Clínica Médica › Interpretação de Exames à Beira do Leito
Gasometria arterial
O papel diz acidose e você já sabia disso olhando o paciente. O capítulo é sobre os seis passos que transformam seis números em uma linha de prescrição — e sobre as três contas que quase ninguém faz.
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Responda antes de ler
Adulto de 19 anos, hiperglicemia e vômitos, sem desconforto respiratório e com saturação de 98% em ar ambiente. Duas tentativas de punção arterial falharam e ele está agitado com a dor. O plantonista pede uma terceira tentativa, alegando que gasometria venosa não serve para diagnosticar cetoacidose. Como avaliar essa conduta?
O paciente que você vai ver
São 22h40 de uma quarta-feira e o senhor Wilson, 62 anos, está sentado na maca 7 do pronto-socorro com uma bacia no colo. Ele vomita há três dias — começou depois de um churrasco, e ele achou que fosse a carne. Parou de comer. Como não estava comendo, parou também de tomar a metformina e a gliclazida, porque a esposa leu na bula que remédio de diabetes em jejum dá hipoglicemia. Hoje à tarde ele ficou sonolento e a filha trouxe. Ele respira fundo e devagar, e o hálito tem um cheiro adocicado que você reconhece antes de saber que reconheceu.
A técnica puncionou a radial e o papel voltou em quatro minutos: pH 7,33; PaCO2 33 mmHg; HCO3 17 mEq/L; excesso de bases −7,8; PaO2 96 mmHg; saturação 97%. Junto vieram os eletrólitos e o resto: sódio 138, potássio 5,4, cloreto 90, albumina 2,6 g/dL, glicemia 384 mg/dL, cetonemia capilar 4,8 mmol/L, lactato 1,8, creatinina 1,4. Ele pesa 78 quilos.
Você olha para o pH e pensa: 7,33. Acidótico, mas quase normal. É exatamente aí que o caso mente. Esse papel contém dois distúrbios acidobásicos simultâneos, e o segundo — o que três dias de vômito produziram — está segurando o pH para cima e escondendo o tamanho do primeiro. Quem trata o que o pH mostra vai subdimensionar a doença. Quem faz três contas que cabem em um minuto vê o caso inteiro.
Este capítulo não é sobre uma doença. É sobre um método: a sequência fixa que transforma seis números em uma linha de prescrição, e que funciona igual na cetoacidose, no cirrótico, no retentor crônico de gás carbônico e no paciente que recebeu quatro litros de soro fisiológico e piorou. O senhor Wilson volta no fim, e você vai resolvê-lo do começo ao fim.
Quem adoece disso
Cerca de 90% dos pacientes internados em terapia intensiva têm algum distúrbio do equilíbrio acidobásico. A consequência prática dessa frequência é o contrário do que parece: a gasometria não é um exame que confirma uma suspeita rara, é um exame cuja alteração é a regra. A pergunta útil nunca é se o paciente tem um distúrbio — é qual, quantos e o que cada um deles muda na prescrição desta noite.
O dado que mais desmonta a confiança de quem lê gasometria é antigo e é americano, de um levantamento de 1982 citado na revisão brasileira da Vittalle: cerca de 70% dos médicos participantes se declararam experientes na interpretação, e apenas cerca de 40% das gasometrias foram diagnosticadas corretamente. Não há um número brasileiro equivalente com medição direta, e o dado estrangeiro serve aqui pelo que ele diz do formato do erro, não da população: o que separa quem acerta de quem erra não é tempo de plantão, é ter ou não uma sequência fixa. Confiança e acurácia, nesse exame, não andam juntas.
Onde o erro se concentra depende do lugar. No pronto-socorro, o distúrbio dominante é a acidose metabólica — cetoacidose diabética, choque com hipoperfusão, injúria renal aguda, intoxicação. Na enfermaria, o perfil vira: alcalose metabólica por vômito, aspiração por sonda gástrica e diurético de alça, e acidose respiratória crônica do portador de doença pulmonar obstrutiva. E o erro campeão nos dois lugares é o mesmo: chamar de distúrbio compensado o que é um segundo distúrbio primário. Compensação nunca corrige o pH até o normal e nunca ultrapassa a faixa esperada pela fórmula — quando ultrapassa, há outra coisa acontecendo, e essa outra coisa também precisa de tratamento.
Há um número brasileiro que muda a suspeita de quem atende aqui. Na casuística de pacientes graves publicada na Revista Brasileira de Terapia Intensiva, ânions fortes não mensurados estavam presentes em 98% dos pacientes, hipercloremia em 80% e lactato elevado em 62%. Leia a segunda linha de novo: hipercloremia é mais frequente que lactato alto no paciente grave. E é justamente a que ninguém procura, porque a acidose hiperclorêmica não mexe no ânion-gap — o único parâmetro que a maioria olha. Ela vem, com frequência, do soro fisiológico que o próprio serviço infundiu, e a conduta que ela pede é trocar o fluido, não corrigir o pH.
Por que acontece o que acontece
A equação de Henderson-Hasselbalch, na leitura clínica de Évora e Garcia, diz uma coisa só: o pH é uma fração em que o numerador é a função renal e o denominador é a função respiratória. O bicarbonato ocupa o numerador e é diretamente proporcional ao pH; a PaCO2 ocupa o denominador e é inversamente proporcional. Não é preciso decorar a equação. É preciso saber que só existem dois lugares de onde um pH anormal pode vir, e que cada um deles tem um órgão responsável e uma velocidade própria.
O tampão principal do líquido extracelular é o par bicarbonato e gás carbônico. Quando sobra hidrogênio no plasma, o bicarbonato o captura formando ácido carbônico, que a anidrase carbônica quebra em gás carbônico e água — e aí o pulmão elimina o gás. É por isso que o bicarbonato cai na acidose metabólica: ele foi gasto. Esse tamponamento extracelular tem eficácia limitada a duas ou três horas; depois disso as células entram no jogo, sequestrando hidrogênio para dentro em troca de potássio, que sai. Guarde essa troca, porque ela explica um achado que confunde todo interno: o paciente em cetoacidose chega com potássio alto no exame apesar de ter perdido potássio total do corpo. O potássio está no plasma porque foi expulso das células pela acidemia, e vai desabar assim que a insulina o empurrar de volta.
As duas compensações não têm a mesma velocidade, e essa diferença é a informação mais útil de toda a fisiologia acidobásica. O pulmão responde em minutos, porque a ventilação alveolar muda de imediato. O rim leva horas a dias, porque reter ou excretar bicarbonato depende de transporte tubular. Três consequências saem daí. Primeira: na acidose metabólica, a hiperventilação compensatória já está lá quando o paciente chega, e sua ausência é sinal de fadiga muscular ou de um segundo distúrbio. Segunda: na acidose respiratória aguda o bicarbonato quase não se move, e o excesso de bases fica normal — se ele estiver alto, o quadro é crônico. Terceira, na formulação do manual de DPOC da SBPT: bicarbonato aumentado em paciente com hipercapnia e pH na faixa da normalidade significa retenção crônica e compensada de gás carbônico, não erro de exame.
Há uma assimetria evolutiva que o interno raramente ouve e que muda conduta. As defesas do organismo contra a acidose são muito melhores que as defesas contra a alcalose: hiperventilar para eliminar hidrogênio é eficiente, mas hipoventilar para poupá-lo não é — a depressão respiratória necessária para compensar uma alcalose metabólica só apareceria em graus de excesso de base praticamente inexistentes na clínica. O resultado prático é que a alcalose metabólica é o distúrbio mais subtratado da enfermaria, e é o que mais se associa a arritmia supraventricular refratária a antiarrítmico convencional e a aumento de mortalidade em paciente grave.
O ânion-gap não é um truque de prova: é a lei da eletroneutralidade escrita de outro jeito. O plasma tem tantas cargas positivas quanto negativas. Se o sódio é o cátion medido e o cloreto e o bicarbonato são os ânions medidos, então a diferença entre eles é igual à diferença entre os ânions e os cátions que o laboratório não mede. Daí a fórmula: ânion-gap igual a sódio menos a soma de cloreto e bicarbonato. Quando o bicarbonato cai, alguma coisa ocupou o lugar dele. Se foi o cloreto, o gap fica normal e o problema é perda de bicarbonato ou ganho de cloreto. Se foi um ânion que ninguém mede — lactato, cetoânion, sulfato da uremia, formato do metanol —, o gap sobe e o problema é acúmulo de ácido. O gap não diagnostica doença; ele parte a lista de causas ao meio, e essa metade é a diferença entre pedir cetonemia e pedir cloreto urinário.
Falta a peça que quase todo mundo esquece: o principal ânion não medido do plasma, em condições normais, é a própria albumina. Ela responde por boa parte do gap basal. Num paciente com albumina de 2,0 g/dL — cirrótico, séptico prolongado, desnutrido, qualquer internado de duas semanas —, o gap basal está artificialmente baixo, e um acúmulo real de lactato ou cetoácido pode aparecer como um gap de 12, dentro do normal. A correção é aritmética simples: para cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4, some 2,5 ao gap. Sem isso, o exame diz que não há ânion não medido justamente no paciente que tem mais chance de ter.
Por último, uma correção de leitura que evita discussão inútil no plantão. O aparelho de gasometria mede diretamente três coisas: pH, PaO2 e PaCO2. Bicarbonato, gás carbônico total, excesso de bases e saturação são calculados a partir dessas medidas. Logo, o bicarbonato do papel não pode discordar do pH e da PaCO2 do mesmo papel — os três vêm da mesma equação. Quando o bicarbonato da gasometria e o do eletrólito venoso divergem, o que se está comparando são dois métodos, não dois fatos.

Como se apresenta de verdade
Os padrões abaixo são o vocabulário mínimo. Cada um vem com os valores que o definem e com a pista clínica que costuma vir junto — porque o objetivo não é classificar o papel, é reconhecer a história que produziu aquele papel.
Percurso de aprendizagem
pH normal não exclui alterações graves que se compensam. Compare PaCO2/HCO3 com o esperado e com o basal; fórmula não prova duração nem mecanismo único.
Calcule AG com amostras contemporâneas, corrija pela albumina e interprete o delta como aproximação. Bicarbonato não se decide apenas por gap.
Na CAD adulta, use critérios atualizados e K >3,5 antes da insulina. Na sonolência hipercápnica, avaliar suporte ventilatório apesar de pH aparentemente normal.
Acidose metabólica
pH abaixo de 7,35 com bicarbonato abaixo de 22 mEq/L e PaCO2 baixa por compensação. À beira do leito ela aparece antes do exame: taquipneia é a alteração mais precoce, e pode evoluir para respiração de Kussmaul — inspirações profundas separadas por pausas. Nas formas graves entram bradicardia, má perfusão periférica, redução da peristalse até íleo adinâmico, queda da complacência pulmonar e rebaixamento do sensório. Dois efeitos mudam conduta: a acidemia deprime a contratilidade miocárdica e reduz a responsividade às catecolaminas, de modo que o mesmo paciente precisa de mais noradrenalina para a mesma pressão; e ela desloca a curva de dissociação da hemoglobina para a direita, o que aliás ajuda a entrega de oxigênio ao tecido.
A subdivisão que importa não é de gravidade, é de ânion-gap. Gap alto significa acúmulo de ácido; gap normal significa perda de bicarbonato ou ganho de cloreto. As duas se tratam de maneiras opostas, e a única forma de distingui-las é calculando.
Alcalose metabólica
pH acima de 7,45 com bicarbonato acima de 26 mEq/L e PaCO2 discretamente alta por compensação. Não tem sinal clássico: o paciente traz queixas inespecíficas e, quase sempre, os sinais da hipovolemia e do distúrbio hidroeletrolítico que a causaram. O quadro reúne cefaleia, letargia, confusão e, nas formas intensas, convulsão e tetania; fraqueza muscular com sinais de Trousseau e Chvostek; poliúria e polidipsia; e o conjunto hidroeletrolítico que denuncia a origem — hipocalemia, hipocloremia, hipocalcemia por queda do cálcio iônico, hipomagnesemia. A predisposição a arritmia supraventricular é o motivo pelo qual ela não é um achado benigno.
As três causas de longe mais frequentes são perda de ácido gástrico por vômito ou sonda, uso de diurético de alça ou tiazídico, e aumento da atividade mineralocorticoide. Um quarto cenário é iatrogênico e comum na unidade: alcalose depois de corrigir rápido demais uma hipercapnia crônica, quando o bicarbonato retido pelo rim fica sem o gás carbônico que o justificava.
Acidose respiratória: aguda, crônica e crônica agudizada
pH abaixo de 7,35 com PaCO2 acima de 45 mmHg. O que separa as três formas é o bicarbonato e o excesso de bases, não a PaCO2. Na aguda, o rim ainda não teve tempo: bicarbonato quase normal e excesso de bases dentro da faixa, com pH desabando. Aumento súbito e intenso da PaCO2 produz dispneia, ansiedade, confusão, alucinação e, nos casos graves, coma. Na crônica, o rim já reteve bicarbonato: bicarbonato alto, excesso de bases positivo e pH próximo do normal — e o quadro clínico é outro, com insônia, déficit cognitivo, sonolência diurna, tremor e flapping. Vale lembrar que o gás carbônico é vasodilatador cerebral, e a hipercapnia pode cursar com hipertensão intracraniana.
A terceira forma é a que chega ao pronto-socorro: crônica agudizada. O paciente traz o excesso de bases alto de sempre — prova de que ele é retentor crônico — e um pH muito mais baixo do que costuma ter, porque algo agudo somou sobre a base. Pneumonia é a causa clássica. A leitura é: excesso de bases elevado com pH muito reduzido não é acidose aguda nem crônica estável; é uma agudização, e o alvo terapêutico não é normalizar a PaCO2, é tratar o que agudizou.
Alcalose respiratória
pH acima de 7,45 com PaCO2 abaixo de 35 mmHg. O paciente refere dispneia, tontura, parestesias em extremidades e ao redor da boca, palpitação, dor torácica e, quando intensa, espasmo carpopedal. A queda súbita da PaCO2 reduz o fluxo sanguíneo cerebral, o que rebaixa o sensório e pode causar confusão e convulsão; abaixo de 20 mmHg há risco de isquemia cerebral.
O erro aqui é de atribuição, não de identificação. Alcalose respiratória é fácil de reconhecer e fácil de rotular como ansiedade. As causas que matam se apresentam exatamente assim: tromboembolismo pulmonar, sepse em fase inicial, intoxicação por salicilato, insuficiência hepática. Hiperventilação psicogênica é diagnóstico de exclusão, e o passo 6 do método existe para impedir que ele seja o primeiro.
Distúrbio misto: o padrão que o pH esconde
A regra que resume o bloco inteiro: pH normal com PaCO2 e bicarbonato intensamente alterados é distúrbio misto até prova em contrário. Dois distúrbios opostos podem equilibrar o pH na faixa normal e produzir um exame de aparência tranquilizadora em um paciente que está longe de estar tranquilo. Um pH de 7,41 com bicarbonato de 14 e PaCO2 de 23 é um exemplo real: nenhum dos dois valores é compatível com normalidade, e o pH está normal justamente porque há acidose metabólica e alcalose respiratória primária ao mesmo tempo.
Pode haver até três distúrbios primários simultâneos, e há dois deles com muita frequência no paciente que vomita e tem cetoacidose, no cirrótico séptico e no retentor crônico em uso de furosemida. O método existe para encontrá-los na ordem certa: a compensação esperada revela o segundo, e o delta revela o terceiro.
O que muda no idoso, no hipoalbuminêmico, no gestante e no retentor crônico
No hipoalbuminêmico o gap mente para baixo, e esse é o desvio mais consequente da lista: cirrótico, séptico prolongado e desnutrido têm albumina baixa por definição, e são exatamente os pacientes com mais chance de acumular lactato. Corrigir pela albumina é obrigatório neles, não opcional.
Na gestante, a alcalose respiratória crônica é fisiológica — a progesterona aumenta a ventilação —, e o bicarbonato acompanha para baixo. Uma PaCO2 de 30 com bicarbonato de 19 em gestante saudável não é distúrbio; a mesma gasometria em não gestante é. No retentor crônico de gás carbônico, o normal dele não é o normal da tabela: uma PaCO2 de 57 com pH de 7,29 e excesso de bases próximo de zero pode ser perfeitamente aceitável para um portador de doença pulmonar obstrutiva, e a busca por normalizar a PaCO2 nele produz dano. No idoso e no imunossuprimido, a taquipneia da acidose metabólica pode ser o único sinal de sepse antes da febre — e a fadiga da musculatura respiratória chega mais cedo, o que faz a PaCO2 subir de volta em direção ao normal justamente quando o paciente está piorando. PaCO2 subindo em quem tinha acidose metabólica compensada é sinal de exaustão, não de melhora.
Como fechar o diagnóstico
Este é o bloco que o capítulo inteiro existe para entregar. A gasometria não se interpreta por reconhecimento de padrão — se interpreta por sequência fixa, sempre na mesma ordem, mesmo quando o diagnóstico parece óbvio. A ordem importa porque cada passo restringe o passo seguinte: quem calcula o ânion-gap antes de estabelecer o distúrbio primário não sabe o que fazer com o número, e quem pula a correção pela albumina calcula o delta com um gap errado e chega a um terceiro distúrbio que não existe.
São seis passos. Os três primeiros usam só a gasometria; os três últimos exigem sódio, cloreto e albumina no mesmo horário. Peça tudo junto desde a primeira coleta — gasometria isolada, sem cloreto e sem albumina, permite chegar até o passo 3 e para ali.
Passo 1 — O pH: acidemia ou alcalemia (e por que o pH normal não encerra nada)
Abaixo de 7,35 é acidemia; acima de 7,45 é alcalemia. Repare no vocabulário: acidemia e alcalemia descrevem o sangue; acidose e alcalose descrevem o processo. Um paciente pode ter acidose metabólica sem acidemia, e é justamente esse o caso que se perde.
Exemplo resolvido. pH 7,41; HCO3 14 mEq/L; PaCO2 23 mmHg. O pH está dentro da faixa normal, e a tentação é encerrar. Mas nenhum dos outros dois valores é normal: o bicarbonato está muito abaixo de 22 e a PaCO2 muito abaixo de 35. Duas alterações intensas em sentidos que se anulam, com pH normal, significam distúrbio misto. Guardando esse exemplo para o passo 3: a fórmula de Winter para bicarbonato de 14 prevê PaCO2 entre 27 e 31 mmHg, e a medida é 23 — abaixo do previsto. Há acidose metabólica e alcalose respiratória primária ao mesmo tempo, e a alcalose respiratória não é compensação, é um segundo distúrbio que também precisa de causa e de tratamento.
A regra operacional do passo 1: pH alterado indica quem venceu o cabo de guerra, não quantos estão puxando. pH normal com bicarbonato ou PaCO2 fora da faixa obriga a continuar a sequência inteira.
Passo 2 — Qual é o distúrbio primário
O distúrbio primário é aquele cujo parâmetro se moveu no mesmo sentido do pH. Se o pH está baixo e o bicarbonato está baixo, o primário é acidose metabólica. Se o pH está baixo e a PaCO2 está alta, o primário é acidose respiratória. Se o pH está alto e o bicarbonato está alto, alcalose metabólica; se o pH está alto e a PaCO2 está baixa, alcalose respiratória. A compensação sempre se move no sentido que puxaria o pH de volta, ou seja, no sentido contrário ao do pH.
Exemplo resolvido. pH 7,29; PaCO2 58 mmHg; HCO3 27 mEq/L. O pH está ácido. A PaCO2 de 58 puxa o pH para baixo — mesmo sentido. O bicarbonato de 27 puxa o pH para cima — sentido contrário. Logo, o primário é acidose respiratória, e o bicarbonato levemente alto é a compensação renal. Isso já muda conduta: o alvo terapêutico é a ventilação, não o bicarbonato, e prescrever bicarbonato de sódio aqui pioraria a hipercapnia, porque o bicarbonato é doador de gás carbônico.
Nesse mesmo exemplo, uma pergunta ainda está aberta: essa acidose respiratória é aguda ou crônica? A resposta vem do excesso de bases e da fórmula do passo 3.
Passo 3 — A compensação esperada, com as fórmulas
Compensação é previsível. Cada distúrbio primário tem uma resposta esperada calculável, e o valor medido tem de cair dentro da faixa prevista. Quando não cai, existe um segundo distúrbio primário — e essa é a informação que o passo 3 entrega, não a confirmação do que você já sabia.
Na acidose metabólica, a fórmula de Winter: PaCO2 esperada igual a 1,5 vezes o bicarbonato, mais 8, com margem de 2 mmHg para cima e para baixo. Exemplo resolvido: bicarbonato 12 mEq/L, PaCO2 medida 34 mmHg, pH 7,17. Esperado: 1,5 vezes 12 é 18, mais 8 dá 26, faixa de 24 a 28 mmHg. A PaCO2 medida de 34 está acima do teto — o pulmão está eliminando menos gás carbônico do que deveria. Isso é acidose respiratória associada à acidose metabólica, e é o padrão do paciente que já entrou em fadiga da musculatura respiratória. A conduta muda de imediato: esse paciente não precisa de bicarbonato, precisa de suporte ventilatório antes de parar.
Na alcalose metabólica: PaCO2 esperada igual a 0,7 vezes o bicarbonato, mais 20, com margem de 1,5 mmHg. Exemplo resolvido: bicarbonato 38 mEq/L, PaCO2 medida 47 mmHg, pH 7,53. Esperado: 0,7 vezes 38 é 26,6, mais 20 dá 46,6, faixa de 45,1 a 48,1. A medida de 47 está dentro. Distúrbio único, alcalose metabólica com hipoventilação compensatória adequada — e a hipoventilação em si não deve ser combatida, porque é a defesa.
Na acidose respiratória crônica: bicarbonato esperado igual a 24 mais 0,4 vezes a diferença entre a PaCO2 e 40, com margem de 2 mEq/L. Exemplo resolvido: PaCO2 70 mmHg, bicarbonato medido 30 mEq/L, pH 7,25. Esperado: 24 mais 0,4 vezes 30 dá 36, faixa de 34 a 38. O bicarbonato medido de 30 está abaixo do piso — o rim retém menos base do que deveria para essa PaCO2. Há acidose metabólica somada à respiratória crônica, e no retentor crônico as suspeitas são injúria renal aguda, sepse e acidose lática. O caso deixou de ser pneumológico.
Para separar acidose respiratória aguda de crônica sem depender do bicarbonato, existe a variação do pH: no quadro agudo, o pH varia cerca de 0,008 por mmHg de variação da PaCO2; no crônico, cerca de 0,003. O atalho de beira de leito é o excesso de bases: ele não se altera nos distúrbios respiratórios agudos, porque a resposta renal é tardia. Excesso de bases positivo com hipercapnia significa que o rim já teve dias para trabalhar. Na alcalose respiratória crônica, a regra prática é que o bicarbonato cai cerca de 5 mEq/L a cada 10 mmHg de queda da PaCO2.
Um erro conceitual que vale corrigir aqui: compensação nunca normaliza o pH, e nunca o ultrapassa. Se o pH voltou exatamente ao normal ou passou para o outro lado, não foi compensação — foi um segundo distúrbio.
Passo 4 — O ânion-gap, e a correção pela albumina
Ânion-gap igual a sódio menos a soma de cloreto e bicarbonato. Calcule sempre, inclusive quando o pH está normal e inclusive quando o distúrbio primário é respiratório — um gap alto num paciente com alcalose respiratória isolada é a forma como a intoxicação por salicilato e a sepse precoce se apresentam.
As faixas de normalidade divergem entre as fontes brasileiras: a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes usa 4 a 12; a revisão da Vittalle, 3 a 12; Évora e Garcia usam 12 mais ou menos 2. Para a prática, o teto é 12: gap corrigido acima de 12 significa ânion não medido no plasma.
E aqui vem a conta que quase ninguém faz. A albumina é o principal ânion não medido em condições normais, e cada 1 g/dL abaixo de 4 reduz o gap medido em cerca de 2,5 mEq/L. Ânion-gap corrigido igual ao gap calculado mais 2,5 vezes a diferença entre 4 e a albumina em g/dL.
Exemplo resolvido. Sódio 140, cloreto 112, bicarbonato 16, albumina 2,0 g/dL, PaCO2 31 mmHg, pH 7,34. Gap calculado: 140 menos 128, igual a 12. Aparentemente normal — a leitura de plantão seria acidose hiperclorêmica pura, e a conduta seria repor bicarbonato ou trocar o fluido. Agora corrija: 12 mais 2,5 vezes 2, igual a 17. O gap está alto. Existe um ânion não medido nesse paciente que não aparecia no número bruto, e a lista de causas muda inteira: lactato, cetoácido, uremia, intoxicação. O que estava prestes a virar uma prescrição de reposição vira uma busca por foco infeccioso.
Este passo custa uma dosagem de albumina, que é barata e faz parte da rotina de qualquer internação. A regra é simples: sem albumina no mesmo horário, o ânion-gap do paciente crítico não é interpretável.
Passo 5 — O delta: quando o gap alto esconde um segundo distúrbio metabólico
Se o gap corrigido está alto, falta uma pergunta: o bicarbonato caiu tanto quanto o gap subiu? Numa acidose de ânion-gap alto pura, cada unidade de ânion que entra consome aproximadamente uma unidade de bicarbonato — as duas variações deveriam ser parecidas. Quando não são, há um segundo processo metabólico agindo em cima.
A conta original é o delta-gap: quanto o gap subiu acima de 12, menos quanto o bicarbonato caiu abaixo de 24. Acima de +6 há alcalose metabólica associada; abaixo de −6 há acidose hiperclorêmica associada; entre os dois, só a acidose de gap alto. Existe a mesma comparação escrita como razão, o delta-ratio: a subida do gap dividida pela queda do bicarbonato, com as faixas abaixo de 0,4, de 0,4 a 0,8, de 0,8 a 2,0 e acima de 2,0.
Exemplo resolvido 1. Sódio 140, cloreto 100, bicarbonato 10, albumina normal. Gap: 30. Subida do gap: 18. Queda do bicarbonato: 14. Razão: 1,29 — entre 0,8 e 2,0. Delta-gap: 4, dentro da faixa neutra. Acidose de ânion-gap alto pura, distúrbio metabólico único.
Exemplo resolvido 2. Mesmo bicarbonato de 10 e mesmo sódio de 140, mas cloreto 112. Gap: 18. Subida do gap: 6. Queda do bicarbonato: 14. Razão: 0,43 — entre 0,4 e 0,8. Delta-gap: −8, abaixo de −6. Os dois números apontam para a mesma coisa: há acidose de ânion-gap alto E acidose hiperclorêmica juntas. É o padrão clássico do paciente séptico que recebeu vários litros de soro fisiológico: parte do bicarbonato foi consumida pelo lactato e parte foi deslocada pelo cloreto infundido. E a segunda metade se trata trocando o fluido.
Exemplo resolvido 3, que é o do senhor Wilson. Gap corrigido 34,5; bicarbonato 17. Subida do gap: 22,5. Queda do bicarbonato: 7. Razão: 3,2 — acima de 2,0. Delta-gap: +15,5, muito acima de +6. Ambos dizem: há acidose de ânion-gap alto com alcalose metabólica junto. O bicarbonato caiu bem menos do que o gap subiu porque alguma coisa estava repondo bicarbonato ao mesmo tempo. Três dias de vômito é essa alguma coisa. Sem esse passo, a cetoacidose dele seria classificada como leve por causa de um bicarbonato de 17 — quando na verdade a carga ácida corresponde a um bicarbonato bem mais baixo.
Nas bordas, as duas leituras podem discordar: uma razão de 1,9 fica na faixa de acidose pura, enquanto o delta-gap correspondente pode passar de +6. Quando isso acontece, quem decide é a história clínica, não o decimal. Três dias de vômito valem mais que a terceira casa.
Passo 6 — A causa de cada distúrbio encontrado
Só agora se procura causa, e se procura uma por distúrbio. Escreva o diagnóstico completo antes: por exemplo, acidose metabólica de ânion-gap alto com alcalose metabólica associada, ou acidose respiratória crônica agudizada com acidose metabólica de ânion-gap normal. Cada item dessa frase tem sua própria lista.
Na acidose de ânion-gap alto, a divisão que orienta o pedido de exame é entre produção ácida aumentada e excreção renal diminuída. Produção: cetoacidose diabética, alcoólica e de jejum; acidose lática por sepse, hipovolemia grave, isquemia mesentérica ou metformina; intoxicações por metanol, etilenoglicol, salicilato e paracetamol. Excreção: injúria renal aguda e doença renal crônica. As mnemônicas em circulação — mudpiles e a mais moderna goldmark — servem de lembrete de que a lista não acaba na cetoacidose e no lactato; a acidose piroglutâmica por paracetamol em uso crônico, por exemplo, é causa descrita em relatos brasileiros e não aparece em nenhuma lista curta.
Na acidose de ânion-gap normal, o exame que parte a lista ao meio é o ânion-gap urinário: sódio urinário mais potássio urinário, menos cloreto urinário. O raciocínio é o mesmo da eletroneutralidade, aplicado à urina: o rim excreta hidrogênio ligado à amônia, na forma de cloreto de amônio, e por isso muito cloreto na urina significa muito hidrogênio sendo excretado. Gap urinário negativo significa rim funcionando e perda de bicarbonato fora dele — diarreia, fístula entérica, biliar ou pancreática. Gap urinário positivo significa rim que não consegue excretar hidrogênio — acidose tubular renal tipos I, II e IV, inibidor da anidrase carbônica, nefropatia intersticial. E existe a terceira categoria, que nenhum gap urinário identifica porque não é doença: ganho de cloreto por soro fisiológico, nutrição parenteral, cloreto de amônio ou derivação ureteral. Aqui a resposta está no prontuário de balanço hídrico, não no laboratório.
Na alcalose metabólica, o que separa as causas em dois grupos com condutas diferentes são o cloreto e o potássio plasmáticos. Boa parte das alcaloses cursa com hipocloremia e hipocalemia — vômito, sonda gástrica, diurético de alça e tiazídico —, e nelas a reposição de cloreto e potássio resolve. Sem hipocloremia, a suspeita vira excesso de mineralocorticoide, síndrome de Bartter ou de Liddle, e a conduta é outra. A quarta causa é a que o próprio serviço produz: bicarbonato administrado, transfusão maciça pelo citrato, e alcalose pós-hipercapnia.
Na acidose respiratória, a lista é anatômica: depressão do centro respiratório por opioide, benzodiazepínico, anestésico, acidente vascular encefálico, trauma, tumor ou infecção; doença de parênquima como DPOC, pneumonia, SDRA e fibrose; e restrição mecânica ou neuromuscular — Guillain-Barré, miastenia, distrofia, lesão medular, cifoescoliose, paralisia do frênico. Some a essa lista uma causa iatrogênica frequente e reversível: oxigênio em excesso no retentor crônico, que suprime o estímulo ventilatório e inibe a vasoconstrição pulmonar hipóxica, elevando a PaCO2 a valores acima de 80 mmHg.
Na alcalose respiratória, a divisão é entre aguda e crônica. Aguda: dor, febre, ansiedade, hipoxemia, tromboembolismo pulmonar, sepse, ajuste excessivo do ventilador. Crônica: gravidez, doença hepática crônica, altitude, anemia grave, lesão do sistema nervoso central. A ordem de investigação é fixa e existe para proteger o paciente: descarte tromboembolismo, sepse e salicilato antes de escrever hiperventilação psicogênica.
O que pedir junto, o que não pedir, e o que existe no SUS
Peça no mesmo horário da gasometria: sódio, potássio, cloreto, albumina, creatinina, ureia e lactato. Sem cloreto e sem albumina, a sequência trava no passo 3. Na suspeita de cetoacidose, cetonemia capilar — a diretriz da SBD a recomenda em preferência à cetonúria por acurácia maior tanto para diagnosticar quanto para acompanhar, com corte de 3 mmol/L e faixa de risco aumentado entre 1,5 e 3 mmol/L. Na acidose de gap normal, ânion-gap urinário. Nas intoxicações, hiato osmolar.
O que não pedir. Não peça gasometria arterial isolada quando a pergunta é metabólica e a punção arterial está difícil: o pH e o bicarbonato venosos respondem, e é isso que a diretriz da SBD usa como critério diagnóstico de cetoacidose. Não repita gasometria de rotina a cada duas horas em paciente estável — cada punção arterial dói mais que uma venosa, tem risco de hematoma e de lesão da radial, e a decisão que ela mudaria precisa existir antes da coleta. E não use cetonúria para acompanhar resposta na cetoacidose: a fita mede acetona e acetoacetato e não mede o beta-hidroxibutirato, que é o cetoácido principal; com a insulina, parte do beta-hidroxibutirato se converte em acetoacetato e a fita piora enquanto o paciente melhora.
Disponibilidade importa porque exame que não se consegue não é conduta. Gasometria arterial, eletrólitos com cloreto, albumina, ureia, creatinina e lactato estão disponíveis em qualquer serviço de urgência com laboratório 24 horas, e o protocolo de sepse do ILAS põe a gasometria com lactato no pacote da primeira hora e conta a creatinina entre as coletas que os serviços costumam fazer junto. A cetonemia capilar por fita ainda não é universal na rede — quando não houver, a própria diretriz da SBD admite o ânion-gap acima de 12 como parâmetro para definir cetoacidose. Dosagem sérica de metanol, etilenoglicol e salicilato depende de centro de referência toxicológico, e o hiato osmolar é o substituto de beira de leito enquanto o resultado não vem.
Dois vieses pré-analíticos mudam a leitura do resultado, e não só a coleta. Leucocitose e plaquetose elevadas consomem oxigênio dentro da seringa e derrubam falsamente a PaO2, simulando hipoxemia em paciente séptico ou com leucemia. O que evita isso depende do material da seringa. Na de vidro, gelo e análise em até 1 hora: é o prazo de Évora e Garcia (2008), que não nomeiam o material, e é o que o vidro sustenta — no gelo, a PaO2 da amostra em vidro não teve variação clinicamente relevante em 60 minutos (Mahoney e cols., 1991). Na plástica, que é a de uso corrente, o gelo não serve: o plástico é parcialmente permeável a gases, a permeabilidade aumenta com o frio, e a PaO2 da amostra é puxada para a do ar ambiente, perto de 150 mmHg — sobe quando a verdadeira está abaixo disso e cai quando está acima. Para ela, a recomendação da IFCC citada por Baird (2013) é temperatura ambiente e análise em até 15 minutos quando a PaO2 ou a saturação importam, e em até 30 minutos nos demais casos. E, em paciente consciente, a dor da punção induz hiperventilação: uma alcalose respiratória isolada e inexplicada em quem acabou de ser puncionado pode ser do procedimento, não da doença. O passo a passo do cuidado com a amostra é do capítulo 'O que estraga o exame não é a punção', na apostila de Procedimentos e Vias de Acesso.
Os seis passos, as fórmulas e as causas
Aprenda a interpretar gasometria pela pergunta clínica, conferindo coerência, compensação e distúrbios mistos antes da prescrição.
- 11. Olhe o pH. Abaixo de 7,35 é acidemia; acima de 7,45 é alcalemia. pH normal com bicarbonato ou PaCO2 fora da faixa não encerra nada — siga a sequência inteira.
- 22. Ache o distúrbio primário: é aquele cujo parâmetro se moveu no mesmo sentido do pH. Bicarbonato baixo com pH baixo é acidose metabólica; PaCO2 alta com pH baixo é acidose respiratória, e assim por diante.
- 33. Calcule a resposta compensatória esperada pela fórmula do distúrbio primário. Valor medido fora da faixa prevista significa um segundo distúrbio primário — compensação nunca corrige demais nem de menos, e nunca normaliza o pH.
- 44. Calcule o ânion-gap: sódio menos a soma de cloreto e bicarbonato. Sempre, inclusive com pH normal e inclusive quando o primário é respiratório.
- 55. Corrija o gap pela albumina: some 2,5 para cada 1 g/dL abaixo de 4. Sem isso, o gap do hipoalbuminêmico mente para baixo justamente em quem tem mais chance de acumular ácido.
- 66. Se o gap corrigido estiver alto, faça o delta: compare quanto o gap subiu acima de 12 com quanto o bicarbonato caiu abaixo de 24. A diferença denuncia um terceiro distúrbio.
- 77. Escreva o diagnóstico completo, somando todos os distúrbios encontrados, antes de olhar qualquer lista de causas.
- 88. Só então procure uma causa para cada distúrbio — e trate a causa, não o número.
| Parâmetro | Faixa normal | O que a alteração muda na conduta |
|---|---|---|
| pH | 7,35 a 7,45 | Abaixo, acidemia; acima, alcalemia. Normal não exclui distúrbio: dois opostos podem se anular |
| PaCO2 | 35 a 45 mmHg | É o componente respiratório e é medido diretamente. Acima de 45, hipoventilação; abaixo de 35, hiperventilação |
| HCO3 | 22 a 26 mEq/L | É o componente metabólico, e é calculado a partir do pH e da PaCO2 — não medido. Não pode discordar dos outros dois do mesmo papel |
| Excesso de bases (BE) | −2 a +2 mEq/L (Évora e Garcia usam −3,5 a +3,5) | Separa agudo de crônico no distúrbio respiratório: só se move quando o rim entra, horas a dias depois |
| PaO2 | 80 a 100 mmHg (Évora e Garcia usam 70 a 90) | Responde oxigenação, não equilíbrio acidobásico. É o único parâmetro que a amostra venosa não substitui |
| Saturação de O2 | 95 a 99% | Sofre interferência de bolha de ar na seringa e de excesso de heparina |
| Ânion-gap = Na − (Cl + HCO3) | até 12 mEq/L (SBD: 4 a 12; Vittalle: 3 a 12; Évora: 12 ± 2) | Acima de 12, já corrigido pela albumina, há ânion não medido no plasma — a lista de causas se parte ao meio |
| Lactato arterial | até 2 mmol/L | Acima de duas vezes o valor de referência, dispara a ressuscitação e uma segunda dosagem após a intervenção inicial, em até 4 horas da abertura do protocolo (ILAS, revisão de 2026) |
| Albumina | 3,5 a 5,0 g/dL | Não é parâmetro acidobásico, é insumo do passo 5. Sem ela, o ânion-gap do paciente crítico não é interpretável |
Fórmulas de resposta compensatória esperada, e o que cada uma decide
| Distúrbio primário | Fórmula da resposta esperada | Se o valor medido ficar fora | Fonte |
|---|---|---|---|
| Acidose metabólica (fórmula de Winter) | PaCO2 esperada = (1,5 × HCO3) + 8, margem ± 2 mmHg | Abaixo do piso: alcalose respiratória primária associada. Acima do teto: acidose respiratória associada, e o alerta é fadiga da musculatura respiratória | Gomes e Pereira, Vittalle 2021; Andrade e cols., J Pediatr 2007 |
| Alcalose metabólica | PaCO2 esperada = (0,7 × HCO3) + 20, margem ± 1,5 mmHg | Abaixo do piso: alcalose respiratória associada. Acima do teto: acidose respiratória associada. Dentro da faixa, a hipoventilação é defesa e não se combate | Andrade e cols., J Pediatr 2007 |
| Acidose respiratória crônica | HCO3 esperado = 24 + [0,4 × (PaCO2 − 40)], margem ± 2 mEq/L | Abaixo do piso: acidose metabólica associada — no retentor crônico, pensar em injúria renal, sepse e lactato. Acima do teto: alcalose metabólica associada, em geral diurético | Gomes e Pereira, Vittalle 2021 |
| Acidose respiratória: agudo ou crônico | Variação do pH por mmHg de variação da PaCO2: 0,008 no agudo; 0,003 no crônico | Atalho de beira de leito: o excesso de bases não se altera nos distúrbios respiratórios agudos. BE positivo com hipercapnia significa que o rim já teve dias | Andrade e cols., J Pediatr 2007; Gomes e Pereira, Vittalle 2021 |
| Alcalose respiratória crônica | O HCO3 cai cerca de 5 mEq/L a cada 10 mmHg de queda da PaCO2 | Bicarbonato mais baixo que o previsto: acidose metabólica associada. Mais alto: alcalose metabólica associada | Gomes e Pereira, Vittalle 2021 |
| Correção do ânion-gap pela albumina | AG corrigido = AG + [2,5 × (4 − albumina em g/dL)] | Gap que parecia normal e passa de 12 depois da correção muda a lista de causas inteira | Gomes e Pereira, Vittalle 2021; Zampieri e cols., Rev Bras Ter Intensiva 2013 |
| Correção do sódio pela glicemia (na cetoacidose) | Na corrigido = Na aferido + 1,6 × [(glicemia − 100) / 100]; use fator 2,4 quando a glicemia passar de 400 mg/dL | Sódio corrigido ≥ 150 mEq/L muda o fluido para salina 0,45% a 250–500 mL/h | Diretriz SBD, Ed. 2025 (Nota 2 e R8) |
Delta-gap e delta-ratio: o que cada faixa revela quando o ânion-gap está alto
| Conta | Resultado | O que significa |
|---|---|---|
| Delta-gap = (AG corrigido − 12) − (24 − HCO3) | acima de +6 | Alcalose metabólica associada: o gap subiu mais do que o bicarbonato caiu, logo algo repunha bicarbonato — vômito, sonda gástrica, diurético |
| Delta-gap | entre −6 e +6 | Só a acidose de ânion-gap alto, sem segundo distúrbio metabólico |
| Delta-gap | abaixo de −6 | Acidose hiperclorêmica associada: o bicarbonato caiu mais do que o gap subiu, logo parte da queda foi por cloreto |
| Delta-ratio = (AG corrigido − 12) ÷ (24 − HCO3) | abaixo de 0,4 | Acidose de ânion-gap normal pura (hiperclorêmica) |
| Delta-ratio | 0,4 a 0,8 | Acidose de ânion-gap alto e hiperclorêmica juntas — padrão do séptico que recebeu vários litros de salina |
| Delta-ratio | 0,8 a 2,0 | Acidose de ânion-gap alto pura |
| Delta-ratio | acima de 2,0 | Acidose de ânion-gap alto com alcalose metabólica associada |
Acidose metabólica com ânion-gap alto: causas por mecanismo
| Mecanismo | Causas | O que confirma à beira do leito |
|---|---|---|
| Produção aumentada de cetoácidos | Cetoacidose diabética, alcoólica e de jejum | Cetonemia capilar ≥ 3 mmol/L (SBD). Glicemia acima de 200 mg/dL na diabética; normal ou baixa na alcoólica e na de jejum; e há cetoacidose euglicêmica em usuários de inibidor de SGLT2, gestantes e doença renal terminal |
| Produção aumentada de lactato | Sepse, hipovolemia grave, isquemia mesentérica, metformina | Lactato arterial na primeira hora; acima de duas vezes a referência, dispara o protocolo de sepse e a segunda dosagem dentro de 4 horas da abertura |
| Intoxicação exógena | Metanol, etilenoglicol, salicilato, paracetamol em uso crônico (acidose piroglutâmica) | Hiato osmolar aumentado nos álcoois; história e horário da ingestão; alcalose respiratória somada no salicilato |
| Excreção renal ácida diminuída | Injúria renal aguda, doença renal crônica | Creatinina e ureia. O gap costuma ser modesto — gap muito alto em paciente renal pede outra causa somada |
Acidose metabólica com ânion-gap normal (hiperclorêmica): causas por mecanismo
| Mecanismo | Causas | O que confirma |
|---|---|---|
| Perda digestiva de bicarbonato | Diarreia; fístula entérica, biliar ou pancreática; alça jejunal ou ileal; drenagem externa de pâncreas ou delgado | Ânion-gap urinário negativo: o rim está excretando amônio normalmente, a perda é fora dele |
| Perda renal de bicarbonato | Acidose tubular renal tipos I, II e IV; inibidor da anidrase carbônica; nefropatia intersticial; fase inicial da doença renal crônica | Ânion-gap urinário positivo: o rim não consegue excretar hidrogênio |
| Ganho de cloreto | Salina 0,9% em grande volume, nutrição parenteral total, cloreto de amônio, hidrocloreto de lisina ou arginina, derivação ureteral | O balanço hídrico do prontuário, não o laboratório. Cloreto plasmático alto depois de ressuscitação volumosa |
| Ausência de regeneração de bicarbonato | Fase de resolução da cetoacidose diabética | Gap que era alto e virou normal, com bicarbonato ainda baixo. Não é piora: é o cetoânion excretado na urina antes de virar bicarbonato de volta |
| Fármacos e outros | Diurético poupador de potássio, hiperparatireoidismo primário | Revisão da prescrição e cálcio com paratormônio |
Alcalose metabólica: causas por mecanismo, e o que separa as condutas
| Mecanismo | Causas | Achado que orienta o tratamento |
|---|---|---|
| Perda gastrintestinal de ácido | Vômitos repetidos, aspiração por sonda gástrica, adenoma viloso de cólon, cloridorreia congênita | Hipocloremia e hipocalemia. Reposição de cloreto e potássio resolve a maioria |
| Perda renal | Diurético de alça e tiazídico, excesso de mineralocorticoide, síndrome de Bartter, síndrome de Liddle, hipercalcemia | Sem hipocloremia, suspeite de excesso mineralocorticoide — a conduta deixa de ser reposição |
| Ganho de base | Bicarbonato de sódio administrado, síndrome do leite alcalino, transfusão maciça pelo citrato, doses altas de derivados da penicilina | Revisão da prescrição e do volume transfundido. Acetazolamida é útil nas alcaloses de adição |
| Pós-hipercapnia | Correção rápida de hipercapnia crônica, deixando o bicarbonato retido sem o gás carbônico que o justificava | História de ventilação recém-ajustada no retentor crônico. A prevenção é não normalizar a PaCO2 dele |
Distúrbios respiratórios: causas de acidose e de alcalose
| Distúrbio | Grupo de causas | Exemplos |
|---|---|---|
| Acidose respiratória | Depressão do centro respiratório | Opioide, benzodiazepínico, anestésico, acidente vascular encefálico, trauma, tumor, infecção do sistema nervoso central |
| Acidose respiratória | Doença de parênquima pulmonar | DPOC, pneumonia, SDRA, fibrose |
| Acidose respiratória | Restrição mecânica e neuromuscular | Guillain-Barré, miastenia, distrofias musculares, lesão medular, cifoescoliose, paralisia do nervo frênico |
| Acidose respiratória | Iatrogênica e reversível | Oxigênio em excesso no retentor crônico, que suprime o estímulo ventilatório e pode levar a PaCO2 acima de 80 mmHg; apneia obstrutiva do sono não tratada |
| Alcalose respiratória aguda | Estímulo do centro respiratório | Dor, febre, ansiedade, hipoxemia, tromboembolismo pulmonar, sepse, edema pulmonar, intoxicação por salicilato, ventilador ajustado em excesso |
| Alcalose respiratória crônica | Estados de hiperventilação sustentada | Gravidez, doença hepática crônica, altitude, anemia grave, lesões e infecções do sistema nervoso central, hipertireoidismo |
Bicarbonato, excesso de bases, gás carbônico total e saturação são calculados a partir do pH, da PaO2 e da PaCO2 — as três medidas diretas. Quando o bicarbonato da gasometria diverge do bicarbonato do eletrólito venoso, o que diverge são dois métodos, não dois fatos.
O corte de mais ou menos 6 do delta-gap é de Wrenn (Ann Emerg Med, 1990). A versão em razão compara os mesmos dois números; nas bordas as duas leituras podem apontar coisas diferentes — uma razão de 1,9 fica na faixa de acidose pura enquanto o delta-gap correspondente já passa de +6. Quando isso acontece, quem decide é a história clínica, não a terceira casa decimal.
As faixas de normalidade do ânion-gap variam entre as fontes brasileiras: 4 a 12 na diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, 3 a 12 na revisão da Vittalle e 12 mais ou menos 2 em Évora e Garcia. Na conta do delta, use 12 como topo — é o número que as fórmulas assumem.
Conferência de volume que não fecha na fonte da prescrição de sepse. O ILAS, na revisão que em julho de 2026 tomou o lugar da de agosto de 2018, fala em até 30 mL/kg de cristaloide, com começo na primeira hora e término em 3 horas, mas pede no mesmo trecho que se anote a reposição não completada — anotação que exige um total contra o qual comparar —, e a diretriz internacional de 2026 que ele adota como alicerce recomenda não menos que 30 mL/kg nesse intervalo. Pela coerência do próprio texto, esta apostila adota 30 mL/kg como volume de referência, iniciado na primeira hora e terminado em até 3 horas, com volume menor decidido por fluido-tolerância ou falta de resposta e com o motivo escrito no prontuário. Em 70 kg, 30 × 70 dá os 2.100 mL prescritos; a discussão inteira está no capítulo Sepse: reconhecer e tratar na primeira hora, na apostila de Medicina Intensiva e Emergências.
A conduta, hora a hora
A linha do tempo deste capítulo não é a da doença: é a da decisão. Cada marco abaixo é um momento em que o resultado da gasometria muda uma linha da prescrição de hoje — e a maioria deles muda a prescrição para menos intervenção, não mais. O princípio que organiza tudo, na formulação de Évora e Garcia, é que o tratamento causal sozinho basta em grande parte dos distúrbios acidobásicos, que não se corrige nada rápido demais, e que volume e perfusão se normalizam antes de qualquer correção de pH.
Todas as doses abaixo vêm com a fonte que as sustenta. Onde as fontes brasileiras divergem — e no bicarbonato elas divergem —, a divergência está no bloco próprio, com as duas posições e o critério de escolha.
Antes de olhar o papel — a amostra e o pedido
A metade dos erros de gasometria acontece antes da interpretação. Bolha de ar na seringa e excesso de heparina alteram o pH e o cálculo da saturação; amostra que espera tem a PaO2 falsamente baixa por consumo dos leucócitos e plaquetas, e o gelo, que resolve isso na seringa de vidro, falseia a PaO2 na seringa plástica; e a dor da punção em paciente acordado produz hiperventilação que aparece no exame como alcalose respiratória do procedimento. E o pedido incompleto é o que mais custa: gasometria sem cloreto e sem albumina no mesmo horário permite chegar até o passo 3 e para ali.
Prescrição- Gasometria arterial em seringa heparinizada, com a bolha expulsa antes de tampar (Gomes e Pereira, Vittalle 2021), encaminhada de imediato ao laboratório. Seringa plástica: temperatura ambiente, sem gelo, análise em até 15 minutos quando a PaO2 ou a saturação importam e em até 30 minutos nos demais casos (Baird, 2013). Seringa de vidro, se houver demora: gelo e análise em até 1 hora (Évora e Garcia, 2008; Mahoney e cols., 1991)
- No MESMO pedido: sódio, potássio, cloreto, albumina, creatinina, ureia e lactato arterial. Na suspeita de cetoacidose, acrescentar cetonemia capilar
- Se a punção arterial falhar duas vezes e a pergunta for metabólica, colher gasometria VENOSA: pH e bicarbonato venosos respondem, e é o critério que a Diretriz da SBD usa para diagnosticar cetoacidose (pH venoso < 7,3). O que a amostra venosa não responde é oxigenação
Minuto 0 — acidemia com sinais de hipoperfusão
Antes de qualquer conta, o paciente com hipotensão, oligúria, enchimento capilar lentificado ou rebaixamento é um problema de perfusão. A acidose dele é consequência, e o número não se trata: trata-se a causa que o produziu. O que a gasometria acrescenta aqui é o lactato e a decisão de disparar o protocolo.
Prescrição- Na hipoperfusão por sepse, cristaloide em alíquotas com reavaliação; 30 mL/kg nas primeiras três horas é referência individualizada, não volume obrigatório para qualquer acidose ou mecanismo de choque. Em 70 kg, corresponde a 2.100 mL. Rever perfusão, congestão e resposta dinâmica; iniciar vasopressor cedo quando a hipotensão ameaçar a vida, sem aguardar todo o volume.
- Lactato arterial coletado o quanto antes, idealmente na primeira hora, junto com hemoculturas — ao menos 20 mL de sangue, de preferência de sítios distintos — e antimicrobiano na primeira hora, quando a hipótese é sepse (ILAS, revisão de 2026)
- Bicarbonato não é tratamento rotineiro da acidose por hipoperfusão; corrigir a causa e avaliar ventilação e rim. Não proibir apenas porque o ânion-gap está alto: acidemia grave associada a lesão renal importante pode justificar uso selecionado sob supervisão e protocolo.
Minuto 10 — cetoacidose diabética confirmada
No adulto, o consenso internacional de 2024 define CAD por diabetes prévio ou glicose ≥200 mg/dL, cetose (preferencialmente beta-hidroxibutirato ≥3 mmol/L) e acidose com pH <7,3 e/ou HCO3 <18 mEq/L. Pode haver CAD euglicêmica, particularmente com SGLT2. Organizar volume, eletrólitos, insulina e tratamento do precipitante em paralelo, respeitando o K antes da insulina.
Prescrição- Soro fisiológico 0,9% 15 a 20 mL/kg na primeira hora — 1.170 a 1.560 mL em 78 kg —, com déficit total de água estimado em cerca de 100 mL/kg (Diretriz SBD, Ed. 2025, R5 e R6). Solução balanceada é alternativa considerada, com resolução mais rápida da cetoacidose e menor risco de acidose hiperclorêmica (R7, classe IIa, nível A)
- Se o sódio corrigido pela glicemia for igual ou maior que 150 mEq/L, considerar salina 0,45% a 250 a 500 mL/h (SBD, R8)
- Dosar K antes da insulina. Se K <3,5 mmol/L, repor e adiar insulina até K >3,5, com monitorização; este é o limiar do consenso de 2024, diferente de protocolos anteriores com 3,3. Quando K estiver abaixo de 5 e houver função renal/diurese adequadas, reposição usual de 20–30 mmol por litro de fluido pode ser indicada, titulando para K 4–5. Isso é concentração, não mEq/L por hora: calcular separadamente mmol/h pela velocidade e respeitar acesso/protocolo. Controlar K após início e periodicamente, mais cedo se baixo ou em queda.
- Insulina regular em infusão contínua 0,1 U/kg por hora — 7,8 U/h em 78 kg —, sem bolus intravenoso inicial (SBD, R11 e R12)
- Quando a glicemia chegar a 200 a 250 mg/dL: associar soro glicosado 5% e reduzir a insulina para 0,02 a 0,05 U/kg por hora, titulando as duas infusões para manter a glicemia nessa faixa sem desligar a insulina (SBD, Nota 9)
- Não repor fosfato rotineiramente. Considerar quando houver hipofosfatemia relevante com comprometimento respiratório/cardíaco ou outra indicação clínica. Prescrever fósforo em mmol, especificando sal, K ou Na associados e velocidade; não copiar mEq por litro como se fosse unidade universal de fósforo. Monitorar cálcio e função renal.
Minuto 15 — alguém à beira do leito pede bicarbonato
Bicarbonato não é rotina na CAD; com pH 7,12, tratar volume, insulina, K e precipitante. O consenso de 2024 admite considerar bicarbonato em acidemia grave com pH <7,0, sob vigilância, enquanto protocolos anteriores usavam <6,9. Fora da CAD, indicação depende de causa, gravidade, rim, ventilação e sobrecarga: não se decide apenas por gap alto versus normal ou perdido versus consumido. Acidose metabólica grave com lesão renal importante pode constituir situação selecionada de uso.
Prescrição- Na CAD com pH <7,0, considerar bicarbonato conforme protocolo e supervisão, sem uso automático por gravidade numérica isolada. Conferir preparo, K, cálcio, Na, volume e capacidade de eliminar CO2; parar segundo reavaliação, sem buscar HCO3 24 rapidamente.
- Fora da CAD, não há corte único de pH que determine bicarbonato para todos. Avaliar causa, gravidade, lesão renal, ventilação e carga de sódio. Um limiar e uma meta apresentados em revisão de 2009 devem ser reconhecidos como contexto histórico, não como ordem universal atual.
- A estimativa de déficit — diferença entre bicarbonato desejado e atual × fator de distribuição × peso — é aproximação e não uma ordem automática de infusão. Por exemplo, (10−7) × 0,5 × 70 = 105 mEq, mas isso não autoriza administrar 105 mEq em 30–60 minutos. Definir indicação, fração inicial, diluição e velocidade pelo protocolo, com reavaliação de pH, Na, K, cálcio, volume e ventilação; não buscar normalização rápida.
- Como diluir: bicarbonato de sódio 8,4% contém 1 mEq por mL. Uma parte de 8,4% para cinco partes de água destilada ou soro glicosado 5% resulta em solução a 1,4%, próxima da isotonicidade — o 8,4% puro é fortemente hipertônico
- Vigiar potássio durante a infusão: o bicarbonato empurra potássio para dentro da célula e pode precipitar hipocalemia (SBD, Nota 14)
Hora 1 — acidose respiratória: quando ventilar e quando tolerar
Na acidose respiratória, avaliar ventilação, trabalho respiratório, consciência e causa. Bicarbonato não corrige hipoventilação e gera CO2. Oxigênio em excesso pode elevar PaCO2 em pacientes suscetíveis por piora da relação ventilação/perfusão e efeito Haldane, além de alterações ventilatórias; não reduzir o mecanismo a desligar o estímulo hipóxico.
Prescrição- Na exacerbação de DPOC, ventilação não invasiva com dois níveis de pressão: reduz necessidade de intubação (risco relativo 0,41; IC 95% 0,33 a 0,53) e mortalidade (risco relativo 0,52; IC 95% 0,35 a 0,76) — Diretrizes Brasileiras de Ventilação Mecânica, AMIB e SBPT, 2013
- Rebaixamento pede avaliação imediata de proteção da via aérea. Em encefalopatia hipercápnica, teste de VNI pode ser possível em ambiente experiente, com vigilância muito próxima e capacidade de intubar se falhar. Não esperar obrigatoriamente 1–2 horas diante de piora, vômitos ou incapacidade de proteger via aérea.
- No edema agudo de pulmão cardiogênico: BiPAP com EPAP de 5 a 10 e IPAP até 15 cmH2O, ou CPAP de 5 a 10 cmH2O (AMIB/SBPT 2013)
- Na DPOC com risco de insuficiência hipercápnica, titular inicialmente para SpO2 de 88–92%, com gasometria e reavaliação clínica. Essa meta em doença aguda não decorre apenas do limiar de indicação de oxigênio domiciliar e não permite negar oxigênio em hipoxemia grave. Ajustar suporte se a meta não puder ser mantida com segurança.
- Quando a hipercapnia é o preço de uma ventilação protetora, ela se tolera dentro de limites: PaCO2 abaixo de 80 mmHg com pH acima de 7,20 na asma, e pH acima de 7,15 na SDRA (AMIB/SBPT 2013)
Hora 2 — o ânion-gap é normal e o cloreto subiu
É a acidose que o próprio serviço produziu, e a que mais se trata errado. Depois de litros de soro fisiológico, o cloreto plasmático sobe, a diferença de íons fortes cai e o pH desce sem que nenhuma doença tenha piorado. O erro clássico é ler a piora da gasometria como piora do choque e infundir mais salina — o que aprofunda exatamente o que a causou.
Prescrição- Cloreto elevado e acidose com gap normal após muita salina sugerem componente iatrogênico, mas não excluem perdas digestivas, distúrbio renal ou hipoperfusão concomitante. Rever necessidade e tipo de fluido, balanço, perfusão e causas associadas; não presumir que toda piora seja apenas da solução administrada.
- Na cetoacidose, a diretriz da SBD considera solução balanceada por resolução mais rápida e menor risco de acidose hiperclorêmica (R7, classe IIa, nível A)
- Na acidose hiperclorêmica, rever necessidade de mais fluido, cloreto e perdas. Bicarbonato depende de gravidade e contexto, sem proibição absoluta na acidose por cloreto. Ânion-gap urinário é aproximação da excreção de amônio com limitações importantes em baixa oferta distal de Na, cetonúria e outros ânions; sinal positivo não prova incapacidade renal sozinho.
Hora 4 — alcalose metabólica, o distúrbio subtratado da enfermaria
A alcalose metabólica não tem sinal próprio, o paciente não se queixa dela e ela quase nunca entra na evolução. Merece atenção porque o organismo tem defesas pobres contra ela — hipoventilar para compensar é ineficiente — e porque ela associa arritmia supraventricular refratária a antiarrítmico convencional e aumento de mortalidade no paciente grave.
Prescrição- Dosar cloreto e potássio plasmáticos: boa parte das alcaloses metabólicas cursa com hipocloremia e hipocalemia, e repor os dois resolve a maioria (Évora e Garcia, 2008)
- Cloreto de potássio é a reposição de escolha, associado a soro fisiológico quando há hipovolemia; acetazolamida é útil nas alcaloses de adição, por inibir a anidrase carbônica e aumentar a excreção urinária de bicarbonato (Évora e Garcia, 2008)
- Suspender ou reduzir o que a mantém: diurético de alça e tiazídico, aspiração gástrica contínua, e bicarbonato prescrito dias antes e nunca revisto
- Não corrigir rápido, e não usar cloreto de amônio — é neurotóxico, e a experiência com ácido clorídrico endovenoso é pequena (Évora e Garcia, 2008)
Dia 1 e adiante — a acidose crônica do paciente renal
No internado com doença renal crônica, um bicarbonato baixo e estável não é evento agudo e não pede correção endovenosa. É acidose metabólica crônica por retenção de ácidos fixos e por perda de capacidade de regenerar bicarbonato, e a decisão que ela muda é de prescrição oral e de acompanhamento, não de plantão.
Prescrição- Na DRC, confirmar acidose e avaliar terapia oral se houver repercussão/acidose significativa; KDIGO 2024 cita HCO3 <18 como exemplo de limiar clínico preocupante. Não há obrigação universal de tratar todo valor <22 até ultrapassá-lo. Monitorar pressão, K e volume, evitando superar a faixa normal.
- A evidência recente reduziu a confiança nessa conduta: o ensaio BiCARB não mostrou efeito sobre a filtração glomerular estimada em 24 meses, e doses acima de 2 g por dia associam-se a aumento de cerca de 5 mmHg na pressão sistólica em 6 meses (Sobral e cols., Braz J Nephrol 2025)
- Excluir da reposição oral: oligúria, risco de sobrecarga volêmica e hipertensão de difícil controle — o bicarbonato de sódio é, antes de tudo, sódio
Como saber se está funcionando
Este é o bloco que separa quem prescreve de quem conduz. Toda conduta acima tem um horário para ser conferida e um número que define sucesso — e, mais importante, uma decisão pronta para quando o número não vem. Nenhum dos parâmetros abaixo se acompanha por hábito: cada um tem uma janela, porque conferir antes do tempo gera intervenção desnecessária e conferir depois gera dano.
A regra geral do bloco, na formulação de Évora e Garcia, é que o tratamento se fundamenta em dosagens seriadas, que não se corrige nada rápido demais e que pH, cálcio e potássio não se corrigem isoladamente — eles se movem juntos.
Esperado: pH subindo em direção a 7,20 e bicarbonato sérico entre 8 e 10 mEq/L — não normalização (Rocha, J Bras Nefrol 2009)
Se não melhora: Não repita a dose por reflexo. Bicarbonato que não sobe o pH quase sempre significa que a causa segue produzindo ácido: revise perfusão, foco infeccioso, isquemia mesentérica e intoxicação. Cada dose adicional acrescenta sódio, hiperosmolaridade, gás carbônico e risco de hipocalcemia iônica e hipocalemia. E confira se o paciente ventila: o bicarbonato é doador de gás carbônico, e em quem não consegue eliminá-lo ele produz acidose intracelular paradoxal.
Esperado: Bicarbonato subindo cerca de 3 mEq/L por hora e cetonemia caindo cerca de 0,5 mmol/L por hora (Diretriz SBD, Nota 10)
Se não melhora: Antes de culpar a doença, confira o equipo: a insulina adsorve no plástico, e a diretriz orienta desprezar 10% do volume inicial e trocar o conjunto a cada 6 horas. Confirmado o acesso, procure o fator precipitante que não foi tratado — infecção é o mais comum, seguido de infarto, trombose e a própria omissão de insulina que ninguém perguntou.
Esperado: Queda de 50 a 70 mg/dL por hora (Diretriz SBD, Nota 8)
Se não melhora: Se não caiu 50 a 70 mg/dL na primeira hora, cheque o acesso venoso e o equipo; depois disso, dobre a taxa de infusão de insulina a cada hora até obter a queda constante. E não confunda: só a reposição de volume derruba a glicemia em 35 a 70 mg/dL por hora. Glicemia caindo não é sinônimo de cetoacidose resolvendo — quem responde por isso é o bicarbonato e a cetonemia.
Esperado: Entre 4 e 5 mEq/L (Diretriz SBD, R10)
Se não melhora: Dosar K antes da insulina. Se K <3,5 mmol/L, repor e adiar insulina até K >3,5, com monitorização; este é o limiar do consenso de 2024, diferente de protocolos anteriores com 3,3. Quando K estiver abaixo de 5 e houver função renal/diurese adequadas, reposição usual de 20–30 mmol por litro de fluido pode ser indicada, titulando para K 4–5. Isso é concentração, não mEq/L por hora: calcular separadamente mmol/h pela velocidade e respeitar acesso/protocolo. Controlar K após início e periodicamente, mais cedo se baixo ou em queda.
Esperado: Fechando em paralelo com a melhora clínica; e, quando fecha, o bicarbonato ainda pode estar baixo por acidose hiperclorêmica da fase de resolução — o que não é piora
Se não melhora: Gap que não fecha apesar do tratamento correto da causa presumida significa que a causa presumida está errada ou que existe uma segunda. Refaça o passo 6 inteiro: intoxicação por álcoois, isquemia mesentérica, cetoacidose alcoólica e acidose piroglutâmica por paracetamol crônico são as que mais passam batido. Se surgiu um gap novo em quem estava fechando, procure evento agudo — não ajuste a insulina.
Esperado: Caindo, junto com melhora de pressão arterial média, diurese e perfusão periférica
Se não melhora: Lactato que não cai depois de ressuscitação adequada aponta foco não controlado ou choque não resolvido — e não indicação automática de mais volume. Reavalie responsividade a fluido antes de repetir a expansão, procure foco a drenar e revise a cobertura antimicrobiana. E lembre que existem outras causas para lactato alto além de hipoperfusão, de modo que a meta não é normalizar o número: é reverter o choque.
Esperado: Frequência respiratória caindo, volume corrente aumentando, PaCO2 caindo, PaO2 e saturação subindo, nível de consciência melhorando e uso de musculatura acessória cessando, sem distensão abdominal significativa (AMIB/SBPT 2013)
Se não melhora: Intubação imediata. A diretriz é explícita: quem deteriora ou não melhora deve ser intubado, pelo risco de perda de proteção de via aérea e parada respiratória. Espera-se sucesso em cerca de 75% dos hipercápnicos e cerca de 50% dos hipoxêmicos — conceder mais uma hora ao paciente que não respondeu na janela é a decisão que mata.
Esperado: Não é parâmetro de resposta e não deve constar da evolução como se fosse
Se não melhora: A fita mede acetona e acetoacetato, e não mede beta-hidroxibutirato, que é produzido em proporção de 20 para 1 e é o cetoácido principal na cetoacidose. Com a insulina, parte do beta-hidroxibutirato se converte em acetoacetato, e a cetonúria PIORA por horas ou dias enquanto o paciente melhora (Diretriz SBD, Nota 5). Acompanhe por cetonemia capilar, bicarbonato e ânion-gap.
Esperado: Cloreto estável dentro da faixa, com ânion-gap corrigido acompanhando a melhora clínica
Se não melhora: Cloreto subindo com bicarbonato caindo e gap normal é acidose hiperclorêmica de fluido, não piora da doença. A conduta é trocar o cristaloide, não aumentar o volume nem prescrever bicarbonato. Não fazer essa leitura é o caminho mais curto para tratar iatrogenia com mais iatrogenia.
Onde o erro machuca
O dano: É o erro que Évora e Garcia nomeiam explicitamente como frequente, e o dano é somatório: sobrecarga de sódio e hiperosmolaridade pela solução a 8,4%, que é fortemente hipertônica; hipercapnia com acidose intracelular paradoxal, porque o gás carbônico atravessa a membrana celular com muito mais facilidade que o bicarbonato; hipocalcemia iônica, porque a subida do pH reduz o cálcio disponível; aumento da afinidade da hemoglobina pelo oxigênio, que piora a entrega ao tecido justamente em quem está hipoperfundido; estímulo da glicólise com mais produção de lactato; e sobrecarga de volume.
Como pegar a tempo: Antes de qualquer dose, responda por escrito a uma pergunta: o bicarbonato deste paciente foi perdido ou foi consumido? Se o ânion-gap corrigido está alto, foi consumido, e o ânion orgânico volta a virar bicarbonato quando a causa resolve. O pH sozinho não distingue as duas situações, e é por isso que ele não pode ser o gatilho.
O dano: O paciente melhora no papel e piora na maca. A acidose lática do choque, a cetoacidose e a acidose da parada cardiorrespiratória são acidoses de consumo: o bicarbonato exógeno mascara o parâmetro que estava avisando que a perfusão não voltou, e o alívio numérico atrasa a decisão que resolveria — volume, antibiótico, drenagem de foco, insulina. Na cetoacidose, o bicarbonato ainda associa atraso na queda dos corpos cetônicos e do lactato.
Como pegar a tempo: Bicarbonato não é rotina na CAD; com pH 7,12, tratar volume, insulina, K e precipitante. O consenso de 2024 admite considerar bicarbonato em acidemia grave com pH <7,0, sob vigilância, enquanto protocolos anteriores usavam <6,9. Fora da CAD, indicação depende de causa, gravidade, rim, ventilação e sobrecarga: não se decide apenas por gap alto versus normal ou perdido versus consumido. Acidose metabólica grave com lesão renal importante pode constituir situação selecionada de uso.
O dano: É como se perdem os distúrbios mistos, e eles são a maioria no paciente internado há alguns dias. pH normal com bicarbonato e PaCO2 muito alterados é distúrbio misto até prova em contrário; e um ânion-gap alto pode existir com pH perfeitamente normal quando uma alcalose metabólica está segurando o bicarbonato para cima. O caso do senhor Wilson é exatamente isso: pH de 7,33 com carga ácida correspondente a um bicarbonato muito mais baixo.
Como pegar a tempo: O passo 4 não tem exceção. Calcule o gap em toda gasometria em que exista cloreto no mesmo horário, inclusive com pH normal e inclusive quando o distúrbio primário é respiratório — um gap alto em paciente com alcalose respiratória isolada é como salicilato e sepse precoce se apresentam.
O dano: O gap volta falsamente normal justamente nos pacientes de maior risco: cirrótico, séptico prolongado, desnutrido, internado de longa data. O resultado é uma acidose de gap alto classificada como hiperclorêmica, com a lista de causas errada — o interno vai procurar diarreia e revisar fluido enquanto o paciente acumula lactato. Na casuística brasileira de graves, ânions fortes não mensurados apareceram em 98% dos pacientes.
Como pegar a tempo: Some 2,5 ao gap para cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4. Peça albumina no mesmo horário da gasometria — é barata, está em qualquer rotina e sem ela o gap do paciente crítico não é interpretável. Um gap de 12 com albumina de 2,0 é, na verdade, um gap de 17.
O dano: O paciente sai com metade do problema tratado. Évora e Garcia trazem o caso exemplar: pH 7,45 com PaCO2 61 e excesso de bases de +19 costuma ser lido como acidose respiratória compensada por alcalose metabólica, o que leva à conduta inadequada — em quem não é portador de doença pulmonar obstrutiva, os dois distúrbios existem e os dois precisam de tratamento. O inverso também custa caro: uma PaCO2 acima do previsto por Winter numa acidose metabólica não é compensação insuficiente, é fadiga da musculatura respiratória, e o paciente está prestes a parar.
Como pegar a tempo: Compensação é calculável e tem faixa. Rode a fórmula do passo 3 em todo exame, e trate como segundo distúrbio primário qualquer valor fora da faixa prevista. Compensação nunca normaliza o pH e nunca o leva para o outro lado — quando isso acontece, houve dois processos.
O dano: A PaO2 venosa é radicalmente diferente da arterial, e tomá-la por arterial produz duas decisões erradas em sentidos opostos: diagnosticar hipoxemia que não existe e escalonar oxigênio sem motivo, ou usar uma saturação venosa alta para tranquilizar-se sobre um paciente que está hipoxêmico. O erro pior é o oposto: recusar-se a colher a venosa quando a punção arterial falha e a pergunta é metabólica, atrasando o diagnóstico por falta de um número que a amostra venosa entregaria.
Como pegar a tempo: Deixe explícito no pedido e na evolução se a amostra é arterial ou venosa. A venosa responde pH, bicarbonato e potássio — a Diretriz da SBD usa pH venoso abaixo de 7,3 como critério de cetoacidose. A venosa não responde oxigenação, e é só isso que ela não responde.
O dano: Na CAD há déficit corporal de K mesmo quando o valor sérico é normal/alto; insulinopenia, hiperosmolalidade, acidose e perdas influenciam esse valor. Insulina pode precipitar queda perigosa. Corrigir K <3,5 antes de iniciar e acompanhar continuamente o risco; não descrever todos os mecanismos apenas como expulsão causada pelo pH.
Como pegar a tempo: Dosar K antes da insulina. Se K <3,5 mmol/L, repor e adiar insulina até K >3,5, com monitorização; este é o limiar do consenso de 2024, diferente de protocolos anteriores com 3,3. Quando K estiver abaixo de 5 e houver função renal/diurese adequadas, reposição usual de 20–30 mmol por litro de fluido pode ser indicada, titulando para K 4–5. Isso é concentração, não mEq/L por hora: calcular separadamente mmol/h pela velocidade e respeitar acesso/protocolo. Controlar K após início e periodicamente, mais cedo se baixo ou em queda.
O dano: É a espiral iatrogênica mais comum da terapia intensiva. O cloreto infundido desloca bicarbonato, o pH cai, a gasometria de controle é lida como piora do choque e a resposta é mais volume — que é mais cloreto. Na casuística brasileira de graves, hipercloremia esteve presente em 80% dos pacientes, mais frequente que lactato elevado. E ela é invisível para quem só olha o ânion-gap, porque não o altera.
Como pegar a tempo: Sempre que a gasometria piorar em quem está recebendo volume, calcule o gap e olhe o cloreto antes de decidir. Gap normal com cloreto subindo é acidose hiperclorêmica de fluido: a conduta é trocar o cristaloide, não expandir mais. Na cetoacidose, a diretriz da SBD já considera solução balanceada por menor risco de acidose hiperclorêmica.
O que dizer ao paciente e à família
A gasometria tem uma peculiaridade entre os exames de beira de leito: ela dói. A punção arterial é mais dolorosa que a venosa, costuma ser repetida, e é frequentemente feita em paciente sonolento que não entende por que estão furando o punho dele de novo. As falas abaixo são para dizer, não para adaptar.
Antes da punção, com o paciente acordado e a mão já posicionada
“Seu Wilson, vou pegar uma amostra de sangue de uma artéria do punho, não de uma veia. É mais fundo e dói mais que a picada comum, dura poucos segundos e depois a gente aperta o local por cinco minutos. Preciso desse sangue porque ele é o único que mostra se o senhor está conseguindo respirar direito e se o sangue está ácido. Se doer muito, me avisa que eu paro.”
Não diga: Vai ser rapidinho, nem vai sentir. Além de falso, isso destrói a confiança na próxima punção — e quase sempre haverá uma próxima. E dor com medo faz o paciente hiperventilar, o que altera o próprio exame que você está colhendo.
Quando ele pergunta o que o exame mostrou
“O sangue do senhor está ácido, e isso acontece porque o corpo, sem insulina suficiente, começou a queimar gordura e produzir um tipo de ácido. Não é uma infecção nem um problema no coração. O tratamento é soro na veia, insulina na veia e repor sal, e a acidez costuma corrigir sozinha à medida que isso funciona. Vou repetir o exame em algumas horas para ver se está indo no ritmo certo.”
Não diga: Seu pH está em 7,33 com ânion-gap corrigido de 34. O número não informa e assusta. E não prometa prazo fechado: diga que vai reavaliar em algumas horas, não que estará resolvido pela manhã.
Quando você vai ter que colher de novo, pela terceira vez
“Eu sei que já furamos três vezes, e sinto muito. Cada exame desse mostra se o tratamento está fazendo efeito no ritmo esperado, e é ele que me diz se posso reduzir a insulina ou se preciso mudar alguma coisa. Se der certo, essa é a última das próximas horas. Vou usar o outro punho.”
Não diga: É protocolo. Justificar uma dor com a palavra protocolo é a forma mais rápida de perder colaboração — e, se você não consegue nomear a decisão que aquele exame vai mudar, o exame provavelmente não precisava ser colhido.
Quando a família pergunta se sangue ácido é grave
“É um sinal de que o corpo está sob esforço, e é sério o suficiente para ele ficar internado e monitorado. Não é uma doença por si só: é o efeito do que causou. A parte boa é que a gente consegue medir esse efeito de hora em hora e saber se o tratamento está funcionando antes mesmo de ele se sentir melhor. Se em algumas horas os números não estiverem melhorando, a gente revê o diagnóstico e chama a terapia intensiva.”
Não diga: Está tudo controlado. E também o extremo oposto, descrever a acidose como um quadro de risco iminente para justificar urgência — a acidose não é o diagnóstico, é o termômetro dele.
Passando o caso ao staff ou ao plantonista que assume
“Homem de 62 anos, diabético tipo 2, três dias de vômito e suspensão da medicação. Gasometria com pH 7,33, PaCO2 33 e bicarbonato 17. Winter dá PaCO2 esperada de 31,5 a 35,5, e a medida é 33, então a compensação está adequada e não há distúrbio respiratório associado. Ânion-gap de 31, corrigido para 34,5 pela albumina de 2,6. O delta dá razão de 3,2, acima de 2, então há alcalose metabólica junto — é o vômito. Diagnóstico: cetoacidose diabética com alcalose metabólica associada, e a alcalose está mascarando a gravidade da cetoacidose. Já corri soro e potássio está em 5,4, então mantive KCl em espera e iniciei insulina a 7,8 unidades por hora. Repito gasometria, potássio e cetonemia em duas horas.”
Não diga: Paciente com acidose metabólica, iniciei protocolo de cetoacidose. Passar o rótulo sem passar as contas obriga o staff a refazer tudo — e é a passagem em que o segundo distúrbio se perde. Diga o número, a fórmula e a conclusão, nessa ordem.
Onde bons médicos discordam
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que pesa na hora de decidir para o seu paciente.
Corte de pH abaixo de 6,9, restrito à cetoacidose diabética do adulto — Sociedade Brasileira de Diabetes
A diretriz nacional de diabetes classifica o bicarbonato como classe IIb, nível B, e reserva seu uso a casos graves de adultos com pH abaixo de 6,9, na dose de 50 a 100 mmol diluídos em 200 a 400 mL de solução isotônica. Ela se apoia em ensaios randomizados que não mostraram benefício com pH acima de 6,9: um estudo com 39 pacientes com pH entre 6,83 e 7,08 não encontrou diferença clínica nem no tempo de normalização bioquímica, e outro associou a terapia com bicarbonato a atraso na queda dos corpos cetônicos e do lactato. Em crianças, a diretriz desaconselha francamente.
Sociedade Brasileira de Diabetes. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz SBD, Ed. 2025 (R14, classe IIb, nível B, e Nota 14).
Corte de pH abaixo de 7,15 no paciente gravemente enfermo em geral, com alvo de pH 7,20 — revisão do Jornal Brasileiro de Nefrologia
A revisão publicada no periódico da Sociedade Brasileira de Nefrologia sustenta que, abaixo de 7,15 e apesar de suporte otimizado, o uso criterioso de bicarbonato se justifica, com meta de aproximar o pH de 7,20 e o bicarbonato sérico de 8 a 10 mEq/L. Reconhece que os únicos dois ensaios randomizados prospectivos disponíveis à época mostraram efeito neutro sobre a hemodinâmica, sem medir mortalidade, e faz uma separação que a diretriz de diabetes não precisa fazer por tratar de uma doença só: na acidose de ânion-gap normal o déficit de bicarbonato é verdadeiro e a reposição é reposição; na de ânion-gap alto, o ânion orgânico regenera bicarbonato quando a doença resolve.
Rocha PN. Uso de bicarbonato de sódio na acidose metabólica do paciente gravemente enfermo. Jornal Brasileiro de Nefrologia, 2009.
Bicarbonato não é rotina na CAD; com pH 7,12, tratar volume, insulina, K e precipitante. O consenso de 2024 admite considerar bicarbonato em acidemia grave com pH <7,0, sob vigilância, enquanto protocolos anteriores usavam <6,9. Fora da CAD, indicação depende de causa, gravidade, rim, ventilação e sobrecarga: não se decide apenas por gap alto versus normal ou perdido versus consumido. Acidose metabólica grave com lesão renal importante pode constituir situação selecionada de uso.
Método de Stewart-Fencl-Figge, por explicar o mecanismo causal — Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2006
A crítica é objetiva: a abordagem tradicional descreve o distúrbio mas falha em explicar os mecanismos causais nos extremos, e não distingue se a acidose vem de lactato, de cetoácido ou de hipercloremia. O método físico-químico trata como variáveis independentes a diferença de íons fortes, os ácidos fracos totais (albumina e fosfato) e a PaCO2, e identifica ânions não mensurados que a leitura tradicional deixa passar. Na casuística de pacientes graves do estudo, ânions fortes não mensurados apareceram em 98%, hipercloremia em 80% e lactato elevado em 62% — três achados que se sobrepõem e que a leitura tradicional não separa.
Barbosa MBG, Alves CAD, Queiroz Filho H. Avaliação da acidose metabólica em pacientes graves: método de Stewart-Fencl-Figge versus a abordagem tradicional de Henderson-Hasselbalch. Rev Bras Ter Intensiva, 2006;18(4).
Ânion-gap corrigido como substituto do íon gap forte à beira do leito — Revista Brasileira de Terapia Intensiva, 2013
O estudo brasileiro de coorte em pacientes graves comparou o ânion-gap corrigido para albumina, fosfato e lactato com o íon gap forte, que é o parâmetro do método de Stewart. A correlação foi muito forte, com r² de 0,94 na população geral, mantida nos subgrupos de excesso de base baixo (0,94) e normal (0,92); o ânion-gap não corrigido teve correlação bem inferior, r² de 0,66. A conclusão dos autores é que o gap corrigido pode ser usado como substituto do cálculo do íon gap forte à beira do leito.
Zampieri FG, Park M, Ranzani OT e cols. Ânion gap corrigido para albumina, fosfato e lactato é um bom preditor de íon gap forte em pacientes enfermos graves. Rev Bras Ter Intensiva, 2013;25(3).
Note o que as duas posições brasileiras concordam: a correção pela albumina não é opcional. É ela que carrega quase toda a diferença entre r² de 0,66 e 0,94 — ou seja, quase toda a vantagem atribuída ao método físico-químico se obtém somando 2,5 por grama de albumina faltante. A escolha, na prática do internato, é entre o custo cognitivo e o ganho. Para a enfermaria e o pronto-socorro, os seis passos com o gap corrigido respondem a pergunta que muda conduta hoje: quantos distúrbios existem e de que tipo. O método de Stewart ganha valor quando o caso não fecha depois dos seis passos — acidose persistente sem causa identificada, paciente com múltiplas fontes somadas (lactato mais cloreto mais hipoalbuminemia), ou quando é preciso quantificar quanto da acidose se deve ao fluido que você mesmo infundiu. Nesses casos vale envolver quem domina a ferramenta, em geral a terapia intensiva ou a nefrologia. O critério prático: se o gap corrigido e o delta explicam o quadro e o paciente responde ao tratamento, a leitura tradicional bastou; se não explicam ou o paciente não responde, a insuficiência é do método e é hora de escalar.
O diagnóstico deve se basear na amostra arterial — Évora e Garcia, Medicina (Ribeirão Preto)
A posição é de que, como os distúrbios envolvem mecanismos renais e respiratórios, o diagnóstico deve se basear na gasometria arterial; a amostra venosa não permite a análise da função respiratória e sua coleta está sujeita a erros, e para fins científicos deveria ser colhida na artéria pulmonar, onde o sangue venoso é misto. Os autores reconhecem duas informações práticas obtidas da amostra venosa, ambas ligadas à PaO2 venosa: a comparação com a arterial dá uma ideia do débito cardíaco, e uma diferença arteriovenosa pequena com PaO2 venosa crescente indica agravamento das trocas teciduais. A revisão da Vittalle acompanha, registrando que o sangue arterial é preferível por não ser afetado pelo metabolismo dos tecidos.
Évora PRB, Garcia LV. Equilíbrio ácido-base. Medicina (Ribeirão Preto), 2008;41(3):301-311; e Gomes EB, Pereira HCP, Vittalle 2021;33(1).
pH venoso como critério diagnóstico formal — Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes
A diretriz nacional de diabetes define cetoacidose por glicemia acima de 200 mg/dL, acidose metabólica com pH VENOSO abaixo de 7,3 ou bicarbonato sérico abaixo de 15 mEq/L, e cetonemia igual ou acima de 3 mmol/L, com classificação de gravidade baseada no pH venoso. Ela também orienta confirmação com gasometria venosa na faixa intermediária de cetonemia, entre 1,5 e 3 mmol/L. Ou seja: para a pergunta metabólica, o documento nacional de maior peso na doença mais frequente de acidose de gap alto opera com amostra venosa.
Sociedade Brasileira de Diabetes. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz SBD, Ed. 2025 (R1, R4, e Tabela de classificação de gravidade).
A divergência aparente some quando se separa a pergunta. Se a pergunta é metabólica — tenho acidose, de que tipo, quantos distúrbios —, pH e bicarbonato venosos respondem, e a diretriz nacional de diabetes é a prova de que isso é aceito para diagnóstico e para estadiamento. Se a pergunta envolve oxigenação ou ventilação — este paciente está hipoxêmico, retém gás carbônico, precisa de suporte ventilatório —, só a arterial responde, e nenhuma correlação estatística substitui isso. Traduzindo para a decisão de hoje: paciente jovem com hiperglicemia e vômito, sem desconforto respiratório e sem hipoxemia, pode ser triado por gasometria venosa; paciente com dispneia, saturação limítrofe, rebaixamento ou suspeita de retenção crônica precisa de arterial. Pesa também a disponibilidade e o custo humano: em veia periférica difícil e punção arterial malsucedida duas vezes, a amostra venosa que responde a pergunta agora vale mais que a amostra arterial que virá em uma hora. E, seja qual for a escolha, registre na evolução qual foi — a maior parte do dano vem de ler venosa como arterial, não de ter colhido venosa.
Solução balanceada como alternativa considerada na cetoacidose — Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes
A diretriz nacional classifica o uso de soluções balanceadas como classe IIa, nível A, por corrigirem hipovolemia e hiperosmolaridade e se associarem a resolução mais rápida da cetoacidose comparadas à salina isotônica, com menor risco de acidose hiperclorêmica. Apoia-se em metanálise de ensaios randomizados com risco relativo de 1,46 (IC 95% 1,10 a 1,94) em favor das balanceadas para tempo de resolução. Mantém, ao mesmo tempo, a salina 0,9% a 15 a 20 mL/kg na primeira hora como recomendação classe I, nível B.
Sociedade Brasileira de Diabetes. Diagnóstico e tratamento da cetoacidose diabética. Diretriz SBD, Ed. 2025 (R6, classe I nível B; R7, classe IIa nível A).
Sem diferença de mortalidade em 90 dias no ensaio brasileiro BaSICS
O maior ensaio brasileiro sobre o tema, conduzido em 75 unidades de terapia intensiva com 10.520 pacientes graves que necessitavam de expansão volêmica, não encontrou redução significativa de mortalidade em 90 dias com solução balanceada comparada à salina 0,9%: 26,4% contra 27,2%. O desfecho medido não foi acidose nem cloreto, foi sobrevida — e nesse desfecho as duas soluções se equivaleram na população geral de terapia intensiva.
Zampieri FG, Machado FR e cols. (BaSICS Investigators). Effect of Intravenous Fluid Treatment With a Balanced Solution vs 0.9% Saline Solution on Mortality in Critically Ill Patients: The BaSICS Randomized Clinical Trial. JAMA, 2021.
As duas posições respondem perguntas diferentes, e reconhecer isso resolve a discussão de plantão. O ensaio brasileiro mediu mortalidade numa população ampla de terapia intensiva e não encontrou diferença; a diretriz de diabetes mediu tempo de resolução da cetoacidose e cloreto numa população específica e encontrou vantagem. Nenhum dos dois diz que a salina é danosa em volume pequeno. O que decide para o paciente à sua frente é o volume previsto e a presença de acidose hiperclorêmica já instalada. Expansão pontual de um ou dois litros: a escolha do fluido não é o que muda o desfecho, e a salina 0,9% que está no carrinho serve. Ressuscitação de vários litros, cetoacidose em curso ou acidose de ânion-gap normal com cloreto subindo na gasometria de controle: aí o cloreto é parte do problema, e trocar por solução balanceada é intervenção de baixo custo e baixo risco. Pesa também a disponibilidade: nem todo pronto-socorro tem ringer lactato à mão em quantidade, e adiar a expansão para esperar o fluido melhor é trocar um risco pequeno por um grande. O erro de verdade não é escolher a salina — é continuar infundindo salina depois que a gasometria mostrou que o cloreto virou o problema.
O raciocínio, em voz alta
Volte ao senhor Wilson, maca 7: 62 anos, 78 quilos, diabético tipo 2, três dias de vômito, suspendeu metformina e gliclazida, hoje sonolento e com respiração profunda. Gasometria arterial: pH 7,33; PaCO2 33 mmHg; HCO3 17 mEq/L; excesso de bases −7,8; PaO2 96 mmHg; saturação 97%. Laboratório do mesmo horário: sódio 138, potássio 5,4, cloreto 90, albumina 2,6 g/dL, glicemia 384 mg/dL, cetonemia capilar 4,8 mmol/L, lactato 1,8, creatinina 1,4, ureia 68. Acompanhe o raciocínio passo a passo.
o que eu penso antes de qualquer conta
Diabético, três dias sem medicação, respiração profunda e hálito adocicado — cetoacidose está no topo da lista antes de eu abrir o papel. Mas o vômito de três dias me obriga a manter uma segunda hipótese metabólica em paralelo, porque perder ácido gástrico por três dias produz alcalose metabólica. Duas hipóteses simultâneas é exatamente a situação em que o método existe para não deixar eu ver só uma. Antes de contar qualquer coisa, olho a perfusão: pressão 118 por 74, enchimento capilar de dois segundos, diurese presente. Não é choque, então não disparo o protocolo de sepse e o lactato de 1,8 confirma.
passos 1 e 2 — o pH e o distúrbio primário
pH 7,33: acidemia, embora discreta. Agora, qual parâmetro se moveu no mesmo sentido do pH? O bicarbonato de 17 está abaixo de 22 e puxa o pH para baixo — mesmo sentido. A PaCO2 de 33 está abaixo de 35 e puxa o pH para cima — sentido contrário, portanto é compensação. Primário: acidose metabólica. Guardo a estranheza para depois: um pH de apenas 7,33 num paciente que respira em Kussmaul há horas é pouco. Kussmaul não aparece por um bicarbonato de 17.
passo 3 — a compensação está adequada?
Fórmula de Winter: PaCO2 esperada igual a 1,5 vezes 17, mais 8. Um vírgula cinco vezes dezessete dá 25,5; mais 8 dá 33,5; com margem de 2, a faixa é 31,5 a 35,5 mmHg. A PaCO2 medida é 33, dentro da faixa. Conclusão do passo 3: a compensação respiratória é adequada e NÃO existe distúrbio respiratório associado. Isso também me tranquiliza sobre a musculatura respiratória — ele ainda está conseguindo hiperventilar. Se a PaCO2 estivesse acima de 35,5, eu estaria diante de fadiga, e a conversa seria sobre suporte ventilatório, não sobre insulina.
passos 4 e 5 — o ânion-gap e a albumina
Ânion-gap: 138 menos a soma de 90 e 17. Noventa mais dezessete dá 107; 138 menos 107 dá 31. Já é alto, e alto o suficiente para me fazer parar: um gap de 31 não combina com um bicarbonato de apenas 17. Agora a correção pela albumina, que está em 2,6: some 2,5 vezes a diferença entre 4 e 2,6, ou seja, 2,5 vezes 1,4, que dá 3,5. Gap corrigido: 34,5. A discrepância aumentou. Existe uma carga ácida enorme nesse paciente, e o bicarbonato dele não caiu na proporção.
passo 5 — o delta, e o segundo distúrbio aparece
Quanto o gap subiu acima de 12? Trinta e quatro e meio menos doze dá 22,5. Quanto o bicarbonato caiu abaixo de 24? Vinte e quatro menos dezessete dá 7. Delta-gap: 22,5 menos 7, igual a mais 15,5 — muito acima do corte de mais 6. Delta-ratio: 22,5 dividido por 7, igual a 3,2 — acima de 2,0. As duas leituras dizem a mesma coisa: acidose de ânion-gap alto COM alcalose metabólica associada. O bicarbonato caiu bem menos do que a carga ácida exigiria porque alguma coisa estava repondo bicarbonato em paralelo. Três dias de vômito é essa coisa, e o cloreto de 90, baixo, confirma. Aqui está a resposta para a estranheza do passo 2: o Kussmaul é proporcional à carga ácida real, não ao bicarbonato do papel.
passo 6 — a causa de cada distúrbio
Distúrbio 1, acidose metabólica de ânion-gap alto: glicemia de 384 acima de 200, cetonemia capilar de 4,8 acima de 3, pH abaixo de 7,3 — os três critérios da diretriz da SBD. É cetoacidose diabética. Lactato de 1,8 exclui componente lático relevante, creatinina de 1,4 não explica um gap de 34, e não há história de ingestão de álcool ou de qualquer tóxico. Distúrbio 2, alcalose metabólica: vômito de três dias com hipocloremia de 90 — perda gastrintestinal de ácido, o mecanismo mais comum da lista. Diagnóstico completo escrito na evolução: cetoacidose diabética com alcalose metabólica associada por vômitos, com a alcalose mascarando a gravidade da cetoacidose.
o que isso muda na prescrição de agora
Primeiro, a classificação: se eu tivesse estadiado pelo bicarbonato de 17, chamaria de cetoacidose leve e trataria com menos vigilância. A análise do delta sugere distúrbio misto e evita falsa tranquilização, mas não mede sozinha a gravidade da CAD. Defino vigilância pelo conjunto clínico, cetonemia, pH, eletrólitos e estado mental. Segundo, o volume: soro fisiológico 0,9% 15 a 20 mL por quilo na primeira hora, ou seja, 1.170 a 1.560 mL em 78 quilos — e como o sódio corrigido pela glicemia dá 142,5, longe de 150, não há indicação de salina 0,45%. Terceiro, o potássio: 5,4 está acima de 5,0, então NÃO inicio cloreto de potássio agora, e redoso em duas horas, porque ele vai cair quando a insulina começar. Quarto, a insulina: como o potássio está acima de 3,5, posso iniciar — regular em infusão contínua a 0,1 unidade por quilo por hora, o que dá 7,8 unidades por hora, sem bolus. Quinto, o bicarbonato: o pH é 7,33, muito acima de 7,0, sem indicação de bicarbonato neste caso — não prescrevo. Sexto, o vômito: antiemético e correção do cloreto virão com o próprio soro fisiológico, e a alcalose se resolve sozinha quando ele parar de vomitar. Sétimo, a causa do vômito: pedi o que faltava para procurar o fator precipitante, porque três dias de vômito em diabético não é diagnóstico, é sintoma.
Faça você
Agora é o leito 9. Dona Marisa, 71 anos, portadora de doença pulmonar obstrutiva crônica, internada há cinco dias por descompensação, em uso de furosemida 40 mg por dia desde a admissão e recebendo oxigênio por cateter nasal a 5 L/min desde ontem à noite, quando a saturação caiu no monitor. Hoje pela manhã está mais sonolenta, responde a chamado mas volta a dormir, e a enfermagem descreve tremor fino nas mãos. Gasometria arterial: pH 7,36; PaCO2 78 mmHg; HCO3 43 mEq/L; excesso de bases +16,8; PaO2 118 mmHg; saturação 99%. Laboratório: sódio 140, potássio 3,1, cloreto 88, albumina 3,4 g/dL, creatinina 0,9, lactato 1,1.
passos 1 e 2 — o pH e o distúrbio primário
pH 7,36 está dentro da faixa normal, e é exatamente por isso que o exame não pode ser encerrado aqui. A PaCO2 de 78 e o bicarbonato de 43 são valores muito distantes do normal em sentidos que se anulam — a assinatura do distúrbio misto. O primário é a acidose respiratória: a PaCO2 alta é o processo, e o bicarbonato alto é a resposta renal.
aguda ou crônica
HCO3 e excesso de bases altos sugerem componente crônico e/ou alcalose metabólica, mas não provam há quanto tempo a PaCO2 chegou a 78. Alcalose por diurético pode mascarar agudização hipercápnica; comparar gases prévios, medicações e evolução da sonolência.
passo 3 — a compensação bate?
Fórmula do bicarbonato esperado na acidose respiratória crônica: 24 mais 0,4 vezes a diferença entre 78 e 40. A diferença é 38; 0,4 vezes 38 dá 15,2; mais 24 dá 39,2. Com margem de 2, a faixa esperada é 37,2 a 41,2 mEq/L. O bicarbonato medido é 43 — acima do teto. A compensação renal não explica todo esse bicarbonato. Existe um segundo distúrbio primário: alcalose metabólica. E o cloreto de 88 com potássio de 3,1 aponta a causa direto — cinco dias de furosemida.
passos 4 e 5 — o ânion-gap
AG = 140 − (88 + 43) = 9; corrigido por albumina 3,4, soma 1,5 e chega a 10,5. Não há evidência de acúmulo importante de ânions não medidos por essa conta; isso e lactato 1,1 não excluem todas as acidoses metabólicas. O conjunto favorece hipercapnia com alcalose metabólica associada, exigindo avaliação da deterioração atual e excesso de oxigênio.
conduta
— sua vez —
Ver como fecharíamos
Sonolência nova com PaCO2 78 exige avaliação imediata de ventilação e proteção da via aérea, mesmo com pH 7,36. A alcalose metabólica pode mascarar agudização respiratória; não excluir necessidade de suporte apenas por ausência de acidemia. Comparar gasometria prévia, observar trabalho respiratório, excluir sedativos/hipoglicemia e avaliar causas associadas. Titular oxigênio para 88–92% neste contexto de risco hipercápnico, sem retirá-lo abruptamente nem tolerar hipoxemia. O excesso pode piorar PaCO2 sobretudo por relação V/Q e efeito Haldane, além do componente ventilatório. Reavaliar clínica continuamente e repetir gasometria em intervalo curto, frequentemente 30–60 minutos ou antes se piorar. Rever furosemida e volemia; repor K e cloreto conforme déficit. Salina é apropriada se houver depleção de volume, mas não automática em congestão. Acetazolamida pode ser considerada em cenários selecionados, corrigindo K e avaliando rim, sem promessa de melhorar desfechos ventilatórios. Se há falência ventilatória, a escolha de VNI ou intubação depende de consciência, proteção da via aérea, secreções, cooperação e resposta imediata. Um teste de VNI em encefalopatia hipercápnica requer ambiente monitorizado e equipe pronta para escalada; não aguardar duas horas diante de deterioração. Bicarbonato não está indicado para tratar essa hipercapnia com alcalose associada. O objetivo é melhorar paciente e ventilação, e não normalizar isoladamente PaCO2 ou pH.
No adulto, o consenso internacional de 2024 define CAD por diabetes prévio ou glicose ≥200 mg/dL, cetose (preferencialmente beta-hidroxibutirato ≥3 mmol/L) e acidose com pH <7,3 e/ou HCO3 <18 mEq/L. Pode haver CAD euglicêmica, particularmente com SGLT2. Organizar volume, eletrólitos, insulina e tratamento do precipitante em paralelo, respeitando o K antes da insulina. Amostra venosa costuma bastar para pH/bicarbonato na avaliação metabólica; valores não são idênticos aos arteriais. Oxigenação é questão separada, avaliada inicialmente por oximetria e, quando indicado, gasometria arterial. PaO2 não entra no AG. Não insistir em punção arterial apenas para confirmar CAD quando a pergunta metabólica já pode ser respondida.
Teste-se
Cada uma é um ponto de bifurcação: o que você faz agora. O comentário abre a cada decisão ou só no fim — você escolhe.
Plano de revisão
Em 7 dias
Refaça Winter, AG corrigido e delta dos casos, explicando o que cada conta mostra e o que não pode provar.
Em 30 dias
Reavalie Marisa com pH normal e sonolência nova: organize ventilação, oxigênio, K/cloreto, volemia e controle próximo.
Agora atenda
Agora atenda: mulher de 47 anos chega ao pronto-socorro com fraqueza progressiva e diarreia líquida há seis dias, sem febre, tomando apenas soro caseiro. Está taquipneica, com mucosas secas e pressão de 96 por 58. A gasometria mostra pH 7,22, PaCO2 25 mmHg e bicarbonato 10 mEq/L; o laboratório traz sódio 137, potássio 2,8, cloreto 115 e albumina 3,8. Conduza o atendimento do começo: rode os seis passos, escreva o diagnóstico acidobásico completo, decida se há indicação de bicarbonato e justifique, e defina o que reavaliar e em quanto tempo.
