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Clínica MédicaImunologia

A via aérea começa no nariz

Rinite alérgica e asma alérgica

O adulto e o adolescente com rinite alérgica na unidade básica: o diagnóstico que se faz na conversa, o corticoide nasal que só funciona com técnica, o descongestionante que vira doença, o teste que se pede quando muda a conduta, a asma que se pergunta em toda rinite e o que a alergia acrescenta à asma, até o imunobiológico.

Fontes deste capítulo

Solé D, Kuschnir FC, Pastorino AC, Constantino CF et al. V Consenso Brasileiro sobre Rinites – 2024. Documento conjunto da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) e da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Versão de revista: Braz J Otorhinolaryngol. 2025;91(1):101500. doi:10.1016/j.bjorl.2024.101500

Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 43, de 24 de março de 2026. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Asma

Sousa-Pinto B et al. Allergic Rhinitis and Its Impact on Asthma (ARIA)-EAACI Guidelines—2024–2025 Revision: Part I—Guidelines on Intranasal Treatments. Allergy. 2026;81(4):954-976. doi:10.1111/all.70131

Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.215, de 27 de setembro de 2018. Estabelece as normas mínimas para a utilização de extratos alergênicos para fins diagnósticos e terapêuticos nas doenças alérgicas. Diário Oficial da União, 3 dez. 2018, seção I, p. 231

Brasil. Ministério da Saúde. Relação Nacional de Medicamentos Essenciais: Rename 2024. Brasília: Ministério da Saúde; 2024. ISBN 978-65-5993-710-3

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Responda antes de ler

Pessoa com rinite persistente relata tosse noturna e chiado ao esforço, embora a ausculta e a saturação estejam normais na consulta. Qual é o próximo passo adequado?

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O paciente que você vai ver

Segunda-feira, 15 de junho, 7h40, unidade básica de saúde num bairro de ladeira. A primeira paciente da demanda espontânea já está sentada quando você chama o nome. Teodolina Hermes, 31 anos, operadora de telemarketing, entra fungando, com um frasco pequeno de descongestionante na mão e a fala de quem dormiu mal. O pedido vem pronto, antes de você perguntar qualquer coisa: um atestado para hoje, porque passou a noite sem respirar, e a injeção da alergia que a vizinha tomou na farmácia e que, segundo a vizinha, deixa o nariz limpo por meses.

A história que vem atrás do pedido tem quinze anos. O nariz escorre e coça desde a adolescência, os espirros chegam em salvas de dez, doze seguidos logo ao acordar, e os olhos coçam no mesmo compasso. Nunca foi tratado como doença: foi tratado como jeito dela. Há um ano a família mudou para uma casa alugada mais barata, com uma mancha escura de mofo atrás do guarda-roupa do quarto, e desde o inverno passado o nariz trancou de vez. Foi aí que entrou o frasco que ela segura agora.

Ela conta o frasco com precisão de quem depende dele. Começou com uma gota em cada narina para dormir, há oito meses. Hoje pinga quatro, cinco vezes por dia, e o alívio dura cada vez menos: o nariz abre em minutos e fecha de novo antes do almoço. No trabalho, com o fone preso à cabeça, respira pela boca, e a voz sai anasalada para quem está do outro lado da linha. Já levou advertência por pausas fora de hora para pingar o remédio no banheiro.

Você pergunta pelo sono, e ela ri sem graça: ronca, acorda com a boca seca e com tosse. Pergunta se a tosse é só de noite, e aqui a consulta muda de rumo. A tosse acorda Teodolina duas vezes por semana, seca, e há um chiado no peito quando ela sobe a ladeira até o ponto de ônibus correndo para não perder o horário. Ninguém nunca disse a ela que isso pudesse ser asma. Ela mesma atribui tudo ao nariz entupido e ao mofo.

No exame, os sinais estão no rosto antes de estarem no nariz: olheiras arroxeadas, uma prega horizontal fina no dorso nasal, a boca entreaberta enquanto ela ouve. Com o otoscópio e o espéculo de maior calibre na narina, as conchas inferiores aparecem pálidas, inchadas, quase encostadas no septo, com secreção clara. Não há pus, não há crosta com sangue, não há lesão num lado só. A saturação é de 98%, a frequência respiratória é de 16, e a ausculta, nesta manhã, não tem sibilo.

Três pedidos escondidos se sobrepõem nessa consulta, e nenhum deles é o que ela trouxe. O primeiro é dar nome à rinite alérgica persistente que ela carrega desde a adolescência. O segundo é tirar o descongestionante que virou uma doença por conta própria, sem deixá-la uma semana sem respirar. O terceiro é a pergunta que a tosse noturna e o chiado da ladeira obrigam a fazer em toda rinite persistente: se há asma na mesma via aérea, e quem cuida dela a partir de hoje.

Este capítulo acompanha Teodolina pelos meses seguintes, até o dia em que a alergista decide se ela é candidata a imunoterapia. Ele trata o adulto e o adolescente com rinite alérgica, que no nível não tinha dono, e da asma assume só o que a alergia acrescenta: a sensibilização, a exposição e o anti-IgE. O diagnóstico, o controle, o escalonamento e a crise da asma pertencem a Asma: diagnóstico, controle e tratamento escalonado, o capítulo 2 da apostila de Pneumologia, e é para lá que a conduta da asma vai quando aparece.

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Quem adoece disso

A rinite alérgica é uma das doenças crônicas mais comuns que o interno vai atender, e uma das que menos aparecem como motivo de consulta. O V Consenso Brasileiro sobre Rinites, de 2024, estima que ela afete cerca de 400 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, o número depende de como se define o caso, e é por isso que os estudos parecem discordar. Um inquérito telefônico latino-americano de 2010, em oito países e com pessoas acima de 4 anos, encontrou prevalência média de 7%, maior entre adultos. Numa amostra representativa de adultos da cidade de São Paulo, que exigiu história clínica e comprovação alérgica, a prevalência foi de 25,2%.

A distância entre 7% e 25% não é erro de um dos estudos: o próprio consenso a atribui, em boa parte, a definições diferentes de caso, como história clínica, diagnóstico médico ou consumo de remédio. Quem nunca ouviu a palavra rinite de um médico não se reconhece num inquérito que pergunta por diagnóstico, e esse é justamente o paciente que você atende. No único centro brasileiro da Global Asthma Network, em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, 31,7% dos pais de adolescentes relataram rinite alérgica, um pouco mais que os próprios filhos, com 28,0%. A doença do adulto não desaparece com a infância; em boa parte das famílias, ela só deixa de ser nomeada.

Entre crianças e adolescentes os dados brasileiros são mais antigos e mais robustos, porque vêm do ISAAC. As primeiras medidas no país deram 12,8% aos 6 e 7 anos e 18,0% aos 13 e 14 anos, e as reavaliações nas mesmas cidades mostraram tendência geral de alta, com prevalência média de rinoconjuntivite de 16,2% entre adolescentes. Em Brasília, com seis anos de intervalo, a rinite alérgica passou de 12,2% para 20%. Este capítulo é do adulto e do adolescente; a criança pequena com rinite não é tratada aqui, porque a dose, a técnica do spray e o diagnóstico diferencial mudam.

O número que mais importa para a conduta é o da sobreposição com a asma. Segundo o consenso de 2024, entre 20% e 40% das pessoas com rinite alérgica têm asma, e mais de 80% das pessoas com asma têm sintomas de rinite. A rinite, alérgica ou não, é fator de risco para aparecimento e persistência de asma, e a rinite grave mal controlada piora o controle da asma que já existe. O protocolo federal de asma de 2026 registra a mesma associação pelo outro lado: rinite alérgica atual ou pregressa aumenta a probabilidade de que sintomas respiratórios sejam asma, e rinite é das comorbidades mais frequentes na asma grave.

Nem toda rinite de quem é alérgico é só alérgica. Entre 30% e 50% dos pacientes alérgicos também têm sintomas diante de gatilhos inespecíficos, como mudança de temperatura, fumaça de cigarro, perfume e produto de limpeza, e esse quadro recebe o nome de rinite mista. Duas populações merecem número à parte, porque o diagnóstico nelas costuma ser outro: sintomas nasais atingem até 32% dos idosos, com muitas causas não alérgicas e medicamentosas, e a rinite gestacional, obstrução nasal sem causa alérgica do segundo ou terceiro trimestre, afeta cerca de 20% das gestantes.

A doença pesa onde a consulta não costuma olhar. A revisão de 2024–2025 das diretrizes ARIA abre lembrando que a rinite alérgica compromete qualidade de vida e produtividade na escola e no trabalho, e o consenso brasileiro liga a respiração oral de quem tem rinite alérgica a distúrbios de concentração e de aprendizado e a alterações do sono. No caso de Teodolina, o custo já tem forma concreta: advertência no emprego, noites mal dormidas e um frasco comprado sem receita quase toda semana. Nenhum desses dados aparece se a anamnese se limitar a perguntar se o nariz escorre.

O último número é de adesão, e explica boa parte das falhas que chegam como rinite refratária. Entre 28% e 77% dos pacientes com rinite alérgica relatam usar o corticoide intranasal como prescrito durante todo ou quase todo o tempo; cerca de 20% usam só por um período curto ou só quando têm sintoma, e as queixas que levam ao abandono são gosto residual, irritação, sangramento nasal e custo. Na imunoterapia, a adesão varia de 23% a 89% na via subcutânea e de 64% a mais de 95% na sublingual, e numa coorte alemã de três anos mais de um terço abandonou, a maioria no primeiro ano.

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Por que acontece o que acontece

A rinite alérgica é uma reação de hipersensibilidade do tipo I da mucosa nasal, mediada por IgE, que aparece quando uma pessoa sensibilizada volta a inalar o alérgeno. A sensibilização vem antes, sem sintoma nenhum. Em quem tem a predisposição, o contato repetido com proteínas de ácaro, fungo, barata, pelo de animal ou pólen desvia a resposta imune para o padrão T2, e as interleucinas 4 e 13 levam os linfócitos B a produzir IgE contra aquele alérgeno. Essa IgE se fixa nos mastócitos da mucosa. Os alérgenos de ácaro fazem mais do que ser reconhecidos: são proteases que afrouxam as junções entre as células do epitélio e facilitam a própria entrada.

Estar sensibilizado não é estar doente. O teste cutâneo ou a IgE específica positivos dizem que existe IgE contra aquele alérgeno; não dizem que ele causa os sintomas daquele paciente. É por isso que o consenso de 2024 exige, para o diagnóstico, a combinação de história compatível com a sensibilização demonstrada, e é por isso que o resultado de um painel de alérgenos lido sozinho engana nos dois sentidos. Há quem tenha teste positivo e nariz sem queixa, e há quem tenha sintomas típicos com teste cutâneo e IgE sérica negativos, produzindo IgE só na mucosa nasal: a chamada rinite alérgica local.

Na reexposição, o alérgeno liga duas moléculas de IgE vizinhas na superfície do mastócito, e o mastócito degranula. Histamina e outros mediadores estimulam as terminações sensitivas, disparam o reflexo parassimpático das glândulas, dilatam vasos e aumentam a permeabilidade. Em minutos aparecem prurido nasal, espirros em salva, coriza aquosa e, com frequência, prurido e lacrimejamento nos olhos. Os sintomas chegam na primeira hora depois da exposição. Os anti-histamínicos H1 atuam aqui: funcionam como agonistas inversos do receptor, aliviam bem coceira, espirro, coriza e sintoma ocular, e fazem pouco pela obstrução.

Horas depois começa a fase tardia, e é ela que tranca o nariz. Eosinófilos, basófilos e linfócitos infiltram a mucosa, o edema se instala, e as manifestações passam a ser congestão, perda de olfato, secreção que escorre para a garganta e hiper-reatividade nasal. Com o ácaro, que se inala em pequenas quantidades todos os dias, as duas fases se sobrepõem de forma contínua e o paciente não percebe relação entre exposição e sintoma, ao contrário de quem espirra ao entrar numa casa com gato. A pessoa não diz que é alérgica a nada; diz que o nariz dela é assim. O ácaro não aparece na história, e o consenso manda pesquisá-lo mesmo quando a anamnese não aponta para ele.

A mucosa inflamada fica hiper-reativa também a estímulos que não têm nada de alérgeno. Ar frio, fumaça de cigarro, perfume e produto de limpeza estimulam diretamente as fibras do sistema nervoso autônomo da cavidade nasal e provocam espirro e coriza sem IgE nenhuma. Isso explica duas coisas que confundem na prática. A primeira é a rinite mista, de quem tem os dois mecanismos ao mesmo tempo e melhora só em parte com medida dirigida ao alérgeno. A segunda é por que fumaça de tabaco em casa derruba o controle de qualquer rinite, alérgica ou não, e por que ela entra em toda conduta.

O corticoide intranasal é o tratamento que alcança as duas fases, e por isso é o mais eficaz sobre todos os sintomas, obstrução incluída. O início de ação varia de 3 a 36 horas conforme o composto; o alívio pode vir em dias, mas o consenso discute 60–90 dias de tratamento regular; a dose e a duração clínica são individualizadas, com redução após controle e revisão diante de efeitos adversos. A absorção sistêmica é baixa, e os efeitos adversos que importam são locais: irritação, ardência, ressecamento e sangramento, que dependem da dose e da técnica. O jato precisa chegar à parede lateral da cavidade, onde ficam as conchas inflamadas, e não ao septo, onde irrita a mucosa e provoca epistaxe. Quem aponta o spray para o meio do nariz sangra, desiste e passa a dizer que o remédio não funciona.

O descongestionante tópico age por outra via: é agonista alfa-adrenérgico, contrai os vasos da mucosa, abre o nariz em até 10 minutos e tem pouco ou nenhum efeito sobre prurido, espirro ou coriza. Com o uso repetido, a vasoconstrição crônica deixa a mucosa isquêmica e edemaciada, a permeabilidade do endotélio muda e os receptores alfa perdem a resposta. Cada gota passa a durar menos e o edema de rebote volta mais forte: é a rinite medicamentosa, em que o remédio que alivia é o que mantém a obstrução. O consenso descreve rebote a partir de 3 a 10 dias de uso, às vezes só depois de 30, e a imidazolina dobrada não aumenta o rebote, o que mostra que a conta não é só de dose.

O nariz e o brônquio são forrados pelo mesmo epitélio ciliado, sobre a mesma membrana basal, e a inflamação de um lado conversa com o outro por dois caminhos aceitos: o nariz obstruído obriga a respirar pela boca e manda para a via aérea inferior um ar mal aquecido, mal umidificado e mal filtrado, e os mediadores produzidos numa ponta chegam à outra pela circulação. O reflexo nasobrônquico e a aspiração de secreção nasal não têm evidência satisfatória. O que está demonstrado é o efeito clínico: tratar a rinite alérgica reduz sintomas, exacerbações e internações por asma. Na outra ponta, dois tratamentos mudam o curso imune: a imunoterapia com alérgenos, único capaz de induzir tolerância que dura anos depois de suspensa, e o anti-IgE, que retira da circulação a IgE livre e cuja dose depende da IgE total e do peso.

Corte coronal esquemático da cavidade nasal, com aplicador na narina esquerda, à direita do observador, e névoa direcionada para a parede lateral, afastada do septo.
O detalhe anatômico mostra o jato voltado para a parede lateral, afastado do septo. Na aplicação, manter a cabeça levemente inclinada para a frente, introduzir apenas a ponta e usar a mão oposta à narina para facilitar a direção lateral. Inspirar suavemente, sem aspirar com força. A posição do bico no corte é esquemática, sem indicar uma profundidade de inserção.
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Como se apresenta de verdade

Quase ninguém chega à unidade básica dizendo que tem rinite alérgica. Chega pedindo atestado depois de uma noite sem dormir, xarope para uma tosse que não passa, receita do colírio que a cunhada usa, ou acompanhando o filho e comentando de passagem que o próprio nariz é assim desde sempre. O diagnóstico da rinite alérgica é clínico e se faz na conversa; o exame confirma o que a história sugere, e o teste de sensibilização, quando vem, responde a outra pergunta, que é qual alérgeno e se vale a pena tratar a causa.

Antes das seções, a fronteira. Este capítulo é dono da rinite alérgica do adulto e do adolescente: diagnóstico, diferencial com a rinite não alérgica, rinite medicamentosa, tratamento, teste de sensibilização e imunoterapia. Da asma, assume o que a alergia acrescenta. Cede o diagnóstico, o controle, o escalonamento e a crise da asma a Asma: diagnóstico, controle e tratamento escalonado; a rinossinusite e o antibiótico a Otites e rinossinusite: quando o antibiótico muda o desfecho; a epistaxe a Epistaxe, corpo estranho em nariz e ouvido e trauma nasal; a conjuntivite alérgica a Olho vermelho: conjuntivites, uveíte, glaucoma agudo e ceratite; a dermatite atópica a Psoríase e dermatite atópica: doença crônica, corticoide tópico e tratamento de manutenção; e a anafilaxia a Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro.

Percurso de aprendizagem

Reconheça o padrão alérgico, causas medicamentosas e sinais de doença unilateral ou estrutural. Pergunte por sintomas de asma mesmo quando a ausculta está normal.

Aprenda a demonstrar spray e lavagem, retirar descongestionante crônico e medir benefício no sono e na função. Ajuste dose pelo controle; sensibilização só importa quando combina com a história e com a decisão terapêutica.

Use os casos para explicar decisões e consequências. As doses e os horários da narrativa são exemplos contextualizados; confirme sua adequação ao paciente e ao protocolo assistencial. Consulte as divergências e regras de acesso quando elas mudarem uma decisão concreta.

A queixa que chega disfarçada

Quatro sintomas definem a rinite: prurido nasal, espirros, coriza anterior ou posterior e obstrução nasal. Na alérgica eles são periódicos e aparecem fora de resfriado, e quando os olhos coçam, avermelham e lacrimejam junto, o nome passa a ser rinoconjuntivite. Outros sintomas completam o quadro e raramente são contados espontaneamente: coceira no palato e no conduto auditivo, secreção que escorre para a garganta e tosse. A maioria das pessoas com rinite alérgica começa a ter sintomas na infância, e é comum haver alergia na família.

A anamnese que diagnostica é a que pergunta pelo ritmo e pelo gatilho. Quanto tempo depois da exposição o sintoma começa, onde piora e onde melhora, o que alivia e o que agrava, se há relação com poeira de casa, faxina, mofo, animal, pólen ou cheiro forte. A resposta rápida e reprodutível a um gato ou a uma estação do ano quase dá o diagnóstico sozinha. A resposta vaga é a regra com o ácaro, que se inala todos os dias, e é por isso que o nariz sempre assim precisa ser levado a sério em vez de ser confirmado.

Pergunte sempre pelo que a rinite custa. Sono com ronco, boca aberta e despertares, respiração oral durante o dia, dificuldade de concentração, faltas e advertências no trabalho ou na escola, o gasto semanal na farmácia. Essas perguntas medem a intensidade melhor do que o paciente consegue descrever os sintomas, e são elas que vão sustentar a escala de controle usada nos retornos. Pergunte também, pelo nome, pelo que ele compra sem receita: gotas e sprays descongestionantes, anti-histamínicos, injeções aplicadas em farmácia.

A última pergunta da anamnese é a da via aérea de baixo, e ela não é opcional em rinite persistente: tosse noturna, chiado, falta de ar, aperto no peito, sintoma com exercício ou riso. A seção sobre asma, mais abaixo, explica por quê e o que fazer com a resposta. Teodolina não falaria da tosse se ninguém perguntasse; para ela, tudo era o nariz.

O que se vê no rosto e dentro do nariz

O consenso de 2024 pede exame físico completo, com pele, ouvidos, nariz, boca, orofaringe e tórax, e descreve os achados típicos que aparecem no rosto antes de qualquer instrumento. A dupla prega abaixo da pálpebra inferior, chamada linha de Dennie-Morgan; o escurecimento infraorbitário por congestão venosa, as olheiras alérgicas; a prega horizontal no dorso do nariz, deixada pelo gesto repetido de esfregar a ponta do nariz para cima, conhecido como saudação alérgica; hiperemia conjuntival; e a boca entreaberta de quem respira por ela.

A rinoscopia anterior se faz com uma fonte de luz dirigida e um espéculo, e na unidade básica o otoscópio com espéculo largo costuma servir. Na rinite alérgica crônica, a cabeça das conchas inferiores aparece aumentada e pálida, com edema e secreção clara. Na infecção aguda a mucosa fica hiperemiada e a secreção pode ser espessa e escura. O mesmo exame mostra o que muda o diagnóstico: pólipo grande, corpo estranho, desvio anterior do septo, colapso da válvula nasal e crosta com sangue.

A endoscopia nasal é do especialista e tem valor sobretudo quando os sintomas resistem ao tratamento: mostra pólipos, o volume das adenoides e lesões que a luz anterior não alcança. A medida funcional da passagem do ar, por rinometria e rinomanometria, complementa a conduta em situações específicas e não faz parte da avaliação inicial. Na unidade básica, o que se exige do interno é o exame anterior bem feito e registrado, com o lado de cada achado, porque o lado é justamente o que separa rinite de outra doença.

Examine também o que não é nariz. Pele com eczema flexural aponta para atopia e tem condução própria no capítulo de dermatite atópica; a ausculta pulmonar normal numa manhã boa não afasta asma, que é doença variável; e a orofaringe com secreção posterior clara combina com rinite, enquanto a purulenta, com dor facial, puxa o diagnóstico para rinossinusite.

Alérgica, não alérgica ou as duas

O consenso classifica as rinites em três grupos: infecciosas, alérgicas e não alérgicas. As infecciosas são quase sempre virais, por rinovírus, adenovírus, influenza e parainfluenza, e trazem tosse, febre e mal-estar junto do nariz; a bacteriana é a rinossinusite, que tem capítulo próprio na Otorrinolaringologia. A alérgica é a reação mediada por IgE descrita no mecanismo. As não alérgicas e não infecciosas formam um grupo heterogêneo: rinite por irritantes, como fumaça e poluentes, rinite hormonal, rinite induzida por medicamentos, rinite eosinofílica não alérgica, rinite do idoso e rinite idiopática.

O perfil ajuda a separar antes de qualquer teste. O paciente com rinite não alérgica costuma ser mais velho, com frequência uma mulher de meia-idade, com queixa dominante de obstrução e secreção posterior, muitas vezes com cefaleia recorrente e alteração de olfato. Rinite que começa na idade adulta, sem história na infância, obriga a procurar outros fenótipos antes de chamá-la de alérgica.

Os grupos se misturam mais do que as tabelas sugerem. Entre 30% e 50% dos alérgicos também reagem a gatilhos inespecíficos, e esse é o paciente com rinite mista, que melhora com o corticoide nasal mas continua espirrando no ar-condicionado e no cheiro de desinfetante. Há ainda a rinite alérgica local, com sintomas típicos e testes cutâneo e sérico negativos, cuja confirmação exige teste de provocação nasal, e a rinite dual, com sensibilização sistêmica a um alérgeno e só local a outro. As duas últimas são diagnóstico de especialista; o que cabe ao interno é não descartar alergia só porque um teste veio negativo.

Na prática da unidade, a separação muda três decisões. A primeira é quem vai se beneficiar de medida dirigida ao alérgeno, que só faz sentido com sensibilização relevante. A segunda é o fármaco que resolve o sintoma predominante, porque rinorreia isolada do idoso e prurido com espirros do jovem não respondem igual. A terceira é quem tem de ser procurado por outra causa, porque a rinite não alérgica do adulto inclui o efeito adverso de remédios de uso contínuo.

O frasco na mão: rinite medicamentosa e rinite por fármacos

A rinite medicamentosa é a rinite induzida pelo uso prolongado de descongestionante tópico. Não há critério diagnóstico de consenso, mas a descrição clássica é uma tríade: uso prolongado do descongestionante, obstrução nasal persistente e edema de rebote da mucosa. A congestão costuma vir sem coriza e sem espirros, o paciente percebe que o efeito dura cada vez menos, e o exame mostra mucosa edemaciada, eritematosa e hiperemiada. O frasco é vendido sem receita e, segundo o consenso, muitas vezes sem advertência adequada sobre o uso prolongado.

Quase sempre há uma rinite anterior que levou ao primeiro frasco, alérgica, não alérgica ou anatômica, e ela precisa ser tratada, senão o impulso de pingar volta. Foi o caso de Teodolina: quinze anos de rinite alérgica sem tratamento, uma casa com mofo e, depois, oito meses de descongestionante. O consenso lembra também do uso tópico de drogas ilícitas entre as causas de lesão e vasoconstrição da mucosa, uma pergunta que se faz com a mesma naturalidade das outras.

A rinite induzida por fármacos sistêmicos é outro quadro, e aparece sobretudo em quem usa remédio de uso contínuo. Anti-inflamatórios não esteroides, em pessoas predispostas, desviam o metabolismo do ácido araquidônico para os leucotrienos e se associam a polipose nasal e asma, na doença respiratória exacerbada por aspirina. Por mecanismo neurogênico entram os bloqueadores alfa e beta-adrenérgicos, os inibidores da fosfodiesterase usados para disfunção erétil, sintomas urinários e hipertensão pulmonar, e os inibidores da enzima conversora de angiotensina, que aumentam a bradicinina da mucosa nasal.

No idoso, a lista do consenso cresce para anti-inflamatórios, alfabloqueadores, betabloqueadores, inibidores da enzima conversora, bloqueadores de canal de cálcio, diuréticos, oximetazolina, inibidores da fosfodiesterase e psicotrópicos, vários dos quais também ressecam a mucosa. A consequência para a consulta é concreta: rinite nova em quem começou um remédio de uso contínuo é efeito adverso até prova em contrário, e a primeira conduta é rever a receita antes de acrescentar outra. O caso resolvido deste capítulo começa exatamente assim.

A mesma via aérea: a asma que ninguém perguntou

Em toda rinite persistente, pergunte por asma, e em toda asma, pergunte pelo nariz. Os números do consenso justificam a regra: 20% a 40% dos alérgicos nasais têm asma e mais de 80% dos asmáticos têm sintomas de rinite. O protocolo federal de 2026 trata a presença atual ou pregressa de rinite alérgica como fator que aumenta a probabilidade de os sintomas respiratórios serem asma, junto com o início na infância, o eczema e a história familiar.

As perguntas são as do protocolo. Sintomas sugestivos são sibilância, dispneia, tosse e aperto no peito que variam no tempo e na intensidade, pioram à noite ou de madrugada e são desencadeados por infecção viral, exercício, alérgeno, mudança de clima, riso ou irritantes como fumaça e cheiro forte. Pesam contra asma a produção crônica de escarro, falta de ar com tontura ou formigamento, dor torácica e a falta de ar do exercício com ruído na inspiração. A tosse de Teodolina, que acorda duas vezes por semana, e o chiado na ladeira cabem inteiros na primeira lista.

Resposta positiva não se trata aqui. O diagnóstico de asma exige confirmação da variação do fluxo aéreo, o controle se mede com instrumento próprio e o tratamento sobe e desce em etapas: tudo isso pertence a Asma: diagnóstico, controle e tratamento escalonado, capítulo 2 da apostila de Pneumologia, e a consulta de hoje só precisa sair com a pergunta feita, a espirometria pedida e o sinal de gravidade afastado. O que este capítulo acrescenta é a ponte, e ela vale nos dois sentidos, porque tratar a rinite alérgica reduz sintomas, exacerbações e internações por asma.

A outra ponta da ponte aparece no asmático mal controlado. Antes de subir a etapa da asma, o protocolo manda conferir técnica inalatória, adesão, exposição e comorbidades, e a rinite é das mais comuns. Nariz trancado de noite, secreção descendo para a garganta e respiração oral são motivo legítimo para uma asma não controlar, e o corticoide nasal que ninguém prescreveu é, muitas vezes, a etapa que faltava.

Quando o nariz aponta para outra doença

O consenso lista os achados que tiram o paciente do diagnóstico de rinite e o dirigem para outra doença: sintoma unilateral, obstrução como sintoma isolado, secreção posterior mucopurulenta, dor, epistaxe e perda de olfato isolada. Nenhum deles combina com uma inflamação alérgica, que é bilateral por natureza. Um lado só entupido, sangrando ou com secreção fétida pede exame anterior cuidadoso e, conforme o achado, o capítulo de rinossinusite, o de epistaxe e corpo estranho ou o encaminhamento ao otorrinolaringologista.

No idoso, rinite de início tardio pede diagnóstico diferencial mais largo. Além das rinites não alérgica, hormonal, medicamentosa e atrófica, o consenso inclui doenças granulomatosas, amiloidose, extravasamento de líquido cefalorraquidiano pelo nariz e tumores de nasofaringe. A secreção aquosa contínua de um lado só e a obstrução unilateral progressiva com sangue são os dois quadros que não podem sair da consulta com um spray.

Na gestante, obstrução nasal que surge no segundo ou terceiro trimestre, sem história de rinite antes da gravidez e sem sinal alérgico ou infeccioso, é a rinite gestacional. Ela dura em torno de seis semanas e desaparece cerca de duas semanas depois do parto, e o tratamento começa por medidas não farmacológicas, como a lavagem nasal. A gestante com rinite alérgica anterior à gravidez é outra situação, com escolhas de fármaco próprias, e é o tema do caso para completar.

Três vizinhos recebem o paciente com frequência a partir daqui. A conjuntivite alérgica, com olho que coça e compressa fria, tem conduta em Olho vermelho: conjuntivites, uveíte, glaucoma agudo e ceratite. O eczema do atópico, em Psoríase e dermatite atópica. E o paciente que chega com urticária generalizada, rouquidão, falta de ar ou hipotensão depois de uma exposição não tem rinite: tem anafilaxia, que se trata com adrenalina intramuscular conforme Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorro. Urticária e angioedema sem anafilaxia e reação a medicamento não são tratados neste capítulo: estão em Urticária e angioedema e em Reações de hipersensibilidade a drogas, nesta apostila.

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Como fechar o diagnóstico

A investigação da rinite alérgica responde a seis perguntas, nesta ordem: se algum exame é necessário para começar; qual a intensidade e o controle, que decidem o tratamento e o retorno; o que o teste de sensibilização responde; quando pedi-lo; o que a rinite muda na investigação da asma; e o que precisa estar documentado quando a asma alérgica é grave o bastante para o anti-IgE.

Uma premissa atravessa as seis. Nenhum exame substitui a história, e nenhum resultado positivo transforma uma sensibilização em doença. O exame certo na rinite é o que muda uma decisão que o interno ou o especialista vai tomar, e cada seção diz qual decisão é essa.

1. Para começar, nenhum exame

O diagnóstico de rinite alérgica que sustenta o tratamento inicial é clínico: quatro sintomas com ritmo compatível, gatilho sugestivo, exame anterior do nariz sem sinal de outra doença. Hemograma, IgE total e imagem não fazem parte da primeira consulta. A IgE sérica total sobe na atopia, só que não distingue uma doença atópica de outra, e seu valor não guarda relação com a gravidade, com a única exceção da aspergilose broncopulmonar alérgica; por isso o consenso de 2024 a dispensa tanto no diagnóstico quanto no seguimento da rinite.

Os exames de imagem não são úteis na rinite alérgica. O consenso reserva tomografia para rinossinusite e polipose, ressonância para suspeita de tumor e radiografia de cavum para hiperplasia de adenoide, que são perguntas de outros capítulos ou do especialista. A radiografia de seios da face pedida para quem espirra e coça o nariz não responde a nenhuma pergunta da rinite alérgica.

O que se registra no prontuário, em vez de exame, é o que vai permitir comparar no retorno: os sintomas predominantes, o tempo de doença, o gatilho suspeito, os remédios em uso com e sem receita e há quanto tempo, o sono e o trabalho, o exame anterior com o lado dos achados, a resposta às perguntas de asma e a nota de controle da semana, numa escala de 0 a 10.

Teodolina saiu da primeira consulta sem nenhum pedido de exame para a rinite. Saiu com o diagnóstico escrito, a nota 8 de 10 registrada, a lista de remédios comprados sem receita anotada pelo nome e uma espirometria pedida por causa da tosse noturna e do chiado, que é pedido da asma e não da rinite.

2. Duração, intensidade e controle

O consenso de 2024 classifica a rinite alérgica por duração, em intermitente, com sintomas em menos de quatro dias por semana e menos de quatro semanas por ano, e persistente, com sintomas por mais de quatro dias seguidos e mais de quatro semanas, independentemente do alérgeno. A antiga divisão em sazonal e perene, pelo tipo de alérgeno, perdeu lugar. A revisão ARIA de 2024–2025 foi além e deixou de dar recomendações separadas para rinite sazonal e perene, porque a gravidade pesa mais que a duração na resposta ao tratamento.

A intensidade e o controle se medem com a escala visual analógica: o paciente marca numa linha de 0 a 10 centímetros, ou dá uma nota de 0 a 10, quanto a rinite incomodou, em geral na última semana. Ela se correlaciona com os questionários de qualidade de vida e com a classificação de gravidade, e a menor diferença clinicamente importante é de 23 milímetros, pouco mais de 2 pontos. É rápida o bastante para caber em toda consulta e simples o bastante para o paciente usar em casa.

Os cortes que este capítulo usa são os da seção de avaliação do controle do consenso: até 20 milímetros, sintoma leve ou controlado; de 21 a 49, moderado ou parcialmente controlado; de 50 a 100, intenso ou não controlado. O mesmo documento traz outra régua na seção de classificação, que deixa notas entre 2 e 3 sem classe e põe a nota 5 em outra categoria; a conta e a escolha estão em critérios e divergências.

Há instrumentos mais longos, úteis em ambulatório e pesquisa. O teste de avaliação de controle da rinite tem seis perguntas sobre a última semana, pontuação de 6 a 30, e 21 ou menos indica rinite não controlada; foi validado em adultos e, em português, em adolescentes. O teste de controle de asma e rinite alérgica avalia as duas doenças juntas nas últimas quatro semanas, de 0 a 30, e notas acima de 24 indicam bom controle. Na unidade básica, a escala de 0 a 10 registrada em toda consulta já muda a conduta.

3. O teste de sensibilização: o que responde e o que não responde

Há dois caminhos para demonstrar sensibilização: o teste cutâneo de leitura imediata, também chamado teste de puntura ou prick test, e a IgE específica no soro. O teste cutâneo é o principal método recomendado, com alta sensibilidade e especificidade. Pequenas quantidades de extrato são depositadas na face anterior do antebraço e a pele é puncionada; os dois controles são obrigatórios, histamina a 0,1% como positivo e salina como negativo; lê-se aos 15 minutos, e a reação a um extrato conta como positiva se a pápula, pela média dos seus diâmetros, passar do controle negativo por mais de 3 milímetros.

Os extratos não são escolhidos às cegas. A história orienta o que testar, como pelo de cão ou de gato; sem suspeita dirigida, testam-se os ácaros mais importantes no Brasil, Dermatophagoides pteronyssinus, Dermatophagoides farinae e Blomia tropicalis, acrescentando barata, fungos e pólens conforme a região. Anti-histamínico interfere: o de primeira geração deve ser suspenso de 36 a 48 horas antes e o de segunda geração uma semana antes, sempre conferindo a reação da histamina. É procedimento médico: a Resolução CFM nº 2.215/2018 faz da indicação, supervisão e interpretação do teste cutâneo com alérgenos ato privativo de médico, em consultório preparado para intercorrência, com adrenalina.

A IgE específica no soro tem boa correlação com o teste cutâneo, que é considerado mais sensível e por isso de primeira linha. Suas vantagens são não sofrer interferência de remédio nem de dermografismo e não ter risco de anafilaxia; as desvantagens são custo maior e coleta de sangue. Os métodos quantitativos mais usados não têm boa correlação entre si, e o laudo precisa ser lido com o método ao lado. Painéis múltiplos semiquantitativos testam de uma vez vários alérgenos pré-selecionados, e cada positivo precisa ser confrontado com a história.

O que nenhum dos dois responde sozinho é se aquele alérgeno causa aqueles sintomas. Para o consenso, teste positivo significa que o paciente é sensibilizado e atópico, e o diagnóstico de doença alérgica exige a combinação de história compatível com a IgE demonstrada. Teste negativo com quadro típico, sem anti-histamínico em uso e com a bateria adequada à região, leva a pensar em rinite não alérgica ou em rinite alérgica local, que é diagnóstico do especialista.

4. Quando pedir o teste, e o que fazer enquanto ele não chega

O consenso de 2024 é explícito: o paciente com rinite deve ter a sensibilização verificada, e a pesquisa de ácaros deve ser feita independentemente da história. As seções de tratamento do mesmo consenso não condicionam ao resultado o corticoide nasal, o anti-histamínico e a lavagem, que agem sobre a inflamação alérgica qualquer que seja o alérgeno. As duas regras não disputam o mesmo momento: uma diz como começar a tratar, a outra diz o que se deve saber sobre a causa.

Esta apostila adota a cronologia: tratar no mesmo dia pelo diagnóstico clínico e pedir o teste quando houver acesso, sem nunca esperar o resultado para começar. O teste deixa de ser desejável e passa a ser indispensável em quatro situações, porque nelas a decisão seguinte não existe sem ele. A primeira é a indicação de imunoterapia, que a Resolução CFM nº 2.215/2018 condiciona à sensibilização identificada e à sua importância no quadro clínico. A segunda é uma medida de afastamento com custo real, como retirar um animal de casa ou mudar de posto de trabalho. A terceira é a rinite que não controla com técnica e adesão conferidas, em que o teste separa alérgica de não alérgica. A quarta é a asma alérgica grave a caminho do anti-IgE.

Essa posição é leitura desta apostila sobre dois trechos do mesmo consenso, e não frase de nenhuma fonte. Ela existe porque, quando o teste depende de encaminhamento e fila, condicionar o tratamento a ele deixaria a doença sem tratamento pelo tempo da espera. O que ela não autoriza é o contrário: dizer ao paciente que ele é alérgico a ácaro, prescrever capa de colchão ou discutir imunoterapia sem o teste.

Teodolina recebeu o pedido de teste na segunda consulta, já com o nariz melhor, porque a pergunta sobre imunoterapia só ia existir se o tratamento de primeira linha falhasse ou se ela quisesse depender menos de remédio. Enquanto o encaminhamento andava, o tratamento andou junto.

5. O que a rinite muda na investigação da asma

A investigação da asma em si, com a confirmação da variação do fluxo aéreo, pertence ao capítulo de asma. A rinite acrescenta três coisas ao pedido. A primeira é a indicação: rinite alérgica aumenta a probabilidade de os sintomas respiratórios serem asma, e a tosse noturna de um rinítico merece espirometria em vez de xarope. A segunda é a interpretação: o protocolo federal lembra que a sensibilização positiva caracteriza a asma alérgica, mas sua ausência não descarta asma.

A terceira é própria deste capítulo: a espirometria entra no plano da imunoterapia. O consenso de 2024 manda avaliar com espirometria e prova broncodilatadora todo paciente com história de asma antes de indicar imunoterapia, e considera contraindicação absoluta a asma mal controlada e o volume expiratório forçado no primeiro segundo abaixo de 70%. Na imunoterapia subcutânea de quem tem asma, pede ainda que se confira a asma e se meça o pico de fluxo antes de cada aplicação, suspendendo-a durante exacerbação.

Para o fenótipo alérgico da asma, o protocolo de 2026 descreve a investigação da sensibilização com os mesmos dois métodos, teste cutâneo com extratos padronizados ou IgE específica sérica, e registra que o teste cutâneo, feito por profissional experiente, é simples, rápido, sensível e barato, enquanto a IgE específica é mais onerosa e pode ser preferida em situações específicas. Sem acesso aos testes, história de eczema, rinite alérgica, início na infância e piora sazonal podem indicar o fenótipo alérgico.

No caso de Teodolina, a espirometria pedida no primeiro dia serviu às duas perguntas: confirmar ou afastar asma, conduta que seguiu pelo capítulo de asma, e, meses depois, dizer à alergista se a imunoterapia era segura.

6. Asma alérgica grave: o que o anti-IgE exige no papel

O omalizumabe, anticorpo anti-IgE, está no Componente Especializado da Rename 2024 e é prescrito pelo especialista, mas quem identifica o candidato e monta o encaminhamento costuma ser o médico da unidade. O consenso de rinites lembra que ele é aprovado para asma persistente moderada a grave e para urticária crônica, não para rinite isolada, embora melhore a rinite de quem tem as duas doenças. A indicação no SUS é a da asma, pelo protocolo de 2026.

Pela seção de critérios de inclusão do protocolo, o candidato tem mais de 6 anos, peso entre 20 e 150 quilos, IgE total entre 30 e 1.500 UI/mL e asma alérgica grave não controlada apesar de corticoide inalatório em dose alta associado a broncodilatador de longa ação. O quadro de imunobiológicos do mesmo protocolo acrescenta pelo menos uma exacerbação grave no ano anterior com curso de corticoide oral. Esta apostila adota o quadro, e a razão está em critérios.

Aqui a IgE total, desnecessária para diagnosticar rinite, passa a ser indispensável, porque a dose e a frequência do omalizumabe saem de uma tabela de IgE basal por peso, de 75 a 600 miligramas por aplicação, a cada duas ou quatro semanas. Estar dentro das faixas de peso e IgE não garante dose: com IgE entre 700 e 800 UI/mL, por exemplo, a tabela não tem dose para quem pesa mais de 90 quilos, e o protocolo é claro em que fora da tabela o medicamento não se administra.

O encaminhamento que o especialista consegue usar leva, portanto, o peso atual, a IgE total, a comprovação da sensibilização, a espirometria, a lista datada de cursos de corticoide oral e idas à emergência nos últimos doze meses, o esquema inalatório com dose e o registro de que técnica e adesão foram conferidas. As três primeiras doses são aplicadas por profissional de saúde ou sob supervisão, com estrutura para tratar anafilaxia, que o quadro do protocolo estima em cerca de 0,2% dos pacientes.

07

Controlar rinite e reconhecer asma associada

Objetivo no internato: compreender a apresentação, justificar as hipóteses e propor cuidado e reavaliação sob supervisão. Reconheça o padrão alérgico, causas medicamentosas e sinais de doença unilateral ou estrutural. Pergunte por sintomas de asma mesmo quando a ausculta está normal. O capítulo decide quatro coisas, e cada decisão tem a sua própria fonte. O diagnóstico e o diferencial saem do V Consenso Brasileiro sobre Rinites, de 2024, que também dá a escala de controle, na versão da seção de avaliação do controle. O que o paciente recebe na unidade sai da Rename 2024, e a dose sai do consenso ou, quando ele falha, da bula. Quem vai para o especialista, e com que papel na mão, sai do consenso para a imunoterapia, da Resolução CFM nº 2.215/2018 para o teste e para a imunoterapia, e do Protocolo de Asma de 2026 para o anti-IgE. As notas registram quatro defeitos das fontes que mudam o que o aluno faz.

  1. 1Há rinite? Prurido, espirros, coriza e obstrução, periódicos, fora de resfriado. Um lado só, sangue, secreção purulenta com dor ou perda isolada de olfato mudam o diagnóstico antes de qualquer remédio.
  2. 2É alérgica? Início na infância, prurido e espirros em salva, gatilho reconhecível, conchas pálidas. Início na idade adulta ou remédio novo de uso contínuo puxam para rinite não alérgica ou induzida por fármaco.
  3. 3Há frasco? Descongestionante tópico em uso contínuo é rinite medicamentosa em curso, e a retirada entra na conduta de hoje, junto com o tratamento da rinite de base.
  4. 4Há asma? Tosse noturna, chiado, dispneia ou aperto no peito variáveis: espirometria com prova broncodilatadora pedida e conduta da asma pelo capítulo de Pneumologia.
  5. 5Qual a nota? Escala de 0 a 10 da última semana, registrada no prontuário para comparar no retorno.
  6. 6Tratar hoje: corticoide nasal da Rename com técnica demonstrada na consulta, lavagem salina e loratadina quando prurido, espirro ou sintoma ocular pesarem. Nenhum corticoide de depósito.
  7. 7Exposição: fumaça de tabaco e mofo em toda rinite; medida contra ácaro só para quem é sensibilizado, sempre em conjunto e nunca no lugar do remédio.
  8. 8Reavaliar em 2 a 4 semanas: técnica com o frasco na mão, frasco que acabou na data esperada, descongestionante zerado, nota.
  9. 9Sintomas persistentes com uso e técnica conferidos: rever diagnóstico, exposição e comorbidades; ajustar tratamento e discutir encaminhamento. Teste de sensibilização é indicado quando esclarece a causa ou planeja imunoterapia, sem ser condição para toda mudança de dose.
  10. 10Controle sustentado: discutir redução à menor dose eficaz conforme exposição, padrão dos sintomas e tolerância, com plano para recaída.
  11. 11Imunoterapia: sensibilização relevante comprovada, asma controlada com volume expiratório forçado no primeiro segundo de 70% ou mais e nenhuma gestação no início. Quem indica e conduz é o alergista.

Alérgica, não alérgica ou medicamentosa: o que separa na consulta

Na consultaRinite alérgicaRinite não alérgicaRinite medicamentosa
InícioEm geral na infância, com alergia na famíliaMais tardio; com frequência mulher de meia-idadeSemanas a meses depois de começar o descongestionante tópico
Sintoma dominantePrurido, espirros em salva, coriza aquosa e obstrução; olhos coçam juntoObstrução e secreção posterior, às vezes cefaleia e alteração de olfatoCongestão, muitas vezes sem coriza e sem espirros
GatilhoExposição a alérgeno, com sintoma na primeira hora; com ácaro, sem relação percebidaIrritantes, fármacos de uso contínuo, hormônio, idade, ou nenhum identificávelFim do efeito da gota, cada vez mais cedo
Mucosa ao exame anteriorConchas inferiores pálidas e edemaciadas, secreção claraAchado variável, sem padrão próprioEdemaciada, eritematosa e hiperemiada
Teste de sensibilizaçãoPositivo e compatível com a história; negativo na rinite alérgica localNegativoNão diagnostica; a rinite de base pode ser alérgica
Primeira condutaCorticoide nasal com técnica, lavagem, anti-histamínico de segunda geraçãoRever remédios e irritantes, tratar o sintoma predominanteRetirar o descongestionante tratando a rinite de base, com corticoide nasal durante a retirada

Controle pela escala visual analógica e o que se faz com a nota

Nota da última semanaClasse (consenso de 2024, seção 10.1)O que o capítulo faz
0 a 2 (até 20 mm)Leve ou controladaManter; com controle sustentado, reduzir à menor dose que mantém a nota
2,1 a 4,9 (21 a 49 mm)Moderada ou parcialmente controladaConferir técnica, adesão, descongestionante e exposição antes de trocar remédio
5 a 10 (50 a 100 mm)Intensa ou não controladaConferir tudo na frente do paciente, rever diagnóstico e sinais de outra doença, ajustar e reavaliar em 2 a 4 semanas; persistindo, teste e encaminhamento
Variação de 23 mm ou mais entre consultasMenor diferença clinicamente importanteMudança real, para melhor ou para pior; variação menor pode ser só oscilação

Tabela de conversão: o que a unidade entrega, num adulto de 60 kg

Fármaco e apresentaçãoDose do adulto e origemEm jatos, comprimidos ou mLQuanto dura e o que conferir
Budesonida 64 mcg/jato, suspensão nasal (Rename, Básico)Até 256 mcg/dia (bula); manutenção na menor dose que controla2 jatos por narina 1 vez ao dia = 4 jatos/dia; manutenção com 1 jato por narina = 128 mcg/diaA duração depende dos acionamentos utilizáveis e da bula. No exemplo em que 5–10 jatos de preparo saem de 120, são cerca de 27–28 dias com quatro jatos/dia; conferir o fabricante e garantir cobertura do mês.
Budesonida 32 mcg/jato, suspensão nasal (Rename, Básico)Até 256 mcg/dia (bula)4 jatos por narina 1 vez ao dia = 8 jatos/diaOito jatos por dia exigem 240 acionamentos utilizáveis em 30 dias. Conferir o volume consumido no preparo: dois frascos de 120 podem ser insuficientes; adequar quantidade ou concentração.
Beclometasona 50 mcg/dose, suspensão nasal (Rename, Básico)400 mcg/dia acima de 12 anos (consenso, Tabela 8)2 jatos por narina a cada 12 horas = 8 jatos/diaDividir o número de doses do rótulo por 8 para saber quando o frasco acaba
Loratadina 10 mg, comprimido (Rename, Básico)10 mg 1 vez ao dia acima de 30 kg (consenso, Tabela 2)1 comprimido ao diaSegunda geração, a classe que o consenso manda priorizar
Loratadina 1 mg/mL, xarope (Rename, Básico)10 mg 1 vez ao dia10 mL ao diaPara quem não engole comprimido
Cloreto de sódio 0,9%, solução nasal (Rename, Básico)Sem dose fixa; uso regularSpray ou baixo volume; alto volume é cerca de 100 mL por narina no adultoIsotônica no uso prolongado; a melhor técnica é a que o paciente faz todo dia
Dexclorfeniramina 2 mg, comprimido (Rename, Básico)Não é a escolha para riniteNão prescrever como primeira opçãoPrimeira geração, sedante e anticolinérgica; evitar no idoso e na gestante
Montelucaste 10 mg, comprimido (não consta da Rename)10 mg ao dia a partir de 15 anos (consenso)1 comprimido ao dia, comprado fora do SUSNão é primeira escolha isolada; perguntar por sono, humor e agitação
Omalizumabe 150 mg (Rename, Especializado)75 a 600 mg a cada 2 ou 4 semanas pela tabela de IgE total e peso (Protocolo de Asma, 2026)Prescrição e processo do especialistaFora da tabela não se administra; três primeiras doses sob supervisão, com estrutura para anafilaxia

Quem encaminhar, para onde e com o que na mão

SituaçãoPara ondeO que levar
Rinite com nota de 5 ou mais depois de técnica, adesão, descongestionante e exposição conferidosAlergia e imunologia; otorrinolaringologia se o exame mostrar alteração anatômicaNotas datadas, esquema com dose e tempo de uso, exame anterior do nariz, teste de sensibilização se já feito
Candidato a imunoterapia: sensibilização relevante e falha ou desejo de depender menos de remédioAlergia e imunologiaTeste cutâneo ou IgE específica, espirometria se houver asma, lista de fármacos com betabloqueador e inibidor da enzima conversora destacados
Sintoma unilateral, sangue, secreção purulenta com dor facial, perda isolada de olfato ou pólipoOtorrinolaringologia, com a conduta do capítulo de rinossinusite ou de epistaxe conforme o quadroLado de cada achado, tempo de evolução, tratamentos já feitos
Tosse noturna, chiado, dispneia ou aperto no peito variáveisAsma: diagnóstico, controle e tratamento escalonadoSintomas e gatilhos registrados, espirometria com prova broncodilatadora pedida
Asma alérgica grave não controlada com corticoide inalatório em dose alta e broncodilatador de longa açãoEspecialista em asma, para avaliação de imunobiológicoPeso, IgE total, sensibilização, espirometria, cursos de corticoide oral e idas à emergência em 12 meses, técnica e adesão conferidas
Urticária generalizada, rouquidão, dispneia ou hipotensão depois de exposiçãoUrgência, pela conduta de Anafilaxia e choque anafilático no pronto-socorroAdrenalina intramuscular antes do transporte

O V Consenso Brasileiro sobre Rinites, de 2024, traz duas réguas de controle pela escala visual analógica. Na seção de classificação, com escala de 0 a 10, a doença é não controlada acima de 5, parcialmente controlada de 3 a 5 e controlada abaixo de 2. Na seção de avaliação do controle, com escala de 0 a 100 mm, é controlada de 0 a 20, parcialmente controlada de 21 a 49 e não controlada de 50 a 100. A conta pelo paciente: nota 5, ou 50 mm, é parcialmente controlada pela primeira régua e não controlada pela segunda, e a decisão entre manter e ajustar o tratamento muda; nota 2,5, ou 25 mm, não pertence a classe nenhuma na primeira e é parcialmente controlada na segunda; nota 2, ou 20 mm, fica sem classe na primeira e é controlada na segunda. A segunda régua cobre a escala inteira sem intervalo vazio, e a primeira deixa as notas de 2 a 3 fora de qualquer classe. Este capítulo usa a da seção de avaliação do controle.

O mesmo consenso dá dois prazos para o descongestionante tópico. Na seção de descongestionantes, o uso vai no máximo a cinco dias; na seção de rinite medicamentosa, o uso deve ser interrompido depois de três dias para evitar a congestão de rebote, que pode aparecer a partir de 3 a 10 dias. A conta: quem segue a primeira regra usa o frasco no quarto e no quinto dia, dentro da janela em que a segunda seção já espera rebote. A revisão ARIA de 2024–2025 sugere contra o uso por mais de cinco dias, o que não torna o quinto dia seguro. Quando o descongestionante tópico for usado, este capítulo adota o limite de três dias.

A tabela de corticoides intranasais disponíveis no Brasil do consenso de 2024 não traz posologia de adulto para a budesonida, um dos dois corticoides nasais do Componente Básico da Rename 2024. A única linha é para crianças acima de 6 anos, 1 a 2 jatos por narina 1 vez ao dia, e ela serve igualmente aos frascos de 32, 50, 64 e 100 mcg por jato listados na mesma célula. A conta: 1 jato de 32 mcg por narina dá 64 mcg/dia; 2 jatos de 100 mcg por narina dão 400 mcg/dia, 6,25 vezes mais pela mesma linha. A bula do genérico de 32 e 64 mcg fixa até 256 mcg/dia para adulto e criança a partir de 6 anos, e com o frasco de 100 mcg a linha do consenso chegaria a 1,56 vez esse teto. As doses de budesonida deste capítulo saem da bula; a apresentação de 50 mcg da Rename segue a própria bula.

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas de Asma de 2026 dá dois conjuntos de critérios para o omalizumabe. A seção de critérios de inclusão pede mais de 6 anos, peso de 20 a 150 kg, IgE total de 30 a 1.500 UI/mL e asma alérgica grave não controlada apesar de corticoide inalatório em dose alta com broncodilatador de longa ação; o quadro de imunobiológicos do SUS, na coluna de critérios de elegibilidade, acrescenta pelo menos uma exacerbação grave no ano anterior com curso de corticoide oral. A conta: adulto de 70 kg, IgE total de 400 UI/mL, sintomas não controlados na dose alta e nenhum corticoide oral em 12 meses é elegível pela seção de inclusão, com dose de 450 mg a cada 4 semanas na tabela do próprio protocolo, e inelegível pelo quadro. A seção de inclusão exige a exacerbação só para o dupilumabe; o quadro a exige para os quatro imunobiológicos. Este capítulo adota o quadro, que é o conjunto coerente, e manda documentar as exacerbações no encaminhamento.

08

A conduta, hora a hora

A conduta da rinite alérgica se mede em semanas, e o defeito típico dela não está na escolha do remédio: está no que acontece entre uma consulta e outra. O corticoide nasal que ninguém ensinou a usar, o frasco que acabou no décimo quarto dia, o descongestionante que continuou escondido na bolsa, a asma que ninguém perguntou. Os marcos abaixo seguem Teodolina da primeira consulta até a decisão sobre imunoterapia, e cada um termina com o que foi feito e registrado.

O que se prescreve são três itens do Componente Básico da Rename 2024, corticoide nasal, soro fisiológico nasal e loratadina, mais uma técnica demonstrada na frente da paciente. O que não se prescreve pesa tanto quanto: corticoide injetável de depósito, corticoide oral, descongestionante e anti-histamínico de primeira geração. A asma aparece no caminho e é conduzida pelo capítulo de asma; aqui fica registrado só onde as duas doenças se tocam.

  1. Segunda-feira, 15 de junho, 7h55: o diagnóstico dito em voz alta

    Antes de qualquer receita, a doença ganha nome. Você explica a Teodolina que ela tem rinite alérgica persistente desde a adolescência, que a obstrução dos últimos meses é, em boa parte, do próprio descongestionante, e que a tosse noturna com chiado precisa ser investigada como asma. O exame anterior do nariz mostra alteração bilateral e sem sinal de outra doença, o que sustenta o diagnóstico sem exame complementar. Você pede a nota da última semana, e ela dá 8.

    Prescrição
    • Registrar: rinite alérgica persistente, nota 8 de 10 na última semana, com rinite medicamentosa por descongestionante tópico em uso há oito meses
    • Registrar pelo nome os remédios comprados sem receita, com frequência e tempo de uso, e a injeção de corticoide pedida
    • Registrar o exame anterior: conchas inferiores pálidas e edemaciadas dos dois lados, secreção clara, sem lesão, sangue ou pus
    • Registrar as respostas de asma: tosse noturna 2 vezes por semana, chiado ao esforço, saturação de 98%, ausculta sem sibilo hoje
  2. Mesma consulta, 8h05: a injeção que não vai ser aplicada

    O pedido que Teodolina trouxe é o primeiro a ser respondido, e a resposta é não. O consenso de 2024 lembra que o corticoide sistêmico, oral ou injetável de depósito, chegou a ser usado na rinite sazonal e foi abandonado pelos eventos adversos; que ele é proscrito em crianças e adolescentes; e que as diretrizes internacionais recomendam fortemente contra seu uso na rinite alérgica. O uso repetido, como a injeção anual da vizinha, acumula o risco de infecção, osteoporose, necrose asséptica do fêmur, hiperglicemia, ganho de peso, catarata, glaucoma e hipertensão, em troca de um alívio que o corticoide nasal entrega com absorção sistêmica baixa.

    Prescrição
    • Não aplicar nem prescrever corticoide injetável de depósito ou corticoide oral para a rinite
    • Registrar a orientação dada e o motivo, com a combinação de que ela não vai buscar a injeção na farmácia
  3. Mesma consulta, 8h15: o corticoide nasal, com o frasco na mão

    O corticoide nasal é escolhido conforme sintomas, idade, preferência e apresentação disponível. Demonstrar a técnica: limpar delicadamente o nariz, preparar a válvula conforme a bula do frasco, inclinar levemente a cabeça para frente, direcionar o jato para a parede lateral e inspirar suavemente, sem aspirar com força. Pedir que a paciente demonstre para conferir. A resposta é avaliada em dias a semanas; duração e redução da dose dependem do controle, da exposição e dos efeitos adversos, sem exigir 60–90 dias de dose plena em todos.

    Prescrição
    • Budesonida 64 mcg/jato suspensão nasal (Rename 2024, Componente Básico): 2 jatos em cada narina, 1 vez ao dia pela manhã, uso contínuo (256 mcg/dia)
    • Primeira aplicação feita pela paciente na consulta, com correção da direção do jato
    • Conferir na bula específica o preparo da válvula, o número de jatos descartados e quando repetir a preparação; não generalizar a regra de um fabricante para todos os sprays.
    • Epistaxe leve pede revisão da direção do jato e da dose. Sangramento recorrente, importante, unilateral persistente ou dor relevante exige avaliação; pode ser necessário interromper temporariamente o spray até examinar a mucosa.
  4. Mesma consulta, 8h25: a retirada do descongestionante

    Sem tirar o descongestionante, nenhum tratamento vai funcionar, e sem tratar a rinite de base, nenhuma retirada se sustenta. O consenso diz que interromper o descongestionante é fundamental, que o corticoide intranasal é o tratamento mais usado na rinite medicamentosa e que muitos o iniciam enquanto reduzem o descongestionante. Você combina a redução a partir de hoje, com data escrita para a última gota no fim da semana, e avisa que as primeiras noites vão ser difíceis. A lavagem com soro fisiológico entra como alívio que não cria dependência. Casos refratários, com corticoide oral ou redução das conchas, são decisão de especialista e não entram hoje.

    Prescrição
    • Descongestionante tópico: reduzir a partir de hoje e parar até o fim da semana, com a data da última aplicação escrita na receita
    • Lavagem com solução salina apropriada antes do spray quando realizada no mesmo momento. Usar produto pronto ou preparo orientado com água destilada/estéril ou previamente fervida e resfriada; higienizar e secar o dispositivo. Água potável da torneira sem tratamento adicional não é adequada para irrigação nasal.
    • Loratadina 10 mg comprimido (Rename 2024, Componente Básico): 1 comprimido por via oral 1 vez ao dia, pelos espirros, pelo prurido e pelos olhos
    • Registrar que dexclorfeniramina não foi prescrita por ser de primeira geração, sedante, num emprego que exige atenção contínua
  5. Mesma consulta, 8h40: a casa, o cigarro e a asma

    A exposição entra na conduta com o peso que a evidência dá a cada medida. A fumaça de tabaco em casa, que Teodolina conta vir do marido na área de serviço, piora qualquer rinite e qualquer asma, e sai da casa hoje. O mofo atrás do guarda-roupa também: o Protocolo de Asma de 2026 registra que a remediação de umidade e mofo pode trazer benefício clínico. Capa de colchão e medidas contra ácaro esperam o teste, porque o consenso as recomenda para quem é sensibilizado e a revisão Cochrane mostra que a capa sozinha provavelmente não traz benefício. Pela asma, você pede espirometria com prova broncodilatadora e registra que o tratamento dela segue o capítulo de asma, que o preceptor aplica na mesma consulta.

    Prescrição
    • Orientar casa sem fumaça de tabaco em nenhum cômodo e oferecer ao marido o cuidado para parar de fumar
    • Orientar limpeza do mofo e ventilação do quarto, e afastar o guarda-roupa da parede úmida
    • Espirometria com prova broncodilatadora solicitada, com as perguntas de asma registradas
    • Conduta da asma pelo capítulo Asma: diagnóstico, controle e tratamento escalonado; retorno da rinite em 2 semanas
  6. Segunda-feira, 29 de junho: o retorno de duas semanas

    A nota caiu de 8 para 5, e o descongestionante está zerado há dez dias, depois de três noites ruins. Mas há duas notícias que só aparecem porque você pergunta. Teodolina viu sangue no lenço duas vezes pela narina esquerda, e, com o frasco na mão, mostra por quê: segura o spray com a mão esquerda e aponta a ponta para o meio do nariz. E a farmácia entregou budesonida de 32 mcg, não de 64; a farmacêutica orientou, corretamente, 4 jatos por narina, mas a receita previa um frasco por mês, e com 8 jatos por dia o frasco acabou ontem, no décimo quarto dia. Nada disso é falha do corticoide. A espirometria confirmou limitação variável do fluxo aéreo, e a asma já está em tratamento pelo capítulo de asma.

    Prescrição
    • Corrigir a técnica na consulta: mão do lado oposto ao da narina, ponta para a asa do nariz
    • Se mantida budesonida 256 µg/dia com frasco de 32 µg/jato, são oito jatos por dia. Calcular dispensação pelos acionamentos utilizáveis após o preparo: dois frascos de 120 podem não cobrir 30 dias se os jatos de carga saírem desse total. Conferir fabricante e abastecimento; outra concentração pode facilitar adesão.
    • Registrar a nota 5, o descongestionante suspenso desde 19 de junho e a epistaxe leve por técnica
    • Solicitar teste de sensibilização a aeroalérgenos pelo encaminhamento disponível; retorno em 6 semanas
  7. Segunda-feira, 10 de agosto: oito semanas, e o resultado do teste

    A nota caiu para 2, sono e asma melhoraram e a técnica não provoca mais sangramento. A sensibilização a ácaros concorda com a história e permite discutir medidas ambientais factíveis, sem prometer benefício de capa isolada nem impor compras. Manter ou reduzir o tratamento conforme controle e preferência. Imunoterapia é uma opção especializada para sensibilização clinicamente relevante e objetivos discutidos com a paciente; sua indicação depende também da segurança respiratória, do produto e da capacidade de adesão.

    Prescrição
    • Com controle sustentado, considerar redução à menor dose eficaz, por exemplo 128 µg/dia conforme apresentação e resposta. Não manter dose plena até 90 dias apenas por calendário; combinar quando reavaliar e como agir se piorar.
    • Orientar, em conjunto, lavagem semanal da roupa de cama com água morna ou quente, aspiração regular, umidade da casa controlada e capas impermeáveis se a família puder comprar
    • Encaminhar à alergia e imunologia para avaliar imunoterapia, com teste cutâneo, espirometria, notas datadas e esquema em uso
    • Registrar ausência de betabloqueador e de inibidor da enzima conversora, e perguntar e registrar se há plano de gravidez
  8. Segunda-feira, 19 de outubro: a decisão da alergista

    A carta de contrarreferência chega com a decisão. Teodolina é candidata: rinite alérgica persistente com sensibilização a ácaro relevante na história, desejo de depender menos de remédio, asma controlada e volume expiratório forçado no primeiro segundo acima de 70%, sem gestação, sem betabloqueador e sem doença grave em atividade. A alergista discutiu com ela as duas vias, sublingual em casa depois de dose inicial supervisionada, e subcutânea no consultório com observação mínima de 30 minutos, e as duas escolheram a sublingual pela rotina de trabalho. A carta pede que a unidade mantenha o corticoide nasal, reforce a adesão no primeiro ano, quando mais pacientes abandonam, e avise se a asma descontrolar ou se houver gravidez.

    Prescrição
    • Registrar a imunoterapia sublingual para ácaros conduzida pela alergia, com a data de início
    • Manter budesonida nasal na dose que mantém a nota, conforme a contrarreferência
    • Conferir adesão ao produto específico de imunoterapia, reações locais/sistêmicas, sintomas de asma e plano de ação. Asma descontrolada exige contato com o especialista antes de prosseguir; após interrupção prolongada, não retomar dose anterior sem orientação.
    • Orientar que gravidez não justifica parar por conta própria, mas deve ser comunicada à alergista, porque a gestação impede aumentar a concentração durante a fase de indução
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Como saber se está funcionando

Reavaliar a rinite é conferir primeiro o que o paciente fez e só depois como ele está. Nota ruim com técnica errada, frasco trocado ou descongestionante escondido não é falha de tratamento, e trocar o remédio nessas condições só acrescenta um segundo erro ao primeiro. A ordem dos parâmetros abaixo é a ordem da consulta de retorno: a nota, a técnica com o frasco na mão, o frasco, o descongestionante, o sono, a asma e, quando houver, a imunoterapia.

A duração depende do padrão persistente ou intermitente, da exposição, da resposta e dos efeitos adversos. Os 60–90 dias citados no consenso contextualizam uso regular, mas não obrigam manter dose plena apesar de controle ou epistaxe. Após controle, reduzir à menor dose eficaz e pactuar retorno e manejo da recaída.

Nota de controle na escala de 0 a 10Em toda consulta, e de 2 a 4 semanas depois de iniciar ou mudar o tratamento

Esperado: Queda sustentada até 2 ou menos; diferença de 23 mm ou mais entre consultas é mudança real

Se não melhora: Nota de 5 ou mais depois de conferidos técnica, frasco, descongestionante e exposição: rever o diagnóstico e os sinais de outra doença, pedir o teste de sensibilização e encaminhar com as notas datadas

Técnica do spray nasalNa consulta de início e em todo retorno, com o frasco na mão do paciente

Esperado: Carga da válvula feita, ponta para a asa do nariz, retirada do aplicador e respiração pela boca

Se não melhora: Corrigir na consulta; sangramento frequente mesmo com técnica correta pede exame anterior do nariz e revisão do tratamento, como orienta a bula

Frasco e retirada na farmáciaEm todo retorno: apresentação recebida, data de início, quantos frascos e quando acabaram

Esperado: Concentração e quantidade conferidas, com cobertura do período prescrito pelos acionamentos utilizáveis segundo o fabricante; ausência de interrupções involuntárias.

Se não melhora: Frasco que sobra é dose não usada; frasco que acaba cedo é carga repetida ou apresentação trocada. Ajustar a quantidade e a apresentação na receita e refazer a conta com o paciente

Descongestionante tópicoEm todo retorno, perguntando pelo nome do produto

Esperado: Nenhum uso depois da data combinada

Se não melhora: Uso que persiste com corticoide nasal e lavagem em dia é rinite medicamentosa refratária: reforçar a retirada e encaminhar ao otorrinolaringologista, a quem cabe decidir corticoide oral ou redução das conchas

Sono, trabalho e escolaEm todo retorno

Esperado: Sem despertar por obstrução, sem respiração oral durante o dia, sem falta ou advertência atribuída ao nariz

Se não melhora: Ronco com pausas ou sonolência diurna que persistem com o nariz controlado apontam para apneia do sono, que é outra investigação e não aumento de spray

Sintomas de asmaEm todo retorno de quem tem rinite persistente, com ou sem asma diagnosticada

Esperado: Sem tosse noturna, chiado ou limitação ao esforço; asma diagnosticada controlada pelo acompanhamento próprio

Se não melhora: Sintoma novo ou piora segue a conduta do capítulo de asma; em quem faz imunoterapia, avisar o alergista, porque asma descontrolada suspende a aplicação subcutânea

Imunoterapia em cursoEm cada consulta na unidade durante o tratamento conduzido pela alergia

Esperado: Doses em dia, reação oral leve no início da sublingual ou reação local leve na subcutânea

Se não melhora: Abandono, reação sistêmica ou gravidez são comunicados ao alergista; urticária generalizada, falta de ar ou hipotensão depois de uma dose é anafilaxia e se trata com adrenalina intramuscular

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Onde o erro machuca

Aplicar ou prescrever corticoide injetável de depósito, ou curso de corticoide oral, para aliviar a rinite

O dano: O alívio é real e é o que faz o paciente voltar a pedir a injeção todo ano. O uso repetido acumula os eventos do corticoide sistêmico que o consenso de 2024 lista, de infecção e osteoporose a necrose asséptica do fêmur, hiperglicemia, catarata, glaucoma e hipertensão, numa doença que tem tratamento local eficaz com absorção sistêmica baixa. As diretrizes internacionais citadas pelo consenso recomendam fortemente contra, e o uso é proscrito em crianças e adolescentes.

Como pegar a tempo: Responda ao pedido na consulta, com o motivo, e ofereça o que funciona: corticoide nasal da Rename com a técnica demonstrada, lavagem e loratadina. Registre a orientação, para que a próxima consulta não recomece a negociação do zero.

Deixar o descongestionante tópico seguir sem perguntar, ou prescrevê-lo como parte do tratamento da rinite

O dano: Em poucos dias o alívio vira rebote, e em meses vira rinite medicamentosa, com obstrução mantida pelo próprio remédio. A revisão ARIA de 2024–2025 sugere contra o uso por mais de cinco dias e contra associá-lo ao corticoide nasal, e pede que seja evitado na gestante, na criança menor de 12 anos e no idoso; o consenso lembra os efeitos cardiovasculares e sobre o sistema nervoso e manda evitá-lo no idoso pela hipertensão e pela retenção urinária.

Como pegar a tempo: Pergunte pelo frasco pelo nome em toda consulta de rinite. Quando o descongestionante for usado numa obstrução aguda, o limite é de três dias; quando já existe dependência, combine a retirada com data, com o corticoide nasal começando no mesmo dia.

Declarar que o corticoide nasal não funcionou sem ver a técnica, a apresentação recebida e o tempo de uso

O dano: O paciente troca um remédio eficaz por outro, ou abandona o tratamento, porque apontava o jato para o septo e sangrou, porque recebeu frasco de 32 mcg e seguiu a contagem do de 64, porque o frasco acabou na metade do mês ou porque parou na primeira semana boa. Nenhuma dessas falhas se resolve com outro fármaco.

Como pegar a tempo: Demonstrar a técnica, conferir concentração e acionamentos utilizáveis, e garantir dispensação suficiente. Explicar o uso regular e combinar reavaliação para reduzir à menor dose eficaz conforme controle e efeitos adversos.

Tratar o nariz sem perguntar pela asma, ou tentar controlar a asma sem olhar o nariz

O dano: Entre 20% e 40% das pessoas com rinite alérgica têm asma, e a tosse noturna do rinítico vira anos de xarope enquanto a doença de baixo segue sem diagnóstico. Na outra direção, a asma não controla porque a rinite de base nunca foi tratada, e a etapa de tratamento sobe sem necessidade, quando tratar a rinite reduziria sintomas, exacerbações e internações por asma.

Como pegar a tempo: Faça as perguntas de asma em toda rinite persistente e as de rinite em toda asma. Resposta positiva vira espirometria com prova broncodilatadora e segue o capítulo de asma; rinite encontrada no asmático entra na conduta do mesmo dia.

Ler o teste de sensibilização como diagnóstico, pedir IgE total para confirmar alergia ou esperar o teste para começar a tratar

O dano: Teste positivo sem história compatível leva a medida cara e inútil, como retirar um animal de casa por uma sensibilização sem relevância clínica, ou capa de colchão comprada como tratamento isolado, que a revisão Cochrane mostra provavelmente não trazer benefício. A IgE total não diagnostica rinite nem acompanha a gravidade. E condicionar o tratamento ao resultado deixa o paciente sem remédio pelo tempo da fila.

Como pegar a tempo: Trate no mesmo dia pelo diagnóstico clínico. Peça o teste quando houver acesso e considere-o indispensável antes de imunoterapia, de medida de afastamento com custo, na rinite que não controla com tudo conferido e na asma alérgica grave. Leia cada positivo contra a história.

Prescrever anti-histamínico de primeira geração porque está na farmácia da unidade

O dano: A dexclorfeniramina seda e tem efeito anticolinérgico. No idoso, o consenso aponta retenção urinária, olho e boca secos, constipação e arritmia; na gestante, manda evitar pelos efeitos anticolinérgicos; em quem dirige, opera máquina ou trabalha com atenção contínua, a sedação é um risco a mais.

Como pegar a tempo: Use a loratadina, que também está no Componente Básico da Rename 2024 e é de segunda geração, a classe que o consenso manda priorizar em todas as idades. Reserve o anti-histamínico para quando prurido, espirro ou sintoma ocular pesarem, porque ele faz pouco pela obstrução.

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O que dizer ao paciente e à família

A conversa da rinite é quase toda de adesão. O paciente chega com uma solução pronta, a injeção, o frasco, o comprimido que dá sono, e sai com um tratamento que exige uso diário, técnica e paciência por semanas, sem a recompensa imediata que ele conhecia. As falas abaixo são as de Teodolina, na ordem em que aconteceram, e cada uma troca uma promessa rápida por uma explicação que ela consegue repetir em casa.

Duas conversas não estão aqui. A de quem recebe o diagnóstico de asma, com o plano de ação e o que fazer na crise, pertence ao capítulo de asma. E a do paciente com anafilaxia, ou do que precisa carregar adrenalina, pertence ao capítulo de anafilaxia.

Teodolina pede a injeção da alergia que a vizinha tomou na farmácia

"Eu entendo por que a senhora quer a injeção: ela alivia mesmo, e alivia rápido. O problema é o que ela é. Essa injeção é corticoide de depósito, que age no corpo inteiro, e tomada de novo todo ano soma risco de osso fraco, açúcar alto, pressão alta, catarata. Para o nariz existe o mesmo tipo de remédio em spray, que age no nariz e quase não entra no sangue. Ele demora alguns dias para fazer efeito, mas pode ser usado por meses com segurança. Eu não vou aplicar a injeção, e vou te mostrar agora como usar o spray."

Não diga: Negar sem explicar o motivo, ou aplicar a injeção para encerrar a consulta

Explicando que o nariz trancado dos últimos meses é, em parte, do próprio descongestionante

"Esse frasco abre o nariz porque aperta os vasos por dentro. Quando o efeito passa, os vasos incham mais do que antes, e o nariz fecha de novo, cada vez mais cedo. É por isso que a senhora está pingando cinco vezes por dia: não é fraqueza sua, é o que esse remédio faz em quem usa por semanas. A gente vai parar com ele até o fim desta semana, e o spray de corticoide começa hoje para segurar o nariz enquanto isso. As primeiras noites vão ser ruins; o soro fisiológico ajuda, e depois de alguns dias o nariz volta a trabalhar sozinho."

Não diga: Culpar a paciente pela dependência, ou mandar parar de uma vez sem pôr nada no lugar

Ensinando o spray com o frasco na mão dela

"Assoe o nariz devagar. Agite o frasco. Como é a primeira vez, aperte umas cinco vezes para o ar até sair uma névoa fina. Agora feche esta narina com o dedo e coloque a ponta na outra, virada para fora, para o lado da orelha, não para o meio do nariz. Aperte duas vezes. Tire o frasco e respire pela boca. Agora o outro lado. Se aparecer sangue no lenço, não pare o remédio: volte aqui, porque quase sempre é o jato indo para o meio."

Não diga: Explicar só com palavras, ou escrever apenas duas vezes em cada narina na receita

Explicando por que o spray continua depois que o nariz melhora

O spray funciona melhor quando usado com regularidade e técnica correta. Quando o nariz estiver controlado, vamos ajustar para a menor dose que continue funcionando. Sangramento, irritação ou qualquer dificuldade de uso devem ser discutidos antes do retorno; não é preciso suportar esses problemas até completar um prazo.

Não diga: Prometer cura, ou deixar a duração do tratamento sem combinar

Explicando por que um atendimento de nariz saiu com pedido de espirometria

"O nariz e o pulmão são o mesmo caminho do ar, forrados pelo mesmo tipo de tecido. Muita gente com rinite como a sua também tem asma, e essa tosse que acorda a senhora duas vezes por semana, com chiado na subida, pode ser isso. Não é para dar xarope. É para fazer um exame de sopro que mostra se o ar está passando com dificuldade e se melhora com a bombinha. Se for asma, ela tem tratamento próprio, e tratar o nariz ajuda a asma a ficar controlada."

Não diga: Tratar a tosse com xarope, ou dizer que é só alergia sem investigar

Teodolina pergunta se precisa jogar fora o colchão e comprar capa

"Não precisa jogar nada fora. O que mais pesa na sua casa hoje é a fumaça do cigarro e o mofo atrás do guarda-roupa, e isso a gente resolve primeiro. Capa de colchão sozinha, os estudos mostram que provavelmente não ajuda; o que pode ajudar um pouco é um conjunto de coisas, como lavar a roupa de cama toda semana com água morna, controlar a umidade e aspirar. Mas só vale o esforço se o teste mostrar que o seu problema é ácaro, e nenhuma dessas medidas substitui o spray."

Não diga: Prescrever capa como tratamento isolado, ou vender controle ambiental como cura

Teodolina, com o teste positivo para ácaros, pergunta se vai usar spray para sempre

"Existe um tratamento que muda a alergia em si, e não só os sintomas: é a imunoterapia, que as pessoas chamam de vacina de alergia. Ela é feita com o próprio ácaro, em gotas embaixo da língua ou em injeções no consultório, por um tempo longo que a alergista combina, e pode deixar a senhora melhor por muito tempo depois de terminar. Mas não é para todo mundo: a asma precisa estar controlada, o exame de sopro precisa estar bom, e ela não começa durante uma gravidez. Quem decide é a alergista. Eu vou te encaminhar com o teste, o exame e as suas notas, e o spray continua até lá."

Não diga: Prometer que a vacina cura, ou encaminhar sem teste, sem espirometria e sem as notas de controle

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Qual corticoide nasal prescrever na unidade básica: a fluticasona que a diretriz internacional prefere ou a budesonida e a beclometasona que o SUS entrega

Preferir fluticasona, em furoato ou propionato, sobre beclometasona e budesonida no adulto — revisão ARIA-EAACI de 2024–2025, recomendação condicional com certeza muito baixa ou baixa

A revisão de 2024–2025 das diretrizes ARIA comparou os corticoides intranasais entre si e sugere, no adulto com rinite alérgica, usar fluticasona, em furoato ou propionato, em vez de beclometasona, budesonida, ciclesonida, mometasona ou triancinolona. A força da recomendação é condicional e a certeza da evidência é muito baixa ou baixa na maioria das comparações. A mesma revisão recomenda com força o corticoide intranasal sobre nenhum tratamento, com certeza moderada, e pressupõe o uso correto do spray.

Sousa-Pinto B et al. ARIA-EAACI Guidelines 2024–2025 Revision, Part I: Guidelines on Intranasal Treatments. Allergy. 2026;81(4):954-976

Tratar com o corticoide nasal do Componente Básico, beclometasona 50 mcg ou budesonida 32, 50 e 64 mcg — Rename 2024; o V Consenso Brasileiro sobre Rinites, de 2024, lista as formulações disponíveis sem ordená-las por eficácia

A Rename 2024 põe no Componente Básico só dois corticoides nasais, beclometasona de 50 mcg por dose e budesonida de 32, 50 e 64 mcg; fluticasona e mometasona não constam. O consenso brasileiro apresenta os corticoides intranasais como os medicamentos mais eficazes para todos os sintomas, lista as formulações disponíveis no Brasil com posologia e registra diferenças de biodisponibilidade sistêmica, menor com fluticasona, mometasona e ciclesonida, sem hierarquizar a eficácia entre elas. Na gestação, inclui a budesonida entre os corticoides nasais considerados seguros.

Brasil. Ministério da Saúde. Rename 2024; V Consenso Brasileiro sobre Rinites – 2024, seção de corticosteroide intranasal, tabela de corticoides intranasais disponíveis e seção de gestante

Como decidir

As duas posições não governam o mesmo paciente do mesmo jeito. Pelo primeiro degrau da régua, o escopo, vence o que foi escrito para o paciente à sua frente: na unidade básica do SUS, o paciente recebe o que a Rename lista, e o consenso brasileiro não dá razão para trocar um corticoide nasal por outro. A preferência da revisão ARIA é condicional e sustentada por evidência de certeza muito baixa ou baixa, e a própria diretriz condiciona tudo à técnica correta, que é o que mais falha na prática. Esta apostila adota começar pelo corticoide nasal da Rename, na dose da bula ou do consenso, com a técnica demonstrada, e só considerar a fluticasona quando a rinite não controlar depois de técnica, apresentação, adesão e tempo de uso conferidos e o paciente puder obtê-la. Na gestante com rinite alérgica anterior à gravidez, a budesonida da Rename está entre as opções que o consenso considera seguras.

Por quanto tempo o descongestionante tópico pode ser usado: cinco dias ou três

No máximo cinco dias — V Consenso Brasileiro sobre Rinites, 2024, seção de descongestionantes intranasais; a revisão ARIA-EAACI de 2024–2025 sugere contra o uso por mais de cinco dias

Na seção de tratamento farmacológico, o consenso reconhece a eficácia do descongestionante intranasal no alívio de curto prazo da congestão numa crise e diz que ele deve ser usado no máximo por cinco dias, porque o risco de rinite medicamentosa aumenta depois disso. A revisão ARIA de 2024–2025 sugere contra o uso por mais de cinco dias em comparação com nenhum tratamento, com certeza muito baixa, e contra a associação com corticoide intranasal.

V Consenso Brasileiro sobre Rinites – 2024, seção 9.2.2.2; Sousa-Pinto B et al. ARIA-EAACI 2024–2025, Part I. Allergy. 2026;81(4):954-976

Interromper depois de três dias — V Consenso Brasileiro sobre Rinites, 2024, seção de rinite medicamentosa, que descreve rebote a partir de 3 a 10 dias de uso

Na seção dedicada à rinite medicamentosa, o mesmo consenso afirma que a congestão de rebote pode se desenvolver depois de três a dez dias de uso, às vezes só depois de 30, que nem a duração nem a dose cumulativa que a iniciam são conhecidas, e que, embora os estudos sejam inconclusivos, eles sugerem interromper o descongestionante depois de três dias para evitar o rebote.

V Consenso Brasileiro sobre Rinites – 2024, seção 11.4

Como decidir

As duas regras saem do mesmo consenso: escopo, data e natureza são idênticos, e os três primeiros degraus da régua não desempatam. Decide o quarto, a coerência interna: o prazo de cinco dias contradiz a própria afirmação do consenso de que o rebote pode começar a partir do terceiro dia, e o prazo de três dias é o único que respeita as duas passagens. A sugestão da revisão ARIA contra o uso por mais de cinco dias descreve o que é uso prolongado, e não autoriza o quinto dia como seguro. Esta apostila adota três dias como limite quando o descongestionante tópico for usado numa obstrução aguda, e ele não entra como tratamento de manutenção da rinite alérgica, nem associado ao corticoide nasal, nem na gestante, na criança menor de 12 anos ou no idoso. Para quem já é dependente, a pergunta não é mais o prazo: é a retirada com data, com o corticoide nasal começando no mesmo dia. A conta está em critérios.

Nota 5 na escala visual analógica: rinite parcialmente controlada ou não controlada

Não controlada acima de 5, parcialmente controlada de 3 a 5, controlada abaixo de 2 — V Consenso Brasileiro sobre Rinites, 2024, seção de classificação, com referência a documento de posição da sociedade alemã de alergologia de 2017

Ao classificar a rinite alérgica, o consenso diz que a gravidade é avaliada por escala visual analógica de 0 a 10 e que escore maior que 5 indica doença não controlada, de 3 a 5 parcialmente controlada e abaixo de 2 controlada. Por essa régua, a nota 5 é parcialmente controlada, e as notas de 2 a 3, exclusive, não pertencem a nenhuma classe.

V Consenso Brasileiro sobre Rinites – 2024, seção 3.2

Controlada até 20 mm, parcialmente controlada de 21 a 49 mm, não controlada de 50 a 100 mm — V Consenso Brasileiro sobre Rinites, 2024, seção de avaliação do controle clínico, com referência aos estudos de validação da escala do MASK-rhinitis

Na seção dedicada à avaliação do controle, o consenso descreve a escala de 0 a 100 mm, sua correlação com qualidade de vida e com a classificação de gravidade, a menor diferença clinicamente importante de 23 mm e a classificação recomendada por diversas sociedades: sintomas leves ou controlados de 0 a 20 mm, moderados ou parcialmente controlados de 21 a 49 mm e intensos ou não controlados de 50 a 100 mm. Por essa régua, a nota 5 é não controlada.

V Consenso Brasileiro sobre Rinites – 2024, seção 10.1

Como decidir

Outra vez o mesmo documento, e outra vez decide a coerência interna. Uma escala que serve para decidir tratamento precisa pôr cada nota possível numa classe, e só a régua da seção de avaliação do controle faz isso: cobre de 0 a 100 mm sem intervalo vazio. A régua da seção de classificação deixa as notas de 2 a 3 sem classe e, por isso, não consegue orientar o retorno de um paciente que marca 2,5. Esta apostila adota a régua da seção de avaliação do controle: nota até 2 é controlada, de 2,1 a 4,9 é parcialmente controlada e de 5 para cima é não controlada. Para o paciente à frente, a nota 5 não autoriza manter tudo como está: pede conferir técnica, frasco, descongestionante e exposição naquela consulta e ajustar o que estiver errado, com reavaliação em 2 a 4 semanas. A conta está em critérios.

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O raciocínio, em voz alta

Terça-feira, 8 de setembro, 10h20, a mesma unidade básica. Nicolau Teixeirinha, 67 anos, aposentado que ainda dirige a van de transporte escolar do bairro, vem porque o nariz entupiu há três meses e não desentope. Escorre água clara, sobretudo de manhã, espirra pouco e não sente coceira. Nunca teve rinite na vida. É hipertenso, em uso de enalapril e anlodipino há anos, e há quatro meses o urologista acrescentou doxazosina pela próstata. Há três semanas a vizinha indicou um comprimido de dexclorfeniramina, que ele compra na farmácia e toma de 8 em 8 horas, e há dois meses usa um descongestionante em gotas quando o nariz trava, que ele descreve como de vez em quando e, perguntado de novo, admite ser toda noite. Na última semana, o jato de urina ficou mais fraco e ele precisa fazer força para esvaziar a bexiga. Conta, rindo, que cochilou no volante parado num sinal. A pressão hoje está 158/94 mmHg. No exame anterior do nariz, a mucosa está edemaciada dos dois lados, com secreção clara, sem lesão, crosta, sangue ou pólipo visível, e ele sente cheiro de café.

  1. o que a idade de início me diz

    Começo pelo dado que muda a hipótese antes de qualquer outro: a rinite apareceu aos 67 anos em quem nunca teve sintoma nasal. O consenso de 2024 manda procurar outros fenótipos quando a rinite começa na idade adulta e, no idoso, fazer diagnóstico criterioso, com diferencial que inclui rinite não alérgica, hormonal, induzida por fármacos, atrófica, doenças granulomatosas, amiloidose, extravasamento de líquido cefalorraquidiano e tumor de nasofaringe. O quadro também não tem a assinatura alérgica: nada de prurido, poucos espirros, obstrução e secreção aquosa dominando. Chamar isso de alergia agora seria dar nome sem investigar.

  2. o sinal de outra doença que procuro primeiro

    Antes de pensar em remédio, afasto o que não pode sair da consulta com spray. Pergunto e examino pelos achados que o consenso lista como sinal de outra doença: sintoma de um lado só, obstrução isolada progressiva, secreção posterior purulenta, dor, sangramento e perda isolada de olfato. Nicolau tem obstrução dos dois lados, secreção clara, nenhum sangue, nenhuma dor e sente cheiro de café. O exame anterior não mostra lesão. Registro cada item negativo com o lado, porque o retorno vai precisar comparar, e deixo combinado que sangue, um lado só ou perda de olfato o trazem de volta antes da data.

  3. a receita que chegou antes do nariz

    Com a lista de remédios na mão, a cronologia aparece: a doxazosina começou há quatro meses e o nariz entupiu um mês depois. O consenso inclui os bloqueadores alfa-adrenérgicos entre os fármacos que causam rinite por mecanismo neurogênico, reduzindo o tônus simpático da mucosa, e na lista do idoso acrescenta inibidores da enzima conversora e bloqueadores de canal de cálcio, que Nicolau também usa. A hipótese principal passa a ser rinite induzida por fármaco, com a doxazosina como candidata mais provável pelo tempo. Isso não se resolve suspendendo o remédio por conta própria: a próstata tem dono, e a troca se discute com quem prescreveu.

  4. o que o comprimido da vizinha está fazendo

    A dexclorfeniramina trouxe sedação e piora urinária num homem com próstata aumentada. Suspender e orientar que não dirija nem opere equipamentos enquanto houver sonolência ou prejuízo de atenção; organizar alternativa para o transporte escolar até recuperação e avaliação. Investigar retenção urinária, que exige atendimento urgente se houver incapacidade de urinar ou dor suprapúbica. A retirada do remédio não dispensa revisar outras causas de sonolência se ela persistir.

  5. o frasco de vez em quando que é toda noite

    Dois meses de descongestionante toda noite são rinite medicamentosa sobreposta à rinite induzida pela doxazosina, e o frasco ainda cobra outros preços no idoso. O consenso manda evitar o descongestionante intranasal nessa faixa etária pela maior incidência de hipertensão e retenção urinária, e a revisão ARIA de 2024–2025 sugere evitá-lo no idoso. A pressão de 158/94 mmHg num hipertenso até então controlado e a piora urinária cabem nessa conta. Combino a retirada com data e a reavaliação da pressão em uma semana, já sem o descongestionante e sem o anti-histamínico, antes de mexer no anti-hipertensivo.

  6. o que prescrevo e com quem falo

    Para o nariz, o corticoide intranasal: é o tratamento mais usado na rinite medicamentosa enquanto o descongestionante sai, e o consenso o descreve como em geral bem tolerado no idoso. Prescrevo budesonida da Rename com a técnica feita na consulta, porque tremor, artrose das mãos ou memória fraca comprometem o spray no idoso, e deixo a lavagem salina, que o consenso indica para a rinorreia do idoso; o anticolinérgico tópico que o consenso também indica não está disponível no Brasil. Escrevo ao urologista a hipótese de rinite pela doxazosina e a piora urinária com o anti-histamínico, para que ele decida a alternativa.

  7. quando deixa de ser caso da unidade

    Marco retorno em quatro semanas com a nota de 0 a 10, a técnica conferida e a resposta do urologista. Se o nariz não melhorar com corticoide nasal, sem descongestionante, sem anti-histamínico de primeira geração e com a troca do alfabloqueador discutida, a investigação sai da unidade: rinite de início tardio que não responde pede avaliação do otorrinolaringologista, com endoscopia, e antes disso qualquer sinal de um lado só, sangue ou perda de olfato antecipa o encaminhamento. Teste de sensibilização não entra agora, porque nenhuma decisão deste paciente depende dele.

Nicolau saiu da unidade com a hipótese de rinite induzida por fármaco, sobretudo pela doxazosina, somada a rinite medicamentosa por descongestionante tópico, e sem diagnóstico de alergia. Suspendeu hoje a dexclorfeniramina, que piorava a micção numa próstata aumentada e o fazia cochilar ao volante, e combinou a retirada do descongestionante até o fim da semana. Levou budesonida 64 mcg por jato, 2 jatos em cada narina uma vez ao dia, aplicada na frente do interno, e soro fisiológico nasal. A pressão será medida em uma semana, antes de qualquer ajuste de anti-hipertensivo, e uma carta foi ao urologista pedindo reavaliação do alfabloqueador. Os sinais de retenção urinária aguda que levam à urgência e os sinais nasais que antecipam o retorno ficaram escritos. Na consulta de quatro semanas, sem melhora com tudo isso, o próximo passo é o otorrinolaringologista. Como houve cochilo ao volante, Nicolau deve suspender a direção e o transporte de passageiros enquanto houver sonolência e até recuperar alerta seguro após a revisão dos medicamentos; organizar alternativa de transporte nesse período.

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Faça você

Quarta-feira, 4 de novembro, 14h, primeira consulta de pré-natal na mesma unidade. Natividade Mello, 26 anos, primigesta de 11 semanas, tem rinite alérgica desde a infância, teste cutâneo positivo para ácaros aos 22 anos e faz imunoterapia sublingual para ácaros há 14 meses, já na fase de manutenção, prescrita pela alergista. Quando o nariz piorava, usava um spray de mometasona comprado e loratadina. Há três semanas, com o teste de gravidez positivo, parou tudo por conta própria, inclusive as gotas da imunoterapia, com medo de fazer mal ao bebê. Desde então dorme sentada, espirra em salva ao acordar e dá nota 7 para a última semana. Nas duas últimas noites, comprou e usou um descongestionante em gotas. Pergunta o que pode usar. Nega tosse, chiado e falta de ar. No exame, as conchas inferiores estão pálidas e edemaciadas dos dois lados, com secreção clara, sem sangue, sem lesão e sem sinal de infecção.

  1. o que já sei

    Sei que isto não é rinite gestacional, que por definição aparece no segundo ou terceiro trimestre em quem não tinha rinite antes da gravidez; é a rinite alérgica de sempre, descontrolada porque o tratamento parou, com nota 7. Sei que não há sinal de outra doença no exame e que as perguntas de asma vieram negativas. E sei que há três decisões misturadas na pergunta dela: o que pode ser usado na gestação, o que precisa sair da casa hoje e o que fazer com a imunoterapia interrompida.

  2. o que ela pode usar

    Complete: qual corticoide nasal você prescreve pela Rename, com qual dose e com que argumento do consenso sobre gestação; qual anti-histamínico, e por que ele, e não a dexclorfeniramina que também está na farmácia; e qual medida não farmacológica entra desde hoje.

  3. o que sai da receita

    Complete: o que você diz sobre as gotas descongestionantes que ela usou duas noites, com o argumento da revisão ARIA de 2024–2025 e do consenso para a gestante, e o que você responde se ela perguntar por um comprimido antigripal com descongestionante.

  4. a imunoterapia que ela parou

    Complete: o que o consenso diz sobre gestação e imunoterapia com alérgenos, qual é a diferença entre começar e continuar, o que muda por ela estar na manutenção e não na indução, e quem decide o retorno das gotas.

Ver como fecharíamos

Pode usar, e há opções que o consenso de 2024 considera seguras na gestação. O corticoide nasal é budesonida da Rename 2024, 64 mcg por jato, 2 jatos em cada narina uma vez ao dia, até 256 mcg por dia, pela bula, com a técnica feita na consulta: o consenso de 2024 inclui a budesonida entre os corticoides nasais considerados seguros na gestação, ao lado da fluticasona e da mometasona, e ela é a que a unidade entrega. O anti-histamínico, se prurido e espirros continuarem pesando, é a loratadina 10 mg uma vez ao dia, que o consenso cita entre os de segunda geração mais recomendados na gestante; a dexclorfeniramina, de primeira geração, deve ser evitada pelos efeitos anticolinérgicos. A lavagem com soro fisiológico 0,9% entra desde hoje. O descongestionante sai: a revisão ARIA de 2024–2025 pede evitar o descongestionante intranasal na gestante, sobretudo no primeiro trimestre, e o consenso manda evitar o descongestionante oral no primeiro trimestre pelo risco de malformação; o antigripal com descongestionante fica fora pelo mesmo motivo. Sobre a imunoterapia, o consenso diz que gravidez contraindica começar o tratamento, mas não continuá-lo, e que durante a gestação não se aumenta a concentração na fase de indução. Natividade já estava na manutenção, e a gravidez, por si, não obrigava a parar; a decisão de retomar as gotas é da alergista, a quem você escreve hoje, informando a idade gestacional, a interrupção de três semanas e o descontrole da rinite. O retorno com a nota de 0 a 10 fica junto da consulta de pré-natal seguinte, com as perguntas de asma repetidas.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Rinite e asma frequentemente coexistem. Exame normal entre episódios não exclui asma; a investigação combina padrão de sintomas e confirmação funcional quando possível. O tratamento da rinite começa conforme indicação, e sintomas respiratórios de gravidade exigem atendimento imediato. Biológico depende de avaliação especializada da asma grave, não de rinite isolada.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Demonstre o spray nasal e explique como reconhecer falha de técnica, falta de medicamento e controle insuficiente.

Em 30 dias

Compare a conduta numa gestante, num motorista sedado por anti-histamínico e numa pessoa com rinite e chiado noturno. Defina o que rever na medicação e quando procurar avaliação especializada.

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Agora atenda

Uma mulher de 29 anos procura a unidade básica pedindo a injeção da alergia, porque o nariz entope há meses; usa descongestionante em gotas várias vezes ao dia e acorda tossindo de madrugada. Atenda: faça o diagnóstico na conversa e no exame anterior do nariz, procure os sinais de outra doença, pergunte pela asma, explique por que não aplica corticoide de depósito, prescreva o corticoide nasal da Rename com a técnica demonstrada, combine com data a retirada do descongestionante, registre a nota de controle de 0 a 10 e saia com o retorno marcado e a espirometria pedida.