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Retomar, não recomeçar

Calendário Nacional de Vacinação da criança (PNI) e esquemas por idade

A criança em dia não é o caso. O caso é a caderneta com um buraco no meio, a contraindicação que alguém inventou e as três janelas que a idade fecha para sempre.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Coordenação-Geral de Incorporação Científica e Imunização. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação. 3ª edição, ano 2026, atualizada em 17 de julho de 2026. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 58 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Manual de normas e procedimentos para vacinação. 2ª edição revisada. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 296 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Imunizações e Doenças Imunopreveníveis. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais. 6ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2023. 178 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica nº 64/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS: introdução da segunda dose de reforço com a vacina inativada poliomielite (VIP) no Calendário Nacional de Vacinação a partir de 3 de agosto de 2026. Brasília, junho de 2026. Processo SEI 25000.090107/2026-18.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica nº 52/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS: diretrizes para o uso da vacina pneumocócica conjugada 20-valente (VPC20) em estratégias especiais no SUS e transição dos esquemas com VPC10, VPC13 e VPP23. Brasília, 2026. Processo SEI 25000.066865/2026-15.

01

Responda antes de ler

Você é o interno da sala de vacina de uma unidade básica. Menino de 2 anos e 3 meses, ativo, com coriza sem febre há dois dias. A caderneta tem BCG e hepatite B ao nascer, pentavalente, poliomielite inativada, pneumocócica e rotavírus aos 2 e 4 meses e meningocócica C aos 3 meses — todas na idade certa. Depois disso, nada, por vinte e três meses. Alguém anotou a lápis na caderneta: "reiniciar esquema completo". A mãe está na sala, com o filho no colo. O que você faz agora?

02

O paciente que você vai ver

Dez e vinte de uma sexta-feira, num posto de bairro de município com quarenta mil habitantes. A sala de vacina fica no fim do corredor, tem duas geladeiras, um balcão de fórmica e uma janela que dá para o pátio onde as crianças esperam. Você é o interno da semana, e a preceptora te desviou do consultório às oito com uma frase que soou como sobra de escala: hoje você fica com a Neuraci, que precisa de alguém que saiba ler caderneta.

Neuraci Xisto é a enfermeira responsável pela sala há catorze anos. Ela não precisa de você para aplicar nada: aplica melhor, mais rápido e com menos choro. O que ela quer é outra coisa, e ela põe a coisa em cima do balcão antes de dizer bom-dia direito. São três cadernetas de vacinação, abertas na página do calendário, empilhadas na ordem em que as famílias chegaram. "Essas três eu não resolvo sozinha", ela diz. "Nas três alguém já mandou embora sem vacinar."

A primeira é do Ryan Facundes, dois anos e três meses. A caderneta começa bem: BCG e hepatite B com carimbo da maternidade, e depois as doses de dois meses e de quatro meses, todas na data. Aí ela para. Da dose de quatro meses até hoje há um vão de vinte e três meses, sem um único registro. Na última página, num campo em branco, alguém escreveu a lápis uma frase que Neuraci sublinhou com a unha: "reiniciar esquema completo".

A mãe, Sandrelly, tem o filho no colo e a expressão de quem já ouviu isso antes. Ela conta que mudou de cidade quando o Ryan tinha cinco meses, que na cidade nova a unidade ficava a duas conduções, que ele teve uma sequência de resfriados no primeiro inverno e que numa das vezes em que conseguiu ir a sala estava fechada por falta de energia. Ela não é uma mãe que recusa vacina. É uma mãe que perdeu vinte e três meses de agenda por motivos que não têm nada a ver com o que ela pensa sobre vacina.

Você olha para o Ryan. Ele está bem: corre pelo corredor, come de tudo, nunca internou. Está com o nariz escorrendo há dois dias, sem febre — a mãe conta isso já pedindo desculpa, como se o coriza fosse motivo para voltar outro dia. É aqui que a consulta pode terminar antes de começar, e é por isso que este capítulo existe.

Porque a criança em dia não é o caso. A criança em dia recebe as doses que a agenda manda, agradece e vai embora, e a sala resolve isso sem médico nenhum. O caso é o Ryan: uma caderneta com um buraco no meio, uma frase errada escrita a lápis por alguém que não sabia, um resfriado que não contraindica nada e uma mãe que voltou. Cada uma dessas quatro coisas pode custar uma dose, e a dose que não sai hoje raramente sai depois.

As perguntas que você tem que responder nos próximos vinte minutos são quatro, e nenhuma delas é sobre imunologia. Quais doses do Ryan ainda valem. Quais faltam. Quais ele ainda pode receber e quais a idade já fechou para sempre. E o que se aplica hoje, agora, nesta visita, antes que a família suma de novo.

A regra que responde a primeira é curta e você vai usá-la a vida inteira: esquema iniciado não se recomeça, se retoma. O que este capítulo faz é te ensinar a regra e, no mesmo movimento, te mostrar os cinco lugares em que ela falha — porque há doses que a idade encerra, e quem aplica a regra sem conhecer as exceções erra para o outro lado, prometendo à família uma proteção que não existe mais.

03

Quem adoece disso

O Calendário Nacional de Vacinação em vigor reúne vinte e uma vacinas, organizadas por uma agenda que o próprio Ministério da Saúde chama de agenda oportuna e que cobre da gestação ao envelhecimento. O número importa menos que a arquitetura: são vinte e uma vacinas para uma população que vai à sala de vacina em momentos contados, e a maior parte do calendário infantil se resolve em cerca de dez visitas nos primeiros cinco anos de vida. Cada visita perdida não custa uma dose — custa o conjunto de doses que estavam marcadas para aquele dia.

O calendário brasileiro cresce por absorção. Vacinas que existiam apenas para grupos de risco, distribuídas nos centros de referência, foram migrando para a rotina de todas as salas: a meningocócica C, a pneumocócica conjugada, a varicela, a hepatite A e a tríplice bacteriana acelular para gestantes e trabalhadores de saúde fizeram esse caminho. É um movimento de mão única e vale conhecê-lo, porque explica por que uma criança de dez anos tem uma caderneta diferente da de uma criança de dois — e por que a caderneta antiga de um irmão mais velho não serve de gabarito para o mais novo.

O sentido de tudo isso aparece melhor na poliomielite. O último caso de infecção por poliovírus no Brasil ocorreu em 1989; em 1994 o país recebeu, junto com os demais das Américas, a certificação de área livre de circulação do poliovírus selvagem. Trinta e poucos anos sem a doença são o produto de décadas de esquema cumprido, e não de sorte epidemiológica: o vírus continua circulando em outras partes do mundo, e a única barreira que o Brasil tem é a cobertura da criança que está na fila hoje.

Duas mudanças de 2026 reorganizaram a página do lactente, e as duas têm data. A vacina pneumocócica 20-valente entrou na rotina em junho de 2026, substituindo progressivamente a 10-valente num período de transição em que as duas convivem no mesmo esquema. E a segunda dose de reforço contra a poliomielite, aos 4 anos, foi introduzida a partir de 3 de agosto de 2026, devolvendo ao esquema uma quinta dose de vacina inativada que havia deixado de existir. Quem estudou o calendário em 2025 estudou outro calendário.

O lugar onde as doses se perdem não é a farmácia, é a sala. O próprio manual nacional de normas e procedimentos dedica um item às falsas contraindicações e diz, com todas as letras, que elas interferem de forma importante na hesitação vacinal e no alcance das coberturas. Isso desloca o problema para onde ele de fato mora: não é a família que recusa a dose que responde pela maior parte das oportunidades perdidas, é o profissional que adia por um motivo que não adia nada — um resfriado sem febre, um antibiótico em curso, uma alergia relatada e nunca confirmada, uma reação local na dose anterior.

A instrução normativa também reconhece o problema pelo lado da gestão, e a linguagem dela vale ser lida: manda monitorar o percentual de esquemas vacinais incompletos, contado a partir de 30 dias de atraso da dose aprazada, justamente para planejar busca ativa e completude do esquema. Ou seja, a norma já define o atraso como um indicador operacional, com um relógio próprio, e não como um acidente individual da família. Trinta dias depois da data marcada, aquela criança deixa de ser um caso e passa a ser um número que alguém deveria estar perseguindo.

Há uma consequência disso que muda o que o interno faz com a informação. O motivo do atraso é dado clínico, e pertence ao prontuário: mudança de endereço, horário de funcionamento incompatível com o trabalho da mãe, distância até a unidade e sala fechada são problemas com solução de serviço, e a equipe de saúde da família pode atacá-los. Anotar apenas "esquema em atraso" descreve o sintoma e esconde a causa — e a próxima pessoa que abrir aquele prontuário vai presumir recusa vacinal, que é a hipótese menos frequente e a mais difícil de desfazer.

E há um segundo custo, silencioso, que aparece exatamente no balcão em que você está: o do adiamento burocrático. Uma caderneta com buraco assusta quem atende, e o reflexo de mandar a família voltar noutro dia, com a caderneta "organizada", transfere para ela um trabalho que é da unidade. A criança que volta é a minoria. A conduta que este capítulo defende é a oposta: a visita de hoje é a oportunidade, e o número de injeções que ela comporta é maior do que a intuição sugere.

04

Por que acontece o que acontece

Para decidir o que fazer com uma caderneta em atraso é preciso entender por que existem, no calendário, três coisas diferentes que parecem a mesma: a idade mínima, o intervalo mínimo e o intervalo recomendado. Confundi-las é a origem de quase todo erro de aprazamento.

A idade mínima existe porque o sistema imune do lactente muda depressa e porque, em algumas vacinas, o risco do produto depende da idade em que ele entra. É uma barreira de segurança e de eficácia ao mesmo tempo, e por isso ela não se negocia: dose aplicada antes da idade mínima não conta, e o esquema segue como se ela não tivesse existido.

O intervalo mínimo é outra coisa. Ele existe porque duas doses muito próximas competem entre si: a resposta gerada pela primeira ainda está no auge quando a segunda chega, neutraliza parte do antígeno e a segunda dose rende menos do que renderia. Já o intervalo recomendado — em geral 60 dias no calendário brasileiro, contra um mínimo de 30 — não é uma versão frouxa do mínimo: é o intervalo que os estudos mostraram produzir melhor resposta, anticorpos mais duradouros e proteção mais longa. A instrução normativa é explícita ao classificar o intervalo mínimo como ferramenta de exceção, para risco de exposição iminente, viagem a área de risco e algumas comorbidades. Encurtar por comodidade de agenda troca proteção futura por conveniência presente.

Agora a parte que sustenta a regra de retomar. A resposta a uma vacina não é um copo que esvazia: a primeira dose faz o trabalho mais difícil, que é o priming — apresentar o antígeno a linfócitos virgens e deixar para trás uma população de células de memória. Essa memória persiste por anos, mesmo quando o anticorpo circulante cai a níveis indetectáveis. Quando a segunda dose chega, atrasada em vinte e três meses, ela não encontra um organismo virgem: encontra memória, e a resposta que se segue é de reforço, rápida e alta. É por isso que o intervalo longo entre doses não prejudica o esquema, e é por isso que recomeçar não só é desnecessário como é um desperdício de dose, de sala e de confiança da família.

Falta a exceção, e ela tem duas origens diferentes. A primeira é o risco que cresce com a idade. A vacina rotavírus é atenuada e administrada por via oral, e o risco de invaginação intestinal associado a essa classe de produto aumenta com a idade em que a primeira dose é dada — daí os limites rígidos: a primeira dose só entre 1 mês e 15 dias e 11 meses e 29 dias, a segunda até 23 meses e 29 dias. Passou, acabou, e não existe recuperação possível.

A segunda origem é o desaparecimento do alvo. A dose de hepatite B do nascimento não é a primeira dose de um esquema qualquer: ela existe para bloquear a transmissão vertical nas horas em que esse bloqueio ainda é possível, e por isso só vale até 1 mês de vida. A instrução normativa é dura na formulação — crianças que perderam a oportunidade de receber a vacina nesse prazo não deverão mais receber esta dose —, e a lógica é clara quando se olha o desenho inteiro: a proteção contra hepatite B não se perde, porque as três doses da pentavalente a garantem; o que se perde é a interceptação de uma transmissão que, se ocorreu, já ocorreu. A dose de BCG, por sua vez, protege contra as formas graves e disseminadas da tuberculose no lactente, e é nessa fase que ela rende — a partir de 5 anos ninguém mais é vacinado com BCG na rotina, nem profissional de saúde nem grupo de maior vulnerabilidade, com a única exceção do contato domiciliar de pessoa com hanseníase, que segue regra própria. Nos dois casos a janela não fecha por burocracia: fecha porque o problema que aquela dose resolvia deixou de ser o problema daquela criança.

Duas peças menores completam o mecanismo e explicam datas que parecem arbitrárias na agenda. A primeira é o anticorpo materno: ele atravessa a placenta e protege o recém-nascido, mas também neutraliza vírus vacinal vivo, e é por isso que a tríplice viral espera os 12 meses em vez de ser dada antes. A segunda é a conjugação: nas vacinas pneumocócica e meningocócica, o polissacarídeo da bactéria é ligado a uma proteína carreadora justamente porque polissacarídeo puro não gera memória em lactente — a proteína recruta o linfócito T, e é isso que torna possível uma dose de reforço que "puxa" a resposta para cima no segundo ano de vida.

Um último princípio governa a sala inteira e é o que autoriza a conduta mais contraintuitiva do capítulo, a de aplicar várias vacinas no mesmo dia. Vacinas inativadas podem ser dadas entre si e com atenuadas simultaneamente ou com qualquer intervalo. A restrição existe apenas entre duas atenuadas injetáveis, e apenas em parte: nos menores de 2 anos, tríplice viral ou tetraviral e febre amarela pedem 30 dias de intervalo entre si; a partir de 2 anos, varicela, febre amarela, tríplice viral, tetraviral e dengue podem ser simultâneas ou com 30 dias. Vacina oral atenuada não entra nessa conta e pode ser dada com qualquer coisa.

Duas torres de blocos empilhados lado a lado. Na da esquerda, quatro blocos permanecem firmes na base, há um vão vazio acima deles e novos blocos são colocados em cima dos que já estavam ali, continuando a construção do ponto em que ela havia parado. Na da direita, os mesmos quatro blocos aparecem derrubados e espalhados pelo chão, e um bloco novo recomeça a pilha a partir do piso vazio.
A memória imunológica deixada pelas doses já aplicadas não se desfaz com o tempo: o esquema atrasado continua de onde parou, e derrubá-lo para começar de novo desperdiça o que já estava construído.
05

Como se apresenta de verdade

O que segue é o calendário da criança e do adolescente como ele está hoje, na instrução normativa do Calendário Nacional de Vacinação em vigor — a 3ª edição do ano de 2026, atualizada em 17 de julho de 2026. A data não é enfeite bibliográfico. Este é um documento que muda por nota técnica, várias vezes ao ano, e uma afirmação sobre esquema vacinal errada por uma edição é o defeito mais comum de qualquer material sobre o tema. Antes de repetir para uma família o que você leu em qualquer lugar, inclusive aqui, confira qual edição está aberta na sala.

Uma observação de leitura que evita erro nas seis seções abaixo: as idades do calendário são idades de início, não de vencimento. Quando o texto diz "aos 2 meses", significa que a dose está marcada para o dia em que a criança completa 2 meses e permanece aplicável depois disso, dentro da faixa etária de cada produto. E as faixas se escrevem sempre com o dia final explícito — 4 anos, 11 meses e 29 dias significa até a véspera do quinto aniversário.

O primeiro ano: onde mora quase todo o calendário

Ao nascer, BCG e hepatite B têm funções próprias. A hepatite B deve ser aplicada preferencialmente nas primeiras 12 horas; perder esse momento precisa ser registrado e avaliado, com continuidade do esquema e atenção específica à exposição perinatal. A BCG protege sobretudo contra formas graves de tuberculose na infância e tem condições próprias de peso e imunidade. A ausência de uma dose na maternidade exige um plano de recuperação, sem presumir que a próxima consulta resolverá a pendência sozinha.

Aos 2 meses começa o bloco pesado: pentavalente, que carrega difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e Haemophilus influenzae b numa injeção só; vacina inativada contra a poliomielite; e a primeira dose da pneumocócica. Aos 3 meses, meningocócica C. Aos 4 meses, a segunda dose de pentavalente, de poliomielite inativada e de pneumocócica. Aos 5 meses, a segunda dose de meningocócica C. Aos 6 meses, a terceira dose de pentavalente e de poliomielite inativada.

Rotavírus integra a rotina aos 2 e 4 meses, por via oral. No resgate, cada dose tem limite próprio: a primeira até 11 meses e 29 dias e a segunda até 23 meses e 29 dias, respeitando também as idades mínimas e os intervalos da tabela. Não descreva toda a janela como encerrada antes de 1 ano (PNI, 2026).

Aos 6 meses entra também a vacina influenza, em doses anuais: na primovacinação de criança menor de 9 anos são duas doses com 30 dias de intervalo; nos anos seguintes, dose única por temporada. E a vacina covid-19 está prevista no calendário para a faixa de 6 meses a 4 anos, 11 meses e 29 dias.

Aos 9 meses é aplicada a primeira dose de febre amarela, com reforço aos 4 anos no esquema infantil. Situações de exposição e contraindicações exigem a avaliação específica descrita no calendário.

Vale fixar a arquitetura, porque ela se repete: três doses aos 2, 4 e 6 meses formam o esquema básico de pentavalente e de poliomielite inativada; duas doses no primeiro semestre mais uma no segundo ano formam o desenho da pneumocócica e da meningocócica. Onde há esquema básico há reforço depois, e reforço não é repetição — é a dose que consolida a memória construída pelas anteriores.

E vale entender por que este ano concentra tanta coisa, porque é o que sustenta a urgência de recuperar o atraso. A gravidade das doenças que essas vacinas previnem não está distribuída igualmente pela infância. A instrução normativa diz da coqueluche que ela é de grande importância para a saúde pública de modo mais especial para os lactentes, considerados o grupo de maior morbimortalidade pela doença; da BCG, que previne as formas graves e disseminadas da tuberculose, a miliar e a meníngea; e da pneumocócica, que previne doenças invasivas com sequelas frequentes e graves. A nota técnica da 20-valente registra que a doença pneumocócica invasiva é causa importante de morbimortalidade especialmente entre crianças. A agenda do primeiro ano não é apertada por capricho administrativo: ela corre atrás de um risco que está correndo à frente dela.

Duas escolhas do calendário só fazem sentido à luz disso. A vacinação da gestante contra coqueluche, a partir da vigésima semana, existe para proteger o recém-nascido no vão entre o nascimento e a terceira dose de pentavalente, quando ele ainda não tem esquema próprio — assunto que pertence ao capítulo de suplementação e vacinação na gestação, na apostila de Obstetrícia, e é lá que ele deve ser estudado. E a dose de hepatite B nas primeiras 12 horas de vida existe porque a transmissão vertical se bloqueia nas horas seguintes ao parto, e não depois.

Doze e quinze meses: o segundo tempo, e o mais esquecido

Aos 12 meses concentram-se três coisas: a primeira dose de tríplice viral, o reforço da pneumocócica e o reforço meningocócico, este último feito com a vacina meningocócica ACWY, e não mais com a meningocócica C. Quem cresceu com o calendário antigo estranha: o esquema básico é de meningocócica C aos 3 e 5 meses, e o reforço dos 12 meses passou a ser ACWY.

Aos 15 meses vem o segundo tempo completo: a segunda dose de tríplice viral, o primeiro reforço de pentavalente feito com a tríplice bacteriana de células inteiras, o primeiro reforço de poliomielite inativada, a dose de hepatite A e a primeira dose de varicela monovalente. A instrução normativa recomenda expressamente que a segunda dose de tríplice viral e a primeira de varicela sejam aplicadas na mesma visita, em sítios anatômicos distintos.

Este é o bloco que mais se perde. A criança de 12 e 15 meses já anda, já não vai à unidade para pesar todo mês, e a família com frequência entende que "as vacinas de bebê" acabaram. São cinco produtos aos 15 meses, e uma visita perdida aqui produz exatamente a caderneta que chega à sua mesa dois anos depois.

Um detalhe de nomenclatura que evita confusão na leitura da caderneta: a hepatite A do calendário público é dose única aos 15 meses, disponível na rede até 4 anos, 11 meses e 29 dias. Uma segunda dose de hepatite A registrada numa caderneta veio da rede privada ou de uma indicação especial, e não é erro.

O porquê deste bloco estar onde está tem duas metades. A primeira é o anticorpo materno, que só decai o suficiente por volta dos 12 meses — antes disso ele neutraliza o vírus vacinal atenuado da tríplice viral e da varicela, e a dose renderia menos. A segunda é a maturação da resposta a polissacarídeos: o lactente responde mal a açúcar bacteriano puro, e mesmo com a conjugação a resposta ganha muito com uma dose administrada depois do primeiro aniversário. Por isso pneumocócica e meningocócica têm reforço aos 12 meses, e por isso o reforço não é dispensável — ele é a dose que transforma uma proteção curta numa proteção que atravessa a fase de maior risco.

Há ainda uma lógica de substituição de produto que aparece aqui pela primeira vez e confunde quem lê a caderneta: o esquema básico meningocócico usa a vacina que cobre só o sorogrupo C, e o reforço usa a que cobre quatro sorogrupos. Não é troca por indisponibilidade nem erro de registro — é o desenho do calendário, e ele se repete no reforço da pneumocócica, hoje feito com a 20-valente sobre um esquema básico que ainda pode conter a 10-valente.

Quatro anos, e a virada dos cinco

Aos 4 anos: segundo reforço de tríplice bacteriana, segunda dose de varicela, reforço de febre amarela e — desde 3 de agosto de 2026 — o segundo reforço de poliomielite inativada. Com essa reintrodução, o esquema contra a poliomielite passou a ter cinco doses, todas com vacina inativada: três aos 2, 4 e 6 meses e dois reforços, aos 15 meses e aos 4 anos.

Os 5 anos são a fronteira mais consequente do calendário infantil, porque vários produtos param ali. Poliomielite inativada, pneumocócica conjugada, meningocócica C e ACWY na faixa da infância, hepatite A e febre amarela em esquema de duas doses: todos têm teto em 4 anos, 11 meses e 29 dias. Depois disso, a criança não deixa de ser vacinável — mas passa a ser vacinada por outras regras, com outros produtos e, em vários casos, com menos doses.

A tríplice bacteriana de células inteiras e a pentavalente têm teto diferente: valem até 6 anos, 11 meses e 29 dias. A partir dos 7 anos a atualização contra difteria e tétano passa a ser feita com a dupla adulto, e o componente coqueluche sai do esquema de rotina da criança.

Há uma consequência prática dessa fronteira que a instrução normativa resolve de forma explícita e pouco conhecida. A criança de 6 anos sem os reforços de tríplice bacteriana deve receber o primeiro reforço o quanto antes, ainda antes dos 7 anos. Se o intervalo de 6 meses entre os dois reforços não couber antes do aniversário de 7, ela fica dispensada do segundo reforço — e se agenda, em lugar dele, uma dose de dupla adulto para dez anos depois do primeiro reforço.

A varicela é a exceção mais generosa dessa faixa: na população geral vai até 6 anos, 11 meses e 29 dias, e para os povos indígenas não há limite superior de idade.

Por que tantos tetos convergem para os 5 anos, e não para outra idade? Os documentos fixam a idade e não explicam a escolha, o que é uma lacuna real de quem lê a norma procurando o motivo. O que a norma deixa ver é a lógica de alocação: são os produtos cujas doenças a própria instrução normativa descreve como de maior gravidade na primeira infância, e a oferta pública acompanha essa curva. Isso não significa que a criança de 6 anos não se beneficiaria de nada; significa que a rede não oferece — e dizer o contrário à família cria uma expectativa que a sala não pode cumprir.

Há uma porta que se abre exatamente onde a rotina se fecha, e ela quase nunca é lembrada: a do viajante. A vacina inativada contra a poliomielite está indicada a viajantes internacionais a partir de cinco anos de idade, quando oriundos de área com recomendação de vacinação contra a doença ou quando se deslocam para ela. As duas faixas se encaixam sem sobrepor nem deixar vão: a rotina vai até 4 anos, 11 meses e 29 dias e a indicação de viagem começa no quinto aniversário. Para a criança que perdeu a janela da rotina e vai viajar, essa é a via.

O calendário público carrega, aliás, um bloco inteiro sobre viajantes que nenhum outro capítulo do Internato reivindica, e que vale conhecer porque a pergunta chega ao ambulatório de pediatria: revisar e atualizar a situação vacinal pelo menos 15 dias antes da viagem, e pelo menos 10 dias antes no caso da febre amarela, que é o tempo necessário para a soroconversão; levar o cartão de vacinas em dia junto com os documentos pessoais; e, para viagem internacional, providenciar o Certificado Internacional de Vacinação ou Profilaxia — ou, quando a vacinação exigida for impossível, o atestado de isenção, cujo modelo oficial o Ministério da Saúde disponibiliza e a equipe da unidade preenche. A vacinação do adulto e do viajante adulto, com seus próprios esquemas, não é assunto de nenhum capítulo deste nível, e não é assumida aqui: o que fica é a parte que toca a criança.

O corte dos 7 anos tem outra natureza, e essa os documentos sustentam. O manual da rede de referência registra que o componente coqueluche de células inteiras é o principal responsável por eventos adversos indesejáveis, de febre, choro e irritabilidade a convulsões, episódio hipotônico-hiporresponsivo e encefalopatia. A partir dos 7 anos a proteção contra difteria e tétano continua, com a dupla adulto, mas o componente coqueluche sai da rotina infantil — e reaparece, em versão acelular e em dose única, na gestante e no trabalhador de saúde.

O adolescente ainda tem calendário — e quase ninguém abre

Dos 9 aos 14 anos, 11 meses e 29 dias: vacina contra o papilomavírus humano, quadrivalente, em dose única para meninas e meninos. Para quem passou dessa faixa sem nenhuma dose, existe estratégia de resgate com dose única entre 15 anos e 19 anos, 11 meses e 29 dias, organizada por cada estado.

Dos 10 aos 14 anos, 11 meses e 29 dias: vacina dengue, em duas doses com 3 meses de intervalo.

Dos 11 aos 14 anos, 11 meses e 29 dias: meningocócica ACWY, uma dose, que serve tanto como dose quanto como reforço conforme a situação vacinal encontrada.

Aos 14 anos: reforço de dupla adulto, dez anos depois do segundo reforço de tríplice bacteriana feito aos 4 — e a conta fecha exatamente. Daí em diante, uma dose de dupla adulto a cada 10 anos pela vida toda, antecipável para 5 anos diante de exposição a risco de difteria ou tétano.

Vale dizer em voz alta uma coisa que a estrutura do calendário deixa implícita: a adolescência tem cinco compromissos vacinais distintos, concentrados numa faixa de cinco anos, e é a fase em que a caderneta menos aparece na consulta. Se um adolescente está à sua frente por qualquer motivo, pedir a caderneta é uma das poucas intervenções de alto rendimento que cabem numa consulta de dez minutos.

O porquê da faixa do papilomavírus é o mais mal explicado do calendário, e explicá-lo direito muda a conversa com a família. A vacina previne a infecção e não trata a que já existe, e a idade da dose importa: a instrução normativa pede que se vacine dentro dessa janela o mais precocemente possível, para melhor proteção. A quantidade de doses conta a mesma história — a régua da sociedade de pediatria indica duas doses até os 19 anos e três doses a partir dos 20 anos e para imunocomprometidos de qualquer idade, o que é a forma prática de dizer que a resposta do adolescente é melhor do que a do adulto. Vacinar antes do início da vida sexual não é um juízo sobre a criança: é o momento em que a prevenção ainda é integral.

A meningocócica ACWY do adolescente merece uma observação de leitura: ela ocupa, na adolescência, o lugar de dose ou de reforço conforme a situação vacinal encontrada — não é uma repetição do reforço dos 12 meses. E a faixa da dengue, de 10 a 14 anos, é a que o calendário público oferece hoje na rotina, mais estreita do que a licenciada para o produto; à família que pergunta por que o irmão de 16 anos não recebe, a resposta honesta é que a oferta pública está restrita a essa faixa, e não que a doença poupe as outras.

Um último ponto de leitura de caderneta na adolescência: a segunda dose de tríplice viral, quando nunca foi aplicada, continua disponível dos 12 meses aos 59 anos, com esquema de duas doses até os 29 anos e de uma dose dos 30 aos 59. É a pendência do calendário infantil mais frequentemente recuperável nessa idade. O que se faz com o sarampo depois que a doença se instala — definição de caso, notificação, bloqueio e isolamento — é assunto do capítulo de doenças exantemáticas na criança, o primeiro desta apostila; aqui o interesse para no que impede a doença de acontecer.

O que mudou em 2026, e desde quando

A pneumocócica é o ponto de maior instabilidade da página do lactente hoje, e por um motivo bom: está em substituição. A vacina 20-valente entrou no programa em junho de 2026 e amplia a cobertura para vinte sorotipos, entre eles o 19A e o 3. A 10-valente está saindo, e enquanto houver estoque as duas convivem num mesmo esquema.

O desenho da transição é este: primeira dose aos 2 meses com a 20-valente, segunda dose aos 4 meses com a 10-valente enquanto ela existir, e reforço aos 12 meses com a 20-valente. A própria instrução normativa acrescenta a regra que resolve o caso real: onde a 10-valente já acabou, inicia-se ou completa-se o esquema com a 20-valente. Ou seja, a sala não guarda vaga esperando produto.

Duas consequências práticas, para não errar na leitura da caderneta. A criança que completou o esquema básico de duas doses com a 10-valente antes de 12 meses e recebeu o reforço com a 10-valente depois dessa idade está vacinada, e não precisa de nenhuma dose da 20-valente. E a criança entre 13 meses e 4 anos, 11 meses e 29 dias sem nenhuma dose recebe dose única de 20-valente — não um esquema completo.

A segunda mudança é a poliomielite. A segunda dose de reforço aos 4 anos passou a valer a partir de 3 de agosto de 2026, e a nota técnica que a introduziu registra que a decisão foi discutida na Câmara Técnica Assessora em Imunizações com as sociedades científicas, o Conass, o Conasems e a Organização Pan-Americana da Saúde. A mesma nota resolve o caso da criança que recebeu o primeiro reforço com a vacina oral, no tempo em que ela existia: considera-se cumprido o primeiro reforço e aplica-se o segundo, aos 4 anos, com a inativada.

Há uma terceira mudança, administrativa, que muda o caminho e não o esquema, e será tratada na investigação: a rede de imunobiológicos para situações clínicas especiais foi reorganizada por portaria de fevereiro de 2025, e o nome pelo qual todo mundo a conhece — CRIE — passou a conviver com uma sigla nova.

O que a caderneta não diz

Uma caderneta é um documento de registro, não de proteção, e a diferença aparece em seis pontos que o interno precisa saber procurar.

Primeiro: ela registra o dia da aplicação, e não a idade da criança naquele dia. A conta é sua. Uma dose de tríplice viral carimbada aos 10 meses está registrada, mas não vale — foi aplicada antes da idade mínima, e o esquema segue como se ela não existisse.

Segundo: ela registra o nome que a sala escreveu, e os nomes mudaram. "Pneumo 10", "pneumo 20", "pneumo 13" e "pneumo 23" são produtos diferentes com desenhos de esquema diferentes; "meningo C" e "meningo ACWY" não se substituem livremente; "pentavalente" pública contém coqueluche de células inteiras e hepatite B, e a "penta acelular" da rede privada e dos centros de referência contém poliomielite inativada no lugar da hepatite B. Ler o nome inteiro, e não a primeira palavra, evita erro de contagem.

Terceiro: ela não registra o que não foi feito nem por quê. O vão de vinte e três meses do Ryan não diz se a família não veio, se a sala estava fechada ou se alguém o mandou embora por um resfriado. Perguntar isso não é curiosidade: o motivo do atraso é o que decide se a próxima dose vai sair.

Quarto: nem toda dose registrada conta para a rotina. Existe no calendário a figura da dose zero — uma dose aplicada fora da faixa etária de rotina, por exposição a risco, que protege naquele momento e não substitui nenhuma dose do esquema. São três situações: febre amarela entre 6 e 8 meses, em local com circulação confirmada do vírus; tríplice viral entre 6 e 11 meses, em situação epidemiológica de risco para sarampo ou rubéola; e varicela entre 9 e 11 meses, para criança contactante em surto. Depois de qualquer uma delas, a agenda da criança continua exatamente como estava — a febre amarela ainda precisa da dose dos 9 meses e do reforço dos 4 anos, a tríplice viral ainda precisa das duas doses dos 12 e 15 meses. Contar uma dose zero como dose do esquema é um erro que deixa a criança com uma dose a menos e ninguém percebe.

Quinto: uma segunda dose de BCG registrada não é necessariamente erro. Ela é a imunoprofilaxia recomendada ao contato domiciliar de pessoa com hanseníase, paucibacilar ou multibacilar, a partir de 1 ano de idade — quem tem uma dose comprovada recebe a segunda, com intervalo mínimo de 6 meses e aplicada cerca de um centímetro acima da cicatriz existente; quem já tem duas doses comprovadas não recebe mais nenhuma. Contatos que estejam em tratamento para tuberculose ou já tratados no passado não precisam dessa imunoprofilaxia. Diante de uma caderneta com duas BCG, a pergunta certa não é "quem errou", é "houve hanseníase na casa".

Sexto: a ausência de cicatriz de BCG não é ausência de dose, e não indica revacinação. A instrução normativa é direta ao dizer que crianças vacinadas na faixa etária preconizada que não apresentem cicatriz não têm recomendação de revacinar. As únicas exceções são situações identificadas no ato da vacinação, como uso de vacina vencida ou dose subterapêutica por extravasamento — e mesmo aí se monitora por três meses antes de repetir. Como meio de comprovação valem o registro na caderneta, a cicatriz vacinal ou a palpação de nódulo no deltoide direito.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação deste capítulo não usa laboratório. O exame é a caderneta, o instrumento é a aritmética e o que se procura é uma lista de doses válidas — o resto do trabalho é decidir o que ainda cabe e o que a idade já encerrou.

Uma advertência de método antes das seções: a tentação, diante de uma caderneta confusa, é resolver o problema pedindo sorologia ou repetindo tudo. As duas saídas parecem seguras e nenhuma das duas é. A primeira gasta tempo e devolve uma resposta que quase nunca muda a conduta; a segunda expõe a criança a doses desnecessárias e, pior, sinaliza à família que o que ela fez até aqui não valeu.

Ler a caderneta: três colunas, nunca uma

Transcreva cada registro em três colunas antes de decidir qualquer coisa: qual produto, em que data, e com que idade a criança estava naquela data. A terceira coluna é a que ninguém escreve e a que decide tudo.

Com as três colunas na mão, calcule os intervalos entre doses do mesmo produto. O que você procura é dose aplicada antes da idade mínima e dose aplicada antes do intervalo mínimo — as duas únicas situações em que uma dose registrada não conta.

Faça isso no papel, à caneta, na frente da mãe. Não é cerimônia: é a forma mais rápida de ela entender que o filho não está começando do zero, e a conversa que vem depois fica mais curta.

Três armadilhas de leitura merecem menção porque produzem contagem errada. A primeira é a dose registrada sem produto identificável — "vacina", "reforço", um carimbo ilegível. Dose que não se sabe qual é não conta como dose daquele produto, e a conduta é considerar aquele esquema incompleto; não há como validar o que não se identifica. A segunda é a dose registrada em duplicidade, quando a mesma aplicação aparece na página do calendário e na página de anotações, e a criança acaba contada com uma dose a mais. A terceira é a caderneta com etiquetas de lote coladas sem data legível, que se resolve pelo cotejo com o sistema de informação da rede.

E há a armadilha inversa, que faz perder dose: transcrever a idade em anos redondos. Uma criança "de 5 anos" pode ter 4 anos e 10 meses, e a diferença decide se ela ainda recebe poliomielite inativada, pneumocócica, meningocócica e hepatite A ou se já perdeu as quatro. Nas idades de virada, calcule em meses e dias — a norma escreve os tetos com o dia final justamente porque essa precisão importa.

As três perguntas que validam uma dose

A regra nacional é uma frase só, e vale a pena guardá-la inteira: esquemas de vacinação iniciados, e devidamente registrados, não devem ser recomeçados, sendo consideradas válidas todas as doses prévias que tenham sido administradas na idade correta e respeitando os intervalos mínimos. Repare que a condição está dentro da própria frase — as duas ressalvas finais são exatamente os dois lugares onde a dose cai.

Daí saem três perguntas por dose. A dose está registrada? A criança tinha a idade mínima daquele produto na data? O intervalo desde a dose anterior do mesmo produto respeitou o mínimo? Três sins, a dose vale e conta. Um não, a dose não conta e é repetida no lugar certo do esquema — o que não é o mesmo que recomeçar o esquema todo.

Repare no que não está na lista. Não há pergunta sobre há quanto tempo foi a última dose. Um intervalo de vinte e três meses entre a primeira e a segunda dose de pentavalente é longo, é lamentável e não invalida nada: o intervalo mínimo é um piso, não um teto. Não existe, no calendário brasileiro, prazo máximo entre doses que obrigue a reiniciar esquema.

Há um caso em que os pisos se sobrepõem e a conta engana. No esquema acelerado de hepatite B para maiores de 7 anos, os intervalos mínimos são de 1 mês entre a primeira e a segunda dose, 2 meses entre a segunda e a terceira, e 4 meses entre a primeira e a terceira. Um mais dois são três, e o piso da primeira à terceira é quatro: quem respeita só os intervalos par a par aplica a terceira dose um mês cedo, e essa dose não conta. Sempre que houver um intervalo declarado entre a primeira e a última, é ele que governa.

O mesmo desenho aparece na pentavalente, por causa do componente hepatite B que ela carrega: há intervalo mínimo entre doses, há um piso de 4 meses entre a primeira e a terceira, e há uma regra de idade — a terceira dose não é administrada antes dos 6 meses. Numa criança que começou na idade mínima de 6 semanas, os intervalos mínimos levariam a terceira dose para pouco mais de 3 meses de vida, e o piso de 4 meses entre primeira e terceira a levaria para cerca de 5 meses e meio; quem governa é a regra de idade, que a empurra para os 6 meses. Entre pisos concorrentes, vale sempre o mais restritivo.

Quando não há caderneta nenhuma

Caderneta perdida não é caderneta em branco, mas quase sempre é tratada como tal — e, na prática, essa é a decisão correta em quase todo o calendário. Sem comprovação, a criança é considerada não vacinada e recebe o esquema previsto para a idade dela.

Duas ressalvas mudam isso. A primeira é a BCG, cuja comprovação aceita a cicatriz vacinal ou a palpação de nódulo no deltoide direito, além do registro — um exame físico de dez segundos evita uma dose desnecessária. A segunda é a possibilidade real, hoje, de recuperar o histórico pelos registros eletrônicos da rede, que a instrução normativa trata como parte do trabalho da sala. Antes de declarar uma criança não vacinada, vale a tentativa.

Há um efeito colateral bom em assumir a criança como não vacinada: o esquema por idade é sempre mais enxuto do que o esquema completo do lactente. Uma criança de 3 anos sem comprovação nenhuma não recebe as onze injeções do primeiro ano; recebe o que a faixa dela prevê — e boa parte disso é dose única.

Sorologia: a pergunta que ela responde, e as que não

Na criança saudável com caderneta em atraso, sorologia não tem papel. Não existe recomendação de dosar anticorpos para decidir se uma dose vale, e um título baixo não diz se a memória imunológica existe — ele mede o anticorpo circulante, que cai naturalmente com o tempo sem que a proteção se perca.

Onde a sorologia entra é em situações nomeadas, e todas envolvem hepatite B. A avaliação de soroconversão, com dosagem de anticorpos contra o antígeno de superfície entre 30 e 60 dias após a última dose do esquema básico, está indicada para o recém-nascido de mãe com sorologia positiva para hepatite B e para a criança nascida de mãe com HIV. E a revacinação, quando o título fica abaixo de 10 mUI/mL, é indicada em quatro grupos: lactentes de mães com hepatite B, pacientes em hemodiálise, profissionais de saúde e outros pacientes em imunossupressão.

Fora disso, a instrução normativa afirma que a revacinação contra hepatite B não é indicada de rotina em pessoas imunocompetentes previamente vacinadas. Pedir anti-HBs numa criança saudável para "conferir se pegou" produz um número que não tem conduta associada.

Contraindicação verdadeira, contraindicação inventada

Comece pelo tamanho da lista verdadeira, porque ele surpreende: as contraindicações comuns a todo e qualquer imunobiológico são duas. Reação anafilática confirmada após dose anterior, e hipersensibilidade ao princípio ativo ou a qualquer excipiente da vacina. Tudo o mais é específico de um produto, e cabe em poucas linhas por produto.

As específicas que mais aparecem na pediatria são estas. Vacinas atenuadas — tríplice viral, varicela, febre amarela, rotavírus, BCG — não são dadas a gestante nem a pessoa com imunodeficiência grave, primária ou adquirida. A pentavalente e a tríplice bacteriana são contraindicadas em quadro neurológico em atividade e após três eventos definidos em dose anterior: convulsão nas primeiras 72 horas, episódio hipotônico-hiporresponsivo nas primeiras 48 horas e encefalopatia aguda grave em relação temporal com a dose. A vacina rotavírus é contraindicada em criança com antecedente de invaginação intestinal ou malformação não corrigida do trato gastrointestinal que predisponha a ela. A BCG é contraindicada a partir dos 5 anos, em imunodeficiência, em uso de corticoide em dose imunossupressora por mais de duas semanas e na gravidez.

Agora a lista que faz o dano. O manual nacional de normas e procedimentos enumera as falsas contraindicações, e vale ler em voz alta na sala: doença aguda benigna sem febre; prematuridade ou baixo peso ao nascer, com a única exceção da BCG, que espera o peso de 2 kg; reação local em dose anterior; diagnóstico prévio da própria doença que a vacina previne; doença neurológica estável ou pregressa com sequela; antecedente familiar de convulsão ou de morte súbita; relatos de alergia que não sejam anafilaxia comprovada; história familiar de evento adverso; uso de antibiótico profilático ou terapêutico e de antiviral; imunoterapia com extratos alérgenos; corticoide em dias alternados, inalatório, tópico ou em dose fisiológica de manutenção; contato domiciliar de gestante com indicação de tríplice viral; recuperação de doença aguda; internação hospitalar, exceto para as vacinas orais; amamentação, exceto febre amarela em mãe de bebê menor de 6 meses; e febre baixa ou moderada após a dose anterior.

Duas dessas merecem destaque porque contrariam o hábito. A prematuridade não atrasa o calendário: as vacinas são administradas na idade cronológica recomendada, e não na idade corrigida — só a BCG espera os 2 kg. E o antibiótico em curso não adia nada; a criança em tratamento de otite recebe as vacinas do dia normalmente.

O adiamento verdadeiro tem um recorte estreito: doença febril aguda moderada ou grave, até a melhora do quadro. O motivo declarado não é risco da vacina — é não confundir os sinais da doença em curso com evento adverso pós-vacinação. Um coriza sem febre, como o do Ryan, não entra nesse recorte.

Duas situações de adiamento têm relógio próprio e vale conhecê-las, porque não são intuitivas. A primeira é o uso recente de imunoglobulina, sangue ou hemoderivado, que interfere nas vacinas virais vivas atenuadas injetáveis: o intervalo vai de 3 meses, depois de imunoglobulina antitetânica ou anti-hepatite B, a 11 meses, depois de imunoglobulina intravenosa em dose terapêutica alta; hemácias lavadas não exigem intervalo nenhum, e concentrado de hemácias exige 5 meses. Na ordem inversa vale o outro prazo: aplicada a vacina, a imunoglobulina só entra duas semanas depois.

A segunda é o uso de medicamentos imunossupressores, cujo intervalo até a vacinação depende do fármaco: cerca de 1 mês para corticoide em dose imunossupressora, 1 a 3 meses para metotrexato, 3 meses para azatioprina, ciclosporina, tacrolimo, ciclofosfamida e micofenolato, 3 meses ou cinco meias-vidas para os biológicos anticitocina, 6 meses para os depletores de linfócito B e apenas 2 semanas para os inibidores de janus-quinase. Sulfassalazina e hidroxicloroquina não exigem intervalo nenhum. A regra que organiza tudo isso é vacinar antes da imunossupressão sempre que houver escolha: inativadas ao menos 14 dias antes do início da terapia, atenuadas idealmente 4 semanas antes.

Um lembrete de calibragem que o próprio manual explicita e que resolve metade das dúvidas de corticoide na pediatria: são consideradas imunossupressoras as doses de 2 mg/kg/dia de prednisona ou equivalente em crianças, ou de 20 mg/dia por 14 dias ou mais em adultos. Doses inferiores a essas, mesmo por período prolongado, não constituem contraindicação, e corticoide tópico, inalatório ou intra-articular não é considerado imunossupressor. A criança em corticoide inalatório para asma recebe todas as vacinas do dia.

Quando a resposta não está na sala: o caminho do CRIE

Há um conjunto pequeno de situações em que a vacina certa para aquela criança não é a que está na geladeira da unidade. Para elas existe uma rede de referência, historicamente conhecida como CRIE — Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais —, cuja doutrina técnica continua sendo o Manual dos CRIE, 6ª edição, de 2023, com uma exceção já em vigor: a vacina pneumocócica, que desde maio de 2026 segue a Nota Técnica nº 52/2026, à qual a própria instrução normativa remete as indicações clínicas especiais.

Em fevereiro de 2025 essa rede foi reorganizada por portaria ministerial e passou a ser designada como rede de imunobiológicos para pessoas com situações clínicas especiais, com a sigla RIE. Na prática do dia a dia, os dois nomes convivem: a instrução normativa de 2026 usa a sigla nova ao descrever onde os produtos especiais são encontrados e, na mesma frase, remete ao manual antigo para as indicações.

As três indicações pediátricas que o interno de fato encontra na sala vêm todas do componente coqueluche. Depois de convulsão nas primeiras 72 horas ou de episódio hipotônico-hiporresponsivo nas primeiras 48 horas após uma dose de pentavalente ou de tríplice bacteriana de células inteiras, a conduta não é abandonar o esquema: é substituí-lo pelo produto com coqueluche acelular. Depois de encefalopatia em relação temporal com a dose, o componente coqueluche sai de vez e o esquema segue com a dupla infantil. E crianças com risco aumentado de evento grave ao componente de células inteiras também têm indicação do produto acelular.

O caminho é mais simples do que a fama sugere e está descrito no próprio manual nacional de normas: nessas situações, encaminhar ao centro de imunobiológicos especiais ou solicitar ao município o imunobiológico especial para continuidade do esquema. São duas portas, e a segunda quase sempre é a mais rápida — o produto vem até a unidade em vez de a família ir até a referência, o que importa muito quando a referência fica em outra cidade.

Duas cautelas de fronteira. A primeira é que o encaminhamento não suspende o resto do calendário: a criança que aguarda a tríplice acelular recebe hoje todas as outras vacinas que lhe cabem. A segunda é que as indicações do CRIE ligadas a prematuridade e a imunossupressão — esquemas próprios do grande prematuro, do transplantado, do paciente oncológico, da criança em imunobiológicos — formam um assunto inteiro, com esquemas próprios de doses e intervalos, que este capítulo não cobre e cede ao capítulo de vacinação de prematuros e imunossuprimidos desta apostila. O que fica aqui é só o caminho: reconhecer que o caso é de referência e saber quais são as duas portas.

07

A agenda, as janelas que fecham e o que a sala mede

Referência de consulta: PNI 2026, 3ª edição da Instrução Normativa, atualizada em 17/07/2026 e conferida em 14/09/2026, com a orientação de reforço de VIP aos 4 anos citada no capítulo. Comece pela tabela de rotina, mas decida a dose de hoje com idade atual, produtos e datas já registrados. Depois consulte as tabelas de limites, intervalos e situações especiais. Calendário de rotina, recuperação do atraso e indicação especial respondem a perguntas diferentes; um quadro não deve ser usado no lugar do outro.

  1. 1Receba a caderneta na mão antes de qualquer pergunta e mantenha a criança na sala enquanto lê — família dispensada para "voltar depois" costuma não voltar.
  2. 2Transcreva cada dose em três colunas: produto, data, idade da criança naquela data.
  3. 3Verifique se cada dose pode ser considerada válida: produto, data, idade, intervalo e eventual erro de administração documentado. Idade e intervalo são conferências essenciais; outras intercorrências seguem orientação técnica específica, sem invalidar por suposição.
  4. 4Some o que resta por produto e escreva, para cada um, quantas doses faltam — sem recomeçar nenhum esquema.
  5. 5Confira a idade de hoje contra o teto de cada produto e risque o que a idade já encerrou; anote o que foi perdido para dizer à família depois.
  6. 6Pergunte, sem julgamento, por que o esquema parou: mudança de cidade, sala fechada, doença, ou alguém que mandou voltar outro dia.
  7. 7Faça triagem de contraindicações e precauções próprias de cada produto: doença aguda moderada ou grave, anafilaxia a dose ou componente, imunossupressão, eventos neurológicos relevantes e outras situações descritas no calendário. Defina se é preciso adiar, substituir produto ou encaminhar.
  8. 8Confira se alguma das falsas contraindicações está prestes a fazer você adiar — coriza sem febre, antibiótico em curso, alergia relatada, reação local anterior, prematuridade.
  9. 9Aplique hoje tudo o que cabe: inativadas entre si e com atenuadas sem intervalo nenhum; entre duas atenuadas injetáveis, respeite os 30 dias apenas onde a regra manda.
  10. 10Registre produto, lote, data e local anatômico de cada dose na caderneta e no sistema, e assine.
  11. 11Apraze cada dose pelo intervalo recomendado para aquele produto e esquema. Use intervalo mínimo apenas quando indicado pela norma e pelo contexto. Não aplique um único intervalo de 60 ou 30 dias a todo o calendário.
  12. 12Entregue à família a data da próxima visita por escrito, com a lista do que será aplicado nela, e diga em voz alta quantas doses ainda faltam até o esquema fechar.
IdadeO que se aplica nessa visitaDetalhe que muda a decisão
Ao nascerBCG (dose única) e hepatite B (1ª dose)Hepatite B preferencialmente nas primeiras 12 horas; BCG adiada se o peso for menor que 2 kg
2 mesesPentavalente, poliomielite inativada, pneumocócica e rotavírusIdade mínima de 6 semanas para pentavalente e rotavírus, e só em situação excepcional
3 mesesMeningocócica C (1ª dose)Contraindicada abaixo de 2 meses; a rotina começa aos 3
4 mesesPentavalente, poliomielite inativada, pneumocócica e rotavírus (2ª dose de cada)Na transição pneumocócica, esta dose é a 10-valente enquanto houver estoque
5 mesesMeningocócica C (2ª dose)Fecha o esquema básico meningocócico do primeiro semestre
6 mesesPentavalente e poliomielite inativada (3ª dose); início da influenza anualA 3ª dose de pentavalente não é aplicada antes dos 6 meses de idade
6 meses a 4 anosCovid-19, conforme estratégia vigenteFaixa do calendário vai até 4 anos, 11 meses e 29 dias
9 mesesFebre amarela (dose única do esquema básico)Entre 6 e 8 meses só em exceção, e essa dose não conta para a rotina
12 mesesTríplice viral (1ª dose), pneumocócica (reforço) e meningocócica ACWY (reforço)O reforço meningocócico dos 12 meses é ACWY, não meningocócica C
15 mesesTríplice viral (2ª), tríplice bacteriana (1º reforço), poliomielite inativada (1º reforço), hepatite A e varicela (1ª dose)Cinco produtos na mesma visita; é o bloco que mais se perde
4 anosTríplice bacteriana (2º reforço), poliomielite inativada (2º reforço), varicela (2ª dose) e febre amarela (reforço)O 2º reforço de poliomielite vale a partir de 3 de agosto de 2026
9 a 14 anosPapilomavírus humano, dose únicaResgate com dose única de 15 a 19 anos, 11 meses e 29 dias
10 a 14 anosDengue, 2 doses com 3 meses de intervaloFora dessa faixa a vacina não é oferecida na rotina pública
11 a 14 anosMeningocócica ACWY, 1 doseServe como dose ou como reforço, conforme a situação encontrada
14 anosDupla adulto (reforço)Dez anos após o 2º reforço de tríplice bacteriana feito aos 4; depois, a cada 10 anos

Janelas que fecham: onde retomar deixa de ser possível

DoseAté quando ainda pode ser aplicadaO que acontece depois
Hepatite B do nascimento1 mês de vidaA dose do nascimento não é mais administrada; o esquema começa aos 2 meses com a pentavalente
BCG4 anos, 11 meses e 29 diasA partir de 5 anos ninguém é vacinado com BCG, exceto contato domiciliar de hanseníase, que tem regra própria
Rotavírus, 1ª dose11 meses e 29 diasPerdida a 1ª dose, perde-se também a 2ª e a proteção contra rotavírus por completo
Rotavírus, 2ª dose23 meses e 29 diasSem recuperação possível fora da faixa
Poliomielite inativada, pneumocócica, meningocócica C e ACWY da infância, hepatite A4 anos, 11 meses e 29 diasEncerram-se na rotina pública; a proteção não é recuperável depois dessa idade por esses produtos
Febre amarela em 2 doses4 anos, 11 meses e 29 dias para iniciarQuem chega depois dos 5 anos sem histórico recebe 1 dose, e essa dose única é considerada esquema completo
Pentavalente e tríplice bacteriana6 anos, 11 meses e 29 diasA partir dos 7 anos a atualização é feita com dupla adulto e hepatite B monovalente, sem componente coqueluche
Tríplice bacteriana, 2º reforçoAntes dos 7 anos, respeitando 6 meses após o 1º reforçoSe o intervalo não couber, a criança fica dispensada do 2º reforço e agenda-se dupla adulto para 10 anos depois do 1º
Varicela6 anos, 11 meses e 29 dias na população geralSem limite superior de idade para os povos indígenas
Papilomavírus humano14 anos, 11 meses e 29 dias na rotinaResgate com dose única até 19 anos, 11 meses e 29 dias, conforme organização de cada estado
Dengue e meningocócica ACWY do adolescente14 anos, 11 meses e 29 diasJanelas de oportunidade estritas; fora delas não há oferta na rotina

O que a sala mede: volume, via e local por faixa etária

VacinaVolume da doseViaLocal preferencial
BCG0,05 mL abaixo de 1 ano; 0,1 mL a partir de 1 anoIntradérmicaInserção inferior do deltoide, braço direito
Hepatite B monovalente0,5 mL até 15 anos; 1,0 mL a partir de 16 anosIntramuscularVasto lateral da coxa abaixo de 2 anos; deltoide a partir daí
Pentavalente, poliomielite inativada, pneumocócica, meningocócica C e ACWY, hepatite A, papilomavírus, tríplice bacteriana, dupla adulto0,5 mLIntramuscularVasto lateral da coxa abaixo de 2 anos; deltoide a partir daí
Influenza trivalente0,25 mL de 6 meses a 2 anos; 0,5 mL de 3 a 8 anos e a partir de 9 anos — a faixa entre 2 e 3 anos não tem volume declaradoIntramuscular ou subcutâneaVasto lateral da coxa abaixo de 2 anos; deltoide a partir daí; região do tríceps se subcutânea
Tríplice viral e varicela0,5 mLSubcutâneaParte superior externa e posterior do braço, região do tríceps
Febre amarela0,5 mLSubcutâneaRegião do tríceps
Dengue0,5 mLExclusivamente subcutâneaRegião do tríceps
Rotavírus1,5 mL, todo o conteúdo da bisnagaOralCavidade oral; não se repete a dose se a criança cuspir, regurgitar ou vomitar

Adiar, desviar ou aplicar: o que cada achado faz com a dose de hoje

Achado na triagemO que fazerPor quê
Coriza, tosse ou doença aguda benigna sem febreAplicar tudo o que cabe hojeConsta expressamente da lista nacional de falsas contraindicações
Febre aguda moderada ou graveAdiar até a melhoraPara não confundir os sinais da doença em curso com evento adverso pós-vacinação
Antibiótico ou antiviral em usoAplicarFalsa contraindicação; o tratamento em curso não interfere na resposta vacinal
Prematuridade ou baixo peso ao nascerAplicar pela idade cronológica, não pela corrigidaÚnica exceção é a BCG, que aguarda o peso de 2 kg
Reação local em dose anterior, ou febre baixa a moderada após dose anteriorAplicarAmbas constam da lista de falsas contraindicações
Antecedente familiar de convulsão ou de evento adversoAplicarFalsa contraindicação; considerar antitérmico profilático quando há histórico pessoal de choro intenso ou febre alta após dose anterior de vacina com coqueluche
Alergia relatada, sem anafilaxia comprovadaAplicarSó anafilaxia confirmada a dose anterior ou a componente contraindica
Anafilaxia confirmada a dose anterior ou a componente da fórmulaNão aplicar aquele produtoÉ uma das duas contraindicações comuns a todo imunobiológico
Convulsão em 72 horas ou episódio hipotônico-hiporresponsivo em 48 horas após dose com coquelucheDesviar para o produto acelular, pela rede de referênciaO esquema continua; troca-se o componente, não se abandona a proteção
Encefalopatia em relação temporal com dose de vacina com coquelucheRetirar o componente coqueluche e seguir com dupla infantilA janela exata é objeto de divergência entre documentos oficiais em vigor
Imunodeficiência grave, primária ou adquiridaNão aplicar vacinas atenuadas; encaminhar à rede de referênciaAs inativadas seguem indicadas, ainda que a resposta possa ser menor
Internação hospitalarAplicar as injetáveis; adiar apenas as oraisA restrição das orais existe pela eliminação do vírus vacinal no ambiente

Rotina infantil e adolescente — referência PNI conferida em 14/09/2026

Idade ou etapaO que conferir na rotinaSe houver atraso ou condição especial
NascimentoBCG e hepatite B, com atenção à dose oportuna de hepatite BConferir maternidade, exposição perinatal, peso e imunidade; planejar recuperação conforme produto.
2 e 4 mesesPentavalente, VIP, pneumocócica e rotavírusNão reiniciar doses válidas. Na transição pneumocócica, consultar produto já usado; rotavírus tem teto próprio para cada dose.
3 e 5 mesesMeningocócica CRecuperar conforme idade atual; o reforço do segundo ano usa ACWY.
6 mesesTerceiras doses de pentavalente e VIP; início de influenza e covid-19Influenza: primovacinação conforme histórico. Covid-19: esquema depende do produto; não intercambiar número de doses por memória.
9 mesesPrimeira dose de febre amarela; completar covid-19 quando o produto exigirVerificar contraindicações e pendências individuais.
12 mesesTríplice viral, reforços pneumocócico e meningocócico ACWYConferir se o reforço após 12 meses já foi aplicado e a regra da transição de produto.
15 mesesSegunda tríplice viral, primeira varicela, hepatite A e reforços DTP e VIPAplicar as doses elegíveis na visita e aprazar o restante; indicação especial pode modificar o componente pertussis.
4 anosReforços DTP, VIP e febre amarela; segunda varicelaConferir a atualização da VIP em 2026 e as doses anteriores.
A partir de 6 meses, nas faixas e grupos indicadosInfluenza por temporada; covid-19 conforme esquema e grupoVerificar recomendações sazonais e de grupos especiais, sem repetir automaticamente esquema já completo.
9–14 anosHPV na rotinaResgate entre 15 e 19 anos depende da estratégia organizada pelo estado; imunossupressão tem esquema próprio.
10–14 anosDengue: duas doses com intervalo de 3 meses na estratégia do PNIConfirmar elegibilidade, produto, vacinação prévia e orientação após dengue.
11–14 anos e pendências da adolescênciaACWY; revisar dT, tríplice viral, hepatite B e demais pendênciasReforço de dT é contado desde a última dose válida; não aplicar apenas porque completou determinada idade.

Duas normas federais em vigor descrevem a mesma janela em sentidos opostos. O Manual de Normas e Procedimentos para Vacinação, 2ª edição revisada de 2024, contraindica a pentavalente e a tríplice bacteriana diante de "encefalopatia aguda grave depois de sete dias após a administração de dose anterior da vacina" — a frase aparece duas vezes, nas páginas 186 e 188 —, e a instrução normativa de 2026 repete a mesma redação. O Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª edição de 2023, escreve o contrário em três lugares distintos: "encefalopatia nos sete dias subsequentes à administração de dose anterior", "encefalopatia nos primeiros sete dias pós-vacinação" e "encefalopatia instalada no período de até sete dias depois da aplicação". A conta é direta: a janela "depois do sétimo dia" e a janela "até o sétimo dia" não têm um único dia em comum, e as duas disparam exatamente a mesma decisão, que é retirar o componente coqueluche e seguir com a dupla infantil. Um detalhe agrava a leitura: a instrução normativa de 2026 apoia sua versão numa citação a "Manual de Normas, Ano 2014, pág 187" — uma edição substituída pela 2ª edição revisada de 2024, cujo texto sobre o assunto está nas páginas 186 e 188.

Uma frase de teto etário aparece copiada em vacinas cuja faixa termina antes. A pneumocócica 10-valente traz, em "Idade para vacinação", "crianças a partir de 4 meses, até 11 meses e 29 dias de idade" e, poucas linhas abaixo, no item de atualização do cartão, "somente poderá ser vacinada até os 4 anos, 11 meses e 29 dias de idade". A diferença entre as duas frases é de 4 anos exatos. O mesmo par aparece no item da meningocócica C, cuja faixa declarada também termina em 11 meses e 29 dias. Nos dois casos o teto de 4 anos, 11 meses e 29 dias pertence ao produto que substitui — a 20-valente e a ACWY —, e não àquele em cujo item a frase está escrita. Quem seguir a seção ao pé da letra oferece 10-valente a uma criança de 3 anos, o que o mesmo documento proíbe duas linhas acima.

Três faixas etárias não pertencem a nenhuma classe. A meningocócica C tem indicação "a partir de 3 meses" e contraindicação "para menores de 2 meses de idade": a criança entre 2 meses e 2 meses e 29 dias não está contraindicada e não está indicada. A hepatite A tem indicação "aos 15 meses, até 4 anos, 11 meses e 29 dias", contraindicação "menores de 12 meses de idade" e, na própria seção de dose, apresentação pediátrica descrita como de 12 meses a 17 anos: a faixa de 12 a 14 meses fica no mesmo vão. Nos dois casos a conduta segura é a da indicação, que é a mais restritiva. A terceira é operacional e atinge a criança em atraso com frequência: a tabela de volumes da vacina influenza declara "6 meses a 2 anos de idade: 0,25 mL" e, na linha seguinte, "3 anos a 8 anos, 11 meses e 29 dias de idade: 0,5 mL". Entre 2 anos e 1 mês e 2 anos, 11 meses e 29 dias não há volume declarado — e é exatamente a faixa do paciente da linha do tempo deste capítulo. A leitura mais coerente com a estrutura das outras vacinas é tratar "2 anos" como o fim do bloco pediátrico menor, isto é, até 2 anos, 11 meses e 29 dias com 0,25 mL, mas isso é leitura, e não texto: a decisão sobre qual volume aplicar nessa faixa precisa vir da referência técnica estadual ou do próprio programa, não deste capítulo.

Dois documentos federais em vigor fixam limiares diferentes para adiar por febre. O Manual de Normas e Procedimentos para Vacinação, 2024, no item de situações especiais, determina que "nos casos de febre com temperatura axilar maior ou igual a 37,8°C, a vacinação deve ser adiada". A instrução normativa de 2026 repete, em praticamente todos os vinte e um imunobiológicos, a fórmula "pessoas com doenças febris agudas, moderadas ou graves, recomenda-se adiar a vacinação até a melhora do quadro". Uma temperatura axilar de 37,8°C não caracteriza doença febril moderada, de modo que a mesma criança que um documento manda vacinar o outro manda adiar. A escolha entre as duas réguas decide, na prática, uma parcela grande das doses adiadas em sala.

A cronologia histórica da eliminação da poliomielite não modifica a aplicação. Para decidir o reforço, use a recomendação de 2026, a idade e as doses válidas registradas; o segundo reforço de VIP aos 4 anos é descrito na Nota Técnica nº 64/2026 citada nas fontes.

A Rename 2024 antecede incorporações de 2026. Ausência de um imunobiológico nessa edição não prova ausência no PNI atual: confira calendário, nota técnica de incorporação e oferta local.

O guia de introdução da VPC20 deve ser lido com sua identificação de versão. Para a rotina aqui apresentada, a referência é a instrução normativa de julho de 2026; quadros de transição e indicações especiais precisam manter a própria fonte e data.

Teto de uma indicação de rotina não equivale a contraindicação em qualquer contexto. Viagem, exposição e condições especiais podem ter regras diferentes; identifique a finalidade antes de aplicar um limite etário.

Na conferência de datas, calcule cada intervalo desde a dose correspondente e aplique as idades mínimas e máximas do produto. A data prevista deve ficar escrita para a família, junto com as doses planejadas.

Transição pneumocócica na rotina: a IN 2026 descreve VPC20 aos 2 meses e no reforço de 12 meses, com VPC10 aos 4 meses enquanto durar a transição; sem VPC10, iniciar ou completar com VPC20 conforme orientação. Esquema completo de VPC10 não exige automaticamente dose extra de VPC20. Para prematuridade e imunossupressão, consulte a indicação especial e a Nota Técnica nº 52/2026; não transporte a regra da rotina para esse grupo.

08

A conduta, hora a hora

A linha do tempo abaixo é de uma visita só, e é assim de propósito. Todo prazo e toda idade vêm da instrução normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 3ª edição de 2026, do Manual de Normas e Procedimentos para Vacinação, 2ª edição revisada de 2024, e da nota técnica que introduziu o segundo reforço da poliomielite a partir de 3 de agosto de 2026. O paciente é o Ryan Facundes, 2 anos e 3 meses, 12 kg, com esquema completo até os 4 meses e nada depois.

  1. Minuto 0 — a caderneta fica com você

    Peça a caderneta e não a devolva até o fim. A criança e a família permanecem na sala. Nenhuma decisão sobre esquema em atraso se toma de pé no corredor, e nenhuma família em atraso é dispensada para "voltar com a caderneta organizada": a organização é trabalho da unidade, e a visita de hoje é a oportunidade que existe.

    Prescrição
    • Receber a caderneta e mantê-la em mãos durante todo o atendimento
    • Manter a criança e o acompanhante na sala até a conclusão da avaliação
  2. Minutos 1 a 5 — as três colunas

    Transcreva cada registro em produto, data e idade da criança naquela data. No Ryan: BCG e hepatite B ao nascer; pentavalente, poliomielite inativada, pneumocócica 10-valente e rotavírus aos 2 meses; meningocócica C aos 3 meses; pentavalente, poliomielite inativada, pneumocócica 10-valente e rotavírus aos 4 meses. Todas na idade certa e com intervalos respeitados. Todas valem. A frase escrita a lápis na última página está errada e será apagada.

    Prescrição
    • Listar as doses válidas por produto, com data e idade na aplicação
    • Registrar por escrito quantas doses faltam para cada produto
    • Não reiniciar nenhum esquema iniciado e registrado
  3. Minutos 5 a 8 — o que a idade já encerrou

    Compare a idade de hoje com o teto de cada produto. Aos 2 anos e 3 meses o Ryan perdeu definitivamente a segunda dose de rotavírus, cujo teto é 23 meses e 29 dias; como ele recebeu as duas doses na idade certa, nada se perdeu ali. E perdeu a janela da hepatite B do nascimento, que ele já cumpriu. Tudo o mais continua disponível: a pentavalente vale até 6 anos, 11 meses e 29 dias, e poliomielite inativada, pneumocócica, meningocócica e hepatite A valem até 4 anos, 11 meses e 29 dias.

    Prescrição
    • Conferir a idade atual contra o teto etário de cada produto pendente
    • Anotar o que foi definitivamente perdido, para informar a família ao final
  4. Minutos 8 a 11 — a triagem que de fato adia

    Procure três coisas e apenas três: doença febril aguda moderada ou grave; imunossupressão ou uso de corticoide em dose imunossupressora por mais de duas semanas; e antecedente de anafilaxia a dose anterior ou de convulsão, episódio hipotônico-hiporresponsivo ou encefalopatia após vacina com componente coqueluche. O Ryan tem coriza sem febre há dois dias, está ativo, come e brinca — nada disso adia dose nenhuma, e a coriza consta nominalmente da lista nacional de falsas contraindicações.

    Prescrição
    • Aferir temperatura axilar e avaliar estado geral
    • Perguntar por imunossupressão, corticoide sistêmico prolongado e uso de imunobiológicos
    • Perguntar por eventos após doses anteriores, com atenção a convulsão, episódio hipotônico-hiporresponsivo e anafilaxia
  5. Minutos 11 a 14 — montar a visita de hoje

    Vacinas inativadas podem ser administradas entre si e com atenuadas simultaneamente ou com qualquer intervalo; a restrição existe apenas entre duas atenuadas injetáveis, e nos menores de 2 anos ela alcança tríplice viral ou tetraviral e febre amarela, que pedem 30 dias entre si. O Ryan tem 2 anos e 3 meses, faixa em que varicela, febre amarela, tríplice viral, tetraviral e dengue podem ser simultâneas. Vacinas orais atenuadas não entram nessa conta e podem ser dadas com qualquer coisa. A visita de hoje comporta, portanto, um bloco grande — e comportar não é obrigar: distribua os sítios anatômicos e converse com a família sobre o número de injeções antes de preparar as seringas. Se a família recuar diante do número, a decisão de o que priorizar não é aleatória: saem primeiro as doses cuja janela está mais perto de fechar e aquelas cujas doenças têm maior gravidade na idade da criança; e a próxima visita é marcada antes de a família sair da sala, não depois.

    Prescrição
    • Terceira dose de pentavalente, intramuscular, 0,5 mL
    • Terceira dose de poliomielite inativada, intramuscular, 0,5 mL
    • Dose de reforço de pneumocócica 20-valente, intramuscular, 0,5 mL
    • Dose de reforço de meningocócica ACWY, intramuscular, 0,5 mL
    • Primeira dose de tríplice viral, subcutânea, 0,5 mL
    • Dose de febre amarela, subcutânea, 0,5 mL
    • Dose de hepatite A, intramuscular, 0,5 mL
    • Duas doses de influenza com 30 dias de intervalo, por primovacinação; conferir com a referência técnica local o volume da dose, porque a faixa entre 2 e 3 anos não tem volume declarado na instrução normativa
    • Primeira dose de varicela monovalente, subcutânea, 0,5 mL — permitida hoje pela norma, e a primeira a ser adiada se a família não aceitar o número de injeções
  6. Minutos 14 a 17 — aplicar e registrar

    Abaixo de 2 anos o sítio preferencial das intramusculares é o vasto lateral da coxa; a partir dos 2 anos, o deltoide também serve, conforme a massa muscular — e a instrução normativa observa que o deltoide é o recomendado para vacinação intramuscular a partir dos 12 meses, reservando a coxa, nas crianças maiores, para os produtos menos reatogênicos. A região ventroglútea é alternativa legítima; a dorsoglútea, embora citada como opção, induz resposta imune abaixo do ideal e não deve ser a escolha. Tríplice viral, varicela e febre amarela são subcutâneas, na região do tríceps. Quando o sítio padrão não estiver disponível — membro engessado, lesão de pele, malformação ou ausência de membro —, escolhe-se outro local respeitando a via preconizada e registra-se qual foi. Cada produto vai num sítio distinto, e o local de cada aplicação é registrado. Registro incompleto hoje produz a caderneta ilegível que vai custar doses daqui a dois anos.

    Prescrição
    • Aplicar cada produto em sítio anatômico distinto, respeitando a via de cada um
    • Registrar produto, lote, data e local anatômico na caderneta e no sistema de informação
    • Assinar o registro e apagar a anotação a lápis que mandava reiniciar o esquema
  7. Minutos 17 a 20 — aprazar pelo intervalo recomendado

    O intervalo entre as próximas doses é de 60 dias, e não de 30. O intervalo mínimo é ferramenta de exceção, reservada a risco de exposição iminente, viagem a área de risco e algumas comorbidades; usá-lo por conveniência de agenda troca duração de proteção por pressa. A exceção real aqui é a segunda dose de influenza, cujo intervalo próprio é de 30 dias na primovacinação. Restam ao Ryan, depois de hoje, os dois reforços de tríplice bacteriana, o primeiro e o segundo reforço de poliomielite inativada, a segunda dose de tríplice viral, a segunda dose de varicela e o reforço de febre amarela — todos aprazáveis dentro da faixa dele, respeitando os 6 meses que separam a terceira dose do primeiro reforço e um reforço do outro.

    Prescrição
    • Aprazar a próxima visita para 60 dias, com data escrita na caderneta
    • Aprazar a segunda dose de influenza para 30 dias
    • Entregar à família a lista, por escrito, do que será aplicado em cada visita futura
  8. Antes de a família sair — a frase que decide o retorno

    Diga em voz alta duas coisas. A primeira: nada do que foi feito antes se perdeu, e o esquema continuou de onde parou. A segunda: quantas visitas faltam para fechar o calendário, com as datas na mão. Famílias que saem sabendo o tamanho do caminho voltam mais do que famílias que saem com a impressão de que o caminho é infinito. E deixe registrado no prontuário o motivo do atraso — mudança de cidade e distância da unidade são problemas que a equipe de saúde da família pode resolver, e que não se resolvem sozinhos.

    Prescrição
    • Informar a família de que nenhuma dose anterior foi perdida
    • Informar quantas visitas restam até o esquema completo, com as datas
    • Registrar no prontuário o motivo do atraso e acionar a equipe de saúde da família para busca ativa
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Como saber se está funcionando

Reavaliar vacinação tem duas frentes que correm em paralelo e são frequentemente confundidas. Uma é a segurança da dose que acabou de sair — e ela se resolve em minutos a dias. A outra é o cumprimento do esquema, que se mede em visitas e em meses, e é a que decide se este atendimento serviu para alguma coisa.

Reação imediata na sala15 minutos após a aplicação; 30 minutos se houver histórico de reação alérgica grave a medicamento, alimento ou outra vacina

Esperado: Criança ativa, sem urticária generalizada, sem edema de face ou de via aérea, sem dificuldade respiratória e sem queda de pressão

Se não melhora: Tratar como anafilaxia e acionar o atendimento de urgência imediatamente; a sala de vacina precisa ter o material pronto antes de a primeira dose do dia sair

Reação localPrimeiras 48 horas

Esperado: Dor, calor e vermelhidão limitados ao sítio da aplicação, que cedem sozinhos

Se não melhora: Reação local não contraindica a próxima dose e consta da lista nacional de falsas contraindicações; reavaliar se houver abscesso, limitação funcional ou extensão importante do eritema

Febre e choro após vacina com componente coqueluchePrimeiras 48 horas

Esperado: Febre baixa a moderada e irritabilidade que cedem com antitérmico

Se não melhora: Febre acima de 39,5°C ou choro intenso incontrolável indicam antitérmico em intervalos regulares nas 24 a 48 horas seguintes da próxima dose; não contraindicam a continuidade do esquema

Eventos neurológicos após vacina com componente coquelucheConvulsão nas primeiras 72 horas; episódio hipotônico-hiporresponsivo nas primeiras 48 horas

Esperado: Ausência dos dois eventos

Se não melhora: Notificar como evento supostamente atribuível à vacinação e desviar as doses seguintes para o produto com coqueluche acelular, pela rede de referência ou por solicitação do imunobiológico especial ao município

Cicatriz de BCGA partir de 6 semanas e ao longo de alguns meses

Esperado: Evolução habitual da lesão vacinal no deltoide direito

Se não melhora: Ausência de cicatriz não indica revacinação em criança vacinada na faixa etária preconizada; a exceção são doses reconhecidamente inválidas no ato, e mesmo aí se monitora por três meses antes de repetir

Comparecimento à visita aprazadaNa data marcada e até 30 dias depois

Esperado: Família presente, com a caderneta, para a próxima etapa do esquema

Se não melhora: Acionar busca ativa pela equipe de saúde da família; a instrução normativa trata o percentual de esquemas incompletos, contado a partir de 30 dias de atraso, como indicador para planejar a busca

Fechamento do esquemaAo longo dos meses seguintes, comparando a caderneta com o calendário da idade

Esperado: Esquema completo para a faixa etária, sem doses inválidas e sem lacunas

Se não melhora: Só é considerado adequadamente vacinado quem tem o esquema completo conforme o Calendário Nacional; esquema incompleto é indicação de nova busca, não de recomeço

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Onde o erro machuca

Reiniciar o esquema porque "faz muito tempo"

O dano: Doses desnecessárias, visitas a mais numa família que já tem dificuldade de comparecer, e a mensagem implícita de que o que ela fez até aqui não valeu — o que reduz a chance de ela voltar

Como pegar a tempo: Em regra, esquemas atrasados são completados, não reiniciados. Confira a validade de cada dose pela idade, intervalo, produto e regras de administração aplicáveis. Erros exigem avaliação específica antes de decidir se a dose conta.

Adiar por coriza, antibiótico em curso, alergia relatada ou reação local anterior

O dano: É a principal fonte de dose perdida na sala; a família recebe a mensagem de que a criança está "impedida" e frequentemente não retorna

Como pegar a tempo: Diferencie doença leve e antecedentes que são falsas contraindicações de contraindicações específicas. Anafilaxia a dose anterior ou componente exige avaliação própria. Doença febril aguda moderada ou grave geralmente adia a vacinação até melhora; confira também imunossupressão e o tipo de vacina.

Aplicar poucas vacinas por visita para "não sobrecarregar"

O dano: Multiplica visitas numa família em atraso e deixa lacunas que a próxima falta reabre; a criança fica desprotegida entre uma visita e outra

Como pegar a tempo: Inativadas entre si e com atenuadas podem ser simultâneas ou com qualquer intervalo. A única restrição real é entre atenuadas injetáveis, e nos menores de 2 anos alcança tríplice viral ou tetraviral e febre amarela

Usar o intervalo mínimo como se fosse o intervalo normal

O dano: Resposta imunológica menor, anticorpos menos persistentes e proteção mais curta, sem nenhum ganho quando não há risco iminente

Como pegar a tempo: Use os intervalos recomendado e mínimo específicos de cada vacina, dose, idade e situação, na instrução vigente. Os números 60 e 30 dias não são uma regra universal do calendário; antecipações exigem indicação e respeito ao intervalo mínimo correspondente.

Revacinar com BCG a criança sem cicatriz

O dano: Dose sem indicação, risco de evento adverso local e reforço de uma crença que se propaga entre profissionais e famílias

Como pegar a tempo: Criança vacinada na faixa etária preconizada que não apresente cicatriz não tem recomendação de revacinação. A comprovação aceita registro, cicatriz ou palpação de nódulo no deltoide direito

Prometer recuperar o que a idade já encerrou, ou dar por perdido o que ainda cabe

O dano: Nos dois sentidos a família recebe informação falsa: ou aguarda uma proteção que não virá, ou desiste de doses que ainda estavam disponíveis

Como pegar a tempo: Antes de falar com a família, confira a idade de hoje contra o teto de cada produto. Rotavírus, hepatite B do nascimento e BCG têm janelas que fecham de fato; quase todo o resto do calendário infantil segue disponível até 4 anos, 11 meses e 29 dias, e a pentavalente até 6 anos, 11 meses e 29 dias

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O que dizer ao paciente e à família

Duas conversas difíceis aparecem neste atendimento, e nenhuma delas é sobre risco de vacina. A primeira é desfazer, sem constranger ninguém, uma orientação errada que outro profissional deu. A segunda é dizer a uma mãe que uma proteção específica foi perdida para sempre — sem que a frase soe como culpa e sem que ela leve a família a desistir do resto.

A família chega com a instrução de que é preciso recomeçar tudo

"O que a senhora já fez continua valendo, tudo. A vacina não é como remédio que perde efeito se a pessoa para: o corpo dele guardou o que aprendeu com as primeiras doses. A gente só continua de onde parou."

Não diga: Dizer que a orientação anterior foi um erro de quem atendeu. A família precisa da informação certa, não de um conflito entre profissionais — e desautorizar a unidade em voz alta reduz a chance de ela voltar lá

A mãe pergunta se pode aplicar tantas vacinas no mesmo dia

"Pode, e é o recomendado. O corpo dele lida com muito mais coisa que isso todos os dias. O que a gente ganha aplicando junto é não depender de a senhora conseguir voltar tantas vezes — e o que a senhora sente é uma manhã ruim, com dor no lugar das picadas e talvez febrinha."

Não diga: Ceder e dividir em várias visitas para reduzir o desconforto do momento. Cada visita a mais é uma chance a mais de o esquema parar de novo

A criança está com coriza e a mãe pergunta se não é melhor esperar

"Resfriado sem febre não atrapalha vacina nenhuma, e não faz a reação ser pior. Se ele estivesse com febre alta, aí sim eu adiaria — não porque a vacina fizesse mal, mas porque eu ia ficar sem saber se a febre era da doença ou da vacina."

Não diga: Dizer só "pode" e passar adiante. O motivo importa: a família que entende por que o adiamento existe consegue distinguir a próxima vez sozinha

É preciso dizer que a proteção contra rotavírus foi perdida

"Essa aqui a gente não consegue mais fazer: ela só pode ser dada até perto dos dois anos, porque depois dessa idade ela deixa de ser segura. Não é castigo por ter atrasado — é uma vacina que tem uma janela curta. Todas as outras a gente faz hoje."

Não diga: Deixar a informação implícita ou dizer apenas "essa não dá mais". A família precisa saber o que perdeu, por quê, e sobretudo que o resto está sendo recuperado agora

A mãe se desculpa pelo atraso e se culpa

"A senhora está aqui, com ele e com a caderneta. É isso que resolve. Me conta o que aconteceu no meio do caminho, não para eu cobrar, mas porque se o problema foi distância ou horário a equipe daqui pode ajudar a resolver."

Não diga: Aceitar a culpa em silêncio, ou reforçá-la com um comentário sobre a importância de não atrasar. O motivo do atraso é dado clínico: mudança de cidade, sala fechada e distância são problemas que a unidade pode atacar

Houve convulsão nas primeiras 72 horas depois da dose anterior de pentavalente

"Aconteceu uma reação ao componente da coqueluche, e por isso a gente troca a vacina por outra versão, que existe justamente para casos como o dele. O esquema não para: continua com um produto diferente, que eu vou providenciar."

Não diga: Dizer que a criança "é alérgica a vacina" ou suspender o esquema. O componente muda; a proteção contra difteria, tétano e coqueluche continua sendo perseguida

A família pergunta por que o filho mais velho tomou vacinas diferentes

"O calendário muda a cada poucos anos, porque entram vacinas novas. O que o mais velho tomou estava certo na época dele, e o que o mais novo vai tomar está certo agora. Por isso eu confiro a caderneta de cada um pela idade que ele tem hoje."

Não diga: Usar a caderneta do irmão mais velho como referência de conferência. Duas mudanças de 2026, na pneumocócica e na poliomielite, já bastam para tornar essa comparação enganosa

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Quando dar a primeira dose de varicela: 15 meses ou 12 meses?

Aos 15 meses, com a segunda dose aos 4 anos

O calendário público indica a varicela monovalente a partir dos 15 meses, em duas doses — a primeira aos 15 meses, aplicada na mesma visita da segunda dose de tríplice viral e em sítio distinto, e a segunda aos 4 anos de idade. Na população geral a vacina está disponível na rede até 6 anos, 11 meses e 29 dias.

Ministério da Saúde. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 3ª ed., 2026, item da vacina varicela monovalente.

Aos 12 meses, com a segunda dose aos 15 meses

A régua da sociedade de pediatria manda aplicar, na visita dos 12 meses e na mesma ocasião, as primeiras doses de tríplice viral e de varicela em administrações separadas, ou a tetraviral; e aplicar a segunda dose aos 15 meses, preferencialmente com a tetraviral. O intervalo mínimo entre as doses de varicela é de 3 meses nos menores de 13 anos.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Calendário de Vacinação da SBP – Atualização 2026/2027, Documento Científico nº 56, 28 de julho de 2026, nota explicativa sobre SCR, varicela e tetraviral.

Como decidir

As duas réguas dão duas doses; a diferença é que uma fecha o esquema aos 15 meses e a outra aos 4 anos, deixando quase três anos de intervalo em que a criança tem uma dose só. Diante da criança, a decisão prática é operacional: na sala pública você aplica o que a rede oferece, que é a primeira dose aos 15 meses — e a conduta que muda desfecho não é discutir a idade ideal, é garantir que a segunda dose dos 4 anos realmente aconteça, porque é ela que o calendário mais perde. Se a família tem acesso à rede privada e pergunta, a informação honesta é que existe recomendação de antecipar para os 12 meses e de encurtar o intervalo, e que essa opção não está disponível na unidade. Em situação de surto, a instrução normativa já autoriza antecipar a dose para a criança contactante entre 12 e 14 meses que tenha recebido tríplice viral, respeitando o intervalo — e aí as duas réguas convergem.

A segunda dose de febre amarela para quem chega depois dos 5 anos

Uma dose basta a partir dos 5 anos

O calendário público prevê duas doses apenas para quem inicia o esquema antes dos 5 anos: uma aos 9 meses e o reforço aos 4 anos. Quem tem 5 anos ou mais e recebeu uma dose a partir dessa idade é considerado com esquema completo e não recebe mais doses; quem recebeu uma dose antes dos 5 anos recebe um reforço, com intervalo mínimo de 30 dias.

Ministério da Saúde. Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 3ª ed., 2026, Quadro 2 do item da vacina febre amarela.

Duas doses são preferíveis para toda criança e adolescente

A régua da sociedade de pediatria indica duas doses, aos 9 meses e aos 4 anos, e registra que a aplicação de uma segunda dose para todas as crianças e adolescentes é preferível, com o objetivo de prevenir falhas vacinais. Observa também que o programa público oferece duas doses somente a quem iniciou o esquema com menos de 5 anos, e que para viagens internacionais prevalece a exigência de dose única.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Calendário de Vacinação da SBP – Atualização 2026/2027, Documento Científico nº 56, 28 de julho de 2026, nota explicativa sobre febre amarela.

Como decidir

A pergunta só aparece diante de uma criança que passou dos 5 anos com uma dose recebida depois dessa idade — antes disso as duas réguas coincidem, e a conduta é a mesma. Nessa situação, o que decide é que a rede não oferece a segunda dose para esse perfil: insistir nela consome a consulta e não produz vacina. O rendimento está em outro lugar e é grande: garantir que toda criança que ainda está dentro da faixa receba o reforço dos 4 anos, que é o mesmo objetivo das duas posições e é onde as doses de fato se perdem. Se a família pergunta explicitamente, diga que existe recomendação de sociedade para uma segunda dose e que ela não está disponível na unidade para aquela faixa — e não invente indicação que a sala não pode cumprir.

A janela da encefalopatia que retira o componente coqueluche: até o sétimo dia ou depois dele?

Depois do sétimo dia

O manual nacional de normas e procedimentos contraindica a pentavalente e a tríplice bacteriana quando, após dose anterior, houver "encefalopatia aguda grave depois de sete dias" da administração — redação que aparece duas vezes no manual, nas páginas 186 e 188, e que é repetida pela instrução normativa do calendário em vigor.

Ministério da Saúde. Manual de Normas e Procedimentos para Vacinação, 2ª ed. rev., 2024, p. 186 e 188; e Instrução Normativa do Calendário Nacional de Vacinação, 3ª ed., 2026, item da vacina pentavalente.

Nos sete dias seguintes à dose

O manual da rede de referência descreve a mesma situação como encefalopatia ocorrida dentro dos sete dias posteriores à vacinação, e o faz em três passagens distintas: ao listar a indicação da dupla infantil, ao descrever a substituição do produto e ao enumerar as ocorrências que contraindicam as vacinas com componente pertussis, onde fala em encefalopatia instalada no período de até sete dias depois da aplicação.

Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª ed., 2023, capítulo da dupla infantil e capítulo das vacinas com pertussis acelular.

Como decidir

As duas janelas são disjuntas: não há um único dia em comum entre "até o sétimo" e "depois do sétimo". Diante da criança, o que existe é um quadro encefálico agudo com relação temporal a uma dose de vacina com coqueluche, e a decisão que as duas versões disparam é idêntica — retirar o componente coqueluche e continuar o esquema com a dupla infantil, mais os componentes que faltarem. Portanto não se decide pela janela: notifica-se o evento, encaminha-se à referência ou solicita-se o imunobiológico especial ao município, e registra-se com precisão a data da dose e a data de início do quadro, que é o dado que permitirá à vigilância classificar o caso. Nenhuma das duas leituras autoriza o que seria o erro grave aqui: deixar a criança sem proteção contra difteria e tétano.

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O raciocínio, em voz alta

Ryan Facundes, 2 anos e 3 meses, 12 kg, trazido pela mãe à sala de vacina de uma unidade básica numa sexta-feira de manhã. A caderneta tem BCG e hepatite B ao nascer; pentavalente, poliomielite inativada, pneumocócica 10-valente e rotavírus aos 2 e aos 4 meses; meningocócica C aos 3 meses. Nada depois disso — um vão de vinte e três meses. Na última página, escrito a lápis: "reiniciar esquema completo". Ele está ativo, come, brinca, nunca internou, e tem coriza sem febre há dois dias. A família mudou de cidade quando ele tinha 5 meses.

  1. As doses existentes valem?

    Todas. BCG e hepatite B ao nascer, na maternidade; as doses de 2 e 4 meses na idade certa e com 60 dias entre elas; meningocócica C aos 3 meses, dentro da faixa que começa aos 3; rotavírus aos 2 e aos 4 meses, dentro das duas janelas etárias do produto. Nenhuma foi aplicada antes da idade mínima nem antes do intervalo mínimo, que são as duas únicas situações que invalidam dose. A anotação a lápis está errada e o esquema continua de onde parou.

  2. O que a idade já encerrou?

    Nada que ele ainda precisasse. As duas doses de rotavírus ele já recebeu dentro da janela, e a dose de hepatite B do nascimento ele cumpriu. A pentavalente vale até 6 anos, 11 meses e 29 dias; poliomielite inativada, pneumocócica, meningocócica e hepatite A valem até 4 anos, 11 meses e 29 dias. Aos 2 anos e 3 meses ele tem o calendário inteiro à disposição.

  3. O que falta, por produto?

    Pentavalente: falta a terceira dose do esquema básico e faltarão os dois reforços, feitos com tríplice bacteriana. Poliomielite inativada: falta a terceira dose e faltarão os dois reforços. Pneumocócica: ele tem duas doses de 10-valente aplicadas antes dos 12 meses e nenhum reforço — falta o reforço, que hoje se faz com a 20-valente. Meningocócica: tem uma dose de meningocócica C e nenhum reforço — na faixa dele, a conduta é uma dose de ACWY. Faltam ainda tríplice viral, varicela, hepatite A, febre amarela e influenza.

  4. A coriza adia alguma coisa?

    Não. Doença aguda benigna sem febre consta nominalmente da lista nacional de falsas contraindicações. O que adia é doença febril aguda moderada ou grave, e ele está afebril, ativo e alimentando-se bem. Não há imunossupressão, não há corticoide, não há antecedente de anafilaxia nem de evento neurológico após dose com componente coqueluche.

  5. O que se aplica hoje?

    A norma permite hoje: terceira dose de pentavalente, terceira dose de poliomielite inativada, reforço de pneumocócica 20-valente, dose de meningocócica ACWY, primeira dose de tríplice viral, primeira dose de varicela, dose de hepatite A, dose de febre amarela e a primeira das duas doses de influenza da primovacinação. Aos 2 anos e 3 meses ele está na faixa em que varicela, tríplice viral e febre amarela podem ser simultâneas; abaixo de 2 anos, tríplice viral e febre amarela exigiriam 30 dias de intervalo entre si. Todas as inativadas entram sem intervalo nenhum entre si, em sítios anatômicos distintos. Nove produtos é o que a norma autoriza, não o que a família necessariamente aceita: se for preciso reduzir, adia-se o que tem janela mais larga — a varicela vai até 6 anos, 11 meses e 29 dias — e marca-se a próxima visita antes de a família sair da sala.

  6. Como fica o aprazamento?

    Próxima visita em 60 dias, e não em 30: o intervalo mínimo é ferramenta de exceção e não há aqui risco de exposição iminente nem viagem a área de risco. A segunda dose de influenza tem intervalo próprio de 30 dias. Restam depois disso a segunda dose de tríplice viral, os dois reforços de tríplice bacteriana, o segundo reforço de poliomielite inativada, a segunda dose de varicela e o reforço de febre amarela — todos dentro da faixa etária dele, com as datas escritas na caderneta. Repare que o esquema dele fecha com três visitas a mais, e não com dez: dizer esse número em voz alta muda a probabilidade de a família cumprir.

  7. E se a mãe recusar o número de injeções?

    Não é recusa vacinal: é reação ao volume, e ela se negocia. Explique que o número existe porque a rede oferece hoje o que estava marcado para várias visitas, e que dividir significa depender de ela conseguir voltar mais vezes. Se ainda assim ela quiser reduzir, priorize pelo que está mais perto de fechar e pelo que a idade dele torna mais grave, marque a próxima visita antes de ela sair da sala e escreva a data na caderneta. O que não se faz é registrar recusa: registra-se o que foi aplicado, o que ficou pendente e a data combinada.

  8. O que fica registrado além das doses

    Produto, lote, data e sítio anatômico de cada aplicação, na caderneta e no sistema, com assinatura. A anotação a lápis é apagada. E no prontuário fica o motivo do atraso — mudança de cidade e distância da unidade —, porque é informação que a equipe de saúde da família pode usar, e porque a próxima pessoa que abrir esse prontuário precisa saber que não se trata de recusa vacinal.

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Faça você

Duas semanas depois, mesma sala. Kaylane Braulino, 5 anos e 2 meses, 19 kg, trazida pelo pai porque a escola exigiu a caderneta atualizada para a matrícula. A caderneta traz BCG e hepatite B ao nascer; pentavalente, poliomielite inativada e pneumocócica 10-valente aos 2, 4 e 6 meses; meningocócica C aos 3 e 5 meses; rotavírus aos 2 e 4 meses; tríplice viral aos 12 meses. Depois dos 12 meses, nada. Ela está bem, sem queixas, e tomou amoxicilina até anteontem por uma otite.

  1. Primeiro, o que ainda cabe

    Ela tem 5 anos e 2 meses. Confira quais produtos ainda podem ser aplicados nessa idade e quais já encerraram — e lembre que os tetos não são todos iguais: alguns terminam em 4 anos, 11 meses e 29 dias, outros em 6 anos, 11 meses e 29 dias.

  2. Depois, o que continua faltando dentro do que cabe

    Liste, produto a produto, quantas doses faltam. Atenção especial à tríplice viral, cuja segunda dose nunca foi aplicada, e aos reforços de tríplice bacteriana e de poliomielite, que estavam marcados para 15 meses e 4 anos.

  3. O antibiótico recente muda alguma coisa?

    Decida se o uso de amoxicilina até anteontem adia alguma dose, e diga em que lista essa situação aparece.

  4. O reforço de tríplice bacteriana, com 5 anos e 2 meses

    Ela nunca recebeu nenhum dos dois reforços. Decida quantos ainda cabem antes dos 7 anos, respeitando o intervalo de 6 meses entre eles, e o que se agenda se o segundo não couber.

Ver como fecharíamos

Aos 5 anos e 2 meses já encerraram, para ela, a poliomielite inativada, a pneumocócica conjugada, a meningocócica e a hepatite A, todas com teto em 4 anos, 11 meses e 29 dias — perdeu-se, aí, o primeiro e o segundo reforço de poliomielite, o reforço pneumocócico dos 12 meses, o reforço meningocócico com ACWY e a dose de hepatite A. A febre amarela ela nunca recebeu, e como chega depois dos 5 anos sem histórico, recebe 1 dose, que já é considerada esquema completo. Continuam disponíveis a tríplice bacteriana e a varicela, cujos tetos são 6 anos, 11 meses e 29 dias, e a segunda dose de tríplice viral, disponível de 12 meses a 59 anos. A visita de hoje comporta, portanto, a segunda dose de tríplice viral, a primeira dose de varicela, a dose de febre amarela e o primeiro reforço de tríplice bacteriana, além da influenza da temporada — observando que aos 5 anos ela está na faixa em que tríplice viral, varicela e febre amarela podem ser simultâneas. O antibiótico não adia nada: uso de antibiótico profilático ou terapêutico consta da lista de falsas contraindicações, e ela está afebril e recuperada. Sobre os reforços de tríplice bacteriana: o primeiro sai hoje, e o segundo cabe, porque 6 meses a partir de agora a colocam com 5 anos e 8 meses, bem antes dos 7 — agende-o. Se ela tivesse chegado aos 6 anos e 8 meses, o segundo reforço não caberia no intervalo de 6 meses antes do sétimo aniversário, e a conduta seria aplicar o primeiro reforço agora, dispensá-la do segundo e agendar uma dose de dupla adulto para 10 anos depois. A segunda dose de varicela, com intervalo respeitado, e o restante do esquema ficam aprazados por escrito.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Validar doses documentadas e completar cada esquema conforme idade, intervalos e produtos atuais, sem reiniciar por atraso. Coriza leve não impede vacinação. Aplicar doses elegíveis e deixar datas específicas de retorno, sem impor 60 dias para todas. Aos 27 meses, febre amarela e tríplice viral podem ser simultâneas; se separadas, observar intervalo recomendado. A restrição usual de simultaneidade entre essas vacinas em menores de dois anos não se aplica a esta criança. Conferir limites etários e atualizações do PNI; sorologias não são rotina para reconstruir calendário de criança saudável com documentação válida.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Leia uma caderneta incompleta e construa três listas: doses válidas, doses elegíveis hoje e pendências com data. Explique por que atraso não exige reiniciar automaticamente e por que cada produto tem idades e intervalos próprios. Diante de doença leve, reação local ou alergia relatada, esclareça o ocorrido antes de adiar. Diferencie contraindicação verdadeira, precaução temporária e necessidade de produto especial.

Em 30 dias

Refaça o plano de uma criança que perdeu a visita dos 15 meses e de um adolescente sem caderneta disponível. Justifique produto, dose e data pelo histórico recuperado e pela referência vigente. Depois, compare a rotina pneumocócica com a de um prematuro elegível à rede especial. Explique à família o que será feito hoje e confirme que ela consegue dizer quando volta e para quê.

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Agora atenda

Você é o interno da semana numa unidade básica de saúde e passou a manhã na sala de vacina. Entra uma mãe com um menino de 2 anos e 3 meses e uma caderneta que para nos 4 meses de vida, com uma anotação a lápis mandando reiniciar o esquema. A criança está com coriza, sem febre. Decida o que vale, o que falta, o que a idade já encerrou e o que se aplica hoje — antes que a família saia pela porta.

Calendário Nacional de Vacinação da criança – Retomar, não recomeçar — Internato | OsceLabs