem urtica, inclusive em quem os usa há anos. Suspenda o inibidor da enzima conversora para sempre, registre como contraindicação no prontuário, na receita e num papel que fica com o paciente, e vigie a via aérea sem confiar na oximetria.
O dano: Os exames não mudam a conduta, não identificam a causa de uma urticária que acompanha infecção e custam tempo e dinheiro. O rótulo sem investigação tira do paciente, para sempre, um fármaco que talvez ele tolere, e esconde a causa verdadeira quando a urticária volta sem o remédio.
Como pegar a tempo: Na urticária aguda, não peça exame de rotina; teste cutâneo ou IgE específica só com suspeita forte de alergia mediada por IgE na história. Registre o fármaco como suspeito, com dose, horário e tempo até a reação, oriente o analgésico alternativo e deixe a investigação para depois da resolução completa, com o especialista.
O dano: A urticária crônica volta a cada suspensão, a dose nunca é julgada por tempo suficiente e o paciente passa a tomar dois fármacos, um deles sedativo, sem ganho sobre subir a dose do primeiro. A falta de controle vira uma sensação de que nada funciona.
Como pegar a tempo: Na urticária crônica espontânea, prescreva o anti-histamínico de segunda geração todos os dias, julgue cada dose por 2 a 4 semanas com UCT e UAS7, suba até quatro vezes o mesmo fármaco e não associe dois diferentes. Desça só depois de 3 a 6 meses de controle completo.
O dano: O uso prolongado de corticoide traz supressão do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, osteoporose com fratura, diabetes, doença cardiovascular e ocular e mais infecção, riscos que o guia de 2024 diz serem muito superiores ao benefício. E adia o especialista para quem precisava de omalizumabe.
Como pegar a tempo: Use corticoide oral só em curso curto, de até 7 dias, para a exacerbação, sempre somado ao anti-histamínico, e registre cada curso com data e dose. Nunca use depósito. A necessidade de repetir o curso é critério de encaminhamento, não de nova receita.
O dano: Na fase inicial da obstrução das vias respiratórias a saturação não cai, como lembra a diretriz brasileira de 2022. Quando cai, o edema já fechou boa parte da passagem, e intubar uma via aérea deformada pelo inchaço é mais difícil a cada hora — até que a traqueostomia, que a diretriz lista entre as opções, passe a ser a saída.
Como pegar a tempo: Reavalie a voz, a deglutição da saliva, a baba, o estridor e o esforço respiratório de forma contínua. Com progressão, chame a pessoa mais experiente do serviço e decida a via aérea cedo, com material para via aérea difícil à mão, conforme Manejo de via aérea no trauma e sequência rápida de intubação.
O que dizer ao paciente e à família
A conversa da urticária é quase toda sobre expectativa. O paciente chega esperando uma injeção que resolva, um exame que encontre o culpado, uma comida para cortar, uma cura em dias — e sai melhor quando alguém troca essas expectativas por outras que se cumprem: o comprimido de todo dia, a doença que se mede com um número, a escada com degraus que ele entende, a remissão que pode chegar. Dizer o que não se sabe, como a causa em metade das urticárias agudas, faz parte do tratamento.
Duas conversas deste capítulo são de outro tipo. A do homem que tomou por anos o remédio que o fez inchar, e que precisa sair do plantão sabendo que nunca mais pode tomá-lo nem nenhum parecido, sem culpar ninguém. E a da jovem que descobre que o inchaço pode ser de família, e que a conversa não termina nela: termina na mãe, nos irmãos e, um dia, nos filhos.
Anadir pede a injeção que resolve a alergia de uma vez
““A injeção que você tomou da outra vez acalma, mas acalma dormindo: é um remédio antigo, que dá sono por mais tempo do que tira a coceira. O comprimido que você vai tomar agora trata a mesma coisa sem derrubar você, e é o que os especialistas recomendam. A injeção ficaria para quando o problema sai da pele — falta de ar, garganta fechando, pressão baixa —, e isso eu conferi e você não tem.””
Não diga: Aplicar a injeção para encerrar a consulta, ou negar sem explicar, deixando a paciente com a impressão de que foi mal atendida
Anadir pergunta se é alérgica a ibuprofeno para sempre
““Ainda não dá para dizer. Você estava com uma virose, e virose sozinha já causa essas placas; o ibuprofeno pode ter causado, piorado ou só coincidido. Enquanto as placas não passarem, nada de anti-inflamatório: para dor ou febre, use paracetamol. Eu vou escrever no seu prontuário que é uma suspeita, com o nome, a dose e o horário. Depois que tudo passar, isso se investiga com o especialista, e aí você sai com uma resposta de verdade, e não com uma proibição para a vida inteira.””
Não diga: Escrever “alergia a anti-inflamatórios” como diagnóstico fechado, ou liberar o ibuprofeno durante a urticária
Explicando a urticária crônica espontânea na consulta em que o diagnóstico é feito
““Passaram seis semanas, então chamamos de urticária crônica. O nome assusta, mas quer dizer só que dura mais. Na maioria das pessoas ela não vem de comida nem de nenhum produto: é o próprio sistema de defesa que ativa as células da pele, e por isso os exames de alergia não encontram culpado. Anti-inflamatório e estresse pioram, e vale evitar o primeiro e cuidar do segundo. A boa notícia é que ela costuma ir embora sozinha: quase metade das pessoas fica livre em cinco anos, e o tratamento serve para você viver bem até lá.””
Não diga: Mandar cortar uma lista de alimentos sem suspeita concreta, ou prometer que vai passar em poucas semanas
Anadir estranha tomar quatro comprimidos quando a caixa diz um
““A bula fala da dose para quem melhora com um comprimido. Para quem não melhora, as diretrizes de alergia autorizam subir até quatro vezes o mesmo remédio, e isso controla muita gente que não controlaria de outro jeito. Quatro é o teto: acima disso não se sobe, e não se junta outro antialérgico. Como esse remédio passa pelo fígado, eu peço um exame de sangue antes de subir e outro depois, e se ele alterar a gente muda o plano. Se um dia você puder comprar um parecido que foi mais estudado em dose alta, me avise, que eu troco.””
Não diga: Aumentar a dose sem explicar que é fora da bula, ou deixar a paciente somar por conta própria outro antialérgico que dá sono
Zulmiro não acredita que o remédio de pressão que toma há três anos causou o inchaço da língua
““Eu entendo a dúvida, porque o senhor tomou esse remédio anos sem problema. Mas esse tipo de inchaço, que não coça e não melhorou com os remédios de alergia, é um efeito conhecido dessa classe de remédio, e pode aparecer mesmo depois de anos. O senhor nunca mais pode tomar o enalapril nem nenhum da mesma família. Vou escrever isso aqui e na receita, e quero que o senhor mostre esse papel a todo médico e em toda farmácia. Nas próximas semanas pode ainda inchar um pouco; se inchar a língua ou a garganta, vá direto para a emergência.””
Não diga: Culpar o paciente ou o médico que prescreveu, ou trocar por outro inibidor da enzima conversora achando que o problema era a marca
Timótea pergunta o que muda na vida dela com a suspeita de angioedema hereditário
““Pelo que você me contou — os inchaços desde menina, as dores de barriga fortes, a sua mãe com a mesma história e a piora depois do anticoncepcional —, eu desconfio de uma doença de família que causa esses inchaços. Vou pedir um exame de sangue hoje e encaminhar para o especialista, que confirma. Enquanto isso, três coisas: vamos trocar o anticoncepcional por um sem estrogênio, porque o estrogênio piora as crises; antialérgico e corticoide não resolvem esse inchaço, então, se inchar garganta, língua ou vier dor de barriga forte, você vai direto para o hospital e diz o que eu vou escrever neste papel; e, se confirmar, sua mãe e seus irmãos também vão precisar fazer o exame.””
Não diga: Dizer que é “nervoso” ou alergia, manter o anticoncepcional com estrogênio, ou esquecer a família
Anadir, encaminhada, pergunta se o especialista vai dar a injeção cara que ela viu na internet
““Talvez nem precise: com o especialista, muita gente se acerta ajustando o que já usa, e a doença costuma melhorar com o tempo. Se ele indicar esse remédio, é importante você saber desde já que, para urticária, o SUS não entrega esse remédio pela farmácia de alto custo — hoje ele é dispensado lá só para asma. Ele vai conversar com você sobre isso. Enquanto a consulta não sai, você continua com os quatro comprimidos todos os dias e com o diário, porque é com esses números que ele vai decidir.””
Não diga: Prometer que o especialista vai conseguir o medicamento, ou desanimar a paciente a ponto de ela abandonar o tratamento que funciona em parte
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Até 7 dias, prednisona de 30 a 60 mg por dia no adulto — ASBAI, Guia prático de urticária aguda, 2022
O guia escrito para a urticária aguda admite corticoide por período curto, de 7 dias ou menos, quando os sintomas são graves, com angioedema proeminente, ou quando o quadro persiste apesar do anti-histamínico de segunda geração. No adulto, a dose habitual de prednisona é de 30 a 60 mg por dia; na criança, prednisolona de 0,5 a 1 mg/kg por dia. O anti-histamínico continua durante e depois do curso, e cursos repetidos devem ser evitados.
Alcântara CT et al. Guia prático de urticária aguda. Arq Asma Alerg Imunol. 2022;6(2):214-24
De 7 a 10 dias, prednisona ou prednisolona de 1 mg/kg por dia, ou de 0,5 a 1 mg/kg por dia — ASBAI, atualização do guia prático de urticária, 2024
A atualização geral do guia dá, na seção de anti-histamínicos, 1 mg/kg por dia por 7 a 10 dias para os casos mais graves de urticária aguda e, na seção de corticosteroides, 0,5 a 1 mg/kg por dia por 7 a 10 dias, de 20 a 60 mg no adulto, na alta da emergência e nas exacerbações da urticária crônica. Não recomenda somar corticoide a anti-histamínico em dose baixa, mas admite o curso sem resposta à dose quádrupla.
Dias GAC et al. Atualização do Guia Prático da ASBAI para o Diagnóstico e Tratamento da Urticária. Arq Asma Alerg Imunol. 2024;8(2):91-115, p. 105 e 108
Glicocorticoide sistêmico não é rotina nem tratamento contínuo da urticária. Em exacerbação grave selecionada, pode-se discutir um curso breve, na menor dose e duração necessárias; prednisona 40 mg/dia é um exemplo adulto, com teto de até dez dias nos guias citados e sem piso obrigatório de sete dias. Manter o tratamento de base e evitar cursos repetidos; a necessidade de repeti-los pede reavaliação e referência.
Em todos os pacientes — texto do guia da ASBAI de 2024
Na seção de diagnóstico da urticária crônica espontânea, o guia afirma que a investigação laboratorial básica pode ser feita com hemograma, PCR e/ou VHS, IgE total e IgG anti-tireoperoxidase em todos os pacientes, porque esses exames ajudam a excluir doenças associadas e a avaliar o mecanismo autoimune e a resposta ao tratamento.
Dias GAC et al. Arq Asma Alerg Imunol. 2024;8(2):91-115, p. 96
Só no atendimento especializado — Tabela 2 do mesmo guia de 2024 e diretriz internacional de 2026
A tabela de testes diagnósticos do próprio guia marca IgE total e IgG anti-tireoperoxidase com uma nota que os restringe a pacientes em atendimento especializado. A diretriz internacional de 2026 recomenda investigação limitada: hemograma com diferencial e PCR e/ou VHS em todos, e IgE total e anti-tireoperoxidase no atendimento especializado.
Dias GAC et al. 2024, Tabela 2, nota c; Zuberbier T et al. The International Guideline for the Definition, Classification, Diagnosis and Management of Urticaria. Allergy. 2026
As duas posições saem do mesmo documento, com escopo, data e natureza idênticos, e o que decide é a coerência: o guia se contradiz entre o texto e a tabela, e a leitura da tabela é a mesma da diretriz internacional mais nova. Esta apostila adota: na unidade básica, hemograma com diferencial e PCR ou VHS; IgE total e anti-tireoperoxidase ficam com o especialista. Para o paciente à sua frente, o motivo é prático: os dois exames servem para caracterizar o mecanismo autoimune e prever resposta ao omalizumabe e à ciclosporina, e nenhum degrau que a atenção primária sobe depende deles. Se a regulação local exigir os exames no encaminhamento, peça-os — nesse caso a exigência é do fluxo, e não da doença.
Icatibanto não indicado; na crise com risco de asfixia, plasma fresco — PCDT do angioedema associado à deficiência de C1 esterase, Portaria SAS/MS nº 880/2016
O protocolo federal descreve os ensaios do icatibanto, critica a falta de comparação com o plasma e de desfechos duros e registra que a Conitec não recomendou a incorporação em junho de 2015; por isso, o icatibanto não está indicado no protocolo. O tratamento da crise é predominantemente hospitalar e, havendo risco de asfixia, pode-se usar plasma fresco. O único fármaco do protocolo é o danazol, para a profilaxia.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Portaria nº 880, de 12 de julho de 2016
Icatibanto e inibidor de C1 derivado de plasma incorporados para a crise dos tipos I e II, com uso restrito hospitalar — Portarias SECTICS/MS nº 68 e nº 69/2023
Em 2023, o Ministério da Saúde incorporou ao SUS o acetato de icatibanto e o inibidor de C1 esterase derivado de plasma humano para o tratamento de crises de angioedema hereditário tipos I e II, condicionados ao uso restrito hospitalar, e não incorporou o concentrado subcutâneo para profilaxia. A versão nova do protocolo, que traz essas decisões, foi submetida à Consulta Pública SECTICS/MS nº 50/2024. A diretriz brasileira de 2022 já tratava os dois fármacos como primeira linha na crise, quando ainda não estavam no SUS.
Portarias SECTICS/MS nº 68, 69 e 70/2023, conforme o Relatório de Recomendação da Conitec para a Consulta Pública SECTICS/MS nº 50/2024; Campos RA et al. Arq Asma Alerg Imunol. 2022;6(2):170-96
Escopo igual — a crise do angioedema hereditário tipos I e II — e natureza igual — normas do Ministério da Saúde. Decide a data, segundo degrau: as portarias de incorporação de 2023 são posteriores ao protocolo de 2016, que segue sendo o texto servido pela página oficial enquanto a versão submetida à consulta pública de 2024 não o substitui. Esta apostila adota: no hospital, a crise de angioedema hereditário tipos I e II se trata com icatibanto ou com inibidor de C1 derivado de plasma, o mais cedo possível, e o plasma fresco congelado fica para quando nenhum dos dois estiver disponível — que é também a posição da diretriz brasileira de 2022. Para o paciente à sua frente, isso tem duas consequências práticas. A unidade básica não tem essas drogas, e o plano escrito deve mandar o paciente ao hospital na crise de face, garganta ou abdome. E o fato de as duas drogas não constarem da Rename 2024 nem do protocolo publicado não autoriza dizer que o SUS não as oferece. A incorporação cobre só o hereditário tipos I e II: não alcança o angioedema por inibidor da enzima conversora nem a forma com inibidor normal.
O raciocínio, em voz alta
Quarta-feira, 19 de agosto, 5h50, a mesma unidade de pronto-atendimento. Zulmiro Dutra, 67 anos, pedreiro aposentado, acordou às 3h com o lábio inferior grosso e a língua “pesada”. A esposa conta que é a terceira vez em um ano: nas duas anteriores, noutra unidade, ele recebeu “injeção para alergia” e “soro com corticoide” e teve alta com antialérgico. Usa enalapril 20 mg de 12 em 12 horas há três anos e hidroclorotiazida 25 mg pela manhã; não começou remédio novo, não comeu nada diferente, não foi picado. Não há placa nenhuma na pele e nada coça. Fala com a voz abafada e engole a saliva com esforço, sem estridor e sem esforço para respirar. Pressão arterial de 162 por 94 mmHg, frequência cardíaca de 84, frequência respiratória de 20 e saturação de 96% em ar ambiente. O lábio inferior está edemaciado e assimétrico, a língua aumentada ocupa mais espaço na boca e a úvula está discretamente edemaciada. Pelo protocolo da unidade para “edema de glote”, ele recebeu adrenalina intramuscular na triagem, às 5h35; quinze minutos depois, nada mudou.
o que ameaça primeiro
Voz abafada, língua aumentada e dificuldade de engolir saliva indicam risco de obstrução apesar da saturação de 96%. Acionar imediatamente anestesia/equipe de via aérea difícil e manter material e plano de resgate disponíveis. Avaliar precocemente a extensão do edema e necessidade de assegurar a via aérea; não esperar piora adicional, estridor ou queda de saturação para iniciar a decisão. A técnica é escolhida pela equipe experiente, considerando risco de perder a via aérea após sedação e necessidade de acesso cirúrgico de resgate.
é anafilaxia?
Não há urtica nem coceira, a pressão está alta, não há sibilo, vômito, cólica ou tontura, não houve exposição a alimento, picada ou remédio novo, e o inchaço se instalou ao longo de horas, de madrugada. A adrenalina já foi dada na triagem, como manda a regra da dúvida, e nada mudou. Isso não prova o mecanismo, mas é a pista que o guia de 2024 descreve: angioedema sem urtica que não responde a adrenalina, anti-histamínico e corticoide aponta para bradicinina.
a pergunta que faltou nas duas vezes anteriores
Pergunto pelos remédios pelo nome e ouço: enalapril, há três anos. O inibidor da enzima conversora bloqueia a principal enzima que degrada a bradicinina, e o angioedema que ele causa pode aparecer depois de anos de uso — o tempo médio até o primeiro episódio é de 1,8 ano, e há casos dez anos depois. Três episódios em um ano, sempre na face e na língua, sem urtica, num homem idoso em uso de enalapril: é o quadro do angioedema por inibidor da enzima conversora. Nas duas vezes anteriores, o tratamento foi para histamina e o enalapril voltou para casa com ele.
o que não vai funcionar e o que não tenho
Anti-histamínico e corticoide não agem na bradicinina; não os repito como se fossem o tratamento, e cuido para que a equipe não atribua a eles a regressão que vier. As drogas que agem na bradicinina, o icatibanto e o inibidor de C1 derivado de plasma, foram incorporadas ao SUS em 2023 para crises de angioedema hereditário tipos I e II, com uso hospitalar; a incorporação não cobre o angioedema por inibidor da enzima conversora, e as réguas brasileiras que uso não fixam droga específica para ele. Aqui, o tratamento é a via aérea vigiada, a suspensão do fármaco e a observação até o edema regredir.
a observação que decide a alta
Às 7h, a voz está igual e a língua não cresceu; às 9h30, a voz clareou e ele engole a saliva sem esforço; à tarde, o lábio já diminuiu. Ele fica em observação até a regressão ser nítida e sustentada, e não por um número de horas combinado de antemão: quem dá a alta é a via aérea, reexaminada por quem a viu na chegada. Se tivesse piorado — voz mais abafada, baba, estridor —, a via aérea teria sido decidida com a pessoa mais experiente ao lado, antes de a saturação cair.
o enalapril, hoje e para sempre
Suspendo o enalapril hoje e registro, no prontuário, na receita de alta e num papel que fica com ele, que teve angioedema por inibidor da enzima conversora e não pode usar nenhum fármaco dessa classe. Explico que ainda pode inchar nas próximas semanas — a remissão costuma vir em dias e raramente demora até seis meses — e que inchaço de língua ou garganta é motivo para voltar direto à emergência. Pergunto por gliptina e sacubitril, que também se associam ao angioedema: ele não usa.
a pressão sem o enalapril
A pressão de 162 por 94 mmHg precisa de substituto hoje, e a escolha da classe é do capítulo de hipertensão arterial. O que este capítulo acrescenta é um critério, que é leitura desta apostila: na troca imediata, prefiro uma classe sem ação conhecida sobre a bradicinina, como o anlodipino do Componente Básico, e deixo o bloqueador do receptor da angiotensina fora da primeira troca, porque as diretrizes o associam ao angioedema, com risco menor. Ele não fica proibido: continua sendo opção quando houver indicação forte, como a insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, em que o capítulo próprio o usa justamente na intolerância ao inibidor da enzima conversora por angioedema.
se voltar a inchar
Recorrência após retirar o IECA merece reavaliação, especialmente se houver episódios frequentes, dor abdominal, história familiar ou padrão atípico. Não exigir seis meses de espera para encaminhar e investigar deficiência de C1-INH. C4, quantidade e função do C1-INH, e C1q quando pertinente ao início tardio, ajudam a distinguir formas hereditárias e adquiridas. Nova ameaça à via aérea continua sendo emergência, qualquer que seja o tempo desde a retirada.
Zulmiro teve angioedema por inibidor da enzima conversora: angioedema sem urtica, recorrente, de face e língua, em uso de enalapril havia três anos, sem resposta à adrenalina e sem nenhum outro sistema acometido. A conduta foi a via aérea primeiro, com a pessoa mais experiente chamada e a decisão de intubar antecipada, sem esperar a saturação cair; nenhum tratamento para histamina apresentado como se fosse o tratamento; observação até a regressão nítida; e a suspensão definitiva do enalapril e de toda a classe, registrada em três lugares. Ele saiu com anlodipino 5 mg uma vez ao dia no lugar do enalapril, a hidroclorotiazida mantida, revisão da pressão na unidade básica em uma semana, o aviso de que ainda pode inchar nas próximas semanas e a orientação de voltar à emergência se inchar língua ou garganta. Recorrência pede revisão precoce: o padrão pode justificar alergista e C4 com quantidade e função do C1-INH, além de C1q conforme a suspeita, sem esperar seis meses.
Faça você
Terça-feira, 10 de novembro, 14h, unidade básica de saúde. Timótea Barbalho, 19 anos, estudante, vem pedir “um exame de alergia”. Desde os 9 anos tem inchaços que duram três dias e não coçam: na mão, depois de carregar sacola; no pé, depois de jogar bola; uma vez no rosto, um dia depois de extrair um dente. Aos 14 anos foi operada por suspeita de apendicite, e a mãe lembra que o cirurgião disse que “o apêndice estava bom”; desde então foram mais três idas à emergência por dor abdominal forte com vômitos, que passaram sozinhas em dois dias. Há quatro meses começou anticoncepcional oral combinado e, nesse período, teve dois inchaços no rosto, um deles com a voz rouca, que passou sozinho; na emergência recebeu antialérgico e corticoide e não sentiu diferença. Nunca teve placas na pele. Não usa outro remédio. A mãe, de 44 anos, tem “inchaço de nervoso” desde a adolescência, e um tio materno “inchava a garganta”. Hoje está sem inchaço, e o exame físico é normal.
o que já sei
Sei que isto não é alergia e que o exame de alergia que ela veio pedir não responde nada. É angioedema recorrente sem urtica, que não coça, começou na infância, é desencadeado por trauma e por procedimento dentário, vem com crises abdominais — com uma cirurgia de apêndice normal no caminho —, piorou depois do estrogênio, não respondeu a antialérgico nem a corticoide e tem história na família. São todos os sinais de alerta do acrônimo da diretriz brasileira de 2022. A voz rouca foi um edema de vias aéreas superiores, e é por ele que esta consulta não pode terminar só com um pedido de exame.
o exame de hoje
Complete: qual exame você pede hoje, o que um resultado normal significa e o que confirma o diagnóstico.
o que muda hoje
Complete: o que você muda na contracepção e o que ela leva por escrito para a próxima crise.
quem mais entra na conversa
Complete: para onde ela vai e o que acontece com a família.
Ver como fecharíamos
A história tem alta suspeita de angioedema hereditário. Pedir C4 junto de quantidade e função do C1-INH quando disponíveis, ou articular prontamente a coleta no serviço de referência; C4 isolado normal não exclui e não deve servir de barreira para os outros exames. Resultados alterados/incongruentes são confirmados em nova amostra segundo orientação especializada, sem atrasar o plano de crise. Trocar a contracepção com estrogênio por opção sem estrogênio, discutida com a paciente, e orientar que informe a suspeita antes de procedimentos dentários ou cirúrgicos. Encaminhar com prioridade pela história de rouquidão e organizar acesso ao tratamento de resgate. Edema de língua/garganta, alteração de voz, dificuldade de engolir ou respirar exige emergência imediata e avaliação precoce de via aérea; dor abdominal intensa também precisa ser avaliada. Crises por bradicinina respondem a tratamento específico, como C1-INH ou icatibanto conforme diagnóstico, idade e acesso; anti-histamínicos e corticoide não substituem essas medidas. Se o mecanismo for incerto e houver suspeita de anafilaxia, administrar adrenalina IM enquanto se esclarece. A equipe avalia necessidade de profilaxia e rastreio familiar; não se espera uma nova crise grave para organizar o cuidado.
É urticária aguda com angioedema discreto de pálpebras, sem nenhum sistema fora da pele acometido: não é anafilaxia. O guia brasileiro de urticária aguda, de 2022, manda tratar por via oral com anti-histamínico de segunda geração e evitar os injetáveis, que são de primeira geração; o guia de 2024 dá de duas a três semanas de tratamento e dispensa exame na urticária aguda. O anti-inflamatório é suspenso e registrado como suspeita, com o paracetamol como analgésico, e o corticoide fica para quadro grave, com angioedema proeminente, ou sem resposta ao anti-histamínico.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Compare uma urtica que desaparece em horas, uma placa que deixa marca e edema de língua sem coceira. Diga qual risco precisa ser resolvido primeiro.
Em 30 dias
Reavalie urticária sem controle e angioedema recorrente com C4 normal. Explique limites da dose, quando referenciar e por que avaliação de C1-INH não deve depender só do C4.
Agora atenda
Uma mulher de 28 anos chega ao pronto-atendimento com placas que coçam e mudam de lugar pelo corpo desde a tarde, depois de tomar anti-inflamatório para uma dor de garganta, e com as pálpebras discretamente inchadas; a enfermagem já separou a injeção de sempre. Atenda: procure os sinais fora da pele antes de qualquer prescrição, confirme que as placas se comportam como urticária, trate por via oral com o anti-histamínico que o SUS entrega, explique por que não aplica a injeção, registre o anti-inflamatório como suspeita e não como alergia, não peça exame, oriente o analgésico alternativo e os sinais de retorno imediato e saia com a consulta na unidade básica marcada.
