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Clínica MédicaInfectologia

Um carrapato, uma membrana, uma pálpebra, um cisto e um gato

Infecções raras de prova (febre maculosa, difteria, botulismo, neurocisticercose, arranhadura do gato)

Febre com dor de cabeça forte depois da chácara, placa acinzentada que sangra quando alguém tenta descolar, visão dupla que desce para a garganta, a primeira crise aos 34 anos, um gânglio na axila de quem adotou um filhote: cinco doenças raras em que o atraso de suspeita mata ou deixa sequela. O que faz pensar em cada uma, o que se faz antes de qualquer resultado, que soro se pede e por qual caminho, quem recebe antiparasitário e quem piora com ele, e o que se notifica em 24 horas.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. v. 3. Capítulo Febre maculosa brasileira e outras rickettsioses (p. 1019-1038).

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. v. 1. Capítulos Difteria (a partir da p. 217) e Botulismo (p. 365-374).

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Manual integrado de vigilância epidemiológica do botulismo. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2006. 88 p. (Série A. Normas e Manuais Técnicos). ISBN 85-334-1030-1.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Nota Técnica nº 77/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS. Orientação sobre a notificação de casos suspeitos de botulismo, solicitação, liberação, administração e reposição de soro antibotulínico AB bivalente (SAB). Brasília, agosto de 2022.

White AC Jr, Coyle CM, Rajshekhar V, Singh G, Hauser WA, Mohanty A, Garcia HH, Nash TE. Diagnosis and treatment of neurocysticercosis: 2017 clinical practice guidelines by the Infectious Diseases Society of America (IDSA) and the American Society of Tropical Medicine and Hygiene (ASTMH). Am J Trop Med Hyg. 2018;98(4):945-966. doi:10.4269/ajtmh.18-88751.

01

Responda antes de ler

Homem de 55 anos, 75 kg, está no quinto dia de febre depois de uma pescaria em represa com capivaras, com exantema petequial nos membros inferiores, confusão mental, pressão arterial de 85/50 mmHg e creatinina de 2,3 mg/dL. A hipótese é febre maculosa grave. A farmácia do hospital informa que não tem doxiciclina injetável. Qual conduta está de acordo com o Guia de Vigilância em Saúde e com a Rename 2024?

02

O paciente que você vai ver

Sábado, 21h50, pronto-socorro de um hospital regional de cento e quarenta leitos numa cidade de noventa mil habitantes, cercada de represas, canavial e chácaras de fim de semana. Você é o interno da noite. O preceptor está no centro cirúrgico com uma apendicite perfurada e deixou recado com a enfermeira: "começa pela sala amarela, que eu desço em quarenta minutos".

Na maca 4 está Malvina Catarino, 52 anos, 64 quilos, caseira de uma chácara na beira da represa. Quem fala é o filho, porque ela responde devagar e pergunta duas vezes a mesma coisa. A febre começou na quarta-feira à tarde, alta, de uma vez, com uma dor de cabeça que ela descreveu como a pior da vida, dor no corpo inteiro e vômitos. Na quinta ela foi à unidade de pronto atendimento do bairro: a ficha diz síndrome febril aguda, suspeita de dengue, hemograma com plaquetas de 138 mil, hidratação, dipirona, retorno se piorar. Na sexta voltou com a mesma queixa e saiu com a mesma folha, agora com a observação "dengue sem sinais de alarme, orientada".

Hoje, quarto dia, o filho a encontrou sentada na beira da cama sem saber que dia era. A enfermagem da triagem mediu: pressão 94 por 58, frequência cardíaca 118, respiratória 24, temperatura 38,9 °C, saturação de 94% em ar ambiente. Classificação amarela, com a palavra "dengue" escrita a caneta no canto da ficha.

Você examina. Ela está orientada no nome e desorientada no tempo, sem rigidez de nuca. Há manchas avermelhadas de alguns milímetros nos tornozelos e nos punhos, que o filho jura que não estavam lá ontem de manhã; na planta dos pés elas já estão lá, e em volta dos tornozelos algumas não somem quando você aperta com a lâmina do abaixador. Os músculos dos braços e das coxas doem à palpação. O fígado é palpável dois dedos abaixo do rebordo. Não há sangramento de gengiva.

O primeiro resultado sai em vinte minutos: plaquetas de 61 mil, hemoglobina 11,2, leucócitos 9.800 com 12% de bastões. A creatinina chega logo depois, 1,8, e a AST está em 184.

Você pergunta o que o prontuário das duas vezes anteriores não perguntou. O filho responde sem hesitar: na chácara tem um bando de capivaras que dorme no gramado da beira da água, o cachorro da casa vive cheio de carrapato, e a mãe tira carrapatinho das pernas "toda semana, é normal lá". Na segunda-feira ela passou a tarde roçando o capim alto perto do píer. Ninguém mais da casa está doente.

A técnica de enfermagem pergunta se pode puncionar o segundo acesso e deixar o soro correndo "como na dengue". O plantonista da sala vermelha, que passa pelo corredor, olha a ficha e diz que com essas plaquetas e essa creatinina ele esperaria a sorologia para dengue e a tomografia de crânio antes de decidir qualquer coisa. A farmácia do hospital avisa, pelo telefone, que doxiciclina injetável não é item do estoque dela.

Em cima da maca, o filho segura a caixa de dipirona da quinta-feira e pergunta se a mãe está com dengue hemorrágica.

O exantema chegou no quarto dia; a confusão, as plaquetas, a creatinina e a pressão chegaram com ele. A pergunta desta noite não é o que o exame de dengue vai mostrar amanhã — é o que você prescreve antes de qualquer exame voltar, por qual via, com o medicamento que a farmácia diz não ter, e para quem você liga ainda hoje.

03

Quem adoece disso

As cinco doenças deste capítulo têm pouco em comum na biologia — uma riquétsia transmitida por carrapato, um bacilo que produz toxina na garganta, uma toxina que chega pronta no alimento, a larva de uma tênia no cérebro e uma bactéria que a pulga do gato leva para a unha dele. O que as junta é o modo como fazem mal a quem cuida delas: são raras o bastante para ninguém pensar nelas no primeiro atendimento e sérias o bastante para que esse esquecimento custe a vida, a via aérea ou uma sequela. Em três delas o tratamento que decide não pode esperar exame. Nas outras duas, o erro mais comum é o contrário — tratar demais, com o remédio errado ou na hora errada.

A febre maculosa entrou na notificação obrigatória ao Ministério da Saúde em 2001, e o Guia de Vigilância em Saúde, na edição revisada de 2024, reconhece duas formas no país. A febre maculosa brasileira, causada pela Rickettsia rickettsii, predomina no Sudeste e no norte do Paraná e é a que produz casos graves e óbitos; a forma causada pela Rickettsia parkeri, associada à Mata Atlântica no Sul, no Sudeste e em parte do Nordeste, é moderada, com escara no local da picada e sem letalidade descrita. O próprio Guia registra que a doença hoje é confirmada em todas as regiões, inclusive em áreas antes consideradas silenciosas — o que tira da mão do plantonista a desculpa de que "aqui não tem".

O ciclo explica quem adoece. Os carrapatos que transmitem a R. rickettsii no Brasil são o Amblyomma sculptum e o Amblyomma aureolatum; a capivara funciona como hospedeiro amplificador da riquétsia nas populações de A. sculptum, e equídeos, gambás e o próprio cão doméstico também participam. Na R. parkeri, pequenos roedores da mata amplificam, e o cão que entra e sai da mata leva o carrapato infectado para dentro de casa. Quem adoece é quem vive, trabalha ou passeia onde esses animais e esses carrapatos estão: caseiro de chácara, trabalhador de pasto e de manutenção de área verde, pescador de represa, quem faz trilha e quem mora perto de parque com capivara. A permanência do carrapato fixado necessária para transmitir a R. rickettsii é de seis a dez horas, podendo ser menor com o A. aureolatum, e na R. parkeri fica abaixo de oito horas — tempo curto o bastante para que muita gente não lembre da picada.

Há também um calendário. No ciclo do carrapato descrito no Guia, os adultos predominam de outubro a março, as larvas de abril a setembro, com pico de abril a julho, e as ninfas de junho a outubro. As formas imaturas são as mais difíceis de ver na pele, e é por isso que a pergunta certa não é "foi picada?", mas "esteve em pasto, capim alto, mata, beira de represa, em contato com capivara, cavalo ou cão que anda no mato, nos últimos quinze dias?". A letalidade da forma grave sem tratamento pode chegar a 80%, e o Guia chama a atenção para o motivo do atraso: na fase inicial, a febre maculosa brasileira é confundida com arboviroses, leptospirose, enteroviroses e viroses respiratórias.

A difteria é doença imunoprevenível, e o reservatório que mais importa não é o doente: é o portador assintomático, mais frequente na comunidade e capaz de eliminar o bacilo por seis meses ou mais. A transmissão é por gotículas de secreção respiratória, raramente por objetos, e o leite cru pode servir de veículo. A incubação é curta, de um a seis dias, e a transmissibilidade vai em média a duas semanas do início dos sintomas; o antibiótico adequado elimina o bacilo da orofaringe em 24 a 48 horas na maioria dos casos. Nem a doença nem a vacina dão imunidade permanente: são três doses com componente diftérico e reforço a cada dez anos, e o soro antidiftérico protege por cerca de duas semanas. A lista nacional em vigor, alterada em maio de 2026, passou a exigir a notificação imediata da difteria também ao Ministério da Saúde.

O botulismo é o mais raro dos cinco em números e o que mais depende de o sistema funcionar. Entre 2007 e 2021 o país notificou 435 casos suspeitos, média de 29 por ano, e só 95 (22%) foram confirmados em laboratório — segundo a nota técnica do Ministério de 2022, porque os demais não tiveram amostra ou tiveram coleta inoportuna. Os alimentos que o Guia associa à doença são as conservas vegetais artesanais (palmito, picles, pequi), produtos cárneos artesanais cozidos, curados ou defumados, a carne conservada em gordura, pescados defumados, salgados e fermentados, queijos e, raramente, enlatados industrializados. Um caso é tratado como surto e como emergência de saúde pública, porque quem comeu do mesmo pote pode estar a horas de começar a sentir. A toxina é termolábil — 80 °C por dez minutos a destroem —, e o soro que o SUS fornece é bivalente, contra os tipos A e B, guardado em cinco frascos por estado sob a coordenação estadual de imunização.

A neurocisticercose não aparece na lista nacional de notificação, não tem protocolo nem diretriz brasileira, e mesmo assim é uma das causas mais frequentes de crise epiléptica adquirida em regiões onde falta saneamento. A diretriz das sociedades norte-americanas de infectologia e medicina tropical, de 2017, situa a América Latina entre as regiões de alta endemicidade e estima que, nessas áreas, cerca de 29% das crises estejam ligadas à doença; cerca de 20% dos casos chegam com hipertensão intracraniana, sobretudo por hidrocefalia obstrutiva. O dado que muda a anamnese é o do ciclo: carne de porco malpassada dá a tênia adulta no intestino; a cisticercose começa quando a pessoa engole ovos que um portador de tênia elimina com as fezes — em geral alguém próximo, ou ela mesma —, e por isso acomete quem nunca comeu carne de porco. Entre a infecção e os sintomas podem passar meses ou décadas.

A doença da arranhadura do gato é a mais benigna das cinco. A Bartonella henselae é carregada pela pulga do gato e entra pela arranhadura, sobretudo de filhote; a doença afeta desproporcionalmente menores de 15 anos, mas ocorre em qualquer idade. Não é de notificação e não tem documento brasileiro próprio. O risco dela é outro: um gânglio grande e dolorido numa axila vira biópsia, drenagem ou suspeita de linfoma quando ninguém pergunta pelo gato, e, no imunossuprimido, uma infecção que costuma se resolver sozinha pode se disseminar.

04

Por que acontece o que acontece

Na febre maculosa, a Rickettsia é uma bactéria gram-negativa intracelular obrigatória que o carrapato inocula enquanto se alimenta, e o alvo dela é o endotélio. A lesão endotelial difusa é o mecanismo de quase tudo o que o Guia descreve: a permeabilidade vascular aumenta, a albumina escapa, aparecem edema, derrames cavitários, edema pulmonar e hipovolemia; a coagulação se desarranja, a pele e as mucosas sangram, os vasos pequenos se ocluem e os tecidos sofrem por falta de fluxo — daí a miocardite, a pneumonite, a lesão glomerular e tubular e a necrose de extremidades. O exantema é essa vasculite vista de fora. Começa maculopapular, de evolução centrípeta e com predomínio nos membros inferiores, e nos casos graves vira petequial e purpúrico, sinal de lesão endotelial mais extensa.

Esse mecanismo explica o relógio. O Guia registra que, depois do quinto dia, é comum aparecerem insuficiência renal oligúrica, insuficiência respiratória, alterações neurológicas, hemorragias, icterícia, arritmias e choque, e que, quando o antimicrobiano adequado começa nos primeiros cinco dias, a febre tende a desaparecer em 24 a 72 horas e a evolução tende a ser benigna. A leitura prática é desta apostila: o antibiótico interrompe a agressão da riquétsia, mas não devolve em horas o endotélio que já vazou, e cada dia de atraso troca uma doença que responde em três dias por uma disfunção de órgão que a doxiciclina já não reverte sozinha. É também por isso que o Guia amarra o sucesso a duas palavras — precocidade e especificidade: o betalactâmico de amplo espectro da sepse não é o antimicrobiano específico que ele exige.

Na difteria, o bacilo fica na mucosa e quem viaja é a toxina. O Corynebacterium diphtheriae só produz a toxina diftérica quando carrega o gene tox, adquirido de um bacteriófago; a cepa não toxigênica também forma placas, mas não dá toxemia nem complicações — e continua importando, porque espalha o bacilo. No local, a infecção forma a pseudomembrana branco-acinzentada, aderente e invasiva, que recobre as amígdalas e avança para pilares, úvula, palato e laringe. Arrancá-la não é diagnóstico nem tratamento: a remoção faz sangrar e acelera a absorção da toxina. Na laringe, a própria membrana obstrui a passagem do ar, e a asfixia é mecânica.

A toxina absorvida atinge o miocárdio e o sistema de condução, os nervos periféricos e o rim, e faz isso com atraso: a miocardite é a maior causa de óbito a partir da segunda semana, e a neurite aparece em geral entre a segunda e a sexta semana, às vezes meses depois, quando a garganta já sarou. O soro antidiftérico neutraliza a toxina que ainda circula e não tem ação sobre a toxina já fixada nos tecidos. Esse é o argumento inteiro para dá-lo diante de suspeita clínica bem fundamentada, sem esperar a cultura, e para que a dose dependa da extensão da doença e do tempo de evolução — não do peso. O antibiótico é auxiliar: mata o bacilo, interrompe a produção de toxina e a disseminação, mas não neutraliza a toxina que já saiu.

No botulismo, a toxina produzida pelo Clostridium botulinum — nos seres humanos, sobretudo os tipos A e B, e também E e F — age na membrana pré-sináptica da junção neuromuscular e das sinapses autonômicas e bloqueia a transmissão. Por isso a paralisia é flácida, simétrica e começa pelos nervos cranianos, com visão turva, diplopia, ptose, disartria e disfagia, descendo depois para o tronco, o diafragma e os membros; e por isso vêm junto a boca seca, o íleo, a retenção urinária e a hipotensão sem taquicardia. A consciência e, na maioria, a sensibilidade ficam preservadas, porque o sistema nervoso central não é atingido. A toxina que já se fixou não é removida por nenhum tratamento: a função volta com a formação de novas sinapses, e é esse o motivo de a ventilação durar de quatro semanas, no tipo B, a oito, no tipo A, e de a recuperação das formas graves levar de seis meses a um ano.

O mesmo mecanismo decide o soro e o antibiótico. O soro antibotulínico neutraliza a toxina circulante que ainda não se ligou ao nervo — daí o prazo de sete dias do início neurológico e a pressa. No botulismo por ferimento, a bactéria assume a forma vegetativa no tecido sem oxigênio e segue produzindo toxina enquanto o foco existir, e é exatamente essa a razão que a nota técnica de 2022 dá para excetuá-lo do prazo; no botulismo intestinal, os esporos germinam num intestino sem a microbiota que os contém — no lactente de 3 a 26 semanas, e no adulto operado do intestino, com acloridria, doença de Crohn ou antibiótico prolongado. O manual de 2006 acrescenta um detalhe de farmacologia que tem consequência na enfermaria: aminoglicosídeos e tetraciclinas podem piorar a evolução, porque reduzem a entrada de cálcio no neurônio e potencializam o bloqueio. No paciente intubado com pneumonia aspirativa, a gentamicina não é um detalhe.

Na neurocisticercose, o que adoece é a larva da Taenia solium alojada no sistema nervoso. Entre a infecção e o primeiro sintoma podem passar meses ou décadas, com o cisto viável quieto no parênquima; quando ele degenera — sozinho ou pela ação do antiparasitário —, a inflamação em volta aparece na imagem como lesão que realça ao contraste, com edema, e é com cisto viável ou em degeneração que a forma parenquimatosa costuma se apresentar, por crise ou por cefaleia. O cisto morto calcifica e deixa de conter parasito viável, mas a calcificação não é inerte: segundo a diretriz de 2017, episódios transitórios de edema em volta dela aparecem em 30 a 50% dos casos quando os sintomas começam, regridem sem tratamento em três a seis semanas e são provavelmente uma resposta imune a antígenos retidos. Fora do parênquima, o cisto no ventrículo obstrui a passagem do líquor, e o cisto no espaço subaracnóideo inflama as meninges e pode causar hidrocefalia comunicante, meningite ou infarto.

Esse ciclo explica a regra mais contraintuitiva do capítulo. O antiparasitário mata o cisto, e matar o cisto provoca exatamente a inflamação que faz o doente piorar: por isso o corticoide começa antes do albendazol, por isso não se dá antiparasitário a quem tem hidrocefalia não tratada ou edema cerebral difuso — a diretriz registra desfechos fatais, como herniação —, por isso a calcificação, que não tem parasito vivo, não recebe antiparasitário nenhum, e por isso o fundo de olho vem antes, porque um cisto intraocular tratado às cegas pode custar a visão. Na doença da arranhadura do gato, por fim, a Bartonella henselae entra pela pele arranhada e o gânglio que cresce é o que drena aquela região. No imunocompetente, a infecção costuma se limitar a isso e se resolver; no imunocomprometido, ela pode se disseminar, e o gênero Bartonella responde também por endocardite com hemocultura negativa e, no imunossuprimido, por angiomatose bacilar.

Ambiente com capim, capivaras e animais domésticos, ao lado de carrapato fixado na perna e máculas discretas.
A história de exposição a carrapatos e seus ambientes é fundamental na suspeita de febre maculosa. O carrapato pode passar despercebido, e o exantema pode surgir depois ou estar ausente. O contexto epidemiológico e o quadro clínico orientam a decisão; as manchas desenhadas são inespecíficas. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

As seções abaixo seguem a porta por onde cada doença costuma chegar: a febre com cefaleia no pronto-socorro, a garganta com placa, a fraqueza que começa nos olhos, a crise epiléptica do adulto e o gânglio no ambulatório. A última junta os disfarces, porque nas cinco o primeiro diagnóstico registrado costuma ser o de uma doença comum.

Fronteiras com os capítulos vizinhos: a febre sem foco no adulto e a pergunta da exposição na porta são do capítulo Febre sem foco no adulto, na apostila Síndromes do Paciente na Emergência, e este capítulo assume a febre maculosa a partir da suspeita — o carrapato, o exantema que chega tarde ou não chega, a sorologia pareada, a doxiciclina em qualquer idade e a notificação. A faringite e a placa que não é estreptocócica são do capítulo Faringoamigdalites e critérios de Centor, na apostila de Otorrinolaringologia; este capítulo assume a difteria a partir da suspeita — soro, antibiótico, isolamento, comunicantes e as complicações tardias. A crise epiléptica do adulto, a indicação de imagem na primeira crise e a escolha do antiepiléptico são do capítulo Crise epiléptica e estado de mal epiléptico no adulto, na apostila de Neurologia; este capítulo assume o que a neurocisticercose muda nessa conduta.

Percurso de aprendizagem

Leia um quadro por vez: carrapato e síndrome febril; membrana faríngea e risco de via aérea; pálpebra e paralisia flácida; cisto e apresentação correspondente; gato e lesão de inoculação.

Em cada unidade, repita o mesmo percurso: exposição, síndrome, gravidade, confirmação, tratamento e reavaliação. Essa repetição organiza doenças diferentes sem exigir memorização simultânea.

Aprofunde microbiologia, vigilância e apresentações especiais depois de reconhecer as situações de tratamento imediato, especialmente botulismo e doença com risco de via aérea.

Febre de início súbito, cefaleia forte e um lugar: a febre maculosa antes e depois da pele

A febre maculosa brasileira começa de uma vez. O quadro inicial descrito no Guia é febre habitualmente elevada e súbita, cefaleia holocraniana de forte intensidade, mialgia generalizada, artralgia, prostração, náuseas e vômitos — nenhum desses sinais aponta para a doença, e todos apontam para dengue. A incubação vai de dois a catorze dias, e a pergunta que separa as duas não está no exame físico dos primeiros dias: está na exposição a carrapato, a animais domésticos ou silvestres, ou a área de transmissão nos quinze dias anteriores, que é exatamente a janela da definição de caso suspeito.

Entre o segundo e o sexto dia, em geral, surge o exantema maculopapular, de evolução centrípeta e predomínio nos membros inferiores, acometendo palmas e plantas em 50% a 80% de quem tem exantema. Ele é o sinal clínico mais importante e é também o que mais atrasa o tratamento, por dois caminhos: pode não aparecer, e o Guia é explícito em que a ausência de exantema não exclui a hipótese; e, quando aparece, costuma aparecer junto com a gravidade, no dia em que a doxiciclina já deveria estar correndo havia dois ou três dias.

Sem tratamento, o doente evolui para torpor e confusão mental, com alterações psicomotoras, e chega ao coma; icterícia e convulsões aparecem na fase avançada. O exantema, que era maculopapular, vira petequial e purpúrico, as petéquias confluem em equimoses, e extremidades necrosam. Os marcadores de gravidade que o Guia associa ao óbito são esplenomegalia, hepatomegalia, icterícia, insuficiência renal e, sobretudo, alterações neurológicas — estupor, crise convulsiva, coma. A Malvina da cena tinha três deles no quarto dia.

Os exames inespecíficos ajudam a sustentar a suspeita e a medir a gravidade, nunca a descartá-la: anemia e plaquetopenia são comuns, os leucócitos podem desviar à esquerda, e creatinoquinase, desidrogenase lática, aminotransferases e bilirrubinas costumam subir. Plaqueta baixa com febre, portanto, não é assinatura de dengue — é achado das duas, e na febre maculosa pode chegar junto com a creatinina alta e a confusão que a Malvina trouxe no quarto dia.

A febre maculosa pela R. parkeri é outra doença na prática. É febril aguda autolimitada, leve ou moderada, sem manifestação grave ou letal descrita, e o que a identifica é a escara de inoculação: úlcera indolor de 0,5 a 2 cm, com centro crostoso e necrótico e halo avermelhado, no local da picada, com gânglio regional do mesmo lado, exantema macular, maculopapular ou maculovesicular sobretudo em tronco e membros, mal-estar, cefaleia e mialgias. Ela é notificada e tratada com o mesmo antibiótico, e a doxiciclina não espera a distinção entre as duas formas, que só o laboratório e a investigação do local provável de infecção fazem.

A placa acinzentada que sangra quando alguém tenta descolar: a difteria

A difteria se apresenta como uma infecção de garganta que não se comporta como as outras. O caso suspeito do Guia é qualquer pessoa, independentemente da idade e do estado vacinal, com quadro agudo de infecção da orofaringe, placas aderentes ocupando as amígdalas, com ou sem invasão de palato e úvula ou de outras localizações, febre moderada e comprometimento do estado geral. Três traços chamam atenção quando se olha com cuidado: o doente está prostrado e pálido; a dor de garganta é discreta, qualquer que seja a extensão das placas; e a febre raramente passa de 38,5 °C, embora temperatura mais alta não afaste o diagnóstico.

A pseudomembrana é branco-acinzentada ou amarelo-acinzentada, às vezes cinza-escura ou negra, espessa, de bordas bem definidas, e invade pilares, úvula, palato mole e retrofaringe, com aspecto necrótico. A forma faringoamigdaliana é a mais comum. A hipertóxica, ou maligna, já começa com comprometimento importante do estado geral, placas necróticas que ultrapassam as amígdalas e o pescoço taurino — aumento dos gânglios cervicais com edema periganglionar pouco doloroso. A nasal, mais frequente no lactente, dá secreção serossanguinolenta, em geral de um lado só, que escoria a narina e o lábio superior.

A forma laríngea é a que muda o plano da noite. Em geral parte da orofaringe e desce, com tosse, rouquidão, disfonia e dificuldade respiratória progressiva, podendo chegar à insuficiência respiratória aguda; raramente a laringe é acometida isoladamente, e aí o diagnóstico fica difícil. O Guia registra que é uma forma bastante comum no Brasil e que a asfixia mecânica pela placa muitas vezes exige traqueostomia imediata. Rouquidão e estridor num adulto com placa na garganta não são para observação na sala amarela.

A forma cutânea é uma úlcera arredondada, com exsudato fibrinopurulento e bordas bem demarcadas, profunda mas sem alcançar o subcutâneo, que absorve pouca toxina e por isso raramente tem repercussão sistêmica — e o portador dela é reservatório e disseminador do bacilo. Conjuntiva, conduto auditivo, vagina e pele de outras áreas são localizações raras.

As complicações chegam depois da garganta. A miocardite aparece a partir da segunda semana, com alteração de frequência e ritmo, bulhas hipofonéticas, hepatomegalia dolorosa, sopro e insuficiência cardíaca, e o eletrocardiograma mostra alteração de repolarização, extrassístoles, taquicardia ou bradicardia, bloqueio atrioventricular e corrente de lesão. A neurite, entre a segunda e a sexta semana, tem como apresentação mais característica a paralisia do véu palatino: voz anasalada, engasgo e alimento voltando pelo nariz, com risco de aspiração; pode haver paresia simétrica de membros com hiporreflexia, paralisia de músculos oculares e, tardiamente, paralisia do diafragma. Os fatores que o Guia associa ao mau prognóstico são mais de três dias de doença sem tratamento, edema periganglionar, manifestações hemorrágicas, placas extensas, miocardite precoce e insuficiência renal.

A pálpebra que cai, a voz que some e a fraqueza que desce: o botulismo

O botulismo alimentar se instala de forma súbita e progressiva, de duas horas a dez dias depois da ingestão, com média de 12 a 36 horas — e quanto maior a quantidade de toxina, mais curta a incubação e maior o risco de óbito. Náuseas, vômitos, diarreia e dor abdominal podem vir antes ou junto dos sinais neurológicos, que podem começar inespecíficos, com cefaleia, vertigem e tontura. Os sinais que definem o caso suspeito são visão turva, diplopia, ptose palpebral, boca seca, disartria, disfagia ou dispneia, numa paralisia flácida aguda, simétrica e descendente, com o nível de consciência preservado.

O exame físico tem assinatura. Não há febre, a menos que haja complicação infecciosa; a frequência cardíaca é normal ou baixa, e a hipotensão das formas graves vem sem taquicardia; há retenção urinária, íleo e distensão; a fraqueza dos membros é simétrica e costuma ser maior nos superiores. A consciência está preservada e, na maioria, a sensibilidade também. O doente enxerga duplo, fala arrastado, engasga com a própria saliva e responde a tudo com clareza — e é esse contraste que empurra o diagnóstico para o transtorno conversivo, que o Guia lista entre os diferenciais, antes de alguém olhar a via aérea.

O Guia lista os achados que, num adulto previamente normal, são argumento contra o botulismo: movimentos involuntários, rebaixamento do nível de consciência, ataxia, crises epilépticas, espasticidade, hiper-reflexia, clônus, sinal de Babinski ou liberação piramidal no membro fraco, assimetria importante de força e déficit sensitivo. A lista é útil nos dois sentidos: sem nenhum desses achados, a hipótese fica de pé e a notificação sai; com eles, procure outra doença.

O botulismo por ferimento tem incubação de 4 a 21 dias, média de 7, e quadro neurológico igual ao alimentar, sem os sintomas gastrointestinais; pode haver febre pela infecção secundária da ferida. As portas de entrada são úlceras crônicas com necrose, fissuras, esmagamento de membro, ferimentos profundos mal vascularizados, infecções dentárias, e agulha em quem usa droga injetável ou lesão nasal e sinusal em quem usa droga inalada. O Guia manda lembrá-lo sempre que não houver fonte alimentar, sobretudo em caso isolado, e procurar o foco oculto — mucosa nasal, seios da face, pequeno abscesso no local de injeção. Casos acidentais ligados ao uso terapêutico ou estético da toxina botulínica também estão descritos.

O botulismo intestinal do adulto é suspeitado quando a paralisia típica aparece sem fonte provável de toxina — nem alimento, nem ferimento, nem droga — em quem tem o intestino desprotegido: cirurgia intestinal, acloridria, doença de Crohn, antibiótico prolongado. O Guia descreve o botulismo intestinal com instalação progressiva em até duas semanas, duração de duas a seis e recuperação em três a quatro. No lactente, a forma intestinal começa por constipação e irritabilidade, segue com dificuldade de sustentar a cabeça, sucção e choro fracos, disfagia e hipoatividade, e pode progredir até o comprometimento respiratório; o Guia lista o mel entre os produtos em que os esporos são encontrados. O manejo do lactente é pediátrico e não é ensinado aqui.

O botulismo pode progredir por uma a duas semanas e ficar estável por mais duas a três antes de a recuperação começar. Desidratação e pneumonia aspirativa podem estar presentes já na chegada, antes de alguém ter pensado em botulismo.

A primeira crise depois dos 20 anos e a cefaleia que piora: a neurocisticercose

A forma parenquimatosa da neurocisticercose se apresenta tipicamente por crise epiléptica ou cefaleia. A crise pode ser focal, focal com generalização ou generalizada, e a diretriz de 2017 recomenda considerar a doença em todo paciente com crise que possa ter sido exposto a um portador de tênia. Na prática brasileira, isso significa perguntar por infância em área sem saneamento, criação de porco na família ou na vizinhança, alguém da casa que eliminou segmentos de tênia nas fezes, e consumo de carne de porco malpassada — porque o portador pode se autoinfectar.

A lesão única que realça ao contraste, com ou sem edema em volta, é a forma em degeneração que a diretriz trata como entidade própria, e a criança tende a apresentá-la mais do que o adulto. As lesões parenquimatosas são redondas e em geral medem de 5 a 20 mm; quando se vê o escólex, um nódulo de 1 a 2 mm dentro do cisto, o diagnóstico é certo. Lesão com componente cístico acima de 20 mm, bordas irregulares ou desvio da linha média é mais provável que tenha outra causa.

Cerca de 20% dos casos chegam com hipertensão intracraniana, sobretudo por hidrocefalia obstrutiva de cisto intraventricular. A forma subaracnóidea pode dar hidrocefalia comunicante, meningite, infarto cerebral e sinais focais, e formas mistas são comuns. A encefalite cisticercótica, que a diretriz descreve como edema cerebral difuso com resposta inflamatória já instalada, também é mais frequente em criança e chega com hipertensão intracraniana. Esses três quadros são os que proíbem o antiparasitário antes de a pressão intracraniana estar controlada.

A calcificação é a forma que se acha por acaso na tomografia de quem teve uma crise anos antes, e também a que convulsiona de novo sem cisto vivo: em 30 a 50% das vezes, quando os sintomas começam, há edema transitório em volta de uma calcificação, que regride sozinho em três a seis semanas e pode se repetir por décadas. Numa população urbana de Lima com crises e só calcificações, metade dos que tinham crise recorrente tinha edema perilesional.

Duas localizações pedem cuidado específico. O cisto intraocular, raro, pode ser tratado com antiparasitário sem ninguém saber que ele está lá, e a inflamação da morte do parasito pode cegar — daí o fundo de olho antes de qualquer albendazol. E a gestante com neurocisticercose, pela diretriz, adia o antiparasitário para depois do parto, a menos que haja hipertensão intracraniana, que se trata como em qualquer adulto.

O gânglio grande e dolorido de quem tem gato: a doença da arranhadura

A doença da arranhadura do gato típica é um gânglio regional que cresce na cadeia que drena a região arranhada — axila e epitroclear para a mão e o antebraço, cervical para a face e o couro cabeludo, inguinal para a perna — em alguém com contato com gato, sobretudo filhote. A página clínica do CDC, atualizada em 2026, diz que a maioria dos casos se diagnostica pela apresentação clínica com exposição compatível, sem teste laboratorial, e que a doença costuma ser autolimitada. A arranhadura em si, no dia em que acontece, é outra conversa: a decisão sobre profilaxia da raiva é do capítulo Raiva humana e profilaxia pós-exposição antirrábica (esquema de vacina e soro conforme animal e ferimento), e a do tétano, do capítulo Tétano: profilaxia em ferimentos, esquema vacinal e imunoglobulina, ambos nesta apostila; este capítulo começa quando, depois, aparece o gânglio.

O que tira o caso da forma típica é a gravidade ou a disseminação: retinite, peliose hepática, endocardite. O imunocomprometido é o doente em que a mesma infecção não se limita ao gânglio, e é nele que a angiomatose bacilar aparece. Na endocardite por Bartonella a hemocultura costuma ser negativa, e a valva retirada na cirurgia pode ser testada — a endocardite com cultura negativa, com os critérios e o tratamento, é do capítulo Endocardite infecciosa: critérios de Duke e profilaxia, na apostila de Cardiologia.

O que tira o caso da doença da arranhadura é a falta de coerência: gânglio sem nenhum contato com gato, endurecido, indolor e aderido, gânglio supraclavicular, gânglios em várias cadeias, perda de peso, sudorese noturna, febre prolongada ou baço palpável. A axila sem achado de mama, a virilha, o epitroclear e a linfonodomegalia generalizada no adulto sem imunossupressão conhecida, com os sinais de alarme e o primeiro exame, são do capítulo Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS, na apostila de Oncologia; este capítulo assume só o gânglio regional com exposição a gato e a decisão de tratar ou observar.

Os disfarces: com que doença comum cada uma é confundida

A febre maculosa, nos primeiros dias, passa por dengue, Zika, chikungunya, leptospirose, enterovirose e virose respiratória, e o Guia acrescenta hepatite viral, salmonelose, meningoencefalite, malária e pneumonia por Mycoplasma. Com o exantema, os diferenciais passam a ser meningococcemia, sepse por estafilococo e por gram-negativos, viroses exantemáticas, outras riquetsioses, erliquiose, borrelioses, febre purpúrica brasileira, farmacodermia e doenças reumatológicas como o lúpus. O manejo da dengue é do capítulo Dengue, Zika e Chikungunya: manejo e sinais de alarme, e o da leptospirose, do capítulo Leptospirose e febre amarela, ambos nesta apostila; o que este capítulo pede é que a doxiciclina não espere nenhum deles ser descartado.

A difteria amigdaliana ou faríngea se confunde com amigdalite estreptocócica, angina monocítica, angina de Plaut-Vincent e agranulocitose; a laríngea, com crupe viral, laringite estridulosa, epiglotite e corpo estranho; a nasal, com rinite estreptocócica, rinite sifilítica e corpo estranho; a cutânea, com impetigo, ectima, eczema e úlceras. O erro típico é o antibiótico da amigdalite dado na unidade básica sem olhar a placa — que atrasa o soro e, colhida a cultura depois, ainda compromete o diagnóstico.

O botulismo se confunde com a síndrome de Guillain-Barré, sua variante de Miller Fisher e a miastenia gravis, e também com doença de Lyme, neuropatia diftérica, neuropatias tóxicas alimentares, metais pesados e solventes, meningoencefalites, acidente vascular cerebral, traumatismo craniano, transtorno conversivo, hipopotassemia e intoxicações por atropina, beladona, metanol, monóxido de carbono, fenotiazínicos e curare. A diferença que o Guia põe em primeiro lugar é a direção: o Guillain-Barré sobe, o botulismo desce. As polineuropatias e o Guillain-Barré são do capítulo Polineuropatias e síndrome de Guillain-Barré, e a miastenia, do capítulo Esclerose múltipla e miastenia gravis, ambos na apostila de Neurologia.

A neurocisticercose se confunde, na imagem, com tuberculoma, abscesso cerebral, outras parasitoses, metástase, tumor primário, linfoma e histiocitose — e é por isso que a diretriz manda procurar, na história e no exame, sinais de tuberculose ou de neoplasia antes de fechar o diagnóstico. A doença da arranhadura do gato se confunde com linfoma, tuberculose ganglionar e abscesso; o erro mais caro é drenar ou biopsiar o gânglio de quem tem um filhote em casa sem ter feito a pergunta.

06

Como fechar o diagnóstico

Nas três doenças agudas deste capítulo, a investigação tem uma regra de ordem que vale mais do que qualquer exame: o que se colhe precisa ser colhido antes do que se dá, e o que se dá não pode esperar o resultado do que se colheu. Na febre maculosa, a sorologia pode ser colhida a qualquer momento e não atrasa a doxiciclina. Na difteria, o swab vai antes do antibiótico, mas o soro não espera a cultura. No botulismo, o sangue, as fezes e o lavado vão antes do soro antibotulínico — e o soro precisa chegar em dias, não em semanas.

Nas duas doenças de ambulatório a lógica se inverte: na neurocisticercose, a imagem decide o tratamento, e tratar antes de classificar pode matar; na doença da arranhadura do gato, a forma típica não precisa de exame nenhum, e o exame pedido sem necessidade costuma confundir mais do que esclarecer.

Febre maculosa: a sorologia confirma semanas depois, e o que se colhe na primeira hora

O exame que confirma a febre maculosa é a reação de imunofluorescência indireta para riquétsias do grupo febre maculosa, e ele confirma por comparação, não por uma amostra. Os anticorpos em geral só aparecem entre o sétimo e o décimo dia. A primeira amostra de soro é colhida na fase aguda, no primeiro atendimento; a segunda, de 14 a 21 dias depois. Confirma o caso a soroconversão da IgG — primeira amostra não reagente e segunda com título de 128 ou mais — ou o aumento de, no mínimo, quatro vezes no título entre as duas. A IgM tem reação cruzada com dengue, leptospirose e outras doenças e deve ser lida com critério; a IgG é a mais específica.

Uma amostra única não reagente no terceiro dia de doença não descarta nada: os anticorpos ainda não subiram. E o próprio tratamento precoce pode retardar a subida — por isso o Guia recomenda fortemente uma terceira amostra, 14 dias depois da segunda, quando o quadro é compatível e as duas primeiras não fecharam, sobretudo em quem recebeu doxiciclina cedo. Quem tratou bem e não colheu a segunda amostra deixou o caso sem confirmação; a alta, portanto, sai com a data da segunda coleta escrita.

Em quem está grave, ou quando a janela da sorologia não serve, há dois caminhos mais rápidos. A imuno-histoquímica em fragmento de pele de lesão vasculítica é, segundo o Guia, o método mais sensível para confirmar na fase inicial, e serve também em material de necrópsia. A PCR em sangue, em coágulo ou em tecido identifica o grupo de riquétsia, mas não tem padrão único, e a sensibilidade varia entre os testes. As amostras para isolamento e para PCR se colhem de preferência antes do antibiótico; a sorologia pode ser colhida a qualquer tempo. Tudo segue para o Laboratório Central de Saúde Pública identificado e acompanhado da Ficha de Investigação da Febre Maculosa preenchida — sem ela, a amostra chega sem história.

A bateria da primeira hora não é para confirmar a riquétsia, é para medir o estrago: hemograma com plaquetas, creatinina e ureia, eletrólitos, aminotransferases, bilirrubinas, creatinoquinase e desidrogenase lática, com os exames que a gravidade pedir. Se a hipótese de sepse bacteriana ou de meningococcemia estiver de pé — e com exantema purpúrico ela está —, as hemoculturas vão no mesmo acesso, antes do antibiótico que cobre essas hipóteses, sem que nada disso atrase a doxiciclina. A investigação de dengue e de leptospirose pode ser colhida junto; o resultado dela não muda a primeira dose.

Se o carrapato foi retirado e guardado, ele também é material. O Guia manda acondicioná-lo em frasco e encaminhá-lo ao laboratório de referência para carrapatos, o que ajuda a identificar o vetor e o local provável de infecção. Arrancado com os dedos e esmagado, ele não serve a ninguém — e ainda pode contaminar a pele lesada de quem esmagou.

Difteria: dois swabs antes do antibiótico, sem arrancar a placa, e o eletrocardiograma da chegada

O diagnóstico laboratorial da difteria é a cultura com isolamento e identificação do Corynebacterium diphtheriae, o padrão-ouro do Guia, e confirma o caso mesmo sem prova de toxigenicidade. A coleta é feita no hospital, na suspeita, de preferência antes do antimicrobiano — e, se o antibiótico já foi dado, colhe-se do mesmo jeito, porque a coleta deve sempre ser feita. Não se esperam os resultados para desencadear as medidas de controle nem o tratamento.

O Guia descreve dois swabs estéreis, finos e de haste flexível, e dois tubos de meio de transporte, um para o nariz e outro para a garganta. O primeiro swab vai por uma narina até a nasofaringe, é girado, e repete o trajeto na outra narina. O segundo passa pela superfície da garganta, pelas amígdalas e pela úvula; se houver pseudomembrana, passa cautelosamente em volta dela, sem removê-la, porque a remoção aumenta a absorção de toxina. Lesão de pele que não cicatriza recebe cultura separada. O material é semeado de imediato no meio de transporte e segue ao laboratório em temperatura ambiente; se não puder seguir, fica em estufa a 37 °C por até 24 horas. Quem colhe usa máscara, no caso e nos comunicantes.

O Laboratório de Referência Nacional, no Instituto Adolfo Lutz, dispõe de PCR para o gene da toxina e o gene regulador da sua produção, e a PCR feita ali também confirma o caso. Cem por cento das cepas isoladas devem ir para a referência nacional — é um dos objetivos declarados da vigilância, para estudo molecular e de resistência. Na prática do plantão, isso quer dizer uma coisa: o swab não é exame de laboratório de hospital, e quem o colhe precisa falar com a vigilância antes de guardar o tubo numa gaveta.

O eletrocardiograma entra na primeira hora, não na segunda semana. A miocardite é a complicação que mais mata a partir da segunda semana, e o traçado de chegada é o parâmetro contra o qual se lerão a alteração de repolarização, as extrassístoles, a bradicardia e o bloqueio atrioventricular que podem aparecer depois. Pesquise albuminúria e acompanhe a função renal, porque a nefropatia tóxica acompanha as formas graves, sobretudo quando há miocardite.

Nos comunicantes, a investigação é a mesma coleta de naso e orofaringe para cultura, e também da lesão de pele que não cicatriza, com a verificação da situação vacinal pela caderneta. Os que precisam ser priorizados quando não é possível colher de todos são os que têm contato com crianças, os imunocomprometidos, os manipuladores de alimentos e os não vacinados, vacinados de forma incompleta ou com estado vacinal desconhecido.

Botulismo: soro, fezes e lavado antes do soro antibotulínico, e a capacidade vital à beira do leito

A investigação do botulismo começa pela anamnese, e a anamnese é a primeira medida de controle do surto. Pergunte o que a pessoa comeu nos últimos três dias e, se possível, nos últimos dez; quanto tempo passou entre o alimento e o primeiro sintoma; quem mais comeu do mesmo alimento e se alguém mais está com sintomas parecidos; e se há ferimento, uso de droga injetável ou inalada, aplicação recente de toxina botulínica, infecção viral, imunização, picada de inseto, viagem ou exposição a agente tóxico. O exame neurológico precisa registrar nível de consciência, força nos membros, musculatura ocular, facial e bulbar, movimentos da língua e do palato, reflexos profundos, sensibilidade, sinais autonômicos, acuidade visual e audição.

As amostras clínicas — soro, fezes ou conteúdo intestinal e lavado gástrico ou vômito — têm de ser colhidas o mais cedo possível e sempre antes do soro antibotulínico, porque o soro neutraliza a toxina e a pesquisa passa a dar negativo. O manual de 2006 pede sangue sem anticoagulante suficiente para cerca de 11 mL de soro, separado nas primeiras duas horas e refrigerado; depois de oito dias do início da doença a toxina não é mais encontrada. Pergunte ao laboratório do hospital se sobrou soro dos exames de rotina colhidos na chegada: esse tubo, colhido antes de tudo, pode ser a amostra que confirma o caso.

Fezes e lavado gástrico, no mínimo 15 g ou 15 mL, servem para a toxina e para a bactéria e não precisam de anaerobiose. Com diarreia, colha imediatamente, porque a toxina sai rápido pelas fezes — o prazo é de três dias; com constipação, o lavado intestinal com soro fisiológico ainda serve até seis dias. No botulismo por ferimento, o exsudato é colhido na parte mais profunda da ferida, em meio com substância redutora ou, na falta dele, em tubo vedado que chegue ao laboratório em até 30 minutos — ali a bactéria está na forma vegetativa e o ar a inativa.

O alimento é amostra tão importante quanto o doente. Recolha todas as sobras do que foi efetivamente consumido, no próprio recipiente, sem transferir para outro pote, mesmo que esteja sujo ou quebrado; sem sobra, o recipiente vazio; sem nada, outra unidade do mesmo lote ou feita no mesmo dia e lugar pela mesma pessoa. Resultado positivo numa unidade do lote indica que outras podem estar contaminadas; resultado negativo não inocenta a unidade que o doente comeu, porque a toxina não se distribui por igual.

A eletroneuromiografia demonstra o comprometimento da junção neuromuscular na membrana pré-sináptica e ajuda a separar o botulismo de outras paralisias flácidas; o critério clínico-epidemiológico do Guia a aceita como apoio. Nenhum desses exames, porém, decide a intubação. O que decide é a beira do leito: a mobilidade da língua e do palato, a disfonia, a disfagia, a capacidade de proteger a via aérea e a capacidade vital medida com espirômetro, com indicação de intubação em geral abaixo de 12 mL/kg — sem esperar o gás carbônico subir ou a saturação cair.

Neurocisticercose: a tomografia que acha a calcificação, a ressonância que classifica e o fundo de olho antes do albendazol

Todo paciente com suspeita de neurocisticercose faz neuroimagem, e a diretriz recomenda as duas para classificar o caso novo: ressonância de crânio e tomografia sem contraste. Elas não se substituem. A tomografia é mais sensível para calcificação; a ressonância é mais sensível para escólex, edema, lesões pequenas, lesões de fossa posterior e acometimento do espaço subaracnóideo e dos ventrículos, e a sequência FLAIR é a que mostra o edema e o escólex. No paciente com hidrocefalia e suspeita de cisto fora do parênquima, a recomendação é ressonância com sequência volumétrica tridimensional, que é a que a diretriz indica para identificar o cisto intraventricular e o subaracnóideo.

A imagem é o que separa as formas que se tratam de modos opostos: cisto viável, com ou sem escólex; lesão em degeneração, que realça ao contraste; calcificação; cisto intraventricular; cisto subaracnóideo; e a presença ou ausência de hidrocefalia e de edema difuso. Tratar sem essa classificação é o erro que a diretriz mais tenta impedir, porque a mesma droga que cura o cisto viável mata o doente com hidrocefalia não tratada.

A sorologia confirmatória recomendada é o immunoblot (EITB); o ensaio imunoenzimático com antígeno bruto deve ser evitado, pela sensibilidade e especificidade ruins. A sorologia costuma ser negativa em quem só tem calcificação. Antes de fechar o diagnóstico, a história e o exame precisam procurar o que imita a doença na imagem: febre, suor noturno e perda de peso sugerem tuberculose; gânglio regional sugere tuberculose ou neoplasia.

Antes da primeira dose de antiparasitário, três providências. O fundo de olho, em todos, com recomendação forte, para excluir cisto intraocular — a ultrassonografia ocular é alternativa. Se o corticoide for prolongado, rastreio de infecção latente por tuberculose e rastreio ou tratamento empírico para Strongyloides stercoralis, por causa do risco de infecção oportunista. E o hemograma e as enzimas hepáticas de base, porque o albendazol usado por mais de 14 dias exige vigilância de hepatotoxicidade e de leucopenia.

A pesquisa do portador da tênia na casa tem rendimento baixo — o exame de fezes é o único disponível, é frequentemente negativo mesmo repetido e não distingue a Taenia solium das outras espécies —, e a diretriz a sugere sobretudo quando a infecção parece ter sido adquirida fora de área endêmica, como questão de saúde pública. O tratamento da tênia adulta no intestino do portador não tem capítulo neste nível: o capítulo Esquistossomose e geo-helmintíases (parasitoses intestinais no adulto), nesta apostila, não o inclui, e este capítulo assume só a pergunta pelo portador e o aviso à unidade básica da família.

Doença da arranhadura do gato: quando nenhum exame é necessário, e o exame que engana

Na forma típica — gânglio regional doloroso em quem teve contato com gato, sem sinal de gravidade e sem imunossupressão —, a página clínica do CDC diz que o teste laboratorial para Bartonella henselae em geral não é necessário. O diagnóstico é clínico, e o exame que mais ajuda é o físico: medir o gânglio, desenhar a cadeia, procurar a arranhadura ou o que restou dela na região que o gânglio drena, palpar as outras cadeias, o fígado e o baço, e registrar temperatura e peso para comparar no retorno.

O teste entra quando a apresentação é grave ou atípica, e aí é preciso saber o que cada um entrega. A sorologia apoia o diagnóstico, mas cruza com outras espécies de Bartonella, não distingue as espécies com segurança e continua positiva por anos depois do tratamento — um resultado reagente, portanto, não data a infecção. A cultura é lenta e precisa ficar incubada por no mínimo 21 dias. O teste molecular detecta o DNA da bactéria em tecido de gânglio de modo mais confiável do que no sangue.

Na suspeita de doença disseminada, a investigação se amplia pelo órgão: o olho, o fígado, o coração. Na endocardite, a hemocultura costuma ser negativa, e a valva retirada pode ser testada; a investigação da endocardite com cultura negativa é do capítulo Endocardite infecciosa: critérios de Duke e profilaxia. Doença disseminada ou gânglio que não se comporta como o esperado num adulto sem imunossupressão conhecida pede também a pergunta pela imunossupressão que ninguém conhece — a infecção pelo HIV entre elas.

O que não se faz na forma típica é biopsiar ou drenar o gânglio como primeiro passo. O gânglio que foge da forma típica — sem gato, endurecido e aderido, supraclavicular, generalizado, com sintomas constitucionais ou com baço palpável — segue o fluxo do capítulo Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS, que decide o primeiro exame e o encaminhamento.

Quem avisar, em quanto tempo, e o que acompanha a amostra

Botulismo, difteria e febre maculosa estão na Lista Nacional de Notificação Compulsória com notificação imediata — em até 24 horas — ao Ministério da Saúde, à secretaria estadual e à secretaria municipal, pela portaria em vigor desde maio de 2026. A notificação é da suspeita: nenhum dos três espera confirmação, e em nenhum dos três a notificação é burocracia de fim de plantão. Na febre maculosa, ela dispara a investigação do local provável de infecção e a busca de outros expostos; na difteria, a investigação dos comunicantes; no botulismo, a liberação do soro e a busca de quem comeu do mesmo alimento.

O botulismo tem um canal próprio. A nota técnica de 2022 manda notificar todo caso suspeito ao Ministério da Saúde imediatamente, pelo meio mais rápido, por qualquer profissional da rede pública ou privada; em fim de semana, feriado ou fora do horário comercial, a comunicação vai também ao CIEVS estadual, que aciona o CIEVS nacional pelo Disque Notifica, 0800-644-6645. A liberação do soro depende da ficha de investigação preenchida, da prescrição e de um relatório clínico sucinto assinados e carimbados pelo médico.

Neurocisticercose e doença da arranhadura do gato não constam da lista nacional. As fichas do Sinan de febre maculosa, difteria e botulismo são fichas de investigação, e a da febre maculosa acompanha a amostra ao laboratório central. Os três casos são encerrados no sistema em até 60 dias da notificação — o que só acontece com a segunda sorologia colhida, a cultura processada e a amostra do alimento analisada. Vigilância, investigação de surto e notificação em geral são do capítulo Vigilância epidemiológica e investigação de surto: definição de caso, curva epidêmica e medidas de controle, na apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva; este capítulo assume o que cada uma dessas três doenças exige de quem atende.

07

O que não espera o exame, quanto cabe em cada frasco, e o que a imagem proíbe

Use os cinco quadros como exercícios de reconhecimento de síndromes. O objetivo inicial é identificar uma exposição ou um sinal que mude a urgência e escolher a primeira ação, antes de aprofundar confirmação e esquemas de cada doença. Quatro tabelas, com eixos próprios, respondem às perguntas que as fontes deixam espalhadas. A primeira junta, para as cinco doenças, o gatilho da suspeita, o que se faz antes de qualquer resultado, o que se colhe antes do que se dá e o prazo de notificação. A segunda refaz, num adulto de 70 kg, as contas de comprimido, frasco e mililitro contra as apresentações da Rename 2024 — e mostra onde a dose escrita não cabe no que o SUS tem. A terceira organiza a neurocisticercose pela forma na imagem, que é o que decide a droga. A quarta separa o caso de difteria dos comunicantes. Nas notas ficam, com a conta feita, os defeitos de fonte oficial capazes de mudar a conduta do aluno.

  1. 1Febre de início súbito com cefaleia forte e mialgia, e exposição a carrapato, capim alto, mata, capivara, cavalo ou cão que anda no mato nos últimos quinze dias: caso suspeito de febre maculosa, com ou sem exantema. Doxiciclina agora, notificação hoje, sorologia de fase aguda colhida sem atrasar a dose.
  2. 2Febre maculosa com confusão, hipotensão, sangramento, oligúria, insuficiência respiratória ou exantema purpúrico: doxiciclina por via venosa, suporte de sepse e leito de terapia intensiva; a doxiciclina injetável vem do Componente Estratégico, e o cloranfenicol venoso não existe no elenco do SUS.
  3. 3Placa aderente que passa das amígdalas numa garganta que dói pouco, com febre moderada e doente prostrado: é caso suspeito de difteria. Isolamento respiratório, dois swabs antes do antibiótico sem remover a placa, soro antidiftérico pela forma clínica sem esperar a cultura, antibiótico por 14 dias, eletrocardiograma e notificação imediata.
  4. 4Rouquidão, estridor ou desconforto respiratório progressivo com placa na garganta: a via aérea vem antes de qualquer outra decisão, e o Guia registra que a obstrução alta estabelecida pede traqueostomia sem demora.
  5. 5Paralisia flácida aguda, simétrica e descendente, com consciência preservada e visão turva, diplopia, ptose, boca seca, disartria, disfagia ou dispneia: caso suspeito de botulismo. Terapia intensiva, capacidade vital e avaliação bulbar, notificação imediata, sangue, fezes e lavado colhidos antes do soro, e pedido do soro antibotulínico pela vigilância.
  6. 6Botulismo com disfagia, regurgitação nasal, língua ou palato sem movimento, disfonia ou capacidade vital abaixo de 12 mL/kg: intubação, sem esperar gás carbônico alto nem saturação baixa.
  7. 7Crise epiléptica ou hipertensão intracraniana com lesão cística, lesão que realça ou calcificação compatíveis com neurocisticercose: classifique pela ressonância e pela tomografia antes de qualquer antiparasitário. Hidrocefalia não tratada ou edema difuso: trate a pressão intracraniana, sem antiparasitário. Calcificação isolada: sem antiparasitário.
  8. 8Neurocisticercose com indicação de antiparasitário: fundo de olho antes, corticoide começado antes do albendazol, antiepiléptico em quem convulsiona; mais de dois cistos viáveis, albendazol com praziquantel; gestante, adiar o antiparasitário para depois do parto.
  9. 9Gânglio regional doloroso em quem teve contato com gato, sem sinal de gravidade e sem imunossupressão: diagnóstico clínico, sem biópsia; azitromicina por cinco dias oferecida como decisão compartilhada. Imunocomprometido, doença grave ou disseminada: antibiótico obrigatório e infectologista.
  10. 10Gânglio sem exposição a gato, endurecido e aderido, supraclavicular, generalizado, com sintomas constitucionais ou baço palpável: não é doença da arranhadura até prova em contrário, e segue o fluxo de sinais de alarme de neoplasia.
SuspeitaO que se faz antes de qualquer resultadoO que se colhe, e antes de quêNotificação
Febre maculosa: febre súbita, cefaleia e mialgia com exposição a carrapato ou área de transmissão em 15 dias, com ou sem exantemaDoxiciclina 100 mg de 12/12 h, oral ou venosa conforme a gravidade, em qualquer idade; suporte da disfunção de órgãoSorologia de fase aguda a qualquer momento, sem atrasar a dose; hemoculturas se sepse ou meningococcemia estiverem na hipótese; segunda sorologia marcada para 14 a 21 diasImediata, em até 24 h, na suspeita, às três esferas; ficha de investigação acompanha a amostra
Difteria: placa aderente que invade além das amígdalas, febre moderada, estado geral comprometidoIsolamento respiratório; soro antidiftérico pela forma clínica, venoso, em serviço preparado para anafilaxia; antibiótico por 14 dias; via aéreaSwab de nasofaringe e de orofaringe, e da lesão de pele, antes do antibiótico e sem remover a placa; eletrocardiograma de chegadaImediata, em até 24 h, na suspeita, às três esferas; investigação dos comunicantes
Botulismo: paralisia flácida aguda, simétrica e descendente, consciência preservada, sinais de nervos cranianosTerapia intensiva; avaliação bulbar e capacidade vital; intubação por critério clínico; pedido do soro antibotulínico pela vigilânciaSoro, fezes ou conteúdo intestinal e lavado gástrico antes do soro antibotulínico; sobras do alimento no recipiente original; exsudato profundo do ferimentoImediata ao Ministério da Saúde, em até 24 h; fora do horário comercial, também ao CIEVS estadual
Neurocisticercose: crise ou hipertensão intracraniana com lesão compatível em quem pode ter convivido com portador de têniaControle da crise e da pressão intracraniana; nenhum antiparasitário antes de classificar a formaTomografia sem contraste e ressonância; fundo de olho antes do antiparasitário; rastreio de tuberculose latente e de Strongyloides se o corticoide for prolongadoNão consta da lista nacional
Doença da arranhadura do gato: gânglio regional doloroso após contato com gatoNa forma típica, nada que não possa esperar o retorno; no imunocomprometido ou na forma grave, antibióticoNa forma típica, nenhum exame; na grave ou atípica, teste molecular em tecido de gânglio, sorologia lida com cautela e investigação pelo órgãoNão consta da lista nacional

Conversão num adulto de 70 kg, contra as apresentações da Rename 2024

Fármaco e indicaçãoDose da fonteApresentação no SUSO que isso dá num adulto de 70 kg
Doxiciclina, febre maculosa100 mg de 12/12 h, oral ou venosa, até 3 dias após o fim da febre (rotina de 7 dias)Comprimido e comprimido solúvel de 100 mg; pó para solução injetável de 100 mg — Componente Estratégico1 comprimido ou 1 frasco por dose; 14 unidades em 7 dias
Cloranfenicol, febre maculosa, quando a doxiciclina não for possível500 mg de 6/6 h por via oral, até 3 dias após o fim da febre; no grave, 1 g venoso de 6/6 hCápsula e comprimido de 250 mg (Básico); suspensão oral de 25 mg/mL (Estratégico); sem apresentação injetável2 cápsulas ou 20 mL da suspensão por dose, 8 cápsulas ou 80 mL por dia; o esquema venoso do grave não tem produto no elenco
Soro antidiftéricoLeve 20.000 a 40.000 UI; laringoamigdaliana ou mista 40.000 a 60.000 UI; grave ou tardia 80.000 a 100.000 UI; venoso, dose única, sem relação com o peso1.000 UI/mL na Rename; o manual de vacinação registra frascos de 10 mL com 5.000, 10.000 ou 20.000 UI, conforme o fabricante100.000 UI são 5, 10 ou 20 frascos, conforme o lote; prescreva sempre em UI, nunca em mililitro nem em número de frascos
Eritromicina, tratamento da difteria40 a 50 mg/kg/dia por via oral, dose máxima de 2 g/dia, por 14 diasEstolato de eritromicina, comprimido de 500 mgA conta por peso dá 2.800 a 3.500 mg; vale o teto, 500 mg de 6/6 h, 56 comprimidos em 14 dias — o teto governa a partir de 40 a 50 kg
Penicilina G cristalina, tratamento da difteria100.000 a 150.000 UI/kg/dia, venosa, de 6/6 h, por 14 dias (pode passar à procaína ao melhorar)Benzilpenicilina potássica, frasco de 5.000.000 UI7.000.000 a 10.500.000 UI/dia: 1.750.000 a 2.625.000 UI por dose, 1,4 a 2,1 frascos por dia
Quimioprofilaxia do comunicante adulto de difteriaEritromicina 500 mg de 6/6 h por 7 dias; ou azitromicina 500 mg/dia por 5 dias; ou penicilina G benzatina 1.200.000 UI IM, dose únicaEritromicina 500 mg; azitromicina 500 mg; benzilpenicilina benzatina 1.200.000 UI28 comprimidos de eritromicina; 5 comprimidos de azitromicina; 1 frasco de benzatina
Soro antibotulínico AB bivalenteUma ampola, venosa, diluída em soro fisiológico a 0,9% na proporção de 1:10, em cerca de uma horaFrasco-ampola de 20 mL com 7.500 UI antitoxina A e 5.500 UI antitoxina B (375 e 275 UI/mL) — Componente Estratégico, estoque estadual1 frasco de 20 mL em 200 mL de soro fisiológico, cerca de 220 mL em uma hora
Hidrocortisona antes do soro antibotulínico10 mg/kg venosa, máximo de 1 g, 10 a 15 minutos antesSuccinato sódico de hidrocortisona, frascos de 100 e 500 mg (Básico)700 mg: 1 frasco de 500 mg e 2 de 100 mg; o teto de 1 g só governa acima de 100 kg
Penicilina G cristalina, botulismo por ferimento10 a 20 milhões UI/dia, venosa, de 4/4 h, por 7 a 10 diasBenzilpenicilina potássica, frasco de 5.000.000 UI; metronidazol, a alternativa do manual, não tem apresentação injetável no elenco1.666.667 a 3.333.333 UI por dose, 2 a 4 frascos por dia
Albendazol, neurocisticercose com indicação15 mg/kg/dia em duas tomadas com alimento, máximo de 1.200 mg/dia, por 10 a 14 dias (1 a 2 semanas na lesão única)Comprimido mastigável de 400 mg (Básico e Estratégico); suspensão oral de 40 mg/mL (Básico)1.050 mg/dia, 525 mg por dose: o comprimido de 400 mg não fecha a conta (1,3 comprimido por dose); 13,1 mL da suspensão por dose
Praziquantel, junto do albendazol, acima de dois cistos viáveis50 mg/kg/dia por 10 a 14 diasComprimido de 600 mg — Componente Estratégico3.500 mg/dia, 5,8 comprimidos; 6 comprimidos dão 3.600 mg, 51,4 mg/kg/dia
Azitromicina, doença da arranhadura do gatoAcima de 45 kg, 500 mg no primeiro dia e 250 mg por mais 4 dias; abaixo de 45 kg, 10 mg/kg e depois 5 mg/kgComprimidos de 250 e 500 mg; suspensão de 40 mg/mL1 comprimido de 500 mg e 4 de 250 mg, 1.500 mg no total

Neurocisticercose: a forma na imagem decide a droga

FormaAntiparasitárioCorticoideAntiepiléptico, cirurgia e seguimento
Hidrocefalia não tratada ou edema cerebral difuso (encefalite cisticercótica)Não — tratar só a hipertensão intracraniana; o antiparasitário pode precipitar herniaçãoSim no edema difuso; na hipertensão intracraniana, dose não padronizada (a diretriz cita dexametasona 0,2 mg/kg/dia)Hidrocefalia costuma pedir cirurgia; antiepiléptico se houver crise
Um ou dois cistos parenquimatosos viáveisAlbendazol 15 mg/kg/dia, máximo 1.200 mg/dia, por 10 a 14 diasSim, começado antes do antiparasitárioAntiepiléptico em quem convulsiona; ressonância a cada 6 meses até resolver; cisto persistente aos 6 meses, retratar
Mais de dois cistos parenquimatosos viáveisAlbendazol 15 mg/kg/dia com praziquantel 50 mg/kg/dia por 10 a 14 diasSim, começado antesComo acima; sem monitorização extra pela associação além da do albendazol
Lesão única que realça ao contrasteAlbendazol 15 mg/kg/dia em duas tomadas por 1 a 2 semanas (recomendação fraca)Sim, começado antes (recomendação forte)Antiepiléptico em todos com crise; retirar após 6 meses sem crise e lesão resolvida, se não houver calcificação ou cisto residual, crise de escape ou mais de duas crises
Calcificação, com ou sem edema perilesionalNãoNão de rotina no edema perilesional isoladoTratamento sintomático; ressonância se houver crise ou hidrocefalia com só calcificação na tomografia; epilepsia refratária, avaliar cirurgia do foco
Cisto intraventricular (terceiro ventrículo e laterais; quarto ventrículo)Não antes da cirurgia; depois de derivação sem retirada do cisto, com corticoideNo perioperatório, contra o edemaRetirada por neuroendoscopia quando possível; no quarto ventrículo, retirada cirúrgica; cisto aderido, derivação
Cisto subaracnóideoSim, prolongado, até a resolução na ressonância — pode passar de um anoSim, em dose alta, começado antes; metotrexato como poupadorDerivação se houver hidrocefalia, somada ao tratamento clínico
Cisto intraocular e gestanteOlho: retirada cirúrgica em vez de antiparasitário; gestante: adiar para depois do partoPode ser usado na gestação quando necessárioFundo de olho antes de qualquer antiparasitário, em todos

Difteria: o caso e os comunicantes

QuemCulturaAntibióticoSoro, vacina, isolamento e afastamento
Caso suspeitoSwab de naso e orofaringe, e de lesão de pele, antes do antibiótico, sem remover a placaEritromicina, penicilina G cristalina ou procaína, por 14 diasSoro antidiftérico pela forma clínica; isolamento respiratório por 14 dias após o antibiótico adequado, idealmente até duas culturas de nasofaringe negativas; vacinar após a alta
Comunicante não vacinado, com vacinação incompleta ou estado vacinal desconhecidoNaso e orofaringe, e ferida que não cicatrizaQuimioprofilaxia: eritromicina 7 dias, azitromicina 5 dias, claritromicina 7 dias ou penicilina G benzatina em dose únicaIniciar ou completar o esquema com dT (7 anos ou mais); vigilância clínica por no mínimo 7 dias do último contato; nunca soro antidiftérico profilático
Comunicante com vacinação completaNaso e orofaringeSó se a cultura for positivaCom 7 anos ou mais, reforço de dT se a última dose foi há mais de cinco anos; vigilância por 7 dias
Comunicante com cultura positiva (portador ou caso)Reexame clínico; nova cultura 48 h e duas semanas após terminar o antibióticoQuimioprofilaxia qualquer que seja a vacina; cultura ainda positiva: mais dez dias do mesmo antibiótico e nova coleta; sem resposta, trocarAfastamento até 48 h após o antibiótico nos trabalhos de risco
Comunicante que manipula alimento, cuida de muitas crianças ou de imunocomprometidosPrioridade de coletaConforme a situação vacinal e a culturaAfastado do trabalho até o resultado da cultura

Cloranfenicol na criança com febre maculosa. O Quadro 2 do capítulo de febre maculosa do Guia de Vigilância em Saúde de 2024 dá 50 a 100 mg/kg/dia de 6/6 h, "nunca ultrapassando 2 g por dia". O teto corta a faixa a partir de 20 kg, peso em que 100 mg/kg/dia já somam 2 g, e torna a faixa inteira impossível acima de 40 kg, peso em que o mínimo de 50 mg/kg/dia já passa de 2 g: aos 44 kg, o teto entrega 45,5 mg/kg/dia, abaixo do piso da própria faixa. No mesmo quadro, o adulto grave recebe 1 g de 6/6 h, 4 g/dia — o dobro do teto infantil. Um adolescente de 44 kg em estado grave receberia metade do que recebe um adulto de 46 kg. A tabela não fecha, e esta apostila não tira dela uma dose: reforça a regra do próprio Guia — a doxiciclina, oral ou venosa, é a droga de escolha em qualquer idade, e o cloranfenicol só entra quando ela for impossível; na criança grave, essa dose é decisão de quem trata criança, com o defeito à vista.

Cloranfenicol venoso no caso grave de febre maculosa. O mesmo Quadro 2 prescreve cloranfenicol 1 g por via venosa de 6/6 h nos casos graves, mas o texto do próprio capítulo diz que o Ministério fornece o cloranfenicol só na apresentação líquida para uso oral, e a Rename 2024 não tem cloranfenicol injetável — só cápsula e comprimido de 250 mg, no Básico, e suspensão de 25 mg/mL, no Estratégico. Quem espera o cloranfenicol venoso para o doente em choque espera um produto que não existe no elenco. No SUS, a via venosa do caso grave é a doxiciclina 100 mg em pó para solução injetável, do Componente Estratégico, e é ela que se pede à vigilância na madrugada.

Janela do exantema na febre maculosa. A definição de caso suspeito do Guia de 2024 fala em exantema maculopapular "entre o segundo e o quinto dias de evolução"; a seção de manifestações clínicas do mesmo capítulo, em exantema que surge "entre o segundo e o sexto dia da doença". O febril sem história de exposição cujo exantema aparece no sexto dia fica fora do segundo critério de caso suspeito, embora esteja dentro da janela clínica que o Guia descreve. Esta apostila adota a janela clínica, de 2 a 6 dias, para suspeitar e notificar — a obrigação de notificar existe para não perder caso, e a doxiciclina não depende da definição de vigilância.

Quimioprofilaxia infantil da difteria. No Quadro 3 do capítulo de difteria do Guia de 2024, a linha da criança diz "Eritromicina 40 mg/kg/via oral. De 6 em 6h durante 7 dias, no máximo de 2 g/dia", e a da claritromicina, "15 mg/kg/via oral. De 12 em 12h durante 7 dias, máximo de 1 g/dia" — sem o "por dia" depois do quilo. Lida por dose, a eritromicina dá 160 mg/kg/dia, quatro vezes os 40 a 50 mg/kg/dia que a seção de tratamento do mesmo capítulo prescreve para o doente, e a claritromicina dá 30 mg/kg/dia, o dobro. Numa criança de 10 kg: 400 mg de 6/6 h, 1,6 g/dia, contra 100 mg de 6/6 h, 400 mg/dia. A leitura por dia é a coerente: a linha do adulto, 500 mg de 6/6 h, soma exatamente os 2 g do teto, e a seção de tratamento usa mg/kg/dia. Esta apostila adota 40 mg/kg/dia de eritromicina divididos de 6/6 h (10 mg/kg por dose) e 15 mg/kg/dia de claritromicina divididos de 12/12 h.

Dexametasona na laringite diftérica. O Guia de 2024 recomenda, nos casos leves e moderados de laringite com comprometimento respiratório alto, dexametasona 0,6 mg/kg de ataque seguida de 0,4 mg/kg/dia de 6/6 h, sem dose máxima. Num adulto de 70 kg, a conta dá 42 mg de ataque — 10,5 mL da solução de 4 mg/mL — e 28 mg/dia. O esquema não diz se foi pensado para a criança nem traz teto para o adulto. Esta apostila não transpõe a conta por peso sem teto ao adulto e não ensina dose de dexametasona para ele: no adulto com placa e estridor, a decisão é a via aérea, e o próprio Guia manda traqueostomizar sem demora quem progride ou já chega com obstrução alta estabelecida.

Tratamento do botulismo no Guia de 2024. A seção de tratamento do capítulo é atribuída em bloco ao manual integrado de 2006, e o texto que ficou anuncia que o tratamento específico se faz "por meio do uso do SAB e de antibióticos" — mas não diz qual antibiótico. Ao copiar o manual, o Guia perdeu três frases que mudam conduta: o antibiótico do botulismo por ferimento (penicilina cristalina de 10 a 20 milhões de UI/dia no adulto, de 4/4 h, por 7 a 10 dias, ou metronidazol 2 g/dia), a advertência de que aminoglicosídeos e tetraciclinas podem piorar o bloqueio neuromuscular, e a hidrocortisona antes do soro. Quem lê só o Guia trata o ferimento sem antibiótico definido e pode prescrever gentamicina para a pneumonia aspirativa do botulismo. Como o Guia remete ao manual, esta apostila segue o manual nos três pontos — e registra que o metronidazol injetável não consta da Rename 2024, o que deixa a penicilina cristalina como a opção venosa do elenco.

Soro antibotulínico no lactente. A nota técnica nº 77/2022 diz que o soro é indicado a quem atende qualquer das definições de caso suspeito — entre elas a do lactente com botulismo intestinal — e abre exceção ao prazo de sete dias para o botulismo por ferimento e o intestinal, sem ressalvar a idade. O Guia de 2024, repetindo o manual de 2006, diz que o soro e a antibioticoterapia não estão indicados para a criança menor de um ano com botulismo intestinal. São duas normas em vigor divergindo sobre o mesmo paciente. O manejo do lactente é pediátrico e não é ensinado aqui; o registro existe para que a exceção da nota não seja lida como indicação de soro no bebê.

08

A conduta, hora a hora

A conduta deste capítulo acompanha três pacientes do mesmo hospital regional, ao longo de um mês de estágio do interno: as primeiras sessenta horas da Malvina, com febre maculosa grave; a terça e a quarta-feira do Aloízio Sodré e da mulher, Eufrásia Antunes, com botulismo alimentar; e a quinta-feira do Isaías Amado, com difteria, e dos comunicantes dele. Nos três, o que decide o desfecho acontece antes de qualquer resultado de laboratório, e depende de alguém pegar o telefone. A neurocisticercose e a doença da arranhadura do gato decidem no ambulatório e estão no caso resolvido e no caso para completar.

  1. Sábado, 22h05 — Malvina: a doxiciclina que não espera a sorologia, a tomografia nem a farmácia

    Febre de início súbito, cefaleia intensa, mialgia e roçada no capim alto de uma chácara com capivaras e cão cheio de carrapato, oito dias antes: a Malvina é caso suspeito de febre maculosa pelo primeiro critério do Guia, e o exantema do quarto dia só confirma a suspeita que já cabia na quinta-feira. Ela também é caso grave — confusão, pressão de 94 por 58, plaquetas de 61 mil, creatinina de 1,8 e fígado palpável —, e cada um desses achados é marcador de gravidade que o Guia associa ao óbito. Não há o que esperar: nem a sorologia de dengue nem a tomografia, porque nenhuma das duas muda a primeira dose, nem a farmácia. A doxiciclina venosa não é item do estoque comum porque é do Componente Estratégico — distribuída pelo Ministério da Saúde e retirada pela vigilância —, e o cloranfenicol venoso do Quadro 2 do Guia não existe no elenco do SUS. O telefonema desta hora é para o plantão da vigilância municipal. Se o frasco demorar, e se ela engole com segurança e parou de vomitar, a primeira dose de 100 mg por via oral não precisa esperar por ele: o Guia admite as duas vias conforme a gravidade e não diz o que fazer enquanto a venosa não chega — a escolha de não deixar a primeira dose esperar é desta apostila. O suporte segue o de qualquer disfunção de órgão, com uma lembrança que vem do mecanismo: o endotélio está vazando, e o edema pulmonar está na lista de complicações; cada alíquota de volume é seguida de reavaliação.

    Prescrição
    • Doxiciclina 100 mg por via venosa, agora, e de 12/12 h, mantida até 3 dias após o fim da febre
    • Enquanto o frasco não chega, se a deglutição for segura e sem vômitos: doxiciclina 100 mg por via oral, 1 comprimido, sem aguardar
    • Contato imediato com o plantão da vigilância epidemiológica municipal para a doxiciclina injetável do Componente Estratégico
    • Monitorização contínua, dois acessos venosos, oxigênio para manter a saturação, diurese medida
    • Volume em alíquotas com reavaliação clínica e pulmonar a cada uma
    • Vaga em unidade de terapia intensiva
  2. Sábado, 22h40 — Malvina: o que se colhe sem atrasar nada, o que se soma e quem mais precisa ser procurado

    Com a primeira dose correndo, colha a primeira amostra de soro para a imunofluorescência — ela pode ser colhida a qualquer momento, e esta é a amostra de fase aguda que dará sentido à segunda. O exantema purpúrico, a hipotensão e a confusão mantêm de pé a meningococcemia e a sepse bacteriana que o Guia lista entre os diferenciais; as hemoculturas vão no mesmo acesso, e o antibiótico de amplo espectro que cobre essas hipóteses entra junto da doxiciclina, não no lugar dela, pelas regras do capítulo Febre sem foco no adulto. Um fragmento de pele de uma lesão vasculítica, se houver quem biopsie e para onde mandar, é o material mais sensível para confirmar nesta fase. Notifique a suspeita hoje, pela ficha de investigação, que segue com as amostras ao laboratório central. E pergunte à família quem mais esteve na chácara: a vigilância vai investigar o local provável de infecção e procurar outros febris. O filho, que tirou carrapatos das pernas na mesma semana e está sem febre, não recebe antibiótico — o Guia não recomenda antibiótico profilático depois da picada em quem não tem sintomas, o que, segundo ele, poderia prolongar a incubação —, mas sai com a orientação escrita de voltar e dizer onde esteve se tiver febre nos próximos quinze dias.

    Prescrição
    • Soro para imunofluorescência indireta de riquétsias do grupo febre maculosa (primeira amostra, fase aguda)
    • Hemoculturas, antes do antibiótico de amplo espectro
    • Antibiótico de amplo espectro para sepse e meningococcemia, conforme o capítulo Febre sem foco no adulto, somado à doxiciclina
    • Hemograma com plaquetas, creatinina, ureia, eletrólitos, aminotransferases, bilirrubinas, creatinoquinase e desidrogenase lática
    • Notificação imediata de caso suspeito de febre maculosa, com a Ficha de Investigação acompanhando as amostras ao laboratório central
    • Orientação por escrito ao filho: sem antibiótico agora; febre nos próximos 15 dias, voltar e informar a exposição
  3. Domingo, 10h, e terça, 8h — Malvina: a curva térmica que confirma a hipótese antes da sorologia

    Doze horas depois da primeira dose, a Malvina ainda tem febre, a creatinina está em 2,1 e as plaquetas em 54 mil. Isso não é falha: o Guia dá de 24 a 72 horas para a febre ceder quando o tratamento começa nos cinco primeiros dias, e ela começou no quarto. O que não se faz é trocar a doxiciclina por falta de resposta em doze horas, nem suspendê-la porque um exame de dengue veio reagente: um resultado não exclui a outra doença, e o Guia lembra que a IgM cruza entre essas infecções. Na terça de manhã, com 58 horas de doxiciclina, a temperatura máxima das últimas 24 horas foi de 37,4 °C, ela sabe o dia da semana, a pressão se sustenta sem vasopressor e as plaquetas começaram a subir. É a resposta que o Guia descreve, e ela vale como argumento clínico enquanto a segunda amostra não existe. A partir daqui a conta do tempo é simples: três dias depois do último dia de febre, em geral sete dias no total, com a passagem para a via oral quando ela estiver estável e engolindo. A segunda sorologia sai marcada na alta, com data, porque sem ela o caso fica sem confirmação.

    Prescrição
    • Manter doxiciclina 100 mg de 12/12 h; passar para via oral quando estável e com deglutição segura
    • Duração: até 3 dias após o último dia de febre, rotina de 7 dias
    • Curva térmica, nível de consciência, pressão arterial e diurese a cada turno
    • Plaquetas, creatinina e aminotransferases diárias até a curva se inverter
    • Segunda amostra de soro para imunofluorescência agendada para 14 a 21 dias após a primeira, com data escrita no resumo de alta
  4. Terça da segunda semana, 16h20 — Aloízio e Eufrásia: duas pálpebras caídas e um pote de palmito

    O Aloízio Sodré, 61 anos, 70 kg, chega trazido pela filha com visão dupla desde a manhã, pálpebras caídas, fala arrastada e dificuldade de engolir a própria saliva. Não tem febre, a frequência cardíaca é de 64, a pressão de 102 por 68, a bexiga está cheia e ele não consegue urinar. Está lúcido, a sensibilidade está normal, não há Babinski nem assimetria, e a fraqueza dos braços é igual dos dois lados. A mulher, Eufrásia Antunes, 58 anos, 60 kg, que veio junto como acompanhante, conta que também está com a vista embaçada e a boca seca desde a noite anterior; examinada com a mesma atenção, tem ptose discreta dos dois lados e engasga com água. No domingo, os dois almoçaram palmito de uma conserva caseira que a vizinha deu. São dois casos suspeitos de botulismo alimentar pela definição do Guia, com a mesma fonte: é surto, e é emergência de saúde pública. A primeira pergunta não é sobre o soro, é sobre a via aérea, e a segunda é sobre quem mais comeu do pote.

    Prescrição
    • Os dois para a unidade de terapia intensiva, com monitorização cardíaca e oximetria contínuas
    • Capacidade vital com espirômetro à beira do leito na chegada; avaliação de língua, palato, voz e deglutição registrada
    • Dieta zero por via oral; sonda vesical de alívio no Aloízio
    • Notificação imediata dos dois casos suspeitos à vigilância municipal e ao Ministério da Saúde, pelo meio mais rápido
    • Colher sangue sem anticoagulante para pesquisa de toxina antes do soro, se imediatamente viável, e organizar fezes e material gástrico conforme segurança e orientação do laboratório. Não atrasar a antitoxina para completar todas as amostras; fezes podem ser obtidas depois. Evitar procedimentos que comprometam a via aérea.
    • Perguntar ao laboratório do hospital se sobrou soro dos exames colhidos na chegada e reservá-lo
    • Recolher o pote de palmito com as sobras, no recipiente original, para a vigilância; nomes e telefones de quem mais comeu da mesma conserva
  5. Terça, 18h — o soro vem pela vigilância: o que o médico assina, o que se prepara e o que se evita

    O soro antibotulínico não está na farmácia do hospital e não vai estar: ficam cinco frascos por estado, sob a coordenação estadual de imunização. O caminho da nota técnica de 2022 é este: a vigilância municipal recebe a prescrição médica e um relatório clínico sucinto, os dois assinados e carimbados, e a ficha de investigação preenchida; a vigilância estadual aciona a coordenação estadual de imunização e o grupo técnico do Ministério da Saúde, que decidem juntos, pela definição de caso e pelo prazo; liberado, o soro é entregue à unidade onde o doente está. Os dois estão dentro dos sete dias do início neurológico. A decisão é criteriosa porque o soro é heterólogo e a reação de hipersensibilidade aparece em 9 a 20% dos tratados — por isso a Eufrásia foi examinada de novo antes de o relatório sair, e por isso a ptose dela está descrita no papel. Enquanto o soro viaja, prepare o que a infusão exige: acesso calibroso com soro fisiológico correndo, adrenalina, material de via aérea e alguém ao lado. O manual de 2006, régua do tratamento, manda dar hidrocortisona de 10 a 15 minutos antes. Não há teste cutâneo. E, para o resto da internação, escreva no prontuário o que o manual adverte: aminoglicosídeo e tetraciclina podem piorar o bloqueio.

    Prescrição
    • Prescrição de soro antibotulínico AB bivalente, 1 frasco-ampola para cada paciente, e relatório clínico sucinto, assinados e carimbados, com a ficha de investigação, entregues à vigilância municipal
    • Na chegada do soro, 10 a 15 minutos antes: hidrocortisona 10 mg/kg por via venosa — Aloízio 700 mg (1 frasco de 500 mg e 2 de 100 mg); Eufrásia 600 mg (1 frasco de 500 mg e 1 de 100 mg)
    • Soro antibotulínico: 1 frasco de 20 mL diluído em 200 mL de soro fisiológico a 0,9% (1:10), por via venosa, em cerca de 1 hora, com supervisão médica contínua
    • Adrenalina 1 mg/mL, oxigênio e material de via aérea à beira do leito durante a infusão; em reação, parar o soro, manter o soro fisiológico e tratar a anafilaxia
    • Registro no prontuário: evitar aminoglicosídeos e tetraciclinas
    • Relatório diário da evolução à vigilância, que o encaminha ao grupo técnico do Ministério até a alta
  6. Quarta, 3h10 — Aloízio: a capacidade vital que caiu antes da saturação

    O soro correu às 23h nos dois, sem reação. Às 3h a enfermagem chama porque o Aloízio está com a voz anasalada e não consegue limpar a saliva. A saturação é de 96% e a frequência respiratória de 22 — números que não assustam ninguém. A capacidade vital, medida de novo, é de 630 mL: 9 mL/kg, abaixo dos 12 mL/kg em que o Guia e o manual indicam, em geral, a intubação. Não se espera o gás carbônico subir nem a saturação cair: o Guia adverte que esperar por esses sinais pode aumentar o risco de a insuficiência respiratória se instalar. O soro já foi dado e não reverte o que se ligou ao nervo; a paralisia pode seguir progredindo por uma a duas semanas, e a ventilação pode durar de quatro a oito semanas ou mais. A Eufrásia, com capacidade vital de 25 mL/kg, voz normal e deglutição preservada para saliva, segue em observação com a mesma medida repetida a cada turno, e antes se a voz ou a deglutição mudarem. Na tarde de quarta, a vigilância informa que o filho da vizinha, que comeu do mesmo palmito, chegou ao pronto-socorro de outra cidade com diplopia — a notificação da terça é o que fez esse telefonema existir.

    Prescrição
    • Intubação orotraqueal eletiva no Aloízio, agora, por critério clínico e capacidade vital de 9 mL/kg
    • Ventilação mecânica com cabeceira elevada e cuidados de prevenção de pneumonia associada à ventilação
    • Sonda enteral para nutrição e hidratação até recuperar a deglutição
    • Eufrásia: capacidade vital, voz e deglutição a cada turno, e imediatamente se houver piora
    • Eletroneuromiografia quando disponível, sem condicionar a ela nenhuma decisão
    • Pneumonia aspirativa, se houver: antibiótico escolhido sem aminoglicosídeo e sem tetraciclina
  7. Quinta da quarta semana, 11h — Isaías: a placa que sangra e o soro que não espera a cultura

    O Isaías Amado, 38 anos, 70 kg, cozinheiro de restaurante, chega ao pronto-socorro no terceiro dia de dor de garganta, que ele descreve como incômoda e não como forte. Está pálido, prostrado, com 38,2 °C, e o pescoço está inchado dos dois lados, com gânglios grandes, pouco dolorosos e edema em volta. Há uma placa acinzentada, espessa e aderida sobre as duas amígdalas, avançando pelos pilares e pela úvula; o médico da unidade básica tentou raspá-la com o swab dois dias atrás, sangrou, e ele saiu com amoxicilina para amigdalite bacteriana, que tomou por dois dias. Não sabe dizer se tomou vacina depois de adulto. Não tem rouquidão nem estridor. É caso suspeito de difteria pela definição do Guia, com dois fatores de mau prognóstico — edema periganglionar e placas extensas — e o aspecto do pescoço taurino da forma hipertóxica. O soro não espera a cultura, e a cultura não deixa de ser colhida por causa da amoxicilina: o Guia manda colher sempre. A dose do soro é decidida pela forma clínica, não pelo peso: forma grave, 80.000 a 100.000 UI — nesta vinheta, 100.000 UI, pela extensão da placa e pelo edema. Como ele engole mal, o antibiótico é venoso. Antes do soro, pergunte o que o Guia manda perguntar: reação anterior a algum soro, uso prévio de soro de cavalo, contato frequente com cavalos.

    Prescrição
    • Isolamento respiratório em quarto individual, com máscara para quem entra
    • Dois swabs — nasofaringe e orofaringe —, passando em volta da placa sem removê-la, semeados de imediato no meio de transporte e enviados ao laboratório com a ficha, apesar da amoxicilina já tomada
    • Notificação imediata de caso suspeito de difteria, às três esferas
    • Soro antidiftérico 100.000 UI por via venosa, diluído em 100 mL de soro fisiológico, dose única, em serviço com adrenalina, oxigênio e material de via aérea, sem teste cutâneo, com observação por cerca de 2 horas após
    • Penicilina G cristalina 150.000 UI/kg/dia (10.500.000 UI/dia): 2.625.000 UI por via venosa de 6/6 h, com passagem à penicilina G procaína quando melhorar, completando 14 dias
    • Eletrocardiograma de 12 derivações na chegada; creatinina e pesquisa de albuminúria
    • Avaliação da via aérea a cada turno: rouquidão, estridor ou desconforto, chamar para via aérea definitiva
  8. Quinta, 15h — os comunicantes do Isaías: quem colhe, quem toma o quê e quem sai do trabalho

    Comunicante é quem mora com o caso e quem teve contato direto com ele — cuidador, parente, parceiro sexual, colega de estudo ou de trabalho, visita frequente. O Isaías mora com a mulher, merendeira de uma creche municipal, e os dois filhos, de 6 e 13 anos, com a caderneta em dia; na cozinha do restaurante, divide a bancada com dois colegas. Todos passam por exame clínico e colheita de naso e orofaringe para cultura e ficam sob vigilância por no mínimo sete dias do último contato. A mulher não sabe se é vacinada: recebe quimioprofilaxia e começa o esquema de dT — e, como lida com alimento e com muitas crianças, fica afastada da creche até o resultado da cultura, e, se ela vier positiva, por mais 48 horas depois de começar o antibiótico. Os filhos, com esquema completo, não recebem antibiótico a menos que a cultura seja positiva; o de 13 anos, cuja última dose foi o reforço dos 4 anos, recebe um reforço de dT. Os dois colegas de cozinha seguem a mesma lógica da mulher: situação vacinal pela caderneta, quimioprofilaxia a quem não tem esquema completo, e afastamento até a cultura, porque manipulam alimento. Ninguém recebe soro antidiftérico profilático. A vigilância organiza o bloqueio vacinal seletivo na casa, na creche e no restaurante.

    Prescrição
    • Exame clínico e swab de naso e orofaringe de todos os comunicantes; vigilância clínica por no mínimo 7 dias do último contato
    • Mulher, estado vacinal desconhecido: azitromicina 500 mg por via oral, 1 vez ao dia, por 5 dias — ou penicilina G benzatina 1.200.000 UI IM em dose única —, e primeira dose de dT hoje
    • Mulher: afastamento da creche até o resultado da cultura; se positiva, até 48 horas após o início do antibiótico
    • Filhos com esquema completo: cultura e observação; reforço de dT no de 13 anos; antibiótico só se a cultura for positiva
    • Colegas de cozinha: cultura, caderneta, quimioprofilaxia a quem não tiver esquema completo e afastamento até a cultura
    • Comunicante com cultura positiva: reexame clínico e nova cultura 48 horas e 2 semanas após terminar o antibiótico
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Como saber se está funcionando

Reavaliar estas doenças é saber o que se espera de cada tratamento e em quanto tempo, porque nas três agudas o que piora depois de tratado não é, necessariamente, falha do tratamento: a febre maculosa leva até 72 horas para ceder, o botulismo continua a progredir depois do soro, e a difteria mata pela miocardite quando a garganta já sarou. Nas duas de ambulatório, o parâmetro é a imagem e o gânglio, medidos em meses e semanas.

Curva térmica, consciência e pressão arterial na febre maculosa tratadaA cada turno nas primeiras 72 horas de doxiciclina, e diariamente até 3 dias depois do último dia de febre

Esperado: Com o tratamento começado nos cinco primeiros dias, a febre tende a desaparecer entre 24 e 72 horas e a evolução tende a ser benigna; a consciência, a pressão e as plaquetas melhoram junto.

Se não melhora: Febre além de 72 horas ou piora de órgão: confirme que a doxiciclina foi de fato dada, na dose e na via certas, e desde quando; lembre que o tratamento começado depois do quinto dia pode não reverter a disfunção já instalada e que o Guia admite tratamento mais longo nas formas graves; reveja os diferenciais que o Guia lista — meningococcemia, sepse bacteriana, leptospirose — sem suspender a doxiciclina enquanto a hipótese estiver de pé.

Sorologia pareada da febre maculosaPrimeira amostra na chegada; segunda de 14 a 21 dias depois; terceira 14 dias após a segunda, se o quadro for compatível e as duas primeiras não fecharem

Esperado: Soroconversão da IgG — não reagente para título de 128 ou mais — ou aumento de pelo menos quatro vezes no título entre as amostras.

Se não melhora: Aumento menor que quatro vezes ou soroconversão que não veio, em quem foi tratado cedo: não descarte — o tratamento precoce pode retardar os anticorpos, e o Guia manda colher a terceira amostra. Amostra única não reagente antes do sétimo dia não descarta nada.

Capacidade vital, função bulbar e ventilação no botulismoNa chegada e a cada turno enquanto a paralisia progride, que pode ser por uma a duas semanas; depois, diariamente até o desmame

Esperado: Estabilização em até duas semanas e platô de duas a três antes da recuperação; quando a ventilação é necessária, pode durar de quatro semanas, no tipo B, a oito, no tipo A, com os maiores ganhos de força nos três primeiros meses.

Se não melhora: Capacidade vital abaixo de 12 mL/kg, voz anasalada, regurgitação nasal, língua ou palato parados, saliva que não é deglutida: intubação, sem esperar gasometria. Febre na UTI de quem está ventilado é, até prova em contrário, a infecção respiratória que o Guia lista como complicação — e o antibiótico dela não é aminoglicosídeo.

Eletrocardiograma e exame cardiovascular na difteriaNa chegada, e repetido de forma seriada nas primeiras semanas, porque a miocardite aparece a partir da segunda

Esperado: Ritmo sinusal, sem alteração de repolarização, extrassístoles, bradicardia ou bloqueio atrioventricular; sem sopro novo, hepatomegalia dolorosa ou sinais de insuficiência cardíaca.

Se não melhora: Alteração de condução, arritmia ou insuficiência cardíaca: o Guia manda repouso absoluto no leito por pelo menos três semanas, restrição de sódio e tratamento da insuficiência cardíaca, com eletrocardiograma seriado; a escolha de fármaco que mexe na condução se faz com o cardiologista. Insuficiência renal costuma acompanhar a miocardite nas formas graves.

Voz, deglutição, palato e força na difteria, e as culturas que encerram o isolamentoA cada consulta até a sexta ou oitava semana, inclusive depois da alta; culturas de controle ao fim do antibiótico

Esperado: Sem voz anasalada, sem alimento voltando pelo nariz, úvula centrada, força e reflexos simétricos; duas culturas de nasofaringe negativas para encerrar as precauções, e na forma cutânea duas culturas da lesão colhidas 24 horas depois do fim do antibiótico.

Se não melhora: Paralisia do véu palatino, paresia de membros, diplopia ou falta de ar tardia: é a neurite diftérica, que costuma curar sozinha, mas o Guia manda manter o doente internado e em observação constante, porque a paralisia do diafragma pode exigir ventilação. Cultura ainda positiva: mais dez dias do mesmo antibiótico e nova coleta; sem resposta, outro antibiótico.

Crises, imagem e exames de segurança na neurocisticercose tratadaCrises a cada consulta; ressonância a cada 6 meses até a resolução do componente cístico; hemograma e enzimas hepáticas se o albendazol passar de 14 dias

Esperado: Cisto que desaparece na ressonância; na lesão única, lesão resolvida e seis meses sem crise permitem discutir a retirada do antiepiléptico, se não houver fator de risco.

Se não melhora: Lesão cística persistente seis meses depois do tratamento: a diretriz sugere retratar. Calcificação ou cisto residual, crise de escape ou mais de duas crises são fatores de risco de recorrência e pesam contra a retirada do antiepiléptico. Crise nova em quem só tem calcificação: procure o edema perilesional na ressonância, que regride sem antiparasitário.

Tamanho do gânglio e sinais sistêmicos na doença da arranhadura do gatoRetorno em algumas semanas, com o gânglio medido na primeira consulta como referência, e antes se houver febre alta, dor ocular, perda de peso ou piora

Esperado: Gânglio diminuindo, sem novas cadeias, sem febre prolongada e sem sinal de órgão acometido; com azitromicina, a redução pode ser mais rápida.

Se não melhora: Gânglio que cresce, endurece ou se multiplica, febre prolongada, sintomas constitucionais, alteração visual, dor no fígado ou sopro novo: a hipótese deixou de ser a forma típica — investigue doença disseminada e imunossupressão, com antibiótico e infectologista se confirmada, e siga o fluxo de sinais de alarme de neoplasia se a exposição e o curso não sustentarem mais o diagnóstico.

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Onde o erro machuca

Chamar de dengue a febre com cefaleia forte sem perguntar onde a pessoa esteve, e esperar o exantema ou a sorologia para dar doxiciclina.

O dano: A febre maculosa brasileira não tratada pode chegar a 80% de letalidade na forma grave, e o exantema, quando vem, costuma vir entre o segundo e o sexto dia — muitas vezes junto com a disfunção de órgão. A sorologia só sobe entre o sétimo e o décimo dia e confirma com a segunda amostra, semanas depois. Quem espera um dos dois começa a doxiciclina depois do quinto dia, que é quando o Guia deixa de prometer resposta em 72 horas.

Como pegar a tempo: Uma pergunta em todo febril agudo: carrapato, capim alto, mata, beira de rio ou de represa, capivara, cavalo ou cão que anda no mato nos últimos quinze dias. Resposta positiva com febre súbita, cefaleia e mialgia: doxiciclina na hora, em qualquer idade, com ou sem pele, e notificação da suspeita.

Raspar a placa da garganta com o swab, prescrever o antibiótico da amigdalite sem colher cultura e, quando a difteria aparece, esperar a cultura para dar o soro.

O dano: Remover a pseudomembrana faz sangrar e acelera a absorção da toxina. O antibiótico dado antes da coleta compromete a cultura, que é o padrão-ouro. E o soro antidiftérico só neutraliza a toxina que ainda circula: cada dia de espera é toxina que chega ao miocárdio e aos nervos, e mais de três dias sem tratamento é fator de mau prognóstico.

Como pegar a tempo: Placa aderente que ultrapassa as amígdalas, com dor desproporcionalmente discreta e estado geral comprometido, é caso suspeito: isolamento, dois swabs em volta da placa sem removê-la, soro pela forma clínica na suspeita bem fundamentada, antibiótico por 14 dias e notificação imediata. Se o antibiótico já foi dado, colha assim mesmo.

Dar o soro antibotulínico antes de colher sangue, fezes e lavado — ou, no extremo oposto, segurar o pedido do soro à espera de resultado de laboratório.

O dano: O soro neutraliza a toxina, e a pesquisa colhida depois dele dá negativo; entre 2007 e 2021, só 22% dos suspeitos do país foram confirmados, e a própria nota técnica registra que outros casos não puderam ser analisados por falta de amostra ou por coleta inoportuna. Do outro lado, o soro age só sobre a toxina ainda não ligada ao nervo, e o prazo de sete dias corre enquanto se espera um exame que o tratamento não precisa.

Como pegar a tempo: Na primeira hora, as duas coisas em paralelo: colha as amostras — e peça ao laboratório o soro que sobrou dos exames da chegada — e acione a vigilância com prescrição, relatório e ficha para liberar o soro. Quando ele chegar, as amostras já estarão no tubo.

Usar a saturação de oxigênio e a gasometria para decidir quando intubar o doente com botulismo.

O dano: A paralisia é da musculatura bulbar e respiratória, e a saturação se mantém normal enquanto a capacidade vital cai e a via aérea deixa de ser protegida. O Guia adverte que esperar o gás carbônico subir ou a saturação cair pode aumentar o risco de a insuficiência respiratória se instalar — e a intubação feita na falência, num doente que aspira a própria saliva, é a mais arriscada.

Como pegar a tempo: Critério clínico e espirômetro à beira do leito: língua e palato que não se movem, disfonia, disfagia, regurgitação nasal, e capacidade vital abaixo de 12 mL/kg indicam intubação. Meça na chegada e a cada turno enquanto a paralisia progride.

Prescrever albendazol a toda lesão de neurocisticercose que aparece na tomografia, antes de classificar a forma, sem fundo de olho e sem corticoide.

O dano: Na hidrocefalia não tratada e no edema cerebral difuso, a inflamação provocada pela morte do parasito pode levar a desfechos fatais, como herniação. Na calcificação, não há parasito vivo para tratar. No cisto intraocular não suspeitado, o antiparasitário pode cegar. E sem o corticoide começado antes, o doente fica exposto à inflamação que o próprio tratamento produz.

Como pegar a tempo: Classifique pela tomografia e pela ressonância; trate primeiro a hipertensão intracraniana; faça o fundo de olho em todos; comece o corticoide antes; e reserve o albendazol, com praziquantel acima de dois cistos viáveis, às formas que a diretriz manda tratar.

Biopsiar, drenar ou pedir sorologia do gânglio axilar grande de quem adotou um filhote, sem perguntar pelo gato — ou, no imunossuprimido, tratar a mesma infecção como autolimitada.

O dano: No imunocompetente com forma típica, a doença costuma se resolver, e a sorologia cruza com outras espécies e fica positiva por anos, o que a torna ruim para decidir; a biópsia vira procedimento sem necessidade. No imunocomprometido, a infecção pode se disseminar, e o tratamento é obrigatório.

Como pegar a tempo: Pergunte pelo gato diante de todo gânglio regional; na forma típica, diagnóstico clínico e decisão compartilhada sobre a azitromicina de cinco dias; pergunte pela imunossupressão; e mande para o fluxo de sinais de alarme o gânglio que não se comporta como doença da arranhadura.

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O que dizer ao paciente e à família

Sete conversas deste capítulo, e em quase todas quem pergunta está com medo de uma coisa que não é o problema — dengue hemorrágica, soro de cavalo, perder o emprego, epilepsia para sempre. A resposta boa diz o que é, diz o que vai ser feito agora e por quê, e não promete o que ninguém sabe.

O filho da Malvina, com a caixa de dipirona na mão, pergunta se a mãe está com dengue hemorrágica

“Pelo que ela tem e pelo lugar onde ela mora e trabalha, a doença que eu mais temo não é dengue: é uma infecção transmitida por carrapato, chamada febre maculosa, que é grave e tem tratamento. Por isso ela já está recebendo o antibiótico agora, antes de qualquer exame ficar pronto — esperar seria pior. Ela vai para a terapia intensiva, porque a pressão e os rins estão sofrendo. O exame que confirma leva semanas e precisa de uma segunda coleta; não vamos esperar por ele para tratar.”

Não diga: Confirmar dengue para não contrariar a ficha da unidade, ou dizer que “não tem jeito de saber” antes do exame. A primeira frase tira o antibiótico do raciocínio; a segunda tira a urgência da conversa.

O mesmo filho conta que também tirou carrapatos das pernas na semana e quer tomar o antibiótico da mãe

“Você não está com febre, e para quem só foi picado e não tem sintoma nenhum o antibiótico não é recomendado — o Guia do Ministério registra que ele pode até prolongar o tempo até a doença aparecer. O que protege você é saber o que observar: se aparecer febre, dor de cabeça forte ou dor no corpo nos próximos quinze dias, vá a um serviço de saúde naquele mesmo dia e conte que esteve na chácara com carrapatos. Vou deixar isso escrito para você mostrar.”

Não diga: Prescrever doxiciclina “por precaução” ou mandá-lo embora sem orientação escrita. A primeira contraria o Guia; a segunda repete o que aconteceu com a mãe na quinta-feira.

A Eufrásia, que só tem a vista embaçada e a boca seca, pergunta por que vai tomar um soro “de cavalo”

“O que a senhora comeu com o seu marido tem uma toxina que paralisa os músculos, começando pelos olhos e pela garganta — e a senhora já tem as pálpebras um pouco caídas e está engasgando com água. O soro neutraliza a toxina que ainda está circulando, e só funciona nos primeiros dias; o que já grudou no nervo ele não tira. Ele é feito a partir de cavalos, e por isso vamos dar um remédio antes, deixar tudo preparado para o caso de reação e ficar do seu lado durante a infusão. Sem ele, o risco é a fraqueza descer para a respiração.”

Não diga: Dizer que é “só uma vacina”, ou minimizar os sintomas dela porque os do marido são piores. O primeiro esconde o risco de reação; o segundo pode deixar sem soro quem atende a definição de caso.

A vizinha que deu o palmito liga para o hospital chorando, dizendo que envenenou os amigos

“A senhora não fez de propósito, e agora a sua ajuda é o que mais pode proteger outras pessoas. Não coma e não dê a ninguém mais nenhum pote dessa conserva, e não jogue fora: guarde tudo como está, até o vidro vazio, que a equipe da vigilância vai buscar. E me diga agora quem mais comeu desse palmito, inclusive da sua família, e se alguém está com a vista embaçada, a boca seca ou dificuldade de engolir — essas pessoas precisam ser examinadas hoje.”

Não diga: Culpar a vizinha, ou orientá-la a jogar fora os potes que sobraram. A culpa faz a pessoa esconder quem mais comeu; o descarte destrói a amostra que confirma o surto.

A mulher do Isaías, merendeira de creche, diz que não pode faltar ao trabalho porque está em contrato temporário

“A senhora conviveu com uma doença que passa pela respiração e que pode estar na sua garganta sem dar sintoma. Como trabalha com alimento e com crianças, precisa ficar afastada só até sair o resultado da cultura que colhemos hoje — e, se ele vier positivo, até dois dias depois de começar o antibiótico. Vou lhe dar o atestado e a vigilância pode falar com a creche. Hoje a senhora também começa o remédio preventivo e toma a primeira dose da vacina.”

Não diga: Liberar o retorno ao trabalho “porque ela está bem”, ou afastá-la por tempo indefinido sem dizer do que depende o retorno. A primeira expõe as crianças da creche; a segunda empurra a pessoa a esconder o contato.

A Tarcila, que teve a primeira crise aos 34 anos, diz que nunca comeu carne de porco e pergunta se vai ser epiléptica para sempre

“Essa larva não vem da carne: vem de ovos de uma tênia que alguém carrega no intestino, e que chegam à boca por mãos ou alimentos contaminados — por isso atinge quem nunca comeu porco, às vezes muitos anos depois. A lesão que apareceu na sua imagem é pequena e única, e a ressonância vai mostrar, a cada seis meses, se ela desaparece. Você vai tomar o remédio para crise por um tempo; se ficar seis meses sem crise e a lesão desaparecer, a gente conversa sobre tirar, porque a chance de continuar precisando depende do que a ressonância mostrar lá na frente.”

Não diga: Dizer que ela “pegou isso comendo porco malpassado”, ou prometer que nunca mais terá crise. A primeira é falsa para o caso dela; a segunda é promessa que a calcificação residual pode desmentir.

O Rafael, que adotou um filhote há um mês, chega assustado porque leu na internet que gânglio na axila é câncer

“Gânglio grande na axila tem várias causas, e a sua história aponta para uma infecção que o filhote passa pela arranhadura — a bactéria vem da pulga do gato. Pelo que eu vejo hoje, ela costuma melhorar sozinha, e não precisa de biópsia agora. Existe um antibiótico de cinco dias que pode fazer o gânglio diminuir mais rápido; posso explicar os prós e contras e decidimos juntos. O que muda tudo é se o gânglio crescer, endurecer, aparecerem outros, febre que não passa ou perda de peso: nesse caso você volta antes, e a investigação muda.”

Não diga: Dizer que “não é nada” sem retorno marcado, ou pedir biópsia para tranquilizar. O primeiro deixa sem vigilância o gânglio que não é da arranhadura; o segundo transforma uma infecção autolimitada num procedimento.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Botulismo por ferimento com mais de sete dias de sintomas neurológicos: ainda se pede o soro antibotulínico?

O soro antibotulínico atua contra a toxina circulante que ainda não se fixou no sistema nervoso e deve ser dado o mais precocemente possível, até sete dias a partir do início dos sintomas neurológicos; depois disso, poderá não ser mais eficaz. A regra é escrita para o botulismo em geral, sem exceção por forma clínica.

Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, v. 1, capítulo Botulismo, tratamento específico; Manual integrado de vigilância epidemiológica do botulismo, 2006, item 12.2.

O soro deve ser dado o mais oportunamente possível, no máximo em sete dias do início dos sintomas neurológicos, e depois desse prazo não há evidência de benefício — com uma exceção expressa: os casos suspeitos de botulismo por ferimento e intestinal, nos quais a toxina é produzida constantemente até que o agente seja eliminado, e para os quais o pedido deve seguir os trâmites da nota.

Nota Técnica nº 77/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS, item II, pergunta B (agosto de 2022).

Como decidir

O primeiro degrau da régua decide. A nota técnica é o documento escrito para a decisão de liberar o soro e tem uma frase escrita para o paciente com botulismo por ferimento; a regra do Guia e do manual vale para o botulismo em geral e não trata dessa forma em separado. Vence o documento feito para o paciente à frente, mesmo sendo o Guia mais novo — a data só desempataria se o escopo fosse o mesmo. A leitura, além disso, é coerente com o mecanismo: enquanto o foco anaeróbio existir, há toxina nova circulando para o soro neutralizar, e a frase do Guia diz que o soro poderá não ser eficaz, não que está contraindicado. Esta apostila adota a nota: no botulismo por ferimento e no intestinal do adulto, passar do sétimo dia não fecha a indicação, e o soro é pedido pelo fluxo da vigilância, com o desbridamento depois do soro e o antibiótico do manual; no botulismo alimentar, os sete dias fecham. A exceção não alcança o lactente com botulismo intestinal, para quem o Guia diz que o soro não está indicado — conflito registrado no critério.

Doença da arranhadura do gato no imunocompetente com forma típica: antibiótico para todos ou decisão caso a caso?

A azitromicina é recomendada para a doença da arranhadura do gato, com recomendação forte e evidência moderada: acima de 45 kg, 500 mg no primeiro dia e 250 mg por mais quatro dias; abaixo de 45 kg, 10 mg/kg no primeiro dia e 5 mg/kg por mais quatro.

Infectious Diseases Society of America, Practice guidelines for the diagnosis and management of skin and soft tissue infections: 2014 update, recomendação 47.

A doença costuma ser autolimitada e o antibiótico pode reduzir a duração dos sintomas. O tratamento é necessário no doente grave e no imunocomprometido; o paciente saudável pode receber tratamento conforme a gravidade e a preferência, e a azitromicina reduziu mais rápido o volume do gânglio num estudo. A doença disseminada pede cursos mais longos e combinados, com infectologista.

Centers for Disease Control and Prevention, Clinical overview of cat scratch disease, página atualizada em 23 de março de 2026.

Como decidir

Não há documento brasileiro sobre a doença, e a régua foi aplicada às duas fontes estrangeiras. O escopo é o mesmo — as duas falam do paciente com a doença —, e o segundo degrau decide pela data: a página do CDC é doze anos mais nova que a diretriz da IDSA. Esta apostila adota a posição do CDC: no imunocompetente com gânglio regional típico e sem sinal de gravidade, a azitromicina de cinco dias é oferecida, com a explicação de que encurta o curso e de que a doença costuma se resolver sem ela, e a decisão é compartilhada, com retorno marcado; no imunocomprometido, no doente grave e na doença disseminada, o antibiótico é obrigatório e o infectologista entra. Quem prescreve azitromicina a todo paciente com a forma típica não contraria fonte nenhuma; o erro que as duas fontes condenam é deixar sem tratamento o imunossuprimido.

Pré-medicação antes de soro heterólogo: hidrocortisona antes do soro antibotulínico, e nada de rotina antes do antidiftérico?

Para prevenir reações de hipersensibilidade ao soro antibotulínico, que aparecem em 9 a 20% dos tratados, instalar soro fisiológico e administrar hidrocortisona 10 mg/kg por via venosa, no máximo 1 g, de 10 a 15 minutos antes de iniciar a soroterapia; o teste cutâneo foi excluído da rotina.

Manual integrado de vigilância epidemiológica do botulismo, Ministério da Saúde, 2006, item 12.2 — a seção do Guia de 2024 que o copia e a nota técnica de 2022 não tratam de pré-medicação.

A prevenção de reação anafilática na administração de soro heterólogo é preparo: anamnese de reação anterior, uso prévio de soro equino e contato com cavalos; acesso venoso calibroso com soro correndo; adrenalina, anti-histamínico, corticoide, oxigênio e material de ventilação à mão; gotejamento lento e supervisão médica; observação por cerca de duas horas. A pré-medicação aparece para quem já reagiu a soro equino e precisa repetir a imunização passiva sem imunoglobulina humana disponível.

Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, v. 1, capítulo Difteria, prevenção de reações anafiláticas na administração de soros heterólogos; Manual de normas e procedimentos para vacinação, 2. ed. rev., 2024, seção 14, sem pré-medicação no procedimento.

Como decidir

Antes de desempatar, veja que cada regra foi escrita para um soro e uma doença: a do manual, para o soro antibotulínico no botulismo; a do Guia, dentro do capítulo de difteria, para o paciente que recebe o soro antidiftérico. O primeiro degrau, o escopo, resolve para cada paciente, e a data não entra, porque não há documento sobre o botulismo que diga o contrário do manual — o Guia de 2024 e a nota técnica apenas não falam do assunto, e omissão não é revogação. Esta apostila adota as duas, cada uma no seu paciente: hidrocortisona 10 mg/kg, máximo de 1 g, antes do soro antibotulínico; soro antidiftérico sem pré-medicação de rotina, com pré-medicação só na situação que o Guia descreve. Nos dois, o que protege de verdade é o preparo, e o corticoide dado antes não substitui a adrenalina na bandeja nem o médico ao lado da infusão.

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O raciocínio, em voz alta

Tarcila Solano, 34 anos, 54 kg, professora de educação infantil numa cidade do interior, cresceu num sítio sem rede de esgoto onde a família e os vizinhos criavam porcos soltos. Numa segunda-feira de manhã, na sala de aula, teve formigamento e abalos na mão direita que evoluíram, em segundos, para uma crise tônico-clônica generalizada de cerca de dois minutos, testemunhada pela auxiliar. Chegou ao pronto-socorro acordada, confusa por vinte minutos, e uma hora depois não tinha déficit nenhum. Nunca tinha convulsionado. Não tem febre, tosse, suor noturno nem perda de peso, não usa drogas, e a última menstruação foi há duas semanas. A tomografia sem contraste mostrou uma lesão arredondada de 12 mm no lobo frontal esquerdo, com edema em volta; com contraste, realce em anel. Não há desvio da linha média, hidrocefalia nem calcificações. O neurologista de plantão pediu que o interno organizasse o resto do caso.

  1. Primeiro: a crise é do capítulo de crise, e a lesão é deste

    O atendimento da crise, a decisão sobre imagem na primeira crise e a escolha e a dose do antiepiléptico são do capítulo Crise epiléptica e estado de mal epiléptico no adulto. O que muda aqui é a causa: a crise começou na mão direita e a lesão está no lobo frontal esquerdo — é crise com causa estrutural, e a neurocisticercose é a principal hipótese para uma lesão assim em quem cresceu com porcos soltos e sem saneamento.

  2. Segundo: a lesão tem aparência de cisticerco em degeneração, mas a diretriz manda procurar o que imita

    Lesão redonda de 12 mm, dentro dos 5 a 20 mm habituais, sem desvio da linha média e sem bordas irregulares, com realce e edema, é compatível com lesão única em degeneração. A diretriz lembra que tuberculoma, abscesso, metástase, tumor primário e linfoma podem ter a mesma aparência, e que lesão acima de 20 mm, irregular ou com desvio da linha média é mais provavelmente outra coisa. Sem febre, tosse, suor noturno, perda de peso ou gânglio, a história não empurra para tuberculose nem para neoplasia.

  3. Terceiro: a ressonância e a sorologia, antes de qualquer antiparasitário

    A diretriz recomenda tomografia sem contraste e ressonância para classificar o caso novo. A ressonância da Tarcila, feita no dia seguinte, confirma lesão única em degeneração, sem escólex visível, sem outros cistos, sem cisto ventricular ou subaracnóideo e sem hidrocefalia — o que a tomografia sozinha não garantia. O immunoblot é pedido como confirmatório; o ensaio com antígeno bruto não é pedido, pela baixa sensibilidade e especificidade.

  4. Quarto: o que proibiria o antiparasitário, e o que só o adiaria

    Não há hidrocefalia nem edema cerebral difuso, que proibiriam o antiparasitário. O fundo de olho, recomendação forte para todos, é normal. Como a diretriz manda adiar o antiparasitário na gestação, a gravidez é excluída com um teste antes da primeira dose. O corticoide previsto é curto, então o rastreio de tuberculose latente e de Strongyloides, sugerido para o corticoide prolongado, não é necessário aqui.

  5. Quinto: antiepiléptico, porque há lesão e houve crise

    A diretriz recomenda antiepiléptico para todo paciente com lesão única e crise, e diz que a escolha deve seguir disponibilidade, custo, interação e efeitos adversos, porque não há estudo controlado comparando as drogas. No elenco do SUS, carbamazepina, fenitoína e ácido valproico estão no Componente Básico, e o levetiracetam só no Especializado. Numa mulher de 34 anos, pesa na escolha o que a própria diretriz registra na seção de gestação: valproato e fenobarbital têm alta teratogenicidade. A dose e a droga seguem o capítulo de crise.

  6. Sexto: corticoide antes, albendazol pelo peso

    A diretriz sugere albendazol na lesão única, 15 mg/kg/dia em duas tomadas com alimento por uma a duas semanas, e recomenda com força que o corticoide comece antes. Na Tarcila, 15 × 54 = 810 mg/dia, 405 mg por dose: 1 comprimido mastigável de 400 mg de 12/12 h entrega 800 mg/dia, 14,8 mg/kg/dia, por 14 dias — 28 comprimidos. A dose de corticoide não é padronizada; esta vinheta usa a de um dos ensaios controlados que a diretriz cita, dexametasona 6 mg/dia, 2 mg de 8/8 h (meio comprimido de 4 mg), começada na véspera e mantida durante o albendazol. A retirada não é abrupta: a diretriz descreve edema perilesional aparentemente desencadeado ou reativado pela suspensão brusca de corticoide. Com o albendazol até 14 dias, não há exigência de vigilância de hepatotoxicidade e leucopenia, reservada a cursos mais longos.

  7. Sétimo: a pergunta pelo portador da tênia

    A larva veio de ovos eliminados por um portador de tênia — ela mesma ou alguém próximo, talvez décadas atrás. O exame de fezes tem rendimento baixo e não identifica a espécie, e a diretriz sugere a busca na casa sobretudo quando a infecção parece adquirida fora de área endêmica; mesmo assim, perguntar se alguém da família eliminou segmentos nas fezes e avisar a unidade básica que acompanha a família é o que cabe ao hospital. A neurocisticercose não é de notificação nacional.

  8. Oitavo: o seguimento que decide a retirada do antiepiléptico

    Ressonância a cada seis meses até a resolução da lesão. Se ela desaparecer e a Tarcila ficar seis meses sem crise, a diretriz sugere discutir a retirada do antiepiléptico, desde que não haja calcificação ou cisto residual, crise de escape ou mais de duas crises — que são fatores de risco de recorrência. A orientação sobre dirigir é do capítulo de crise. Se a lesão calcificar e as crises voltarem, a hipótese é o edema perilesional em volta da calcificação, que não se trata com antiparasitário.

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Faça você

Rafael Lira, 31 anos, 76 kg, analista de sistemas, procura a unidade básica porque há dez dias notou um caroço doloroso na axila direita, que cresceu. Há cerca de cinco semanas adotou uma filhote de gato que brinca mordendo e arranhando as mãos, e há arranhões cicatrizados no dorso da mão direita. Teve febre baixa nos primeiros dias, e hoje está sem febre. Nega perda de peso, suor noturno e lesões em outras partes do corpo. Não tem doenças conhecidas, não usa medicamentos e nunca fez teste de HIV. Ao exame: gânglio axilar direito de 3,5 cm, doloroso, móvel, sem flutuação; gânglio epitroclear direito de 1 cm; nenhuma outra cadeia palpável; mamas sem alterações; fígado e baço não palpáveis; visão normal.

  1. Diga se a história sustenta o diagnóstico clínico e o que não precisa ser pedido

    Aplique o que a página clínica do CDC diz sobre a forma típica, e diga o que sorologia, biópsia e drenagem acrescentariam ou atrapalhariam neste momento.

  2. Decida entre tratar e observar, e prescreva se tratar

    Use a posição que esta apostila adota na divergência sobre a doença e faça a conta da azitromicina pelo peso contra as apresentações do SUS.

  3. Diga o que tornaria o antibiótico obrigatório

    Liste as situações em que o tratamento deixa de ser escolha, e o que a doença disseminada exige.

  4. Liste o que tiraria o gânglio da hipótese e para onde ele iria

    Diga os achados que fariam deste gânglio outra doença e qual capítulo decide o primeiro exame e o encaminhamento.

  5. Resolva a pergunta sobre o teste de HIV

    Diga se o teste deve ser oferecido e por quê, e qual capítulo é dono dessa conduta.

  6. Marque o retorno e diga o que medir nele

    Defina o que registrar hoje para comparar, quando voltar, e o que antecipa a volta.

Ver como fecharíamos

A história sustenta o diagnóstico clínico: gânglio regional doloroso na cadeia que drena a mão arranhada, com o epitroclear do mesmo lado, em quem adotou uma filhote há cinco semanas, sem sinal de gravidade e sem imunossupressão conhecida. Pela página clínica do CDC, atualizada em 2026, a forma típica se diagnostica pela clínica com exposição compatível e em geral não precisa de teste. A sorologia não ajudaria a decidir — cruza com outras espécies de Bartonella e fica positiva por anos —, e biópsia ou drenagem seriam procedimento sem indicação num gânglio móvel, doloroso e sem flutuação. Na divergência sobre o tratamento, esta apostila adota o CDC: a doença costuma ser autolimitada, e a azitromicina de cinco dias é oferecida com a explicação de que encurta o curso, como decisão compartilhada. Se ele quiser tratar, com 76 kg vale o esquema acima de 45 kg da IDSA: 500 mg no primeiro dia e 250 mg do segundo ao quinto — 1 comprimido de 500 mg e 4 de 250 mg, 1.500 mg no total, todos do elenco do SUS. O antibiótico seria obrigatório se ele fosse imunocomprometido, se estivesse gravemente doente ou se houvesse sinal de doença disseminada — retinite ou queixa visual, dor ou alteração no fígado, sopro novo com febre, que lembra a endocardite com hemocultura negativa do capítulo Endocardite infecciosa: critérios de Duke e profilaxia —, e a doença disseminada pede esquema longo e combinado com infectologista. Sairiam da hipótese um gânglio que endurece e adere, gânglio supraclavicular ou em várias cadeias, febre prolongada, perda de peso, suor noturno ou baço palpável, e a falta de exposição a gato: esse gânglio segue o capítulo Sinais de alarme e diagnóstico precoce de neoplasias na APS, que decide o primeiro exame e o encaminhamento. O teste de HIV deve ser oferecido, porque a imunossupressão que ninguém conhece é o que pode transformar essa infecção autolimitada em doença disseminada; a oferta e o que se faz com o resultado são do capítulo Infecção pelo HIV/AIDS e infecções oportunistas, nesta apostila. Hoje se registram o tamanho do gânglio axilar e do epitroclear, a temperatura e o peso; o retorno fica marcado para algumas semanas, com volta antes se o gânglio crescer ou endurecer, aparecerem outros, voltar a febre, surgir perda de peso ou alteração visual.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

No caso grave, o Guia de Vigilância em Saúde prescreve doxiciclina por via oral ou venosa conforme a gravidade e manda priorizá-la sempre que possível; a doxiciclina injetável é fornecida pelo Ministério da Saúde pelo Componente Estratégico, e por isso se pede à vigilância. O quadro de antibioticoterapia do Guia cita cloranfenicol venoso para o grave, mas a Rename 2024 não tem cloranfenicol injetável — só cápsula, comprimido e suspensão oral. O quinto dia não fecha a indicação: o tratamento começa na suspeita, e o antibiótico que cobre sepse bacteriana soma-se à doxiciclina, sem substituí-la.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Para cada uma das cinco apresentações, escreva uma frase com exposição, manifestação central e primeira decisão. Confira em qual delas o tratamento é urgente mesmo sem resultado confirmatório.

Em 30 dias

Escolha dois casos e altere a gravidade: insuficiência respiratória, comprometimento neurológico ou incapacidade de ingerir líquidos. Faça a passagem ao supervisor com prioridades, exames possíveis e tratamento que não pode esperar.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 45 anos, 80 kg, funcionário de manutenção de um parque urbano à beira de um lago com capivaras, chega a uma unidade de pronto atendimento no terceiro dia de febre de 39,5 °C que começou de repente, com dor de cabeça forte, dor no corpo inteiro e vômitos. Não tem manchas na pele, as plaquetas estão em 118 mil e a unidade já o atendeu ontem como suspeita de dengue. Faça a pergunta que faltou, nomeie a suspeita pela definição de caso sem esperar o exantema, prescreva a doxiciclina pela via e na dose certas, diga o que colher e quando colher de novo, notifique no prazo certo, oriente a família sobre o que observar — e não prescreva antibiótico a quem só foi picado e não tem febre.

Infecções raras de prova – Um carrapato, uma membrana, uma pálpebra, um cisto e um gato — Internato | OsceLabs