PediatriaInfectologia Pediátrica

A lombriga no pote e a coceira da madrugada

Parasitoses intestinais na infância: ascaridíase, giardíase, enterobíase e ancilostomíase

A parasitose intestinal da criança do posto ao hospital: reconhecer a ascaridíase que obstrui antes de dar o vermífugo, confirmar a enterobíase com a fita adesiva e decidir quem da casa se trata, calcular o metronidazol da giárdia em mililitros da suspensão que a rede tem, ligar o amarelão à anemia, saber quando não esperar o exame — com a dose por idade e peso, o teto e a régua brasileira de cada decisão

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Guia prático para o controle das geo-helmintíases. 1. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2018. 33 p. ISBN 978-85-334-2622-1.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde: volume 2. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Capítulo 9, Geo-helmintíases (CID-10 B77, B79, B76), p. 971-978.

Brasil. Ministério da Saúde; Organização Pan-Americana da Saúde; Fundo das Nações Unidas para a Infância. Manual de quadros de procedimentos: Aidpi Criança: 2 meses a 5 anos. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. 74 p.

Brasil. Ministério da Saúde; Organização Pan-Americana da Saúde. Manual Aidpi Criança: 2 meses a 5 anos. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. 256 p.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamentos Científicos de Gastroenterologia e de Infectologia. Parasitoses intestinais: diagnóstico e tratamento. Guia Prático de Atualização, n. 7, nov. 2020.

01

Responda antes de ler

Menino de 4 anos, 16 kg, é trazido à unidade básica porque vomitou uma lombriga pela manhã. Há um dia tem cólicas intermitentes e três vômitos, o último esverdeado, e não evacua há dois dias. Tem olhos levemente fundos, abdome distendido e uma massa alongada, móvel e pastosa na região periumbilical. A mãe pede o vermífugo. Qual é a conduta mais adequada neste momento?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, dez e meia, numa unidade de saúde da família de um bairro que cresceu mais depressa que a rede de esgoto. Luzinete Ramalho entra no consultório com o filho no colo e um pote de vidro na outra mão. Dentro do pote, enrolada sobre si mesma, há uma lombriga rosada do comprimento de um lápis novo. Heitor, de 4 anos, vomitou-a às seis da manhã. A mãe põe o pote sobre a mesa antes de se sentar e diz o que veio buscar: o remédio de verme, o mesmo que a vizinha deu ao filho no mês passado.

A história vem inteira sem que seja preciso puxá-la. Desde ontem à tarde Heitor tem cólicas que vão e voltam; entre uma e outra fica quieto, o que não é do feitio dele. Vomitou três vezes, e o último vômito, pouco antes de sair de casa, era verde. Não evacua desde domingo. A barriga, diz a mãe, está maior que o normal, e ele recusou o café da manhã e a água que ela ofereceu no ônibus. Dois meses atrás ele já tinha eliminado uma lombriga nas fezes; ninguém deu remédio, porque a equipe estava sem médico naquele mês e a família deixou para depois.

Deitado na maca, Heitor não é a criança que entrou correndo na semana anterior para a vacina do irmão. Os olhos estão um pouco fundos, a boca seca, e ele chora sem lágrima quando a mão do interno toca a barriga. O abdome está distendido, mais na metade de cima. Em volta do umbigo, um pouco à direita, os dedos encontram uma massa alongada, móvel, de consistência pastosa, que parece se desfazer e voltar a se formar sob a palpação. Os ruídos intestinais vêm em rajadas metálicas que coincidem com as cólicas. Não há defesa nem dor à descompressão. Temperatura de 37,4 °C, frequência cardíaca de 138, enchimento capilar de 2 segundos. A balança marca 16 kg; na caderneta, a pesagem de quatro meses atrás marcava 16,6.

O interno faz primeiro a conta que a mãe pediu. Albendazol 400 mg em dose única a partir dos 2 anos: 10 mL da suspensão de 40 mg/mL, ou um comprimido mastigável, os dois fornecidos pela rede. É o remédio certo para a lombriga do pote — e provavelmente o remédio errado para esta manhã. O que está na maca não é uma criança com verme: é uma criança que vomita verde, não evacua há dois dias, tem a barriga distendida e uma massa que se mexe. Uma criança, portanto, em quem um enovelado de vermes pode estar fechando o intestino delgado.

A preceptora, que ouviu a última parte da porta, faz uma pergunta só: e se esse albendazol matar de uma vez os vermes que formam a massa? O interno conhece a resposta de livro — vermes mortos em quantidade inflamam a parede, e o bolo que ainda se move pode virar um bolo que não se move mais. O que ele não sabe é o que fazer em seguida numa unidade sem raio X, diante de uma mãe que veio buscar um remédio e vai ouvir que o filho precisa de hospital. Também não sabe se deveria ter pedido exame de fezes, se o irmão de 7 anos, que ficou com a avó, precisa tomar alguma coisa, nem o que responder quando Luzinete perguntar se foi a água do poço.

Este capítulo se organiza em torno dessa manhã e de outras três crianças que aparecem adiante: a menina que acorda coçando, o menino da creche cuja diarreia não termina e o menino pálido que come terra. Parasitose intestinal na criança quase sempre se resolve com um comprimido ou uma dose de suspensão. O trabalho do interno é reconhecer as vezes em que o remédio é o segundo passo, calcular a dose pela idade e pelo peso com a apresentação que a rede tem, pedir o exame capaz de achar o parasita procurado e sair da consulta com a casa inteira orientada — sem que a família saia dela culpada.

03

Quem adoece disso

Três vermes respondem pela maior carga de doença do grupo que o Guia de Vigilância em Saúde chama de geo-helmintíases: o Ascaris lumbricoides, que a família chama de lombriga ou bicha; o Trichuris trichiura, o verme-chicote; e os ancilostomídeos, Ancylostoma duodenale e Necator americanus, do amarelão ou opilação. O nome diz o essencial: o ovo precisa amadurecer no solo antes de infectar, e por isso a doença acompanha o mapa da falta de água tratada e de esgoto. Na edição revisada de 2024, o guia registra que a prevalência e a intensidade da infecção por áscaris e por tricocéfalo atingem o máximo entre os 5 e os 14 anos, enquanto a do ancilóstomo culmina em adultos acima dos 20. A criança em idade escolar não é só a mais infectada: é a que mais devolve ovos ao ambiente.

Os números de postura explicam a velocidade com que um quintal se contamina. A fêmea de áscaris elimina em média 200 mil ovos por dia; a de tricocéfalo, cerca de 5 mil, segundo o Guia Prático para o Controle das Geo-helmintíases, de 2018. A criança se infecta engolindo o ovo embrionado que está na mão suja de terra, na hortaliça crua, na fruta mal lavada ou na água sem tratamento; no ancilóstomo, a larva atravessa a pele do pé descalço. Da infecção até os primeiros ovos surgirem nas fezes vão, em geral, de 60 a 80 dias, e quem não é tratado pode seguir eliminando ovos por até cinco anos, mais ainda se reinfectado. Duas consequências práticas: a lombriga que aparece hoje foi adquirida há dois ou três meses, e a criança tratada que volta ao mesmo quintal pode ter vermes adultos de novo alguns meses depois.

As geo-helmintíases não são de notificação compulsória nacional. Nas áreas endêmicas para esquistossomose, são registradas no SISPCE, o sistema do programa que controla essa doença; fora delas, o retrato local depende de alguém ter feito o levantamento de prevalência nas escolas que o Guia Prático manda fazer antes de decidir o tratamento coletivo. Para o interno isso tem tradução direta: a unidade só sabe se o bairro é de risco baixo, moderado ou alto se houver esse levantamento, e a pergunta vale ser feita à equipe de vigilância antes de se discutir desparasitação de escola. A Sociedade Brasileira de Pediatria, no guia prático de atualização de novembro de 2020, descreve tendência de queda da prevalência no país — e, no mesmo parágrafo, ainda estima em 9,3 milhões os pré-escolares e escolares candidatos a tratamento preventivo. A média nacional caiu; os bairros sem saneamento continuam existindo.

A enterobíase segue outra lógica. O Enterobius vermicularis não depende do solo: a fêmea deposita os ovos na pele em volta do ânus, a coceira leva o ovo para a unha, e da unha ele volta à boca da própria criança ou chega à de outra pessoa pela roupa de cama, pela poeira e pelos objetos da casa. Por isso a Sociedade Brasileira de Pediatria o descreve como presente no mundo inteiro e como a helmintíase mais prevalente nos países desenvolvidos. É a parasitose da creche, da escola e da família de qualquer renda, e a unidade de contágio é a casa. O ciclo, da ingestão do ovo ao verme adulto, leva de 30 a 50 dias.

A giardíase é, segundo o mesmo documento, provavelmente o parasita intestinal mais prevalente do mundo, com 4% a 8% de infectados mesmo em famílias de renda média e alta. A água não potável é uma das maiores fontes, e a transmissão entre crianças de creche e de abrigo é fácil. A maior parte das infecções não dá sintoma; a forma sintomática parece mais provável na primeira infecção, e o segundo ano de vida é o período mais vulnerável às formas graves. Quando dois ou mais casos de diarreia se ligam à mesma creche ou à mesma fonte de água, a situação deixa de ser só clínica: pela regra do volume 1 do Guia de Vigilância em Saúde, a suspeita de surto de doença transmitida por água ou alimento é comunicada à Secretaria Municipal de Saúde assim que se toma conhecimento dela.

Os outros vermes deste capítulo pesam menos na conta do consultório e mais na gravidade. O tricocéfalo tem cerca de 700 milhões de portadores no mundo, na grande maioria crianças, e na forma maciça do pré-escolar desnutrido produz disenteria crônica e prolapso retal. O Strongyloides stercoralis infecta mais de 50 milhões de pessoas e, pela autoinfecção, completa o ciclo dentro do próprio hospedeiro, o que o torna perigoso na criança que vai receber corticoide. Os ancilostomídeos infectam mais de 400 milhões; as duas espécies coexistem em partes do Brasil, e cada verme adulto de A. duodenale leva de 0,05 a 0,3 mL de sangue por dia.

Por que isso importa para quem atende criança. As geo-helmintíases raramente matam, mas o Guia de Vigilância descreve o impacto crônico e insidioso delas sobre a nutrição e, nas crianças, sobre a capacidade de aprendizado. A exceção à baixa letalidade é justamente a da cena: a Sociedade Brasileira de Pediatria registra a ascaridíase como a helmintíase de maior letalidade no Brasil, pelas complicações, e chama a suboclusão e a obstrução intestinal de quadro grave, letal em muitos casos e de incidência ainda inaceitavelmente elevada no país. A criança obstruída é rara na rotina de uma unidade, cercada de crianças com verme que se resolvem com uma dose — e é por essa raridade que ela passa despercebida.

04

Por que acontece o que acontece

O ciclo de cada geo-helminto — o ovo que amadurece no solo, a larva que atravessa o pulmão, o verme adulto que vive anos no intestino — é igual em qualquer idade e está descrito em Esquistossomose e geo-helmintíases (parasitoses intestinais no adulto), da apostila de Infectologia. Este bloco fica com o que muda na criança: o calibre do intestino que recebe a mesma quantidade de vermes, a reserva de ferro e de nutrientes que o parasita disputa com o crescimento, o comportamento que reinfecta e a anatomia que leva o oxiúro da pele perianal para a vulva.

O áscaris adulto vive na luz do jejuno e do íleo sem se fixar à mucosa: mantém a posição curvando o corpo em U e fazendo pressão contra as paredes. Fêmeas de 30 a 40 cm e machos de 15 a 30 cm cabem com folga no intestino de um adulto. Na criança pequena, desnutrida e muito infectada, a conta é outra. A Sociedade Brasileira de Pediatria chama de infestação média a que passa de 30 vermes e de maciça a que passa de 100, e é nessa carga que os vermes se enovelam e ocluem a luz do delgado — a suboclusão por áscaris. A alça acima do bolo distende e acumula líquido, a criança vomita bile, perde água para dentro do intestino e deixa de eliminar fezes e gases; a parede comprimida pode sofrer isquemia, necrose e perfuração, e a alça pesada pode torcer em volvo.

Ilustração de uma alça de intestino delgado semitransparente: dentro dela, um enovelado de vermes cilíndricos rosados enche e estica a luz; antes do enovelado a alça está dilatada e cheia de líquido, depois dele está estreita e vazia, e a parede em volta está avermelhada e inchada.
O bolo de áscaris: a massa de vermes enovelados fecha a luz do delgado, a alça de cima dilata e a de baixo colapsa. É por isso que a criança vomita verde, distende e para de evacuar — e é por isso que o vermífugo espera.

O mesmo verme que obstrui explica a regra mais contraintuitiva do capítulo. Os benzimidazóis — albendazol e mebendazol — ligam-se à beta-tubulina do nematoide, desmontam o citoesqueleto e matam o verme de inanição. Num intestino já ocluído, a morte e a degradação de uma massa de vermes liberam substâncias que, pela descrição da Sociedade Brasileira de Pediatria, podem provocar inflamação da parede, paralisia, necrose e perfuração. A piperazina era usada justamente porque paralisava o verme sem destruí-lo, deixando o bolo sair; os dois documentos de 2020 da Sociedade a dão como fora do mercado brasileiro — um desde 1999, por toxicidade, o outro desde 2012. O que resta é descomprimir, hidratar e esperar o intestino destravar antes de matar o que está dentro dele.

O áscaris também migra. Ao entrar num orifício, o verme adulto obstrui a ampola de Vater, o colédoco, o ducto pancreático ou o apêndice, e pode subir até o fígado, produzindo cólica biliar, colangite, pancreatite, apendicite e abscesso hepático; nas vias aéreas, pode asfixiar. Antes disso, na fase larval, a passagem pelos alvéolos dá a pneumonite larvária, a síndrome de Löeffler: febre, tosse, chiado, eosinofilia e infiltrados que duram uma ou duas semanas. Nessa fase ainda não há verme adulto pondo ovos — a larva leva de 15 a 30 dias para voltar ao intestino e outros 30 a 60 para virar adulto —, e o parasitológico da criança com chiado e eosinofilia é negativo por calendário, não por ausência de verme.

O ancilóstomo fixa-se à mucosa do duodeno e do jejuno pela cápsula bucal e se alimenta de sangue; muda de lugar quatro ou cinco vezes por dia e deixa uma lesão sangrando a cada fixação. Cada A. duodenale leva de 0,05 a 0,3 mL por dia; cada N. americanus, de 0,01 a 0,04 mL. Somado verme a verme e mês a mês, o resultado é anemia hipocrômica e microcítica, hipoproteinemia e edema por enteropatia perdedora de proteína. A criança parte de uma reserva de ferro pequena e gasta ferro para crescer, e por isso perde antes o que o adulto com a mesma carga ainda repõe — leitura desta apostila sobre a fisiologia, coerente com a geofagia que aproxima carência e parasitose. O tricocéfalo faz o mesmo em escala menor no ceco e no cólon, com até 0,005 mL por verme por dia; na forma maciça, com 2 a 5 mil vermes do ceco ao reto, a mucosa irritada dispara o reflexo de evacuar mesmo sem fezes, e daí vêm o tenesmo e o prolapso retal.

O oxiúro faz do ânus o lugar da postura. Depois da cópula o macho morre; a fêmea, com o útero cheio de ovos, migra à noite para a pele perianal, e a presença dela ali causa o prurido intenso. A criança coça dormindo, carrega os ovos na unha e os devolve à boca, reinfectando-se sem sair da cama — a enterobíase dura enquanto o ciclo mão-boca não é quebrado. Na menina, a fêmea pode seguir para a vulva, a uretra e a vagina, e produz prurido vulvar e corrimento. Como os ovos ficam na pele e não no conteúdo intestinal, o exame de fezes quase nunca os encontra.

A giárdia não invade: o trofozoíto adere à mucosa do duodeno e do jejuno por um disco suctorial e se multiplica depressa. A Sociedade Brasileira de Pediatria lista os mecanismos propostos, nem todos comprovados — atapetamento da mucosa, atrofia de vilosidades com hipertrofia de criptas, lesão do enterócito, sobrecrescimento bacteriano, desconjugação de ácidos biliares e queda das dissacaridases. A soma é má absorção de açúcares, gorduras, vitaminas lipossolúveis, vitamina B12, folato e ferro, com intolerância secundária à lactose. Os cistos saem nas fezes em momentos imprevisíveis, e é por essa eliminação intermitente que uma amostra negativa não afasta a doença. No lactente do segundo ano, que precisa ganhar peso todo mês, a má absorção aparece primeiro na curva da caderneta.

O Strongyloides stercoralis tem um recurso que os outros não usam na mesma escala: a autoinfecção. Larvas nascidas de fêmeas do próprio intestino evoluem para a forma infectante antes de sair e atravessam a mucosa do íleo e do cólon ou a pele perianal, recomeçando o ciclo sem passar pelo solo; é assim que o infectado se torna portador crônico. Quando a imunidade cai — corticoide, desnutrição, neoplasia, doença inflamatória intestinal, doença autoimune, nefropatia —, a autoinfecção se torna maciça, as larvas atravessam vísceras carregando bactérias intestinais e a criança chega com quadro intestinal, respiratório e de sepse ou meningite por coliformes. A regra de quem recebe profilaxia antes da imunossupressão é de Esquistossomose e geo-helmintíases (parasitoses intestinais no adulto); o que muda na criança é o peso mínimo e a dose, e fica no bloco de conduta.

05

Como se apresenta de verdade

O ponto de partida é a apresentação: prurido anal noturno, eliminação de verme, diarreia persistente, dor abdominal ou anemia. Antes de prescrever, procure obstrução, desidratação, sangramento e repercussão nutricional. A mesma suspeita de parasitose pode levar a tratamento ambulatorial ou atendimento hospitalar. O agente orienta exame, esquema e medidas para contatos; a palavra “verme” não define um tratamento único.

A lombriga que sai e o abdome que fecha

Na ascaridíase sem complicação, a criança não tem queixa ou tem queixas vagas — dor abdominal difusa, apetite irregular — e o diagnóstico chega pelo verme eliminado nas fezes, pela boca ou pelo nariz. O verme adulto é reconhecível a olho nu, e a mãe que traz o pote traz o diagnóstico.

A suboclusão tem outra cara, e a Sociedade Brasileira de Pediatria a descreve com precisão: a criança, em geral desnutrida, tem cólicas, distensão, anorexia, vômitos biliosos, desidratação e, no início, às vezes diarreia. É comum que elimine lombrigas pela boca, pelo nariz ou pelo ânus antes ou durante o quadro. Palpa-se uma massa cilíndrica em volta do umbigo ou perto dos flancos. Os ruídos hidroaéreos, aumentados no começo, podem desaparecer quando a oclusão fica total ou quando o intestino entra em íleo. Isquemia de alça, necrose, perfuração e volvo são a evolução de quem não é descomprimido a tempo.

Três achados separam a criança que precisa de hospital hoje da que pode receber a dose na unidade: vômito bilioso, distensão com parada de eliminação de fezes e gases, e massa palpável. Qualquer um deles basta — a regra de triagem é desta apostila, montada sobre a descrição da Sociedade. Sangramento retal com toxemia ou sinais de peritonite já não são suboclusão a vigiar: são indicação cirúrgica ou suspeita de perfuração.

O diferencial que mais importa no pré-escolar com cólica, vômito e massa é a invaginação intestinal, que tem dono em Invaginação/intussuscepção intestinal do lactente, da apostila de Cirurgia Pediátrica. O Guia de Vigilância acrescenta apendicite, pneumonia bacteriana, amebíase e estrongiloidíase, e adverte que o quadro clínico não distingue uma verminose da outra: a obstrução por áscaris se parece com a obstrução de qualquer causa. O verme no pote muda a probabilidade, não o exame físico.

A migração dá outros quadros: cólica biliar, colestase e colangite pela obstrução da ampola e da árvore biliar; pancreatite pela oclusão do ducto pancreático; apendicite pela invasão do apêndice; abscesso hepático. Na criança com áscaris que tem dor em hipocôndrio direito, icterícia ou febre, a ultrassonografia vem antes do anti-helmíntico. A drenagem biliar e a colangite do adulto estão em Colangite aguda e coledocolitíase, da apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica; o que é deste capítulo é saber que o áscaris entra nessa lista, que a colangite pede drenagem urgente e que o vermífugo espera a remissão dos sintomas agudos.

A coceira da madrugada

A queixa da enterobíase é o prurido anal, pior à noite, e a Sociedade Brasileira de Pediatria o descreve pelo que ele faz com a criança: desespero e insônia. A pele perianal fica escoriada e inflamada. Náusea, cólica, tenesmo e puxo aparecem, mas raramente são o motivo da consulta. A mãe às vezes viu o verme: um fio branco de cerca de um centímetro, móvel, na pele em volta do ânus, quando olhou a criança dormindo.

Na menina, o oxiúro chega à vulva, à uretra e à vagina, e o quadro passa a ser de vulvovaginite: prurido vulvar, hiperemia, corrimento, às vezes ardência para urinar. Oxiuríase, corpo estranho e irritantes locais estão entre os diferenciais que Infecção do trato urinário na criança e investigação de malformações, da apostila de Nefrologia Pediátrica, lista para a criança com sintoma urinário e exame de urina negativo. A vulvovaginite da menina pré-púbere não tem dono entre os capítulos do nível; daqui, fica assumida a parte dela que é parasitária.

A região perianal e genital escoriada obriga a uma segunda leitura, que o AIDPI faz por escrito. As arranhaduras do prurido por oxiúros e por escabiose estão na lista de lesões físicas inespecíficas: sozinhas, com uma história que as explica, não indicam violência. Lesão inespecífica com história que não combina com o que se vê, ou com o desenvolvimento da criança, faz pensar em violência; e sangramento, laceração, úlcera, verruga, hematoma, equimose e cicatriz na área genital e perianal são, no mesmo documento, alterações sugestivas de violência sexual. O corrimento aparece nas duas listas — o da vulvovaginite por oxiúro e o do abuso — e por isso não decide nada sozinho. A identificação, a conversa com a família e a notificação estão em Violência e maus-tratos infantis: identificação e notificação compulsória (ECA), da apostila de Emergências Pediátricas.

A fissura anal da criança pode ser secundária ao prurido, com ou sem oxiuríase, e chega como choro ao evacuar ou retenção voluntária; a descrição é de Doença anorretal benigna: hemorroidas, fissura, abscesso e fístula, da apostila de Coloproctologia, que inclui a oxiuríase entre as causas de prurido anal na criança.

A diarreia que não termina e a curva que achata

A giardíase vai do nada ao grave. A maioria das crianças infectadas não tem sintoma. Na outra ponta, a Sociedade Brasileira de Pediatria descreve desde a diarreia aguda aquosa e autolimitada até o quadro arrastado por semanas ou meses: sintomas dispépticos — náusea, vômito, distensão da parte alta do abdome, dor difusa ou epigástrica, flatulência, falta de apetite — ou uma síndrome de má absorção muito parecida com a doença celíaca, com diarreia crônica esteatorreica ou, ao contrário, constipação, perda de peso, parada de crescimento, desnutrição, intolerância secundária à lactose, edema por perda de proteína e deficiência de ferro, zinco, vitamina B12, folato e vitaminas A e E.

O marco de tempo que muda a conduta é o de 14 dias. A diarreia que passa de duas semanas deixa de ser a diarreia aguda de Diarreia aguda e desidratação: planos A, B e C de terapia de reidratação (AIDPI), da apostila de Gastroenterologia Pediátrica, que registra a giardíase exatamente assim — diarreia de 14 dias ou mais com cistos ou trofozoítos identificados — e manda não pedir parasitológico de rotina na diarreia aguda. Acima de 30 dias, o mesmo capítulo fala em diarreia crônica, com alergia à proteína do leite de vaca, doença celíaca e fibrose cística entre os diferenciais.

A esteatorreia chega descrita pela família como fezes volumosas, gordurosas e de cheiro forte, com distensão e gases. O exame físico mostra abdome distendido e timpânico e, com frequência, nada mais. O dado objetivo mais importante está na caderneta: o peso que parou de subir ou mudou de canal. A giardíase não dá eosinofilia — eosinófilos altos numa criança com diarreia arrastada apontam para helminto, não para giárdia.

A giardíase que volta apesar do tratamento certo e da casa tratada é um dos pontos da linha do tempo que Imunodeficiências primárias e secundárias, da apostila de Imunologia, manda percorrer com os sinais de alerta. A investigação da diarreia crônica e da má absorção, quando a giárdia não explica o quadro ou já foi tratada, é tema previsto de Gastroenterologia Pediátrica ainda sem capítulo; até que ele exista, este capítulo fica com a pergunta que decide: a criança melhorou com o tratamento e voltou ao canal de peso?

O amarelão

O ancilóstomo começa pela pele. A larva que atravessa o pé descalço deixa pontos inflamados e muito pruriginosos, a coceira da terra, com eritema, edema e erupção papulovesicular por até duas semanas; a passagem pelo pulmão dá pneumonite menos intensa que a do áscaris. No intestino, a fase aguda tem dor epigástrica, náusea, vômito, falta de apetite ou fome exagerada, flatulência e diarreia.

A fase crônica é a que se vê no consultório, e pode levar anos para se instalar: palidez, anemia hipocrômica e microcítica, fraqueza, cefaleia, palpitação, sopro cardíaco, hipoproteinemia e edema. A criança que come terra entra nessa conversa por dois lados — a carência de ferro que a leva a comer terra e a parasitose que a terra traz —, e é essa ligação que Anemia ferropriva na infância: rastreio, diagnóstico e tratamento, da apostila de Hematologia Pediátrica, faz ao incluir o parasitológico na criança que não responde ao ferro ou vive em área de saneamento precário.

O diagnóstico da anemia, o ferro, a dose e o controle da resposta são daquele capítulo. Deste é o verme: reconhecer que ele sangra, tratá-lo pela idade e decidir quando o anti-helmíntico entra sem exame, pela regra do AIDPI, na criança de 1 ano ou mais com anemia.

A disenteria do pré-escolar e o reto que sai

Na maioria das crianças, o tricocéfalo não dá sintoma. A forma maciça, que a Sociedade Brasileira de Pediatria descreve em pré-escolares desnutridos de comunidades aglomeradas e sem saneamento, é outra doença: distensão e cólica em quase todos os casos, vômito, disenteria crônica com fezes mucossanguinolentas, tenesmo, anemia hipocrômica e microcítica e desnutrição. O prolapso retal ocorre em parte dos pacientes, e o Guia Prático o explica pela irritação da mucosa do reto, que dispara o reflexo de evacuar mesmo sem fezes. A infecção maciça pode causar apendicite.

O prolapso é a apresentação que ensina: na mucosa exteriorizada, os vermes adultos podem ser vistos diretamente, com a ponta anterior mais fina enfiada na mucosa. A disenteria com sangue pede, antes de qualquer outra coisa, a avaliação de desidratação e de gravidade de Diarreia aguda e desidratação, e a decisão de antibiótico da disenteria bacteriana é daquele capítulo; a pista para o verme é a cronicidade, a anemia e o prolapso.

Depois do tratamento específico, a Sociedade Brasileira de Pediatria registra boa recuperação de peso e de estatura nas crianças com tricuríase maciça — um dos cenários de parasitose em que a curva de crescimento responde de forma visível ao tratamento.

O chiado com eosinofilia, a dor que imita úlcera e a criança que vai tomar corticoide

A pneumonite larvária do áscaris — e, com menos intensidade, a do ancilóstomo e a do Strongyloides — aparece como tosse, febre, chiado, às vezes expectoração e dispneia, com eosinofilia moderada ou intensa e infiltrados pulmonares fugazes, que duram uma ou duas semanas. É a criança tratada como bronquite cujo hemograma mostra eosinófilos altos. Nessa fase, como está no bloco de mecanismo, o parasitológico ainda é negativo.

A estrongiloidíase crônica pode não ter sintoma ou produzir dor em cólica ou em queimação no epigástrio, parecida com úlcera, com náusea, vômito e distensão, e uma síndrome de má absorção com diarreia e desnutrição que dura semanas ou meses. Pode haver dermatite larvária nos pés, nas mãos, nas nádegas e na região anogenital.

O que torna o verme perigoso é a queda da imunidade. Na criança que recebe corticoide ou que tem desnutrição, neoplasia, doença inflamatória intestinal, doença autoimune ou nefropatia, a autoinfecção se torna maciça e a doença se dissemina, com sintomas intestinais e respiratórios, sepse ou meningite por bactérias intestinais e mortalidade alta. A criança com síndrome nefrótica que vai começar prednisolona é o exemplo pediátrico mais próximo do interno: o corticoide dela está em Síndrome nefrótica idiopática (lesões mínimas) na infância, da apostila de Nefrologia Pediátrica, e a regra de profilaxia antes da imunossupressão, em Esquistossomose e geo-helmintíases (parasitoses intestinais no adulto). O peso mínimo e a dose da criança estão no bloco de conduta.

06

Como fechar o diagnóstico

Três perguntas decidem o exame: ele muda a conduta de hoje? Qual parasita se procura? O método pedido é capaz de achá-lo? Um parasitológico de rotina responde mal às três. O pedido que responde bem nomeia o parasita suspeito, o número de amostras e o método.

Quando tratar sem esperar exame — e quando o exame vem antes

Cinco situações dispensam o exame para começar. O verme adulto visto — trazido pela família ou eliminado na consulta — é diagnóstico: a Sociedade Brasileira de Pediatria registra que ele é reconhecível pelas características macroscópicas. O prurido anal noturno com o verme visto na pele perianal também é. A criança de 1 ano ou mais com anemia pela palidez palmar, sem anti-helmíntico nos últimos seis meses, numa região onde ancilóstomo e tricocéfalo são problema, recebe o anti-helmíntico pela regra do AIDPI. O escolar incluído no tratamento coletivo decidido pela vigilância recebe a dose na escola. E a criança obstruída tem a conduta das próximas horas decidida pelo exame físico e pela imagem, não pelas fezes: o parasitológico só confirmaria o que o pote mostra.

Três situações pedem exame antes de tratar. A diarreia de 14 dias ou mais, em que o tratamento depende de qual parasita — helminto ou protozoário — está lá. A criança que vai receber corticoide ou imunossupressor, em que se colhem fezes com pesquisa de larvas, embora a profilaxia não espere o resultado. E a falha: sintoma que continua ou volta depois de um tratamento bem feito.

Duas situações pedem para não pedir. A diarreia aguda, pela razão que Diarreia aguda e desidratação dá: o resultado chega quando a diarreia já passou, e um cisto de giárdia achado por acaso numa diarreia viral leva a tratamento desnecessário. E o levantamento individual de fezes como estratégia de controle, que a Sociedade Brasileira de Pediatria, citando a Organização Mundial da Saúde, registra custar de quatro a dez vezes mais que o próprio tratamento — no plano coletivo, a decisão é por prevalência, não por exame de cada criança.

Quantas amostras, e em quanto tempo

Ovos e larvas saem nas fezes de forma intermitente, e a carga varia de um dia para outro. Por isso a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda pelo menos três amostras em dez dias, com a amostra fresca — cerca de uma colher de chá grande de fezes formadas, ou 10 mL de fezes líquidas — chegando ao laboratório idealmente em até uma hora. Uma amostra única negativa não afasta nada.

A sensibilidade da microscopia muda de parasita para parasita, e o documento dá os intervalos: de 70% a 88% para áscaris, de 30% a 88% para ancilóstomo, de 16% a 50% para Strongyloides e 88% para tricocéfalo, contra valores mais altos nos métodos moleculares. O Strongyloides é o pior achado: são necessárias até sete amostras seriadas para chegar à sensibilidade máxima, além dos métodos próprios de pesquisa de larvas.

Na unidade, a tradução é pedir as três amostras de uma vez, com as datas escritas no frasco, e orientar a família a não levar fezes que ficaram horas na fralda ou no chão do banheiro.

O método tem de ser capaz de achar o parasita

O parasitológico não é um exame só. A sedimentação espontânea — o método de Hoffman, Pons e Janer, também chamado de Lutz — encontra ovos e larvas de helmintos e cistos de protozoários. O Kato-Katz filtra as fezes e conta ovos por grama, o que mede a intensidade da infecção e interessa ao controle coletivo; segundo o Guia Prático, não serve para fezes diarreicas, não detecta protozoários, e a lâmina de ancilóstomo precisa ser lida em até duas horas.

Para ovos leves, sobretudo de ancilóstomo, a flutuação espontânea de Willis. Para cistos e oocistos de protozoários, com a vantagem de também achar ovos leves, a centrífugo-flutuação de Faust. Para as larvas de Strongyloides, os métodos de Baermann-Moraes e de Rugai. Para o ovo de Enterobius, que não está nas fezes, a fita adesiva. A Sociedade Brasileira de Pediatria, a propósito dos coccídios, manda avisar o laboratório da suspeita clínica para que ele use o método específico; esta apostila estende a mesma lógica ao Strongyloides e ao ancilóstomo — escreva no pedido o parasita que se procura.

Métodos imunológicos e de reação em cadeia da polimerase nas fezes existem, e o Guia de Vigilância é claro sobre o lugar deles nas geo-helmintíases: não dispensam a coproscopia e têm indicação quando o exame de fezes vem negativo diante da possibilidade de estrongiloidíase complicada, situação em que também se procuram larvas no escarro e nos lavados gástrico ou brônquico.

A fita adesiva

O método de Graham procura na pele o ovo que o oxiúro deixou ali. Encosta-se o lado adesivo de uma fita transparente na pele perianal, onde os ovos são depositados, e cola-se a fita numa lâmina para leitura ao microscópio. Três detalhes decidem o resultado, e a Sociedade Brasileira de Pediatria os fixa: na primeira hora da manhã, logo que a criança acorda, antes de qualquer higiene, em três manhãs seguidas.

Duas alternativas dispensam o laboratório para o diagnóstico. Olhar a região perianal duas a três horas depois que a criança adormece, quando a fêmea está fazendo a postura, e procurar o verme; e examinar ao microscópio o material colhido sob as unhas. O exame de fezes quase nunca é positivo, e pedi-lo para investigar coceira anal produz um negativo que tranquiliza a família pelo motivo errado.

A orientação à família precisa ser concreta: a fita fica ao lado da cama, a criança não vai ao banheiro nem toma banho antes da coleta, a fita é colada na lâmina ou no suporte que o laboratório entregar, e as três coletas são levadas juntas.

Giárdia: o antígeno, e o que fazer com o negativo

Para a giárdia, a Sociedade Brasileira de Pediatria registra que os testes de antígeno nas fezes — imunoenzimático e imunofluorescência direta — substituíram a microscopia como primeira linha onde existem: o imunoenzimático chega a 95% de sensibilidade e a 98% a 100% de especificidade com uma ou duas amostras, desempenho melhor que o da microscopia com três. A reação em cadeia da polimerase também tem ótimo desempenho. Onde só há microscopia, valem as três amostras em dez dias.

Quando o quadro é típico e os exames repetidos não acham o parasita, a análise do conteúdo duodenal aspirado e a biópsia duodenal ou intestinal fecham o diagnóstico — procedimentos de encaminhamento, não de unidade. Antes disso, duas perguntas de consultório: as amostras foram três, em dias diferentes? E a criança tem, na curva e na história, motivo para seguir investigando?

O mesmo documento lembra que algumas infecções por giárdia são autolimitadas e dispensam tratamento. O cisto achado nas fezes de uma criança com diarreia aguda viral é o exemplo que Diarreia aguda e desidratação dá de tratamento desnecessário.

Hemograma, eosinófilos e imagem

A eosinofilia — acima de 600 por mm³ ou de 6% — é marcador de helminto, não de protozoário. A Sociedade Brasileira de Pediatria dá a frequência com que ela aparece: cerca de 47% na ascaridíase, 78% na tricuríase, 82% na estrongiloidíase e até 60% na ancilostomíase. Eosinófilos normais não afastam verme; eosinófilos altos com giárdia no exame mandam procurar também um helminto. Na ancilostomíase maciça, hemoglobina de 5 g/dL ou menos e ferritina baixa aparecem em parte dos casos, e a investigação da anemia é de Anemia ferropriva na infância.

Na criança com suspeita de obstrução, a radiografia simples de abdome mostra níveis hidroaéreos no delgado, sinais de perfuração e, às vezes, a sombra da massa de vermes contra o ar do intestino, descrita como feixe de charuto ou redemoinho. A ultrassonografia vê os vermes na luz intestinal e é a ferramenta de escolha na ascaridíase hepatobiliar e pancreática, embora a sensibilidade possa ser ruim; na via biliar, o corpo espiralado do verme dá o sinal do olho de boi ou da dupla sonda. A endoscopia digestiva alta identifica áscaris no duodeno, e a colangiopancreatografia retrógrada pode retirá-lo dos ductos.

O interno da unidade não pede nenhum desses exames: pede a transferência. O que lhe cabe é escrever na guia o que viu, para que o hospital não perca horas com a hipótese errada — vômito bilioso, massa palpável, verme eliminado e o peso de hoje.

07

Da criança à receita: quem trata agora, com quê e quanto

Decida primeiro se a criança pode permanecer em cuidado ambulatorial. Depois associe a apresentação ao exame adequado e, quando indicado, ao tratamento específico. As tabelas já reúnem doses, apresentações e cálculos; use-as para conferir a prescrição em vez de repetir um esquema em cada passo. Separe o medicamento da criança das medidas ambientais e da indicação individual de tratar contatos.

  1. 1Vômito bilioso, distensão com parada de fezes e gases ou massa abdominal palpável em criança com áscaris eliminado ou de área de risco: nenhum anti-helmíntico; jejum e transferência para sonda nasogástrica, hidratação venosa, imagem e avaliação cirúrgica.
  2. 2Obstrução por áscaris no hospital: tratamento conservador de 48 a 72 horas; sangramento retal com toxemia, peritonite, perfuração ou falta de resposta indicam cirurgia.
  3. 3Dor em hipocôndrio direito, icterícia ou febre em criança com áscaris: ultrassonografia; jejum, hidratação, analgesia e antibiótico; colangite pede drenagem biliar urgente; anti-helmíntico só depois da remissão.
  4. 4Verme adulto visto, sem sinal de obstrução: albendazol pela idade, sem esperar exame.
  5. 5Prurido anal noturno: verme visto na pele perianal dispensa exame; sem verme visto, fita adesiva em três manhãs seguidas, ao acordar e antes da higiene. Tratamento com dose repetida no 14º dia.
  6. 6Enterobíase com segundo caso na casa ou episódio repetido: todos os moradores tratados no mesmo dia, com a mesma repetição; abaixo de 12 meses, só medidas de higiene.
  7. 7Diarreia de 14 dias ou mais, distensão, flatulência, perda de peso ou curva que achata: parasitológico em três amostras em até dez dias, ou antígeno de giárdia onde houver; com giárdia, metronidazol 15 mg/kg/dia em três tomadas por cinco dias, até 250 mg por tomada.
  8. 8Criança de 1 ano ou mais com palidez palmar, sem anti-helmíntico nos últimos seis meses, em região onde ancilóstomo ou tricocéfalo são problema: ferro e albendazol pela idade, repetido em 15 dias (AIDPI).
  9. 9Disenteria crônica, tenesmo ou prolapso retal em pré-escolar desnutrido: tricuríase maciça até prova em contrário; albendazol 400 mg ao dia por 3 a 7 dias, em três ciclos com 15 dias de intervalo.
  10. 10Criança que vai começar corticoide ou imunossupressor: regra de profilaxia de Esquistossomose e geo-helmintíases (parasitoses intestinais no adulto); ivermectina 200 µg/kg a partir de 15 kg, contados pelo peso de antes do edema; abaixo disso, albendazol pela idade por 3 dias.
  11. 11Idade do albendazol: de 12 a 23 meses, 200 mg (5 mL da suspensão); a partir do segundo aniversário, 400 mg (10 mL ou 1 comprimido mastigável); abaixo de 12 meses, nenhum documento brasileiro deste capítulo fixa dose.
  12. 12Escolares em área de risco: desparasitação coletiva decidida pela vigilância pela positividade local — de 20% a 50%, uma vez ao ano; acima de 50%, duas vezes; abaixo de 20%, só os positivos.
  13. 13Dois ou mais casos de diarreia ligados à mesma creche ou à mesma fonte de água: comunicar à Secretaria Municipal de Saúde assim que se toma conhecimento.

Dose na criança e o que a rede fornece

ParasitaPrimeira escolha na criançaAlternativa e restriçõesO que a Rename 2024 tem
Ascaridíase sem obstruçãoAlbendazol 400 mg em dose única; 200 mg de 12 a 23 mesesIvermectina 150 a 200 µg/kg em dose única, a partir de 15 kg; mebendazol 100 mg duas vezes ao dia por 3 diasAlbendazol 40 mg/mL suspensão e 400 mg comprimido mastigável; ivermectina 6 mg; mebendazol não consta
AncilostomíaseAlbendazol 400 mg em dose única; 200 mg de 12 a 23 mesesMebendazol 100 mg duas vezes ao dia por 3 dias; na anemia pela regra do AIDPI, albendazol repetido em 15 diasAlbendazol nas duas apresentações; o ferro segue Hematologia Pediátrica
TricuríaseAlbendazol 400 mg ao dia por 3 a 7 dias; forma maciça em três ciclos a cada 15 diasIvermectina 200 µg/kg ao dia por 3 dias, a partir de 15 kgAlbendazol e ivermectina 6 mg
EnterobíaseAlbendazol 400 mg em dose única, repetido no 14º dia; 200 mg de 12 a 23 mesesMebendazol 100 mg em dose única repetida em 2 semanas; nada abaixo de 12 mesesAlbendazol; mebendazol e pamoato de pirantel não constam
EstrongiloidíaseIvermectina 200 µg/kg ao dia por 2 dias, a partir de 15 kg, em jejumAlbendazol 400 mg duas vezes ao dia por 7 dias; fezes de controle em 2 a 4 semanas se o sintoma persistirIvermectina 6 mg; tiabendazol não consta
GiardíaseMetronidazol 15 mg/kg/dia em 3 tomadas por 5 dias, até 250 mg por tomadaSecnidazol 30 mg/kg em dose única, até 2 g; tinidazol 50 mg/kg em dose única a partir de 3 anos, até 2 g; albendazol 400 mg ao dia por 5 diasBenzoilmetronidazol 40 mg/mL (25 mg/mL de metronidazol) e metronidazol 250 e 400 mg; secnidazol, tinidazol e nitazoxanida não constam

Conta em mililitros e comprimidos para os pesos deste capítulo

CriançaPrescriçãoContaQuanto dar
Bento, 20 meses, 10 kgMetronidazol 15 mg/kg/dia em 3 tomadas, 5 dias150 mg/dia; 50 mg por tomada ÷ 25 mg/mL2 mL de 8 em 8 horas; 30 mL no curso
Bento, com a suspensão lida como 40 mg/mL de metronidazolA mesma prescrição, com o erro50 mg ÷ 40 = 1,25 mL, que contêm 31 mg62,5% da dose — é o erro a evitar
Samuel, 3 anos, 13 kgMetronidazol, se houver giárdia195 mg/dia; 65 mg por tomada ÷ 25 mg/mL2,6 mL de 8 em 8 horas; 39 mL no curso
Adolescente de 50 kgMetronidazol 15 mg/kg/dia750 mg/dia; 250 mg por tomada, no teto1 comprimido de 250 mg de 8 em 8 horas
Criança de 20 mesesAlbendazol de 12 a 23 meses200 mg ÷ 40 mg/mL5 mL em dose única
Valentina, 5 anos, 18 kgAlbendazol no dia 0 e no 14º dia400 mg ÷ 40 mg/mL10 mL ou 1 comprimido mastigável em cada dia
Manuela, 27 meses, 11 kgAlbendazol pela idadePassou dos 24 meses: 400 mg ÷ 40 mg/mL10 mL em dose única, repetida no 14º dia
Joaquim, 9 anos, 26 kgAlbendazol na ancilostomíaseDose fixa de 400 mg1 comprimido mastigável em dose única
Menino nefrótico, 15 kg antes do edemaIvermectina 200 µg/kg em dose única3.000 µg ÷ 6.000 µg por comprimido½ comprimido de 6 mg, em jejum

Que exame pedir para cada suspeita

SuspeitaO que escrever no pedidoQuantas coletasO que esse caminho não vê
Áscaris, tricocéfalo e ancilóstomoParasitológico por sedimentação espontânea (Hoffman, Pons e Janer ou Lutz); Kato-Katz quando interessa contar ovosTrês amostras em até 10 diasO Kato-Katz não vê protozoário e não serve para fezes diarreicas
AncilóstomoAcrescentar flutuação espontânea (Willis)Três amostras; lâmina de Kato-Katz lida em até 2 horasWillis é método de ovos leves, não de cistos de protozoários
EnterobiusFita adesiva perianal (Graham)Três manhãs seguidas, ao acordar e antes da higieneNas fezes, o ovo quase nunca aparece
StrongyloidesPesquisa de larvas (Baermann-Moraes ou Rugai)Seriado; até sete amostras para a sensibilidade máximaA microscopia comum tem sensibilidade de 16% a 50%
GiárdiaAntígeno nas fezes (imunoenzimático ou imunofluorescência) onde houver; senão, sedimentação ou FaustUma a duas amostras no antígeno; três na microscopiaO hemograma: giárdia não dá eosinofilia

Percursos pela queixa

ApresentaçãoHipótese e investigação útilDecisão associada
Prurido anal noturnoEnterobíase; inspeção e fita adesiva conforme contextoEsquema com repetição programada quando indicada; avaliar conviventes por idade e condição e orientar medidas ambientais.
Eliminação de verme, sem sinais de obstruçãoAscaridíase; identificação e avaliação clínicaTratar quando indicado após conferir idade e esquema. Vômito bilioso, distensão ou parada de eliminação mudam o percurso.
Diarreia persistente, distensão e repercussão no pesoGiardíase entre os diferenciais; exame adequado e avaliação nutricionalConferir o fármaco e a concentração; persistência pede rever adesão, reinfecção e outras causas.
Palidez/anemia em contexto epidemiológico compatívelAncilostomíase e outros diagnósticos; hemograma e investigação da causaTratar a parasitose quando indicada e o déficit nutricional, com avaliação da resposta; não atribuir toda anemia ao parasita.
Imunossupressão prevista ou em cursoConsiderar Strongyloides conforme exposição e riscoInvestigar e manejar com a equipe; o risco não é respondido apenas pelo parasitológico habitual.

Três componentes do plano

ComponenteO que registrarComo avaliar resposta
Tratamento individualIndicação, fármaco, dose em mg, via, frequência, duração e volume após conferir a concentraçãoMelhora da queixa e repercussão clínica; efeitos adversos, adesão e repetição quando prevista.
ContatosQuem foi avaliado, por que tratar ou observar e restrições de idade/condiçãoEvitar prescrição automática para toda a casa sem identificar cada pessoa e a parasitose.
Ambiente e reinfecçãoÁgua, alimentos, mãos, unhas, roupa e saneamento conforme transmissãoPerguntar o que foi possível mudar e quais barreiras exigem apoio; evitar culpa e estigma.

O Manual AIDPI Criança (2016), na seção que manda dar anti-helmíntico à criança com anemia, escreve no cabeçalho do albendazol: apresentação de 40 mg/mL, comprimido de 400 mg, 'dose única: 40 mg/kg/dia'. Logo abaixo, a tabela do mesmo quadro dá 5 mL de 1 a 2 anos e 10 mL acima de 2 anos — 200 e 400 mg. Refeita a conta a 40 mg/kg, a criança de 1 ano e 10 kg receberia 400 mg, o dobro da tabela; a de 2 anos e 12 kg, 480 mg, 2,4 vezes a tabela e acima dos 400 mg do adulto; a de 5 anos e 18 kg, 720 mg, ou 18 mL, 1,8 vez a dose do adulto. O número é a concentração da suspensão escorrida para a coluna da posologia. Os quadros de procedimentos de 2017, que são o instrumento de consultório, não trazem a expressão: prescreve-se pela tabela, não pelo cabeçalho.

A idade da meia dose de albendazol tem três redações em documentos em uso. O Guia Prático das Geo-helmintíases (2018) dá 200 mg a 'menores de 24 meses'; a Tabela 4 da Sociedade Brasileira de Pediatria (2020), 200 mg 'em < 2 anos'; o AIDPI, nos quadros de 2017 e no manual de 2016, dá 5 mL a '1 a 2 anos' e 10 mL a '> 2 anos'. A criança de exatamente 24 meses é '1 a 2 anos' e não é '> 2 anos': 200 mg pelo AIDPI e 400 mg pelos outros dois. Se '1 a 2 anos' for lido como até 2 anos e 11 meses, a divergência cobre um ano inteiro de idade, com dose 2 vezes diferente. No texto do mesmo documento da Sociedade, citando a OMS, a meia dose vai de 12 a 24 meses e a dose cheia de 24 a 60 — os 24 meses nas duas faixas. Esta apostila adota o segundo aniversário como corte: 200 mg de 12 a 23 meses e 400 mg a partir dos 24, que é a leitura do documento federal mais novo e a da tabela da Sociedade.

A suspensão de metronidazol da rede é listada na Rename 2024 como benzoilmetronidazol 40 mg/mL. A bula da suspensão (FURP, versão de 2025, conforme a bula padrão da Anvisa) informa que esses 40 mg de benzoilmetronidazol correspondem a 25 mg de metronidazol. As doses da giardíase no cartaz federal de manejo da diarreia (2023), na Sociedade Brasileira de Pediatria (2020) e no capítulo Diarreia aguda e desidratação, da Gastroenterologia Pediátrica, estão em miligramas de metronidazol, sem a conversão. Conta para Bento, 10 kg: 15 mg/kg/dia são 150 mg, 50 mg por tomada; divididos por 25, dão 2 mL; divididos por 40, dão 1,25 mL, que contêm 31 mg de metronidazol — 62,5% da dose. O erro não mora em nenhum documento isolado: nasce na passagem de um para o outro, e é por ele que a giárdia sobrevive ao tratamento.

O Caderno de Atenção Básica n.º 28, volume II (2013), no quadro de antimicrobianos da diarreia, dá para a giardíase metronidazol 'crianças: 15 mg/kg/dia (máx 250 mg/dia)', duas vezes ao dia por cinco dias, e na mesma célula 'adultos: 250 mg por dose', duas vezes ao dia — 500 mg por dia. O teto diário corta a dose por quilo a partir de 16,7 kg: a criança de 20 kg recebe 12,5 mg/kg/dia; a de 30 kg, 8,3 mg/kg/dia, 56% da dose e metade do que o próprio caderno dá ao adulto; a de 40 kg, 6,2 mg/kg/dia. Na mesma linha, o tinidazol da criança é 'idem ao secnidazol', ou 30 mg/kg, enquanto logo abaixo, no tratamento da amebíase, o caderno dá à criança 50 mg/kg/dia de tinidazol, que é a dose da giardíase na Sociedade Brasileira de Pediatria. O teto de 250 mg que esta apostila usa é por tomada, e vem da dose do adulto do mesmo caderno.

A bula da suspensão de benzoilmetronidazol (FURP, 2025) dá a posologia da giardíase por faixa de idade: 'crianças de 1 a 5 anos: 5 mL, 2 vezes ao dia' e 'crianças de 5 a 10 anos: 5 mL, 3 vezes ao dia', por cinco dias. Com 25 mg de metronidazol por mL, são 250 e 375 mg por dia. A criança de exatamente 5 anos pertence às duas faixas, e a dose muda 1,5 vez pelo dia do aniversário. Pela faixa, o lactente de 1 ano e 10 kg recebe 25 mg/kg/dia, e a criança de 4 anos e 18 kg, 13,9 mg/kg/dia — uma das razões pelas quais esta apostila, no bloco de divergências, prescreve por quilo.

A Tabela 4 da Sociedade Brasileira de Pediatria (2020) dá mebendazol '100 mg, VO, 1x/dia por 3 dias' para ascaridíase e ancilostomíase, e uma vez ao dia por 3 a 7 dias para tricuríase. O Guia Prático das Geo-helmintíases (2018) e o AIDPI dão 100 mg duas vezes ao dia por três dias. O curso da tabela soma 300 mg; o dos documentos federais, 600 mg — metade. O mebendazol não consta da Rename 2024, e a família que o compra por essa tabela leva para casa meio tratamento; esta apostila prescreve pelos documentos federais.

Na estrongiloidíase, a mesma Sociedade dá o albendazol de segunda linha com duas durações: '400 mg, VO, 2x/dia, 10-14 dias' na Tabela 4 e 'duas vezes ao dia por 7 dias' no texto da seção — 5,6 g contra 8 a 11,2 g de albendazol. A ivermectina tem o mesmo desencontro: 'por 2 dias' na tabela e 'dose única... por 1-2 dias' no texto. Esta apostila adota ivermectina por 2 dias, que cabe nas duas redações, e albendazol por 7 dias, do texto, porque é o texto que manda repetir o exame de fezes em 2 a 4 semanas e retratar se as larvas reaparecerem — o que corrige um curso que tenha sido curto.

Para a enterobíase, a nota da Tabela 4 da Sociedade Brasileira de Pediatria manda tratar 'todos os indivíduos da mesma residência acima de 6 meses de idade'; o texto da seção, no mesmo documento, recomenda tratar todos ao mesmo tempo 'nos domicílios onde mais de um membro está infectado ou onde ocorrem repetidas infecções sintomáticas'. A linha da enterobíase dá albendazol 400 mg sem o ajuste de 200 mg abaixo de 2 anos que as linhas de ascaridíase e ancilostomíase trazem: um bebê de 8 meses tratado pela nota receberia o dobro da dose que a própria tabela dá abaixo dos 2 anos, numa idade que os documentos federais não incluem. Esta apostila adota o texto — casa inteira com segundo caso ou repetição — e não prescreve albendazol abaixo de 12 meses, que é onde começa a estratégia no Guia Prático e no AIDPI. A escolha é desta apostila: as duas regras são do mesmo documento.

Na Tabela 5 da Sociedade Brasileira de Pediatria, a giardíase traz tinidazol '≥3 anos 50 mg/kg, dose única' e secnidazol '30 mg/kg, dose única', sem teto; na linha da amebíase da mesma tabela, os dois têm teto: '2 g ou 50 mg/kg' e '2 g ou 30 mg/kg'. Sem o teto, o tinidazol passa dos 2 g do adulto a partir de 40 kg — o escolar de 45 kg receberia 2.250 mg — e o secnidazol, a partir de 66,7 kg. O Caderno de Atenção Básica n.º 28 escreve o teto de 2 g no secnidazol da criança. O documento científico de Pediatria Ambulatorial da mesma Sociedade, de setembro de 2020, dá o secnidazol da giardíase à noite por dois dias, o dobro da dose única dos outros dois; esta apostila fica com a dose única, do documento mais novo e do Caderno. Nenhum dos dois fármacos consta da Rename 2024; quando forem a escolha, a receita sai com o teto.

O Guia de Vigilância em Saúde (6ª edição revisada, 2024), no tratamento da obstrução intestinal por ascaridíase, descreve a tentativa de paralisar os vermes com piperazina, o laxante salino e a massagem do abdome antes da cirurgia. A piperazina tem zero ocorrências na Rename 2024, no índice e no texto bruto, e os dois documentos de 2020 da Sociedade Brasileira de Pediatria a dão como fora do mercado — o guia prático de atualização, retirada pela Anvisa em 1999 por toxicidade; o documento científico de Pediatria Ambulatorial, descontinuada desde 2012. A data diverge; a conclusão, não: o passo que o guia federal de 2024 descreve não se executa no Brasil. O capítulo federal também não traz dose pediátrica nem idade mínima para fármaco nenhum. A conduta da obstrução que esta apostila adota, e o porquê, está no bloco de divergências.

O corte da frequência do tratamento coletivo nas escolas tem três redações. O Guia Prático (2018) usa alto risco '> 50%', moderado '> 20% e < 50%' e baixo '< 20%', deixando 20% e 50% exatos sem classe — lacuna já registrada em Esquistossomose e geo-helmintíases (parasitoses intestinais no adulto). O Guia de Vigilância (2024) fecha as lacunas com '≥ 20% ≤ 50%' para uma vez ao ano e '> 50%' para duas. A Sociedade Brasileira de Pediatria (2020) usa '≥ 50%' para alto risco. Uma escola com positividade de 50,0% recebe, portanto, nenhuma ordem, uma dose anual ou duas, conforme o documento. Esta apostila segue o Guia de Vigilância, o mais novo e o que é norma de programa.

08

A conduta, hora a hora

Toda prescrição deste bloco sai com três números: a dose por quilo ou por idade, o teto e o volume ou o número de comprimidos da apresentação que a rede tem. A Rename 2024 oferece quatro fármacos para as parasitoses intestinais da criança, todos no Componente Básico: albendazol em suspensão de 40 mg/mL e em comprimido mastigável de 400 mg, este também no Estratégico; ivermectina em comprimido de 6 mg; metronidazol em comprimidos de 250 e 400 mg; e benzoilmetronidazol em suspensão de 40 mg/mL, que equivale a 25 mg/mL de metronidazol. Mebendazol, secnidazol, tinidazol, nitazoxanida, pamoato de pirantel, piperazina e tiabendazol não constam; quando um deles for a escolha, a receita diz que é compra.

A régua brasileira de cada decisão, e desde quando. O anti-helmíntico das geo-helmintíases segue o Guia Prático para o Controle das Geo-helmintíases, de 2018, que o Guia de Vigilância em Saúde de 2024 cita como referência: albendazol 400 mg em dose única, meia dose abaixo dos 24 meses, estratégia a partir de 1 ano. O anti-helmíntico da criança com anemia segue os quadros do AIDPI, de 2017. A dose de metronidazol na giárdia segue o cartaz federal Manejo do Paciente com Diarreia, de 2023, pelo desempate do bloco de divergências. Para a enterobíase e para a obstrução por áscaris, a régua em uso é a da Sociedade Brasileira de Pediatria, de 2020: nenhum dos documentos federais deste capítulo dá conduta para a primeira, e o único parágrafo federal sobre a segunda depende de um fármaco retirado do mercado.

Os marcos seguem as crianças em ordem de gravidade, e não uma criança só do começo ao fim: Heitor do posto até a alta, depois Valentina, Bento, Joaquim e a irmã, e por fim a criança que vai tomar corticoide e a escola.

  1. Minuto 0 a 30 — Heitor, na unidade: separar a criança obstruída da criança com verme

    A decisão da manhã não é de dose: é de lugar. Vômito bilioso, distensão, dois dias sem evacuar e massa palpável fazem de Heitor uma suspeita de suboclusão por áscaris, e a suboclusão não se trata na unidade. O albendazol que a mãe veio buscar fica para depois, e a razão é dita a ela com as palavras do bloco de conversa. A via oral está contraindicada — o Caderno de Atenção Básica n.º 28 põe a distensão abdominal grave e o íleo entre as contraindicações da reidratação oral —, e a criança fica em jejum. Se a unidade tiver acesso venoso e soro, a hidratação começa ali; se não tiver, a transferência não espera o acesso. A guia leva o que o hospital precisa para não recomeçar do zero: o verme no pote, o vômito verde, a massa, o peso de hoje e o da caderneta. O irmão de 7 anos não recebe vermífugo por telefone: é examinado no retorno.

    Prescrição
    • Jejum a partir de agora: nada pela boca, nem água, nem o vermífugo
    • Não administrar albendazol, ivermectina, laxante nem óleo mineral na unidade
    • Se houver acesso venoso: soro fisiológico 0,9% com volume pelo grau de desidratação — a desidratação grave pelo plano C de Diarreia aguda e desidratação (Gastroenterologia Pediátrica) —, sem atrasar a transferência
    • Transferência para hospital com cirurgia de referência, levando o verme no pote e a guia com vômito bilioso, massa palpável, 16 kg hoje e 16,6 kg há quatro meses
  2. Hora 1 a 6 — no hospital: descomprimir, hidratar e chamar a cirurgia na entrada

    No pronto-socorro, a sequência é a da obstrução de qualquer causa, com volumes de criança. A sonda nasogástrica aberta tira o líquido e o ar que distendem a alça e, com o débito anotado, vira o principal parâmetro de reavaliação. A hidratação venosa corrige o que a criança perdeu e mantém o que ela gastaria em jejum; a solução e o volume de manutenção da criança em jejum à espera de decisão cirúrgica estão em Invaginação/intussuscepção intestinal do lactente, e a fisiologia da obstrução e a prova terapêutica não operatória, com parâmetros de adulto, em Obstrução intestinal (delgado x cólon, brida, volvo), da apostila de Urgência e Emergência Cirúrgica. A radiografia simples e a ultrassonografia confirmam o bolo e procuram perfuração. A cirurgia é chamada na admissão, e não quando o tratamento conservador falhar: é ela quem decide se há volvo, isquemia ou perfuração, e cada hora de chamada tardia é uma hora de alça comprimida.

    Prescrição
    • Sonda nasogástrica em drenagem aberta; anotar volume e aspecto a cada 6 horas
    • Hidratação venosa de manutenção pelo peso, com reposição do que a sonda drena, pela régua da criança em jejum de Invaginação/intussuscepção intestinal do lactente (Cirurgia Pediátrica)
    • Radiografia simples de abdome e ultrassonografia abdominal
    • Avaliação da cirurgia na admissão
    • Nenhum anti-helmíntico enquanto houver obstrução
  3. Hora 6 a 72 — o tratamento conservador e o que faz operar

    A Sociedade Brasileira de Pediatria descreve, para a obstrução subaguda por áscaris, um tratamento conservador de 48 a 72 horas: hidratação venosa, aspiração nasogástrica e óleo mineral de 15 a 30 mL a cada duas horas, para lubrificar a luz e ajudar a eliminação dos vermes. O documento científico de Pediatria Ambulatorial da mesma Sociedade, também de 2020, diz a via: o óleo mineral entra pela sonda nasogástrica até sair pelo reto, e só depois da eliminação dos vermes se trata a parasitose. Como a mesma sonda descomprime, o intervalo entre dar o óleo e voltar a aspirar se combina com a cirurgia — nenhum dos dois documentos o fixa — e esta apostila não dá óleo pela boca a criança que ainda vomita. Sem resolução, o mesmo documento menciona o enema de solução salina hipertônica, que rompe o bolo e desloca os vermes para o cólon, e o contraste hiperosmolar diluído, de 15 a 30 mL com duas vezes o volume de água na criança e três vezes no lactente — procedimentos decididos com a cirurgia. A indicação cirúrgica, pela mesma fonte, é sangramento retal com toxemia ou falta de resposta ao tratamento clínico; sinais de peritonite ou de perfuração a antecipam.

    Prescrição
    • Reavaliação a cada 6 horas: distensão, débito e cor da sonda, vômito, flatos, fezes e vermes eliminados, dor à palpação, temperatura e frequência cardíaca
    • Óleo mineral 15 a 30 mL a cada 2 horas pela sonda nasogástrica, até sair pelo reto (Sociedade Brasileira de Pediatria), com o intervalo de aspiração combinado com a cirurgia
    • Sem resolução: enema de solução salina hipertônica ou contraste hiperosmolar diluído, decididos com a cirurgia
    • Cirurgia se sangramento retal com toxemia, peritonite, perfuração ou ausência de resposta em 48 a 72 horas
  4. Dia 3 — obstrução resolvida: o albendazol que esperou

    Heitor eliminou gases na noite do segundo dia e, na manhã seguinte, fezes com vários vermes. A sonda drena pouco, a barriga está mole e ele pede comida. É o momento do anti-helmíntico: a Sociedade Brasileira de Pediatria, na ascaridíase das vias biliares e do pâncreas, manda iniciá-lo depois da remissão dos sintomas agudos, e esta apostila aplica a mesma lógica ao intestino que acabou de destravar. Albendazol 400 mg, porque ele tem mais de 2 anos, com alimento, como a mesma fonte orienta. A mãe é avisada de que mais vermes podem sair nos dias seguintes e de que isso é o tratamento funcionando. Antes da alta, a curva: 16 kg, 600 g abaixo de quatro meses atrás. A perda é pequena e explicada, mas entra no retorno; desnutrição confirmada tem a conduta de Desnutrição energético-proteica: marasmo e kwashiorkor, manejo do desnutrido grave, da apostila de Nutrologia Pediátrica.

    Prescrição
    • Albendazol 40 mg/mL: 10 mL (400 mg) por via oral, dose única, com alimento — depois de flatos, fezes e ausência de vômito
    • Dieta pela aceitação
    • Orientar que vermes podem sair nas fezes nos próximos dias
    • Alta com retorno na unidade em 7 dias: peso na caderneta, abdome e exame do irmão de 7 anos
  5. Dia 0 e dia 14 — Valentina, a menina que acorda coçando

    Valentina Taborda tem 5 anos e 18 kg e acorda coçando o ânus e a vulva há três semanas. Duas noites atrás, a mãe, Silvana, viu com a lanterna do celular um fio branco se mexendo na pele perianal. O exame mostra escoriações perianais e vulvares, hiperemia de vulva e pouco corrimento esbranquiçado, sem sangramento, laceração, úlcera, verruga, hematoma ou equimose; a história explica o que se vê, e a menina está bem na curva e em dia com a vacina. O verme foi visto: a fita adesiva é dispensável, e o tratamento começa hoje. Albendazol 400 mg em dose única e a segunda dose no 14º dia, escrita na mesma receita — a segunda mata os vermes que nascerem dos ovos que a primeira não alcança. Na casa moram o pai, a mãe, um irmão de 8 anos sem queixa e um bebê de 9 meses. É o primeiro episódio e ela é a única com sintoma: pela regra que esta apostila adota (notas do critério), todos se tratam ao mesmo tempo quando houver um segundo caso ou repetição; hoje, a casa inteira faz as medidas de higiene. Corrimento que persiste depois do tratamento, ou qualquer lesão que a coceira não explica, leva a avaliação para Violência e maus-tratos infantis.

    Prescrição
    • Albendazol 40 mg/mL: 10 mL (400 mg) por via oral, dose única, com alimento — hoje
    • Albendazol 40 mg/mL: 10 mL (400 mg) no 14º dia — na mesma receita
    • Unhas curtas; lavar as mãos ao acordar, depois do banheiro e antes de comer; banho de manhã
    • Roupas pessoais e de cama lavadas em água quente ou passadas com ferro quente
    • Retorno no 14º dia, com a pergunta: alguém mais na casa coça?
  6. Dia 0 a 5 — Bento, a diarreia da creche e o metronidazol em mililitros

    Bento Lamego tem 1 ano e 8 meses, pesa 10 kg e frequenta creche. Há três semanas as fezes são amolecidas, volumosas e de cheiro forte, várias vezes ao dia, com distensão e gases; ele come menos e, na caderneta, o peso parou há dois meses. Não há desidratação, sangue nas fezes nem palidez. Pela diarreia de mais de 14 dias, o parasitológico foi pedido em três amostras, e a segunda veio com cistos de Giardia lamblia. A prescrição segue o desempate do bloco de divergências: metronidazol 15 mg/kg/dia em três tomadas por cinco dias — 150 mg por dia, 50 mg por tomada. A suspensão da Rename tem 40 mg/mL de benzoilmetronidazol, que equivalem a 25 mg/mL de metronidazol: 2 mL por tomada, e não 1,25 mL. O tinidazol só vale a partir de 3 anos e o secnidazol está fora da rede; nenhum dos dois serve para Bento hoje. A creche é avisada, e outro caso na mesma turma transforma a situação em suspeita de surto, comunicada à Secretaria Municipal de Saúde. Pela orientação do documento científico de Pediatria Ambulatorial da Sociedade, a criança com diarreia por giárdia fica longe de piscina, lago e rio até duas semanas depois do fim dos sintomas.

    Prescrição
    • Benzoilmetronidazol 40 mg/mL (equivale a 25 mg/mL de metronidazol): 2 mL por via oral de 8 em 8 horas por 5 dias — 50 mg por tomada, 15 mg/kg/dia
    • Medir com seringa dosadora; o curso inteiro usa 30 mL
    • Manter a alimentação e oferecer soro de reidratação oral após cada evacuação líquida
    • Avisar a creche; comunicar à Secretaria Municipal de Saúde se houver outro caso ligado
    • Retorno em 7 dias para evacuações e peso, e em 30 dias para a curva
  7. Dia 0 e dia 15 — Joaquim e a irmã: o verme que sangra

    Joaquim Bacelar tem 9 anos e 26 kg, mora na zona rural com a avó, Rosalina, e brinca descalço no terreiro onde a família também planta. Veio pela palidez e porque come terra. A anemia microcítica e o ferro seguem Anemia ferropriva na infância; o parasitológico, pedido por aquela régua pela área de saneamento precário, veio com ovos de ancilostomídeo. Para Joaquim, albendazol 400 mg em dose única. A irmã, de 3 anos, tem palidez palmar e nunca recebeu vermífugo: a regra do AIDPI — criança de 1 ano ou mais, com anemia, sem dose nos últimos seis meses, em região onde ancilóstomo é problema — dá o anti-helmíntico sem esperar exame, com repetição em 15 dias, junto com o ferro. A dose dela é a cheia, porque já passou dos 24 meses. O terreiro é problema da casa inteira: o calçado para brincar e trabalhar na terra e o destino das fezes entram na orientação tanto quanto o comprimido.

    Prescrição
    • Joaquim, 26 kg: albendazol 400 mg, 1 comprimido mastigável, dose única, com alimento
    • Irmã de 3 anos: albendazol 40 mg/mL, 10 mL (400 mg) em dose única hoje e repetição no 15º dia (AIDPI)
    • Ferro para os dois pela régua de Anemia ferropriva na infância (Hematologia Pediátrica)
    • Calçado fechado para brincar e trabalhar na terra; banheiro ou fossa em uso por todos da casa
  8. Antes do corticoide e na escola — Strongyloides e desparasitação coletiva

    Um menino de 4 anos com síndrome nefrótica pesava 15 kg antes do edema e vai começar prednisolona. Quem recebe profilaxia de estrongiloidíase antes da imunossupressão, e com que esquema no adulto, é de Esquistossomose e geo-helmintíases (parasitoses intestinais no adulto); a Sociedade Brasileira de Pediatria acrescenta, para a criança que vai receber corticoide em dose alta ou prolongada, avaliar o risco e tratar com ivermectina antes de começar. O que muda na criança é o peso mínimo: a mesma fonte registra que a segurança da ivermectina não está estabelecida abaixo de 15 kg. Criança edemaciada tem peso que engana, e esta apostila conta o peso de antes do edema para decidir o piso. A 200 µg/kg, 15 kg dão 3 mg — meio comprimido de 6 mg, em jejum, com água. Abaixo de 15 kg, esta apostila usa o albendazol na dose da idade por três dias, adaptação do esquema do adulto e não texto de fonte. As fezes com pesquisa de larvas são colhidas, mas a primeira dose de prednisolona não espera o resultado. Na escola, a desparasitação coletiva é da vigilância e da equipe da atenção básica, com dose supervisionada de albendazol 400 mg pela positividade dos escolares. Fora dessas situações e sem anemia, a criança não recebe vermífugo de rotina: nenhum dos documentos deste capítulo o prescreve.

    Prescrição
    • Menino nefrótico, 15 kg antes do edema: ivermectina 6 mg, ½ comprimido (3 mg, 200 µg/kg) por via oral em jejum, dose única, antes da prednisolona
    • Peso de antes do edema menor que 15 kg: albendazol pela idade (400 mg a partir dos 24 meses) uma vez ao dia por 3 dias — adaptação desta apostila
    • Fezes com pesquisa de larvas (Baermann-Moraes ou Rugai) antes do corticoide, sem adiar a primeira dose
    • Escolares com positividade de 20% a 50%: albendazol 400 mg supervisionado, dose única, uma vez ao ano; acima de 50%, duas vezes (Guia de Vigilância em Saúde, 2024)
09

Como saber se está funcionando

No retorno, compare a queixa que motivou o tratamento, a ingestão, o peso e os efeitos adversos. Exame de controle depende do agente e da evolução; não é obrigatório para toda criança nem dispensável em toda persistência. Se os sintomas continuam, reveja administração, dose, reinfecção, resistência quando pertinente e diagnósticos alternativos antes de repetir empiricamente o mesmo medicamento.

Quando o esquema exigir repetição, marque a data e explique a finalidade. A segunda dose na enterobíase e a reavaliação de anemia respondem a problemas diferentes; não use uma data de retorno como receita universal para todas as parasitoses. A resposta hematológica e nutricional precisa de acompanhamento próprio.

Obstrução por áscaris: sonda, abdome e eliminaçõesA cada 6 horas nas primeiras 72 horas

Esperado: Débito da sonda caindo, abdome menos distendido, flatos, fezes e vermes eliminados, fim do vômito

Se não melhora: Sangramento retal com toxemia, peritonite ou nenhuma melhora em 48 a 72 horas: cirurgia. Febre com icterícia ou dor em hipocôndrio direito: migração biliar, ultrassonografia e drenagem urgente se houver colangite.

Enterobíase: prurido noturno na criança e na casaNo 14º dia, antes da segunda dose, e duas semanas depois dela

Esperado: Sono sem coceira desde a primeira semana; nenhum outro morador coçando

Se não melhora: Coceira que volta é reinfecção até prova em contrário, na casa ou na escola: repetir o mesmo esquema e tratar todos os moradores no mesmo dia. Corrimento ou lesão genital que o prurido não explica: avaliação de violência.

Giardíase: evacuações e pesoEm 7 dias e em 30 dias

Esperado: Fezes normalizando na primeira semana; peso voltando a subir na caderneta em até 30 dias

Se não melhora: Pensar em reinfecção (creche, casa, água), tratamento insuficiente, resistência ou imunossupressão; repetir o exame, dar segundo curso na reinfecção e trocar de classe na resistência. Giárdia que volta de novo: sinais de alerta de imunodeficiência.

Ancilostomíase: resposta da anemiaNos retornos da régua do ferro de Hematologia Pediátrica

Esperado: Hemoglobina subindo com o ferro depois do vermífugo; criança deixando de comer terra

Se não melhora: Anemia que não responde: novo parasitológico em três amostras e a investigação de perda do capítulo de anemia ferropriva, antes de aumentar o ferro.

Estrongiloidíase: pesquisa de larvasDe 2 a 4 semanas depois do tratamento, se o exame era positivo e o sintoma persiste

Esperado: Pesquisa de larvas negativa e sintoma resolvido

Se não melhora: Larvas de novo: retratar. Sob corticoide, com febre, sintomas respiratórios ou sepse: hiperinfecção, internação e ivermectina diária até exames negativos.

Tricuríase maciça: disenteria, prolapso e crescimentoA cada ciclo de 15 dias, nos três ciclos

Esperado: Fim do sangue nas fezes e do tenesmo, prolapso que não se repete, ganho de peso e de estatura

Se não melhora: Disenteria que persiste depois dos ciclos: reexaminar a mucosa retal e as fezes e voltar ao diferencial da disenteria em Diarreia aguda e desidratação.

Crescimento na caderneta, em qualquer parasitoseEm toda consulta de retorno até voltar ao canal

Esperado: Peso e altura retomando o canal anterior

Se não melhora: Curva que continua a achatar depois do tratamento certo: desnutrição pela régua de Nutrologia Pediátrica e investigação de má absorção, que não se resolve com mais vermífugo.

10

Onde o erro machuca

Dar albendazol à criança que vomita verde, distende e tem massa palpável

O dano: A morte maciça de vermes num intestino já ocluído pode inflamar a parede e levar a necrose e perfuração; a transferência atrasa enquanto se espera o remédio agir.

Como pegar a tempo: Examine o abdome antes de prescrever. Vômito bilioso, parada de fezes e gases ou massa: jejum, sonda, soro e hospital. O vermífugo vem depois que o intestino destrava.

Calcular a suspensão de metronidazol como se tivesse 40 mg/mL de metronidazol

O dano: Os 40 mg/mL são de benzoilmetronidazol e equivalem a 25 mg/mL de metronidazol: a criança recebe 62,5% da dose, a giárdia sobrevive e a diarreia vira falha de tratamento.

Como pegar a tempo: Divida a dose em miligramas de metronidazol por 25. Regra de bolso para 15 mg/kg/dia em três tomadas: 0,2 mL por quilo por tomada.

Pedir parasitológico de fezes para investigar coceira anal

O dano: O ovo do oxiúro fica na pele e raramente aparece nas fezes: o exame vem negativo, a família conclui que não é verme e a coceira continua.

Como pegar a tempo: Trate quando o verme foi visto; se não foi, peça a fita adesiva em três manhãs seguidas, ao acordar e antes da higiene.

Dar a dose única de albendazol na enterobíase e não marcar a segunda

O dano: Os ovos que a primeira dose não alcança viram vermes adultos e a coceira volta em semanas, com a casa reinfectada.

Como pegar a tempo: Escreva as duas datas na mesma receita — hoje e o 14º dia — e trate todos os moradores juntos quando houver segundo caso ou repetição.

Prescrever antiparasitário que a rede não fornece sem dizer que é compra

O dano: Mebendazol, secnidazol, tinidazol, nitazoxanida e pamoato de pirantel não constam da Rename 2024: a família sai sem o remédio ou compra o que não pode, e o tratamento não acontece.

Como pegar a tempo: Prescreva pelo que existe — albendazol, ivermectina e metronidazol. Quando a alternativa for necessária, escreva que é compra, a dose e o teto.

Tratar a parasitose de repetição como descuido da família

O dano: A culpa afasta a família do seguimento numa casa que precisa de água e esgoto; e, no outro extremo, uma negligência real passa sem ser vista porque ninguém olhou o resto.

Como pegar a tempo: Pergunte pela água, pelo banheiro e pelo calçado antes de julgar. Negligência se lê no conjunto — vacina, crescimento, seguimento, demora em buscar ajuda — pela régua de Violência e maus-tratos infantis.

11

O que dizer ao paciente e à família

Três conversas deste capítulo mudam o que acontece depois da consulta. A primeira é com Luzinete, que veio buscar um remédio e vai sair com o filho encaminhado ao hospital: ela precisa entender por que o vermífugo espera, sem ouvir que errou. A segunda é com Silvana, que tem vergonha de uma doença que associa a sujeira e precisa receber, com a mesma tranquilidade, a pergunta sobre quem cuida da filha. A terceira é com Jandira, mãe de Bento, que vai medir 2 mL três vezes ao dia durante cinco dias e precisa sair sabendo medir.

Em todas elas, água, esgoto e calçado são assunto de saúde pública antes de serem assunto de higiene doméstica. A parasitose de repetição aparece entre os sinais de negligência de Violência e maus-tratos infantis, e é por isso mesmo que ela não se lê sozinha: numa casa sem banheiro, a repetição é saneamento; a negligência se reconhece no conjunto — vacina, crescimento, seguimento, demora em procurar ajuda.

Quando a criança tem idade para entender, ela participa. A menina de 5 anos pode ouvir que o bichinho sai à noite e que a unha curta ajuda a não levá-lo de volta à boca. Nome de doença que envergonha se troca por explicação do ciclo.

Luzinete pede o vermífugo e ouve que o filho vai para o hospital

Dona Luzinete, a senhora fez muito bem em trazer o Heitor e trazer o bicho no pote, porque ele me ajudou a entender o que está acontecendo. Pela barriga dele, eu acho que tem muitas lombrigas juntas, enroladas, fechando o intestino. Se eu der o remédio agora, elas morrem todas de uma vez lá dentro, e isso pode machucar o intestino. Por isso ele vai primeiro para o hospital: vai ficar sem comer por um tempo, receber soro na veia e uma sonda pelo nariz para aliviar a barriga. O remédio de verme vem depois, quando o intestino destravar, e eu vou escrever isso na guia.

Não diga: Dizer que é só verme e dar o albendazol para acalmar a mãe, deixando o encaminhamento para depois.

Luzinete pergunta, com culpa, se foi a água do poço

Pode ter sido a água, pode ter sido a terra onde ele brinca, pode ter sido uma fruta ou uma verdura mal lavada: o ovo dessa lombriga fica na terra e chega à boca pela mão. Não é descuido da senhora; é o jeito que esse verme vive, e ele aparece onde falta esgoto e água tratada. Em casa dá para ferver ou filtrar a água de beber, lavar as mãos dele antes de comer e depois do banheiro, e lavar bem o que se come cru. O que é do bairro eu levo para a equipe.

Não diga: Dizer que precisa ter mais higiene com o menino — frase que culpa e não ensina nada.

Luzinete pergunta se o irmão de 7 anos também precisa tomar

Ele não precisa tomar só porque o Heitor teve; eu prefiro ver o irmão antes. Traga ele no retorno do Heitor, na semana que vem. Se ele estiver pálido, magro, com dor de barriga ou se a senhora vir verme nas fezes dele, a gente trata. E, se a escola dele fizer a campanha do vermífugo, ele toma lá.

Não diga: Receitar vermífugo para a família inteira sem ver ninguém, ou dizer que o irmão está livre sem examiná-lo.

Silvana, mãe de Valentina, pergunta com vergonha se é sujeira

Esse verme não escolhe casa limpa ou suja. Ele passa muito fácil de uma pessoa para outra: de noite a fêmea sai para botar os ovos em volta do ânus, isso coça, a criança coça dormindo, o ovo fica na unha e volta para a boca. Acontece em creche, em escola, em qualquer família. O tratamento é simples: uma dose hoje e outra daqui a 14 dias, para pegar os vermes que nascerem dos ovos que sobraram.

Não diga: Tratar a coceira como falta de banho, ou passar pomada e dispensar a família.

Silvana pergunta se trata a casa inteira, inclusive o bebê de 9 meses

Por enquanto só a Valentina toma o remédio, e a casa inteira faz a parte dos cuidados: unha curta, mão lavada ao acordar e depois do banheiro, roupa de cama e pijama lavados em água quente ou passados com ferro quente. Se mais alguém começar a coçar, ou se a coceira dela voltar, aí todo mundo com mais de 1 ano toma junto, no mesmo dia. O bebê fica só com os cuidados, porque nessa idade eu não dou esse remédio.

Não diga: Prometer que um comprimido para todos resolve, ou medicar o bebê numa idade em que nenhum documento deste capítulo fixa dose.

O interno precisa perguntar sobre violência sem acusar

Dona Silvana, eu vou fazer umas perguntas que faço para todas as famílias quando examino essa região, não por desconfiar da senhora. Quem cuida da Valentina quando a senhora não está? Ela reclamou de dor para fazer xixi, de alguém ter mexido nela, ou mudou o jeito de se comportar? O que eu vi hoje combina com o verme, mas essas perguntas eu faço sempre, porque é a minha obrigação com ela.

Não diga: Nunca perguntar, ou perguntar em tom de acusação e com a criança ouvindo.

Jandira, mãe de Bento, estranha o remédio de 8 em 8 horas e a medida

O remédio da vizinha era para lombriga; o do Bento é para outro bichinho, a giárdia, que não é verme e não morre com aquele remédio. São 2 mL de 8 em 8 horas, por 5 dias. Eu vou mostrar na seringa onde fica o 2, porque é pouco para medir no copinho que vem com o frasco. E a creche precisa saber, porque essa diarreia passa de uma criança para outra.

Não diga: Dizer meio copinho, ou deixar a mãe calcular a dose pela bula.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A criança brasileira ainda precisa de vermífugo coletivo?

Tratamento coletivo pela prevalência local — Ministério da Saúde, Guia Prático (2018) e Guia de Vigilância em Saúde (2024)

O Guia Prático manda levantar a prevalência nas escolas e tratar em dose única supervisionada os escolares de 5 a 14 anos, uma vez ao ano com prevalência moderada e duas com alta, estendendo a medida, conforme a situação, a crianças a partir de 1 ano, pré-escolares e mulheres em idade fértil. O Guia de Vigilância de 2024 repete o algoritmo por positividade dos escolares e atribui o tratamento coletivo às equipes das unidades básicas.

Brasil. Ministério da Saúde. Guia Prático para o Controle das Geo-helmintíases, 2018, seções 6 e 7; Guia de Vigilância em Saúde, v. 2, 6. ed. rev., 2024, capítulo Geo-helmintíases, Figura 1.

País fora da situação endêmica desde 2016 — Sociedade Brasileira de Pediatria (2020)

O guia prático de atualização dos departamentos de Gastroenterologia e de Infectologia afirma que o Brasil saiu da situação endêmica das helmintíases transmitidas pelo solo em 2016 e não precisa mais de administração em massa de anti-helmínticos, estando em vigilância para manter a infecção abaixo dos limiares — e, no mesmo documento, estima 9,3 milhões de pré-escolares e escolares candidatos à quimioterapia profilática.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Parasitoses intestinais: diagnóstico e tratamento. Guia Prático de Atualização n.º 7, nov. 2020, seção de estratégias coletivas.

Como decidir

Esta apostila adota a régua do Ministério. Degrau 1, escopo: a decisão de tratar uma escola é de programa, e os dois documentos federais foram escritos para ela; a frase da Sociedade descreve o país, não a escola do bairro. O degrau 2 confirma: o Guia de Vigilância é de 2024. Para a criança à sua frente, isso quer dizer duas coisas. Ela não recebe vermífugo porque é época: recebe quando tem indicação individual — verme visto, anemia pela regra do AIDPI, exame positivo. E a escola dela entra em tratamento coletivo quando o levantamento local der positividade de 20% ou mais, o que ainda acontece em bairros e municípios sem saneamento, por mais que a média nacional tenha caído. A própria Sociedade, ao estimar milhões de crianças candidatas, confirma que a média não descreve todos os lugares. O lado perdedor fica registrado porque a frase circula e pode ser usada para cancelar uma ação escolar que o levantamento local justifica.

A criança obstruída por áscaris: paralisar os vermes ou descomprimir e esperar?

Piperazina, laxante salino e massagem abdominal — Guia de Vigilância em Saúde (2024)

Nos casos de obstrução intestinal por ascaridíase, o guia federal descreve a tentativa de paralisar os vermes com piperazina, o uso de laxante salino e a massagem do abdome, com cirurgia para a remoção mecânica do bolo de áscaris quando necessário, e cita a Organização Pan-Americana da Saúde (2018).

Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, v. 2, 6. ed. rev., 2024, capítulo Geo-helmintíases, seção Tratamento.

Sonda, soro e óleo mineral por 48 a 72 horas, sem ascaricida — Sociedade Brasileira de Pediatria (2020)

Para a obstrução subaguda: hidratação venosa e aspiração nasogástrica por 48 a 72 horas, óleo mineral de 15 a 30 mL a cada 2 horas, cautela com ascaricida durante a obstrução, enema de salina hipertônica ou contraste hiperosmolar se não houver resolução, e cirurgia com sangramento retal e toxemia ou falta de resposta. Registra que o citrato de piperazina foi retirado do mercado pela Anvisa em 1999, por toxicidade; o documento científico de Pediatria Ambulatorial, do mesmo ano, dá a piperazina como descontinuada desde 2012 e manda o óleo mineral pela sonda nasogástrica até sair pelo reto.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Parasitoses intestinais: diagnóstico e tratamento. Guia Prático de Atualização n.º 7, nov. 2020, seção Ascaridíase; e Parasitoses intestinais, Documento Científico n.º 4, Departamento de Pediatria Ambulatorial, set. 2020, quadro de antiparasitários.

Como decidir

Esta apostila adota a Sociedade Brasileira de Pediatria. Degrau 1, escopo: é o único dos dois documentos escrito para a criança, e a obstrução por bolo de áscaris é doença de criança. O degrau 3 daria vitória à norma federal, mas cai no degrau 4: o passo central do guia de 2024 depende de um fármaco que a Rename 2024 não lista e que os dois documentos pediátricos de 2020 dão como fora do mercado — conduta que não se executa não governa paciente, e o defeito está nas notas do critério. Para Heitor: jejum, sonda aberta, soro, imagem e cirurgia chamada na admissão; óleo mineral pela sonda, com o intervalo de aspiração combinado com a cirurgia; albendazol só depois que o intestino destravar. O laxante salino por via oral e a massagem do abdome do guia federal não entram na prescrição desta apostila.

Metronidazol na giardíase: por quilo ou por faixa de idade?

15 mg/kg/dia em três tomadas — Manejo do Paciente com Diarreia (Ministério da Saúde, 2023) e Sociedade Brasileira de Pediatria (2020)

O cartaz federal dá metronidazol na dose de 15 mg/kg/dia, repartida em três tomadas, durante cinco dias, sem teto; a Sociedade Brasileira de Pediatria dá a mesma dose, três vezes ao dia, por cinco a sete dias.

Brasil. Ministério da Saúde. Manejo do paciente com diarreia (cartaz), 2023; Sociedade Brasileira de Pediatria, Guia Prático de Atualização n.º 7, 2020, Tabela 5.

Volume fixo por faixa de idade — bula da suspensão (padrão Anvisa, 2025)

De 1 a 5 anos, 5 mL da suspensão de 40 mg/mL, com 125 mg de metronidazol, duas vezes ao dia; de 5 a 10 anos, 5 mL três vezes ao dia; cinco dias.

FURP-Metronidazol 40 mg/mL, suspensão oral (benzoilmetronidazol), bula para o profissional, REV07, 30/05/2025, conforme bula padrão aprovada pela Anvisa em 01/07/2025, seção Posologia.

15 mg/kg/dia limitados a 250 mg diários, em duas tomadas — Cadernos de Atenção Básica n.º 28 (2013)

Metronidazol para a criança a 15 mg/kg/dia, limitado a 250 mg diários, em duas tomadas por cinco dias; para o adulto, 250 mg por dose, duas vezes ao dia.

Brasil. Ministério da Saúde. Acolhimento à demanda espontânea: queixas mais comuns na Atenção Básica. Cadernos de Atenção Básica n.º 28, v. II, 2013, Quadro 20.

Como decidir

Esta apostila adota a dose por quilo: 15 mg/kg/dia em três tomadas por cinco dias, com teto de 250 mg por tomada. O escopo empata — os três documentos falam da criança com giárdia — e o degrau 2 daria a vitória à bula, a mais nova. Mas a bula tropeça no ponto em disputa: a criança de exatamente 5 anos cabe nas duas faixas e recebe 250 ou 375 mg por dia, diferença de 1,5 vez decidida pelo aniversário (degrau 4, com a conta nas notas). O Caderno de 2013 perde por data e pelo teto diário, que dá à criança de 30 kg metade do que o próprio caderno dá ao adulto. O teto de 250 mg por tomada vem da dose do adulto desse mesmo caderno e só pesa a partir de 50 kg. Para Bento, com 10 kg: 50 mg por tomada, 2 mL de 8 em 8 horas. Se a família já começou pela bula, com 5 mL duas vezes ao dia, a dose de 25 mg/kg/dia fica abaixo dos 35 a 50 mg/kg/dia que a mesma tabela da Sociedade dá na amebíase, e o curso não precisa ser trocado no meio.

13

O raciocínio, em voz alta

Manuela Sarmento, 2 anos e 3 meses, 11 kg, chega à unidade com a mãe porque há dez dias acorda chorando e coçando o bumbum. Na noite anterior, a mãe viu uns bichinhos brancos, pequenos, que se mexiam na pele em volta do ânus. Na creche, duas crianças da turma tiveram o mesmo nas últimas semanas. Em casa, o pai também se queixa de coceira anal à noite; moram ainda a mãe e um irmão de 7 meses. Manuela está no canal de peso da caderneta, com as vacinas em dia, e o exame mostra só escoriações perianais leves, sem nenhuma outra lesão.

  1. O diagnóstico

    Prurido anal noturno com o verme visto na pele perianal é enterobíase, e a fita adesiva não acrescenta nada: o método de Graham procura o ovo quando o verme não foi visto. Parasitológico de fezes não se pede, porque o ovo quase nunca está nelas. As escoriações leves, com uma história que as explica, numa criança que cresce e está vacinada, são as lesões inespecíficas da lista do AIDPI; não há sinal que abra a avaliação de violência.

  2. A dose pela idade

    Manuela tem 27 meses. Pelo Guia Prático das Geo-helmintíases, a meia dose é para menores de 24 meses; pela tabela da Sociedade Brasileira de Pediatria, para menores de 2 anos: ela recebe a dose cheia, 400 mg. A faixa '1 a 2 anos' dos quadros do AIDPI poderia ser lida como até 2 anos e 11 meses e daria 200 mg — é a ambiguidade registrada nas notas do critério, e esta apostila adota o segundo aniversário como corte. Na suspensão de 40 mg/mL, 10 mL.

  3. A segunda dose

    Na enterobíase, a Sociedade Brasileira de Pediatria repete a dose em duas semanas, porque os vermes que nascem dos ovos que a primeira dose não alcança recomeçam a coceira. A receita sai com as duas datas: hoje e o 14º dia.

  4. Quem mais toma

    Há um segundo caso na casa: o pai coça à noite. Pela regra que esta apostila adota — o texto da Sociedade —, isso basta para tratar todos os moradores ao mesmo tempo, no mesmo dia e com a mesma repetição. Pai e mãe recebem albendazol 400 mg hoje e no 14º dia, depois da pergunta sobre gestação, que muda a conduta da mulher adulta e segue a régua do pré-natal.

  5. O irmão de 7 meses

    A nota da tabela da Sociedade manda tratar todos acima de 6 meses, mas a linha da enterobíase não dá dose abaixo de 2 anos, e os documentos federais começam o albendazol a partir de 1 ano. Esta apostila não prescreve albendazol abaixo de 12 meses: o bebê fica com as medidas de higiene da casa, e qualquer coceira dele traz a família de volta à consulta.

  6. A creche

    Três casos na mesma turma são problema da instituição. A Sociedade Brasileira de Pediatria registra que, nas instituições, o tratamento em massa e simultâneo, repetido em duas semanas, pode ser eficaz. A decisão não é do consultório: a unidade avisa a creche e a equipe de vigilância, que organiza a orientação às famílias e o tratamento conjunto. Enterobíase não é doença diarreica, e não entra na regra de comunicação de surto de doença transmitida por água ou alimento.

  7. A casa

    Unhas curtas, mãos lavadas ao acordar, depois do banheiro e antes de comer, banho de manhã, roupas pessoais e de cama lavadas em água quente ou passadas com ferro quente, e a criança desestimulada a coçar. A orientação vale para todos os moradores, inclusive o bebê, que não toma o remédio.

  8. O retorno

    No 14º dia, a segunda dose de todos e a pergunta: alguém ainda coça? Coceira que volta depois das duas doses é reinfecção até prova em contrário — em casa ou na creche — e se trata pelo mesmo esquema. Se a coceira não passar e a mãe descrever corrimento, sangramento ou mudança de comportamento, o caso sai deste capítulo para a avaliação de Violência e maus-tratos infantis.

14

Faça você

Samuel Ourique, 3 anos e 2 meses, 13 kg, mora em área rural sem rede de esgoto e anda descalço. A mãe o traz porque há 20 dias as fezes estão amolecidas, volumosas e de cheiro forte, com barriga distendida e muitos gases. Ele come terra desde que começou a andar e nunca tomou vermífugo. No exame, palidez palmar, abdome distendido e timpânico, sem massa e sem dor; na caderneta, o peso desceu de canal nos últimos três meses. Não há desidratação nem sangue nas fezes.

  1. Decida o que entra hoje, sem exame

    Pense no que o AIDPI manda fazer com a criança de 1 ano ou mais com palidez palmar e sem anti-helmíntico nos últimos seis meses, em área onde ancilóstomo é problema — e no que a diarreia de mais de 14 dias pede antes de tratar protozoário.

  2. Peça o exame certo

    Escreva o pedido: quantas amostras, em quanto tempo, e o que deve constar para que o laboratório procure o que importa neste caso.

  3. Calcule as doses

    Albendazol para a idade de Samuel, em mililitros da suspensão de 40 mg/mL. E, se o parasitológico mostrar cistos de giárdia, metronidazol a 15 mg/kg/dia em três tomadas, em mililitros da suspensão de benzoilmetronidazol da Rename.

  4. Programe o retorno

    Diga o que se confere em 15 dias e em 30 dias, e o que faz o caso sair deste capítulo.

Ver como fecharíamos

Hoje, sem exame: Samuel tem 3 anos, palidez palmar e nunca recebeu vermífugo, em área rural sem esgoto — é anemia pela classificação do AIDPI, e a regra dá ferro e anti-helmíntico. Albendazol 400 mg, porque passou dos 24 meses: 10 mL da suspensão de 40 mg/mL em dose única, com alimento, e repetição no 15º dia. O ferro e o controle da anemia seguem Anemia ferropriva na infância. Pela diarreia de 20 dias, o parasitológico vem antes de qualquer tratamento de protozoário: três amostras frescas em até dez dias, com pesquisa de ovos e cistos por sedimentação espontânea e, onde houver, antígeno de giárdia. Se vierem cistos de giárdia: 13 kg × 15 mg = 195 mg por dia, 65 mg por tomada; como a suspensão tem 25 mg/mL de metronidazol, 2,6 mL de 8 em 8 horas por cinco dias, 39 mL no curso. Dividir 65 por 40 daria 1,6 mL e só 62,5% da dose. A Sociedade Brasileira de Pediatria registra, para a giardíase a partir de 1 ano, o albendazol 400 mg ao dia por cinco dias, com a vantagem de tratar também helmintos; se for a escolha, esta apostila o usa no lugar da dose única de hoje, sem somar as duas. No 15º dia: a segunda dose de albendazol, se a escolha foi a dose única, o ferro sendo dado e as evacuações. Em 30 dias: o peso voltando ao canal. Sai deste capítulo a criança cuja diarreia persiste depois do tratamento certo — reinfecção, tratamento insuficiente, resistência ou imunossupressão, com nova amostra e troca de classe na resistência — e a que não recupera a curva, que vai à investigação de má absorção.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Vômito bilioso, distensão, parada de evacuação e massa palpável fazem desta criança uma suspeita de suboclusão por bolo de áscaris. O anti-helmíntico espera: a morte maciça de vermes num intestino ocluído pode inflamar a parede e levar a necrose e perfuração, como descreve a Sociedade Brasileira de Pediatria. A conduta é jejum, hidratação venosa, sonda nasogástrica, imagem e avaliação cirúrgica no hospital; o albendazol vem depois que o intestino destravar.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Compare eliminação de verme numa criança bem, prurido anal noturno e diarreia persistente com queda de peso. Justifique hipótese, exame e tratamento de cada uma e identifique os sinais que exigem hospital. Prepare uma prescrição completa conferindo idade, peso, unidade e concentração: no benzoilmetronidazol, diferencie a concentração do éster da quantidade equivalente de metronidazol, conforme a apresentação descrita na tabela.

Em 30 dias

Uma criança retorna após tratamento porque a queixa continua. Refaça o caminho: o diagnóstico era adequado? O medicamento foi preparado e administrado corretamente? Houve reinfecção ou outra causa? Separe a decisão de novo tratamento das medidas de contatos e ambiente. Explique o plano à família sem atribuir a doença a falta de cuidado e defina como será verificada a resposta.

17

Agora atenda

Agora atenda: Rebeca Penafort, 6 anos, trazida pela avó porque acorda coçando o bumbum há três semanas; desde anteontem, a irmã de 2 anos também coça. Pergunte quem mora na casa e quem cuida das duas, decida se precisa de exame, prescreva por idade para cada criança e marque o que acontece no 14º dia.

Parasitoses intestinais na infância – A lombriga no pote e a coceira da madrugada — Internato | OsceLabs