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Doenças exantemáticas na criança

Quase todas ficam bem sem nada. Uma é evento de saúde pública — e quem a reconhece primeiro é o interno do pronto-atendimento, com quinze minutos e uma fila.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Ações Estratégicas de Epidemiologia e Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde: volume 1. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-506-2.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Nota Técnica Conjunta nº 345/2025-CGVDI/DPNI/SVSA/MS: atualiza as orientações técnicas sobre a vigilância do sarampo e da rubéola. Brasília, 1 out. 2025. SEI nº 0050540855.

Brasil. Ministério da Saúde. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, atualizada em 17 jul. 2026.

Brasil. Ministério da Saúde. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica nº 21/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS: orientações para o uso da dose zero da vacina tríplice viral em crianças de 6 meses a 11 meses e 29 dias em ações de bloqueio vacinal e varredura casa a casa no polígono circunvizinho ao caso suspeito ou confirmado de sarampo no Brasil. Brasília, 9 abr. 2026.

Brasil. Ministério da Saúde. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica nº 71/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS: orientações para o uso da dose zero (D0) da vacina tríplice viral em crianças de 6 meses a 11 meses e 29 dias nos municípios de São Paulo/SP e Guarulhos/SP. Brasília, 26 jun. 2026.

01

Responda antes de ler

Criança de 14 meses, 10 kg, com caso suspeito de sarampo, sem desnutrição aparente e com boa aceitação oral. Qual é a prescrição correta de vitamina A?

02

O paciente que você vai ver

Terça-feira, duas da tarde, pronto-atendimento pediátrico de uma UPA. A escala do dia diz que você atende a fila verde e chama a preceptora quando precisar; ela está na sala de estabilização desde o meio-dia. Na tela, quatro crianças esperando, todas com a mesma queixa digitada pela recepção: "febre e manchas no corpo".

Miguel, 8 meses, no colo da avó. Três dias de febre alta, 39,8 °C ontem à noite, medida em casa, com irritabilidade e recusa da mamadeira. Hoje de manhã a febre sumiu e apareceram manchinhas rosadas no tronco e no pescoço. A avó chegou assustada porque "a criança amanheceu toda pintada". Miguel está sentado no colo, puxando o crachá da avó, sorrindo para você. Sem tosse, sem coriza, sem conjuntivite. A caderneta está em dia até os 6 meses.

Théo, 1 ano e 4 meses, no colo da mãe. Cinco dias de febre que não cede, tosse seca que piorou, coriza abundante e olhos vermelhos lacrimejando desde o começo — a mãe conta que ele chora quando entra no sol. Ontem apareceram manchas atrás das orelhas e na linha do cabelo; hoje já estão no rosto, no pescoço e descendo pelo tronco. Está prostrado, com a cara enfiada no pescoço da mãe. A família chegou da Bolívia há três semanas para morar com um primo. A caderneta veio junto, escrita em espanhol, e não há registro de nenhuma vacina depois dos 6 meses.

Lorena, 7 anos, veio andando com a tia. Semana passada teve dois dias de febre baixa e dor de cabeça que passaram sozinhos. Anteontem as bochechas ficaram muito vermelhas, como se tivessem levado um tapa, e ontem surgiu nos braços e nas coxas uma vermelhidão em forma de renda, que clareia no meio e fica desenhada nas bordas. Coçou um pouco. Ela está ótima e quer saber se pode ir à natação. A tia, que mora na mesma casa, está grávida de 20 semanas e pergunta se corre risco.

Beatriz, 3 anos, chegou há dez minutos e a enfermagem já a trouxe para dentro. A febre começou de madrugada, há cerca de dez horas. Está gemente, difícil de acordar, com frequência cardíaca de 178, extremidades frias, tempo de enchimento capilar de quatro segundos, e no tronco e nas coxas há manchas puntiformes vinhosas que não desaparecem quando você comprime com o dedo. Beatriz não é um caso de doença exantemática da fila verde. É a criança que sai da fila agora.

Quatro crianças com febre e manchas, e quatro decisões diferentes. Miguel vai para casa sem receita. Lorena vai para casa, e a única conversa que importa é com a tia grávida. Beatriz é uma emergência de outra natureza, e o exantema é apenas o aviso. E Théo — o único dos quatro que ainda está brincando com a possibilidade de ser "virose" — é um evento de saúde pública que começa a contar o relógio no instante em que alguém suspeita.

O eixo do capítulo é esse desnível. Na maior parte das doenças exantemáticas da infância o diagnóstico serve para tranquilizar a família e evitar prescrição desnecessária. Em duas delas — sarampo e rubéola — o diagnóstico tem uma segunda finalidade, e é a que se esquece: notificar e bloquear. Notificação imediata, isolamento, busca dos contatos e vacinação de bloqueio são conduta médica com prazo contado em horas, não papelada da vigilância para depois. E a suspeita basta: não se espera sorologia para notificar sarampo, nem para isolar. O custo de notificar quem não tinha é uma coleta de sangue; o custo de não notificar quem tinha é um surto.

O segundo fio é técnico e vale para as quatro doenças: o que as separa é a sequência, não a foto. Descrever a mancha leva a lugar nenhum — maculopapular e vermelha são quase todas. O que decide é quando a febre começou em relação à erupção, se a febre cede ou não quando o exantema aparece, onde o exantema começa e como progride, e o que existe fora da pele. Este capítulo é escrito em torno de uma linha do tempo.

03

Quem adoece disso

O Brasil recebeu de volta, em novembro de 2024, a certificação da Organização Pan-Americana da Saúde de país livre da circulação endêmica do vírus do sarampo — status que havia perdido em 2019 e que segue mantido. Isso muda o que o interno vê: o sarampo deixou de ser doença de rotina e virou evento raro e caro. Em 2023 não houve caso confirmado no país. Em 2024 foram cinco. Em 2025 foram 38, dos quais 25 num único surto no Tocantins, concentrado numa comunidade tradicional em que 100% dos casos não tinham registro de vacinação. Até a semana epidemiológica 14 de 2026 havia dois casos confirmados: um em São Paulo, com viagem internacional e sem vacina, e um no Rio de Janeiro, com fonte de infecção desconhecida e sem vacina.

A consequência clínica dessa raridade é contraintuitiva. Quanto mais raro o sarampo, maior a chance de que o primeiro médico a ver o caso não pense nele — e maior o estrago, porque a população suscetível cresceu no intervalo. O vírus tem número reprodutivo básico estimado entre 12 e 18: um caso infecta de 12 a 18 pessoas suscetíveis, e cerca de 90% dos contatos sem imunidade adoecem. Por isso a meta de cobertura vacinal é de 95%, e homogênea: bolsão de não vacinados num bairro anula a média do município.

A pressão vem de fora. Até a semana epidemiológica 16 de 2025 as Américas somaram 2.325 casos confirmados de sarampo, com quatro óbitos, distribuídos por Argentina, Belize, Bolívia, Canadá, Estados Unidos, México e Brasil — onze vezes os 205 casos do mesmo período de 2024. Fronteira terrestre, aeroporto e turismo transformam isso em caso importado, e caso importado sem bloqueio vira cadeia secundária. Em junho de 2026 o Ministério da Saúde emitiu nota técnica indicando dose zero da vacina tríplice viral em lactentes nos municípios de São Paulo e Guarulhos, justamente por risco de transmissão local. O sarampo que o interno vai ver não é o dos livros antigos: é um caso importado ou o primeiro elo de uma cadeia, e ele passa pela porta do pronto-atendimento antes de qualquer um saber que existe.

Do outro lado do espectro, os números que interessam são de frequência, não de raridade. Exantema súbito é infecção quase universal do lactente, concentrada dos 6 meses aos 3 anos, e é uma das causas mais comuns de primeira crise convulsiva febril no pronto-atendimento. Eritema infeccioso circula em surtos escolares dos 5 aos 15 anos. A rubéola teve a circulação do vírus eliminada no Brasil, e a Região das Américas foi declarada livre da rubéola e da síndrome da rubéola congênita em 2015 — o que significa, na prática de vigilância, que um único caso confirmado de rubéola já é considerado surto, exatamente como no sarampo.

A leitura operacional é curta. Numa fila de crianças com febre e exantema, a probabilidade a priori de sarampo é baixa e a de exantema viral banal é alta — e é justamente por isso que a régua de suspeita precisa ser generosa e a de confirmação, laboratorial. O sistema brasileiro foi desenhado assim: notifica-se e investiga-se muito para confirmar pouco. Quem calibra a suspeita pela raridade da doença apaga a vigilância inteira.

04

Por que acontece o que acontece

A pergunta que o mecanismo responde aqui é uma só: por que a relação entre febre e exantema é diferente em cada uma dessas doenças, e por que essa relação é mais confiável que a aparência da mancha. A resposta é que, nas quatro, o exantema não é o vírus na pele — é a resposta imune encontrando o vírus. O que muda é o momento em que esse encontro acontece dentro da história natural da infecção.

No sarampo, o vírus entra pelo epitélio respiratório, infecta células dendríticas e macrófagos alveolares e faz uma primeira viremia que o leva ao tecido linfoide. Ali se multiplica em linfócitos de memória e monócitos, e uma segunda viremia o distribui para pele, conjuntiva, trato respiratório e intestino. O pródromo catarral — tosse, coriza, conjuntivite, febre — é essa segunda viremia em curso: o paciente já é muito infectante e ainda não tem exantema. As manchas de Koplik são o mesmo processo na mucosa oral, um enantema que antecede o exantema em um a dois dias. Quando a resposta de linfócito T citotóxico finalmente ataca as células infectadas do endotélio da pele, aparece o exantema — e aí está a chave clínica: como a viremia ainda está alta nesse momento, a febre não cede quando o exantema surge. Ela sobe. Criança com exantema morbiliforme e sem febre é diagnóstico para revisar.

Esse mesmo linfotropismo explica o resto do quadro. O vírus depleta linfócitos de memória e apaga parte do repertório imunológico já adquirido — é por isso que otite média, diarreia e pneumonia são as complicações comuns, e não coincidências. E o consumo de retinol durante a doença é intenso: a criança com estoque hepático baixo entra em deficiência aguda de vitamina A, que agrava a lesão do epitélio respiratório e ocular. Vitamina A no sarampo não é suplemento nutricional de rotina — é terapêutica dirigida a esse mecanismo, e é por isso que ela aparece na conduta de todo caso suspeito, e não só do desnutrido.

No exantema súbito o desenho é o oposto. O herpes-vírus humano tipo 6B, e menos frequentemente o tipo 7, faz uma viremia intensa que produz febre alta e sustentada por três a cinco dias, com a criança em bom estado geral porque não há acometimento de via aérea nem de mucosa. O exantema aparece durante ou logo depois da defervescência, quando a resposta imune controla a viremia. Em uma frase: a febre e o exantema não coexistem. Se a criança está com 39,5 °C e cheia de manchas ao mesmo tempo, exantema súbito é hipótese fraca.

No eritema infeccioso o mecanismo explica quase toda a conduta. O parvovírus B19 usa o antígeno P como receptor e infecta preferencialmente o progenitor eritroide da medula óssea. Na primeira semana há viremia alta com queda de reticulócitos, e é nesse período — inespecífico, com febre baixa e mal-estar — que a criança transmite. O exantema clássico surge depois, quando aparecem IgM e imunocomplexos: nesse momento a viremia já acabou e a criança não é mais contagiante. Daí decorrem quatro consequências práticas. Primeira: não se afasta da escola a criança com a face esbofeteada, porque o contágio já passou. Segunda: quem depende de reticulocitose alta para manter a hemoglobina — anemia falciforme, esferocitose, talassemia — pode fazer crise aplásica transitória, e nesses pacientes a fase contagiante e a queda da hemoglobina coincidem. Terceira: quem não produz anticorpo — imunodeprimido grave, transplantado, criança em quimioterapia — não encerra a viremia e desenvolve anemia crônica arregenerativa, muitas vezes sem exantema nenhum. Quarta: no feto, cuja massa eritroide se multiplica em ritmo alto e cuja meia-vida de hemácia é curta, a mesma infecção produz anemia grave, insuficiência cardíaca de alto débito e hidropsia.

Na rubéola o vírus se replica na nasofaringe e nos linfonodos regionais antes de qualquer coisa aparecer na pele — e é por isso que a linfadenopatia retroauricular, occipital e cervical posterior costuma preceder o exantema em cinco a dez dias. O exantema é róseo, mais discreto que o do sarampo, dura de um a três dias e some sem descamar. De 20% a 50% das infecções por rubéola ocorrem sem exantema nenhum, o que faz da doença um problema de vigilância antes de ser um problema clínico: quem transmite pode nunca ter procurado o serviço. E o dano real não está no paciente atendido: a viremia materna atravessa a placenta e, nas primeiras 8 a 10 semanas de gestação, interrompe a mitose de tecidos em organogênese, produzindo aborto, óbito fetal ou a síndrome da rubéola congênita.

Reunindo: pródromo longo e catarral com febre que persiste quando o exantema aparece é sarampo; febre alta que desaparece exatamente quando o exantema surge é exantema súbito; exantema que aparece depois de um quadro inespecífico já resolvido, em criança sem febre, é eritema infeccioso; e exantema discreto precedido de linfonodo retroauricular é rubéola.

Quatro linhas temporais esquemáticas identificadas: febre e exantema sobrepostos no sarampo; exantema após defervescência no exantema súbito; intervalo após pródromo no eritema infeccioso; quadro discreto e rash breve na rubéola.
A sequência entre febre e exantema orienta o raciocínio. As curvas são esquemáticas e não fixam duração ou intensidade obrigatórias.
05

Como se apresenta de verdade

Antes de nomear o exantema, avalie a criança: consciência, respiração, perfusão, hidratação e sinais de sangramento. Púrpura ou petéquias com criança muito doente, extremidades frias ou perfusão alterada exigem atendimento imediato por suspeita de infecção invasiva, incluindo doença meningocócica. Depois descreva a lesão: mácula, pápula, vesícula ou púrpura; distribuição; mucosas; sintomas associados; e relação entre febre e surgimento das manchas. Em diferentes tons de pele, a cor pode ser menos evidente: examine em boa luz e valorize textura, distribuição, mucosas e estado geral.

A definição de caso suspeito de rubéola é igualmente operacional: febre e exantema maculopapular acompanhados de linfadenopatia retroauricular e/ou occipital e/ou cervical, também independentemente da idade e da situação vacinal. As duas definições cabem na mesma ficha — a de Doenças Exantemáticas Febris Sarampo/Rubéola —, e é ela que se preenche quando a dúvida está entre as duas.

A definição nacional de suspeita de sarampo combina febre e exantema maculopapular com tosse, coriza ou conjuntivite, independentemente da situação vacinal. A tríade catarral completa não é exigida. Na rubéola, linfonodos retroauriculares, occipitais ou cervicais ajudam a compor a suspeita. As definições orientam isolamento e vigilância; uma vacina registrada reduz risco, mas não exclui sozinha a doença.

Padrão maculopapular em diferentes tons de pele
PED-INF-03-A — Padrão maculopapular em diferentes tons de pele. Distribuição e textura ajudam na descrição; a figura isolada não confirma sarampo.
Eritema malar e padrão rendilhado
PED-INF-03-B — Eritema malar, palidez perioral relativa e exantema rendilhado, ilustrados em dois tons de pele.
Detalhes do tronco em dois tons de pele, com pequenas máculas e pápulas discretas e áreas adjacentes cobertas.
PED-INF-03-C — Exantema discreto no tronco. A relação com a queda da febre vem da história clínica; a morfologia sozinha não confirma exantema súbito.
Petéquias e púrpura: reconhecer a morfologia
PED-INF-03-D — Petéquias puntiformes e lesões purpúricas maiores. A urgência depende também de estado geral e perfusão; a imagem estática não demonstra resposta à digitopressão.

Sarampo: o pródromo é mais característico que o exantema

A doença se organiza em três períodos. O período de infecção dura cerca de sete dias e começa com febre alta, tipicamente acima de 38,5 °C, acompanhada de tosse seca, coriza, conjuntivite não purulenta e fotofobia. Do segundo ao quarto dia desse período surge o exantema, e os sintomas iniciais se acentuam em vez de melhorar. As manchas de Koplik — pontos brancos pequenos na mucosa jugal, na altura do terceiro molar, às vezes no palato mole — antecedem o exantema e desaparecem em um a dois dias, o que significa que só quem examina a boca de toda criança febril chega a vê-las. São patognomônicas e efêmeras: procurá-las depois que o exantema está instalado costuma ser tarde.

O exantema é maculopapular morbiliforme, vermelho, e a direção importa mais que a textura: começa atrás das orelhas e na linha de implantação do cabelo, desce para face, pescoço, tronco e, por último, extremidades. Tende a confluir. No período toxêmico a criança fica prostrada e as complicações se instalam — otite média, diarreia, pneumonia, laringotraqueobronquite. Na remissão a febre cede, o exantema escurece e vem uma descamação fina e farinácea, chamada furfurácea, que é achado retrospectivo e não muda conduta.

Existe um sinal de alarme simples e pouco usado: febre por mais de três dias depois do aparecimento do exantema indica complicação em curso, e é o gatilho para reavaliar a criança de perto, procurando pneumonia, otite, diarreia com desidratação e alteração neurológica.

A gravidade concentra-se em quatro grupos: menores de 5 anos, gestantes, imunocomprometidos e adultos acima de 20 anos, além de desnutridos e de quem vive em aglomeração. Considera-se caso grave o que exige hospitalização por pelo menos 24 horas, o que prolonga internação já existente, o que deixa sequela e o que apresenta risco de morte. Encefalite ocorre em um a quatro por mil casos, e a panencefalite esclerosante subaguda em 4 a 11 por 100 mil, sete a dez anos depois da infecção.

Rubéola: o paciente está bem, o risco está na sala de espera

O pródromo, quando existe, é discreto: febre abaixo de 39 °C, mal-estar e conjuntivite leve, mais comum em adultos que em crianças. A linfadenopatia retroauricular, occipital ou cervical posterior é o achado que orienta e costuma preceder o exantema em cinco a dez dias — é palpável, dolorosa, e frequentemente já está lá quando a família procura o serviço por outro motivo.

O exantema é maculopapular, eritematoso, muitas vezes pruriginoso, começa na face, no couro cabeludo e no pescoço e se espalha para tronco e membros, durando de um a três dias. Ocorre em 50% a 80% das pessoas infectadas — ou seja, parte relevante dos infectados nunca terá mancha alguma. Artrite e artralgia são possíveis, geralmente de curta duração, e chegam a ocorrer em até 70% das mulheres adultas com rubéola, sendo bem menos comuns em homens e crianças.

A complicação que define a doença não é do paciente. Infecção materna nas primeiras 8 a 10 semanas de gestação resulta com frequência em aborto espontâneo, óbito fetal ou defeitos congênitos de múltiplos órgãos. Encefalite pós-infecciosa ocorre em cerca de 1 a cada 6 mil casos e manifestações hemorrágicas em 1 a cada 3 mil — números pequenos ao lado do risco gestacional. Por isso, num serviço onde circulam gestantes, as medidas de controle da rubéola começam na suspeita e não esperam a confirmação laboratorial.

Eritema infeccioso: a criança chega quando o problema já passou

O período de incubação da infecção por parvovírus B19 é de 4 a 14 dias. O pródromo é banal e frequentemente esquecido pela família: febre baixa e mal-estar discreto por um ou dois dias. Só depois vem o quadro que traz a criança ao serviço — eritema confluente e quente nas bochechas, com aspecto de tapa e palidez ao redor da boca, seguido em um a quatro dias por exantema maculopapular rendilhado, reticulado, com clareamento central, nos membros, nádegas e tronco. O rendilhado pode reaparecer por semanas quando a criança se expõe ao sol, ao calor, ao banho quente ou ao exercício. Essa recidiva assusta a família e não significa reinfecção nem falha de tratamento.

A artropatia é o quadro típico do adolescente e do adulto, especialmente mulheres: dor simétrica de pequenas articulações das mãos, punhos, joelhos e tornozelos, autolimitada. Na criança pequena costuma ser discreta ou ausente.

Três situações mudam completamente o significado do diagnóstico. Em portador de anemia hemolítica crônica — anemia falciforme é o exemplo mais frequente no Brasil — a infecção provoca crise aplásica transitória, com queda abrupta da hemoglobina e reticulócitos baixos: essa criança chega pálida e taquicárdica, muitas vezes sem exantema nenhum, e é caso de hemograma com contagem de reticulócitos e avaliação hematológica, não de alta com orientação. Em imunocomprometido, a viremia persiste e produz anemia crônica arregenerativa. E em gestante suscetível, o risco de perda fetal após a infecção materna é de cerca de 2% a 6%, maior na primeira metade da gestação, com hidropsia fetal como mecanismo.

Exantema súbito: febre alta em criança que continua brincando

A faixa etária é estreita e ajuda muito: dos 6 meses aos 3 anos, com concentração no segundo semestre de vida. O período de incubação é de cerca de 5 a 15 dias. A febre é alta, entre 39,5 °C e 40,5 °C, de início abrupto, e persiste por três a cinco dias, cedendo rapidamente por volta do quarto dia. O contraste entre a magnitude da febre e o bom estado geral é a marca do quadro: a criança fica irritada no pico térmico e volta a brincar quando a temperatura cai.

O exantema aparece durante ou logo após a defervescência, é maculopapular róseo, predomina em tronco e abdome, poupa relativamente face e extremidades, e dura de algumas horas a dois dias. Quando a família chega com a criança já sem febre e cheia de manchas, o diagnóstico está praticamente feito à porta.

A crise convulsiva febril é o que traz essas crianças ao pronto-atendimento antes do exantema, e o exantema súbito é uma das causas mais frequentes de primeira convulsão febril. Encefalite e hepatite são raras. Em imunocomprometido, o HHV-6B pode causar doença de sistema nervoso central e exigir antiviral específico, o que é decisão de especialista.

Quatro silhuetas infantis comparando a distribuição do exantema: confluente descendo da região retroauricular e da linha do cabelo, com detalhe de pontos brancos na mucosa jugal; exantema discreto com linfonodos retroauricular e cervical marcados; bochechas intensamente vermelhas com palidez perioral e desenho rendilhado em braços e coxas; e manchas finas restritas ao tronco e ao abdome.
Da esquerda para a direita: padrões ilustrativos de sarampo, rubéola, eritema infeccioso e exantema súbito. Distribuição, evolução e achados associados devem ser interpretados em conjunto.

O que muda no lactente, no imunocomprometido, na gestante e no recém-nascido

O lactente menor de 12 meses é o grupo em que o sarampo mais mata e o único que a rotina não protege no momento da exposição, porque a primeira dose do calendário é aos 12 meses. Cerca de 85% das crianças brasileiras perdem os anticorpos maternos por volta dos 9 meses, e é essa janela que a dose zero cobre em situação de risco. No plantão isso significa limiar de suspeita ainda mais baixo nessa faixa, não mais alto.

No imunocomprometido o exantema pode ser atípico ou simplesmente não existir, enquanto pneumonia e acometimento neurológico dominam o quadro. A eliminação viral é prolongada, e isso muda o isolamento: precaução por aerossol pela duração da doença, e não apenas pelos quatro dias habituais. Vacina de vírus vivo nesse paciente é decisão que passa por avaliação em Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais.

Na gestante, três exposições diferentes exigem três condutas diferentes, e confundi-las é comum. Exposição à rubéola em gestante suscetível é o cenário de maior gravidade fetal e exige investigação sorológica com amostras pareadas. Exposição ao parvovírus B19 exige sorologia materna e, havendo infecção, vigilância ultrassonográfica fetal para hidropsia. Exposição ao sarampo não causa síndrome congênita, mas aumenta o risco de doença grave materna, de aborto e de prematuridade. Em nenhuma das três a vacina tríplice viral entra: ela é contraindicada na gestação.

No recém-nascido o problema prático é menos o diagnóstico e mais o lugar. Criança com exantema febril e história de contato precisa ser mantida longe de alojamento conjunto, berçário e sala de espera de pré-natal, porque o dano potencial está nos vizinhos. E vale saber de antemão, porque a pergunta aparece: vacinação inadvertida de gestante com tríplice viral não indica interrupção da gravidez — indica acompanhamento pré-natal. A contraindicação existe por precaução, já que os estudos de seguimento não demonstraram aumento de complicações.

06

Como fechar o diagnóstico

Aqui está a inversão que mais custa tempo no pronto-atendimento: nas doenças exantemáticas o exame que decide a conduta imediata não é laboratorial. É a linha do tempo e a carteira de vacinação. O laboratório serve para confirmar ou descartar depois, e para caracterizar o vírus — não para autorizar a notificação, o isolamento e o bloqueio, que acontecem antes de qualquer resultado.

A segunda inversão é de sequência. Numa doença comum, primeiro se investiga, depois se trata e por último se comunica. No sarampo e na rubéola a comunicação vem antes: notifica-se em até 24 horas a partir da suspeita clínica, e a vigilância epidemiológica municipal repassa ao estado, que repassa ao Ministério da Saúde — ou o município notifica os dois simultaneamente, pelo meio mais rápido disponível, telefone, e-mail ou formulário. Quem espera o resultado para notificar perde a janela de 72 horas do bloqueio vacinal, que é a única medida capaz de interromper a cadeia.

O primeiro exame é a linha do tempo

Cinco perguntas montam a linha do tempo, e elas cabem em dois minutos de anamnese. Em que dia começou a febre? Em que dia apareceu a mancha? A febre melhorou, piorou ou sumiu quando a mancha apareceu? Onde a mancha começou e para onde foi? O que existe fora da pele — tosse, coriza, olho vermelho, linfonodo, dor articular, prostração?

A data de início do exantema é a âncora de tudo o que vem depois. É dela que se contam, para trás e para frente, os períodos que a investigação de sarampo utiliza: o período de transmissibilidade vai de seis dias antes até quatro dias depois do exantema, e é o intervalo em que se procuram os contatos que o paciente pode ter infectado; o período provável de exposição vai de 7 a 21 dias antes do exantema, e é o intervalo em que se procura de quem o paciente pegou; e o período de incubação, também de 7 a 21 dias, é o que define por quanto tempo cada contato precisa ser monitorado. Anotar a data errada do exantema desalinha os três intervalos de uma vez.

A carteira de vacinação entra em seguida, e a maneira de perguntar muda o resultado. "A criança tomou tudo?" produz um sim que não significa nada. O que se faz é pedir o documento, procurar as doses com componente sarampo — tríplice viral e tetraviral —, ler a data de cada uma e conferir se a primeira foi aplicada com 12 meses ou mais, porque dose administrada antes disso não conta como válida para o esquema. Uma dose registrada nos últimos 30 dias também muda a leitura do laboratório, porque exantema e febre entre o quinto e o décimo quarto dia depois da vacina podem ser evento pós-vacinal, e nesse caso a diferenciação entre vírus vacinal e selvagem só se faz por biologia molecular. Some-se a camada epidemiológica, que é a que mais falta no prontuário: viagem nos últimos 30 dias, contato com viajante, contato com pessoa com quadro semelhante e locais de aglomeração frequentados.

Quais amostras coletar, e quando

Em todo caso suspeito de sarampo coletam-se, preferencialmente no primeiro atendimento, três materiais: sangue para sorologia, swab combinado de naso e orofaringe e urina para biologia molecular. A regra de coletar tudo de uma vez existe porque a chance de reencontrar o paciente é baixa, e porque cada material tem uma janela diferente.

Sangue para sorologia: coleta entre o primeiro e o trigésimo dia a partir do início do exantema. Amostra colhida nesse intervalo é considerada oportuna; depois do trigésimo dia é tardia, mas ainda assim deve ser colhida e enviada. Colhe-se sangue total sem anticoagulante para obtenção do soro, que é armazenado entre 2 °C e 8 °C — o sangue total não se congela.

Swab combinado de naso e orofaringe para RT-PCR: preferencialmente entre o primeiro e o sétimo dia do exantema, no máximo até o décimo quarto. São três swabs de haste plástica, dois de nasofaringe, um por narina, e um de orofaringe, todos no mesmo tubo com meio de transporte viral. Swab de haste de madeira ou com alginato de cálcio interfere na reação e não serve.

Urina para RT-PCR: preferencialmente do primeiro ao sétimo dia, no máximo até o décimo. De 10 a 50 mL de jato médio em frasco estéril.

O material segue para o Laboratório Central de Saúde Pública, cadastrado no Gerenciador de Ambiente Laboratorial e acompanhado de cópia da ficha de notificação. Uma segunda amostra de soro, quando indicada, é colhida de 15 a 25 dias depois da primeira, e as duas são testadas em paralelo.

O que confirma, o que descarta e o que engana

O caso de sarampo se confirma por três caminhos. Critério laboratorial: IgM específico reagente, ou soroconversão e aumento de titulação de IgG em soros pareados, ou RT-PCR detectável. Critério de vínculo epidemiológico: caso suspeito que foi contato de caso confirmado por laboratório e cujos sinais e sintomas começaram entre 7 e 21 dias depois da exposição. Critério clínico: caso que preenche a definição, sem coleta e sem vínculo — recurso reservado a surto de grande magnitude que exceda a capacidade laboratorial, e explicitamente desaconselhado na rotina.

A armadilha temporal está no falso-negativo precoce. Amostras colhidas antes do quinto dia do exantema podem vir com IgM e IgG não reagentes em até um quarto dos casos, simplesmente porque a resposta ainda não subiu. Nesse cenário, resultado negativo não descarta: colhe-se a segunda amostra de 15 a 25 dias depois da primeira e testa-se em paralelo. Descartar sarampo com sorologia colhida no segundo dia de exantema é erro de interpretação, não de laboratório.

A segunda armadilha é vacinal. IgM reagente em quem recebeu vacina com componente sarampo até 30 dias antes do início dos sintomas exige genotipagem para separar vírus vacinal de selvagem, e investigação como evento supostamente atribuível à vacinação. O quadro pós-vacinal tem assinatura própria: febre entre o quinto e o décimo segundo dia após a vacina, exantema entre o sétimo e o décimo quarto, linfadenomegalia do sétimo ao vigésimo primeiro.

Na rubéola, o desenho é o mesmo — IgM, soroconversão de IgG ou RT-PCR — e o mesmo cuidado se aplica a quem foi vacinado nos últimos 30 dias. Há uma diferença que interessa ao pronto-atendimento: os anticorpos IgM de rubéola dão falso-positivo com alguma frequência, e por isso a confirmação de infecção aguda em gestante costuma depender de amostras pareadas com aumento de títulos de IgG, e não de um IgM isolado.

Linha do tempo do sarampo com exposição provável, busca de contatos e janelas de soro, swab e urina. A segunda amostra de soro aparece separadamente, contada a partir da primeira coleta.
O exantema ancora as janelas iniciais e a investigação epidemiológica. A segunda amostra de soro, quando indicada, é contada 15–25 dias depois da primeira coleta.

O que não pedir, e o que custa pedir

Sorologia para rubéola em gestante assintomática, como rotina de pré-natal, não tem indicação. O exame só se solicita diante de suspeita clínica de rubéola na gestante ou de contato dela com pessoa com doença exantemática. Há uma exceção estreita: gestante sem comprovação de vacina contra rubéola na caderneta pode ter IgG pesquisado para saber se precisará ser vacinada imediatamente após o parto. Pedir sorologia de rubéola para toda gestante gera IgM falso-positivo, encaminhamento desnecessário e angústia.

Sorologia para parvovírus B19 em criança hígida com face esbofeteada e rendilhado clássico não muda nada: o diagnóstico é clínico, a doença já passou a fase de transmissão e o tratamento é sintomático. A sorologia tem lugar em três situações — gestante exposta, paciente com anemia hemolítica e queda de hemoglobina, e imunocomprometido com anemia arregenerativa.

Hemograma "para ver se é viral" em criança com exantema e bom estado geral não separa as doenças deste capítulo e não deve substituir a linha do tempo. Em contrapartida, hemograma com contagem de reticulócitos é exatamente o exame certo na criança com anemia hemolítica conhecida que fica pálida durante um surto escolar de eritema infeccioso.

O diferencial mora aqui: o que separa cada uma

O principal diferencial brasileiro de febre com exantema não é nenhuma das quatro doenças deste capítulo — é a dengue, e junto com ela zika e chikungunya. A separação é feita pela sequência e pelo que existe fora da pele: na dengue o exantema costuma aparecer entre o terceiro e o sexto dia, acompanhado de mialgia intensa, dor retro-orbitária e prova do laço eventualmente positiva, e o que domina o quadro é o risco hemodinâmico; na zika o exantema é precoce, muito pruriginoso e a febre é baixa ou ausente, com conjuntivite não purulenta; na chikungunya a artralgia incapacitante é a marca. Nenhuma delas tem pródromo catarral de cinco dias com tosse, coriza e conjuntivite, que é a assinatura do sarampo. O manejo das arboviroses, com classificação de risco e hidratação, tem capítulo próprio e não se repete aqui.

Esse diferencial tem uma consequência de vigilância que o interno precisa conhecer: como os quadros iniciais se confundem, os laboratórios centrais fazem busca ativa laboratorial, testando para sarampo e rubéola uma parcela das amostras que vieram negativas para as três arboviroses em pacientes com febre e exantema. Ou seja, uma parte dos casos de sarampo do país é encontrada dentro do fluxo da dengue.

Escarlatina entra no diferencial diante de faringite com exantema áspero, acentuação em dobras e alterações da língua. O conjunto orienta investigação e tratamento de infecção estreptocócica. Língua em framboesa e descamação também podem ocorrer em Kawasaki; persistência da febre, conjuntivite sem secreção e alterações de extremidades pedem reavaliação do diagnóstico. Um sinal compartilhado não decide entre as duas doenças.

Compare os padrões no tempo. No sarampo, o pródromo catarral precede um exantema que começa na face e se dissemina, com febre ainda presente. Na rubéola, o quadro pode ser discreto e os linfonodos ajudam. No eritema infeccioso, o eritema malar e o padrão rendilhado aparecem em criança frequentemente bem. No exantema súbito, a erupção costuma surgir quando a febre cede. Essas descrições são pistas, não garantias: apresentações incompletas, vacinação e imunidade podem modificar o aspecto. O atlas proposto deve ser usado junto da história e do exame.

A farmacodermia entra sempre que houve introdução de medicamento nos dias anteriores, e o exantema costuma ser mais monomorfo, mais pruriginoso e sem pródromo catarral. Vale citar e seguir: o que importa no plantão é suspender o fármaco suspeito e reconhecer sinais de gravidade, como acometimento de mucosas, descolamento, edema facial e febre alta persistente.

Petéquias ou púrpura em criança febril com mau estado geral e perfusão alterada exigem avaliação e tratamento urgentes de possível infecção invasiva. Doença meningocócica é uma hipótese central, mas a aparência isolada não confirma a etiologia. Petéquias restritas à face após tosse ou vômito, numa criança bem, têm outro contexto e ainda pedem exame completo. A prioridade resulta da combinação entre lesão, distribuição e condição clínica; não espere terminar a classificação do exantema para estabilizar.

O que existe no SUS, e como isso muda a conduta

A rede que sustenta esta investigação é pública e está descrita nas normas nacionais, o que torna cada passo exigível. A sorologia e o diagnóstico diferencial ficam nos Laboratórios Centrais de Saúde Pública das 27 unidades federativas; a detecção e a caracterização viral no Laboratório de Referência Nacional. O cadastro das amostras é feito no Gerenciador de Ambiente Laboratorial e a notificação, no Sistema de Informação de Agravos de Notificação, com a ficha específica de doenças exantemáticas febris. O rastreamento e o monitoramento dos contatos são registrados na plataforma Go.Data.

Laboratório privado que encontrar resultado positivo para sarampo tem obrigação de notificar imediatamente as três esferas e de encaminhar a amostra ao Lacen. Em situação de surto, resultado positivo emitido por qualquer laboratório, inclusive da rede privada, vale como critério confirmatório até a conclusão da investigação.

Há uma consequência prática: nenhuma etapa deste capítulo depende de recurso que a unidade não tenha. Ficha de notificação, telefone da vigilância municipal, tubo de sangue, swab, frasco de urina, máscara cirúrgica, uma sala com porta e a vacina tríplice viral — é essa a lista. O que costuma faltar não é insumo; é a decisão de usá-los antes da confirmação.

07

Da porta à notificação: o fluxo, os prazos e a tabela do diferencial

O percurso tem duas decisões iniciais: a criança precisa de atendimento imediato? Há suspeita que exige isolamento e vigilância? A comparação morfológica ajuda depois dessa triagem. As tabelas de prazos têm âncoras próprias — início do exantema, suspeita, notificação ou última exposição — e devem ser consultadas quando a tarefa correspondente for executada.

  1. 1Febre e exantema na recepção: afastar da fila e implementar as precauções indicadas. Oferecer máscara à criança a partir de 2 anos se tolerada e segura; não mascarar lactentes ou criança com dificuldade respiratória importante. Usar medidas de isolamento, máscara dos acompanhantes e proteção da equipe conforme suspeita.
  2. 2Estado geral e perfusão: exantema petequial ou purpúrico com má perfusão sai deste fluxo agora e entra no de doença meningocócica.
  3. 3Montar a linha do tempo: dia da febre, dia do exantema, relação entre os dois, onde começou, o que existe fora da pele.
  4. 4Conferir a caderneta de vacinação: doses com componente sarampo, datas, idade em cada dose, e dose aplicada nos últimos 30 dias.
  5. 5Preenche a definição de caso suspeito de sarampo ou de rubéola? Se sim, seguir os passos abaixo, sem esperar exame.
  6. 6Notificar em até 24 horas a vigilância epidemiológica municipal pelo meio mais rápido, e registrar no Sinan.
  7. 7Coletar, no primeiro atendimento, sangue para sorologia, swab combinado de naso e orofaringe e urina.
  8. 8Prescrever vitamina A a toda criança com suspeita de sarampo, em duas doses, e sintomáticos em dose fixa.
  9. 9Decidir destino: alta com isolamento domiciliar por quatro dias após o exantema, ou internação com precaução por aerossol.
  10. 10A vigilância investiga em até 48 horas, monta a linha do tempo dos contatos e faz o bloqueio vacinal em até 72 horas.
  11. 11Monitorar os contatos por 30 dias após a última exposição; reavaliar o caso se a febre persistir além do terceiro dia do exantema.

Sarampo — a febre não cede quando o exantema aparece

Pródromo catarral de 2 a 4 dias com febre alta, tosse, coriza e conjuntivite. Koplik antecede o exantema em 1 a 2 dias. Exantema morbiliforme começa retroauricular e desce. Transmite de 6 dias antes a 4 dias depois do exantema. Notificação imediata em até 24 horas, isolamento e bloqueio em 72 horas.

Exantema súbito — o exantema começa onde a febre acaba

Lactente de 6 meses a 3 anos. Febre de 39,5 °C a 40,5 °C por 3 a 5 dias, criança em bom estado geral. A febre cai por volta do 4º dia e o exantema róseo aparece em tronco e abdome, durando de horas a 2 dias. Causa frequente de primeira convulsão febril. Não notifica, não isola, não prescreve antibiótico.

Eritema infeccioso — a mancha chega depois do contágio

Escolar de 5 a 15 anos. Febre baixa e mal-estar por 1 a 2 dias, seguidos, dias depois, de face esbofeteada e exantema rendilhado que recidiva ao sol e ao calor. Quando o exantema aparece, a criança já não transmite: não afasta da escola. Muda de significado em anemia hemolítica, imunossupressão e gestação.

Rubéola — o linfonodo vem antes da mancha

Febre baixa, mal-estar e linfadenopatia retroauricular, occipital ou cervical posterior 5 a 10 dias antes do exantema róseo, que dura de 1 a 3 dias. De 20% a 50% das infecções não têm exantema. Transmite de 7 dias antes a 7 dias depois. Notificação imediata em até 24 horas; um caso confirmado já é surto. O risco está na gestante do ambiente.

DoençaPródromoFebre quando o exantema apareceOnde começa e como progrideFora da peleNotifica? Isola?
Sarampo2 a 4 dias de febre alta com tosse, coriza e conjuntivite; Koplik antes do exantemaPersiste ou pioraRetroauricular e linha do cabelo, desce cefalocaudal, tende a confluir, descama finoTosse, fotofobia, prostração; otite, pneumonia, diarreia, encefaliteSim, imediata em até 24 horas. Isolamento por aerossol até 4 dias após o exantema
RubéolaFebre baixa e mal-estar; linfonodo retroauricular 5 a 10 dias antesBaixa ou já ausenteFace, couro cabeludo e pescoço, depois tronco e membros; dura 1 a 3 dias, não descamaLinfadenopatia dolorosa, artralgia em mulher adultaSim, imediata em até 24 horas. Isolamento por gotícula até 7 dias após o exantema
Eritema infecciosoFebre baixa e mal-estar 1 a 2 dias, já resolvidos quando o exantema surgeAusenteBochechas em tapa com palidez perioral, depois rendilhado em membros e nádegas; recidiva ao sol e ao calorArtralgia em adolescente e adulto; crise aplásica em anemia hemolíticaNão notifica. Não isola: quando aparece o exantema, o contágio já passou
Exantema súbitoFebre de 39,5 °C a 40,5 °C por 3 a 5 dias, criança em bom estadoCede — o exantema começa na defervescênciaTronco e abdome, poupa face e extremidades; dura de horas a 2 diasIrritabilidade no pico febril; convulsão febrilNão notifica. Não isola
Dengue e demais arbovirosesFebre alta com mialgia, dor retro-orbitária e prostraçãoEm geral já caindo quando o exantema aparece, do 3º ao 6º diaExantema difuso, por vezes com ilhas de pele sã, pruriginoso na zikaRisco hemodinâmico na dengue; artralgia incapacitante na chikungunyaNotifica pelo fluxo das arboviroses; manejo em capítulo próprio
Doença meningocócicaHoras de febre com prostração rápidaAlta, com comprometimento do estado geralPetéquias e púrpura que não desaparecem à digitopressão, em tronco e membrosMá perfusão, taquicardia, gemência, rigidez de nuca ou fontanela tensaEmergência: sai deste fluxo imediatamente; manejo em capítulo próprio

Os prazos do sarampo e da rubéola, e a partir de que evento cada um conta

AçãoPrazoConta a partir de
Notificar a vigilância epidemiológica municipalImediata, em até 24 horasDo momento da suspeita clínica
Investigar o casoAté 48 horasDa ciência da notificação
Bloqueio vacinal seletivo dos contatosAté 72 horasDa identificação do caso suspeito ou confirmado
Intensificação vacinalDepois das 72 horasDa identificação do caso
Coleta de soro (1ª amostra)Do 1º ao 30º diaDo início do exantema
Coleta da 2ª amostra de soroDe 15 a 25 dias depoisDa data da primeira coleta
Coleta de swab naso e orofaringeDo 1º ao 7º dia, no máximo até o 14ºDo início do exantema
Coleta de urinaDo 1º ao 7º dia, no máximo até o 10ºDo início do exantema
Transporte da amostra ao LacenAté 5 diasDa coleta
Liberação do resultado sorológicoAté 4 diasDo recebimento da amostra no Lacen
Isolamento do caso de sarampoAté 4 dias depoisDo início do exantema
Isolamento do caso de rubéolaAté 7 dias depoisDo início do exantema
Monitoramento dos contatos30 diasDa última exposição ao caso
Encerramento do caso no SinanAté 60 diasDa notificação

Vitamina A no sarampo: dose por faixa etária e o que existe na farmácia

Faixa etáriaPalmitato de retinol, via oralEsquemaApresentação disponível no SUS
Menor de 6 meses50.000 UI por doseDuas doses: uma no dia da suspeita e outra no dia seguinteMetade da cápsula amarela de 100.000 UI — apresentação que o programa nacional não fraciona; ver a nota abaixo
De 6 a 11 meses e 29 dias100.000 UI por doseDuas doses: uma no dia da suspeita e outra no dia seguinteUma cápsula amarela de 100.000 UI por dose
12 meses ou mais200.000 UI por doseDuas doses: uma no dia da suspeita e outra no dia seguinteUma cápsula vermelha de 200.000 UI por dose

Bloqueio vacinal: quem recebe o quê nas primeiras 72 horas

ContatoSituação vacinalConduta
Criança de 6 a 11 meses e 29 diasQualquerDose zero da tríplice viral, que não conta para a rotina: a criança ainda precisa da 1ª dose aos 12 meses e da 2ª aos 15
Criança de 12 meses a 4 anos, 11 meses e 29 diasNão vacinada1ª dose de tríplice viral e agendamento da 2ª, respeitando intervalo mínimo de 30 dias
Criança de 15 meses a 4 anos, 11 meses e 29 diasJá recebeu a 1ª dose2ª dose com tetraviral, ou tríplice viral mais varicela, respeitando o intervalo mínimo de 30 dias
Pessoa de 5 a 29 anosSem histórico ou esquema incompletoCompletar duas doses de tríplice viral, com intervalo mínimo de 30 dias
Pessoa de 30 a 59 anosSem histórico vacinalUma dose de tríplice viral
Pessoa a partir de 60 anosSem histórico vacinalUma dose de tríplice viral, com avaliação individual de risco-benefício pela equipe
Trabalhador da saúdeSem histórico ou esquema incompletoDuas doses de tríplice viral, em qualquer idade, com intervalo mínimo de 30 dias
GestanteQualquerNão vacinar. A vacina é contraindicada na gestação; a proteção vem do bloqueio de quem convive com ela
Menor de 6 mesesNão se aplicaNão vacinar. Isolamento dos casos, monitoramento por 30 dias e discussão do caso com a vigilância
ImunodeprimidoQualquerNão vacinar antes de avaliação em Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais
Contato com esquema completo, ou com dose nos últimos 30 diasComprovada em cadernetaNão precisa de dose no bloqueio

Atlas comentado: aparência, tempo e decisão

Padrão a descreverHistória que ajudaDecisão que não pode ser perdida
Maculopápulas que se espalham da face, com pródromo catarralFebre associada a tosse, coriza ou conjuntiviteSuspeitar de sarampo e adotar isolamento e vigilância sem esperar confirmação.
Exantema discreto com linfonodos retroauriculares/occipitaisFebre variável e exposição; examinar contatos vulneráveisConsiderar rubéola e investigar conforme vigilância; atenção a gestantes expostas.
Eritema malar e desenho rendilhado nos membrosCriança frequentemente bem na fase de exantemaConsiderar eritema infeccioso; identificar doença hematológica, imunossupressão e gestação entre os expostos.
Manchas após a queda da febre no lactenteFebre alta nos dias anteriores, seguida de melhoraConsiderar exantema súbito; reavaliar se a criança segue prostrada ou a febre persiste.
Petéquias/púrpura, sobretudo com criança doenteFebre, prostração, alteração de perfusão ou progressão rápidaAtendimento imediato; não atribuir a um exantema viral benigno sem avaliar gravidade.

Sobre a vitamina A no lactente menor de 6 meses: a dose de 50.000 UI vem do Guia de Vigilância em Saúde, que a traduz de recomendação internacional. O programa nacional de suplementação distribui cápsulas gelatinosas moles apenas em 100.000 UI e 200.000 UI, e orienta expressamente que não se fracione a cápsula para substituir uma dose menor. Diante disso, o caminho seguro no plantão é prescrever a dose que a norma indica e acionar a farmácia da unidade e a vigilância para obter a apresentação adequada, registrando a indicação no prontuário — não improvisar a fração da cápsula à beira do leito.

Sobre a régua do exantema petequial: a distinção entre petéquia benigna e púrpura de doença meningocócica não se faz pelo número de lesões. Faz-se pelo estado geral, pela perfusão e pela velocidade. Criança com poucas horas de febre, prostrada, com extremidades frias e enchimento capilar lento, é emergência mesmo com poucas petéquias.

Sobre a caderneta: dose com componente sarampo aplicada antes dos 12 meses não conta como dose válida do esquema de rotina, e isso inclui a dose zero. A criança que recebeu dose zero aos 8 meses continua precisando da 1ª dose aos 12 meses e da 2ª aos 15.

Sobre o intervalo com imunoglobulina e hemoderivados: quem recebeu imunoglobulina humana ou transfusão de sangue tem a vacinação de vírus vivo adiada por pelo menos três meses, porque o anticorpo passivo derruba a resposta vacinal. No sentido inverso, depois de aplicar a vacina espera-se duas semanas antes de administrar imunoglobulina.

Sobre o cálculo dos sintomáticos: a dose se prescreve em miligramas por quilo e se converte usando a concentração impressa no frasco, nunca em "gotas por quilo". A conversão do paracetamol muda 33% conforme o frasco entregue seja de 20 ou de 15 gotas por mililitro — e é exatamente aí que nasce a subdose ou a superdose.

08

A conduta, hora a hora

Toda dose e todo prazo desta linha do tempo vêm de norma nacional vigente: o Guia de Vigilância em Saúde, 6ª edição revisada, de 2024, para vitamina A, definições e isolamento; a Nota Técnica Conjunta nº 345/2025 do Ministério da Saúde para notificação, investigação, contatos e bloqueio; a Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 3ª edição de 2026, para esquema e contraindicações da tríplice viral; as Notas Técnicas nº 21/2026 e nº 71/2026 para a dose zero; e o manual de dengue do Ministério da Saúde, 6ª edição de 2024, para as doses de antitérmico, que são as mesmas de qualquer criança febril.

  1. Minuto 0 — na recepção, antes do cadastro

    O sarampo é transmitido por aerossol e o vírus permanece infectante em suspensão por até duas horas depois de a pessoa deixar o ambiente. Isso torna a sala de espera o lugar mais caro do serviço. A medida que interrompe a exposição não é do médico: é do acolhimento, e precisa estar combinada antes.

    Prescrição
    • Máscara cirúrgica na criança com febre e exantema, sempre que a idade permitir, e no acompanhante.
    • Retirar a criança da fila comum e levá-la a uma sala com porta, preferencialmente com a porta fechada.
    • Precaução padrão mais precaução por aerossol para a equipe que atende caso suspeito de sarampo; precaução por gotícula na suspeita de rubéola.
    • Sinalizar a sala usada, para que o intervalo de duas horas seja respeitado antes de recebê-la o próximo paciente.
  2. Minuto 5 — a linha do tempo e a caderneta

    É aqui que o diagnóstico se decide, e o que se registra agora ancora todos os prazos que vêm depois.

    Prescrição
    • Registrar no prontuário a data de início da febre e a data de início do exantema, separadamente.
    • Registrar se a febre cedeu, manteve-se ou piorou no dia em que o exantema apareceu.
    • Examinar a mucosa jugal à altura do terceiro molar procurando manchas de Koplik, e palpar cadeias retroauricular, occipital e cervical posterior.
    • Pedir a caderneta de vacinação; anotar as doses com componente sarampo, as datas e a idade da criança em cada uma; registrar dose aplicada nos últimos 30 dias.
    • Registrar viagem nos últimos 30 dias, contato com viajante e contato com pessoa com febre e exantema.
  3. Minuto 15 — suspeitou: notificar, sem esperar exame

    A notificação é ato médico e tem prazo de 24 horas a partir da suspeita clínica. O caminho mais rápido é o telefone da vigilância epidemiológica municipal, com o registro formal feito em seguida. Notificar antes do resultado é o que preserva a janela de 72 horas do bloqueio vacinal.

    Prescrição
    • Comunicar a vigilância epidemiológica municipal em até 24 horas pelo meio mais rápido disponível — telefone, e-mail ou formulário.
    • Preencher a Ficha de Notificação/Investigação de Doenças Exantemáticas Febris Sarampo/Rubéola e registrar o caso no Sinan.
    • Informar, já na notificação, a data do exantema, a situação vacinal, o histórico de viagem e a lista dos contatos próximos com uma forma de contato.
    • Registrar no prontuário a hora da notificação e o nome de quem a recebeu.
  4. Minuto 20 — coletar tudo de uma vez

    A chance de reencontrar o paciente é baixa e cada material tem janela própria. Coletar sangue, swab e urina no primeiro atendimento é o que evita perder o caso para a categoria de inconclusivo.

    Prescrição
    • Sangue total sem anticoagulante para sorologia IgM e IgG; separar o soro e conservar entre 2 °C e 8 °C, sem congelar o sangue total.
    • Swab combinado: três swabs de haste plástica — dois de nasofaringe, um por narina, e um de orofaringe — no mesmo tubo com meio de transporte viral.
    • Urina: de 10 a 50 mL de jato médio, em frasco estéril, desprezando o primeiro jato.
    • Cadastrar no Gerenciador de Ambiente Laboratorial e enviar ao Lacen com cópia da ficha; transporte em até cinco dias.
  5. Minuto 30 — vitamina A em todo caso suspeito de sarampo

    O palmitato de retinol reduz mortalidade e complicações no sarampo e está indicado a toda criança com suspeita, mediante avaliação clínica e nutricional — não apenas ao desnutrido. São duas doses: uma no dia da suspeita e outra no dia seguinte.

    Prescrição
    • Criança menor de 6 meses: palmitato de retinol 50.000 UI, via oral, no dia da suspeita, e repetir 50.000 UI no dia seguinte.
    • Criança de 6 meses a 11 meses e 29 dias: palmitato de retinol 100.000 UI, via oral, no dia da suspeita, e repetir 100.000 UI no dia seguinte.
    • Criança de 12 meses ou mais: palmitato de retinol 200.000 UI, via oral, no dia da suspeita, e repetir 200.000 UI no dia seguinte.
    • Administrar sempre por via oral; a vitamina A do programa não se aplica por via intramuscular nem endovenosa.
    • Registrar a administração no prontuário e entregar a segunda dose à família com a data escrita, quando a criança for de alta.
  6. Minuto 30 — sintomáticos em dose fixa, e o que não se prescreve

    Não existe antiviral para sarampo, rubéola, eritema infeccioso ou exantema súbito. O tratamento é hidratação, suporte nutricional e controle da febre. A dose se calcula em miligramas por quilo e se converte pela concentração impressa no frasco.

    Prescrição
    • Paracetamol 10 mg/kg/dose, via oral, até de 6 em 6 horas. Frasco de 200 mg/mL: com 20 gotas por mililitro, cada gota tem 10 mg — criança de 10 kg recebe 100 mg, isto é, 10 gotas.
    • Dipirona 10 mg/kg/dose, via oral, até de 6 em 6 horas. Frasco de 500 mg/mL: com 20 gotas por mililitro, cada gota tem 25 mg — criança de 10 kg recebe 100 mg, isto é, 4 gotas.
    • Conferir no rótulo quantas gotas equivalem a 1 mL antes de escrever a receita; a mesma dose em miligramas dá números de gotas diferentes conforme o frasco.
    • Não prescrever antibiótico: no sarampo ele é contraindicado, salvo indicação médica por infecção secundária estabelecida, como otite média aguda ou pneumonia bacteriana.
    • Não prescrever corticoide para o exantema.
    • Não prescrever ácido acetilsalicílico nem outro salicilato à criança com doença viral febril.
    • Manter hidratação oral e oferta alimentar; a recuperação nutricional depois do sarampo pode levar de quatro a oito semanas.
  7. Hora 1 — decidir o destino e escrever o isolamento

    A maioria vai para casa. O que muda o desfecho da comunidade é a orientação de isolamento entregue por escrito, com data de término calculada a partir do dia do exantema — não do dia da consulta.

    Prescrição
    • Alta domiciliar com isolamento social até quatro dias depois do início do exantema no sarampo, e até sete dias no caso de rubéola: sem escola, sem creche, sem trabalho, sem visitas, sem transporte coletivo e sem sala de espera.
    • Entregar por escrito a data de término do isolamento e os sinais de retorno imediato: dificuldade para respirar, recusa de líquidos, redução da diurese, sonolência, convulsão, febre persistente após o terceiro dia do exantema e dor de ouvido.
    • Internar quando houver desidratação, sinais de esforço respiratório, alteração do nível de consciência, incapacidade de manter hidratação oral ou impossibilidade de isolamento domiciliar. O paciente internado com suspeita de sarampo fica em precaução por aerossol até quatro dias após o exantema; o de rubéola, em isolamento respiratório até sete dias.
    • O imunocomprometido internado permanece em precaução aérea pela duração da doença, por causa da eliminação viral prolongada.
    • Não internar apenas para isolar: internação sem indicação clínica não é recomendada e aumenta a exposição hospitalar.
  8. Até 48 horas — investigação do caso e busca dos contatos

    A vigilância investiga em até 48 horas da notificação, monta a linha do tempo do caso, identifica os contatos expostos no período de transmissibilidade e inicia o monitoramento por 30 dias.

    Prescrição
    • Definir o período de transmissibilidade: seis dias antes até quatro dias depois do início do exantema.
    • Definir o período provável de exposição: de 7 a 21 dias antes do exantema, para identificar a fonte.
    • Registrar caso e contatos na plataforma Go.Data e acompanhar cada contato até o 30º dia após a última exposição.
    • Considerar contato próximo quem esteve em ambiente fechado com o caso durante a transmissibilidade, quem entrou no ambiente até duas horas depois de ele sair, quem teve contato físico direto, o profissional que o atendeu e quem divide o domicílio.
  9. Até 72 horas — bloqueio vacinal, a medida que interrompe a cadeia

    Setenta e duas horas é o período em que a vacinação de um contato ainda consegue evitar o caso secundário. Depois disso a ação continua útil, mas muda de nome e de objetivo: passa a ser intensificação vacinal, voltada a reduzir suscetíveis.

    Prescrição
    • Avaliar a caderneta de todos os contatos a partir dos 6 meses de idade e atualizar quem estiver sem esquema ou com esquema incompleto.
    • Contato de 6 a 11 meses e 29 dias: dose zero da vacina tríplice viral, que não substitui a rotina — a criança segue precisando da 1ª dose aos 12 meses e da 2ª aos 15.
    • Contato de 12 meses a 29 anos: completar duas doses de tríplice viral, com intervalo mínimo de 30 dias.
    • Contato de 30 a 59 anos sem histórico vacinal: uma dose. A partir de 60 anos, uma dose com avaliação individual de risco-benefício.
    • Trabalhador da saúde: duas doses, em qualquer idade.
    • Não vacinar gestante, criança abaixo de 6 meses e pessoa com sinais e sintomas de sarampo ou rubéola; imunodeprimido só após avaliação em Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais.
    • Contato com esquema completo comprovado, ou com dose de tríplice viral ou tetraviral nos últimos 30 dias, não recebe dose no bloqueio.
    • Iniciar pelo domicílio, expandir para os contatos próximos e, na vizinhança do caso confirmado, fazer varredura casa a casa num raio aproximado de cinco quarteirões.
  10. Rubéola — o que muda em relação ao sarampo

    O fluxo de notificação, investigação e bloqueio é o mesmo. O que muda é o alvo da proteção: não é o paciente, é a gestante que estava no ambiente.

    Prescrição
    • Iniciar as medidas de controle na suspeita, sem esperar confirmação laboratorial, sempre que houver gestante no local.
    • Isolamento respiratório, com precaução por gotícula, até sete dias depois do início do exantema.
    • Identificar gestantes expostas e encaminhá-las ao pré-natal para pesquisa de IgM e IgG; gestante suscetível, com IgG não reagente, repete a sorologia em três a quatro semanas e novamente em seis semanas se persistir soronegativa.
    • Gestante suscetível não recebe a vacina durante a gestação: indica-se a vacinação imediatamente após o parto.
    • Em instituição afetada, pessoas sem comprovação de vacinação contra rubéola devem ser afastadas até 23 dias depois do exantema do último caso confirmado; quem recebeu a vacina como parte do controle pode retornar imediatamente, desde que os não vacinados tenham sido afastados.
    • O seguimento da gestante infectada e a investigação do recém-nascido pertencem ao capítulo de infecções congênitas — a conduta imediata do plantão termina na notificação, no isolamento e no encaminhamento.
  11. Eritema infeccioso — a conduta é quase toda conversa

    Criança hígida com face esbofeteada e rendilhado não precisa de exame, de afastamento nem de receita. O trabalho clínico está em identificar as três exceções.

    Prescrição
    • Criança hígida: sintomático se houver dor ou febre, liberação para a escola e explicação de que o rendilhado pode reaparecer por semanas ao sol, ao calor e ao exercício.
    • Criança com anemia hemolítica crônica, palidez ou queda do estado geral: hemograma com contagem de reticulócitos e avaliação hematológica, pensando em crise aplásica transitória.
    • Paciente imunocomprometido com anemia arregenerativa: sorologia e pesquisa molecular, com avaliação especializada.
    • Gestante exposta ou sintomática: sorologia IgM e IgG e encaminhamento ao pré-natal para vigilância ultrassonográfica de hidropsia fetal.
  12. Exantema súbito — o que se prescreve é a explicação

    Febre alta que cede e exantema que aparece depois, em lactente em bom estado geral, é quadro autolimitado. A prescrição errada aqui costuma ser o antibiótico iniciado no terceiro dia de febre, que depois recebe o crédito pela melhora.

    Prescrição
    • Antitérmico em dose fixa por peso enquanto houver febre, com hidratação oral livre.
    • Não prescrever antibiótico nem corticoide.
    • Explicar que a mancha marca o fim da doença e some em um a dois dias, sem tratamento.
    • Se houve crise convulsiva febril, orientar a família sobre o que fazer numa próxima crise e sobre os sinais que exigem retorno imediato: crise com mais de cinco minutos, crise focal, crise repetida no mesmo episódio febril ou criança que não recobra o nível de consciência.
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Como saber se está funcionando

Acompanhe a criança e as providências de vigilância com responsáveis definidos. Para a criança, procure recuperação da atividade e da ingestão, evolução da febre e sinais de complicação. Para o caso e seus contatos, confira resultados, medidas de proteção e monitoramento. A alta não encerra pendências laboratoriais ou de saúde coletiva; a família precisa saber quem entrará em contato e o que exige retorno.

Curva de febre depois do exantema no sarampoDiariamente, do 1º ao 5º dia após o início do exantema

Esperado: Defervescência progressiva a partir do 3º dia do exantema, com melhora do estado geral

Se não melhora: Febre por mais de três dias depois do exantema é sinal de complicação: reavaliar presencialmente procurando pneumonia, otite média, diarreia com desidratação e alteração neurológica. Antibiótico entra aqui, com foco definido — não antes.

Trabalho respiratório e saturaçãoEm toda reavaliação, e imediatamente se a família relatar cansaço

Esperado: Frequência respiratória adequada para a idade, sem tiragem, sem batimento de asa nasal, sem gemência

Se não melhora: Taquipneia com esforço no sarampo é pneumonia até prova em contrário e indica internação com precaução por aerossol. A pneumonia é a complicação que mais mata nessa doença.

Aceitação oral, diurese e pesoDiariamente durante a fase aguda

Esperado: Manutenção da ingesta e da diurese; retomada do apetite após a defervescência

Se não melhora: Recusa alimentar mantida, diurese reduzida ou perda de peso indicam desidratação e desnutrição aguda — a recuperação nutricional após o sarampo pode levar de quatro a oito semanas e precisa de acompanhamento, não de alta simples.

Nível de consciência e crisesEm qualquer momento, com orientação explícita à família

Esperado: Criança que interage, acorda e volta ao comportamento habitual entre os picos febris

Se não melhora: Sonolência que não melhora com a queda da febre, irritabilidade inconsolável ou crise convulsiva exigem avaliação imediata: encefalite ocorre em um a quatro por mil casos de sarampo, e o quadro neurológico não espera confirmação sorológica.

Resultado do LacenAté quatro dias depois de a amostra chegar ao laboratório

Esperado: Resultado liberado no Gerenciador de Ambiente Laboratorial e retorno da vigilância sobre a classificação do caso

Se não melhora: IgM e IgG não reagentes em amostra colhida antes do 5º dia do exantema não descartam: é preciso a segunda amostra, testada em paralelo com a primeira. IgM reagente em vacinado nos últimos 30 dias exige genotipagem antes de qualquer conclusão.

Contatos monitoradosDo 7º ao 21º dia após a exposição, com acompanhamento até o 30º dia

Esperado: Nenhum contato com febre, tosse, coriza, conjuntivite ou exantema no período

Se não melhora: Contato que desenvolve sinais compatíveis vira caso suspeito e reinicia todo o ciclo: notificação em 24 horas, investigação em 48, coleta e bloqueio dos contatos dele. Contato que não é encontrado deve ser procurado pelo menos três vezes antes de ser dado como perda de seguimento.

Cobertura do bloqueio vacinalAté 72 horas da identificação do caso, e reavaliada em uma semana

Esperado: Contatos domiciliares e próximos com caderneta avaliada e atualizada; varredura feita na vizinhança do caso confirmado

Se não melhora: Bloqueio incompleto é o achado que antecede a segunda geração de casos. Passadas as 72 horas, a estratégia muda de nome para intensificação vacinal e se estende ao bairro e aos municípios vizinhos, com busca ativa nos serviços de saúde.

Hemoglobina e reticulócitos no exposto ao parvovírus B19 com anemia hemolíticaNa avaliação inicial e conforme orientação hematológica na semana seguinte

Esperado: Hemoglobina estável para o padrão do paciente e reticulócitos preservados

Se não melhora: Queda abrupta de hemoglobina com reticulócitos baixos é crise aplásica transitória e demanda avaliação hematológica e, frequentemente, transfusão — o quadro é autolimitado, mas o intervalo até a recuperação medular é o período de risco.

Seguimento da gestante expostaSorologia inicial e repetição em 3 a 4 semanas; ultrassonografia conforme o pré-natal

Esperado: IgG reagente prévio na rubéola e no parvovírus B19 indica imunidade e encerra a preocupação

Se não melhora: Gestante suscetível exposta à rubéola repete a sorologia em três a quatro semanas e novamente em seis semanas se persistir soronegativa. Infecção confirmada por parvovírus B19 exige vigilância ultrassonográfica seriada para hidropsia fetal. O seguimento é do pré-natal de alto risco, e o encaminhamento é a conduta do plantão.

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Onde o erro machuca

Esperar o resultado da sorologia para notificar

O dano: A notificação dispara a investigação e o bloqueio vacinal, e o bloqueio só interrompe a cadeia se acontecer em até 72 horas da identificação do caso. O resultado do Lacen pode levar até quatro dias depois de a amostra chegar, somados aos até cinco dias de transporte. Quem espera perde a janela inteira e transforma um caso importado em cadeia secundária.

Como pegar a tempo: Trate a notificação como parte do exame físico: ela acontece na consulta, por telefone, com o registro formal em seguida. A régua é a definição de caso suspeito, não a probabilidade que você atribui ao diagnóstico.

Descartar sarampo porque a criança tem duas doses na caderneta

O dano: Nenhuma vacina protege 100%, e a definição nacional de caso suspeito diz explicitamente 'independentemente da situação vacinal'. Descartar pela caderneta apaga o caso do sistema e mantém o paciente circulando na fase de maior transmissibilidade.

Como pegar a tempo: Use a caderneta para calcular risco e para orientar o bloqueio dos contatos, nunca para excluir a hipótese. Registre as doses e notifique do mesmo jeito.

Descartar sarampo com sorologia colhida no segundo ou terceiro dia de exantema

O dano: Antes do quinto dia do exantema, IgM e IgG podem vir não reagentes em parcela relevante dos casos, apenas porque a resposta ainda não subiu. O laudo negativo é lido como alta, o isolamento é suspenso e os contatos deixam de ser vacinados.

Como pegar a tempo: Anote no pedido e no prontuário o dia de exantema da coleta. Coleta antes do 5º dia com resultado negativo obriga a segunda amostra, de 15 a 25 dias depois da primeira, testada em paralelo com a primeira.

Deixar a criança com febre e exantema na sala de espera comum

O dano: O vírus do sarampo fica infectante em suspensão por até duas horas depois de o paciente sair, e até nove em cada dez suscetíveis próximos adoecem. Uma criança numa recepção de UPA por quarenta minutos gera dezenas de expostos, incluindo lactentes sem idade de vacinar e gestantes do pré-natal.

Como pegar a tempo: Combine com o acolhimento antes de precisar: febre mais exantema significa máscara e sala com porta, sem esperar o médico. Sinalize a sala usada e respeite o intervalo de duas horas.

Prescrever antibiótico para o exantema

O dano: No sarampo o antibiótico é contraindicado sem foco definido, e no exantema súbito ele costuma ser iniciado no terceiro dia de febre — exatamente quando a doença ia ceder sozinha. O medicamento recebe o crédito da melhora, a família aprende que criança com febre precisa de antibiótico, e o próximo episódio repete o ciclo, com o custo de reação adversa e resistência.

Como pegar a tempo: Só prescreva antibiótico com foco nomeado no prontuário: otite média aguda, pneumonia, infecção de pele. Sem foco, o que se prescreve é reavaliação com hora marcada.

Afastar da escola a criança com face esbofeteada e rendilhado

O dano: Quando o exantema do eritema infeccioso aparece, a viremia já acabou e a criança não transmite mais. O afastamento tira dias de aula sem proteger ninguém e ainda desloca a atenção do que importa: a gestante e o portador de anemia hemolítica que conviveram com ela na semana anterior, quando havia contágio.

Como pegar a tempo: Libere a criança e faça a pergunta que muda conduta: quem mora com ela está grávida? Alguém da casa ou da turma tem anemia falciforme ou outra hemólise crônica? É nessa resposta que está o trabalho.

Tratar petéquias como 'mais um exantema viral'

O dano: Exantema petequial ou purpúrico com febre e comprometimento do estado geral é doença meningocócica até prova em contrário, e a evolução para choque é medida em horas. Colocar essa criança na fila do exantema custa o tempo que decide o desfecho.

Como pegar a tempo: Comprima a lesão. O que não desaparece à digitopressão em criança prostrada, taquicárdica ou com má perfusão sai da fila agora. Petéquias em território de veia cava superior, em criança com bom estado geral após tosse ou vômito, são outra história — a diferença está no estado geral, não na contagem de lesões.

Anotar apenas 'febre há cinco dias com exantema' e não registrar o dia do exantema

O dano: A data de início do exantema é a âncora de todos os prazos: o período de transmissibilidade, o de exposição provável, a janela de coleta, o tempo de isolamento e o monitoramento dos contatos. Sem ela, a investigação recomeça por telefone dias depois, com a memória da família já contaminada.

Como pegar a tempo: Escreva duas datas separadas no prontuário: início da febre e início do exantema. E pergunte à família por uma referência concreta — o dia da semana, o dia em que faltou à escola —, porque 'há uns três dias' erra por dois.

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O que dizer ao paciente e à família

Duas conversas difíceis aparecem aqui, e nenhuma delas é sobre prognóstico. A primeira é explicar a uma família com criança em bom estado por que você vai notificar, isolar e mexer com a vida de todo mundo antes de ter certeza. A segunda é dizer a uma gestante que ela foi exposta e que a resposta depende de um exame que ainda não foi feito.

Explicar por que vai notificar antes de ter o resultado

"O exame de sangue dele vai demorar alguns dias. Se eu esperar esse resultado para avisar a vigilância, eu perco o prazo de vacinar as pessoas que estiveram perto dele — e esse prazo é de três dias. Então eu vou avisar hoje, mesmo sem certeza. Se o exame vier negativo, a gente desfaz tudo e a única coisa que aconteceu foi uma coleta de sangue."

Não diga: "É só um protocolo, a senhora não precisa se preocupar." Isso soa como burocracia e a família não colabora com o isolamento, que é a parte que depende dela.

Prescrever o isolamento domiciliar de forma que ele aconteça

"Vou escrever aqui a data: até sexta-feira, dia 14. Até lá, sem escola, sem creche, sem visita e sem levar ele junto em consulta ou mercado. Se precisar trazê-lo de volta aqui, ligue antes para eu receber vocês sem passar pela sala de espera."

Não diga: "Fique em casa uns dias." Sem data escrita e sem o combinado do retorno, a família volta na segunda-feira pela recepção comum e expõe a fila inteira outra vez.

Falar com a gestante exposta ao eritema infeccioso

"A senhora esteve perto de uma criança com essa infecção antes de a mancha aparecer, que é quando ela transmite. A maior parte dos adultos já teve isso na infância e está protegida. Existe um exame de sangue que diz em qual grupo a senhora está, e ele é o próximo passo. Enquanto ele não sai, eu não consigo dizer se há risco para o bebê — e prefiro não chutar."

Não diga: "Fica tranquila que não dá nada." Se depois vier a sorologia mostrando infecção aguda, a família não acredita mais em nada do que for dito.

Falar com a gestante exposta à rubéola

"Isso é sério e por isso a senhora vai fazer o exame hoje, não semana que vem. Se a senhora já teve rubéola ou tomou a vacina, está protegida e o assunto acaba aqui. Se não, o pré-natal vai acompanhar de perto com exames repetidos. O que eu não posso fazer é vacinar a senhora agora — essa vacina não pode ser dada na gravidez, e a proteção vem de vacinar quem mora com a senhora."

Não diga: Prometer resultado ou prazo que não depende de você. E, sobretudo, evitar sugerir qualquer decisão sobre a gestação antes do resultado.

Explicar a mancha do exantema súbito para quem chegou apavorado

"Essa mancha é a boa notícia. Ela aparece porque a febre acabou, não porque a doença piorou. Não tem remédio para ela e não precisa ter — em um ou dois dias ela some sozinha. Ele já está brincando, e é isso que eu olho."

Não diga: Pedir exames para tranquilizar. Hemograma em criança bem, com exantema típico, gera achado incidental e traz a família de volta com mais medo do que veio.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quando se pode dizer que o surto acabou: 90 dias ou 12 semanas sem casos?

90 dias após o exantema do último caso confirmado

O critério de encerramento de surto de sarampo é a ausência de novos casos depois de 90 dias contados da data do exantema do último caso confirmado. É o número que aparece no texto de vigilância do sarampo e também na regra que define reintrodução viral num município.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, volume 1, texto de Sarampo.

12 semanas sem novos casos, com busca ativa documentada

A régua operacional da busca ativa trabalha com 12 semanas: considera-se que a transmissão foi interrompida quando se documenta, por busca ativa institucional, comunitária e laboratorial, a ausência de casos suspeitos por 12 semanas a partir do exantema do último caso confirmado.

Ministério da Saúde. Nota Técnica Conjunta nº 345/2025-CGVDI/DPNI/SVSA/MS, itens de busca ativa e cenários epidemiológicos.

Como decidir

Doze semanas são 84 dias e 90 dias são pouco mais de 12 semanas e meia — a diferença é de seis dias e nasce de os dois documentos contarem coisas distintas. O prazo de 12 semanas define quando a busca ativa pode documentar a interrupção; o de 90 dias define quando o surto é declarado encerrado. Para o serviço, a decisão prática é a mais conservadora: manter a sensibilização da equipe, a busca ativa institucional e a notificação negativa semanal até completar os 90 dias, porque o custo de manter a vigilância mais seis dias é nenhum, e o de encerrar cedo é perder o caso que reinicia a cadeia.

Vitamina A no lactente menor de 6 meses com suspeita de sarampo

Prescrever 50.000 UI por dose, em dois dias consecutivos

A tabela nacional de tratamento indica palmitato de retinol por via oral em todas as crianças com suspeita de sarampo, com 50.000 UI por dose para menores de 6 meses, em duas doses — uma no dia da suspeita e outra no dia seguinte.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, volume 1, Quadro 2 do texto de Sarampo.

Não fracionar cápsula para obter dose menor

O programa nacional distribui a megadose apenas em cápsulas gelatinosas moles de 100.000 UI e de 200.000 UI, e orienta expressamente que, na falta de uma delas, não se dobre a dose nem se administre parcialmente a cápsula para substituir a dosagem prevista.

Ministério da Saúde. Caderno dos Programas Nacionais de Suplementação de Micronutrientes, 2022, seção do Programa Nacional de Suplementação de Vitamina A.

Como decidir

As duas normas são do mesmo Ministério e não conversam entre si: a dose indicada para o lactente menor de 6 meses não corresponde a nenhuma apresentação que o programa entrega, e fracionar a cápsula é justamente o que o programa proíbe. Decida pela reversibilidade do erro. Prescreva a dose que a norma clínica indica, registre a indicação no prontuário e acione a farmácia da unidade e a vigilância para obter a apresentação adequada — o atraso de horas na primeira dose é reversível; a dose improvisada a olho, com uma cápsula torcida sobre uma colher, não é medida nem registrável. E não deixe de prescrever por causa da apresentação: a criança maior de 6 meses tem a cápsula exata disponível, e o não uso por hábito é mais frequente que o problema de estoque.

Confirmar sarampo por critério clínico quando o laboratório não dá conta

É admissível em surto de grande magnitude

A norma prevê a confirmação por critério clínico — caso que preenche a definição, sem coleta e sem vínculo epidemiológico — em locais com surto de grande magnitude, em que a capacidade de resposta laboratorial seja excedida, deixando claro que não é recomendado na rotina.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, volume 1, critérios de confirmação e descarte de Sarampo.

Na fase de eliminação, a confirmação laboratorial é a régua

Num país que mantém a certificação de eliminação, a confirmação laboratorial dos casos suspeitos e a identificação dos genótipos circulantes são consideradas essenciais: o laboratório monitora a circulação viral, confirma surtos e identifica variantes.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, volume 1, seção de diagnóstico laboratorial de Sarampo; e Nota Técnica Conjunta nº 345/2025-CGVDI/DPNI/SVSA/MS.

Como decidir

Para quem atende, a divergência quase nunca se aplica: usar critério clínico é decisão da vigilância num cenário de colapso laboratorial, não do plantonista. O que muda no seu comportamento é o inverso — colher sempre, mesmo quando o quadro parece óbvio, porque num país em eliminação cada amostra também responde de onde veio o vírus e se ele é autóctone ou importado.

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O raciocínio, em voz alta

Théo, 1 ano e 4 meses, 10 kg, trazido pela mãe ao pronto-atendimento pediátrico. Quinto dia de febre, com tosse seca, coriza e olhos vermelhos desde o primeiro dia. As manchas começaram ontem atrás das orelhas e hoje cobrem face, pescoço e parte do tronco. Está prostrado no colo. A família chegou da Bolívia há três semanas. A caderneta traz vacinas até os 6 meses e nada depois disso.

  1. o que penso agora, antes de tocar na criança

    Três dados já organizam tudo. Primeiro, a sequência: cinco dias de febre com pródromo catarral e exantema que apareceu no quarto dia, com a febre mantida — isso é a assinatura do sarampo e não é a de nenhuma das outras deste grupo. Segundo, a direção: começou retroauricular e está descendo. Terceiro, a epidemiologia: procedência de país com casos confirmados nas Américas e caderneta sem nenhuma dose com componente sarampo, que só seria aplicada aos 12 meses. Ele preenche a definição de caso suspeito com folga.

  2. o que faço antes de continuar a consulta

    Interrompo a anamnese e resolvo o ambiente. Máscara cirúrgica na mãe, sala com porta fechada, aviso à equipe de que o quarto fica bloqueado por duas horas depois que ele sair. Isso não é excesso: ele está no quarto dia de exantema, ainda dentro do período de transmissibilidade, e passou algum tempo na recepção.

  3. o que examino que muda a certeza

    Olho a mucosa jugal à altura do terceiro molar. Koplik costuma ter desaparecido no quarto dia de exantema, e de fato não encontro. A ausência não muda nada — o achado é útil quando presente e inútil quando ausente. O que encontro é conjuntivite não purulenta, tosse produtiva e frequência respiratória de 44, com leve tiragem subcostal. Isso muda outra coisa: complicação.

  4. o que peço, e por quê

    Coleto sangue para IgM e IgG, swab combinado de naso e orofaringe e urina, tudo no primeiro atendimento — estou no quarto dia de exantema, dentro da janela de todos eles. Peço radiografia de tórax por causa da taquipneia com esforço, não por causa do exantema. Não peço hemograma para "ver se é viral": ele não separaria nada aqui.

  5. o que faço antes do resultado sair

    Notifico a vigilância municipal por telefone e registro a hora no prontuário. Prescrevo palmitato de retinol 200.000 UI por via oral hoje e repito 200.000 UI amanhã, porque ele tem mais de 12 meses. Paracetamol 100 mg por dose, isto é, 10 gotas do frasco de 200 mg/mL com 20 gotas por mililitro, até de 6 em 6 horas. Não prescrevo corticoide nem salicilato.

  6. como a taquipneia muda o destino

    Se fosse só o exantema, ele iria para casa com isolamento até quatro dias após o início da erupção. Mas taquipneia com tiragem no sarampo é pneumonia até prova em contrário, e é a complicação que mais mata nessa doença. Interno com precaução por aerossol e prescrevo antibiótico agora — não pelo exantema, mas por um foco que eu nomeei no prontuário.

  7. o que deixo encaminhado ao sair do plantão

    Na ficha entram a data exata do início do exantema, a lista dos contatos com telefone e os locais que ele frequentou nos seis dias anteriores. Isso permite à vigilância montar o período de transmissibilidade e o período provável de exposição, investigar em 48 horas e fazer o bloqueio em 72. Anoto ainda que havia lactentes e uma gestante na recepção no horário em que ele esperou — informação que ninguém recuperará depois se eu não escrever agora.

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Faça você

Duas semanas depois, mesma UPA. Sofia, 9 meses, 8 kg, trazida pelo pai. Quarto dia de febre alta, tosse, coriza e olhos vermelhos; hoje pela manhã apareceram manchas na face e no pescoço, e a febre continua em 39,2 °C. Ela é prima de Théo, mora na mesma casa e estava lá quando ele adoeceu. A caderneta está completa para a idade — e, portanto, sem nenhuma dose com componente sarampo, porque a primeira só é aplicada aos 12 meses. Ela aceita líquidos, está ativa entre os picos de febre, com frequência respiratória de 32 e sem esforço.

  1. o que o vínculo com o caso anterior significa

    Ela é contato domiciliar de um caso, e o intervalo entre a exposição e o início dos sintomas cai dentro dos 7 a 21 dias do período de incubação. Isso a coloca não só como caso suspeito pela clínica, mas como caso passível de confirmação por vínculo epidemiológico se o caso-fonte for confirmado em laboratório.

  2. o que já está decidido pela idade

    Com 9 meses ela pertence ao grupo de maior letalidade e ao único que a rotina não protege no momento da exposição. Também é a faixa em que a vacina, no bloqueio, seria dose zero — e o bloqueio já não a alcança, porque ela adoeceu.

  3. o que muda no laboratório em relação ao caso anterior

    Ela está no primeiro dia de exantema. Sorologia colhida antes do quinto dia pode vir com IgM e IgG não reagentes sem que isso descarte nada, o que significa que o resultado negativo já nasce com uma conduta agendada.

  4. sua vez

    Escreva o que você faz nas próximas 72 horas: o que notifica e em quanto tempo, o que coleta hoje e o que fica agendado, qual a prescrição por extenso com as doses calculadas para 8 kg, qual o destino dela e por quê, até que data vai o isolamento, e o que precisa acontecer com as outras pessoas da casa — incluindo um lactente de 4 meses e uma tia grávida de 22 semanas que moram lá.

Ver como fecharíamos

Notificação imediata à vigilância municipal, em até 24 horas da suspeita, por telefone, com registro no Sinan e a data do exantema anotada como hoje. Coleta hoje de sangue para IgM e IgG, swab combinado de naso e orofaringe e urina. Como a coleta é anterior ao 5º dia de exantema, fica agendada a segunda amostra de soro para 15 a 25 dias depois desta, testada em paralelo. Prescrição: palmitato de retinol 100.000 UI por via oral hoje e 100.000 UI amanhã, porque ela tem entre 6 e 11 meses e 29 dias; paracetamol 10 mg/kg/dose, ou seja, 80 mg — 8 gotas do frasco de 200 mg/mL com 20 gotas por mililitro — até de 6 em 6 horas; hidratação oral livre. Sem antibiótico, sem corticoide, sem salicilato. Destino: alta domiciliar, porque ela mantém ingesta, não tem esforço respiratório nem alteração de consciência; internar apenas para isolar não é recomendado. Isolamento social até quatro dias depois de hoje, com a data escrita na orientação. Na casa: o lactente de 4 meses não pode ser vacinado e entra em monitoramento por 30 dias; a tia grávida também não recebe a vacina e precisa ser comunicada ao pré-natal, já que a exposição ao sarampo aumenta o risco de doença grave materna, aborto e prematuridade; os demais moradores têm a caderneta avaliada e recebem bloqueio vacinal em até 72 horas conforme a faixa etária, e a vizinhança do caso confirmado entra em varredura casa a casa num raio aproximado de cinco quarteirões.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

A vitamina A no sarampo é terapêutica dirigida a um mecanismo — o consumo acelerado de retinol durante a infecção, que agrava a lesão do epitélio respiratório e ocular — e está indicada a toda criança com suspeita, mediante avaliação clínica e nutricional, e não apenas ao desnutrido. O esquema é sempre de duas doses, uma no dia da suspeita e outra no dia seguinte, e a dose varia por faixa etária: 50.000 UI para menores de 6 meses, 100.000 UI dos 6 aos 11 meses e 29 dias, e 200.000 UI a partir de 12 meses. A via é oral: o palmitato de retinol distribuído no país é uma cápsula gelatinosa mole e não se administra por via intramuscular nem endovenosa. Para esta criança, portanto, são 200.000 UI hoje e 200.000 UI amanhã.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Descreva um exantema sem dizer o nome da doença: lesão, textura, distribuição, mucosas e comportamento à pressão quando avaliado clinicamente. Acrescente a linha do tempo da febre e o estado geral. Compare duas crianças com manchas semelhantes, uma ativa e bem perfundida e outra prostrada. Justifique quem precisa de atendimento imediato e quem precisa de isolamento e investigação de vigilância.

Em 30 dias

Reconstrua um caso suspeito de sarampo ou rubéola: início dos sintomas e do exantema, vacinação, coleta, isolamento, notificação e contatos. Para cada prazo, diga de qual evento ele é contado; nem todos começam no dia das manchas. Depois explique por que sorologia muito precoce ou caderneta em dia não descartam sozinhas a suspeita e como comunicar a necessidade de acompanhamento.

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Agora atenda

Você é o interno de plantão no pronto-atendimento pediátrico de uma UPA, sozinho na fila verde. Entra uma criança com febre e manchas no corpo, trazida por um acompanhante que quer saber se pode ir à escola amanhã. Monte a linha do tempo, examine a mucosa, leia a caderneta de verdade e decida, ainda nesta consulta, se este é um caso que se explica e se libera — ou um caso que se notifica, se isola e se bloqueia.

Doenças exantemáticas na criança — Internato | OsceLabs