136 min de leitura

Clínica MédicaInfectologia

Dengue, Zika e Chikungunya

Em epidemia voce ve dezenas por plantao, quase sempre sozinho, e a decisao errada mata gente jovem e previamente saudavel. Aqui a classificacao de risco nao e triagem burocratica: o grupo A, B, C ou D determina exame, via de hidratacao, volume, velocidade, onde o paciente fica e quando voce volta a ve-lo. E o dia perigoso e o dia em que ele melhora.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança. 6. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 80 p.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Chikungunya: manejo clínico. 2. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. 72 p. ISBN 978-65-5993-705-9.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Monitoramento das arboviroses e balanço de encerramento do Comitê de Operações de Emergência (COE) Dengue e outras Arboviroses 2024. Boletim Epidemiológico, v. 55, n. 11, 4 jul. 2024.

Brasil. Ministério da Saúde. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica nº 4/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS: ampliação da estratégia de vacinação contra a dengue em todos os municípios do país para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos. Brasília, 15 jan. 2026.

Brasil. Ministério da Saúde. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica nº 11/2026-CGICI/DPNI/SVSA/MS: estratégia de vacinação de trabalhadores da Atenção Primária à Saúde do SUS com a vacina dengue (atenuada) do Instituto Butantan. Brasília, 5 fev. 2026.

01

Responda antes de ler

Mulher de 52 anos com chikungunya confirmada, hoje no 22º dia de doença. A febre cessou na primeira semana. Persiste com dor intensa e edema em punhos e tornozelos, rigidez matinal de cerca de uma hora e dificuldade para abrir garrafas e pentear o cabelo. Vem usando dipirona em horário fixo, sem controle adequado da dor. Função renal e hepática normais, sem contraindicação a corticoide. Qual é a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Sábado, dez da manhã, tenda montada no estacionamento da UPA. A fila dobra o quarteirão e a placa na entrada diz “sala da dengue”. O preceptor está na sala vermelha há quarenta minutos com outro caso, e a mensagem que ele deixou foi curta: “vai atendendo, me chama se precisar”. Você é o médico daquela tenda pelas próximas seis horas.

Primeiro paciente: Cleiton, 24 anos, entregador de aplicativo, 78 quilos, nenhuma doença prévia. Febre alta desde anteontem, dor atrás dos olhos, dor no corpo, uma prostração que ele descreve como “não consigo levantar da cama”. Chegou andando, está corado, hidratado, pressão 122 por 78, frequência cardíaca 92, temperatura 38,9 °C. O irmão teve dengue há duas semanas. Ele quer saber se pode tomar o anti-inflamatório que sobrou da lombalgia da mãe e se dá para pegar atestado de dois dias.

Segunda paciente: dona Zélia, 71 anos, hipertensa em uso de losartana e hidroclorotiazida, 62 quilos. Está no quinto dia de febre — e a febre passou ontem à noite. A filha conta que a mãe “melhorou”, que hoje não teve febre nenhuma, mas que desde a madrugada está com uma dor na boca do estômago que não passa e vomitou quatro vezes. Está pálida, com as extremidades um pouco frias. Pressão 108 por 88 deitada; ao sentar, 92 por 76, e ela reclama de tontura. Frequência cardíaca 104. A filha pergunta se pode levar a mãe para casa, já que a febre acabou.

Terceira: Aline, 33 anos, gestante de 26 semanas, 68 quilos. Terceiro dia de febre baixa, exantema que apareceu ontem, muita coceira, olhos vermelhos sem secreção, e dor nos punhos e nos tornozelos que ela descreve como “não consigo fechar a mão de manhã”. Está preocupada com o bebê, já pesquisou na internet, e a pergunta que faz, chorando, é se a criança vai nascer com problema.

Três pacientes, três decisões diferentes, e nenhuma delas depende de descobrir hoje qual arbovirose é. A decisão que muda o desfecho de dona Zélia — a única dos três que pode morrer neste plantão — é uma classificação feita à beira do leito, com o que cabe no bolso do jaleco, antes de qualquer exame voltar. Ela não está melhor: está entrando na fase crítica exatamente porque a febre caiu. Se for para casa, volta em choque, ou não volta.

O eixo é uma frase só: a classificação de risco é a conduta. O grupo — A, B, C ou D — não é carimbo de triagem; ele determina que exame se pede, por qual via se hidrata, com que volume, em que velocidade, onde o paciente fica e em quanto tempo alguém volta a olhar para ele. E não se faz uma vez: o paciente muda de grupo, quase sempre no dia em que a febre vai embora.

03

Quem adoece disso

O tamanho do problema define quanta autonomia o interno vai ter. No primeiro semestre de 2024, entre as semanas epidemiológicas 1 e 26, o Brasil confirmou 82.908 casos de dengue com sinais de alarme ou dengue grave — aumento de 307,8% sobre os 20.332 do mesmo período de 2023 — e 4.269 óbitos. Nenhum serviço tem preceptor para acompanhar essa demanda paciente por paciente. Em epidemia, quem classifica na porta é o interno, e a supervisão vira pergunta pontual, não segunda opinião sobre cada caso.

A letalidade dá a medida do erro. Entre os casos graves, 5,1% morreram. Mas a média esconde o dado que reorganiza a fila: a letalidade foi de 0,8% na faixa de 5 a 9 anos, 1,9% entre 20 e 29 anos, 7,4% entre 60 e 69, 12,8% entre 70 e 79 e 22,9% acima de 80 anos — quase 29 vezes a do escolar. Traduzindo para a tenda: a senhora de 71 anos que veio andando, com pressão aparentemente normal, tem risco de morte de outra ordem que o rapaz de 24 anos prostrado na maca ao lado, e é ela quem se atende primeiro. Pessoas com 60 anos ou mais responderam por 63,9% de todos os óbitos confirmados no período, e só as faixas acima de 70 anos concentraram quase metade.

O outro extremo da vida também pesa, por motivo diferente. Em menores de 1 ano a letalidade entre os casos graves foi de 4,2%, acima de todas as faixas até 50 anos, e a proporção de agravamento entre os casos prováveis foi de 1,6% — maior que a do adulto jovem, cujo mínimo foi 1,0% entre 20 e 29 anos. O lactente agrava rápido e sem aviso, e os sinais de alarme que o adulto verbaliza aparecem nele como recusa alimentar, choro persistente, sonolência e irritabilidade. A consequência é uma só: em criança pequena o limiar para reavaliar em poucas horas é mais baixo, e “melhorou da febre” não libera ninguém.

Em 2024 os quatro sorotipos circularam no país, com DENV-1 e DENV-2 presentes em todas as unidades federativas. Isso importa porque o antecedente de dengue deixa de ser tranquilizador e passa a ser fator de risco: quem já teve um sorotipo pode fazer forma grave no encontro com outro. Perguntar “já teve dengue?” não serve para descartar; serve para aumentar a vigilância.

As outras duas arboviroses entram na mesma fila com pesos distintos. Chikungunya somou 233.225 casos prováveis no mesmo semestre, com 134 óbitos e letalidade de 0,06% — mata muito menos e incapacita muito mais, e a mediana de idade dos que morreram foi 73 anos, com 67,5% deles portadores de pelo menos uma comorbidade, mais frequentemente hipertensão (45,5%) e diabetes (26,8%). Zika somou 8.519 casos prováveis e nenhum óbito confirmado no país no período. Essa assimetria organiza o capítulo inteiro: a dengue é a que mata o paciente à sua frente, a chikungunya é a que o incapacita por meses e mata o idoso com comorbidade, e a Zika é a que, quase sempre, não ameaça quem está sentado na sua cadeira — ameaça o feto que ela carrega.

04

Por que acontece o que acontece

Na dengue grave, o extravasamento de plasma pode reduzir o volume circulante e causar choque, mesmo quando há ascite, derrame pleural ou edema. Esse mecanismo explica a hemoconcentração e a necessidade de reposição cuidadosamente titulada. Ele não é a única via de gravidade: hemorragia importante e comprometimento de órgãos, inclusive miocardite e hepatite grave, também podem ameaçar a vida. O raciocínio começa pela perfusão e pela procura dessas complicações; não se deve reduzir todo paciente grave a alguém que precisa de mais soro.

O hematócrito em elevação pode apoiar a hipótese de perda de plasma, mas precisa ser comparado com o valor anterior e interpretado com a perfusão, a diurese, os sangramentos e o volume já administrado. Anemia prévia, hemorragia e diluição mudam sua leitura. Pressão de pulso estreita, em torno de 20 mmHg ou menos, é sinal de alerta para choque compensado, mesmo com pressão sistólica preservada; examine também extremidades, enchimento capilar, pulso e consciência. Nenhum desses números substitui a reavaliação do paciente.

No choque por extravasamento da dengue predomina a redução do volume circulante, frequentemente com vasoconstrição compensatória. Na sepse, a vasodilatação é um componente frequente, mas os mecanismos podem se combinar. Na dengue, hemorragia, disfunção miocárdica e infecção bacteriana associada mudam a abordagem do choque persistente. A tabela de contraste organiza padrões típicos; não estabelece diagnósticos mutuamente exclusivos. Se a perfusão não melhora ou o pulmão piora, reavalie o mecanismo com a equipe antes de repetir volume. O capítulo de sepse na enfermaria desenvolve o reconhecimento e o tratamento da infecção bacteriana grave.

O terceiro fio do capítulo também sai do mecanismo: o dia perigoso é o dia em que o paciente melhora. A viremia é máxima enquanto a febre está alta; o extravasamento depende da resposta imune, que atinge o auge quando o vírus já está sendo controlado. Por isso a fase crítica começa com a defervescência, entre o terceiro e o sétimo dia de doença, e o paciente entra nela se sentindo melhor. O corpo dele, nesse momento, está fazendo exatamente o contrário do que ele sente. Um paciente que passou cinco dias com 39 °C e amanhece sem febre não recebeu alta da doença: recebeu a senha da janela em que ela pode matá-lo.

O extravasamento é intenso e curto: dura de 24 a 48 horas. Depois vem a reabsorção, e ela é a armadilha do outro lado. Todo o líquido que estava no interstício volta para o vaso, e o paciente que continua recebendo soro na velocidade da fase crítica desenvolve congestão pulmonar. Por isso a prescrição de hidratação da dengue tem hora de acabar, e por isso a redução do hematócrito na ausência de sangramento, a normalização da diurese e a resolução da dor abdominal são ordem para desligar a torneira, não para comemorar e seguir igual.

O sangramento tem mecanismo próprio, e ele importa menos do que o interno costuma achar. Vasculopatia, plaquetopenia e coagulopatia de consumo se somam, e o sangramento de mucosa aparece como sinal de alarme. Mas o estado prolongado de hipovolemia é o que se associa aos sangramentos importantes: reposição volêmica precoce e adequada é o que previne hemorragia, e não plaqueta transfundida. Daí a regra que desmonta o reflexo mais comum do plantão — plaqueta baixa, isoladamente, não indica transfusão, não indica internação e não classifica ninguém como grave. O que indica transfusão de plaquetas é sangramento persistente não controlado depois de corrigidos os fatores de coagulação e o choque.

É o mesmo mecanismo que proíbe duas classes de medicamento. O ácido acetilsalicílico e os anti-inflamatórios não esteroides inibem a função plaquetária de um paciente que já está plaquetopênico e agridem a mucosa gástrica de um paciente que já tem vasculopatia — a hemorragia digestiva é mais frequente em quem os usou. Além disso são nefrotóxicos justamente em quem está hipovolêmico. O corticoide não tem lugar na dengue aguda pelo motivo simétrico: não corrige o extravasamento, e acrescenta risco. Nada disso é preferência de escola; é a consequência direta do que a doença faz no vaso.

As outras duas arboviroses adoecem por caminhos diferentes, e é isso que muda o que se prescreve. O vírus chikungunya tem tropismo por tecido articular e periarticular, e a inflamação sinovial persiste depois que a viremia acabou — daí a dor de meses, a tenossinovite e a rigidez matinal. Ele não extravasa plasma, e por isso não tem grupo C nem grupo D de hidratação: o que tem é dor incapacitante, que exige analgesia escalonada, e formas extra-articulares que são a face que mata. O vírus Zika tem neurotropismo e atravessa a placenta, e dessa combinação vêm as duas consequências que interessam: a síndrome de Guillain-Barré no adulto e a síndrome congênita no feto. O quadro agudo da Zika é leve; o dano dela acontece em outro corpo, ou semanas depois.

Saída de plasma através do endotélio capilar e curvas qualitativas de febre e extravasamento na dengue.
Na dengue, o aumento da permeabilidade pode deslocar plasma para fora do vaso, com hemoconcentração e acúmulo de líquido. A fase crítica costuma ocorrer ao redor da defervescência e durar 24–48 horas. O pico e a intensidade do extravasamento variam; a queda da febre exige reavaliação de perfusão, hematócrito e sinais de alarme. Curvas qualitativas, não medidas de um paciente. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

Um caso suspeito de dengue é uma pessoa que vive em área com transmissão, ou que viajou para uma nos últimos 14 dias, com febre de dois a sete dias e duas ou mais das seguintes manifestações: náuseas, vômitos, exantema, mialgia, artralgia, cefaleia, dor retro-orbital, petéquias, prova do laço positiva e leucopenia. Em criança, basta quadro febril agudo de dois a sete dias sem foco de infecção aparente, vinda de área com transmissão. Repare no que a definição não exige: nenhum exame. Em epidemia, todo febril sem foco é dengue até que se prove o contrário, e a conduta começa antes da confirmação.

O que muda o desfecho não é acertar a arbovirose, é situar o paciente em três eixos: em que dia de doença ele está, em que fase clínica se encontra e a que grupo de risco pertence. As seções seguintes percorrem esses eixos e terminam nas formas que enganam.

Um aviso antes das seções: nas primeiras 48 horas as três arboviroses são a mesma doença. A diferenciação clínica é tênue nessa janela, e a orientação nacional é adotar as medidas de manejo clínico de dengue, porque é a que tem maior potencial de complicação e morte. Isso resolve metade das dúvidas do plantão — a pergunta “será que é dengue ou chikungunya?”, feita no segundo dia de febre, não muda nada do que se faz. A resposta só passa a importar depois, quando a febre cedeu sem sinal de alarme e a dor articular continua incapacitante.

Percurso de aprendizagem

Primeira leitura: síndrome febril, diagnóstico diferencial e reconhecimento da transição para a fase crítica. A ausência de febre não significa recuperação.

Segunda leitura: classificar gravidade, interpretar hematócrito no contexto e acompanhar a resposta a líquidos. Sinais vitais, perfusão e diurese precedem a interpretação de um número isolado.

Aprofundamento: diferenças entre as três arboviroses, situações especiais, notificação e prevenção. Relacione cada detalhe a uma decisão clínica ou de acompanhamento.

As três fases, e por que o dia de doença é a pergunta mais importante da anamnese

A fase febril vai do primeiro ao segundo até o sétimo dia. A febre é de início abrupto, geralmente alta, entre 39 e 40 °C, e vem com cefaleia, adinamia, mialgia, artralgia e dor retro-orbitária. Anorexia, náuseas e vômitos são comuns, e a diarreia da dengue tem uma assinatura útil: três a quatro evacuações por dia, com fezes pastosas — o que ajuda a separá-la das gastroenterites. O exantema aparece em cerca de metade dos casos, maculopapular, atingindo face, tronco e membros de forma aditiva, incluindo palmas e plantas, com frequência no momento em que a febre desaparece.

A fase crítica começa com a defervescência, entre o terceiro e o sétimo dia de doença. É nela, e só nela, que os sinais de alarme aparecem. Ela dura de 24 a 48 horas e é o intervalo inteiro em que a dengue mata. O choque, quando ocorre, instala-se em geral no quarto ou quinto dia, com intervalo entre o terceiro e o sétimo, quase sempre precedido por sinais de alarme — e é de instalação rápida e curta duração, capaz de levar ao óbito em 12 a 24 horas ou de reverter rapidamente com terapia antichoque apropriada.

A fase de recuperação traz reabsorção do que extravasou, melhora progressiva e normalização ou aumento do débito urinário. É a fase em que a hiper-hidratação cobra a conta, e também quando infecções bacterianas podem se manifestar.

Daí a pergunta que abre toda consulta de dengue e que o interno esquece de fazer: hoje é o seu quantos dias de febre? O mesmo quadro clínico, no dia 2 e no dia 5, é conduta diferente.

Os sinais de alarme, e a única maneira de encontrá-los

São sete, e a maioria resulta do aumento da permeabilidade vascular: dor abdominal intensa, referida ou à palpação, e contínua; vômitos persistentes; acúmulo de líquidos, seja ascite, derrame pleural ou derrame pericárdico; hipotensão postural ou lipotimia; hepatomegalia maior que 2 cm abaixo do rebordo costal; sangramento de mucosa; letargia ou irritabilidade. A eles se soma o aumento progressivo do hematócrito, que é laboratorial.

Nenhum deles aparece sozinho no relato espontâneo do paciente, e é aí que a maior parte dos casos se perde. Ninguém chega dizendo “doutor, estou com hipotensão postural” — chega dizendo que ficou tonto quando levantou para ir ao banheiro. Ninguém diz “dor abdominal intensa e contínua” — diz que está com uma dor de estômago que não passa nem com o remédio. Ninguém diz “letargia” — a filha diz que a mãe está quieta, mais dormindo que acordada. Procurar sinal de alarme é fazer perguntas fechadas, uma a uma, e é medir a pressão deitado e sentado, palpar o abdome e o fígado, e olhar gengiva e narina.

A hipotensão postural merece atenção própria porque é a mais fácil de achar e a que menos se procura. Custa dois minutos: mede-se a pressão com o paciente deitado, senta-se o paciente e mede-se de novo. É um sinal de alarme que muda o grupo sem que nenhum exame de sangue precise voltar.

Dois detalhes de exame físico completam a busca. O primeiro: a dor abdominal da dengue é muitas vezes hepática — o fígado congesto e distendido dói à palpação do hipocôndrio direito, e a hepatomegalia acima de 2 cm é achado, não sintoma; só existe para quem palpa. O segundo: derrame pleural e ascite podem estar presentes antes de qualquer queixa, e a ultrassonografia à beira do leito é mais sensível que a radiografia para encontrá-los.

Quem sai do grupo A só por quem é

Há um conjunto de pacientes que não pode ser tratado em casa com orientação verbal, mesmo sem nenhum sinal de alarme, porque a chance de evoluírem mal é outra: lactentes com menos de 24 meses, gestantes, adultos acima de 65 anos e portadores de comorbidade crônica — a lista completa está no bloco de divergências, junto com a discussão sobre onde ela entra na classificação. Some-se o risco social: quem não tem como voltar, quem mora longe, quem não tem quem o observe, quem não vai conseguir cumprir a hidratação em casa.

Esse grupo tem duas consequências práticas. A primeira é que ele exige hemograma no primeiro atendimento e observação até o resultado, e não alta com receita. A segunda é que ele muda a régua da conversa: o mesmo paciente que estaria liberado se tivesse 30 anos precisa, aos 71, de retorno programado, de acompanhante orientado e de hidratação escrita em volume.

No idoso, três armadilhas se somam à idade. Ele pode não fazer febre alta. Ele frequentemente usa anti-hipertensivo, e a pressão que parece boa pode ser queda importante em relação à habitual dele. E o diurético e o inibidor da enzima conversora, mantidos durante a fase de extravasamento, pioram a hipovolemia — a revisão da prescrição crônica faz parte da conduta, não é detalhe. No outro extremo, no lactente, o início pode passar despercebido e o quadro grave ser a primeira manifestação clínica: o agravamento é súbito, diferente do adulto, em quem os sinais de alarme são mais facilmente detectáveis.

A gestante recebe volume igual ao dos demais pacientes, conforme o estadiamento — a régua não muda. O que muda é a leitura: o volume sanguíneo aumenta cerca de 40%, a resistência vascular periférica cai, e taquicardia, hipotensão postural e hemoconcentração aparecem tardiamente, podendo ser confundidas com a fisiologia da gravidez. A letalidade por dengue entre gestantes é superior à das mulheres em idade fértil não gestantes, com maior risco no terceiro trimestre. Da 20ª semana em diante, toda gestante deitada fica em decúbito lateral esquerdo. E o diagnóstico diferencial da gestante grave inclui pré-eclâmpsia, síndrome HELLP e sepse, que podem tanto mimetizar como coexistir.

Chikungunya: a que não mata o jovem e o derruba por meses

O caso suspeito é o paciente com febre e artralgia ou artrite não explicadas por outra condição, residente ou tendo visitado área de transmissão até duas semanas antes. A fase aguda vai até 14 dias e é dominada por febre de início súbito e poliartralgia intensa de grandes e pequenas articulações, simétrica, acometendo sobretudo mãos, punhos, ombros, joelhos, tornozelos e pés. A artralgia aparece em mais de 90% dos pacientes e é comumente incapacitante: limita andar, pentear o cabelo, pegar objetos. Edema articular e periarticular, tenossinovite e rigidez são frequentes. O exantema começa no terceiro ou quarto dia e atinge de 30% a 50% dos doentes.

Duas diferenças em relação à dengue mudam decisão à beira do leito. Na chikungunya a queda da temperatura não se associa a piora dos sintomas — não existe a armadilha da defervescência. E casos afebris com artralgia intensa são frequentes, sobretudo em idosos, de modo que ausência de febre não afasta o diagnóstico.

Depois dos 14 dias vem a fase pós-aguda, que vai até 90 dias, e nela 45% a 75% dos pacientes seguem sintomáticos. A febre some e ficam a poliartralgia ou poliartrite de forte intensidade, a tenossinovite subaguda de punhos e tornozelos, a rigidez matinal, e com frequência dor neuropática e síndrome do túnel do carpo. Astenia e depressão são parte do quadro. Passados três meses, o paciente entrou na fase crônica. Fatores associados à cronificação: sexo feminino, idade acima de 45 anos, dor intensa ou edema ou poliartrite na fase aguda, doença articular prévia e diabetes.

A face que mata é a extra-articular, e ela pode acontecer com as manifestações articulares ausentes. Miocardite, pericardite, arritmia e instabilidade hemodinâmica; pneumonite e insuficiência respiratória; encefalite, mielite e síndrome de Guillain-Barré; insuficiência renal aguda e nefrite intersticial. Some-se a descompensação de doença de base — diabetes, insuficiência cardíaca, doença renal crônica, asma —, que é causa importante de morte. Os grupos de maior risco de forma grave são recém-nascidos, pessoas acima de 65 anos e portadores de comorbidades. Um dado laboratorial ajuda a antecipar: plaquetas abaixo de 100.000/mm³ e leucocitose aumentaram, respectivamente, em 7,4 e 2,8 vezes o risco de internação.

Zika: a doença leve cujo desfecho acontece em outro corpo

O quadro agudo é o mais brando dos três: febre baixa, igual ou inferior a 38,5 °C, ou febre nenhuma; exantema de início precoce, já no primeiro ou segundo dia; conjuntivite não purulenta em boa parte dos casos; cefaleia, artralgia leve a moderada, astenia e mialgia. O prurido é a queixa que mais incomoda, e chega a atrapalhar as atividades do dia. O período de incubação é de 2 a 7 dias.

Como o quadro é leve, a Zika quase nunca é o problema clínico do paciente que está à sua frente — e é exatamente por isso que ela é perigosa. Uma gestante pode ter infecção assintomática e transmitir o vírus ao feto, em qualquer período gestacional. A síndrome congênita associada ao vírus Zika inclui microcefalia e comprometimento neurológico permanente, e o risco existe mesmo sem a mãe ter percebido a infecção. É essa possibilidade que transforma a arbovirose mais leve na que tem a conduta mais burocrática: identificar, notificar e encaminhar.

A outra consequência é neurológica no adulto. A síndrome de Guillain-Barré pode surgir dias a semanas depois do quadro agudo, e o paciente precisa sair da consulta sabendo voltar imediatamente se sentir formigamento nos membros ou perceber fraqueza progressiva das pernas para os braços. Esse é o sinal de alarme específico da Zika, e ele não tem nada a ver com os sete sinais de alarme da dengue.

Uma diferença epidemiológica fecha o quadro: além do mosquito, a Zika tem transmissão sexual. A orientação de uso de preservativo, quando há gestante ou possibilidade de gravidez no domicílio, faz parte da conduta e não do folheto.

06

Como fechar o diagnóstico

Aqui está a inversão que mais custa tempo e vida na tenda: na dengue, o exame não faz o diagnóstico nem define a gravidade. Quem define a gravidade é a classificação clínica, feita antes de qualquer resultado, e o único exame que participa dela de verdade é o hemograma. O interno que espera o resultado para decidir a via de hidratação já perdeu a única hora em que a decisão mudava alguma coisa.

A sequência é: classificar clinicamente; começar a hidratação que o grupo determina; pedir o exame que aquele grupo exige; reavaliar com hora marcada; reclassificar. O exame de confirmação entra por último e por outro motivo — notificação e vigilância, não conduta.

O hemograma: quem precisa, quando, e o que ele responde

No grupo A, exame laboratorial é a critério médico. Isso não é descaso: é reconhecimento de que, num adulto jovem sem comorbidade, sem sinal de alarme e sem sangramento, nenhum resultado mudaria a conduta, que é hidratação oral e retorno programado. Em epidemia, pedir hemograma para todo mundo do grupo A entope o laboratório e atrasa o exame de quem precisa dele hoje.

No grupo B, o hemograma completo é obrigatório para todos os pacientes, colhido no momento do atendimento, com resultado liberado em até duas horas — no máximo quatro. E o paciente permanece em observação até o resultado sair, recebendo hidratação oral conforme o grupo A enquanto espera. Esse é o desenho inteiro do grupo B: ele existe para responder uma pergunta, e a pergunta é se há hemoconcentração.

Nos grupos C e D, três exames são obrigatórios: hemograma completo, dosagem de albumina sérica e transaminases. Mas a ordem importa mais que a lista — a reposição volêmica começa imediatamente, em qualquer ponto de atenção, independentemente do nível de complexidade, inclusive durante a transferência para uma unidade de referência e mesmo na ausência de exames complementares. Nenhuma dessas coletas justifica atrasar o soro.

O que o hemograma responde é uma coisa só, e não é a plaqueta: é o hematócrito — ele subiu? A albumina e as transaminases dos grupos C e D respondem a outras duas: quanto de proteína já saiu do vaso, e se há acometimento hepático, que nas formas graves pode chegar a aminotransferases dez vezes acima do limite superior.

Ler o hematócrito quando você não tem o basal do paciente

O hematócrito só significa alguma coisa comparado a outro hematócrito. O que importa é a direção, e é por isso que o protocolo manda dosá-lo a cada duas horas nos grupos C e D, depois de cada etapa de expansão: hematócrito em elevação é extravasamento em curso e ordem para repetir a expansão; hematócrito em queda com melhora clínica é ordem para passar à manutenção; hematócrito em queda com choque persistente é ordem para procurar hemorragia.

O problema é o primeiro hematócrito, aquele que chega sem termo de comparação. Duas condutas resolvem. A primeira: compare com o valor de referência para a idade e o sexo — em torno de 46% no homem adulto, 42% na mulher adulta, 41% acima de 70 anos, cerca de 37% aos 5 anos e 40% aos 10 anos. A segunda, mais confiável, é não decidir por um valor isolado: colha o segundo em duas horas e decida pela variação. Um hematócrito de 48% numa mulher de 30 anos já é anormal; num homem de 25, é ambíguo — e a ambiguidade se resolve com a segunda coleta, não com a interpretação criativa da primeira.

Duas correções mudam a leitura em grupos específicos. Na gestante, o hematócrito basal é mais baixo por hemodiluição fisiológica, de modo que um valor “normal” pode já representar hemoconcentração importante. No paciente com anemia crônica, o hematócrito pode subir 20% e continuar dentro da faixa de referência da população. Nos dois casos, a variação em relação ao próprio paciente vale mais do que a tabela.

A plaqueta, por outro lado, não classifica ninguém: não está entre os sinais de alarme nem entre os critérios de dengue grave. Ela entra em um lugar só, e ao contrário do que o reflexo sugere — plaquetas em elevação é um dos critérios de alta, ou seja, serve para liberar, não para prender.

Confirmar qual vírus: o que pedir, em que dia, e por que isso não muda a conduta de hoje

A janela do exame é ditada pelo dia de doença. Até o quinto dia de sintomas, a coleta é para detecção viral: antígeno NS1, RT-PCR ou isolamento viral. A partir do sexto dia, o soro obtido do sangue total permite sorologia. Recomendam-se 5 mL de sangue total sem anticoagulante na criança e 10 mL no adulto. O acondicionamento também muda com o dia: a menos 70 °C até o quinto, a menos 20 °C a partir do sexto.

A frase que organiza tudo está no próprio manual, para os grupos C e D: os exames para confirmação são obrigatórios, mas não são essenciais para a conduta terapêutica. Obrigatórios porque dengue é doença de notificação compulsória e a vigilância depende deles; não essenciais porque nenhum resultado, positivo ou negativo, muda o volume de soro que aquele paciente vai receber nas próximas duas horas. No grupo A, cabe dizer isso ao paciente com todas as letras — e a solicitação segue a orientação epidemiológica local, não a ansiedade da consulta.

Há uma exceção em que a confirmação vira conduta, e ela é obstétrica. Confirmar Zika em gestante desencadeia notificação em até 24 horas e encaminhamento do pré-natal para acompanhamento especializado. Nesse caso o exame não muda o que se prescreve hoje, mas muda o que acontece com aquela gravidez nos próximos meses — e é o único cenário deste capítulo em que vale insistir para conseguir a coleta.

Há ainda uma pergunta nova na anamnese, e ela tem prazo: o paciente recebeu vacina contra dengue nos últimos 21 dias? A viremia vacinal do imunizante do Instituto Butantan pode durar até 21 dias, com pico em torno do nono. A conduta clínica não muda em nada — o que muda é a notificação, detalhada no marco correspondente da conduta.

O que não pedir, e o que custa pedir

Sorologia de dengue no primeiro atendimento do paciente febril há dois dias. Antes do sexto dia a sorologia não tem o que detectar, e o resultado negativo será lido como “não é dengue” por alguém no meio do caminho. O custo é um paciente liberado sem orientação de alarme.

Coagulograma, dímero-D e fibrinogênio no paciente estável. Eles pertencem à investigação do paciente com sangramento importante ou choque com hematócrito em queda, e nada mais. Pedidos de rotina, atrasam o hemograma que importa e produzem alterações que geram condutas desnecessárias.

Tomografia para procurar derrame ou ascite. A ultrassonografia responde a mesma pergunta à beira do leito, é mais sensível para derrames cavitários e não transporta um paciente instável para fora do setor. Transportar paciente em fase crítica de extravasamento para exame de imagem é troca ruim: primeiro se estabiliza.

Contagem de plaquetas seriada como termômetro de gravidade. É o exame mais pedido e o que menos decide; acompanhar plaqueta de seis em seis horas num paciente estável não antecipa nada e ainda dá a impressão de que se está monitorando.

O diferencial que precisa caber na mesma consulta

Em epidemia, o risco não é confundir dengue com Zika — é chamar de dengue outra coisa que mata mais rápido. Cinco perguntas cobrem quase todo o diferencial perigoso e cabem em um minuto de anamnese.

Esteve na Amazônia Legal ou em área de garimpo nos últimos 30 dias? Malária é a hipótese que não perdoa demora, tem tratamento específico e diagnóstico rápido por gota espessa ou teste rápido, disponível na rede. Teve contato com água de enchente, lama ou esgoto? Leptospirose entra com mialgia de panturrilha, sufusão conjuntival e icterícia rubínica, e o retardo do antimicrobiano piora o desfecho. Tem rigidez de nuca, confusão ou petéquias que crescem em horas? Meningococcemia é o diagnóstico que transforma a tenda em sala vermelha. Tem tosse, dispneia ou hipoxemia? Influenza, covid-19 e pneumonia bacteriana pedem outra investigação e outro tratamento. Frequentou área rural ou de mata com carrapato? Febre maculosa brasileira é febril exantemática e mata sem doxiciclina precoce.

Há ainda o diferencial que se esconde dentro do próprio sinal de alarme. Dor abdominal intensa e contínua é sinal de alarme da dengue — e também é apendicite, colecistite, obstrução intestinal e abdome agudo. A pista prática: a dor da dengue costuma ser difusa ou em hipocôndrio direito, acompanha o quinto dia de doença e melhora com a expansão volêmica; a dor cirúrgica é localizada, progride, tem defesa e não melhora com soro. Um paciente que recebeu duas expansões adequadas e mantém dor abdominal localizada com defesa precisa de avaliação cirúrgica, não de uma terceira expansão.

Por fim, o próprio manejo cria um diferencial: o paciente que piora depois de horas de hidratação pode não estar extravasando mais — pode estar congesto. Desconforto respiratório novo em quem recebeu volume é hiper-hidratação até prova em contrário.

O que existe no SUS, e o que fazer quando falta

Praticamente tudo o que este capítulo exige está disponível na rede pública, e essa é uma boa notícia rara. Hemograma completo, soro fisiológico a 0,9%, dipirona, paracetamol e balança estão em qualquer unidade. Albumina sérica, transaminases, ureia, creatinina, eletrólitos, gasometria e radiografia estão em hospital. NS1, RT-PCR e sorologia rodam nos laboratórios centrais de saúde pública, com fluxo pactuado pela vigilância municipal.

O que costuma faltar é ultrassonografia à beira do leito e bomba de infusão. Sem ultrassom, derrame e ascite se procuram no exame físico — macicez em base pulmonar, redução do murmúrio, semicírculo de Skoda, macicez móvel de decúbito — e a radiografia de tórax em perfil e na incidência de Hjelm-Laurell aumenta a chance de flagrar derrame pequeno. Sem bomba, o volume se controla por gotejamento calculado e por relógio, e a expansão do grupo D pede acesso calibroso, e em geral mais de um.

O que nunca falta e é o mais decisivo: papel e caneta para escrever o volume em mililitros, o cartão de acompanhamento preenchido e o horário anotado da próxima reavaliação. Em serviço lotado, o horário registrado é o que garante que alguém volte a olhar aquele paciente.

07

Classificar, hidratar, reavaliar: o fluxo, os grupos e os prazos

Ao terminar, você deve explicar por que a fase da doença muda o risco, classificar o paciente com dados clínicos e propor hidratação e reavaliação supervisionadas. Comece pela perfusão e pelos sinais de alarme; use as tabelas para conferir a decisão, sem depender de decorar grupos. O estadiamento em grupos A, B, C e D não é rótulo administrativo: cada grupo carrega uma via de hidratação, um volume, uma velocidade, uma lista de exames, um lugar onde o paciente fica e um intervalo de reavaliação. E o paciente atravessa grupos durante a doença — quase sempre para cima, quase sempre quando a febre cai.

  1. 1É caso suspeito? Febre de dois a sete dias mais duas manifestações da lista, em quem vive ou esteve em área de transmissão. Em criança, febre aguda de dois a sete dias sem foco já basta.
  2. 2Qual o dia de doença, e a febre já caiu? Defervescência abre a fase crítica. Registre a data de início dos sintomas, não a da consulta.
  3. 3Há sinal de alarme? São sete, mais o hematócrito em elevação progressiva — e nenhum deles aparece sozinho no relato espontâneo: pergunte um a um.
  4. 4Há sinal de gravidade — choque, sangramento grave ou disfunção de órgão? Se sim, grupo D, e a expansão começa agora.
  5. 5Sinal de alarme sem gravidade: grupo C. A expansão começa agora, em qualquer ponto de atenção, mesmo sem exame.
  6. 6Sem alarme e sem gravidade: procure sangramento de pele, espontâneo ou induzido, e verifique condição especial, comorbidade ou risco social.
  7. 7Havendo qualquer um desses: grupo B. Hemograma agora, paciente em observação com hidratação oral até o resultado.
  8. 8Não havendo nenhum: grupo A. Hidratação oral em mililitros, sintomático, orientação de alarme por escrito, cartão e retorno programado.
  9. 9Grupo B com o resultado na mão: hematócrito normal segue ambulatorial com reavaliação diária; hemoconcentração ou sinal de alarme novo conduz como grupo C.
  10. 10Grupo C: reavaliação clínica em 1 hora e hematócrito em 2 horas. Sem melhora, repita a etapa — até três. Com melhora, passe à manutenção.
  11. 11Grupo D: reavaliação a cada 15 a 30 minutos e hematócrito a cada 2 horas. Com resposta, retorne ao esquema do grupo C.
  12. 12Reclassifique a cada reavaliação, com história e exame físico completos. O grupo de agora vale mais que o de duas horas atrás, nos dois sentidos.
  13. 13Antes da alta hospitalar, confira os cinco critérios. Antes da alta ambulatorial, confira se o paciente e o acompanhante repetem os sinais de alarme com as palavras deles.

Grupo A — azul: sem alarme, sem risco adicional

Sem sinais de alarme, sem sangramento, sem comorbidade, sem condição clínica especial e sem risco social. Casa, com hidratação oral e retorno programado. Atendimento por ordem de chegada.

Grupo B — verde: sem alarme, mas com sangramento de pele ou com risco

Sem sinais de alarme, mas com sangramento de pele espontâneo ou induzido, ou com comorbidade, condição especial ou risco social. Fica em observação até o hemograma voltar. Prioridade não urgente.

Grupo C — amarelo: sinal de alarme presente, gravidade ausente

Qualquer um dos sinais de alarme, sem sinal de gravidade. Hidratação venosa titulada por hematócrito, em leito de internação. Urgência: atender o mais rápido possível.

Grupo D — vermelho: dengue grave

Choque, sangramento grave ou disfunção grave de órgão. Expansão rápida e monitorização contínua, em leito de UTI. Emergência: atendimento imediato.

GrupoO que o defineExamesHidrataçãoOnde fica e quando reavaliar
ASem alarme, sem sangramento, sem comorbidade, condição especial ou risco socialA critério médicoOral. Adulto 60 mL/kg/dia, 1/3 como sal de reidratação oral; criança 130, 100 ou 80 mL/kg/dia conforme o pesoCasa. Retorno no dia da melhora da febre; se a febre não ceder, no 5º dia
BSem alarme, com sangramento de pele espontâneo ou induzido, ou com comorbidade, condição especial ou risco socialHemograma completo obrigatório, resultado em até 2 h (máximo 4 h)Oral, como no grupo A, até o resultadoLeito de observação até o resultado. Depois, reavaliação clínica e laboratorial diária até 48 h após a queda da febre
CUm ou mais sinais de alarme, sem sinal de gravidadeHemograma, albumina sérica e transaminases obrigatórios; radiografia de tórax e ultrassonografia de abdomeVenosa. 10 mL/kg/h de SF 0,9% por 2 h (20 mL/kg por etapa), até 3 etapas; depois 25 mL/kg em 6 h e 25 mL/kg em 8 hLeito de internação, mínimo 48 h. Clínica em 1 h, hematócrito em 2 h, após cada etapa
DChoque, sangramento grave ou disfunção grave de órgãoOs mesmos do grupo C, mais glicemia, ureia, creatinina, eletrólitos, gasometria, tempo de protrombina e ecocardiograma conforme necessidadeVenosa. 20 mL/kg de SF 0,9% em até 20 min, até 3 vezes; com resposta, retorna ao esquema do grupo CLeito de UTI, mínimo 48 h. Clínica a cada 15 a 30 min, hematócrito a cada 2 h

Os sinais de alarme ditos como o paciente vai entender — e é assim que eles vão no papel da alta

O que está escrito no protocoloO que dizer e escrever para o paciente
Dor abdominal intensa e contínuaDor forte na barriga que não passa, nem com remédio, nem mudando de posição
Vômitos persistentesVomitar seguido, a ponto de não conseguir segurar líquido nenhum
Hipotensão postural ou lipotimiaFicar tonto, escurecer a vista ou quase desmaiar quando levanta
Sangramento de mucosaSangramento na gengiva, no nariz, vômito com sangue, fezes pretas ou sangramento vaginal fora do período
Letargia ou irritabilidadeFicar muito quieto, sonolento, difícil de acordar — ou, na criança, muito irritado e chorando sem parar
Acúmulo de líquidosFalta de ar, barriga inchando ou peso no peito
Queda repentina da febreA febre passar e a pessoa não melhorar de verdade — esse é o dia de voltar, mesmo sem febre
Redução do débito urinárioUrinar pouco, urina escura, ou ficar mais de seis horas sem urinar

Dengue, Zika e chikungunya: o que difere quando o quadro já está formado

ManifestaçãoDengueZikaChikungunya
FebreAlta, acima de 38 °C, por 2 a 7 diasAusente ou baixa, igual ou abaixo de 38 °C, 1 a 2 diasAlta, acima de 38 °C, por 2 a 3 dias
ExantemaSurge do 3º ao 6º diaSurge do 1º ao 2º diaSurge do 2º ao 5º dia
MialgiaMuito frequenteFrequenteFrequente
ArtralgiaPouco frequente e leveFrequente, leve a moderadaMuito frequente, moderada a intensa
Edema articularRaro e leveFrequente e leveFrequente, moderado a intenso
ConjuntiviteRaraEm 50% a 90% dos casosEm cerca de 30%
Acometimento neurológicoPouco frequenteMuito frequenteFrequente
PlaquetopeniaMuito frequentePouco frequenteFrequente
O que o interno decide a partir dissoClassificar em grupo e hidratar por protocoloNotificar e proteger a gestaçãoAnalgesia escalonada e reavaliação da dor em semanas

Choque da dengue e choque séptico: por que a reposição não é a mesma

ParâmetroChoque da dengueChoque séptico
MecanismoHipovolêmico, por extravasamento plasmáticoDistributivo, por vasodilatação e disfunção microcirculatória
Resistência vascular sistêmicaAlta — choque frio, extremidades friasBaixa na fase inicial
Pressão de pulsoEstreita, convergente, diferencial abaixo de 20 mmHgAmpla
HematócritoEm elevaçãoEm queda
Plaquetas e leucócitosAmbos em quedaAmbos em elevação
TemperaturaNormotermiaHipotermia é possível
Tratamento que define o desfechoVolume titulado por hematócrito, diurese e sinais vitais, com hora de pararAntimicrobiano na primeira hora, controle do foco e vasopressor precoce
Onde estudar o outroEste capítuloCapítulo de sepse na enfermaria

O que NÃO se prescreve nas arboviroses, e por quê

FármacoOnde é vedadoPor quêO que entra no lugar
Ácido acetilsalicílicoAs três arboviroses, em qualquer faseAntiagregação somada à plaquetopenia da doença; associado a hemorragia digestivaDipirona ou paracetamol
Anti-inflamatório não esteroideFase aguda das três — na chikungunya, até o 14º diaPiora sangramento, agride a mucosa gástrica e é nefrotóxico em paciente hipovolêmico. Nos primeiros dias a chikungunya é indistinguível da dengueDipirona ou paracetamol; dor intensa, opioide fraco. Liberado na chikungunya a partir do 15º dia
Corticoide sistêmicoFase aguda da dengue, em qualquer grupoNão corrige o extravasamento, que é o mecanismo do choque, e acrescenta riscoVolume titulado. Na chikungunya, prednisona só após o 14º dia e com componente inflamatório
AntibióticoFebre de arbovirose sem foco bacteriano documentadoNão trata doença viral, seleciona resistência e é nefrotóxico no hipovolêmicoNenhum. Infecção bacteriana na fase de recuperação é diagnóstico à parte
Transfusão de plaquetas por contagem baixaPlaquetopenia isolada, sem sangramentoPlaqueta não é sinal de alarme nem critério de gravidade; quem previne hemorragia é a reposição volêmica precoceExpansão adequada. Plaquetas só com sangramento persistente não controlado, após corrigir coagulação e choque
Diurético durante o extravasamentoOligúria de quem ainda extravasaAgrava a hipovolemia. A oligúria da fase crítica é de hipoperfusão, não de sobrecargaNova etapa de expansão. Diurético só depois, com congestão e choque já resolvido

Sobre a definição do grupo B: o texto corrido e o fluxograma do manual de 2024 não coincidem, e a régua adotada aqui é a mais ampla — sangramento OU risco adicional. O confronto das duas leituras, com as fontes de cada uma, está no bloco de divergências.

Sobre o corte de hemoconcentração: o manual não fixa um percentual de elevação do hematócrito e, em vez disso, manda dosá-lo seriadamente a cada duas horas e oferece uma tabela de valores de referência por idade e sexo. A conduta seguida aqui é a mesma, e por um motivo prático: o basal de cada paciente é desconhecido na maior parte dos atendimentos, e a direção da variação decide melhor que qualquer número isolado.

Sobre a diurese: a lista de sinais de choque da dengue define oligúria como diurese abaixo de 1,5 mL/kg/h — um limiar deliberadamente mais alto que o 0,5 mL/kg/h usado como critério de disfunção renal na sepse e na lesão renal aguda. É proposital: na dengue a queda da diurese é sinal precoce de hipoperfusão, e usar o corte da sepse atrasaria o reconhecimento. Na fase de expansão do grupo C, a meta é diurese de pelo menos 1 mL/kg/h.

Sobre os critérios de alta: são cinco — estabilização hemodinâmica por 48 horas, ausência de febre por 24 horas, melhora visível do quadro clínico, hematócrito normal e estável por 24 horas, e plaquetas em elevação. O fluxograma do manual anuncia seis critérios e lista cinco; o texto do capítulo de alta hospitalar diz cinco e lista os mesmos cinco. Prevalece o texto.

Sobre a conversão de gotas: dois documentos oficiais vigentes descrevem o mesmo frasco de paracetamol de 200 mg/mL com conta-gotas diferentes — um deles com 20 gotas por mililitro, o outro com 15 gotas por mililitro. A diferença é de 33% na dose por gota. Por isso a prescrição deste capítulo é sempre em miligramas por quilo, com a conversão feita na hora, lendo o rótulo do frasco que está na mão.

08

A conduta, hora a hora

Toda dose abaixo vem do manual de dengue do Ministério da Saúde de 2024 ou do manual de chikungunya de 2025, e o peso do paciente entra em cada conta. Duas regras atravessam a linha do tempo inteira: hidratação se prescreve em mililitros e em horas, nunca em “bastante líquido”; e reavaliação se prescreve com horário escrito, nunca em “reavaliar depois”.

  1. Minuto 0 — na porta, antes de sentar

    A classificação de risco acontece no acolhimento e define quem fura a fila: azul é grupo A, atendido por ordem de chegada; verde é grupo B, prioridade não urgente; amarelo é grupo C, urgência; vermelho é grupo D, atendimento imediato. Em epidemia, quem entra andando e sem febre no quinto dia é exatamente quem precisa ser visto antes — e é o que a fila por ordem de chegada nunca faz sozinha.

    Prescrição
    • Aferir pressão arterial deitado e depois sentado, em todo paciente com quatro dias ou mais de doença.
    • Registrar no prontuário a data de início dos sintomas — não o dia da consulta.
    • Pesar o paciente. Sem peso não há prescrição de hidratação.
  2. Grupo A — a consulta inteira cabe em 15 minutos

    No grupo A, exames laboratoriais de rotina não são obrigatórios para iniciar o manejo; a necessidade de investigação depende da apresentação, de diagnósticos alternativos e da vigilância epidemiológica. O que muda desfecho aqui é a hidratação prescrita como remédio: volume calculado, escrito em mililitros e repartido no dia. Atenção a uma ambiguidade que faz muita gente errar a conta: um terço do volume vai sob a forma de sal de reidratação oral (composição) e um terço vai nas primeiras 4 a 6 horas (tempo) — são dois terços diferentes, não o mesmo. A hidratação se mantém durante todo o período febril e por 24 a 48 horas após a febre ceder.

    Prescrição
    • Soro de reidratação oral: 1/3 do volume diário. Adulto de 70 kg = 1.400 mL/dia. Diluir cada envelope em 1 litro de água tratada.
    • Líquidos caseiros: os 2/3 restantes. Adulto de 70 kg = 2.800 mL/dia.
    • Criança até 10 kg: 130 mL/kg/dia. De 10 a 20 kg: 100 mL/kg/dia. Acima de 20 kg: 80 mL/kg/dia. Sempre 1/3 como sal de reidratação oral e 1/3 do volume nas primeiras 4 a 6 horas.
    • Dipirona 500 mg (20 gotas ou 1 comprimido) por via oral, de 6/6 horas, se dor ou febre. Criança: 10 a 25 mg/kg/dose de 6/6 horas.
    • Ou paracetamol 500 mg por via oral, de 6/6 horas, sem exceder 4 g em 24 horas. Criança: 10 a 15 mg/kg/dose, de 4/4 a 6/6 horas.
    • Não prescrever ácido acetilsalicílico, anti-inflamatório não esteroide ou corticoide.
    • Manter o aleitamento materno e não interromper a alimentação.
    • Retorno para reavaliação no dia em que a febre melhorar. Se a febre não ceder, retorno no 5º dia de doença. Retorno imediato diante de qualquer sinal de alarme.
    • Preencher e entregar o cartão de acompanhamento da dengue, com a lista de sinais de alarme em linguagem que o paciente repita de volta.
    • Notificar o caso.
  3. Grupo B — hemograma agora, decisão em duas horas

    O grupo B reúne pacientes sem sinais de alarme que exigem atenção adicional por sangramento espontâneo ou induzido, condições clínicas ou sociais especiais e comorbidades, conforme a classificação apresentada. Inicie a hidratação, colha hemograma e mantenha observação até a reavaliação. O hematócrito ajuda a identificar hemoconcentração; um resultado normal não anula uma piora clínica. Seguimento ambulatorial exige estabilidade, tolerância oral, possibilidade de retorno e reavaliação diária até superar a fase crítica.

    Prescrição
    • Hemograma completo, coleta imediata, resultado em até 2 horas.
    • Hidratação oral conforme o grupo A, iniciada ainda na espera.
    • Observação em leito até o resultado.
    • Hematócrito normal: alta com reavaliação clínica e laboratorial DIÁRIA, até 48 horas após a defervescência.
    • Hemoconcentração ou sinal de alarme: conduzir como grupo C, sem nova discussão.
  4. Grupo C — hora 0 e hora 1: a primeira etapa de expansão

    A reposição começa imediatamente, em qualquer ponto de atenção e independentemente do nível de complexidade, inclusive durante a transferência e mesmo sem exame nenhum. A meta da primeira hora é diurese de pelo menos 1 mL/kg/h. O manual explicita o teto de 20 mL/kg por etapa justamente para garantir administração gradativa e monitorada: expansão na dengue é titulada, não é bolus até melhorar.

    Prescrição
    • Soro fisiológico 0,9%, 10 mL/kg por via endovenosa, em 1 hora. Adulto de 62 kg = 620 mL/h. Criança de 20 kg = 200 mL/h.
    • Após 1 hora: reavaliar sinais vitais, pressão arterial e diurese (meta ≥ 1 mL/kg/h).
    • Manter 10 mL/kg na segunda hora — total de 20 mL/kg por etapa.
    • Colher hemograma, albumina sérica e transaminases na punção do acesso.
    • Solicitar radiografia de tórax (PA, perfil e incidência de Hjelm-Laurell) e ultrassonografia de abdome.
    • No idoso: auscultar as bases pulmonares a cada reavaliação, procurando crepitação de sobrecarga.
    • Internar. Mínimo de 48 horas até a estabilização.
  5. Grupo C — reavaliação clínica durante e ao fim de cada etapa

    Durante a expansão e ao fim de cada etapa, a decisão integra perfusão, pressão, diurese, respiração, hematócrito e balanço de líquidos. Piora exige reavaliação imediata, sem esperar duas horas ou completar três etapas. Vale fazer a soma em voz alta para o time: três etapas de 20 mL/kg equivalem a 60 mL/kg em seis horas, o que dá 4,2 litros num adulto de 70 kg — volume suficiente para congestionar quem já parou de extravasar. É por isso que existe um teto de três etapas e não uma quarta.

    Prescrição
    • Hematócrito em elevação ou sinais hemodinâmicos inalterados: repetir 20 mL/kg em 2 horas. Máximo de 3 etapas.
    • Melhora clínica e laboratorial: iniciar manutenção.
    • Sem melhora após a terceira etapa: conduzir como grupo D e acionar a terapia intensiva.
  6. Grupo C — manutenção, e a hora de fechar a torneira

    A manutenção é deliberadamente decrescente. O extravasamento dura de 24 a 48 horas e, quando cessa, tudo o que saiu volta para o vaso: a partir daí o soro deixa de ser tratamento e vira causa de congestão. Por isso a prescrição de hidratação da dengue tem hora de acabar.

    Prescrição
    • 1ª fase: soro fisiológico 0,9%, 25 mL/kg em 6 horas. Adulto de 70 kg = 1.750 mL, cerca de 290 mL/h.
    • 2ª fase: soro fisiológico 0,9%, 25 mL/kg em 8 horas. Adulto de 70 kg = 1.750 mL, cerca de 220 mL/h.
    • Suspender ou reduzir ao mínimo diante dos cinco sinais de fim de extravasamento.
    • Reavaliar ausculta pulmonar e turgência jugular a cada troca de fase.
  7. Grupo D — os primeiros 20 minutos

    A velocidade é o que costuma passar despercebido: 20 mL/kg em 20 minutos num adulto de 70 kg são 70 mL por minuto, o que não corre em equipo comum. Isso obriga a decidir o acesso antes de prescrever — periférico calibroso, em geral dois, bolsa pressurizada ou bomba; na criança, intraóssea se o acesso demorar.

    Prescrição
    • Soro fisiológico 0,9%, 20 mL/kg por via endovenosa em até 20 minutos. Adulto de 70 kg = 1.400 mL. Criança de 20 kg = 400 mL.
    • Repetir até 3 vezes conforme reavaliação. Com resposta, retornar ao esquema de expansão do grupo C.
    • Dois acessos periféricos calibrosos; na criança, intraóssea se o acesso demorar.
    • Oxigênio suplementar, por cateter, máscara ou suporte ventilatório conforme tolerância e gravidade.
    • Reavaliação clínica a cada 15 a 30 minutos; hematócrito a cada 2 horas.
    • Evitar toracocentese, paracentese e pericardiocentese desnecessárias.
    • Leito de UTI, mínimo 48 horas.
  8. Grupo D — choque persistente ou piora em qualquer etapa

    Choque persistente exige revisão imediata do mecanismo e suporte de maior complexidade. Hematócrito em elevação, com perfusão ruim após reposição adequada, sugere extravasamento persistente; queda com choque mantido obriga a procurar hemorragia, sem esquecer hemodiluição e outros mecanismos. Queda com melhora circulatória e piora respiratória pode indicar sobrecarga. Integre esses padrões à resposta ao volume, ao balanço, à avaliação cardíaca e à possibilidade de coinfecção. Não é necessário completar três expansões para reconhecer deterioração ou acionar a equipe intensiva.

    Prescrição
    • Hematócrito em ascensão: albumina 0,5 a 1 g/kg. Solução a 5%: para cada 100 mL, 25 mL de albumina a 20% mais 75 mL de soro fisiológico 0,9%. Na falta, coloide sintético 10 mL/kg/h.
    • Hemorragia: concentrado de hemácias 10 a 15 mL/kg/dia.
    • Coagulopatia: plasma fresco 10 mL/kg, vitamina K endovenosa e crioprecipitado 1 U para cada 5 a 10 kg.
    • Plaquetas apenas se houver sangramento persistente não controlado após correção dos fatores de coagulação e do choque, com trombocitopenia e INR acima de 1,5 vez o normal.
    • Disfunção miocárdica: dopamina 5 a 10 mcg/kg/min, dobutamina 5 a 20 mcg/kg/min ou milrinona 0,5 a 0,8 mcg/kg/min.
    • Sinais de congestão com choque resolvido: reduzir a infusão, diurético e inotrópico se necessário.
  9. Alta hospitalar — os cinco critérios, todos juntos

    Os cinco critérios são cumulativos — quatro deles não dão alta. Repare que a plaqueta aparece aqui pela primeira e única vez do capítulo, e no sentido oposto ao do reflexo comum: ela precisa estar subindo, não precisa estar alta.

    Prescrição
    • Conferir os cinco critérios por escrito antes de assinar a alta.
    • Agendar reavaliação diária até 48 horas após a defervescência.
    • Entregar o cartão de acompanhamento preenchido, com os sinais de alarme escritos em linguagem do paciente.
    • Nomear quem traz o paciente de volta e para onde — unidade e endereço, não “procure um serviço”.
  10. Chikungunya — até o 14º dia: analgesia, e nada de anti-inflamatório

    O objetivo é aliviar a dor, e o anti-inflamatório está fora — pelo risco de sangramento e de lesão renal, e porque nos primeiros dias a chikungunya é indistinguível da dengue. Duas regras do manual mudam o resultado: registrar a dor em escala visual analógica, transformando o subjetivo em número que permite medir resposta, e prescrever em dose fixa, nunca “se necessário” — dor de chikungunya tratada por demanda não chega ao controle.

    Prescrição
    • Registrar a dor pela escala visual analógica na primeira consulta e em cada retorno.
    • Dipirona 500 mg a 1 g por via oral, de 6/6 horas, em HORÁRIO FIXO. Criança acima de 3 meses: 10 a 25 mg/kg/dose de 6/6 horas.
    • Ou paracetamol 500 mg a 1 g de 6/6 horas, sem exceder 4 g/dia. Criança: 10 a 15 mg/kg/dose.
    • Dor intensa: acrescentar codeína 30 a 60 mg, 3 a 4 vezes ao dia (máximo 360 mg/dia); no idoso, iniciar com 15 mg de 4/4 horas.
    • Ou tramadol 50 a 100 mg de 4/4 a 6/6 horas, máximo 400 mg/dia.
    • Ciclobenzaprina 10 a 40 mg/dia, preferencialmente à noite, para o componente muscular, em maiores de 15 anos.
    • Repouso relativo.
    • Não prescrever anti-inflamatório não esteroide, ácido acetilsalicílico ou corticoide nesta fase.
  11. Chikungunya — a partir do 15º dia: aqui a conduta se separa da dengue

    Passados 14 dias, define-se o padrão predominante, e os padrões se combinam: dor musculoesquelética não inflamatória, artrite ou tenossinovite com edema, ou dor neuropática. É aqui que a conduta se separa de verdade da dengue, e o anti-inflamatório que era proibido passa a ser indicado. Cerca de 30% dos pacientes têm componente neuropático, que não responde à analgesia convencional — subir a dose do que não está funcionando é o erro clássico desta fase.

    Prescrição
    • Exames antes de iniciar: hemograma, glicemia de jejum, ureia, creatinina, transaminases.
    • Dor não inflamatória: ibuprofeno 200 a 600 mg, 3 a 4 vezes ao dia (máximo 3.200 mg/dia). Reavaliar em 10 dias; manter até 4 semanas se houver resposta.
    • Artrite ou tenossinovite: prednisona 0,5 mg/kg/dia por via oral, máximo 40 mg/dia — 60 kg = 30 mg/dia; 80 kg ou mais = 40 mg/dia.
    • Manter por 4 semanas e então desmamar, reduzindo um quarto da dose a cada 7 dias. Para 40 mg: 40 → 30 → 20 → 10 → 0 mg. Tempo total de uso: 8 semanas.
    • Não suspender abruptamente: a retirada rápida causa efeito rebote com recidiva.
    • DN4 com 4 ou mais respostas positivas: amitriptilina ou nortriptilina, ou gabapentina, pregabalina ou carbamazepina. Avisar que o efeito começa após cerca de 2 semanas.
    • Encaminhar à fisioterapia e programar retorno em 30 dias com nova escala de dor.
  12. Zika — a consulta que prescreve pouco e notifica muito

    O tratamento é sintomático e curto. O que a consulta realmente entrega é outra coisa: identificar a gestante, notificar, encaminhar e orientar sobre transmissão sexual. E dar o sinal de alarme específico da Zika, que não tem nada a ver com os sete da dengue. O seguimento da gestação e a investigação do recém-nascido são assunto dos capítulos de pré-natal de alto risco e de infecções congênitas.

    Prescrição
    • Paracetamol ou dipirona nas mesmas doses do grupo A da dengue.
    • Anti-histamínico para o prurido.
    • Não prescrever ácido acetilsalicílico.
    • Gestante com suspeita ou confirmação: notificar em até 24 horas e encaminhar a pré-natal de alto risco.
    • Orientar uso de preservativo enquanto houver gestante ou possibilidade de gravidez no domicílio.
    • Orientar retorno imediato por formigamento de membros ou perda de força progressiva.
  13. Quando o paciente perguntar da vacina

    A oferta no SUS mudou duas vezes em pouco tempo, e o interno precisa saber o que vale hoje. A vacina do laboratório Takeda segue como vacinação de rotina na faixa de 10 a 14 anos. A do Instituto Butantan chegou a ser ofertada a adultos de 15 a 59 anos, começando pelos trabalhadores da Atenção Primária, e teve a estratégia descontinuada por precaução diante de um sinal de segurança em avaliação. Nenhuma das duas protege quem já está doente hoje, e não se vacina durante o quadro agudo.

    Prescrição
    • Verificar a idade: 10 a 14 anos é a única faixa com vacinação de rotina em curso.
    • Perguntar a todo febril: recebeu vacina contra dengue nos últimos 21 dias?
    • Se sim, com o imunizante do Butantan: manter o manejo clínico habitual e notificar no e-SUS Notifica, módulo de eventos supostamente atribuíveis à vacinação, registrando data da vacinação, lote e data de início dos sintomas.
    • Casos graves: notificação imediata, preferencialmente em até 24 horas. A investigação nunca atrasa o atendimento.
09

Como saber se está funcionando

Na dengue a reavaliação não é opcional nem intuitiva: ela tem relógio, e o relógio muda com o grupo. Grupo A volta no dia em que a febre melhorar. Grupo B é reavaliado em duas horas, com o hemograma, e depois diariamente até 48 horas após a defervescência. Grupo C é reavaliado clinicamente a cada hora e laboratorialmente a cada duas. Grupo D, a cada 15 a 30 minutos. Quem não escreve o horário no prontuário está delegando a reavaliação para o acaso de alguém passar pelo leito.

E reavaliar é reclassificar. O manual é explícito: cada reavaliação exige revisão da história clínica e exame físico completo, porque o paciente pode passar de um grupo a outro em curto período. O grupo de agora vale mais do que o grupo de duas horas atrás — nos dois sentidos.

HematócritoA cada 2 horas nos grupos C e D, após cada etapa de expansão

Esperado: Queda em relação à coleta anterior, acompanhando a melhora clínica

Se não melhora: Em elevação: extravasamento em curso — repetir a etapa de expansão, até três. Em queda com choque persistente: o problema virou hemorragia — investigar sangramento, avaliar coagulação e considerar concentrado de hemácias. Em queda com choque resolvido e piora respiratória: hiper-hidratação — reduzir a infusão e considerar diurético.

DiureseA cada hora durante a expansão do grupo C; contínua no grupo D

Esperado: Pelo menos 1 mL/kg/h

Se não melhora: Diurese abaixo de 1,5 mL/kg/h já é sinal de hipoperfusão neste protocolo — corte mais alto que o da lesão renal aguda, e de propósito. Persistindo baixa após expansão adequada, repetir a etapa e reavaliar o estado hemodinâmico antes de pensar em diurético. Diurético em paciente que ainda extravasa piora o choque.

Pressão de pulso (diferencial entre sistólica e diastólica)A cada aferição de pressão

Esperado: Alargamento progressivo, com diferencial acima de 20 mmHg

Se não melhora: Diferencial igual ou abaixo de 20 mmHg é choque, mesmo com sistólica acima de 90 mmHg. É o parâmetro que denuncia o choque compensado antes da hipotensão, e o que mais se perde quando só se anota a sistólica.

Pressão arterial deitado e sentadoEm toda reavaliação a partir do 4º dia de doença

Esperado: Sem queda sintomática ao sentar

Se não melhora: Queda com tontura ou lipotimia reclassifica para grupo C, mesmo que todo o resto esteja bem. No idoso hipertenso, queda maior que 40 mmHg em relação à pressão habitual conta, ainda que o valor absoluto pareça normal.

Perfusão periférica e nível de consciênciaA cada reavaliação

Esperado: Enchimento capilar até 2 segundos, extremidades quentes, paciente lúcido

Se não melhora: Enchimento de 3 a 5 segundos com extremidades frias é choque compensado — e o paciente ainda parece lúcido, tanto que o manual adverte: se não for tocado, o choque pode não ser detectado. Alteração do estado mental já é choque com hipotensão, fase tardia.

Ausculta pulmonar e turgência jugularAo fim de cada etapa de expansão e a cada troca de fase da manutenção

Esperado: Murmúrio vesicular preservado, sem crepitação nova

Se não melhora: Crepitação nova, dispneia ou queda de saturação em quem recebeu volume são congestão até prova em contrário, e aqui a conduta se inverte: reduzir a infusão, diurético e inotrópico se houver disfunção miocárdica. No idoso, este é o parâmetro que mais salva.

Dor abdominalA cada reavaliação

Esperado: Melhora junto com a expansão volêmica

Se não melhora: Dor que persiste localizada, com defesa, após duas expansões adequadas, deixou de ser sinal de alarme da dengue e passou a ser hipótese cirúrgica. Chame o cirurgião em vez de prescrever a terceira expansão.

TemperaturaEm toda reavaliação

Esperado: Ausência de febre por 24 horas antes da alta

Se não melhora: Cuidado com a leitura invertida: febre que cede não é melhora, é entrada na fase crítica. Já febre que reaparece depois da fase de recuperação levanta infecção bacteriana, que pode surgir no fim do curso clínico e ter caráter grave.

Dor articular (chikungunya)Escala visual analógica em 10 dias na fase pós-aguda; retorno em 30 dias

Esperado: Queda na escala de dor e recuperação de função — vestir-se, pentear-se, segurar objetos

Se não melhora: Sem resposta ao anti-inflamatório em 10 dias, reavalie o padrão: pode ser componente inflamatório que pede corticoide, ou dor neuropática, presente em cerca de 30% e não responsiva à analgesia convencional. Aplique o DN4 antes de subir a dose do que já não está funcionando.

10

Onde o erro machuca

Dar alta ao paciente porque a febre passou

O dano: É o erro que mata neste capítulo. A defervescência abre a fase crítica: é quando o extravasamento atinge o pico e quando o choque se instala, entre o quarto e o quinto dia. O paciente vai para casa se sentindo melhor e volta em choque — ou não volta. Instalado, o choque da dengue leva ao óbito em 12 a 24 horas.

Como pegar a tempo: Trate a queda da febre como agravamento até prova em contrário. Reavalie clinicamente naquele dia, com pressão deitado e sentado e busca ativa dos sete sinais de alarme. E escreva no cartão, com estas palavras: o dia em que a febre passar é o dia de voltar.

Usar a contagem de plaquetas como medida de gravidade

O dano: Plaqueta não está entre os sinais de alarme nem entre os critérios de dengue grave. Quem se guia por ela interna gente estável com 40.000 e libera gente com 130.000 que já tem dor abdominal e hipotensão postural. O segundo erro é transfundir plaqueta sem sangramento — exposição a hemoderivado sem benefício.

Como pegar a tempo: Classifique pelo quadro clínico e pelo hematócrito. Reserve a plaqueta para dois usos: transfusão apenas com sangramento persistente não controlado após correção dos fatores de coagulação e do choque, e o critério de alta, em que ela precisa estar subindo.

Prescrever anti-inflamatório ou ácido acetilsalicílico para a dor

O dano: Antiagregação plaquetária somada à plaquetopenia, agressão à mucosa gástrica em paciente com vasculopatia e nefrotoxicidade em paciente hipovolêmico. A hemorragia digestiva é mais frequente em quem usou esses fármacos, e não depende de trombocitopenia ou hemoconcentração para acontecer.

Como pegar a tempo: Dipirona ou paracetamol, em dose e horário fixos. Pergunte ativamente o que o paciente já tomou em casa — diclofenaco e nimesulida circulam sem receita — e diga o nome dos remédios proibidos, não a classe farmacológica.

Prescrever hidratação como orientação verbal, sem volume

O dano: “Beba bastante líquido” produz meio litro por dia num paciente com náusea, e o paciente do grupo A que deveria ingerir 4,2 litros volta em 24 horas como grupo C, com hemoconcentração que a via oral teria evitado. A hidratação oral é o tratamento do grupo A, não um conselho de saúde.

Como pegar a tempo: Calcule o volume, escreva em mililitros na receita e no cartão, reparta o dia — um terço nas primeiras 4 a 6 horas — e converta em unidades que a pessoa mede em casa: copos, garrafas, envelopes de soro. Comece a hidratação na sala de espera.

Manter a mesma velocidade de infusão depois que o extravasamento cessou

O dano: Congestão pulmonar iatrogênica. Terminado o extravasamento, todo o líquido que estava no interstício retorna ao vaso, e quem continua recebendo volume desenvolve desconforto respiratório e insuficiência cardíaca. O risco é maior no idoso, por comorbidade, lesão renal e redução da função miocárdica.

Como pegar a tempo: Trate os cinco sinais de fim de extravasamento como ordem de desligar: hematócrito em queda sem sangramento, pressão e pulso normalizados, perfusão restabelecida, diurese normal e sintomas abdominais resolvidos. Ausculte as bases a cada troca de fase.

Tratar o choque da dengue com o pacote da sepse

O dano: Antibiótico de amplo espectro sem foco, vasopressor precoce em paciente que só precisa de volume, e uma reposição guiada por parâmetro errado — além do risco de lesão renal por antimicrobiano em paciente hipovolêmico. Os dois choques são opostos hemodinamicamente, e a tabela de contraste está no bloco de fluxos e tabelas.

Como pegar a tempo: Antes de abrir o pacote da sepse, olhe três parâmetros: pressão de pulso, hematócrito e leucócitos. Convergente, subindo e caindo apontam dengue. E não hesite quando de fato houver infecção bacteriana associada — ela existe, sobretudo na fase de recuperação, e aí o capítulo é o outro.

Deixar de perguntar o dia de doença e a data de início dos sintomas

O dano: Sem essa data não há como saber em que fase o paciente está, qual exame de confirmação é o certo, nem quando marcar o retorno. O paciente é liberado no dia 2 com orientação de voltar em uma semana, e a fase crítica acontece sem testemunha.

Como pegar a tempo: A primeira pergunta da consulta é há quantos dias começou a febre, e a resposta vai no prontuário, na requisição do exame e no cartão de acompanhamento. O retorno se agenda pelo dia de doença, não pelo dia da consulta.

Tratar a criança pelo volume de peso errado, ou por conta de gotas decorada

O dano: As faixas de hidratação oral pediátrica têm degraus: uma criança de 20 kg recebe 2.000 mL por dia e uma de 21 kg recebe 1.680 mL — a mais pesada, menos volume. E a conversão de gotas para miligramas do paracetamol difere entre documentos oficiais, com diferença de até 33% na dose por gota, o que num frasco de 13 mg por gota transforma 20 gotas em 267 mg em vez de 200 mg.

Como pegar a tempo: Pese a criança, calcule o volume diário e, quando o peso cair logo acima de uma faixa, prescreva o maior dos dois valores. Para o sintomático, calcule em miligramas por quilo e converta lendo o rótulo do frasco que está na mão — nunca por número de gotas memorizado.

11

O que dizer ao paciente e à família

A alta da dengue é uma prescrição de vigilância delegada à família, e ela só funciona se as palavras funcionarem. Peça que o acompanhante repita de volta os sinais de alarme com as palavras dele antes de sair da sala — é o único teste que existe de que a orientação pegou.

Explicar por que o paciente precisa voltar justamente no dia em que melhorar

“A febre vai passar, e é aí que eu preciso ver o senhor de novo. Na dengue, o dia em que a febre vai embora é o dia mais perigoso da doença — é quando ela pode piorar por dentro sem dar sinal por fora. Então o combinado é: passou a febre, o senhor volta aqui, mesmo se estiver se sentindo bem. Não é para esperar piorar.”

Não diga: “Se piorar, procure um serviço de saúde.” Todo paciente ouve isso e nenhum sabe o que conta como piorar — e o paciente da dengue que entra na fase crítica costuma se sentir melhor, não pior.

Ensinar os sinais de alarme para quem vai observar em casa

“Vou escrever aqui seis coisas. Se aparecer qualquer uma delas, vocês voltam na hora, de madrugada se for preciso: dor forte na barriga que não passa; vomitar sem parar; ficar tonto ou quase desmaiar ao levantar; sangramento na gengiva, no nariz ou fezes pretas; ficar muito sonolento, difícil de acordar; urinar pouco ou ficar muitas horas sem urinar. Agora me diga com as suas palavras: quais são as que você vai vigiar?”

Não diga: Entregar o cartão sem ler junto, ou usar as palavras do protocolo — “lipotimia”, “letargia”, “hipotensão postural”. O que não é entendido não é vigiado.

Prescrever a hidratação de modo que seja cumprida

“O remédio principal da dengue é líquido, e ele tem dose igual a qualquer remédio. São 4 litros por dia para o seu peso: isso dá dezesseis copos de 250 mL. Nas primeiras seis horas eu quero cinco copos, um a cada hora. E desses 4 litros, quatro copos precisam ser do soro do envelope, que é o que repõe o sal. Vou escrever tudo isso no papel.”

Não diga: “Beba bastante água.” É a orientação mais comum e a que menos funciona: produz meio litro por dia em quem está com náusea, e devolve o paciente hemoconcentrado.

Responder à família que quer levar para casa porque a febre passou

“Eu entendo, e sei que ela parece melhor. Mas o que está acontecendo com a sua mãe agora é o contrário do que parece: a dor de barriga e os vômitos junto com a febre indo embora são os sinais de que a doença entrou na fase em que ela pode perder líquido por dentro. Por isso ela vai ficar internada e receber soro na veia agora. Eu vou reavaliá-la daqui a uma hora e explico o que encontrei.”

Não diga: Ceder à pressão, ou vencer pelo susto (“se a senhora levar, ela morre”). O que sustenta a decisão é nomear o mecanismo e marcar o horário do próximo retorno à beira do leito.

A gestante que pergunta se o bebê vai nascer com problema

“Essa é a pergunta certa, e eu não vou ter a resposta completa hoje. O que eu posso fazer agora é o que muda o resultado: colher os exames, avisar a vigilância e encaminhar você para um pré-natal com acompanhamento mais de perto, com ultrassons ao longo da gestação. A maior parte das gestações com essas infecções tem bebê sem alteração nenhuma. Eu não vou prometer que está tudo bem, porque eu ainda não sei — mas você não vai ficar sozinha esperando descobrir.”

Não diga: “Fica tranquila, não vai dar em nada”, e o oposto, listar as malformações possíveis. A primeira quebra a confiança quando algo aparece; a segunda entrega um prognóstico que ninguém tem hoje.

O paciente com chikungunya que pergunta quando a dor vai passar

“Vou ser honesto com você sobre o tempo. Na chikungunya, boa parte das pessoas continua com dor depois que a febre acaba — semanas, e às vezes meses. Isso não quer dizer que o tratamento falhou nem que apareceu outra doença: é o jeito dessa infecção. Por isso a gente vai medir sua dor hoje numa escala de zero a dez, tratar em horário fixo, e reavaliar em dez dias para ajustar. Se depois de duas semanas a dor continuar, existem outros remédios que só podem entrar nessa fase.”

Não diga: “Daqui a uma semana você está bom.” A promessa curta faz o paciente abandonar o seguimento quando a dor persiste — e ele volta automedicado com anti-inflamatório.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

A prova do laço ainda deve ser usada no estadiamento?

Manter: é critério vigente de caso suspeito e de grupo B

A prova do laço permanece na definição nacional de caso suspeito de dengue e é a manobra que caracteriza o sangramento induzido do grupo B. É gratuita, feita à beira do leito com o esfigmomanômetro que já está na sala, e num serviço sem laboratório é o único achado objetivo de fragilidade capilar disponível. A técnica é insuflar o manguito no ponto médio entre a sistólica e a diastólica — cinco minutos no adulto, três na criança — e contar as petéquias num quadrado de 2,5 cm de lado: positiva com 20 ou mais no adulto, 10 ou mais na criança.

Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança, 6ª ed., 2024 — definição de caso suspeito, caracterização do grupo B e Apêndice G.

Relativizar: o valor preditivo é baixo para o que importa decidir

Revisão sistemática publicada em 2022 pela Organização Pan-Americana da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde, que identificou 217 estudos, encontrou baixo valor preditivo da prova do laço para formas graves e como critério de hospitalização, e registra que, nessas circunstâncias, sua realização pode trazer discordância na condução dos casos. Some-se que ela é frequentemente negativa na obesidade e durante o choque — justamente nos pacientes de maior risco.

Revisão sistemática da Opas/OMS de 2022, citada no Apêndice G do próprio manual do Ministério da Saúde de 2024.

Como decidir

Decida pela assimetria do erro. A prova positiva move o paciente para o grupo B, o que custa um hemograma e duas horas de observação — dano pequeno. A prova negativa não retira nada: não exclui gravidade, não afasta dengue e não autoriza alta. Use-a como teste de inclusão e nunca como teste de exclusão. Se o paciente já tem sinal de alarme, comorbidade, idade de risco ou sangramento espontâneo, ele já está classificado e a manobra não muda nada — pule e ganhe cinco minutos, que em epidemia é o recurso mais escasso. E não a faça em quem já está em choque: o tempo do manguito é tempo sem acesso venoso.

O grupo B se define só por sangramento, ou também por comorbidade e risco social?

Só sangramento, pela letra do texto

O capítulo de estadiamento do manual vigente caracteriza o grupo B por três itens: caso suspeito, ausência de sinais de alarme e presença de sangramento espontâneo de pele ou induzido. Comorbidade e risco social não constam dessa lista. Por essa leitura, um idoso hipertenso sem sangramento e sem sinal de alarme seria grupo A, com alta e hidratação oral.

Ministério da Saúde. Dengue, 6ª ed., 2024, item 6.2.1 — caracterização do grupo B.

Sangramento ou risco adicional, pelo fluxograma e pelo cartão

O fluxograma de manejo clínico do mesmo documento define o grupo B como dengue sem sinais de alarme com condição especial, risco social ou comorbidades, e lista em nota quais são: lactentes com menos de 24 meses, gestantes, adultos acima de 65 anos, hipertensão e outras doenças cardiovasculares graves, diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica, asma, obesidade, doenças hematológicas crônicas, doença renal crônica, doença ácido-péptica, hepatopatias e doenças autoimunes. O cartão de acompanhamento entregue ao paciente traz o campo “comorbidade ou risco social ou condição clínica especial?”.

Ministério da Saúde. Dengue, 6ª ed., 2024 — Figura 2 (fluxograma de manejo clínico) e Anexo (cartão de acompanhamento do paciente com suspeita de dengue).

Como decidir

Este capítulo adota a régua mais ampla, pelo custo assimétrico do erro. Classificar como B quem seria A custa um hemograma e duas horas de observação. Classificar como A quem seria B manda para casa, sem exame, exatamente a pessoa cuja letalidade entre casos graves chega a 22,9% acima dos 80 anos. Some-se que o próprio documento desenha o critério mais amplo em dois lugares, fluxograma e cartão. Diante de contradição interna, prevalece a leitura que o resto do documento sustenta e que erra para o lado seguro.

13

O raciocínio, em voz alta

Dona Zélia, 71 anos, hipertensa em uso de losartana e hidroclorotiazida, 62 quilos. Quinto dia de doença; a febre cessou ontem à noite. Desde a madrugada, dor epigástrica contínua e quatro episódios de vômito. Pálida, extremidades levemente frias. Pressão 108 por 88 deitada e 92 por 76 sentada, com tontura. Frequência cardíaca 104. A filha quer levá-la para casa porque a febre passou.

  1. o que penso agora

    Antes de qualquer exame, três dados já classificam esta paciente. Quinto dia de doença com defervescência ontem: ela está dentro da fase crítica, e não depois dela. Dor abdominal intensa e contínua mais vômitos persistentes: dois sinais de alarme. Queda de 16 mmHg na sistólica ao sentar, com tontura: hipotensão postural, terceiro sinal de alarme. Isso é grupo C, e a decisão está tomada sem que nada tenha sido colhido.

  2. o que me chama atenção antes de agir

    Um detalhe dos sinais vitais reforça a classificação: a pressão de 108 por 88 tem diferencial de 20 mmHg. Isso não é pressão normal, é pressão convergente — a vasoconstrição segurando a sistólica enquanto o volume intravascular cai. Somada às extremidades frias e à taquicardia, descreve choque compensado, a fase em que o paciente ainda está lúcido e, se não for tocado, o choque passa despercebido. E ela é hipertensa: sua pressão habitual é bem acima de 108, o que torna a queda maior do que o número absoluto sugere.

  3. o que peço, e na ordem certa

    A reposição começa antes dos exames, e o manual autoriza isso em qualquer ponto de atenção. Soro fisiológico a 0,9%, 10 mL/kg na primeira hora: 62 vezes 10 são 620 mL em uma hora. Na mesma punção, colho hemograma completo, albumina sérica e transaminases — os três obrigatórios do grupo C. Solicito radiografia de tórax e ultrassonografia de abdome. Interno em leito de internação, com previsão mínima de 48 horas. Prescrevo dipirona 500 mg de 6/6 horas e nenhum anti-inflamatório.

  4. como a primeira hora muda o que eu penso

    Após 60 minutos: pressão 112 por 84, frequência cardíaca 96, extremidades menos frias, diurese de 70 mL na hora — pouco mais de 1 mL/kg/h, dentro da meta. A resposta é adequada, então mantenho mais 10 mL/kg na segunda hora, completando os 20 mL/kg da primeira etapa de expansão: 1.240 mL nas duas horas. Aproveito a reavaliação para auscultar as bases, porque ela tem 71 anos e é justamente quem pode congestionar.

  5. como o exame muda o que eu penso

    Duas horas depois: hematócrito 47%, plaquetas 62.000, albumina 2,8 g/dL. O hematócrito de 47% numa mulher de 71 anos está bem acima do valor de referência da faixa, em torno de 41% — confirma o extravasamento que eu já tinha diagnosticado clinicamente. A albumina baixa mede a proteína que saiu do vaso. E a plaqueta de 62.000 não muda absolutamente nada da conduta: não indica transfusão, não classifica gravidade, não altera o volume. Se eu tivesse me guiado por ela, teria a impressão de estar diante do problema errado.

  6. a decisão, e o que fica agendado

    Repito a etapa de expansão, porque o hematócrito ainda está elevado, e programo novo hematócrito em duas horas, com reavaliação clínica em uma. Escrevo os dois horários no prontuário. Reviso a prescrição domiciliar e suspendo a hidroclorotiazida enquanto durar a fase de extravasamento. E converso com a filha nomeando o mecanismo: a febre ter passado é o motivo pelo qual a mãe está internando, não o motivo para ir embora.

  7. as próximas horas

    Na sexta hora, hematócrito 41%, pressão 118 por 76 com diferencial de 42 mmHg, extremidades quentes, diurese mantida, dor abdominal resolvida: o extravasamento está cessando. Passo à manutenção. A partir daqui o risco troca de lado — o que pode machucá-la agora é o soro que eu deixar correndo depois que o vaso parou de vazar.

14

Faça você

Cleiton, 24 anos, entregador, 78 quilos, hígido. Você o atendeu há três dias, no segundo dia de febre: sem sinais de alarme, sem comorbidade, sem sangramento. Classificou como grupo A, prescreveu 4,7 litros de hidratação oral por dia, dipirona de 6/6 horas, entregou o cartão e orientou retorno no dia em que a febre melhorasse. Ele voltou hoje, quinto dia de doença, porque a febre passou ontem à tarde — exatamente como combinado. Diz que está melhor, com fome pela primeira vez na semana, e quer o atestado para voltar a trabalhar amanhã.

  1. o que o retorno significa antes de qualquer pergunta

    Ele não veio porque piorou; veio porque cumpriu a orientação. E o dia que ele veio é o dia da defervescência, no quinto dia de doença — dentro da janela em que o extravasamento atinge o pico e o choque se instala. O fato de se sentir melhor não é dado tranquilizador nesta consulta: é o dado que a define.

  2. o que precisa ser feito antes de decidir qualquer coisa

    Busca ativa dos sete sinais de alarme, com perguntas fechadas, uma a uma. Pressão arterial deitado e sentado. Palpação do abdome e do rebordo costal, procurando dor e hepatomegalia. Inspeção de gengiva e narina. Ausculta pulmonar. E a pergunta sobre diurese: quantas vezes urinou, e quando foi a última.

  3. o que se encontra

    Pressão 118 por 76 deitado e 116 por 74 sentado, sem tontura. Frequência cardíaca 84. Sem dor abdominal, sem vômitos, sem sangramento, fígado não palpável, ausculta normal, lúcido, urinando normalmente. Refere ter bebido “uns três litros por dia” dos 4,7 prescritos. Nenhum sinal de alarme.

  4. a pergunta que fica

    Que grupo ele é hoje, o que se prescreve, quando ele volta — e o que você responde sobre o atestado?

Ver como fecharíamos

Ele segue grupo A: sem sinal de alarme, sem sangramento, sem comorbidade, sem condição especial e sem risco social. Exame laboratorial permanece a critério médico — num adulto jovem sem nenhum sinal de alarme, nenhum resultado mudaria a conduta. Mas a consulta não termina aqui, e é esse o ponto do caso. Ele está no primeiro dia da fase crítica, não no fim da doença: a janela de risco vai até 24 a 48 horas após a defervescência, e a hidratação se mantém por todo esse período. Ela continua prescrita em volume — 60 mL/kg/dia para 78 kg são 4.680 mL, um terço como sal de reidratação oral. Vale corrigir o déficit que ele mesmo relatou: três litros não é a dose prescrita, e convém traduzir o volume em copos e distribuí-lo pelo dia. Ele precisa de nova reavaliação, não de alta definitiva: retorno em 24 horas, e imediato diante de qualquer sinal de alarme, repetidos em voz alta com as palavras dele e escritos no cartão. Sobre o atestado: voltar a entregar amanhã, em movimento, sob sol e com acesso irregular a líquido, é a pior conduta possível para alguém no segundo dia de fase crítica — compromete exatamente o tratamento que ele precisa cumprir e o afasta do serviço no dia em que mais precisa voltar. O atestado se estende até pelo menos 48 horas após a defervescência, e a justificativa é dita a ele com todas as letras. E uma quarta coisa, que não estava na lista: perguntar se recebeu vacina contra dengue nos últimos 21 dias. Se tiver recebido o imunizante do Instituto Butantan, o manejo não muda, mas o caso passa a exigir notificação no e-SUS Notifica.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Ela está na fase pós-aguda, que vai de 15 a 90 dias, e o padrão predominante é inflamatório: artrite e tenossinovite com edema e rigidez matinal. Nesse padrão o corticoide é a conduta indicada, e só pode entrar após o 14º dia — antes disso a chikungunya é indistinguível da dengue e o risco de sangramento e de lesão renal veda anti-inflamatório e corticoide. A prednisona é prescrita a 0,5 mg/kg/dia com teto de 40 mg, mantida por quatro semanas e depois desmamada em um quarto da dose a cada sete dias, totalizando oito semanas; a suspensão abrupta causa efeito rebote com recidiva. Dizer que a dor é autolimitada é falso e faz o paciente abandonar o seguimento: de 45% a 75% seguem sintomáticos após a fase aguda. Ácido acetilsalicílico não entra em nenhuma fase. Se a dor não responder, vale aplicar o DN4, porque cerca de 30% têm componente neuropático associado, que não responde à analgesia convencional.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Escolha um caso de febre com suspeita de arbovirose. Reconstrua a linha do tempo, examine hidratação e perfusão e justifique o local de cuidado. Depois confira o capítulo e explique que mudança clínica anteciparia o retorno.

Em 30 dias

Refaça o caso na defervescência: dor abdominal, tontura e hematócrito em queda. Discuta hipóteses, que dados faltam e como perfusão, sangramento e balanço mudam a conduta. Termine com uma orientação de alta compreensível e verificável.

17

Agora atenda

Você é o interno de plantão na tenda de arboviroses de uma UPA em epidemia, sem preceptor na sala. Entra uma paciente de 71 anos, hipertensa, no quinto dia de doença, cuja febre cedeu ontem — e a filha diz que ela melhorou. Classifique, prescreva a hidratação com volume e velocidade, marque o horário da reavaliação e explique à família por que ela não vai para casa.

Dengue, Zika e Chikungunya — Internato | OsceLabs