Clínica MédicaInterpretação de Exames à Beira do Leito

ECG na prática

O interno olha o eletrocardiograma procurando o que está errado — e é exatamente por isso que perde o que não é óbvio. Este capítulo troca a caça ao achado por uma ordem fixa de oito passos, cada um com o valor normal, o corte em milímetros e o que a alteração muda na conduta de hoje.

Fontes deste capítulo

Samesima N, God EG, Kruse JCL, Leal MG, Pinho C, França FFAC e cols. Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos – 2022. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2022. DOI 10.36660/abc.20220623. Acesso aberto no SciELO.

Nicolau JC, Feitosa Filho GS, Petriz JL e cols. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Angina Instável e Infarto Agudo do Miocárdio sem Supradesnível do Segmento ST – 2021. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2021;117(1). Acesso aberto no SciELO e no PubMed Central.

Ministério da Saúde. Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio — Interpretação do eletrocardiograma. Portal das Linhas de Cuidado (linhasdecuidado.saude.gov.br).

Pereira AG, Oliveira TB, Sales RP. Realização do exame de eletrocardiograma por equipes de Saúde da Família no Brasil: um estudo descritivo em 10 anos. Epidemiologia e Serviços de Saúde, 2025;34(supl.1). DOI 10.5327/2237-9622.2025.v34s1.329.

Thygesen K, Alpert JS, Jaffe AS, Chaitman BR, Bax JJ, Morrow DA, White HD. Fourth Universal Definition of Myocardial Infarction (2018). European Heart Journal, 2019;40(3):237-269.

01

Responda antes de ler

Paciente de 55 anos internado por celulite, em uso de ciprofloxacino, com náusea tratada com ondansetrona. Você recebe um eletrocardiograma de rotina: ritmo sinusal, frequência 100 bpm, QT medido de 440 ms. Aplicando a fórmula de Bazett, qual o QTc e qual a conduta?

02

O paciente que você vai ver

Sete e quarenta da manhã, pronto-socorro clínico. O senhor Aparecido, 58 anos, chegou há vinte minutos com uma dor no meio do peito que ele chama de queimação e localiza com a mão aberta, não com o dedo. Começou em casa, enquanto varria o quintal, e não passou com o omeprazol da esposa. Ele é hipertenso, fuma desde os dezessete e tem um irmão que infartou aos 54. A pressão está 148 por 92, a frequência em torno de 80, a saturação em 97% e ele está sentado na maca, quieto, com a camisa de botão aberta e a pele fria de suor.

A técnica de enfermagem traz o eletrocardiograma. É uma folha ainda morna, com doze traçados curtos em quatro colunas e uma tira longa embaixo. No alto, impressa pelo aparelho, está a interpretação automática: "ritmo sinusal. ECG anormal — alteração inespecífica da repolarização ventricular. comparar com exame anterior." Alguém, em algum plantão anterior, escreveu à caneta no canto: "pcte já tem isso".

O que acontece agora, na cabeça de quem está segurando o papel, é o problema deste capítulo. O olho vai direto para onde ele acha que a doença mora — a região do segmento ST das derivações precordiais — e varre o traçado atrás de alguma coisa que se destaque. Não se destaca nada. O laudo do aparelho já disse que é inespecífico. A anotação à caneta sugere que é antigo. A dor é epigástrica, o paciente é queixoso, tem uma fila de dezoito pessoas atrás. A tentação de escrever "ECG sem alterações agudas" e pedir uma amilase é enorme.

Mas o aparelho não olhou para o paciente. O laudo automático mede intervalos e amplitudes com boa precisão e depois adivinha o significado a partir de regras fixas, sem saber que existe um homem de 58 anos, tabagista, suado, com dor há quarenta minutos. A frase "alteração inespecífica da repolarização" é o que o algoritmo escreve quando encontra um desvio pequeno demais para bater o corte que ele conhece — e o corte que ele conhece não é o mesmo para todas as derivações, nem para todas as idades, nem para os dois sexos.

E há uma segunda coisa que o aparelho não fez: ele não seguiu uma ordem. Quem lê procurando "o que está errado" encontra o erro grande e perde o pequeno, porque a atenção vai para onde a imagem chama. Quem lê em ordem fixa — ritmo, frequência, eixo, PR, QRS, ST, T e QT, comparação — não encontra o achado: tropeça nele. O achado aparece porque a medida foi feita, não porque a alteração era visível. Este capítulo é sobre essa ordem, e sobre os números que fazem cada passo terminar em decisão.

O senhor Aparecido volta no fim, com o traçado dele lido passo a passo. Adianto uma coisa só: o que muda a manhã dele não está nas derivações precordiais, onde o olho foi primeiro.

03

Quem adoece disso

O eletrocardiograma é o exame complementar mais feito no Brasil fora do laboratório, e boa parte dele é feita longe do cardiologista. Só nas equipes de Saúde da Família, foram registrados 1.557.486 exames entre 2014 e 2023 — mais da metade no Sudeste (876.594) e menos de 4% na região Norte inteira (57.599). Esses dois números dizem duas coisas diferentes e igualmente úteis. A primeira é que o exame que você vai aprender a ler é rotina, não evento. A segunda é que, na maior parte do território, quem interpreta o traçado na hora em que ele sai da máquina não é especialista — é o médico de plantão, o médico da unidade, o interno. A leitura correta não é um luxo de subespecialidade: é a competência que decide se um paciente do Acre ou do interior do Piauí vai ser transferido hoje ou na semana que vem.

O erro, quando acontece, tem três endereços preferenciais. O primeiro é o laudo automático. A diretriz da SBC sobre emissão de laudos eletrocardiográficos é explícita: as medidas automáticas melhoraram e são um auxílio importante, mas a revisão médica dessas métricas é fundamental, porque emitir laudo é ato médico — o uso das aferições e interpretações automáticas sem revisão não é recomendado. Traduzindo para a beira do leito: a frase impressa no alto da folha é uma hipótese gerada por um algoritmo cego ao paciente, e assumi-la sem conferir transfere a decisão para um software que não examinou ninguém.

O segundo endereço é a técnica. Um eletrodo no lugar errado produz um traçado que não é ruído: é um traçado limpo, bonito, que descreve um coração que não existe. Troca de cabos entre os braços deixa a derivação D1 inteiramente negativa e aVR positivo, o que imita dextrocardia; precordiais posicionadas um ou dois espaços intercostais acima do lugar simulam atraso de condução final ou sobrecarga atrial esquerda. Nenhum desses artefatos acende alarme no aparelho, e todos eles já geraram internação, cateterismo e susto.

O terceiro endereço é o tempo. A diretriz brasileira de angina instável e infarto sem supra estabelece que, na suspeita de síndrome coronariana aguda, o ECG deve ser realizado e interpretado nos primeiros dez minutos do contato médico — e que deve ser repetido quando os sintomas recorrem, com classe I de recomendação. Repetir é a parte que se perde na correria. Um traçado é uma fotografia de dez segundos de um processo que evolui em horas; a isquemia que ainda não fechou a artéria às 7h40 pode estar fechando às 8h05, e o único jeito de ver isso é fazer o exame de novo.

Há ainda um número que reorganiza a expectativa de quem está começando: o bloqueio de ramo esquerdo novo ou presumivelmente novo aparece em cerca de 7% dos pacientes com infarto com supradesnivelamento. É pouco o bastante para o interno nunca ter visto e frequente o bastante para aparecer no seu plantão — e é a situação em que os critérios habituais de ST deixam de valer. Guardar esse 7% é guardar que existe uma porta lateral por onde o infarto entra sem produzir o supradesnivelamento que todo mundo está procurando.

A conclusão prática que sustenta o resto do capítulo é esta: os erros de eletrocardiograma no pronto-socorro brasileiro raramente vêm de não saber o que é uma onda T. Vêm de ler sem ordem, de aceitar o laudo do aparelho, de não conferir a técnica e de não repetir o exame. Os quatro têm o mesmo antídoto, e ele é um método.

04

Por que acontece o que acontece

Só é possível confiar num critério quando se sabe de onde ele vem. Esta seção é curta de propósito: entra apenas a fisiologia que faz um número do capítulo ter sentido.

O eletrocardiógrafo não enxerga o coração. Ele mede diferença de potencial elétrico entre dois pontos da pele, dez a cem vezes por segundo, e desenha essa diferença ao longo do tempo. Toda a interpretação nasce de uma convenção só: quando a frente de despolarização caminha na direção do eletrodo explorador, a deflexão é positiva; quando se afasta, é negativa; quando é perpendicular, o registro fica isoelétrico. Nada além disso. É por essa convenção que existe eixo elétrico, que existem paredes, e que uma mesma corrente elétrica produz uma onda para cima em D2 e para baixo em aVR.

A onda P é a despolarização atrial — primeiro o átrio direito, depois o esquerdo, com pequena sobreposição. Como o nó sinusal fica no alto do átrio direito e a ativação desce em direção aos pés e à esquerda, a P do ritmo sinusal é positiva em D1, D2 e aVF, e negativa em aVR. Esse fato é o que transforma "ritmo sinusal" de impressão em critério: se a P está negativa em D2, a ativação não começou onde deveria — ou os cabos estão trocados.

O intervalo PR mede o tempo entre o começo da ativação atrial e o começo da ventricular, e a maior parte dele é gasta dentro do nó atrioventricular, que conduz devagar de propósito. Esse atraso fisiológico é o que permite ao átrio terminar de encher o ventrículo antes de o ventrículo se contrair. Por isso o PR normal tem um piso e um teto: abaixo do piso, existe um caminho que fura o nó (pré-excitação); acima do teto, o nó está mais lento do que deveria, seja por doença, por tônus vagal ou por droga.

O QRS é a despolarização dos ventrículos, e a duração dele é o dado mais informativo do traçado inteiro — porque ela responde a uma pergunta binária: o impulso usou a fiação ou não? O sistema His-Purkinje conduz muitas vezes mais rápido que o músculo comum. Quando o impulso desce pelos dois ramos, a ativação dos dois ventrículos é quase simultânea e o QRS fica estreito. Quando qualquer coisa obriga o impulso a atravessar miocárdio célula a célula — um ramo bloqueado, um foco ventricular, um marca-passo, uma via acessória, potássio alto, uma droga que bloqueia canal de sódio —, a ativação vira uma onda lenta e o QRS alarga. "QRS largo" não é um diagnóstico: é o aviso de que a condução não é a fisiológica, e a lista de causas dessa frase é curta e memorizável.

O segmento ST é o intervalo em que todo o ventrículo já está despolarizado ao mesmo tempo. Como não existe diferença de potencial entre regiões, o registro fica na linha de base. É essa homogeneidade que torna o ST um detector tão sensível de isquemia: basta uma região do músculo ficar eletricamente diferente das outras para aparecer um desnível. Na isquemia transmural, as células da área lesada perdem parte do potencial de repouso e se despolarizam de forma incompleta; surge uma corrente de lesão entre o tecido doente e o sadio, e a derivação que encara aquela região registra um desvio para cima do ST — enquanto a derivação diametralmente oposta registra o mesmo fenômeno ao contrário, como imagem em espelho. O infradesnivelamento recíproco não é um segundo achado: é o mesmo achado visto do outro lado, e a presença dele é o que separa um supradesnivelamento isquêmico de um supradesnivelamento benigno.

Daí vem a correspondência entre derivação e parede, que o interno costuma decorar e esquecer, mas que é pura geometria. D2, D3 e aVF são as três derivações cujos eletrodos exploradores estão posicionados de modo a olhar o coração de baixo, a partir da perna esquerda e do plano frontal inferior: elas encaram a parede inferior, e é por isso que a oclusão de uma coronária que irriga essa parede — na maioria das vezes a artéria coronária direita — produz supradesnivelamento nessas três, e não nas precordiais. D1 e aVL olham da esquerda e de cima, encarando a parede lateral alta; por serem quase opostas a D3 e aVF, são justamente onde aparece o espelho do infarto inferior. As precordiais V1 a V4 estão coladas na parede anterior do tórax, sobre o septo e a parede anterior; V5 e V6 deslizam para a lateral. Nenhuma derivação convencional encara diretamente o ventrículo direito nem a região lateral mais posterior — e é exatamente por isso que existem V3R, V4R, V7, V8 e V9.

A onda T é a repolarização ventricular. Ela é assimétrica no coração normal — sobe devagar e desce rápido — porque a repolarização não segue a mesma sequência da despolarização. Quando a T fica simétrica, em bico, ela deixou de ser fisiológica: o que produz simetria é uma alteração homogênea da repolarização, seja por isquemia, seja por potássio alto. Essa é a razão pela qual "T apiculada" e "T simétrica invertida" entram na lista de padrões perigosos e "T levemente achatada" não entra.

O intervalo QT mede quanto tempo o ventrículo leva para despolarizar e repolarizar por completo — na prática, a duração do potencial de ação ventricular, que depende sobretudo das correntes de potássio de saída. Tudo que atrapalha essas correntes alonga o QT: potássio baixo, magnésio baixo, cálcio baixo, e uma lista grande de medicamentos comuns no hospital. E como o potencial de ação encurta quando o coração acelera, o QT medido depende da frequência — motivo pelo qual ele nunca é interpretado cru, e sim corrigido. O risco de um QT longo não é acadêmico: quanto mais longa a repolarização, maior a janela em que uma extrassístole pode cair sobre a onda T e disparar uma taquicardia ventricular polimórfica.

Duas últimas peças, porque explicam critérios que aparecem adiante. Mais massa muscular gera vetor maior, e vetor maior gera amplitude maior — é essa a lógica dos critérios de voltagem de sobrecarga ventricular esquerda, que somam milímetros de derivações opostas. E mais massa também significa mais tempo para o impulso atravessá-la, o que atrasa o pico da onda R sobre o ventrículo hipertrofiado e altera secundariamente a repolarização daquela parede. Já a hipercalemia faz o contrário do que a intuição sugere: o potássio extracelular alto aproxima o potencial de repouso do limiar, inativa canais de sódio e torna a condução mais lenta e mais difícil. O resultado pode incluir alterações que não seguem sequência obrigatória — a repolarização acelera (T alta, estreita e simétrica), depois a condução atrial falha (P achata e some), depois a condução ventricular falha (QRS alarga progressivamente até virar uma onda larga e contínua). Reconhecer essa sequência em medidas, e não em impressão visual, é o que permite pedir cálcio antes do resultado do potássio voltar.

Diagrama hexaxial mostra I a zero grau, II a 60, III a 120, aVF a 90, aVL a menos 30 e aVR a menos 150; ao lado, corte transversal situa V1 a V6.
As derivações dos membros observam o plano frontal e as precordiais acrescentam o plano horizontal. Os eixos representam a direção positiva de cada derivação; derivações direitas ou posteriores adicionais podem ser necessárias conforme a suspeita.
05

Como se apresenta de verdade

Antes de qualquer leitura vem a pergunta que quase ninguém faz: este traçado foi feito direito? A resposta muda tudo, porque um erro de técnica não produz um exame ruim — produz um exame convincente sobre um coração que não existe. Os quatro itens abaixo levam dez segundos somados e evitam a maior parte dos sustos.

Ao pegar a folha, confira nesta ordem: (1) o nome e a data — o traçado do vizinho de maca é um clássico; (2) a velocidade, impressa no rodapé, que deve ser 25 mm/s; (3) a amplitude, que deve ser 10 mm/mV, verificável no pulso de calibração retangular no início da linha; (4) a linha de base, que precisa estar estável o bastante para você conseguir apoiar uma régua nela. Só depois disso o traçado vira informação.

Percurso de aprendizagem

Confira técnica e calibração, sem tratar variação válida de ganho/velocidade como exame inútil. Um achado isolado não prova troca de cabos.

Reconheça oclusão e equivalentes de alto risco; BRE novo e cortes de ST não substituem avaliação de isquemia persistente.

Meça QT/RR, confira drogas e eletrólitos e reconheça risco arrítmico. ECG normal não exclui doença transitória nem hipercalemia perigosa.

Onde cada eletrodo vai — e o que muda quando ele não vai

Os quatro eletrodos de membro vão nos punhos e nos tornozelos, ou, se houver tremor ou amputação, nas raízes dos membros correspondentes — sempre nos quatro, nunca três num lugar e um no outro. Pelo padrão de cores mais usado no Brasil: vermelho no braço direito, amarelo no braço esquerdo, verde na perna esquerda, preto na perna direita (esse último é o eletrodo neutro, que não gera derivação, mas sem o qual o traçado fica cheio de interferência).

As seis precordiais têm marcos anatômicos fixos, e todos eles partem do mesmo ponto de referência: encontrar o quarto espaço intercostal. V1 fica no quarto espaço intercostal, junto à borda esternal direita. V2 no quarto espaço, junto à borda esternal esquerda. V4 no quinto espaço intercostal, na linha hemiclavicular esquerda. V3 é o único que não tem marco próprio: fica exatamente no meio do caminho entre V2 e V4. V5 na linha axilar anterior e V6 na linha axilar média, ambas no mesmo plano horizontal de V4 — e não seguindo a curva do espaço intercostal, que é o erro mais comum na mulher e no obeso.

Vale explicitar por que a precisão importa aqui e não em outros exames: as precordiais medem amplitudes, e amplitude cai com a distância. Deslocar V1 e V2 um espaço intercostal para cima aproxima o eletrodo da base do coração e da via de saída do ventrículo direito, e o traçado passa a mostrar um pequeno atraso final e uma onda P de morfologia diferente — a diretriz da SBC registra que o mau posicionamento de V1 e V2 simula atraso final de condução ou sobrecarga atrial esquerda. Nos exames seriados, mudar a posição das precordiais entre um traçado e outro produz uma "perda de progressão de R" que não é doença nenhuma: é o eletrodo que andou.

Os erros de posicionamento que imitam doença

A troca dos cabos dos braços é a mais frequente e a mais enganosa. Ela inverte a polaridade de D1 e transforma aVR na imagem de aVL: o resultado é P, QRS e T todos negativos em D1, com aVR positivo. Esse conjunto é indistinguível, nas derivações de membro, de uma dextrocardia. O que separa os dois é olhar as precordiais: na dextrocardia verdadeira, a progressão da onda R está invertida — as amplitudes diminuem de V1 para V6 em vez de aumentar. Se as precordiais progridem normalmente e só as derivações de membro estão de cabeça para baixo, é cabo trocado. Refaça o exame; não peça ecocardiograma.

Troca entre braço e perna pode alterar derivações e eixo, mas P negativa em D3, com D1/D2 positivas, também pode ocorrer em posição normal dos eletrodos. Suspeitar pela combinação de achados incoerentes, comparar o traçado e conferir cabos; não transformar um sinal isolado em diagnóstico técnico.

A troca envolvendo o eletrodo neutro (perna direita) produz uma derivação anormalmente pequena ou quase plana, geralmente D2 ou D3. Linha quase reta numa única derivação, com as outras onze normais, é problema de cabo — o coração não consegue ser eletricamente invisível em um plano e normal em todos os outros.

Por fim, os artefatos que imitam arritmia. Tremor muscular — na doença de Parkinson, no calafrio, no paciente ansioso — produz uma ondulação fina e regular na linha de base que o olho lê como fibrilação atrial ou flutter. O que desfaz a confusão é uma medida, não uma impressão: no artefato, os intervalos RR permanecem regulares e os complexos QRS marcham no tempo certo, atravessando a ondulação sem se alterar. Na fibrilação atrial verdadeira, os RR são irregularmente irregulares. Meça três intervalos RR consecutivos com a régua antes de escrever "fibrilação" no prontuário.

Mapa frontal do tórax marca V1 e V2 no quarto espaço intercostal, V4 no quinto espaço na linha medioclavicular, V3 entre V2 e V4, e V5/V6 no nível horizontal de V4.
A posição dos eletrodos exige marcos palpáveis. V1 e V2 ficam nas bordas esternais direita e esquerda; V4 define a referência horizontal de V5 e V6 nas linhas axilares. O mapa é geométrico e não usa o mamilo como referência.

Velocidade e amplitude: dois números do rodapé que mudam a leitura

A velocidade padrão do papel é 25 mm/s. É dessa convenção que sai toda a régua de tempo do exame: cada quadradinho de 1 mm vale 0,04 segundo (40 ms) e cada quadrado grande de 5 mm vale 0,20 segundo (200 ms). Se alguém registrou o exame a 50 mm/s — o que às vezes se faz para separar ondas em taquicardias —, todas as durações no papel dobram de largura: um QRS normal de 80 ms ocupa o espaço de um QRS de 160 ms, e as contas de frequência baseadas em contagem de quadradinhos passam a dar metade do valor verdadeiro. Nada disso é erro do aparelho; é erro de quem leu sem olhar o rodapé.

A amplitude padrão é 10 mm/mV: um milivolt desloca a agulha em 10 milímetros, o que faz 1 mm de papel valer 0,1 mV. Todos os cortes deste capítulo — o supradesnivelamento de 1 mm, os 2,5 mm de V2-V3, os 35 mm de Sokolow-Lyon — pressupõem essa calibração. Em pacientes com QRS muito amplo, o técnico às vezes registra a metade da amplitude (5 mm/mV, indicado como N/2 no rodapé) para caber no papel; nessa condição, um supradesnivelamento verdadeiro de 2 mm imprime apenas 1 mm, e um critério de sobrecarga deixa de ser atingido. O pulso de calibração no começo da linha é a conferência visual: no padrão, ele é um retângulo de 10 mm de altura por 5 mm de largura.

Os filtros também interferem, e de um jeito que não aparece no laudo. O filtro de rede, usado para tirar a interferência elétrica ambiental, é inofensivo. Já o estreitamento da banda de baixa frequência — o modo que alguns aparelhos chamam de "monitor" — achata desníveis lentos do segmento ST e pode reduzir um supradesnivelamento real. Nunca decida reperfusão a partir de traçado feito em modo de monitorização: peça o ECG de doze derivações em modo diagnóstico.

As derivações extras: quando pedir V3R-V4R e V7-V9

O ECG convencional tem dois pontos cegos anatômicos, e os dois têm consequência clínica direta. O primeiro é o ventrículo direito, que nenhuma das doze derivações encara de frente. O segundo é a porção lateral mais posterior do ventrículo esquerdo, território tipicamente irrigado pela artéria circunflexa.

V3R e V4R são o espelho de V3 e V4 no hemitórax direito: V4R fica no quinto espaço intercostal, na linha hemiclavicular direita, e V3R no meio do caminho entre V1 e V4R. A indicação clínica mais forte é objetiva: todo supradesnivelamento em parede inferior (D2, D3 e aVF) merece derivações direitas, porque o infarto de ventrículo direito acompanha a oclusão proximal da coronária direita e muda a conduta — o paciente com comprometimento do ventrículo direito depende de pré-carga, e nele nitrato e morfina podem derrubar a pressão. O corte de positividade é mais baixo do que o das derivações convencionais: supradesnivelamento de 0,5 mm já conta.

V7, V8 e V9 são a continuação de V6 para trás, no mesmo plano horizontal: V7 na linha axilar posterior, V8 na linha da ponta da escápula, V9 na borda paravertebral esquerda. Elas se pedem quando há infradesnivelamento de V1 a V3 com onda R relativamente alta nessas mesmas derivações — o quadro que costuma ser, na verdade, a imagem em espelho de um supradesnivelamento que só aparece atrás. Também aqui o corte é 0,5 mm. A diretriz da SBC de 2022 acrescenta uma correção de nomenclatura que vale adotar desde já: os termos "parede posterior" e "dorsal" saíram de uso, porque o território que V7 a V9 registram é a parede lateral.

Há, além dessas duas indicações anatômicas, uma indicação clínica que a diretriz brasileira de 2021 coloca como classe I: fazer V3R-V4R e V7-V9 no paciente que permanece sintomático quando o ECG de doze derivações não é diagnóstico. Ou seja, o traçado "normal" no paciente que continua com dor não encerra a investigação — ele indica que faltam derivações.

O mesmo exame em pacientes diferentes

O idoso acumula alterações crônicas — bloqueio divisional anterossuperior, bloqueio de ramo direito, ondas Q antigas de um infarto que ninguém sabia — e é justamente nele que a comparação com traçado anterior vale mais. Um bloqueio de ramo esquerdo que já existia em 2019 não é o mesmo achado de um bloqueio de ramo esquerdo que apareceu hoje, e o traçado velho é o único jeito de saber.

No paciente com doença pulmonar obstrutiva crônica e no obeso, a distância entre o coração e os eletrodos aumenta e as amplitudes caem: os critérios de voltagem de sobrecarga perdem sensibilidade, e um traçado de baixa voltagem não deve ser lido como "coração normal". No enfisema, ainda aparecem desvio do eixo para a direita e onda P alta e apiculada nas derivações inferiores.

Na gestante, o útero gravídico eleva o diafragma e horizontaliza o coração: eixo desviado para a esquerda, onda T achatada ou invertida em D3 e extrassístoles isoladas são achados esperados no terceiro trimestre e não indicam doença isoladamente. Já dor torácica em gestante segue exigindo o mesmo rigor de qualquer adulto — a dissecção de aorta e a doença coronariana existem na gravidez.

No paciente com marca-passo, as espículas de estimulação são visíveis e a despolarização ventricular passa a ser artificial: o QRS é largo, e os critérios habituais de segmento ST não se aplicam, exatamente como no bloqueio de ramo esquerdo. No paciente em uso de digoxina, o infradesnivelamento côncavo do ST com aspecto de colher é efeito da droga, não isquemia — e não guarda relação com nível sérico tóxico.

Por fim, o paciente em parada ou em choque profundo: nele, o eletrocardiograma de doze derivações é um exame que se faz depois, não antes. A prioridade é o monitor e o ritmo. Este capítulo é sobre o traçado impresso do paciente que ainda tem pulso.

06

Como fechar o diagnóstico

Aqui está o coração do capítulo. A ordem abaixo não é uma sugestão de estudo: é a sequência que se executa com o papel na mão, sempre igual, inclusive quando o achado grande já saltou aos olhos no primeiro segundo. A razão é que o achado grande rouba a atenção — quem vê o supradesnivelamento para de ler, e é assim que se perde o bloqueio atrioventricular que estava junto, o QT de 520 ms que contraindica a droga que você ia prescrever, ou a onda P que tinha sumido.

Cada passo termina em uma medida e em um significado. Meça com o que estiver à mão — régua de ECG, régua comum, o próprio papel dobrado, ou contando quadradinhos —, mas meça. A diferença entre 110 e 130 ms de QRS é a diferença entre condução normal e bloqueio de ramo, e ninguém acerta isso no olho. As tabelas do bloco seguinte consolidam todos os valores de referência, todos os cortes e todas as contas em um lugar só: use o texto para entender o passo e a tabela para conferir o número na hora do plantão.

Passo 1 — Ritmo: é sinusal?

Ritmo sinusal não é uma impressão: é uma lista de quatro condições verificáveis. A diretriz da SBC define o ritmo sinusal como o ritmo fisiológico originado no átrio direito alto, com ondas P positivas em D1, D2 e aVF e eixo de P entre 0° e +90°. À beira do leito isso vira: (1) existe onda P antes de cada QRS; (2) existe QRS depois de cada onda P; (3) a P é positiva em D1, D2 e aVF, e negativa em aVR; (4) o intervalo entre as ondas P é constante. Se as quatro batem, o ritmo é sinusal, e você escreve isso porque mediu — não porque o aparelho escreveu.

A frequência do ritmo sinusal normal, pela mesma diretriz, vai de 50 a 99 bpm. Abaixo disso é bradicardia sinusal, acima é taquicardia sinusal, e nenhuma das duas é diagnóstico: são achados que pedem uma causa. Bradicardia sinusal é fisiológica no atleta e no sono, e é sinal de alarme no paciente com dor torácica inferior, no intoxicado por betabloqueador e no hipotireoidismo grave. Taquicardia sinusal quase nunca é a doença — é a resposta a dor, febre, hipovolemia, anemia, ansiedade, hipoxemia, embolia pulmonar ou abstinência. Tratar a frequência sem procurar a causa é a maneira mais rápida de piorar um choque.

Quando a onda P não está onde deveria, a lista de possibilidades é curta e cada item tem uma assinatura mensurável. Sem onda P visível, com intervalos RR irregularmente irregulares e uma ondulação fina da linha de base, é fibrilação atrial — e, repito, o critério que decide é a irregularidade dos RR medida em três intervalos consecutivos, não o aspecto da linha de base. Sem P, mas com ondas atriais regulares em serrote, tipicamente em torno de 300 por minuto nas derivações inferiores, é flutter atrial; a condução costuma ser 2:1, o que produz uma frequência ventricular de aproximadamente 150 bpm — toda taquicardia regular de QRS estreito perto de 150 bpm merece a pergunta "onde estão as ondas F?". Com P negativa em D2, D3 e aVF, o foco não está no alto do átrio direito: é ritmo atrial baixo ou juncional — ou, muito mais provável no pronto-socorro, cabo trocado, e a conferência de D1 e aVR resolve em três segundos.

Vale registrar por que este é o primeiro passo e não um passo qualquer: o ritmo decide quais dos passos seguintes fazem sentido. Em fibrilação atrial não existe intervalo PR para medir nem regra dos 1500 para aplicar. Em ritmo de marca-passo, os critérios de segmento ST mudam. Começar pelo ritmo é o que impede o resto da leitura de ser tecnicamente correta e clinicamente sem sentido.

Passo 2 — Frequência: três métodos, e saber qual usar

Toda conta de frequência sai da mesma convenção: a 25 mm/s, um quadradinho de 1 mm equivale a 0,04 segundo e um quadrado grande de 5 mm equivale a 0,20 segundo. Um minuto tem 1500 quadradinhos e 300 quadrados grandes — e é literalmente daí que vêm os nomes dos dois primeiros métodos.

A regra dos 1500 é a mais precisa: conte quantos quadradinhos de 1 mm separam dois picos R consecutivos e divida 1500 por esse número. Um intervalo RR de 18 quadradinhos dá 83 bpm. Use-a sempre que o ritmo for regular e você precisar de um número para registrar, para calcular o QTc ou para comparar com um exame anterior.

A regra dos 300 é a versão de cabeceira: divida 300 pelo número de quadrados grandes entre dois R. Dá para não fazer conta nenhuma decorando a sequência que corresponde a 1, 2, 3, 4, 5 e 6 quadrados grandes, tabelada adiante. O método serve para a estimativa imediata, e sua imprecisão aparece quando o pico R não cai sobre uma linha grossa: nesse caso, você está interpolando, e o erro pode passar de 10 bpm em frequências altas.

A regra dos 6 segundos é a única que funciona em ritmo irregular. A maioria dos aparelhos imprime marcas a cada 3 segundos na tira longa; 30 quadrados grandes equivalem a 6 segundos. Conte os complexos QRS nesse trecho e multiplique por 10. Na fibrilação atrial, esse é o método correto, e usar a regra dos 1500 num único intervalo RR ali é um erro conceitual que produz números absurdos — o intervalo que você escolheu pode ser o mais curto ou o mais longo da tira.

Há uma quarta medida que quase ninguém faz e que resolve metade das confusões de bradicardia e taquicardia: a frequência atrial, calculada do mesmo jeito, mas medindo a distância entre duas ondas P (ou duas ondas F) em vez de dois R. Quando a frequência atrial e a ventricular são iguais, há condução 1:1. Quando são diferentes, existe bloqueio ou dissociação — e a razão entre as duas diz qual. No flutter com condução 2:1, a frequência atrial em torno de 300 e a ventricular em torno de 150 fecham o diagnóstico sem precisar enxergar cada onda F com clareza.

Passo 3 — Eixo elétrico: o quadrante em cinco segundos

O eixo do QRS no plano frontal é a direção média do vetor de despolarização ventricular, e o normal, pela diretriz da SBC, vai de −30° a +90°. Ele não é um enfeite: desvio de eixo é o achado que denuncia bloqueio divisional, sobrecarga de ventrículo direito, infarto antigo e — de novo — troca de cabos.

O método rápido usa duas derivações. Olhe se o QRS é predominantemente positivo ou negativo em D1 e em aVF. Ambos positivos: o eixo está entre 0° e +90°, ou seja, normal, e você pode parar aqui. D1 positivo e aVF negativo: o eixo está para cima e para a esquerda, e agora é preciso um desempate, porque a faixa entre 0° e −30° ainda é normal — olhe D2. Se D2 for positivo, o eixo está entre 0° e −30° e continua normal; se D2 for negativo, o eixo passou de −30° e há desvio do eixo para a esquerda. D1 negativo e aVF positivo: desvio do eixo para a direita, entre +90° e +180°. Os dois negativos: eixo no quadrante superior direito, que praticamente não existe em coração normal — pense em troca de cabos dos braços, ritmo de origem ventricular, hipercalemia grave ou dextrocardia.

Se você precisar de um número em vez de um quadrante, use a derivação mais isoelétrica — aquela em que as deflexões positiva e negativa quase se anulam. O eixo é perpendicular a ela. Como D1 está a 0°, D2 a +60°, aVF a +90°, D3 a +120°, aVR a −150° e aVL a −30°, uma derivação isoelétrica em aVL indica eixo perto de +60°, e uma isoelétrica em D2 indica eixo perto de −30° ou +150°, com o desempate feito pela derivação mais positiva do traçado.

A lista de causas é curta e clinicamente útil. Desvio para a esquerda: bloqueio divisional anterossuperior (a causa mais comum), infarto inferior antigo com onda Q, sobrecarga ventricular esquerda, obesidade e gestação avançada por horizontalização do coração. Desvio para a direita: sobrecarga de ventrículo direito, doença pulmonar crônica, embolia pulmonar aguda, bloqueio divisional posteroinferior (que é raro e só se diagnostica depois de excluir as outras causas), infarto lateral e, no lactente e na criança pequena, a normalidade da idade. Repare que "troca de cabos" aparece nas duas listas — é sempre a primeira coisa a excluir quando o eixo não combina com o paciente.

Passo 4 — Intervalo PR: onde a condução atrioventricular aparece

Meça do início da onda P ao início do QRS, na derivação em que a P for mais bem definida — geralmente D2. O normal é de 120 a 200 ms para frequências até 90 bpm, o que corresponde a 3 a 5 quadradinhos. Escrever "PR de 4 quadradinhos" e "PR de 160 ms" é a mesma frase; treine converter, porque a conversão é o que permite conferir o número que o aparelho imprimiu.

Acima de 200 ms, com todas as ondas P conduzindo, é bloqueio atrioventricular de primeiro grau — e a palavra "bloqueio" engana. Nada está bloqueado: tudo conduz, só que devagar. Isoladamente, em paciente assintomático, ele não pede exame nenhum nem intervenção nenhuma; pede uma olhada na prescrição, atrás de betabloqueador, verapamil, diltiazem, digoxina ou amiodarona, e uma olhada no potássio.

O bloqueio de segundo grau se divide em dois, e a diferença entre eles é a diferença entre observar e intervir. No tipo Mobitz I (fenômeno de Wenckebach), o intervalo PR vai aumentando batimento a batimento até que uma onda P não conduz; depois da pausa, o ciclo recomeça com o PR mais curto da sequência. O bloqueio é no nó atrioventricular, costuma ser benigno e frequentemente responde a atropina. No tipo Mobitz II, o PR é fixo e uma onda P deixa de conduzir de repente, sem aviso; a lesão é abaixo do nó, no sistema His-Purkinje, e a evolução para bloqueio total é imprevisível e pode ser súbita. Traduzindo para a conduta: Mobitz I com paciente estável se acompanha; Mobitz II é indicação de monitorização contínua e de marca-passo, e o paciente não sai da sala.

No bloqueio atrioventricular total, nenhuma onda P conduz. O traçado mostra duas cadências independentes: as ondas P marcham num intervalo PP regular, os QRS marcham num intervalo RR regular, e não existe relação constante entre eles. Aqui a medida da frequência atrial separadamente da ventricular, do passo anterior, é o que fecha o diagnóstico. A frequência do ritmo de escape informa a altura do problema: escape juncional, com QRS estreito, costuma bater entre 40 e 60 bpm e é relativamente estável; escape ventricular, com QRS largo, bate entre 20 e 40 bpm e é instável — este último é uma emergência.

Do outro lado da faixa, PR abaixo de 120 ms merece uma segunda olhada no início do QRS: se houver empastamento inicial (onda delta) com QRS igual ou maior que 120 ms, o quadro é de pré-excitação ventricular. Isso muda condutas concretas — na fibrilação atrial pré-excitada, bloqueadores do nó atrioventricular podem acelerar a condução pela via acessória.

Por fim, uma medida diferente com nome parecido: o infradesnivelamento do segmento PR, que é o trecho entre o fim da P e o início do QRS. Ele é um dos achados da pericardite aguda, tipicamente acompanhado de supradesnivelamento difuso do ST, e é fácil de perder porque ninguém olha para essa região do traçado. Vale procurar sempre que houver supradesnivelamento em derivações que não formam uma parede coerente.

Passo 5 — QRS: duração primeiro, morfologia depois, amplitude por último

A duração do QRS é a medida mais decisiva do exame, porque separa dois mundos. Abaixo de 120 ms — menos de 3 quadradinhos — a ativação ventricular usou o sistema de condução, e todos os critérios habituais de ST, T e infarto valem como escritos. A partir de 120 ms, a ativação foi por outro caminho, e uma parte importante da régua deixa de valer.

Se o QRS estiver alargado, a próxima pergunta é qual das seis causas explica: bloqueio de ramo (direito ou esquerdo), ritmo de origem ventricular (incluindo taquicardia ventricular e ritmo idioventricular), estimulação por marca-passo, pré-excitação, hipercalemia e efeito de drogas que bloqueiam canais de sódio (antidepressivos tricíclicos, alguns antiarrítmicos, cocaína). Note que três dessas seis causas são reversíveis e duas delas são emergências metabólicas ou toxicológicas — QRS largo nunca é só um dado eletrocardiográfico.

O bloqueio de ramo direito tem QRS de 120 ms ou mais com morfologia rSR' ou rsR' em V1 e ondas S empastadas em D1, aVL, V5 e V6, com a onda T assimétrica e oposta ao retardo final. Ele é frequente em pessoas sem doença cardíaca e, importante, preserva a leitura do segmento ST na maior parte das derivações — um supradesnivelamento em parede inferior continua sendo lido normalmente na presença de bloqueio de ramo direito.

O bloqueio de ramo esquerdo é outra história. Tem QRS de 120 ms ou mais (a diretriz da SBC registra que o critério fica mais específico com 130 ms em mulheres e 140 ms em homens), ausência de onda q em D1, aVL, V5 e V6, ondas R alargadas e com entalhes nessas derivações, e deflexão intrinsecoide em V5-V6 igual ou maior que 50 ms. Porque a ativação do ventrículo esquerdo é anormal, a repolarização também é: existe desnivelamento do ST e inversão de T que fazem parte do próprio bloqueio, e por isso os cortes de supradesnivelamento não podem ser aplicados diretamente. Nessa situação, o que se usa são os critérios de Sgarbossa, descritos em medidas na tabela dos padrões que não podem passar.

Os bloqueios divisionais são diagnosticados com QRS estreito, o que confunde quem espera que "bloqueio" signifique QRS largo. O bloqueio divisional anterossuperior tem eixo de −45° ou mais negativo, padrão rS em D2, D3 e aVF com a onda S de D3 maior que a de D2, padrão qR em D1 e aVL, e QRS abaixo de 120 ms. O bloqueio divisional posteroinferior tem eixo além de +90°, padrão qR em D2, D3 e aVF com a onda R de D3 maior que a de D2 e QRS abaixo de 120 ms — e só se firma depois de descartar as outras causas de desvio do eixo para a direita, que são muito mais comuns.

Só agora entra a amplitude, e ela é o único lugar do exame em que se somam milímetros de derivações diferentes. Os quatro critérios de sobrecarga ventricular esquerda em uso — Sokolow-Lyon, Cornell, Peguero-Lo Presti e o escore de Romhilt-Estes — estão tabelados adiante com os respectivos cortes, e três deles têm valores distintos para homens e mulheres: aplicar o corte masculino a uma paciente é fonte corriqueira de falso-positivo. Todos pressupõem calibração de 10 mm/mV e todos perdem sensibilidade no obeso e no enfisematoso, em que a distância entre o coração e o eletrodo derruba as amplitudes. Do lado atrial, a sobrecarga direita se manifesta como onda P apiculada nas derivações inferiores e a esquerda como onda P alargada em D2 com componente negativo em V1 — e esta última também aparece falsamente quando V1 e V2 foram colocados acima do lugar.

No extremo oposto da amplitude está a baixa voltagem, que se define por QRS abaixo de 5 mm em todas as derivações do plano frontal e abaixo de 10 mm nas precordiais. Ela levanta uma lista específica e clinicamente carregada: derrame pericárdico (e, com alternância elétrica, tamponamento), obesidade, enfisema, hipotireoidismo e doenças infiltrativas como a amiloidose.

Ainda no QRS, procure ondas Q patológicas: duração de 30 ms ou mais e profundidade de 1 mm ou mais, em pelo menos duas derivações contíguas. Elas marcam necrose prévia, e a informação que interessa não é o passado em si — é que uma onda Q nova, num paciente com dor, indica infarto em evolução, e que uma onda Q antiga documentada num traçado anterior poupa uma investigação inteira. Pequenas ondas q em D1, aVL, V5 e V6 são fisiológicas e correspondem à despolarização septal.

Passo 6 — Segmento ST: os cortes em milímetros, por derivação, sexo e idade

Primeiro, onde medir. O ponto J é a junção entre o fim do QRS e o início do segmento ST; é nele que se mede o desnível. A referência de "zero" é o segmento TP (entre o fim da T e o início da P seguinte) ou, quando a frequência é alta demais e o TP desaparece, o segmento PR. Medir no lugar errado é o erro técnico mais comum deste passo: um desnível de 1 mm medido 80 ms depois do ponto J, num traçado com ST ascendente, pode não existir no ponto J.

Os cortes de supradesnivelamento não são um número só, e essa é a informação que mais frequentemente falta na cabeça de quem está começando. Em todas as derivações, exceto V2 e V3, o corte é de 1 mm. Em V2 e V3, ele depende de sexo e idade: 2,5 mm em homens com menos de 40 anos, 2 mm em homens de 40 anos ou mais, e 1,5 mm em mulheres de qualquer idade. A razão de V2 e V3 terem cortes maiores é que a repolarização precoce normal produz elevação basal justamente ali, mais acentuada em homens jovens — sem o corte diferenciado, uma fração grande de homens saudáveis seria classificada como infartada.

E há uma exigência que vale para todos os cortes: o desnivelamento precisa aparecer em pelo menos duas derivações contíguas. Contíguas significa que encaram a mesma parede — D2, D3 e aVF entre si; V1 a V4 na sequência; D1, aVL, V5 e V6 entre si. Um supradesnivelamento isolado em uma única derivação não fecha critério e quase sempre é artefato, repolarização precoce ou variação de linha de base.

A correspondência entre derivação e parede fecha o raciocínio anatômico: supradesnivelamento em D2, D3 e aVF indica parede inferior; em V1 a V4, parede anterior (com V1-V2 mais septais e V3-V4 mais anteriores); em D1, aVL, V5 e V6, parede lateral. Nas derivações direitas V3R e V4R e nas laterais posteriores V7 a V9, o corte cai para 0,5 mm.

O infradesnivelamento tem um corte próprio: 0,5 mm ou mais, em duas derivações contíguas, e precisa ser horizontal ou descendente para ter valor isquêmico. O infradesnivelamento ascendente — aquele em que o ST sai do ponto J para baixo mas sobe rapidamente rumo à onda T — é inespecífico e aparece em taquicardia por qualquer causa. Isso importa porque metade dos infradesnivelamentos lidos como isquemia em pacientes taquicárdicos são apenas taquicardia.

Dois padrões de infradesnivelamento merecem tratamento à parte porque não significam "isquemia genérica", e sim oclusão. O primeiro: infradesnivelamento em V1 a V3 acompanhado de onda R relativamente alta nessas derivações é, com frequência, a imagem em espelho de um supradesnivelamento lateral posterior — por isso a conduta ali é pedir V7 a V9, e não tranquilizar-se. O segundo: infradesnivelamento difuso, em oito ou mais derivações, acompanhado de supradesnivelamento em aVR, aponta para lesão de tronco de coronária esquerda ou doença multiarterial grave, e o paciente com esse traçado é de altíssimo risco mesmo sem preencher critério de supradesnivelamento clássico.

Por fim, a lista de supradesnivelamentos que não são infarto, porque ela evita ativação de hemodinâmica desnecessária — e, mais importante, porque cada item tem uma medida ou um contexto que o distingue. Repolarização precoce: supradesnivelamento de concavidade superior, com entalhe no ponto J, difuso, sem infradesnivelamento recíproco em nenhuma derivação e estável entre traçados. Pericardite aguda: supradesnivelamento difuso e côncavo em derivações de paredes diferentes, com infradesnivelamento do segmento PR, sem imagem em espelho (exceto em aVR) e sem território coronariano coerente. Bloqueio de ramo esquerdo e ritmo de marca-passo: o desnível é discordante do QRS por definição. Sobrecarga ventricular esquerda com padrão de strain: infradesnivelamento com T assimétrica invertida nas derivações laterais, acompanhando critérios de voltagem elevados. Aneurisma ventricular: supradesnivelamento persistente em V1 a V4 com ondas Q profundas, em paciente com infarto anterior antigo e sem dor. Hipotermia: onda J de Osborn, uma deflexão positiva logo após o QRS. E o padrão de Brugada tipo 1, que tem critério numérico próprio e está descrito nas tabelas.

Passo 7 — Onda T e intervalo QT: a metade do traçado que se ignora

A onda T normal é positiva em D1, D2 e de V3 a V6, negativa em aVR, e assimétrica — sobe devagar e desce rápido. Em V1 ela pode ser negativa em adultos normais, e em D3 e aVL a inversão isolada tem pouco valor. Fora dessas exceções, T invertida em duas derivações contíguas é achado, não ruído.

Duas configurações de onda T têm nome próprio porque significam oclusão coronariana iminente ou em curso, e as duas são clássicas justamente por serem perdidas. A primeira é o padrão descrito por de Zwaan e Wellens: ondas T bifásicas (tipo A) ou profundamente invertidas e simétricas com 2 mm ou mais (tipo B), em V2 e V3, podendo estender-se a V4, num paciente que está sem dor no momento do exame, com segmento ST normal ou minimamente elevado, onda R preservada e troponina normal ou pouco alterada. Esse conjunto indica estenose crítica proximal da artéria descendente anterior. O erro que ele produz é grave: como o paciente está sem dor e o ST está normal, ele é encaminhado para teste ergométrico — e o esforço, nesse cenário, pode precipitar o infarto que o padrão anunciava.

A segunda é o padrão de De Winter: infradesnivelamento ascendente de 1 mm ou mais, medido no ponto J, de V1 a V6, com ondas T altas, apiculadas e simétricas, e supradesnivelamento discreto de 0,5 a 1 mm em aVR. Ele não preenche critério de supradesnivelamento em nenhuma derivação, e mesmo assim corresponde a oclusão proximal da descendente anterior. É por causa desses dois padrões que a frase "não tem supra, então não é infarto com oclusão" é falsa.

Também na onda T, a assinatura da hipercalemia: T alta, estreita, simétrica e de base estreita, mais evidente nas precordiais médias. O que distingue a T da hipercalemia da T hiperaguda do infarto é a base — a T do infarto é alta e larga, com base alargada, e vem acompanhada de alteração do ST no território de uma parede; a da hipercalemia é estreita, difusa, e progride para achatamento da onda P e alargamento do QRS. E, na hipocalemia, o contrário: onda T achatada, infradesnivelamento discreto do ST e onda U proeminente (maior que 1 mm) logo após a T.

O intervalo QT se mede do início do QRS ao fim da onda T, na derivação em que o fim da T for mais nítido — geralmente D2 ou V5. Quando a onda T termina de forma indistinta, use o método da tangente: trace a reta tangente à porção descendente mais íngreme da T e marque o ponto em que ela cruza a linha de base. Se houver onda U, o QT termina no fim da T, não da U.

Como o QT encurta quando a frequência sobe, ele precisa ser corrigido. A fórmula de Bazett divide o QT medido pela raiz quadrada do intervalo RR em segundos: QTc = QT ÷ √RR. Vale insistir na direção da conta, porque é onde se erra: divide-se, não se multiplica. Um QT de 440 ms numa frequência de 100 bpm (RR de 0,60 s) devolve um QTc de 568 ms — francamente anormal a partir de um valor que, cru, pareceria quase normal. Multiplicar em vez de dividir devolveria 341 ms e a conclusão oposta.

Os cortes de anormalidade da diretriz da SBC estão tabelados adiante, e o que interessa guardar de cabeça é o número que dispara ação sobre a prescrição, usado na farmacovigilância: 500 ms. Acima dele, o risco de taquicardia ventricular polimórfica do tipo torsades de pointes justifica revisar todas as drogas do paciente. A própria diretriz registra a limitação de Bazett: a fórmula superestima o QTc em frequências acima de 90 bpm e subestima abaixo de 60 bpm, e nesses extremos as fórmulas lineares de Framingham e de Hodges são preferíveis. Essa limitação está discutida no bloco de divergências, com o exemplo numérico ao lado do de Fridericia.

A lista de causas de QT longo é curta e quase toda corrigível à beira do leito: hipocalemia, hipomagnesemia, hipocalcemia, bradicardia, hipotermia, hipertensão intracraniana, e as drogas — antiarrítmicos, macrolídeos, quinolonas, antifúngicos azólicos, antipsicóticos (haloperidol em especial), antidepressivos, metadona e ondansetrona. No hospital, o QT longo adquirido é quase sempre a soma de dois ou três desses fatores no mesmo paciente.

Passo 8 — Comparar com o traçado anterior

Este é o passo mais barato e o mais desprezado do exame inteiro. Ele não custa nada, não pede autorização, não expõe o paciente a risco — e transforma a categoria do achado. "Bloqueio de ramo esquerdo" é uma informação morna; "bloqueio de ramo esquerdo que não existia no traçado de março" é uma informação que muda o destino do paciente na próxima hora. O mesmo vale para onda Q, para inversão de T, para desvio de eixo e para alargamento do QRS.

Procure o traçado anterior em três lugares, nessa ordem: no prontuário eletrônico da unidade, no ECG de avaliação pré-operatória (quase todo paciente com mais de 40 anos operado nos últimos anos tem um) e nos laudos de telecardiologia da atenção primária, que no Brasil cobrem uma parte relevante dos exames feitos fora do hospital. Perguntar ao paciente também funciona: muita gente carrega o exame antigo na bolsa ou no celular.

Comparar QRS, ST-T, ondas Q, eixo e voltagem com exame anterior. Alteração nova aumenta atenção, mas não prova um mecanismo único: BRE novo não é automaticamente infarto com supra, onda Q nova não prova necrose em curso isoladamente e baixa voltagem não confirma derrame. Integrar sintomas, tempo, marcadores e imagem quando indicada.

Quando não existe traçado anterior — que é o caso mais comum no pronto-socorro brasileiro —, a leitura muda de estratégia em vez de encerrar: o exame de hoje passa a ser a linha de base, e a comparação que resta é a comparação consigo mesmo ao longo das próximas horas. É por isso que o ECG seriado, tratado no bloco de reavaliação, deixa de ser um exame repetido e vira o próprio instrumento de comparação. Guarde o traçado inicial no prontuário com data e hora legíveis; ele é o documento contra o qual todos os próximos serão lidos, inclusive por outra pessoa, em outro plantão.

O que não pedir — e o custo de pedir

Teste ergométrico em paciente com dor torácica em investigação aguda, com padrão de onda T de Wellens ou com alteração dinâmica de ST, é contraindicado: o esforço é o gatilho do evento que se está tentando prevenir. O teste tem lugar na avaliação de dor torácica estável, depois de excluída a síndrome aguda.

Ecocardiograma pedido para "esclarecer" um eletrocardiograma anormal em paciente assintomático raramente muda alguma coisa e frequentemente atrasa a alta. Bloqueio de ramo direito isolado, bloqueio divisional anterossuperior isolado e bloqueio atrioventricular de primeiro grau em paciente sem sintoma não são, por si, indicação de imagem.

Repetir o eletrocardiograma para "confirmar" um artefato é diferente de repetir para acompanhar evolução, e os dois são legítimos — o que não é legítimo é interpretar um traçado com linha de base instável ou com cabo trocado. Nesse caso, o exame não é anormal: ele é inválido, e a conduta é refazer.

Sobre disponibilidade no SUS, a régua é simples e favorável: o eletrocardiógrafo é equipamento básico de unidade de pronto atendimento e está presente em boa parte das unidades de atenção primária, e a leitura remota por telecardiologia existe em rede em várias regiões. Nenhum passo deste capítulo depende de recurso indisponível. As derivações extras V3R-V4R e V7-V9 não exigem aparelho especial nenhum: são os mesmos eletrodos, movidos de lugar, no mesmo exame — o que falta para elas serem feitas costuma ser apenas alguém pedir.

07

Os oito passos, os valores e os padrões que não podem passar

Aprenda a medir o ECG, reconhecer padrões que mudam a urgência e integrar o traçado ao paciente e à evolução.

  1. 10. Conferir a folha: nome, data, velocidade 25 mm/s, amplitude 10 mm/mV (pulso de calibração de 10 mm de altura) e linha de base estável. Traçado com cabo trocado ou instável não é anormal — é inválido, e se refaz.
  2. 21. Ritmo: existe P antes de cada QRS e QRS depois de cada P? A P é positiva em D1, D2 e aVF e negativa em aVR? O intervalo PP é constante? Quatro sins = ritmo sinusal.
  3. 32. Frequência: ritmo regular → 1500 ÷ quadradinhos entre dois R (ou 300 ÷ quadrados grandes). Ritmo irregular → contar QRS em 30 quadrados grandes e multiplicar por 10. Se houver bloqueio ou flutter, medir também a frequência atrial.
  4. 43. Eixo: QRS positivo em D1 e em aVF → normal, siga. D1 positivo e aVF negativo → olhar D2 para separar normal de desvio à esquerda. D1 negativo e aVF positivo → desvio à direita. Ambos negativos → suspeitar de cabo trocado antes de qualquer diagnóstico.
  5. 54. PR: medir em D2. Entre 120 e 200 ms é normal. Acima → procurar droga e potássio, e classificar o grau do bloqueio. Abaixo → procurar onda delta.
  6. 65. QRS: medir a duração. Abaixo de 120 ms → toda a régua de ST vale. Igual ou acima de 120 ms → identificar qual das seis causas (ramo direito, ramo esquerdo, ritmo ventricular, marca-passo, pré-excitação, hipercalemia ou droga) e lembrar que no ramo esquerdo e no marca-passo os cortes de ST não se aplicam.
  7. 76. Segmento ST: medir no ponto J, com a linha de base no segmento TP. Aplicar o corte da derivação (1 mm em geral; 2,5, 2 ou 1,5 mm em V2-V3 conforme sexo e idade; 0,5 mm em V3R-V4R e V7-V9) e exigir duas derivações contíguas. Procurar o infradesnivelamento recíproco.
  8. 87. Onda T e QT: T simétrica, apiculada ou profundamente invertida é achado. Medir o QT, corrigir por Bazett (QT ÷ raiz quadrada do RR em segundos) e comparar com 450 ms em homens e 470 ms em mulheres; acima de 500 ms, revisar a prescrição inteira.
  9. 98. Comparar com o traçado anterior. Se não houver, este vira a linha de base — guarde-o com data e hora e programe o próximo.
  10. 109. Só então escrever o laudo, e escrevê-lo com o paciente em mente: o mesmo traçado tem significados diferentes em quem tem dor há 40 minutos e em quem veio fazer exame admissional.
PassoO que medirValor normalO que a alteração significa
1 · RitmoPresença, polaridade e regularidade da onda P; relação P-QRSP positiva em D1, D2 e aVF; negativa em aVR; eixo de P entre 0° e +90°; uma P para cada QRS; PP constanteSem P com RR irregular = fibrilação atrial. Sem P com ondas em serrote a ~300/min = flutter. P negativa em D2 = ritmo atrial baixo ou cabo trocado
2 · FrequênciaIntervalo RR (e o intervalo PP quando forem diferentes)50 a 99 bpmAbaixo de 50 = bradicardia (procurar droga, potássio, hipotireoidismo, isquemia inferior). Acima de 99 = taquicardia (procurar dor, febre, hipovolemia, hipoxemia, embolia)
3 · EixoPolaridade predominante do QRS em D1, aVF e, no desempate, D2−30° a +90°Desvio à esquerda: bloqueio divisional anterossuperior, infarto inferior antigo, sobrecarga esquerda. À direita: sobrecarga direita, pneumopatia, embolia. Quadrante superior direito: cabo trocado até prova em contrário
4 · PRDo início da P ao início do QRS, em D2120 a 200 ms (3 a 5 quadradinhos), para FC até 90 bpmAcima de 200 ms com tudo conduzindo = bloqueio de 1º grau (revisar drogas). PR crescente até falhar = Mobitz I. PR fixo com falha súbita = Mobitz II (marca-passo). Sem relação P-QRS = bloqueio total. Abaixo de 120 ms com onda delta = pré-excitação
5 · QRSDuração, morfologia e amplitudeMenos de 120 ms (menos de 3 quadradinhos)120 ms ou mais = condução não fisiológica: ramo direito, ramo esquerdo, ritmo ventricular, marca-passo, pré-excitação, hipercalemia ou droga bloqueadora de canal de sódio
6 · Segmento STDesnível no ponto J, tendo o segmento TP como linha de baseIsoelétricoSupradesnivelamento no corte da derivação, em duas contíguas = lesão transmural. Infradesnivelamento ≥0,5 mm horizontal ou descendente = isquemia subendocárdica ou imagem em espelho
7 · Onda T e QTPolaridade e simetria da T; QT do início do QRS ao fim da T, corrigido pela frequênciaT assimétrica, positiva em D1, D2 e V3-V6; QTc até 450 ms (homens) e 470 ms (mulheres); QT curto abaixo de 340 msT simétrica e apiculada = hipercalemia ou fase hiperaguda. T profundamente invertida em V2-V4 sem dor = padrão de Wellens. QTc acima de 500 ms = risco de torsades e revisão da prescrição
8 · ComparaçãoO mesmo traçado, do mesmo paciente, em outra dataAusência de mudançaBloqueio de ramo esquerdo novo, onda Q nova, inversão de T nova ou queda súbita de voltagem mudam a urgência do caso, mesmo sem nenhum critério isolado ser preenchido

Frequência cardíaca: os três métodos, com as contas conferidas

MétodoComo se fazExemplos conferidosQuando usar (e onde falha)
Regra dos 15001500 ÷ número de quadradinhos de 1 mm entre dois picos R consecutivos18 quadradinhos → 83 bpm · 20 → 75 bpm · 25 → 60 bpm · 12 → 125 bpm · 30 → 50 bpmÉ o mais preciso. Exige ritmo regular e papel a 25 mm/s. A 50 mm/s, o resultado sai pela metade se não houver correção
Regra dos 300300 ÷ número de quadrados grandes de 5 mm entre dois R; ou decorar a sequência de 1 a 6 quadrados1 quadrado → 300 · 2 → 150 · 3 → 100 · 4 → 75 · 5 → 60 · 6 → 50 bpmEstimativa de cabeceira em ritmo regular. Perde precisão quando o pico R não cai sobre uma linha grossa
Regra dos 6 segundosContar os QRS contidos em 30 quadrados grandes (6 segundos) e multiplicar por 105 QRS → 50 bpm · 8 → 80 bpm · 12 → 120 bpm · 15 → 150 bpmÚnico método válido em ritmo irregular (fibrilação atrial). É o menos preciso em ritmo regular
Frequência atrialMesmos métodos, aplicados ao intervalo entre duas ondas P ou duas ondas FOndas F a cada 1 quadrado grande → ~300/min; com condução 2:1, frequência ventricular ~150 bpmObrigatória em bloqueio atrioventricular e em flutter — é ela que revela dissociação e grau de bloqueio

Valores normais de referência (papel a 25 mm/s e 10 mm/mV)

MedidaValor normalEquivalência no papelFora da faixa
Quadradinho de 1 mm0,04 s (40 ms)1 mm de larguraA 50 mm/s, cada quadradinho vale 0,02 s
Quadrado grande de 5 mm0,20 s (200 ms)5 mm de largura30 quadrados grandes = 6 segundos
Amplitude10 mm/mV1 mm = 0,1 mV; pulso de calibração de 10 mm de alturaEm 5 mm/mV (N/2), todo desnível imprime metade do valor real
Onda PMenos de 120 ms de duração e menos de 2,5 mm de alturaMenos de 3 quadradinhos de larguraP ≥120 ms em D2 = sobrecarga atrial esquerda; P >2,5 mm = sobrecarga atrial direita
Intervalo PR120 a 200 ms (FC até 90 bpm)3 a 5 quadradinhosAcima = bloqueio atrioventricular; abaixo com onda delta = pré-excitação
Complexo QRSMenos de 120 msMenos de 3 quadradinhos120 ms ou mais = bloqueio de ramo, ritmo ventricular, marca-passo, pré-excitação, hipercalemia ou droga
Frequência cardíaca50 a 99 bpmRR entre 15 e 30 quadradinhosRR de 15 quadradinhos = 100 bpm; RR de 30 = 50 bpm
Eixo do QRS (plano frontal)−30° a +90°QRS positivo em D1 e em aVFFora dessa faixa: bloqueio divisional, sobrecarga, infarto antigo ou cabo trocado
QTc (Bazett)Até 450 ms em homens e 470 ms em mulheres; QT curto abaixo de 340 msQT medido em quadradinhos × 40 ms, depois corrigidoAcima de 500 ms: revisar toda a prescrição pelo risco de torsades

Cortes de desnivelamento do ST, medidos no ponto J

DerivaçõesCorteExigência adicionalOrigem do número
Todas, exceto V2 e V3Supradesnivelamento ≥1 mmEm pelo menos duas derivações contíguasLinha de cuidado do IAM, Ministério da Saúde
V2 e V3 — homens com menos de 40 anosSupradesnivelamento ≥2,5 mmDuas derivações contíguas; o corte é mais alto porque a repolarização precoce normal eleva o ST justamente aquiLinha de cuidado do IAM, Ministério da Saúde
V2 e V3 — homens com 40 anos ou maisSupradesnivelamento ≥2 mmDuas derivações contíguasLinha de cuidado do IAM, Ministério da Saúde
V2 e V3 — mulheres, qualquer idadeSupradesnivelamento ≥1,5 mmDuas derivações contíguasLinha de cuidado do IAM, Ministério da Saúde
V3R e V4R (ventrículo direito)Supradesnivelamento ≥0,5 mmPedir sempre que houver supradesnivelamento em D2, D3 e aVFLinha de cuidado do IAM, Ministério da Saúde; indicação classe I na diretriz da SBC de 2021
V7, V8 e V9 (parede lateral)Supradesnivelamento ≥0,5 mmPedir diante de infradesnivelamento de V1 a V3 com onda R alta, ou de dor persistente com ECG não diagnósticoLinha de cuidado do IAM, Ministério da Saúde; indicação classe I na diretriz da SBC de 2021
Qualquer derivaçãoInfradesnivelamento ≥0,5 mmEm duas contíguas, e precisa ser horizontal ou descendente; o ascendente é inespecíficoLinha de cuidado do IAM (corte) e definição universal de infarto (morfologia)
aVRSupradesnivelamento ≥1 mm acompanhado de infradesnivelamento em oito ou mais derivaçõesMarcador de lesão de tronco ou doença multiarterial; risco altíssimo mesmo sem critério clássico de supraDiretriz europeia de síndromes coronarianas agudas, 2023

Bloqueios de ramo e divisionais: os critérios em números

BloqueioDuração do QRSCritério morfológico ou de eixoO que muda na leitura do resto do traçado
Ramo direito≥120 msrSR' ou rsR' em V1; ondas S empastadas em D1, aVL, V5 e V6; onda T oposta ao retardo finalPraticamente não atrapalha a leitura do ST nas paredes inferior e lateral; a repolarização anormal se restringe a V1-V2
Ramo esquerdo≥120 ms (critério mais específico com ≥130 ms em mulheres e ≥140 ms em homens)Ausência de onda q em D1, aVL, V5 e V6; R alargada e com entalhes nessas derivações; deflexão intrinsecoide em V5-V6 ≥50 msBRE novo ou de duração desconhecida, isoladamente, não é equivalente automático de infarto com supra. Integrar sintomas, estabilidade, ECG prévio, Sgarbossa original/modificado e troponina; resultado negativo não exclui oclusão. Dor isquêmica persistente, instabilidade ou critérios sugestivos de oclusão exigem avaliação cardiológica e estratégia invasiva urgente, sem aguardar troponina quando o quadro já a justifica.
Divisional anterossuperiorMenos de 120 msEixo em −45° ou mais negativo; rS em D2, D3 e aVF com S de D3 maior que S de D2; qR em D1 e aVLDesvia o eixo à esquerda e pode simular ou mascarar onda Q inferior; não altera a leitura do ST
Divisional posteroinferiorMenos de 120 msEixo além de +90°; qR em D2, D3 e aVF com R de D3 maior que R de D2Diagnóstico de exclusão: só depois de descartar sobrecarga de ventrículo direito, pneumopatia, embolia e biotipo longilíneo
Ritmo de marca-passo≥120 ms, com espícula visível antes do QRSEstimulação ventricular direita produz padrão semelhante ao de ramo esquerdoMesma restrição do ramo esquerdo: os cortes de ST não valem, e a avaliação de isquemia usa critérios de Sgarbossa

Os padrões que não podem passar, descritos em medidas

PadrãoA medida que o defineO que significaO que dispara agora
Infarto com supradesnivelamentoSupra no corte da derivação (1 mm; 2,5 / 2 / 1,5 mm em V2-V3 por sexo e idade) em duas contíguas, geralmente com infradesnivelamento recíprocoOclusão coronariana total com lesão transmural em cursoSala de emergência e acionamento imediato da via de reperfusão — conduta detalhada no capítulo de dor torácica no pronto-socorro
Padrão de Wellens (tipo A)Onda T bifásica em V2 e V3, com paciente sem dor no momento, ST normal ou minimamente elevado e onda R preservadaEstenose crítica proximal da artéria descendente anteriorInternar e discutir com a cardiologia. Contraindicado teste de esforço
Padrão de Wellens (tipo B)Onda T profundamente invertida e simétrica, ≥2 mm, em V2 e V3, podendo estender-se a V4, nas mesmas condições clínicasMesma lesão do tipo A, em fase mais tardiaIdem: internação e estratificação invasiva; nunca ergometria
Padrão de De WinterInfradesnivelamento ascendente ≥1 mm no ponto J de V1 a V6, com T altas e simétricas, mais supradesnivelamento de 0,5 a 1 mm em aVROclusão proximal da descendente anterior sem preencher critério de supraTratar como equivalente de infarto com supradesnivelamento
Sgarbossa no bloqueio de ramo esquerdoSupra ≥1 mm concordante com o QRS (5 pontos); infra ≥1 mm concordante em V1-V3 (3 pontos); supra discordante ≥5 mm (2 pontos). Escore ≥3 é específico para infartoIsquemia aguda em traçado cuja repolarização já é anormal por definiçãoEscore ≥3 conduz como infarto com supradesnivelamento
Sgarbossa modificado (Smith)Substitui o critério de 5 mm por proporcionalidade: razão entre supra discordante e profundidade da onda S igual ou mais negativa que −0,25 (ex.: supra de 5 mm com S de 20 mm)Aumenta a sensibilidade em bloqueio de ramo esquerdo e em ritmo de marca-passoMesmo desfecho: critério positivo conduz como infarto com supradesnivelamento
Brugada tipo 1Supradesnivelamento ≥2 mm com morfologia em abóbada seguido de T negativa, em uma ou mais derivações de V1 a V2, inclusive quando registradas em espaços intercostais superioresCanalopatia com risco de morte súbita, sobretudo em febre e à noiteNão liberar sem avaliação: tratar febre agressivamente e encaminhar à eletrofisiologia
QT longoQTc acima de 450 ms em homens e 470 ms em mulheres; acima de 500 ms, alto riscoJanela de repolarização prolongada, com risco de torsades de pointesRevisar toda a prescrição, dosar potássio, magnésio e cálcio, e monitorizar
HipercalemiaSequência: T alta, estreita e simétrica → onda P achatando e desaparecendo com PR alargando → QRS alargando progressivamente além de 120 ms → onda larga e contínuaBloqueio de canais de sódio pelo potássio extracelular alto, com condução progressivamente mais lentaAlteração de QRS ou de onda P coloca a estabilização de membrana antes do resultado do potássio repetido — conduta no capítulo de distúrbios eletrolíticos
Embolia pulmonarTaquicardia sinusal (achado mais frequente); padrão S1Q3T3 (onda S em D1, onda Q e T invertida em D3); T invertida de V1 a V4; bloqueio de ramo direito novo; desvio do eixo à direitaSobrecarga aguda de ventrículo direito. Nenhum achado é sensível nem específico o bastante para confirmar ou excluirO ECG não fecha nem afasta o diagnóstico: ele reforça a suspeita e ajuda a graduar a gravidade — a investigação segue no capítulo de dispneia aguda
Pericardite agudaSupradesnivelamento difuso e côncavo em derivações de paredes diferentes, com infradesnivelamento do segmento PR, sem imagem em espelho exceto em aVRInflamação do saco pericárdico; a ausência de território coronariano coerente é o que a distingue do infartoDiferenciar do infarto antes de qualquer anticoagulação; buscar derrame e sinais de tamponamento
Baixa voltagem com alternância elétricaQRS abaixo de 5 mm nas derivações de membro e abaixo de 10 mm nas precordiais, com variação cíclica de amplitude entre batimentosDerrame pericárdico volumoso, com o coração oscilando dentro do líquidoEcocardiograma imediato à beira do leito pela suspeita de tamponamento

Sobrecargas, onda Q e baixa voltagem: critérios de amplitude

CritérioMedidaObservação de uso
Sokolow-Lyon (sobrecarga ventricular esquerda)Onda S de V1 + onda R de V5 ou V6 acima de 35 mm (acima de 40 mm em jovens)Muito específico e pouco sensível; perde valor no obeso e no enfisematoso, em que as amplitudes caem
Cornell (sobrecarga ventricular esquerda)Onda R de aVL + onda S de V3 acima de 28 mm em homens e acima de 20 mm em mulheresCorte diferente por sexo — aplicar o corte errado é fonte comum de falso-positivo em mulheres
Peguero-Lo Presti (sobrecarga ventricular esquerda)Maior onda S entre as doze derivações + onda S de V4, com corte de 28 mm em homens e 23 mm em mulheresCritério mais recente, com sensibilidade maior que a de Sokolow-Lyon
Romhilt-Estes (sobrecarga ventricular esquerda)Escore que soma voltagem, alteração de repolarização, sobrecarga atrial esquerda, desvio do eixo, duração do QRS e deflexão intrinsecoide; 5 pontos ou mais fecham o critérioExige mais tempo de leitura; útil quando os critérios de voltagem isolados discordam
Sobrecarga atrial direitaOnda P apiculada acima de 2,5 mm nas derivações inferiores; componente positivo em V1 acima de 1,5 mmDoença pulmonar crônica, hipertensão pulmonar, cardiopatia congênita
Sobrecarga atrial esquerdaOnda P com 120 ms ou mais em D2; componente negativo em V1 com índice de Morris de 1 mm² ou maisHipertensão, valvopatia mitral; também aparece falsamente quando V1 e V2 são colocados acima do lugar
Onda Q patológicaDuração de 30 ms ou mais e profundidade de 1 mm ou mais, em duas derivações contíguasMarca necrose. Pequenas ondas q em D1, aVL, V5 e V6 são septais e fisiológicas
Baixa voltagemQRS abaixo de 5 mm em todas as derivações do plano frontal e abaixo de 10 mm nas precordiaisDerrame pericárdico, obesidade, enfisema, hipotireoidismo, amiloidose — e, tecnicamente, calibração em 5 mm/mV

Correção do QT: as duas fórmulas aplicadas ao mesmo traçado

FórmulaA contaQT 440 ms com FC 100 bpm (RR 0,60 s)QT 480 ms com FC 48 bpm (RR 1,25 s)Onde distorce
BazettQTc = QT ÷ raiz quadrada do RR em segundos568 ms — francamente anormal429 ms — dentro da faixa normalSuperestima acima de 90 bpm e subestima abaixo de 60 bpm; é a fórmula usada pelos cortes de 450 e 470 ms
FridericiaQTc = QT ÷ raiz cúbica do RR em segundos522 ms — anormal, 46 ms abaixo do valor de Bazett446 ms — 17 ms acima do valor de BazettMenos sensível à frequência; é a fórmula preferida em farmacovigilância e em estudos de segurança de drogas
Consequência práticaComparar as duas quando o paciente está fora da faixa de 60 a 90 bpmAs duas passam de 500 ms? Não: só Bazett. A decisão sobre suspender droga muda conforme a fórmulaNenhuma passa de 450 ms: o traçado é tranquilizador pelas duasNa faixa de 60 a 90 bpm, as duas praticamente coincidem — e a discussão perde importância

Erros de técnica que imitam doença

ErroO que aparece no traçadoDoença que imitaComo confirmar que é técnica
Troca dos cabos dos braçosP, QRS e T negativos em D1; aVR positivoDextrocardia; infarto lateralOlhar a progressão da onda R nas precordiais: se ela aumenta normalmente de V1 para V6, é cabo. Na dextrocardia verdadeira, ela decresce
Troca braço esquerdo × perna esquerdaOnda P invertida em D3; D1 e D2 aparecem trocadas entre siInfarto inferior antigo; desvio de eixoP claramente positiva em D1 e D2 com P negativa em D3 pede conferência dos cabos antes de qualquer conclusão
Troca envolvendo o eletrodo neutro (perna direita)Uma única derivação de membro quase plana, com as outras onze normaisNada — mas gera laudo automático absurdoCoração não é eletricamente invisível em um plano e normal em todos os outros: é cabo
V1 e V2 colocados um ou dois espaços intercostais acimaPadrão rSr' e onda T invertida em V1-V2; morfologia de P alteradaSobrecarga atrial esquerda; atraso final de condução; padrão de BrugadaRefazer o exame com V1 e V2 no quarto espaço intercostal, junto às bordas do esterno
V5 e V6 seguindo a curva das costelas em vez do plano de V4Queda de amplitude e progressão de R alterada, variando entre examesPerda de progressão de R (infarto anterior antigo)Marcar o plano horizontal de V4 e repetir; se as amplitudes normalizam, era posicionamento
Tremor muscular (Parkinson, calafrio, ansiedade)Ondulação fina e regular da linha de baseFibrilação atrial; flutterMedir três intervalos RR consecutivos: no artefato, eles são regulares e o QRS marcha no tempo certo
Registro em 50 mm/s sem conferir o rodapéTodas as durações com o dobro da larguraBloqueio de ramo (QRS aparentemente ≥120 ms); bradicardiaLer o rodapé e o pulso de calibração antes de medir qualquer coisa
Registro em 5 mm/mV (N/2)Todas as amplitudes pela metadeBaixa voltagem; supradesnivelamento subestimado; critérios de sobrecarga não atingidosO pulso de calibração tem metade da altura padrão de 10 mm

Todos os cortes em milímetros pressupõem calibração de 10 mm/mV, e todas as equivalências em quadradinhos pressupõem 25 mm/s. Conferir os dois no rodapé é o passo zero, não um detalhe.

Duas derivações contíguas é exigência para supradesnivelamento e para infradesnivelamento. Alteração isolada em uma única derivação não fecha critério — e é quase sempre artefato, variação de linha de base ou repolarização precoce.

No bloqueio de ramo esquerdo e no ritmo de marca-passo, a régua de ST da tabela de cortes não se aplica: a repolarização já é anormal pela própria condução. Nessas duas situações, a avaliação de isquemia usa os critérios de Sgarbossa, com ou sem a modificação proporcional.

Os padrões de Wellens e de De Winter são os dois motivos pelos quais "ausência de supradesnivelamento" não equivale a "ausência de oclusão". Ambos são reconhecidos por medida da onda T e do ponto J, não por impressão geral do traçado.

Bazett é a fórmula que sustenta os cortes de 450 e 470 ms e continua sendo a de uso clínico corrente. Fora da faixa de 60 a 90 bpm, calcular também por Fridericia mostra o tamanho da distorção — e a diferença entre as duas, nessas frequências, chega a algumas dezenas de milissegundos, o suficiente para mudar a decisão sobre suspender uma droga.

08

A conduta, hora a hora

Um eletrocardiograma só vale o papel se terminar em decisão. A lista abaixo é a tradução de cada achado em ação, na ordem em que ela acontece no plantão — e o que ela decide, na maior parte das vezes, é tempo: sala de emergência agora, repetir em quinze minutos, dosar um eletrólito, ou simplesmente documentar e seguir a vida.

O tratamento medicamentoso das doenças que aparecem aqui não é reescrito neste capítulo: a conduta do infarto está no capítulo de dor torácica no pronto-socorro, a das arritmias instáveis e da parada nos capítulos de emergência, a da hipercalemia no capítulo de distúrbios eletrolíticos. O que este capítulo prescreve é o que o traçado obriga a fazer com o exame, com o monitor e com o relógio.

  1. Antes de ler — os dez segundos de conferência técnica

    Conferir identidade, data, eletrodos, artefato, velocidade e ganho antes de interpretar. Registro a 50 mm/s ou ganho diferente pode ser válido quando intencional e identificado; ajustar as medidas, não descartá-lo apenas por diferir do padrão de 25 mm/s e 10 mm/mV.

    Prescrição
    • Conferir nome e data impressos na folha — traçado de outro paciente é um erro banal e frequente.
    • Conferir velocidade: a 25 mm/s, quadradinho vale 40 ms; a 50 mm/s, 20 ms. Largura no papel não equivale a duração sem essa informação.
    • Conferir o pulso de calibração no início da linha: retângulo de 10 mm de altura significa 10 mm/mV. Metade da altura significa registro em N/2, e todos os cortes em milímetros deste capítulo deixam de valer.
    • Inversão global de D1 com aVR positivo e progressão precordial preservada sugere troca de braços: conferir eletrodos e repetir. P negativa isolada em D3 pode ocorrer conforme eixo atrial e não diagnostica troca de cabos; integrar o padrão completo.
  2. Hora 0 — supradesnivelamento que bate o corte em duas derivações contíguas

    Este é o achado que interrompe tudo. A partir do momento em que o critério está preenchido, o cronômetro da reperfusão já está correndo, e cada passo adicional de investigação que atrase a decisão custa músculo.

    Prescrição
    • Levar o paciente para a sala de emergência e monitorizar (monitor, oximetria, pressão não invasiva).
    • Obter dois acessos venosos periféricos calibrosos e colher troponina — sem esperar o resultado para decidir reperfusão.
    • Acionar imediatamente a via de reperfusão da sua unidade (hemodinâmica ou protocolo de fibrinólise, conforme disponibilidade e tempo de transporte). A escolha e as drogas estão no capítulo de dor torácica no pronto-socorro.
    • Se o supradesnivelamento for em D2, D3 e aVF: registrar V3R e V4R antes de prescrever nitrato ou morfina, porque comprometimento do ventrículo direito muda a tolerância a essas drogas.
  3. Hora 0 — dor em curso com ECG não diagnóstico

    É a situação mais comum e a que mais engana, porque o traçado normal produz uma sensação de segurança que os dados não sustentam. Traçado não diagnóstico com paciente sintomático significa que faltam derivações e que falta tempo, não que falta doença.

    Prescrição
    • Registrar V3R, V4R, V7, V8 e V9 — indicação classe I na diretriz brasileira de 2021 para quem segue sintomático com ECG de doze derivações não diagnóstico.
    • Programar a repetição do ECG em 15 minutos e a cada mudança de sintoma, com o traçado anterior ao lado para comparação.
    • Colher troponina seriada conforme o protocolo da unidade e manter o paciente monitorizado — não devolvê-lo à sala de espera.
    • Procurar ativamente o traçado anterior no prontuário, no exame pré-operatório ou no laudo de telecardiologia da atenção primária.
  4. Hora 0 — infradesnivelamento de 0,5 mm ou mais, horizontal ou descendente, em duas contíguas

    Isquemia subendocárdica ou imagem em espelho: as duas exigem a mesma resposta imediata, e a distinção entre elas se faz com derivações extras, não com espera.

    Prescrição
    • Monitorizar e tratar como síndrome coronariana aguda de risco alto até prova em contrário.
    • Se o infradesnivelamento estiver em V1 a V3 com onda R relativamente alta: registrar V7, V8 e V9 pela possibilidade de supradesnivelamento lateral que só aparece atrás.
    • Se o infradesnivelamento for difuso, em oito ou mais derivações, com supradesnivelamento em aVR: comunicar imediatamente ao plantão de cardiologia — o padrão sugere lesão de tronco ou doença multiarterial.
    • Repetir o ECG em 15 minutos: infradesnivelamento que aumenta ou vira supradesnivelamento muda a categoria do paciente.
  5. Hora 0 — bloqueio de ramo esquerdo em paciente com dor torácica

    BRE novo ou de duração desconhecida, isoladamente, não é equivalente automático de infarto com supra. Integrar sintomas, estabilidade, ECG prévio, Sgarbossa original/modificado e troponina; resultado negativo não exclui oclusão. Dor isquêmica persistente, instabilidade ou critérios sugestivos de oclusão exigem avaliação cardiológica e estratégia invasiva urgente, sem aguardar troponina quando o quadro já a justifica.

    Prescrição
    • Buscar ECG prévio para contextualizar, sem tratar sua ausência como prova de bloqueio agudo nem adiar atendimento de isquemia persistente.
    • Aplicar os critérios de Sgarbossa (com ou sem a modificação proporcional de Smith) em vez dos cortes habituais de ST.
    • BRE novo ou de duração desconhecida, isoladamente, não é equivalente automático de infarto com supra. Integrar sintomas, estabilidade, ECG prévio, Sgarbossa original/modificado e troponina; resultado negativo não exclui oclusão. Dor isquêmica persistente, instabilidade ou critérios sugestivos de oclusão exigem avaliação cardiológica e estratégia invasiva urgente, sem aguardar troponina quando o quadro já a justifica.
    • BRE antigo com Sgarbossa negativo ainda pode acompanhar SCA/oclusão. Seguir estratificação com sintomas, ECG e troponina seriados; instabilidade ou isquemia persistente exige escalada apesar de critérios negativos.
  6. Hora 0 — QRS alargando, onda P sumindo, T alta e estreita

    Essa tríade é hipercalemia até prova em contrário, e ela tem uma propriedade que muda a ordem das coisas: o eletrocardiograma altera antes de o resultado do potássio voltar do laboratório, e a progressão pode ser rápida.

    Prescrição
    • Monitorização contínua imediata e coleta de potássio, sódio, cálcio, magnésio, ureia, creatinina e gasometria.
    • Diante de alargamento do QRS ou de desaparecimento da onda P, iniciar a estabilização de membrana sem aguardar o resultado do potássio — protocolo e doses no capítulo de distúrbios eletrolíticos.
    • Revisar a prescrição atrás de inibidores da enzima conversora, bloqueadores do receptor de angiotensina, espironolactona, anti-inflamatórios e suplementos de potássio; suspender o que couber.
    • Repetir o eletrocardiograma após a estabilização: o estreitamento do QRS é o parâmetro de resposta mais rápido que existe aqui.
  7. Hora 0 — bradiarritmia com Mobitz II ou bloqueio atrioventricular total

    A diferença entre observar e intervir está no tipo de bloqueio e na largura do QRS do escape, não na frequência isolada. Escape ventricular largo entre 20 e 40 bpm é instável por definição.

    Prescrição
    • Não retirar o paciente do monitor nem da sala; providenciar as pás do marca-passo transcutâneo à beira do leito antes de qualquer transporte.
    • Revisar e suspender bloqueadores do nó atrioventricular (betabloqueador, verapamil, diltiazem, digoxina, amiodarona) e dosar potássio.
    • Acionar a cardiologia para indicação de marca-passo — o manejo agudo da bradicardia instável está no capítulo dos primeiros cinco minutos.
    • Medir e registrar as duas frequências, atrial e ventricular: é esse par de números que documenta a dissociação.
  8. Hora 0 — taquicardia de QRS largo

    Toda taquicardia de QRS largo é taquicardia ventricular até prova em contrário, e a prova em contrário não se faz no papel enquanto o paciente está mal. O erro clássico é tratá-la como supraventricular com aberrância e administrar bloqueador do nó atrioventricular.

    Prescrição
    • Avaliar estabilidade primeiro: hipotensão, alteração de consciência, dor torácica isquêmica ou congestão indicam cardioversão elétrica sincronizada imediata — conduta no capítulo dos primeiros cinco minutos.
    • Não administrar bloqueadores do nó atrioventricular sem diagnóstico firmado, especialmente diante de suspeita de pré-excitação.
    • Registrar um ECG de doze derivações antes e depois de qualquer intervenção, sempre que a estabilidade do paciente permitir — é o documento que orienta todo o tratamento posterior.
    • Colher potássio e magnésio: distúrbio eletrolítico é causa reversível e frequente.
  9. Hora 0 — QTc acima de 500 ms

    Aqui o eletrocardiograma não diagnostica doença: ele identifica um risco iatrogênico que está sendo produzido, na maioria das vezes, pela própria prescrição do hospital.

    Prescrição
    • Listar todas as drogas em uso e suspender ou substituir as que prolongam o intervalo QT — antipsicóticos, antieméticos, macrolídeos, quinolonas, antifúngicos azólicos, antiarrítmicos, metadona e antidepressivos.
    • Dosar potássio, magnésio e cálcio, e corrigir o que estiver baixo — a correção de eletrólitos é a intervenção com melhor relação entre esforço e efeito neste cenário.
    • Manter monitorização contínua enquanto o QTc permanecer acima de 500 ms.
    • Repetir o eletrocardiograma após cada mudança de prescrição, registrando o QTc calculado no prontuário com a frequência cardíaca do momento — QTc sem a frequência ao lado não é conferível por ninguém.
  10. Hora 0 — o achado que não muda nada hoje

    Boa parte do que se encontra num eletrocardiograma não pede ação nenhuma, e saber disso é tão importante quanto saber reconhecer o infarto: cada exame desnecessário disparado por um achado banal ocupa uma vaga, atrasa uma alta e produz ansiedade.

    Prescrição
    • Bloqueio de ramo direito isolado, bloqueio divisional anterossuperior isolado e bloqueio atrioventricular de primeiro grau em paciente assintomático: documentar no prontuário e não pedir imagem.
    • Bradicardia sinusal em atleta assintomático, arritmia sinusal respiratória em jovem, repolarização precoce estável: documentar e liberar.
    • Em qualquer desses casos, entregar ao paciente uma cópia do traçado ou registrar onde ele está arquivado — ele é a linha de base para o próximo atendimento.
    • Escrever o laudo com a frase que o próximo médico vai precisar: o achado, a data, e se existe ou não traçado anterior para comparação.
  11. Antes da alta do pronto-socorro

    O último eletrocardiograma da estadia é o que fecha o caso, e ele é sistematicamente esquecido. Ele serve a duas coisas: comparar com o da chegada e deixar a linha de base documentada para quem atender esse paciente da próxima vez.

    Prescrição
    • Repetir o ECG antes da alta em todo paciente que entrou com dor torácica, dispneia, síncope ou palpitação, mesmo que tenha melhorado.
    • Comparar explicitamente com o traçado da chegada e registrar a comparação no prontuário — "sem mudança em relação ao ECG das 07h40" é uma frase clinicamente útil; "ECG normal" não é.
    • Orientar o paciente sobre o que faz ele voltar imediatamente (retorno da dor, dor em repouso, síncope), por escrito.
    • Deixar registrado no sumário de alta se existe traçado anterior e onde ele está.
09

Como saber se está funcionando

O eletrocardiograma seriado é o exame mais subutilizado do pronto-socorro brasileiro, e a razão é cultural: o traçado é tratado como um resultado, quando ele é uma fotografia de dez segundos de um processo que evolui em horas. Um exame isolado responde "como está agora"; dois exames respondem "para onde isto está indo", que é a pergunta que decide conduta.

A régua da comparação é sempre a mesma: mesmo paciente, mesma posição de eletrodos, mesma calibração, traçados lado a lado. Comparar um ECG feito deitado com outro feito sentado, ou um com V5-V6 na linha correta com outro com V5-V6 sobre a costela, produz diferenças que não são do coração.

ECG seriado na dor torácica com traçado inicial não diagnósticoEm 15 minutos, e depois a cada mudança de sintoma; repetir também em 3 e em 6 horas nos protocolos que estratificam por troponina

Esperado: Traçado estável, sem surgimento de desnivelamento de ST, sem inversão nova de onda T, sem alargamento novo do QRS

Se não melhora: Qualquer alteração nova em relação ao traçado da chegada reclassifica o paciente para cima, mesmo sem preencher critério isolado. Alteração dinâmica — que aparece com a dor e some sem ela — é altamente sugestiva de isquemia e indica discussão imediata com a cardiologia.

ECG durante episódio de dorNo momento exato em que o paciente refere que a dor voltou — não depois de ela passar

Esperado: Traçado igual ao de quando ele estava sem dor

Se não melhora: Desnivelamento que aparece junto com a dor e regride quando ela cessa é o achado mais específico de isquemia que o pronto-socorro consegue produzir. Registre o horário exato no traçado e trate como risco alto.

ECG após reperfusão (fibrinólise ou angioplastia)Entre 60 e 90 minutos do início do tratamento

Esperado: Redução de mais de 50% do supradesnivelamento máximo, na derivação em que ele era maior

Se não melhora: Redução menor que 50% no prazo caracteriza falha de reperfusão e indica reavaliação imediata da estratégia — a decisão sobre angioplastia de resgate está no capítulo de dor torácica no pronto-socorro.

Largura do QRS após tratamento da hipercalemiaPoucos minutos após a estabilização de membrana, e novamente após a terapia que desloca potássio para dentro da célula

Esperado: Estreitamento progressivo do QRS e reaparecimento da onda P

Se não melhora: QRS que não estreita indica que a estabilização não foi eficaz ou que o potássio continua subindo: repetir a dosagem, revisar a fonte do potássio e acionar a nefrologia para discutir diálise.

QTc após suspensão das drogas que o prolongamEm 24 horas, e antes de reintroduzir qualquer droga da mesma classe

Esperado: Queda do QTc para abaixo de 500 ms e, idealmente, para dentro dos cortes de 450 ms em homens e 470 ms em mulheres

Se não melhora: QTc que não cai após 24 a 48 horas sem as drogas, com eletrólitos já corrigidos, levanta síndrome do QT longo congênita — o que muda o aconselhamento e obriga a investigar familiares. Encaminhar à cardiologia.

Frequência e condução após ajuste de drogas bradicardizantesApós cada suspensão, e diariamente enquanto o paciente estiver internado

Esperado: Recuperação da frequência para acima de 50 bpm e, no bloqueio de primeiro grau, encurtamento do PR para abaixo de 200 ms

Se não melhora: Bloqueio que persiste com as drogas suspensas e o potássio normal é bloqueio da própria condução, não efeito farmacológico — e passa a ser discussão de marca-passo definitivo.

Comparação com o traçado anteriorEm toda leitura, sem exceção — e a busca ativa do exame antigo faz parte do atendimento, não é tarefa opcional

Esperado: Achado idêntico ao anterior, o que rebaixa a urgência de quase todos os achados crônicos

Se não melhora: Sem traçado anterior disponível, o exame de hoje passa a ser a linha de base: guarde-o com data e hora legíveis e programe o próximo. A comparação que não existe hoje é a que salva o próximo plantão.

ECG antes da alta hospitalarNo dia da alta, em todo paciente internado por causa cardiovascular ou que teve alteração eletrocardiográfica durante a internação

Esperado: Traçado estável, com o achado agudo resolvido ou documentado como residual

Se não melhora: Alteração que persiste sem explicação, ou que apareceu durante a internação e não foi investigada, não se resolve com o encaminhamento ambulatorial: resolva antes de assinar a alta, ou escreva no sumário exatamente o que precisa ser feito e em quanto tempo.

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Onde o erro machuca

Assumir a interpretação automática impressa no alto da folha

O dano: O algoritmo mede intervalos com boa precisão, mas atribui significado a partir de regras fixas e sem qualquer informação sobre o paciente. Ele chama de "alteração inespecífica da repolarização" um desnivelamento que não bateu o corte que ele conhece, e chama de normal um traçado com padrão de Wellens. A diretriz da SBC é explícita: o uso das aferições e interpretações automáticas sem revisão médica não é recomendado, porque emitir laudo é ato médico.

Como pegar a tempo: Trate a frase impressa como uma hipótese de terceiro, não como resultado. Percorra os oito passos mesmo quando o aparelho escreveu "ECG normal", e confira à mão pelo menos três medidas: PR, duração do QRS e QTc. Se a sua leitura discorda da do aparelho, a sua leitura é a que vale — e é ela que vai para o prontuário.

Ler o eletrocardiograma sem o paciente

O dano: O mesmo traçado tem significados opostos conforme quem o produziu. Um infradesnivelamento de 1 mm é ruído em quem veio fazer exame admissional e é isquemia em quem está com dor há quarenta minutos. Ler no corredor, sem saber a idade, o sexo, o tempo de sintoma e o que o paciente está sentindo naquele instante, transforma um exame contextual num teste de reconhecimento de padrões — que é justamente o que ele não é.

Como pegar a tempo: Antes de olhar o papel, tenha três dados: idade, sexo e o que trouxe o paciente. Os dois primeiros mudam literalmente o corte que você vai aplicar em V2-V3; o terceiro muda o que vale a pena procurar. Se o traçado chegou à sua mão sem o paciente junto, vá até a maca antes de laudar.

Concluir que um eletrocardiograma normal exclui síndrome coronariana aguda

O dano: Este é o erro com maior letalidade da lista. O ECG inicial pode ser normal em isquemia em evolução, em oclusão de artéria circunflexa (cujo território não é bem representado nas doze derivações convencionais) e em infarto de ventrículo direito. Os padrões de Wellens e de De Winter existem justamente porque oclusão crítica e traçado sem supradesnivelamento convivem. O paciente liberado com "ECG normal" volta em parada, ou não volta.

Como pegar a tempo: Trate o ECG como um exame que confirma, e não como um exame que exclui. Diante de dor persistente e traçado não diagnóstico, a diretriz brasileira coloca V3R-V4R e V7-V9 como classe I, e o ECG seriado como parte da avaliação. Nunca escreva "ECG sem alterações" como frase final de um raciocínio: escreva "ECG sem alterações às 07h40" e programe o próximo.

Não repetir o exame

O dano: Um traçado é uma amostra de dez segundos de um processo de horas. A artéria que estava parcialmente aberta às 7h40 pode estar ocluída às 8h05, e o único jeito de ver isso é repetir. A diretriz brasileira de 2021 coloca a repetição na recorrência dos sintomas como classe I — e é exatamente essa repetição que se perde quando o plantão está cheio.

Como pegar a tempo: Programe o segundo ECG no mesmo momento em que pede o primeiro, com horário definido: quinze minutos se a dor persiste e o traçado não é diagnóstico. Deixe a ordem escrita e avise a enfermagem — repetição combinada verbalmente no corredor não acontece.

Não procurar o traçado anterior

O dano: Sem comparação, um bloqueio de ramo esquerdo crônico vira ativação de hemodinâmica desnecessária, e um bloqueio de ramo esquerdo novo vira "alteração já conhecida" com base numa anotação a lápis de outro plantão. Os dois erros são caros e simétricos: um gasta recurso e expõe o paciente a um procedimento, o outro deixa passar um infarto.

Como pegar a tempo: Procure em três lugares antes de decidir: prontuário eletrônico, exame pré-operatório e laudos de telecardiologia da atenção primária. Pergunte também ao paciente e à família — o exame antigo costuma estar na bolsa ou fotografado no celular. E desconfie de anotação manuscrita não datada no canto da folha: ela não é documento.

Tratar como doença o que é eletrodo fora do lugar

O dano: Cabo trocado não produz ruído: produz um traçado limpo e coerente sobre um coração que não existe. Troca dos braços gera D1 negativo com aVR positivo e imita dextrocardia; troca braço-perna inverte a onda P em D3 e fabrica ondas Q inferiores; V1-V2 acima do lugar simula sobrecarga atrial esquerda, atraso final de condução ou padrão de Brugada. Já houve internação, ecocardiograma e cateterismo por causa disso.

Como pegar a tempo: Instale a suspeita como reflexo: achado eletrocardiográfico que não combina com o paciente pede conferência de cabos antes de pedir exame. A progressão da onda R nas precordiais é o desempate mais rápido entre dextrocardia verdadeira e troca de braços. Refazer o exame custa três minutos.

Medir o desnível de ST no lugar errado

O dano: O desnível se mede no ponto J, tendo o segmento TP como linha de base. Medir 80 ms depois do ponto J, num traçado com ST ascendente, cria supradesnivelamentos que não existem; usar o segmento PR como referência num paciente com pericardite (que tem infradesnivelamento do próprio PR) exagera o supradesnivelamento. Os dois erros mudam a classificação do paciente.

Como pegar a tempo: Marque fisicamente o ponto J com a ponta da caneta antes de medir, e escolha a linha de base olhando um ciclo completo. Em frequências altas, quando o TP desaparece, use o PR — e saiba que está usando uma referência de segunda escolha.

Calcular a frequência pela regra dos 1500 em ritmo irregular

O dano: Na fibrilação atrial, cada intervalo RR é diferente do seguinte. Aplicar a regra dos 1500 a um intervalo escolhido ao acaso produz números que variam de 40 a 160 bpm no mesmo traçado, e a conduta muda conforme o intervalo que a pessoa mediu — controle de frequência é decidido a partir desse número.

Como pegar a tempo: Antes de calcular, olhe se os RR são constantes. Se não forem, use a regra dos 6 segundos: conte os QRS em 30 quadrados grandes e multiplique por 10. E registre no prontuário qual método usou.

Aplicar os cortes habituais de ST em bloqueio de ramo esquerdo ou em ritmo de marca-passo

O dano: Nessas duas condições, a repolarização já é anormal por construção: existe desnivelamento discordante do QRS que faz parte do próprio bloqueio. Ler esse desnivelamento como isquemia gera falso-positivo em série; ignorá-lo por completo faz perder o infarto que existe — e o infarto com bloqueio de ramo esquerdo novo aparece em cerca de 7% dos casos com supradesnivelamento.

Como pegar a tempo: Reconhecido o bloqueio de ramo esquerdo ou a espícula de marca-passo, troque de régua: aplique os critérios de Sgarbossa, com ou sem a modificação proporcional, e busque o traçado anterior para saber se o bloqueio é novo. Essas duas ações resolvem quase todos os casos.

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O que dizer ao paciente e à família

O eletrocardiograma tem um lugar peculiar no imaginário do paciente: ele é "o exame do coração", e a palavra do médico sobre ele é ouvida como veredicto. Isso obriga a um cuidado específico — nem tranquilizar além do que o exame permite, nem alarmar com um achado que não muda nada.

Paciente com dor típica e eletrocardiograma normal, perguntando se pode ir para casa

O eletrocardiograma de agora está normal, e isso é uma boa notícia — mas ele mostra só este momento. Quando a artéria do coração está com problema, o exame pode ficar normal por horas e mudar depois. Por isso eu vou repetir o exame daqui a pouco e colher um exame de sangue que mostra se o músculo do coração sofreu. O senhor fica aqui comigo até eu ter essas duas respostas.

Não diga: Seu eletrocardiograma está normal, seu coração está bom. É a frase que mais mata neste capítulo: ela transforma um exame que não exclui nada num alvará de alta, e o paciente vai embora acreditando que foi avaliado.

Paciente assustado com a frase impressa pelo aparelho na folha do exame

Essa frase no alto do papel foi escrita pelo próprio aparelho, automaticamente, antes de qualquer médico olhar. Ele mede bem os tempos, mas não sabe nada da senhora — não sabe a idade, o que a senhora está sentindo, nem o que já aconteceu antes. Eu li o exame inteiro agora, passo a passo, e vou te explicar o que ele mostra de verdade.

Não diga: Não liga para isso, o aparelho sempre escreve besteira. Desqualificar o exame na frente do paciente sem explicar o que você encontrou troca uma insegurança por outra.

Achado crônico sem repercussão, como bloqueio de ramo direito isolado em paciente assintomático

O exame mostrou uma variação no jeito como o estímulo elétrico caminha dentro do seu coração. Ela é comum, aparece em pessoas sem doença nenhuma e não pede tratamento nem exame agora. O que ela pede é que o senhor guarde esta cópia: se um dia procurar um pronto-socorro, mostrar este papel evita que achem que é coisa nova e mexam onde não precisa.

Não diga: O senhor tem um bloqueio no coração. A palavra bloqueio, sozinha, produz medo desproporcional — e o paciente sai achando que tem uma obstrução.

Explicando por que vai repetir o exame

Vou repetir o eletrocardiograma daqui a quinze minutos. Não é porque o primeiro deu errado nem porque piorou: é que comparar dois exames feitos com uma diferença de tempo mostra coisas que um exame sozinho não mostra. É a mesma lógica de medir a febre duas vezes para saber se está subindo.

Não diga: Vou repetir só por precaução. Precaução é uma palavra vazia, e o paciente entende que você está inseguro em vez de entender que está fazendo o exame corretamente.

Pedindo para colocar eletrodos no dorso ou no lado direito do tórax

Vou pedir para a equipe fazer o exame de novo com os adesivos em outro lugar: alguns no lado direito do peito e alguns nas costas. É o mesmo exame, não dói e leva poucos minutos. Existem partes do coração que os adesivos na posição habitual não conseguem enxergar, e no seu caso eu preciso ver essas partes.

Não diga: É só uma complementaçãozinha do exame. Minimizar retira do paciente a informação de que existe uma dúvida clínica sendo respondida — e ele tem direito a saber que existe.

Comunicando incerteza a um familiar que quer uma resposta agora

Neste momento eu ainda não sei. O eletrocardiograma dele mostrou uma alteração que pode ser antiga ou pode ser de hoje, e a diferença entre as duas coisas muda o tratamento inteiro. Estou procurando um exame anterior dele para comparar e vou repetir o exame agora. Assim que eu tiver essas duas informações, eu volto aqui e converso com a senhora — deve ser em torno de meia hora.

Não diga: Está tudo sob controle, a senhora fica tranquila que a gente avisa. Prometer tranquilidade sem prometer um horário de retorno é o que produz família na porta do posto de enfermagem a cada dez minutos.

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Onde bons médicos discordam

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.

O corte em milímetros como porta de entrada da reperfusão, diante dos equivalentes de oclusão sem supradesnivelamento

Critério numérico por derivação, sexo e idade

A entrada na via de reperfusão é definida por corte medido no ponto J: 1 mm em todas as derivações, exceto V2-V3, onde valem 2,5 mm em homens abaixo de 40 anos, 2 mm em homens de 40 anos ou mais e 1,5 mm em mulheres, sempre em duas derivações contíguas. O corte graduado existe porque a elevação basal fisiológica em V2-V3 é maior em homens jovens, e um corte único produziria excesso de falso-positivo nessa faixa.

Ministério da Saúde, Linha de Cuidado do Infarto Agudo do Miocárdio; Fourth Universal Definition of Myocardial Infarction, 2018.

Reconhecimento de padrões de oclusão que não preenchem o corte

Uma parte relevante das oclusões coronarianas totais não produz supradesnivelamento que bata o corte em nenhum momento. Os padrões de De Winter (infradesnivelamento ascendente ≥1 mm de V1 a V6 com T altas e simétricas mais supradesnivelamento de 0,5 a 1 mm em aVR) e de Wellens (T bifásica ou profundamente invertida ≥2 mm em V2-V3 no paciente sem dor) identificam oclusão ou estenose crítica em traçados que a régua milimétrica classifica como sem supra.

de Winter RJ e cols., New England Journal of Medicine, 2008; de Zwaan C, Bär FW, Wellens HJ, American Heart Journal, 1982.

Como decidir

As duas posições não competem pelo mesmo espaço: a primeira define quem entra na reperfusão pela porta da frente, e a segunda define quem não pode ser mandado para casa por não ter batido o corte. Para o paciente à sua frente, a pergunta que organiza é sobre reversibilidade do erro: liberar uma oclusão não reconhecida é irreversível; internar e observar um paciente cujo padrão não se confirmou custa uma vaga. Diante de dor persistente com traçado que não bate o corte, a decisão prática é sempre a mesma — não liberar, registrar derivações extras, repetir o exame em quinze minutos e discutir o caso com quem faz hemodinâmica. Se o padrão for De Winter, trate-o como equivalente de supradesnivelamento; se for Wellens, o paciente interna e não faz teste de esforço, porque o esforço é o gatilho do evento que se quer evitar.

Sgarbossa original ou Sgarbossa modificado por Smith no bloqueio de ramo esquerdo

Escore original, com corte fixo de 5 mm no critério discordante

O escore soma três critérios: supradesnivelamento de 1 mm ou mais concordante com o QRS (5 pontos), infradesnivelamento de 1 mm ou mais concordante em V1 a V3 (3 pontos) e supradesnivelamento discordante de 5 mm ou mais (2 pontos); 3 pontos ou mais indicam infarto com alta especificidade. É o critério com maior tempo de uso, o mais reproduzido em material didático e o que exige apenas uma régua.

Sgarbossa EB e cols., New England Journal of Medicine, 1996.

Modificação proporcional, que substitui os 5 mm por uma razão

O corte fixo de 5 mm penaliza traçados com QRS de baixa amplitude e é generoso demais com traçados de amplitude alta. A modificação troca o valor absoluto por proporção: supradesnivelamento discordante cuja razão com a profundidade da onda S seja igual ou mais negativa que −0,25 conta como positivo. Em amplitudes pequenas, isso identifica infartos que o critério fixo perde.

Smith SW e cols., Annals of Emergency Medicine, 2012.

Como decidir

BRE novo ou de duração desconhecida, isoladamente, não é equivalente automático de infarto com supra. Integrar sintomas, estabilidade, ECG prévio, Sgarbossa original/modificado e troponina; resultado negativo não exclui oclusão. Dor isquêmica persistente, instabilidade ou critérios sugestivos de oclusão exigem avaliação cardiológica e estratégia invasiva urgente, sem aguardar troponina quando o quadro já a justifica. A modificação proporcional aumenta a utilidade em discordância excessiva; interpretar no conjunto, sem afirmar que um escore sozinho confirma infarto em toda apresentação.

Correção do QT por Bazett ou por Fridericia

Bazett como fórmula de uso clínico corrente

A correção divide o QT pela raiz quadrada do intervalo RR em segundos, e é a fórmula à qual os cortes de anormalidade de 450 ms em homens e 470 ms em mulheres estão ancorados. É a fórmula que os aparelhos imprimem e a que aparece nos prontuários, o que dá comparabilidade entre serviços. A própria diretriz brasileira registra a limitação: ela superestima o QTc acima de 90 bpm e subestima abaixo de 60 bpm, e nesses extremos recomenda as fórmulas lineares de Framingham e de Hodges.

Diretriz da SBC sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos, 2022.

Fridericia como correção menos dependente da frequência

A correção divide o QT pela raiz cúbica do RR, o que reduz a distorção nos extremos de frequência. É a fórmula adotada em estudos de segurança de medicamentos, onde a decisão de suspender uma droga não pode depender de um artefato de taquicardia. Num mesmo traçado com QT de 440 ms e frequência de 100 bpm, Bazett devolve 568 ms e Fridericia devolve 522 ms — 46 ms de diferença, com o paciente taquicárdico por dor ou febre.

International Council for Harmonisation, ICH E14, guia de avaliação clínica de prolongamento do intervalo QT/QTc.

Como decidir

A frequência cardíaca do paciente resolve. Entre 60 e 90 bpm, as duas fórmulas praticamente coincidem e a discussão não tem consequência — use Bazett e siga em frente. Fora dessa faixa, a decisão depende do que está em jogo: se o resultado vai suspender uma droga necessária (um antipsicótico no paciente agitado, um antibiótico no paciente séptico), calcule também por Fridericia antes de decidir, porque Bazett pode estar inflando o número por causa de uma taquicardia que é febre. E, em qualquer caso, registre no prontuário o QT medido, a frequência cardíaca e a fórmula usada — QTc anotado sozinho não é conferível por quem vem depois.

Eletrocardiograma de doze derivações seriado ou monitorização contínua do segmento ST na dor torácica

Traçado de doze derivações repetido em intervalos definidos

A recomendação brasileira estrutura a vigilância em torno do exame de doze derivações: realizado e interpretado nos primeiros dez minutos do contato médico, repetido na recorrência dos sintomas, e complementado por V3R-V4R e V7-V9 quando o paciente segue sintomático com traçado não diagnóstico — todas com classe I. A vantagem é a comparabilidade e a cobertura de todas as paredes, incluindo as derivações extras.

Diretrizes da SBC sobre Angina Instável e Infarto Agudo do Miocárdio sem Supradesnível do Segmento ST, 2021.

Monitorização contínua do segmento ST como vigilância entre os traçados

A monitorização contínua detecta episódios isquêmicos transitórios que ocorrem entre dois exames programados, inclusive os silenciosos, e não depende de alguém decidir repetir o exame na hora certa. A limitação é técnica e importante: o monitor usa poucas derivações, é sensível a movimento e a mudança de posição do paciente, e produz alarmes falsos em volume que leva à dessensibilização da equipe.

Diretriz da SBC sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos, 2022, seção sobre limitações do registro em modo de monitorização.

Como decidir

A escolha é ditada pela estrutura que você tem e pelo risco do paciente, e as duas se somam em vez de se excluir. Em unidade sem monitorização de segmento ST — que é a realidade da maior parte das unidades de pronto atendimento no Brasil —, a vigilância é o traçado seriado, e a decisão que resta é disciplinar o intervalo: quinze minutos com dor persistente, e repetição a cada recorrência. Onde existe monitorização contínua, ela cobre o intervalo entre os exames, mas nenhuma decisão de reperfusão deve ser tomada a partir do monitor: traçado em modo de monitorização atenua desnivelamentos lentos do ST, e o que confirma é sempre o exame de doze derivações em modo diagnóstico.

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O raciocínio, em voz alta

Volte ao senhor Aparecido, 58 anos, tabagista, hipertenso, com dor retroesternal em queimação há 40 minutos, sudorese, pressão 148 por 92. O eletrocardiograma está na sua mão, com a interpretação automática dizendo "ritmo sinusal, ECG anormal, alteração inespecífica da repolarização ventricular" e uma anotação a caneta no canto dizendo que o paciente já tem isso. Vamos ler em ordem.

  1. passo 0 — o que eu confiro antes de interpretar qualquer coisa

    Nome e data conferem. Rodapé em 25 mm/s e 10 mm/mV, com pulso de calibração de 10 mm de altura. Linha de base estável. D1 com P, QRS e T positivos e aVR negativo, o que já exclui a troca de cabos dos braços. O exame é válido, e só agora ele vira informação. A anotação a caneta não tem data nem assinatura: ela não é documento e não entra no raciocínio.

  2. passo 1 — ritmo

    Existe onda P antes de cada QRS e um QRS depois de cada P. A P é positiva em D1, D2 e aVF, e negativa em aVR. O intervalo entre as ondas P é constante. Ritmo sinusal, e agora está escrito porque foi verificado — não porque o aparelho afirmou.

  3. passo 2 — frequência

    O ritmo é regular, então uso a regra dos 1500. Entre dois picos R consecutivos cabem 18 quadradinhos de 1 mm: 1500 dividido por 18 dá 83 bpm. Confiro pela regra dos 300: são pouco menos de 4 quadrados grandes, o que corresponde a algo entre 75 e 100 bpm. As duas contas concordam. Frequência dentro da faixa normal de 50 a 99 bpm — e isso importa, porque significa que a fórmula de Bazett vai funcionar bem neste traçado.

  4. passo 3 — eixo

    QRS predominantemente positivo em D1 e em aVF. Eixo no quadrante entre 0° e +90°, portanto normal. Não preciso do desempate por D2. Nada aqui sugere bloqueio divisional nem sobrecarga direita.

  5. passo 4 — intervalo PR

    Medido em D2: 4 quadradinhos, ou seja, 160 ms. Dentro da faixa de 120 a 200 ms. Não há bloqueio atrioventricular, e o início do QRS é abrupto, sem empastamento — não há onda delta. Também não há infradesnivelamento do segmento PR, o que já torna pericardite menos provável antes mesmo de eu olhar o ST.

  6. passo 5 — QRS

    Duração de 2 quadradinhos, 80 ms. Abaixo de 120 ms: a condução é fisiológica, e isso me diz uma coisa importante — toda a régua de segmento ST vale integralmente neste traçado, sem as ressalvas do bloqueio de ramo esquerdo. A amplitude não preenche Sokolow-Lyon nem Cornell. Não há ondas Q com 30 ms ou mais em nenhuma parede.

  7. passo 6 — segmento ST, e aqui o exame muda de assunto

    Meço no ponto J, com a linha de base no segmento TP. Em D2, D3 e aVF há supradesnivelamento de 1,5 mm — três derivações contíguas, todas acima do corte de 1 mm que vale fora de V2-V3. E em D1 e aVL há infradesnivelamento de 1 mm, que não é um segundo achado: é a imagem em espelho do primeiro, porque D1 e aVL são quase opostas a D3 e aVF. As precordiais, para onde meu olho tinha ido primeiro, estão normais — e é exatamente por isso que a busca desorganizada tinha falhado. Isto é infarto agudo com supradesnivelamento de parede inferior. O laudo automático chamou de "alteração inespecífica" um desnivelamento que bate o critério com folga.

  8. o que eu faço neste segundo, antes de terminar a leitura

    Interrompo a leitura por trinta segundos para acionar a sala de emergência, monitorizar, pegar dois acessos e chamar a reperfusão — o critério está preenchido e o relógio já está correndo. E peço à técnica que registre V3R e V4R, porque supradesnivelamento inferior obriga a olhar o ventrículo direito. Depois volto e termino os passos 7 e 8, porque eles ainda podem mudar o que eu vou prescrever.

  9. passo 7 — onda T e QT

    As ondas T nas derivações inferiores estão altas e de base larga, o que é coerente com fase hiperaguda, e não com a T estreita e simétrica da hipercalemia. O QT mede 9 quadradinhos, 360 ms. O intervalo RR é de 18 quadradinhos, 0,72 segundo. QTc por Bazett: 360 dividido pela raiz quadrada de 0,72, que dá 424 ms. Abaixo de 450 ms — nenhuma restrição de QT à prescrição que vem a seguir.

  10. passo 8 — comparação

    As derivações direitas voltam com supradesnivelamento de 1 mm em V4R, acima do corte de 0,5 mm: há comprometimento de ventrículo direito, e isso muda a conduta imediata — este é o paciente que depende de pré-carga e no qual nitrato e morfina podem derrubar a pressão. E o prontuário eletrônico tem um eletrocardiograma de oito meses atrás, feito na avaliação pré-operatória de uma hérnia: ritmo sinusal, sem supradesnivelamento, sem ondas Q. A alteração é nova. A anotação a caneta estava errada, e a comparação é o que prova isso.

  11. o desfecho, e o que ele ensina

    Infarto agudo com supradesnivelamento de parede inferior com comprometimento de ventrículo direito, diagnosticado 12 minutos depois da chegada. Nenhum passo deste raciocínio exigiu talento para reconhecer traçados: exigiu medir no ponto J, aplicar o corte da derivação, olhar as derivações que o olho não procura e comparar com o exame antigo. O achado não foi encontrado — ele apareceu porque a ordem foi cumprida.

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Faça você

Agora é o leito 12. Dona Neuza, 71 anos, internada há três dias por pneumonia, em uso de levofloxacino, ondansetrona para náusea e haloperidol prescrito na noite anterior por agitação. A enfermagem chama porque ela teve um episódio de perda de consciência de segundos, com recuperação completa, sentada na poltrona. Você pede um eletrocardiograma. Está tudo à sua frente: ritmo sinusal, intervalo RR de 26 quadradinhos, PR de 4 quadradinhos, QRS de 2 quadradinhos e meio, segmento ST sem desnivelamento, ondas T achatadas nas precordiais com uma deflexão positiva logo depois delas, e o intervalo QT medindo 13 quadradinhos.

  1. passos 1 a 3 — ritmo, frequência e eixo

    RR de 26 quadradinhos a 25 mm/s equivale a 1,04 s e frequência de aproximadamente 58 bpm. É frequência baixa pelo corte usual de <60 e está dentro da faixa de 50–99 citada na tabela deste capítulo; não está abaixo de 50. O significado depende de sintomas, medicamentos e traçados prévios. Eixo com D1/aVF positivos é usualmente normal; esses achados não excluem arritmia intermitente como causa da síncope.

  2. passos 4 e 5 — PR e QRS

    PR de 4 quadradinhos, 160 ms: normal, sem bloqueio atrioventricular. QRS de 2 quadradinhos e meio, 100 ms: abaixo de 120 ms, condução fisiológica. Não há bloqueio de ramo, não há espícula de marca-passo, não há alargamento que sugira hipercalemia ou droga bloqueadora de canal de sódio.

  3. passo 6 — segmento ST

    Não há desnivelamento diagnóstico de ST neste registro. Isso não exclui isquemia nem arritmia transitória; interpretar a síncope pelo conjunto clínico e pelo QT, mantendo vigilância.

  4. passo 7 — onda T e QT, onde o caso se resolve

    As ondas T estão achatadas nas precordiais e há uma deflexão positiva logo depois delas — onda U proeminente, achado que aponta para hipocalemia. O QT mede 13 quadradinhos, ou seja, 520 ms, medido até o fim da onda T e não da onda U. O intervalo RR é de 26 quadradinhos, 1,04 segundo. Aplicando Bazett — QT dividido pela raiz quadrada do RR —, o QTc é 510 ms. Como a frequência está em 58 bpm, perto do limite inferior da faixa em que Bazett é confiável, vale conferir por Fridericia: dividindo pela raiz cúbica de 1,04, o resultado é 513 ms. As duas fórmulas concordam, e as duas passam de 500 ms.

  5. passo 8 — comparação

    O eletrocardiograma da admissão, três dias antes, mostrava QT de 10 quadradinhos com frequência semelhante — QTc em torno de 390 ms. O prolongamento apareceu durante a internação.

  6. conduta

    — sua vez —

Ver como fecharíamos

O traçado mostra QTc prolongado em contexto de vários fármacos que prolongam repolarização, frequência baixa e possível hipocalemia. A síncope pode ter sido arrítmica, inclusive torsades, mas essa arritmia não foi documentada: tratá-la como hipótese de risco, não diagnóstico confirmado. Monitorizar imediatamente, avaliar outras causas da síncope e revisar/suspender agentes dispensáveis que prolongam QT, escolhendo alternativas conforme indicação. Conferir medida do QT sem incluir U, RR, fórmula, QRS e traçado prévio. QT 520 ms e RR 1,04 s resultam em QTc aproximadamente 510 ms por Bazett e 513 ms por Fridericia, ambos acima de 500. Dosar e corrigir K, Mg e cálcio quando indicados, com atenção à função renal. Se houver torsades sustentada/instável, tratar imediatamente conforme algoritmo, incluindo desfibrilação quando necessária e magnésio; discutir medidas contra recorrência associada a pausas. Repetir ECG e acompanhar evolução clínica conforme risco e meia-vida dos agentes, sem exigir normalização em 24 horas para todos. Persistência pode decorrer de eliminação lenta, interações, eletrólitos, cardiopatia ou predisposição congênita. Investigar história pessoal/familiar e considerar avaliação especializada se o prolongamento persistir após resolver causas adquiridas; não diagnosticar canalopatia hereditária automaticamente no dia seguinte. A comparação revela mudança adquirida relevante, mas não identifica sozinha a arritmia responsável pelo desmaio.

Gabarito da questão de abertura
Comentário

Bazett corrige dividindo o QT medido pela raiz quadrada do intervalo RR em segundos. A 100 bpm, o RR é 0,60 s, cuja raiz quadrada é aproximadamente 0,775; 440 dividido por 0,775 dá 568 ms. O erro mais comum é multiplicar em vez de dividir, o que produziria 341 ms e a conclusão oposta — QT curto onde há QT muito longo. Com 568 ms, o paciente está acima do corte operacional de 500 ms, e a combinação de quinolona com ondansetrona é uma causa iatrogênica clássica: a conduta é revisar a prescrição inteira, substituir as drogas que prolongam o intervalo e corrigir eletrólitos, além de monitorizar. Vale lembrar que, em taquicardia, Bazett superestima — por isso, nessa faixa, conferir também por Fridericia (que devolveria 522 ms) ajuda a dimensionar, mas os dois valores continuam acima de 500 ms e a conduta não muda.

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Teste-se

Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.

Sorteando as questões…
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Plano de revisão

Em 7 dias

Calcule frequência e QTc de Neuza e explique por que 58 bpm não é abaixo de 50. Distinga QT longo medido de torsades apenas suspeita.

Em 30 dias

Interprete dor com BRE sem exame prévio: use critérios apropriados e explique por que bloqueio novo isolado não determina reperfusão automática.

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Agora atenda

Agora atenda: homem de 63 anos chega à unidade de pronto atendimento com desconforto epigástrico e sudorese há uma hora, atribuindo o quadro a algo que comeu. Está pálido, com pressão de 96 por 60 e frequência de 52 bpm. O eletrocardiograma foi feito e está na sua mão. Faça a leitura em ordem, decida quais derivações extras pedir e conduza — inclusive a conversa com a esposa dele, que quer saber se é do estômago.

ECG na prática — Internato | OsceLabs