115 min de leitura

Clínica MédicaInfectologia

Duas sorologias, um baço e uma úlcera de bordas altas

Doença de Chagas e leishmanioses

Febre depois do açaí, sorologia reagente num exame de rotina, febre longa com baço grande, úlcera indolor que não fecha em três semanas: os três protozoários que o Brasil ainda trata com fármaco de programa. Como confirmar cada um pela fase e pela forma, quem recebe benznidazol e quem não recebe, quem vai para anfotericina B lipossomal, quantos mililitros de antimoniato cabem num dia, e o que se notifica em 24 horas e o que se notifica na semana.

Fontes deste capítulo

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Vigilância em Saúde. 6. ed. rev. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. v. 2. Capítulo 8: Doença de Chagas (p. 851-884), Leishmaniose tegumentar americana (p. 885-900) e Leishmaniose visceral (p. 901-920).

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Portaria SCTIE/MS nº 57, de 30 de outubro de 2018. Aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença de Chagas.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Manual de vigilância da leishmaniose tegumentar. Brasília: Ministério da Saúde, 2017. Edição eletrônica da 2ª edição atualizada. ISBN 978-85-334-2474-6.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Leishmaniose visceral: recomendações clínicas para redução da letalidade. Brasília: Ministério da Saúde, 2011. ISBN 978-85-334-1795-3.

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para manejo da infecção pelo HIV em adultos: módulo 2 — coinfecções e infecções oportunistas. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. ISBN 978-65-5993-611-3. Seções 6 (doença de Chagas e HIV) e 9 (leishmanioses e HIV).

01

Responda antes de ler

Mulher de 26 anos, não gestante, procura atendimento com febre há nove dias e edema de face. Há três semanas participou de uma festa em que foi servido açaí, e dois outros convidados estão internados com miocardite. Qual exame deve ser colhido para confirmar a doença mais cedo?

02

O paciente que você vai ver

Quinta-feira, 10h15, pronto-socorro de um hospital de referência numa capital do Nordeste. A triagem manda para a sala de observação um homem magro, pálido, que entra segurando um lenço dobrado contra o nariz. Felício Teles tem 38 anos, é pedreiro e mora num bairro de periferia onde as casas têm quintal de terra, bananeira e cachorro. Quem fala primeiro é a irmã: ele está com febre há dois meses, perdeu oito quilos, e a barriga cresceu do lado esquerdo.

É a terceira vez que ele procura atendimento. Na primeira, numa unidade de pronto atendimento, anotaram virose e dipirona. Na segunda, um hemograma mostrou anemia e ele saiu com sulfato ferroso. Ninguém palpou o abdome nas duas ocasiões, conta a irmã, porque ele estava de calça e reclamava da garganta. Há uma semana o nariz sangra todos os dias e a gengiva sangra quando ele escova os dentes. Desde anteontem sai secreção do ouvido direito.

Você examina. Temperatura axilar de 38,6 °C, frequência cardíaca de 112 bpm, pressão arterial de 104 x 62 mmHg, frequência respiratória de 20 irpm. Palidez intensa, esclera discretamente amarelada, edema que deixa a marca do dedo nos dois tornozelos. O fígado desce quatro centímetros abaixo do rebordo costal direito. O baço é o achado da manhã: começa sob as costelas esquerdas e termina nove centímetros abaixo delas, firme, indolor, cruzando a linha que vai do rebordo à cicatriz umbilical.

O hemograma da semana passada, que a irmã traz dobrado na bolsa, mostra hemoglobina de 7,1 g/dL, leucócitos de 1.900/mm³ e plaquetas de 61.000/mm³. O de hoje sai às 11h40: hemoglobina de 6,4 g/dL, leucócitos de 1.300/mm³ com 420 neutrófilos, plaquetas de 38.000/mm³. Três linhas caíram em sete dias. A albumina é de 2,6 g/dL e a creatinina está normal.

Um homem com febre e baço palpável, vindo de uma cidade onde a leishmaniose visceral é transmitida, é caso suspeito pela definição do Ministério da Saúde, antes de qualquer exame. O Guia de Vigilância em Saúde recomenda divulgar aos profissionais das áreas com transmissão um alerta de uma linha: ali, todo paciente com febre e esplenomegalia é um caso suspeito. O Felício passou por duas portas sem que a frase fosse lida.

A leishmaniose visceral não tratada mata mais de nove em cada dez doentes, e mata do jeito que o Felício está começando a mostrar: por infecção bacteriana num corpo sem neutrófilos e por sangramento num corpo sem plaquetas. O ouvido que escorre e o nariz que sangra não são detalhes da história; são os dois mecanismos de óbito que o documento federal de redução da letalidade manda procurar na primeira hora.

Enquanto você escreve a evolução, a enfermeira da classificação traz dois recados. O primeiro é de uma mulher de 34 anos, doadora de sangue, que recebeu uma carta do hemocentro dizendo que a triagem sorológica para doença de Chagas foi reagente; ela quer saber se vai morrer do coração, como a mãe. O segundo é do ambulatório de clínica médica: um trabalhador rural de 44 anos está com uma úlcera na perna há sete semanas, indolor, de bordas altas, e já usou três pomadas.

São três protozoários, três vetores e três perguntas diferentes. O Trypanosoma cruzi, transmitido pelas fezes do barbeiro, pelo alimento contaminado, pela placenta e pelo sangue, faz uma fase aguda que se diagnostica procurando o parasito e uma fase crônica que se diagnostica com duas sorologias de princípios diferentes. A Leishmania infantum, transmitida pela picada do flebotomíneo que vive no peridomicílio, perto dos abrigos de animais, invade baço, fígado e medula. As leishmanias dermotrópicas fazem a úlcera que não fecha e, em parte dos doentes, a lesão que destrói a mucosa do nariz.

Os três têm tratamento do programa, distribuído pelo Componente Estratégico da Assistência Farmacêutica, e os três têm armadilhas de prescrição: um esquema de benznidazol que a tabela oficial deixa usar em qualquer peso e o texto do mesmo protocolo reserva a quem pesa mais de 60 kg, ampolas de antimoniato com teto de três por dia, e uma lista de condições que tiram o doente do antimoniato e o levam para a anfotericina B lipossomal.

O capítulo responde, nesta ordem, cinco perguntas: quem é caso suspeito de cada doença e o que se pede primeiro; quando a sorologia decide e quando ela atrapalha; quem recebe benznidazol, quem não recebe e em que dose; quem trata leishmaniose com antimoniato e quem vai para anfotericina; e o que se notifica em 24 horas e o que se notifica na semana. No meio do caminho, o Felício ganha uma prescrição inteira, com miligrama, frasco e mililitro.

03

Quem adoece disso

A doença de Chagas é a doença tropical negligenciada de maior carga no Brasil. Pela estimativa de 2014 adotada no Guia de Vigilância em Saúde de 2024, de 1,0% a 2,4% da população carrega o Trypanosoma cruzi — entre 1,9 e 4,6 milhões de pessoas —, e nos últimos anos a doença figura entre as quatro doenças infecciosas e parasitárias que mais matam no país. O protocolo de HIV de 2024 acrescenta os números que explicam por que o internato encontra tanta gente sem diagnóstico: cerca de 4.400 óbitos por ano têm a doença de Chagas como causa básica, só cerca de 30% dos infectados sabem que estão infectados, e cerca de 1% de quem precisaria de tratamento etiológico chega a recebê-lo.

O mapa da transmissão mudou, e a anamnese precisa acompanhar. O controle vetorial e o controle dos bancos de sangue, a partir da década de 1970, eliminaram a transmissão pelo Triatoma infestans, o barbeiro que colonizava as casas de pau a pique, e reduziram muito a transmissão transfusional. Outras espécies nativas ocuparam o lugar — Triatoma brasiliensis, Panstrongylus megistus, Triatoma pseudomaculata, Triatoma sordida —, e na Amazônia Legal apareceram os casos e surtos por transmissão oral, pelo açaí, pela bacaba e pelo caldo de cana contaminados com o triatomíneo ou com suas fezes. Quem recebeu sangue antes de 1992, ano em que a triagem sorológica entrou nos serviços de hemoterapia, continua sendo alvo de rastreamento.

O doente crônico é o que mais aparece fora da infectologia. Pelo Guia, de cada dez doentes crônicos cerca de três desenvolvem a forma cardíaca, que concentra os óbitos, e cerca de um a forma digestiva, com megaesôfago e megacólon. O protocolo federal de 2018 calcula que de 10% a 30% das pessoas infectadas evoluem para as formas cardíaca, digestiva ou mista de uma a três décadas depois da infecção aguda. O restante permanece na forma indeterminada — sorologia reagente, eletrocardiograma e radiografias normais — e é esse o grupo que chega pela carta do hemocentro, pelo pré-natal ou pelo exame de um parente.

Com o vetor domiciliar controlado, a transmissão da mãe para o filho ficou proporcionalmente mais importante, e continua pouco reconhecida. Na gestante com fase aguda, o protocolo de 2018 registra risco de transmissão congênita entre 22% e 71%; na mãe com HIV e doença de Chagas, o protocolo de HIV descreve transmissão congênita frequente, com recém-nascidos graves. A coinfecção pelo HIV atinge de 1,3% a 5% dos infectados pelo T. cruzi no país, e a reativação ocorre em 20% a 40% dos coinfectados, sobretudo com CD4 abaixo de 200 células/mm³.

Na leishmaniose tegumentar, o Manual de Vigilância de 2017 registra, de 1995 a 2014, média de 25.763 casos novos por ano, com coeficiente de 14,7 casos por 100 mil habitantes — é a série nacional mais recente que os documentos federais em uso trazem. Sete espécies de Leishmania causam a doença no Brasil, e três dominam: Leishmania braziliensis, Leishmania guyanensis e Leishmania amazonensis. A transmissão é pela picada da fêmea do flebotomíneo — mosquito-palha, tatuquira, birigui —, não passa de pessoa a pessoa, e a incubação média é de dois a três meses, podendo ir de duas semanas a dois anos.

A leishmaniose visceral saiu do campo e entrou nas cidades. Na área urbana, o cão é a principal fonte de infecção para o vetor, a Lutzomyia longipalpis, que se adapta ao peridomicílio e fica perto de abrigos de animais. A incubação vai de dez dias a dois anos, com média de dois a seis meses, e só uma pequena parte dos infectados adoece. O documento federal de redução da letalidade, de 2011, registrou a letalidade subindo de 3,4% em 1994 para 5,7% em 2009, com média de 5,8% nos quatro últimos anos da série, concentrada nos menores de 1 ano e nos que têm 50 anos ou mais. Na mesma expansão urbana, as áreas de transmissão cruzaram com a epidemia de aids.

A régua brasileira de cada decisão tem data, e vale conhecê-la antes de prescrever. O tratamento da doença de Chagas segue o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas aprovado em outubro de 2018, ainda citado como régua pelos documentos federais de 2024; o diagnóstico por fase e a notificação seguem o Guia de Vigilância de 2024; a notificação do caso crônico é obrigatória desde a Portaria GM/MS nº 1.061, de maio de 2020, e a lista em vigor é a alterada pela Portaria GM/MS nº 11.211, de maio de 2026.

Nas leishmanioses, a tegumentar segue o Manual de Vigilância de 2017, acrescido da miltefosina, incorporada em primeira linha em 2018 e estendida à criança de 2 a 12 anos por nota técnica de 2025. A visceral segue o Guia de 2024 para a escolha do fármaco, e o documento clínico de 2011, que o Guia de 2024 continua citando, para gravidade, escores e suporte. O paciente coinfectado pelo HIV segue o protocolo de HIV de 2024.

04

Por que acontece o que acontece

O Trypanosoma cruzi entra no ser humano sem picada infectante. O triatomíneo se infecta ao sugar um mamífero com parasitemia alta e, na refeição seguinte, costuma defecar enquanto se alimenta. As formas infectantes estão nas fezes e penetram pelo orifício da picada, pela mucosa — a conjuntiva, quando a pessoa esfrega o olho, dando o edema bipalpebral unilateral do sinal de Romaña — ou pela pele lesada ao coçar. Dentro das células, o parasito vira amastigota, multiplica-se, volta a ser tripomastigota, rompe a célula e cai no sangue para invadir outras. Na transmissão oral, o parasito chega pela mucosa digestiva a partir de alimento contaminado com o inseto ou suas fezes, e o Guia de Vigilância registra morbimortalidade maior do que na transmissão vetorial, com mais insuficiência cardíaca, icterícia e sangramento digestivo.

A fase aguda é a fase do parasito no sangue, e é por isso que o exame dela é o parasitológico direto. Nas primeiras semanas a parasitemia é alta o bastante para aparecer numa gota de sangue a fresco, de preferência com o paciente febril e nos primeiros 30 dias; depois ela cai, e os métodos de concentração — Strout, micro-hematócrito, creme leucocitário — passam a ser a primeira escolha. A sorologia chega atrasada: a IgG precisa de duas amostras com pelo menos 15 dias de intervalo para mostrar soroconversão, e a IgM é técnica complexa, feita em laboratório de referência, com falso-positivo em outras doenças febris. A suscetibilidade é universal, e anticorpos de uma infecção anterior não protegem de uma nova.

Na fase crônica a lógica se inverte. A parasitemia fica baixa e intermitente, o parasito se mantém nos tecidos pela vida inteira, e o exame direto perde sensibilidade. O que permanece é a resposta de anticorpos IgG, e o diagnóstico passa a ser sorológico — com dois testes de princípios diferentes, um escolhido pela sensibilidade e outro pela especificidade: o erro de um método não se repete igual no outro, e dois resultados de naturezas distintas apontando para o mesmo lado valem mais que dois do mesmo método. Quando os dois discordam, um terceiro teste de outro princípio, em nova amostra, desempata. Uma sorologia isolada, reagente ou não, é só metade de um exame.

O dano que dá nome às formas crônicas acontece devagar. No coração, o protocolo federal descreve destruição tecidual progressiva por inflamação contínua, associada à presença de material genético do parasito e à ativação imune, com miocardite crônica e substituição dos miócitos por fibrose; as alterações do eletrocardiograma são o primeiro sinal, e os primeiros sintomas de insuficiência cardíaca costumam levar cerca de 20 anos. No tubo digestivo, a infecção destrói neurônios dos plexos autonômicos: o esôfago e o cólon perdem coordenação motora, dilatam e dão megaesôfago e megacólon. A consequência para a prescrição está no Guia: lesão tardia com fibrose instalada não é revertida pelo tratamento. Por isso o antiparasitário rende mais onde ainda não há lesão — fase aguda, criança, adulto jovem na forma indeterminada — e rende pouco ou nada onde a lesão já está feita.

Duas situações mudam a relação entre parasito e hospedeiro. A primeira é a gestação: a transmissão transplacentária pode ocorrer em qualquer fase da doença da mãe, é muito mais provável na fase aguda, e o leite só transmite na fase aguda — na nutriz crônica, a transmissão durante a amamentação depende de sangramento por fissura mamilar. A segunda é a imunossupressão: sem controle imune, a parasitemia volta a subir, a infecção crônica se reagudiza e o parasito procura o sistema nervoso central, onde forma lesões com efeito de massa, e o miocárdio. O mesmo raciocínio explica uma armadilha de laboratório: como a pessoa imunocompetente na fase crônica pode ter parasitemia detectável por PCR, hemocultura ou xenodiagnóstico, esses métodos positivos não provam reativação; o que prova é o parasito visto ao microscópio no sangue ou no líquor, com meningoencefalite ou miocardite.

A Leishmania infantum faz o caminho oposto: não fica na porta de entrada. A fêmea da Lutzomyia inocula o parasito na pele ao picar, e ele se instala nas células do sistema fagocítico do baço, do fígado, da medula óssea e dos linfonodos — é de lá que o aspirado de medula o recupera. O baço cresce, a medula infiltrada e o baço sequestrador derrubam as três linhas do hemograma, a albumina cai e aparece edema. Neutropenia abre a porta para infecção bacteriana de pele, ouvido e vias respiratórias e urinárias; o sangramento, pelo documento de 2011, não é só plaquetopenia, e envolve disfunção hepática, coagulação intravascular e plaqueta que funciona mal. Há resposta de anticorpos, mas eles quase não protegem, e ficam positivos por muito tempo depois da cura: por isso sorologia reagente sem doença clínica não autoriza tratar, e sorologia não serve para acompanhar o tratado.

As leishmanias da forma tegumentar ficam na pele. A lesão nasce no local da picada e evolui para a úlcera típica, indolor, arredondada, de bordas bem delimitadas e elevadas e fundo avermelhado com granulações grosseiras; a dor, quando aparece, costuma ser infecção secundária. Em parte dos doentes, a doença alcança a mucosa das vias aéreas superiores, principalmente a nasal, e destrói tecido; é na forma mucosa que moram as complicações graves — broncopneumonia por aspiração de secreção, que o Guia aponta como principal causa de óbito dessa forma, e obstrução de laringe por edema ou cicatriz. No começo de qualquer tratamento específico pode haver piora transitória da inflamação, atribuída aos antígenos liberados pela morte do parasito, e por isso o paciente com lesão de laringe fica internado nos primeiros três dias. Na pessoa com HIV e imunossupressão grave, as lesões podem ser atípicas, disseminadas e surgir em áreas não expostas, inclusive genitais.

Os fármacos têm toxicidades previsíveis, e a vigilância à beira do leito sai delas. O antimoniato de meglumina é cardiotóxico de forma dependente da dose e do tempo — achata ou inverte a onda T e alonga o intervalo QT corrigido — e agride fígado, pâncreas e rim; daí o eletrocardiograma, as enzimas, a amilase, a lipase e a creatinina. A anfotericina B lesa o túbulo renal e espolia potássio e magnésio, e a formulação lipossomal faz isso menos que o desoxicolato. O benznidazol dá dermatite em até quase metade dos tratados, neuropatia periférica que pode durar meses e, entre as complicações graves, depressão medular com neutropenia, e interage com o álcool com efeito antabuse. A miltefosina é teratogênica, o que transforma o teste de gravidez e a contracepção em parte do esquema.

Moradia rural com frestas e frutos de palmeira, ao lado de quintal com matéria orgânica e abrigo de animais.
Os cenários ajudam a explorar exposições relacionadas à doença de Chagas e à leishmaniose. Frestas, condições de processamento de alimentos, matéria orgânica e presença de vetores ou reservatórios entram na história epidemiológica. A imagem não comprova contaminação do alimento, infecção do animal nem diagnóstico da pessoa exposta. Ilustração didática original.
05

Como se apresenta de verdade

O que segue está organizado pela porta por onde o doente chega, e não pela taxonomia do parasito: a febre que veio depois de um alimento ou de uma picada, a sorologia reagente de quem não sente nada, a gestante e o recém-nascido, o imunossuprimido, a febre longa com baço grande e a úlcera que não fecha. Em cada porta, o que importa é saber quando você já tem um caso suspeito — porque é a suspeita, e não a confirmação, que dispara o exame certo e, em duas das situações, a notificação.

Este capítulo é dono da doença de Chagas como infecção — fase aguda, fase crônica e suas formas, diagnóstico por fase, quem rastrear, quem trata com benznidazol, reativação e notificação — e das duas leishmanioses inteiras. Ele cede o coração chagásico (estadiamento, ecocardiograma, Holter, anticoagulação, dispositivo e a decisão de tratar a cardiopatia estabelecida) ao capítulo Cardiomiopatias: hipertrófica, dilatada e restritiva, da apostila de Cardiologia; as arritmias aos capítulos Bradiarritmias e bloqueios atrioventriculares e Taquiarritmias supraventriculares e ventriculares no pronto-socorro; a síncope ao capítulo Síncope: estratificação de risco e quem interna; e o megaesôfago ao capítulo Acalasia e distúrbios motores do esôfago, da apostila de Cirurgia do Aparelho Digestivo. O megacólon chagásico não tem capítulo próprio no nível: este capítulo assume o reconhecimento, as medidas clínicas do protocolo e a hora de encaminhar, e deixa o volvo e o fecaloma que obstruem para o capítulo Obstrução intestinal (delgado x cólon, brida, volvo); a técnica cirúrgica eletiva do megacólon segue sem dono no nível.

Percurso de aprendizagem

Unidade 1: Chagas — contexto epidemiológico, confirmação e distinção entre fase, forma clínica e indicação de tratamento.

Unidade 2: leishmaniose visceral — febre, baço, citopenias, risco e suporte, com vigilância da toxicidade.

Unidade 3: doença tegumentar — pele e mucosas, confirmação, extensão e escolha terapêutica. Compare os esquemas somente depois de separar essas apresentações.

Febre depois do açaí ou da picada: a fase aguda da doença de Chagas

A manifestação mais característica da fase aguda é a febre constante, no começo alta, em torno de 38,5 °C a 39 °C, às vezes com picos no fim da tarde, que pode durar até doze semanas e desaparecer sozinha mesmo sem diagnóstico — é assim que muita gente passa para a fase crônica sem nunca ter sabido da aguda. Em volta da febre, a maioria dos doentes tem um quadro inespecífico: prostração, diarreia, vômitos, falta de apetite, cefaleia, dor muscular, linfonodos aumentados, exantema fugaz; a criança pequena fica irritada, com choro fácil.

O que dá peso ao quadro é a síndrome específica, que aparece em parte dos casos: miocardite difusa de gravidade variável, pericardite com derrame e até tamponamento, insuficiência cardíaca, derrame pleural, edema de face, de membros inferiores ou generalizado, tosse, dispneia, dor torácica, palpitações, arritmias, e fígado e baço aumentados de leve a moderado. Os sinais de porta de entrada da transmissão vetorial — o sinal de Romaña e o chagoma de inoculação, lesão furunculoide que não supura e descama depois de duas ou três semanas — são pouco frequentes, e a picada do barbeiro pode dar reação alérgica local ou sistêmica sem que haja infecção. Meningoencefalite aparece sobretudo no lactente e na reativação.

A transmissão oral tem outra cara. Nos surtos estudados, o Guia registra exantema, hemorragia digestiva, icterícia, aminotransferases altas, insuficiência cardíaca mais frequente e mais grave, e ainda enterite, abdome agudo, sangramento nas fezes, choque e hepatite focal. O doente raramente chega sozinho: vem com a família, com os vizinhos da mesma festa ou com os fregueses do mesmo ponto de venda de açaí, e a pergunta que abre o diagnóstico é o que todos comeram juntos nas semanas anteriores.

A definição de caso suspeito de fase aguda organiza a anamnese. É suspeito quem tem febre persistente por mais de sete dias, com ou sem edema, exantema, adenomegalia, hepatomegalia, esplenomegalia, cardiopatia aguda, sangramento ou icterícia, desde que tenha um fator epidemiológico: contato com triatomíneo ou suas fezes, sangue, hemocomponente ou órgão contaminado nos 120 dias anteriores aos sintomas, ou alimento suspeito — fruto in natura como açaí, bacaba e caldo de cana, ou carne de caça crua ou malpassada. Também são suspeitos o recém-nascido de mãe infectada, quem tem sinal de Romaña ou chagoma com contato com triatomíneo, quem se acidentou no laboratório e, mesmo sem sintoma, quem comeu o alimento de um surto recente ou teve contato com triatomíneo nos quatro meses anteriores.

O diferencial é o das febres prolongadas do país: leishmaniose visceral, malária, dengue, febre tifoide, toxoplasmose, mononucleose, esquistossomose aguda, infecção por coxsackievírus, sepse e doenças autoimunes; e, quando há icterícia e sangramento, leptospirose, febre amarela e outras arboviroses, meningococcemia, hepatites virais, febre purpúrica brasileira, hantavirose e riquetsioses. Febre em quem esteve na Amazônia pede também a lâmina do capítulo Malária: diagnóstico e tratamento, e a mesma gota espessa pode mostrar tripanossomas.

A sorologia que chega antes do sintoma: a fase crônica e suas formas

Na fase crônica a doença começa silenciosa e pode ficar assim a vida inteira. Forma indeterminada é a do infectado sem sintomas e sem sinal de comprometimento do coração — clínica, eletrocardiograma e radiografia de tórax normais — nem do tubo digestivo, com avaliação clínica e radiológica normal de esôfago e cólon. Parte desses doentes evolui, anos ou décadas depois, para a forma cardíaca, a digestiva ou a mista.

A suspeita de infecção crônica não depende de quadro clínico: vem dos fatores de risco. Morou ou mora em área com relato de vetor ou de reservatório infectado; morou em casa de estuque, taipa sem reboco, sapê, pau a pique, madeira, ou em habitação suspensa sobre rio nos cenários ribeirinhos da Amazônia; vive em área com transmissão ativa e consome com frequência fruto in natura ou carne de caça; recebeu transfusão antes de 1992; tem parente ou convivente com doença de Chagas, sobretudo mãe ou irmão com infecção comprovada. Quem tem um desses fatores deve ser testado mesmo sem queixa; quem não tem nenhum não deve ser rastreado.

A forma cardíaca aparece como alteração de eletrocardiograma num exame de rotina, como palpitação, síncope, embolia, ou como insuficiência cardíaca de um ventrículo que dilatou sem infarto. O que cabe aqui é suspeitar, confirmar a infecção e mandar o doente com o eletrocardiograma nas mãos: o estadiamento e a conduta cardíaca são do capítulo Cardiomiopatias: hipertrófica, dilatada e restritiva.

A forma digestiva aparece como disfagia que piora devagar, regurgitação e emagrecimento no megaesôfago, e como constipação progressiva, com dias ou semanas sem evacuar, distensão e fecaloma no megacólon. O diferencial da forma digestiva inclui acalasia idiopática, amiloidose, sarcoidose, neurofibromatose, gastroenterite eosinofílica, infecção por Helicobacter pylori, refluxo e tumores; na constipação, entram malignidade, distúrbios metabólicos, amiloidose e esclerose sistêmica. A investigação do esôfago e o manejo do megaesôfago estão no capítulo Acalasia e distúrbios motores do esôfago; o megacólon fica aqui.

O manejo do megacólon chagásico, pelo protocolo federal, é o mesmo do megacólon de outra causa e começa clínico: dieta com muita fibra e muita água, restrição de alimentos constipantes, atender ao desejo de evacuar sem adiar, retirar o que constipa — opioide, diurético, anti-histamínico, anticonvulsivante —, laxativo emoliente ou osmótico, supositório de glicerina e enema. O tratamento cirúrgico e os procedimentos especializados pedem encaminhamento. Duas complicações viram urgência: o fecaloma que não sai com essas medidas e o volvo do sigmoide, que se apresenta como obstrução intestinal com distensão e dor. As duas pertencem ao pronto-socorro cirúrgico e ao capítulo Obstrução intestinal (delgado x cólon, brida, volvo). A pergunta que este capítulo deixa para o plantão costuma faltar: esse paciente com obstrução de cólon é chagásico?

A gestante, o recém-nascido e a mulher que quer engravidar

O rastreamento da doença de Chagas no pré-natal não é universal. O protocolo federal manda testar a gestante sem sorologia prévia que tenha fator de risco, e não recomenda a testagem de rotina da gestante de baixo risco; o exame deve, idealmente, entrar junto com os de HIV, sífilis e hepatite B, sobretudo em área endêmica. O capítulo Exames laboratoriais e sorologias do pré-natal por trimestre, da apostila de Obstetrícia, lista a doença de Chagas entre os exames de caso suspeito; os critérios de quem é suspeito e o caminho da criança estão aqui. Na gestante que chega em trabalho de parto sem exame, o teste rápido pode servir de triagem, e o resultado reagente precisa das duas sorologias.

A gestante com infecção confirmada é avaliada com clínica e eletrocardiograma. Sem alteração, e na fase crônica, faz pré-natal habitual na atenção primária e não recebe tratamento antiparasitário durante a gestação — o risco de transmissão congênita na fase crônica é baixo. A gestante com fase aguda, ou com cardiopatia, vai para o pré-natal de alto risco, com ultrassonografia que procura restrição de crescimento e os outros sinais comuns às infecções congênitas.

Todo recém-nascido de mãe infectada, em qualquer fase, é notificado como suspeito de transmissão vertical. O exame dele é parasitológico, prioritariamente nos dez primeiros dias de vida, com mais de uma amostra; se a mãe tem fase aguda ou coinfecção pelo HIV, a pesquisa é exaustiva até os dois meses. Com parasitológico negativo e sem clínica, a criança volta aos nove meses para duas sorologias IgG de métodos distintos: antes disso, os anticorpos da mãe ainda circulam e o resultado não significa infecção. As duas negativas descartam a transmissão; uma discordância pede o terceiro teste. A criança que não foi testada aos nove meses deve ser testada depois, porque o tratamento nos primeiros anos negativa a sorologia em mais de 95% dos casos.

A amamentação continua na mãe com doença crônica. O leite transmite na fase aguda, e na fase crônica a transmissão só ocorre se houver sangramento por fissura mamilar — é a mesma regra do capítulo Aleitamento materno: manejo, contraindicações e apojadura. Os outros filhos da mulher infectada também precisam de sorologia.

A mulher em idade fértil com doença crônica é o outro lado dessa porta. O protocolo registra que o tratamento antiparasitário pode reduzir o risco de transmissão congênita numa gravidez futura, o que dá a ela um benefício a mais do benznidazol — e exige anticoncepção durante todo o tratamento, porque gestante na fase crônica não recebe o fármaco.

O imunossuprimido: Chagas que reativa e leishmaniose que se comporta como oportunista

A reativação da doença de Chagas acontece em quem tem infecção crônica e perde o controle imune: a pessoa com HIV, sobretudo com CD4 abaixo de 200 células/mm³, o transplantado e quem recebe imunossupressor. O quadro lembra a fase aguda, com febre como manifestação principal, e o parasito prefere o sistema nervoso central — cefaleia, sinais de hipertensão intracraniana, convulsão, déficit motor, coma, com uma ou várias lesões pseudotumorais que podem realçar em anel e se confundem com toxoplasmose e linfoma. O segundo alvo é o coração: insuficiência cardíaca nova ou pior, arritmias, bloqueios. Pericárdio, peritônio, pele, intestino e colo uterino são sítios menos comuns.

A reativação com meningoencefalite ou miocardite é doença definidora de aids desde 2004 para quem tem 13 anos ou mais. Em contexto epidemiológico favorável à doença de Chagas, toda lesão cerebral com efeito de massa numa pessoa com HIV precisa da pergunta sobre o T. cruzi. Por isso a sorologia para doença de Chagas entra na avaliação de toda pessoa com HIV que tenha história epidemiológica compatível, e o protocolo de 2018 manda rastrear, em qualquer idade, quem tem fator de risco e vai ser imunossuprimido — a mesma pergunta que o capítulo Esquistossomose e geo-helmintíases faz antes de prescrever corticoide.

As leishmanioses também mudam de comportamento na pessoa com HIV. O protocolo de HIV de 2024 manda investigar qualquer lesão de pele ou mucosa com mais de duas semanas em quem foi exposto a área de transmissão, e toda hepatomegalia ou esplenomegalia, com ou sem febre e citopenias. Sugerem comportamento oportunista da visceral: doença em quem não teve exposição no último ano, forma clássica sem anticorpos, amastigotas no sangue periférico, órgãos raramente acometidos, falha ou recidiva e infecções de imunodeficiência durante ou depois do tratamento. Na tegumentar, sugerem o mesmo: forma disseminada, mucosa fora da cavidade nasal, forma difusa, parasitos em vísceras, recidiva mais de seis meses depois da cura clínica e lesões cutâneas que surgem depois de uma lesão mucosa ativa.

A terapia antirretroviral, o CD4 e as demais infecções oportunistas são do capítulo Infecção pelo HIV/AIDS e infecções oportunistas. Este capítulo fica com o diagnóstico e o tratamento da parasitose no coinfectado — inclusive a profilaxia secundária da leishmaniose visceral, que não tem outro dono no nível.

Febre longa, baço grande e três linhas caindo: a leishmaniose visceral

A leishmaniose visceral é uma doença crônica e sistêmica de febre longa, emagrecimento, astenia, adinamia, fígado e baço grandes e anemia. Na prática, o paciente suspeito tem febre por mais de sete dias com palidez, esplenomegalia, hepatomegalia ou emagrecimento. A definição de vigilância é ainda mais curta: é caso suspeito todo indivíduo de área com transmissão que tenha febre e esplenomegalia; fora de área com transmissão, o mesmo quadro é suspeito depois de descartados os diagnósticos mais frequentes da região.

O hemograma costuma mostrar as três linhas em queda, e a bioquímica, albumina baixa com as frações de globulina alteradas. As complicações mais comuns são infecciosas — otite média aguda, piodermites, infecção urinária e respiratória — e, sem antibiótico, o quadro pode evoluir para sepse. Os sangramentos vêm geralmente da plaquetopenia, e os mais frequentes são epistaxe e gengivorragia. Hemorragia digestiva e icterícia, quando aparecem, marcam gravidade.

O documento de 2011 lista os fatores associados ao óbito, e você os procura no primeiro atendimento. Clínicos: idade abaixo de 1 ano ou acima de 40 anos, infecção bacteriana, recidiva ou reativação, diarreia ou vômitos, edema, febre há mais de 60 dias, icterícia, fenômenos hemorrágicos, sinais de toxemia, desnutrição grave e comorbidades. Laboratoriais: leucócitos abaixo de 1.000/mm³ ou acima de 7.000/mm³, neutrófilos até 500/mm³, plaquetas abaixo de 50.000/mm³, hemoglobina até 7,0 g/dL, creatinina acima do valor de referência, atividade de protrombina abaixo de 70% ou INR acima de 1,14, bilirrubina elevada, aminotransferases acima de cinco vezes o limite e albumina abaixo de 2,5 g/dL. Nenhum fator isolado define gravidade; é por isso que existem os escores, que estão na investigação.

O diferencial inclui enterobacteriose de curso prolongado — a salmonela associada à esquistossomose —, malária, brucelose, febre tifoide, esquistossomose hepatoesplênica, fase aguda da doença de Chagas, linfoma, mieloma múltiplo, anemia falciforme e leucemia. A leitura da pancitopenia está no capítulo Hemograma: como ler de verdade, a esquistossomose hepatoesplênica no capítulo Esquistossomose e geo-helmintíases, e a criança com febre, palidez e baço, que também é suspeita de leucemia, no capítulo Leucemia linfoblástica aguda: sinais de alerta e diagnóstico precoce.

Crianças e idosos são mais suscetíveis. A leishmaniose visceral da criança não tem capítulo na apostila de Infectologia Pediátrica; este capítulo assume as regras que valem para todas as idades — definição de caso, confirmação, lista de indicação da anfotericina B lipossomal com o corte de menos de 1 ano, escores e notificação. Infecção não é doença: quem tem sorologia reagente ou parasitológico positivo sem manifestação clínica não é notificado nem tratado.

A úlcera de bordas altas e a lesão que destrói o nariz: a leishmaniose tegumentar

É caso suspeito de leishmaniose cutânea quem tem lesão de pele, ulcerada ou não, com três semanas ou mais de evolução e mora em área de transmissão ou esteve exposto a ela; de leishmaniose mucosa, quem tem lesão de mucosa das vias aéreas superiores, principalmente nasal, com a mesma exposição. A lesão cutânea pode ser única ou múltipla, disseminada — muitas lesões em várias partes do corpo — ou difusa, forma rara e grave de placas e nódulos que se confunde com a hanseníase virchowiana. A recidiva cútis é a lesão que volta na borda da cicatriz de uma úlcera já curada.

A úlcera típica não dói, é redonda ou oval, tem bordas bem delimitadas e elevadas e fundo avermelhado com granulação grosseira. A dor, a secreção purulenta e o eczema em volta costumam ser infecção secundária e reação às pomadas que o doente já usou. Na forma mucosa, a queixa começa como obstrução nasal, crosta, sangramento e secreção; a lesão destrói o septo e pode chegar ao palato, à faringe e à laringe. Cicatriz antiga de lesão cutânea é critério complementar para confirmar a forma mucosa.

As complicações pesam na conduta. A lesão nasal pode dar rinite purulenta, sinusite e broncopneumonia por aspiração, que é a principal causa de óbito da forma mucosa; a lesão grande do meio do rosto chega a complicar com trombose do seio cavernoso; lesões de nariz, boca e faringe dão sialorreia, dificuldade para engolir e desnutrição; a lesão avançada de laringe pode tirar a voz e obstruir a via aérea, obrigando traqueostomia de urgência. Há ainda lesão conjuntival, miíase, meningite por extensão de lesão da face e alteração de voz que persiste depois da cura. O próprio antimoniato pode causar perda auditiva neurossensorial bilateral, quase sempre irreversível, sobretudo em mulheres, idosos e em quem já tinha perda auditiva.

O diferencial da forma cutânea localizada é longo e muda o exame que se pede: tuberculose e micobacterioses atípicas, paracoccidioidomicose, úlcera de estase venosa, úlcera da anemia falciforme, picada de inseto, granuloma de corpo estranho, ceratoacantoma, carcinoma basocelular e espinocelular, histiocitoma, linfoma cutâneo, esporotricose, cromoblastomicose, piodermites e trauma. Na forma mucosa, entram paracoccidioidomicose, carcinoma, linfoma, rinofima, rinosporidiose, entomoftoromicose, hanseníase virchowiana, sífilis terciária, perfuração de septo por trauma ou por uso de drogas, granulomatose com poliangiite e sarcoidose.

A hanseníase é do capítulo Hanseníase: formas clínicas, diagnóstico e poliquimioterapia, e o ectima e as piodermites, do capítulo Escabiose, pediculose e infecções bacterianas cutâneas (impetigo, erisipela), que lembra exatamente a leishmaniose diante da úlcera de perna que dura meses. A lesão genital da pessoa com HIV que não fecha deve incluir a leishmaniose ao lado das causas do capítulo Úlceras genitais: sífilis, herpes, cancro mole e linfogranuloma. Todo paciente com leishmaniose tegumentar deve receber a oferta de sorologia para HIV, em qualquer idade.

06

Como fechar o diagnóstico

A investigação tem uma pergunta central por situação. Na fase aguda da doença de Chagas: onde está o parasito no sangue. Na fase crônica: se dois métodos diferentes concordam. No recém-nascido e no imunossuprimido: se o parasito aparece no sangue ou no líquor, e quando o anticorpo mente. Na leishmaniose visceral: qual teste confirma e quanto o doente pontua nos escores de gravidade. Na tegumentar: se o parasito está na borda da lesão.

Duas perguntas atravessam as três doenças. A primeira é o HIV, que muda o teste que confirma, o fármaco que trata e o risco de recidiva: a sorologia é oferecida a todo paciente com leishmaniose visceral ou tegumentar, e a sorologia para doença de Chagas entra na avaliação de toda pessoa com HIV que tenha epidemiologia. A segunda é a notificação, que em duas situações — fase aguda de Chagas e leishmaniose visceral — começa na suspeita, antes de qualquer resultado.

Fase aguda de Chagas: procure o parasito, colha a sorologia junto e notifique antes do resultado

Na suspeita de fase aguda, colha de uma vez o sangue periférico para os exames parasitológicos e para a sorologia. O parasitológico é o exame desta fase. O exame a fresco, feito com uma gota de sangue entre lâmina e lamínula, sai em minutos, detecta mais que a lâmina corada e rende mais se o sangue for colhido com febre e antes de o quadro completar 30 dias. Depois de 30 dias, com a parasitemia caindo, a primeira escolha passa a ser um método de concentração — Strout, micro-hematócrito ou creme leucocitário —, com a amostra examinada em até 24 horas, antes que os parasitos se desfaçam. A gota espessa e o esfregaço são menos sensíveis e são feitos sobretudo na Amazônia Legal, junto com a pesquisa de malária; na parasitemia alta, o tripanossoma pode aparecer por acaso na lâmina da contagem diferencial de leucócitos.

Faça diferentes exames diretos ao mesmo tempo. No assintomático exposto — o comensal do surto —, a coleta começa uma semana depois da exposição. Se o exame a fresco e o de concentração vierem negativos na primeira coleta, repita a coleta até confirmar o caso, até os sintomas da fase aguda desaparecerem ou até outra hipótese se confirmar: um parasitológico negativo não descarta a doença.

A sorologia não é o exame mais indicado nesta fase, mas é sempre colhida nos casos suspeitos e confirmados e enviada ao laboratório central de saúde pública. A IgG confirma a fase aguda por soroconversão entre duas amostras colhidas com intervalo mínimo de 15 dias, idealmente processadas juntas, ou por aumento de pelo menos duas diluições na imunofluorescência — de 1:80 para 1:320, por exemplo. A IgM por imunofluorescência é feita no laboratório de referência nacional ou em laboratório central habilitado, exige quadro clínico e epidemiologia compatíveis, rende mais na fase aguda tardia e precisa de 15 dias ou mais entre o início dos sintomas e a coleta; o corte é 1:40 para IgM e 1:80 para IgG, e uma IgM não reagente só descarta o caso depois da IgG. A reação de fixação de complemento não é mais usada. A PCR só vale feita pelo laboratório de referência ou por serviço com protocolo validado por ele.

O critério clínico-epidemiológico é exceção. Ele só confirma fase aguda quando três condições coexistem: vínculo com caso confirmado por laboratório num surto de transmissão oral, ou contato direto com triatomíneo infectado ou suas fezes; quadro clínico compatível, sobretudo febre; e ao menos uma IgG reagente, mesmo sem soroconversão. No doente internado, a epidemiologia pode sustentar o tratamento empírico enquanto a sorologia não chega — e, se as sorologias seguirem negativas, o tratamento específico é suspenso.

Para avaliar o estado geral do doente agudo, o Guia sugere hemograma com plaquetas, urina tipo I, provas de função hepática, radiografia de tórax, eletrocardiograma, tempo de tromboplastina parcial ativada, endoscopia digestiva alta, ecocardiograma e líquor. Na prática, cada exame responde a uma pergunta do quadro: o eletrocardiograma e o ecocardiograma, à miocardite e ao derrame pericárdico; a endoscopia, ao sangramento digestivo da transmissão oral; o líquor, ao doente com sinal neurológico, sobretudo o lactente.

A notificação vem antes do resultado. Caso suspeito de fase aguda é comunicado ao município e ao estado em até 24 horas da suspeição, por telefone ou outro meio rápido, e registrado na ficha de investigação de doença de Chagas aguda do Sinan; o surto de transmissão oral é notificado também na ficha de investigação de surto de doenças transmitidas por alimentos. A investigação do surto é da vigilância e dos capítulos Vigilância epidemiológica e investigação de surto e Vigilância sanitária, ambiental e em saúde, da apostila de Medicina Preventiva e Saúde Coletiva; o que cabe a você é não deixar ninguém que comeu o mesmo alimento sem exame.

Fase crônica: duas sorologias, a terceira quando discordam, e o que se pede depois

O diagnóstico da fase crônica é sorológico e exige dois testes de IgG baseados em princípios distintos, ou com preparações antigênicas diferentes, entre os disponíveis: ensaio imunoenzimático, imunofluorescência indireta, hemaglutinação indireta e quimioluminescência. Os dois reagentes confirmam o caso. Os dois não reagentes o descartam. Um reagente e outro não reagente pedem um terceiro teste de princípio distinto, em nova amostra de sangue.

O teste rápido tem lugar definido. Ele serve como triagem inicial onde não há rede laboratorial adequada, onde o acesso ao serviço é difícil e na gestante com suspeita durante o pré-natal ou em trabalho de parto. Resultado negativo descarta a doença; resultado positivo precisa das sorologias convencionais. A carta do hemocentro é outro tipo de triagem: o banco de sangue exclui o doador por um resultado de rastreamento, e o diagnóstico da pessoa ainda precisa das duas sorologias.

Hemocultura e xenodiagnóstico — este feito só na forma artificial, em que o inseto é alimentado com o sangue do paciente por membrana — ficam para sorologias inconclusivas e para verificar o efeito de um fármaco tripanocida. A PCR é de uso restrito e não confirma nem descarta sozinha a doença, em nenhuma das fases.

Com a infecção confirmada, todo doente faz eletrocardiograma e radiografia de tórax. Eletrocardiograma alterado pede ecocardiograma e, quando possível, Holter, e o caminho segue no capítulo Cardiomiopatias: hipertrófica, dilatada e restritiva. Suspeita de megaesôfago pede radiografia contrastada do esôfago; suspeita de megacólon, enema opaco. Na forma indeterminada, o eletrocardiograma é repetido uma vez por ano. Sorologia de controle depois do tratamento etiológico, na fase crônica, não é rotina.

Confirmado o caso crônico, a notificação é semanal, pelo formulário do e-SUS Notifica — e só depois da confirmação, nunca na suspeita. A mesma confirmação abre a investigação da família: pais, irmãos e filhos, e quem conviveu com o doente no mesmo contexto epidemiológico, recebem a oferta de sorologia.

O recém-nascido e o imunossuprimido: onde o anticorpo não responde

No recém-nascido de mãe sororreagente, a sorologia do começo da vida mede os anticorpos da mãe, e o exame que vale é o parasitológico direto, prioritariamente nos dez primeiros dias, com mais de uma amostra. Se a mãe tem fase aguda ou coinfecção pelo HIV, a pesquisa é exaustiva até os dois meses, somando exames diretos, xenodiagnóstico artificial e hemocultura. Parasitológico positivo ou PCR detectável a partir do nascimento confirma a transmissão vertical; parasitológico negativo sem clínica leva a criança às duas sorologias IgG a partir dos nove meses. Se o seguimento corre risco de se perder, a testagem pode ser antecipada para entre seis e nove meses, aceitando mais falso-positivos.

A vigilância trata a criança infectada pela mãe como caso agudo até os 3 anos; depois disso, notifica como crônico. O Sinan encerra automaticamente a notificação do recém-nascido exposto em 60 dias, e por isso a criança com parasitológico negativo que faz a sorologia dos nove meses é notificada de novo, com o resultado, para confirmar ou descartar.

No imunossuprimido com suspeita de reativação, o raciocínio é o da fase aguda: procurar o parasito. Os métodos diretos no sangue disponíveis são o creme leucocitário e o micro-hematócrito; no líquor, o parasito é pesquisado no sedimento do material centrifugado; líquido ascítico e pericárdico também servem. Exame direto negativo não exclui reativação e deve ser repetido no sangue e no líquor. A sorologia pode falhar pela própria imunossupressão, e hemocultura, xenodiagnóstico e PCR positivos não provam reativação, porque a infecção crônica do imunocompetente pode dar esses resultados.

A imagem completa a investigação da reativação no sistema nervoso central: lesões únicas ou múltiplas, iso ou hipodensas, de aspecto pseudotumoral, com ou sem realce em anel e com ou sem efeito de massa. A reativação está confirmada no doente com diagnóstico prévio de fase crônica que tem o parasito no exame direto do sangue ou de outro líquido e meningoencefalite ou miocardite.

Leishmaniose visceral: qual teste confirma

O teste rápido imunocromatográfico com antígeno recombinante, o rK39, é o exame de entrada: é positivo quando aparecem a linha de controle e a linha de teste, e um resultado reagente confirma o caso sem necessidade de outro teste imunológico ou parasitológico. A imunofluorescência indireta é positiva a partir de 1:80; título de 1:40 com clínica sugestiva pede repetir a coleta depois de 30 dias. O SUS não oferece o ensaio imunoenzimático para essa doença. Na pessoa com HIV, o teste rápido tem sensibilidade baixa e um resultado negativo não afasta a doença.

O parasitológico é o padrão-ouro. O material vem, de preferência, da medula óssea, por ser o procedimento mais seguro; linfonodo e baço também servem, e a punção do baço só se faz em ambiente hospitalar e em condições cirúrgicas. O aspirado é examinado diretamente, semeado em meio de cultura e, em laboratório de referência, submetido a métodos moleculares — o caminho quando o parasitológico e a sorologia são negativos ou inconclusivos num doente com quadro sugestivo, sobretudo com HIV.

Estão confirmados os casos suspeitos com parasito no exame direto ou na cultura, com teste rápido reagente ou com imunofluorescência de 1:80 ou mais, excluídos os outros diagnósticos. Na área com transmissão e sem confirmação laboratorial, o critério clínico-epidemiológico é a resposta favorável ao tratamento. O caso novo é a primeira confirmação, ou a volta dos sintomas mais de 12 meses depois da cura clínica sem imunodeficiência; a recidiva é a volta dos sintomas em até 12 meses.

Dois limites do anticorpo guiam a interpretação. Títulos sorológicos podem ficar positivos por muito tempo depois do tratamento, e por isso sorologia não serve para seguimento. E um teste positivo sem manifestação clínica é infecção, não doença: não autoriza tratamento e não é notificado.

Todo caso suspeito de leishmaniose visceral é notificado e investigado, na ficha de investigação da doença no Sinan — a notificação começa na suspeita, antes da confirmação. A investigação epidemiológica, que pergunta se o caso é autóctone ou importado e informa o local provável de infecção, é da vigilância.

Leishmaniose visceral: medir a gravidade antes de escolher o fármaco

Diante da suspeita, o documento de 2011 manda colher, além da sorologia e do aspirado, hemograma com plaquetas, velocidade de hemossedimentação, creatinina, ureia, aminotransferases, atividade de protrombina, albumina, globulina, fosfatase alcalina, bilirrubinas e amilase, e oferecer o teste de HIV a todo paciente com leishmaniose visceral. Se há suspeita de infecção bacteriana, entram radiografia de tórax, bacterioscopia das secreções, hemocultura e urocultura, colhidas antes do antibiótico. Esta apostila acrescenta o eletrocardiograma de base em todo paciente — a razão está nas divergências.

Com esses dados na mão, calcule o escore do documento de 2011. No paciente com mais de 2 anos, o modelo clínico dá 1 ponto para idade de 20 a 40 anos e 2 pontos acima de 40; 1, 2 ou 3 pontos para sangramento em 1 a 2, 3 a 4 ou 5 a 6 sítios; 2 pontos para aids; e 1 ponto cada para edema, icterícia, dispneia e infecção bacteriana, com máximo de 11. O modelo clínico-laboratorial usa os mesmos itens — com a aids valendo 3 — e soma 2 pontos para leucócitos abaixo de 1.500/mm³, 3 para plaquetas abaixo de 50.000/mm³ e 3 para insuficiência renal, definida por filtração glomerular estimada abaixo de 60 ou creatinina acima do limite para a idade, com máximo de 20.

Na criança de até 2 anos, o modelo é outro: 1 ponto para idade abaixo de 12 meses; 1, 2 ou 4 pontos para sangramento em 1 a 2, 3 a 4 ou 5 a 6 sítios; edema valendo 1 no modelo clínico e 2 no clínico-laboratorial; icterícia 1 só no clínico; dispneia 1; e, no clínico-laboratorial, 3 pontos para aminotransferase acima de 100 UI/L. O documento separa as duas idades de forma imprecisa, e o defeito está no critério.

Os cortes são os mesmos nas duas idades: escore clínico de 4 ou mais, ou clínico-laboratorial de 6 ou mais, identifica o doente com risco aumentado de morrer. Esse doente é tratado em hospital, e o Guia de 2024 põe os dois cortes na lista de indicação da anfotericina B lipossomal. Abaixo dos cortes, e sem outra indicação da lista, o tratamento pode ser ambulatorial, com profissional capacitado.

Sinais de toxemia mudam a conduta na hora, qualquer que seja o escore. Alteração da perfusão de órgãos, perfusão periférica ruim, alteração do estado de consciência, taquipneia, taquicardia, hipotensão, oligúria ou distúrbio da coagulação levam ao diagnóstico presuntivo de sepse e ao antibiótico empírico logo depois das culturas.

Leishmaniose tegumentar: o parasito na borda da lesão

O diagnóstico presuntivo é clínico e epidemiológico, mas o tratamento deve começar, sempre que possível, com confirmação laboratorial — e com confirmação parasitológica antes de tratar quando a evolução foge do habitual ou quando houve má resposta a tratamento anterior. Onde não há acesso a laboratório, o caso suspeito com exposição a área com transmissão confirmada pode ser confirmado pelo critério clínico-epidemiológico.

O parasito é procurado por escarificação da borda da lesão, por impressão em lâmina de fragmento de biópsia e por punção aspirativa. A biópsia da borda também vai para cultura, que permite identificar a espécie, e para histopatologia, que mostra a dermatite granulomatosa difusa ulcerada típica e é o exame que afasta os diferenciais que mudam tudo — carcinoma, esporotricose, micobactéria, paracoccidioidomicose. A PCR tem alta sensibilidade e especificidade. A intradermorreação de Montenegro aparece na definição de caso como critério imunológico de confirmação.

Meça as lesões antes de tratar. O tamanho entra no acompanhamento e na escolha da via: a infiltração intralesional só é opção para lesão única de até 3 cm no maior diâmetro, fora da cabeça e das regiões periarticulares, em quem não é imunossuprimido. Lesão de mucosa pede avaliação otorrinolaringológica em centro de referência; lesão de laringe ou faringe muda o local do tratamento.

Antes do fármaco, avalie o que o limita. Idade, doença cardíaca, renal ou hepática, transplante, uso de medicamento que prolonga o QT e gestação mudam a primeira escolha, e por isso entram na anamnese de todo doente. O antimoniato exige eletrocardiograma, hemograma, ureia, creatinina, amilase, lipase, aminotransferases, bilirrubinas e fosfatase alcalina de base; a gestação contraindica o antimoniato e a miltefosina, e deve ser afastada na mulher em idade fértil. A sorologia para HIV é oferecida a todo paciente, e o resultado precisa chegar logo, porque muda a droga.

A leishmaniose tegumentar é de notificação compulsória para todo caso confirmado, pela ficha de investigação do Sinan. O caso importado é notificado também ao serviço de vigilância do local provável de infecção.

07

Quem trata com quê, quantos mililitros cabem num dia, e onde os documentos se contradizem

Este capítulo exige três percursos distintos: Chagas, leishmaniose visceral e leishmaniose tegumentar. O objetivo é reconhecer cada apresentação, confirmar de forma apropriada e acompanhar resposta e toxicidade, sem somar as três doenças em uma lista de medicamentos. Quatro tabelas, com eixos próprios, respondem às perguntas de plantão: quem recebe tratamento etiológico da doença de Chagas e onde acompanha; na leishmaniose visceral, quem recebe antimoniato e quem vai para anfotericina B lipossomal; na tegumentar, qual é a primeira escolha para cada paciente; e quanto cada esquema dá em comprimido, frasco e mililitro num adulto de 70 kg, com as apresentações da Rename 2024. As oito notas do fim registram os pontos em que os documentos em uso se contradizem de um jeito que muda a prescrição, cada um com a conta e com o lado que esta apostila adota.

  1. 1Febre por mais de sete dias com fator epidemiológico para doença de Chagas — contato com triatomíneo, transfusão ou órgão nos 120 dias anteriores, alimento suspeito — é caso suspeito de fase aguda: colha parasitológico e sorologia juntos e notifique ao município e ao estado em até 24 horas.
  2. 2Parasito no sangue confirma a fase aguda e autoriza o benznidazol imediato; parasitológico negativo com suspeita mantida pede nova coleta, e a sorologia complementa sem atrasar o tratamento do doente internado.
  3. 3Sem quadro agudo, mas com fator de risco para infecção crônica — casa de taipa ou pau a pique, área com vetor, transfusão antes de 1992, mãe ou irmão infectado —, peça duas sorologias IgG de princípios diferentes; se discordarem, a terceira em nova amostra.
  4. 4Infecção crônica confirmada: eletrocardiograma e radiografia de tórax em todos, notificação semanal pelo e-SUS Notifica e oferta de sorologia a pais, irmãos, filhos e conviventes.
  5. 5Decida o benznidazol pela fase, pela forma e pela idade: fase aguda, reativação, criança, adolescente e adulto com menos de 50 anos na forma indeterminada ou digestiva tratam; a partir de 50 anos, não de rotina; cardiopatia inicial é decisão compartilhada com a cardiologia; cardiopatia avançada e gestante na fase crônica não tratam.
  6. 6Recém-nascido de mãe infectada: notifique como suspeito, faça parasitológico nos dez primeiros dias e, se vier negativo e a criança estiver bem, duas sorologias IgG a partir dos nove meses.
  7. 7Febre e esplenomegalia em quem vem de área com transmissão de leishmaniose visceral: notifique a suspeita e peça teste rápido rK39, hemograma, bioquímica, HIV e eletrocardiograma; teste rápido negativo com suspeita mantida leva ao aspirado de medula óssea.
  8. 8Calcule o escore de gravidade: clínico de 4 ou mais, ou clínico-laboratorial de 6 ou mais, interna e recebe anfotericina B lipossomal; antes de prescrever antimoniato, percorra a lista inteira de indicação da lipossomal.
  9. 9Lesão de pele com três semanas ou mais em pessoa exposta: confirme o parasito na borda, meça a lesão, ofereça HIV, afaste gestação e escolha o fármaco por idade, comorbidade, forma clínica e espécie predominante na região.
  10. 10Forma mucosa vai ao centro de referência com otorrinolaringologista; lesão de laringe ou faringe começa o tratamento internada.
  11. 11Siga a cura clínica, não a sorologia: na visceral, a febre some por volta do quinto dia e o baço encolhe; na tegumentar, a úlcera epiteliza até o 90º dia e perde crosta e infiltração até o 180º.
QuemTratamento etiológicoOnde acompanharO que não fazer
Fase aguda, em qualquer idade, inclusive a criança infectada pela mãeBenznidazol imediato; nifurtimox se o benznidazol não for toleradoAtenção primária se não grave; serviço especializado com miocardite, encefalite ou outra forma graveEsperar a sorologia para tratar quem já tem parasito no sangue
Reativação no imunossuprimido, com parasito no sangue ou no líquorBenznidazol no esquema da fase aguda; nifurtimox na intolerância ou falhaInternação e centro de referênciaTomar PCR, hemocultura ou xenodiagnóstico positivos como prova de reativação
Forma crônica indeterminada ou digestiva, criança e adolescenteBenznidazol; nifurtimox como segunda linhaAtenção primáriaAdiar o tratamento porque a criança não tem sintoma
Forma crônica indeterminada ou digestiva, adulto com menos de 50 anosBenznidazol, em decisão compartilhada; na mulher em idade fértil, com anticoncepção durante todo o tratamentoAtenção primáriaUsar nifurtimox nesse grupo
Forma crônica indeterminada ou digestiva, adulto com 50 anos ou maisNão tratar de rotina; considerar, sem contraindicação e em decisão compartilhada, sobretudo quem se infectou adulto, sem comorbidade e com longa expectativa de vidaAtenção primáriaPrometer que o antiparasitário melhora o esôfago ou o cólon
Forma cardíaca inicial: eletrocardiograma alterado, fração de ejeção acima de 40%, sem insuficiência cardíaca nem arritmia graveTratar ou não tratar com benznidazol são alternativas válidas, em decisão compartilhadaCardiologia, pelo capítulo CardiomiopatiasUsar nifurtimox
Forma cardíaca avançadaNão tratarCardiologiaOferecer antiparasitário como tratamento da insuficiência cardíaca
GestanteFase aguda grave: tratar em qualquer idade gestacional; aguda não grave no primeiro trimestre: aguardar o segundo, com decisão informada; fase crônica: não tratar na gestaçãoAguda ou com cardiopatia: pré-natal de alto risco; crônica sem comorbidade: atenção primáriaIniciar benznidazol na gestante crônica para proteger o bebê
Pessoa com HIV na fase crônica, sem reativação e sem tratamento prévioBenznidazol, pesando o estado imune pelo risco de síndrome inflamatória de reconstituiçãoServiço especializadoPedir PCR quantitativa de rotina para caçar reativação sem sintoma

Leishmaniose visceral: fármaco, lugar e vigilância durante o tratamento

PacienteFármaco e esquemaOndeO que vigiar
Escore clínico abaixo de 4 e clínico-laboratorial abaixo de 6, sem nenhuma condição das linhas seguintesAntimoniato de meglumina 20 mg de Sb5+/kg/dia, EV lenta ou IM, uma vez ao dia, por 20 a 40 dias; teto de 3 ampolas por diaAmbulatório com profissional capacitadoEnzimas hepáticas, função renal, amilase e lipase; eletrocardiograma de base em todos e semanal até o fim acima de 40 anos ou com antecedente familiar de cardiopatia
Escore clínico de 4 ou mais, ou clínico-laboratorial de 6 ou maisAnfotericina B lipossomal 3 mg/kg/dia por 7 dias ou 4 mg/kg/dia por 5 dias, EV em 30 a 60 minutosHospital de referênciaCreatinina, potássio e magnésio; hemograma; sinais de toxemia; necessidade de antibiótico e de hemocomponente
Menos de 1 ano ou mais de 50 anos; insuficiência renal, hepática ou cardíaca; QTc acima de 450 ms ou fármaco que alonga o QT; hipersensibilidade ao antimoniato; falha terapêuticaAnfotericina B lipossomal, no mesmo esquemaHospital de referência se o escore estiver alto; nos demais, onde o serviço de referência definirCreatinina acima de duas vezes o limite: suspender de 2 a 5 dias e retomar em dias alternados
GestanteAnfotericina B lipossomal, única opçãoReferência, com pré-natal de alto riscoFunção renal e potássio
HIV, outra doença que compromete a imunidade ou uso de imunossupressorAnfotericina B lipossomal; profilaxia secundária a cada 2 ou 4 semanas se o CD4 estiver abaixo de 350 células/mm³ no diagnósticoReferência, com o serviço de HIVRecidiva; a terapia antirretroviral segue o capítulo de HIV
Doente de maior risco sem acesso possível à anfotericina BAntimoniato de meglumina no mesmo esquemaHospitalAcompanhamento rigoroso de eventos adversos e de complicações das comorbidades; resposta mais lenta

Leishmaniose tegumentar: primeira escolha para cada paciente

PacientePrimeira escolhaEsquemaNão use
Forma cutânea localizada, menos de 50 anos, sem doença cardíaca, renal ou hepática, não gestante, fora de área de predomínio de Leishmania guyanensisAntimoniato de meglumina EV ou IM; a miltefosina oral, incorporada em primeira linha, é a outra opção15 mg de Sb5+/kg/dia (faixa de 10 a 20) por 20 dias, até 3 ampolas ou 15 mL por dia; sem cicatrização em 12 semanas, repetir por 30 diasDose acima de 3 ampolas por dia
Lesão única de até 3 cm, fora da cabeça e das regiões periarticulares, sem imunossupressão, inclusive recidiva cútisAntimoniato intralesional, por profissional capacitado, como outra opçãoUma a três aplicações subcutâneas de cerca de 5 mL, com intervalo de 15 diasInfiltração em lesão de cabeça ou junto a articulação
Área de predomínio de Leishmania guyanensisIsetionato de pentamidina4 mg/kg por dose, 3 doses, com intervalo de 72 horas IM ou 48 horas EV, até 300 mg por dosePentamidina em gestante, lactante, diabético ou com doença renal, hepática ou cardíaca
50 anos ou mais; insuficiência renal, cardíaca ou hepática; transplantadoAnfotericina B lipossomalCutânea: 2 a 3 mg/kg/dia até 20 a 40 mg/kg de dose total; mucosa: 3 mg/kg/dia até 35 a 40 mg/kg, posição desta apostilaAntimoniato sistêmico como primeira escolha
GestanteAdiar para depois do parto; se não puder, anfotericina B lipossomal em centro de referênciaComo na linha anteriorAntimoniato e miltefosina
Forma mucosa, acima de 12 anos, sem HIV nem imunossupressão, sem sangramento recente, fora das condições acimaAntimoniato de meglumina com pentoxifilina, em centro de referência com otorrinolaringologistaAntimoniato 20 mg de Sb5+/kg/dia por 30 dias, até 3 ampolas; pentoxifilina 400 mg três vezes ao dia por 30 diasPentoxifilina abaixo de 12 anos, na gestante e na nutriz
Coinfecção pelo HIV ou outra imunossupressãoAnfotericina B desoxicolato; lipossomal se 50 anos ou mais, doença renal, cardíaca ou hepática ou gestação0,7 a 1 mg/kg/dia, diário ou em dias alternados, até 50 mg por dia, total de 25 a 40 mg/kgMiltefosina antes de falha do tratamento-padrão
Criança de 2 a 12 anos com forma cutâneaMiltefosina oral2,5 mg/kg/dia em 2 ou 3 tomadas, com as refeições, até 100 mg por dia, por 28 diasMiltefosina na forma mucosa da criança
Forma cutânea difusaIsetionato de pentamidina em centro de referênciaDefinido pelo centro de referênciaTratar fora do centro de referência

Conversão em adulto de 70 kg, com as apresentações da Rename 2024

Fármaco e apresentaçãoEsquemaDose do dia em 70 kgEm unidades
Benznidazol, comprimido de 100 mg (há também o de 12,5 mg)5 mg/kg/dia por 60 dias350 mg3,5 comprimidos de 100 mg por dia, em 2 ou 3 tomadas; 210 comprimidos no tratamento
Benznidazol, comprimido de 100 mg300 mg/dia pelo número de dias igual ao peso, só acima de 60 kg, até 80 dias300 mg, por 70 dias3 comprimidos por dia; os mesmos 210 comprimidos no total
Nifurtimox, comprimido de 120 mg10 mg/kg/dia em 3 tomadas por 60 dias700 mg6 comprimidos por dia, 2 por tomada (720 mg, 10,3 mg/kg)
Antimoniato de meglumina 300 mg/mL; ampola de 5 mL com 405 mg de Sb5+ (81 mg/mL)15 mg de Sb5+/kg/dia1.050 mg de Sb5+13,0 mL, 2,6 ampolas
Antimoniato de meglumina, a mesma ampola20 mg de Sb5+/kg/dia1.400 mg calculados; teto de 1.215 mg17,3 mL calculados; aplicar 15 mL, 3 ampolas, que dão 17,4 mg/kg
Anfotericina B lipossomal, frasco de 50 mg; 4 mg/mL depois de reconstituir com 12 mL de água estéril3 mg/kg/dia por 7 dias210 mg52,5 mL da solução reconstituída; 5 frascos abertos
Anfotericina B lipossomal, o mesmo frasco4 mg/kg/dia por 5 dias280 mg70 mL da solução reconstituída; 6 frascos abertos
Anfotericina B desoxicolato, frasco de 50 mg1 mg/kg/dia, até 50 mg por dia70 mg calculados; teto de 50 mg1 frasco por aplicação (0,71 mg/kg); 35 a 56 aplicações para 25 a 40 mg/kg
Isetionato de pentamidina, frasco de 300 mg4 mg/kg por dose, até 300 mg280 mg por dose280 mg de 1 frasco, 3 doses
Pentoxifilina, comprimido de 400 mg400 mg três vezes ao dia por 30 dias1.200 mg3 comprimidos por dia
Ceftriaxona, frasco de 1 g2 g/dia EV no adulto com leishmaniose visceral e infecção, toxemia ou neutrófilos abaixo de 500/mm³2 g2 frascos por dia

Benznidazol do adulto, esquema de 300 mg/dia. O protocolo federal de 2018 apresenta, no texto do item de fármacos, o esquema de 300 mg/dia pelo número de dias igual ao peso como alternativa para pessoas com peso acima de 60 kg, justamente para não passar de 300 mg por dia. A Tabela 6 do mesmo protocolo, a que se consulta na hora de prescrever, traz o esquema sem a condição de peso, e o protocolo de HIV de 2024 copia a tabela assim no quadro de reativação. Os dois esquemas entregam o mesmo total, 300 mg por quilo, mas não a mesma dose diária. Em 50 kg, 300 mg/dia são 6,0 mg/kg/dia por 50 dias, 1,2 vez os 5 mg/kg/dia; em 45 kg, 6,7 mg/kg/dia, 1,33 vez; em 40 kg, 7,5 mg/kg/dia, 1,5 vez. Aos 60 kg os dois coincidem, e acima disso o esquema de 300 mg é o que segura a dose diária — em 70 kg, 300 mg contra 350 mg. Pela coerência interna, esta apostila adota o texto: abaixo de 60 kg, só 5 mg/kg/dia por 60 dias.

Benznidazol pediátrico, faixa de 10 a 15 kg. A Tabela 6 do protocolo de 2018 declara 5 a 10 mg/kg/dia em duas tomadas e sugere comprimidos de 12,5 mg por faixa de peso. As duas primeiras faixas cabem no cabeçalho: de 2,5 a 5 kg, 1 comprimido duas vezes ao dia, 25 mg/dia, de 10 a 5 mg/kg/dia; de 5 a 10 kg, 2 comprimidos duas vezes ao dia, 50 mg/dia, também de 10 a 5 mg/kg/dia. A terceira escreve 3 comprimidos, 37,5 mg, três vezes ao dia: 112,5 mg/dia, que aos 10 kg dão 11,25 mg/kg/dia e passam do limite superior do cabeçalho em toda a faixa de 10 a 11,25 kg, e que contradizem as duas tomadas do cabeçalho. Com duas tomadas, a faixa dá 75 mg/dia, de 7,5 a 5,0 mg/kg/dia, dentro do cabeçalho em todo o intervalo. Esta apostila adota as duas tomadas.

Idade de 50 anos no benznidazol. A Tabela 2 do protocolo de 2018 separa, na forma crônica indeterminada ou digestiva, adultos com menos de 50 anos, que tratam, de adultos com 50 anos ou mais, que não tratam de rotina; o texto do mesmo protocolo fala em menores de 50 e acima de 50, o que deixa quem tem 50 anos exatos sem classe. O Guia de Vigilância de 2024 diz que o benefício é maior em adultos com até 50 anos. Uma pessoa de 50 anos está, pelo Guia, no grupo de maior benefício e, pela tabela do protocolo, no grupo que não se trata de rotina. O escopo decide: o protocolo é o documento de tratamento, e o próprio Guia manda indicar o tratamento por ele. Esta apostila adota a tabela do protocolo — a partir de 50 anos, não tratar de rotina, com a decisão compartilhada que a nota da tabela permite.

Notificação do caso crônico de doença de Chagas. O protocolo de 2018 recomenda considerar fortemente a notificação dos casos crônicos e registra, na seção de gestantes, que ela não é compulsória. A Portaria GM/MS nº 1.061, de 18 de maio de 2020, incluiu a doença de Chagas crônica na Lista Nacional de Notificação Compulsória, e a lista hoje em vigor, alterada pela Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026, conserva o agravo no item 13b. Quem segue o protocolo ao pé da letra deixa de notificar um agravo obrigatório; a divergência está registrada com lado, e esta apostila adota a portaria.

Idade de 50 anos na leishmaniose tegumentar. O Manual de 2017 usa duas bordas para a mesma idade. Os Quadros 9, 10, 16 e 18 e dois trechos de texto indicam a anfotericina B lipossomal a partir de 50 anos, e os Quadros 9, 16 e 18 tiram da primeira escolha quem tem 50 anos ou mais; o item de contraindicações do antimoniato, o Quadro 4 e o texto da forma mucosa dizem acima de 50 anos, e o Guia de Vigilância de 2024 diz superior a 50 anos. O paciente de 50 anos exatos recebe antimoniato por um grupo de frases e lipossomal pelo outro. O escopo decide pelo Manual, que é o documento de tratamento a que o Guia remete, e dentro dele os quadros de protocolo por forma clínica — os que se usam para prescrever — dizem 50 ou mais em todas as ocorrências. Esta apostila adota 50 anos ou mais para a anfotericina B lipossomal.

Anfotericina B lipossomal de primeira escolha na forma mucosa. O Manual de 2017 dá três esquemas em duas páginas: o texto, 2 a 3 mg/kg/dia até a dose total de 35 a 40 mg/kg; o Quadro 17, 3 a 5 mg/kg/dia até 30 a 40 mg/kg; e o texto de segunda escolha, 3 a 5 mg/kg/dia até 25 a 40 mg/kg. Num adulto de 60 kg, o texto dá 120 a 180 mg/dia por 12 a 20 dias, para chegar a 2.100 a 2.400 mg; o Quadro 17 dá 180 a 300 mg/dia por 6 a 13 dias, para chegar a 1.800 a 2.400 mg. No topo das faixas, a dose diária do quadro é 1,67 vez a do texto. A única combinação que cabe nas três frases é 3 mg/kg/dia até 35 a 40 mg/kg, e é essa que esta apostila adota; a prescrição fina é do centro de referência, que atende a forma mucosa.

Faixas de idade do escore de gravidade da leishmaniose visceral. Na tabela para maiores de 2 anos, o documento de 2011 dá zero ponto para 2 a 20 anos e 1 ponto para 20 a 40 anos: quem tem 20 anos exatos pertence às duas faixas. Um ponto cruza os cortes que o Guia de 2024 usa para indicar anfotericina B lipossomal e internação. Um adulto de 20 anos com sangramento em 3 a 4 sítios, que valem 2 pontos, e icterícia, que vale 1, soma 3 sem o ponto da idade — ambulatório e antimoniato — ou 4 com ele — hospital e lipossomal. Na tabela de até 2 anos, menos de 12 meses vale 1 e mais de 12 meses vale zero, e o lactente de 12 meses exatos não pertence a faixa nenhuma; e o texto separa crianças com 2 anos ou menos das com mais de 2, enquanto os títulos das tabelas dizem menos de 2 e mais de 2. Para a criança de 2 anos exatos, o texto do documento resolve: ela usa o modelo dos menores. Para os 20 anos e os 12 meses, nenhum degrau da régua resolve, e a escolha é desta apostila, não de fonte nenhuma: conta-se o ponto de idade na borda — 20 anos vale 1 e 12 meses vale 1 —, o lado que protege quem está perto do corte.

Eletrocardiograma do antimoniato na leishmaniose visceral. O Quadro 1 do Guia de 2024 pede eletrocardiograma no início, semanal e ao final do tratamento só para quem tem mais de 40 anos ou antecedente familiar de cardiopatia. A lista de indicação da anfotericina B lipossomal do mesmo capítulo inclui intervalo QT corrigido maior que 450 ms. Sem traçado, a lista não se aplica: o adulto de 30 anos sem história familiar começa, pelo Quadro 1, o antimoniato sem QTc conhecido — e é exatamente o doente que a lista mandaria para a anfotericina se o QTc fosse de 460 ms. É defeito de coerência interna; a divergência com o documento de 2011, que pedia o traçado em todos, está resolvida com lado.

08

A conduta, hora a hora

O que segue são os oito primeiros dias do Felício, pedreiro de 38 anos e 62 kg, da sala de observação à alta, com as decisões na ordem em que aparecem e as prescrições escritas como vão para o prontuário. As doses saem do Guia de Vigilância de 2024 e do documento clínico de 2011; as apresentações, da Rename 2024.

  1. Quinta, 10h40 — a suspeita nomeada antes de qualquer resultado

    Febre há dois meses, baço palpável nove centímetros abaixo do rebordo e moradia em cidade com transmissão: o Felício já é caso suspeito de leishmaniose visceral, e a notificação da suspeita sai agora, não depois do teste. Antes de pedir exames, procure toxemia, porque ela muda a ordem das coisas: ele está consciente, com perfusão periférica boa, sem hipotensão, sem oligúria e sem sangramento além do nariz e da gengiva — não há sepse presumida neste momento, mas há uma otite média supurada num homem cujo hemograma da semana passada já mostrava leucopenia. Pergunte o que mais pode dar febre com baço grande no endereço dele: esteve na Amazônia? Tem história de esquistossomose? O esfregaço do hemograma de hoje não mostra blastos. Pese o paciente: 62 kg, e toda a prescrição que vem depois é por quilo. Peça a bateria de uma vez, com as culturas antes de qualquer antibiótico e o eletrocardiograma antes de qualquer fármaco específico.

    Prescrição
    • Notificação de caso suspeito de leishmaniose visceral no Sinan, hoje
    • Teste rápido imunocromatográfico rK39
    • Hemograma com plaquetas, VHS, creatinina, ureia, ALT, AST, atividade de protrombina, albumina, globulina, fosfatase alcalina, bilirrubinas e amilase
    • Oferta de teste para HIV, com o paciente informado do motivo
    • Eletrocardiograma de 12 derivações, com QT corrigido anotado
    • Hemocultura, urocultura, radiografia de tórax e bacterioscopia da secreção do ouvido direito, antes do antibiótico
  2. Quinta, 12h30 — o rK39 reagente e a conta que escolhe o fármaco

    O teste rápido vem reagente, com as duas linhas visíveis, e isso confirma a leishmaniose visceral sem outro exame imunológico ou parasitológico; o aspirado de medula fica para a dúvida que não existe aqui. O teste para HIV é não reagente. O eletrocardiograma mostra taquicardia sinusal com QT corrigido de 430 ms. Agora calcule o escore do documento de 2011, item por item, e escreva a conta no prontuário. Modelo clínico: idade entre 20 e 40 anos, 1 ponto; sangramento em dois sítios, nariz e gengiva, 1 ponto; edema, 1; icterícia, 1; infecção bacteriana, a otite, 1; sem dispneia e sem aids — total de 5. Modelo clínico-laboratorial: os mesmos 5, mais 2 pelos leucócitos de 1.300/mm³ e 3 pelas plaquetas de 38.000/mm³, com creatinina normal — total de 10. Os dois passam dos cortes, 4 e 6: o Felício tem risco aumentado de morrer, é tratado em hospital e recebe anfotericina B lipossomal. Repare que nenhum outro item da lista se aplicaria a ele — tem menos de 50 anos, não tem HIV, os rins, o fígado e o coração funcionam, o QTc é normal —, e sem o escore ele iria para o antimoniato no ambulatório.

    Prescrição
    • Internação em enfermaria do hospital de referência
    • Anfotericina B lipossomal como tratamento específico, pelos escores clínico de 5 e clínico-laboratorial de 10
    • Solicitação do fármaco à farmácia hospitalar pelo fluxo do Componente Estratégico
    • Cálculo dos escores registrado item por item na evolução
  3. Quinta, 15h — o que mata antes do parasito: neutrófilo e hemoglobina

    Com 420 neutrófilos e uma otite supurada, o antibiótico não é discussão: o documento de 2011 indica antibiótico para infecção definida e, isoladamente, para neutrófilos abaixo de 500/mm³. As culturas já foram colhidas. O esquema proposto para o adulto é ceftriaxona 2 g por dia; a associação com oxacilina fica para a infecção de pele ou de subcutâneo, que ele não tem — e a oxacilina não consta da Rename 2024, o que obriga a procurar o equivalente na padronização do hospital quando ela for necessária. A hemoglobina de 6,4 g/dL, abaixo de 7, indica concentrado de hemácias: 300 mL no adulto, correndo em cerca de duas horas e nunca além de quatro. As plaquetas de 38.000/mm³ com sangramento de mucosa sem gravidade não indicam transfusão de plaquetas, que o documento reserva para menos de 10.000/mm³ com sangramento; plasma fresco é para sangramento grave com atividade de protrombina baixa, e a dele é de 72%. A técnica da transfusão e as reações são do capítulo Terapia transfusional e reações transfusionais.

    Prescrição
    • Ceftriaxona 2 g EV uma vez ao dia, iniciada depois das culturas
    • Concentrado de hemácias 300 mL EV em 2 horas, sem ultrapassar 4 horas
    • Sem transfusão de plaquetas nem de plasma neste momento
    • Compressão nasal nas epistaxes; nenhuma medicação intramuscular enquanto as plaquetas estiverem baixas
    • Hemograma, creatinina, potássio e magnésio amanhã às 6h
  4. Quinta, 20h — a primeira infusão, frasco por frasco

    Com 62 kg, a dose de 3 mg/kg/dia dá 186 mg, por sete dias, num total de 1.302 mg, 21 mg/kg; o esquema alternativo de 4 mg/kg/dia por cinco dias daria 248 mg ao dia, e os dois são aceitos pelo Guia. Cada frasco tem 50 mg de pó e é reconstituído com 12 mL de água estéril para injeção, agitado com vigor por 15 segundos, o que dá 4 mg/mL. Para 186 mg são 46,5 mL: abrem-se quatro frascos, e o que sobra do quarto pode ficar guardado por até 24 horas entre 2 °C e 8 °C. A dose é rediluída em soro glicosado a 5% na proporção de 1 mL do reconstituído para 1 a 19 mL de soro, o que dá concentração final entre 2 e 0,2 mg/mL — em 250 mL de soro glicosado, 0,63 mg/mL. A infusão começa em até seis horas depois da diluição final e corre em 30 a 60 minutos. Os frascos ficam refrigerados e protegidos da luz até a hora do preparo; durante a infusão, esse cuidado não é necessário.

    Prescrição
    • Anfotericina B lipossomal 186 mg (3 mg/kg) EV uma vez ao dia, por 7 dias
    • Reconstituir cada frasco de 50 mg com 12 mL de água estéril para injeção (4 mg/mL) e aspirar 46,5 mL
    • Rediluir em 250 mL de soro glicosado a 5% e iniciar em até 6 horas
    • Infundir em 60 minutos
    • Observar febre, calafrio, tremor e dor lombar durante a infusão
  5. Sexta, 21h — o calafrio da segunda infusão

    No meio da segunda infusão, o Felício treme, a temperatura sobe para 39 °C e ele reclama de dor lombar. A relação com a infusão é direta, e os eventos adversos mais frequentes da anfotericina B lipossomal são exatamente febre, cefaleia, náusea, vômitos, tremores, calafrios e dor lombar. Febre isolada, num doente com leishmaniose visceral, também pode ser a própria doença ou uma infecção nova: por isso você refaz a busca de toxemia antes de atribuir tudo ao fármaco — pressão, perfusão, consciência, diurese — e ela continua negativa. A partir da infusão seguinte, o Guia manda antitérmico ou anti-histamínico meia hora antes, evitando o ácido acetilsalicílico. Os exames da manhã mostraram hemoglobina de 8,1 g/dL depois da transfusão, potássio de 3,4 mEq/L, magnésio normal e creatinina de 0,8 mg/dL.

    Prescrição
    • Dipirona 1 g EV agora
    • Dipirona 1 g EV 30 minutos antes de cada infusão a partir de amanhã
    • Não usar ácido acetilsalicílico
    • Creatinina, potássio e magnésio diários enquanto durar a anfotericina
    • Reposição de potássio pelo protocolo do serviço quando abaixo do valor de referência
  6. Domingo e segunda, dias 4 e 5 — a febre que some e o rim que se vigia

    A febre desaparece no quarto dia, como costuma acontecer por volta do quinto. O baço ainda está grande, e isso é esperado: a redução aparece ao longo das primeiras semanas. A creatinina sobe de 0,8 para 1,1 mg/dL, o potássio cai para 3,2 mEq/L, e o magnésio segue normal. A regra do Guia é objetiva: só a creatinina acima de duas vezes o maior valor de referência suspende a anfotericina, por dois a cinco dias, com retomada em dias alternados quando o valor cair — a do Felício não chegou lá, e a infusão continua, com o potássio reposto. Os neutrófilos cruzam 500/mm³ no quarto dia e chegam a 650/mm³ no quinto; as culturas estão negativas e o ouvido secou. A contagem de plaquetas passa de 50.000/mm³. O limite descrito pelo guia não é autorização para ignorar uma elevação menor de creatinina. Compare com o basal, avalie diurese, hidratação, potássio, magnésio e outros nefrotóxicos; a tendência e a condição clínica podem exigir intervenção antes daquele valor. Qualquer suspensão ou mudança de intervalo deve ser decidida com a equipe, equilibrando toxicidade e controle da infecção.

    Prescrição
    • Manter anfotericina B lipossomal 186 mg/dia até completar 7 doses
    • Reavaliar a função renal e os eletrólitos em relação ao basal diariamente. O guia citado propõe suspensão com creatinina acima de 2 vezes o limite superior, mas piora clínica, oligúria ou alteração rápida exigem revisão antes; decidir pausa e eventual retomada com a equipe.
    • Reposição de potássio e dosagem diária
    • Hemograma a cada 48 horas
  7. Quarta, dia 7 — a última dose e o antibiótico que sai

    O Felício recebe a sétima dose. Os neutrófilos estão acima de 500/mm³ há três dias, as culturas foram negativas e ele está estável: o documento de 2011 permite suspender o antibiótico de três a cinco dias depois de os neutrófilos passarem de 500/mm³, nessas condições, e você suspende. A hemoglobina está em 9,0 g/dL, as plaquetas em 90.000/mm³, e o hemograma mostra eosinófilos, que o Guia descreve como sinal de bom prognóstico ao final do tratamento. O baço, medido na mesma linha da admissão, desce agora cinco centímetros abaixo do rebordo, contra nove: redução de 44%, dentro dos 40% ou mais que o Guia descreve ao fim do tratamento. Com essa evolução, o parasitológico de controle é dispensável.

    Prescrição
    • Suspender ceftriaxona: neutrófilos acima de 500/mm³ há 3 dias, culturas negativas, paciente estável
    • Anfotericina B lipossomal, sétima e última dose: total de 1.302 mg, 21 mg/kg
    • Medida do baço registrada: 5 cm abaixo do rebordo costal, contra 9 cm na admissão
    • Sem exame parasitológico de controle
  8. Quinta, dia 8 — alta com as datas escritas

    Sem febre há quatro dias, comendo e andando, o Felício vai para casa. A cura na leishmaniose visceral é clínica, e o seguimento é o que a comprova: esta apostila adota o calendário do Guia de 2024, com retornos aos 3, 6 e 12 meses depois do tratamento, e o paciente estável na última avaliação é considerado curado. Explique a janela da recidiva, que é de 12 meses: febre, emagrecimento, sangramento ou barriga crescendo de novo nesse período pedem retorno imediato, não consulta agendada. A sorologia não entra no seguimento, porque pode ficar positiva por muito tempo. Diga à irmã que a vigilância do município pode visitar a casa para a investigação do caso e para as ações sobre o vetor e o cão, e que outro morador com febre e barriga grande deve procurar atendimento dizendo que houve um caso na família.

    Prescrição
    • Alta com retornos marcados aos 3, 6 e 12 meses depois do tratamento
    • Hemograma no primeiro retorno
    • Orientação escrita: febre, emagrecimento, sangramento ou aumento da barriga no seguimento levantam suspeita de recidiva ou outra complicação e exigem reavaliação no mesmo dia; não confirmam recidiva sozinhos.
    • Sem sorologia de controle
    • Ficha de investigação completa, com critério de confirmação, escores e tratamento, enviada à vigilância
09

Como saber se está funcionando

Reavaliar estas doenças é seguir o doente, não o anticorpo. Na leishmaniose visceral, a febre, o baço e o hemograma dizem se o tratamento funciona, e a creatinina e o eletrocardiograma dizem se o fármaco está cobrando caro. Na tegumentar, a régua é a úlcera, com datas fixas para declarar falha. Na doença de Chagas, a sorologia só volta a ser exame de seguimento na fase aguda; na crônica, o que se acompanha é o benznidazol durante os 60 dias e o eletrocardiograma pela vida.

Curva térmica e estado geral na leishmaniose visceralDiariamente durante o tratamento, e em cada retorno aos 3, 6 e 12 meses

Esperado: Febre desaparecendo por volta do quinto dia de tratamento, com volta do apetite, ganho de peso e melhora do estado geral nas semanas seguintes

Se não melhora: Febre persistente depois da primeira semana ou febre que volta pede busca de infecção bacteriana — a pele, o ouvido, o pulmão e a urina são os sítios mais comuns — e reavaliação de toxemia, com culturas antes de mudar antibiótico. Confira se a dose foi calculada pelo peso e se houve interrupção. Febre que volta dentro de 12 meses depois da cura clínica é recidiva e pede reavaliação no serviço de referência para retratamento.

Tamanho do baço e hemograma na leishmaniose visceralBaço medido na admissão, ao fim do tratamento e nos retornos, sempre na mesma linha; hemograma a cada 48 horas no internado

Esperado: Redução do baço nas primeiras semanas, geralmente de 40% ou mais ao fim do tratamento; hemoglobina e leucócitos subindo a partir da segunda semana; eosinofilia no fim do tratamento como sinal de bom prognóstico

Se não melhora: Baço que não reduz e citopenias que não se recuperam pedem revisão do diagnóstico — linfoma, leucemia, esquistossomose hepatoesplênica — e do tratamento, com aspirado de medula se a confirmação foi só sorológica. Hemoglobina abaixo de 7 g/dL ou repercussão hemodinâmica indicam nova transfusão; plaquetas abaixo de 10.000/mm³ com sangramento indicam concentrado de plaquetas.

Creatinina, potássio e magnésio durante a anfotericina BAntes da primeira dose e diariamente enquanto durar a infusão

Esperado: Creatinina estável ou com elevação discreta, potássio e magnésio mantidos com reposição

Se não melhora: Creatinina acima de duas vezes o maior valor de referência suspende a anfotericina B lipossomal por dois a cinco dias, com retomada em dias alternados quando o valor cair. Potássio baixo é reposto. No esquema com desoxicolato, o monitoramento é o mesmo e a nefrotoxicidade é maior; com tenofovir na terapia antirretroviral, a vigilância do rim é redobrada.

Eletrocardiograma e exames de toxicidade durante o antimoniato de megluminaEletrocardiograma antes do início em todos; semanal até o fim acima de 40 anos ou com antecedente familiar de cardiopatia, e semanal em todos na leishmaniose tegumentar; duas vezes por semana se, apesar de acima de 50 anos ou de doença cardíaca, renal ou hepática, o antimoniato for usado; enzimas hepáticas, amilase, lipase, ureia, creatinina e hemograma semanais

Esperado: QT corrigido sem prolongamento, onda T sem achatamento ou inversão, ritmo regular à ausculta diária; enzimas, amilase e lipase abaixo de cinco vezes o limite

Se não melhora: Alongamento do QTc, arritmia ou alteração importante de repolarização pedem avaliação criteriosa e, se necessário, suspensão e troca por fármaco de segunda escolha. Arritmia, insuficiência renal ou hepática aguda, icterícia ou aminotransferases acima de cinco vezes o limite, pancreatite ou amilase e lipase acima de cinco vezes o limite são reações graves e devem ser notificadas à farmacovigilância.

Tolerância ao benznidazolEm cada consulta durante os 60 dias de tratamento; hemograma três semanas depois do início

Esperado: Tratamento completo com efeitos manejáveis: dermatite ou exantema leve, intolerância gastrointestinal, parestesia leve; hemograma sem neutropenia; nenhuma bebida alcoólica durante o tratamento

Se não melhora: Dermatopatia grave, neuropatia, lesão de mucosa ou hipoplasia medular são motivo de encaminhamento a serviço de maior complexidade. A intolerância importante é a situação do nifurtimox, fornecido por demanda ao Ministério da Saúde e usado em serviço especializado. Exantema leve, em geral, não obriga a interromper.

Úlcera e mucosa na leishmaniose tegumentarMedida da lesão antes do tratamento; retornos mensais por três meses depois do fim do esquema — seis meses no coinfectado pelo HIV — e depois a cada dois meses até completar 12 meses; na forma mucosa, exame otorrinolaringológico até seis meses

Esperado: Epitelização completa de todas as lesões até o 90º dia depois do esquema, e desaparecimento de crosta, descamação, infiltração e eritema até o 180º dia; na forma mucosa, regressão de todos os sinais comprovada pelo otorrinolaringologista

Se não melhora: Lesão sem epitelização completa no 90º dia, piora ou lesão nova em qualquer momento indicam segundo esquema. Lesão epitelizada no 90º dia que ainda tem crosta ou infiltração não é falha: observa-se sem nova intervenção até o 180º dia, desde que evolua para a cura. Queixa auditiva durante o antimoniato pede avaliação, porque a perda neurossensorial que ele causa costuma ser irreversível.

Seguimento da doença de Chagas depois do tratamentoNa fase aguda, sorologia IgG convencional uma vez por ano por cinco anos; na forma indeterminada, eletrocardiograma anual pela vida

Esperado: Na fase aguda, negativação sorológica, com a pesquisa encerrada quando dois exames sucessivos forem não reagentes; na crônica, eletrocardiograma estável, sem sintomas digestivos novos

Se não melhora: Na fase crônica, sorologia de controle e retratamento depois de curso completo não são rotina, e uma sorologia ainda reagente não é, por si, indicação de retratamento. Eletrocardiograma que muda leva ao ecocardiograma e ao capítulo Cardiomiopatias: hipertrófica, dilatada e restritiva; disfagia nova leva ao capítulo Acalasia e distúrbios motores do esôfago; constipação progressiva leva ao enema opaco e às medidas do megacólon.

10

Onde o erro machuca

Pedir só sorologia, e esperar por ela, diante de febre com epidemiologia de fase aguda de doença de Chagas

O dano: No começo da doença quem circula é o parasito, e o anticorpo ainda está chegando: a IgG precisa de duas amostras separadas por pelo menos 15 dias para confirmar, e a IgM depende de laboratório de referência. Enquanto a sorologia não volta, o tratamento que o protocolo manda começar imediatamente fica parado, a notificação de 24 horas perde o prazo e, num surto de transmissão oral — a forma de maior morbimortalidade —, os outros que comeram o mesmo alimento seguem sem exame.

Como pegar a tempo: Na suspeita, colha junto o parasitológico — a fresco nos primeiros 30 dias, concentração depois — e a sorologia; repita o parasitológico se vier negativo e a suspeita continuar; notifique no mesmo dia, ao município e ao estado; e peça exame de todos os expostos ao alimento, inclusive dos que não têm sintoma.

Prescrever benznidazol 300 mg por dia, pelo número de dias igual ao peso, a um adulto com menos de 60 kg

O dano: A Tabela 6 do protocolo deixa o esquema sem condição de peso, mas o texto o reserva a quem pesa mais de 60 kg justamente para não subir a dose diária. Em 50 kg, são 6,0 mg/kg/dia; em 40 kg, 7,5 mg/kg/dia, uma vez e meia a dose de 5 mg/kg/dia, num fármaco que já dá evento adverso em cerca de metade dos tratados — dermatite, parestesia, intolerância gastrointestinal e, entre os graves, neutropenia.

Como pegar a tempo: Abaixo de 60 kg, prescreva 5 mg/kg/dia por 60 dias, combinando comprimidos de 100 mg e de 12,5 mg para chegar à dose; em 50 kg, 125 mg de 12 em 12 horas. Reserve o esquema de 300 mg/dia para quem pesa mais de 60 kg, com o teto de 80 dias.

Tratar leishmaniose visceral com antimoniato sem calcular o escore e sem percorrer a lista de indicação da anfotericina B lipossomal

O dano: O antimoniato tem a vantagem do ambulatório e a desvantagem da cardiotoxicidade e da resposta mais lenta. Dado a quem tem escore clínico de 4 ou mais, ou clínico-laboratorial de 6 ou mais, a quem tem mais de 50 anos, HIV, insuficiência de órgão, QTc acima de 450 ms ou gestação, ele põe em risco justamente o paciente que os documentos federais separaram para a lipossomal — e sem eletrocardiograma de base, o critério do QTc nem chega a ser aplicado.

Como pegar a tempo: Escreva o escore item por item no prontuário antes de escolher o fármaco, ofereça o teste de HIV a todo paciente, faça eletrocardiograma de base em todos e percorra a lista inteira da lipossomal. Só o paciente abaixo dos dois cortes e fora da lista recebe antimoniato no ambulatório.

Tratar ou notificar sorologia reagente para leishmaniose visceral em quem não tem doença, ou usar a sorologia para acompanhar o paciente tratado

O dano: Só uma pequena parte dos infectados adoece, e os anticorpos persistem por muito tempo depois da cura. Tratar a sorologia expõe a antimoniato ou anfotericina quem não tem indicação; acompanhar pela sorologia faz o tratado parecer doente e leva a retratamento sem motivo, enquanto a recidiva de verdade — febre, baço, citopenias — passa sem ser vista.

Como pegar a tempo: Infecção sem manifestação clínica não é caso: não se trata e não se notifica. No tratado, siga a febre, o baço, o peso e o hemograma nos retornos de 3, 6 e 12 meses, e investigue recidiva pela clínica, com parasitológico quando necessário.

Dar antimoniato ou miltefosina à gestante com leishmaniose tegumentar, ou começar miltefosina na mulher em idade fértil sem teste de gravidez e contracepção

O dano: O antimoniato atravessa a placenta, tem teratogenicidade e embriotoxicidade demonstradas em animais e é contraindicação absoluta na gravidez — inclusive pela via intralesional, que continua sendo antimoniato. A miltefosina é teratogênica e proibida na gestação, e uma gravidez que começa durante o tratamento ou nos meses seguintes expõe o embrião.

Como pegar a tempo: Na gestante, avalie adiar o tratamento da forma cutânea para depois do parto; se não puder esperar, anfotericina B lipossomal em centro de referência. Antes de miltefosina, beta-HCG sensível em até 24 horas, dois métodos contraceptivos altamente eficazes — um deles de barreira — desde 30 dias antes até quatro meses depois do fim, e teste de gravidez mensal nesse período.

Confirmar a doença de Chagas crônica e parar no paciente: sem notificação, sem sorologia da família, sem seguimento do filho da mulher infectada

O dano: O caso crônico é de notificação compulsória desde 2020, e a frase do protocolo de 2018 que o dá como não compulsório engana quem só lê o protocolo. Irmãos, filhos e mãe expostos ao mesmo contexto seguem sem diagnóstico numa doença em que só cerca de 30% dos infectados sabem da infecção. E a criança da mulher infectada perde a janela em que o tratamento negativa a sorologia em mais de 95% dos casos.

Como pegar a tempo: Confirmada a infecção por duas sorologias, notifique na semana pelo e-SUS Notifica, ofereça sorologia a pais, irmãos, filhos e conviventes, e deixe escrito que todo recém-nascido dessa mulher faz parasitológico nos dez primeiros dias e, se negativo, duas sorologias a partir dos nove meses.

11

O que dizer ao paciente e à família

Sete conversas aparecem neste capítulo, e em quase todas o paciente chega com uma ideia pronta — que Chagas mata do coração, que o remédio da leishmaniose é veneno, que a ferida fecha com pomada. A frase certa não desmente a ideia de frente: ela troca o medo por um próximo passo concreto, com data.

A doadora de sangue que recebeu a carta do hemocentro e acha que vai morrer do coração, como a mãe

“A carta mostra um exame de triagem do banco de sangue, e ele não fecha diagnóstico. Vamos fazer dois exames diferentes para saber se a infecção existe mesmo. Se ela se confirmar, a maior parte das pessoas nessa fase nunca desenvolve problema no coração, e o eletrocardiograma vai mostrar hoje como o seu está. Pela sua idade, existe tratamento que eu posso oferecer, e a gente decide junto.”

Não diga: Confirmar a doença com base na carta, ou dizer que “Chagas não tem cura” antes de saber a fase, a forma e a idade. A primeira frase vira diagnóstico sem exame; a segunda apaga a indicação de tratamento que ela tem.

A mulher de 34 anos que vai começar o benznidazol e planeja engravidar no ano que vem

“São 60 dias de comprimido, de 12 em 12 horas. Durante esse tempo, nenhuma bebida alcoólica, porque o remédio reage mal com o álcool, e nenhuma gravidez: vamos combinar um método para os dois meses. Mancha vermelha na pele costuma passar sem parar o remédio, mas quero ver; formigamento nas mãos ou nos pés, eu preciso saber no mesmo dia. Com três semanas, você faz um exame de sangue. Tratar agora também diminui a chance de passar a infecção para o bebê quando você engravidar.”

Não diga: Esconder os efeitos adversos para garantir a adesão. Cerca de metade dos tratados tem algum, e quem não foi avisada costuma interromper na primeira mancha.

A família do surto de açaí, em que só dois dos oito que tomaram estão com febre

“Todo mundo que tomou o açaí daquela banca precisa colher sangue hoje, inclusive quem está bem. Nas primeiras semanas o exame procura o parasita no sangue, e ele pode ser encontrado antes dos sintomas. Essa doença não passa de uma pessoa para a outra pela convivência; ela veio do alimento. A vigilância vai procurar vocês para saber de onde veio o fruto, e isso protege quem ainda vai comprar ali.”

Não diga: Dispensar do exame quem não tem febre, ou tratar a família como contagiosa. A primeira atitude perde os infectados sem sintoma; a segunda afasta a família do serviço justamente quando ela precisa voltar.

O paciente com leishmaniose visceral que não quer ficar internado porque o posto já tinha dito que era anemia

“O exame confirmou uma infecção chamada leishmaniose visceral, e ela explica a febre, a barriga grande e o sangue fraco. Do jeito que o seu sangue está, uma infecção comum pode ficar grave em poucas horas, e por isso o remédio precisa ser na veia, aqui dentro, por sete dias. Vamos também dar sangue e antibiótico para o ouvido. Tem cura, e o tratamento começa hoje.”

Não diga: Dizer que é “uma doença do cachorro” ou falar do risco de morte sem dizer o que será feito. A culpa pelo cão e o medo sem plano empurram o paciente para a porta antes da primeira dose.

O trabalhador rural com úlcera na perna que quer parar as injeções quando a ferida melhorar

“São 20 dias de injeção, todos os dias, e a ferida vai melhorar antes do fim — isso é sinal de que está funcionando, não de que já pode parar. Toda semana você faz um eletrocardiograma e exame de sangue, porque o remédio mexe com o coração. Nesses 20 dias, sem bebida alcoólica. Depois do último dia, a ferida tem até três meses para fechar, e você volta todo mês para eu ver.”

Não diga: Prometer que a ferida fecha até o fim das injeções. A cicatrização completa pode levar até 90 dias depois do esquema, e o paciente que esperava a pele fechada no 20º dia conclui que o tratamento falhou.

A mãe com doença de Chagas crônica, no alojamento conjunto, que parou de amamentar com medo de passar a doença

“Pode amamentar. Na fase em que a senhora está, o leite não passa a infecção; o cuidado é só se o bico do peito rachar e sangrar — aí a gente ajusta. O que o seu bebê precisa é de um exame de sangue agora, nos primeiros dias, e de outro com nove meses. Se ele tiver a infecção, o tratamento cedo cura quase todas as crianças.”

Não diga: Suspender o aleitamento por precaução ou dizer que o bebê “provavelmente pegou”. O primeiro tira do bebê o leite sem motivo; o segundo faz a família desistir do exame dos nove meses, que é o que decide.

O homem de 57 anos com forma indeterminada que quer tomar o remédio porque o vizinho tomou

“Na sua idade e na sua forma da doença, o protocolo não indica o remédio de rotina: o benefício é incerto e metade das pessoas tem algum efeito adverso. Isso não é abandono. O seu coração e o seu intestino estão bem hoje, e o que protege o senhor é o eletrocardiograma todo ano e voltar se aparecer falta de ar, palpitação, desmaio ou dificuldade para engolir. Se, conversando, a gente achar que no seu caso vale tentar, decidimos juntos.”

Não diga: Prescrever para encerrar a conversa, ou negar sem explicar. O primeiro expõe a efeito adverso sem benefício provável; o segundo faz o paciente abandonar o seguimento que de fato o protege.

12

Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

Doença de Chagas crônica confirmada: notificar ou não notificar

A notificação dos casos crônicos deve ser fortemente considerada, para ampliar o acesso à atenção integral; ao tratar da gestante, o protocolo registra que ela não é compulsória, embora seja importante incluir a fase crônica para conhecer melhor os eventos neonatais.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da doença de Chagas, aprovado pela Portaria SCTIE/MS nº 57, de 30 de outubro de 2018, itens 6.1.3 e 6.1.4.

A doença de Chagas crônica integra a Lista Nacional de Notificação Compulsória desde maio de 2020. O caso é notificado depois da confirmação laboratorial, com periodicidade semanal, pelo formulário do e-SUS Notifica, e a identificação do caso indica investigação sorológica de pais, irmãos, filhos e conviventes.

Portaria GM/MS nº 1.061, de 18 de maio de 2020; lista em vigor alterada pela Portaria GM/MS nº 11.211, de 13 de maio de 2026, item 13b; Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, v. 2, capítulo de doença de Chagas, seção de notificação.

Como decidir

O primeiro degrau da régua já inclina a decisão: a obrigação de notificar é matéria da lista nacional, e não de um protocolo de tratamento. O segundo fecha: a portaria de 2020 é posterior ao protocolo, e a lista alterada em 2026 mantém o agravo. Esta apostila adota a notificação — confirmada a infecção crônica pelas duas sorologias, notifique na semana, e nunca na simples suspeita. A frase do protocolo não estava errada em 2018; ficou superada em 2020, e é por isso que ainda aparece em material de estudo a ideia de que a fase crônica não se notifica.

Eletrocardiograma durante o antimoniato de meglumina na leishmaniose visceral: em todos ou só acima de 40 anos

No paciente de maior risco que recebe antimoniato por não poder usar anfotericina B — 20 mg de Sb5+/kg/dia por 30 dias —, o eletrocardiograma é feito no início, durante e ao final do tratamento, sem recorte de idade, à procura de QT corrigido longo, arritmia e onda T achatada.

Ministério da Saúde. Leishmaniose visceral: recomendações clínicas para redução da letalidade, 2011, Quadro 3.

O antimoniato é a primeira escolha fora das indicações da lipossomal, e o eletrocardiograma — no início, semanalmente e ao final — é pedido para quem tem mais de 40 anos ou antecedente familiar de cardiopatia. A mesma lista que manda para a lipossomal inclui o QT corrigido acima de 450 ms.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, v. 2, capítulo de leishmaniose visceral, Quadro 1 e lista de indicação da anfotericina B lipossomal.

Como decidir

Pergunte primeiro qual paciente está à sua frente. Para o doente de maior risco que só pode receber antimoniato, o primeiro degrau decide pelo documento de 2011, escrito para ele: traçado no início, durante e no fim, em qualquer idade. Para o doente comum, o Guia de 2024 é o único que fala, mas o quarto degrau corrige o recorte de idade no ponto em que ele se contradiz: sem eletrocardiograma de base não há como saber se o QT corrigido passa de 450 ms, que é critério da própria lista do Guia. Esta apostila adota eletrocardiograma antes da primeira dose em todos e semanal até o fim para quem tem mais de 40 anos, antecedente familiar de cardiopatia, traçado de base alterado ou alto risco tratado com antimoniato.

Quando declarar curado o paciente tratado de leishmaniose visceral: aos 6 ou aos 12 meses

O paciente tratado é acompanhado durante seis meses; permanecendo estável ao fim desse período, é considerado clinicamente curado. A recidiva é a volta da sintomatologia em até 12 meses depois do fim do tratamento.

Ministério da Saúde. Leishmaniose visceral: recomendações clínicas para redução da letalidade, 2011, seção de critérios de cura.

O seguimento do paciente tratado é feito aos 3, 6 e 12 meses depois do tratamento, e quem permanece estável na última avaliação é considerado curado. A recidiva é a volta da sintomatologia em até 12 meses depois da cura clínica.

Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6. ed. rev., 2024, v. 2, capítulo de leishmaniose visceral, critérios de cura e definição de caso.

Como decidir

O primeiro degrau não separa: os dois documentos falam do mesmo paciente no mesmo momento. O segundo decide pelo Guia de 2024, mais novo, e a coerência interna confirma a escolha: nos dois documentos a recidiva conta até 12 meses, e declarar a cura aos seis meses deixaria o paciente curado no papel dentro da janela em que a volta dos sintomas ainda é recidiva. Esta apostila adota os retornos aos 3, 6 e 12 meses, com a cura declarada na última avaliação. Na prática, quem está bem aos seis meses continua com retorno marcado e sabe que febre, emagrecimento ou barriga crescendo até completar um ano pedem atendimento no mesmo dia.

13

O raciocínio, em voz alta

Jenoveva Coelho, 34 anos, 50 kg, auxiliar administrativa, volta ao ambulatório de clínica médica com a carta do hemocentro: na doação de sangue do mês passado, a triagem para doença de Chagas foi reagente e a bolsa foi descartada. Ela nasceu e morou até os 12 anos numa casa de pau a pique no interior, onde lembra de ver barbeiro na parede do quarto. A mãe morreu aos 58 anos de coração grande, sem diagnóstico fechado; tem dois irmãos, sem filhos. Não sente nada: nega palpitação, desmaio, falta de ar, dificuldade para engolir e intestino preso. Pressão de 118 x 72 mmHg, frequência cardíaca de 74 bpm, exame físico normal. Usa preservativo e planeja engravidar no ano que vem.

  1. Primeiro: a carta é triagem, e a epidemiologia manda confirmar

    O banco de sangue descarta a bolsa por um teste de rastreamento, e isso não é diagnóstico. Mas a Jenoveva tem dois fatores de risco do protocolo — infância em casa de pau a pique com o vetor visto no quarto e uma mãe com cardiopatia que pode ter sido chagásica — e seria testada mesmo sem a carta. O pedido é o da fase crônica: duas sorologias IgG de princípios diferentes, na mesma coleta.

  2. Segundo: as duas sorologias confirmam, e a discordância teria outro caminho

    O ensaio imunoenzimático vem reagente e a imunofluorescência indireta, reagente em 1:160. Dois métodos distintos concordando confirmam a doença de Chagas crônica. Se um tivesse vindo reagente e o outro não, a resposta não seria escolher o mais confiável: seria um terceiro teste de princípio diferente, em nova amostra.

  3. Terceiro: a forma clínica, com os exames que todo doente crônico faz

    Eletrocardiograma e radiografia de tórax normais, sem nenhum sintoma cardíaco ou digestivo: forma indeterminada. Sem disfagia nem constipação, não há indicação de radiografia contrastada do esôfago nem de enema opaco. O eletrocardiograma passa a ser anual, pela vida, faça ela o tratamento ou não.

  4. Quarto: a indicação, decidida com ela

    Adulta com menos de 50 anos na forma indeterminada é o grupo em que o protocolo diz que as vantagens do benznidazol parecem superar as desvantagens e em que a prevenção de doença cardíaca tem mais evidência. Ela tem um motivo a mais: em mulher em idade fértil, o tratamento pode reduzir a transmissão congênita numa gravidez futura. A decisão é compartilhada, e você conta o outro lado — cerca de 53% dos tratados têm evento adverso, quase sempre sem gravidade, mas com impacto no dia a dia. Ela aceita. O beta-HCG é negativo, e o combinado é anticoncepção eficaz durante os 60 dias, porque gestante na fase crônica não recebe o fármaco.

  5. Quinto: a dose, sem cair na tabela

    Com 50 kg, a dose é 5 mg/kg/dia, 250 mg por dia, por 60 dias: 125 mg de 12 em 12 horas, que se montam com 1 comprimido de 100 mg e 2 de 12,5 mg por tomada — 120 comprimidos de 100 mg e 240 de 12,5 mg no tratamento, 15.000 mg no total. A Tabela 6 do protocolo deixaria prescrever 300 mg por dia durante 50 dias, o mesmo total, mas com 6,0 mg/kg/dia, 1,2 vez a dose; o texto do mesmo protocolo reserva esse esquema a quem pesa mais de 60 kg, e esta apostila segue o texto.

  6. Sexto: o que vigiar e o que proibir

    Nenhuma bebida alcoólica durante o tratamento, pelo efeito antabuse. Hemograma com três semanas, à procura de neutropenia. Dermatite e exantema são os eventos mais comuns e em geral não obrigam a parar; parestesia merece atenção porque pode durar meses depois do fim. Dermatopatia grave, neuropatia, lesão de mucosa ou hipoplasia medular a levam para serviço de maior complexidade. Ela é acompanhada na atenção primária, que é onde o protocolo põe o doente estável na forma indeterminada.

  7. Sétimo: notificar e chamar a família

    Caso crônico confirmado é notificado na semana, pelo e-SUS Notifica — a frase do protocolo de 2018 que dá a notificação da fase crônica como não compulsória foi superada em 2020. A confirmação abre a investigação sorológica de quem viveu o mesmo contexto: os dois irmãos recebem o pedido de duas sorologias, e o pai, se vivo e com a mesma história de moradia, também.

  8. Oitavo: o que muda depois do tratamento

    Não há sorologia de controle nem retratamento de rotina depois do curso completo na fase crônica, e ela deve saber disso para não se assustar com um exame que continua reagente. O que fica é o eletrocardiograma anual e o retorno se aparecer palpitação, desmaio, falta de ar ou disfagia. Na gravidez que ela planeja, o recém-nascido é notificado como suspeito de transmissão vertical e faz parasitológico nos dez primeiros dias e, se negativo, duas sorologias a partir dos nove meses. A amamentação segue, com cuidado só se houver fissura com sangramento.

14

Faça você

Ibérico Almada, 44 anos, 72 kg, trabalhador rural, chega ao ambulatório de clínica médica com uma úlcera na face anterior da perna direita há sete semanas. Começou como uma bolinha avermelhada duas semanas depois de um mutirão de roçado na mata e cresceu devagar. Não dói. Ele já usou três pomadas diferentes. A lesão é única, arredondada, com 3,5 cm no maior diâmetro, bordas elevadas e bem delimitadas e fundo avermelhado com granulação grosseira. Mucosa nasal e palato normais, sem outras lesões de pele, sem linfonodos palpáveis. Não tem doença cardíaca, renal ou hepática, não usa medicamento e não bebe. A vigilância do município registra, na área onde ele trabalha, circulação de Leishmania braziliensis, sem predomínio de Leishmania guyanensis.

  1. Diga se é caso suspeito e o que confirma antes de tratar

    Aplique a definição de caso de leishmaniose cutânea, diga qual material colher da lesão e para quais exames, e o que mais precisa ser oferecido ou examinado nesta primeira consulta.

  2. Liste os diferenciais que a biópsia precisa afastar nessa perna

    Escolha, na lista do Guia para a forma cutânea localizada, os diagnósticos que mudariam a conduta num homem de 44 anos com úlcera de perna e trabalho rural.

  3. Escolha o fármaco e diga por que as outras opções não servem para ele

    Com a confirmação parasitológica e o HIV não reagente, indique o fármaco de primeira escolha e explique por que não usar a infiltração intralesional, a pentamidina e a anfotericina B lipossomal neste paciente.

  4. Calcule a dose do dia em miligramas de antimônio, mililitros e ampolas

    Use a dose sugerida pelo Manual para a forma cutânea, a apresentação da Rename e o teto diário, e diga a via, o modo de aplicação e a duração.

  5. Escreva o que vigiar durante o tratamento

    Liste os exames, a periodicidade e as orientações que acompanham o antimoniato, e quais achados obrigam a notificar à farmacovigilância.

  6. Marque as datas que definem cura ou falha, e diga o que se notifica

    Diga quando a úlcera deve estar epitelizada, até quando crosta e infiltração podem persistir, o que fazer se ela não fechar e como fica o calendário de retornos.

Ver como fecharíamos

É caso suspeito: lesão de pele com três semanas ou mais em pessoa exposta a área com transmissão. Antes de tratar, confirme o parasito colhendo material da borda da úlcera — escarificação, impressão em lâmina de fragmento de biópsia ou punção aspirativa —, com biópsia da borda também para cultura e histopatologia; meça a lesão, examine a mucosa nasal e oral, e ofereça sorologia para HIV. Os diferenciais que a histopatologia e a cultura precisam afastar nessa perna são úlcera de estase venosa, esporotricose, carcinoma espinocelular e basocelular, piodermite, paracoccidioidomicose, tuberculose e micobacteriose atípica. Confirmada a leishmaniose, a primeira escolha é o antimoniato de meglumina EV ou IM: ele tem menos de 50 anos, não tem doença cardíaca, renal ou hepática, não é imunossuprimido e a área não é de predomínio de L. guyanensis, que pediria pentamidina; a infiltração intralesional não serve porque a lesão passa de 3 cm; a anfotericina B lipossomal fica para 50 anos ou mais, comorbidade, transplante ou gestação. A miltefosina oral, incorporada em primeira linha, é a outra opção, com a posologia do adulto da nota informativa do Ministério. A dose sugerida é 15 mg de Sb5+/kg/dia: 15 x 72 = 1.080 mg de Sb5+, que a 81 mg/mL dão 13,3 mL por dia, 2,7 ampolas de 5 mL — abaixo do teto de 3 ampolas, ou 15 mL. A aplicação é uma vez ao dia por 20 dias, EV lenta em pelo menos cinco minutos ou diluída em 100 mL de soro glicosado a 5% em 30 minutos, ou IM, alternando os locais, de preferência na região glútea. Durante o tratamento: eletrocardiograma semanal e ausculta cardíaca diária; hemograma, ureia, creatinina, amilase, lipase, aminotransferases, bilirrubinas e fosfatase alcalina semanais; repouso físico relativo e nenhuma bebida alcoólica. Arritmia, insuficiência renal ou hepática aguda, icterícia ou aminotransferases acima de cinco vezes o limite e pancreatite ou amilase e lipase acima de cinco vezes o limite são notificadas à farmacovigilância. Depois do último dia, a úlcera deve estar completamente epitelizada até o 90º dia, e crosta, descamação, infiltração e eritema devem sumir até o 180º; se estiver epitelizada no 90º dia e ainda com crosta, observa-se sem novo tratamento até o 180º. Sem epitelização completa no 90º dia, ou com piora ou lesão nova em qualquer momento, repete-se o esquema, desta vez por 30 dias. Os retornos são mensais por três meses depois do fim e, curado, a cada dois meses até completar 12 meses. O caso confirmado é notificado no Sinan.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

É caso suspeito de doença de Chagas aguda por transmissão oral: febre por mais de sete dias com alimento suspeito e vínculo com um surto. Na fase aguda a parasitemia é alta, e o exame que confirma mais cedo é o parasitológico direto — a fresco nos primeiros 30 dias —, com a sorologia colhida junto, porque ela é complementar. A IgG só confirma com duas amostras separadas por 15 dias, a IgM depende de laboratório de referência e de 15 dias de sintomas, e a notificação é feita na suspeita, em até 24 horas. A PCR não confirma nem descarta isoladamente, e o xenodiagnóstico recomendado é só o artificial.

15

Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
16

Plano de revisão

Em 7 dias

Escolha uma das três síndromes e faça um resumo clínico com exposição, hipótese, teste confirmatório e gravidade. Depois explique por que o exame escolhido não responde automaticamente às outras duas.

Em 30 dias

Reavalie um paciente durante tratamento: sintomas, órgãos acometidos, hemograma, função renal e eventos adversos. Justifique continuidade, mudança ou encaminhamento e organize seguimento após a melhora.

17

Agora atenda

Agora atenda: mulher de 29 anos, 58 kg, chega a uma unidade de pronto atendimento no interior do Pará com febre há 11 dias, inchaço no rosto e falta de ar ao deitar. Três pessoas da família que tomaram açaí da mesma banca, duas semanas antes, também estão com febre. Nomeie a suspeita pela definição de caso, colha o exame que decide nesta fase e a sorologia junto, pergunte pela gestação, avalie o coração com os exames certos, notifique no prazo e pelo caminho corretos, prescreva o benznidazol pelo peso sem cair no esquema errado — e não deixe sem exame quem comeu o mesmo alimento e ainda não tem sintoma.

Doença de Chagas e leishmanioses – Duas sorologias, um baço e uma úlcera de bordas altas — Internato | OsceLabs